ANTROPOLOGIA I

1. O CONTEXTO GERAL DA ANTROPOLOGIA SOCIAL E CULTURAL
Antropologia – Ciência que estuda o homem e a humanidade, abrangendo todas as suas dimensões Sociedade – Conjunto de individuos de ambos os sexos e de todas as idades, agregados de forma mais ou menos permanente e submetidos a um tipo de civilização comum. • Guy Rocher – “uma sociedade é uma multiplicidade de interacções de sujeitos humanos que compõe o tecido fundamental e elementar da sociedade, conferindo-lhe ao mesmo tempo experiência e vida”. SOCIEDADE É COMPOSTA POR: Grupos sociais – Conjunto de pessoas pertencentes a uma mesma sociedade, que se relacionam com a finalidade de alcançarem objectivos comuns • Grupos informais – Número de indivíduos reunidos em determinado local, com uma finalidade individual aleatória e provisória. Não estão inseridos no grupo social • Grupos domésticos – Pequenas sociedades formadas por um número reduzido de individuos, vivendo num território por eles apropriado e obedecendo a um certo número de regras e unidos por laços de parentesco. • Grupos Primários ou Elementares – Grupos pequenos e restritos com relações íntimas, e essenciais para o desenvolvimento e socialização do indivíduo (ex.: família) Henry Mendras – “são aqueles que se caracterizam pela associação e colaboração íntima de homem a homem. São Primários sobretudo no sentido em que são fundamentais para formar a natureza e os ideais sociais do indivíduo”. Para Henry Mendras, “grupo elementar” é equivalente a “grupo primário” (Henry Mendras) – “as colectividades das várias aldeias, representam assim sistemas sociais dotados de subsistemas próprios, interrelacionando-se no seio de um super-sistema englobante, neste caso o país” PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS QUE REGULAM A VIDA SOCIAL 1. Parentesco – Princípio activo que regula todas as relações sociais ou a maior parte delas Evans-Pritchard – “Se deseja viver com os Nuers, deverá fazê-lo à maneira deles; deverá tratá-los como uma espécie de parentes e eles tratá-lo-ão como uma espécie de parentes. Direitos, privilégios, obrigações, tudo é determinado pela parentesco.” 2. Sexo – Divide a sociedade em 2 grupos no domínio da procriação, mas também no domínio político, partilha de tarefas, etc 3. Idade – Todos os povos distinguem as etapas da evolução, mas fazem-no de forma diferente, atribuindo-lhes valores diferentes A ANTROPOLOGIA SOCIAL E CULTURAL NO CONTEXTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS •

Antropologia social – Ciência que estuda as formas e modos de organização social imanentes à sua condição humana, apoiada numa metodologia de terreno que a distingue das demais ciências sociais. Contemporaneidade das sociedades actuais: Corresponde ao estudo lado-a-lado da Antropologia Social + o campo científico histórico, por forma a compreender como funciona

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Célia Silva

é necessário renunciar a fazer história no estudo das culturas no presente.. o menor elemento. sem correr o risco de invalidar a fiabilidade da informação PAPEL DA ANTROPOLOGIA EM PORTUGAL 2 Célia Silva . descrição exaustiva e prova) Ideia de que as experiências etnológicas representam um mero ponto de vista pessoal (representação social – descrição do antropólogo baseado no que observou e segundo a sua interpretação e experiência pessoal). precisão. pareceu muitas vezes encurralar uma e outra” • Franz Boas – “ . DIFICULDADES DOS ANTROPÓLOGOS • • • • • • • Heterogeneidade dos campos de pesquisa Escasso financiamento para estadas longa duração no terreno Pouca aptidão pessoal para se integrar no grupo observado Desconforto das condições físicas Fraca formação em sociologia (impede-os de orientar as investigações nas formas e modos de organização social e de as firmar na antropologia social) Fraca visibilidade da antropologia na sociedade – fraca vocaçao literaria (pouco rigor. o observado e o descrito e. tenha tendência de perder alguma intensidade informativa. é. por vezes. põe entre parênteses a história de uma determinada sociedade para melhor se concentrar na actualidade da sua organização social • Claude Lévi-Strauss – “pretender reconstruir um passado do qual se é impotente para atingir a história. drama da etnologia num caso. e privilegiar uma análise sincrónica das relações entre os seus respectivos elementos. necessariamente. para a própria humanidade. O antropólogo na maioria das vezes. • • Sociedades sem escrita – Antropólogos têm como missão cobrir o maior campo de conhecimento possivel em relação a todos os aspectos da sociedade em causa. Ex: Convenção de Haia de 1954 – estipula que os crimes contra o património cultural. Todos eles são importantes e. embora o relato etnográfco da realidade dada a observar. que cortam com o passado e devem.ciência que estuda os factos e documentos e da Etnografia – Método utilizado para a recolha de dados. Sociedades de língua escrita (sociedades ocidentais) – Tem havido trocas de influências benéficas entre a antropologia social e outras especialidades (geografia. etc) Antropologia europeista – A distância metedológica artificial entre o observador e o objecto observado. O antropólogo coloca. de lado a história de uma comunidade. o dilema ao qual o seu desenvolvimento. arqueologia. da etnografia noutro. por vezes. Existem rupturas históricas.. ou querer fazer a história de um presente sem história. por forma a melhor entender o seu presente (problemas da Etnologia . ser compreendidas no presente.ANTROPOLOGIA I uma sociedade no presente sem ter que se basear no seu passado. em qualquer dos casos. através do contacto entre o antropólogo e o seu objecto). nunca poderá pressupor o inexistente . a experiência de terreno tem de ser a mediação entre o real. Sendo assim. são também crimes contra a Humanidade. no decorrer dos últimos 50 anos. resulta fundamentalmente da distância social entre os dois termos.” Peso do panorama histórico – Não é possível excluir do processo cultural histórico de um país.

