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MARCELO DASCAL

(ORG.)

FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS DA LINGUISTICA

VOLUM E

|V

PRAGMÁTICA'

P:RO:BI:EMA§,

B1B1IDGIRAIFIA

M.

DASCAL

Y.

BAR-HILLEL

E.

BENVENISTE

R.

C. STALNAKER

H.

P. GRICE

C.

F. HOCKETT

DA LINGUISTICA

W.

V. O. QUINE

N.

CHOMSKY

J.

J. KATZ

R.

C. DOUGHERTY

D.

PARISI

C.

CASTELFRANCHI

H.SCHNELLE

CAMPINAS

1982

r

Emile Benveniste

A NATUREZA DOS PRONOMES*

No debate sempre aberto sobre a natureza dos prono- ~ses, tem-se o hábito de considerar estas formas linguísticas x~to constituindo uma mesma classe formal e funcional; à —õ-,eira, por exemplo, das formas nominais ou das formas .«r-oais. Ora, todas as línguas possuem pronomes e em todas -os os definimos como se relacionando às mesmascategorias ré expressão (pronomes pessoais, demonstrativos, etc). A -niversalidade destas formas e destas noções leva a pensar rue o problema dos pronomes é ao mesmo tempo um proble- —a de linguagem e um problema de línguas, ou melhor, que ee só é um problema de línguas porque é, em primeiro lugar, _am problem a de linguagem. É como fat o de linguagem que TOS o poremo s aqui , par a mostra r que os pronomes não constituem uma classe unitária, mas espécies diferentes de acordo com o modo de linguagem da qual eles são os signos. Uns pertencem à sintaxe da língua, outros são característicos naquilo que chamaremos 'ocorrências de discurso', isto é,

ci atos discretos e sempre únicos pelos quais a língua é atuali-

zada em fala por um locutor. Deve-se considerar de início a situação dos pronomes pessoais. Não basta distingui-los dos outros pronomes por uma denominação que os separe deles. É preciso ver que a Definição habitual dos pronomes pessoais como contendo

* "La Nature dês Pronoms", in Problèmes de Linguistique Générale Paris: Gallimard, 1966), 251-257; também publicado emí For Roman Jakobson, t*outon & Cie. Agradecemos ao autor e à Moutori & Cie pela permissão dada asra traduzir e publicar o presente texto.

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os três termos eu, tu, ele exclui justamente a noção de 'pes- soa'. Esta é característica de eu/tu, e falta em ele. Esta dife- fença essencial ficará clara na análise de eu. Entre eu e um nome que se refere a uma noção lexical não há somente as diferenças formais, muito variáveis, que são impostas pela estrutura morfológica e sintética das línguas particulares. Há outras, que têm a ver com o próprio processo da enunciação linguística e que são de uma natureza mais geral e profunda. O enunciado contendo eu pertence ao nível ou tipo de linguagem que Charles Morris chama pragmá- tica, que inclui, além dos signos, aqueles que os utilizam. Pode-se imaginar um texto linguístico de grande extensão— um tratado científico, por exemplo — onde eu e tu não apare- çam nenhuma vez; inversamente seria difícil conceber um breve texto falado onde eles não fossem empregados. Mas os outros signos da língua se repartiriam indiferentemente entre estes dois géneros de textos. Fora desta condição de emprego, que já é distintiva, apontaremos uma propriedade fundamen- tal, e aliás evidente, de eu e tu na organização referencial dos signos linguísticos. Cada ocorrência de um nome se refere a uma noção constante e 'objetiva', apta a permanecer virtual ou a se atualizar num objetivo singular, e que continua sempre idêntica na representação que ela evoca. Mas as ocorrências de eu não constituem uma classe de referência, uma vez que não há 'objeto' definível como eu ao qual possam remeter identicamente tais ocorrências. Cada eu tem sua referência própria, e corresponde cada vez a um ser único, posto como tal. Qual é então a 'realidade' à qual se referem eu e tu? Tão somente uma 'realidade de discurso', o que é coisa muito singular. Eu não pode ser definido senão em termos de 'locu- ção,', não em termos de objetos, como é definido um signo nominal. Eu signrfica "a pessoa que enuncia a presente ocor- rência de discurso contendo eu". Ocorrência única por definição, é válida somente em sua unicidade. Se eu percebo duas ocorrências sucessivas de discurso contendo eu, proferi- das pela mesma voz, nada me assegura que uma delas não seja um discurso relatado, uma citação onde eu seria imputável a

