Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) - Introdução às ciências sociais Docente: Olga Magano

1. A ruptura com o senso comum

Para Myrdal (1976), a essência das ciências sociais é a procura da verdade objectiva. O cientista procura atingir o "realismo" que significa uma visão objectiva da realidade. Uns dos problemas com que o cientista se depara é como determinar o que é a objectividade e quais as formas para atingir essa objectividade quando se analisam os factos e as relações causais entre esses factos. Como se libertar de noções normativas herdadas e das influências do meio social e cultural, económico e político da sociedade em que vive, onde trabalha e ganha o rendimento necessário para que tenha uma determinada posição social e da influência que deriva da sua própria personalidade, cujas particularidades não decorrem apenas das tradições e do meio em que vive, mas também da sua história pessoal? (Myrdal, 1976). Os meios lógicos para nos protegermos destas distorções e influências é definir claramente as valorações que efectivamente determinam as nossas concepções teóricas e as nossas investigações práticas, analisá-las do ponto de vista da sua relevância, significado e efeito na sociedade que se estuda, transformá-las em premissas de valor específicas e determinar a perspectiva de análise e os conceitos utilizados em termo do conjunto formado pelas premissas de valor que foram explicitamente definidas. Na medida em que a ciência não é mais do que o senso comum altamente sofisticado, o autor entende que se pode começar a análise por tentar caracterizar a maneira como as pessoas vulgares na nossa sociedade concebem o mundo em que vivem (Myrdal, 1976). No nosso tipo de sociedade a generalidade das pessoas procuram ter comportamentos racionais e encontrar razões que os levam a conceber de determinada forma e a reagir de um determinado modo à realidade que os rodeia. Há dois tipos de concepções que os indivíduos elaboram sobre a realidade, na sua forma pura são crenças ou valorações. Nas opiniões, as crenças e as valorações estão Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) - Introdução às ciências sociais 1
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combinadas embora não exista uma linha rígida e clara nos processos mentais entre estes dois tipos de concepções, no entanto, é importante distingui-los: um tem características intelectuais e cognitivas e o outro é emocional e volitivo. As crenças exprimem as nossas ideias sobre como a realidade é ou foi enquanto que as valorações exprimem as nossas ideias sobre como a realidade deveria ser ou deveria ter sido. As crenças de cada indivíduo procuram atingir o estatuto de conhecimento. Assumem também uma característica de totalidade por ser possível estabelecer uma análise comparativa, objectiva, das crenças em relação a conhecimentos elaborados, determinando-se as insuficiências ou distorções em relação a esses conhecimentos mais rigorosos. Contudo, na medida em que as valorações são definidas por indivíduos ou grupos, são, tal como as crenças, uma parte da realidade e, portanto, também susceptíveis de constituírem objectos de investigação. Dificuldades básicas são as valorações de cada indivíduo variarem de situação para situação, chegando mesmo a ser contraditório entre si. Na base do comportamento de cada indivíduo não está um conjunto homogéneo de valorações mas sim uma combinação complexa de inclinações, de interesses e de ideias em conflito. Alguns elementos desta combinação complexa são conscientes enquanto que outros são mantidos numa zona não consciente durante longos períodos, mas todos eles contribuem para definir as formas específicas do comportamento de cada indivíduo. As distorções conduzem a percepções falsas da realidade e a conclusões erradas e limitam decisivamente a capacidade das ciências sociais para eliminar crenças populares falsas e enviesadas (Myrdal, 1976: 48). A única forma de conseguirmos atingir a "objectividade" na actividade teórica consiste em expor claramente as valorações, tornálas consistentes, bem definidas e explícitas, permitindo que os seus efeitos condicionem a nossa investigação mas de uma forma clara. É necessária uma explicitação clara das premissas de valor para que a análise possa atingir o estatuto de "objectivo" (Myrdal, 1976: 55).

Para fazer a ruptura com o senso comum é necessário relativizar, relacionar e fazer análise científica das concepções de senso comum. Sendo as ideologias e os saberes práticos formas de racionalização do mundo e de o classificar, isto é, instrumentos de coesão e tensão social, todas as disciplinas científicas estão sujeitas à influência de elementos simbólico-ideológicos.
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mais recentes. não possuem ainda. as ciências sociais. os contextos sócio-históricos e as coordenadas de tempo e lugar são determinantes. a baixo preço. inclusivamente o senso comum.Pode-se dizer que a atitude problematizadora da ciência e os princípios da pesquisa social constituem os elementos da superação do senso comum: a relativização dos fenómenos humanos. para este autores. com a insistência no carácter construído do conhecimento. e na imprescindibilidade da ruptura com os “obstáculos epistemológicos” – veio dar um novo apoio às prevenções durkheimianas. Destaca-se pelo seu contributo para a formação de um novo espírito científico em ruptura com o senso comum com a superação dos obstáculos epistemológicos. Tornou-se. à influência daquele. na descontinuidade racional entre ciências e saber corrente. a partir de então. códigos e instrumentos exclusivos. empiricamente verificáveis e questionar e problematizar todos os conhecimentos adquiridos. de sociologias ou economias “espontâneas” – e aos sistemas de atitudes e acções ligados às condições sociais objectivas – que obrigam à produção. em geral. como já vimos. as ideologias e a própria ciência. por vezes em circunstâncias dramáticas com o senso comum. há uma espécie de ilusão de transparência proporcionada pela familiaridade do social que autoriza a produção. De acordo com Silva e Pinto (1986). Ao passo que a física ou a astronomia romperam já há alguns séculos. a qualquer preço. em grande parte.Introdução às ciências sociais 3 Olga Magano – Universidade Aberta 1 . integrá-los em sistemas de relações recíprocas. como mais facilmente explicável pelo seu carácter mais familiar do que o universo físico ou outro conhecimento mais distante da vida quotidiana de cada um. As disciplinas sociais são especialmente permeáveis às interpretações de senso comum. de sociologias ou economias “espontâneas” – representam os mais poderosos obstáculos à análise científica. De facto. construindo uma linguagem conceptual e processos de demonstração específicos que as imunizam. filósofo e ensaísta francês. actualizando-as. aos olhos da maior parte das pessoas. Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . a realidade social surge. após a epistemologia de Gaston Bachelard1. a relacionação dos factos. A ruptura nunca será completa nem unitária mas a separação dos domínios da ciência e do senso comum são talvez condições da própria investigação científica. frequente sublinhá-las. Gaston Bachelard (1884-1962). Depois.

