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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

VIDAS

PASSAGEIRAS

O passado, o presente e o futuro da imigração japonesa

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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

VIDAS

PASSAGEIRAS

O passado, o presente e o futuro da imigração japonesa

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em Assaí, no Paraná, a cidade mais oriental do Brasil POR LEO NISHIHATA, de Assaí

FOTOS DE MAURICIO DE PAIVA

Lanternas enfeitam a praça na festa de aniversário da cidade paranaense. O velho taxista tem saudade dos tempos em que havia muito mais movimento

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Assaí surgiu em 1932, quando os primeiros imigrantes já tinham dinheiro suficiente para comprar terras

grantes, quando os navios desembarcavam trabalhadores

direto para as fazendas de café e algodão. A cidade surgiu em 1932, quando as levas vindas do Ja- pão desde 1908 já haviam acumulado economias suficien- tes para adquirir terras. Nos arredores da cidade de Jataí, a 40 quilômetros de Londrina, o solo era coberto por perobas que hoje só são encontradas nas casas de madeira erguidas em regime de mutirão, com encaixes que dispensam pre- gos. A parte mais acidentada da região foi escolhida como sede da colônia, chamada Assahi (“Sol Nascente” em japo- nês), depois abrasileirada para Assaí. Sem dominar o por- tuguês e com nenhuma infra-estrutura pública, os japone- ses implantaram uma organização independente, que di- vidiu as terras cultiváveis em 12 seções batizadas com no- mes de madeiras, cada uma com seu líder, seu núcleo de famílias, sua escola e seu kaikan, a sede social. “Peroba” foi a primeira delas, e a família Yaoki, uma das pioneiras. Na época uma criança, Shimizu Yaoki ainda vive no mesmo local. De lá observamos o kaikan da seção, anti- go palco de festas, reuniões e eleições que definiam o re- presentante de “Peroba” perante a Laca (Liga das Asso- ciações Culturais), o centro nervoso da comunidade. A pró- pria Assaí só foi reconhecida como município 11 anos depois da cria- ção desse sistema, em 1943. Das 70 famílias japonesas que viviam na seção restam nove, mas a orga- nização continua a mesma: qual- quer comunicado da Laca é trans- mitido para os líderes locais, e estes divulgam a informação para o restante do pessoal. Cairo Kogushi, de 64 anos, um sorridente e comunicativo filho de japoneses, é o atual presidente da Laca. Cairo-san (todos em Assaí adicionam o sufixo san ao nome dos amigos) conversa com Shimi- zu-san a respeito das comemora- ções pelos 76 anos de Assaí. A temática da festa será os 100 anos

de imigração japonesa. Em frente

“N

ishihata wa, kawateru miyoji?” Sabia que isso iria acontecer. A primeira coisa que os idosos de origem japonesa perguntam para al- guém da mesma etnia é pelo sobrenome, emen-

dando na seqüência um rápido teste de proficiên- cia no idioma. Olho desesperado para o filho do meu inter- locutor, que traduz: “Nishihata, sobrenome diferente, né?”. Realmente, meu sobrenome é raro, único entre 1,2 milhão de descendentes no Brasil. Em Assaí, cidade do norte do Paraná onde 14% dos 20 mil habitantes possuem ascen- dência japonesa, nunca houve nenhum Nishihata. Mais que isso: quase não há descendentes com a minha idade, ape- nas um enorme vácuo entre crianças e velhos. Para piorar, não falo uma palavra de japonês. A sensação de estranheza é total, sinto-me como o mais fajuto de todos os sanseis. Mas eis que, como mágica, o monge budista Takanori Imai diz em português razoável, cheio de sotaque: “Já conheci um Nishihata em Tupã, muito tempo atrás”. A ficha cai: é meu avô, só pode ser meu avô, o falecido Bunji Nishihata, comerciante nessa cidade do noroeste paulista nos distan- tes anos 1950. Explodo de entusiasmo, descrevo em ritmo vertiginoso a história da minha família, enquanto o monge me ouve tranqüilo, calado, com um sorriso que parecia di- zer “calma, rapaz, eu sei que você é um dos nossos”. Assaí é assim. Um resquício do passado distante, um tanto hermético, mas que surpreende e emociona ao dia- logar com o presente. Uma experiência muito mais intensa do que passear pelas ruas da Liberdade, em São Paulo, por exemplo. Pois se o famoso bairro oriental da capital paulista marca a presença japonesa nas grandes cidades, Assaí res- gata uma época anterior, comum a todas as famílias de imi-