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;utrem. Deve-se pois assinalar o seguinte ponto: eu não pode x' identificado senão pela ocorrência onde ele é produzido. Mas, paralelamente, é também enquanto ocorrência da forma su que ele deve ser tomado; a forma eu não tem existência

'i-gúística senão no ato de fala que a profere. Existe portan- to, neste processo, uma dupla ocorrência conjugada:ocorrên- ca de eu como referente, e ocorrência de discurso contendo

f- como relatado. A definição pode então ser precisada da

ãeçuinte maneira: eu é o "indivíduo que enuncia a presente ocorrência de discurso contendo a ocorrência linguística eu". -z- conseguinte, introduzindo a situação de 'alocução', ;ctém-se uma definição simétrica para tu, como o "indivíduo

= ;_e se dirige a alocução na presente ocorrência de discurso

r: "tendo a ocorrência linguística tu". Estas definições visam a?_ e t u com o categoria s d a linguage m e referem-s e à su a :•:; cão na linguagem. Não se considera as formas específicas resta categoria nas línguas dadas, e pouco importa que estas ~~*ias devam figurar explicitamente no discurso ou possam :*-~]anecer implícitas nele. Esta referência constante e necessária à ocorrência de asc-rso constitui o traço que une a eu/tu uma série de r : cadores' que dizem respeito, por sua forma e suas possi- :.• csde s combinatórias , a classes diferentes , uns pronomes , :»-""cs advérbios, outros ainda, locuções adverbiais.

Tais são primeiramente os demonstrativos este, etc. na «ecida em que são organizados correlativamente aos indica- aci^s de pessoa, como no latim hic/iste. Há aqui um traço

iene e distintivo desta série: é a identificação do objeto por

ur- ndicador de ostensão concomitante à presente ocorrên-

ra zs discurso que contém o indicador de pessoa: este será

: ;: eto designado por ostensão concomitante à presente

ac-éncia de discurso, porquanto a referência implícita na x—(por exemplo, h/c oposto a iste) o associa a eu, tu. -:": aesta classe, mas no mesmo plano e associados à mesma ierç--éncia, encontramos os advérbios aqui e agora. Colocar- a~~ em evidência sua relação com eu, definindo-os: aqui e m:'~s delimitam a ocorrência espacial e temporal coextensiva * =:":emporânea da presente ocorrência de discurso conten-

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do eu. Esta série não é limitada a aqui e agora; ela é acrescida por um grande número de termos simples ou complexos que procedem da mesma relação: hoje, ontem, amanhã, daqui a três dias, etc. De nada serve definir estes termos e os demons- trativos em geral pela dêixis, como se faz, se não se acrescenta que a dêixis é contemporânea da ocorrência de discurso que contém o indicador de pessoa; desta referência o demonstra- tivo tira o seu caráter cada vez único e particular, que é a unidade de discurso à qual ele se refere. O essencial é portanto a relação entre o indicador (de pessoa, de tempo, de lugar, de objeto mostrado, etc.) e a presente ocorrência de discurso. Porque, a partir do momento em que não se visa mais, pela própria expressão, a esta relação do indicador à ocorrência única que o manifesta, a língua recorre a uma série de termos distintos que correspondem um a um aos primeiros e que se referem, não mais à ocorrência de discurso, mas aos objetos 'reais', aos tempos e lugares 'históri- cos'. Daí as correlações tais como: eu : ele, aqui: lá, agora :