em termos de psicologia genética). No quadro de uma tal concepção construtivista e interaccionista. portanto. a educação familiar e escolar. os mecanismos de “equilibração”. a experiência adquirida pela acção sobre os objectos. em psicologia. considerava que este se devia a quatro ordens de factores: a maturação do sistema nervoso. Silva e Pinto sugerem que se aborde como ilustração. Jean Piaget. 1986: 30). argumentos de tipo naturalista e individualista: a carreira escolar teria a ver com inteligência e as “capacidades” de cada aluno. e a inteligência seria um “dote “. metassocial” – seja esta a vontade divina. como se sabe. a considerar que a inteligência está para lá do objecto possível da análise social – deve-se às suas funções simbólico-ideológicas. Paris. visto que carecem de qualquer fundamentação científica. o principal estudioso do desenvolvimento intelectual. nomeadamente. a força de tais interpretações – que tendem. “As correcções correntes combinam. o espírito humano.“Eles estão por detrás dessa “resistência profunda” que provém. Ora. os factores sociais – a linguagem. a nossa natureza biológica. A regra metodológica de Durkheim – explicar o social pelo social . Desde logo. decerto. acção dos “grandes homens”. 1986: 30) Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . 2 Alain Touraine. psicólogos sociais têm desenvolvido pesquisa sobre o papel causal desempenhado pela interacção social. o sentido da história.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 4 . 1974. “da nossa ligação à crença de que os factos sociais são comandados por uma ordem superior. pp 13-14 (referência no texto de Silva e Pinto. se a entendermos precisamente como afirmação de que não há elementos metassociais que possam dar cientificamente conta dos factos sociais” (Silva e Pinto. a motivação individual. a sua relação com o sucesso escolar. a interacção e a cooperação grupal. a “auto-regulação”.constituiu ainda um princípio-chave para a superação de tais obstáculos. postos em prática pelas crianças (Piaget fala. Seuil. Pour la Sociologie. um problema em relação ao qual são claras a eficácia e a necessidade – em termos de racionalização dos comportamentos e da conversão das probabilidades objectivas de sucesso em esperança subjectivas – das interpretações de senso comum: o problema da génese e desenvolvimento diferencial da inteligência e. nas palavras de Alain Tourraine2. um “dom natural” (muitas vezes imputado apenas à hereditariedade).

que se trata de uma causalidade não unidireccional. das família e meios respectivos.U. e ainda seguindo Silva e Pinto (1986: 47). portanto. Neste quadro. Na maior parte das vezes o que acontece é que a actividade etnocentrista é uma actividade legitimadora. e a instituição escolar. o estudo aprofundado e relacional dos estudantes. partindo para uma análise que o considera como resultante de uma relação negativa entre alunos. precoce. portadores de diversas condições sócio-culturais. da escola e do sistema de ensino em geral. ao nível do senso comum. no pressuposto de que o que vale a pena conhecer e. das práticas educativas. na ostentação imediata da superioridade social ou rácica – mas. um instrumento decisivo da luta simbólica entre “A interacção permite ao indivíduo dominar certas coordenações que lhe permitem então participar em interacções mais elaboradas que por seu turno se tornam fonte de desenvolvimento cognitivo para o indivíduo” – Willem Doise. aliás. ainda que muitas vezes inconsciente. são os factos e as ideias interiores à nossa própria área cultural. diferentes. acaba por funcionar como uma espécie de inibidor ou de obstáculo para uma maior abertura a novos conhecimentos. Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Ou seja. um factor de identificação do grupo. cumulativo (…) e as fortes correlações entre insucesso e origem social.Introdução às ciências sociais 5 Olga Magano – Universidade Aberta 3 . do domínio – afirmação no plano do conhecimento e da representação simbólica. a partir das perspectivas. e que psicólogos. L’Explication en Psycologie. psicólogos sociais e sociólogos (e também historiadores ou economistas) enriquecem.sustentado. ao “nós” que é nosso. a propensão para o etnocentrismo constitui. do “nós” um vector de legitimação da dominação. O seu núcleo não está. em rigor. que caracterizam as suas disciplinas” (Silva e Pinto. 63-64 (nota do texto de Silva e Pinto. mas “curricular e progredindo em espiral3. o que serve de padrão único para o conhecimento dos outros. constitui uma abordagem central – incomensuravelmente distante porque qualitativamente distinta das interpretações correntes de senso comum. evidentemente. Paris. pp. mais subtilmente. 1986: 43).. na operação de fechamento do que é cognoscível.F. P. 1982. 1986:43). Há muitas vezes a tendência para o fechamento de oportunidades de conhecimento quando se considera que o nosso conhecimento é o “bom” e absoluto conhecimento. De facto. das suas personalidades e histórias pessoais. (…) A isto se acrescenta a investigação em sociologia da educação que mostra à evidência as regularidades que pautam o insucesso escolar (fenómeno massivo constante.

Os três são indissociáveis e a construção teórica. Para Silva e Pinto (1986:51) isso não é possível pelo facto de que as ciências contêm sempre elementos ideológicos mais ou menos explícitos. e aí radica precisamente a sua eficácia. invalidáveis pela análise científica – preconceitos de toda a espécie. Ora. das teorias explicativas. do objecto de análise. que se toma por absolutas. poderá sugerir-se que o etnocentrismo – essa resistência a assumir que a relação entre “nós” e os “outros” contêm dois pólos igualmente dinâmicos. de sexo. antes. representa um obstáculo no qual constantemente tropeçam os cientistas sociais: até porque tem por si a ilusão da transparência do que nos é familiar. Do mesmo modo que os processos de verificação dependem das teorias que verificam. do que é “nosso”. as pessoas e os objectos. quer dizer. que o progresso científico se encarregaria de eliminar e em relação às quais os especialistas pudessem estabelecer fronteiras intransponíveis – são. com as “evidências” de senso comum que possam constituir obstáculos àquele processo. No entanto. de raça. a problematização e a teorização – que a suporta. se quisermos falar em paradigmas – articulando os três termos numa só unidade de princípios.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 6 . a “verificação”. É assim que na perspectiva de Silva e Pinto (1986: 52) chegamos ao nó principal da questão: “Na linha de Gaston Bachelard. desempenha nesta relação um papel central. Ou então. Finalmente. estará na sua base. formas de racionalização do mundo. da validade dessas teorias pelo seu teste. a forma tipicamente etnocentrista de pensar por preconceitos – por ideiasfeitas. de civilização. conceitos. a construção.a ruptura. indiscutíveis. de classe. repousam sobre certas pressuposições de valor. instrumentos de coesão e de tensão social. pelo confronto com informação empírica.grupos. a ruptura vale o que vale a construção – quer dizer. de religião. perspectivas. esse fechamento do “nós” sobre si próprio – para lá de estar intimamente articulado com os postulados de índole naturalista e individualista (o que é claro). o processo de ruptura com as evidências do senso comum não significa que se trate de uma superação “absoluta”. Ideologias e saberes práticos não são teorias pré-científicas. formas de classificar os factos. modelos teóricos e resultados empíricos cruciais – Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . constitutivo da nossa identidade de grupo. distinguimos no processo de produção de conhecimentos científicos três “actos epistemológicos” . de profissão.