gata uma época anterior, comum a todas as famílias de imi- Nos arredores da cidade, cafezais

Nos arredores da cidade, cafezais plantados com precisão milimétrica mais parecem jardins

as famílias de imi- Nos arredores da cidade, cafezais plantados com precisão milimétrica mais parecem jardins
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O PIONEIRO
O
PIONEIRO

T radicionalmente, o filho caçula das famílias japonesas está destinado a estudar, enquanto o primogênito dá continuidade aos negócios do pai. Shimizu Yaoki, hoje com 78 anos, abriu mão do privilégio, pois o irmão mais velho sofria com problemas de saúde. O jovem Shimizu preferiu ficar em Assaí, adquiriu o primeiro trator da seção rural “Peroba”, em 1951, acompanhou as mudanças de culturas da região (café, algodão, soja, milho e

frutas) e somente cinco décadas mais tarde conseguiria um diploma de proficiência em japonês, que lhe daria o direito de se tornar universitário no Japão. Shimizu, porém, já decidiu: vai viver em suas terras até o fim.

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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA 78 Aula de canto para senhoras: afinando a tradição que já

Aula de canto para senhoras: afinando a tradição que já não empolga os jovens

ao kaikan desativado, hoje habitado por um par de coru-

jas-brancas, os dois lembram de quando a grande diversão

da comunidade eram as exibições itinerantes de cinema ja-

ponês, feitas por um operador de projetor e um benshi (in- térprete) que se encarregava de dublar todas as vozes dos filmes (homens, mulheres e crianças) em tempo real – não por acaso, os benshis eram considerados os grandes artis- tas da época. Feito de madeira, o kaikan será todo desmon- tado e transferido para a cidade, onde poderá preservar uma parte da história prestes a ser esquecida pelos mais jovens.

O silêncio do rebatedor

O senhor Shimizu possui o rosto vincado e escuro, típico

de quem passou a vida trabalhando na terra, debaixo do sol forte. Aparenta cada um dos seus 78 anos, mas seu vigor é invejável: no final de semana seguinte, estará participan- do da 69ª edição do Campeonato Assaiense de Atletismo. Especializado em arremesso de peso, ele é capaz de lançar um martelo de 5 quilos a 32 metros de distância. Seu con- corrente na categoria de veteranos, porém, é o atleta mais vitorioso da cidade: Mário Hurakuri, 59 anos, invejável físico de garoto e mais de 250 medalhas e troféus conquis- tadas em 42 anos de competição. Tudo em Assaí remete à longevidade – inclusive os re- cordes. Mário, especialista no plantio de abacates, tem a melhor marca intercolonial dos 800 metros rasos desde 1971. No campeonato da cidade, o recorde dos 5 mil metros não é batido desde 1947! O torneio, uma seletiva para os jogos paranaenses, reunia mais de mil atletas locais em seu auge. Hoje, o número caiu para menos de 300. Mário Hurakuri, que já disputou pan-americanos da colônia ja-

ponesa no Peru, sabe que o es- vaziamento é inevitável. “É um fenômeno natural, poucos jovens se interessam. Além disso, qua- se todo mundo só pensa em ir para o Japão trabalhar”, lamenta. “Não tenho nem mais passagei- ro para levar ao aeroporto de Londrina”, confirma João Ono, taxista na cidade desde 1960. Dos milhares de assaienses que foram ao Japão atrás de es- tabilidade financeira, dois aca- baram de voltar após 17 anos vivendo como dekasseguis. São o casal Alice e Massakatu Konda. “Aqui a cidade é uma família, o céu fica mais perto da gente, dá para ver as estrelas”, explica Ali-