então, hoje : naquele dia, ontem : na véspera, amanhã : no dia seguinte, na próxima semana : na semana seguinte, há três dias : três dias antes, etc. A própria língua revela a diferença profunda entre estes dois planos. Tem-se tratado muito levianamente e como óbvia a referência ao 'sujeito falante' implícita em todo este grupo de expressões. Esta referência fica esvaziada de sua significação própria se não se discerne o traço pelo qual se distingue dos outros signos linguísticos. É ainda assim um fato ao mesmo tempo original e fundamental que estas formas 'pronominais' não remetam nem à 'realidade' nem a posições 'objetivas' no espaço e no tempo, mas sim à enunciação, cada vez única, que as contém, e reflitam assim seu próprio emprego. A importância será medida pela natureza do problema que elas se prestam a resolver, e que não é outro senão aquele da comunicação intersubjetiva. A linguagem resolveu estes problemas criando um conjunto de signos 'vazios', não refe- renciais em relação à 'realidade', sempre disponíveis, e que se tornam 'cheios' desde que um locutor os assuma em cada ocorrência de seu discurso. Desprovidos de referência mate-

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-aí, eles não podem ser mal empregados; nada afirmando,

-se estão submetidos à condição de verdade e escapam a toda

~r

sificação. Seu papel é fornecer o instrumento de uma

x

-versão, que se pode chamar de conversão da linguagem em

:

;:jrso. É identificando-se como pessoa única que pronuncia

f-- a je cada um dos locutores se coloca alternadamente como sJeito'. O emprego tem portanto como condição a situação DÍ "'scurso e nenhuma outra. Se cada locutor, para exprimir

: sentimento que ele tem de sua subjetividade irredutível,

: :3<jsesse de um 'prefixo' distinto (no sentido de que cada

s~.xão de transmissão radiofónica possui seu 'prefixo' rrcprio), haveria praticamente tantas línguas quanto indiví- auc-s e a comunicação tornar-se-ia estritamente impossível.

•*• nguagem previn e este perigo instituind o um signo único , TSS móvel, eu, que pode ser assumido por cada locutor, com

remeta cada vez à ocorrência de seu

z-tpno discurso. Este signo está portanto ligado ao exercício rã inguagem e aponta o locutor como tal. É esta proprieda- re :-e fundamenta o discurso individual, em que cada locu- ~ - assume para si a linguagem inteira. O hábito nos torna ^ ^ mente insensíveis a esta diferença profunda entre a ircjagem como sistema de signos e a linguagem como exercí- ~c :>elo indivíduo. Quando o indivíduo se apropria dela, a rc_agem se transforma em ocorrências de discurso, caracte-

-zadas por este sistema de referências internas cuja chave é

i. e quedefine o indivíduo pela construção linguística parti-

~ã' de que ele se serve quando se enuncia como locutor. -^ n os indicadores eu e tu não podem existir como signos ••-r.ais, eles só existem enquanto são atualizados na ocorrên- ic ré discurso, onde marcam por cada uma de suas próprias :«r "éncias o processo de apropriação pelo locutor. O caráter sistemático da linguagem faz com que a K.CZ z nação assinalada por estes indicadores se propague na nr—éncia de discurso a todos os elementos suscetíveis de =i-.:ordar formalmente com ele; antes de tudo, ao verbo, por ;r-;orc'imentos variáveis segundo o tipo de idioma. Deve-se «ssr;r sobre este ponto: a 'forma verbal' é solidária da ocor- •srca individual de discurso no sentido de que ela é sempre e

í rendição de que ele só

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necessariamente atualizada pelo ato de discurso e está na dependência deste ato. Ela não pode comportar nenhuma forma virtual e 'objetiva'. Se o verbo é usualmente represen- tado por seu infinitivo como entrada lexical para inúmeras línguas, é pura convenção; o infinitivo na língua nada tem a ver com o infinitivo da metalinguagem lexicográfica. Todas as variações do paradigma verbal, aspecto, tempo, género, pessoa, etc. resultam desta atualização e desta dependência em relação à ocorrência de discurso, notadamente o 'tempo' do verbo, que é relativo à ocorrência em que a forma verbal figura. Um enunciado pessoal finito constitui-se portanto sobre um duplo plano: ele aciona a função denominativa da

linguagem para as referências de objeto que esta estabelece como signos lexicais distintivos, e ajusta estas referências de objeto com a ajuda de indicadores auto-referenciais corres- pondentes a cada uma das classes formais que o idioma reconhece. Mas é sempre assim? Se a linguagem em exercício se produz necessariamente em ocorrências discretas, esta neces- sidade a destina também a só consistir em ocorrências 'pes- soais'? Sabemos empiricamente que não. Há enunciados de discurso, que a despeito de sua natureza individual, escapam

