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A rua, à rua, bem no meio da rua 

Há quem critique o uso do “à” com os verbos morar, residir, situar, localizar etc.. E o 
faz  com  alguma  razão.  Além  disso,  encontra  em  Napoleão  Mendes  de  Almeida 
respaldo.    E,  em  certa  medida,  no  Houaiss:  se  se  observarem  as  entradas  desses 
verbos, os exemplos sempre trazem a preposição em.  

Há  uma  série  de  gramáticos  que  defendem  o  uso  do  em  em  vez  do  a,  mas  há  outra 
imensa lista que defende o contrário. Há até um ou outro que defende o uso apenas 
do a, e sobre esses cabe uma palavrinha.  

O  argumento  principal  é  o  de  que  “morar  à  rua”  é  “morar  junto  da  rua”,  enquanto 
“morar na rua” é “morar no meio da rua”. Não é bem assim.  

É  claro  que  a  mudança  das  preposições  implica,  muita  vez,  alteração  de  sentido. 
Criança de rua e criança na rua são duas coisas diferentes. Estar de cama e estar na 
cama também.   

Entretanto,  no  caso  do  em/a,  o  sentido  é  muito  pouco  modificado  –  se  realmente  o 
for. A tradição exige em. Indica lugar, não é mesmo? Napoleão (é... estava demorando) 
traz uma explicação (como sempre) curiosa e pautada em analogias (em seu Dicionário 
de Questões Vernáculas):  

“Se ‘morar na rua Tal’ significa ‘morar no meio da rua’, não poderá
ninguém, por coerência com essa pândega [sic!] doutrina, construir:
‘Tenho escritório no largo da Concórdia’, ‘Tal livraria fica na praça da
Sé’, ‘Fulano mora na avenida Paulista’. Imaginem-se estas criações
parisienses: Tenho escritório ‘ao’ largo da Concórdia, moro ‘à’ avenida
Copacabana, tal livraria fica ‘à’ praça da Sé, não existe farmácia ‘a’ esta
rua.” (s.u.).

Em  contrapartida,  o  Dicionário  de  Verbos  e  Regimes,  de  Francisco  Fernandes,  cita 
Silveira  Bueno:  “E  tomamos  a  resolução  e  jamais  dizer  que  a  frase corrente:  RESIDO  À 
RUA TAL, seja galicismo. ” (s.u., grifo nosso). 

O comentário de Bueno coincide com o de Napoleão sobre o galicismo. Na origem, a 
construção  é,  sim,  um  “francesismo”,  e  permanece,  mais  frequentemente,  na 
linguagem jurídica ou técnica. Dificilmente se ouve “moro à rua” no dia a dia. E é uma 
construção análoga à famosa “àquela hora, estava em sua casa”.   

Embora ainda restem defensores do em, pobrezinho do em, fica a impressão de que 
aquilo  que  foi  galicismo  hoje  está  incorporado.  E  é  bem  comum.  No  fim  das  contas, 
mora à rua quem quer. 

Tenho  certeza  de  que  o  Prof.  Mané,  do  Intergraus,  resolveria  a  questão  com  seu 
famoso “pode, mas tá errado”. Enfim... Pode usar o à? Pode, mas não deve. E se usar? 
Tudo  bem,  não  está  errado  —  há  uma  dezena de  especialistas  que  defendem  o  uso.  
Alguém pode torcer o nariz, mas... fazer o quê? É feio, mas tá na moda.