ce, num belo final de tarde. Seu marido, Massakatu, mais conhecido como Candinho, já foi um dos melhores rebatedores de beisebol do Brasil. O bei- sebol (que entre os descendentes é chamado de yakyu) deu

a Assaí um time respeitável, capaz de rivalizar e bater cida- des muito maiores, como Maringá, Londrina, Bastos, Mogi das Cruzes e até São Paulo. Ex-jogador da seleção brasilei- ra e ex-treinador do time da cidade, Massakatu não se con- sidera um saudosista. Porém, quando nos acompanhou até

o campo de beisebol local, praticamente abandonado, com

arquibancadas desabando, placar em ruínas e nenhuma marcação, seu corpo paralisou. Há 17 anos ele não entra- va no local. Seus olhos fitaram todo o cenário demorada- mente, num silêncio profundo, só interrompido por Cló- vis Yohara, seu antigo jogador. “Acabou Candinho, aca- bou”, consolou Clóvis. O beisebol em Assaí terminou por falta de praticantes

– algo inacreditável para as lembranças de Massakatu, mas

compreensível dentro de um processo de esvaziamento do qual ele mesmo participou. Logo surgem memórias do tí- tulo brasileiro de 1962, conquistado em São Paulo. “Na volta, desfilamos a pé pela avenida, com os uniformes ain- da sujos. O comércio fechou”, rememora Massakatu, que

da sujos. O comércio fechou”, rememora Massakatu, que Nos bons tempos havia até filmes dublados ao

Nos bons tempos havia até filmes dublados ao vivo em japonês. Hoje a tradição só sobrevive entre os idosos

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O INTELECTUAL L eitor voraz de livros sobre a política e os índices socioeconômicos do

O INTELECTUAL

L eitor voraz de livros sobre a política e os índices socioeconômicos do Japão, Teruhiko Kumata nasceu em

Hiroshima, em 1930, mas sua família veio para o Brasil bem antes que a bomba atômica mudasse para sempre a história da cidade. Naturalizado brasileiro, o diretor de educação da Laca acaba de ler a Bíblia e se converteu ao catolicismo. Razão: seus filhos e netos já foram batizados. “É mais fácil eu

e minha esposa mudarmos do que todos eles se tornarem budistas, não é?”

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Jogo de sinuca cantado em japonês com o sotaque rural do norte do Paraná: só
Jogo de sinuca cantado em japonês com o sotaque rural do norte do Paraná: só mesmo em Assaí

conheceu sua esposa na mesma época, quando Alice foi eleita a Miss Yakyu da cidade. Finalmente, o veterano joga- dor treina – e acerta – algumas rebatidas lançadas por Cló- vis. Enquanto isso, sua mulher assiste a tudo, sentada na mesma arquibancada que freqüentou por anos, com a expressão de quem está vendo a vida inteira passar ali, na sua frente. “Isto aqui ficava lotado de gente, até no barran- co. Ele era um ídolo, todas as meninas queriam namorá- lo”, diz Alice, feliz com a lembrança. O auge do atletismo e do beisebol em Assaí coincide com o esplendor financeiro da cidade, na década de 1960, quando ficou conhecida como a capital brasileira do algo- dão. Levas de nordestinos chegaram na época em cami- nhões paus-de-arara para trabalhar nas plantações, elevan- do a população para um pico de 50 mil habitantes nos anos 1970, mais que o dobro do número atual. Desde então, Assaí nunca mais foi tão japonesa. Ainda assim, bastam alguns minutos de caminhada para encontrar 21 estabelecimentos com nomes japoneses nos 300 metros da única avenida da cidade. O assaiense pode tranqüilamente passar a vida fazendo compras no Super-

