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Lisboa Especial Aniversário 5 de Março de 2015 Veja mais em: www.publico.

pt/25anos

Com a participação
especial de:
Marina Cortês
Rui Cardoso Martins
Vítor Cardoso
Carlos Fiolhais
Alexandre Melo

DAR
Bárbara Reis

TEMPO
AO
“Como seria um
jornal se o tempo
fosse mais como
o espaço, algo
com recantos
EDIÇÃO e cantinhos
GRÁTIS por explorar?
Um cataclismo
narrativo, por certo.
Ou talvez não”
João Magueijo

TEMPO
Director por um dia

ISNN:0872-1548

Ano XXVI | n.º 9090 | Directora: Bárbara Reis | Directores adjuntos: Nuno Pacheco, Simone Duarte, Pedro Sousa Carvalho, Áurea Sampaio | Directora de Arte: Sónia Matos

dabf2fbe-c845-4a37-993c-f9b054237598
N
do último quarto de século. O “+1” refere-se
ao ano em que o PÚBLICO fez jornais antes
de sair para as bancas, fazendo números
zero, como aquele que registou a queda do
Muro de Berlim. Temos muito orgulho nesse
“zero” que os leitores nunca viram. Ficou-nos
atravessado. Estes 25+1 são momentos em que
o tempo histórico acelerou ou regrediu. Ou
simplesmente parou. O jornalista e escritor
Rui Cardoso Martins, que fez parte da equipa
fundadora do jornal, escreve sobre a nossa
história. A cosmóloga Marina Cortês conta
como quase morreu a pensar em Einstein. O
astrofísico Vítor Cardoso leva-nos num passeio
sobre a nossa visão do Universo ao longo do
último século. O físico Carlos Fiolhais faz luz

Um guia
sobre o grande legado de Einstein. Alexandre
o Ano Internacional da Luz e dos 100 anos Melo junta ópera, futebol e folclore num
da teoria da relatividade geral de Einstein, o momento só. Brasil, é claro. Como a velocidade
PÚBLICO escolheu o Tempo como tema para de rotação da Terra está a abrandar, de vez em
celebrar os 25 anos do jornal e convidou o quando os relógios atómicos de todo o mundo

para uma
físico teórico João Magueijo para director por precisam de ser atrasados um segundo — o
um dia desta edição especial. que voltará a acontecer este ano. Explicamos
A festa vai concentrar-se em quatro dias, como. Hoje viver sem luz não é romântico. É
de quinta (dia 5) a domingo (dia 8), mas vai uma realidade dura que alguns portugueses
prolongar-se até 2016. conhecem. Procure a reportagem.

edição
Quando decidimos celebrar a ciência, área de O caminho é longo. Trabalho. Apostas na
saber à qual o PÚBLICO sempre deu enorme bolsa. Os recordes desportivos. E já foi ao site
valor, percebemos que íamos mergulhar do PÚBLICO? Vale a pena. Espreite o vídeo
num processo de desmultiplicação. Mas não Um dia normal. Nunca fizemos nada assim.
antecipámos que o tempo, tão abstracto O vídeo tem 1440 minutos, tantos quantos

diferente
e avassalador, nos levasse a caminhos tão os que cabem em 24 horas. É um mosaico
radicais. Nem o grafismo resistiu. de Portugal em 2015. Há um minuto de uma
Como se tivéssemos parado o tempo, cirurgia ao coração, um minuto de alguém que
esta edição é um caso único — e talvez uma faz as malas antes de uma volta ao mundo, um
antecipação do futuro. Prepare-se para minuto de Adriana Calcanhotto, directora da
a viagem. Não será preciso um cinto de edição de aniversário do PÚBLICO de 2014,
segurança. Mas a experiência deste jornal antes de entrar no palco na Gulbenkian, um
Por Direcção Editorial exige um manual de instruções novo. Não vai minuto de um sem-abrigo a dormir na rua. E a
encontrar as secções tradicionais, mas sim três festa não acaba hoje. Amanhã, o Ípsilon publica
grandes blocos — tempo de tudo, tempo de um longo texto sobre The Clock, de Christian
agora e tempo das últimas 24 horas. As “notícias Marclay (hoje, temos uma entrevista ao artista);
de ontem”, o breaking news, estão no fim. no sábado a Fugas dá uma volta ao mundo em
Estamos a preparar esta edição de 112 27 dias e mergulha no futuro. E no domingo
páginas desde o ano passado. Este é o nosso a revista 2 entrevista 11 portugueses “fora do
presente de anos para si. Inclui textos e tempo”, escolhidos pelo físico Carlos Fiolhais, e
entrevistas dos convidados de João Magueijo, antecipa, pela voz de 22 especialistas, Portugal
um generoso presente do arquitecto em 2040. A propósito do futuro, vamos
Álvaro Siza, História aos quadradinhos (ou enterrar, em parceria com a EDP, uma cápsula
rectangulozinhos) aberta à interpretação de do tempo para ser aberta no 50.º aniversário
quem os aprecie, um conjunto de desenhos que do jornal. Vhils começará a levantar a ponta
verá no topo de várias páginas. Experimente do véu de um projecto que culminará no Verão
folhear o jornal como se fosse um flipbook. com 25 desenhos que o artista fez a partir de
Há ainda uma selecção de 25+1 momentos 25 capas do PÚBLICO. Se tiver tempo.

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portuguesas nunca mais. Enquanto por lá, perdi
completamente o respeito pela imprensa. A grande
maioria dos media ingleses é uma desgraça, e isto
vai muito para lá dos infames tablóides. A receita
é simples: aferir o que deixa o bife tradicional
indignado e seguro da sua superioridade, inventar
histórias que sirvam o ângulo, procurar factos que as
assistam, inventá-los se não os há, suprimi-los se as
contradizem... e pronto, vendas asseguradas, e tudo
com infinitas pretensões de objectividade mediática.
A generalização é injusta, claro está, aliás como
em tudo, também no jornalismo os britânicos têm
o pior e o melhor. Mas a única coisa que hoje leio
com regularidade por terras de Sua Majestade é o
Private Eye, uma espécie de Charlie Hebdo mas muito
melhor, mistura de humor cáustico e jornalismo
de investigação do mais fino. Que haver assunto
há: corrupção é o que não falta em Inglaterra.
Corrupção perfeitamente legalizada, entenda-se,

25 anos
não é como em Portugal ou Itália, povos muitíssimo
inferiores à Europa Nazi-de-Espírito-do-Norte.
PÚBLICO celebra hoje 25 anos de vida nas bancas; há Quis entretanto o acaso trazer-me de regresso à
poucos meses cumpria eu as minhas bodas de prata pena, desta vez em fainas de divulgação científica.
de emigrado em Inglaterra. Tirando esta tangencial Entre coisas menos laudatórias, chamaram a um
coincidência, há muito pouco em comum entre mim dos meus livros uma “biografia gonzo”, de outro
e este jornal. disse-se que era onde “Medo e Delírio em Las Vegas

sem
Achei pois surpreendente terem-me escolhido — se cruza com Uma Breve História do Tempo”. Eu nem
um mero cientista — para fazer de senhor director sabia o que queria dizer o termo “gonzo” ou que
por um dia, especialmente havendo pelo burgo tanta tinha a ver com jornalismo, já disse que para cagar
gente muito mais habilitada do que eu para cagar de alto erudição o PÚBLICO podia ter escolhido
postas de pescada. O email de convite prometia melhor. Foi um amigo de Roma, adepto de cocaína
ainda “completa liberdade” para fazer o que me e alucinogénios, que me corrigiu o défice cultural,

dormir
desse na real gana com o jornal. Um sorriso maroto obrigando-me a ler uma catrefada de livros de Hunter
deve ter-me aparecido no rosto. S. Thompson e Acosta, alguns em tradução italiana.
Suponho que se quisesse dar à ciência mais Fiquei deslumbrado com aquilo. E se em vez de
“protagonismo” (para usar um vocábulo à Luís os jornalistas fingirem que são objectivos, coisa que
Figo) num país com mais orgulho, e com razão, nem a ciência é, exibissem os seus preconceitos
nas suas proezas futebolísticas e tauromáquicas. na montra, polvilhados com drogas duras? E se os
Um país também onde a ciência continua a ser o jornais ingleses dissessem abertamente “somos
parente pobre da produção intelectual, recheada uma cambada de porcos xenófobos que andam
de ilustres músicos e escritores, poetas e malucos alegremente a inventar histórias”? Não mereceriam
vários. Só que a ciência que eu faço e amo não são finalmente uma pitada de respeito? O jornalismo
Por João Magueijo telemóveis nem foguetões — é poesia. E depois tenho gonzo certamente que me surgiu como um antídoto
um segredo vergonhoso: antes de ser cientista, tive a muita hipocrisia. Por isso quando me convidaram
pretensões jornalísticas, num sentido muitíssimo para ser director por um dia do PÚBLICO foi isso
lato do termo. Ao pedirem-me um editorial acerca que me ocorreu: fazer uma edição “gonzo” do
das minhas relações com a imprensa senti pois um jornal. Afinal tinham-me prometido a mais completa
certo déjà vu. liberdade no aliciante email de convite. Por um dia.
Recordo aqui a minha adolescência lusitana e Mas é claro que isso da “liberdade completa” é
um certo pasquim de bênção Louçânica, onde coisa que não existe. Nem em utopias nos despimos
escrevinhávamos uns quantos sobre coisas como de constrangimentos. Seria porventura razoável
a legalização do aborto (quando isso ainda era exigir à redacção do PÚBLICO que passasse um
monopólio de esquerdelhos), num estilo cheio de dia a tripar com LSD e a escrever sobre a situação
parvoíces e bacoradas. Mas esses desbragamentos económica da Grécia em textos onde deveriam
foram sol de pouca dura e em breve caí no buraco misturar relatos da própria vida sexual? Talvez sim,
negro que é fazer ciência. O universo dá-me uma talvez não. Afinal é uma festa de anos.
enorme trabalheira, é uma estopada, não deixa Há uma fina linha entre ser-se uma figura
grande tempo para fazer outras coisas. Não admira decorativa e um tirano. Um jornal bem-sucedido
que tanta gente deixe os mesteres cósmicos para a é um trabalho de grupo, onde o colectivo é mais
religião, Deus que se amanhe enquanto nós mortais importante do que qualquer ronáldico ponta-de-
nos dedicamos à comunicação social. lança. A redacção do PÚBLICO fugiu com as minhas
No início dos anos 1990 mudei-me para Inglaterra, sugestões e fez com elas o que quis. Que festejem
com uma jura a pés juntos de que mulheres bem. Que continuem assim até às bodas de ouro.

Editorial
TEM
PO
Quanto tempo é
que o tempo tem? O
tempo – e tudo o que
existe – tem 13.800
milhões de anos. É
a idade do próprio
Universo, o tempo
desde o Big Bang, a
grande “explosão”
criadora de tudo. Estes

DE
13.800 milhões de anos
resultam dos cálculos
mais recentes baseados
em observações do
telescópio espacial
Planck, que afinou a
idade do Universo com
um nível de pormenor
que permitiu atribuir-
-lhe mais 100 milhões
de anos do que antes.

TU
Para nos situarmos,
o nosso sistema solar,
incluindo a Terra,
formou-se há 5000
milhões de anos, tinha
então o Universo já
9000 milhões de anos
de existência. E, depois,
a Terra ainda teria
um longo caminho
pela frente até ao

DO
dia, há uns meros
seis milhões de anos,
em que surgiram os
primeiros hominídeos.
Começamos esta
edição de aniversário
olhando para o tempo
a grande escala. É o
tempo do espaço, é o
tempo do tempo, é o
tempo de tudo.
C
elebra-se o
centenário da teoria
da relatividade
geral, neste ano
denominado “da
luz”, mas oculta-se
do pudor público
o lado negro dessa
bonita arte mágica.
A relatividade geral
pode ter dado
femininas curvas ao
espaço e ao tempo,
atribuindo-lhes
maleabilidade e vida própria, mas o que raramente
se diz é que essa nobre ciência também retirou ao
tempo o seu predicado mais óbvio: o fluir.
Ao embrulhar na mesma trouxa o espaço e o
tempo, negando-lhes natureza independente em
favor de um híbrido — o espaço-tempo —, a teoria
da relatividade roubou ao tempo o seu brotar.
Da mesma forma que o eixo do xis (esse terror
que aprendemos na escola) não “flui”, o tempo
da relatividade também não escorre. Ao longo de
uma linha espacial há ordem — há o equivalente da
organização de um presente, passado e futuro —, mas
não há nada que se assemelhe a um ponto particular
e único que vai escoando ao longo dessa linha, o
equivalente do presente. Dando direitos e deveres
iguais ao espaço e ao tempo, amalgamando-os num
ser único, a relatividade nega igualmente a existência
de um presente que flui activamente do passado para
o futuro. Ordem, sim. Fluir, não. Esse tempo, meus
amigos, morreu.
É pois singular que num ano de efemérides e de luz
nos procuremos encavalitar na teoria da relatividade,
demolidora como ela é do comum tempo. A própria
luz — esse andaime absoluto da teoria da relatividade
Por João Magueijo — só pode ter um papel orientador porque está fora
do tempo. A luz equilibra-se na fronteira entre o
espaço e o tempo, portanto o tempo está paralisado

Dar
ao longo de um raio de luz. E o pior é que analisando
a relatividade geral mais de perto encontramos
horrores ainda piores lá escondidos. Até a ordem
desse tempo que não flui pode ser destruída pela
curvatura espaciotemporal e levada a aberrantes
contradições. Maliciosas máquinas do tempo
consentem-nos dar um tiro na avozinha antes de a
nossa mãe ter nascido. Laçadas espaciotemporais
permitem-nos ser pai e mãe de nós próprios, um
exagero de minimalismo familiar e incesto. A ordem
e a lógica são ameaçadas pela curvatura do espaço-
tempo. Proteja-se de contradições: evite espaços-
tempos com um rabo demasiado ondulado.

tempo
Claro que nesta pasmaceira em que vivemos, longe
de buracos negros e Big Bangs, ninguém se deve
preocupar indevidamente com tanta patologia. Mas
o mal está feito — a nossa metafísica está minada pela
dúvida. Como funcionaria um jornal, se o tempo
acabasse amanhã? Ou se o tempo começasse a andar
para trás mais logo, quando a lua cheia nascesse
e a maré mudasse? Ou se fôssemos uma linha já
prefigurada e sem fluir, sem edições matutinas e
vespertinas? Como seria um jornal, se o tempo fosse
mais como o espaço, algo com recantos e cantinhos
por explorar? Um cataclismo narrativo, por certo. Ou
talvez não. Esta edição o dirá.

ao tempo
N
AFP
ão há verdades eternas, cada Mas a verdade é que tudo isto são quimeras. Ao
santo tem seu dia. Se, por um fim de várias décadas em demanda da teoria da
lado, Einstein nos deitou uma gravidade quântica, a realidade é que ela continua
malcriada língua de fora, por a ser uma miragem. Ideias não faltam, mas,
outro, espera-se de todos os sejamos honestos, cordas ou laçadas são todas uma
físicos igual pose fotográfica. bela porcaria. Não há mal nenhum nisso, desde que
Não há teorias finais — há, sim, a busca seja honesta; censurável é apenas a auto-
coisas que vão funcionando até importância sentida por alguns físicos: há quem
ver, e nem sempre tão bem como se gostaria, se as insista que estamos no caminho certo, é só uma
vamos esmiuçar melhor. questão de seguir em frente a fazer contas pela
O epíteto de “Novo Einstein” (que a imprensa mesma receita durante 200 anos...
sensacionalista tanto aprecia) aplicado a quem Que estupidez! Que rigidez de espírito! Será que
propõe uma teoria que pretende suplantar a teoria se acha mesmo que em 200 anos ninguém iria
da relatividade é claramente ou ridículo ou um arranjar nada melhor para fazer do que refinar as
pleonasmo. nossas ideias? É como esperar que o fado daqui a
Como cientistas somos todos novos Einsteins e 200 anos seja uma Gisela João de bengalinha. Daqui
Einsteinas: é uma deformação profissional. Somos a 200 anos muito provavelmente nem haverá fado,
pagos deduzidos de impostos para fazer esse papel, ou se o houver, sê-lo-á insonhavelmente diferente.
não das nove às cinco em horário continuado Entretanto, e com menos arrogância, a
(porque isso não se ajeita ao perfil profissional), infrutífera busca continua. No reino do faz-de-
mas de noite e dia, até enquanto estamos a sonhar, conta em que os físicos vivem tudo é possível. O
eroticamente quem sabe. Ninguém duvida que a Big Bang pode ser um mero biombo que tapa um
teoria da relatividade é uma obra de génio, entenda- além. As constantes universais podem ser fluidas
-se bem, mas a maior prova de respeito que lhe e variáveis. O espaço-tempo pode ser uma média
podemos oferecer é precisamente pô-la em causa. de algo mais fundamental, polvilhado de quanta,
O tempo-que-flui tem entrado e saído da espaço em grão, tempo em colar de pérolas. Tudo
ciência, recauchutado ou modificado, ao ritmo das é possível.
revoluções que vão e vêm. Saliente-se que o tempo Tudo é possível, tudo pode é estar errado. Fica
que a teoria da relatividade enxovalhou é o tempo esta sensação de que andamos a fazer literatura de
fundamental, associado aos processos elementares, cordel ao pé do gadelhudo. Não que a relatividade
às micropartículas puras, limpas de confusões. geral não tenha deficiências, mas o que temos feito
Não é o tempo sentido pelos sistemas complicados para as colmatar é bem pior. Ao longo destes 100
(como nós), que pela sua complexidade exigem anos deitámos-lhe a língua de fora vezes sem conta,
outras estruturas, emergentes chamamos-lhes, para e no fim acabámos aos molhadíssimos beijos na
as opor a “fundamentais”. Em sistemas com tantas boca ao homem.
partes elementares que a floresta é mais importante

Cem
do que as árvores, necessitamos de conceitos como
a entropia, esse pesa-balbúrdias tão útil quando
é tudo ao molho e fé em Deus. A entropia, como
medida da confusão que sempre aumenta, dá-nos
um tempo derivado, emergente, que sem dúvida
sentimos à flor da pele, mas que sabemos resultar

anos a
de uma ilusão criada pela multidão, pelo espírito de
rebanho do universo. É um tempo que as partículas
elementares nunca sentirão; se calhar é por isso
que lhes faltam os sentimentos. Não há electrões
apaixonados.
Mas e se esta teoria da relatividade geral
centenária fosse ela própria emergente e não-

deitar
fundamental? E se a descrição da gravidade como as
curvas e contracurvas do espaço-tempo fosse apenas
uma média estatística, uma medida aplicada a uma
multidão de entidades mais fundamentais, tal como
a entropia?
Uma das lacunas mais flagrantes da teoria

a língua
da relatividade geral é a sua incapacidade para
namorar com o resto da física. A relatividade geral
é um elemento francamente anti-social dentro da
confraria das nossas outras teorias. Não fala com a
física quântica, esse outro pilar da física do século
XX, e segrega a força da gravidade (que venera)
das outras forças da natureza: a electricidade, o

de fora
magnetismo e as forças nucleares. Tanta soberba
agasta os físicos e daí as inúmeras tentativas
de construir uma teoria de gravidade quântica,
combinando a relatividade geral com a teoria
quântica, e unificando a gravidade com as outras
forças da natureza.
A haver namoro entre a relatividade geral e a física Ao ver escoar-se a vida humanamente
quântica, o espaço-tempo deveria não só ser curvo, Em suas águas certas, eu hesito,
como existir na forma de “átomos” (no sentido
grego do termo, de peças indivisíveis ou “quanta”). E detenho-me às vezes na torrente
Deveria haver incertezas e flutuações quânticas no
seu tecido. Pavores quânticos, de todas as formas e
Das coisas geniais em que medito.
feitios, deveriam afligir os fenómenos gravitacionais, Mário de Sá-Carneiro
tal como afectam os outros: deveria haver gatos de
Schrödinger a miarem em buracos negros, Big Bangs
virtuais a saltarem do vácuo, ou maradices ainda Não percebo porque se perde tanto
piores. E obviamente o próprio tempo e o espaço
poderiam ficar equiparados a conceitos emergentes,
tempo a discutir o tempo, que não
como a entropia, médias que se tornam relevantes é nenhuma entidade metafísica, é
simplesmente porque não temos “microscópios”
suficientemente finos para sentir a natureza atómica
apenas uma empresa de demolições.
Por João Magueijo da realidade subjacente. António Lobo Antunes
A história do
Universo em
13 momentos

É o início do Universo, que começa com o Big Bang,


uma grande “explosão” que dá origem ao espaço e ao
tempo. É o início de tudo o que existe. E que surgiu de
uma concentração inimaginável de energia. A física
actual é incapaz de descrever as fracções de segundo
imediatamente seguintes ao Big Bang, quando o
Universo era incrivelmente denso e quente.

Sabemos hoje que o Universo está em expansão. Que nasceu a partir de um momento zero e, desde
aí, tem evoluído. A descoberta desta expansão, do final dos anos 1920, baseou-se em observações de
que as galáxias se estavam a afastar umas das outras. Na realidade, é o espaço entre as galáxias que
está a aumentar e, em consequência disso, as galáxias estão a afastar-se entre si. Imaginemos um balão
em cuja superfície, o tecido do espaço-tempo, pintámos vários pontos: à medida que o enchemos de
ar, expandindo-o, o espaço entre os pontos vai aumentado. É isso que está a acontecer ao Universo.
Escolhemos aqui alguns momentos da sua longa existência ou, por outras palavras, da história de tudo
Teresa Firmino (texto) Cátia Mendonça (infografia)
10-43 segundo 10 -36 segundo 10-32 segundo 10 -4 segundo 380.000 anos
Este tempo é considerado É o início do que se pensa ter A inflação cósmica terá Por esta altura, formam-se Formação de átomos leves –
a fronteira a partir da qual a sido a inflação, um crescimento terminado. Acabado um os protões e os neutrões, os hidrogénio, deutério, trítio e
noção de tempo (e o espaço) brutal do Universo, que numa crescimento brutal durante constituintes dos futuros hélio. A temperatura do Universo
tem sentido. O tempo não tem fracção de segundo cresceu uma fracção de segundo, o núcleos dos átomos. Com a baixa ainda mais – ronda agora
provavelmente porções mais enormemente. Esta expansão Universo volta a expandir-se continuação do arrefecimento os 2700 graus Celsius –, o que
pequenas do que esta. Entre exponencial permite explicar mais lentamente. A inflação do Universo, os quarks, unidos permite que os núcleos atómicos
o Big Bang e os 10-43 segundo por que é que o Universo que cósmica terá gerado ondas pela força nuclear forte, e os electrões, até aí separados,
de existência do Universo é vemos hoje tem um padrão gravitacionais, perturbações puderam começar a ligar- se juntem, formando os átomos.
a chamada época de Planck, global homogéneo: há galáxias no próprio tecido do Universo, -se, formando os protões e os Antes disso, os fotões (a luz)
indescritível pelas teorias e espaços vazios, galáxias, o espaço-tempo, que podemos neutrões. Cada neutrão e protão chocavam com frequência com os
científicas actuais: a temperatura espaços vazios... de uma maneira imaginar como uma folha de tem três quarks. É a altura do núcleos atómicos e os electrões,
era tão elevada que as quatro quase uniforme por todo o lado borracha elástica onde uma chamado confinamento dos o que impedia a luz de viajar.
forças fundamentais da natureza para onde quer que olhemos. pedra que alguém atirasse quarks. A criação dos protões Por essa razão, entre o Big Bang
(gravidade, electromagnetismo, Nesta altura do Universo, já um para lá provocaria oscilações. significa também a criação do e os 380.000 anos, o Universo
força nuclear forte e força pouco menos quente, também a Até agora, ninguém conseguiu núcleo do hidrogénio, que é é opaco, sendo impossível vê-
nuclear fraca) estavam todas força nuclear forte pôde separar- detectar essas ondas. O Universo composto por um único protão. lo directamente. A junção dos
juntas numa só força. A partir dos -se da força nuclear fraca e do ficou nesta altura povoado por electrões à volta do núcleo dos
10-43 segundo, o Universo já se electromagnetismo. uma sopa de quarks e gluões, átomos deixa o caminho livre
tinha expandido e arrefecido o que colam os quarks entre si. 0,01 segundo para a passagem dos fotões e o
suficiente – uma “bola de fogo” Estes constituintes primordiais Iniciam-se as fusões de protões Universo fica transparente à luz.
com uns incríveis 1032 graus da matéria vagueiam livremente e neutrões, que vão depois dar A matéria e a radiação separam-
Celsius – para que a gravidade se num estado desordenado (o origem aos núcleos de outros se ou, como dizem os físicos,
separasse das outras três forças. plasma de quarks e gluões). átomos. desacoplam-se. A luz desses
Criadas, e destruídas ao mesmo tempos, a mais antiga que vemos
tempo, surgem as primeiras e que se chama radiação cósmica
partículas e antipartículas 3 minutos de fundo, banha todo o Universo.
elementares, como quarks e Criados os núcleos atómicos Hoje na forma de microondas,
electrões ou positrões. A luz já de deutério (um protão e um permite inferir algo que se passou
existia como fotões. neutrão), de trítio (um protão e nos primórdios do Universo. É,
dois neutrões) e de hélio (dois pois, uma radiação “fóssil”, um
protões e dois neutrões). eco do Big Bang.

BIG BANG
2700º celsius -240º celsius

ERA DAS TREVAS

−43 −36 −32 −4


Momento 0 10 10 10 10 0,01 3 minutos
seg.
mil anos milhões de anos milhões de anos milhões de anos
protões e neutrões

Formados núcleos
Fusões de protões

dos átomos leves


Inflação cósmica

Fim da Inflação

átomos leves
Formação de

podem viajar
Formados os

pelo cosmos
e os fotões
e neutrões
cósmica

Primeiras estrelas Primeiras galáxias O nosso sistema solar e expansão

ERA OPACA ERA TRANSPARENTE

Fonte: PÚBLICO
550 milhões 700 milhões 9000 milhões 10.200 milhões 13.800 milhões
de anos de anos de anos de anos de anos
Nascem as primeiras estrelas,
iluminando o Universo. Este, em São formadas as primeiras Forma-se o Sol a partir de Surge a vida na Terra, mais É o Universo actual. A sua
média, já arrefeceu bastante e galáxias do Universo – incluindo uma nuvem de gás e poeiras, exactamente as primeiras temperatura, de 270 graus
está muito abaixo do zero usual: a nossa Via Láctea, que tem composta sobretudo por células. Ainda não têm núcleo, Celsius negativos, está perto
tem à volta de 240 graus Celsius pelo menos 100.000 milhões de hidrogénio e hélio, mas com tal como, aliás, as bactérias do zero absoluto (menos 273,15
negativos. Para trás ficou a “era estrelas, uma delas o Sol, que alguma contaminação por actuais, mas a vida seguirá o graus). E aqui estamos nós, a
das trevas”, a altura em que o fica num dos braços da espiral. elementos pesados criados por seu curso até chegar a nós. Os olhar para trás no tempo, através
Universo não tinha estrelas. No centro da Via Láctea existe gerações de estrelas anteriores. primeiros humanos – ou seja, os da luz (em todo o seu espectro,
Análises às observações do um buraco negro monstruoso No disco de gás e poeiras que primeiros membros do género desde os raios gama às ondas de
telescópio espacial Planck, (como, aliás, em muitas outras restou da formação do Sol Homo – apareceram há cerca de rádio, passando pela luz visível
divulgadas em Fevereiro de galáxias), com quatro milhões ir-se-ão formar os planetas, dois milhões de anos apenas, aos nossos olhos) que nos chega
2015, revelaram que as primeiras de vezes a massa do Sol. A nossa incluindo a Terra, há cerca de quando o Universo tinha 13.798 dos mais variados fenómenos e
estrelas surgiram cerca de 100 galáxia é tão grande que a luz 4500 milhões de anos, quando o milhões de anos. Se pensarmos objectos que povoam o cosmos.
milhões de anos mais tarde do demora 100 mil anos a atravessá- Universo tinha 9300 milhões de na nossa espécie, o Homo Desde galáxias, enxames de
que se supunha, portanto 550 -la de uma ponta à outra. anos. É também por essa altura sapiens, só aparecemos há cerca galáxias, supernovas, estrelas
milhões de anos após o Big Bang. que no Universo em expansão de 200 mil anos. de neutrões, buracos negros,
As estrelas são essenciais à desde o Big Bang se manifesta anãs castanhas, matéria escura,
química da vida: é no seu interior, uma força antigravítica. Não se energia escura – e planetas em
nas reacções de fusão nuclear, sabe que força é essa – os físicos redor de outras estrelas que não
que se formam átomos mais chamam-lhe energia escura o Sol, onde talvez alguém esteja
pesados como o carbono ou o –, mas sabe-se que contraria a também a perscrutar o cosmos
ferro. Ao morrerem, há estrelas gravidade exercida pela matéria como nós. O futuro do Universo
que atiram para o espaço as suas e que provoca a expansão parece ser o de expansão
camadas exteriores, incluindo acelerada do Universo. eterna: as galáxias ficarão tão
átomos que fabricaram e que dispersas que nem se veriam,
entrarão em novas estrelas e os uma paisagem triste e fria. Mas o
seus planetas. Nós e a Terra temos nosso destino na Terra depende
pó de estrelas, como o ferro que do destino do Sol, que ainda vai
transporta o oxigénio no nosso durar cerca de 5000 milhões de
sangue. anos.

milhões de anos milhões de anos

acelerada do Universo Aparecimento da vida na Terra (as primeiras células) Universo actual
TEM
PO
Chegados aos actuais
13.800 milhões de
anos da história de
tudo, aqui estamos
agora às voltas com o
tempo, humanos de
uma espécie surgida
há singelos 200 mil
anos. Neste tempo de
agora, que o nosso

DE 2015
calendário assinala
como 2015 d.C.,
reflectimos, vivemos
e sentimos o tempo
de muitas formas.
Podemos analisá-lo
de um ponto de vista
físico, lembrando
Einstein, do ponto
de vista da história
da ciência ou da

AGO
experiência pessoal
de uma cosmóloga
pára-quedista a braços
com a gravidade.
Fomos ainda ver
como o contamos com
relógios atómicos e
na bolsa, em que um
milissegundo vale
milhões. Visitámos
uma loja em Lisboa

RA
que arranja relógios
antigos, onde se
conserta o tempo
dos outros. Ouvimos
quatro centenários,
que desafiam o tempo
e, ainda, quem dá o
seu tempo aos outros.
Continuamos esta
edição olhando agora
para o tempo a uma
escala mais humana.
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Christian
Marclay
Nada é tão
cinematográfico
quanto um bom
tiquetaque

1989
>>>>>>>>>>>>
Queda do Muro
A 9 de Novembro de 1989, a
televisão da RDA divulga a
decisão do Governo comunista
de acabar com as restrições
a viagens para a Alemanha
Ocidental. De imediato, os
alemães do Leste dirigem-se
aos postos de fronteira e trepam
o Muro. Daí à reunificação
alemã os factos sucederam-
se em cascata veloz. A moeda
ocidental (marco) alarga-se
a todo território (1/07/1990).
Seguem-se os tratados entre
as duas Alemanhas (31/08) e o The Clock, o filme do norte-americano Christian Marclay, dura 24 horas
destas com as quatro potências
da ocupação em 1945 (12/09). mas o artista diz que não existe uma hora ideal para vê-lo. A peça é hoje
A 3 de Outubro de 1990, e
após quase cinco décadas de inaugurada no Museu Berardo, em Lisboa
divisão, a integração foi plena e a
Alemanha voltou a ser una. S.J.A. Por Kathleen Gomes
E
The Clock não tem um início nem um fim. Não existe
uma hora ideal para assistir. O Museu Berardo vai pro-
porcionar algumas sessões contínuas de 24 horas (hoje,
a partir das 22h) e de 33 horas (este fim-de-semana e
nos fins-de-semana de 28 de Março e 18 de Abril), que
permitirão, a quem quiser, vê-lo inteiramente. Marclay
recomenda que se vá e volte em diferentes alturas do
dia, porque os segmentos e a representação do tempo
são diferentes conforme a hora.
“Meio-dia e meia-noite costumam ser as horas mais
procuradas pelo público porque são intensas, sente-se
um crescendo. Eu tinha imenso material à disposição
relacionado com a meia-noite. Das três às cinco da
manhã é capaz de ser mais interessante porque é o
período que menos pessoas viram.”
Marclay também gosta da ideia de a correspondência
entre o que se vê no filme e a experiência dos especta-
dores ser mais intensa nessas horas da madrugada por-
que “estamos a ver alguém a bocejar às três da manhã
e é muito provável que a essa hora também estejamos
a bocejar de sono”. A diferença entre a realidade e o
mundo imaginário do filme torna-se menos nítida.
Christian Marclay recusa a ideia de que é um videas-
ta. A sua primeira exposição de trabalhos feitos depois
m 2007, o artista Christian Marclay atribuiu a si pró- de The Clock pode ser vista actualmente em Londres,
prio uma missão impossível: criar um filme sobre o na galeria White Cube, perto da Tate Modern. Uma
tempo que “representasse todos os minutos do dia e das maiores impressões que ela deixa é de que é uma
da noite”. reacção a, ou mesmo contra, The Clock: a reafirmação
O resultado, que demorou três anos a ser produzido, de Marclay como um artista multidisciplinar (tudo foi
a um ritmo obsessivo de dez a doze horas por dia, foi convocado: performance, pintura, vídeo, instalação,
The Clock (o relógio), um filme feito de milhares de colagem, som) e, se existe algum tema, é o da ressa-
clipes de outros filmes. Num plano, podemos ver três ca, literal e metaforicamente (uma das enormes salas
negros a atravessar a Baixa de Nova Iorque em Shaft brancas da White Cube tem uma estante ao longo das
(1971) e, no plano seguinte, Jean-Pierre Léaud/Antoine quatro paredes só com copos de cerveja de todos os
Doinel à coca nas ruas de Paris em Beijos Roubados feitios).
Suponho que é isso que (1968), de François Truffaut, e, logo depois, um ho- Uma das salas contém um contentor com uma pren-
mem de gabardina fugindo por um beco num qualquer sa de discos vinis, lembrando que Marclay já foi um DJ
acontece quando uma obra film noir. The Clock sugere uma continuidade entre nas primeiras décadas da sua carreira artística — não
eles, como se fizessem parte do mesmo filme. Agora um artista e um DJ, mas um artista que usou o sample
tem sucesso. As pessoas imaginem isso durante 24 horas. Eis The Clock. Missão e a remistura, a manipulação e a transformação de
cumprida. discos, e com isso fez obra. The Clock é produto dessa
querem mais do mesmo. The Clock chega a Lisboa, depois de um percurso experiência — a obra de um DJ visual, por assim dizer,
óbvio (Londres, Nova Iorque, Paris...) e não tão ób- mais do que de alguém que vem de uma tradição ci-
Querem mais Clocks vio (Winnipeg) que o tornou uma sensação global e nematográfica, o que talvez explique por que é que
RUI GAUDÊNCIO
Marclay uma celebridade. No Museu Berardo, onde críticos e historiadores de cinema tendem a ser os
fez uma apresentação para a imprensa, um dia antes mais cépticos perante The Clock.
da sua inauguração (hoje, às 22h, integrado na festa Marclay reconhece que The Clock é, já, uma peça algo
dos 25 anos do PÚBLICO), Christian Marclay exibia a anacrónica. A selecção de filmes “citados” foi feita a
contradição de um artista simultaneamente grato e partir dos títulos disponíveis em lojas de vídeo londri-
de certo modo “ultrapassado” pela sua criação, que nas entre 2007 e 2010 e visionados por nada menos
ganhou vida própria. Quarenta anos de trabalho an- do que sete assistentes de pesquisa. “Se fosse feito
corado nas vanguardas artísticas e no experimenta- hoje, teríamos trabalhado de outra forma, se calhar
lismo para, agora, dar nisto: ser conhecido, primeiro, teríamos usado downloads de filmes.”
sobretudo ou apenas, como o autor de The Clock onde Os relógios que aparecem o tempo todo em The Clock
quer que vá. também são uma tecnologia ultrapassada, de certo mo-
Não admira que Marclay se sinta um pouco como os do, à medida que passámos a ver as horas nos nossos
Pink Floyd, obrigado a repetir o seu êxito número um telemóveis, iPhones e ecrãs de computador. “E horas
o tempo todo. “Suponho que é isso que acontece quan- mais precisas. Você sabe a que horas chegou um email
do uma obra tem sucesso. As pessoas querem mais do ou a que horas recebeu uma chamada. Tudo tem um
mesmo. Querem mais Clocks”, disse ao PÚBLICO. tempo exacto, de uma forma que não existia antes”,
É só um desabafo. Marclay — alto, magro, olhos nota Marclay. “Antes, quando ainda mandávamos car-
glaciais contrastando com uma calma gentil, cabelo tas pelo correio, o tempo de espera entre uma acção
aparado muito rente, sem que ninguém lhe dê os 60 e o seu resultado era maior. Agora esperamos que a
anos acabados de fazer — diz que continua a descobrir resposta a um email seja imediata.”
coisas novas em The Clock até hoje e parece ter prazer Existem alguns clipes com iPhones em The Clock,
em falar da sua instalação-vídeo. garante Marclay. “Mas não são tão cinematográficos
The Clock é uma compilação de cenas de filmes con- quanto um bom tiquetaque”, diz, fazendo estalidos
tendo toda a espécie de referências ao tempo e à sua com a língua. Além disso, não se pode dizer a alguém:
passagem — sejam elas um pêndulo ou os ponteiros de “Oh, o meu iPhone está atrasado.” “Pode dizer isso
um relógio, um cigarro a arder, uma espera ansiosa, sobre o seu relógio de pulso.” Christian Marclay ainda
uma corrida para apanhar um comboio, um desper- usa um. “É uma espécie de reflexo. Sinto-me nu sem
tador a tocar. ele. Tenho-o usado a vida toda.”
Mas The Clock é também um relógio, sincronizado The Clock não pode ser visto de outra forma, a não
com o tempo real. Sempre que se vê as horas no filme, ser ao vivo. Marclay não está a planear nenhuma edição
elas coincidem com a hora do dia em que estamos a em DVD, por exemplo. “Não iria caber num DVD”, ri-
ver essa imagem. 2h22 em The Clock são 2h22 na sala se. “Chegámos a pensar criar uma app onde se pudesse
do Museu Berardo onde o filme está a ser exibido. Es- ver as horas tal como no filme. Mas a dimensão sonora
sa é a “magia” da peça, diz o artista. Apesar de várias ficaria comprometida”, diz o artista, sublinhando que
pessoas lhe terem dito que tinham visto The Clock na The Clock “tanto é uma peça sonora como uma obra vi-
sua totalidade ou quase, Marclay diz que não encoraja sual”. “Além disso, ia criar um problema em termos de
isso. “A decisão é vossa, se querem ver oito minutos direitos de autor porque, a partir do momento em que
ou duas horas. A vida do espectador torna-se parte fizesse uma app, passaria a ser uma obra comercial. É
da experiência porque ele tem de ir buscar os filhos à o que é. A melhor maneira de ver cinema é numa sala
escola, ou ir à casa de banho.” escura com outras pessoas.” Palavra de DJ.
São horas,
dizem eles

Crónica Nuno Pacheco


P
odemos chamar-lhe, simplificando, o maior relógio
do mundo. Quem entra na sala apenas para espreitar
um filme (dos muitos que vemos nas exposições
contemporâneas), contando demorar-se apenas uns
minutos, depressa se desengana. Não leu sequer
a descrição à entrada da sala, entrou apenas por
entrar, é uma sala escura, deve ter um filme, e então?
Então o que vê é verdadeiramente inesperado. Há
um filme, na verdade, e o ambiente parece tenso,
mas num repente a imagem muda, o cenário é
edifício que escalou, regressámos aos anos 20, mas os
ponteiros não param e a acção também não. E eis que
Redford reaparece, ainda sentado no mesmo sítio,
volta a olhar o relógio, deixa o prato semicheio no
balcão, bebe um gole da caneca à sua frente e sai do
restaurante. Mas quando queremos saber para onde
ele vai, tudo o que vemos é uma corda emaranhada
no chão (a imagem voltou a ser a preto e branco, mas
nisso já ninguém repara) e Harold ainda a espernear
dependurado no relógio e a tentar agarrar a corda
outro. Só que parece tudo combinado, sai a diva e ao lado para não se estatelar no chão, muito lá em
entra o gangster, a comédia cruza-se com a tragédia, baixo. Até que surge, num carro topo de gama, Frank
mas o som de ambos parece fundir-se sem causar Martin, o invencível do Correio de Risco, o que está ele
estranheza, há imagens a preto e branco e outras a aqui a fazer? A olhar o relógio, claro, há uma entrega
cores, mas nem por um só momento isso atrapalha com hora marcada, naturalmente, já devíamos
a narrativa, porque parece haver uma narrativa, e esperar por isso. Harold safa-se, já sabemos, Frank
há um homem sentado, a comer, ao balcão de um há-de safar-se também, só o relógio não pára, seja em

1990
<<<<<<<<<<<<
bar e olha de repente o relógio de sala, esperem, o
homem é Robert Redford, mas antes que se pense
“sei qual é o filme” já outro relógio surge, este a
preto e branco, ao lado de um cinzeiro onde uma
mulher esmaga o cigarro, olha o espelho e contempla
pensativa algo que não vemos, talvez uma parede
que formato for, até porque logo em seguida há um
relógio sem relógio, o do agente especial Dale Cooper
de Twin Peaks a ditar a últimas novidades para o
gravador e a dizer, em voz alta, as horas.
Aqui chegados, já perdemos a noção do tempo.
Queremos é ver o que se segue, para onde vai aquele
em frente dela, mas em lugar da parede surge um homem apressado, o que move aquela mulher que
Guerra do Golfo homem, e vemo-lo a cores, parece um episódio olha na penumbra um espelho, o que trama aquele
A 2 de Agosto de 1990, televisivo da Missão Impossível, e havemos de ver que grupo fechado numa sala. Que horas marca aquele
Saddam Hussein, o ditador que é, mas não é isso que importa, importa é o relógio relógio lá ao fundo? As de uma partida? De uma
governava o Iraque, invadiu e, que outro homem segura e que não tem a hora chegada? De um encontro secreto? De uma decisão
em 48 horas, anexou o Kuwait. certa, há um mistério e vão desvendá-lo, é nisso que fatal? De uma execução? Estamos no labirinto do
A coligação ocidental liderada centramos a atenção até que surge outro relógio, tempo, absorvidos pela cadência dos ponteiros sem
pelos EUA e com mandado do um despertador, voltámos ao preto e branco e o olhar a cenários ou épocas, tão depressa estamos
Conselho de Segurança da ONU despertador cede o lugar a um fragmento ampliado num western como num drama italiano, e tudo parece
responde invadindo o território e de um relógio de parede, ouve-se o tiquetaque ter sentido, e lógica, e rumo, neste emaranhado de
procede à libertação do Kuwait. sonoro dos ponteiros. E há um homem que se vira gente movida a relógios, vamos com eles até ao virar
Foi uma operação militar de larga na cama para continuar a dormir (ao fundo vemos da esquina, até à porta da sala, e o relógio deles tem
escala, a maior desde a Segunda os números a vermelho de um relógio digital, 2:25), os ponteiros na mesma posição dos do nosso, as horas
Guerra. Ao fim de sete meses há outro que come com pauzinhos num restaurante ali são as de cá, por mais décadas que nos separem.
a coligação sai do território, chinês (na parede, o relógio marca duas horas e vinte À saída, nem vale a pena perguntar que horas
mas sem depor o ditador. Ficou e seis minutos) e voltamos ao mistério do relógio são. Por um tempo, passaremos a ver relógios onde
assim adiada para uma década que não bate certo (agora confirmamos: é mesmo sempre existiram, mas onde sempre os ignorámos.
mais tarde a resolução de um a Missão Impossível), há um diálogo e um jogo de Apaziguamo-nos, ao ver The Clock, com a sua
problema chamado Saddam. xadrez, mas eis que surge, num ápice, Harold Lloyd presença, o seu rigor. São horas, dizem eles. E nós
S.J.A pendurado nos ponteiros do enorme relógio do retribuímos, agradecidos.
Um minuto
sob a gravidade
de Einstein
Abstracções de uma física
pára-quedista a estudar
gravidade e o tempo
em queda livre
Crónica Marina Cortês
O
s acontecimentos que alguma vez terá pensado em estudar a gravidade ao Sendo a física a disciplina mais ambiciosa da
se seguem decorreram vivo! Parece-me que estudar a gravidade no gabinete descrição da Natureza, não é peculiar a falta de
no espaço de 3 minutos é muito diferente de estudá-la a saltar de um avião, explicação para a uni-direccionalidade do tempo?
apenas. em queda livre! Não só isto, mas nada melhor que um Voltando à queda livre.
Na porta do avião salto de pára-quedas para vivenciar a relatividade do Continuo em espiral no ar e o planeta a aproximar-
mesmo antes de saltar, tempo que ele advogava. Um segundo em queda livre se cada vez mais. Por um momento consigo virar-me
fazemos os exercícios parece-nos horas. O planeta lá em baixo a aproximar- de costas, e tento alcançar o pára-quedas, mas perco
de check up. Estou em se a viva força. Nunca o tempo nos parece mais real, e logo o equilíbrio. Meu Deus, estou mesmo, “mesmo”
instrução e tenho dois mais inevitável do que quando estamos numa situação em sarilhos. O que é que se está a passar, como é que
instrutores comigo, de vida ou morte. E no entanto, em física, a disciplina eu páro isto? Um dos instrutores desce disparado
durante a primeira parte do salto. Tudo a postos: que ambiciona descrever a natureza na sua totalidade, para me alcançar e tenta voltar-me para baixo. Não
arqueia o corpo ao máximo contra a força do ar não estamos muito habituados a levar o tempo a sério. funciona, agora estamos os dois de barriga para o ar!
e... saltar! Estou no ar! Ajusta o equilíbrio, estamos Para a generalidade das teorias em física o tempo E depois eu viro-me, e agora volta-se ele. Estamos
a cair a 190km/h, não balances mais, estabiliza o tanto pode avançar como recuar: a direccionalidade numa dança no ar, como uma máquina de lavar,
corpo. Parece tudo bem. Agora os exercícios. Um dos do tempo é um acidente que não é explicado de como o “vira”. Ele perde-me de novo e lá vou eu às
instrutores solta-me como previsto. Lá vai ele. Agora forma clara. As soluções nas quais o tempo recua são cambalhotas mais uma vez. O chão a aproximar-se. Ele
o outro também me solta. Ai-ai, agora estou mesmo descartadas à mão sem explicação. consegue alcançar-me. Porque é que ele não me puxa
por minha conta, cruzes. A voar sozinha! Argh, o Ou seja, as nossas teorias mais fundamentais da o pára-quedas? Por que diabo é que ele não me puxa
que é que é suposto fazer agora? Não há problema, natureza ignoram o facto de que o tempo anda sempre o pára-quedas?! “Desisto”, penso para mim, ele não
procura um ponto no horizonte para fixar direcção. para a frente! Isto é contra tudo o que observamos no consegue, vamos morrer os dois. Estou feita, é o fim.
Aquelas montanhas parecem boas, vão servir. Hmm.. dia a dia. É como os físicos estarem de costas voltadas Adeus mundo. Olha ali o chão, já tão perto.
as montanhas estão a girar para a esquerda, acho que para a natureza, ignorando o facto mais fundamental 1500 metros. Sinto um forte puxão para cima,
vou fazer aqui uma pequena volta. Inclino o braço do mundo que nos rodeia: o tempo nunca anda para as pernas para o ar, cabeça voltada para baixo. As
na direcção oposta... Muito ligeiramente. O quê?!? O trás. Porque é que somos nós, os físicos, os únicos correias de suporte no peito a esmagar as costelas. Ele
que foi isto? Que aconteceu? Estou de pernas para o cientistas que não incorporamos a irreversibilidade do puxou o pára-quedas! ELE PUXOU O PÁRA-QUEDAS!
ar, a olhar para o céu! Perdi a estabilidade. Altitude: tempo nas nossas teorias? Olho para cima e vejo um pára-quedas perfeito,
3,6 quilómetros. Bonito serviço. Agora estou a olhar A química, biologia, antropologia, climatologia, quadrado, abertura sem problemas! O silêncio total é
para o céu azul acima. Terra à vista: nada. Vejo os dois etc., são todas ciências nas quais o tempo tem uma o paraíso, em contraste com o barulho ensurdecedor
instrutores lá no alto, altíssimos, a olhar para mim. direccionalidade bem definida. As reacções químicas da queda livre. Só oiço o bater leve da borda do pára-
Credo, estão a diminuir tão depressa, quer dizer que só ocorrem num sentido, nunca “desocorrem” quedas. Pára-quedas saudável, vou viver. Sobrevivi!
estou a cair muito mais rapidamente. Como perdi a (química); os organismos só ficam mais velhos, nunca Já passou. Respira, respira. Respira, rapariga. O que é
estabilidade vou a muito maior velocidade que eles. mais novos (biologia); em antropologia estudamos que acabou de acontecer!?!
Estou totalmente sozinha, por minha conta, a cair para os fósseis do passado (nunca os do futuro); os Bem, olha para baixo, descobre onde é que vieste
o planeta a toda a força, e a girar numa espiral. Como climatólogos também têm bem presente que o parar, ainda tens de aterrar isto. Onde está a dropzone,
estou a girar sem parar, não consigo puxar o pára- tempo só tem uma direcção, eles podem olhar para o onde está a pista do avião, onde é que eu estou? Lá
quedas. Cada vez perco mais altitude, a velocidade passado mas não sabem (ou é muito difícil) prever o estão o semi-círculo da aldeia de Empuria Brava e a
agora são 260 km/h. Cada segundo que passa menos 70 futuro, por causa da teoria do caos. praia, mesmo ao pé de Barcelona. A dropzone está
metros e começo a ver tudo lá em baixo as casinhas e as Porque é que nós os físicos continuamos absorvidos por ali algures, ao lado. 1200 metros, está tudo fixe,
estradas cada vez mais perto... Isto está bonito, está... na procura de equações “congeladas” no tempo, nas respira fundo, relax, estás viva! Sobreviveste!
Entretanto no gabinete: quando estou a estudar quais todo o passado e o futuro existem no mesmo Excepto que...
relatividade geral pergunto-me sempre se o Einstein instante e a passagem do tempo é uma mera ilusão? Ao descer sinto os ventos a levantar. Meu Deus,
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NUNO FERREIRA SANTOS
espero mais? É uma questão de segundos. Agora!!
Puxa os cabos, com toda a força, puxa, puxa! Mais
força! Tenho de puxar os cabos até às ancas e ainda
estão à altura nos ombros. Com mais força! Tenho a
cara azul do esforço, as veias a pulsar. Os ventos não
me deixam puxar os cabos. Oh meu Deus, ainda estou
demasiado alto, travei muito cedo. O que vai acontecer
agora? O impacte está perto, prepara-te rapariga isto
vai ser uma aterragem dos diabos! Crash!!!
Ligeiramente nos joelhos, caio para a frente, para
cima do pára-quedas. Estabiliza, pára. Wow! Nada mau,
que fixe. Que fixe! Cheguei ao chão. Estou no chão!
De volta ao planeta! Estou a salvo! Apetece-me beijar
a terra e saltar. Mas como os ventos estão muito fortes
tenho de puxar o pára-quedas para baixo de mim,
porque esta a inflacionar e pode levar-me no ar de
novo. Como se tivesse adivinhado, num instante o pára-
quedas inflaciona como um balão. Sinto um esticão
forte a puxar-me para trás e para cima, a arrastar pelo
chão. Está bonito, afinal ainda não é desta. Não tenho
tempo para cortar os cabos. Para onde é que isto
me está a levar? Olho à minha frente, o pára-quedas