à condição de pessoa, isto é, remetem não a eles próprios,

mas a uma situação 'objetiva'. É o domínio do que se chama 'terceira pessoa'. A 'terceira pessoa' representa na realidade o membro não marcado da correlação da pessoa. É por isto que não há truismo em afirmar que a não-pessoa é o único modo de enunciação possível para as ocorrências de discurso que não devem remeter a si mesmas, mas que predicam o processo a respeito de quem quer que seja ou o que quer que seja exceto

a própria ocorrência, podendo este quem quer que seja ou o

que quer que seja ser munidos de uma referência objetiva. Assim, na classe formal dos pronomes, pronomes ditos de 'terceira pessoa' são inteiramente diferentes de eu e tu, por sua função e por sua natureza. Como já se viu há muito tempo, as formas tais como ele, ela, aquilo, etc. só servem na

qualidade de substitutos abreviativos ("Pedro está doente;

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«•

L

*E --'- -ebre"); eles substituem ou ligam um ou outro dos mere—rs materiais do enunciado. Mas esta função não

ela pode ser desempenhada

jasr r e-entos de outras classes; no caso, em português, por «r—>: .erbos ("esta criança escreve melhor agora do que o TC= ~c ano passado"). É uma função de 're-apresentação'

Tfr~=- :-r somente aos pronomes;

ar-?- -3 q u e se estende assim a termos tomados nas diferen-

do discurso' , e que responde à necessidade de

xnr : - a, substituindo um segmento do enunciado, e mesmo MT í-"_"ciado inteiro, por um substituto de manuseio mais *c i Mo há portanto nada em comum entre a função destes

ie=

-.i~.es

tutos e a dos indicadores de pessoa. 1-e a 'terceira' pessoa seja de fato uma 'não-pessoa', : :diomas o demonstram literalmente (Benveniste, Para tomar somente um exemplo entre muitos, eis se apresentam os prefixos pronominais possessivos nas sé'ies (aproximadamente inalienável e alienável) do

í Califórnia): 1a pessoa ?-, ?an^-; 2? pessoa m-, man^-;

-.-:a zero, rr- (Halpern, 1946, p. 246). A referência de

:; é a referência zero fora da relação eu/tu. Em outros :5 (indo-europeus principalmente), a regularidade da .'a formal e uma simetria de origem secundária dão a são de três pessoas coordenadas. É notadamente o caso •guas modernas com pronome obrigatório onde ele

3E-r-:í à semelhança de eu e tu, membro de um paradigma

r:

- :-és termos; ou da flexão do presente indo-europeu, com

*-

-; . -ti. Na realidade, a simetria é somente formal. O que é

ÍHBCSO considerar como distintivo da 'terceira pessoa' são as ir:;-;dades : 1?) de se combinar com qualquer referência de ctoetc; 2a) de nunca ser reflexiva da ocorrência de discurso; 3* :e comportar um número por vezes bastante grande de «ars-tes pronominais ou demonstrativas; 4a) de não ser

paradigma dos termos referenciais tais

n —:;:ível com o

=JT-.: aqui, agora, etc.

Uma análise, mesmo sumária, das formas classificadas nd•••—. ntament e como pronominais , leva portant o a reconhe- 3^ ; classes de natureza completamente diferente, e por

r ->r:uinte, a distinguir, de um lado, entre a língua como um

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repertório de signos e sistema de suas combinações, e, de outro, a língua como atividade manifestada nas ocorrências de discurso que são caracterizadas como tais por índices próprios.

(Traduzido por Rosa Attié Figueira)

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