uma produção axial consiste na relativização dos fenómenos humanos. que há correlações estreitas entre o nível de instrução dos pais e a frequência dos museus pelos filhos constitui um ponto de partida indispensável para a história e a sociologia da arte (aliás. e só podem ser analisados nas coordenadas de tempo e de lugar e nos contextos sócio-históricos em que se integram – a relativização inerente à abordagem científica invalida. Os factos sociais só podem ser explicados por sistemas de relação entre eles – a análise produtiva é. os pressupostos naturalistas e etnocentristas. pode submetê-las aos seus próprios mecanismos de controlo. Ao mostrar que estes não podem ser imputados a qualquer absoluto. quer por saber prático. a relacionalização dos factos constitui uma outra operação decisiva. representa a própria essência do seu trabalho. que também ela contribui para a superação dos argumentos de senso comum invocados. portanto. um passo indispensável para a ruptura: é porque é capaz de pôr sistematicamente em causa os conhecimentos adquiridos. não podem ser explicados por propriedades universais. Em terceiro lugar. e permite situar o nosso trabalho bem para lá deles. Perceber que as regras de parentesco melanésias são radicalmente diversas das dos portugueses contemporâneos. representa um ponto de partida indispensável para. à produção de conhecimentos científicos sobre o social. é bom não esquecê-lo. que a ciência é capaz Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . nomeadamente dos de tipo individualista. quer mesmo por investigação científica – é porque o questionar. (…) Em primeiro lugar. relações empiricamente testáveis) entre fenómenos que estuda. quando mostrou que as taxas de suicídio eram diferentes segundo a situação familiar e a confissão religiosa). Tal constitui. Perceber. Em segundo lugar. por sua vez. a história e a sociologia da família. uma das condições cruciais para a superação das concepções do senso comum e ideológicas deriva precisamente do facto de que a pesquisa social pode torná-las objecto da sua própria análise – quer dizer. e que estas. quer por vinculação doutrinária. diferem das dominantes na Alta Idade Média.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 7 . por exemplo. a que estabelece correlações (ou seja. foi este o principal alcance da revolução conduzida por Durkheim. do ponto de vista desse paradigma. desde logo. o problematizar.diremos que cada paradigma teórico rompe (ou não rompe) a seu modo com prénoções de senso comum e os operadores ideológicos que obstem. por exemplo.

A construção do conhecimento científico Todas as ciências se orientam por um conjunto de regras e procedimentos estabelecidos sobre a forma de um método científico. Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . A sua única defesa consiste em definir as valorizações que poderão condicionar as suas concepções teóricas e investigações práticas. significado e efeito no objecto de estudo. e parte desse pressuposto para tentar atingir o "realismo". O cientista debate-se com as seguintes questões: como libertar-se da influência de trabalhos anteriores.de continuamente romper. ou seja. com as noções que não se adeqúem às suas regras” (Silva e Pinto. As questões metodológicas colocam-se na definição do que é a objectividade e das formas de atingir essa objectividade na análise dos factos e das suas relações causais. formada em contacto com as tradições de um meio social específico e que condicionam a sua história pessoal e inclinações particulares? Tudo isto tem como pano de fundo a interrogação de como pode o cientista ser objectivo e eficaz na compreensão da realidade e não na sua transformação. uma visão objectiva da realidade. político e social da sociedade em que vive. Pelo método científico aplicado no processo de investigação procura-se garantir o rigor dos resultados observados. analisando a sua relevância. na procura da verdade. A procura da verdade objectiva é a essência da ciência social. Esta perspectiva de rigor metodológico deve existir desde a colocação das hipóteses de trabalho ao decorrer de todo o processo de investigação. O cientista social acredita que a verdade existe. pelo meio social e pela sua personalidade. económico.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 8 . ou seja. O cientista é influenciado. adaptando a perspectiva de análise segundo essas premissas. no seu domínio. 2. como libertar-se das influências do meio cultural. fundamentados em noções normativas e teológicas. como anular a influência da sua subjectividade própria. baseadas em opções metafísicas – filosofia da lei natural e utilitarismo. de como pode atingir a “verdade” colocando de parte as suas inclinações morais e políticas. 1986: 52).

Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 9 . que usa a mesma linguagem de base de que se socorre a ciência e que tem uma opinião e julga conhecer o que a ciência se propõe conhecer. ou seja. Por um lado. desde que seja devidamente justificado e relativizado. Como diz Piaget. a construção e a constatação e verificação. esses actos aplicam-se por igual nas ciências naturais e nas ciências sociais. uma das tarefas essenciais é a identificação dos obstáculos epistemológicos e progredir no sentido de fazer a ruptura com o senso comum. 1990: 33). A ciência constrói-se. tal como a psicologia. é possível a coexistência dos dois tipos de conhecimento. A premissa de Santos é a de que: “(…) em ciência nada é dado. Daí que no campo das ciências sociais. É.No caso das ciências sociais. formas de conhecimento falso com que é preciso romper para que se torne possível o conhecimento científico. a «sociologia espontânea». para se construir. tem de romper com estas evidências e com o «código de leitura» do real que elas constituem. nas palavras de Sedas Nunes. um pensamento necessariamente conservador e fixista. a «experiência imediata». tendo em conta que o investigador é também parte integrante dessa realidade social. São. A ciência. O «senso comum». contudo. porque as ciências sociais têm por objecto real um objecto que fala. tudo se constrói. (…) O senso comum é um «conhecimento» evidente que pensa o que existe tal como existe e cuja função é reconciliar a todo o custo a consciência comum consigo própria. De acordo com Gaston Bachelard a “ciência não se opõe absolutamente à opinião” (citado por Santos. o «conhecimento vulgar». A natureza fluida e inconsistente da realidade social dificulta a aplicação directa e uniformizada do método científico à análise do social. tudo isto são opiniões. pois. por isso. Porque essenciais a qualquer prática científica. pois. «de Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . e no sentido de assegurar a objectividade. tem. tem «o triste privilégio de tratar de matérias de que todos se julgam competentes» (1976:24). de aplicação mais difícil nestas últimas. a sociologia. o objecto de estudo é a realidade social. racional e válido. dispõe de três actos epistemológicos fundamentais: a ruptura. contra o senso comum e. Uma das questões essenciais neste processo é a necessidade de diferenciar o processo de estudo científico sobre a realidade social e a própria realidade social.