Pressupõe o estudo das relações entre o património genétivo humano e o meio geográfico social. A ANTROPOLOGIA UMA CIÊNCIA INTEGRANTE CINCO CAMPOS DE ESTUDO – esclarece o lugar da Antropologia num conjunto científico mais vasto • • • • • Antropologia biológica Antropologia Pré-histórica Antropologia psicológica Antropologia linguística Antropologia Social e Cultural No plano da interdisciplinaridade (integração simultânea de vários saberes) o fio condutor da especialidade faz sempre iminentemente falta.ANTROPOLOGIA I • É dado mais valor à Sociologia pois é considerada mais adaptada à compreensão das sociedades modernas. exóticos e sem interesse. é vista como uma ciência que estuda assuntos bizarros. representa um desafio da maior complexidade imaginável. ou “selvagem”. Estas sociedades eram concebidas como muito próximas do estado natural. aos quais não pretendem obviamente nem a especialização nem a interdisciplinaridade ANTROPOLOGIA BIOLÓGICA – Estudo das variações dos caractéres biológicos do Homem no espaço e no tempo. O vasto panorama das organizações sociais. Os antropólogos dedicavam-se particularmente ao estudo de sociedades sem escrita e sem maquinismo (primitivas – concepção errada dos autores Evolucionistas do séc. DIFERERENÇA ENTRE ANTROPOLOGIA E SOCIOLOGIA • ANTROPOLOGIA – Estuda o homem no que se refere às suas relações com a cultura. os costumes e a organização política. especialmente a religião. correspondente ao domínio dos estudos dos antropólogos. 2. no que diz respeito ao seu comportamento. pelo contrário. Conclusão: O campo de estudo dos antropólogos. . Estuda o indivíduo ou pequenos grupos VS • SOCIOLOGIA – Procura entender como se dão os processos de estruturação e relacionamento dos indivíduos com a sociedade e como essas estruturas influenciam os grupos ou indivíduos. (espécie de amostra do estado pelo que teria passado a sociedade europeia).antiga Antropologia Física ** 3 Célia Silva . A Antropologia. XIX). revela-se sempre do domínio da complexidade social e cultural contemporânea. A interdisciplinaridade não deve ser uma panaceia (remédio) para a ausência de especialização (compreensão de fenómenos profundos) O conhecimento não tem limites. Antropologia Social e cultural: Uma especialidade que recorre constantemente à integração de diferentes saberes. e sem complexidade histórica.

