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Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro Programa de Pós-Graduação em Sociologia Disciplina: Estudos Exemplares em Ciências Sociais / 2010 Professor: Frédéric Vandenberghe Aluno: Alexandre de Paiva Rio Camargo

Resenha de LAZZARATO, Maurizio. As revoluções do capitalismo. Rio de

Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, 274 p.

Ler As revoluções do capitalismo pode ser uma experiência duplamente

desnorteante. Primeiro, porque seu fluxo narrativo opera com várias escalas, do nível

molecular da monadologia tardiana às interações desterritorializadas, tanto intersubjetivas quanto interobjetivas, que caracterizam a abordagem das redes sociotécnicas. Segundo,

porque retrabalha uma preciosa gama de autores, em princípio irreconciliáveis, mas que recebem tratamento inteiramente original nas táticas e estratégias cabíveis no mundo

capitalista descortinado por Lazzarato. Este talvez seja o maior mérito do livro que ora

resenhamos, a síntese de clássicos de variados matizes. A sociologia monadológica de Gabriel Tarde, os dispositivos de disciplina e controle de Foucault e Deleuze, o marxismo

da linguagem de Mikhail Bakhtin são reunidos em uma leitura bastante inventiva, capaz de provocar mesmo aqueles que, não sem razão, discordarão do autor.

De fato, trata-se de obra ousada, de difícil alinhamento mesmo entre os estudos

sobre a crise da modernidade. Explica-se: nosso autor, que antes se juntara a Antonio Negri para formular o conceito de trabalho imaterial no pós-fordismo, aqui rompe de vez

com a tradição do open marxism, recusando até mesmo a centralidade do trabalho na produção da subjetividade e do devir, noção que tendia a unificar os estudos sobre o Império. Ao situar-se no extremo mais radical dessa corrente, Lazzarato rejeita não apenas o pensamento dialético, mas o pressuposto falacioso do sujeito coletivo que transforma a história, que apenas serviria ao movimento molecular do capital, aprisionando a

cooperação de cérebros e a efetuação de mundos possíveis. Não somente o marxismo, mas toda a filosofia do sujeito se condena ao pressupor categorias totalizantes e universais (como o trabalho) e um fazer na ordem da intersubjetividade. Em seu lugar, os eventos de 1968 deslocam a filosofia do sujeito e a organização sindical assentada no regime da

fábrica, possibilitando tanto uma revolução do capitalismo, quanto a emergência da

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filosofia do acontecimento e das novas estratégias de luta e organização que lhe correspondem. Este é o tema central a que o presente livro destina sua discussão.

O primeiro capítulo, “O acontecimento e a política”, parte do paradigmático maio francês para mostrar como o acontecimento configura uma mudança na ordem do sentido, permitindo à ação política escapar das oposições binárias em que se organizam as lutas sociais (homem / mulher, capital / trabalho, natureza / sociedade, intelectual / manual), por meio da abertura de um novo horizonte, onde é possível acolher a descontinuidade na nossa experiência e uma nova sensibilidade que o encontro com o outro proporciona. Na filosofia do acontecimento, a mudança social pressupõe a atuação sobre as sensibilidades, as modalidades de afetar e ser afetado, que subvertem a relação clássica entre sujeito, objeto e linguagem. Para emergir o acontecimento, dois agenciamentos devem se encontrar: o agenciamento de expressão, que engloba o conjunto de enunciados e regimes de signos, produzidos por sujeitos, tecnologias de comunicação e demais redes sócio- técnicas; o agenciamento maquínico, que corresponde à dimensão incorporada das trocas sociais, isto é às alianças e expansões móveis que afetam os corpos em geral. Através destas duas dimensões, o acontecimento cria um mundo possível, que se manifesta nos enunciados e se efetua nos corpos.

Lazaratto vai buscar na sociologia infinitesimal de Tarde o conceito de cooperação, a partir das modalidades de criação e efetuação de mundos possíveis. Ao mesmo tempo que constitui uma entidade inteiramente singular (com desejo, crença, percepção, memória), a mônada é também um espelho da sociedade, com suas relações constitutivas, porém não pode expressar mais do que uma parte deste conjunto de relações. Na monadologia, o social se replica no microcosmo individual, mas só pode fazê-lo assumindo uma perspectiva particular, o que permite articular o uno ao múltiplo. Em conseqüência, toda a mudança e toda a atividade estão fundadas nas modalidades de sentir; toda ação é uma ação sobre as vontades, sobre as inteligências, sobre os afetos. Este pressuposto ontológico remete a uma outra noção de cooperação, bem distante da racionalidade produtiva e da constituição subjetiva pelo mundo do trabalho de Marx, da fenomenologia e da filosofia da consciência em geral. Em direção oposta, trata-se de integrar o ser ao seu contrário, isto é, reunir mundos divergentes, que se bifurcam, e que passam a coexistir simultaneamente em devires possíveis.

