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A fotografia como objeto e recurso de memória
Adair Felizardo Etienne Samain

p. v. suas facilidades. own memory. Londrina. potentials and weaknesses.206 A fotografia como objeto e recurso de memória Photography as object and resource of memory Adair Felizardo* Etienne Samain** Resumo: Com o advento da fotografia digital. memória a ser elucidada. memory to be clarified. Key words: photography.205-220. memória. **Professor e coordenador do programa de Pós-Graduação em Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas. its ease. ficamos suscetíveis ao esquecimento iconográfico de nossa própria memória. we have become more and more liable to the iconographic forgetting of our own memory. interpreted.3. our photographic memory. mídias digitais. interpretada. Desenvolve pesquisas sobre os usos da fotografia em antropologia visual. 2007 . Este ensaio pretende discutir o valor e o uso da fotografia como um dos grandes instrumentos portadores de memória. potencialidades e fragilidades. Pesquisador do Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.3. memory. digital media. images. nossa memória fotográfica. n. imagem. *Fotógrafo e professor de fotografia. remembered. Palavras-chave: fotografia. discursos fotográficos. This essay intends to discuss the value and the use of photography as one of the great memory-bearing instruments. memória própria. rememorada. Abstract: With the rise of digital photography.

outros direcionamentos. permanecem ainda incertos. fotografias tipo cartão de visitas vendidas a preços populares. pressionar 1 André Disdéri foi o inventor da carte-de-visite photographique. 2 George Eastman foi o fundador da Kodak e o grande responsável pela massificação da fotografia com o advento das câmeras portáteis a preços módicos. 2007 . pois é fácil olhar para o display. pode se perder. n. v. discursos fotográficos. que contribuiu para a popularização do novo invento. o que permitiu o acesso à fotografia a toda a gente. sem critérios ou comprometimento. escrito e discutido sobre o novo “boom” da fotografia neste início de século. não dispomos de qualquer recurso capaz de fazê-las retornar. embora seja notório o consumo excessivo dessas imagens. a própria memória humana. a fotografia digital. p. uma vez desaparecidas. estão em constante desaparecimento. talvez. da memória “RAM”. atrelada às facilidades e as ambigüidades gramaticais dessas tecnologias.3. Assim como no século XIX. Assume.205-220. a fotografia e o que carrega. Com isso. principalmente pelo mercado. Devido às novas tecnologias na produção de imagens – as que convencionamos chamar de fotografia digital – os rumos a serem definidos pelos fotógrafos e. chegando à banalização.207 Introdução “As coisas das quais nos ocupamos. George Eastman2 e tantos outros. a fotografia e o seu processo como a conhecemos hoje – filme. Na era do “Ctrl-Alt-Del”. também.” Henri Cartier-Bresson Muito tem sido dito. a partir de 1854. uma nova identidade ao revolucionar novamente o mercado fotográfico e o cotidiano das pessoas.3. Londrina. ao oferecer novas formas de produzir e de pensar as imagens através dos moldes das câmeras digitais. com a sua popularização e massificação por Disdéri1. revelação e ampliação – inicia o novo milênio passando por profundas transformações. na fotografia. tomam. Não podemos revelar e copiar uma lembrança. e. em grande parte despreocupadas.