inventar um novo ‘código’ – o que significa que. Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . que. o decurso da ciência normal não é feito só de êxitos.Introdução às ciências sociais 10 Olga Magano – Universidade Aberta 4 . nem sempre no melhor sentido (por exemplo as sucessivas reformulações do conceito de paradigma) (Santos. O efeito cumulativo deste processo pode ser tal que a certa altura se entre numa fase de crise. em meu entender. Na sua teoria central. A sua justificação reside em factores psicológicos e sociológicos e sobretudo na comunidade científica enquanto sistema de organização do trabalho científico. Kuhn chama a atenção para o facto de que o conhecimento não cresce de modo cumulativo e contínuo. 1990: 150). 1990: 150). 1990:33-34) Este universo de conceitos e das relações que se estabelecem entre eles é o que se designa por paradigmas. o paradigma existente começa a revelar-se como a fonte última dos problemas e das incongruências. Incapaz de lhe dar solução. segundo Santos (1990). recusando e contestando o mundo dos ‘objectos’ do senso comum (ou da ideologia). que por cada problema resolvido ou que por cada incongruência eliminada outros surjam em maior número e de maior complexidade ou de impossível solução. por sua vez.30)” (Santos. esse crescimento é descontínuo e opera por saltos qualitativos. No entanto. ou seja: todo um corpo de novos ‘objectos’. se tal fosse o caso. não eram possíveis as inovações profundas que têm tido lugar ao longo do desenvolvimento científico. exposta em especial na obra intitulada The Structure of Scientific Revolutions publicada pela primeira vez em 19624 . Khun alterou sucessivamente a sua teoria em aspectos mais ou menos marginais e. não se podem justificar em função de critérios internos de validação de conhecimento científico. No seguimento da discussão com os seus críticos. tem de constituir um novo ‘universo conceptual’. Os saltos qualitativos têm lugar nos períodos de desenvolvimento da ciência em que são postos em causa e substituídos os princípios básicos em que se funda a ciência até então produzida e que constituem o que Khun chama de «paradigma»” (Santos. assenta menos na sua originalidade do que no seu esforço de síntese e na sua capacidade para dar fôlego polémico a ideais já presentes nas obras de outros autores. pois.é que o conhecimento não cresce de modo cumulativo e contínuo. e o universo científico que lhe A importância de Khun. todo um sistema de novos conceitos e de relações entre conceitos» (1972. Ao cientista «normal» pode suceder que o problema de que se ocupa não só não tenha solução no âmbito das regras em vigor como tal facto não possa ser amputado à interpretação ou inépcia do investigador. Ao contrário. além disso. Esta experiência pode em certo momento ser partilhada por outros cientistas e pode suceder. Mas.

e por conseguinte os problemas a resolver. Mas a substituição do paradigma não é rápida. 1990: 152). É para essas áreas que se orienta a ciência normal. O diálogo entre os cientistas pende para o monólogo na proporção da incomensurabilidade dos paradigmas em confronto. entretanto delineado. Mais ou menos tempo será necessário para o novo paradigma se impor. 1990: 152). Embora de forma lenta. vão-se tornando cada vez mais específicos e complexos (Santos. Uma vez que cada um dos paradigmas estabelece as relações de cientificidade do conhecimento produzido no seu âmbito. a teoria científica não constitui um conjunto de conceitos rígidos e imutáveis. Ainda segundo Boaventura de Sousa Santos. Da fase da ciência revolucionária passa-se de novo à fase da ciência normal e. Este processo vai-se reproduzindo de forma continuada dando lugar ao aparecimento de novos conceitos e de novos paradigmas. Uma vez feita a ruptura epistemológica (o autor entende que o acto epistemologicamente mais importante é a ruptura com a ruptura epistemológica). ele passa a ser aceite (quase) sem discussão e as gerações futuras de cientistas são treinadas para acreditar que o novo paradigma resolveu definitivamente os problemas fundamentais. uma vez imposto. é nesta base que se vai impondo à comunidade científica. acompanham o desenvolvimento da ciência. O período de crise revolucionário em que o “velho” e o “novo” paradigma se defrontam e entram em concorrência pode ser bastante longo. De início existem vastas áreas em que a aplicabilidade do novo paradigma é apenas assumida sem ainda ter feito qualquer prova nesse sentido. ao trabalho científico subparadigmático. ou seja.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 11 . triviais ou insuficientes pelos defensores do velho paradigma. os objectos de estudo. O novo paradigma. é importante a realização de uma dupla ruptura.corresponde converte-se a pouco e pouco num complexo sistema de erros onde nada pode ser pensado correctamente. Posteriormente. as provas cruciais aduzidas em favor do novo paradigma podem facilmente ser consideradas ridículas. deixou de ter sentido criar um conhecimento novo e autónomo em confronto com o senso comum (primeira ruptura) se esse conhecimento não se destinar a transformar o senso Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . portanto. Neste momento já outro paradigma se desenha muito provavelmente no horizonte científico e o processo em que ele surge e se impõe constitui a revolução científica que se faz ao serviço deste objectivo é a cedência revolucionária (Santos. mas. redefine os problemas e as incongruências até então insolúveis e dá-lhes uma solução convincente.