correspondia ao estudo das sociedades sem escrita. produções culturais e artísticas e organizações sociais Antropologia pré-histórica – O antropólogo pré-historiador. Estuda a existência do Homem num passado muito remoto. recolhe o material de investigação em escavações feitas no solo Etno-história – O etno-historiador. trabalha directamente com o tempo da oralidade local. ou a etno-história. conjuga o tempo antropológico e o tempo histórico naquilo que é estritamente necessário para a compreensão do presente. Os antropólogos têm por vocação trabalhar em contextos sócio-culturais orais.ANTROPOLOGIA I Toma em consideração os factores culturais que influenciam o crescimento e o conjunto de transformações ou fases sucessivas pelas quais passam os indíviduos desde a sua concepção biológica até à maturidade • Participa no debate sobre o derivado do Inato e o dependente do Adquirido • Desajuste entre parentesco biológico e parentesco social Inseminação artificial (mulher estéril recorre a outra) Insiminação artificial (homem estéril recorre a banco de esperma) Casamentos consaguíneos (consente casamento entre primos direitos e proibe entre meios irmãos) Os três exemplos demonstram que não é necessária a existência de uma relação de consanguinidade real para que se constitua e afirme uma relação de parentesco. O método etno-histórico corresponderia à aplicação das regras da crítica histórica aos elementos ainda vivos na memória dos indivíduos” Têm pontos em comum com o antropólogo (trabalha no terreno onde recolhe factos relacionados com a contemporaneidade sócio-cultural num contexto de oralidade – conjuga o tempo da oralidade com o tempo do historiador ou do pré-historiador) Arqueologia: Seria possível fazer intervir a arqueologia na medida em que os vestígios e as ruínas encontrada no subsolo são um contributo que. Conclusão: A antropologia histórica. ao qual não existem documentos escritos. Para os investigadores a diferença entre a Oralidade e a Escrita é: • Oralidade: pressupões o contacto pessoal entre indivíduos 4 Célia Silva . Na sua origem. ANTROPOLOGIA LINGUISTICA – Linguística é a ciência que estuda a linguagem como parte integrante do património cultural de uma sociedade. Leroi-Gouhran – “a etno-história é a história com os seus métodos aplicáveis a qualquer terreno de tradição escrita. ANTROPOLOGIA HISTÓRICA . se podem combinar com a história escrita e as tradições orais • • Leroi-Gouhran: A arqueologia só poderá figurar no seio da etno-história nos casos em que as conexões com as tradições escritas permitem fixar um nome étnico às fontes (identificação do povo em causa). Tem por finalidade a reconstituição de sociedades desaparecidas nos seus diferentes aspectos • • • Interessa-se pelas técnicas. tal como a escrita.Corresponde a um vasto programa de investigação sobre o passado das sociedades desaparecidas e das actuais (Pré-História e Etno-História). A oralidade é uma técnica de comunicação. em certos casos. como finalidade antropológica e não histórica. transpostos para um fundo de tradições orais.

os modos de produção económica. Adobe Acrobat Document 3. a transmissão dos saberes. Tal resulta da actividade social dos individuos (não podem ser elementos independentes uns dos outros). inicialmente. Era inicialmente conhecida como “Ciência da Classificação das Raças” (Antropologia Física) e designava o conjunto de ciências sociais que estudam as sociedades tidas como primitivas e o homem fóssil. à posteriori. ANTROPOLOGIA PSICOLÓGICA – Domínio do estudo dos mecanismos do psiquismo humano na sua interacção com a permanência social O presente domínio define o encontro entre a Antropologia e a psicologia no que corresponde à necessidade de compreensão da subjectividade que preside à acção dos indivíduos em sociedade. etc. O PROJECTO DA ANTROPOLOGIA SOCIAL E CULTURAL ETNOLOGIA OU ANTROPOLOGIA? • Etnologia – Estudo das etnias no sentido das diferenças culturais entre povos. sinónimo de antropologia física Contudo. o simbólico. as artes. cristalizadas nas nomenclaturas dos termos de parentesco reconstituir as sagas genealógicas que permitem retraçar as histórias familiares e identificar as categorias parentais operatórias O estudo da língua na forma oral (locais sem correspondência escrita) é o único meio obrigatório que o investigador tem para aceder à sociedade e à cultura em observação. A etnologia passou a ser usada nas licenciaturas e a antropologia social nas investigações 5 Célia Silva . o sistema jurídico. FRANÇA • • • etnologia era. passou a ser similar à antropologia social britânica. (passar do objectivismo ao subjectivismo) Fenómeno da representação sobre a realidade social e a acção derivada da percepção desta mesma realidade pelos diferentes actores sociais. e devido ao seu conteúdo. ANTROPOLOGIA SOCIAL E CULTURAL OU ETNOLOGIA – Engloba o estudo os multiplos aspectos fundamentais que se articulam e constituem uma sociedade: o sistema do parentesco. dando especial relevância à compreensão dos fenómenos sociais.ANTROPOLOGIA I • Escrita: se interpõe entre eles mediatizando os acontecimentos O ESTUDO DA LÍNGUA ESPERA: • • compreender as categorias mentais do parentesco. as crenças. ficando a ser conhecida como anthropologie sociale. as técnicas.