Ao valer-se de Tarde, Lazzarato entende as estratégias identitárias como subjetivações da ordem capitalista baseadas em dicotomias, atualizações da relação

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capital/trabalho, que devem ser superadas, uma vez que implicam que um só mundo é possível, o que serve aos ciclos de mobilidade do capital. Por isso mesmo, é preciso partir de uma (neo)monadologia para entender e superar as modalidades capitalistas de aprisionamento da cooperação entre cérebros, que impedem a criação e efetuação dos mundos possíveis. Se os modos de sentir e afetar se tornam a condição da ação e da mudança, então toda a invenção implica um processo de dessubjetivação e uma nova produção de subjetividade, desde que seja possível propagar a invenção através do fluxo imitativo (de emoções, hábitos, comportamentos, sensações). Desse modo, para se publicizar, a invenção necessita efetuar-se nos agenciamentos maquínicos, na dimensão espaço-temporal concreta. O problema fundamental é que a invenção, que está na emergência do acontecimento, configura precisamente o objeto de exploração e domesticação do capitalismo contemporâneo, o que convida a uma discussão sobre suas mutações históricas, assunto do segundo capítulo.

Para compreender a mobilidade dinâmica do capitalismo, Lazzarato recorre a Foucault e a Deleuze (na verdade, aquele lido por este). Tal mobilidade corresponde, sobretudo, à passagem da sociedade disciplinar, que se confunde com o capitalismo industrial e monopolista (séculos XIX e XX), para a sociedade de controle, cuja emergência evidenciou-se e acelerou-se nos desdobramentos de 1968. A primeira, caracterizada pelas técnicas disciplinares articuladas em instituições totais (fábricas, escolas, prisões, hospitais), age sobre as almas e os corpos, neutralizando a potência de invenção e de codificação da repetição. Deste modo, toda a possibilidade de variação é subtraída em padrões homogêneos de integração, através da reprodução de dualismos essenciais, sendo os principais os de classe (operários / patrões) e os de sexo (homens / mulheres). A repressão à multiplicidade tem por base a fixação normativa e o confinamento espacial das integrações, reduzindo toda a diferença aos dualismos reificados e previstos. Nas sociedades disciplinares, as instituições têm um passado (tradições), um presente (gestão das relações de poder mais imediatas) e um futuro (o progresso), mas não têm devires, variações. Como afirma Lazzarato, as ciências sociais que legitimaram a constituição e a ação dessas instituições funcionam em termos de equilíbrio (economia política), integração (Durkheim), reprodução (Bourdieu), contradição (marxismo), luta pela vida (darwinismo) ou pela concorrência, mas ignoram o devir (p. 70).

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A agenda de planificação do Wellfare State, ancorada na biopolítica, na gestão da vida e dos corpos no interior de processos biológicos coletivos (como a epidemia e o envelhecimento), já sinaliza a presença de tecnologias do regime de controle, em meio ao predomínio da sociedade disciplinar. Este é o momento que virá o surgimento dos públicos (como o de ávidos leitores de jornais), marcados pela conexão entre subjetividades, que agem uma sobre as outras, em um espaço aberto, por meio de tecnologias de velocidade, propagação e transmissão a distancia, que ampliam a capacidade de afetar e ser afetado, a cooperação entre cérebros. Ora, tais mecanismos de integração e diferenciação se tornarão bastante perceptíveis nos marcos de 1968, e a partir daí comportarão um número cada vez maior de agenciamentos, à medida que grassam as tecnologias televisivas e informáticas. Aqui cabe a distinção inspirada em Deleuze a respeito da peculiaridade de um conceito-chave, o de público, dado que ela está na base das novas relações de poder do capitalismo contemporâneo. Encarnando a forma de subjetivação que melhor expressa a plasticidade da mônada, os públicos não compõem com os indivíduos uma relação de pertencimento exclusivo e identitária. Embora o indivíduo não possa pertencer a mais de uma classe ou aglomeração por vez, pode pertencer a diferentes públicos ao mesmo tempo. Nestes termos, os públicos são expressões de formas de subjetividade e socialização ignoradas da sociedade disciplinar.