a unidade da prática social é a classe. O contexto da produção constitui as relações do processo de trabalho. o mecanismo de poder é o patriarcado. tanto as relações de produção ao nível da empresa (entre produtores directos e os que se apropriam da mais-valia por estes produzida). para o autor. O contexto doméstico constituiu as relações sociais (os direitos e os deveres mútuos) entre os membros da família. no entanto. o mecanismo de poder é Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Os quatro contextos não são os únicos existentes na sociedade.comum e a transformar-se nele (segundo ruptura) (Santos. o contexto da cidadania e o contexto da mundialidade. Ou seja.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 12 . a forma de direito e o modo de racionalidade. a forma de juridicidade é o direito doméstico e o modo de racionalidade é a maximização do afecto. Neste contexto. Neste contexto. os únicos contextos estruturais. a unidade da prática social é a nação. O contexto em que é produzido e aplicado o conhecimento nas sociedades capitalistas distingue-se em quatro contextos estruturais do conhecimento: o contexto doméstico. Neste contexto. a forma institucional. Para Santos (1990) todo o conhecimento é contextual. a unidade da prática social é o indivíduo. Cada contexto é um espaço e uma rede de relações dotadas de uma marca específica de intersubjectividade que lhes é conferida pelas características dos vários elementos que o constituem. a forma de juridicidade é o direito territorial e o modo de racionalidade é a maximização da lealdade. o mecanismo do poder. o contexto da produção. a forma institucional é a fábrica ou a empresa. a forma de juridicidade é o direito da produção e o modo da racionalidade é a maximização do lucro. 1990: 168). O contexto de cidadania constituiu as relações sociais da esfera pública entre cidadãos e o Estado. o mecanismo de poder é a dominação. são. porque as relações sociais que eles constituem determinam todos os demais que se estabelecem na sociedade. o mecanismo de poder é a exploração. o conhecimento resultante da ruptura epistemológica deve ser incorporado no conhecimento de senso comum. a forma institucional é o casamento e o parentesco. Neste contexto. Por último o contexto de mundialidade constitui as relações sociais entre estados nacionais na medida em que eles integram o sistema mundial. nomeadamente entre o homem e a mulher e entre ambos (ou qualquer deles) e os filhos. a forma institucional é o Estado. Esses elementos são: a unidade da prática social. a forma institucional são as agências e os acordos internacionais. a unidade de prática social é a família. como as relações na produção entre trabalhadores e entre estes e todos os que controlam o processo de trabalho.

apenas uma. da produção. o ser se indivíduo. o poder estatal. Actuam assim na sociedade várias formas de poder. Por isso o conflito é normalmente vivido como consentimento relutante. irrelevante ou vazia. “Vivemos. esquecer princípios e Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . pois. Todos nós somos configurações humanas em que se articulam e se interpenetram os nossos quatro seres práticos: o ser da família. Em geral. pública e nacional. a exploração. (…) O senso comum inclui a aceitação não problemática das condições que são responsáveis pelo fechamento do sentido e a restrição da comunidade. o sentido da nossa presença no mundo e. amortizar diferenças. em quatro quotidianidades: a doméstica. em realidade a nossa prática está embebida em quatro sensos comuns. de um senso comum. do que é de todos e a todos envolve como dever ou direito. tudo dependendo da forma e grau como é aceite e partilhado esse desequilíbrio. uma configuração de sentidos. as comunidades familiar. Ainda que se possa falar. uma aptidão notável para negociar sentidos. E como cada um destes seres. a violência. assim. como proximidade indiferente ou intimidade rotineira. ancorado em cada um das práticas básicas. encenar presenças. como repressão tão-só dos excessos. o silenciamento. a forma de juridicidade é o direito sistémico e o modo da racionalidade é a maximização da eficácia (Santos. dramatizar enredos. a dominação e a troca desigual. o ser de classe. como dor ou prazer. 1990:173). a da cidadania e a da mundialidade. O desequilíbrio do poder em cada contexto não produz necessariamente violência ou silenciamento. da nossa acção em sociedade é. de facto. é produto-produtor de sentido. reservado ou fatalista. a da produção. o ser de nação. a nível muito abstracto. As várias comunidades de saber têm.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 13 . a prática quotidiana tende a ampliar o âmbito e a medida do que é consentido e partilhado. como ónus ou recompensa.a troca desigual. como comunicação desinteressante. A cada uma destas comunidades pertence uma forma específica de interacção comunicativa. portanto. e não. A tensão latente ou manifesta que constitui a nossa quotidianidade ocorre de modo diferente em cada um dos contextos estruturais em função do mecanismo de poder específico que subjaz a cada um deles: o patriarcado. como quer Habermas. produtos-produtores de quatro comunidades de saber. deslocar limites. como de resto tenho vindo a fazer. o estranhamento.

um corpo social relativamente autónomo. Mas a comunidade científica. em que se cruzam determinações de alguns dos contextos estruturais: do contexto da produção. assim. nas relações científicas e de trabalho entre homens cientistas e mulheres cientistas). do contexto da mundialidade. mas esse poder não existe no estado puro. na medida em que a ciência é pertença mais ou menos exclusiva do Estado e é produzida em muitos países por um corpo de funcionários do estado. tem uma outra Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . nos intercâmbios científicos internacionais entre cientistas do «primeiro mundo» e cientistas do «terceiro mundo»). de necessidades técnicas e de princípios sem fim. a troca desigual (por exemplo. na medida em que a investigação está hoje organizada como um lugar de trabalho e cada vez mais de trabalho empresarial. a comunidade científica.. etc. etc. segundo as áreas científicas. A comunidade científica é. enquanto processo de trabalho). o mecanismo de poder específico da comunidade científica é a própria qualidade do conhecimento que nela se produz. Sem comunidade científica separada não há conhecimento científico autónomo. os vínculos institucionais. como qualquer outro contexto profissionalizado e separado. nas relações dentro do laboratório. em cada país. A comunidade científica. a dominação (por exemplo. os sistemas organizativos da investigação. a exploração (por exemplo. enquanto comunidade de saber. é heterogénea e complexa. Para dar um exemplo dessa complexidade. porque sujeita a várias determinações estruturais. na medida em que a produção e a aplicação do conhecimento científico é um dos ingredientes principais das relações entre nações e de troca desigual que os caracteriza. é um poder saber por excelência. ainda que as determinações de uma e de outro sejam diferentes e estejam sujeitas a lógicas distintas. Mas a comunidade científica. do contexto da cidadania. a forma social organizada da primeira ruptura epistemológica.lembrar contingências.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 14 . no modo como o Estado define a política científica e distribui os recursos de investigação) e. uma vez que nele convergem outros mecanismos de poder: o patriarcado (por exemplo. é nisso que reside a sua dimensão utópica e emancipadora num mundo moderno saturado de demonstrações científicas. é um sistema aberto às determinações dos quatro contextos estruturais. inclusivamente. O conhecimento científico é produzido num contexto específico. diverge de país para país e.