n. comprometendo a sua durabilidade. Uma vez perdido um arquivo. perdida poderá ficar a nossa memória. o encanto. ao registro de coisas que julgavam ser importantes. mais acessível e presente na vida das pessoas. cartões de memória. 2007 . editar e transmitir essas imagens. e uma grande facilidade em manipular. p. da umidade e da poeira. tais como a quantidade de acessos e o local em que serão guardados. do ponto de vista da memória. Seria bem isso mesmo? Acreditamos que dependerá do modo como essa nova forma de fazer fotografia será tratada. hoje. a fotografia ganha um novo suporte para se tornar ainda mais popular. Essa facilidade com que se mostra ao mundo. Londrina. Dependendo da utilização que se dá aos CDs. a fotografia digital. a memória que guardava. Com poucas palavras. uma imagem. DVDs. não é possível a recuperação dos dados gravados. com ela. também trouxe revoluções: a imediata visualização do objeto fotografado – talvez a sua mais nobre característica – os menores custos na produção de imagens. a magia e. com o discursos fotográficos.3. v.” Assim como no século da ordem e do progresso. Podemos ir mais longe e nos preocupar com o modo das imagens serem armazenadas.3. A primeira idéia que temos sobre a vida útil de um CD ou DVD é que ele duraria “para sempre”. para sempre. Bresson avisava: “Não podemos copiar e revelar uma lembrança. deve existir a preocupação com a qualidade dessas mídias. perturbando os costumes e a forma de ver o mundo da época.205-220. já que muitas fotografias ganham o seu devido valor – diríamos “o amadurecimento imagético” – a sua completa carga semântica.208 alguns botões e eliminar. A grande procura por preços gera. aquela imagem que por algum motivo perdeu o interesse. cada vez mais. livres do calor. a entrada de um comércio de mídias com baixa qualidade. pode representar perdas inestimáveis. ou até menos e ocorrendo um problema relacionado à fadiga do material ou uma ranhura. o que não é verdade. Com sabedoria. quando os menos abastados podiam ter acesso à sua própria fotografia. Pesquisas mostram que existem mídias que podem durar pouco mais de dois anos.

mas a fragilidade imagética e o descomprometimento do sistema. ficar à deriva.209 passar do tempo. levantam questões preocupantes.3. v.205-220. o digital. a memória das pessoas que a fizeram e a aspiraram. Esta constatação nos fez perceber o quão importante é a manutenção de nossas fotografias. todos sujeitos a falhas e erros de leitura. Qual seria então a relação entre fotografia e memória? Tal questionamento volta à tona devido à corrida migratória de muitos fotógrafos profissionais e amadores do sistema analógico para o novo sistema. amanhã todavia memória – fazem poucas ampliações de suas fotografias digitais. num CD ou DVD. Prefigura e anuncia que são grandes as chances de a fotografia digital. os novos fotógrafos. é que nos fizeram indagar sobre esta relação. discursos fotográficos.3. ora num cartão de memória. É importante que as gerações futuras. o banal – hoje banal. ao contrário dos tempos do sistema analógico. ao longo dos anos. é a “memória permanente” do computador. de nossos álbuns de família. fadada ao desaparecimento e com ela. devido à fácil eliminação e propensão aos erros. Pesquisas mostram. as suas viagens. 3 Hard Disc = Disco rígido: parte do computador onde são armazenadas as informações. a sua família. os consumidores de imagens digitais fiquem atentos à maneira com a qual suas imagens serão preservadas. está atrelada à nossa memória. O fato de poder visualizar momentaneamente as fotografias geradas num écran e a forma como as pessoas guardam essas imagens. nossa caminhada presente e futura. ora no HD3 do computador. 2007 . pois nosso passado. de nossos museus iconográficos. Como afirmamos anteriormente – modismos e estratégias de mercado à parte – seus atributos são muito sedutores. ou seja. aqueles que registram despreocupadamente o seu dia-a-dia. Londrina. com efeito. n. p. quando todas as fotografias eram impressas quando o filme era revelado. que fotógrafos amadores. não impressa.