Evidenciada na prática anglosaxónica França: redefinição Etnologia: particularismos (estudos locais. devido às constantes mudanças na sociedade A antropologia procura aceder ao funcionamento social e cultural. por exemplo. comparando-os culturalmente – preocupações de carácter histórico) – influência de Durkheim e do facto de serem uma potência colonizadora Radcliffe-Brown .A. Temos de ter em conta as modificações e rupturas introduzidas pelo tempo histórico. assim como a unidade do género humano. arqueologia pré-histórica. aquelas que se interrogam. monograficos) Antropologia Social: valor universal ou emissao de leis gerais 6 Célia Silva . tentando evidenciar categorias analíticas universais capazes de explicar simultaneamente os particularismos e a diversidade das sociedades humanas.U. uma potência colonizadora) Embora americanos e britânicos defendessem áreas diferentes da antropologia. Inversamente. sobre como e quando os Paleoíndios entraram na América e como desenvolveram as diferenças culturais e linguísticas que apresentavam na altura da chegada dos europeus. separando-a da etnologia (estudo dos povos. Esta atitude repousa sobre uma separação entre o passado e o presente das sociedades.refere como sendo questões tipicamente etnológicas. para um pleno conhecimento do Homem. a antropologia social coloca-se questões do género: qual é a natureza do direito ou da religião? E.~ Antropologia – porquê a disparidade de designaçoes • • ser uma disciplina recente desenvolveu-se lentamente e de forma diversa. Como resultado devemos à antropologia social a introdução das importantes noções de função.ANTROPOLOGIA I GRÃ-BRETANHA • ênfase à compreensão dos fenómenos sociais – antropologia social (relações sociais. etnologia e antropologia social e cultural enfatizaram a vertente cultural dos fenómenos sociais privilegiavam o estudo das minorias culturais dentro da própria sociedade (não eram. de sistema de relações sociais assim como a noção de estrutura social. estrutura). linguística. • • • antropologia compreendia 5 campos: antropologia física. entre a sua real dinâmica e a aparência estática. sabiam que o social e o cultural eram indissociáveis. como os britânicos. consoante o país e as épocas Etnologia ou Antropologia • • Totalidade (MAUSS) – cobre várias disciplinas do saber. parentesco.

Ou seja. Claude Lévi-Strauss: comparou a questão social e cultural a uma folha de papel químico. tal como o modo de vida. quando um católico vai à igreja e leva chapéu na cabeça. através das suas manifestações culturais. São dimensões inseparáveis da actividade humana. Inversamente. o verso da folha serve para escrever enquanto o reverso destina-se a reproduzir o que foi escrito no verso. Evans-Pritchard: A fim de exemplificar a noção de relativismo cultural (diferença entre culturas) e função social (atitudes sociais). Em suma. Do ponto de vista social. na maioria das vezes. Segundo Lévi-Strauss. as crenças. não entra no templo sem primeiro descobrir a cabeça. existem abordagens que privilegiam mais a dimensão social e outras a cultural. na prática. as atitudes para chegar a uma espécie de super técnica que é a actividade social e política. Assim. o autor refere a diferença de comportamentos religiosos entre católicos e muçulmanos nos seus templos respectivos. Contudo. acontece o mesmo com o social e o cultural.ANTROPOLOGIA I ANTROPOLOGIA SOCIAL E/OU CULTURAL • • Os antropólogos sociais: encaram o estudo da sociedade sob a forma de um conjunto social significativo que lhes serve de ponto de partida para a sua abordagem das sociedades humanas Os antropólogos culturais: consideram em primeiro lugar as técnicas e os materiais ou intelectuais. caracterizadas: • • • • Pelas suas pequenas dimensões – abordagem na sua totalidade Ausência de Estado e escrita – observação directa no terreno (inquérito por entrevista) Sem maquinismo Desenvolvimento tecnológico rudimentar Aspectos que permitem à Antropologia originalidade e autonomia perante as outras Ciências Sociais • • • Objecto Método Determinado tipo de questionamento O universo tradicional de investigação tem vindo a alterar-se devido à aceleração do movimento histórico de globalização mundial que conduz a disciplina a uma ruptura com o seu domínio de investigação inicial (o mundo exótico) e a confrontar-se crescentemente com sociedades (como as sociedades em vias de desenvolvimento) cujas preocupações são também cada vez mais semelhantes à sociedade do antropólogo. o muçulmano ao entrar na mesquita conserva o turbante. o mesmo significado (DEUS). (A antropologia não é susceptível de ser definida pelo tipo de sociedades estudadas). o exemplo apontado serve para demonstrar que o social se processa e revela. se quisermos conservar a condição do papel químico. COMO DEFINIR A ANTROPOLOGIA SOCIAL – Estudo das sociedades “primitivas” contemporaneas. O que naturalmente não faz o católico. 7 Célia Silva . Os dois lados são inseparáveis. Comportamentos culturais radicalmente opostos resultantes da diferença entre culturas. mas em contrapartida descalça os sapatos e procede às suas abluções (purificação pela lavagem).