1990
>>>>>>>>>>>>
está-me a arrastar para a pista dos aviões!! Tenho de
puxar um dos cabos para o colapso. Não funciona,
os ventos estão demasiados fortes, o resto do pára-
quedas é como um balão, a puxar-me com a força de
um gigante. Levanto-me e atiro-me para o ar, para cima
do pára-quedas. Consigo enfiar um pouco mais debaixo
de mim mas a parte inflada ainda é forte e continua a
Hubble arrastar-me. E agora reparo que estou mesmo à beira
A 24 de Abril de 1990, a bordo do da pista de aviões com o pára-quedas a puxar-me para
vaivém Discovery, a NASA lança o meio. Olho para a direita horrorizada e... claro, com
o telescópio espacial Hubble. Foi a minha sorte de hoje, vem um avião no ar prestes
o primeiro telescópio espacial a aterrar, talvez a 500 metros de distância. Dentro
que permitiu observar o Universo de segundos vai passar no centro da pista em frente
tanto na mesma luz que os de mim, o local exacto para onde o pára-quedas me
nossos olhos captam, como na está a arrastar. Nem consigo acreditar no que se esta
radiação infravermelha. Com um a passar?!? Isto é algum filme do Bruce Willis?! Estou a
limite de vida temporal por volta segundos de ser atropelada por um avião, arrastada por
de 2020, o Hubble tem cumprido um pára-quedas! Muito bem, vou-te puxar para baixo
aquilo que se lhe pede: permitir de mim, e agora!! Estou de rastos na berma da pista a
que a relação da humanidade puxar o pára-quedas freneticamente e a olhar para o
com o Universo desse um salto, avião a aproximar-se cada vez mais nítido. Puxo o mais
já que, pela primeira vez, foi depressa que consigo, agora com o avião no canto do
possível ver o cosmos com uma olho. Está quase, ainda falta um bocado. VEM CÁ
nitidez sem precedentes. S.J.A. PÁRA-QUEDAS DUM RAIO! Queres-me matar!
Consegui. Estou estendida sob o pára-quedas com
a cabeça enterrada no tecido. Oiço o avião disparado
não estava tanto vento quando levantámos no avião. passar à minha frente. O avião não me atropelou.
O pára-quedas começa a abanar desenfreadamente e Estou colapsada, nem consigo pensar, totalmente
a fazer o que bem lhe dá na cabeça. Agora está-me a exausta. Sem energia. Oiço os ventos, assim que ouvir
arrastar de lado. Vira à esquerda, depressa! Oh meu um abrandar salto num ápice, agarro tanto quanto
Deus, agora estou na zona dos aviões!! Põe-te a andar posso, diminuo o volume e atiro-me de novo para
daqui! Olha à volta, há aviões a vir? Põe-te mas é a cima do pára-quedas. Funcionou. Algumas partes
andar! Pára-quedas dum raio vais fazer o que eu te ainda estão a voar ao vento mas nada de grave.
mando. Agora, ouviste? 500 metros. Bonito, devia Apanhei-te, meu pára-quedas idiota. Pego em todo o
estar a começar a descida final, neste momento! tecido agora entrelaçado, atiro para cima do ombro
Onde é que suposto eu estar? Ah, lá está o campo e começo a regressar ao hangar. Olha para isto, onde
de aterragem, “só” a dois quilómetros distância. Ok, aterrei quase a 3 quilómetros de distância!
esquece isso, improvisa, improvisa. Aquele espaço Começo o caminho de volta com passos longos
ali terá de servir. Começo a descer tenho de ir na e espaçados. Respira fundo. As pernas a tremer e
direcção do vento. Mas não há direcção do vento. Só os joelhos a ceder. Estou estupefacta. Não consigo
a vento a abanar, vento a chocalhar, vento para cima, acreditar em tudo o que acabou de acontecer. Olho
vento para baixo, vento de lado. Devia chamar isto de para baixo e fico surpreendida por os pés acharem o
trajectória perturbativa. O meu trajecto tem incerteza caminho de volta, um após o outro, devagar. O que é
quântica! Ok, ok, vai com calma, vê o altímetro. 250 que aconteceu?! Ando e ando, com as duas toneladas
metros, estou muito alta, já devia estar a 150! Vou de pára-quedas às costas, e finalmente chego à
chocar contra aquelas casas! Depressa, faz uma volta dropzone. Há uma multidão de pessoas estupefactas,
360º, perde altitude. Oh que coisa, também não a olhar para mim, com a boca aberta. Respiro fundo
funcionou, agora estou em cima da auto-estrada!! Vejo e volto para o outro lado. Vou para o hangar, enfiar a
os carros a acelerar nas duas vias. Dá outra volta, pira- cabeça entre os joelhos!
te mas é daqui. Começo a descida final, aqui mesmo Volto para a física. Equações são muito mais fáceis
vai ter de servir. Tento domar o pára-quedas, navegar de escrever do que lutar com um pára-quedas. Uma
em linha recta mas não há de quê. Esticão para a das grandes motivações para transformar o papel do
esquerda, esticão para a direita, O pára-quedas não tempo irreversível na física fundamental vem destas
reage, avança ao acaso, num caos os ventos mudam a experiências tão vivas. Nas quais segundos parecem
cada segundo. Olho para baixo, o chão a aproximar-se horas, e a realidade do tempo, e como avança só
vertiginosamente. Consigo ver as pedras de cascalho a numa direcção é mais berrante que nunca. Nós os
passar aceleradas, como se estivesse num carro. Meu físicos que escrevemos equações em que o tempo não
Deus que velocidade, tenho de abrandar, e rápido. Isto é real e tanto avança como recua devíamos deixar a
vai doer!!! Quando é que travo? A altura de puxar os secretária e vir olhar para o mundo cá fora. Pode ser
travões é ainda mais crucial neste salto mirabolesco que ficássemos convencidos do contrário.
com ventos descontrolados. Quando é que suposto
travar?!?! Agora? Não tenho a certeza. Será agora, Cosmóloga, Observatório Real de Edimburgo
Este Verão
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E
m 2015, Ano Internacional da Luz, celebra-se o centená-
rio de uma das teorias físicas mais formidáveis e também
um dos picos mais altos do intelecto humano: a teoria de
relatividade geral de Albert Einstein. A 25 de Novembro
de 1915 o sábio suíço nascido na Alemanha escrevia a
equação fundamental que junta matéria, energia, espaço
e tempo para explicar a gravitação, descrevendo não só a
queda de uma maçã e a órbita da Lua mas também os bu-
racos negros e o Big Bang. Se a sua teoria da relatividade
restrita de 1905 tinha juntado a matéria à energia (falamos
de matéria-energia) e o espaço ao tempo (falamos de
espaço-tempo), a teoria da relatividade geral reúne todos
esses conceitos ao afirmar que a matéria-energia deforma
o espaço-tempo. À volta de um astro o espaço e o tempo
são distorcidos, deixando de valer a geometria euclidiana
e a mecânica newtoniana a que estamos habituados. E
os corpos caem porque o espaço é curvo.
O espaço-tempo pode acabar ou começar. Os buracos
negros são estrelas que, após violenta implosão, ficaram
reduzidas ao seu caroço extremamente duro. O espaço-
tempo à volta é tão deformado que o nosso mundo aca-
ba aí, isto é, terminam aí as nossas possibilidades de
conhecer. Tudo cai para um buraco negro, incluindo a
luz. Segundo Einstein, a luz pesa! Podemos imaginar o
inverso de um buraco negro? Sim, se um buraco negro

A luz de
é o sítio para onde tudo vai, o buraco branco é o sítio
de onde tudo vem (há quem especule que, associado a
cada buraco negro, há um buraco branco, com a matéria
a ser sorvida por um lado, no nosso mundo, e a jorrar
do outro, sabe-se lá onde).
O físico Stephen Hawking, cuja biografia é o argumento
do filme A Teoria de Tudo, apostou um dia com um cole-
ga uma assinatura da Penthouse que não havia buracos
negros e perdeu (é irónico um especialista em buracos
negros ter apostado na não existência do seu objecto de
estudo.) Existirão buracos brancos? Vivemos no interior

Einstein
de um: o Universo, provavelmente é infinito, o qual, de
acordo com a teoria da relatividade geral, teve o seu início
no Big Bang, há 13.800 milhões de anos. Esta grande ex-
plosão inicial pode ser imaginada como o evento em que
tudo apareceu, o espaço e o tempo, a matéria e a energia,
tendo começado tudo com a luz, que é energia.
Einstein teve que porfiar antes de chegar à fórmula
que encerra os segredos da gravitação. Cedo percebeu
que a teoria da relatividade restrita, segundo a qual as
leis da física são as mesmas para todos os observadores
em repouso ou em movimento com velocidade cons-
tante, devia também ser aplicada a observadores com
velocidade variável, isto é, acelerados. É esse o salto da
relatividade restrita para a relatividade geral. Se Newton
Se a teoria da relatividade restrita de 1905 tinha juntado a matéria à imaginou uma maçã a cair, Einstein imaginou-se a si pró-
energia (falamos de matéria-energia) e o espaço ao tempo (falamos prio a cair. A epifania ocorreu em 1907 quando Einstein
teve o que chamou o “pensamento mais feliz da sua vi-
de espaço-tempo), a teoria da relatividade geral reúne todos esses da”, quando, sentado numa repartição de patentes na
Suíça, se apercebeu de que, se estivesse em queda livre,
conceitos ao afirmar que a matéria-energia deforma o espaço-tempo. um movimento acelerado, “não sentiria o seu próprio
À volta de um astro o espaço e o tempo são distorcidos peso”, uma vez que a cadeira cairia com ele. Embora a
cair, o sábio estaria parado relativamente à cadeira. O
princípio que afirma a queda idêntica de todos os corpos
Por Carlos Fiolhais tinha sido descoberto por Galileu.
Em 1971, um astronauta deixou cair na Lua um mar- lizado, passou por Lisboa sem ser reconhecido.
telo e uma pena para mostrar que os dois objectos che- A 6 de Novembro de 1919, numa sessão da Royal Socie-
gavam ao solo ao mesmo tempo. Se tudo cai do mesmo ty e da Royal Astronomical Society em Londres, com a
modo, podemos intuir que a força gravitacional é uma presença das maiores sumidades da ciência (na parede
propriedade do espaço: nas vizinhanças de um astro, o Newton assistiu impávido, pois só estava em retrato), os
espaço possui certas propriedades. Só faltava saber que resultados da observação solar foram anunciados e Eins-
propriedades são essas. Uma consequência imediata da tein foi aclamado. O Times de Londres titulou Revolução
generalização do princípio da relatividade era que um na Ciência. Newton tinha dito: “Se consegui ver mais lon-
raio de luz vindo do espaço longínquo encurvaria ao ge foi porque estava aos ombros de gigantes.” A revolução
passar perto do Sol. O efeito era minúsculo e não pôde significava que Einstein tinha subido para os ombros de
ser logo confirmado. E ainda bem, pois o primeiro valor Newton, conseguindo ver ainda mais longe.
calculado por Einstein para o encurvamento dos raios A fama mundial obtida num ápice facilitaria a sua
de luz estava errado. Não admira que a matemática da mudança para Princeton, nos EUA. Em 1932, Einstein,
relatividade geral seja incompreensível para um leigo, pressionado pela perseguição nazi aos judeus, disse em
pois o próprio autor demorou uma década a lá chegar. Berlim à sua mulher: “Olha bem para a tua casa. Não
Precisou de uma geometria curva em vez da geometria mais a voltarás a ver.” E assim foi. Transposto o Atlân-
plana de Euclides. Geometrias ditas não euclidianas já tico, nunca mais voltaria à Europa. Foi simbolicamente
existiam nos livros de matemática, dando razão a Galileu, a passagem da ciência do Velho para o Novo Mundo.
que tinha dito que “o Livro da Natureza está escrito em Os génios também têm vida privada. No início de 1915
caracteres matemáticos”. No longo caminho para a equa- Einstein deixou Zurique para ocupar uma cátedra em
ção que descreve a gravitação, Einstein, melhorando a Berlim. Nessa altura deixou também a primeira mulher,
matemática, chegou finalmente a um valor para o ângulo Mileva (ela ainda fez o gesto de se mudar para Berlim,
de deflexão da luz que era o dobro do anterior. A equação mas já não havia força de atracção entre eles). Einstein
era bela, mas faltava saber se era verdadeira. logo encontrou afecto numa prima berlinense, Elsa, com
A Primeira Grande Guerra impediu a realização de ex- quem se viria a casar pouco depois do eclipse de 1919.
pedições de observação de eclipses, ocasiões favoráveis Foi Elsa que o acompanhou para Princeton.
para medir deflexões de raios de estrelas por trás do Sol. O Nobel da Física Richard Feynman afirmou um dia
Uma observação de um eclipse total do Sol só pôde ser que a descoberta, há 150 anos, das equações de Maxwell,
realizada no pós-guerra. Foi em 29 de Maio de 1919 que que unificam a electricidade e o magnetismo, esclare-
uma expedição inglesa, dirigida por Arthur Eddington, cendo que a luz é uma onda electromagnética, serão
Atrevo-me a conjecturar que, se deslocou à ilha do Príncipe para fotografar um desses lembradas daqui a dez mil anos como o acontecimento
eclipses. Os astrónomos obtiveram algumas imagens do mais relevante do século XIX. Na mesma linha, atrevo-me
daqui a dez mil anos, a descoberta Sol, numa aberta de um aguaceiro tropical. Einstein em a conjecturar que, daqui a dez mil anos (uma insignifi-
breve recebeu um telegrama de um colega, felicitando-o cância quando comparada com a idade do Universo),
da equação da relatividade geral pela previsão certeira. Nunca temeu estar errado. Chegou a descoberta da equação da relatividade geral feita por
até a dizer que teria pena de Deus se a realidade fosse Einstein há cem anos será um dos marcos mais notáveis
feita por Einstein há cem anos diferente do previsto (Deus para ele, esclareça-se, era a do século XX. E só não a singularizo mais porque, uma
harmonia universal e não o autor do Fiat Lux). Nenhum década volvida, ficou pronta a teoria quântica, a espan-
será um dos marcos mais notáveis cientista português participou na expedição a um terri- tosa teoria dos átomos e partículas atómicas. As duas são
tório sob administração lusa. Os portugueses estavam expressões máximas do pensamento humano. Arrisco
do século XX tão afastados da ciência que, em 1925, Einstein, já nobe- esta profecia apesar de recear que pouca gente a entenda.
DR
Pode ser que mais gente a procure entender.
Por ter alcançado uma fórmula “mágica” com o poder
de explicar os mistérios do cosmos, o cérebro de Einstein
tornou-se um mito para o homem comum, que sem con-
seguir ver a beleza das equações não poderá mais do que
vislumbrar esses mistérios. Roland Barthes no seu livro
Mitologias escreveu sobre esse cérebro: “Quanto mais o
1990
>>>>>>>>>>>>
génio do homem era materializado sob a espécie do seu
cérebro tanto mais o produto da sua invenção assumia WWW
uma condição mágica, reincarnava a velha imagem eso- São três letras cuja real
térica de uma ciência inteiramente encerrada nalgumas importância ninguém podia
letras. Há um único segredo no mundo, e esse segredo perceber de início, mas
condensa-se numa palavra, o Universo é um cofre-forte representam uma das maiores
de que a humanidade procura a cifra.” E acrescenta: revoluções no que é a dimensão
“É esse o mito de Einstein; aí se nos deparam de novo de espaço e de tempo: WWW.
todos os temas gnósticos: a unidade da Natureza, a pos- As três letras significam World
sibilidade de uma redução fundamental do mundo, o Wide Web e foram e são a chave
poder de abertura da palavra, a luta ancestral entre um para abrir o que se convencionou
segredo e uma linguagem, a ideia de que o saber total chamar “auto-estradas da
não pode descobrir-se senão de um só golpe, como uma comunicação” — ou seja, são o
fechadura que cede bruscamente depois de mil tactea- suporte tecnológico que, com
mentos infrutuosos.” a sua linguagem informática
O cérebro de Einstein simboliza a capacidade humana própria, constrói uma rede ou
de compreender a natureza. Todas as observações e ex- uma teia (web) que permite
periências realizadas nos últimos cem anos confirmaram “navegar na Net” e chegar aqui e
a teoria da gravitação einsteiniana, que concorda com agora a todo o lado, quebrando
a teoria de Newton no limite de forças gravitacionais as barreiras do espaço e do
pequenas. Até há aplicações tecnológicas, como o GPS. tempo. S.J.A.
Resta um problema, cuja solução espera por um novo
gigante. A teoria da gravitação ainda não foi satisfato-
riamente unida à teoria quântica, a outra grande teoria
física do século XX (uma teoria em relação à qual Eins-
tein sentiu algumas dificuldades). Passaram 228 anos de
Newton a Einstein e não sabemos quanto vai demorar até
surgir um génio comparável. Se Einstein fez luz sobre as
questões da gravidade, incluindo o magno problema do
início do mundo, um novo Einstein acabará, mais cedo
ou mais tarde, por fazer mais luz sobre o Universo.

Professor de Física da Universidade de Coimbra


(tcarlos@uc.pt)
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Coragem, arrojo, sabedoria e espírito inovador. Estas são algumas
qualidades que distinguiram os pioneiros heróis do ar que destemidamente construíram a história da aviação militar
em Portugal. A Edição Especial Breitling, numerada e limitada a 100 peças, é um tributo a todos aqueles que, no
passado e no presente, construíram um verdadeiro símbolo da identidade nacional.
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Vídeos Vine Shot clock Um minuto de silêncio
Os criadores da rede social Vine queriam O tempo máximo para se fazer um lançamento É uma derivação dos “dois minutos de
que os vídeos dos seus utilizadores fossem ao cesto no basquetebol foi adoptado pela silêncio”, uma homenagem aos soldados
muito curtos, para não deixarem de ser NBA em 1954, resultado da divisão dos 48 mortos na I Guerra Mundial adoptada ainda
vistos. Depois de alguns ensaios, fixaram a minutos, que então durava uma partida, por 120 antes do final do conflito. Generalizou-se para
dimensão máxima em seis segundos. arremessos, a média de um jogo movimentado. outras situações, com metade do tempo.

60´ 90’ 480’


Uma hora Jogo de futebol Horas de sono
Dividir a hora em 60 minutos é algo que, no fundo, A limitação de uma partida foi introduzida em Sheffield, na Oito é apenas o ponto intermédio entre sete e
devemos aos sumérios, que há milénios já contavam Inglaterra – duas horas. Mas, em 1868, a Associação de Futebol nove horas de sono recomendadas por médicos
em lotes de seis dezenas. Depois, a base 60 chegou à britânica optou pelos 90 minutos para evitar a fadiga dos e investigadores. Estudos recentes dizem, no
geometria, à astronomia e finalmente ao tempo. jogadores (cujo número foi reduzido de 20 para 11 por equipa). entanto, que o melhor número é sete.

Quando o tempo já
2400´ 14400’
Semana de trabalho Prazo para tirar um passe
A reivindicação pela semana “curta” tem origem na Não há aparentemente nenhuma razão objectiva para que sejam necessários
Revolução Industrial, quando se trabalhava até 96 horas. dez dias úteis para se emitir um cartão Lisboa Viva. Mesmo porque quando é
Henry Ford era um defensor de peso: o industrial queria paga a taxa de urgência, o cartão fica pronto no dia seguinte.
que os trabalhadores tivessem tempo para consumir.

518400’ 2102400’ 9460800’


Um ano Eleições legislativas Maioridade
Dividir o ano em doze meses foi uma opção inspirada, desde Um deputado em Portugal é eleito por quatro Baixou de 21 para 18 anos em Portugal na revisão de
a Antiguidade, pela observação dos ciclos lunares, que anos. Mas a legislatura já teve outros prazos, como 1977 do Código Civil, quando se considerou que os
duram 29,5 dias. A ideia resistiu ao tempo, mas com muitas três anos na alvorada da República ou dois anos no jovens se achavam então “sujeitos a um mais rápido
adaptações na extensão dos meses. princípio da Monarquia Constitucional. processo de desenvolvimento psíquico e cultural”.
A Pinto Lopes Viagens é um operador
5’ 12’ turístico e agência de viagens com mais de
“Dá-me cinco minutinhos” Limite de publicidade por hora 40 anos de experiência, especializado em
Uma das expressões clássicas de quem Impedir interrupções prolongadas e fomentar a viagens culturais e de autor, em grupo.
quer dizer que logo, logo vai fazer algo televisão de qualidade – eis as causas da directiva
que deveria ser feito imediatamente. comunitária de 2010 que impõe este limite aos
Normalmente, os cinco minutos são uma
ilusão e são mais longos do que o prometido.
Estados-membros da UE. A RTP, por acordo com as
estações privadas, tem um limite de seis minutos. viagens com autores

GONÇALO CADILHE
Escritor Viajante

Queda do Império: Itália Bizantina e Longobarda • 8 a 14 out


Ligúria: O Mediterrâneo em Vertical • 15 a 20 out
No Kalahari! Botsuana, Zâmbia, Zimbabué • 20 jun a 3 jul
Na Ásia com Fernão Mendes Pinto • 7 a 22 set

1440’
Um dia
No Egipto antigo, os números contavam-se em dúzias,
e não em dezenas. Daí ter-se então dividido o período diurno
em 12 parcelas, com relógios de sol. A noite foi também RAQUEL OCHOA JOSÉ LUÍS PEIXOTO
repartida em 12 com base nas estrelas. Escritora Escritor

vem pronto
“O Vento dos Outros”: América do Sul Malásia, Bornéu e Singapura
(Peru, Bolívia e Chile) • 6 a 23 out • 29 ago a 9 set
Índia Portuguesa: Memória(s) para Dentro do Segredo: Pequim, Coreia do
sempre • 21 nov a 6 dez Norte e Coreia do Sul • 3 a 17 out

No dia-a-dia
convivemos
com intervalos HÉLIO LOUREIRO HENRIQUE SÁ PESSOA
de tempo que Chef Chef

Pesca do Bacalhau na Noruega: De Copenhaga • 11 a 14 out


estão pré-fixados. Oslo às Ilhas Lofoten • 27 abr a 2 mai País Basco • 1 a 4 nov

Mas nem sempre


259200’ sabemos quem
Receita médica os estabeleceu,
Uma receita médica normal tem um mês de prazo de validade. Os
seis meses das receitas triplas estão previstos para facilitar a vida de quando e porquê.
doentes com tratamentos prolongados, mantendo o controlo médico.
Eis alguns
RUI MASSENA JOSÉ RODRIGUES
exemplos. Maestro DOS SANTOS
Escritor e Jornalista
Por Ricardo Garcia Música em Amesterdão • 21 a 24 mai
A Ilha das Trevas: Indonésia e
e Hugo Torres EM PREPARAÇÃO AINDA
EM 2015: PROMS LONDRES,
Timor-leste • 2 a 17 set
BERLIM, PRAGA FEVEREIRO 2016: ANTÁRTIDA

Consulte também a nossa programação cultural nos cinco continentes.


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O reformismo dos sistemas penais europeus levou Portugal, em 1884,
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a abolir a prisão perpétua. Foi o primeiro país a fazê-lo, considerando RUA VIRIATO, 1A (PICOAS) • 1050-233 LISBOA • 213 304 168 • lisboa@pintolopesviagens.com
que os condenados deviam ser reabilitados e devolvidos à sociedade WWW.FACEBOOK.COM/PINTOLOPESVIAGENS
num prazo que ainda lhes permitisse contribuir para a comunidade.
Vítor
Cardoso
Houve
um dia
em que
não
1991
>>>>>>>>>>>> houve
ontem
Fim da URSS
A 19 de Agosto de 1991, a
tentativa de golpe de Estado
na URSS ameaça fazer
regredir o tempo e anular a
acção libertadora que levara
à Perestroika de Mikhail
Gorbatchov. O presidente é
preso na sua datcha de Verão
na Crimeia. A reacção nas
ruas, liderada em Moscovo
por Boris Ieltsin, faz falhar Desafiámos o físico português a fazer um passeio pelo Universo
a tentativa de regressão à
ditadura comunista. Daí ao fim e pela forma como a nossa visão sobre ele se alterou ao longo do último
da URSS foi um instante. A 25 de
Dezembro, Gorbatchov assinava século. “Passámos de um Universo parado para um Universo em ebulição,
a dissolução da União Soviética e
demitia-se, pondo fim a 70 anos
elástico e humano: nasce, cresce e, quem sabe, morre”
do mais emblemático regime
comunista. S.J.A. Entrevista Teresa Firmino Fotos Miguel Manso
COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO
TEATRO CAMÕES 12 MAR – 29 MAR

BG
PROGRAMA DE HOMENAGEM AO

BALLET
GULBENKIAN

TREZE GESTOS SERÁ QUE É UMA


DE UM CORPO ESTRELA?
FOTOGRAFIA © BRUNO SIMÃO / 2015

OLGA RORIZ VASCO WELLENKAMP

TWILIGHT MINUS 16
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EM ASSOCIAÇÃO COM A FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
A
Polar está onde sempre esteve desde que nascemos.
O que quero dizer com isto é que as observações
de Hubble, que são sofisticadas e precisam de
telescópios poderosos, nos dizem algo que é difícil
de “ver” e representam um choque com aquilo em
que acreditávamos há milénios. Ora, quando Einstein
soube disto, percebeu logo a asneira que fez, e
percebeu que a realidade o veio desmascarar. Nessa
altura afirmou que o maior erro da sua vida foi tentar
mudar as equações para se adaptarem ao que ele
pensava... E, realmente, é um erro histórico!
As implicações da expansão do Universo são muitas.
Não só destroem por completo a ideia de que está
tudo parado, mas também nos permitem fazer um
jogo interessante: se o Universo está em expansão,
significa que à medida que fica mais velho é também
maior. O que significa que o Universo jovem é cada vez
mais pequeno, e portanto o Universo teve uma data de
nascimento. Depois de Hubble, estas e outras coisas
fantásticas puseram todos a mexer e a querer saber ao
os 40 anos, Vítor Cardoso é professor e investigador certo de que forma é que o Universo se expande. Um
do Centro Multidisciplinar de Astrofísica e Gravitação dos melhores instrumentos que orbitam a Terra desde
(Centra) do Instituto Superior Técnico, em Lisboa. 1990 é o telescópio Hubble. Graças a essas e outras
Também é professor na Universidade do Mississípi, observações, sabemos que o Universo nasceu há quase
nos Estados Unidos, e investigador do Instituto 14.000 milhões de anos. Em menos de 100 anos,
Perimeter, no Canadá. Nos últimos cinco anos, ganhou passámos de um Universo parado para um Universo
duas superbolsas no valor total de 2,5 milhões de em ebulição, onde estrelas nascem, morrem, chocam
euros, que tem utilizado na investigação das equações umas com outras e onde o próprio Universo é elástico
de Einstein, com a ajuda de um supercomputador e humano: nasce, cresce e, quem sabe, morre.
chamado Baltasar Sete Sóis. Dedica-se à física teórica, A partir do momento em que se percebeu que o
nomeadamente à compreensão dos buracos negros, Universo se expandia, então, se andássemos para
da matéria escura e das ondas gravitacionais. trás no tempo, houve uma altura em que tudo
Toda a gente aceita hoje a ideia de que o Universo esteve junto. Não havia estrelas ou galáxias...
teve um início — o Big Bang — e que, desde então, ... Não havia nada, o Universo era um ponto. Nessa
o Universo está em expansão. Por que é que altura, a matéria como a conhecemos hoje não
Einstein se recusou a aceitar esta realidade, que, existia. Não existiam átomos nem sequer protões ou
aliás, uma das suas próprias equações da teoria electrões, que estavam completamente desintegrados.
da relatividade geral lhe indicava? Claro que isto é extremamente difícil de comunicar
Temos de tentar perceber o que ele fez com as ou compreender, já que foge à experiência do dia-
mesmas barreiras psicológicas que imagino que a-dia. Na realidade, nem sequer temos uma teoria
existissem na altura: o Universo era simplesmente suficientemente forte para compreender o nascimento
pensado como algo imutável, que sempre foi e sempre do Universo. A teoria da relatividade geral falha e não
será. Einstein acreditava, portanto, num Universo temos forma de pensar nesse “Universo-embrião”.
estático. Ora, a física tem esta coisa extraordinária de Ainda antes das observações de Edwin Hubble, já
prever coisas que nunca tínhamos imaginado quando tinha havido teorias que sugeriam a existência de
a construímos, isto é, quando a passamos para a um início do Universo, não é?
“Cientificamente, ter havido um linguagem matemática. E os resultados de Einstein Desde há muito tempo que um Universo estático
ponto de partida é libertador. diziam-lhe que o Universo não devia ser estático. Mas causava incómodos. Não havia teoria nenhuma,
Não nascemos escravos de um até Einstein, que já tinha derrubado a barreira do propriamente dita, que sugerisse o nascimento do
Universo que já cá estava. Pelo tempo imutável, sucumbiu e se recusou a deixar isto Universo. Contudo, um meteorologista e matemático
contrário, evoluímos com ele” acontecer: mudou um pouquinho a matemática para russo, Alexander Friedmann, tinha descoberto em
que as equações se adaptassem à sua interpretação da 1922 uma solução da teoria de Einstein que descrevia
realidade. Fez batota para satisfazer o seu preconceito. um Universo em expansão. Em 1927, o padre e
Este tipo de actos, o de tentar subjugar a realidade aos astrofísico belga Georges Lemaître chegou também a
nossos preconceitos, acontece não só em ciência, mas um modelo de um Universo em expansão. Lemaître
na política, na economia e no dia-a-dia. Na ciência, a compreendeu até as implicações dessa descoberta,
realidade fala sempre mais alto e acaba por ganhar. quando afirmou que “houve um dia em que não houve
Quando se fala de um Universo estacionário, isso ontem”, isto é, que o Universo teve um início.
quer dizer que se pensava que as estrelas não E, contudo, o trabalho de ambos foi praticamente
morriam? Que o nosso Sol se mantinha igual? ignorado na altura: não eram cientistas de renome no
As estrelas não nasciam nem morriam e não evoluíam. local certo, e em ciência, por vezes, isto é importante:
De alguma forma, isso dava-nos uma certa paz de há que lutar pelas ideias persistentemente, até serem
espírito: o Universo era assim no tempo dos nossos aceites pela comunidade. Até os resultados de Hubble
avós e vai continuar assim no tempo dos nossos netos. encontraram resistência e durante décadas muitos
Mas, por outro lado, o que aceitamos hoje é ainda não acreditaram neles. A primeira reacção de um
mais bonito: as estrelas nascem, morrem e algumas cientista a uma descoberta é tentar mostrar que está
explodem. O resto de algumas destas explosões de errada. Talvez seja por isso que a ciência funciona tão
estrelas mortas forma planetas, alguns dos quais vão bem: duas partes disputam com argumentos lógicos
ter vida, como a Terra. Portanto, a vida resulta da e lutam pela verdade até o assunto ficar esclarecido.
morte, e é muito mais interessante pensarmos que já Infelizmente, Friedmann não pôde lutar pela sua
fomos estrelas e que provavelmente vamos voltar a ser ideia, já que morreu pouco depois, aos 37 anos.
daqui a muitos milhões de anos... A grande descoberta de Einstein foi que o espaço
O momento-chave da mudança na nossa visão do e o tempo são uma entidade única — o espaço-
Universo foi quando o astrónomo Edwin Hubble tempo —, que é deformada pela presença da
descobriu, em 1929, que as galáxias se estavam a matéria e da energia. Como é que isso mudou a
afastar umas das outras? nossa visão do tempo?
Edwin Hubble descobriu que, em geral, todas as Em 1905, Einstein entendeu que o tempo não é
galáxias se estão a afastar de nós e que quanto mais absoluto, e que relógios iguais podem ter tiquetaques
longe de nós está uma galáxia, mais rapidamente diferentes conforme a velocidade a que eles se
ela se afasta. Portanto, o Universo está em expansão movam: não é problema nenhum com o relógio, é o
no verdadeiro sentido da palavra. Hoje é tão normal próprio tempo que flui de forma diferente... Isto vai
ouvirmos estas palavras que até parecem dizer algo até à raiz da nossa existência: afinal de contas, o que é
fácil de entender. Mas não é. Quando olhamos para o tempo?! O tempo é relativo, pode “mover-se” mais
os céus, vemos sempre a mesma coisa, a Estrela ou menos rapidamente. Todos os dias no CERN
estava concentrada inicialmente num único ponto e Do momento zero do Universo até aos 10-43
toda a matéria estava esmagada porque a temperatura segundo, podemos dizer que há tempo?
era enorme. Mas, à medida que o Universo expande, Do zero até aos 10-43 segundo não se pode dizer que
arrefece e permite a criação de estrutura. Quando não haja tempo. Há tempo, mas talvez seja de natureza
o Universo celebrou um segundo de vida, estava diferente. Não se pode dizer mais nada. É um tempo
suficientemente frio para núcleos de átomos. E aos diferente. Há efeitos de mecânica quântica que não
380 mil anos a luz conseguiu finalmente “libertar-se” conhecemos. Talvez o tempo flutue e dê saltos, talvez
da matéria: é esta luz a que chamamos a radiação não ande sempre para a frente... Julga-se que nestas
cósmica de fundo, um eco do Big Bang. Mas é um alturas o espaço-tempo é como espuma, tudo se
eco que tem toda esta evolução subjacente. É uma mistura. É a partir de 10-43 segundo que a teoria de
fotografia lindíssima do Universo jovem-adulto, só Einstein é aplicável.
possível num cenário em que existe Big Bang. E antes do Big Bang?
E um pormenor interessante é que esta “fotografia” É o campo da especulação e da metafísica. A ciência
foi descoberta por acaso por Penzias e Wilson em pára aí.
1964. Enquanto instalavam antenas muito sensíveis, Em 1999, João Magueijo propôs uma alternativa
detectaram um ruído que atribuíram a... cocó de ao modelo da inflação cósmica para explicar a
pombos. E que se verificou ser radiação cósmica de homogeneidade do Universo a grandes escalas.
fundo existente em todo o lado e em todas as antenas. Teriam sido os fotões (a luz) que puseram todo o
Hoje vemos galáxias pelo Universo todo. O que Universo primordial em contacto e o tornaram
mais nos disse a radiação cósmica de fundo sobre uniforme. Para isso a luz teria de ter sido mais
o Universo que vemos hoje? O que permite saber rápida no passado, o que questionava a constância
sobre os primeiros 380 mil anos do Universo, que da sua velocidade. Há hoje alguma observação
não vemos directamente? astronómica que fundamente esta proposta?
A radiação cósmica de fundo é quase isotrópica, isto Ele tentou mudar as regras do jogo, para encontrar
é, a mesma em todas as direcções para onde olhemos. uma alternativa ao processo de inflação, que, como
Isto faz sentido, dado que o Universo era o mesmo já disse, sugere que o Universo passou por uma fase
em todas as direcções quando esta luz foi libertada. de crescimento muito rápido, quando era criança.
Mas esta luz é antiga, está a viajar há muitos milhões Em vez de ser a velocidade de expansão do Universo
de anos e já viu muita coisa. Desde os quase 14.000 que mudava, era a própria velocidade intrínseca das
milhões de anos que passaram desde que a radiação coisas, neste caso da luz, que mudava ao longo da
cósmica de fundo foi criada, muita coisa aconteceu: história do Universo. A luz punha tudo em contacto
a gravidade atrai tudo o que pode, e a tendência é e a homogeneidade ficava mais ou menos explicada.
começar a formar “coágulos” de matéria, que são Do ponto de vista teórico, nada proíbe que isso tenha
as sementes das futuras galáxias, estrelas ou mesmo acontecido. Mas Einstein acreditava que a velocidade
buracos negros. Ora como esta luz viaja há tanto da luz era constante, é um postulado da teoria dele. É
tempo, foi afectada por todos estes acontecimentos. assim que a física funciona: propõem-se alternativas
Por isso, quando olhamos para a radiação cósmica para resolver problemas e fazem-se observações para
de fundo, vamos ver todo este passado da luz como ver qual é a que o Universo escolheu. Parece hoje que
pequenos desvios em diferentes direcções. o Universo escolheu a inflação e que a velocidade da
“[Antes do [Laboratório Europeu de Física de Partículas, em Outro marco da nossa compreensão do Universo luz é mais ou menos constante ao longo da sua história.
Big Bang] é Genebra] se verificam estas previsões, é algo já aceite foi o modelo da inflação cósmica. Por que foi Portanto, a proposta de João Magueijo é interessante,
o campo da por todos nós e que até passou para a cultura popular, preciso introduzir na teoria do Big Bang uma mas a natureza não optou por ela. Contudo, ao
especulação e mas era uma barreira imensa. expansão vertiginosa do Universo nas primeiras explorar essa possibilidade, ficamos a saber algo mais
da metafísica. Em 1916, Einstein percebeu que o tempo e o espaço fracções de segundo da sua existência? sobre o Universo. Fazer ciência é testar hipóteses.
A ciência pára são elásticos e duas faces de uma mesma entidade: o O Universo nasceu homogéneo e isotrópico, o mesmo A descoberta das ondas gravitacionais dos
aí.” espaço-tempo. Pela primeira vez, o tempo não é uma em todo o lado e direcção e continua mais ou menos primórdios do Universo, anunciada em 2014,
entidade imóvel, é algo que pode ser distorcido. Isto assim ainda hoje. No cômputo geral, é mais ou menos teria sido a prova final de que o modelo da
permitiu-nos trabalhar a noção de tempo: o tempo homogéneo. Se olharmos para o céu, há sempre uma inflação cósmica estava certo. Mas esse anúncio
pode fluir mais devagar ou mais depressa. A teoria da estrela algures no caminho do nosso telescópio. Isto foi desmentido este ano por análises posteriores
relatividade foi importante para termos até uma noção significa que a direcção do Pólo Sul no céu parece- das observações, nomeadamente do telescópio
do início do tempo, tínhamos de quebrar primeiro a se, com uma precisão de uma parte em 10.000, espacial europeu Planck. Ficou muito desiludido?
noção de que o tempo é uma coisa estática e imóvel com a direcção do Pólo Norte. Mas quando olhamos As ondas gravitacionais são distorções do espaço-
e eterna. Creio que a noção do Big Bang só é possível nestas diferentes direcções, estamos a ver luz que tempo que transportam informação sobre a gravidade.
depois de termos quebrado a barreira do tempo e de veio de partes completamente diferentes e que nem Viajam à velocidade da luz e foram previstas por
sabermos que podemos mexer no tempo. sequer deveriam saber da existência uma da outra. Einstein há 100 anos, mas nunca foram detectadas
Que implicações filosóficas e religiosas teve o Então, como é possível que sejam tão semelhantes? directamente na Terra. O anúncio da descoberta
facto de sabermos da existência do Big Bang? Bem, uma explicação é que seja uma coincidência, matava dois ou três coelhos de uma cajadada: se estas
Imagino que deve ter sido um grande choque saber mas tem de ser uma coincidência tão grande que é ondas tivessem mesmo sido vistas, significava que
que o Universo está a evoluir e que nós, enquanto como ganhar a lotaria várias vezes seguidas... Parece a gravidade também tem natureza quântica, já que
parte do Universo, estamos a caminhar para algum batota! Pensamos que isto aconteceu porque houve estas ondas seriam geradas por efeitos quânticos no
ponto enquanto espécie e enquanto ser vivo no uma inflação, isto é, um crescimento muito rápido, início do Universo; significava também a verificação
cosmos. Qual o nosso papel no Universo? Há algum que dissolveu qualquer “coágulo” e imperfeição do mecanismo que mencionei, a inflação, já que só
propósito na nossa existência? Qual o futuro da que existisse, um alisamento muito rápido do tecido através da inflação é que as ondas gravitacionais são
humanidade? Quem criou o Universo? Estas perguntas onde estavam estes coágulos, e tudo ficou muito suficientemente fortes. Finalmente, a detecção das
devem ter ganho nova relevância. uniformemente distribuído. A inflação procura ondas significa que elas existem.
Mas, cientificamente, ter havido um ponto de explicar por que é que o Universo é assim. Quanto ao episódio do anúncio da (falsa)
partida é libertador. Não nascemos escravos de um Ainda antes da inflação, houve o Big Bang, o descoberta em si, é uma ilustração perfeita de como
Universo que já cá estava. Pelo contrário, evoluímos momento zero. Depois, houve a primeira fracção a ciência (e o ser humano) funciona. Um grupo, da
com ele. Se o Universo não é estático e está a mudar, de segundo a partir da qual o conceito de tempo experiência BICEP2 no Pólo Sul, afirmou [em 2014] ter
então talvez possamos compreender as estrelas, tem sentido: 10-43 segundo. Mas entre o Big Bang e descoberto as ondas gravitacionais, talvez um pouco
como deitam tanta luz cá para fora, o que acontece os 10-43 segundo, o que é o tempo? precipitadamente, para ficar com a fama e o proveito
no interior delas... Como é que se formaram, como Não sabemos. O 10-43 segundo é o que chamamos a que adviriam se estivessem correctos. A reacção da
morrem, como é que a vida nasceu... tudo isto! Tem escala de Planck (em homenagem a Max Planck, o maior parte de nós ao anúncio de qualquer descoberta
de ter sido uma coisa bonita saber que, afinal, há físico que iniciou o estudo da mecânica quântica). Que é tentar provar que está errada. E, realmente, há cerca
alguma dinâmica no sítio onde vivemos. é a escala da nossa ignorância. Diz-nos que daí para de um mês, a equipa do Planck, em colaboração com
Em 1965, descobriu-se uma radiação “fóssil”, trás a mecânica quântica (que explica a existência de o BICEP2, mostrou que o anúncio foi precipitado.
que é a luz mais antiga que conseguimos ver dos átomos, moléculas, etc.) é tão ou mais importante do Mas repare: há agora um consenso entre os cientistas,
primórdios do Universo, quando tinha só 380 mil que a gravidade. Quando o campo gravítico é muito portanto o método científico está a funcionar bem.
anos, e que se chama radiação cósmica de fundo. forte — e era no início do Universo, porque estava Pode explicar um pouco mais o que são as ondas
Esta foi a derradeira prova do Big Bang? tudo junto e era extremamente denso —, há efeitos de gravitacionais? E acha que vamos detectá-las?
A teoria de um Universo estático ou estacionário mecânica quântica que não podemos prever. Sabemos A teoria da relatividade de Einstein diz que espaço
prevê que o Universo é hoje como foi há milhões de que têm de estar lá, mas não os sabemos calcular. e tempo são um único tecido, e que as ondas
anos. Por outro lado, a teoria de que o Universo teve Como não conseguimos casar a teoria quântica e a da gravitacionais são flutuações desta entidade à medida
um início prevê muitas outras coisas: toda a matéria relatividade geral, não sabemos o que acontece. que o tempo passa. As ondas na superfície de
buraco negro, é bom sabermos como estas bestas grupo de grande qualidade sem preocupações quanto
nasceram e cresceram. Buracos negros nascem aos cortes ou à política de contratações, durante os
quando uma estrela muito grande morre, e cai sobre próximos cinco anos. E vai permitir-me actualizar o
si mesma, pois já não consegue suportar a atracção nosso supercomputador, que usamos intensamente
gravítica. Para um buraco negro, crescer é a única para resolver as equações de Einstein.
opção: eles comem tudo o que puderem. Os buracos Esse supercomputador chama-se Baltasar Sete
negros são muito comuns em todas as galáxias: a Sóis, nome inspirado em Baltasar Mateus, o Sete-
nossa tem milhões de buracos negros “pequenos”, Sóis, personagem de José Saramago em Memorial
isto é, com cerca de 15 quilómetros de raio, mas do Convento. Por que deu esse nome à máquina?
um milhão de vezes mais pesados do que a Terra. O nome foi discutido com a minha mulher, queria
Além disso, descobrimos nas últimas décadas que que fosse algo com significado. Ora o Baltasar Sete
quase todas as galáxias têm no centro um buraco Sóis é um personagem que ajuda o padre Bartolomeu
negro supergigante. No caso da Via Láctea, o centro Lourenço a construir o seu sonho, que é a Passarola,
é ocupado por um monstro gigante quatro milhões uma máquina voadora. Gostámos desta ideia, de o
de vezes mais pesado do que o nosso Sol. Estes Baltasar ajudar a construir um sonho, especialmente
gigantes, apesar de muito mais pequenos do que a da forma apaixonada com que as personagens do
galáxia, controlam toda a sua actividade, incluindo livro o faziam. Posso dizer, ao fim de cinco anos, que o
o nascimento de novas estrelas. Estes gigantes nos Baltasar já construiu muitos sonhos!
centros das galáxias estão sempre acompanhados Neste passeio que estamos a fazer, houve mais
por outro gigante invisível, a que chamamos matéria um abalo, em 1998, na nossa visão do Universo.
escura. E que forma a maior parte da matéria do Não só o Universo se está a expandir como o está
Universo e não fazemos ideia do que seja (por isso a fazer cada vez mais depressa. Por que é que isto
lhe chamamos “escura”, quando soubermos o surpreendeu tanto os cientistas?
que é, talvez mudemos o nome!). Ora, os buracos Bom, por várias razões, a começar pelo facto de que a
negros emitem quantidades prodigiosas de ondas expansão acelerada não estava no “menu”. E porque
gravitacionais. Procuro perceber esta emissão e a sua a descrição mais simples desta aceleração é uma
importância. Será que através das ondas gravitacionais energia escura, ou constante cosmológica (a mesma
podemos saber algo sobre a matéria escura? que o Einstein tinha introduzido por preconceito), que
Como é que o acelerador LHC — onde se detectou ainda hoje não sabemos bem explicar. Já agora, esta
o bosão de Higgs em 2012 e vai agora reabrir “reciclagem” da constante cosmológica não significa
quase com a sua potência máxima — pode ajudar que Einstein estava, afinal de contas, certo. Isso é
a descobrir o que é a matéria escura? apenas uma coincidência, mas mostra que o homem
O LHC tem tentado procurar também matéria tinha uma intuição danada para resolver problemas.
escura, mas estamos sempre limitados pela energia O cenário mais consensual é o da expansão
necessária. No estado actual da física, a parte mais eterna do Universo. Como será o Universo com
excitante está no Universo para lá do nosso sistema 26.600 milhões de anos, ou seja, com o dobro da
solar. Há pouco tempo, o CERN deu-nos provas mais sua idade actual? Esse futuro é negro?
ou menos conclusivas da existência do bosão de O futuro é escuro e frio! Essa pergunta é tramada,
Higgs. Mas receio que daqui para a frente a física de porque exige fazer alguns cálculos complicados.
“Daqui a cerca um lago são uma boa analogia. Outra boa analogia partículas vá passar um mau bocado. Sempre precisou Mas deixe-me descrever o que vai acontecer, e como
de 4000 é imaginarmos que o Universo em que vivemos é o de mais e mais energia [para se colidirem partículas vamos ficar cada vez mais sós.
milhões de tecido de uma camisola. E que nós e tudo o que existe nos aceleradores], mas haverá uma altura em que, no Daqui a cerca de 500 milhões de anos, o Sol estará
anos a Via no Universo somos os desenhos pintados na camisola. planeta, é impossível dar essa energia toda. Teremos tão luminoso que a temperatura na Terra vai subir
Láctea vai Se eu tocar com o dedo na camisola, ela vai oscilar. E de olhar lá para fora e dar atenção a outro tipo de cerca de dez graus. O homem vai provavelmente
colidir com se eu puxar o tecido da camisola, os desenhos ficam “aceleradores”. Creio que a física deste século está nos começar a pensar, a sério, em mudar-se para outros
Andrómeda. mais ou menos esticados. Puxões que viajam no tecido astros e na física gravitacional. Há muito por entender planetas no sistema solar ou na galáxia antes disto.
Vamos perder são as ondas gravitacionais. Esta analogia mostra-nos e muitas fontes de energia onde procurar informação. De qualquer forma, daqui a cerca de 4000 milhões
a nossa o efeito de uma onda gravitacional sobre nós. Se uma Precisamos de telescópios bons e mentes brilhantes. de anos a nossa galáxia, a Via Láctea, vai colidir com
querida onda gravitacional estiver a passar aqui entre nós, é Os buracos negros estão entre os objectos outra, a de Andrómeda. Durante este processo, que
galáxia, mas o mesmo que eu puxar o tecido de uma camisola e o mais exóticos do Universo? Ou nem por isso, e levará muito tempo, algumas simulações mostram que
por essa que veria é que ficaríamos sucessivamente esticados e despertam é curiosidade nas pessoas?... a Terra vai passar muito perto do centro desta galáxia
altura a Terra comprimidos. A minha altura iria variar muito pouco, São, sem dúvida, exóticos para a nossa experiência combinada, antes de ser ejectada para fora. Vamos
já não terá mas iria variar. O problema é que varia muito pouco, o do dia-a-dia. São um “nada” que consegue curvar de perder a nossa querida galáxia, mas por essa altura a
humanidade” que é bastante complicado de detectar. tal forma o tiquetaque dos relógios que nada sai de Terra já não terá humanidade [o Sol estará a morrer
Estas ondas têm uma história interessante. Einstein dentro deles. Creio que o que desperta a curiosidade daqui a 5000 milhões de anos].
previu a sua existência em 1916, mas 20 anos depois é o facto de desafiarem os nossos conceitos de Daqui a 100.000 milhões de anos, todo o Grupo
negou-a num artigo com [Nathan] Rosen. Einstein tempo e espaço, e o facto de representarem um fim Local [umas 40 galáxias, incluindo a nossa] será
também errava, e bastante, e isto foi mostrado por quase definitivo para tudo que engolem. E é preciso uma única galáxia e o Universo já terá arrefecido e
[Howard] Robertson, que se apercebeu de que ele relembrar que eles existem. expandido de tal forma que esta única galáxia estará
interpretou mal a solução. Mas Einstein era Einstein Teve duas superbolsas do Conselho Europeu de isolada do resto do Universo. Lentamente, estrelas
e o que perdurou foi a sua opinião... até 1955, quando Investigação (ERC), em 2010 e 2015, para estudar deixarão de se formar. Algum tempo depois, os
[Richard] Feynman, [Hermann] Bondi e outros as equações na teoria da relatividade geral. O que protões e neutrões desintegrar-se-ão. Qualquer vida
mostraram que as ondas têm de existir e transportar quer dizer estudar as equações de Einstein? que pudesse existir morre. Como puro exercício
energia. A partir de 1960, começa-se a tentar detectar O meu trabalho é pensar sobre o que nos rodeia, especulativo, podemos continuar: a matéria que existe
estas ondas na Terra, com barras de alumínio. Joseph para percebermos, todos nós, o nosso Universo um vai cair para dentro dos buracos negros, e o Universo
Weber foi um pioneiro, construindo os detectores pouco melhor. A minha investigação consiste em vai ter apenas buracos negros gigantes. Finalmente,
mais avançados. Infelizmente, alegou ter detectado perceber a teoria de Einstein e o que ela prevê. É fácil estes vão-se evaporando lentamente. Não faço ideia
dezenas de acontecimentos, mas mostrou-se mais de enunciar, é difícil de fazer, porque as equações do que acontece a seguir neste Universo. Dito assim,
tarde que resultaram de erros de software e hardware. de Einstein descrevem muita coisa: buracos negros, parece um cenário desolador. Poderemos pensar em
Resumindo, a história da detecção destas ondas, ondas gravitacionais, estrelas de neutrões, etc. nós como aquela luzinha trémula que surgiu no meio
chamadas “mensageiros de Einstein”, não começou As equações da relatividade são tremendamente da noite e se apagou, mas foi bonito enquanto durou.
muito bem, e havia algum receio de investir uma complicadas de resolver e têm muitas soluções — tal Esta altura onde estamos agora é a melhor para
carreira no assunto. Nos anos 1980, o famoso físico Kip como a “fórmula” da biologia dá origem a muitos seres estudar o Universo, agora já evoluiu bastante?
Thorne decidiu recomeçar todo o esforço com o LIGO, vivos diferentes. Tome-se o exemplo do buraco negro É. Se fosse mais cedo, era impossível, porque não teria
um observatório norte-americano. Acreditamos que a no centro da nossa galáxia, que é fundamental para a o tipo de estrutura que tem. Não haveria planetas do
primeira detecção directa destas ondas vai acontecer vida da galáxia, para a formação de estrelas e até para tipo da Terra a orbitar estrelas. Nem nós estaríamos
daqui a um ou dois anos. Se não detectarmos nada em o futuro longínquo da galáxia. Dedico-me a tentar cá nem alguma forma de vida vagamente semelhante
2017... mau... Então, ou o Universo é completamente perceber estes buracos negros, como crescem e como à nossa. A questão é: há mais alguém a observá-lo e há
diferente da forma como hoje o entendemos, ou a nos podem ensinar algo acerca da sua vizinhança. ligeiramente mais tempo?
teoria de Einstein está seriamente errada. E estas superbolsas são fulcrais. A importância e Acha que há?
Pensa-se que os buracos negros também geram a qualidade da ciência em Portugal tem crescido, Acho que sim. A probabilidade de haver vida nalguma
ondas gravitacionais, duas coisas estudadas por muito rapidamente, nas duas últimas décadas. Os ponta do Universo é imensa. O que não quer dizer que
si. Que mistérios procura desvendar? cortes orçamentais fizeram regredir a situação. A esses seres vivos sejam necessariamente parecidos
Bom, dado que vamos todos acabar dentro de um última bolsa do ERC vai permitir-me manter um connosco, física ou intelectualmente.
Oferta limitada ao stock existente e válida de 6 a 8 de março. Ação não acumula com outras em vigor. Exceto Açores. Seja responsável. Beba com moderação.