v. cujo sentido é perceptível por aqueles que supõem. Daguerre. o “omitir” e o “esconder” (encobrir). continuo: há no verbo ‘esquecer-se’ em grego. dos elementos de informações necessária. 2007 .205-220. n. discursos fotográficos. de novo vale recorrer aos gregos. são uníssonas. da forma como “realmente” se apresentam. as duas.3. (apud FELIX. que do grego significa a “escrita da luz”. p. na cena e no público. contrário ao primeiro. estão intrinsecamente ligadas. Talbot4 e outros. Trata-se de subentendidos utilizados de maneira plenamente convincente por certas personagens do drama. a partir das pesquisas de Niepce. À fotografia foi agregado um elevado status de credibilidade devido à possibilidade de registrar partes selecionadas do mundo “real”. por evidenciar os fatos como se parecem. Adélia Bezerra de Menezes destaca a evidência de uma ligação mais intima do que poderíamos supor entre o “lembrar-se”. Portanto. no íntimo da palavra. Louis-Jacques Mandé Daguerre (1787–1851) e William Henry Fox Talbot (1800–1877) foram alguns dos principais precursores da fotografia analógica. 1998. Isso já é preencher de significações. Verdade é em grego Alétheia.3. como observa Vernant. ou melhor. Por isso. a fotografia traz consigo o âmago da veracidade incontestável dos fatos por ela registrados. como a palavra fotografia5. no discurso. “verdade” = não esquecimento. uma ambigüidade que provoca um mundo de subentendidos. 5 Fotografia: foto (luz) + grafia (escrita). para dissimular.37) 4 Joseph Nicéphore Niepce (1765–1833). memória e fotografia se (con)fundem. uma está contida na outra. a (= alfa privativo) + létheia (Lethes = esquecimento). Assim.210 Fotografia e Memória Desde seu surgimento e desenvolvimento tecnológico. a palavra memória também traz consigo traços de credibilidade. Londrina. Pois bem. p. fundamentalmente “enamoradas”. por mostrar os caminhos da lembrança. Mas.

Mas então. A palavra poética enunciada em voz alta construía verdades dentro de uma dimensão do tempo mítico. (FELIX. Em uma sociedade que valorizava a excelência do guerreiro. através das musas inspiradoras. pois que. nos quais é definida como uma das cinco grandes categorias da antiga Retórica (inventio. logo. discursos fotográficos. n. Nesse plano. o poeta-cantor na sociedade arcaica grega. o dos atos de bravura. p. nasceu na Antiguidade grega e. “Possuir a verdade é também ser capaz de enganar” diria Detienne (1988. 2007 .] Antes mesmo da instituição da razão como instrumento de compreensão do mundo. dispositio. manipular.C. que importância tem a memória? Loiva Otero Felix nos lembra: [. p. concedendo ou negando a memória. o “poeta é árbitro supremo”. 6 Detienne (1998. elocutio. era o poeta quem. actio – ou pronunciatio). segundo Dubois (2000. fazer parecer. ela pode “selecionar” partes do real a fim de iludir. Essa arte de celebrar os imortais. 1998.3.205-220.17-21) nos diz que o aedo. estaria abandonada ao Esquecimento. Era ele quem. no século V a. precisamente. p. resgatava a memória e sua importância. a Institutio oratória de Quintiliano e o Ad Herennium de autor desconhecido). o poeta concede ao homem uma memória. v. Numa sociedade de fundamento mito-poético. tinha uma função específica: a de celebrar os imortais bem como as façanhas dos homens corajosos. A memória era sacralizada.314) nos foi transmitida por alguns grandes textos latinos (o De oratore de Cícero. o aedo6 desempenhava esse papel.3. tarefa do aedo.. ao louvor e à censura era. o domínio reservado a essa celebração.36).43). Deixando de ser “funcionário da sabedoria” para colocar-se a “serviço da comunidade de semelhantes”. da qual ele é naturalmente privado.211 Claro que o fato de a fotografia ser uma representação do “real” pode não ser suficiente para lhe conferir credibilidade absoluta.. ou poderíamos chamar da “Arte da Memória”. p. determinava o valor de um guerreiro. “Através de seu louvor. Assim como a memória. “Essa memória torna-se fundamental na medida em que se sabe que as “façanhas que são silenciadas morrem” e. memoria. p. vítima de Silêncio. o homem sem façanhas ou reputação morre. Londrina. a memória já era valorizada como imprescindível à coesão dos laços sociais. não do cronológico.