do ponto de vista do observador AS RELAÇÕES ENTRE O LOCAL E O GLOBAL Na antropologia esteve sempre presente uma perspectiva específica da antropologia sobre o real.A. através (e não como objectivo) dos comportamentos relacionais entre os diferentes protagonistas em causa. funções essas. Dando maior importância – na perspectiva da autonomia social – a um quadro teórico independente Ou seja. Do ponto de vista social: A antropologia estabelece. Investigação nos E. C. Ou seja. procederam à comparação ou foram capazes de enunciar aspectos universais e leis gerais. o estudo de mecanismos sociais preciosos. a partir de contextos etnológicos locais metodologicamente adequados Ex. Do ponto de vista cultural: é necessário evidenciar e relacionar saberes e discursos culturais particulares com saber global e o discurso geral sobre a humanidade. 8 Célia Silva . O método antropológico confere à disciplina rigor e uma certa unidade face à: • heterogeneidade teórica • à alteração das condições do objecto de análise. • Projecto teórico : transcender as particularidades e pensar a humanidade no seu conjunto. • avaliar as perspectivas de paridade científica e competitiva entre sociedades diferentes. a antropologia na sua vertente social apresenta-se como uma ciência autónoma que estuda as relações das relações sociais. Finalidade da investigação: compreender os mecanismos de dependência e interdependência funcional da referida instituição relativamente à sociedade. Lévi-Strauss: define a disciplina como “uma ciência social do observado”. (as ditas relações enquanto conteúdo de um quadro de relações instituídas de funções sociais. Método: faz-se pela observação. se torna a sociedade mais culta. a partir da observação das relações sociais parciais entre professores e estudantes. • apurar em que medida a situação é comparável à das suas congéneres estrangeiras.U. existiu sempre um projecto contínuo da disciplina para pensar a relação entre a diversidade e a unidade da humanidade.ANTROPOLOGIA I Os métodos empregues na análise (na recolha do material) são importantes para avaliar o grau de rigor dos procedimentos de validação ou invalidação. • Na prática: os estudos pouco ultrapassaram os particularismos. (Na sociedade global) A mesma investigação aplicada ao contexto português permite verificar: • se a universidade responde às funções esperadas pela sociedade. – Tema: a universidade como instituição de formação de competências de alto nível. Na fase seguinte: tratou-se de conhecer as implicações do género das relações universitárias com outras instituições. competente e competitiva. • às diferenças de construção da prática antropológica segundo as diversas tradições científicas nacionais. na sua etapa etnológica.

integrou a modernidade no seu campo de análise habitual. pode acrescentar-se. Existem ainda muitas sociedades ocidentais que não se vêem como objecto de estudo antropológico • a par de países com centros de grande actividade científica • existem outros em que as escolas de antropologia ou são inexistentes ou têm uma actividade e importâncias reduzidas O projecto antropológico não pode corresponder ao exclusivo conhecimento dos outros mas igualmente ao conhecimento de si.ANTROPOLOGIA I O FIM DOS SELVAGENS • • • • • Processo generalizado de transformações das sociedades primitivas e tradicionais Adopção do modelo de desenvolvimento económico e tecnológico ocidental Desmoronar da vida ancestral (condições de degradação social e cultural irreversíveis) sem aproximação ao modo de desenvolvimento das sociedades modernas Tudo isto reduz consideravaelmente o campo de acção tradicional dos antropólogos Sociedades não estáticas. Só com o fim do colonialismo a antropologia refluiu para a Europa e a incluindo-a. impõe ao investigador a tarefa de elaborar uma teoria geral da vida em sociedade. devido ao desenvolvimento universal. tanto para o mais longínquo indígena como para os seus concidadãos ou contemporâneos”. voluntária e conscientemente também (sem que seja certo que alguma vez o consiga) formular um sistema aceitável. Lévi-Strauss: o antropólogo “esforçar-se-á. que se interessa por: • Análise das instituições administrativas • Relações de trabalho • Grandes concentrações urbanas e das situações de violência que delas advêm • Novas formas de religiosidade • Inéditas formas de agrupamento em associações de todo o género Finalidade principal da disciplina: evidenciar categorias analíticas universais capazes de explicar a unidade do género humano. no desequilíbrio quanto ao sexo dos investigadores (mais do sexo masculino) desigual. manifestando aptidoes de criatividade na elaboração constante de diferenças A Antropologia. C. A antropologia é uma ciência comparativa. (Sociedades camponesas) A distância cultural obtida pela distância geográfica é absolutamente indispensável do ponto de vista metodológico e epistemológico. Ciência antropológica de prática desigual desde a origem • • • desigual. na troca de conhecimentos entre o ocidente e o universo não ocidental desigual. surgindo assim uma antropologia adicional. A sua intervenção incidiu particularmente no Sul europeu. na captação de conhecimentos do Sul por investigadores do Norte da Europa (os investigadores do Sul não ousam alargar o seu campo de intervenção a outras regiões – prática da antropologia europeísta que impede por natureza a comparação) 9 Célia Silva .