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Em 300 metros de avenida há 21 lojas com nome japonês. O assaiense pode passar a vida sem falar português

mercado Sato, cortar as madeixas na Midori Cabeleireira, trocar os óculos na Ótica Toda, consertar o carro no Auto- elétrico Maedinha e até encomendar o caixão na Funerária Fukugawa. Mesmo nos estabelecimentos aparentemente ocidentais, como o Bar Nossa Senhora de Aparecida, nota- se que a mulher servindo pinga é japonesa, os jogadores de sinuca conversam em japonês e até o apostador do jogo de bicho tem olhos puxados. Papeando nesse bar, chama a atenção Carlos José da Sil- va, o alegre Carlão, um pernambucano com botas de cou- ro, chapéu de vaqueiro e vistosa camiseta azul da seleção japonesa de futebol. “Fui o primeiro negro a casar com uma

ro, chapéu de vaqueiro e vistosa camiseta azul da seleção japonesa de futebol. “Fui o primeiro
O ATLETA
O
ATLETA

S uas mãos calejadas são idênticas às de quem, assim como ele, passou a vida trabalhando no campo. O físico de Mário Hurakuri, 59 anos, porém, sempre foi um diferencial, e motivo de orgulho da colônia. Nas décadas de 1960 e 1970, Mário tornou-se o fundista a ser batido no Paraná – somente nos campeonatos intercoloniais brasileiros havia adversários à altura. Atleta mais conhecido da história de Assaí, o atual

diretor de atletismo da Laca tem como maior orgulho a pupila Maria Shigeoka Rostirolla, recordista sul-america-

na de salto triplo na categoria acima dos 45 anos.

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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA 82 Ao ouvir Hiroíto negar seu caráter divino, Furuta vagou dez

Ao ouvir Hiroíto negar seu caráter divino, Furuta vagou dez anos pelo mundo até chegar ao Brasil

japonesa aqui na cidade, em 1975”, explica ele. Se na época a simples mistura com ocidentais ainda era polêmica, o re- lacionamento de uma japonesa com um negro atiçou as más linguas de Assaí. “Diziam que com negro não podia. Pois fugi com ela para Londrina, casamos no cartório e estamos juntos até hoje”, conta Carlão, corretor de imó- veis, pai de quatro filhos mestiços, três deles trabalhando

no Japão. “Meu sonho é ir pra lá também, viu?”, confessa.

Assim como Carlão e a maioria dos pais de Assaí, a dona do bar, Aparecida Tanagawa, tem sete filhos dekasseguis.

A ausência de jovens é flagrante entre os voluntários

encarregados de montar o aparato para a festa do aniver- sário da cidade. Veteranos diretores da Laca assumem o trabalho braçal e vão distribuíndo as faixas, barracas, pa- lanques e luminárias. Nas escolas de língua japonesa (nihongô), boa parte dos alunos é de adultos prestes a em- barcar para o trabalho no Japão. Por tudo isso, a atividade comunitária do agricultor Teruhiko Kumata, 78 anos, é talvez a mais desafiadora, hon- rada – e melancólica. Diretor de educação da Laca, sua mis- são é preservar a língua japonesa e toda uma cultura edu- cacional para os mais jovens. “Fomos ensinados a traba- lhar não para nós mesmos, mas para os outros, para o mundo”, explica o japonês que veio ao Brasil com 6 anos de idade. Na época, as professoras de Kumata tinham de bri- gar para que os alunos não falassem japonês durante a aula. Nos últimos dez anos, porém, o número de alunos de uma das escolas de nihongô caiu de 100 para apenas 19. “Os fi- lhos de descendentes mudaram bastante, hoje possuem

vontade própria. Não chegam a ser rebeldes, mas não admitem imposições dos mais velhos”, constata a professora Maria Antônia Ayako Izo.