DO ALENTEJO
E DOMINGO

EM TODOS OS VINHOS
SEXTA, SÁBADO
1991
>>>>>>>>>>>>
A1
Em 1991, Portugal fica mais
pequeno e mais rapidamente
E
ste ano, no último dia de Junho ou no primeiro de Julho
(dependendo do fuso horário do local), os relógios do
mundo inteiro — e em particular os dos computadores —
vão ter de parar durante um segundo. Tal foi a decisão,
tornada pública há dias, dos “guardiões da hora” a nível
mundial: o Gabinete Internacional de Pesos e Medidas,
com sede em Sèvres, nos arredores de Paris.
Porquê? Porque a hora é hoje dada por relógios muito
precisos e estáveis, ao passo que a rotação da Terra é
irregular e está a ficar cada vez mais lenta. Isso obriga,
de vez em quando, a fazer acertos.
transitável: é finalmente No início, havia a noite e o dia, a meia-noite e o meio-
concluída a construção da dia. E as horas contavam-se partindo esse ciclo natural
Auto-estrada entre Lisboa e o em intervalos regulares: horas, minutos e segundos.
Porto, que tinha sido iniciada A partir de observações astronómicas, os astróno-
ainda em 1961 com o troço mos árabes tinham subdividido, já na Idade Média, o
Lisboa Vila Franca — ou seja, 30 dia solar em 24 horas, as horas em 60 minutos e os
anos para acelerar o percurso minutos em 60 segundos. E, com base nisso, em 1874,
de 330 quilómetros. Onze o segundo fora cientificamente definido como um se-
anos depois (2002), o país xagésimo de sexagésimo de vigésimo quarto da dura-
tornou-se ainda mais pequeno ção média do dia solar. Um dia “civil” durava portanto
com a inauguração dos 240 86.400 segundos.
quilómetros da A2 entre Lisboa Só que, pouco depois, descobriu-se que o período de
e Albufeira, iniciada em 1996. rotação da Terra não é assim tão regular: varia de forma
S.J.A. imprevisível sob o efeito das marés, dos ventos, dos
terramotos. Seguiram-se então definições do segundo
com base no ano solar, que também não se adequaram
à crescente necessidade de medir o tempo de forma
cada vez mais precisa.
Em 1955, foram inventados os relógios atómicos e,
uns anos mais tarde, redefiniu-se o segundo com base
na frequência da radiação electromagnética emitida por

Este ano,
certos átomos. Este segundo “atómico” tinha a vanta-
gem de ser bastante próximo do segundo oficial “natu-
ral” (baseado no dia solar) definido em 1874.
Hoje em dia, os segundos atómicos servem para de-

o último
terminar a “hora atómica internacional” (TAI) graças a
uma rede de centenas de relógios atómicos, espalhados
pelo mundo — e entre os quais o Gabinete Internacional
de Pesos e Medidas calcula uma hora média.
Graças a diversos avanços técnicos, as “batidas” des-

dia de
tes relógios atómicos têm-se tornado cada vez mais re-
gulares, com os de última geração a demorarem milhões
de anos a derivar alguns segundos. E o aperfeiçoamento
não pára aí: em Fevereiro, cientistas japoneses anun-
ciaram na revista Nature Photonics ter obtido relógios

Junho
atómicos que teriam derivado menos de um segundo
desde o Big Bang, há 13.800 milhões de anos.
Em 1972, como os relógios atómicos respondiam de
facto à necessidade de precisão no cálculo da hora glo-

vai ter
bal (nomeadamente nas redes de telecomunicações), a
hora oficial na Terra, que até lá tinha sido medida em
segundos “solares”, passou a ser medida em segundos
“atómicos”. Entrou assim em vigor a escala horária UTC
(Tempo Universal Coordenado).

mais um
Mas surgiu então um outro problema: é que a rotação
da Terra não tem parado de abrandar — em cerca de 1,7
milissegundos por século nos últimos séculos — e, se
nada fosse feito, a hora UTC, agora medida em segundos

segundo
atómicos, iria afastar-se cada vez mais da hora solar “re-
al”. Na altura, ninguém desejava, por assim dizer, que
acabasse um dia por “estar sol em plena noite” (mesmo
que isso acontecesse daqui a milhares de anos).
A hora UTC, que é de facto a norma através da qual o
mundo acerta hoje os relógios e a hora civil, encontra-se
sob a alçada da União Internacional de Telecomunica-
Por Ana Gerschenfeld ções. E, face ao problema do abrandamento da rotação
YULIA DARASHKEVICH/REUTERS
terrestre, aquela entidade recomendou então que a hora
“oficial” dada pelos relógios — a hora UTC —, nunca se
poderia afastar em mais de 0,9 segundos da hora dada
pelo “relógio” natural da rotação da Terra.
Foi justamente por essa razão que começou a ser pre-
ciso acrescentar segundos adicionais de vez em quando
à hora UTC. Desde 1972, 25 destes “segundos intercala-
res” foram assim acrescentados. E este ano, mais uma
vez, vai ser preciso fazer o acerto dos relógios. Diga-se,
já agora, que a hora atómica internacional TAI está actu-
almente 35 segundos adiantada em relação à hora solar,
uma vez que este tipo de acertos entre a hora atómica
e a hora solar já tinha começado a ser feito nos anos
1960, antes da instituição da actual hora UTC.

Parar um segundo
Como é que o salto de um segundo se vai processar? A
30 de Junho, quando forem 00:59:59 horas (hora UTC),
todos os relógios do mundo que usam o sistema UTC
terão de parar por um segundo — ou de marcar um se-
gundo a mais (um sexagésimo primeiro segundo, com
os relógios a dar 00:59:60 horas) — antes de passar para
a hora seguinte. Isto acontecerá antes da meia-noite
nas Américas, após a meia-noite na Europa — e mesmo
depois do nascer do sol de 1 de Julho em países como o
Japão ou a Austrália.
Simples? Nem por isso. Acontece que os grandes
sistemas informáticos — como os serviços de reservas
das companhias aéreas ou os servidores das grandes
empresas da Internet — vão ter de marcar o passo. Ora,
em 2012, quando da introdução do último segundo in-
tercalar, vários destes sistemas tiveram problemas para
“digerir” o segundo e acabaram por ir abaixo, alguns
durante várias horas.
“Vamos ter de obrigar os nossos relógios a aceitar
um segundo a mais num dado minuto”, explicava em
finais de 2011 à revista New Scientist Felicitas Arias, as-
trónoma argentina e directora do Departamento do
Tempo no Gabinete Internacional de Pesos e Medidas.
E acrescentava: “Estamos a usar um sistema [horário]
que interrompe o tempo, quando a característica do
tempo é, pelo contrário, a continuidade.”
A seguir ao segundo intercalar de 2012, servidores da
companhia aérea australiana Qantas ou de sites como
Linkedin, Mozilla, FourSquare ou Reddit foram atin-
gidos por um bug de programação, que até lá tinha
permanecido latente (e que portanto ninguém tinha
detectado), no sistema operativo Linux utilizado por
aqueles computadores. Outros servidores, que utiliza-
vam Java (o célebre software da Oracle), também foram
afectados.
Pode isto tornar a acontecer? Ninguém sabe ao certo.
Mas na sequência dos problemas com que se defrontou
por ocasião do segundo intercalar introduzido em 2005,
o gigante online Google divulgou uma forma de contor-
nar o problema, como explicava há dias a CNN online.
Trata-se de ir acrescentando alguns milissegundos aos
relógios dos seus servidores ao longo do dia fatídico — No tempo de preparar uma refeição.
“o suficiente para evitar o desastre no fim do dia, mas
que [por serem apenas uns milissegundos] não fazem
90 minutos é tudo o que precisa para perceber
disparar os alarmes.” Porém, isso também não evita a actual desconfiança nas instituições políticas
todos os incidentes.
Há anos que a União Internacional de Telecomuni- em Portugal, na Europa e no Mundo, num ensaio
cações está a considerar a hipótese de acabar, pura e elucidativo de Ana Maria Belchior.
simplesmente, com os segundos intercalares, deixando
a hora UTC afastar-se da hora solar. Em Novembro des-
te ano, a questão tornará a ser abordada no congresso
desta organização em Genebra. Mas o facto é que não há
consenso entre os especialistas. Por um lado, há quem
argumente que, com o passar dos séculos, a frequência
de introdução de segundos intercalares vai aumentar
até se tornar incomportável. Por outro, há quem alerte
para o facto que abolir os segundos intercalares fará
com que a hora civil acabe por perder a sua ligação
com o tempo solar.
Ainda segundo a New Scientist, este último argumento
apresenta uma visão exagerada das coisas, uma vez que
a hora legal em vigor nos diversos países já se encontra
desfasada, por vezes de várias horas, em relação à hora
solar — o que significa que o Sol não está nem perto do
zénite quando os relógios assinalam o meio-dia. Por
comparação, a abolição do segundo intercalar levaria,
daqui por cem anos, a uma diferença de apenas um
minuto entre a hora atómica e a hora solar.
Milissegundos
que valem
milhões

A
o contrário dos humanos, os computa- quência, ser o primeiro a ter acesso a informação re-
No mundo de alta velocidade dores não têm esperança, aquela dispo- levante é uma vantagem que se mede em milésimos
dos algoritmos financeiros, sição de espírito que leva a crer que algo
acontecerá (ou deixará de acontecer),
de segundo (ou, às vezes, até menos). A proximidade
física às fontes de informação e aos mercados onde as
pouco tempo significa muito dinheiro mesmo quando a informação dispo- acções e demais instrumentos são transaccionados é
nível aponta em sentido contrário. Os um bem cobiçado, já que permite encurtar o tempo
algoritmos desenvolvidos para analisar uma imensa que os dados e as ordens de compra e venda demoram
Por João Pedro Pereira quantidade de dados e tomar uma decisão de compra a percorrer (normalmente através de cabos de fibra
ou venda de um produto financeiro não foram progra- óptica) a distância entre computadores.
mados para cruzar os dedos e esperar que o pior passe. “Cada microssegundo de vantagem conta. Ligações
Os computadores seguem à risca as instruções com mais rápidas de dados entre bolsas minimizam o tem-
que foram programados e fazem-no em minúsculas po que se demora a fazer uma transacção; as empre-
fracções de segundo. Por vezes, isto leva a situações sas lutam para ver qual é o computador que pode ser
inesperadas. colocado mais próximo”, explica, num artigo recente
Um mini-crash dos mercados em 2010 ficou na histó- para a revista Nature, o físico Mark Buchanan, autor do
ria como um exemplo dos riscos colocados pelas tran- livro Forecast: What Physics, Meteorology and the Natural
sacções feitas por algoritmos, em particular por aquilo Sciences Can Teach Us About Economics.
a que se chama high frequency trading (transacções de Buchanan argumenta que as transacções ultra-rápidas
elevada frequência). É uma prática que envolve gran- tem algumas vantagens. Por um lado, diz, tornou-se
des quantidades de transacções automatizadas, feitas mais barato investir, já que as comissões cobradas aos
em curtíssimos períodos de tempo e onde a estratégia investidores caíram com esta prática. Por outro, os pre-
é normalmente ter um pequeno ganho em cada uma ços dos diferentes instrumentos financeiros ajustam-
das múltiplas compras e vendas. se mais rapidamente. “Em 2000, eram precisos, em
A 6 de Maio daquele ano, o Dow Jones (o índice bolsis- média, minutos para que a mudança de preço num
ta que agrega as cotações de grandes empresas como a instrumento se repercutisse nos outros. Agora, demora
Microsoft, a Coca-cola e a IBM) estava às 14h47 minutos menos de dez segundos. Nem toda a gente gosta disto:
de Nova Iorque a perder mais de 9%. A maior parte desta uma sincronização rápida elimina as oportunidades de
queda, invulgarmente grande, acontecera nos minutos lucro das empresas que fazem dinheiro por conhecerem

1992
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anteriores. Ainda antes das 15h, as cotações já tinham
recuperado boa parte das perdas.
Foram precisos meses para que as autoridades regu-
latórias conseguissem explicar o que se passara: o crash
tinha sido causado por computadores a comprarem e
venderem uns aos outros, numa sucessão imprevisível
os desequilíbrios momentâneos de preços”.
Associada às transacções de alta frequência está tam-
bém a prática de colocar no mercado sucessivas ordens
de venda, a preços progressivamente mais altos, com o
objectivo de descobrir que ordens são aceites e assim
saber o preço máximo que alguém está disposto a pa-
de eventos. A bola de neve começou com uma empresa gar — estas ordens são dadas e canceladas em fracções
Salvar a Terra que usou um programa de computador para vender de segundo.
Em 1992, o Rio de Janeiro é o 4,1 mil milhões de dólares de contratos de futuros, in- O prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz está no
palco da Cimeira da Terra, a dependentemente do preço de venda. A maior parte campo dos detractores deste tipo de práticas. Num dis-
segunda conferência mundial foi rapidamente comprada por computadores de hi- curso no ano passado, apelou a um maior escrutínio,
sobre meio ambiente. A primeira gh frequency trading. Quando os algoritmos daqueles disse ser céptico quanto ao “valor social” das transac-
realizara-se em Estocolmo computadores consideraram que já tinham comprado ções de elevada frequência e classificou-as como um
em 1972. No Rio, 108 países demasiado, começaram a vender muito rapidamente. jogo de soma negativa. “Porque o retorno privado pode
comprometeram-se em travar Em escassos 14 segundos, os contratos trocaram de exceder o retorno social, haverá um excessivo inves-
a degradação do planeta e o mãos 27 mil vezes. timento na velocidade de aquisição de informação”,
consumo de recursos naturais, Com uma venda maciça a decorrer, outros investido- observou o economista.
assim como encontrar modelos res começaram a comprar os contratos a preços redu- Em 2013, foi tornado público que a agência Reuters
de desenvolvimento sustentável, zidos, mas a vender acções que tinham em mercados vendia, a um grupo restrito de investidores, um indi-
ecologicamente equilibrados. como a Bolsa de Nova Iorque. Por seu turno, alguns cador sobre o consumo nos EUA dois segundos antes
Do Rio saíram convenções sobre algoritmos detectaram a rápida sucessão de compras de o divulgar à generalidade dos seus clientes (que, por
biodiversidade, desertificação e vendas e pararam de transaccionar. O resultado foi sua vez, o recebiam cinco minutos antes do público em
e clima. Esta última conduziu, um crash de alguns minutos, que terminou quando um geral). A vantagem podia chegar a dois segundos e meio,
em 1997, ao Protocolo de algoritmo, desta vez do mercado onde eram trocados já que o contrato previa uma margem de erro de meio
Quioto, no Japão, em que os os contratos de futuros, interveio e suspendeu as ne- segundo. Aquele indicador, que influencia mercados,
países concordam em reduzir as gociações durante cinco segundos. é elaborado pela Universidade do Michigan. Para ter
emissões de gases com efeito acesso antecipado à informação e a poder revender,
estufa, evitando o aquecimento Ser o primeiro a Reuters pagava então à universidade um milhão de
global. S.J.A. Nas rapidíssimas transacções algorítmicas de alta fre- dólares por ano, mais comissões.
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P
rofessora de noutro. E o segredo mais bem guardado do mundo é o
sociologia na algoritmo do Google.
London School of Falou do papel das empresas. E em relação ao
Economics, Judy papel dos consumidores, dos cidadãos? Porque
Wajcman publicou a forma como utilizamos a tecnologia diz algo
recentemente sobre nós. Quando as pessoas incorporam essa
um livro onde necessidade de velocidade, o que é que diz delas
analisa a relação próprias?
das tecnologias No meu livro tento fugir à polarização, de que
e a forma como algo é totalmente bom ou totalmente mau. De que
sentimos o tempo. o problema se resolve com uma desintoxicação
Em Pressed for Time tecnológica. Numa sociedade que valoriza a
— The acceleration velocidade, as pessoas tendem a usar a tecnologia
of life in digital nesse sentido. Quando se olha para os telemóveis,
capitalism, sublinha que as pessoas não são reféns para smartphones, por exemplo, as pessoas querem
das tecnologias; logo, que não são estas as culpadas estar em estrito contacto com a família e com os
de sentirmos que andamos sempre a correr. A obra, seus amigos. Quando os telemóveis surgiram, pensei
que evita o facilitismo das ideias a “preto e branco”, que era mais uma ferramenta de trabalho. Como
evidencia factos, como estarmos a viver uma cultura antiga marxista que sou, imaginei logo que seria
que valoriza o estar atarefado e a hiperprodutividade. uma forma de intensificar o trabalho. Mas todas as
Muitas vezes, com o devido contexto, levanta mais pessoas compraram telemóveis, de uma forma tão
questões do que dá respostas. Resumindo: faz pensar, rápida, e verificou-se que querem estar em contacto
algo que requer tempo. com a família e amigos quando estão à espera do
No seu livro refere que há uma espécie de autocarro, por exemplo, para saber se é preciso ir ao
paradoxo, com as pessoas a culparem os produtos supermercado ou se as crianças estão bem.
tecnológicos pela pressão, pela noção de falta de Mas os telemóveis vieram intensificar o trabalho,
tempo, mas, ao mesmo tempo, é a esses mesmos certo?
produtos que se recorre para tentar aliviar essa Sim, é verdade. Mas não se pode pensar no problema
pressão. A tecnologia está, de facto, a acelerar as do tempo e das pessoas como uma questão individual.
nossas vidas? É um problema colectivo, ligado à forma como a
A tecnologia que temos reflecte a sociedade, não a sociedade está organizada: espera-se uma resposta
molda. E isso é argumento contra a ideia de que somos rápida, que a pessoa está disponível, etc. Tem de se
vítimas da tecnologia. A hiperactividade não existe por lidar com essas questões de forma colectiva, alterando
causa dela. A tecnologia só existe a partir do momento as práticas do local de trabalho. Em termos históricos,
em que é fabricada, e lhe damos um sentido. os telemóveis são algo muito recente, tal como o
Mas acha que não estamos a usar tecnologia da email, e já usamos o email de forma diferente da
forma mais correcta? que fazíamos há dez anos. Com o tempo, as pessoas

Judy
Uma questão passa pelo facto de a tecnologia estar vão alterar a forma como utilizam as diferentes
a ser concebida, de uma forma geral, em Sillicon tecnologias.
Valley, por empresas cujo objectivo é o lucro. E essa alteração virá no sentido de abrandar
Mesmo que digam que estão a querer transformar o ritmo na forma como se usa os telemóveis,

Wajcman
o mundo num sítio melhor e que estão a construir desligando mais vezes ou não atendendo todas as
estas tecnologias a pensar em nós, o seu objectivo é chamadas?
conceber produtos que dêem dinheiro. Os cidadãos Não sei se é uma questão de mais ou menos
deviam estar mais envolvidos em todo esse processo velocidade, mas antes de usar as tecnologias para ter
de criação e concepção. Isto para termos diferentes tempo para as coisas que queremos fazer. Em muitas

“Temos
produtos tecnológicos, mais afastados da noção de famílias, os dois membros do casal trabalham. Face
que mais velocidade é igual a progresso, que melhores ao passado, a articulação entre os membros da família
vidas dependem da banda larga mais rápida, de que é mais complicada. E o telemóvel funciona para
é isso que queremos, em vez de se pensar, de facto, organizar e proporcionar tempo para estar com o seu
em ajudar a termos melhores vidas e que problemas parceiro ou com os seus filhos. Pode-se chamar tempo

mais tempo
sociais é que queremos resolver. de qualidade, o tempo que se pretende ter.
Como é que os cidadãos podem estar mais Diz que não podemos olhar para o tempo apenas
envolvidos nesse processo? como as 24 horas do relógio, mas também como
Primeiro, há um problema no facto de os engenheiros espaço, e que há uma dessincronização entre as

mas não
que estão em Sillicon Valley serem, de uma forma pessoas. Por exemplo, entre o pai e a mãe, que
geral, muito jovens, predominantemente brancos, estão cada um no seu trabalho, e o filho, que
embora haja alguns indianos, e do sexo masculino. Se está na escola. Isto contribui para a sensação de
houvesse mais diversidade, é provável que tivéssemos estarmos sempre com pressa?
tecnologias diferentes. Depois, os governos devem ter Uma das coisas de que se fala muito é de as fronteiras

sentimos
um papel mais activo. Devem estar mais envolvidos entre lazer e trabalho estarem a mudar, e julgo que
na concepção dos produtos tecnológicos e facilitar isso é verdade. A discussão tem sido sobre como a
o tal envolvimento dos cidadãos, nomeadamente tecnologia levou o tempo de trabalho a colonizar o
através da educação ligada à área de ciência e tempo em casa e o tempo de lazer. Mas, por outro
tecnologia. Devia haver mais organismos onde lado, a tecnologia permite que as pessoas, quando

que o temos”
se discutisse, de forma colectiva, os caminhos da estão no trabalho, estejam em contacto com a família
investigação e desenvolvimento dos produtos. e os amigos. É um resultado do capitalismo industrial
É sabido que muita da investigação e muito do termos uma separação rigorosa entre trabalho e
desenvolvimento usados em Sillicon Valley têm por lazer. Mas talvez dentro de cinquenta anos seja mais
base tecnologia militar, como os drones, que podem normal não haver esta separação, poder passar algum
entregar pizzas. E podia-se estar a pensar em áreas tempo no trabalho a fazer compras ou outras coisas
como a energia, problemas sociais, em vez de pensar: na Internet, e compensar isso com trabalho à noite.
Para Judy Wajcman, professora de “Há esta tecnologia dos drones, vamos usar de forma Há um conceito de flexibilidade — que é a flexibilidade
comercial.” dos empregadores — que é estarmos sempre
sociologia na London School of Considera que é errada a ideia de ligar a disponíveis para trabalhar. E há a flexibilidade que nós
tecnologia a algo que tem de ser mais rápido? queremos, que é termos mais controlo para organizar
Economics e autora de Pressed for Time, Sim, quando se pensa que o melhor motor de os diferentes aspectos das nossas vidas.
está a criar-se uma cultura na qual pesquisa é o que dá resultados de forma mais veloz,
mas um outro motor de pesquisa, menos rápido,
A tecnologia pode tornar esse tipo de
flexibilidade possível na generalidade dos países?
o tempo de lazer é desvalorizado com diferentes algoritmos, pode dar outro tipo Depende do que forem as condições de trabalho e
de respostas ligadas à informação que se procura, essas não são resultado de smartphones e gadgets. A
Entrevista João Pedro Pereira com outro tipo de conhecimento. As pessoas não se questão tem muito mais que ver com a desregulação
questionam sobre porque é que um determinado dos mercados de trabalho.
e Luís Villalobos algoritmo resulta num tipo de informação e não A grande intensidade do multitasking no
local de trabalho ajuda à sensação de estarmos ser obsessivos, maníacos, de trabalhar 24 horas por
pressionados pelo tempo?
O multitasking é um mito. Os estudos mostram que
as pessoas fazem as coisas numa sequência rápida,
em vez de estarem literalmente a fazer várias coisas
ao mesmo tempo. É mais fácil queixarmo-nos de que
temos a caixa de correio cheia do que falar dos outros
dia.
Há cem ou 200 anos, ter tempo para lazer era ter
estatuto. Esse estatuto foi substituído por estar
atarefado?
Penso cada vez mais nisso, e julgo que sim. Um
colega disse-me: “Imagina que eu digo que não tenho
1994
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problemas de trabalho. Sou céptica em relação à assim tanto email e que não tenho assim tanto para
justificação das interrupções causadas pela tecnologia. fazer. Toda a gente dirá que sou um falhado.” É uma Mandela Presidente
No livro diz que é possível comprar tempo. A que americanização do estilo de vida. Está a criar-se uma A 27 de Abril de 1994, o icónico
ponto há uma desigualdade de tempo provocada cultura em que isso é valorizado e em que o tempo de líder de etnia xhosa e do clã
por uma desigualdade de riqueza? lazer é desvalorizado. Madiba, Nelson Mandela,
Há uma grande desigualdade. E, mais uma vez, não Consegue determinar o ponto em que começámos (18/07/1918-05/12/2013), é
poria a tecnologia no centro disso. a desvalorizar o lazer e talvez a sobrevalorizar o eleito Presidente da África do
Sim, é possível comprar serviços, comprar o trabalho trabalho? Sul, a cuja democratização
de outros. Um colega escreveu um trabalho sobre a antiga dedicou a vida. Foi um
Em termos de poupar tempo, o que as pessoas ricas aristocracia, que se orgulhava de ter uma vida de momento marcante na história
fazem é comprar muito trabalho dos outros. Uma lazer, dedicando-se à música, à caça. Tem que ver com do mundo, o da eleição do
das coisas de que vale a pena falar é de como o o capitalismo industrial. As pessoas interiorizaram primeiro Presidente negro da
futuro com que Silicon Valley sonha para todos nós que o trabalho é uma coisa boa em si. O Ive, o tipo da África do Sul, Estado que fora o
é um mundo com muitos assistentes pessoais nos Apple, disse que, mesmo quando era novo, estava expoente do apartheid, regime
telemóveis, como se todos vivêssemos em classes sempre a trabalhar! Os desempregados hoje são vistos segregacionista, que o antigo
altas com escravos, mas com os escravos a serem apenas como indolentes, preguiçosos. líder do ANC, depois de 27 anos
máquinas. É uma fantasia antiga. Mas a maioria Na sua opinião, o trabalho é uma coisa boa em si de prisão (1962-1990), ajudou
dos robôs está em fábricas de carros, está a pintar mesma? a desmantelar em conjunto
a spray, o que está a ser automatizado não são os Tenho de dizer que estou a repensar isso. Como uma com o então Presidente branco,
serviços prestados por humanos. A promessa antiga marxista, sempre alinhei com a ideia de que não havia Frederick de Klerk. Ambos
da inteligência artificial e da robótica é que haverá nada mais criativo e mais definidor de identidade. receberam em conjunto o
mais inteligência e não teremos de fazer várias coisas, Talvez nos estejamos a focar demasiado no trabalho e Prémio Nobel da Paz, em 1993.
como cuidar dos mais velhos. Mas a inteligência haja mais coisas para fazer com o nosso tempo. Saber S.J.A.
artificial não está sequer perto disso. Que tipo de se podemos trabalhar menos, consumir menos e ter
fantasia é esta de querer ter escravos automáticos? uma vida diferente é uma discussão que ainda não
A tecnologia que Não é um desejo que eu tenha. estamos a ter. A chave para isso é a redistribuição do
Estamos hoje a trabalhar mais horas, apesar trabalho, de forma a não haver uma sociedade em que
temos reflecte a de haver muitas tarefas automatizadas. Mas há profissionais a trabalharem imensas horas, e muitas
houve coisas, como a máquina de lavar, que nos pessoas desempregadas e sem trabalho que chegue.
sociedade, não trouxeram mais tempo. Temos mais tempo de Escreveu que pode ser que muitos de nós
lazer do que há cem anos. Do que precisamos é de tenhamos mais tempo, mas não o tipo certo de
a molda. E isso um equilíbrio? tempo. O que quer dizer com isto?
Com tecnologias como a máquina de lavar, o que Estou a referir-me a tempo com outras pessoas. Há um
é argumento acontece é que os padrões se alteram quando elas estudo interessante que diz que tanto desempregados
aparecem. Hoje lavamos mais vezes a roupa. Temos como empregados se sentem melhor quando o fim-
contra a ideia mais tempo, mas não sentimos que o temos. Acho de-semana está a chegar, e que se sentem pior na
que esse é o paradoxo. Em parte, tem que ver com segunda-feira de manhã. Isto acontece porque o
de que somos uma cultura que valoriza o estar atarefado e a tempo de socialização é aos fins-de-semana. Mesmo os
hiperprodutividade. Os heróis de hoje são o Steve desempregados sentem isto, porque o fim-de-semana
vítimas da Jobs, o Ted Turner [magnata dos media americano], os é a altura em que têm tempo livre ao mesmo tempo
heróis empreendedores... Li o perfil do Jony Ive [vice- que os outros. É uma questão de ter tempo social, não
tecnologia presidente da Apple] na New Yorker. Falam sempre de apenas tempo em abstracto.
RUI GAUDÊNCIO

1995
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Outro planeta
A ficção tinha sempre projectado
este desejo da humanidade:
o de não estarmos sós no
Universo. Em Julho de 1995,
foi dado um salto em que a
realidade se aproximou desse
patamar, quando os cientistas
Michel Mayor e Didier Queloz,
do Observatório Astronómico
de Genebra, descobriram pela
primeira vez que na nossa
galáxia existia um planeta fora
do sistema solar — ou seja, que
a 50 anos-luz da Terra, na órbita
de outra estrela, Pégaso 51, um
planeta gravitava. Desde então,
já vai em 1885 o número de
planetas descobertos. S.J.A.
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D
abarcam calendários eleitorais, modas ou palavras que
caiem em desuso, como com “os ritmos mais longos,
que são mais geracionais ou seculares”. Luís Amado,
ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros de
José Sócrates, prefere avaliar o peso do tempo em fun-
ção da tomada de decisão política, que varia muito de
acordo com a relação que se tem com o poder. Ou seja,
é muito diferente se se está no poder ou na oposição,
ou, estando no Governo, no ministério em que se está.
Amado, que também foi secretário de Estado adjunto
da Administração Interna no primeiro Executivo de
António Guterres, não tem dúvidas que na resposta
a uma emergência interna o êxito pode depender do
timing que medeia a decisão da sua execução no terre-
no. Numa crise o tempo acelera. Agora, imagine-se um
corte de estrada ou uma manifestação de rua — uma
ordem desfasada das circunstâncias em que a acção
decorre pode ser fatal. “Já nas crises externas e em toda
a área da política externa, o tempo tem uma modelação
diferente”, diz o ex-governante. Porquê? “Resulta da

Políticos
epois do esplendor da Belle Époque proporcionado percepção que o decisor tem da sua margem de mano-
por quatro décadas de paz, há 100 anos a Europa vivia bra” e, depois, “há problemas que não têm solução”.
mergulhada no horror da I Guerra Mundial. Para além Exemplo? “O problema palestiniano. Terá solução um
da disputa entre blocos de poder e dos alinhamentos dia, mas não na focagem do meu tempo de governo”.
geoestratégicos entre as grandes potências — a Ale- Entre a tentação de afunilar as respostas para os rit-
manha (a que se juntou o império Austro-Húngaro), mos mais curtos, relegando para segundo plano tudo

ou a
contra França e a Inglaterra (depois apoiadas pela Rús- o que tem a ver com o longo prazo como as políticas
sia) — o que se decidia nas trincheiras era o destino de sobre as alterações climáticas; ou valorizando a agenda
dois mundos. De um lado, estruturas de poder arcai- doméstica em detrimento da procura de soluções glo-
cas fundadas em grandes impérios, na expansão colo- bais para problemas globais, os políticos vivem numa
nial, na exploração de fluxos comerciais, na enorme tensão permanente entre as várias agendas, sejam de
concentração da riqueza e na miséria das populações. cariz mediático e de lóbis cruzados, ou a sua própria.

pressão
Do outro, a modernização dos sistemas políticos, o Mas será que os políticos ainda têm agenda?
avanço da técnica e da ciência, o fortalecimento do
movimento operário e dos sindicatos, as novas ideias. Da trincheira ao tacticismo
Nessa altura, as ideologias faziam mover o mundo e Quando não havia Internet, telemóveis ou redes sociais
nunca tanta gente aceitara catalogar-se atrás de siglas e os canais de televisão eram do Estado. Quando não
ou tantos decidiram organizar-se em partidos políticos. existiam meios para difundir, escrutinar e comentar
Sociais-democratas, liberais, socialistas, comunistas, a actividade de quem manda no espaço de minutos

de existir
anarquistas com múltiplas declinações. em qualquer lugar do planeta, três políticos podiam
Tudo isto mudou. Por toda a parte nascem agora sentar-se na sala de um palácio na Crimeia e dividir o
partidos ou movimentos sem grandes balizas ideoló- mundo. Foi isso que fizeram Churchill, Estaline e Ro-
gicas e cujos nomes não reflectem à partida qualquer osevelt, em Ialta, no final da II Guerra Mundial. A pro-
preocupação política. Em Podemos, Ciudadanos, Li- posta que fez com que a Grécia ficasse do lado ocidental
vre/Tempo de Avançar, Os Finlandeses ou mesmo no foi desenhada pelo político britânico num pequeno
UKIP britânico, entre outros, lê-se mais um sentido mapa, que colocou em cima da mesa para os outros
de urgência, de convocatória e de acção do que outra verem. O russo olhou e abanou a cabeça em sinal de
coisa qualquer. Ora a acção é tempo em movimento e aceitação e assim ficou. Está nas actas. Hoje, isto não
a profunda crise de identidade da social-democracia seria possível. Mas é possível que num país longínquo
europeia, a amnésia histórica do centro-direita relati- da África ocidental como é o Burkina Faso, cuja popu-
vamente ao seu papel na criação do Estado social e a lação tem tão parcos recursos e níveis de bem-estar
desorientação isolacionista à esquerda estão a travar tão desiguais face aos das democracias europeias, um
a resolução dos problemas. O que se verifica, à direita presidente tenha sido obrigado a demitir-se por força
e à esquerda, é o nascimento de novas formas de or- de manifestações gigantescas organizadas através das
ganização de forças que se libertam do arcaísmo das redes sociais. Aconteceu no final de Outubro do ano
fórmulas tradicionais, incapazes de se reinventarem e passado, com Blaise Compaoré que governava o país
de perceberem os sinais. Como há cem anos, olha-se à há 27 anos e que achou possível manter-se no poder à
nossa volta e distingue-se bem esse mundo que nasce custa de uma alteração constitucional. O povo trocou-
do caos aparente que só o tempo há-de decifrar. Como lhe as voltas e, de repente, um milhão de pessoas nas
agora, então tudo era novo e empolgante. Da teoria da ruas não lhe deixou grandes alternativas. Ou mandava
relatividade ao inconsciente de Freud, da electricidade os tanques dizimar os manifestantes, ou saía de cena.
à distorção das formas nas meninas de Picasso, do ci- Optou pela segunda hipótese, livrando-se do julgamen-
nema aos primeiros automóveis. Um século depois não to no Tribunal Penal Internacional.
se aprendeu nada. Também hoje “tudo é novo, tudo Hoje, não se podem desligar as agendas do impacto
é experimental”, segundo o ex-ministro Luís Amado brutal da mudança nas formas de comunicação. E isso
e como bem provam os programas de ajustamento coloca outros problemas. Passou-se de uma fase em
testados pela primeira vez nos povos do Sul, com as que a política se ancorava numa ideologia, imutável
consequências que se conhecem. Afinal, até que ponto ou muito pouco permeável, e em que ao líder bastava
o tempo é importante em política? ficar na trincheira e resistir, para uma espécie de ex-
tremos em que “a política se faz 24 sobre 24 horas com
A importância do tempo basicamente as frases do dia”, como diz Rui Tavares.
Há muitas variáveis para se determinar a relevância do O perigo, segundo o historiador, é o “excesso de tacti-
Cada vez mais vigiados e escrutinados tempo em política. Por exemplo, a posição em que se cismo”, que cria “mais um factor de desligamento das
está. O sociólogo António Barreto diz que há políticos pessoas em relação aos partidos”. Para Marques Men-
por cidadãos e media, com dificuldades que chegam ao poder “não pelo que têm para oferecer des, advogado e ex-líder do PSD, o controlo da agenda
ou pelo que já provaram”, mas porque estavam no sítio por parte dos políticos tem outras condicionantes para
em seguir uma agenda própria e quase certo. Segundo ele, José Sócrates é um caso. “Noutras além da pressão mediática. Por um lado, há a incerteza
sem espaço temporal de decisão, os condições nunca chegaria lá, jamais”. O mesmo para
Cavaco Silva, quando vence as eleições, em 1985. Rui
das conjunturas económicas e financeiras; por outro, o
facto de a gestão das crises já não estar exclusivamente
políticos vivem no eterno pânico de se Tavares, historiador e dirigente partidário, sublinha em mãos nacionais. Esta gestão possibilitava o controlo
antes a importância da “sensibilidade ao tempo” na dos ciclos, enquadrando-os nos mandatos, que António
perderem nos circuitos do timing acepção da capacidade que cada um tem para enten- Barreto qualifica como um dos “condimentos” da de-
der e “saber seguir os ritmos da mudança”. Isto tem mocracia. “Hoje não é o mandato que conta, é o tempo
Por Áurea Sampaio tanto a ver com os timings de curto/médio prazo que real. Ao tomar decisões, o político está a pensar nos
22-31
Conce MAR
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Ciclo e Pásc
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PELO 25º ANIVERSÁRIO


noticiários das 20h, no online ou nas sondagens. Isto também se abatem.
não é democracia!” Para evitar a deriva e o risco real
de decisões cada vez mais erráticas e perigosas, Luís
Amado propõe o “sentido do compromisso” assente
em “acordos de regime mais ou menos prolongados
no tempo”, capazes de focar as propostas que dêem
conteúdo a uma legislatura. Chegará? A realidade é que
António Barreto não tem dúvidas de que um político
tem uma data de validade. Diz que a sua expirou há
muito. “Senti que tinha acabado há mais de 20 anos”.
Acontece por cansaço, idade, lucidez, ou por perceber
que já não tem capacidade de captar os sinais. Sinais
que só compreende quem consegue interpretar o seu
1998
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os cidadãos exigem respostas permanentes e se quem tempo histórico. Rui Tavares diz que Mário Soares foi
os representa não as dá, a tendência será substituírem dos que “soube dizer algumas coisas que no seu tempo Expo-98
as velhas formas de representação. Com a experiên- pareciam deslocadas, mas que, afinal, foram uma exce- Lisboa não foi mais a mesma
cia que hoje temos, seria possível a adesão ao euro lente interpretação do que era necessário dizer naquele depois da Expo-98, dedicada
sem a participação activa dos cidadãos nessa tomada momento”. Para Luís Amado, antecipar é talvez a mais ao tema “Os oceanos: um
de decisão? Não parece. Assim como é certo e sabido importante característica de um líder, porque é não património para o futuro” (22
que qualquer matéria europeia está hoje muito mais se deixar surpreender. “A gestão do poder é sempre de Maio a 30 de Setembro).
sujeita a todo o tipo de escrutínio. Rui Tavares fala em muito condicionada por uma relação quase binária: Ocupando a parte oriental
“dar mais e melhores ferramentas à democracia”, mas quem tem poder manda, quem não tem obedece”, diz. da cidade, possibilitou a
quem fica à espera do tempo dos políticos? “Na lógica mais crua de exercício do poder e à mesa de revitalização urbana numa
um Conselho, sentimos isso. Os estados relacionam-se dimensão e a uma velocidade
O mistério das sondagens nessa base individual”. Elucidativo. Neste xadrez sem- raras. Além de uma vasta e
Uma sondagem é sempre uma espécie de fotografia, um pre instável há quem não acerte com o timing. António moderna malha urbana, o Parque
retrato do momento, efémero porque amanhã aquele Barreto dá o seu próprio exemplo. “Às vezes penso que das Nações, criou o Oceanário,
pedaço de tempo pode estar já desfocado. Em mo- o que tentei fazer com a Reforma Agrária se justificava o Pavilhão Atlântico e a Estação
mentos decisivos como as eleições ou os debates, é da por uma razão: travar a revolução comunista. Mas o do Oriente. E ainda a mais longa
praxe os políticos ficarem nervosos e tudo fazerem para outro objectivo, que era fazer uma Reforma Agrária de- ponte da Europa, a Ponte Vasco
conhecer antecipadamente os resultados. Baseiam-se mocrática, já não estava nesse tempo. Tentada depois da Gama, ligando Montijo-
nelas para preparar discursos, valorizá-las ou desvalo- da revolução quando as pessoas já estavam zangadas e Alcochete a Lisboa-Sacavém,
rizá-las consoante as coisas corram bem ou mal. Mas as rupturas feitas, já não era possível”. Mas há também inaugurada a 29 de Março.
Rui Oliveira e Costa, administrador da Eurosondagem, quem se agarre a acontecimentos imprevistos como a Como herança ficou também
garante que os estudos de opinião “não influenciam uma bóia de salvação. François Hollande, cujo prestí- uma cultura de espectáculos —
tanto como a generalidade das pessoas julga”. E o curio- gio vinha declinando à medida que as suas promessas realizaram-se cerca de 5000.
so é que os seus resultados também não são afectados, eleitorais desapareciam numa qualquer gaveta do Eli- S.J.A.
mesmo por casos extremos. Como aconteceu, em Junho seu e na proporção directa da submissão da França
de 2004, quando António de Sousa Franco sucumbiu às políticas da dupla Merkel/Schauble, foi inesperada-
a uma síncope cardíaca fulminante na recta final da mente salvo do afogamento pelos trágicos atentados
campanha para as europeias nas quais era cabeça de de Paris. Conseguirá ele recuperar o tempo perdido?
lista do PS. Na altura, um estudo daquela empresa, Será difícil, porque Hollande é, de certa forma, um
cujos trabalhos de campo tinham sido feitos antes da dos responsáveis pela “desorientação europeia”, o si-
tragédia, dava 43,5% aos socialistas, que acabaram por nal político mais marcante do tempo actual para Rui
obter apenas mais 1% no resultado final. Tavares e porque “verdadeiramente, o tempo nunca
O general Soares Carneiro, candidato presidencial se recupera”, segundo Luís Amado. É curioso que hoje
da direita nas presidenciais de 1980, também não con- já só há heróis anónimos. Quem vive sob os holofotes
verteu em votos o capital de consternação e simpatia não resiste à função predadora das luzes da ribalta. E o
que varreu o país com a morte brutal de Sá Carneiro, mais certo é que nem Churchill, um dos mais admirados
também em plena campanha. Segundo Oliveira e Costa, políticos do século XX, resistiria à voracidade do es-
sondagens atribuíam-lhe 40% e com esse saldo ficou, crutínio público. Talvez antecipando o futuro, ele disse Cavaco Silva e José Sócrates:
saindo derrotado face ao general Ramalho Eanes. Em um dia que “nenhum grande homem político resiste à dois políticos que chegaram ao
2003, na Suécia, Anna Lindh, ministra dos Negócios intimidade de uma criada de quarto”. Logo ele, com poder porque estavam no sítio
Estrangeiros e cabeça pelo “Sim” no referendo ao eu- os seus charutos e o seu eterno copo de gin. certo, diz António Barreto
ro, foi assassinada três dias antes da votação. Como há DANIEL ROCHA
muito estava previsto, o “Não” perdeu mesmo.
Mas há excepções. Em 2002, o holandês Pim Fortuyn,
um político populista de direita, provocador, homosse-
xual assumido, foi assassinado antes das legislativas. As
sondagens atribuíam 8% ao seu partido, que acabou por
chegar aos 18%. “Se a morte de um primeiro-ministro

1997
>>>>>>>>>>>>
pouco ou nada abala a vontade dos eleitores, não é
uma sondagem que a vai fazer mudar”, diz Oliveira e
Costa. Ou seja, a regra é os eleitores irem formatando
a sua opinião ao longo do tempo e não são estudos de
última da hora que pesam na tomada das decisões. As
coisas podem alterar-se se se tratar de estudos qualita-
tivos sobre o comportamento dos políticos ou sobre as
Robô em Marte preferências dos cidadãos em questões muito concre-
A 4 de Julho de 1997, na planície tas. Mas é quase só nas autarquias que estes trabalhos
de Ares Vallis, no hemisfério se fazem e onde mais se detectam as tendências que a
norte de Marte, “amarta” a nave mudança dos tempos impõe.
espacial da NASA Pathfinder,
transportando o robô Sojourner. A importância da antecipação
Não, não contamos uma Hoje, a palavra obra está completamente fora de mo-
história de ficção, mas desde da. Não aparece nos cartazes porque os eleitores são
que as Viking lá pousaram, em mais sensíveis a palavras como “competência”, “boa
1976, nunca mais uma nave gestão”, “seriedade”. Em termos concretos, a prefe-
espacial tinha conseguido rência agora centra-se nos serviços de proximidade
esse feito: atingir o planeta capazes de acorrer a quem precisa ou a instituições que
vermelho com um robô que, os possam prestar. Apoio a escolas, bombeiros, centros
durante um mês, fotografou sociais, socorro aos sem-abrigo. Poderá haver sinais
e recolheu informação. Este mais elucidativos dos tempos que vivemos? Talvez por
avanço conduziu a muitas outras isso não seja de estranhar que em vinte e tal anos de
missões, das quais se destaca a estudos de opinião, Rui Oliveira e Costa nunca tenha
última, a sonda espacial europeia observado uma queda tão vertiginosa nas sondagens
Roseta: transportou o módulo como a que aconteceu com o actual Presidente da Re-
File, que pousou no cometa pública, depois das declarações que fez sobre as suas
67P/Churiumov-Gerasimenko pensões. Passou de um saldo positivo de 30 para zero
(12/11/2014). S.J.A. e em alguns meses, para saldos negativos. Os políticos
F
as alterações climáticas são efeitos poderosos que só
sentiremos a longo prazo. É mais difícil de responder
a isto do que a algo que aconteceu ontem”, reconhece
Rachel Bronson. “É difícil alguém acordar e sentir-se
assustado com estas coisas. Mas acho que a divulgação
do relógio cria um momento em que as pessoas podem
pensar e falar disto.”
A 22 de Janeiro, quando o Bulletin of the Atomic Scien-
tists divulgou o último acerto do Relógio do Apocalipse,
400 mil pessoas acederam ao site (www.thebulletin.org)
da organização quase imediatamente, contou Rachel
Bronson. “Foi muito mais do que nos últimos anos. A
questão nuclear está a tornar-se algo mais próximo. Sen-
timos que há mais interesse do que há dez anos.”
O Relógio do Apocalipse estava na capa do primeiro
número do Bulletin, em 1947, dois anos depois de os EUA
terem bombardeado Hiroxima e Nagasáqui e o mundo
ter visto os efeitos da nova arma que usava a energia
explosiva da cisão dos átomos. O avanço ou recuo dos
ponteiros do relógio é decidido por um painel de cien-
tistas, especialistas em nuclear, desarmamento, armas,
alterações climáticas, que analisam a situação mundial
e fazem uma avaliação de quão perto a humanidade está

O Relógio altam três minutos para a meia-noite no Relógio do Apo-


calipse dos Cientistas Atómicos. Só estivemos tão perto
da catástrofe em 1984, quando o confronto nuclear entre
os Estados Unidos e a Rússia parecia tão provável que
de poder aniquilar-se a si própria.

Einstein na origem
Nesse primeiro ano, faltavam sete minutos para a meia-

do Apocalipse Sting compôs uma música com a letra “I hope the rus-
sians love their children too” e nos anos de 1953 e 1949:
foi nessa altura que os EUA decidiram construir a bomba
noite; 1991, após a queda do Muro de Berlim, e de os
EUA e a ainda União Soviética assinarem o Tratado para
a Redução de Armas Estratégicas (nucleares), foi o ano

quer voltar
de hidrogénio, mil vezes mais poderosa do que as que em que os cientistas, e o mundo, estiveram mais opti-
foram lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroxima mistas: o ponteiro dos minutos recuou até às 23h43. Há
e Nagasáqui, no fim da II Guerra Mundial. um claro desejo de intervenção política dos cientistas.
“Alterações climáticas sem controlo, modernização “A mudança dos ponteiros do Relógio do Apocalipse é

a fazer medo
global das armas nucleares e arsenais grandes de mais uma forma de concentrar a atenção das pessoas”, explica
representam ameaças extraordinárias e inegáveis à exis- Bronson. “É um mecanismo grosseiro, algo discutível,
tência continuada da humanidade, e os líderes mundiais que gera discussão: ‘Porque é que acelerámos o relógio?’,
não têm agido com a velocidade ou na escala que se exi- ‘Devíamos ou não ter movimentado os ponteiros?’. São
gia para proteger os cidadãos da catástrofe potencial”, cientistas que acertam o relógio e, no fundo, lançam uma
disseram em Janeiro os cientistas herdeiros da organi- conversa com o público sobre aquilo que nos ameaça a
Por Clara Barata zação fundada pelos que construíram a primeira bomba todos”, defende.
nuclear, o projecto Manhattan. A intervenção política dos cientistas teve origem nas
E, no entanto, esta avaliação drástica, feita depois cartas escritas por Albert Einstein e pelo físico húnga-
do ano mais quente desde que começaram a ser feitos ro Leo Szilard ao Presidente norte-americano Franklyn
registos meteorológicos — segundo a agência espacial Delano Roosevelt, a partir de 1939, alertando para os
NASA e a Agência para os Oceanos e a Atmosfera norte- esforços do regime nazi para construir uma bomba ató-

1998
>>>>>>>>>>>>
americana (NOAA) —, foi noticiada amplamente, mas
sem criar grandes sobressaltos.
“Recebemos muito mais atenção do que nos últimos
anos e ficámos muito satisfeitos”, disse ao PÚBLICO Ra-
chel Bronson, directora da revista Bulletin of the Atomic
Scientists, criada em 1947, por cientistas ligados ao projec-
mica, e incentivando os EUA a construí-la primeiro. E,
depois da guerra, no que ficou conhecido como o Mani-
festo Russell-Einstein, em 1955: um apelo aos políticos
a “compreender, e a reconhecer publicamente, que os
seus objectivos não podem ser satisfeitos por uma guerra
mundial”.
to Manhattan, e que é responsável por publicar e divulgar O filósofo Bertrand Russell foi o impulsionador deste
Fim do IRA o Relógio do Apocalipse. “Ficámos com a sensação de manifesto, que acabou por ser divulgado já depois da
A 10 de Abril de 1998, o acordo que há um aumento do interesse nestes assuntos. Talvez morte de Einstein, mas num momento em que a ameaça
de paz de Sexta-Feira Santa pelo agudizar das relações entre os Estados Unidos e a das bombas de Hiroxima e Nagasáqui se tinha agigantado:
entre a Irlanda do Norte Rússia, talvez por causa das negociações com o Irão, ou depois de se saber que os soviéticos tinham testado as
protestante e a República da por causa da Coreia do Norte.” suas primeiras bombas atómicas, o Presidente dos EUA
Irlanda católica acelera o fim das E, no entanto, é difícil tornar urgente o risco de uma Harry Truman deu luz verde para a construção de bom-
acções terroristas de exércitos catástrofe, mas que não se sabe quando acontecerá. Cria bas termonucleares, mil vezes mais poderosas do que a
independentistas na Europa. É o fadiga se nos estão sempre a recordar de um perigo que bomba atómica. Em vez de usar a energia desencadeada
primeiro passo para o fim do IRA nunca mais se torna realidade. Como escreveu no Guar- pela separação dos átomos, a também conhecida como
(Exército Republicano Irlandês), dian Julian Baggini, escritor e fundador da revista The bomba H baseia-se em reacções tão poderosas como as
católico, que em 2005 entrega Philosopher’s Magazine, a propósito do último acerto do que acontecem nas estrelas, onde os átomos de hidro-
as armas, depois de três décadas Relógio do Apocalipse, “esteja ou não correcta a nossa génio se fundem, numa reacção em cadeia que liberta
de acções terroristas. Em 2011, avaliação dos riscos actuais do mundo, não são os peri- uma energia monstruosa. É verdade que a reacção, hoje,
é a vez da ETA (Pátria Basca Como se moveram gos que os cientistas consideram os maiores os que nos aos acertos do Relógio do Apocalipse não é tão signifi-
Liberta), ao fim de meio século os ponteiros preocupam mais.” cativa como foi nesse ano. “Mas é até injusto fazer essa
de existência, pôr fim às suas “Sim, esse sempre foi o desafio de comunicar o risco comparação”, defendeu Rachel Bronson. “O mundo está
O Relógio do Apocalipse é uma forma
acções armadas e declarar um de um confronto ou de um acidente nuclear: a proba- diferente e o espaço dos media é diferente, mas é claro
de ilustrar o quão perto estamos de
cessar-fogo permanente. S.J.A. uma catástrofe nuclear
bilidade é reduzida, mas o impacto é muito elevado. E que gostamos sempre de ter mais atenção.”