emergindo interrogações mais profundas posteriormente. através da observação directa. livros. para além do estudo do presente. O registo de acontecimentos históricos depende da memória colectiva. A especificidade do método • • Nas ciências ditas exactas: o objecto observado é nitidamente exterior ao observador. ou à história Em antropologia a distância geográfica oferece um universo de observação social e culturalmente diferente da sociedade do observador.parte-se para terreno sem grandes à priori. Somente. sociedades sem escrita ou sociedades ditas tradicionais (sociedades camponesas) o antropólogo observa agrupamentos humanos onde não existem registos sobre forma de arquivo. mas inclui naturalmente a sua dimensão histórica.ANTROPOLOGIA I 4. PRINCÍPIOS METODOLÓGICOS A INVARIANTE: O MÉTODO Método . relativamente a um determinado contexto social • Resulta da dificuldade geral inerente às Ciências Sociais ao colocar o investigador na posição simultânea de observador e objecto de observação de mesmo carácter que ele • Esta dificuldade deve-se ao facto do seu método consistir na observação das práticas sociais de outros seres humanos (de mesma índole que o observador).diferentes procedimentos e etapas de construção da investigação Investigação: resultados de procedimentos metodológicos assentes especialmente: • Numa boa informação bibliográfica • Num ponto de partida teórico em forma de hipótese ou de um conjunto de questionamentos • Num método geral e métodos específicos • Em diferentes materiais e técnicas auxiliares A conjugação destes procedimentos depende das etapas • Etnográfica • Etnológica • Antropológica Início da etapa etnológica • Informação bibliográfica – preparação teórica prévia apurada • Hipóteses teóricas ou questões – do que se pretende investigar • Monografia . em função da qual a sua transmissão se faz oralmente. social e cultural do observador). A antropologia social: é uma ciência do homem no seu todo que para atingir o seu objectivo se debruça especialmente sobre a contemporaneidade das sociedades. 10 Célia Silva . Método geral aplicado pelos antropólogos (fase etnográfica): • Observação directa no terreno. bibliotecas…que de algum modo relatem os seus modos de vida anterior e possibilitem. (A distância geográfica deverá facilitar o descentramento psicológico. incidido a investigação quase exclusivamente na actualidade dessas sociedades. dadas as características destes agrupamentos humanos sem escrita. a dimensão histórica é posta entre parênteses. Nas sociedades ditas “primitivas” (na linguagem dos evolucionistas). o seu estudo histórico.

será possível proceder a uma observação exploratória dando início ao primeiro plano de observação no terreno (corresponde ao conjunto das interrogações que o antropólogo se coloca a propósito do objecto de estudo em causa. pela distância social A prática do terreno: observação directa (participante ou não participante) • • • O antropólogo fixa-se pessoalmente no terreno e procede a uma minuciosa observação da sociedade em causa Se houver investigação e literatura produzidas anteriormente sobre o tema. o antropólogo criará as condições da sua instalação junto daqueles que pretende observar procurar um alojamento . tais como eles sobressaem no inquérito de terreno (experiência pessoal do autor). A partir desse momento. (Preferência – morar em casa de um habitante /evitar – ser alojado por autarcas ou outros notáveis) grupo pertinente de informantes (Ambos os sexos deverão estar representados segundo as respectivas classes etárias) O protocolo de andamento no terreno deve obedecer a uma programação quotidiana.ANTROPOLOGIA I A distância “geográfica-cultural”: não intervém com a mesma perspicácia na antropologia europeísta e em particular quando efectuada por etnólogos autóctones (nascidos na mesma terra onde vivem). a aconselhável distância cultural é obtida. Nos casos das etnologias domésticas. As informações são anotadas a cada instante e no fim do dia deverão ser estruturadas e preservadas. numa certa medida. segundo um determinado protocolo a seguir no terreno (tem de respeitar uma certa coerência lógica. Com a proximidade geográfica. A etnografia constitui a primeira etapa da investigação que em seguida é desenvolvida através da síntese etnológica. resultados de uma investigação Escolha do local de observação: deve ser justificada pela sua pertinência em relação aquela. ≠ Plano de exposição: Sumário de uma obra já terminada. capacidade de observação (extremamente importante para a condução da investigação e o rigor da descrição) • • • • • • Níveis/escalas de observação geral: • Fase de inquérito exploratório • Medição • A quantificação • A compreensão do funcionamento A fase dominada etnografia consiste na observação directa e na descrição dos factos reais. traduzidas em múltiplos aspectos a observar. o investigador pode formular novas hipóteses ou questões.dependendo do tipo de investigação e das disponibilidades existentes e o mais próximo possível do centro das relações sociais. É necessário explicar e sintetizar (papel da etnologia) Hoje cabe à Antropologia social e cultural realizar esta 3ªetapa da síntese e visar conclusões válidas para todas as sociedades Interpretação dos fenómenos observados • A razão deriva de nem sempre ser suficiente e adequado interpretar um certo fenómeno unicamente à luz da observação directa (aparências iludem) 11 Célia Silva . minuciosamente organizados).