O velho kamikaze

A poucos quilômetros dali, na se- ção rural “Palmital”, vive o exem- plo mais radical da educação ja- ponesa: o produtor de frutas Kikuo Furuta. Nascido em 1930 em Wakaiama, no Japão, ele fez parte da geração que, em plena Segunda Guerra Mundial, foi doutrinada nos moldes da tokkotai – a juventude cujo lema era dar a vida ao país e ao impe- rador, e que forneceu o grosso dos aspirantes a kamikazes. Furuta,

cujo sorriso fácil e rugas enormes raramente o permitem ficar de olhos abertos, só consegue reavivar suas lembranças quando fala em japonês. “Tudo na nossa sociedade nos levava a entrar para a tokkotai. Minha cidade foi atacada e quase toda destruída por bombardeiros. Via mortos empilhados no meio da roça.” No dia 15 de agosto de 1945, quando Hiroíto fez o primeiro pronunciamento público de um imperador japonês na histó- ria, declarando a rendição do Japão e negando o seu caráter divino, o impacto no adolescente Furuta foi tão devastador que ele passou os próximos dez anos vagando sem rumo, até que um tio lhe sugerisse viajar para o Brasil. Hoje, ele enaltece a liberdade do modo de vida brasileiro, e a oportunidade de ter passado sua vida trabalhando no campo – algo quase impossível de se conseguir no minúsculo território japonês. É no entorno de Assaí, nos caminhos para as seções ru- rais, que se encontram as grandes belezas da região. Rara- mente vemos pasto – em vez disso, plantações de trigo pa- recidas com campos de futebol ondulados e cafezais milimetricamente organizados contrastam com o branco límpido dos campos de algodão e a estrutura suspensa dos pés de uva sem sementes. “Depois de tanto tempo, conti-

pés de uva sem sementes. “Depois de tanto tempo, conti- Quase todas as famílias têm filhos

Quase todas as famílias têm filhos no Japão. Não fossem os veteranos, não haveria como organizar as festas

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O LÍDER
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LÍDER

C om simpatia e conhecimento da região, o presidente da Laca é o guia perfeito para conhecer as sutilezas de Assaí. Junto com a esposa, dona Yoko, Cairo Kogushi vive na seção “Palmital”, cultiva hábitos tipica- mente japoneses (como o ofurô, a banheira de água quente em estilo japonês), mas é brasileiro de espíri- to. Quando perguntamos se ele iria vestir uma roupa de samurai na festa de aniversário da cidade, onde

içou a bandeira japonesa, respondeu na lata: “Vou com um terno verde-amarelo”.

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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA 84 O agito no aniversário da cidade: japoneses ainda dão o

O agito no aniversário da cidade: japoneses ainda dão o tom

A maioria, porém, segue para Londrina, Curitiba, São Paulo ou mesmo para o Japão logo após completar 18 anos. As associações de moços, tão importantes em décadas passadas, hoje não existem mais. As únicas ações capa- zes de reunir e entusiasmar a juventude são a banda de rock Hikari (formada por descen- dentes, não foge à regra local de ter um coor- denador) e o taikô, a música japonesa tradicio- nal tocada com tambores de diversos tamanhos. Quando a festa pelos 76 anos da cidade come- ça, jovens vestidos de quimono fixam os pés no chão, erguem os braços e iniciam o batuque ritmado do taikô. “É o som do coração”, exulta Vanessa Yoshida, uma das organizadoras. Logo as mulheres e homens da região, todos vesti- dos a caráter, organizam-se para a dança do bon odori, uma seqüência rígida de passos con- tidos, singelos e repetitivos, que se desenrola em círculos ao redor dos tambores. A progres- são é lenta: para cada três passos adiante, se- guem-se dois para trás, acompanhados por movimentos suaves de mãos e braços. As batidas em alto volume mexem com o corpo e atraem pessoas de todas as cores e na- cionalidades. Até adolescentes com camisetas pretas da banda Iron Maiden entram na roda. Os movimentos são sutis, mas surpreenden- temente catárticos, e quando percebemos o ri- tual já dura mais de duas horas, sem parar. É quando os mais velhos retiram-se para des-

cansar, e as batidas tornam-se mais rápidas e ousadas, no estilo chamado de matsuri dance

nuo me emocionando, principalmente nas noites de lua cheia”, diz Cairo Kogushi, o presidente da Laca, morador de “Palmital”. Sua esposa, dona Yoko, nos prepara um ver- dadeiro banquete com delícias locais: salada fresquinha, cozido de legumes orientais, tofu (queijo de soja) caseiro, uma seleção de vegetais e frutas para o preparo de temakis (sushis em forma de cone) e um delicioso missoshiru (sopa de soja), finalizado por laranjas e caquis colhidos na hora.