24h00 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010


2015
5 min.
23h57
10 min. Modernização dos
1947 1984 arsenais nucleares
Primeira 1953 1968 EUA e Rússia 2007 e alterações
15 min.
publicação EUA e Rússia França e China iniciam Coreia do Norte climáticas
do Relógio testam bombas desenvolvem negociações faz teste nuclear sem controlo
20 min.
do Apocalipse de hidrogénio armas nucleares para controlo 1991 Faltam 3 min.
de armamento Fim da Guerra fria para as 24h00
Fonte: Bulletin of the Atomic Scientists, Universidade de Chicago PÚBLICO
De volta
“o mestre era um deus na oficina”.
Pedro escolheu especializar-se no restauro de relógios
antigos: “Não gosto muito dos modernos. Aí a ideia é
mais substituir peças.” Os antigos são um desafio maior:
“É a possibilidade de poder reparar, recuperar a má-

aos relógios
quina. Um bocado como nos carros. A mecânica é mais
desafiante, mais robusta.” O que gosta nestes objectos é
ver a complexidade com que “aliam a forma à função”.
“É absolutamente cativante. Os relógios têm uma místi-
ca muito especial.” Neles se cruzam várias “disciplinas”:

antigos
“Reúnem escultura, grafismo, mecânica. Um bocado
como a ópera está para a música.”
Há seis anos, abriu a sua própria loja, no bairro de
Campo de Ourique. O Lugar do Tempo começou por
ser um espaço de coleccionismo e relojoaria em simul-
tâneo. No entanto, durou pouco tempo: “Começou a
No bairro de Campo de Ourique há entrar tanto trabalho que esqueci o coleccionismo e

2001
<<<<<<<<<<<<
um sítio onde o tempo anda para trás,
os relógios antigos reinam e Pedro
Machado conserta o tempo dos outros
tive de me agarrar à bancada.” À bancada, no singular:
“Enquanto nos carros são precisas instalações grandes,
muito investimento em ferramentas, nos relógios basta
uma salinha pequena.”
Aproveitou os restos de materiais de relojoarias que
iam fechando: “As ferramentas antigas eram de muita
boa qualidade e a maior parte delas podiam ser arran-
11 de Setembro Por André Vasconcelos e Sá jadas, tal como os relógios.” E estar bem equipado é
O horror entrou no quotidiano do fundamental. “A pior coisa é estarmos a reparar um
mundo pela televisão em directo. A loja quase minúscula gira à volta de três vitrinas, um relógio, precisar de uma ferramenta, e não a ter. É um
A 11 de Setembro de 2001, num balcão e relógios. Muitos relógios. Grandes, pequenos, desespero. Há muito tempo não tinha uma chave es-
conjunto de ataques terroristas de pulso, de pé. No Lugar do Tempo, a expressão “o pecial para afinar os Rolex, uma chave estela. Agora já
suicidas levados a cabo por tempo é o que se faz com ele” assenta como uma luva. tenho.” Também nas ferramentas a antiguidade é um
fundamentalistas islâmicos da O dono, Pedro Machado, 49 anos, formou-se em Design posto: “Na loja utilizo um torno mecânico antigo a pedal
Al-Qaeda, com diferença de Gráfico no IADE, mas sempre se interessou por mecâ- metido na bancada. São ambos dos anos 30. Na oficina
minutos, dois aviões comerciais nica: “Tudo o que é mecânico mexe comigo. A minha tenho um torno moderno, a motor, mas gosto mais do
são atirados contra o World família sempre esteve ligada aos automóveis. Depois do da loja. Temos um controlo diferente.”
Trade Center instalado nas curso fui trabalhar para a Guerin, que tinha cursos de Nestes poucos anos, viu o negócio mudar. As marcas
Twin Towers, no coração de formação profissional, e onde aprendi a reparar moto- já não vendem peças para fora, afligindo a relojoaria
Nova Iorque. Um terceiro avião res de automóveis.” independente: “Antes ia à Omega e comprava as peças
comercial foi lançado contra Numa vida de “muitas voltas”, saltou dos motores que precisava. Hoje, já não, querem ser eles a reparar
o Pentágono. Um quarto avião e voltou à ilustração. Ocupou a função de gráfico re- os relógios. Em alguns países, como a Austrália, ainda
comercial desviado despenhou- sidente no Teatro Municipal de Almada e aí conheceu se consegue comprar, mas são uma excepção.”
se. O ataque causou perto de um importador de relógios russo: “Era representante A procura por relógios antigos tem aumentado na
3000 mortes. Foi o nascer de da Palhot e tinha uma relojoaria lá perto. Fui lá arranjar última década: “Dantes eram de uso diário, de corda,
um novo tipo de terrorismo um relógio e começámos a falar. Depois de ter percebido toda a gente tinha um. Havia imenso trabalho para os
que alterou as concepções o que eu fazia pediu-me para o ajudar no lançamento relojoeiros. Isso acabou com os relógios de pilhas nos
sobre a segurança e as relações oficial da marca em Portugal.” O lançamento correu anos 60 e a massificação. Era mais simples comprar um
internacionais. S.J.A. bem e a directora de exportação da marca convidou-o relógio novo do que mandar reparar um antigo. Só nos
a visitar a fábrica em Moscovo: “Pediram-me logo para anos de 1990 é que o relógio mecânico ressurgiu. Hoje
fazer uns expositores para uma feira em Hong Kong.” há cada vez mais procura, tanto a nível de coleccionis-
Passou dois anos na capital russa e a aprender a mexer mo, como de pessoas que querem uma peça diferente,
a sério em relógios. que tenha qualquer coisa lá dentro que não um gadget”,
“Comprava relógios antigos nas feiras e reparava-os afiança Pedro.
na fábrica. Entrei mais dentro da mecânica. O primei- A personalização destes objectos — uma peça mon-
ro relógio que desmontei foi na Rússia.” Apaixonou-se tada à mão, afinada por alguém — está na base deste
de imediato: “Foi a partir do momento que comecei regresso ao passado: “Esta foi a principal mudança na
a perceber como aquilo tudo funcionava.” Voltou de indústria. Também ajuda o facto de os relógios serem
Moscovo e foi trabalhar numa oficina de recuperação O “velho” quase a única jóia usada por homens.”
de relógios com um mestre. Ficou dez anos a aprender relógio Pedro Machado não tem dúvidas sobre as suas má-
e aperfeiçoar aquela que viria a ser a sua arte, até ter mecânico quinas de eleição: cronógrafos Breitling dos anos 1940
adquirido competências suficientes para abrir a sua ressurgiu nos ou 50, Rolex das décadas de 1910, 20 e 30, e relógios
própria oficina. Desse tempo lembra-se que para ele anos de 1990 ingleses do século XVIII, a suíça Certina (“Tem uns mo-
MIGUEL MANSO
vimentos fabulosos e a qualidade da manufactura é
fenomenal”), e o primeiro Speedmaster, que é o relógio
mais conhecido da Omega, de 1957. “O modelo actual
tem o mesmo design do de 1965. Quando é bem con-
seguido, é intemporal.”
Os Breitling, Rolex e Omega são também os relógios
que mais aparecem para reparação. “Toda a oficina está
vocacionada para esse tipo de relógios”, com direito
a algumas excepções. “Não quer dizer que não pegue
em relógios modernos, de vez em quando faço-o. Mas,
quando vejo que não, encaminho-os para colegas que
estão mais à vontade com máquinas modernas.”
Tenta ter sempre solução para quem entra na loja e
arrepia-se quando lhe pedem para meter uma máquina
a pilhas dentro de um relógio mecânico. “Vai contra
tudo aquilo em que acredito!” Mas o que acontece mais
frequentemente é pedirem-lhe para reparar o relógio de
um avô. “Pergunto sempre se querem de volta um reló-
gio novo ou se o deixo tal como se lembravam dele no
pulso dos familiares. A maior parte opta pela segunda
hipótese. Limpo a máquina toda, fica com um aspecto
“lavadinho”, mas nota-se “que os anos passaram”. O
designer gráfico-relojoeiro também tem um. “Deixei-o
como era. Só lhe reparei o movimento.”
Se ponho
luz, ainda
aparecem
aí a dizer:
Quem
2001
>>>>>>>>>>>>
Casamento gay
Aprovada na Holanda em 2000,
a lei entrou em vigor a 1 de Abril
de 2001. Pela primeira vez, um
Estado reconhecia o direito ao
casamento entre pessoas do
mesmo sexo. Foi o atingir de
mandou?
um novo paradigma igualitário
das relações sociais e do papel
da identidade. A sociedade
deixou de ser concebida como
uma estrutura em que o limiar
simbólico do casamento era
reconhecido apenas entre
homens e mulheres, que se
complementavam entre si O país está electrificado. Restam algumas casas isoladas ou apanhadas
na família heterossexual e
procriativa e, por isso, eram pela pobreza extrema, como a que Olga partilha com o irmão ou a que
ontologicamente diferentes.
Hoje, existe em 18 países e 37 João habita sozinho em Marco de Canaveses
estados dos EUA. Em Portugal,
foi reconhecido em 2010. S.J.A. Por Ana Cristina Pereira (texto) e Adriano Miranda (fotos)
O
alecrim e o tomilho não disfarçam o cheiro a fumo en-
tranhado na casa de granito tosco. É uma casa pequena,
apenas um quarto a dar para uma cozinha, sem cha-
miné, nem luz, nem água, nem gás, nem chão fiável,
só alguns móveis e a lareira que Olga Ribeiro daqui a
pouco acenderá.
Nunca teve electricidade. “Antigamente, ninguém
tinha”, diz a mulher de rosto redondo, rosado. À luz
da candeia, fazia-se muita lida de casa — e até trabalho
agrícola. Mudou-se para esta casa aos seis anos, já lá vão
34, mas não a toma por sua. O senhorio morreu. “Os her-
deiros não vieram procurar renda. Se ponho luz, ainda
aparecem aí a dizer: ‘Quem mandou?’”
Há uns anos, atreveram-se a deitar uma camada de
cimento no chão do quarto. O que lhes custou juntar
dinheiro para aquilo! Na cozinha deixaram estar a terra e
a pedra irregular. Nunca fizeram casa de banho. Lavam-
se num balde grande, de plástico, igual ao que outros
usam nas vindimas. Nunca fizeram retrete. “É lá fora,
ao ar livre”, diz ela. Não têm água canalizada. “Vamos
buscá-la à fonte.”
Num canto da cozinha, sobrepõem-se rolos de loureiro
que o irmão, António, cortou com o serrote oval, agora
pendurado na parede. António não se vê. Anda de roda
das três ovelhas. Só Olga está em casa. Foi buscar uma
couve penca à horta. Daqui a nada, há-de pôr a panela
ferrugenta ao lume, com a couve, um punhado de feijão,
três ou quatro batatas e água a cobrir.
Não é que o tempo tenha parado, como para aí se dirá.
É que a natureza ainda marca o tempo nesta casa gélida,
sombria. Levantam-se com o Sol e com ele se deitam,
Olga numa cama, António na outra. “A gente não vai estar
a fazer serão”, diz ela. “Não vale a pena a gente estar ao
frio.” Sobram brechas no telhado, nas portas, nas janelas.
“Faço o jantar cedo. De Inverno, às vezes, deixo [comida]
do meio-dia para a noite. De Verão não, que é muito calor,
a gente não tem frigorífico, estraga-se tudo.”
Se acordam, no breu, com vontade de urinar, pegam
num isqueiro, dão uns passos até à cozinha, acendem
uma vela ou uma candeia. “Não trago para aqui”, diz ela.
“Tenho medo. Pode tombar. Pode arder tudo.” Foi o que
lhe ensinou a mãe, Custódia, que está sempre a olhar,
com os lábios comprimidos, as sobrancelhas levantadas,
por cima das bonecas que Olga não chegou a usar.
Além da fotografia da mãe, nas paredes por revestir
Olga vive na só se vê uma cópia de Mona Lisa, a mais notável obra de
mesma casa Leonardo da Vinci, a fazer as vezes de mãe de Jesus. A
desde os seis mãe morreu nova, já lá vão 20 anos. O pai, Albino, dava-
anos, já lá vão 34. -lhe mau trato. “Ele batia-lhe e ela, se tivesse uma malga
Há dois meses de sopa, tirava à boca para lhe dar. Ela dizia que mais
que não tem RSI, valia a gente fazer bem a quem nos faz mal.”
porque quando Só podem rezar para que os corpos não lhes peçam
fez o pedido de alívio esta noite. Não têm petróleo para a candeia pousa-
renovação anual da na lareira. Nem uma vela lhes resta no armário. Nada
não percebeu para os iluminar, se nesta noite precisarem de sair da
que receberia cama. “Não faltava quem me fiasse, mas a minha mãe
por transferência disse: ‘Olha rapariga, um dia que eu morra não ponhas
bancária. dívidas. Conforme a gente não tem para hoje, não tem
O quarto de João para amanhã.’” Está quase, quase vazio o armário da
Monteiro (ao cozinha. Um quilo de arroz, meio quilo de massa, um
centro), à justa resto de farinha, uma mistura de ervas — hortelã, tomilho,
para a cama orégãos, carqueja, chicória, tojo, sempre-noiva, funcho,
poejo, eucalipto — que ela toma, em vez dos medica-
Trouxe um televisor.
Só funcionou uma noite
e meio dia. O filho dela
disse que era muita luz.
Tirou-me o fio. Botei
a televisão numa caixa
e dei-a a uma rapariga
que se ia casar

2002
>>>>>>>>>>>>
Euro
Ninguém pode garantir até
quando vai existir, mas foi um
dos marcos da aceleração da mentos que o médico lhe receitou para a vesícula. “Isto
integração económica e até faz o efeito”, diz ela. “Dá para a vesícula, para os intes-
da federalização da União tinos, para o estômago, para os rins, para tudo. A gente
Europeia. Criado pelo Tratado de tem de se governar conforme as possibilidades.”
Maastricht em 1992 e baptizado Na casa de granito tosco só entram os 267,22 euros
em 1995, em 1999, o euro mensais de rendimento social de inserção (RSI). Olga
substitui o écu enquanto unidade não percebeu, ao fazer o anual pedido de renovação, que
monetária de conta e, como passaria a recebê-los por transferência bancária. “Fiquei
realidade palpável, as notas e o outro mês sem dinheiro. E este igual. Tinha arroz e
moedas entram em circulação a 1 assim. Agora está a acabar tudo”, diz ela. A técnica que
de Janeiro de 2002. Hoje circula acompanha a família, no Centro Social de São Martinho
em 19 dos 28 Estados-membros de Soalhães, há-de ficar espantada quando souber que
de uma União Europeia que, já nem vela têm no armário.
a partir de 2004, se alargou a Olga parece estar a anos-luz do mundo regrado e apres-
leste, integrando vários países sado que a faz ir a Amarante inscrever-se no centro de
tornados independentes emprego e prometer tentar inserir-se no mercado de
depois do colapso dos regimes trabalho. “Andei para aí três anos na escola, mas não
comunistas. S.J.A. aprendia”, diz ela. “Não ia muito. A minha mãe dizia
que eu tinha de trabalhar.” E é isso que tem feita em
casa e na horta.
Mora em Marco de Canaveses, a 56 quilómetros do
Porto, a 44 minutos de carro, conduzindo pela auto-
estrada, mas mal sai da terra, pouco sabe sobre o país,
há tanto rendido ao frigorífico e ao microondas, à rádio
e ao televisor, ao telefone e ao computador. Teve um
rádio, pequenino, a pilhas. Há uns dois anos, a meio da
tarde, alguém rebentou o ferrolho da porta e levou-lho.
Não sente falta do zumbido planetário. “Às vezes, mais
vale não saber o que se passa”, diz ela. “Há muita gente
que diz que vem para aí o fim do mundo. Não sabendo,
a gente não fica triste.”
Mantém um certo controlo sobre o tempo, apesar de
tudo. “Se a gente não tem as horas, anda como os tolos”,
diz ela. Tem um relógio de pulso numa gaveta. E ouve o
sino da igreja de São Martinho de Soalhães. “Se a gente
não tem as horas, a gente não sabe quando há-de ir para
o autocarro e assim.”
A variável “electricidade” não fez parte dos Censos
2011. Em 2001, 99,5% dos alojamentos de residência ha-
bitual já a tinham. Agora, não há localidades sem luz,
garante a Energias de Portugal — EDP. Apenas casas iso-
ladas ou apanhadas pela pobreza extrema, como esta
que Olga partilha com o irmão, vigiada por um cão e um
gato, ajudados por um garnisé e um par de rolas.
Não é a única casa sem instalação eléctrica, canalização
ou saneamento básico em Marco de Canaveses. Outros
casos são conhecidos no Centro Social de São Martinho
de Soalhães, que acompanha 195 famílias beneficiárias
de RSI. O concelho não tem habitação social, tão-pouco
prática de renda apoiada, a menos que esteja perante
uma emergência de uma família com crianças.
Muito tem a equipa técnica sugerido a João Monteiro,
homem magro, de rosto encovado, que arrende outra
casa. “O que ganho não me dá para pagar uma renda”,
diz ele. São 178, 19 euros, o máximo previsto de RSI para
quem vive sozinho. Parece-lhe impossível pagar com isso
renda, água, luz, alimentação e outros gastos. Dizem-
lhe que outros conseguem, que ele se acomodou, que
resiste, mas ele não se fia. Nada paga pela casa de gra-
nito tosco que descobriu devoluta, com uma manta de
silvas. É só um quarto, à justa para a cama, uma cozinha
e uma cozinha de lenha. Pensar que já trabalhou como
electricista numa fábrica de confecções. Parece-lhe que
foi noutra vida e, de certo modo, até foi. “A vida não cor-
reu como eu queria”, diz ele. “A vida não correu como
eu queria...”
Era o solteiro de sete irmãos de uma família que se
mudou de Marco de Canaveses para a Maia. Quando
comprou casa, o irmão mais velho convidou os pais,
então doentes, envelhecidos, para irem morar com ele.
Não disse a João que os acompanhasse. E ele sentiu-se
rejeitado, triste. Virou as costas à família e regressou à
terra. “Encostei-me a um primo”, diz ele.
Já lá vão 18 anos e o desgosto ainda pulsa dentro dele.
Não era só a família. Era também a mulher com quem
namorou nove anos. Ele queria muito casar-se com ela e
ela estava sempre a adiar. Num domingo, foi ter com ela
ao café. Ele pediu um café e meio bagaço. Ela pegou no
copo de bagaço e despejou-o no cinzeiro. “Aquilo deu-
me uma volta tão grande. Levantei-me, nem uma nem
duas. Fui ao balcão, pedi outro bagaço. ‘Este eu pago.
Aquele paga quem o botou no cinzeiro.’”
Saiu agoniado. Era como se, de repente, todo o nevo-
eiro do amor se tivesse dissipado e ele pudesse, por fim,
ver que ela já não queria casar-se. Perdeu o gosto pela um lado, 20 do outro. Quando receber, vou levar, o que Além da
vida. “Ia para o trabalho, não tomava o pequeno-almoço. Às vezes, mais vale não é que não é tudo de uma vez.” fotografia
Era café e bagaço. Ao meio-dia, não comia. Bebia. Só ao Um vizinho dá-lhe água. Uma vizinha já chegou a dar- da mãe, nas
meio da tarde comia uma sandezita. Às vezes, ia para saber o que se passa. Há lhe luz, mas isso foi sol de pouca dura. “Era uma lâm- paredes por
cima de uma prancha e tremia. Era a fraqueza a pegar pada”, diz ele. “Trouxe um televisor. Só funcionou uma revestir da
em mim”, diz ele. Foram deixando de o chamar. Onde já muita gente que diz que noite e meio dia. O filho dela disse que era muita luz. casa de Olga e
vai a sua saúde, agora. Onde já vai a sua arte. Achava que Tirou-me o fio. Botei a televisão numa caixa e dei-a a do irmão só se
não podia perder tempo à espera dela e, afinal, durante vem para aí o fim uma rapariga que se ia casar.” vê uma cópia
anos a fio não fez outra coisa a não ser esperar por ela. Tem um rádio amarrado ao catre de ferro preto, mas de Mona Lisa.
“Custou-me a sair”, diz ele. “Ainda não saiu. A dor ficou do mundo. Não sabendo, não o liga há 16 dias. Não tem tido dinheiro para pilhas. À esquerda:
aqui dentro.” Já nada pode fazer. Há dois anos, um irmão Impõe-se um silêncio só interrompido pelo canto do galo as cozinhas de
dela telefonou-lhe. ‘Olha, João, a São morreu.’” a gente não fica triste da vizinha da frente ou o crepitar da lareira. Às vezes, vai Olga e João
O telemóvel é a sua ligação ao mundo. Carrega a bate- a casa do primo, senta-se a conversar ou a ver “um bo-
ria em casa do primo ou das vizinhas, conforme lhe vai cadinho de televisão”. Outras, deita-se ao mesmo tempo
dando jeito. Dá-se bem com elas, “graças a Deus”. Uma que a o galo e as galinhas da vizinha. Tem estado um frio
oferece-lhe almoço ao domingo. “Ela vê a porta aberta danado. E o tempo custa mais a passar quando não se tem
e diz: ‘Ó João!’” Ainda agora, quando se atrasou a tratar nada que se lhe meta dentro. “A vida não correu como
da renovação do RSI, foram elas que o safaram. “Dez de eu queria. A vida não correu como eu queria..”
Que memórias
se guardam
quando
se tem mais
de 100 anos?
Estas são conversas sobre o passado e o presente com quem já viveu tanto que chega a achar que é
milagre. Investigadores encontram pontos em comum. Por Andreia Sanches (texto) e Miguel Manso (fotos)
“Quantos anos tenho? Humm... 70. Ou 78...” Silêncio. guns factores que afectam a longevidade humana. São
“Oh, mais um ano, menos um ano, o que é que isso in- factores bem conhecidos dos médicos, como o exercí-
teressa?” Manuel Rafael dos Santos fala alto, movimenta cio, a alimentação, etc. No entanto, os centenários são
as mãos com teatralidade, gestos rápidos. A filha ri-se. particularmente interessantes, porque muitos não têm

2003
>>>>>>>>>>>>
Aproxima-se da orelha dele e dá-lhe a notícia: “Tem 109!”
E ele salta da poltrona como se tivesse sido atingido pela
maior das ofensas. “Não tenho nada!”
A filha, Maria da Conceição, de 65 anos, ri-se à garga-
lhada. O filho, António, de 80, também. Todos riem na
sala de Manuel Rafael dos Santos. E ele fica satisfeitíssi-
um estilo de vida saudável. Ou seja, factores genéticos (e
alguma sorte) são importantes”, diz o geneticista portu-
guês João Pedro de Magalhães, investigador do Institute
of Integrative Biology, na Universidade de Liverpool.
Enquanto em todo o mundo há cientistas, como Ma-
galhães, a estudar o envelhecimento, como gerem os
mo por continuar a animar as pessoas assim. Sempre foi centenários isto de viver tanto tempo?
Lula Presidente um homem de festa. Tem 109, sabe disso. Porventura, Rafael Manuel dos Santos nasceu a 23 de Dezembro
A 1 de Janeiro de 2003, Luiz às vezes esquece-se. de 1905, era rei D. Carlos I, na aldeia de Roda, freguesia
Inácio da Silva (27/10/1945), Na sua “mocidade”, havia bailes “todos os 15 dias”, ora de Asseiceira, concelho de Tomar. Ainda não tinha nove
popularizado como “Lula”, é na casa de um, ora na casa de outro. Tocava harmónio, anos quando a I Grande Guerra estalou, tinha 26 quando
eleito Presidente do Brasil. O bebia vinho com “a rapaziada” — “era até cair”, conta (o Salazar foi empossado no cargo de presidente do Minis-
ex-operário metalúrgico, ex- filho acha que ele exagera nesta parte), até que um dia tério e 68 quando se deu o 25 de Abril. Já viveu tanto que
sindicalista, fundador do Partido decidiu que não beberia mais, porque os copos já não lhe o normal, diz, seria que o seu tempo já tivesse acabado.
dos Trabalhadores, acelera davam só alegria, também o punham maldisposto. “Quem faz milagres é Deus. Ele é que sabe.”
mudanças radicais na estrutura E já que se fala de festa: “Que é feito da rapaziada Em Dezembro, foi notícia nos jornais. “Se não é o ho-
social do Brasil, criando uma agora?” Já não dançam? Já não bebem? “Não dou notícia mem mais velho de Portugal é certamente um dos mais
classe média. Massificando de brincarem. O pessoal está diferente como a noite do velhos”, disse à Lusa Carlos Rodrigues, o presidente da
os programas sociais do dia.” E os velhos amigos, onde estão? A filha diz que ele junta da Asseiceira, que lhe organizou uma festa de anos.
antecessor, Fernando Henrique nem sempre tem noção de que não viveram tanto tempo Na semana passada, encontrámo-lo na casa para onde
Cardoso, lança a Bolsa Família e quanto ele. Ele tem outra teoria. “Querem lá saber de foi há quatro décadas quando por volta dos 27 ou 28 dei-
a Fome Zero, que tiram milhões mim...” Pois se não aparecem. xou de viver com os pais e se casou. Fica numa pequena
de pessoas da miséria. Bate Também já não quer saber deles. aldeia vizinha de Roda, alguns minutos de carro.
recordes de popularidade, mas Manuel foi um dos quatro centenários que o PÚBLICO Aos 87, enviuvou, e desde então vive sozinho. Veste-se,
vê a sua presidência inovadora visitou nos últimos dias. Aquele que é o grupo etário que cuida da sua higiene, às vezes caminha até ao café que
contaminada pela corrupção, regista maior crescimento demográfico na maioria dos fica no fim da estrada que atravessa a aldeia — “Não é pelo
desde o escândalo do “mensalão países desenvolvidos suscita a curiosidade do público café, é para passear”, explica. Movimenta-se sem ben-
até ao actual “petrolão”. S.J.A. em geral e da comunidade científica. “Sabemos de al- gala, aliás, irrita-se (com um sorriso disfarçado) quando
Emília Correia
nasceu no
Colmeal
da Torre,
concelho de
Belmonte, a 6
de Dezembro
de 1907. Vive
num lar em S.
Pedro de Alva.
Trabalhou no
campo. “Umas
vezes fome,
outras barriga
cheia.” É a
síntese que
faz da sua vida
de 107 anos

se fala de bengalas. “Bengala?! Deram-me uma, está ali carpintaria para a CP...
encostada à parede. Quero lá usar bengala! Um homem O fenómeno é conhecido. “Há uma quantidade des-
com bengala, só tendo 100 anos!” proporcional de memórias entre aproximadamente os
As refeições são na casa da filha, que mora perto. Só 10 e os 30 anos”, explica Constança Paúl, catedrática do
tem dois dentes, mas não admite que lhe cortem as cou- Instituto de Ciência Biomédicas Abel Salazar, da Univer-
ves do cozido à portuguesa aos bocados como se não fos- sidade do Porto (ICBAS/UP), e presidente da divisão de
se capaz de as mastigar. E quando, há tempos, Maria da Gerontologia Aplicada da Associação Internacional de
Conceição teve a ideia de o levar a um centro de dia, para Psicologia Aplicada. Afinal, é aí que se concentram “as
ver se ele gostava — pois se está sempre a queixar-se da tarefas fundamentais relativas à educação, o casamento,
pacatez da aldeia, “ó menina, isto está tudo morto, é de o trabalho”, que acabam por constituir o “quadro de
mais” —, zangou-se. Recusa estar num sítio de velhos. referência cognitivo-afectiva a partir do qual a pessoa
Recentemente, esteve nesta sala “uma cientista de orienta a sua vida, a relação com os outros, etc.”.
Lisboa” que lhe fez uns exames e disse que ele tinha “um Por outro lado, é conhecido que “alguns tipos de me-
metabolismo de 80 anos”, diz a filha orgulhosa. O que mória” entram em declínio — menos a “memória se-
fez para isso? Ele não sabe dizer. Fumou, mas não muito. mântica” (vocabulário e factos sem referência espacio-
Come de tudo. A filha acredita que o segredo foi “ralar-se temporal) e mais a chamada “memória episódica” (com
pouco”. “Temos de talhar a vida com calma”, diz ele. referência ao espaço e ao tempo). Há várias explicações,
Não pára de conversar. Não são as guerras (conseguiu nomeadamente de índole neurobiológica: dificuldades de
livrar-se de tropa), ou o Salazar (“parece que era de gan- atenção, de velocidade de processamento de informação;
cho”), ou o 25 de Abril que lhe interessam contar. E, problemas de visão e audição, que têm implicações no
sobre o tempo presente, a grande perplexidade de Ma- desempenho mnésico; patologias.
nuel é mesmo esta: “Não há divertimento!” Do resto, Constança Paúl faz parte da equipa do PT100 — Estu-
dos dias que correm, não tem muita informação — não do dos Centenários do Porto, um projecto desenvolvi-
tem problemas de saúde, não toma medicamentos, mas do pelo ICBAS/UP que envolveu, desde 2013, um total
a audição é fraca (“estou mouco como o catano”), por de 140 centenários. Já iremos a alguns dos resultados,
isso, apesar de a televisão estar muitas vezes ligada, não relatados ao PÚBLICO em resposta por email, por três
a ouve. Aquilo de que gosta de falar pertence a outro investigadores do PT100. Mas ainda a propósito da re-
tempo: ir à escola para aprender a ler e a escrever com lação destas pessoas com o passado e o presente, Óscar
o professor Oliveira, contra quem a turma se virou um Ribeiro, coordenador do estudo, acrescenta o papel do
dia por ele querer bater num; o trabalho nas terras do “futuro”: “Numa das entrevistas que fiz com uma das
pai; as raparigas “que só queriam namoro”; aquela al- colaboradoras do projecto [101 anos], precisamente um
tura em que foi para o Entroncamento fazer serviços de dos casos que consideramos de ‘sucesso’ (níveis eleva-
dos de funcionamento cognitivo, funcional e de saúde), forma: “Foi guardar gado, roçar mato e tratar da terra.” Benvinda
um dos aspectos que mais nos despertaram curiosidade Como se perceberá, foi mais do que isso. Nasceu a 15 de Marques,
foi o modo como o seu discurso tinha transversalmente Fevereiro de 1906 em Monte Frio, concelho de Arganil. 109 anos,
orientação de futuro — seja no modo como descrevia Foi jovem para Lisboa, onde teve a tal mercearia, e, de- nasceu a 15

2003
<<<<<<<<<<<<
tudo o que ainda tinha que fazer, como a nossa presença
estava a alterar os seus planos para aquela tarde, seja no
modo como se despediu com um até para o ano, fazendo
questão de nos receber por essa altura.” O investigador
do ICBAS/UP admite que “esta orientação para o futuro
pode ser uma variável psicológica de potencial influência
pois de ficar viúva, partiu para Moçambique, não sabe
precisar em que altura. O seu trabalho era cuidar dos
netos. Gostou. Hoje, são os netos e nora as pessoas que
lhe restam. Costumam ir todos de Lisboa, “que é muito
longe”, para a visitar, faz questão de sublinhar. Estive-
ram juntos no último aniversário. Pena já não conseguir
de Fevereiro
de 1906 em
Monte Frio,
concelho
de Arganil.
Vive no lar da
na longevidade excepcional, nomeadamente na dita ‘bem enxergá-los. Santa Casa da
Invasão do Iraque sucedida’”. Algo a estudar proximamente, acrescenta. Tentar perceber o que os outros lhe dizem aos gritos Misericórdia
A 19 de Março de 2003, os Benvinda Marques, 109 anos, não parece ter grandes também a cansa. “Que Deus vos dê saúde para viver a de Alfeizerão.
EUA voltam a invadir o Iraque, planos. Vive no lar da Santa Casa de Alfeizerão, concelho vida da melhor maneira.” É assim que sabemos que a Rafael Manuel
de novo em coligação com de Alcobaça, desde 2012. Recorda os tempos em que entrevista acabou. Vai almoçar. Pelas 16h lanchará, pelas dos Santos,
outros países – entre os quais teve uma mercearia em Lisboa, “à sociedade com um 19h30 irá para cama. Os dias sucedem-se com as suas também
Portugal –, mas sem o sim do cunhado”, e diz: “Vendia de tudo um pouco, mas havia rotinas (e as suas dores), mas os centenários, em geral, com 109,
Conselho de Segurança da ONU. muitas caloteiras. E eu não sabia assentar... São vidas que “enfrentam com bonomia o tempo contínuo que está a nasceu a 23
A tomada de Bagdad durou 21 se passam.” Helena Neto, directora técnica da instituição, chegar ao fim”, diz Constança Paúl. de Dezembro
dias. O objectivo agora não era corrige-a: “Ainda está a passar.” Ela encolhe os ombros. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (dados ac- de 1905,
só derrubar Saddam Hussein, “Já passei o que tinha a passar.” tualizados em Junho), haveria, em 2013, cerca de 3400 na aldeia
que foi preso pouco depois e Encontramo-la pelas 11h30 na luminosa sala de conví- centenários em Portugal — mais 64% do que dois anos de Roda,
executado em 27 de Março de vio, sentada numa poltrona com rodas, para que a pos- antes. Apenas 30% são homens. A esperança de vida das freguesia de
2006, mas dar uma resposta sam mover mais facilmente. Já não é capaz de caminhar. mulheres é maior. Asseiceira,
cabal ao novo terrorismo Diz que tem “as pernas trôpegas dos joelhos para baixo” A maioria dos 140 entrevistados para o PT100 (ape- concelho de
internacional que se abatera — “São coisas da vida que acontecem.” Tem colocados nas 15 homens) têm níveis de escolaridade baixos (42% Tomar. Vive
sobre as Twin Towers. O facto é uns óculos escuros — não vê, mas a luz que entra pelas são analfabetos). Quase metade (45%) está dependente numa aldeia
que a segunda invasão do Iraque janelas incomoda-a. Ouve mal. A directora repete-lhe em pelo menos cinco actividades básicas da vida diária, vizinha, na sua
abriu uma caixa de Pandora no cada pergunta, várias vezes, ao ouvido. Há uma para a como vestir-se ou andar; e mais de metade apresentam casa, sozinho
equilíbrio de forças no Médio qual Benvinda tem a resposta pronta: segredos para se “défices cognitivos em múltiplos domínios” compatíveis
Oriente que está por fechar. viver muito tempo? “Trabalhar muito e comer pouco.” com “a presença de uma perturbação neurocognitiva”,
S.J.A. E a vida como foi? Benvinda Marques resume desta relata Óscar Ribeiro. Mais alguns dados: 64,3% recebem
Delfina Rosa
de Jesus
nasceu há 100
anos, a 31 de
Dezembro
de 1914, em
T E AT RO
Cucujães,
concelho
de Oliveira
de Azeméis,
e vive em
Viseu, no Lar
Residencial
Viscondessa
de São
Caetano.
Vendia loiças
de vidro em
feiras

Espaço ATL disponível

DA NÇA

MÚSI CA

entre 250 euros e 500 euros de reforma; 57,9% vivem certo que haverá uma cena.
na comunidade, sobretudo com os filhos e os restantes Não chegámos a perguntar a Delfina de Jesus, a quarta
em instituições. A maioria atribui a sua longevidade a entrevista programada para esta reportagem, como são
Deus. O trabalho — no qual muitos se iniciaram logo em os seus dias. Encontramos a centenária num dia “me-
crianças, explica Lia Araújo, gerontóloga, entrevistadora nos bom”, diz Elisa Batista, directora do Lar Residencial
do estudo PT100 — surge em segundo lugar. Viscondessa de São Caetano, em Viseu, onde ela vive
Emília Correia, 107 anos, é das que relatam uma vi- desde 2003. A 31 de Dezembro, foi lá a televisão. Delfina
da dura de trabalho no campo. Nascida no Colmeal da celebrava os 100 anos e os colegas do lar (e de outros
Torre, Belmonte, a 6 de Dezembro de 1907, ficou órfã lares de Viseu), que fazem parte de um coro chamado
muito cedo e enviuvou aos 37, quando estava grávida e A Voz do Rock, fizeram-lhe uma festa com versões de DA NÇA
já tinha mais três filhos para criar. Vivia-se a II Guerra temas rock. “Estava bem-disposta.” No dia da visita do
Mundial, passava-se fome em Portugal e ela passou, conta PÚBLICO, contudo, ainda se endireita para o retrato.
Ana Paula Martins, neta e também directora técnica da Mas à primeira pergunta fecha os olhos. Tem dores nas
Fundação Mário da Cunha Brito, em São Pedro de Alva pernas, os pés inchados.
(Penacova), onde Emília vive desde 2002. Acredita que Platão considerava o envelhecimento como parte da
foi por se ter habituado a comer pouco que ainda hoje a continuidade da vida de jovens e adultos. “Os prazeres
avó come porções especialmente pequenas. do espírito vão progressivamente substituindo os pra-
“Umas vezes fome, outras barriga cheia.” É a síntese zeres físicos, como se de uma libertação se tratasse.” Já
que Emília faz da sua vida de 107 anos. Aristóteles referia-se à última etapa da vida como sendo
Sofreu perdas várias — desde logo de três dos quatro a da senilidade, a deterioração das capacidades. “En-
filhos. Mas disso, não fala. Ana Paula confessa que chegou contraremos sempre exemplos para ilustrar ambas as
a estranhar “uma espécie de frieza” da avó perante certas perspectivas”, diz Constança Paúl.
tragédias — “hoje chamam-lhe resiliência”. Mas os cientistas não desistem de procurar formas
Mesmo agora, apesar do aspecto frágil, e do andarilho de manipular o processo. Por exemplo, “já se consegue
que a ajuda a mover as pernas curvadas, Emília revela-se prolongar a longevidade de ratinhos em quase 50% modi-
assertiva. “Pois claro que rezo todos os dias”, responde, ficando apenas um gene”, nota João Pedro de Magalhães.
quando lhe perguntamos sobre o assunto. Por acaso, O objectivo agora é “desenvolver medicamentos que,
hoje deixou o terço na gaveta, mas vai benzer-se quando através destes genes, consigam abrandar o envelheci-
o fotógrafo fizer o retrato que sairá no jornal. Que fique mento humano”. Nem tão cedo deixaremos de morrer O ESPAÇO DE ATL DO TMJB ESTÁ DISPONÍVEL DURANTE OS ESPECTÁCULOS
registada a sua fé. Já não vai à igreja. Mas não falta à missa de causas naturais, mas acredita que nos próximos cinco
celebrada no refeitório por um padre que vai ao lar. E se ou 10 anos já existam medicamentos para “abrandar (um
alguém ocupa a cadeira que está mais perto do altar, é pouco) o envelhecimento das pessoas”.
Chegámos
de Direito do Trabalho na Universidade de Lisboa, acres-
centa a “grande tolerância, do ponto de vista social, para
com a extensão do tempo de trabalho”. “Continuamos a
trabalhar mais de 40 horas em Portugal. É quase tácito.
Essa tolerância faz com que o tempo de trabalho pareça
um factor, um bem, que tem pouca relevância”, acres-
centa, lembrando que as formas de flexibilização dos

ao tempo
tempos de trabalho que têm sido adoptadas contribuem
para “embaratecer” o trabalho.
Também António Monteiro Fernandes, antigo secretá-
rio de Estado do Emprego e professor no ISCTE, não tem
dúvidas de que se trabalha mais e por menos: “Há cada
vez mais trabalho não-remunerado. É a contrapartida de

do trabalho
um privilégio que consiste em ter emprego”.

Menos horas e mais trabalho para todos?


Os limites ao tempo de trabalho levaram mais de um sécu-
lo a erguer. É preciso recuar a Maio de 1886 para se assistir
àquela que é considerada a génese da luta pela redução
da jornada de trabalho do mundo e que, mais tarde, deu

que parece
origem à comemoração do 1.º de Maio. Milhares de tra-
balhadores, que eram obrigados a trabalhar 13, 14 e até
18 horas por dia, manifestaram-se nas ruas de Chicago
pelas oito horas diárias e o direito ao descanso.
Cinco anos depois, o Papa Leão XIII publicou a encí-
clica Rerum Novarum, onde defendia limites ao trabalho
diário e o respectivo repouso, evidenciando particulares

não ter fim.


preocupações com as mulheres e as crianças. “(...) O
número de horas de trabalho diário não deve exceder
a força dos trabalhadores, e a quantidade de repouso
deve ser proporcional à qualidade do trabalho, às cir-
cunstâncias do tempo e do lugar, à compleição e saúde
dos operários”, escreveu.
Anos mais tarde, em 1919, e fazendo eco das exigências

E agora?
que emergiam dos movimentos sociais, a recém-criada
Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou
a primeira convenção sobre as horas de trabalho para a
indústria. Em 1935, quando pela primeira vez olhou para
a redução da jornada de trabalho como uma forma de
fomentar o emprego, surge a convenção das 40 horas.
Nas décadas de 80 e 90 do século XX, vários países
europeus, como a França ou a Alemanha, adoptaram
políticas de redução do trabalho semanal. As chamadas
Numa economia que funciona sem Durante a Grande Depressão, nos anos de 1930, o eco- medidas de “partilha de trabalho” tinham subjacente a
nomista britânico John Keynes previa que trabalhar seis ideia de que diminuir tempo de trabalho poderia induzir
interrupções e em que o trabalho assume horas por dia seria uma realidade para a geração dos um aumento do emprego.
seus netos. Ao longo dos últimos 85 anos, a evolução é Seguindo a tendência, Portugal reduziu por duas ve-
variadas formas, há uma nova evolução inegável, embora a previsão de Keynes continue por con- zes a duração máxima do trabalho semanal. A primeira
em curso. O grande desafio do século XXI cretizar. E, quando se olha para o futuro, as perspectivas
são pouco animadoras. A globalização da economia, a
em 1991 (das 48 para as 44 horas) e a segunda em 1996
(Lei das 40 horas). Esta “partilha de trabalho” não teve,
é conciliar as exigências de um horário precarização das relações laborais e a crise mundial têm contudo, os efeitos esperados. Em tese, diz Monteiro
levado os países a adoptar novas formas de organização Fernandes, “parece indiscutível que a redução da se-
quase interminável com o descanso e a do tempo, que obrigam a trabalhar mais pelo mesmo ou mana de trabalho poderia conduzir a um aumento do
até por menos dinheiro. emprego”. Mas em Portugal, alerta, “a grande variável
justa remuneração dos trabalhadores Portugal não é excepção. A semana de 40 horas está de ajustamento das empresas às necessidades de traba-
prevista na lei desde 1996 (e pode até ser mais curta, lho não é a criação/destruição de emprego, é o trabalho
se houver acordo na negociação colectiva), mas entre extraordinário”.
a teoria e a prática a diferença é assinalável. Os núme- Um estudo de José Varejão, da Faculdade de Economia
ros mais recentes mostram que, em Outubro de 2013, do Porto, avaliou o efeito da Lei das 40 horas e concluiu
os empregados por conta de outrem trabalhavam 43,3 isso mesmo: as semanas mais curtas traduziram-se num
horas semanais, enquanto no sector público o horário aumento do trabalho extra, em vez de terem motivado
semanal aumentou, por lei, de 35 para 40 horas. Fora a criação de empregos.
destas contas fica uma parte da realidade que passa por Monteiro Fernandes acredita que traduzir reduções
trabalho não-pago ou invisível. de tempo de trabalho em aumentos de emprego só seria
“Os últimos 25 anos foram marcados por uma espécie possível “se se estabelecesse uma limitação eficaz a este
de efeito ondulante. Na linha de uma tendência europeia recurso”, reduzindo os limites do trabalho extra ou au-
dos anos 90, ocorreu uma redução da duração normal de mentando o seu preço. As evoluções recentes apontam
trabalho semanal, a que se seguiu, nos últimos anos, um precisamente no sentido inverso.
aumento efectivo do tempo de trabalho, tanto no sector
privado como no público”, nota Hermes Costa, investi- Uma fronteira em crise
gador do Centro de Estudos Social (CES) da Universida- E, no futuro, a profecia das seis horas de trabalho diário
de de Coimbra. “A percepção que fica, mais acentuada de Keynes poderá cumprir-se? Cristina Rodrigues, soci-
entre os funcionários públicos, é a de regressão social e óloga que fez a sua tese de doutoramento em torno do
de quebra de expectativas. Tanto mais que a mais horas tempo de trabalho, receia que não. Além dos custos sala-
trabalhadas não corresponde retribuição corresponden- riais, diz, há outros custos a ter em conta, nomeadamente
te”, acrescenta o sociólogo. as contribuições para os sistemas de protecção social,
Entre 2012 (quando foram introduzidos na lei a redu- “o que complicaria a operação aritmética de dividir tra-
ção do pagamento do trabalho suplementar, os cortes balho para criar empregos e, dessa forma, diminuir de-
de dias de férias e feriados e os bancos de horas individu- semprego”. Por outro lado, diminuir tempo de trabalho
ais) e 2013, o CES estima que os trabalhadores do sector significaria diminuir salário, “o que, em tempos de erosão
privado perderam, em média, 2,3% do salário efectivo e de rendimentos, poderia conduzir muitos trabalhadores
deram à empresa uma semana e meia de trabalho, sem para limiares de pobreza e exclusão social”.
terem sido pagos por isso. Desde meados do século XIX e durante quase todo o
Por Raquel Martins A este diagnóstico, Luís Gonçalves da Silva, professor século XX assistiu-se a uma melhoria dos direitos dos
O Papa trabalhadores, fruto das suas lutas, da acção das organi-
zações sindicais, da influência das organizações interna-
Leão XIII cionais. Mas a questão que esteve na base desta evolução 13 Mar
publicou mantém-se: como escapar à ditadura do tempo? 21:00 Sala Suggia
a encíclica A resposta parece difícil. A globalização, a revolução € 19 | Cartão Amigo € 14,25
tecnológica, a economia que funciona sem interrupção Lugar Coro € 14,25
Rerum e os novos hábitos de consumo contribuem para formas Jovem/Sénior € 15,2

Novarum, diferentes de organização do tempo de trabalho, que

Sinfónica
ALEMANHA
onde ameaçam o tempo de descanso. Defender o descanso é, Concerto associado
por isso, um debate tão actual como há 130 ou 150 anos. aos 25 Anos da Associação
Associaçã
defendia Só que agora o sistema é mais complexo. Portuguesa de Apoio à Vítima

limites ao Monteiro Fernandes alerta que, apesar de continuar Série Clássica


sica
trabalho a haver quem trabalhe num registo “das nove às cinco”,
é “evidente” que a fronteira entre tempo de trabalho e ORQUESTRA SINFÓNICA
diário e o tempo de lazer tende a esbater-se. DO PORTO CASA DA MÚSICA
respectivo “Estar disponível” tanto no trabalho como fora dele Baldur
aldur Brönnimann
repouso “tornou-se um imperativo do dia-a-dia”, nota, por seu direcção
ecção musical
lado, Hermes Costa. E lembra que as alterações ao Có-

W W W.CASA DA M U S I CA .C O M / 2 2 0 1 2 0 2 2 0
digo do Trabalho de 2012” vieram “legalizar” a já frágil Richard
ard Strauss
fronteira entre trabalho e lazer. “Como que se criaram Metamorfoses
morfoses
condições para uma espécie de institucionalização da -
invasão da esfera privada. Na verdade, a subtracção do L. van Beethoven
tempo de lazer converteu-se em tempo de trabalho, pois, Sinfonia nº 3, Heróica
ao eliminar quatro feriados, três dias de férias e acabando
com o descanso compensatório pelo trabalho suplemen-
tar, a lei introduziu, em termos médios, um corte entre
21% e 30% do tempo de descanso dos trabalhadores”,
exemplifica o sociólogo de Coimbra.
Os desafios do século XXI são, por isso, mais comple-
xos. “O operário que trabalhava na fábrica, por conta
de outrem, durante a semana, deixou de ser o exemplo
típico, e há uma multiplicidade de situações distintas”,
diz Cristina Rodrigues. “Pessoas que trabalham em horá- CO-FINANCIADO

rios regulares, parciais, aos fins-de-semana, à noite, por


turnos, a solicitação quando existe trabalho, em teletra-
balho, por conta de empresas de trabalho temporário, PATROCINADOR OFICIAL MECENAS O
ORQUESTRA SINFÓNICA APOIO INSTITUCIONAL MECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICA

por sua conta”, exemplifica. ANO ALEMANHA

“Compatibilizar esta diversidade de formas de trabalho


com as exigências de um horário que permita o descanso
diário, semanal e anual, e a dignidade do trabalho e do Seja um dos primeiros a apresentar hojeoje este jornal completo na Casa da Música e ganhe um convite duplo para esteste
te concerto. Con
Condicionada à disponibilidade da sala, a oferta
trabalhador, aqui está o grande desafio”, destaca. álida apenas para um convite por jornal e por leitor. Obrigatória a apresentação do documento
é limitada aos primeiros 10 leitores e válida doc de identificação no acto do levantamento.
O carteiro mais velho A vida de
do país ainda anda a Lúcio só
correr de casa em casa teve uma
Aos 63 anos, Jorge Macedo ainda é incansável, mas o tempo
paragem: é
é precioso. Cada minuto perdido tem de ser recuperado
maquinista
há 33 anos
uma corrida contra o tempo. Pega lamenta. Quando a porta não se abre, é preciso preen-

É
num molho de cartas. Pára a carri- cher avisos. “Antes não havia tanto disto. Ando sempre
nha. Abre a porta. Corre até à caixa com o tempo contado por causa dos registos...”
do correio. Volta. A carrinha arran- Mas há outras mudanças que não passam desper-
ca. Cem metros à frente, novo mo- cebidas mesmo a quem nunca distribuiu correio na
lho de cartas. A carrinha pára. E ele vida. Desapareceram praticamente as cartas escritas
volta, numa questão de segundos, à mão, “as que os namorados mandavam ou os filhos Lúcio apaixonou-se pelos
de mãos vazias. A agilidade é tanta emigrados”. Agora, é quase tudo contas para pagar.
que engana. Afinal, é o carteiro mais velho do país. É uma questão de tempo? “Não, é mais de gosto”, rodados e carris quando
Jorge Macedo começou a distribuir correio aos 20 acredita. De gosto e de conveniência, que “isto agora
anos e só a saúde o afastou, temporariamente, desta com os computadores ninguém escreve a ninguém, começou a trabalhar nas
vida. Teve uma leucemia. Curou-se. E voltou aos giros
logo a seguir. Tem 63 anos, mas ninguém lhos daria.
é uma pena...”.
O trabalho antes também se despachava mais cedo
oficinas da CP, aos 16 anos.
Distribuir cartas ajuda. “É como ir ao ginásio todos porque se fazia de moto, sem este constante entra e Para andar nos carris há tanto
os dias”, diz. sai da carrinha. E havia menos pessoas, garante Jorge.
Mas não é só o corpo que lhe pede destreza. A ver- “Há cada vez mais gente. É só casas por todo o lado. tempo, é preciso gostar. Muito

N
dadeira ginástica, que ele faz parecer fácil, é conhecer Às vezes nem sei se mora lá alguém, mas há cartas
toda a gente pelo nome. A D. Armanda, o Sr. António, para entregar”. ão passava de um miúdo. Os pe-
o Jorginho. “Este já está, agora vamos ali mais à frente. Na aldeia de Raia, há muita habitação nova ou pres- daços de história que guardou da-
São 50 metros, mas temos de fazer de marcha atrás”, tes a nascer. Jorge sabe-lhe de cor as curvas difíceis, os queles primeiros tempos não men-
avisa. Poderia fazê-lo de olhos fechados. becos sem saída. Só faz este percurso há três ou quatro tem. No cartão do clube de futebol
Está há 42 anos nos CTT, sempre em Vila Real (Trás- meses, tempo suficiente para também lhe saber de cor dos ferroviários vê-se a fotografia
os-Montes), onde nasceu e ainda hoje vive. É o carteiro os moradores. Alguns vêm receber as cartas em mão, de um rapaz de tez clara, cabelo
mais velho a fazer distribuição, embora haja outros outros acenam de longe. Conhece-os todos. A eles e muito arranjadinho. Entrou na CP
com mais anos de serviço. Mas nem sempre andou a aos filhos, aos netos, aos irmãos e aos primos. com apenas 16 anos e passou os
distribuir correio. Aos 14 anos, começou a trabalhar E é bom que assim seja. A maioria do correio é in- últimos 33 a conduzir comboios pelo país. Os tempos
em mecânica, foi electricista e, mais tarde, guarda- decifrável aos leigos, porque na morada nada mais mudaram muito desde que entrou nos carris.
fios dos TLP (hoje Portugal Telecom), uma espécie de vem do que Raia, Lugar da Raia, Raia — Mateus. Sem A vida obrigou-o a agarrar-se cedo ao trabalho, ainda
polícia dos cabos telefónicos. nome de rua, sem número de porta. E nesta aldeia com 14 anos, numa fábrica de cerâmica, tijolos e telhas,
A 9 de Julho de 1973 entrava nos CTT. E porquê car- distribuem-se cartas “casa sim, casa sim”. O 713 leva-o em Ponte de Sor (Portalegre), onde nasceu. Esteve um
teiro? Nem sabe bem explicar, embora diga que “era ao passado distante, ao tal tempo em que o giro se fazia ano à espera para entrar na transportadora ferroviária,
trabalho mais leve e menos sujo” do que os que tinha de moto, sem ser preciso o constante entra e sai. Pela mas lá o chamaram, para aprendiz de electricista no
experimentado antes. Mas o que gostava mesmo era primeira e única vez em todo o percurso, encosta a car- Entroncamento. Quando completou 25 anos, a idade
de ser electricista. Se ao menos o irmão não se tivesse rinha à caixa do correio, abre o vidro e deixa a carta. mínima definida pela empresa, concorreu logo para
desentendido com os sócios da empresa, hoje não esta- “Está a ver? Era muito mais fácil antigamente...” maquinista. Depois de nove meses de curso, pegou no
ria na aldeia da Raia, a seis quilómetros de Vila Real, a O giro continua pelo dia fora. “A parar em todo o primeiro comboio suburbano, na Linha de Sintra.
distribuir correio. “O que lá vai, lá vai...”, desabafa. lado. Todo o lado”, assegura. Tão cedo não deixará Jorge Macedo Fez os regionais e ainda chegou a conduzir um Fo-
E o que lá vai são mais de quatro décadas a distri- de ser assim, porque, enquanto houver saúde, Jorge começou guete, que fazia a viagem entre Lisboa e o Porto em
buir cartas. Primeiro, de mala de cabedal às costas e continuará a ser o carteiro mais velho do país. “Vou a distribuir mais de quatro horas. Mais do que a velocidade, o
motorizada. Agora, numa carrinha com a mala a meio para casa fazer o quê? Só se for para envelhecer mais cartas aos comboio, que acabou por ser substituído, marcou uma
gás. No início, antes de sair para o giro, juntava-se depressa...” Raquel Almeida Correia 20 anos época, por pequenos luxos como o ar condicionado e
com os colegas à volta de um contentor, com cerca de FERNANDO VELUDO/NFACTOS
o serviço de refeições a bordo. Hoje, no Intercidades
três metros de largura, a separar o correio. “Às vezes, que faz chegar a Santa Apolónia, com seis minutos
demorávamos duas horas com isso”, conta. Agora, de atraso, o percurso leva pouco mais de três horas.
metade desse trabalho é feito por uma máquina. Naquela altura, “os comboios não iam além dos 120,
Antes de deixar o centro de distribuição, organiza 140 quilómetros por hora”, conta. Hoje o Alfa Pendular
o correio por urgência e destino. Cada um dos 28 car- vai até aos 220, fazendo a viagem em 2h44.
teiros (22 dos CTT e seis subcontratados a uma em- É entre este comboio e o Intercidades que Lúcio Ba-
presa externa) tem o seu giro. Quando algum falha, os sílio divide as semanas, seja no Porto, em Lisboa, em
restantes dividem o trabalho. Chegaram a ser 31 nos Faro, na Guarda ou em qualquer lugar onde chegue a
quadros, numa altura em que havia um refeitório e linha de caminhos-de-ferro. Se quisesse, no início do
até uma creche no edifício. A Vila Real chegam, em ano já saberia o que estará a fazer no dia de Natal, tal
média, 23 mil cartas por dia, 400 objectos volumosos é a programação milimétrica das escalas da CP. Mas
e 1300 cartas registadas. o esquema é um emaranhado de condicionalidades.
Olha-se para o primeiro serviço e tudo depende do
Desespera a tocar às campainhas dia da semana, se é feriado ou véspera de feriado.
Antes de sair, Hugo Teixeira, o chefe do centro de dis- “Demora-se algum tempo a entrar nisto”, explica.
tribuição, mostra-lhe uma relíquia. É o livro de pon- Pelo caminho, “perde-se muita coisa”. Ver os filhos
to de 1978. E lá está a assinatura dele, com entrada a crescer, ter vida social, passar férias com a família,
às 8h30. Hoje é um dia excepcional. São quase 10h jantar fora no dia de aniversário. “É uma opção que
quando Jorge começa o giro 140. Há-de sair lá para se faz. Podia ainda estar na Linha de Sintra e ia dormir
as 16h30, mas o tempo é precioso. “Se perco cinco todos os dias a casa, mas quis mais”, diz. Não que rece-
minutos aqui, tenho de os ganhar noutro lado, para ba muito melhor, a não ser as ajudas de custo quando
conseguir entregar tudo”. tem de dormir fora e os prémios pagos a quem tem
É por isso que corre até às caixas do correio e deses- mais horas de condução e mais quilómetros percorri-
pera a tocar às campainhas. “Mais um registo [carta re- dos. Foi quando esteve nas oficinas, ainda antes de se
gistada]. É o que eu digo: o tempo que se perde nisto...”, tornar maquinista, que se apaixonou realmente pelos
JOÃO SILVA