as fotografias aéreas autorizam ainda a comparação entre os diferentes momentos espaciais.ANTROPOLOGIA I • • Observar unicamente não é suficiente na maioria das vezes O diálogo representa um procedimento complementar indispensável para compreender as verdadeiras razões de um dado comportamento (para não nos basearmos nas aparências) OS MEIOS TÉCNICOS E AUXILIARES DO INVESTIGADOR Instrumentos indispensáveis • Cartas geográficas • Fotografias aéreas do local • Cadernos de diferentes dimensões • Aparelho de fotografia • Gravador de som • Binóculos • Bússola de precisão • Altímetro • Fitas métricas • Estereoscópio de bolso A observação indirecta: o registo de imagens. Realizadas periodicamente ao longo do tempo. é possível actualmente. Estudo à distância: • Cartografia (imagem do terreno) • Os gráficos • Os diagramas A metodologia e os meios auxiliares têm outros contornos além dos aspectos práticos que já referimos: • Com o alargamento do projecto antropológico às sociedades de massas ocidentais. a fotografia aérea e a foto-interpretação • Fotografias • Câmaras modernas • Fotografias aéreas • Foto interpretação Observação directa: procedimento do antropólogo no terreno Observação indirecta: graças às relativamente novas técnicas. à dificuldade própria da dualidade do objecto de investigação acrescenta-se: o facto da antropologia ter dedicado toda a sua atenção ao mundo extra-europeu (aspectos diversos e diferentes dos europeus). Esta fonte de observação indirecta é das mais ricas. eventuais alterações das configurações sócio-morfológicas locais. proceder a algumas observações de forma indirecta como prolongamento da observação directa. • O quase exclusivo estudo de contextos culturais exóticos (ou dito primitivos) levam o investigador a: 12 Célia Silva . Fotografia aérea: permite a elaboração de pequenos mapas à escala que são de maior utilidade. sem grandes abusos de linguagem. E permite observar à distância elementos particulares difíceis de detectar directamente no terreno.

(pode encontrar falhas entre o que é informado por um indivíduo ou um grupo de indivíduos) A observação não só consente a validação ou invalidação das afirmações do locutor.a dificuldade de objectivação resulta dos comportamentos sociais e culturais dos seus conterrâneos serem susceptíveis de parecerem banais e passarem despercebidos. económicos. em muitos aspectos. Graças à observação. Bronislaw Malinowski – “Argonauts of the Western Pacific” *Dá conhecimento da extraordinária instituição da “Kula”. *Trata-se de um amplo périplo marítimo inter-tribal de trocas (colares conchas. de comunicação… (interrelacionados num todo complexo).e a necessidade de objectividade advêm da novidade das práticas sociais e culturais distância cultural . o estudo da totalidade – a etnologia. métodos e instrumentos de observação (alguns apresentam dificuldades) Em busca de objectividade • • • observação directa . (facto sociológico – percepção das totalidades sociais) Deve comparar-se: * Elementos ou factos sociais entre sistemas * Lógicas globais * Relações e respectivos usos sociais Para entender as razões de ser de um determinado facto.permite dar conta dessa novidade e dispor de uma posição de maior objectividade. *Não eram meras trocas comerciais e implicavam um conjunto de outros fenómenos: técnicos. braceletes) entre habitantes das 20 ilhas. a análise comparativa – a antropologia • • Etnografia . cerimónias de carácter religioso. Uma sociedade é constituída por várias partes ou componentes que. A observação directa dos factos relativiza as informações fornecidas pelos informantes. o investigador pode abranger um número de factos consideráveis e impossíveis de prever no inquérito ou na conversa informal. como permite ainda avaliar o significado da diferença entre representação. ou discurso estratégico de camuflagem. estudo da sociedade .ANTROPOLOGIA I forjar conceitos. redes de alianças diversas. praticada nas ilhas melanesianas da Nova-Guiné. os processos do quotidiano (que escapam ou interessam pouco ao observador comum). 13 Célia Silva . se articulam umas com as outras ou se influenciam mutuamente e dão forma a um todo. de ostentação.Observar o infinitamente pequeno e quotidiano (partir do particular para o geral) Etnologia – O estudo da totalidade (tem em consideração os factos mais humildes da actividade humana. Pontos de métodos fundamentais: observar o infinitamente pequeno e quotidiano – a etnografia.