Ao lado da moldagem dos corpos pelas técnicas disciplinares e da gestão da vida organizada pelo biopoder, a modulação da memória e do fluxo de desejos e crenças que circulam na cooperação entre cérebros (noopolítica) formarão os dispositivos que constituem a sociedade de controle. Em última instância, a cooperação não é mais neutralizada em sua virtualidade, nos espaços confinados das instituições totais e seus dualismos identitários, mas capturada de fora, no espaço aberto dos agenciamentos entre públicos, onde se formam a opinião pública e a inteligência coletiva.

Passamos, assim, do regime de neutralização ao de captura do virtual, por meio da modulação da memória, da atenção, dos desejos e afetos, que marca a ação do capitalismo da empresa – o terceiro e mais original capítulo do livro resenhado. O corpo alvejado pela empresa não é mais forjado por disciplinas, mas falado por signos, palavras e imagens, que induzem os agenciamentos de expressão aos mundos publicitários, e que são inscritos não mais nos corpos das subjetivações patológicas da sociedade disciplinar (loucos, presidiários, doentes, operários), mas no corpo do obeso (cheio dos mundos da empresa) e do anoréxico (vazio pela recusa desses mundos). O caso-limite nos é dado pela Microsoft.

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A invenção e a implementação de um software se fazem através do agenciamento de

múltiplas inteligências, de saber-fazer e de afetos que circulam em fluxos, deslocando a divisão do trabalho tradicionalmente concebida. Afinal, como a criação e a implementação de softwares tendem a mimetizar as funções de produtores e usuários, uma nova cooperação é não apenas possível, mas necessária: “a captura e a apreensão recíproca fazem de todas as mônadas ‘colaboradoras’, mesmo que nem todas tenham a mesma potência de criação e articulação” (p. 121). O problema é que, em lugar de se distribuir de forma heterogênea como na cooperação, a potência de agenciamento é canalizada unicamente na empresa. Através de patentes e licenças, a empresa privatiza uma cooperação irredutivelmente pública, transformando sua multiplicidade de colaboradores em uma multiplicidade de clientes. No lugar da propriedade dos meios de produção, é na propriedade intelectual que se funda agora a captura da criação e da realização.

A redefinição das táticas de dominação pelo regime do capitalismo de empresa

também altera as redes de mobilidade e resistência, tal qual um “ponto de fuga”. Na sociedade de controle, as possibilidades de afetar e ser afetado se multiplicam, abrindo um campo de ação que nem sempre pode ser administrado pela empresa, como ocorreu com

as pressões organizadas por cooperação em favor de softwares livres, da quebra das

patentes sobre medicamentos e da participação na definição da finalidade das pesquisas.

Por meio da luta em prol de bens comuns (que independem da ação do Estado) nas esferas de educação, cultura, saúde e pesquisa, e da função produtiva de seus beneficiários (alunos, espectadores, doentes, consumidores), coloca-se o problema da produção e

distribuição da riqueza comum, do financiamento e do direito de acesso das subjetividades a essa nova cooperação. Lazzarato vê no capitalismo de empresa a possibilidade de um novo conceito de democracia, através da cooperação entre cérebros, capaz de transformar

os clientes, usuários e beneficiários em atores políticos de uma nova esfera pública não- estatal.

Para tanto, e este é o sentido mais pragmático de sua obra, é preciso superar a clássica divisão entre trabalho intelectual e manual, que norteia não apenas o pensamento social (o marxista, em especial), mas também as formas de organização e luta contra o capital, todas inspiradas no modelo sindical. Como Lazzarato dirá mais à frente, os instrumentos e formas de organização do movimento operário são bastante insuficientes, porque, de um lado, se referem a ao modelo de cooperação da fábrica de Marx e Smith, não mais dominante, e, por outro, não concebem a ação política como invenção, mas como

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simples desvelamento de algo previamente estabelecido, cujo principal operador é a conscientização. Onde quer que exista hegemonia das formas de organização do movimento operário, não pode haver coordenação (p. 232).

No capitalismo da empresa, a cooperação de cérebros não é mais necessariamente especializada, nem intelectual. Ao invés disso, envolve uma rede constituída por posições relacionais, que possuem em comum a capacidade de empreender e começar algo novo, de construir problemas e colocar à prova as respostas que eles suscitam. Embora haja assimetrias quanto ao poder de cada um para articular e criar, todos são colaboradores nos agenciamentos de expressão e efetuação. O encontro com o outro, enquanto perturbação de uma ordem interna e aparente, torna-se a condição de possibilidade de um novo modelo de organização e luta social. Como instância de atribuição de sentido à experiência social, a linguagem antecede o momento da luta política, e é a ela, mais precisamente à polifonia de Bakhtin, que o autor recorre para pensar a expressão da subjetividade qualquer.