40 anos nos
bastidores
das cervejas
Abílio Ferreira entrou para a
Unicer numas férias escolares
e nunca mais deixou a
empresa. Diz que a cultura
se tornou muito mais focada
em proveitos e resultados

A
Lúcio Basílio
entrou aos ligação entre Abílio Ferreira e a
16 anos na Unicer começou cedo, quando
CP. A vida de ainda estudava. A empresa, onde
maquinista é o pai trabalhava, escolheu-o pa-
um caminho ra receber um prémio de mérito
solitário, que escolar. A homenagem marcou-o
lhe roubou “profundamente”. Ainda hoje diz
muito tempo que esse elo prematuro foi um dos
com a família motivos que o fizeram ir ficando, já lá vão 43 anos. Nas
áreas por onde passou, viu as mudanças na cervejeira
comboios. “É preciso gostar muito disto.” espécie de residências, onde antes se dormia em cama- do Porto de um plano superior. Do tempo em que os
E nem todos os dias se gosta. Nos últimos 33 anos, os ratas e se andava de lençóis às costas, e hoje há quartos discos rígidos ocupavam o espaço de uma mesa até aos
comboios que Lúcio guiava colheram quatro pessoas, individuais, com casa de banho privativa. dias de hoje, em que uma Super Bock é vendida e as
das quais um antigo colega do tempo das oficinas. O Os maquinistas, diz, foram ganhando outro estatuto receitas entram de imediato no sistema de vendas.
último acidente aconteceu há sete anos. “Nunca me com o passar dos anos. “Hoje são mais reconhecidos. Na Unicer há apenas duas pessoas mais antigas do que
senti incapaz de continuar a conduzir. Também tudo Houve um tempo em que ganhavam o mesmo que um Abílio, embora a empresa ainda tenha dez pessoas com
depende se é suicídio ou descuido. A reacção é sempre encarregado florestal e não se pedia tanta qualificação mais de 40 anos de casa. A carreira deste gestor correu
diferente. Se é descuido, ficamos sempre a pensar se técnica”, conta. Já não entram novos profissionais para sempre nos bastidores da cervejeira, mas começou nu-
conseguíamos ter evitado, se podíamos ter buzinado o leme dos comboios há 20 anos. São “sempre os mes- mas férias escolares, numa experiência de três meses na
mais cedo…” mos”, numa actividade que obriga “a conviver mais área de manutenção de equipamentos eléctricos.
Antes, os maquinistas nunca viajavam sozinhos. com os colegas do que com a própria família”. O 25 de Abril veio quando estava há apenas dois dias
Tinham uma espécie de co-piloto, a que chamavam Lúcio chegou a concorrer para inspector, nos escritó- na tropa e trouxe-lhe um vínculo mais sólido à Unicer.
condutor, mas que não conduzia os comboios. “Aju- rios em Lisboa, mas a experiência só durou três meses. “Dentro da empresa houve várias movimentações para
davam-nos a ver os sinais, tinham uma folha com os “Quis voltar à linha”, diz. Deixar a vida de maquinista, Na Unicer há que os contratados passassem aos quadros. Acabei por
registos das paragens onde anotavam o tempo que de- profissão que chegou a ter uma idade de reforma espe- apenas duas receber uma carta a perguntar se estaria interessado
morávamos”, conta Lúcio. Esse papel já foi entregue às cial aos 55 anos, não é coisa que lhe passe pela cabeça pessoas mais em vir trabalhar”. E assim foi. Em 1976 entrava defini-
próprias máquinas há muitos anos, com sistemas que, agora. “Ainda me esperam uns bons anos pela frente, antigas do que tivamente na cervejeira, de onde não mais saiu, apesar
através de balizas instaladas no carris, dão informação se houver saúde.” Raquel Almeida Correia Abílio Ferreira de ter sido aliciado.
sobre a velocidade máxima e a cor dos semáforos. MARIA JOÃO GALA
O que o fez ficar? Além do tal elo prematuro dos tem-
Quando alguma das indicações não é respeitada, o pos da escola, também a mobilidade interna que havia
comboio pára automaticamente. dentro do grupo nortenho. “Permitiu-me passar por
Ao longo de toda a viagem, Lúcio tem de ir dando muitas áreas ao longo da carreira.” Esteve no departa-
indicação de que está em condições de levar o comboio mento de compras, foi programador, mais tarde audi-
a bom porto. Uma alavanca no pé e alguns dos coman- tor interno na vertente de informática e pioneiro em
dos que acciona com as mãos vão dando sinais ao novas áreas, como a de gestão de fluxos, que tratava
centro de controlo. É o chamado “sistema de homem das encomendas de clientes nacionais e internacionais
morto”, que faz soar um alarme quando o maquinista e dos impostos indirectos sobre a cerveja. Desde 2009
deixa de dar resposta. é gestor de processos e projectos especiais na direcção
É nestes dois metros quadrados que passa grande de logística.
parte do tempo. Tanto tempo que já nem repara no Abílio lamenta que se tenha perdido um pouco esta
que está lá fora. “Passamos tantas vezes no mesmo sítio cultura, relembrando os tempos em que a progressão
que já nem ligamos.” Dos passageiros também pouco na carreira se fazia com base em testes que garantiam
sabe. Vê-os entrar pelo espelho retrovisor, mas com que um bom técnico tinha capacidade de liderança.
a única preocupação de não deixar ninguém apeado. “Até ao final da década de 1990, esta empresa era muito
É um caminho solitário. familiar. Havia muita preocupação em desenvolver as
Lúcio, que está já há 42 anos na CP, garante que competências dos colaboradores com formação profis-
hoje as condições são muito melhores do que quando sional e o reconhecimento do mérito.” O que mudou?
começou nesta vida de transportar passageiros. Antes, “A cultura. Tornou-se muito mais focada em proveitos
as cadeiras em que conduziam não estavam presas ao e resultados”, continua, ao recordar a reestruturação
chão. “Bastava um solavanco e lá íamos.” E não havia profunda que a Unicer sofreu e que levou à saída de
ar condicionado. Mas também há regalias que ficaram muitos trabalhadores. “De repente, as pessoas come-
pelo caminho: como os prémios que a empresa pagava çaram a pensar: ‘Será que amanhã estou cá’?”
quando um maquinista encontrava fendas nos rodados Os tempos mudaram a uma velocidade furiosa. E Abí-
ou um carril partido. lio recorda-se sobretudo do momento, na década de 80,
Hoje, há 743 maquinistas na CP (excluindo os que em que os antigos cartões perfurados, utilizados para
conduzem comboios de mercadorias). Lúcio, que hoje fazer programação, foram substituídos pelos discos
tem 58 anos, é o 16.º na lista de mais antigos, em ter- rígidos, cuja leitura tinha de ser feita por uma máquina
mos de anos de serviço. Por regra, faz uma viagem a que parecia um fogão. Mas o que mais guarda são os
cada dia da semana, às vezes mais. A empresa ainda tempos em que “se vestia a camisola” e que mudaram
tem alguns dormitórios espalhados pelo país. Uma “de um dia para o outro”. Raquel Almeida Correia
2003
>>>>>>>>>>>> Tempo
no banco
Genoma humano
A 14 de Abril de 2003 termina
a façanha imensa de tentar
encontrar a chave da vida
humana: é descodificado o

em vez de
genoma humano, abrindo
potencialidades infinitas a
ciências como a genética e a
medicina. O projecto de ler a
composição do ADN humano
arrancou em 1990 e acelerou-se
radicalmente no final da década.

dinheiro
No ano 2000, nos Estados
Unidos, é anunciado o primeiro
rascunho do ADN humano. Um
ano depois, a descodificação
chega aos 95% e finalmente
em 2003 ficamos a saber que
cada ser humano é composto
de 30 mil genes, que em
complexas combinações fazem
a nossa diversidade e a nossa Há 15 anos que o Banco do Tempo coloca a oferta ao lado da
semelhança. S.J.A.
procura, usando horas como moeda de troca. Nas suas 30
agências ninguém deve nada a ninguém. Tem dois mil clientes
Por Ana Rute Silva

E
NELSON GARRIDO
m Portugal, quase 2050 pessoas Banco do Tempo de Santa Maria da Feira, não recebe
são clientes de um banco com em troca serviços prestados pela delegação, mas sim
30 agências em todo o país de um outro membro que oferece algo de que precisa.
onde não há dinheiro envolvido. Cada cliente tem uma conta-corrente e se precisar
Passam cheques, têm uma conta à de um serviço, contacta a agência que procura quem
ordem, créditos e débitos usando o realize. Na altura da “transacção”, quem pediu o
uma moeda valiosa, mas sem serviço passa um cheque de tempo. Quem o recebe,
cotação definida pelos mercados “deposita-o” na conta e recebe horas (as que demorou
internacionais. A divisa é o tempo. a concretizar a tarefa). Não se podem ultrapassar as
Uma hora de jardinagem é igual a uma hora a 20 horas de crédito ou de débito.
cuidar de uma criança. Uma hora a conversar é igual Daniela Serra, a professora de desporto que está
a uma hora a arranjar uma persiana que se partiu. a ensinar Angela a andar de bicicleta, já usufruiu de
Não há serviços mais valiosos do que outros. O tempo arranjos de costura ou serviços de entrega. “Acredito
que Daniela Serra, de 35 anos, gasta a ensinar Angela que dou de mim, em vez de dar dinheiro. Dou o que
Guevara Mirault, de 63, a andar de bicicleta é igual tenho de melhor, o que eu ofereço. E isso é agradável.
ao que, por seu lado, Angela despende a ensinar Vou com gosto”, garante. Com a sua ajuda e o apoio
outros clientes (“membros”, como se chamam uns de Tiago Portela, outro membro do banco, Angela
Daniela aos outros) a aprender espanhol ou francês. Há, (que foi empresária no sector do calçado) está a
Serra e Tiago por isso, encontros improváveis, nesta organização, conseguir riscar mais uma actividade da lista das

2007
>>>>>>>>>>>>
Portela
ensinam
Angela
Mirault, de
63, a andar de
bicicleta
criada em 2000 por iniciativa do Graal, movimento
internacional de mulheres que em Portugal foi
fundado, em finais de 1960, por Maria de Lourdes
Pintasilgo e Teresa Santa Clara Gomes.
Nesta comunidade, homens e mulheres oferecem
o tempo que têm para fazer coisas de que gostam.
coisas que queria muito fazer. Aprendeu a nadar aos
45 anos, faltava-lhe a bicicleta. “Não é fácil porque
temos de ter confiança com a pessoa que nos vai
ensinar. Tinha e tenho medo de cair e, na minha
idade, uma queda é complicado. A Daniela é uma
jovem com muita disciplina e amorosa na forma
Eliana Madeira, que, juntamente com Teresa Maria como ensina e foi isso que me incentivou”, conta. A
iPhone Branco, coordena a rede nacional do Banco do empresária agora reformada é uma das fundadoras
A 29 de Junho de 2007, a Tempo (Bdt), não tem dúvidas de que o projecto, sem de delegação de Santa Maria da Feira e acrescenta
Apple lança um objecto que fins lucrativos, é exigente. “Desafia modos habituais que, além das trocas, há uma noção de grupo, uma
representa uma nova revolução de estar em sociedade. Não é habitual não usar amizade que nasce entre cheques de horas e débitos.
nas comunicações e que reduz dinheiro, nem pedir ajuda aos outros. A sociedade “O facto de não haver dinheiro permite-nos ser livres
a distância e acelera ainda mais privilegia a auto-suficiência”, diz, sentada numa e actuar de outra forma. Se há uma festa, levamos o
a relação humana com o espaço das mesas do terraço de um último andar da Rua de que temos para conviver e beber um chá”, conta.
e o tempo. Chama-se iPhone e Luciano Cordeiro, em Lisboa, onde o BdT tem sede. Este sentimento de união ajudou Anabela Rocha a
é o primeiro smartphone, isto É uma “outra economia” que nasceu antes da crise, concluir uma tarefa hercúlea. Quando lançou a Bela7
é, um minicomputador que mas permaneceu, parecendo, agora, fazer ainda mais Art Fashion, marca de acessórios de moda que têm
vai muito além de um simples sentido. “É uma iniciativa solidária, mas com uma por base as suas obras de arte, queria apresentar
telemóvel e coloca o mundo proposta de trocas não-monetizadas, uma alternativa uma almofada forrada de pétalas pintadas a aguarela.
na sua mão. De dia ou de noite, numa sociedade em que o lucro está no centro”, “Estava a um mês da inauguração de lançamento
em casa, no emprego, na rua, continua. da exposição Coração de Viana e do lançamento da
todas as operações são possíveis O sistema segue a lógica do mercado, num encontro marca, estava exausta e faltava terminar a almofada.
de realizar, desde enviar um entre a oferta e a procura. Troca-se tempo por tempo Eram necessárias muitas horas de trabalho”,
mail a tirar uma foto, de ver um e a unidade é a hora. Todas as horas têm o mesmo conta. Quando partilhou a sua preocupação com
filme a consultar a Net. O passo valor e é obrigatório intercâmbio: “Todos os membros a coordenadora do banco, Margarida Portela, os
seguinte foi dado em 2010, com têm de dar e receber tempo”. A troca de serviços não voluntários apareceram: 12 pessoas trabalharam
o iPad, quase idêntico ao iPhone, é directa, ou seja, quando a artista plástica Anabela durante 35 horas recortando as pétalas pintadas por
mas maior. S.J.A. Rocha cria cartazes para eventos organizados pelo Anabela. “Foi surpreendente”, recorda.
Há também a história de Geetha Girithari, de 30
anos, que se tornou membro do Banco do Tempo de
Coimbra em 2011. Procurava alguém que a ajudasse
a aprender português, língua essencial para fazer os
exames e entrar na Ordem dos Médicos e, em troca,
estava disposta a dar aulas de malaio (é natural da
Malásia) e inglês. “Conheci a Maria Dias da Silva,
professora aposentada de Português, que me deu
aulas cinco dias por semana. Não falava uma palavra
de inglês e eu não falava uma palavra de português,
mas durante cinco meses, sem falta, encontrámo-nos
todos os dias”, recorda. O modelo de troca de tempo
ajudou-a a “tornar o impossível no possível, sem
dinheiro ou produtos envolvidos”. “Torna-nos mais
humildes”, garante.
A lista de serviços prestados é diversa e inclui
coisas simples como acompanhar alguém a uma
consulta ou levar um cão a passear quando o dono
não está. Alguns dos serviços, como a companhia,
não têm valor de mercado. “São periféricos e aqui
são valorizados de igual forma. Temos tendência
para a valorização do tempo que é produtivo e o
BdT valoriza o tempo de estar, de cuidar”, diz Eliana
Madeira.
No Algarve, Bárbara Pimenta, sócia número dois
do BdT de Cascais, está a aplicar o que aprendeu
num curso de Agricultura Biológica organizado nesta
dependência bancária. “Acordou em mim sonhos
meio adormecidos”, conta. Na sua quinta, em Lagos,
está a produzir em modo biológico com o marido
e filhos. “No mundo em que vivemos, o segundo, o
minuto, a hora, o dia da vida das pessoas em tempo
real são vendidos e comprados por preços muito
diferentes. Por que é que uma hora de trabalho de
um investigador de medicamentos para a cura do
ébola é paga por um preço inferior à hora de trabalho
de um jogador de futebol, como o Ronaldo, ou de
uma hora de trabalho de um pivot de televisão?”,
questiona. No Bdt a lógica é outra. Desafia a olhar o
tempo de forma simples, numa troca sem notas nem
moedas à mistura.

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A
ntes de 1968, nunca os Jogos Olímpicos de Verão se ti-
nham realizado a mais de 200 metros acima do nível 9.58
no mar, mas esses Jogos da Cidade do México foram a 9.69
2244m de altitude. A menor concentração de oxigénio
9.79
em altitude teve efeitos diversos no programa atlético.
Nas provas de meio-fundo e fundo, as marcas foram de 9.9 9.93
nível baixo, mas em salto em comprimento, triplo salto
e velocidade bateram-se recordes do mundo. Nenhum
durou tanto como o de Bob Beamon no comprimento
(até 1991), mas falemos apenas dos casos de provas que
são medidas em segundos e não em centímetros.
Só na estafeta masculina de 4x100m, por exemplo, 10.4
bateu-se o recorde do mundo por três vezes em três dias, 10.49
desde a primeira eliminatória até à final. Como este, há 10.6s
vários casos de recordes do mundo que duraram apenas
dias ou algumas horas, há outros que parecem eternos. 10.79
Entre os recordes do atletismo de pista ao ar livre, mais
10.9
maratona, o mais antigo é o de Jarmila Kratochvilova, nos
800m femininos, o mais recente é o de Dennis Kimetto,
11.07
na maratona masculina. Um já dura desde 1983 (11.546
dias), o outro foi estabelecido no ano passado (159 dias).
Se em homens e mulheres há recordes de longa duração,
os números mostram que os recordes femininos têm
11.4
uma longevidade média de quase o dobro (7007 dias)
em relação aos recordes masculinos (3546 dias).
Se o de Kratochvilova, obtido em 1983 nos Mundiais
de Helsínquia, é o mais antigo, aquele que é considerado
como o mais difícil de ultrapassar é o de Marita Koch nos
400m planos (1985). A atleta da República Democráti- 11.9
ca Alemã fixou a marca da volta à pista em 47,60s em
Camberra, sendo que só mais uma atleta conseguiu uma
marca dentro dos 47 segundos, precisamente Jarmila
Kratochvilova (47,99s). Só para se ter uma ideia de como
as atletas contemporâneas estão longe desta marca, o
melhor registo de 2014, por exemplo, foi da norte-ameri-
cana Francena McCory, quase dois segundos mais lenta
(49,48s) que o recorde de Koch. A marca que deu para a O norte-
britânica Christine Ohuruogo conquistar o título mundial americano
em Moscovo 2013, por exemplo, foi de 48,91s. Michael
Durante a sua carreira, Koch estabeleceu dezenas de Phelps,
recordes, mas nunca se livrou da suspeita de doping, tal actual
como os seus colegas da RDA. A velocista nunca teve um detentor de
controlo positivo, mas antigos atletas do país já deram os sete recordes
seus testemunhos quanto à prática sistemática de doping. mundiais
“A principal arma eram aqueles comprimidos azuis [o
Turibanol] da Jenapharm, a companhia farmacêutica
estatal”, escreveu nas suas memórias Arne Ljungqvist,
presidente da Comissão Médica do Comité Olímpico
Internacional. Tal como Koch, a checa Kratochvilova
13.6
também levantou suspeitas, por só ter aparecido na alta- 16 Ago. 2009 (recorde mundial actual)
roda do atletismo depois dos 30 anos, mas também pelo
16 Jul 1988 (recorde mundial actual)
2 Set. 1972 (1.º em crono electrónica)

3 Jul. 1983 (1.º em crono electrónica)

seu físico musculado e pouco feminino, o que sugeria o


16 Ago. 2008 (1.º abaixo dos 9,70s)
16 Jun. 1999 (1.º abaixo dos 9,80s)
23 Abr. 1921 (1.º abaixo dos 10,5s)

3 Jul. 1983 (1.º abaixo dos 10,80s)

uso de esteróides.
20 Jun. 1968 (1.º abaixo dos 10s)
4 Out. 1952 (1.º abaixo dos 11,5s)
5 Ago. 1922 (1.º recorde oficial)
5 Jun. 1932 (1.º abaixo dos 12s)

7 Jun. 1973 (1.º abaixo dos 11s)

As mesmas suspeitas rodeiam a norte-americana Flo-


6 Jul. 1912 (1.º recorde oficial)

rence Griffith-Joyner e os seus recordes de 100m e 200m,


estabelecidos em 1988, tal como as marcas das chinesas
Wang Junxia (10.000m) e Qu Yunxia (1500m), ambas
de 1993. A longevidade das marcas e as suspeitas que as
rodeiam já motivaram várias propostas de que todos os
recordes estabelecidos antes de 2000 fossem eliminados
das listas e, embora as evidências do uso de substâncias
dopantes sejam numerosas, fazê-lo seria admitir que

Os alguns dos grandes nomes da história do atletismo não


D. Lippincott EUA
C. Paddock EUA
M. Mejzlíková II CHE
T. Schuurman HOL
M. Jackson AUS
J. Hines EUA
R. Stecher RDA
R. Stecher RDA
E. Ashford EUA
C. Smith EUA
F. G. Joyner EUA
M. Greene EUA
U. Bolt JAM
U. Bolt JAM

passavam de batoteiros.
O mais antigo dos recordes masculinos pertence a Ke-

recordes
vin Young, nos 400m barreiras, alcançado nos Jogos de
Barcelona em 1992 e batendo na final o anterior recor-
dista, o lendário Edwin Moses. Apenas mais três foram
alcançados antes de 2000, nos 4x400m (estafeta dos

em que
EUA, em 1993), nos 1500m (Hicham El Guerrouj, 1998) e Masculino Feminino
nos 400m (Michael Johnson, 1999). Mas há um nome que
aparece três vezes nesta lista, Usain Bolt, detentor das 14 recordes mundiais
marcas 100m (9,58s) e 200m (19,19s) planos desde 2009,
dos 100m na mesma pista

o tempo
e membro integrante do quarteto jamaicano recordista
dos 4x100m em 2012. Há quem dê “Lightning” Bolt como Segundo as listas da Federação
candidato ao recorde de Johnson para deter o pleno da Internacional de Atletismo (IAAF),
velocidade, já que os seus recordes das duas distâncias o recorde mundial dos 100m planos

parou
no sector masculino foi batido por
mais curtas parecem inatacáveis a curto e médio prazo, a
62 vezes, a última das quais em 2009
não ser por ele próprio. Com melhor tempo de reacção e por Usain Bolt. Já o recorde feminino
vento favorável no limite do permitido, ou mesmo bene- dura desde 1988, estabelecido por
ficiando da altitude, Bolt poderá, dizem alguns estudos, Florence Griffith-Joyner, e é o último
fixar a marca do hectómetro abaixo dos 9,5. Para isso, dos 43 recordes ratificados pela IAAF.
talvez baste não abrandar para saudar o público quando
Por Marco Vaza está a cortar a meta muito à frente dos outros. FONTE: IAAF J.A.
O Homem
O tempo na natação é relativo. Olhe-se para o caso de ou 60 vezes desde que o primeiro foi registado. Os tem-
Johnny Weissmuller, agora provavelmente mais conhe- pos progrediram radicalmente por várias razões. Somos
cido por ser o Tarzan mais emblemático do cinema, mas mais altos, mais fortes e a era do amadorismo, especial-
que durante muito tempo foi considerado o melhor na- mente nas grandes nações da modalidade, ficou há muito

continua
dador de sempre. Bateu mais de 50 recordes mundiais para trás. Há mais e melhores treinos e as carreiras duram
e ganhou todas as 12 corridas em que participou nos mais. As alterações de estilo e das regras (a separação
Jogos Olímpicos, conquistando cinco medalhas de ouro. dos bruços e da mariposa nos anos 50, por exemplo)
Tornar-se o primeiro a baixar da barreira do minuto nos também influenciaram decisivamente o desporto. Assim

a quebrar 100 metros livres, a prova-rainha da modalidade, foi um


dos pontos altos da carreira do norte-americano. O seu
melhor registo (57,4s) sobreviveu dez anos como recorde
mundial, de 1924 a 1934, e no entanto, para os padrões
como o desenvolvimento tecnológico dos materiais. Até
as piscinas se “tornaram” mais rápidas. Tudo conta para
ganhar um centésimo de segundo — ainda que o “desa-
conselhável” bigode de Mark Spitz, em Munique 1972,

barreiras actuais, apesar de obtido numa distância de sprint, seria


considerado um tempo lento.
Na natação, os recordes foram mesmo feitos para se-
não o tenha impedido de conquistar sete títulos (e todos
acompanhados por recorde do mundo).
Há pouco tempo, assistiu-se ao maior “boom” de re-

dentro
rem quebrados. O húngaro Zoltán Halmay foi o primeiro cordes da história da natação. Eles sempre caíram com
recordista dos 100m livres reconhecido oficialmente, alguma regularidade, mas muitas marcas tinham con-
depois de gastar 1m05,8s, em Viena, Áustria, em 1905. seguido sobreviver ao teste do tempo. Os máximos de
Mais de um século depois, a melhor marca (46,91s) per- Janet Evans nos 400, 800 e 1500m livres e os últimos

de água
tence a César Cielo, 19 segundos abaixo da de Halmay e de Mary T. Meagher nos 100 e 200m mariposa duraram
10 abaixo da de Weissmuller. Ou, visto por outro prisma: todos entre 18 e 19 anos e a holandesa Willy den Ouden
se os três competissem simultaneamente, o húngaro e o teve o recorde nos 100m livres por 20 anos (1936 a 1956),
norte-americano estariam 28 e 18 metros atrás do brasi- entre outros exemplos. Mas nunca num período de dois
leiro, respectivamente, quando este atingisse a centena anos como entre 2008 e 2009 houve tantos recordes a
de metros. Por curiosidade, note-se que o actual recorde caírem. Ajudados pelos fatos de banho compostos de
português (49,50s), de Alexandre Agostinho, só não daria materiais não-têxteis, como o poliuretano, os atletas na-
para ganhar a prova nos últimos sete Jogos Olímpicos. daram como nunca. Somente três recordes — todos nos
Para um efeito dramático maior, considere-se os 1500m 1500m livres — entre as mais de 80 provas da natação
livres, a maior distância da natação competitiva, na ver- resistiram à era do vestuário de alta tecnologia.
são piscina longa e no sector feminino. Em 1922, a norte- Entretanto, apesar do regresso a fatos mais convencio-
americana Helen Wainwright percorreu-a em 25m06,6s. nais, os nadadores parecem, aos poucos, ter encontrado
No ano passado, Katie Ledecky, a rainha da média e longa maneira de voltarem a superar barreiras. Em Dezembro,
distância da actualidade, gastou cerca de menos 10 mi- no Mundial de Piscina Curta, no Qatar, foram registados
nutos (9m38s) do que a sua compatriota. Aos 15m28,36s 23 recordes mundiais.
da sua performance — tempo que o cronómetro regis- Vivemos para nos ultrapassarmos. Mas há quem de-
tou para Ledecky —, Wainwright estava a 576 metros de fenda que estamos a chegar aos limites da velocidade
completar os 1500m. que um humano pode atingir na água e que isso, num
Claro que são comparações de coisas pouco compará- futuro próximo, obrigará a uma estagnação das marcas.
veis. Não se pode fazer paralelismo entre eras. “É tudo João Paulo Vilas Boas, contudo, acredita que os recor-
muito diferente e assim será daqui a uns anos”, afirma des continuarão a ser renovados. “Não tenho dúvida.
João Paulo Vilas Boas, treinador de natação e professor Estamos na pré-história do conhecimento em todos os
de Biomecânica da Faculdade de Desporto do Porto. domínios. E no desporto ainda mais. Daqui a 100 anos,
A evolução é a norma, não apenas na natação. Há re- os recordes de hoje já terão desaparecido há muito”.
Por Manuel Assunção cordes mundiais que foram melhorados mais de 40, 50 Só o tempo dirá.
TIMOTHY CLARY/AFP
A
BRUNO DOMINGOS / REUTERS
propósito dos modos
como passamos o tempo
ou o tempo passa (marcar
o ritmo) resolvi falar
da mais apaixonante
experiência cultural
que vivi no último ano:
o Festival Folclórico
de Parintins, uma ilha
com 100.000 habitantes
(recebe cerca de 50.000 visitantes durante o festival)
no grande estado do Amazonas, no Brasil.
Iniciado (com formato que se foi alterando)
em 1965, o festival realiza-se agora todos os anos
no último fim-de-semana de Junho. Numa arena
desenhada em forma de cabeça de boi, chamada
Bumbódromo, em três noites consecutivas, as
agremiações representativas do Boi Caprichoso
e do Boi Garantido apresentam, cada uma, três
espectáculos inéditos, cada um com duas horas de
duração. A exibição reúne música (“Boi” também é
uma forma musical), dança, canções, declamações
e uma sofisticada cenografia composta por dezenas
de “alegorias” — engenhosas construções cénicas
animadas por uma multiplicidade de “efeitos
especiais”. O espectáculo não envolve nenhum boi,
animal vivo. No final das três noites um júri (sempre
acusado, por certo justamente, de corrupção) atribui
a vitória a um dos bois.
A origem da celebração é descrita de várias formas:
festividade de origem religiosa oriunda do Nordeste;
fábula mágica sobre a morte e ressurreição de
um boi e a salvação de uma comunidade; criação,
no início do século XX, de dois pequenos bois,

... E o ritmo
brinquedos artesanais, por duas crianças que se
tornaram figuras de referência local. As descrições
disponíveis são intermináveis e contraditórias.
Hoje em dia, o elemento mais forte é a valorização
das especificidades culturais da Amazónia, “aldeia
mística”.
Importa o que permanece: a alegria de “brincar de
Boi” e a rivalidade entre os Bois.
O espectáculo oferecido pelos Bois-Bumbá

é de boi!
reúne, de forma original, as características de três
empolgantes experiências culturais: a ópera, o
futebol e o Carnaval.
Ao falar de ópera recordo aproximações a
encenações barrocas e, sobretudo, a experiência do
Ring de Wagner, em particular quando se assiste às
quatro óperas em sequência num curto período de
tempo. Retenho, em comum, o império do ritmo,
o arrebatamento da voz e o poder de atracção
visual das cenografias. Sem sequer especular sobre
convergências nos modos de combinação entre
figuras reais e sobrenaturais, psicologias humanas e
destinos transcendentais, deuses, heróis, feiticeiros,
gigantes, mártires e meros humanos. Não sei quase
nada sobre ópera mas ouso dizer que gosto de ver e
ouvir Bryn Terfel (o meu Wotan). Já no caso do Boi,
não hesito em enaltecer a voz de David Assayag,
actual “levantador de toadas” (cantor) do Boi
Caprichoso e, por certo, uma das mais belas vozes
vivas no mundo.
Enfim, paixão. Com a vantagem de a música ser,
por definição, uma coisa incompreensível, o que
significa que pode (não) ser compreendida por todos.
O tópico da rivalidade conduz-nos ao futebol. A
rivalidade entre os dois bois é tal que a pequena
ilha de Parintins está, para quase todos os efeitos
práticos, dividida em duas partes, em que imperam
de um lado a cor azul e do outro a cor vermelha. É
o único local do mundo onde a Coca-Cola é vendida
em latas não apenas vermelhas mas também azuis. O
Bumbódromo está dividido ao meio, ficando de um
lado a “galera” do Caprichoso e do outro a “galera”
do Garantido. Não se pode (mesmo) estar no meio de
uma “galera” vestido com a cor do “Boi contrário”.
Durante a exibição do seu Boi o respectivo público
(também sujeito a pontuação, pois faz parte da
apresentação) actua, acompanhando o espectáculo
(de forma ainda mais intensa que o público do
futebol, mesmo se considerarmos o público do
Liverpool nas suas melhores tardes), enquanto a
Crónica Alexandre Melo outra metade da bancada permanece em silêncio
e sem iluminação. Contam-se histórias de prefeitos Há outra nuance.
que mandaram alterar as cores nos semáforos e
nas passadeiras para peões de acordo com as cores
dos seus bois. A natureza lúdica do espectáculo
não exclui uma radical rivalidade com elaboradas
implicações políticas e financeiras.
Para ilustrar a dimensão dramática (“operática”)
O espectáculo
oferecido
pelos Bois-
No Carnaval do Rio existe um júri que, este ano
(obra-prima de ironia e verdadeiro hino à corrupção),
resolveu distinguir uma escola que homenageou (a
troco de dinheiro, segundo alguns rumores) a Guiné
Equatorial, prestigiado bastião da “lusofonia”.
Em Salvador não há um júri mas um método
2008
<<<<<<<<<<<<
do futebol em geral bastará recordar a saga do Brasil -Bumbá difuso de sondagem que faz emergir, como que por
Lehman Brothers
na Copa 2014: desde o atentado colombiano (talvez consenso, a música do Carnaval. Não se sabe bem
encomendado pelos argentinos) contra Neymar até reúne as porquê mas toda a gente vai percebendo, ao longo A falência do Lehman Brothers,
ao desfecho “trágico”(1-7). do Carnaval, qual vai ser a música do Carnaval, em 15 de Setembro de 2008, fez
Enfim, paixão. Com a vantagem de o prazer do jogo características que acaba por ir sendo cantada por múltiplos soar as campainhas em todo o
(combate) e o desejo de vitória serem sentimentos intérpretes. Este ano, Márcio Victor (líder da banda mundo. Foi o sinal de que a crise
tão pouco nobres quanto partilháveis por toda a de três Psirico) ganhou com Tem Xenhenhem. Já tinha sistémica do sector bancário
espécie humana. ganho o ano passado com o inesquecível Lepo Lepo estava instalada e que o sistema
Aqui chegados, a evocação do Carnaval já empolgantes e, em 2008, com Mulher Brasileira (Toda Boa). O financeiro não mais seria o
deve parecer óbvia, mas importa esclarecer que ritmo é mais ou menos sempre o mesmo (o melhor mesmo. O estoiro do Lehman
a principal referência, apesar das semelhanças experiências do “Pagode”), tal como o assunto (de inspiração, Brothers expôs em definitivo
formais, não é o Carnaval do Rio (que de resto por assim dizer, “neo-pós-feminista” ou “neo- as consequências da crise da
contrata em Parintins muitos dos seus melhores culturais: queer”), mas também não há assim muitos assuntos bolha de crédito que desde 2006
colaboradores cenográficos), um espectáculo susceptíveis de interessar (quase) todas as pessoas. não assolava apenas os bancos
relativamente convencional. a ópera, o Mais aliciante, do ponto de vista sociológico, o americanos (crise do subprime).
Invoco o Carnaval de rua, tomando como segundo lugar alcançado este ano por Igor Kannario, As falências seguiram-se em
exemplo o Carnaval de Salvador, que permite futebol e o que só à última hora foi autorizado a desfilar, devido cascata, com destaque para a
uma participação intensa e abrangente e à sua alegada relação com pessoas envolvidas em da AIG, a maior seguradora dos
uma interpenetração fluida entre performers, Carnaval práticas ilegais (e que não são nem políticos nem EUA. Os estilhaços desta crise
participantes e espectadores. Carlinhos Brown é líderes de grandes empresas ). Os refrões dos seus financeira espalharam-se e o
famoso (entre outras coisas, por exemplo, o cabelo) maiores sucessos são lapidares: “Eu não sou de sistema bancário mundial viu a
por “puxar” o “trio” no chão, no “arrastão” da baixar a cabeça para ninguém” e “Tudo nosso nada sua confiança abalada. S.J.A.
manhã de Quarta-feira de Cinzas. deles”, que até o prefeito ACM Neto acabou por ter
Há diferenças entre ir em cima do “trio eléctrico”, de trautear em cima de um “trio” em directo para a
assistir “de” camarote, ir “dentro” da “corda” (que televisão.
delimita o espaço de quem pagou para estar junto Igor Kannario, o “Príncipe do Gueto”, foi seguido,
ao “trio”) ou ir na “pipoca” (fora da “corda”), mas sem “corda”, pela maior multidão do Carnaval de
não há como excluir quem quer que seja. Não pode Salvador 2015: a maioria, como não poderia deixar
ser proibido estar na rua. As ruas ficam fisicamente de ser, veio do Bairro, como não poderia deixar de
cheias. ser, da Liberdade.
Enfim, paixão. Com a vantagem de toda a “É nois!”
população estar, por definição, convidada e
convocada. Ensaísta e crítico

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INVESTIMOS NA LITERACIA FINANCEIRA.

1ª CONFERÊNCIA

EDUCAÇÃO FINANCEIRA APB


9 de Março. Culturgest. Lisboa

ORADORES: Adele Atkinson (OCDE), Fernando Faria de Oliveira (APB), Lúcia Leitão (BdP/PNFF),
Pedro Duarte Neves (BdP), Rita Machado (APB), Sébastien de Brouwer (EBF).
DEBATE: Educação Financeira nas Escolas e Sociedade Civil.
ENCERRAMENTO: Fernando Reis (Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário
do Ministério da Educação e Ciência).

Entrada livre mediante inscrição prévia em www.apb.pt

Membro da European Banking Federation


Dantes
Foi durante estes 20 anos, dizem os cépticos, que
se fez “bom jornalismo”. Segundo a tese, a Internet
— e a superficialidade que ela trouxe — estragou tudo
e foi por isso que os jornais deixaram de vender.
Não é verdade. O jornalismo não está em crise.
O que está em crise é o modelo de negócio do
jornalismo — coisas completamente diferentes.
Como disciplina, como necessidade, como
bem comum e actividade de interesse público, o
jornalismo está de boa saúde e recomenda-se. Em

é que o
muitos aspectos melhorou, justamente, por causa
do digital. Ou seja, a partir de 1995. Dez razões:
1. O jornalismo hoje é mais exigente porque o
digital tornou a informação disponível em todo o
lado e a toda a hora. Se quer ser relevante e útil
neste tempo, o jornalismo tem de dar respostas com
rigor e profundidade de forma ininterrupta. Tem
de ser distintivo em relação à concorrência directa
(a famosa “real comparative advantage”) e às redes
sociais, blogues e sites como o Tá Bonito, o 12.º mais
visitado em Portugal, acima do Expresso ou da RTP.

jornalismo
Mais do que nunca o jornalismo tem de mostrar que
vale a pena. O leitor, quando escolhe ler um jornal
(em vez de outro) e quando visita um site (em vez
de outro), tem de sentir que o seu tempo foi bem
gasto. Por isso, a melhor das forças é o jornalismo
de investigação. Não é por acaso que logo em 2009
o Huffington Post, um híbrido entre blog e jornal,
“roubou” um editor de investigação ao Washington
Post. Um dos efeitos colaterais desta nova
concorrência é a perda de poder de influência de
fontes institucionais e de agências de comunicação:

era bom.
no digital, a uniformização de conteúdos salta à
vista. Todos a querem evitar. Por último, no meio do
caos da nossa vida fluida, o jornalismo dá-nos hoje,
mais do que nunca, o conforto de sentirmos que há
alguma ordem no mundo.
2. Com o digital, o jornalismo ganhou novas
ferramentas que ajudam a compreender melhor
a realidade e aproximam — como um íman — os
leitores dos temas relevantes: o data journalism, o
vídeo, as infografias interactivas animadas, o live
blogging, o multimédia que junta tudo e enriquece

A sério?
os conteúdos. Hoje conseguimos tratar temas com
uma profundidade que há dez ou 15 anos só se
conseguia ao nível das universidades. Isso obriga-
nos a ser mais criativos.
3. Hoje o jornalismo chega a muito mais pessoas.
O PÚBLICO tem em 2015 mais leitores do que
alguma vez teve na sua história: quatro milhões de
pessoas lêem o PÚBLICO por mês, muitas delas no
Brasil, no Reino Unido, em Cabo Verde. O digital
ajuda a passar fronteiras.
4. O jornalismo perdeu arrogância, sabe que tem
de estar mais atento às pessoas, aos interesses dos
leitores e ao seu saber. Basta ler os comentários
dos leitores no nosso site. Muitas vezes quem

C
nos lê sabe mais sobre o tema que a notícia trata
omo regra, escrevemos sobre do que o jornalista que a escreveu. Porque o
os outros. Hoje que fazemos leitor é testemunha do acontecimento, porque é
25 anos permitam-me que especialista ou simplesmente porque o tema lhe
escreva sobre aquilo que interessa de forma particular e por isso leu e viu
fazemos — jornalismo. Oiço tudo o que havia a ler e ver nas últimas 48h e fez
com frequência a frase “Dantes ligações que o jornalista ainda não fez.
é que o jornalismo era bom”. 5. Na era digital há mais transparência. O
De leitores novos e velhos, mas escrutínio que os leitores fazem ao nosso escrutínio
também, extraordinariamente, — o novo poder dos leitores — obriga-nos a ser mais
de jovens universitários que explícitos sobre os passos que damos na construção
estão a estudar Jornalismo hoje. das notícias e na identificação da origem das
Não posso estar mais em desacordo. próprias notícias. Há dois anos, o New York Times
Não é claro a que exacto momento no tempo este publicou no fim de uma reportagem a lista das 121
“dantes” se refere. Se pensarmos em Portugal, não é fontes consultadas para o trabalho, links para os
certamente “antes” de 1974, quando os jornais eram documentos incluídos.
previamente lidos pela censura oficial, embora haja 6. Dantes é que era bom? “Dantes”, se queríamos
quem acredite que as fintas que os bons jornalistas ter uma conversa estimulante e provocadora,
do Estado Novo faziam ao sistema do lápis azul tínhamos de marcar hora e ir a algum lugar. Hoje, os
valem mais do que qualquer bom jornalismo feito jornais desempenham o papel que os cafés tinham
em democracia. O heroísmo desses tempos não é no século XIX — são um ponto de encontro dinâmico
comparável. Arriscava-se a vida por escrever uma onde as pessoas encontram notícias, curiosidades e
notícia, mas o jornalismo não era melhor por isso. utilidades, ideias novas, argumentos e pessoas para
O “dantes” que se ouve nas conversas sobre “o discutir o que se passa no mundo.
estado a que o jornalismo chegou” costuma ir de 1974 7. “Dantes as redacções não estavam cheias
(início da democracia) a 1995 (pré-história da era de estagiários e jovens ignorantes.” Oiço isto às
Crónica Bárbara Reis digital). vezes. E até leio nos comentários no nosso site.
Parece vistoso, mas não é bem assim. Que dizer Assange), o Daily Telegraph recebeu um CD com
da equipa da secção de Ciência do PÚBLICO? Em dois milhões de documentos, incluindo milhares de
três jornalistas, há três licenciaturas: Jornalismo, despesas reclamadas pelos membros do Parlamento
Biologia e Matemática Aplicada. Do ISEG saíram britânico, e começou a investigar. Mais tarde,
vários dos jornalistas que escrevem sobre o Guardian criou uma plataforma no seu site,
Economia. A mais jovem jornalista do PÚBLICO, publicou cópias de todas as despesas e pediu ajuda
que se juntou à equipa do Multimédia há um mês, aos leitores. Em Junho de 2010, metade das 460 mil
fez Belas Artes e agora está a terminar um mestrado despesas tinham sido analisadas por 26.774 leitores
em Jornalismo na Universidade Nova. Na Política, (que as liam e preenchiam um pequeno inquérito).
há Direito e História. Na Cultura, há Filosofia, 170 mil foram analisadas nas primeiras 80 horas.
História de Arte, Literatura. Estamos rodeados de Quase todos os deputados reembolsaram o Estado
especialistas com muitos anos de experiência.
8. O digital fez acelerar o tempo do jornalismo.
As notícias já não ficam à espera dos noticiários
à hora certa, nem da edição impressa dos jornais
do dia seguinte. Vamos sabendo o que se passa à
medida que as coisas acontecem, não depois de
antes de a comissão parlamentar dar início e muitos
não se recandidataram nas eleições seguintes. A
outra escala, há o célebre caso da morte de um
ardina durante uma manifestação anti-G20 em
Londres, em 2009. Com o trabalho de um jornalista,
do Twitter e de milhares de leitores em rede, uma
2009
>>>>>>>>>>>>
terem acontecido. O tempo do jornalismo deixou semana depois foi publicado o vídeo que provou
de ser diferido e tornou-se imediato e contínuo. Ter o crime: o homem passava, calmamente e com as Obama Presidente
rigor neste colete é um dos desafios da era digital, mãos nos bolsos, por entre a multidão quando foi A 20 de Janeiro de 2009, Barack
mas não é sequer um desafio novo na profissão. A brutalmente agredido por um polícia. Obama (04/08/1961) torna-se
agência de notícias France Presse foi fundada em O importante é o jornalismo não perder a sua o primeiro Presidente dos EUA
1835, a Reuters em 1851, a BBC em 1920. essência. O jornalismo é a disciplina da verificação negro, trazendo a esperança de
9. A Internet forçou os jornais a regressarem baseada na obrigação de procurar a verdade. É mudanças, algumas adiadas,
aos textos longos e a escolherem mais o que um trabalho feito para os cidadãos e por isso é um como o fecho de Guantánamo.
publicam nas suas edições finitas — em papel. bem de todos. Este exercício de “back to basics” Internamente, venceu a crise
No digital, as notícias vão sendo melhoradas, tem aplicação universal, do Congo ao Canadá. E económica de 2007-09,
actualizadas e aprofundadas ao longo do dia podemos ir bem mais atrás, 2500 anos antes da era cortando impostos e criando
sem constrangimentos físicos. A cultura do cristã. Desde Heródoto — a quem o genial Ryszard emprego, e apostou nos
“sempre ligado” que marca este tempo fez com Kapuscinski chamou “o primeiro jornalista” — cuidados de saúde universais, no
que as revistas mensais se tornassem semanais, nada de fundamental mudou. Fazemos hoje as controlo de armas e nos direitos
as semanais se tornassem diários e os diários mesmas três coisas que Heródoto fez no século V LGBT. Externamente, manteve
passassem a dar notícias ao minuto. David Carr, do a.C.: procurar informação, verificá-la e dar-lhe um o papel dos EUA na segurança
New York Times, fala na “compressão do jornalismo sentido. Há mais uma coisa: sermos independentes. internacional, aumentou a
literário para dentro da voz do jornalismo diário”. Nisto, Clark Kent, o alter-ego do Super-Homem, presença militar no Afeganistão,
10. O jornalismo deixou de ter medo de decepcionou-me. Há uns anos demitiu-se do seu interveio na Líbia e conseguiu
quantidades maciças de dados. Porque os jornal porque não via futuro na profissão. Só lhe abater Bin Laden. Cumpriu a
engenheiros e os informáticos entraram na perdoo se com o tempo livre salvar o mundo. retirada militar do Iraque, com o
equação, e os leitores também. No início de 2009 “Dantes” o jornalismo não era melhor. Era outra efeito perverso de abrir o terreno
(um ano e meio antes de ouvirmos falar de Julian coisa, noutro tempo. ao Estado Islâmico. S.J.A.