1 A função de comando da teoria Gaston Bachelard (2006 [1938]) assume o propósito de mostrar o destino do pensamento científico abstracto. no interior dos quatro contextos estruturais onde se situam também os objectos empíricos que estiveram na «origem» desse conhecimento. nomeadamente. As soluções científicas não se encontram todas no mesmo estágio de maturação . recontextualizado. e a nação é objecto e objectivo de todos eles quando se trata de produzir ou transformar. depois de produzido. Este autor descreve o trajecto que vai da percepção considerada exacta até à abstracção da razão no âmbito da evolução científica. políticos e técnicos de opinião pública.característica específica. XVII e XVIII. etc. O Estado é objecto e objectivo de todos eles e também de cientistas. no caso da esterilização forçada das mulheres do terceiro mundo) a posição de um dão país no sistema mundial” (Santos. Dado o desenvolvimento social dos discursos de que fala Foucault5. Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Destina-se a ser aplicado fora da comunidade científica no interior de vários contextos sociais. biólogos. 2. centrando a sua análise sobretudo em instituições repressivas. 3) Desde 1905 com o início do novo espírito científico potenciado com a teoria da relatividade de Michel Foucault (1926-1984). mas também do contexto doméstico. A família é. sociólogos e técnicos de marketing. depois. e. por exemplo. 1990: 176-179). filósofo francês que se propôs elaborar uma história do pensamento desenvolvido em 3 eixos fundamentais: saber. químicos. poder e si. 2) Estado científico seria o período entre o fim do século XVIII até início do século XX.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 5 15 . ao nível dos contextos anteriores (sobretudo da produção e da cidadania. objecto e objectivo de psicólogos. se destina a ser contextualizado e. a fábrica é objecto e objectivo de todos eles e também de físicos. assim. É um conhecimento que é produzido a partir de objectos empíricos que se situam fora da comunidade científica e que. o conhecimento científico produzido pela comunidade científica só em escassa medida é para consumo interno.Bachelard distingue três períodos de maturação: 1) Estado pré-científico que compreenderia tanto a antiguidade clássica como os séculos do Renascimento e de novas base com os séculos XVI. tendo em consideração que o processo de abstracção não consiste num processo uniforme pelo facto de ser confrontado com obstáculos. programadores.

é um obstáculo à espiritualização (Bachelard.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 16 . é por motivos diversos daqueles que dão origem à opinião. destruindo conhecimentos mal estabelecidos. A ciência. nomeadamente o objectivo de retraçar a luta contra alguns preconceitos. Para confirmar cientificamente a verdade. não cria leis. mostrar a coerência de um pluralismo inicial. Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo é preciso. opõe-se absolutamente como opinião. não poderá ser. traduz necessidades em conhecimentos”. efectivamente verificada. não pensa. 2006 [1938]: 17). quando o conjunto de argumentos fica estabelecido o acto de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior. ela impede-os de conhecer. O real nunca é «o que se poderia achar» mas é sempre o que se deveria ter pensado. é preciso destrui-la.Einstein a partir da qual se colocam em causa em causa conceitos que eram considerados fixos até então. superando o que. A experiência comum não é construída. a partir do ponto de vista do autor. A experiência científica é uma experiência que contradiz a experiência comum. Permanece um facto. no próprio espírito. A noção de obstáculo epistemológico assenta numa perspectiva em que o conhecimento do real é uma luz que projecta sempre algumas sombras. sobre questões que não sabemos formular com Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Se. tanto pela sua necessidade de coroamento como por princípio. Ao designarmos os objectos pela utilidade. 2006 [1938]: 19). A partir desta época começam a ser feitas propostas de abstracção mais audaciosas. e é surpreendente que a antiga epistemologia tenha estabelecido um vínculo contínuo entre a observação e a experimentação ao passo que a experimentação se deve afastar das condições usuais de observação como a experiência comum não é construída. Falta-lhe precisamente esta perspectiva de erros rectificados que caracteriza. assim. desenvolve-se no reino das palavras e das definições. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado. ela legitima a opção. Pensar a experiência é. Nunca é imediato e pleno. é preciso confrontá-la com vários e diferentes pontos de vista. O autor defende que “a opinião pensa mal. O pensamento empírico torna-se claro depois. sobre uma determinada perspectiva. As revelações do real são recorrentes. A experiência imediata e usual guarda sempre uma espécie de carácter tautológico. O espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre uma questão que não compreendemos. o pensamento científico (Bachelard. quando muito é feita de observações justapostas.

Nada é evidente. Para o espírito científico.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 17 . Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Tudo é construído. O obstáculo é também uma experiencia vivida. Em primeiro lugar. é preciso saber formular problemas que não se formulam de forma espontânea. nada é gratuito. não pode haver conhecimento científico. O esquema que de seguida apresentamos representa este processo de construção. É este sentido de problema que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Se não há pergunta. todo o conhecimento é uma resposta a uma pergunta. em ciência.clareza.

Esquema extraído de José Madureira Pinto (1994: 102) (Pinto.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 18 . 1994) Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) .

1986: 55) Num esforço de sensibilizar para o papel da teoria no processo de pesquisa empírica e na demonstração científica em geral. Numa fase de contacto exploratório com a colectividade. Mas o avanço nesta direcção só é possível com o contributo de outro elemento da prática: a teoria (ou seja. No entanto. proposta por Almeida e Pinto: munido de uma formação básica de ciências sociais suponha que tinha de estudar fenómenos de mudança social numa colectividade pertencente ao espaço periurbano de uma área fortemente industrializada (Almeida e Pinto. da entrevista. este inquérito exploratório brevemente denotará os seus limites – os depoimentos dos autóctones frequentemente apoiam-se em operadores simbólico-ideológicos. O “mistério” em causa só se poderá solucionar se tivermos podido construir. da análise de conteúdo.a teoria é o ponto de partida adequado. se tornasse uma fase do trabalho científico cada vez mais sistemática e racionalmente controlada. no caso. É o comando de um “código de leitura” da Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Supondo que. identificados como obstáculo epistemológico a uma “explicação do social pelo social”. directa ou indirectamente ao real (Almeida e Pinto. imagine a seguinte situação. a elevada preparação de terreno agro-florestal sugere que a agricultura ainda é uma actividade económica preponderante. a atenção dirigir-se-á necessariamente ao conjunto de manifestação das actividades aí desenvolvidas. a partir de coordenadas intelectuais tão explicitadas quanto possível. referidos. isto é. contribuiu para que o processo de observação sociológica em sentido amplo. um conjunto estruturado de interrogações e de hipóteses devidamente especificadas sobre o lugar. Produção sem produtores? O recurso a alguns depoimentos da colectividade pode fornecer alguns elementos para a solução do enigma ao revelar.O desenvolvimento de procedimentos padronizados de recolha de informação sobre o real. 1986: 56). função e transferência da agricultura e do espaço social rural nas sociedades industrializadas . a matriz teórica). como explicar que a grande extensão de campos trabalhados não tenha correspondência visível (de trabalhadores e equipamentos?).Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 19 . como por exemplo as técnicas do inquérito por questionário. em boa medida “invisível”. nomeadamente que o crescimento de um pólo industrial vizinho em termos de oportunidade de emprego para a população local foi fazer da agricultura cada vez mais uma actividade económica complementar de fim-de-semana. entendida como conjunto organizado de conceitos e relações entre conceitos substantivos.