Funk japonês

Um dos filhos do casal, Lídio, é dos raríssimos jovens assaienses que escolheram como destino continuar o tra- balho dos pais no campo. Formado em agronomia e com estágio em fazendas da Califórnia, nos EUA, Lídio explica que seu trabalho é fruto da esperança. “Nós lidamos com a natureza, e cada ano é uma história diferente. Quando plan- tamos, torcemos para dar certo. E se tudo vai bem e a co- lheita rende, a sensação é maravilhosa.”

– uma legítima invenção do norte do Paraná. Agora, os

jovens na faixa dos 13 aos 18 anos dominam não apenas os tambores, mas a roda de dança. Celulares com câmeras disparam a todo momento, e logo surgem as primeiras palmas da mão, giros de corpo, mãozinhas no joelho, li- geiras reboladas de cintura, dedinhos para cima, reque- brando os quadris. Um desavisado poderia jurar que se trata de um funk, mas não – é apenas a história ditando

o seu ritmo inevitável.

A música é a grande diversão dos jovens. Mas nem a banda de rock local escapa à regra de ter um coordenador

A música é a grande diversão dos jovens. Mas nem a banda de rock local escapa

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Plantação de soja: a economia local depende totalmente do campo
Plantação de soja: a economia local depende totalmente do campo

CARTA DE NAVEGAÇÃO+CARTA DE

depende totalmente do campo CARTA DE NAVEGAÇÃO +CARTA DE COMO CHEGAR É possível ir de avião

COMO CHEGAR

É possível ir de avião até Londrina, para depois encarar um trecho

rápido da PR-090 (46 km). Quem for de carro segue no sentido oeste (vindo de São Paulo) pela Rodovia Castelo Branco até a cidade de Ourinhos, e de lá vira para o sul na direção de Londrina pela BR-269. Antes de chegar a Londrina, deve-se pegar a rodovia PR-090. Todas elas estão em perfeitas condições de tráfego.

QUANDO IR

Além do aniversário da cidade, em 1º de maio, o grande evento de Assaí ocorre no mês de junho: é a Exposição Agrícola de Assaí,

a mais antiga do gênero no Brasil, ocasião perfeita para conhecer os

produtos, as frutas e a cultura da região (ambos intimamente ligados

à imigração japonesa).

ONDE FICAR

A única opção de hospedagem da região é o Hotel Sol Nascente, na Rua

Manoel Ribas, 744, tel. (43) 3262-1562. Apesar do nome, o proprietário é

um descendente de italianos. Todos os quartos possuem ar-condicionado, frigobar e internet wi-fi, mas não há restaurante no local.

Assaí SP PR SC
Assaí
SP
PR
SC

Assaí fica no norte do Paraná, a 46 km de Londrina. Calcula-se que pelo menos um em cada sete habitantes locais seja descendente de japoneses

DICA DO AUTOR

“Não se deixe intimidar pelo primeiro contato quase sempre frio e desconfiado dos descendentes de japoneses de Assaí. Isso não é grosseria, mas apenas timidez. Uma vez quebrado o gelo, as conversas com os locais serão muito ricas e saborosas.

O entorno da

cidade e suas seções rurais são

a parte mais

cativante da região: não deixe de visitá-las demoradamente.“

e suas seções rurais são a parte mais cativante da região: não deixe de visitá-las demoradamente.“

Leo Nishihata

e suas seções rurais são a parte mais cativante da região: não deixe de visitá-las demoradamente.“