p. o desenho. a seguir à I Guerra Mundial. 2007 . 1999. Le Goff (2003). n. de “resgatar” a lembrança? Com certeza ela faz isso muito bem. pois é uma imagem e. vale ressaltar o aparecimento de dois fenômenos: um no século XIX. proclamando sobre um cadáver sem nome a coesão da nação em torno da memória comum. que determina a interpretação do símbolo por referência a esse objeto (SANTAELLA. que revoluciona a memória: multiplica-a e democratiza-a. os retratos em família já podem ser “tirados” sem a presença de um profissional.3. com a construção de monumentos aos mortos. v. a pintura. “dos ícones. Com a evolução dos processos e a massificação da fotografia. normalmente uma associação de idéias gerais. procurando ultrapassar os limites da memória. a música. quer não.460).212 Poderia a fotografia ser o novo aedo da era moderna? Sem dúvida temos a escrita. talvez uma forma moderna. Em numerosos países é erigido um túmulo ao Soldado Desconhecido. O segundo é a fotografia. em seu livro História e Memória. da lembrança. diz que entre as importantes e significativas manifestações da memória coletiva que surgiram no decorrer dos tempos. associada ao anonimato.59-71). dá-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas. p. [. quiçá seja um dos melhores suportes. (LE GOFF... Então não seria a fotografia também uma nova forma. NÖTH. índices. com o advento da fotografia.] que muito antes do surgimento da fotografia já se portavam a tal função.3. rápida. de ícone. permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica. e outro no início do século XX. precisa de perpetuar a memória. e símbolos”7. um signo que remete ao objeto que ele denota simplesmente em virtude das características que ele possui. p. e símbolo de um signo que remete ao objeto que ele denota em virtude de uma lei. O primeiro.205-220. da memória propriamente dita. A comemoração funerária encontra aí um novo desenvolvimento. 2003. Londrina. quer esse objeto exista realmente. nós nos valemos das imagens das coisas. permitindo à maioria das famílias possuir também suas 7 O semioticista americano Charles Sanders Peirce (1839–1914) chama de índice o signo que significa seu objeto somente em virtude do fato de que está realmente em conexão com ele. é a construção de monumentos aos mortos. discursos fotográficos. no processo de rememoração.

que estabeleça mais uma confiança e seja mais edificante do que um álbum de família: todas as aventuras singulares que a recordação individual encerra na particularidade de um segredo são banidas e o passado comum ou.. como capacidade de conservar certas informações. mais eficazmente.213 fotografias. v. remetemos à instigante proposta metodológica oferecida por Fabiana Bruno e Etiene Samain em: Imagens de velhice.3. o seu retratista. p. e a compreender quem somos. E o que é a memória visual8? A memória.205-220. É importante salientar o papel da mãe como retratista e mantenedora das lembranças familiares. ritos de integração a que a família sujeita os seus novos membros. O álbum de família exprime a verdade da recordação social. n. (BOURDIEU. Nada se parece menos com a busca artística do tempo perdido do que estas apresentações comentadas das fotografias de família. p. o que é equivalente. recorre. 1965.21-38. Cadernos CEPES. 2006. v. em preservar. perpetuando assim. n. Essa memória ajuda a dar sentido à nossa existência. uma memória secular. o mais pequeno denominador comum do passado tem o brilho quase presunçoso de monumento funerário freqüentado assiduamente. catalogar as fotos. a um conjunto Sobre o assunto. 2007 8 .26. Londrina. discursos fotográficos. imagens da infância: formas que pensam.68.53-54). compreender melhor o mundo. evocam e transmitem a recordação dos acontecimentos que merecem ser conservados porque o grupo vê um fator de unificação nos monumentos da sua unidade passada ou. como um legado. Bourdieu (1965) evidencia o significado do “álbum de família”: A galeria de retratos democratizou-se e cada família tem. a imagem dos que foram. As imagens do passado dispostas em ordem cronológica. É por isso que não há nada que seja mais decente. seus álbuns de família. em primeiro lugar. “ordem das estações” da memória social. porque retém do seu passado as confirmações da sua unidade presente. p. Fotografar as suas crianças é fazer-se historiógrafo da sua infância e preparar-lhes.. na pessoa do seu chefe.3. organizar. ela nos faz tornar cidadãos. se se quiser. a memória fotográfica da família. Pode-se até afirmar que é ela quem tem o papel e a preocupação em acompanhar o crescimento dos filhos.