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Terminámos
esta edição de
aniversário numa
escala temporal
reduzida às
últimas 24 horas.
Metaforicamente,
este é o tempo
das notícias e de
outros textos e

PO
informações ligados
à actualidade na
edição em papel de
um jornal. O que
é este tempo das
notícias, essência do
jornalismo, senão
o tempo de ontem?
Do que aconteceu
nas últimas 24
horas (ainda que

DE 24h
a Internet tenha
já transformado o
“ontem” jornalístico
do papel no “há
minutos” do
online). Mas, desta
vez, deixámos as
notícias para o
fim, ao contrário
dos outros dias,
trocando assim as

ON
voltas à sequência
espácio-temporal
convencional
dos jornais
impressos. Em vez
de as fotografias e
textos noticiosos
sobre os últimos
acontecimentos
surgirem em
primeiro lugar

TEM
e estarem
organizados por
secções, tornámos
o templo fluido
e abolimos as
secções habituais.
Pelo menos nestas
últimas 24 horas.
Passos continua sem esclarecer
incumprimentos fiscais
Investigação O primeiro-ministro já assumiu “atrasos” na entrega de declarações de impostos, mas há
outras perguntas por responder. Do PÚBLICO e dos partidos. Por José António Cerejo e Sofia Rodrigues
PEDRO NUNES
Pedro Passos Coelho ainda não res-
pondeu às seis perguntas que o PÚ-
BLICO lhe enviou na segunda e na
terça-feira acerca de várias situações
de incumprimento que terão marca-
do as suas relações com o fisco entre
2003 e 2007. Nas declarações que fez
na terça-feira no Porto, o primeiro-
ministro referiu-se detalhadamente
à primeira questão suscitada pelo
jornal, mas sem o identificar e sem
responder concretamente à pergun-
ta. No entanto, assumiu claramen-
te a existência de problemas no seu
cadastro fiscal, situando-os apenas
na esfera do atraso na entrega das
declarações de impostos.
Em causa, naquela pergunta, es-
tá apenas a confirmação, ou o des-
mentido, de que naquele período
de tempo, que coincide em parte
com os anos em que não pagou as
contribuições devidas à Segurança
Social, foi alvo de cinco processos
de execução fiscal. Passos nada res-
pondeu até agora — como também
não respondeu ao Expresso online,
que ontem o questionou sobre a
mesma matéria —, mas a afirmação
pública de que “muitas vezes” fez
entregas atrasadas ao Estado, que
no contexto do discurso só podem
ser entendidas como declarações
de impostos, parece corresponder
ao reconhecimento de que alguma
coisa não está bem no seu histórico
fiscal.
A polémica sobre este caso tem Pedro Passos Coelho não respondeu ao PÚBLICO, ao Expresso e também não tem respondido aos deputados
uma origem em tudo semelhante
à controvérsia desencadeada em que ocorreram) a várias empresa do Julho de 2004 e Junho de 2006, e re- ele próprio reconheceu que tinha tou fazer aprovar um conjunto de
Março de 2007 a propósito da li- grupo Fomentinvest das quais Pas- ferentes, respectivamente, a valores dívidas à Segurança Social. perguntas sobre a situação de Pas-
cenciatura de José Sócrates. Tudo sos Coelho tinha sido administrador de 2419, 2464 e 781 euros, as mesmas sos Coelho na Segurança Social na
começou então com a divulgação no desde 2004. fontes excluem a hipótese de se tra- Partidos questionam Passos comissão parlamentar de Trabalho
blogue doportugalprofundo, muito No que respeita às relações do tar de atrasos na entrega das decla- Na frente parlamentar, ontem o PS e Segurança Social. Esta fórmula foi
tempo antes, de numerosos dados agora primeiro-ministro com a admi- rações. O mais provável, adiantam, decidiu enviar nove perguntas a Pas- escolhida para que o pedido fosse
sobre a carreira académica do ex- nistração fiscal, o blogue identifica, é que se trate de impostos liquidados sos Coelho sobre a sua situação na mais célere e revestisse uma forma
primeiro-ministro agora detido. Até com o número, a data de instauração pelas Finanças, e não pagos em de- Segurança Social, depois de a maio- mais institucional. O PSD e o CDS
o PÚBLICO ter iniciado a sua própria e de conclusão, e com o montante vido tempo pelo contribuinte, que ria PSD/CDS ter travado a possibi- argumentaram que o procedimento
investigação sobre o caso e ter co- que envolviam, cinco processos de foram para execução fiscal, corres- lidade de ser a própria Assembleia é contrário ao regimento de chum-
meçado a divulgar os seus resulta- execução fiscal de que Passos Coe- pondendo os valores aos impostos da República a pedir esses esclareci- baram o requerimento socialista,
dos, o assunto não existia na esfera lho teria sido alvo. O primeiro desses em falta, mais as custas do processo mentos. As questões foram enviadas depois de um debate aceso.
mediática. processos data de Maio de 2003, re- e os juros de mora. (as do PCP e do BE já tinham segui- Adão e Silva (PSD) classificou a
Desta vez, os dados relativos a ferindo-se presumivelmente ao ano Todos os processo referidos no do), apesar de o primeiro-ministro via escolhida pelo PS como sendo a
eventuais infracções fiscais cometi- fiscal de 2002, e respeita a um mon- blogue terão sido resolvidos, não se ter por responder desde 2012 seis “mais longa e mais tortuosa”, “tíbia”,
das por Passos Coelho foram reve- tante de apenas 101 euros. sabe se com penhoras ou com paga- perguntas enviadas por várias ban- tendo como único objectivo “o espec-
ladas, já em Maio de 2011, pelo blo- Fontes das Finanças ouvidas pelo mentos, até Novembro de 2007. cadas. Nos corredores da maioria, táculo” da presença da comunicação
gue O Verdadeiro Lápis Azul (ver- PÚBLICO exprimem grandes dúvidas O PÚBLICO enviou ao gabinete no Parlamento, é indisfarçável o in- social. Nuno Sá (PS) contrapôs que a
dadeirolapisazul.blogspot.com/). sobre a possibilidade de esse proces- de Passos Coelho, logo na segunda- cómodo perante o caso. Os centris- via do requerimento directo ao pri-
Lá se encontram desde então, sem so, tal como um outro, iniciado em feira, todos os dados relativos a cada tas esperam para ver o desenrolar meiro-ministro não oferece garantias
nada mais ter sido acrescentado e Outubro de 2007 e de idêntico valor, um destes processos, procurando dos acontecimentos e lembram que de resposta, alegando que Passos Co-
sem que o assunto tenha ganho re- se relacionar com atrasos na entrega saber se o primeiro-ministro confir- já se iniciaram conversações sobre elho, desde 2012, tem por responder
levo público, diversos dados sobre a das declarações de IRS. As coimas ma ou desmente que eles lhe dizem coligação. Os sociais-democratas não seis perguntas formais dos deputa-
carreira fiscal do então candidato a então aplicadas por essa infracção, respeito. Conforme foi explicado por escondem que, nos primeiros dias, dos. Os temas vão desde o acordo or-
primeiro-ministro. Lá se encontram garantem, eram muito inferiores e escrito, os dados eram conhecidos houve uma má gestão de comunica- tográfico às secretas, passando pela
também diversas informações sobre normalmente os processos não se- pelo PÚBLICO há algum tempo, mas ção perante a notícia do PÚBLICO participação de membros do Gover-
multas e coimas aplicadas pelas au- guiam para execução fiscal. até agora não lhe tinha sido atribuída que dava conta de dívidas à Segu- no na pré-campanha autárquica, as
toridades ambientais e pelos tribu- Já os processo referidos como ten- credibilidade suficiente para ques- rança Social. despesas dos gabinetes ministeriais
nais (alguma noticiadas na altura em do tido início em Fevereiro de 2004, tionar o primeiro-ministro. Até que Ontem, a bancada socialista ten- ou o Instituto do Território.
Sair de S. Patrões dos media e CMVM
Bento é uma
“pequena concordam com divulgação
revolução” de dados financeiros 2010
>>>>>>>>>>>>
sem qualquer tipo de reservas. Mais cários, empréstimos e facturação de
Parlamento Pela primeira Comunicação social transparência é igual a mais compro- publicidade, mas prefere pronunciar- Primavera Árabe
vez em democracia, a Empresas privadas misso com a sociedade e mais cre- -se quando a proposta estiver concre- A 18 de Dezembro de 2010,
conferência de líderes estão abertas a revelar dibilidade”, resumiu Luís Nazaré, tizada com essas questões. Nazaré em protesto contra a acção
director executivo da plataforma. também disse que a plataforma não da polícia, o jovem Mohamed
aconteceu fora da toda a informação de Tem apenas uma “reserva técnica” considera que haja excesso de con- Bouazizi auto-imola-se numa
Assembleia da República dependência económica sobre a regra da identificação de toda centração no sector dos media. praça da Tunísia, dando
a cadeia da propriedade, defenden- O presidente da CMVM foi mais origem a manifestações que
A conferência de líderes reuniu-se A Plataforma dos Media Privados, do prazos mais alargados e maior longe, sugerindo que “se alinhe pelo levam à queda do presidente
ontem, pela primeira vez, fora do que representa os cinco maiores flexibilidade. “As empresas não têm regime mais exigente”. O responsável Ben Ali, e abrem as portas à
edifício do Parlamento desde o 25 grupos do sector, e a CMVM — Co- vocação investigatória sobre parti- defendeu ser importante que sejam democratização em curso na
de Abril, deslocando-se para Loures, missão do Mercado de Valores Mobi- cipações complexas”, argumentou. reveladas situações de conflito das Tunísia. A revolução da Tunísia
num momento que a presidente da liários concordam com a divulgação Pedro Delgado Alves, do PS, mos- empresas, jornalistas, comentado- desencadeia a denominada
Assembleia da República classificou pública de toda a estrutura accionista trou-se disponível para “recuar um res e analistas, por exemplo, sobre Primavera Árabe, usando a
como uma “revolução”. Até porque das empresas de comunicação social, pouco” na proposta, prevendo que as carteiras de títulos que possuem, referência da Primavera dos
esta descentralização aconteceu num como propõe o PS e vêem com bons a identificação seja feita até onde for assim como dos “grandes clientes, Povos europeia de 1848. O
lugar simbólico: o Palácio da Mitra, olhos que até a informação sobre o “tecnicamente possível”. grandes anunciantes e grandes finan- promissor exemplo da Tunísia
onde há 100 anos os deputados se seu financiamento seja do conheci- A plataforma também “não vê, ciadores” das empresas. Toda a infor- não se repetiu na Argélia,
reuniram para pôr fim à ditadura de mento geral. à partida, qualquer dificuldade em mação sobre “dependência económi- Jordânia, Egipto, Iémen e Líbia,
Pimenta de Castro. “Nós [media privados] somos cla- prestar informações acerca dos fi- ca” deve ser de “transparência para o apesar da queda de Mubarak e da
A reunião costuma juntar à mes- ramente a favor da transparência, nanciamentos”, como créditos ban- público”, acrescentou. Maria Lopes morte de Khadafi. S.J.A.
ma mesa, a cada 15 dias, os líderes
parlamentares, os vice-presidentes
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da Assembleia da República e repre-
sentantes do Governo para fazer os
agendamentos dos plenários. Desta
vez, numa sala do Palácio da Mitra,
em Santo Antão do Tojal, com vista
para um laranjal (e não para a resi- Linha de Crédito Empresas Líder
dência oficial do primeiro-ministro),
juntou-se o presidente da Câmara
Municipal de Loures, Bernardino
Soares, ex-líder parlamentar do PCP
Condições de sucesso
que participou nas reuniões durante
12 anos. “Cada acção nova é sempre
uma revolução e hoje nós fizemos
para Empresas Líder.
uma pequena revolução”, disse As-
sunção Esteves, no momento inicial
e aberto da reunião.
“A descentralização é de certo mo-
do um marco e um sinal de novas O banco Popular quer investir na sua Empresa.
metodologias na política. Os esco-
lhidos e os que escolheram sentiram-
se mais próximos”, disse Assunção Spreads a partir de 1,5%* associados
Esteves, depois de ter visitado a Ca- a proximidade e rapidez de decisão.
sa do Gaiato, que se situa próxima
do Palácio da Mitra. Nesta reunião * Linha de crédito destinada a clientes novos do
descentralizada, Bernardino Soares banco Popular, com estatuto PME Líder atribuído
aludiu ao centenário do Parlamento em 2014 ou que reúnam critérios equiparados.
do Tojal quando os deputados ali se Aprovação e condições de crédito, sujeitas a prévia
juntaram — já que a Assembleia esta- análise de risco pelo banco Popular.
va cercada por tropas leais à ditadura
TAE: 2,941%, calculada com base numa TAN de
— e aprovaram leis para contrariar o 1,652% (Média das Euribor a 6 meses em janeiro de
regime imposto. 2015 e spread de 1,5%), para um crédito em regime
O antigo líder da bancada do PCP de locação financeira mobiliária no valor de
falou da “ressonância da actuali- € 30.000,00 com entrada inicial de 20% para
dade” do acontecimento histórico, aquisição de equipamento mobiliário, pelo prazo de
recordando que naquele palácio se 4 anos. Inclui comissões iniciais de gestão,
preparação de dossiê (€ 205,00), estudo de operação
disse que “a república vingará, a li- (€ 80,00) e comissão de processamento mensal de
berdade triunfará e a legalidade há- € 1,50 durante a vigência do contrato. O valor residual
de voltar a imperar em Portugal”. considerado é de € 1,00. Crédito sujeito a aprovação.
“Nada que não tenha sido dito nos
últimos anos por outras palavras na
Assembleia da República”, afirmou,
com um sorriso. Informe-se numa
No mesmo momento histórico, re- agência do Popular
cordou, “defendia-se a Constituição bancopopular.pt
contra leis injustas e os princípios
que violavam essa mesma Constitui- 808 20 16 16
ção”. “Não faltará actualidade, na mi- Dias úteis das 9h às 21h

nha opinião, a estas intervenções.” A


declaração foi recebida com alguns
sorrisos. Sofia Rodrigues
MIGUEL MANSO

Programa do PS
vai a votos antes
das legislativas
Definindo os “impactos e resultados
Partidos Direcção esperados” e uma data para a sua
socialista vai apresentar aplicação.
“alternativas” em algumas A clarificação é outro dos objecti-
vos. Será feito através da opção por
áreas para que a opção uma “linguagem clara e acessível ao
seja feita pelos cidadãos cidadãos” e ainda através da compa-
ração com as medidas que o “PSD/
Não será na totalidade, mas apenas CDS concretizou no Governo”.
em relação a propostas onde exis- Para que os cidadãos saibam quais
tam “dúvidas”. Uma parte do pro- são as diferenças, o Programa Eleito-
grama socialista será referendada ral do PS vai identificar, em lingua-
pelos simpatizantes do PS. É uma gem clara e acessível aos cidadãos,
das novidades que o PS tenciona in- quais as diferenças entre as suas
troduzir no processo de preparação propostas e as medidas que o PSD/
do seu programa eleitoral para as CDS concretizou no Governo.
eleições legislativas deste ano. O Gabinete de Estudos do PS foi
João Tiago Silveira, director do recuperado pela actual direcção so-
Gabinete de Estudos que coordena cialista para coordenar as propostas
o programa, anunciou-o há dias de- com que o PS tenciona ir a votos.
pois do Encontro Nacional realizado Silveira explicou ao PÚBLICO que
As propostas que serão votadas amanhã actualizam a definição de terrorismo em Santarém. “Vamos lançar as ba- essa estrutura ficou encarregada
ses de um programa eleitoral parti- de juntar o conjunto de contribu-

Vigilância aos sites jihadistas cipativo, seguindo os bons exemplos


dos orçamentos participativos de
alguns municípios”, escreveu no jor-
tos que se pretendem vir das mais
variadas fontes.
Desde logo aprofundar as linhas

idêntica aos de pedofilia nal partidário Acção Socialista.


Ao PÚBLICO, o ex-secretário de
Estado da Justiça e antigo porta-voz
mestras definidas na Agenda para
a Década com que António Costa
se apresentou na disputa interna

e abuso de menores do partido confirmou que o PS está


aberto e já começou a “aceitar várias
propostas concretas de qualquer
contra António José Seguro, nas
primárias de Setembro. Esse esfor-
ço implicará a divisão do programa
cidadão”. Depois de “apreciadas e por áreas temáticas já identificadas
verificadas” para aferir da sua con- nesse documento. A somar às con-
dades e garantias. Pelo que votam tação de um projecto de resolução formidade com os princípios do PS, tribuições individuais que venham
Terrorismo PS apoia caso a caso e não na globalidade. para a reintegração da disciplina de a direcção socialista tenciona levar a dos cidadãos, existe também a in-
propostas na generalidade Tudo depende, agora, do trabalho Educação para a Cidadania nos en- votos “várias alternativas” políticas tenção de compilar as propostas
e Governo admite negociar em comissão e das garantias que o sinos básico e secundário. que “suscitem dúvidas”. do LIPP — Laboratório de Ideias e
executivo venha a dar sobre estas Dos pareceres obrigatórios, o Par- O programa não será, portanto, Propostas para Portugal, estrutura
para conseguir o maior questões. No debate de ontem, as lamento ainda não recebera ontem levado a votos na sua totalidade, criada pela anterior direcção de An-
consenso possível críticas de comunistas e bloquistas às os do Conselho Superior de Magis- mas apenas em “algumas áreas se- tónio José Seguro e agora substituída
alterações da lei de estrangeiros con- tratura e da Ordem dos Advogados. leccionadas”. As alternativas mais pelo Gabinete de Estudos.
A vigilância aos sites jihadistas se- sideradas como demasiado “abertas Indispensáveis, argumentou o depu- votadas serão, depois disso, incluí- Quando o regulamento do Gabine-
guirá o mesmo modus operandi em- e discricionárias” não tiveram res- tado comunista António Filipe. das no programa. te foi aprovado na Comissão Política
pregue nas actuais investigações aos posta do executivo. Apesar das propostas de nova le- A decisão resulta do objectivo de do PS, a 29 de Janeiro, João Tiago
crimes de pedofilia e abuso de meno- “O combate ao terrorismo é um gislação, quer a titular da Justiça, preparar “um programa com mais Silveira definiu como mandato “ir
res, afirmou ontem, na Assembleia tema transversal, tão consensual quer a ministra da Administração compromisso e mais responsável”. à raiz das coisas”, significando isso
da República, a ministra da Justiça. quanto for possível, o Governo está Interna, Anabela Rodrigues, assumi- É nesse sentido que o PS assume a “qualificação dos portugueses, o
Paula Teixeira da Cruz participava no disponível para, em sede de espe- ram uma posição cautelosa e peda- também a intenção de calendarizar aproveitamento dos nossos recursos
debate parlamentar sobre o pacote cialidade, acolher alterações”, disse gógica. “Ninguém pode garantir que as “medidas concretas” que vier a e a competitividade das nossas em-
antiterrorismo, no qual o Governo Paula Teixeira da Cruz na sua inter- não acontece nada”, disse Paula Tei- incluir no seu programa eleitoral. presas”. Nuno Sá Lourenço
e a maioria manifestaram a sua in- venção inicial. No mesmo tom con- xeira da Cruz referindo-se à impre- JOSÉ SARMENTO MATOS
tenção de favorecerem um consenso ciliador, a ministra da Justiça revelou visibilidade das acções terroristas.
alargado. que a legislação de política criminal “Os meios, na luta do antiterrorismo
“Não há especificidade. A investi- será apresentada em breve no Par- nunca são suficientes”, afirmou, por
gação aos sites será idêntica à seguida lamento. seu lado, a responsável do Ministério
nos crimes de pedofilia e abuso de O objectivo deste último anúncio da Administração Interna.
menores”, disse a titular da Justiça, era esvaziar as críticas do PS que nas As propostas governamentais que
respondendo aos reparos do PCP, últimas semanas tem destacado a serão votadas amanhã actualizam a
Bloco de Esquerda e Os Verdes. falta da legislação complementar à definição de terrorismo, fixam novos
Deste modo, Paula Teixeira da Cruz lei-quadro de política criminal. Leis critérios para a concessão da nacio-
pretendeu retirar a carga negativa e que, como recordou o deputado nalidade por naturalização, desde
discricionária com que comunistas e socialista Jorge Lacão, têm perioci- que não esteja em causa a segurança
bloquistas encaravam estas medidas dade bianual e que estão em falta nacional, e estabelecem o regime ju-
concretas. desde 2011, ou seja, desde a entra- rídico das acções encobertas na in-
Como o PÚBLICO revelou, a vigi- da em funções do actual executivo vestigação. Deste pacote constam,
lância aos sites de apologia do terro- PSD-CDS/PP. ainda, novas medidas quanto ao fi-
rismo jihadista e a criminalização das O PS também lamenta a não actua- nanciamento, a criminalização da
viagens a territórios em conflito com lização do regime de requisição civil apologia pública do terrorismo e as
o propósito de participar em actos mas, apesar dos reparos, manifestou deslocações para territórios com o
terroristas era o núcleo fulcral para o apoio ao pacote em nome do con- objectivo de praticar actos terroris-
que PCP e BE se tenham decidido pe- senso e da unidade no combate ao tas. Por fim, determina nova conces-
lo voto diferenciado às propostas de terrorismo. Neste âmbito, os socia- são de vistos e um novo regime de
lei governamentais. Em causa estaria listas destacaram a importância da expulsão para estrangeiros. Nuno
a possível violação de direitos, liber- pedagogia e anunciaram a apresen- Ribeiro O PS vai abrir-se aos cidadãos na definição de propostas
‘Não vamos culpá-lo por estar vivo’, diz
juiz que não levou dux a julgamento
Caso Meco “Eram todos adultos, estavam lá porque queriam”, resumiu na leitura da decisão instrutória
o juiz Nélson Escórcio. Famílias vão recorrer para o Tribunal da Relação de Évora. Por Ana Henriques
JOÃO SILVA
O Tribunal de Setúbal decidiu não
levar a julgamento o único sobrevi-
vente da tragédia do Meco, o argui-
do João Gouveia. “Eram todos adul-
tos, estavam lá porque gostavam da
praxe e porque queriam”, resumiu
o juiz Nelson Escórcio quando expli-
cou os porquês da sua decisão sobre
o afogamento dos seis estudantes da
Universidade Lusófona na praia, em
Dezembro de 2013. “Há uma sétima
vítima neste caso, que é o arguido”,
declarou ainda. “Não vamos culpá-
lo por estar vivo”.
Inconformadas, as famílias das ví-
timas mortais vão recorrer para o
Tribunal da Relação de Évora, numa
derradeira tentativa de ainda levar
o caso a julgamento. Depois disso
resta-lhes apenas uma queixa contra
o Estado português junto do Tribu-
nal Europeu dos Direitos Humanos,
hipótese que também não descar-
tam. O magistrado aconselhou-as
a “olhar objectivamente” para os
dados que constam do processo ju-
dicial, pois só assim poderão “acei-
tar a realidade”, por muito dolorosa
que lhes seja.
“Queremos a verdade ou uma
realidade que nos permita melhor
aceitar o sucedido?”, interroga, num
despacho em que alude tanto à sua
experiência pessoal como à sabedo-
ria popular para justificar a opção
de não levar o ex-dux a julgamento.
Chega a contar que também ele foi
praxado com a chamada “comida de Inconformadas com a decisão do juiz, as famílias dos jovens que morreram na praia do Meco vão recorrer para a Relação de Évora
gato”, um paté que já na sua altura
não era, apesar da designação e da
correspondente lata em que vinha “Afirmam que mente ao seu ascendente sobre os
colegas. Aqui, porém, o magistrado
derá explicar por que razão se sal-
vou. Os depoimentos dos médicos
neste processo? Claro que sim, re-
conhece o magistrado: “Podemos
servido, verdadeira ração para fe-
linos. os nossos a quem coube analisar o caso não é
taxativo: se por um lado esse ascen-
que assistiram João Gouveia, que se
apresentava encharcado e em esta-
continuar a cavar, à procura, sem
nada de concreto”. Mas seria inútil,
Para o tribunal não há, ao con- dente era “apenas o que resultava do de hipotermia, contribuíram pa- observa.
trário do que defendem os pais dos filhos estavam da comissão de praxe”, por outro ra consolidar a ideia do tribunal de Já a investigação à morte dos seis
jovens, indícios de que João Gouveia não se considerou indiciado que que a sua versão dos factos corres- estudantes tinha terminado com um
tenha “sujeitado, pelo menos cons- lá porque “mantivesse sobre os colegas um ponderá à realidade. E se o teor de despacho de arquivamento, onde se
cientemente, os colegas falecidos a qualquer efectivo dever de guarda, algumas das mensagens de telemó- constatava “a total inexistência de
um perigo que não pudessem eles queriam? vigilância ou assistência”. Mas é pre- vel demonstram, aos olhos dos pais indícios da prática de qualquer cri-
próprios avaliar e evitar”, confor- cisamente a consciência que tinha das vítimas, uma submissão quase me”. Foram os pais que forçaram a
me está estipulado na lei para que
alguém possa ser incriminado por
Então a nossa do “papel de liderança e responsa-
bilidade que assumia” naquele fim-
inadmissível dos filhos ao seu su-
perior hierárquico na comissão de
reabertura do processo, que passou
então do Tribunal de Almada para
exposição ao perigo.
“O mar mata todos os anos e todos
sociedade não de-semana de Inverno que poderá,
no entender do tribunal, justificar o
praxe, aos olhos da justiça mostram
antes “um manifesto divertimento
o Tribunal de Setúbal. “Enquanto
não tivermos respostas não vamos
os dias”, salienta Nelson Escórcio,
que chama a atenção para o facto de
protege as facto de se ter recusado a conversar
com os pais dos colegas sobre o que
na sujeição a práticas de praxe que
individualizadamente se terão por
desistir”, garantiam ontem à saída
da sala de audiências, depois de co-
os jovens terem sido “pouco preca-
vidos” na sua ida à praia, um com-
mulheres que se passou – à excepção de uma mãe
com a qual chegou a encontrar-se, e
desagradáveis e até incompreensí-
veis”. A comprová-lo estão os LOL e
nhecerem a decisão de não pronún-
cia de João Gouveia.
portamento de resto próprio da sua
idade. Como próprio da sua idade
levam enxertos que não duvida de que tudo tenha
sido um acidente. “Poderá qualquer
os smiles com que vários desses sms
terminam. “A sensação de pertença
“Só me faltam duas ou três peças
do puzzle para desmontar isto tu-
terá sido também o consumo de be-
bidas: “Um fim-de-semana sem álco-
de pancada dos um de nós acreditar honestamente
que, no seu lugar, com a sua idade,
a um grupo fechado, unido, com um
propósito definido era-lhes manifes-
do”, dizia uma das mães, Fernanda
Cristóvão. “Afirmam que os nossos
ol seria até contra a prática comum
– já era assim no meu tempo, há 30 maridos?” teria comportamento distinto?”,
interroga Nelson Escórcio, para
tamente apelativa”, escreve Nelson
Escórcio, que recorre a um provér-
filhos estavam lá porque queriam?
Então a nossa sociedade não prote-
anos atrás”. Se João Gouveia conven- quem todo este processo terá “um bio popular: “Quem corre por gosto ge as mulheres que levam enxertos
ceu os outros a beber, mantendo-se impacto profundamente negativo e não cansa”. de pancada dos maridos? Não dizem
sóbrio, é coisa que não ficou deter- traumatizante no jovem”. Se poderiam ter sido feitas mais que ficam em casa com eles porque
minada – tal como sucedeu relativa- O facto de praticar bodyboard po- perícias e ouvidas mais testemunhas querem, pois não?”.
Director e responsável
da Segurança Social 2011
<<<<<<<<<<<<
Breve detidos por corrupção Acidente de Fukushima
A 11 de Março de 2011, um
terramoto seguido de marmoto
de de, ao longo do dia de ontem, o cionários concediam a empresas suspende o mundo. A catástrofe
Educação para os media Justiça Acção em Lisboa número de detidos poder aumentar, tratamento de favor relativamente natural provoca um inédito
PÚBLICO na Escola no contou com 70 buscas e assim como o de suspeitos que pode-
rão ser apenas constituídos arguidos.
às respectivas contribuições para a
Segurança Social e emitiam certidões
acidente na Central Nuclear de
Fukushima, no Japão, que sofreu
encontro sobre boas cinco detidos, entre eles um
advogado e dois técnicos
Até ao fecho desta edição, porém, o que atestavam falsamente a respecti- danos em três dos seis reactores.
práticas de literacias oficiais de contas
número de detidos não registou al-
terações. Deverão ser inquiridos no
va regularidade contributiva”, escla-
receu a Judiciária num comunicado
A dimensão da catástrofe foi
imensa e tornou Fukushima
O PÚBLICO na Escola, que Tribunal de Instrução Criminal de enviado na tarde de ontem. comparável ao acidente
é a mais antiga iniciativa Um director, que tutela a área da do- Lisboa na tarde de hoje. O Instituto da Segurança Social sa- nuclear de Tchernobil, na União
de educação para os cumentação, e um outro responsável Estão em causa crimes de corrup- lientou ontem que tem reforçado “a Soviética, em Abril de 1986. As
media no país, participará do Centro Distrital da Segurança So- ção passiva e corrupção activa para colaboração com todas as entidades consequências da contaminação
no encontro sobre boas cial de Lisboa foram ontem detidos acto ilícito e de falsificação de docu- competentes na prevenção e com- radioactiva na zona deverão
práticas de literacias e por corrupção pela PJ numa opera- mentos investigados pela 9.ª secção bate à corrupção”. A operação teve fazer-se sentir por décadas.
pensamento crítico, a ção em larga escala levada a cabo na do DIAP de Lisboa, uma secção cujos como alvo várias empresas privadas A questão da segurança das
decorrer em Braga, amanhã Grande Lisboa pela Unidade Nacio- magistrados têm vasta experiência e pessoas com responsabilidade na centrais nucleares voltou a
e sábado, e promovido nal de Combate à Corrupção. na investigação de casos de corrup- administração pública. Ao final da colocar-se. De tal forma que
pela Rede de Bibliotecas Três outras pessoas, entre os 41 e ção. As empresas alvo deste inquérito tarde de ontem, os inspectores da PJ o Governo alemão decidiu
Escolares. O programa os 57 anos, foram detidas. Entre elas pediam certidões que atestavam não ainda estavam no terreno a desenvol- fechar a prazo as que existem na
inclui comunicações está um advogado e dois técnicos ofi- terem dívidas perante a Segurança ver buscas — algumas delas em Vila Alemanha. S.J.A.
sobre os programas para o ciais de contas, confirmou fonte da Social, imprescindíveis para estarem Franca de Xira — em empresas, escri-
desenvolvimento da literacia e PJ. Os responsáveis da Segurança em condições de se candidatarem a tórios, casas, garagens e viaturas.
de sensibilização de crianças Social são suspeitos de vender de- fundos e a concursos públicos. Na acção policial, durante a qual
para a filosofia. Também clarações a dezenas de empresas em O advogado e os técnicos oficiais foram apreendidas dezenas de do-
participarão Pacheco Pereira, dificuldades e com dívidas à Segu- de contas serviriam como interme- cumentos que poderão vir a ser im-
Manuela Silva, coordenadora rança Social. Além destes detidos, a diários entre as empresas e os fun- portantes como prova dos crimes,
nacional da Rede de acção, designada Operação Areeiro, cionários da Segurança Social. Estes estiveram envolvidas cerca de 80
Bibliotecas Escolares, e Teresa teria como alvo outros funcionários receberiam em troca montantes por pessoas, entre procuradores e ins-
Calçada, ex-coordenadora. da Segurança Social. cada certidão emitida. “Mediante pectores da Judiciária. Pedro Sales
Fonte da PJ adiantou a possibilida- contrapartidas financeiras, os fun- Dias e Mariana Oliveira

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JOÃO SILVA

Finanças penhoram
alimentos a IPSS que apoia
famílias carenciadas
ais e juros decorrentes dos valores
Dívidas Horas depois atrasados. “Isto é uma situação que
não termina”, insurge-se.
de o caso ter sido noticiado,
A Associação Portuguesa para a
o Serviço de Finanças Defesa do Consumidor e a Associa-
do Porto suspendeu ção Portuguesa de Direito do Con-
a ordem de penhora sumo têm-se insurgido contra este
sistema. Cada pórtico instalado nas
A presidente de O Coração da Cida- Scut corresponde a um processo
de, La Sallette Santos, até achava que de cobrança coerciva, pelo que a
estava perante “uma caricatura do mesma viagem pode dar origem a
país”: a autoridade tributária deci- diversos processos. Num processo
diu penhorar alimentos doados por de contra-ordenação com uma taxa
hipermercados para a instituição não paga de 0,45 euros, por exem-
particular de solidariedade social plo, a coima mínima é de 25 euros.
distribuir a pessoas carenciadas do Com taxas administrativas, custas
Porto. Ontem, depois de ser noticia- processuais e juros de mora, pode
do o caso, o Serviço de Finanças do acabar por ultrapassar os 100 euros.
Porto suspendeu a ordem. “Não pago”, enfatiza Sallete San-
O Coração da Cidade tem quatro tos. “Somos uma associação de vo-
Parque Natural do Vale do Guadiana irá acolher oito a dez linces até ao final do ano carrinhas a circular na Área Metropo- luntários. Não temos dinheiro. Não
litana do Porto, numa permanente re- temos apoio [do Estado]”, prosse-
colha de bens, amiúde perecíveis. No gue. Funcionam com donativos.

Loro e Liberdade são seu dia-a-dia, esta IPSS distribui cer-


ca de 2500 quilos de alimentos por
cerca de “600 famílias”, o que repre-
A semana passada, receberam
uma notificação da autoridade tri-
butária. Valendo-se de três guias de

o terceiro casal de linces senta “entre 2200 e 2300 pessoas”.


Em 2010, o Governo de Sócrates
decidiu introduzir portagens nas vias
transporte de alimentos doados por
hipermercados, emitiu uma ordem
de penhora. Sallete Santos nem que-

a morar no Alentejo sem custos para o utilizador (Scut)


que atravessassem zonas com estra-
das alternativas capazes e servissem
ria acreditar. “Isto não se faz”, diz.
“Penhorar alimentos doados a quem
tem fome? Isto é a caricatura de um
concelhos com produto interno bru- país”. Numa alusão às notícias avan-
to acima dos 90% da média nacional. çadas pelo PÚBLICO que dão conta
votação aberta às escolas e juntas ICNF, uma “adaptação positiva com Quem não aderiu à Via Verde tem de dívidas de Passos Coelho à Segu-
Natureza Já há quatro de freguesia da zona. “Ambos os comportamentos normais e captura até cinco dias úteis para pagar a taxa. rança Social, a dirigente associativa
linces-ibéricos a viver em animais serão libertados seguindo de coelhos-bravos”, que constituem Se não o faz, recebe uma notificação comenta: “Ele não sabia que tinha de
liberdade em território o processo de solta branda [num cerca de 90% da alimentação dos para regularizar a situação. Se insistir pagar, eu também não. Eu paguei,
terreno de dois hectares] para po- felinos. Todos os linces estão a ser na falta, enfrenta coimas e processos embora com atraso. A dívida dele
português. Para já, tenciar a adaptação e fixação, tal seguidos pelos técnicos do instituto de execução fiscal. Foi uma atrapa- prescreveu, a nossa também pode
parecem estar a adaptar-se como aconteceu com os animais e monitorizados através de coleiras lhação n’O Coração da Cidade. “Ía- prescrever, não?”
anteriores”, escreve o Instituto de com GPS, que permitem conhecer mos à payshop pagar as portagens e Ontem, depois de conhecido o ca-
Podia chamar-se Lua, Lusíada, Len- Conservação da Natureza e Flores- as suas movimentações. Assim se não constavam, tornávamos a ir e já so, os serviços recuaram. “De acor-
tilha ou mesmo Limão. Entre qua- tas (ICNF) num comunicado. percebeu, por exemplo, que os dois não constavam”, justifica La Sallete do com a informação prestada pela
se 40 nomes possíveis, a população O plano de reintrodução da es- machos se encontraram há alguns Santos. Nos 2010, 2011 e 2012, fica- Autoridade Tributária, o Serviço de
de Mértola escolheu Liberdade pa- pécie em Portugal, que está a ser dias mas não entraram em confron- ram a dever inúmeras portagens às Finanças do Porto determinou hoje
ra baptizar a fêmea de lince-ibérico desenvolvido em parceria com Es- to. concessionárias das ex-Scut. Quando o levantamento da referida penhora
(Lynx pardinus) que chegou ontem panha, definiu a zona do Parque Uma das principais preocupações foram a ver, a dívida ascendia a cerca realizada nos termos da lei”, infor-
ao cercado alentejano, acompanha- Natural do Vale do Guadiana para dos técnicos é o risco de atropela- de 2200 euros. mou a tutela à Lusa. Fê-lo “após ter
da pelo macho Loro. Juntos formam a libertação de oito a dez linces até mento, principal causa de morte Foi acordado um plano de paga- confirmado com a respectiva asso-
o terceiro casal a ser solto na Natu- ao final do ano. O objectivo é criar dos linces ibéricos que já foram li- mento das portagens em dívida. “Pa- ciação que a mercadoria em causa
reza e em breve vão juntar-se aos condições para o regresso do felino bertados em Espanha. Segundo a gámos tudo”, afiança. A dívida ago- se destina à realização do fim de uti-
quatro linces que já estão em liber- mais ameaçado do mundo, ainda imprensa espanhola, que cita fontes ra em causa, “cerca de 4800 euros”, lidade pública que aquela entidade
dade total. em risco crítico de extinção, ao ter- do projecto Iberlince, só este ano já concerne a coimas, custas processu- prossegue”. Ana Cristina Pereira
Começa agora o terceiro capítulo ritório português. morreram quatro animais, dos quais FERNANDO VELUDO / NFACTOS
de uma história que começou a ser pelo menos dois foram atropelados.
escrita em Dezembro, com a primei- Tudo a correr bem Nas estradas alentejanas foram co-
ra soltura branda (numa área con- Segundo o director do departa- locados novos sinais de trânsito a
finada) em Portugal de um casal de mento do ICNF no Alentejo, Pedro avisar da presença de linces.
linces-ibéricos criados em cativeiro. Rocha, até agora está tudo a correr Este mês de Março marca também
Jacarandá e Katmandú deixaram o bem com os linces já soltos. Jacaran- o início da temporada de partos e no
cercado no início de Fevereiro, dei- dá e Katmandú, os pioneiros, andam Centro Nacional de Reprodução do
xando o lugar vago para o segundo por São João dos Caldeireiros, uma Lince-Ibérico em Silves já há crias.
casal, Kempo e Kayakwero. Estes freguesia do concelho de Mértola. A No dia 1 e numa hora apenas, a fê-
seguiram-lhes o rasto na semana fêmea fixou-se numa área com “ele- mea Biznaga, que tinha sido empa-
passada, quando foram novamen- vada densidade de coelho-bravo” e relhada com Drago, pariu três crias.
te abertas as portas. Katmandú, “apesar de ter circulado Duas horas após o parto, Biznaga
Ontem chegou Loro, macho bastante, tem centralizado a sua acti- mudou de toca levando apenas
oriundo do centro de reprodução vidade na área circundante ao cerca- dois filhos, obrigando os técnicos
em cativeiro El Acebuche (Espanha), do de solta branda”, diz o ICNF. do centro a intervir e a manter numa
nascido no ano passado, e Liberda- O segundo casal, que estava no incubadora a terceira cria. Esta foi
de, filha de Artemisa e de Fresco, cercado desde 7 de Fevereiro, foi depois deixada novamente perto da
nascida no centro de Silves a 18 de solto na semana passada. O ma- toca da mãe, que lhe reconheceu o
Março de 2014. cho espanhol Kempo e a fêmea lu- choro e a levou para junto das ou-
O nome da fêmea resultou de uma sa Kayakwero tiveram, segundo o tras. Marisa Soares O Coração da Cidade distribui bens alimentares a 600 famílias
Pentágono estima que estejam 12 mil
soldados russos no Leste da Ucrânia
Conflito separatista Em Janeiro, Kiev apontava para 8500 soldados russos ao lado dos rebeldes. Número
um das Forças Armadas dos EUA defende envio de armamento para a Ucrânia. Por João Ruela Ribeiro
BAZ RATNER/REUTERS
O Pentágono estima que cerca de
12 mil soldados russos estejam a
apoiar as forças rebeldes no Leste
da Ucrânia. A pressão para fornecer
armamento ao Exército ucraniano
aumenta nos Estados Unidos, mas a
solução diplomática continua a ser
privilegiada.
Foi em Berlim que o comandante
do Exército norte-americano para a
Europa, Ben Hodges, revelou a mais
recente contabilização de soldados
regulares russos presentes no terri-
tório ucraniano. O contingente de
12 mil homens reparte-se entre con-
selheiros militares, operadores de
artilharia e tropas de combate, pre-
cisou Hodges, citado pela Reuters.
Segundo Ian Brzezinski, que edita o
think tank Atlantic Council, trata-se
de um aumento de três mil soldados
em relação a Dezembro.
Na Crimeia — anexada pela Rússia
há cerca de um ano — estão estacio-
nados 29 mil soldados russos. E há
ainda uma força de 50 mil homens a
postos ao longo da fronteira ucrania-
na disponível para reforçar as fileiras
rebeldes.
O número dado pelo Pentágono é
uma das estimativas mais elevadas
sobre o número de soldados russos
no terreno. Em Janeiro, o Conselho
de Segurança e Defesa Nacional do
Governo ucraniano apontava para
cerca de 8500 efectivos russos — nu-
ma altura em que os combates atingi-
ram um novo pico de violência. Perante as notícias da morte de soldados do Exército russo na Ucrânia, o Kremlin apenas disse tratar-se de “voluntários”
Um antigo conselheiro do Pentá-
gono, Phillip Karber, que trabalhou série de provas documentais sobre na Ucrânia, o Kremlin apenas disse é fracturar a NATO.” Esta foi a pri-
com o Governo de Kiev, disse em No- Boris Nemtsov, o envolvimento de tropas russas no tratar-se de “voluntários” que res- meira vez que Dempsey se pronun-
vembro ao Daily Beast que estimava conflito ucraniano, que activistas do ponderam ao apelo de defender os ciou sobre o tema, juntando-se ao
que a Rússia tivesse na altura cerca o opositor russo seu círculo próximo querem agora interesses russos no país vizinho. Se- novo secretário de Estado da Defesa,
de sete mil homens na Ucrânia. Em recuperar e trazer a público. gundo a organização Rússia Aberta, Ashton Carter.
Agosto, a NATO alertava para a pre-
sença de mil soldados russos, que se
assassinado Foi durante a anexação da Cri-
meia que as primeiras tropas russas
liderada pelo opositor Mikhail Kho-
dorkovski, mais de 260 russos mor-
Apesar dos apoios que a tese do
armamento tem recolhido, Barack
dividiam em “incursões” no territó-
rio. Foi também por essa altura que
na semana foram vistas em território ucraniano,
depois de, em poucos dias, coman-
reram durante o conflito. Obama tem-se mostrado resisten-
te a esta ideia, embora não a tenha
a Aliança Atlântica disponibilizou
imagens de satélite em que era pos-
passada, estaria dos especiais tomarem de assalto os
principais edifícios administrativos
Armar a Ucrânia?
Para contrariar o poderio das forças
afastado totalmente. Para já, a opção
pela solução diplomática oferecida
sível ver tanques e camiões russos
envolvidos em operações militares
a recolher da península. O Presidente, Vladimir
Putin, tinha pedido autorização ao
rebeldes, tem aumentado o número
de vozes favoráveis ao fornecimen-
pela implementação dos acordos
de Minsk continua a ser privilegia-
no interior da Ucrânia.
A presença de forças do Exército
uma série de Parlamento russo para poder utilizar
o Exército na Ucrânia e milhares de
to de armamento letal ao Exército
ucraniano pelos aliados ocidentais.
da em Washington e nas capitais
europeias.
regular russo a lutar ao lado dos se-
paratistas na Ucrânia é um dos temas provas sobre o tropas já se encontravam estaciona-
das junto da fronteira.
É o caso do próprio Ben Hodges, que
afirmou que tudo aquilo que Kiev
Os aliados ocidentais de Kiev ga-
rantiram esta semana que vão ter
mais disputados e que mais divide o
Ocidente e a Rússia. Desde o início envolvimento de No entanto, apenas cinco sema-
nas depois, quando a anexação já era
precisa é “informações, capacidade
de contra-ataque e algo que possa
“uma reacção forte” caso os acordos
de Minsk continuem a ser violados.
do conflito no Leste da Ucrânia que um facto consumado, é que Putin re- parar um tanque russo”. Para aumentar a pressão sobre a Rús-
têm sido várias as ocasiões em que tropas russas na conheceu que foram tropas russas Posição semelhante foi defendida sia, Obama assinou uma ordem exe-
a NATO, os Estados Unidos, a União que levaram a cabo as ocupações dos na terça-feira pelo chefe do Estado- cutiva que prevê a extensão das san-
Europeia e a Ucrânia têm acusado a Ucrânia edifícios-chave. Maior das Forças Armadas norte- ções aplicadas sobre Moscovo — cuja
Rússia de enviar contingentes milita- O estalar do conflito no Leste da americanas, o general Martin Demp- vigência terminava esta semana, um
res para apoiar as milícias pró-russas. Ucrânia seguiu-se pouco depois, sey, durante uma audição no Senado. ano depois da sua implementação. A
Segundo várias fontes, Boris Nemt- mas Moscovo nunca reconheceu “Acho que deveríamos considerar ab- UE também pode avançar para mais
sov, o político russo oposicionista ter enviado soldados para apoiar os solutamente o envio de ajuda letal no penalizações “no caso de uma nova
assassinado na semana passada, es- separatistas. Perante as notícias da contexto dos aliados da NATO, uma escalada”, afirmou o porta-voz da
taria precisamente a recolher uma morte de soldados do Exército russo vez que o grande objectivo de Putin chanceler alemã.
México
captura líder
do cartel
Zetas

Narcotráfico “El Z-42”


Explosão em mina de Donetsk liderava grupo criminoso
faz pelo menos 17 mortos conhecido pelo recurso
à violência extrema, para
além do tráfico de droga

Uma explosão numa das mais peri- partir de finais da década de 1990. As forças mexicanas capturaram o
gosas minas de carvão do Leste da Num primeiro momento, as autori- líder do cartel Zetas, um dos mais
Ucrânia, na cidade de Donetsk, dei- dades de Kiev avançaram que tinham violentos do México. Omar Tre-
xou dezenas de trabalhadores soter- morrido 32 mineiros, chegando mes- viño Morales, conhecido como “El
rados — 17 corpos foram recuperados mo a ser cumprido um minuto de Z-42”,estava na lista dos sete narco-
já sem vida. A localização da mina silêncio no Parlamento. No local do traficantes mais procurados do país
de Zasiadko, numa das zonas mais acidente, os representantes da au- e foi detido menos de uma semana
afectadas pela guerra no país, tem toproclamada República Popular depois da captura de Servando Gó-
dificultado as operações de resgate e de Donetsk confirmaram a morte mez Martínez ou “La Tuta”, o chefe
a transmissão de informações. de uma pessoa e disseram que 32 do cartel dos Caballeros Templarios,
“Das 32 pessoas que estavam sob mineiros estavam desaparecidos. responsável pela transformação do
os destroços, foram recuperados 16 O Presidente da Ucrânia, Petro Po- estado de Michoácan e da chamada
corpos sem sinais de vida”, disse um roshenko, exigiu aos líderes rebeldes Tierra Caliente mexicana numa zo-
porta-voz dos serviços de emergência que autorizem a entrada na região de na de guerra e terror.
regionais, citados pela agência noti- equipas de socorro enviadas por Kiev, Omar Treviño tinha ocupado o
ciosa russa Ria. De manhã, já tinha mas a república separatistas recusou lugar do seu irmão, “Z-40”, conhe-
sido encontrado um cadáver. a oferta. Já o primeiro-ministro, Arse- cido por cozinhar os seus inimigos,
Na altura da explosão encontra- ni Iatseniuk, acusou os separatistas e detido em Julho de 2013. Esta de-
vam-se 230 pessoas à superfície da pró-russos de terem barrado o acesso tenção marcou o início do declínio
mina, informaram as autoridades a equipas de emergência. do cartel e abriu as portas a uma
rebeldes e governamentais. À entrada da mina, a irmã de um guerra pela conquista das zonas que
Vários responsáveis ouvidos afas- dos trabalhadores mostrava-se deses- este controlava.
taram qualquer relação com com- perada com a falta de explicações, se- O novo líder dos Zetas foi apa-
bates entre as forças do Governo de gundo um relato da agência Reuters: nhado numa operação conjunta do
Kiev e os rebeldes separatistas pró- “Digam-me, há sobreviventes? Por- exército e da polícia num subúrbio
russos, que controlam a região. No que estão a esconder a verdade?” industrial de Monterrey, capital do
entanto, Mikhailo Volinets, respon- Para além da configuração da estado de Nuevo Leon, fronteiriço
sável do Sindicato Independente mina, que atinge uma grande pro- com os Estados Unidos. O México
dos Mineiros, disse que as equipas fundidade e tem níveis elevados de oferecia dois milhões de dólares por
de socorristas que trabalham sob a metano, as operações de resgate são informações que levassem à sua cap-
autoridade dos rebeldes pró-russos também dificultadas pela ausência tura; os EUA cinco milhões.
ficaram profundamente desorgani- de comunicação entre o Governo de O grupo criminoso, fundado por
zadas com a guerra. Kiev e os rebeldes separatistas. desertores das forças de elite do
“Após a tomada do poder pelos Segundo o sindicalista Mikola Vo- Exército, começou por trabalhar
separatistas, 700 socorristas da re- linko, a situação nas minas agravou- às ordens do cartel do golfo até
gião de Donetsk passaram-se para a se” desde que os rebeldes assumiram fundar a sua própria organização
Ucrânia”, afirmou à AFP. “As unida- o controlo do Leste. Os bombarde- criminosa. Opera principalmente
des [de socorristas] não estão hoje amentos atingiram várias minas, e no Leste do país e concentra-se no
completas, falta-lhes pessoal.” provocaram cortes de electricidade tráfico de droga, mas também se
Na origem do acidente estará uma e evacuações urgentes. dedica à extorsão de migrantes que
explosão de gás metano, à semelhan- Mas, apesar disso, os mineiros têm querem chegar a território norte-
ça do que aconteceu em muitas ou- continuado a trabalhar — ainda que americano.
tras ocasiões desde a abertura da mi- os salários não estejam a ser pagos A sua imagem de marca é a violên-
na, em 1958 — mas especialmente a regularmente. Alexandre Martins cia extrema: os Zetas foram conside-
BAZ RATNER/REUTERS
rados responsáveis por dois massa-
cres de imigrantes (193 e 72 vítimas,
em duas matanças diferentes), ten-
do estado por trás do incêndio que
fez 52 mortos no casino de Monter-
rey, em 2011, um ano antes de terem
abandonado 49 corpos decapitados
perto dessa cidade.
Apesar de enfraquecido com a
captura dos seus sucessivos líde-
res, os Zetas foram responsabiliza-
dos por muitas das atrocidades da
vaga de violência que já fez 100 mil
mortos desde 2007.
Estas duas detenções são impor-
tantes vitórias para o Governo de
Enrique Peña Nieto. “La Tuta”, o lí-
der dos Caballeros Templarios, era o
maior símbolo da corrupção, impu-
nidade e ausência de autoridade do
O acidente foi provocado por uma explosão de gás metano Estado em vastas regiões do país.
Escândalo na Petrobras atinge
políticos da coligação de Dilma
Brasil Escândalo de corrupção na petrolífera implica grandes nomes da maioria PT-PMDB no Congresso.
Investigação iniciada em 2014 só agora atinge as cúpulas políticas brasileiras. Por Félix Ribeiro
UESLEI MARCELINO/REUTERS
O procurador-geral do Brasil impli-
cou altos responsáveis políticos do
Congresso brasileiro na investigação
sobre o escândalo de corrupção na
empresa petrolífera estatal Petro-
bras. Rodrigo Janot entregou uma
lista de 54 nomes ao Supremo Tri-
bunal Federal. Os envolvidos serão
presentes a inquérito, caso o tribu-
nal aprove a lista do procurador,
como se espera que aconteça nos
próximos dias.
O conteúdo da lista não é ainda
conhecido através de canais oficiais,
mas a imprensa brasileira avança
que os dois topos hierárquicos das
duas câmaras do Congresso brasilei-
ro, Eduardo Cunha e Renan Calhei-
ros, fazem parte do rol de suspeitos.
Os dois são, respectivamente, o pre-
sidente da Câmara dos Deputados e
o presidente do Senado, e são ambos
do Partido do Movimento Democrá-
tico Brasileiro (PMDB), parceiro que
forma a maioria no Congresso com
o Partido dos Trabalhadores (PT) de
Dilma Rousseff.
Espera-se que a lista de Janot
implique mais nomes de políticos
em actividade no Congresso brasi-
leiro, incluindo líderes partidários
da maioria PT-PMDB, assim como
membros do principal partido de
oposição, liderado por Aécio Neves,
o Partido da Social Democracia Bra-
sileira (PSDB). Rodrigo Janot enviou
um pedido ao Supremo Tribunal
Federal para que os nomes sejam A liderança da Presidente brasileira já estava a ser posta em causa por causa do seu programa de ajuste fiscal
divulgados assim que se aprovem
os processos de inquérito. reiro do partido, João Vaccari Neto, ponsáveis políticos e empresariais No entanto, e embora não tenham
Desde Janeiro que se esperava a Dilma Rousseff de ter retirado cerca de 200 milhões suspeitos de estarem envolvidos surgido até hoje quaisquer suspei-
lista de Rodrigo Janot. Até agora, o de reais (à volta de 179 milhões de no esquema de corrupção. No final tas sobre o seu envolvimento, este
cerco policial concentrou-se sobre- foi presidente euros) através de esquemas dentro de 2014, as autoridades brasileiras processo tem vindo a corroer a ima-
tudo nos empresários suspeitos de da Petrobras directamente para os detiveram 11 executivos de seis das gem da Presidente do Brasil.
pagarem “luvas” aos responsáveis
da Petrobras em troca de contratos
do conselho de cofres do partido. Desconhece-se
até agora se se encontra na lista de
maiores empresas de construção
do país.
É que Dilma foi presidente do
conselho de administração da pe-
com a petrolífera. Em causa estão
também operações de manipulação
administração Janot o nome de João Vaccari Neto.
O tesoureiro do PT desmentiu sem-
Não são conhecidos os valores
exactos que a Petrobras terá perdido
trolífera durante sete anos — de
2003 a 2010 —, período durante
de preços.
Mas as suspeitas sempre existiram
da Petrobras pre o envolvimento no caso. com o alegado esquema de corrup-
ção. Nem tão-pouco se sabe o valor
o qual se suspeita terem ocorrido
muitos dos casos agora investiga-
em torno de responsáveis políticos.
A lista de Janot dá esse passo final,
entre 2003 O culminar da investigação
A lista de Janot representa o culmi-
actual do património da estatal bra-
sileira, que está impedida de lançar
dos. Mesmo que o seu nome este-
ja fora da lista de suspeitos, Dilma
que liga empresas de construção,
responsáveis da Petrobras e diri-
e 2010, mas nar de uma investigação em curso
desde o início de 2014 e que pode
relatórios de auditoria. Contudo, a
BBC diz que a petrolífera pode já ter
vê-se a braços com explicações
difíceis: como é que, durante sete
gentes políticos. Os nomes que se
vierem a confirmar na lista enviada o seu nome prolongar-se por vários anos em
julgamentos. Um dos principais
perdido cerca de 90 mil milhões de
euros só devido à desvalorização em
anos de presidência da Petrobras,
não se apercebeu de uma alegada
ontem ao Supremo Tribunal Fede-
ral ainda não serão constituídos ar- não aparece desenvolvimentos da investigação
aconteceu com a detenção de um
bolsa. Isto representa um sério ris-
co para a Petrobras, que na semana
rede de corrupção empresarial e de
pagamentos a políticos, ainda para
guidos. O procurador-geral não terá ex-director da Petrobras, Paulo Ro- passada viu a agência de notação fi- mais do seu partido?
ainda provas suficientes para avan- associado ao berto Costa, e de Alberto Yousseff, nanceira Moody’s baixar a nota de Para além do mais, a liderança
çar para julgamento, uma vez que o doleiro (termo utilizado para des- crédito da petrolífera para o nível governamental de Dilma tem esta-
pedido de Janot é apenas para que escândalo de crever alguém envolvido na com- “especulativo”. do em causa, graças ao programa
se abram processos de inquérito. pra e venda de divisas no mercado de ajuste fiscal concebido para ata-
Uma das consequências mais peri- corrupção paralelo). Dilma sofre com processo car o fraco desempenho económico
gosas para a cúpula do PT foi posta A imprensa brasileira afirma que Dilma Rousseff já veio apoiar publi- do Brasil. O programa de austerida-
a nu por Pedro Barusco, um antigo é com base nos acordos de delação camente o processo de investigação de tem causado fendas na coligação
responsável de topo da petrolífera, destes dois detidos que as autorida- à Petrobras — apelidada pelas auto- PT-PMDB, que o caso Petrobras po-
que em Fevereiro acusou o tesou- des chegaram aos nomes dos res- ridades como operação Lava-Jato. de ainda aprofundar.
2011
>>>>>>>>>>>>
Alguns pais dão mais do que deviam
aos seus filhos.
Breves Troika em Portugal
Já demissionário, José Sócrates
anuncia o pedido de ajuda
financeira da troika (06/04). A
EUA 17 de Maio, entra em vigor um
“Foi ele”, reconhece guião para a reestruturação
socioeconómica de Portugal.
defesa de acusado do Seguiu-se a humilhação de um
atentado de Boston país monitorizado por credores,
sujeito ao empobrecimento
“Foi ele.” A defesa de forçado e ao disparar do
Djhokhar Tsarnaev, que desemprego. A crise expôs
ontem começou a ser julgado a dimensão dos problemas
pelo atentado na maratona estruturais, mas, ainda que
de Boston surpreendeu, ao penalizando com violência os
assumir as responsabilidades portugueses, acelerou a busca
do jovem pelo atentado de alternativas. Três anos depois,
que causou a morte de três os portugueses teriam outro
pessoas e feriu 264, em Abril choque, com a prisão preventiva
de 2013. A estratégia da de Sócrates. (22/11/2014) S.J.A.
defesa parece ser centrar-
se na responsabilidade
80% do fumo do cigarro é invisível.
Isso significa que, mesmo com as janelas de casa ou do carro abertas, muitos dos mais de 7000 químicos
relativa de Djhokhar. Foi do fumo do tabaco circulam no ar sem que ninguém se aperceba, fixando-se nos tapetes, nos estofos,
Tamerlan Tsarnaev, morto nas paredes e nos pulmões de quem está presente. Ou seja, quando alguém fuma, todos fumam.
três dias depois do atentado, Desde otites, infeções respiratórias e asma, até ao risco de morte súbita do lactente,
quando fugia à polícia, as crianças são vítimas impotentes deste drama quotidiano. Pense nisto, antes de acender o próximo cigarro.
quem concebeu o ataque, Proteja a saúde dos que o rodeiam. Nunca fume em locais fechados.
argumentou a advogada Saiba mais em www.eufumotufumas.com
Judith Clarke. “Foi Tamerlan
Tsarnaev quem se auto-
radicalizou. Djhokhar
seguiu-o”, disse.
EUFUMOTUFUMAS.COM
Dentro de um tubo em Sacavém vai
simular-se a chegada a outros mundos
Exploração espacial Inaugurado ontem o Laboratório de Plasmas Hipersónicos, onde está o Tubo de
Choque, que servirá para preparar missões da Agência Espacial Europeia a planetas e luas
do sistema solar. As primeiras experiências começam no Verão. Por Nicolau Ferreira