a cada uma das partes. […] todos esses fenómenos são ao mesmo tempo jurídicos. a fim de adquirir ou reafirmar o seu estatuto social. direito…) considerados “abstracções” e isolados do seu contexto social. morfológicos. sistemas sociais inteiros […]”. *E realça a importância de não se poder apreender os factos da vida social a um só nível. são “factos sociais totais”. *Para o autor: “[os factos sociais] põem em movimento. Por outras palavras. económicos. A teoria de Mauss toma todo o sentido no “Essai sur le Don” onde concretiza a construção do objecto de conhecimento em Antropologia. segundo Mauss Cerimónia de ostentação do POTLACH “dar”.ANTROPOLOGIA I Marcel Mauss – “Essai sur le Don” *Ao tentar explicar “Kula” elabora o conceito de fenómeno social. O etnólogo tem assim a tarefa de recompor o todo social. a totalidade da sociedade e das suas instituições […] e noutros casos. e mesmo estéticos. Este objecto deixa de centrar-se nos diferentes elementos institucionais (ritos. As sociedades “primitivas” deixam de ser consideradas como organizações “particulares”. etc. *Distribuição de prendas ou distribuição de bens de prestígio. ao atribuir-se-lhes arbitrariamente “originalidade” e “elementaridade”. simplesmente diferente da que caracteriza as sociedades de tipo ocidental. religiosos. Os elementos recolhidos no terreno deverão ser quantificados. para passarem a ser concebidas como sociedades dotadas de uma “complexidade”. na medida em que a actividade social constitui um sistema em que todos os aspectos estão interligados entre si. Mauss: consiste em deixar de se conceber o “complexo” como decorrente do “simples” (invertendo desde logo a perspectiva evolucionista) e considerar imperativamente “os factos nas suas relações com o conjunto do corpo social de que fazem parte” e a “compreendê-los a partir dos seus usos sociais”. somente um grande número de instituições. para se fixar na totalidade em que se inserem e assumir assim sentido sob a forma de sistema. casamentos. A análise comparativa (a antropologia) • A comparação e a síntese antropológica transcendem os particularismos das monografias etnológicas Só se pode comparar o que é de natureza idêntica A comparação e a síntese podem ser apreendidas a diferentes níveis de universalidade do mais simples aos mais complexos • • 14 Célia Silva . em certos casos. a qual Mauss interpreta como uma “prestação total de tipo agonístico” em consequência do sistema troca – dádiva que ela implica. Mauss só o facto social total corresponde a uma realidade. dar sentido a este todo e. […] São “todos”. Nenhuma afirmação poderá ser avaliada sem a demonstração da prova concreta ou mesmo teórica. simultaneamente.

tiveram o mérito. 15 Célia Silva . fundamento da aliança matrimonial. • Armindo dos Santos: “Assim quando num artigo comparei as diferentes formas de atribuição do nome na Europa. recolocar no centro da actividade da antropologia social e cultural a finalidade dos seus objectivos Autores com preocupação comparativa: (evolucionistas) • • Lévi-Strauss – “estruturas elementares do parentesco” (1949) G. deixar de colocar no centro da problemática o essencialismo humano de Lévi-Strauss. -A universalidade da regra social da proibição do incesto. tendo como referência o modelo português foi uma forma de comparação. Convergindo neste objectivo. (estruturas elementares do parentesco). sem dúvida.P. Nota: Estes estudos comparativos de Lévi-Strauss. classificação e síntese que procurei realizar (1999) Conclusão: O objectivo central da antropologia reside nas características gerais do género humano.Murdock – tipologia das terminologias do parentesco e respectivas organizações sociais (1949) outros investigadores – elaboração de sínteses de diversa ordem. reduzindo os numerosos sistemas de parentesco a uns quantos diferentes tipos.ANTROPOLOGIA I Do inter-local ao regional do regional ao universal Claude Lévi-Strauss: apoiou-se em numerosos estudos monográficos -Dedicou-se à tarefa de as (investigações) analisar e comparar. *Comparação dos mitos de uma determinada área cultural. não se deve.

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