mas também pode não ter apoio no tempo cronológico”. um fenômeno pessoal. pela própria pessoa. discursos fotográficos. É pertinente. Toda memória é fundamentalmente “(re)criação do passado”: uma reconstrução engajada do passado e que desempenha um papel fundamental na maneira como os grupos sociais mais heterogêneos apreendem o mundo presente e reconstroem sua identidade. por pessoas/personagens e por lugares. transformações constantes.2). (LE GOFF. a memória é constituída por acontecimentos. pela comunidade a qual ela está inserida. próprio da pessoa. nos servimos de “campos de significados” – os quadros sociais – que nos servem de pontos de referência. como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações. 2001. No ato de lembrar. Segundo Pollak (1992. graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas. são os acontecimentos “vividos por tabela”. p.30) . Londrina. estruturantes dos quadros sociais da memória. lugares particularmente ligados a uma lembrança. (SEIXAS. são fundamentais para a rememoração do passado na medida em que as localizações espacial e temporal das lembranças são a essência da memória. que ele representa como passadas. 1989. (POLLAK. Pode se dizer que a lembrança é a essência da memória. sobretudo. “Existem lugares da memória.419). inserindo-se assim nas estratégias de reivindicação por um complexo direito ao reconhecimento. Mas o sociólogo francês Maurice Halbwachs (1990) já havia dito que a memória deveria ser entendida. como um fenômeno coletivo e social. n. falarmos também sobre os elementos constitutivos da memória. mutações. 2007 . p. (HALBWACHS apud BARROS. deste modo.42). p. p. a memória nos parece ser individual.3.3. relativamente íntimo.214 de funções psíquicas.2). A princípio. que pode ser uma lembrança pessoal.205-220. v. 1992. 2003. ou seja. seja ela individual ou coletiva. Memória individual são os acontecimentos vivenciados pelo indivíduo. As noções de tempo e de espaço. Memória coletiva são os acontecimentos vivenciados pelo grupo ao qual a pessoa pertence. p. p.

mesmo não sendo ela pertencente ao indivíduo que a observa. por instantes. “Tal ação ocorre num preciso lugar. p. A fotografia carrega consigo a magia da (re)criação de um “isso foi” (BARTHES. Este é o grande valor pertencente à fotografia. 2007 . v. A concepção e visão de mundo se alteraram a partir do seu advento.215 Também na fotografia. Esta é uma qualidade inexorável da fotografia que independe de seu tempo e do modo como foi produzida e pode atuar tanto na memória individual quanto na coletiva. do campo social e antropológico. suas coordenadas de situação.26). na reminiscência e na redescoberta dos fatos. 1984. são marcas indeléveis à sua construção e de vital importância a sua rememoração.205-220. p. n. metódica. uma fotografia pode reavivar sentimentos antes esquecidos. Le Goff afirma que ela “revolucionou a memória” pois. muito contribuiu nos campos da evolução tecnológica. A fotografia foi um fenômeno que revolucionou a memória. 1999. com sua chamada visão imparcial. historiadora. permitir revivê-lo no presente. o espaço e o tempo cravados no recorte são elementos indissociáveis. a fotografia pode ativar a memória. ela cumpre o seu papel na rememoração. converteu a fotografia – mesmo sem o pretender – em “testemunho” por excelência da evolução do tempo. falar sobre um passado. precisa. de imediato. a sociedade da época e o pensamento moderno. dedutiva. Ela suscita e ressuscita sentimentos. informativa.31) tem razão ao afirmar: A escola histórica filiada ao positivismo. Em nível individual.” (KOSSOY. inequívoca. mesmo não sendo até ela a rememoração de seu passado. relativos a um momento ou a uma presença que não está mais entre nós. ou trazer.115) àquele que a observa. p. isto é. uma incitação àquele momento eternizado.3.3. Ela. discursos fotográficos. Com razão. Londrina. Turazzi (1995. numa determinada época. p. toda e qualquer fotografia tem sua gênese num específico espaço e tempo. sensações vividas em determinada época e que já não existem mais. ao transformar os suportes da memória coletiva em documentos com valor de “prova” do tempo passado na história das sociedades.