atmosfera terrestre —, e uma missão


Desenho do Tubo que traga amostras geológicas de um
de Choque e, asteróide fora da órbita da Terra.
em baixo, esta “Se a nave vier de outro planeta e
máquina durante a entrar na Terra, pelas leis da física
construção essa entrada ocorre a dez ou 12 quiló-
DR
metros por segundo”, diz. Apenas os
EUA fizeram reentradas a velocida-
des superiores, quando trouxeram
astronautas da Lua, nas várias mis-
Ao todo, o projecto custou dois sões Apolo, entre 1968 e 1972.
milhões de euros: 250.000 euros “A Europa ainda não tem essa ca-
Um pequeno meteoro em colisão do IST destinados à construção de pacidade. Com o Tubo de Choque,
contra a Terra não sobrevive à re- raiz do edifício e o resto, pago pela é isso que vai ter”, prevê o cientista.
sistência da atmosfera. O atrito de- ESA, foi para o Tubo de Choque. O No Laboratório de Plasmas Hipersó-
sintegra-o. Tudo o que fica no céu projecto foi iniciado em 2010, depois nicos, o novo tubo permitirá jogar
é um breve risco de luz. Uma nave de o consórcio liderado pelo IST ter com a velocidade tanto da onda de
que faça a mesma viagem a altas ganho o concurso da ESA para a propagação como da composição da
velocidades pode ter igual destino. construção do laboratório. No con- atmosfera e a sua pressão. “É tudo o
A Agência Espacial Europeia (ESA) sórcio “académico-industrial”, como que precisamos para simular qual-
debate-se com este problema: não diz Mário Lino da Silva, participam quer entrada na atmosfera.”
tem, para já, tecnologia para missões parceiros internacionais, assim co- O tempo de vida do laboratório
de naves a outros planetas e luas ou mo empresas portuguesas como a será de 20 a 30 anos. E vai responder
que tragam para a Terra amostras de ISQ ou a Setofresa e Associados, es- a qualquer pedido da ESA. Para já,
asteróides ou até astronautas. Mas, tando a última a fabricar o Tubo de estão encomendados testes de “ce-
ontem, foi inaugurado um laborató- Choque. nários da reentrada terrestre de mis-
rio português pedido pela ESA para
ajudar a obter esta tecnologia.
No laboratório, vão ser observados
fenómenos que duram cerca de 30 O laboratório No tubo, a energia da onda que se
perde na velocidade é transformada
sões que vão buscar amostras de solo
a Marte, cometas e asteróides”.
A nova instalação, em Sacavém,
é agora a maior do país em investi-
milionésimos de segundo. O tubo, de
20 metros de comprimento e 40 to- custou dois em calor. A temperatura sobe até mi-
lhares de graus junto da onda de cho-
Mas as experiências só se vão ini-
ciar no Verão. Por agora, apenas está
gação espacial. Este Laboratório de neladas, é constituído por duas par- que e produz plasma, o quarto esta- instalada a câmara de alta pressão.
Plasmas Hipersónicos pertence ao tes importantes. Por um lado, tem milhões do da matéria, em que os electrões Depois, o tubo de ferro será instala-
Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear uma câmara de alta pressão peque- que normalmente andam à volta dos do. Devido aos perigos inerentes ao
do Instituto Superior Técnico (IST), na, onde ocorrerá a combustão de de euros, átomos (que compõem a atmosfera) uso de gases muito explosivos, a sala
em Lisboa. hidrogénio, oxigénio e hélio, permi- libertam-se e passam a andar livre- do tubo vai ficar separada da de con-
Aí, vão simular-se as condições tindo a estes gases atingir pressões financiados em mente. Parte da energia do plasma é trolo. Tudo num edifício que parece
de chegada de objectos à Terra e a de 600 atmosferas terrestres e 2500 libertada em forma de radiação: des- um bunker, desenhado e construído
outros planetas e luas. “Uma nave
espacial atinge a velocidade de dez
graus Celsius. Por outro lado, há o tu-
bo onde se vão injectar os gases que
grande parte de radiação ultravioleta, passando
pela luz visível aos olhos humanos,
para minimizar acidentes.
Segundo Mário Lino da Silva, o
quilómetros por segundo quando
entra na atmosfera de um planeta”,
imitam a composição da atmosfera
de um planeta (a da Terra teria 78%
pela Agência até aos infravermelhos.
Esta radiação é analisada em se-
laboratório também servirá para
“aumentar o conhecimento físi-
diz o responsável pelo laboratório, o
físico Mário Lino da Silva, que usou a
de azoto, 21% de oxigénio e menos
de 1% de dióxido de carbono). A se-
Espacial guida por uma série de aparelhos no
final do tubo, o que permite ter um
co dos plasmas”. E pode ser ainda
importante para compreender as
imagem da estrela cadente para ex-
plicar os riscos dessa operação.
parar a câmara de compressão e o
tubo há uma membrana fina.
Europeia perfil deste plasma e dar informação
preciosa à ESA, já que pode ajudar a
consequências de corpos maiores
que possam atingir a Terra, como o
Em Sacavém, está agora a ser ins- Depois, esta membrana será rom- definir o material do casco de uma asteróide que caiu em Cheliabinsk,
talado o Tubo de Choque Europeu pida e a mistura de gases na câmara nave para entrar numa atmosfera. na Rússia, em 2013.
para a Investigação de Alta Entalpia de alta pressão entra no tubo a ve- “As naves usam materiais ablati- O asteróide não matou ninguém,
(ESTHER, sigla em inglês). Neste tu- locidades que podem atingir os 12 vos, que ardem devagarinho duran- mas a onda de impacto partiu vidros
bo vai dar-se a colisão entre uma on- quilómetros por segundo (ou 43.200 te a reentrada”, explica o cientista, e a luz cegou momentaneamente e
da de choque e uma mistura gasosa quilómetros por hora). É aqui que se dando como exemplo os já reforma- queimou (pelos raios ultravioletas
que imita a atmosfera de um planeta. vai dar a onda de choque: ao entra- dos vaivéns da NASA. Mas o cientis- produzidos) várias pessoas. “Esta
Pode-se simular ali a atmosfera da rem no tubo, os gases vão sendo tra- ta explica que existe uma diferença instalação está preparada [para estu-
Terra, de Marte ou de Titã, lua de vados pelo atrito criado pela “atmos- grande entre missões espaciais perto dar] impactos de meteoros”, frisa o
Saturno, tendo em conta a sua com- fera” ali recriada, tal como acontece da Terra, como eram as dos vaivéns investigador. “Para estudar os danos
posição e a densidade atmosférica. quando um meteoro ou uma nave da NASA — que reentravam a cerca que podemos esperar devido à sua
Tudo depende das missões da ESA. atravessam a nossa atmosfera. de seis quilómetros por segundo na radiação e onda de choque.”
Mal-estar na Câmara de Oeiras
leva presidente a retirar
pelouros a vereadora
JOSÉ SARMENTO MATOS
Num despacho datado de 27 de PSD, não respondeu ao PÚBLICO.
Autarquias Paulo Vistas Fevereiro, com efeitos imediatos, o O vereador da CDU, Daniel Bran-
diz que a decisão visou presidente da câmara chama a si to- co, diz não ter ainda informação
pôr fim a um ambiente de das as competências até então dele- pormenorizada sobre o caso. No
gadas em Madalena Castro e revoga entanto, admite a existência de
“insatisfação generalizada” todos os despachos que conferiam à “problemas complicados de relacio-
nos serviços vereadora “poderes de assinatura de namento” entre Madalena Castro e
correspondência e expediente neces- Nuno Vasconcelos, e que este terá
O presidente da Câmara de Oeiras, sário à mera instrução de processos”. já “ultrapassado” as competências
Paulo Vistas, retirou os pelouros à Em resposta ao PÚBLICO, fonte que lhe foram atribuídas. “Existe
vereadora Madalena Castro, ambos do gabinete da presidência justificou um problema muito sério na câma-
eleitos pelo movimento indepen- a decisão com o “grande desconten- ra que se prende com o papel exces-
dente Isaltino Oeiras Mais à Frente tamento”, a “insatisfação generali- sivo de alguns técnicos e dirigentes
(IOMAF). Vistas justifica a medida zada” e as “queixas constantes” por em relação ao funcionamento da
com o “grande descontentamento” parte “dos técnicos e dirigentes” câmara”, afirma, classificando a si-
alegadamente sentido nos serviços que trabalham no Departamento tuação como “grave”.
tutelados por Madalena Castro, que de Obras Municipais (DOM), que Para Daniel Branco, o grupo cria-
terá culminado com a apresentação estava até aqui sob a alçada de Ma- do em 2005 por Isaltino Morais (em
do pedido de demissão por parte de dalena Castro. Madalena Castro ao lado de Paulo Vistas em 2013 liberdade condicional desde Junho
um director de departamento. Segundo a mesma fonte, a situa- do ano passado) estará a viver um
A vereadora, que integra os exe- ção, que se verifica “há algum tem- dora comunicou por carta que não vez que Vistas não aceitou o pedido momento de “enorme retrocesso”
cutivos da câmara desde 2005 — na po”, culminou recentemente com a estava disponível para qualquer alte- de demissão. no que toca à coesão e ao trabalho
altura, ainda com Isaltino Morais na apresentação do pedido de demis- ração aos pelouros que detinha”. Nem a vereadora, nem Paulo colectivo. No seio da câmara circu-
presidência —, era responsável pelas são por parte de Nuno Vasconcelos, Nos últimos dois dias, o PÚBLICO Vistas estiveram presentes na reu- lam informações de que Vistas esta-
obras municipais, trânsito e trans- director do DOM. Depois de ter ten- tentou contactar Madalena Castro, nião de câmara de ontem, estan- rá a tentar reaproximar-se do PSD,
portes, espaços verdes, iluminação tado “durante uma semana e por to- por email e telefone, sem sucesso. do o presidente em visita oficial partido no seio do qual iniciou a sua
pública e controlo das intervenções dos os meios” falar com Madalena Nuno Vasconcelos também não a Timor. “O PS não toma posição carreira política, tendo mesmo de-
dos concessionários de serviços pú- Castro, sem sucesso, Paulo Vistas atendeu as chamadas. Segundo a as- para já, vamos esperar pela próxi- sempenhado o cargo de presidente
blicos. Madalena Castro era a tercei- decidiu retirar-lhe as competências, sessora de imprensa da autarquia, o ma reunião”, afirma o vereador do da comissão política do PSD Oeiras,
ra na lista do IOMAF. por despacho. Antes disso, “a verea- dirigente mantém-se no cargo, uma PS, Marcos Sá. Alexandre Luz, do até 2005. Marisa Soares
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ÚLTIMOS DIAS
SÓ ATÉ 15 DE MARÇO
QUARTA A SÁBADO 21H30
DOMINGO 16H00
VERSÃO JOÃO LOURENÇO | VERA SAN PAYO DE LEMOS
DRAMATURGIA VERA SAN PAYO DE LEMOS
ENCENAÇÃO JOÃO LOURENÇO
CENÁRIO JOÃO LOURENÇO | ANTÓNIO CASIMIRO
FIGURINOS ISABEL CARMONA
COREOGRAFIA CLÁUDIA NÓVOA
VÍDEO NUNO NEVES
COM Ana Guiomar | Carlos Malvarez | Cristóvão Campos | Francisco Pestana
Irene Cruz | João Vicente | Marta Dias | Marta Ribeiro | Melim Teixeira
Rui Neto | Patrícia André | Paulo Oom | Teresa Sobral
[m/12]
“Não foi a PT que fez cair o BES,
foi o BES que fez cair a PT”
Comissão de inquérito Henrique Granadeiro falou dos factos que lhe destruíram “a carreira”, demarcou-
-se de Bava e considerou uma “traição” a venda da PT e o negócio com a Oi. Por Cristina Ferreira e Paulo Pena
MIGUEL MANSO
Nervoso, Henrique Granadeiro leu
uma declaração inicial aos deputa-
dos, em que esclareceu que preten-
dia colaborar com o inquérito parla-
mentar: “Faço-o sob juramento, no
sentido que isso tem para a minha
confissão religiosa e para as minhas
convicções republicanas.”
Antes de Granadeiro, na passada
quinta-feira, Zeinal Bava sentou-se
na mesma cadeira e ora não guar-
dava “memória”, ora não tinha res-
ponsabilidade nos factos em causa.
Ambos, Bava e Granadeiro, consti-
tuíram, durante os últimos tempos
que ditaram a falência do BES (que
era dos maiores accionistas da PT,
com 10%), uma liderança bicéfala de
que, hoje, Granadeiro se arrepende.
“Uma comissão executiva e dois pre-
sidentes é uma das raízes do mal. Foi
o maior erro estratégico que cometi
na minha vida.”
A religião serviu de imagem, para
suavizar o problema. Bava disse que
não teve responsabilidades. Men-
tiu? À pergunta de Carlos Abreu
Amorim, PSD, Granadeiro respon-
deu: “Pilatos perguntou a Cristo
o que era a verdade e ele não lhe
respondeu.” Indo mais longe: Zei-
nal Bava sabia, ou decidiu, o inves-
timento de mais de 600 milhões
de euros na Rioforte, a holding não
financeira do GES, em 15 e 17 Abril
de 2014? Granadeiro preferiu não
responder de forma directa. Leu um
“excerto de uma acta”, de Julho de
2014, em que o responsável finan- Granadeiro não respondeu de forma directa, mas as suas palavras conduzem à responsabilidade de Bava no empréstimo ruinoso ao GES
ceiro da PT, Luís Pacheco de Melo,
assegura: “É natural que as pessoas
que cá estivessem soubessem.”
“Não sente que mundo muito nervoso em que nem
tudo é transcrito para o papel.”
900 milhões para o ajudar é muito
romântica, mas é um bocado infantil
te), mas não “as responsabilidades
de outros” (mais de 600 milhões no
“Embora a resposta seja um tan-
to cabalística, não tenho nenhuma foi enganado?”, Mas teve muitas dificuldades
em provar que a PT não era, como
e não corresponde à verdade.”
Mais: “Nunca combinei com Sal-
mesmo destino). Houve um curio-
so debate semântico. Fernando Ne-
dúvida sobre como interpretar es-
ta resposta: é um sim.” Granadei- perguntou-lhe afirmou Mariana Mortágua, do BE,
“uma empresa em roda livre e em
gado uma única operação. Nunca fiz
negócio com Ricardo Salgado.”
grão, o presidente da comissão, que
já havia desligado o iPhone do depo-
ro conclui, assim, que Bava devia que toda a gente pode tomar de- “Não sente que foi enganado?”, ente, que se debatia com o botão de
guardar na memória a parte que lhe Abreu Amorim. cisões sobre investimentos”. Isto, perguntou-lhe Abreu Amorim. “Ob- “silêncio” em vão, perguntou-lhe, na
compete deste investimento que se depois de Granadeiro ter sugerido viamente que sinto. Este incidente, sequência das dúvidas do deputado
veio a verificar ser ruinoso, pouco “Obviamente que os milhões da PT investidos no isto que aconteceu, foi o pior que socialista: “Se não tem evidências,
mais de três meses depois de feito, GES podiam ter sido entregues por podia acontecer à minha carreira. tem indícios?” “Não, prefiro dizer
com a falência da Rioforte e a reso- que sinto (...). uma decisão de um funcionário Isto destruiu a minha carreira. Sinto que tenho convicções”, afirmou
lução do BES. Mais uma metáfora qualquer do departamento financei- que fui injustiçado. Alguém devia Granadeiro.
religiosa: “Embora haja muitos pon-
tos de contacto entre mim e Zeinal
Isto destruiu a ro. O antigo chairman nega que os
investimentos sejam um só. Exem-
ter-me dado sinais. E não foi a PT
que fez cair o BES. Foi o BES que fez
Uma delas é esta: por muito que
as notícias sobre a saúde do GES fos-
Bava, o religioso não é um deles. Eu
sou cristão e ele é muçulmano.”
minha carreira”, plo: “Uma mulher grávida de nove
meses não é igual a nove mulheres
cair a PT.” E agora com nomes: “Jo-
aquim Goes e Amílcar Morais Pires
sem públicas, há muito tempo, ha-
via garantias de que tudo iria acabar
Henrique Granadeiro quis mostrar
aos deputados que fala outra língua,
respondeu grávidas de um mês.”
Apesar de ser como que um
[administradores do BES que tam-
bém integravam a administração
bem. “A gente acredita que o gover-
nador do Banco de Portugal e a mi-
menos evasiva, diferente da do seu
antigo colega na PT. “De forma al-
Henrique “meio-irmão adoptivo” de José Ma-
nuel Espírito Santo, e amigo de Ri-
da PT] não cumpriram deveres de
lealdade a que estavam obrigados.
nistra das Finanças quando falam,
falam a sério. Isto não é a história do
guma aceitaria estar a fazer figura
de palhaço ou de cumpridor de or-
Granadeiro cardo Salgado, com quem ainda se
encontra regularmente, Granadei-
Obviamente que estou magoado. Ou
mais do que isso.”
Pedro e o Lobo, é um país.” O que o
levou a concluir com uma frase que,
dens.” Da mesma forma, distanciou-
se do mundo dos “yuppies das salas
ao deputado ro procurou distanciar-se do papel
de amigo para todas as ocasiões da
Pedro Nuno Santos, PS, quis sa-
ber mais. Granadeiro deixou claro
dado o desfecho do BES, pode dar o
mote para uma campanha da indús-
de mercado”, que avaliam os inves- família Espírito Santo: “A história que assume “por inteiro” a sua parte tria dos media: “Por que hei-de dar
timentos falando com “dois ou três de que eu vi Ricardo Salgado a es- das responsabilidades (200 milhões mais valor aos jornais? Prefiro acre-
telefones” em simultâneo. “É um bracejar e lhe enviei uma bóia de investidos por sua ordem na Riofor- ditar em quem governa o país.”
Perdas potenciais

Breves
dos swaps já superam
1800 milhões de euros
2014
>>>>>>>>>>>>
Fim do império
os contratos atingem a maturidade que “a apreciação [do caso] come- As suspeitas sobre o Grupo
Empresas Empresas públicas IGCP ou são cancelados antecipadamente, ce no último trimestre deste ano”, Espírito Santo eram notícia em
Lucro dos CTT subiu espera decisão sobre está concentrada nos nove swaps co-
mercializados pelo Santander, com o
admitindo que só haja uma posição
do tribunal “ao longo do primeiro
2005. Mas no Verão de 2014 a
crise do GES acelerou-se. Até
26,5%, para 77,2 contratos do Santander este
ano, mas o banco não prevê
qual o Estado está em litígio por não semestre de 2016”. que o império Espírito Santo
milhões de euros um desfecho antes de 2016
ter havido um acordo relativamente
ao cancelamento dos contratos.
Cristina Casalinho também adian-
tou que, para poder responder à
se estilhaçou. O BPN e o BPP
já tinham sido sinais de gestão
O lucro dos CTT subiu Estes nove derivados acumu- amortização antecipada de parte da dolosa na banca portuguesa
26,5% no ano passado, face As perdas potenciais dos swaps subs- lavam, no final de 2014, um risco dívida ao FMI, o Tesouro português — porém, nada com a
a 2013, para 77,2 milhões critos por empresas públicas já su- de prejuízo de 1384,4 milhões de planeia emitir este ano mais 4000 dimensão das suspeitas que
de euros, anunciou ontem peram os 1800 milhões de euros. A euros, quando chegaram ao final milhões de euros de obrigações de se abatem sobre o GES/BES.
a empresa liderada por informação foi avançada ontem pela de 2013 com perdas potenciais de tesouro do que o previsto. A presi- Emblemática do fim do império
Francisco de Lacerda. Em presidente da Agência para a Gestão 1148,4 milhões. O Santander moveu dente do IGCP explicou que, depois BES foi a detenção de Ricardo
comunicado enviado à da Tesouraria e da Dívida Pública uma acção, em Abril de 2013, nos dos 8700 milhões que já foram colo- Salgado para interrogatório
Comissão do Mercado de (IGCP), no Parlamento. De acordo tribunais ingleses para comprovar cados este ano através de emissões no processo Monte Branco.
Valores Mobiliários, os CTT com Cristina Casalinho, o risco de a validade dos seus contratos. Ques- de dívida de longo prazo, ainda ha- E, por mais negativas que
adiantam que os rendimentos prejuízo dos derivados (que servem tionada pelo deputado do PCP Paulo verá emissões de 8900 milhões até sejam as consequências
operacionais totais cresceram para proteger os empréstimo das os- Sá, a presidente do IGCP disse que a ao final de 2015, o que significa que, deste escândalo, houve
2,4%, para 717,8 milhões de cilações nas taxas de juro) agravou-se expectativa é que haja “alguma de- face ao plano inicial, as emissões to- uma clarificação que traz
euros, “invertendo cinco anos em 363,6 milhões face a 2013. cisão nos tribunais ingleses até ao tais de obrigações serão superiores transparência e anuncia que a
de declínio”. A grande fatia das perdas poten- final do ano”. Já fonte oficial do San- em cerca de 4000 milhões. Raquel gestão bancária em Portugal
O resultado antes de ciais, que só se tornam reais quando tander explicou que o banco espera Almeida Correia e Sérgio Aníbal terá novas exigências. S.J.A.
impostos, juros, depreciações
e amortizações (EBITDA) PUBLICIDADE

recorrentes subiram 9,9%,


para 135,1 milhões de euros.
Os CTT adiantam que os
rendimentos de correio
inverteram a tendência
passada e subiram 0,8%,
resultante da desaceleração
na queda no tráfego de
correio endereçado para 5,7%
e do aumento do preço médio
do Serviço Postal Universal
de 4,1%.

Empresas
Deflação alimentar
penaliza resultados
da Jerónimo Martins
Os lucros da Jerónimo Martins
caíram 21,1%, para 302
milhões de euros, em 2014,
um ano “difícil e cheio de
desafios”. Em comunicado, o
grupo, dono do Pingo Doce,
sublinha que a deflação
alimentar (queda de preços)
“sem precedentes” e o
aumento da concorrência
na Polónia — que garante
66,5% do total das vendas —
contribuíram para esta queda
face a 2013.
Além disso, a empresa
liderada por Pedro Soares dos
Santos obteve vendas de 1268
milhões de euros, mais 7,2%
em comparação com 2013 e
um EBITDA (lucros antes de
juros, impostos, depreciações
e amortizações) de 733
milhões (menos 5,6% face
ao período homólogo). Nos
supermercados Pingo Doce,
as vendas alcançaram os
3234 milhões de euros, uma
PREMIUM SPONSOR
NAMING SPONSOR

OFFICIAL SPONSOR

MEDIA PARTNERS

PRODUCED BY
SUPPORT

subida de 1,7% face a 2013.


4PDJFEBEF$PNFSDJBM$4BOUPT
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Bolsas

O DIA NOS MERCADOS


Dinheiro, activos e dívida Diário de bolsa
Divisas Valor por euro Portugal PSI20
Euro/Dólar 1,1072 5800

Euro/Libra 0,7253 5450

Euro/Iene 132,57 5100

Euro/Real 3,2964 4750

Euro/Franco Suíço 1,0664 4400


Últimos 3 meses

Taxas de juro Acções


Euribor 3 meses 0,038% PSI20 -1,54%
Euribor 6 meses 0,109% Euro Stoxx 50 0,97%
Dow Jones -0,60%
Variação dos índices face à sessão anterior
Euribor 6 meses
0,200
Mais Transaccionadas Volume
0,175 BCP 216.638.806
0,150 Banif 71.072.014
0,125 EDP 10.725.599
0,100 Portugal Telecom 3.461.650
Últimos 3 meses Sonae 3.084.407

Mercadorias Melhores Variação


Petróleo 60,11 Sonae 0,97%
Ouro 1201,65 REN 0,74%
Preço do barril de petróleo e da onça, em dólares
CTT 0,27%

Obrigações Piores Variação


OT 2 anos 0,268% Teixeira Duarte -3,06%
OT 10 anos 1,901% EDP -3,04%
BPI -2,63%

Obrigações 10 anos Europa Euro Stoxx 50

3,5 3600

3,0 3400

2,5 3200

2,0 3000
1,5
2800
Últimos 3 meses Últimos 3 meses

PSI-20
Última Sessão Performance (%)
Nome da Empresa Var% Fecho Volume Abertura Máximo Mínimo 5 dias 2015

PSI 20 INDEX -1,54 5541,10 315532572 5642,39 5660,77 5536,64 0,69 15,46
ALTRI -1,36 3,12 359938 3,17 3,19 3,11 4,04 25,69
BANIF 0 0,01 71072014 0,01 0,01 0,01 11,67 17,54
BPI -2,63 1,44 2809675 1,48 1,53 1,43 12,18 40,74
BCP -0,94 0,08 216638806 0,09 0,09 0,08 2,15 28,77
CTT 0,27 9,66 422235 9,74 9,77 9,56 0,48 20,49
EDP -3,04 3,39 10725599 3,55 3,55 3,36 0,17 5,19
EDP RENOVÁVEIS -1,82 5,92 387052 6,00 6,10 5,89 2,19 9,59
GALP ENERGIA -2,63 9,80 1509363 10,07 10,23 9,78 -5,00 16,24
IMPRESA 0 1,05 181388 1,05 1,08 1,02 6,92 33,25
J MARTINS -1,83 10,44 1674428 10,61 10,65 10,43 4,27 25,19
MOTA ENGIL -2,33 3,14 925079 3,24 3,24 3,10 -2,58 18,00
NOS 0 5,85 1213008 5,84 5,89 5,78 -0,17 11,73
PORTUGAL TELECOM-0,14 0,69 3461650 0,70 0,70 0,69 -1,42 -19,68
PORTUCEL -0,72 3,88 248839 3,94 3,96 3,85 2,63 25,77
REN 0,74 2,72 653115 2,70 2,73 2,70 -0,74 13,05
SEMAPA -1,12 11,90 81869 12,03 12,11 11,82 6,84 18,65
TEIXEIRA DUARTE-3,06 0,76 84107 0,78 0,79 0,76 -4,73 7,03
SONAE 0,97 1,24 3084407 1,24 1,25 1,22 -3,45 21,48
Carlos Tavares estranha
PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP

falta de informação
à CMVM sobre proposta
de fusão BCP/BPI

BPI fecharam ontem a perder 0,94%


Banca Regulador não e 2,63%, respectivamente (para 0,085
gostou de saber depois euros e 1,44 euros).
da comunicação social Ontem à tarde, houve uma reunião
do conselho de administração do BPI,
da proposta alternativa para analisar a OPA do CaixaBank,
de Isabel dos Santos mas a estratégia de Isabel dos Santos
está também em discussão. A ideia
O presidente da Comissão do Merca- de juntar o BPI e o BCP tem como
do de Valores Mobiliários (CMVM), objectivo, além de Portugal, os mer-
Carlos Tavares, manifestou ontem cados moçambicano e angolano. Há
o seu desagradado com o facto de a também a Polónia, onde está o BCP,
proposta de fusão entre o BCP e o mas é em Portugal e nos dois países
BPI formulada por Isabel dos Santos africanos que a união de forças do
ter sido veiculada pela comunicação BCP e do BPI se torna evidente, inter-
social antes de a entidade de super- cruzada com a influência da Sonangol
visão ter sido avisada. e de Isabel dos Santos.
Questionado no Parlamento sobre Em Portugal, a junção daria lugar a
Houve “projectos concretos e compromissos” para a Península Ibérica deixar de ser uma ilha energética o anúncio da possível fusão entre os uma instituição maior do que a CGD
dois bancos, o presidente do regula- (se não fossem aplicados remédios ao

Cimeira tripartida ressuscita dor do mercado de capitais recusou-


se a comentar o negócio, limitando-se
a dizer não achar “normal” que a in-
nível da concorrência). A estrutura
accionista ficaria partilhada, mas os
accionistas angolanos teriam o maior

gasoduto entre Catalunha tenção de negócio tenha sido veicula-


da pela comunicação social antes de
a CMVM ser avisada. Carlos Tavares
bloco de acções (Sonangol e Isabel
dos Santos).
Em Angola, a fusão do BFA com

e o Sul de França esteve na Assembleia da República


para ser ouvido no âmbito do diplo-
ma socialista sobre transparência das
o Millennium Angola daria origem,
segundo os dados mais recentes da
consultora KPMG (referentes a 2013),
empresas de comunicação social. A ao maior banco por activos e por de-
proposta de fusão entre o BPI e BCP pósitos, superando o Banco Angolano
e compromissos” destinados a fazer da cimeira tripartida, Pedro Passos partiu da segunda maior accionista de Investimentos (BAI). O BPI é dono
Energia Projecto serve com que a Península Ibérica deixe de Coelho considerou fundamental que do BPI, a Santoro, holding de Isabel de 51% do BFA, e os outros 49% são
ambição portuguesa ser uma ilha energética. os diversos países “se possam arti- dos Santos, e foi noticiada ao final da da Unitel, controlada por Isabel dos
e espanhola de Sublinhando a grande incerteza cular e coordenar para responder, tarde de segunda-feira pelo Expresso Santos. Já o Millennium Angola tem
que há actualmente no abastecimen- com a Comissão Europeia, a questões Diário. a Sonangol (maior accionista do BCP,
assumir relevância no to de gás à Europa pelas “imprudên- objectivas, com impactos e benefí- A primeira informação enviada à com 19,4%) e o angolano Atlântico
abastecimento de gás cias do passado”, o primeiro-ministro cios” extensíveis a toda a Europa. Mas CMVM teve origem no BCP, confir- como parceiros. A Sonangol e Isabel
natural à Europa português destacou a importância da também deixou o recado a Bruxelas, mando a recepção da carta, ao final dos Santos, por sua vez, são aliados
aproximação entre Portugal, Espanha lembrando que compete à Comissão da manhã de terça-feira, e, pouco de- e accionistas, via Amorim Energia,
Durante anos, andaram de costas e França para “aumentar a segurança “criar condições regulatórias que dê- pois, o BPI divulgou o documento na da Galp.
voltadas nos dossiers da energia, energética” do continente. Passos Co- em previsibilidade” aos investimen- íntegra no sítio da Internet da entida- No caso de Moçambique, a lideran-
mas agora aparentam estar alinha- elho lembrou que a Península Ibéri- tos e estimular a “harmonização dos de supervisora. Entretanto, as acções ça de mercado cabe ao Millennium
dos. Portugal e Espanha têm o apoio ca, “em articulação com os países da mercados europeus da energia”, co- dos dois bancos registaram fortes va- bim, seguindo-se o BCI. Juntos, as-
da França na ambição de fazer da Pe- bacia atlântica e do Mediterrâneo”, mo já acontece em Portugal e Espa- lorizações durante toda a manhã. seguram cerca de 60% do crédito
nínsula Ibérica uma porta de entrada tem condições para fazer chegar à Eu- nha com o Mibel. A proposta de Isabel dos Santos concedido. O BCP detém 67% do Mil-
do gás natural na Europa. Na cimeira ropa 40% do gás que actualmente se Cabe a Bruxelas “criar as condições pretende ser uma alternativa à Ofer- lennium bim, associado a parceiros
tripartida sobre interligações energé- importa da Rússia e salientou que a de atrair investidores privados”. É ta Pública de Aquisição (OPA) do es- locais, e o BCI é detido a 30% pelo
ticas, que reuniu ontem em Madrid o diversificação de fontes de abasteci- fundamental que haja uma articula- panhol CaixaBank sobre a maioria do BPI, cabendo à CGD 51% (o restante
primeiro-ministro Passos Coelho com mento é “essencial para melhorar a ção entre o investimento privado e os capital do BPI. O BCP já manifestou capital é de accionistas moçambica-
os responsáveis máximos do Gover- competitividade” das empresas eu- instrumentos europeus já existentes, disponibilidade para avaliar a propos- nos). Luís Villalobos, Maria Lopes
no espanhol e francês, Mariano Rajoy ropeias. como o “fundo Juncker”, para que ta de fusão. As acções do BCP e do e Rosa Soares
e François Hollande, e o presidente Na semana passada, o ministro os investimentos se façam “sem so- MIGUEL NOGUEIRA
da Comissão Europeia, Jean-Claude da Energia, Jorge Moreira da Silva, brecarregar as finanças públicas dos
Juncker, os três países sublinharam a tinha destacado como ponto negativo países ou os consumidores finais”,
intenção de reforçar as interligações da proposta legislativa de Bruxelas sublinhou Passos Coelho.
energéticas entre a Península Ibérica sobre a União Energética o facto de No caso da interligações eléctri-
e a França, não só na electricidade, não haver referência ao papel da Pe- cas, os projectos identificados (co-
mas também no gás, dando novo fôle- nínsula Ibérica como entrada de gás mo a ligação submarina pelo golfo
go ao projecto Midcat, o gasoduto que natural na Europa, aproveitando os de Biscaia, com um custo estimado
ligará a Catalunha ao Sul de França. terminais de Sines e os seis terminais de 1900 milhões de euros) não asse-
“Hoje [ontem] reiniciámos o pro- espanhóis. A Europa continua a “con- guram mais que uma capacidade de
jecto Midcat”, disse o Presidente da centrar todas as portas de entrada transmissão de 8% da energia pro-
França em conferência de impren- [do gás] no Leste”, sem contemplar duzida entre a Península Ibérica e a
sa. Agora vão ter início “os estudos “uma alternativa na fachada atlânti- França (actualmente de 4%). Além
necessários para ver como se pode ca”, lamentou o ministro, que parti- da ligação submarina, há dois novos
passar à segunda fase da obra”, disse cipará hoje no Conselho de Ministros projectos para cruzar os Pirenéus,
Hollande, citado pela Efe. Pormeno- europeus da Energia. O gás que chega com uma estimativa de custos de 900
res conhecidos ainda não há, mas o a Espanha e a Portugal vem de paí- a 1200 milhões de euros. Passos Co-
líder espanhol, Mariano Rajoy, garan- ses como a Argélia (via gasoduto) e a elho diz que há que assegurar os 2%
tiu que a “Declaração de Madrid”, as- Nigéria (sob de forma de gás natural que faltam para se cumprir a meta
sinada pelos países, é um programa liquefeito, por navios). europeia de 10% de interligações em
de acção “com projectos concretos A propósito dos compromissos 2020. Ana Brito BPI, tal como o BCP, tem uma posição sólida em Angola e Moçambique
Berlusconi tenta comprar

Breves
grupo editorial Rizzoli 2014
>>>>>>>>>>>>
China lidera PPC
Mercato, vulgo Antitrust), segundo lar quase metade do mercado”. Em 2014, a China tornou-se o
Património Livros Chancelas do grupo afirmou ontem o seu presidente, Ao mesmo tempo que a Mondado- líder mundial em termos de
Aberto processo Rizzoli, a somar às da Giovanni Pitruzezella.
A concretizar-se a operação, que
ri tenta comprar a Rizzoli, a empre-
sa EI Towers, controlada pela Media-
paridade do poder de compra
(PPC), segundo a avaliação do
para classificação Mondadori, dariam 40%
do mercado do livro ao ex-
a imprensa italiana estima que se sat de Berlusconi, lançou uma OPA FMI, que lhe atribui um valor
da Ponte 25 de Abril -chefe do Governo italiano
possa situar entre os 120 e os 150 mi-
lhões de euros, a Mondadori soma-
sobre a Rai Way, empresa pública
que detém 2300 torres de transmis-
de 17,6 milhões de milhões de
dólares, enquanto os EUA ficam
A Direcção-Geral do ria às várias chancelas que já detém, são de sinais de televisão. A EI To- nos 17,4. Há muito que a China
Património Cultural (DGPC) O grupo editorial Mondadori, detido e que incluem a prestigiada Einau- wers gere já 3200 torres, pelo que lutava por esta posição. Já em
determinou a abertura pela Fininvest de Silvio Berlusconi, di, editoras tão importantes como a a operação parece visar o controlo 2007, o PÚBLICO registava a
do procedimento para a está a tentar comprar o sector edito- Bompiani, a Fabbri ou a Adelphi. de todo o sistema de comunicação capacidade de emergência da
classificação da Ponte 25 rial do grupo Rizzoli-Corriere della Meia centena de autores da Bom- televisiva em Itália. China. Em 2010, essa vontade
de Abril, que liga Lisboa Sera (RCS), a RCS Libri, o que daria piani já protestou contra o anuncia- Há quem veja na conjugação das acelera-se com a China a
a Almada. No processo ao ex-primeiro-ministro uma quo- do negócio, publicando uma carta duas operações uma vingativa tenta- ultrapassar o Japão, como
agora a ser analisado pela ta de mercado de cerca de 40% no aberta assinada por vários escrito- tiva de desestabilizar o Governo de segunda economia mundial, e a
DGPC, a Ponte 25 de Abril mercado italiano do livro. res italianos, como Andrea de Car- Matteo Renzi, que fez a Berlusconi ser superada apenas pelos EUA.
é considerada uma das A Mondadori fez uma oferta não lo ou Susana Tamaro, mas também a desfeita de indicar para Presiden- Mas em PIB, os EUA atingem
“obras de engenharia civil vinculativa à RCS no dia 18 de Feve- estrangeiros, de Tahar Ben Jelloun te da República o juiz Sergio Matta- o dobro da China. Em 2013,
mais marcantes de Lisboa e, reiro, mas não chegou ainda nenhu- a Michael Cunningham. rella, um crítico do ex-governante. segundo o FMI, o PIB dos EUA era
certamente, de Portugal”. ma informação oficial à autoridade O próprio ministro da Cultura, Da- Renzi já disse que se trata apenas de de 15,6 milhões de milhões de
Destacando-se os valores italiana da concorrência (Autorità rio Franceschini, disse achar “dema- “operações de mercado”. US$ e a China fica-se pelos 8,2.
singular, urbanístico, Garante della Concorrenza e del siado perigoso uma empresa contro- Luís Miguel Queirós S.J.A.
simbólico, artístico/estético,
de engenharia e histórico. PUBLICIDADE

Inaugurada em 1966 pelo


regime de Salazar, que
deu nome à estrutura até à
revolução de 25 de Abril de
1974, a ponte veio unir pela
primeira vez em Lisboa as
duas margens do Tejo e mais
tarde, em 1999, pela linha do
comboio. Os 50 anos da ponte
são celebrados no próximo
ano a 6 de Agosto.

França
Brasil é o país
convidado do Salão
do Livro de Paris
O Brasil volta a ser o país
convidado do Salão do
Livro de Paris, de 20 a 23 de
Março, numa altura em que
em França “se vendem mais
livros” sobre o país, segundo
o responsável da Librairie
Portugaise & Brésilienne,
Michel Chandeigne. São 48
os autores brasileiros que vão
estar presentes na 35.ª edição
do Salão do Livro de Paris, o
segundo dedicado ao Brasil,
indicou o livreiro, destacando
nomes como Luiz Ruffato,
Antônio Torres, Bernardo
Carvalho, Milton Hatoum,
Daniel Galera, Patrícia Melo,
Ronaldo Correia de Brito,
Nélida Piñon, Ana Maria
Machado, Cristóvão Tezza,
Edyr Augusto e Fernando
Morais. Também presente na
feira vai estar Paulo Coelho.
Além do Brasil, as cidades
polacas de Cracóvia e de
Wroclaw são igualmente
“convidadas de honra”.
Eden Hazard A Taça de Portugal
salva o Chelsea
no terreno é o “quase tudo” do
do West Ham Breves Sporting na época
bela classificativa. Após a derrota
Futebol José Mourinho no terreno do Liverpool na última Espanha Futebol “Leões” jogam Estádio da Madeira 20h15
Funchal SPTV1
manteve vantagem de cinco ronda, o City regressou aos triunfos,
batendo em casa o “lanterna verme-
Barcelona ultrapassa hoje na Madeira frente
Nacional 4-3-3
pontos sobre o Manchester
City e tem menos uma
lha” Leicester, por 2-0, com golos Villarreal e está na ao Nacional. Jefferson
volta à equipa, enquanto
partida disputada
de David Silva (45’) e James Milner
(88’). O Arsenal cumpriu também
final da Taça do Rei Nani vai ficar de fora
Gottardi

Zainadine Boubacar
a sua missão no terreno do Queens Depois de uma vitória por J. Aurélio Marçal
Moralizado com a recente conquista Park Rangers, de onde saiu com uma 3-1 em casa, o Barcelona Muito do destino do Sporting em Ghazal
da Taça da Liga, o Chelsea regressou vitória por 2-1, com todos os golos a aplicou o mesmo resultado 2014-15 ficou decidido nos últimos Gomaa T. Rodrigues
ao campeonato com o pé direito e serem apontados na segunda meta- na segunda mão das meias- dez jogos. Foi nesta dezena de en-
bateu fora o West Ham, por 1-0, man- de do encontro. Olivier Giroud (64’) finais da Taça do Rei e acabou contros que os “leões” ficaram afas- L. Aurélio M. Matias
L. João
tendo a liderança confortável da pro- e Alexis Sanchez (69’) colocaram os definitivamente com as tados da Liga Europa e da Taça da
va, com cinco pontos de vantagem visitantes confortáveis no comando, aspirações do Villarreal. Três Liga, para além de terem perdido
sobre o Manchester City (e um jogo com Charlie Austin a reduzir a oito minutos bastaram para os terreno para os dois primeiros na Slimani
Carrillo Mané
em atraso). Numa partida emotiva, minutos dos 90’. catalães imporem a sua lei. Liga portuguesa. Apesar de as dis-
com inúmeras oportunidades de golo Bem mais complicada foi a tarefa Lionel Messi, numa diagonal tâncias para Benfica (12 pontos) e FC J. Mário Adrien
nas duas balizas, acabou por valer o do Manchester United para derrotar em direcção à área, picou Porto (8) poderem ser encurtadas William
Jefferson Cédric
golo de Eden Hazard, aos 22’, para fora de portas o Newcastle. Ashley a bola por cima da defesa e nas 11 jornadas que restam do cam-
manter em clima festivo o treinador Young marcou o único golo da parti- Neymar, muito rápido, desviou peonato, o único objectivo realista T. Figueiredo P. Oliveira
José Mourinho. da, aos 89’. Um resultado que mante- a bola por cima do guarda- do Sporting para a época é a Taça de Rui Patrício
Mas a 28.ª jornada da prova cor- ve os red devils no quarto posto. redes adversário. O Villarreal Portugal. Esse “quase tudo” tem hoje
reu bem à maioria das equipas que Logo a seguir, no último lugar de ainda empatou aos 39’, por a primeira parte na Choupana, fren- Sporting 4-3-3
ocupam os primeiros lugares da ta- acesso às competições europeias, Jonathan dos Santos, mas, te ao Nacional da Madeira, em jogo
segue o Liverpool, que continua a no segundo tempo, o médio da primeira mão das meias-finais. Árbitro: Carlos Xistra C. Branco
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recuperar terreno depois de um Tomás Pina foi expulso e Depois de superada uma prova
APOIO início de temporada desastroso, e comprometeu definitivamente de fogo (eliminação do FC Porto no anos e acreditamos que vai ser este
Ao presidente da República Bolivariana ontem recebeu e venceu o Burnley, as aspirações da equipa da Dragão) na entrada em prova, os “le- ano”, salientou o técnico “leonino”,
da Venezuela Nicolás Maduro, Governo por 2-0. Restantes resultados: Stoke casa. O Barcelona chegou ões” tiveram três equipas dos esca- que não quis comentar as notícias
Bolivariano, Missões e Poder Popular. City-Everton, 2-0; Tottenham-Swan- com naturalidade ao triunfo, lões secundários nas eliminatórias sobre a cláusula de dispensa sem
José Francisco dos Santos Morgado sea City, 3-2. com golos de Suárez (73’) e seguintes e voltam, nas meias-finais, custos que terá no seu contrato com
Júlio Augusto Campos Gonçalves
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Neymar (89’). O adversário a defrontar uma equipa da I Liga. Os o Sporting se não ficar entre os três
dos catalães sairá do embate jogos na Choupana costumam ser primeiros no campeonato.
GUIMARÃES entre A. Bilbau e Espanyol, que
decorria à hora de fecho desta
complicados, sendo que o Sporting
até venceu sempre no campo dos
Para a deslocação à Madeira,
Marco Silva já pode contar com Je-

DR. JOSÉ FERNANDO DE ANDRADE edição. madeirenses nas três eliminatórias


da Taça que lá jogou — os “leões”
fferson. O brasileiro foi reintegrado
nos trabalhos da equipa principal,
LEITE FERNANDES DA SILVA França
nunca perderam, aliás, com o Nacio-
nal nas cinco vezes que se defronta-
depois de mais de uma semana afas-
tado devido a um desentendimento
Agradecimento e Missa de 7.º Dia Mónaco afastado ram nesta competição.
Servirá a Taça para salvar uma
com o presidente do clube, e deve-
rá voltar a ocupar o lado esquerdo
A Família convida todas as pessoas das suas re- pelo PSG da Taça época em que as perspectivas de da defesa, que foi de Jonathan Silva
lações e amizade a assistir à Missa de 7.º Dia do
falecimento do seu ente querido, que será cele-
de França em Paris sucesso ficaram dramaticamente
reduzidas na última semana? Mar-
frente a Wolfsburgo e FC Porto. De
fora dos convocados ficou Nani, que
brada hoje quinta-feira dia 5 às 19.00 horas, na O Mónaco foi ontem afastado co Silva não é dessa opinião. “Não apresenta fadiga muscular e foi pou-
Igreja de Matamá. da Taça de França, ao perder a vejo dessa forma. Era um dos ob- pado, devendo voltar aos treinos no
Sensibilizadamente agradece todas as manifes- com o Paris SG, por 2-0, na jectivos no início da época e esta- sábado, com vista ao próximo jogo
tações de pesar recebidas aquando do funeral,
capital francesa, em partida mos em prova. Sabemos que vai do campeonato, na segunda-feira
assim como a presença no Piedoso ato.
dos quartos-de-final da prova. ser difícil estar na final, mas vamos em Alvalade, frente ao Penafiel.
Guimarães, 5 de Março de 2015 Três dias depois de as duas consegui-lo, tem de ser esse o nos- Se o Sporting não se apresenta no
A Família equipas terem empatado so pensamento. É um objectivo que seu melhor nesta primeira mão das
Agência Funerária Santo Estevão, Lda. a zero para o campeonato, perseguimos enquanto clube há sete meias-finais, o Nacional surge num
em Monte Carlo, desta vez a bom momento (quatro vitórias nos
equipa monegasca não evitou últimos seis jogos), que lhe permitiu
o desaire, que começou a subir bastante na classificação e vol-
ganhar forma logo aos 3’, tar a sonhar com um lugar europeu.
com um golo de cabeça do “Vamos partir para este jogo com a
ex-benfiquista David Luiz, confiança alargada, mas sabemos
na sequência de um canto. que será uma partida diferente, nu-
Com uma defesa bastante ma eliminatória a duas mãos, frente
remendada, devido a lesões a um adversário forte, que tem por
e castigos, o conjunto de hábito conquistar títulos”, salientou
Leonardo Jardim (que deixou Basílio Marques, adjunto do técnico

Jorge Jonet fora da equipa titular os


portugueses Bernardo Silva e
Manuel Machado.