sendo embora orientada pelo quadro teórico prévio de referência revela a necessidade de ajustar. em forma definitiva. O papel de comando da teoria na pesquisa empírica pode não controlar racionalmente todas as componentes do ciclo de observação/demonstração empírica. migrações de substituição. Não pode querer significar que a análise de situação concretas se circunscreva necessariamente no interior de um círculo traçado de antemão. pelo conjunto de hipóteses pertinentes incluídas na matriz teórica da disciplina. O recurso a esse conhecimento pré-existente é insubstituível se quisermos perceber as dinâmicas de mudança social na colectividade em causa. especificar ou mesmo reformular este último de modo a torná-lo um guia de observação mais preciso e eficaz. Se ao longo da pesquisa pudermos dispor de um conjunto de hipóteses teóricas sobre o modo como o “exército industrial de reserva” se articula no espaço nacional. A questão assume aqui uma particular complexidade pelo facto de a maior parte das técnicas de observação recorrerem a parte de depoimentos dos agentes sociais acerca das suas próprias condições de existência. ficaremos em condições de integrar produtivamente na análise certos indícios. Em termos de pesquisa empírica.realidade que em anteriores processos de investigação se tenha revelado capaz de transcender os limites de percepções correntes. o recurso a conhecimento obtido sobre situações similares às observadas. envolvendo uma interpretação sobre a especificidade dos processos migratórios observados em regiões peri-urbanas e respectivas funções no quadro das sociedades industrializadas. Os processos de recolha de informação são eles próprios processos sociais que colocam com acuidade as questões epistemológicas do observador/observado (Almeida e Pinto. a observação em grande escala dos fluxos migratórios numa colectividade pode impor uma revisão de tipologias de mobilidade geográfica (por exemplo. Assim. ou seja. Regressando ao exemplo anterior. a teoria é um ponto de partida insubstituível e o elemento que comanda os seus momentos e opções fundamentais. com um “exército agrícola de recurso”.). etc. conceitos de êxodo rural.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 20 . migrações sazonais. Mas é indispensável integrar outros conhecimentos / complementares (teorias auxiliares) à teoria principal – acerca de Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . A recolha de informação sobre a situação concreta é sempre única e condensa uma infinidade de determinações. 1986: 58). a sua relação com a estrutura de classes camponesas. indicado aos núcleos problemáticos cruciais a investigar e um modo plausível de os equacionar.

às sanções e censuras impostas.1 Teorias e paradigmas nas ciências A actividade científica constitui um processo social específico. 1986: 58). às técnicas sociais de camuflagem e de apresentação de si.2. Desse modo. definidor de um campo gerador de múltiplos e crescentes efeitos. através da regularidade com que surgem Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . por exemplo. em sociedades de interconhecimento. deixa-se ver. pela interacção linguística em situações como a pesquisa. implica a sua superação por novos elementos conceptuais e novos procedimentos de pesquisa. Proximidades instrumentais. 2. Afirmar-lhe a identidade passa pelo constante aperfeiçoamento das teorias e dos métodos disponíveis e. à construção mítico-ideológica de valores e interditos sociais.2 Construção e verificação de teorias: problemas e controvérsias Os diversos grupos sociais. só à luz das teorias auxiliares podemos esboçar respostas adequadas (Almeida e Pinto. não deixam de pensar sobre as sociedades de que fazem parte.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 21 . às atribuições de sentido especializado Nem sempre são positivos os efeitos de um trabalho de demarcação já que ele tem conduzido a uma fragmentação artificial das ciências sociais o que tem vindo a ser compensado pela procura de complementaridade e interdisciplinaridade. 1986: 60). proximidade de objectos. efeitos de familiaridade. 2.processos sociais tão distantes da agricultura local como os que dizem respeito ao mundo socialmente determinado de aceder aos instrumentos de racionalização da prática social. em sobreposição com o trabalho de investigação que aos mesmos objectos se dirige. etc. Imposição devida à especificidade dos objectos das ciências sociais e determinações sociais complexas (Almeida e Pinto. tendo por objecto as condições sociais e teóricas como um sistema mutável de limites e potencialidades em que se inscrevem forçosamente as decisões individuais dos investigadores. em certos casos. da epistemologia e da sociologia da prática científica. contribuem para tornar necessário esse constante esforço de marcação do corpo das ciências sociais em relação ao senso comum. alheios ao campo científico. A importância da história. para os autores.