tanto na ótica bergsoniana quanto na proustiana. discursos fotográficos. mas se afasta ao mínimo movimento da memória voluntária”. sobretudo uma memória da inteligência e dos olhos.. romancistas e filósofos como Bergson e Proust. p. 2007 . o passado. sendo por definição sensorial e motora. p. como o fazem os maus pintores.45). (SEIXAS. essencial à vida. Londrina. v. na melhor das hipóteses.. p. configura uma memória menor. ela é feita de imagens que aparecem e desaparecem independentemente de nossa vontade. repete-o. Proust ainda nos permite pensar: A memória voluntária. pois atada ao hábito e à ‘vida prática’. Com a noção de memória involuntária atingimos. A memória involuntária é aquela que rompe com o hábito (que constitui a camada mais superficial da memória voluntária). 2001.216 Faz-se necessário ressaltar a memória voluntária e involuntária.46). um outro plano da memória humana. sentimos o quanto este passado era diferente do que acreditávamos lembrar. Somos conduzidos a uma memória “mais elevada”. revela-se por “lampejos bruscos. talvez a “verdadeira memória”. (SEIXAS. mas sobretudo rompe com todo o esforço vão de busca e captura intelectual do passado.205-220. porém corriqueira e superficial. que dizem que a “memória voluntária não atinge o pleno estatuto da memória. p. sendo ela sensorial – nossos olhos sobre seus olhos – a historiografia a elegeu.46). que é. 2001. “desqualificando a memória involuntária tida como constitutiva de um terreno de irracionalismo(s) e. nos dá do passado apenas faces sem verdade. com cores sem verdades [.3. pois. mas quando um odor. 2001. Seixas (2001) enfatiza a discussão sobre o assunto posto entre historiadores.48). apesar de nós. (apud SEIXAS. (SEIXAS. Ela é. 2001. por essa razão. avessa à história”. ela simplesmente o “executa”. ao invés de representar o passado. Espontaneamente. um sabor encontrados em circunstâncias muito diferentes desperta em nós. e que nossa memória voluntária pintava. n. Insere-se no presente do mesmo modo que nosso hábito de andar ou de escrever.]. p. à repetição passiva e mecânica”.3. Poderíamos classificar a fotografia como uma memória voluntária. “o hábito iluminado pela memória ao invés da memória ela mesma”.

omitindo ou alterando fatos e circunstâncias que advêm de cada foto. fotos de viagens. 1999. 2007 . atestar e perpetuar a nossa existência. rememoração. conquistas. A fotografia pode ter sua morte aparente. com elas descobrimos que podemos preservar a lembrança dos grandes momentos e das pessoas que nos são importantes: são referências da nossa história. da recordação. (KOSSOY. Londrina.138). descobertas… Fotografar significa congelar no tempo a nossa memória. Os homens colecionam esses inúmeros pedaços congelados do passado em forma de imagens para que possam recordar. trechos de suas trajetórias ao longo da vida. datas. elas existem para nunca deixarmos de lembrar destes momentos. o retratado ou o retratista têm sempre. pode se discursos fotográficos. de recordação. Acrescentando. na imagem única ou no conjunto das imagens colecionadas. Fotografamos a vida.217 Considerações finais É incontestável afirmar que a fotografia pode ser considerada um dos grandes relicários.3. Apreciando essas imagens. O seu ciclo de memória (individual. objeto portador de memória viva e própria. ponto de partida. ‘descongelam’ momentaneamente seus conteúdos e contam a si mesmos e aos mais próximos suas histórias de vida. Tomamos como exemplo os álbuns de família. Este é o mais popular e talvez o mais antigo uso da fotografia: parar no tempo e no espaço algo que. a morte. tenha sido provavelmente importante ou simplesmente agradável. enfim.205-220. v. mas não coletiva). da narrativa dos fatos e emoções. Fotografamos para ver depois. atraente. bonito. sentir o próprio momento passado no presente. p.3. a arte. Nossas comemorações. para sentir o que sentimos no instante da captura. Com elas reassumimos nossa condição de existência. feitos. para nós. o start da lembrança. retrato de uma antiga namorada. a qualquer momento. n. o acabado e o inacabado. p. familiar. documento/monumento.