João Moutinho) não conseguiu A crónica do jogo Nacional-


reagir e acabou por sofrer o Sporting das meias-finais da
Missa de 7.º dia segundo golo já na segunda Taça de Portugal não será
metade do encontro, quando publicada amanhã na edição
A Família informa que será rezada missa por sua alma na Igreja Cavani correspondeu da de papel devido ao fecho
Matriz de Cascais, na quinta-feira, 5 de Março de 2015, às 19h15 melhor forma a um passe de antecipado da mesma, mas pode
e agradece a todos os que se quiserem associar. Verratti, aos 52’. Marco Silva espera um triunfo ser lida em www.publico.pt/
do Sporting na Choupana desporto.
TEMPO LIVRE Cinquenta Sombras de Grey M16. 15h40, 18h20, 21h10, 23h50; O Amigo do Felicidade M12. 18h20; Olhos Grandes M12. Americano M12. 21h10; SpongeBob:

CINEMA 18h35, 21h20; Chappie M12. 16h, 18h40,


21h30; Mar Negro M12. 16h20, 19h,
21h40; Sniper Americano M12. 16h50,
Peito M12. 13h20, 16h, 21h, 23h40; Olhos
Grandes M12. 18h40; Chappie M12. 13h30,
16h10, 18h50, 21h40, 00h30; As Cinquenta
13h15, 15h50, 21h40, 00h15; Rio 2096: Uma
História de Amor e Fúria M12. 13h; A Jaula
de Ouro M12. 12h50, 15h25, 17h55, 21h05,
Esponja Fora de Água M6. 15h30, 17h45
(V.Port.); As Cinquenta Sombras de
Grey M16. 15h40, 18h20, 21h20; A Teoria de
Lisboa 21h15; Um Vizinho Insuspeito M12. 16h10, Sombras de Grey M16. 13h, 15h50, 18h30, 23h35; Mar Negro M12. 12h55, 15h45, 18h30, Tudo M12. 15h25, 18h10, 21h25; Kingsman:
18h30, 21h10; Kingsman: Serviços 21h20, 24h; A Teoria de Tudo M12. 21h30, 21h15, 23h50 Serviços Secretos M16. 15h35, 18h25, 21h20
@Cinema Secretos M16. 16h, 18h50, 21h40; A 00h20; SpongeBob: Esponja Fora de
Av. Fontes Pereira de Melo - Edifício Ascensão de Jupiter M12. 16h05, 18h55, Água M6. 13h10, 15h20, 17h20, 19h20
Saldanha Residence. T. 210995752 21h45; O Excêntrico Mortdecai M12. (V.Port.)
Amadora Sintra
Mar Negro M12. 15h30, 18h15, 21h30 21h15; Rio 2096: Uma História de Cinemateca Portuguesa CinemaCity Alegro Alfragide Cinema City Beloura
Cinema City Alvalade Amor e Fúria M12. 16h40, 19h; O R. Barata Salgueiro, 39 . T. 213596200 C.C. Alegro Alfragide. T. 214221030 Quinta da Beloura II, Linhó. T. 219247643
Av. de Roma, nº 100. T. 218413040 Jogo da Imitação M12. 15h50, 18h25, O Lírio Quebrado 21h30; Broken Annie M12. 13h10, 15h25, O Meu Nome É Alice M12. 17h25,
Selma - A Marcha da Liberdade M12. 12h40, 21h10; Annie M12. 16h15; O Amigo do Blossoms 15h30; Voo Feliz 19h 17h40; Chappie M12. 13h20, 15h50, 18h30, 19h50; The Homesman - Uma Dívida de
15h10; Mil Vezes Boa Noite M12. 13h, 15h15, Peito M12. 19h10, 21h35 Medeia Fonte Nova 21h30, 24h ; O Amigo do Peito M12. 13h25, Honra M12. 15h55, 18h20, 21h30; A Teoria
21h50; O Jogo da Imitação M12. 19h40; O Cinemas Nos Amoreiras Est. Benfica, 503. T. 217145088 15h25, 17h25, 20h, 22h10, 00h20; Um de Tudo M12. 17h30, 21h45; Annie M12.
Meu Nome É Alice M12. 17h40, 19h50, 21h55; Av. Eng. Duarte Pacheco. T. 16996 O Pequeno Quinquin M12. 14h30; Olhos Vizinho Insuspeito M12. 13h40, 15h30, 15h35, 17h55; SpongeBob: Esponja
A Teoria de Tudo M12. 17h30; A Jaula de As Cinquenta Sombras de Grey M16. Grandes M12. 18h45, 22h; Grand Budapest 17h40, 19h40, 22h, 00h10; O Jogo da Fora de Água M6. 15h30, 17h45
Ouro M12. 21h35; Grand Budapest Hotel 12h30, 15h20, 18h, 21h, 23h50; Olhos Hotel M12. 14h; Vício Intrínseco M16. 18h30, Imitação M12. 19h40, 21h40; O Excêntrico (V.Port.); Kingsman: Serviços
M12. 13h10; The Homesman - Uma Dívida Grandes M12. 13h30, 16h, 21h40, 21h30; Um Vizinho Insuspeito M12. 14h15, Mortdecai M12. 00h15; As Cinquenta Secretos M16. 15h45, 21h50; Hector
de Honra M12. 13h20, 15h50, 18h30, 21h45; 00h10; Chappie M12. 13h, 15h40, 18h40, 16h45, 19h15, 21h45 Sombras de Grey M16. 13h15, 15h55, e a Procura da Felicidade M12. 15h25,
Selma - A Marcha da Liberdade M12. 12h40, 21h20, 24h; Escobar: Paraíso Perdido M16. Medeia Monumental 17h50, 19h, 21h40, 00h20; SpongeBob: 18h50, 21h35; Mil Vezes Boa Noite M12.
15h10; Olhos Grandes M12. 15h20, 19h30 18h; Ela Adora-o M12. 13h10, 15h30, 20h50, Av. Praia da Vitória, 72. T. 213142223 Esponja Fora de Água M6. 13h35, 15h35, 19h25; O Jogo da Imitação M12. 19h45,
Cinema Ideal 23h20; A Teoria de Tudo M12. 12h50, Leviatã M12. 13h30, 16h10, 18h50, 18h10, 19h55 (V.Port.); Hector e a Procura 21h55; O Excêntrico Mortdecai M12.
Rua do Loreto, 15/17. T. 210998295 15h50, 21h10, 23h55; Hector e a Procura da 21h30; Vício Intrínseco M16. 13h20, 16h05, da Felicidade M12. 13h30, 15h50, 19h35, 15h20; Sniper Americano M12. 18h40,
Ida 13h45, 17h15, 20h30; Yvone Kane M12. Felicidade M12. 16h10, 18h30; Birdman ou 18h55, 21h40; Birdman ou (A Inesperada 21h55; Birdman ou (A Inesperada Virtude 21h20; As Cinquenta Sombras de Grey M16.
15h10, 22h; O Espírito de 45 M12. 12h, 18h45 (A Inesperada Virtude da Ignorância) M12. Virtude da Ignorância) M12. 19h35; Olhos da Ignorância) M12. 19h20; Sniper 21h40; Chappie M12. 15h40, 18h30, 21h35
CinemaCity Campo Pequeno 19h10; O Meu Nome É Alice M12. 13h40, Grandes M12. 13h10, 15h15, 17h25, 22h; The Americano M12. 21h45, 00h25; O Meu Castello Lopes - Fórum Sintra
Centro Lazer do Cp. Pequeno. T. 217981420 16h30, 21h50, 00h05; The Homesman - Homesman - Uma Dívida de Honra M12. Nome É Alice M12. 13h, 15h45, 21h50; A Loja 2.21 - Alto do Forte. T. 760789789
O Amigo do Peito M12. 13h30, 21h45, Uma Dívida de Honra M12. 13h20, 18h50, 12h, 14h30, 16h55, 19h20, 21h50 Teoria de Tudo M12. 13h25, 15h, 17h20, SpongeBob: Esponja Fora de Água M6.
00h30; Olhos Grandes M12. 15h30, 21h30, 00h15 Nimas 21h45; Selma - A Marcha da Liberdade M12. 15h10, 17h10 (V.Port.); O Amigo do
17h35, 19h40, 23h50; O Jogo da Cinemas Nos Colombo Av. 5 Outubro, 42B. T. 213574362 23h50; Kingsman: Serviços Secretos M16. Peito M12. 21h45; Olhos Grandes M12.
Imitação M12. 19h25; SpongeBob: Av. Lusíada. T. 16996 Yvone Kane M12. 14h, 16h30, 19h, 21h30 13h30, 16h10, 18h50, 21h35, 00h15; Vício 19h; As Cinquenta Sombras de Grey M16.
Esponja Fora de Água M6. 13h25, 15h25, SpongeBob: Esponja Fora de Água M6. Teatro Tivoli Intrínseco M16. 23h55; Rio 2096: Uma 16h, 18h50, 21h40; Mar Negro M12. 15h40,
17h25 (V.Port.); Kingsman: Serviços 13h15, 15h30 (V.Port./2D), 17h50 Av. Liberdade, 182. T. 213572025 História de Amor e Fúria M12. 17h45, 00h25; 18h30, 21h20; Chappie M12. 15h50, 18h40,
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13h35, 15h35, 17h45, 19h45, 21h50, 00h10 ; Crime M16. 19h; Rio 2096: Uma História Escobar: Paraíso Perdido M16. 19h10, 21h30; SpongeBob: Esponja Fora de Insuspeito M12. 15h20, 17h20, 19h20, 21h50
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17h20; Hector e a Procura da Felicidade de Tudo M12. 12h45, 15h35, 21h10, 24h 14h20, 16h50; Annie M12. 14h05; As Cinquenta Sombras de Grey M16. 13h40,
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Leviatã

Em estreia
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cinecartaz@publico.pt

21h10; Filho do Crime M16. 18h45; As Centro de Arte Moderna

TEATRO
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12h50, 15h30, 18h10, 21h; O Amigo do 5/6 a 31/5. 3ª a Dom das 10h às 18h.
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RUS. 2014. 140m. Drama. M12. 2014. 114m. Thriller. M12. Pintura. Isto É Uma Ponte De Bernard Frize.
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13h30, 16h10, 18h30, 21h30 Amor e Informação De Caryl Churchill. Enc. no Mar de Barents, Kolya leva dedicou a sua vida ao mar. Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva
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Insuspeito M12. 13h20, 15h45, 18h45, Rua António Maria Cardoso, 38. mexicana e tentar a vida nos EUA. Mary Bee Cuddy é alguém que Desenho. Obra Convidada: Baco, Vénus
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Teatro Villaret 120m. Thriller. M12. Claire luta por se manter de pé às 17h45. Fotografia. Uma Biblioteca
PUBLICIDADE Av. Fontes Pereira Melo, 30A. T. 213538586 Num futuro próximo, a polícia depois da recente separação. Humanista De 27/2 a 24/5. 3ª a Dom das 10h
Sílvia Enc. Almeno Gonçalves. De 30/1 a transformou-se numa força Quando Noah, um jovem de 19 às 18h. Documental, Objectos.
22/3. 5ª a Sáb às 21h30. Dom às 16h. M/12.
opressora robotizada. É então anos, se muda para a casa ao

MÚSICA
que é criado um “robot” lado, ela vê nele a oportunidade
Almada dotado de uma programação de Kevin, o seu filho, fazer novas
DESTAQUES DO DIA Teatro Municipal Joaquim Benite mais avançada que lhe confere amizades. Embora Noah passe
Grande Auditório Avenida Professor Egas Moniz. T. 212739360
Moby-Dick De Herman Melville. Comp.:
sentimentos e inteligência a maior parte do tempo com Lisboa
13.30 – HUNGER Z/HUNGER própria. Chappie “nasce“ assim Kevin e o ajude a superar as suas
teatromosca. Com Pedro Mendes. De 5/3 a Culturgest
OF THE DEAD de Naoto 6/3. 5ª e 6ª às 21h30 (na Sala Experimental). para a vida como uma criança, inseguranças, Claire percebe Rua Arco do Cego - CGD. T. 217905155
Tsukiashi, 74’ (Japão), CF/OE M/12. Duração: 105m. O Pelicano De August capaz de aprender, improvisar e que o adolescente nutre uma Joel Silva Dia 5/3 às 21h30.
Strindberg. Enc. Rogério de Carvalho. Com transformar-se. atracção por ela. Um dia ela cede Fundação e Museu Calouste Gulbenkian
15.00 – THE JANITOR de
Joana Francampos, Maria Frade, Adriano Avenida de Berna, 45A. T. 217823000
Michael Tuviera, 115’ (Filipinas), Carvalho, Pedro Walter, Teresa Gafeira. De
à tentação e acaba por passar Orquestra Gulbenkian Com João Reis
17.00 – A CRY FROM WITHIN 20/2 a 8/3. 4ª a Sáb às 21h30. Dom às 16h (na Ela Adora-o uma noite com o rapaz. O que ela (narração). Enc. Jean-Philippe Clarac, Olivier
Sala Principal). M/12. Duração: 90m. De Jeanne Herry. Com Sandrine não imaginava era que acabara Deloeuil. De 5/3 a 6/3. 5ª às 21h. 6ª às 19h.
de Deborah Twiss, 95’ (EUA), Hot Clube de Portugal
Kiberlain, Laurent Lafitte, de entrar num pesadelo.
18.45 – OMEGA 3 de Eduardo Praça da Alegria, 48. T. 213619740

EXPOSIÇÕES
Pascal Demolon. FRA. 2015.
del Llano, 74’ (Cuba), CF John Gunther Quartet De 5/3 a 7/3.
104m. Comédia. M12. Vingança ao Anoitecer 5ª a Sáb às 22h30 e 24h.
21.15 – KEEPING ROSY de Muriel é uma esteticista De Paul Schrader. Com Nicolas Lux Frágil
Cage, Anton Yelchin, Alexander Av. Infante D. Henrique. T. 218820890
Steve Reeves, 93’ (UK), SR Lisboa conhecida pela capacidade de
C.R.E.A.M.: DJ Glue + Ekali + Chainless
23.00 – HORSEHEAD de inventar histórias mirabolantes. Karim. EUA. 2014. Thriller. M12.
Centro Cultural de Belém Dia 5/3 às 01h.
Romain Basset, 89’ (França), CF Praça do Império. T. 213612400 Para além dos seus dois filhos, do Evan Lake é um condecorado Museu do Fado
Pequeno Auditório A Coisa Mais Importante De Brian que ela mais gosta na vida é de agente da CIA cuja entrega, Largo do Chafariz de Dentro, 1. T. 218823470
Sokol. De 6/2 a 8/3. Todos os dias 24h. Vincent Lacroix, um cantor muito determinação e patriotismo Fábia Rebordão & Dino D’Santiago
21.30 – LOST AFTER DARK de Fotografia. Guido Guidi. Carlo Scarpa. De 5/3 a 12/3. 5ª às 21h. Fados.com.
popular. Certa noite, acontece constituem uma inspiração para
Ian Kessner, 88’ (Canadá), P&P Tomba Brion De 9/12 a 8/3. 3ª a Dom
das 10h às 18h (Garagem Sul, entrada algo totalmente inusitado: todos. Quando descobre que
23.00 – RETRO
RETROSPECTIVA
pelo Jardim das Oliveiras). Fotografia, Vincent bate à porta de sua casa e o terrorista Muhammad Banir Faro
FERNANDO VENDRELL: PELE de Arquitectura. Homeland, News from pede-lhe para o ajudar a esconder ainda está vivo, decide lançar-se Teatro Municipal de Faro
Fernando Vendrell, 102’ Portugal De vários autores. o cadáver de uma mulher... na sua derradeira missão. Horta das Figuras (EN125). T. 289888110
De 9/12 a 8/3. 3ª a Dom das 10h às 18h. Adriana Calcanhotto Dia 5/3 às 21h30.
Os mais vistos da TV
Terça-feira, 03
RTP1 16,9%
%

Mar Salgado
% Aud. Share
SIC 15,2 30,6
2: 2,1
Secret Story TVI 12,1 24,2 SIC 20,4
TVI
Telejornal RTP1 12,0 25,0
Jornal das 8 TVI 11,6 23,5 22,1
Cabo
Leg City,
Lego Jornal da Noite SIC 11,5 23,3
lazer@publico.pt
Biggs, 16.00
Big FONTE: CAEM
28,3

de todos os estratos sociais que


CINEMA RTP1 TVC1 FOX são vítimas de desamor dos
6.30 Bom Dia Portugal 10.00 Agora 10.35 Palácio das Necessidades 12.30 14.30 Hawai Força Especial 15.20 companheiros. Revela também as
A Profecia Celestina Nós 13.00 Jornal da Tarde 14.19 Os Frozen - O Reino do Gelo (V.P) 14.15 Investigação Criminal: Los Angeles vidas escondidas, o percurso até às
[The Celestine Prophecy] Nossos Dias 15.01 Há Tarde 18.00 Em Segredo 16.05 Lay the Favorite - 17.00 Flashpoint 18.40 Investigação casas de abrigo e a aplicação da lei
MOV, 17h55 Portugal em Directo 18.48 O Preço Memórias de Uma Jogadora 17.40 Um Criminal: Los Angeles 20.25 Hawai que, muitas vezes, tarda em chegar.
Baseado no best-seller homónimo Certo 19.47 Direito de Antena 20.00 Quente Agosto 19.45 Frozen - O Reino Força Especial 00.05 Elementar
de James Redfield, é a história Telejornal 20.50 A Opinião de Nuno do Gelo (V.P) 21.30 Jobs 23.40 Em
da vida de John Woodson, que Morais Sarmento 21.20 Festival RTP Segredo 1.30 América: Cá Vamos Nós SÉRIE
acaba de perder o emprego como da Canção 2015 (2.ª semifinal) 22.56 FOX LIFE
professor de História e está numa Factura da Sorte 23.00 Quem Quer 13.31 Filme: The Choking Game 15.03 Homens Trabalhando
encruzilhada. A sua vida está à Ser Milionário 00.02 Portugueses FOX MOVIES Em Contacto 15.53 No Limite 16.49 AXN White, 13h10
beira de sofrer uma profunda Pelo Mundo - Especial Luanda 00.35 10.53 É Muito Rock, Meu! 12.39 Filme: Clara’s Deadly Secret 18.27 Comédia sobre quatro amigos que
metamorfose que será iniciada Voo Directo - A Vida a 900 à Hora 1.30 Perigo no Oceano 14.22 À Procura de My Kitchen Rules 19.39 Em Contacto se ajudam mutuamente nas agruras
com um telefonema de uma antiga Inesquecível 2.59 Maternidade 3.49 Vingança 15.52 Terra Fria 17.56 Super- 21.25 Rizzoli & Isles 22.20 Empire 23.17 do trabalho, nas amizades e no
namorada. Charlene é jornalista e Verdade do Vinho Homem IV - Em Busca da Paz 19.24 House of Secrets 1.09 My Kitchen estranho mundo das mulheres… No
acabou de chegar do Peru, de onde Profissão: Duro 21.15 Equilibrium 22.59 Rules início da terceira temporada, Neal
voltou fascinada com a história de Estranhos Prazeres 1.20 Evan, O Todo- tenta arranjar coragem para pedir a
uma antiga profecia. John acaba RTP2 Poderoso 2.53 As Regras da Casa mão de Amy em casamento.
por se deixar convencer e embarca 7.00 Zig Zag 10.45 Euronews 13.05 DISNEY
numa viagem até àquele país, Luz e Escuridão - Escuridão 14.00 16.20 Recreio 17.10 Phineas e Ferb
num percurso iniciático que o Sociedade Civil 15.30 Campeonato da HOLLYWOOD 17.35 Sabrina: Segredos de uma Bruxa ENTRETENIMENTO
conduzirá a inúmeras aventuras e Europa de Atletismo em Pista Coberta 10.45 Profundo Como o Mar 12.30 18.00 Violetta 18.55 Riley e o Mundo
à descoberta das pistas que levam 2015 18.03 Zig Zag 20.13 Feras Eduardo Mãos de Tesoura 14.15 A 19.20 O Meu Cão Tem Um Blog 19.45 Sabores de África com Kiran
à revelação da Profecia Celestina. Lendárias 21.00 Jornal 2 21.46 Página Senhora da Água 16.05 Casanova Austin & Ally 20.07 Jessie 20.30 Jethwa
2 22.00 Os Influentes (Estreia) 22.47 17.55 Um Polícia no Jardim-Escola Violetta 24Kitchen, 21h00
Aguenta-te Canalha! Criar é Fundamental 22.55 O Povo Que 19.50 Rambo: A Vingança do Herói Estreia da terceira temporada.
[Giù la Testa] Ainda Canta 23.30 A Professora que 21.30 Out of Time - Tempo Limite O chef Kiran Jethwa continua a
TVC2, 19h20 Desafiou Hitler 00.20 Contentor 13 - 23.20 No Vale de Elah 1.25 Oh Não! DISCOVERY mostrar os melhores e mais ricos
Um filme do realizador que deu Tiago Salazar 00.50 Janela Indiscreta Outro Filme de Adolescentes 18.15 Ouro Abaixo de Zero 20.05 paladares africanos, em pratos
a forma definitiva ao western- 1.28 Sociedade Civil 3.00 Euronews Leilões em Família 20.30 Guerra de vibrantes, cheios de cor e explosões
spaghetti. Mais uma vez, Sergio Propriedades 21.00 Retro Tuning de sabor. Em simultâneo, revela
Leone constrói uma história onde AXN 22.00 Overhaulin’ 23.00 Mestres do outras tradições, costumes e
nada é o que parece. É um western SIC 14.41 Inesquecível 15.30 Mentes Restauro 23.55 Mestres do Restauro iguarias locais.
diferente, mais político, passado 6.00 SIC Notícias 6.20 Perdidos e Criminosas 17.10 Investigação Criminal 00.45 Overhaulin’
em plena revolução mexicana. Achados 6.35 Abandonados 7.00 18.50 Inesquecível 20.30 Chicago Fire
Mas também contém muita acção, Edição da Manhã 8.45 A Vida nas 22.15 Como Defender um Assassino DOCUMENTÁRIO
com Juan Miranda (Rod Steiger) a Cartas - O Dilema 10.15 Queridas 23.10 Mentes Criminosas 00.06 HISTÓRIA
roubar bancos para libertar presos Manhãs 13.00 Primeiro Jornal 14.45 Investigação Criminal 19.04 A Terra Assassina 19.48 Loucos A Professora Que Desafiou Hitler
políticos mexicanos com a ajuda Duas Caras 15.45 Grande Tarde 19.15 por Carros 20.10 Loucos por Carros RTP2, 23h30
de John Mallory ( James Coburn), Alto Astral 20.00 Jornal da Noite 21.40 20.32 Loucos por Carros 20.54 Um documentário BBC sobre
um terrorista irlandês que tenta Mar Salgado 22.55 Império 00.00 AXN BLACK Loucos por Carros 21.16 Loucos por Leonore Goldschmidt, uma
fugir ao seu passado – uma equipa Lado a Lado 00.50 C.S.I Las Vegas 1.45 14.39 Resurrection 15.26 Filme: Get Carros 21.38 Loucos por Carros 22.00 professora desempregada que
estranha mas eficaz. Como não Cartaz Cultural 2.35 Jura Low - A Lenda de Felix Bush 17.09 Restauradores 22.21 Restauradores descobriu uma falha na lei e, em
podia deixar de ser, a banda Sangue Fresco 21.12 Resurrection 22.43 Restauradores 23.04 1935, abriu em Berlim a Escola
sonora é da responsabilidade de 22.00 Filme: Get Low - A Lenda de Felix Restauradores 23.26 Pesca Selvagem Goldschmidt, protegendo centenas
Ennio Morricone. TVI Bush 23.46 Filme: O Demónio 1.10 00.10 Pesca Selvagem de jovens e crianças judias.
6.30 Diário da Manhã 10.10 Você na Sangue Fresco
TV! 13.00 Jornal da Uma 14.43 Flor do
REPORTAGEM Mar 16.00 A Tarde é Sua 18.37 Feitiço ODISSEIA DESPORTO
do Amor 19.16 S. S. Luta pelo Poder AXN WHITE 18.41 Leões Brancos da África do Sul
O Amor Não Mata 20.00 Jornal das 8 21.40 S. S. Luta 13.54 Filme: Cromofobia 16.12 Franklin 19.35 Não Desistas 20.16 O Milionário Taça de Portugal (meia-final)
SIC, no Jornal da Noite pelo Poder 22.45 Jardins Proibidos & Bash 16.56 A Vida Secreta de uma Secreto 21.01 Os Tontos mais Loucos SPTV1, 20h15 | Nacional x Sporting
Um trabalho da jornalista Ana Sofia 23.50 Mulheres 00.28 S. S. Luta Teenager Americana 18.24 Chamem 21.25 Os Tontos mais Loucos 21.48
Fonseca e do repórter de imagem pelo Poder 1.46 Autores 2.44 Cartas a Parteira 19.24 Era Uma Vez 21.00 1000 Formas de Morrer 22.30 Não Futebol: Taça de Itália (meia-
Paulo Cepa sobre as vítimas de da Alma 3.42 Defesa à Medida 4.26 Infiéis 21.50 Filme: Cromofobia 00.08 Desistas 23.11 O Milionário Secreto final)
violência doméstica. A reportagem Batanetes Filme: Shanghai Noon 23.55 Não Desistas SPTV2, 19h45 | Juventus x
apresenta histórias de mulheres Fiorentina
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TEMPO DO LEITOR
O que é o tempo? Venham mais 25 de abraçar alguém ou algo que Pedido no dia 5 ter opiniões — bem fundamentadas
espero todos os dias desde que — e não pode unicamente dedicar-
O que sabemos da vida é apenas a No meu tempo, as conversas vos conheço. Apesar desses 25 Não tenho veleidades, mas vou -se às notícias relâmpago do dia-a-
memória de um tempo, do tempo, tinham enredo, conteúdo, tudo era anos, parecem muito mais novos tentar... que esta singela carta saia dia (...). E a qualidade diária ainda
que já passou. O tempo passado plausível, tudo era questionável. (contradição com o início do texto; no dia 5. Com um pedido pequeno: é o que diferencia o PÚBLICO
só existe nas nossas memórias, No meu tempo, a palavra de nem por isso). Mais um elogio. dêem mais espaço aos leitores, de outros jornais diários, que ou
nas nossas recordações — com ele, honra era honrada, assumida Dispensável. Mas a verdade é que, todos os dias e não num só, o das caem, ou vendem superficialidades
vamos imaginando a construção do conscientemente, nomeadamente se comparar o vosso trabalho, pelo comemorações. Com critério, (...).
futuro. por quem exerce cargos públicos. menos eu, não encontro outro que sim senhor, mas não “roubando” E fica a obrigação do PÚBLICO
Vou caminhando o caminho, No meu tempo, a comunicação me satisfaça como diário. Da V/ o já acanhado Cartas à Directora de fazer os 50 anos, com muitos
Que me leva ao futuro. social não dizia tudo, nem sempre, energia espero que me contagie e... não são precisos tantos de nós já sem por cá andarmos,
Se não sei o que é o futuro, nem nunca, mas informava com para vos encontrar, pela manhã, epitáfios e panegíricos, mesmo e talvez o faça já só online, talvez
Porque vou caminhando? rigor e de forma imparcial. no dia 5 de Março de 2040. Até lá. que bem escritos... Termino este ainda em papel, mas, espera-se,
Se não caminhar, No meu tempo, os idosos, as Gens Ramos, Porto “telegrama” com um abraço sempre com qualidade (...). E haja
Fico parado no tempo, crianças e os mais vulneráveis a todos os do “meu” jornal, o mais públicos para o PÚBLICO, de
Num tempo que já é passado. eram tidos em atenção, respeitados Tempo dos leitores PÚBLICO! preferência sem acabar o papel. E
O passado não existe, e apoiados. No meu tempo, as Fernando Cardoso Rodrigues, Porto parabéns a todos que o fazem, e
Se não caminhar, saudades de que o futuro seja o que Tenho todo o tempo do mundo aos seus leitores, que são a razão da
Sou apenas uma recordação, foi o tempo passado. para ler o PÚBLICO. O vosso 5MAR2015 sua existência!
Uma memória. Não posso parar, José P. Costa, Lisboa desafio avivou-me a memória e Augusto Küttner de Magalhães,
Tenho de ir caminhando, decidi fazer umas contas. Conclui Parabéns, PÚBLICO. Já passou Porto
O futuro é o meu destino. Parabéns que já comprei, li, e fiz as palavras assim tanto tempo? (...) Vi-vos
O tempo que vivemos é o “aqui e cruzadas em cerca de 9081 nascer, sim, porque quando tinha O enigma do tempo
agora”, fragmento de um átomo que, Vinte e cinco anos. Só! A sério. números. É obra. E já lá vão 25 11 anos fazia um jornal de família
quando damos por ele, já é passado. Pensava que eram mais. Trinta anos; nunca tinha pensado nisto. chamado “A casa dos Lopes” Se for perguntado a cem pessoas,
Podemos sentir, para lá do tempo, pelo menos. Talvez seja pela Deixo aqui os meus parabéns inspirado em vós, até no logótipo indistintamente, o que é o tempo,
as emoções que perduram em nós, minha idade. Seja como for. ao PÚBLICO, pelo seu quarto de a preto e branco e com duplo obteremos um igual número de
alimentadas pela sensibilidade dos Gostava de vos agradecer a século, extensivos a todos os que sublinhado. Era o que eu chamava diferentes respostas. Mas, mais
nossos sentimentos, alegria, tristeza, continuidade que deram a essa contribuem para que ele seja a “uma barra dupla musical”, mas curioso, se a mesma pergunta for
dor, felicidade, sonho, frustração, obra que é o PÚBLICO. Pois. Já realidade que é. deitada. feita a cem cientistas, das mais
amor, desilusão. esperavam por esta. Pois seja. Guilherme da Conceição Duarte, Mais tarde comprei um Mac, diversas áreas do conhecimento,
João Francisco, Torres Novas Mas foi assim que me lembrei Lisboa porque fiquei deslumbrado com obteremos igual diversidade
a vossa redacção da Quinta do de respostas. Diga-se, aliás,
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Lambert e nessa altura conheci que sobre esta matéria os
o bem-disposto jornalista Vítor cientistas são, em regra, bastante
Bandarra numa actividade de comedidos (...).
jornais escolares que a minha mãe Em traços muito genéricos
tinha organizado... Sim, juntei-me à pode-se, no entanto, afirmar
turma dela e aproveitei.... Claro! que o tempo é interpretado
Vi publicitada uma obra de acordo com o saber sob
minha e uma pequena entrevista o qual é analisado, isto é, há
relacionada com o primeiro Festival um tempo para as ciências
de Música Electroacústica, Música humanas (predominantemente
Viva. A partir daí passei a comprar a filosofia e as ciências sociais)
diariamente o vosso jornal. Deve-se e outro tempo para as ciências
contar pelos dedos de uma só mão exactas (predominantemente
os que não comprei. (...) a física e a matemática); ora
Acompanhei a entrada no online convergindo umas vezes, ainda
e a capacidade de pesquisa de que parcialmente, ora afastando-
notícias que me permitiria agora se muitas outras, não deixando,
não ter de guardar pastas com porém, de se entrecruzarem com
papel amarelecido pelo tempo — o frequência.
tempo que vai passando pelo papel. Por razões de natureza
Confesso, voltei a isso agora... Dá ontológica compreende-se que
gozo. (...) E só mais uma: escrevo assim seja (o conhecimento não
a data desta forma 5MAR2015 por é, nem pode ser, estanque);
vossa causa... E adoro! (...) atestam-no, aliás, as teorias da
António Laertes, músico, professor acção mínima; finalista; do eterno
(Setúbal) infinito; da mecânica quântica
(que rompe com o determinismo
Os 25 anos do PÚBLICO da física clássica); da entropia; da
simetria na inversão do tempo;
Gostamos de festejar números dos multiversos (em contraponto
“redondos”, ou (...) com algum com o Universo), entre muitas
significado. No caso, 25 anos é um outras. Trata-se, enfim, de
quarto de século, e, num tempo abordagens diversas, todas elas
em que tudo anda tão depressa, tão válidas quanto discutíveis,
em que a comunicação social por no sentido de se encontrar
vezes tem de ser excessivamente uma definição para o tempo.
rápida para não perder espaço, o Mas, se tal acontecer, será o
PÚBLICO tem conseguido resistir, deslumbramento da humanidade
e ainda para mais, bem. (...) Hoje, porque, na verdade, o tempo é
um jornal para ter espaço tem de um enigma. O enigma!
ter qualidade, de ser diferente, de Fernando Caetano, jurista

Ver mais online. A página de jogos voltará na edição de amanhã


O PÚBLICO e a EDP vão enterrar uma Artefactos, fotografias, vídeos e textos sobre o presente
e o futuro. O PÚBLICO vai começar a recolher objectos
mentos, análises clínicas, extractos bancários, bebidas,
conservas, ferramentas, utensílios agrícolas, instru-
cápsula do tempo com objectos de para uma cápsula do tempo, a enterrar na Primavera, mentos musicais.
em Lisboa. É o início de um diálogo que culminará a 5 O segundo desafio que o PÚBLICO lança aos leitores
leitores, pré-leitores e jornalistas a serem de Março de 2040, no 50.º aniversário do jornal, com a está relacionado com a inovação. É uma questão ineren-
reabertura da cápsula e a redescoberta dos objectos. te às cápsulas do tempo. Em 2040, muitos dos objectos
redescobertos a 5 de Março de 2040 A cápsula será desenhada pelo arquitecto Manuel que existem hoje serão obsoletos e terão desaparecido.
Mateus e terá como propósito transportar objectos e Outros, pelo contrário, serão tão desenvolvidos que mal

Cápsula
documentos que tracem um retrato do presente, tendo os identificaremos. Outros ainda continuarão a existir tal
em conta as críticas mais comuns. Entre elas, a irrele- como os conhecemos hoje, sem alterações de monta, e
vância de que se revestem por transportarem objectos a servir os mesmos propósitos 25 anos depois.
de reduzido valor científico ou documentos com mera Os leitores poderão apostar na capacidade inovadora

do tempo
futurologia, em vez de registos do quotidiano do tempo da humanidade e enviar-nos objectos para qualquer um
em que foram pensadas e fechadas. dos três grupos — de acordo com a sua antevisão. As
Para contornar este problema, as previsões mais lentes de contacto deixarão de ser utilizadas? O plásti-
fantasiosas ficam a cargo das crianças: para elas, é o co continuará omnipresente? Os jornais terão evoluído
mesmo imaginar 2040 ou 4040. E é por terem a ima- para jornais digitais maleáveis e continuarão em banca?

Análises
ginação menos contaminada pelas possibilidades do A ideia é que nos enviem objectos, explicando por que
real que convidaremos os alunos, com cerca de dez acham que ele irá desaparecer, manter-se ou evoluir.
anos, a conjecturar sobre o futuro. Sem limites con- A missão dos jornalistas é ajudar a retratar o presente,
ceptuais. Como vamos viajar? Como vai ser a escola? da geopolítica às questões religiosas e aos desafios tecno-

sérias e
Como vão ser os correios? Como vão ser as lâmpadas? lógicos e científicos que se colocam hoje. Para isso, serão
E as tomadas eléctricas? incluídos artigos, fotografias e vídeos que sejam revela-
A cápsula guardará ainda contributos das 12 “pessoas dores e eloquentes a respeito da sociedade actual, assim
fora do tempo” que na Revista 2 deste domingo são con- como o jornal do dia em que a cápsula for enterrada.
vidadas a imaginar o mundo daqui a 25 anos. Um objecto, Os críticos do Ípsilon seleccionarão quatro livros, qua-

sonhos uma ideia, um hábito que deixará de existir (ou tornar-se


obsoleto) e o seu inverso — um objecto, uma ideia, um
hábito que passe a ser central nas nossas vidas.
Ao mesmo tempo, os leitores podem contribuir com
tro álbuns e quatro filmes, representativos da cultura por-
tuguesa em 2015. Mas só um de cada chegará à cápsula.
A escolha será feita pelos leitores do PÚBLICO.
Sendo uma das mais relevantes empresas portu-

infantis
objectos e registos do seu dia-a-dia: fotografias, vídeos, guesas, a EDP contribuirá com um objecto que sirva
notas escritas. Estes documentos mostrarão como era como uma espécie de bitola tecnológica, que ajudará
o país em 2015, o quotidiano da gente arredada das no- a aferir o desenvolvimento alcançado em 25 anos —
tícias: rotinas, passatempos, modas, design, hábitos de um objecto que, em 2015, é tecnologia de ponta e é de

para 2040
consumo, preços, gastronomia, oferta cultural, etc. uso corrente na empresa. Será obsoleto em 2040? Há
Além dos registos em texto, fotografia, vídeo ou quanto tempo?
ilustração, os leitores podem endereçar-nos objectos
pessoais, de pequena dimensão, parco valor e não pe- Os leitores podem enviar os seus contributos
recíveis. Os exemplos são muitos: boletins de jogos da — com a referência “Cápsula do Tempo” no
sorte, menus de restaurante, esferográficas, folhetos sobrescrito — para Edifício Diogo Cão, Doca de
Por Hugo Torres informativos, utensílios de cozinha, roupa, medica- Alcântara Norte, 1350-352 Lisboa
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Eu, o MEC Neste
e o PÚBLICO, tempo
25 anos depois todo
Miguel Esteves
João Miguel Tavares Cardoso

As duas razões mais importantes que me levaram a Estamos a viver no passado. Tudo o que se passa aqui e
querer ser jornalista estão hoje reunidas nesta página: agora vai passar. A consolação maior — this too shall pass
PÚBLICO e Miguel Esteves Cardoso. Não é uma frase — evita, com sonsa hipocrisia, incluir as nossas próprias
de efeito. É a mais pura verdade. E porque é verdade, vidas, que também tem os dias contados.
e porque hoje o PÚBLICO faz 25 anos, e porque por um As nossas próprias mortes deverão ser bem-vindas
dia tenho a honra de estar paginado ao lado de Miguel se interromperem o sofrimento, o cansaço e a dor, a
Esteves Cardoso, este é o momento ideal para contar humilhação e a fartura de viver mal os momentos cada
a minha história e dar conta de uma enorme dívida de vez piores — garantidos — das nossas vidas.
gratidão. Se não fosse o MEC ter publicado uma edição Este jornal — o PÚBLICO — é impresso. Paga, sem
de A Causa das Coisas no Círculo de Leitores — capa atrasos, os que trabalham para ele. Perde dinheiro mas
dura, desenho de Jorge Colombo, Dezembro de 1987 —, hoje, dia do primeiro quarto-de-século, é de graça. Por
As duas e se não fosse o PÚBLICO ter nascido a 5 de Março de verdadeira generosidade dos proprietários.
1990, neste momento eu seria o mais infeliz engenheiro O PÚBLICO é um jornal livre, jornalístico, entusiasta,
razões mais químico do mundo. tão bem-humorado como bem informado. É um monu-
No início de 1988, quando A Causa das Coisas chegou mento volátil e esperto; aéreo e rápido, escrito e feito
importantes a minha casa, eu era um miúdo de 14 anos a crescer em com os olhos de quem escreve e de quem lê.
Portalegre, com acesso a livros por catálogo (Círculo dos O tempo é o factor que não faz mais nada senão lem-
que me levaram Leitores e Selecções do Reader’s Digest), dois canais brar-nos que dantes não era assim e que doravante tam-
de televisão (mais uma TVE1 cheia de chuva nos dias bém não será. O tempo é como o clima. Não é por acaso
a querer ser em que o vento soprava de este) e uma sala de cinema que se confundem na língua portuguesa. Estamos a
(Cineteatro Crisfal) que passava os filmes de Stallone viver no passado, graças a Deus. O futuro é o diabo. O
jornalista estão e Schwarzenegger aos fins-de-semana. Em minha casa futuro há-de sempre ser pior.
não se lia o Expresso — apenas A Bola, na altura trissema- O tempo é uma rasteira. Os relógios são os piores
hoje reunidas nal (Carlos Pinhão era o meu ídolo) — e O Independente intérpretes dele.
ainda estava para nascer. Por isso, eu desconhecia os Há 25 anos, em 1990, todos nós tínhamos menos 25
nesta página: textos reunidos em A Causa das Coisas. Muito menos anos do que hoje temos. Será possível termos sauda-
conhecia, como se imagina, a Spectator ou o wit (três des desse tempo? Não, por não haver maneira de nos
PÚBLICO e belas e intraduzíveis letras) da imprensa anglo-saxónica. lembrarmos dele.
Aquilo que para mim é hoje a Santíssima Trindade de O tempo não é uma dimensão: é mais como uma ati-
Miguel Esteves qualquer bom texto jornalístico — cultura, inteligência e Lembrar o tude. O tempo é a maneira como ligamos à passagem
humor — foi-me ensinado através das crónicas de Miguel dele. Para quem está e continua apaixonado o tempo
Cardoso. Não Esteves Cardoso. A dívida não é só minha: toda a geração tempo é um é uma prova de insistência emocional e de teimosia
a que pertenço nunca poderá pagar a trabalheira que romântica que não só não morre como acorda todas
é uma frase de ele teve a desempoeirar o país. dever. Esquecê-lo as manhãs, igualzinha.
No início de 1990, quando o primeiro número do O amor é uma razão que não sabe. Sofre e guarda o
efeito. É a mais PÚBLICO chegou a minha casa, após algumas nego- é um prazer sofrimento para mostrar. O tempo é uma corrida para
ciações com os meus pais para passarmos a comprar a morte. A morte é má mas correr é bom.
pura verdade um jornal diariamente, eu era um adolescente de 16 que só o tempo O tempo é um vadio e nós passeamos na vadiagem
anos, a ano e meio de entrar para a faculdade. Tinha dele. Nada se ganha (ou se perde) em ser-se preciso. À
optado pela área científica, que invariavelmente me iria — por deixar-se Espera de Godot é a obra de arte mais divertida e pre-
levar ao Técnico. Penei dois anos e meio em Engenharia ciosa sobre o tempo.
Química, perdido entre pipetas e curvas de titulação, perder — pode O milagre está sempre escondido. A maravilha, quan-
com o PÚBLICO como única bóia de salvação mental. do surge, nunca é reconhecida. Mentira. Às vezes é re-
Guardava cada número religiosamente, que depois ar- dar. No meio conhecida. O resto é a melhor música de sempre.
quivava em sacos de plástico devidamente numerados. O tempo mais difícil de adivinhar é o presente. O pre-
Tive perto de dez anos de jornal, centenas de quilos de das verdades sente é o tempo mais delicioso. Não dar por ele, nem
papel, mais de três mil exemplares, guardados entre mesmo por um breve momento de gratidão, é o maior
o sótão da casa de Portalegre e um armazém a cair de inexoráveis prazer de todos. Esquecermo-nos que estamos cá, por
velho na nossa quinta. Até, eventualmente, eles serem estarmos tão embrulhados no agora, é uma distracção
comidos pelos ratos e pela humidade, e o meu pai ter a vida que resta egoísta que mostra a alegria e a estranheza e a raridade
decidido pôr um ponto final naquela loucura, livrando- de um só ser existir neste mundo e neste tempo.
se dos restos do espólio. Ainda estou para lhe perdoar é enorme Lembrar o tempo é um dever. Esquecê-lo é um prazer
esse gesto de elementar bom senso. que só o tempo — por deixar-se perder — pode dar. No
No final de 1993, decidi que já bastava de Técnico. meio das verdades inexoráveis — dos nossos princípios
Voltei atrás e entrei para Ciências da Comunicação — o e fins, com os nossos crescimentos e as nossas decadên-
jornalismo tornara-se a opção óbvia para a minha vida. cias entre uns e outros — a vida que resta é enorme.
Só que teria sido impossível chegar a esse óbvio sem os A tristeza é tão reverencial e atenta como a alegria.
textos do MEC ou sem aquilo que aprendi a ler sobre Só o tédio é um desperdício, no caso duvidoso de não
filmes, livros, discos ou política neste jornal. A exis- dar prazer a quem o alcança.
tência do PÚBLICO confunde-se com a minha própria O tempo é o que levou a escrever e a ler isto. Não é um
existência. Sem ele eu seria uma outra pessoa. Os meus mistério. O mistério, glorioso, é ler e escrever e estarmos
parabéns. E, sobretudo, o meu obrigado. aqui para dizer estes sublimes disparates.
O
senhor director-por-um- seguinte (agora já estamos nela), a amnésia nova de
dia que me desculpe, mas cada dia que nos dá hoje: “Eu não tinha consciência
ele vive em Londres e eu de que essa contribuição era devida durante esse
hoje faço como se faz em período.”
Portugal (se o assunto Estamos no domínio do inconcebível, não é?
nos compromete a vida): Sim, no domínio do jornalismo. Por longos anos, a
esqueço, limpo, oblitero, directora Bárbara Reis foi a funcionária mais nova do
faço delete, apago da jornal, começou aos 19.
memória, não tenho nada — Eu acredito que... isto é dizer o costume mas... eu
presente... O João Maquê? acredito que fazemos o que fazia Heródoto: procurar
Preciso de ajuda. No PÚBLICO eu vivo neste e informação, verificá-la, dar-lhe um sentido. E dizer:
Crónica Rui Cardoso Martins noutro Tempo e ainda num terceiro mais puro que “Isto foi o que ouvi destas pessoas, não tenho a certeza
inventei na juventude (oh céus, a lamechice é contra o se é verdade.” Mas procurar a verdade.
Livro de Estilo). Estou no aquário da directora Bárbara Estamos no gabinete da direcção da quarta sede
Reis, um vidro voltado para o Tejo em Alcântara, — em um quarto de século — do jornal PÚBLICO.
outro vidro para a redacção. Na secretária mais perto, Agora volta para trás, para trás cabeça, e sobe aos
um senhor de óculos, cabelos e bigode brancos, ao prédios novos da Quinta do Lambert, no outro lado
telefone. Ao tomar notas, curva-se sobre a caneta de Lisboa, junto ao Campo Grande. O complexo
como um carpinteiro que escava, a golpes de formão, de cor creme no topo. Há um cão rafeiro à porta
um pedaço de madeira verde. Se o tronco ganhar vida, que se chama Sonae. Ou o jornal o adoptou ou ele
transforma-se num menino mentiroso com o nariz a adoptou o jornal. Tem uma companheira, a Belmira.
crescer? Para quem já viu a sua oficina, este homem Conheceram-se ali à porta (os ambientes de trabalho
parece um Geppetto a trabalhar. intensos, os projectos novos, despertam níveis
— O que é que o Cerejo anda agora a fazer? emocionais extremos, há estudos sobre o assunto).
— O primeiro-ministro. Passos Coelho esteve vários Mas os dois cachorros não guardam a primeira casa
anos sem pagar a Segurança Social. do PÚBLICO, nem é preciso: nós estamos vigilantes.
— Não! Temos um exército de computadores Macintosh,
— Pagou agora à pressa por causa disto. A notícia sai uns tijolos ultramodernos que não há em mais
amanhã. nenhuma redacção do mundo. Aliás, temos duas
Ainda há espaço no jornalismo para “contos de redacções magníficas, uma é no Porto, vamos
crianças”, como diz o outro. Notícias frescas para fazer duas edições diárias, Norte e Sul. Temos
publicar em jornais novos de 25 anos. Na outra um accionista que não vai interferir no conteúdo.
ponta da linha, fisgado na sua língua-de-madeira, um Temos jornalistas de prodigiosa experiência, temos
primeiro-ministro estrebucha e ensaia, para a semana estagiários maçaricos (eu, etc.) com inaudito sangue

Não tenho
memória
de tais
felicidades
na guelra. Temos gente ponderada e temos muitos essencial do PÚBLICO: José Manuel Fernandes. Estou
doidos. Temos jornalistas que conhecem políticos e de novo no Bairro alto, nas instalações do jornal
banqueiros e não traficam informações falsas nem online Observador. O José Manuel é o publisher,
favores. Temos críticos de arte e música e cinema e ligado directamente à redacção. Uma sala de azulejos
literatura que sabem disso tudo e, além disso, sabem setecentistas, com cenas de caça, onde o jovem
escrever sem peneiras, assim se tivesse continuado. Pinto Balsemão terá administrado o Diário Popular.
Temos um bar lá dentro servido por brasileiros que Por acaso, um jornal de que fiz a reportagem de
levantam o mindinho a segurar no copo. Temos fado encerramento. E ali perto também fiz o triste enterro
vadio às vezes, esfolado por um senhor dos Anjos. do Diário de Lisboa. Ah, e ainda me enviaram para
Temos “bom gosto” (como dizia o Vicente, o certo coveiro d’O Diário. Vi qualquer coisa da destruição
é que existe). Temos um Livro de Estilo cheio de de jornais e não é bonito ser gato-pingado de tantos
sintaxes e éticas. Temos secretárias que são mães sonhos no papel, de tantos profissionais a chorar. [Se
para os aflitos, irmãs para os cansados e polícias me permitem, também vi, ao serviço do PÚBLICO,
para os faltosos. Temos técnicos que conhecem Ainda há espaço no destruição a sério na Sarajevo em guerra, até que um
a tecnologia. Temos cronistas que sabem da dia fui literalmente trabalhar para o BONÉCO e fazer
crónica e, se não sabem, que aprendam. Temos jornalismo para “contos de o Contra-Informação...]. É bom ver que o jornalismo
correspondentes que contam o que se passa lá onde voltou ao Bairro Alto, desta vez na plataforma digital.
eles vivem nos outros lados da Terra. crianças”, como diz o outro. E novidades de José Manuel Fernandes, que um dia
Temos repórteres, homens e mulheres, para foi convidado para director, por telefone-satélite, em
arriscar a vida nos cumes e vales e guerras e pazes Notícias frescas para publicar pleno bombardeamento na Guiné-Bissau?
do mundo, voar até onde se passam as coisas. — Gostei muito. Foram os melhores anos da minha
Temos repórteres para descer aos bairros pobres em jornais novos de 25 anos vida.
de Portugal, os mercados, os tribunais. Temos Bolas, isso é o que todos dizem! Outra coisa. José
fotógrafos com teleobjectiva, grande angular e lente Manuel Fernandes esteve no centro da famosa
macro, que apanha as patas das formigas. Temos “esquizofrenia” do jornal, com a invasão do Iraque
paciência e meios para ditar ao telefone, vírgula a por George W. Bush e Tony Blair (Março de 2003).
vírgula, um texto de cinco páginas desde a Austrália, A maior parte da redacção a pensar (e a escrever)
se o fax e o telex falharem. contra o que escrevia (e naturalmente pensava) o seu
Temos pouco sono. Temos muito sono. Não temos director. E os leitores baralhados com tal amplitude
sono. Temos um copo de whisky na secretária, ideológica, escancarada.
temos um chá. Temos fumadores e (não) temos sala — Penso que as pessoas lá dentro sabiam como
de fumo. Temos bigodes feios e temos belas pernas eu trabalhava. Acho que cá fora isto é raro. Pode
com saias, e longas pestanas lá em cima. Temos parecer um bocado presunção... as ideias ganham-se
encaracolados que um dia vão dar carecas. Temos pelos argumentos, não por imposição. Era melhor
um bife de véspera do Snob no escuro vermelho do dar argumentos sem rodriguinhos do que fingir que
estômago. Temos gravatas italianas e temos pelintras estava tudo bem. E que era possível conviver com
em calções a fazer perguntas matinais a ministros. opiniões distintas.
Temos mulheres a dirigirem secções e a ensinar Pensa que o jornal é hoje “mais monolítico, não
homens como é que se faz um jornal. Temos, na é por ter dois ou três berloques na opinião que fica
redacção, mulheres e homens a apaixonarem-se em plural”. A ideia que o José Manuel tem sobre este
open space. Temos divórcios em marcha. seu passado na direcção é, por assim dizer, menos
Temos felicidade e lágrimas guardadas nos garrafões monolítica do que já foi. Orgulha-se dos 25 anos do 25
do Tempo. de Abril, quando entregou aos jovens todo o jornal,
Temos uma “sala de telex”. Temos até escondida sem saber nada, só já o viu impresso e trazia na capa
na cave, como numa comédia a preto e branco, uma uma bebé em chão de cravos vermelhos. Mas já não
artista da rádio-TV em potência, uma “menina dos vê nenhum “25 de Abril em Bagdad” no derrube
telexes” que trabalha a cantar. Na 1.ª Guerra do Golfo de Saddam, o marine que coloca a bandeira norte-
(1991), ela irá rasgar rolos de papel com as notícias americana na estátua que cai, como uma árvore, os
das bombas e dos ataques e correr para o director homens que batem chinelas no rosto de bronze do
de fecho da 3.ª edição do dia nas bancas (!), e agora à ditador.
“menina dos telexes” chamamos Maria Rueff. — Com o tempo que passou, e sabendo o que sei
Temos um título e um cabeçalho forte, desenhado — Quando a gente pensa que aquilo na época custou agora, aquilo não tinha o significado que lhe atribuí. Se
numa elegância azul (mas chegou a ser vermelha, 350 mil contos [1,750 milhões de euros] e agora podia eu soubesse o que sei hoje, não o teria escrito. Mas eu
Henrique Cayatte). Ensaiámos tudo, tudo, páginas, ser feito por um processador, um computador normal... não sabia.
capitulares das entrevistas, títulos, entradas, itálicos Vicente é a cara do PÚBLICO, a “capa” original. Bárbara Reis, quando foi convidada, voltou ao
e bolds em tantos “números zero”. Não é só nostalgia: princípio do Tempo:
O Muro de Berlim caiu há dias, é Novembro de — Acho que a melhor capa foi a “Liberdade, Ano — Amanhã sou directora do PÚBLICO, tenho de ligar
1989, bebe-se champanhe no betão demolido da Zero”. Tenho aquilo emoldurado em casa. Mostrava ao Vicente! É o nosso fundador, tenho de lhe ligar.
Europa e nós estamos lá, na passagem de ano. Vamos que nós tínhamos um espírito bastante democrático. Foi bastante ridículo, porque quando lhe liguei não
fazer um jornal para os próximos 25, 50, 100 anos. Não era a liberdade do “mundo socialista” contra o consegui dizer nada. Só chorei.
Dar o que prometemos a Portugal, sermos melhores “mundo capitalista”. Quando os nossos repórteres O pior:
do que os nossos iguais no mundo, até onde nos for iam para a Alemanha, a Roménia, descobrir o mundo — O dia em que despedimos 50 colegas. Não há
possível, que haja saúde e dinheiro. a mudar. Enfim, foi uma capa falhada porque não maneira não errada de fazer isto. É tudo tão mau
Vamos fazer... mas, ahhh, afinal não é para hoje... saiu. Mas tinha tudo a ver com o espírito do jornal. e tão difícil, mas tentámos da melhor maneira que
Dia 2 de Janeiro de 1990: o jornal não sai para as Uma certa pureza inicial. sabíamos.
bancas. As máquinas falharam. Pedimos desculpa Vicente agora lê o jornal todos os dias, mas às vezes A Bárbara acredita no “mecenato puro e duro” e
por esta interrupção, o PÚBLICO segue dentro de aborrece-se “de morte”. Tem de dizer uma coisa: em “co-produtores” para as grandes reportagens.
dois meses. Pelo menos vamos rezar por isso a todos “O jornal é mais permeável a jogos de influências, O PÚBLICO aposta no online (20 anos, já), no data
os santinhos mediáticos. nomeadamente na área cultural!” Mas basta, “ainda journalism, as novas tecnologias “permitem agarrar
Onde é que meteste o whisky? é o jornal mais bem feito que há”. em milhões de dados e encontrar forma de retirar
O (extinto) O Independente inventa-nos um gémeo. — Foram os melhores tempos da minha vida, uma informação, uma leitura, um padrão”.
Estamos a trabalhar para o BONÉCO, e assim se coisa criativa, as pessoas gostavam umas das outras, Ao mesmo tempo vemos ali, atrás do vidro, na
mantém o treino no “jornalismo de referência”. eu era o director sem hierarquia... mas com respeito. E redacção, o jornalista José António Cerejo a entalar —
Há seres que acreditam em confrontar sempre o podíamos pôr a pata na poça mas éramos respeitados. artesanalmente — mais um primeiro-ministro que tem
acusado com a própria acusação, curiosa novidade — Sim. problemas com a Segurança Social, com a verdade e
da altura, e sempre em desuso. — Eu era uma pessoa colérica, agora nem me com a língua portuguesa.
— O pior dia foi quando não saiu. A maquinaria reconheço aos gritos na redacção... Como é que eu era? — Eu acredito que o PÚBLICO vai durar para
ainda não estava preparada... — O Vicente entrava aos gritos de braços no ar. sempre. Não sei é como vai ser. Dizer “dantes é que
Vicente Jorge Silva, autor da ideia do PÚBLICO e — Pois era... era bom” é uma ideia bacoca.
seu primeiro director, até 1996. Jornalista, cronista, — Mas as pessoas gostavam de si. Mas são 25 anos um bocado metido nisto. Ou quase
cineasta. Estamos a jantar no Bairro Alto. Há 25 anos, — E eu gostava das pessoas. Se você respeitasse, nada. Aliás nada. Agora até acho que esqueci tudo,
Vicente passa pela aventura de comprar e de pôr a hum, digamos, os cânones da comunidade, você caros leitores, vejam só o que me aconteceu.
funcionar uma tecnologia nova israelita, o Scitex. escrevia o que quisesse.
Salva-se o jornal. Mas barato é que não é. Depois da Bárbara e do Vicente, o último da trilogia Escritor, jornalista na fundação do jornal
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