orientação e significado. de um modo mais geral. do questionamento a certas dimensões da realidade. a unidade e a integração do processo de pesquisa. elas podem produzir efeitos heurísticos próprios que não se traduzem em regras coercivas para a prática científica. então os exorcismos da ruptura devem deixar de ser exercícios de uma lógica abstracta. As ciências são em cada momento um conjunto de resultados. as posições racionalistas vêm afirmar. obstáculos e limites defrontados. pela interrogação sobre determinados aspectos da realidade social. como dizia Bachelard. factores exteriores interferentes e sentido em que se exercem. A ruptura é condição lógica inicial do trabalho científico. 1986: 61). A forma e os protocolos da pergunta hão-de condicionar as respostas que se obtém. por referência a esse objecto. Elas avaliam oportunidades empíricas e o seu grau de aproveitamento real. Admitindo que observar supõe necessariamente a categorização do que é observado. constrói-lhe as potencialidades explicativas e define-lhe os limites. Ao analisarem retrospectivamente mutações nas racionalidades teóricas e processuais.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 22 . mas renova-se e prolonga-se às outras duas fases que a epistemologia de Bachelard propõe: a construção e a verificação (Almeida e Pinto. O primeiro momento é o da interrogação. orientando-se o vector epistemológico. mas nem por isso deixam de fornecer referências e orientações. para se efectivarem na crítica de todos os níveis e de todos os momentos da pesquisa que tome os processos sociais como horizonte analítico. As reconstruções objectivadas da actividade científica são assim muito mais do que a descrição factual estrita de acontecimentos relevantes. Mas o caminho que a tais produtos vai conduzindo tem de ser concebido como uma prática social. Nos percursos de diversos níveis da sua especificação ela produz e integra os chamados enunciados observacionais.simultaneamente certas descobertas em campos científicos de alta comunicabilidade internacional. Se o conhecimento se opera em constante superação de outros conhecimentos. À teoria é conferido o papel de comando do conjunto de trabalho científico. do racional para o real. ou Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . confere à investigação. dá consistência à rede de relações que se estabelece em todo o processo. A construção da teoria é fomentada pela colocação de perguntas. que se traduz em articular-lhe os diversos momentos: ela define o objecto de análise.

define e acolhe problemas de investigação. No entanto. iluminam novos problemas. o que fosse positivamente demonstrado pela articulação de factos repetidamente observados com os enunciados abstractos da teoria. apenas pode funcionar como limite e orientação operatória. levando ao aperfeiçoamento do processo de operacionalização e produção de efeitos acumulativos de conhecimentos integráveis na disponibilidade teórica da matriz. “heurísticas” que se aperfeiçoam. Podem surgir outras pistas metodológicas e outros desenvolvimentos. As matrizes disciplinares. enquanto codificação provisória dos caminhos críticos de pesquisa (Almeida e Pinto. pelo menos. no campo científico. evidências empíricas a que a investigação conduz são por ela antecipadas ou. A explicação objectiva resultaria da aplicação dedutiva das leis e das teorias a novas situações observacionais singulares.2. O que os processos de pesquisa produzem são aproximações cognitivas aos horizontes empíricos de que se ocupam. corrigir ou ampliar as formulações originais. “paradigmas” ou “programas de investigação” não constituem sistemas fechados. Essa problemática. bem como em instrumentos técnicos de recolha e tratamento de informações organizadas pelos métodos. Mesmo sendo certo que cada matriz contém um núcleo duro de hipóteses e modelos de pesquisa que a define e que resiste com tenacidade às tentativas de refutação e às “anomalias” encontradas no percurso das suas aplicações. ponto de partida.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 23 . Os meios de as obter residem em todo o conjunto de disponibilidades conceptuais substantivas – as teorias em sentido estrito – que a disciplina foi forjando. em cada momento das pesquisas das pesquisas que se efectivam. 2. Cada formação científica propõe um conjunto articulado de questões – a sua problemática teórica – que delimita zonas de visibilidade. nem por isso ela deixa de conter zonas de disponibilidade.3 O problema da verificação O justificacionismo afirmava só ser científico o que pudesse ser provado. A categoria verdade. A visibilidade permitida pela problemática e pelas hipóteses pode fazer com que surjam imprevistos que pode levar a especificar. para os quais buscam respostas. 1986: 63). que sugerem novas perguntas.seja. uma vez que a Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . desembocam em novas soluções. já Popper mostrara ser impossível provar positivamente qualquer teoria. susceptíveis de acolhimento no âmbito do questionamento formulado. criações ou combinações técnicas.

Este não se restringe à sua instância social. Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) . Porto. A formação do espírito científico. Dicionário de Sociologia. pois só deste modo o objecto de estudo em questão poderá ser compreendido e explicado na sua globalidade e complexidade intrínsecas (Maia.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 24 . demográfico. Metologia das ciências sociais. embora privilegiando cada uma. M. As diferentes ciências sociais analisam as mesmas realidades. Lisboa.).S. A objectividade nas ciências sociais. 2002). (eds. Porto Editora. portanto. Porto. para melhor explicar os fenómenos sociais na sua totalidade. ideológico. Assírio & Alvim. MYRDAL. R. A. O real social é pluridimensional. o devemos considerar na sua multiplicidade de aspectos e procurar várias perspectivas de análise que possam contribuir para uma melhor compreensão do fenómeno.generalização se faz forçosamente a partir de observações em número limitado (Almeida e Pinto. (ed. etc. susceptível de ser abordado de diferentes maneiras pelas diversas ciências sociais. J. uma perspectiva própria de análise.). MAIA. 55-78 BACHELARD. A interdisciplinaridade nas ciências sociais significa o intercâmbio de saberes com vista à complementaridade do conhecimento. G. (1976). As várias facetas dos fenómenos sociais remetem para um intercâmbio entre as várias disciplinas que mantêm entre si múltiplas relações de interdependência. Temos. político. os mesmos fenómenos sociais totais. J. 1986). in Silva. poderá ter implicações de vária ordem aos níveis: económico. ALMEIDA. Problemas metodológicos gerais'.L. (2002). O conceito de fenómeno social total significa que ao pretendermos estudar um determinado fenómeno social. por isso. as maneiras do abordar. 'Da teoria à investigação empírica. e PINTO. J. (1986). Este intercâmbio entre disciplinas leva a que as investigações realizadas numa disciplina possam ser fundamentais para outra. as dimensões a privilegiar é que variam consoante os interesses que orientam e a partir dos quais se situa o investigador em ciências sociais. Edições Afrontamento. (2006 [1938]). com a específica abordagem da realidade social. R. Lisboa Dinalivro. L. 'Dicionário de Sociologia'.M. G. que o social é único. O conhecimento dos fenómenos sociais só se constrói mediante a complementaridade de perspectivas.ePinto. F. É precisamente a mesma realidade social que vai interessar às diversas ciências sociais. in Maia.

A. J. Porto.). J. SILVA. Porto. Edições Afrontamento. (1986). SANTOS. A.ePinto.Introdução às ciências sociais Olga Magano – Universidade Aberta 25 . J. Metodologia das ciências sociais.PINTO. Biblioteca Ciências do Homem.S. Porto. Propostas para o ensino das ciências sociais.M. Edições Afrontamento. Edições Afrontamento. S. B. Introdução a uma ciência pós-moderna. S. (1990). (1994). e PINTO. in Silva. (eds. M. 'Uma visão global sobre as ciências sociais'. M. 9-27 Texto de apoio 2 – Unidade curricular (41036) .

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