Referências BARROS. História & fotografia.139). Belo Horizonte: Autêntica. (KOSSOY.3. BORGES. Memória e família. o que nela ficou registrado se materializa e se imortaliza. Un Art moyen: essai sur les usages sociaux de la photographie. n. 2007 . 1999. 1965.2. v.218 extinguir. Maria Eliza Linhares. 1989. Portanto fotografia é memória e com ela se confunde. p. os objetos e equipamentos se modificam ou se deterioram com o tempo. Minuit. o “ciclo da lembrança e da recordação é interrompido”. temos como elementos constitutivos o assunto (pessoas/objetos). Paris. Myriam Moraes Lins de.29-42. por alguma razão os elos documentais e afetivos – responsáveis pela perpetuação da memória (individual) – que unem este documento a alguém forem quebrados. discursos fotográficos. O que resta é a fotografia. como os equipamentos físicos e a química utilizada) e o fotógrafo (a pessoa que faz a foto). a memória também recria o “real”. O que nos resta de todo o processo fotográfico 9 é o documento/relicário. BOURDIEU. p. 1984. a tecnologia (todo o aparato necessário para a produção da imagem. Londrina. Rio de Janeiro. 9 Podemos dizer que em todo processo fotográfico. n. BARTHES. 2003. É o que nos permite até viver. v. Pierre. Se. Roland. Assim como a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. As pessoas envelhecem e morrem. em toda fotografia. de certa forma “extingue-se o documento e a memória”.205-220. p.3. A câmara clara: nota sobre a fotografia.3. Revista Estudos Históricos.

2001.26. O ato fotográfico e outros ensaios. Loiva Otero. p. 2003. DETIENNE.68. 1999. Jacques. Marcel. Lúcia. SAMAIN. Passo Fundo: Ediupf. Realidades e ficções na trama fotográfica. Rio de Janeiro. História e memória. KOSSOY. Rio de Janeiro: Zahar. NÖTH. DUBOIS. Márcia (orgs.). 1990. Boris.21-38.5.3. p. semiótica. v. 1992. Imagem – Cognição. Memória e (Res) sentimento: indagações sobre uma questão sensível.10.3. n.205-220. 2007 . Imagens de velhice. Londrina. Memória e identidade social. discursos fotográficos. UNICAMP.200-212. 1988. 1993. FÉLIX. v. Campinas: Papirus. A memória coletiva. Campinas. Etiene. Philippe. Campinas: Ed. 1998.219 BRESCIANI. Os mestres da verdade.ed.ed. Fabiana. n. Cadernos do CEDES. BRUNO. POLLACK. São Paulo: Vértice. Stella e NEXARA. n. São Paulo: Ateliê Editorial. 5. 2006. Michael. 1999. v. LE GOFF. História e memória: a problemática da pesquisa. p. Maurice. Winfried. imagens da infância: formas que se pensam. HALBWACHS. SANTAELLA. São Paulo: Iluminuras. Campinas: UNICAMP. Revista Estudos Históricos. mídia. 2.

1995. v. Percursos de memórias em terras de história: problemáticas atuais. Memória e (Res) sentimento: indagações sobre uma questão sensível. Rio de Janeiro: Rocco.3.220 SEIXAS. NEXARA. Maria Inez. p. Jacy Alves de.205-220. discursos fotográficos. Campinas: UNICAMP. Londrina.). 2007 . Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839-1889). In: BRESCIANI. Stella. n. Márcia (Org.3. 2001. TURAZZI.

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