Este é o tema do quarto capítulo, que opõe expressão à comunicação. Esta última revela seu caráter monológico nas tecnologias de difusão, que formam públicos, mas inibem cooperações. O rádio e a televisão são os exemplos mais representativos, voltados para a neutralização da relação acontecimental. Embora o dispositivo do vídeo possibilite a captura recíproca entre mônadas, a televisão o reduz a um dispositivo político de centralização, limitando-o à captura unilateral, ao difundir símbolos. Como simulacro do tempo real, a televisão se apropria da possibilidade de utilizar o tempo para agir sobre o presente que está em vias de se fazer, “expropriando o público não apenas da comunicação, mas antes do tempo acontecimental que a funda e constitui” (p. 176). Na criação midiática dos acontecimentos, toda a diferença é reduzida às escolhas previamente elaboradas pela publicidade e pela audiência. Sem abrir-se para devires possíveis, o acontecimento gerado pela televisão é capaz apenas de produzir autoritariamente um sentido e de formar um sujeito unívoco da enunciação, do qual passam a depender todos os enunciados.

Trata-se, portanto, de uma inversão do princípio da expressão, manifesto na polifonia de Bahhtin. Para este, a palavra é a modalidade de afetação por excelência e o ato de falar é sempre um “desdobramento em espiral” (o termo é nosso) da palavra do outro, com suas entonações e suas afirmações emocionais, com suas dissonâncias e contradições. Na leitura que lhe apõe Lazzarato, a polifonia de Bakhtin vai além do reconhecimento intersubjetivo para atingir a virtualidade, já que nela a palavra é um

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desdobramento contínuo de percepção, afeição e intelecção, o que a faz participar plenamente da atualização do acontecimento nas almas e nos corpos. Posta nestes termos, a internet é a tecnologia de distância que mais favorece e amplifica esta disposição da linguagem, porquanto permite converter as virtualidades da cooperação em estratégias políticas. Isto porque todos os padrões de comunicação e de software repousam sobre os agenciamentos das redes, intensificando a ação das mônadas. Indo além da simples formação da opinião pública e do compartilhamento de julgamentos, que caracterizam o monolinguismo e o acontecimento televisivo, a internet permite constituir formas de organização e expressão comuns, realizando as potencialidades do plurilinguismo. É esta a via de acesso aos movimentos pós-socialistas, tema do quinto e último capítulo.

Alguns pontos podem ser destacados na análise de Lazzarato sobre os novos movimentos de esquerda. Em primeiro lugar, a tensão essencial que advoga existir entre a política institucionalizada, que só pode negar o devir e operar com a totalidade de pares como cidadão / estrangeiro e trabalhador / desempregado, e as organizações pós- socialistas, que para constituir mundos possíveis não pode correr o risco de se despotencializar frente às instituições políticas. Em conseqüência, as estratégias de poder destes movimentos freqüentemente apresentam caráter móvel e flexível. Este é o caso da linguagem dos direitos humanos, cuja eficácia propriamente política assenta na defesa da igualdade dos grupos minoritários. Assim, demonstrar a igualdade entre homens e mulheres foi uma experiência historicamente necessária para que o feminismo percebesse os limites dos conceitos de gêneros e se abrisse para a diferença entre os sexos.

O segundo ponto, decorrente do primeiro, nos vem da seguinte questão: como admitir e lutar pela existência da multiplicidade sem recair na percepção de um só mundo possível? Para Lazzarato, esta nos parece ser a pergunta-chave que norteia o novo regime de lutas sociais. Sem as primeiras conquistas de igualdade não seria possível a abertura para processos de subjetivação heterogêneos e em devir, ora em curso. Assim, a crítica feminista do feminismo pode posteriormente se reencontrar com outras exclusões subjacentes às estratégias identitárias, ancorando-se nas mulheres de cor e nas lésbicas e transexuais para desconstruir o próprio sujeito mulher. Em última instância, trata-se de abolir a lógica identitária para alargar a política das diferenças, de modo a liberartar dois ou mais mundos (incompossíveis) de um único mundo realizado pelos canais institucionais da esfera política.

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Os dois pontos anteriores conduzem a um terceiro: a reversibilidade das assimetrias e estados de dominação implicados pelas tecnologias de governo, através da ação sempre movente e flexível das organizações pós-socialistas. Para Lazzarato, os novos atores políticos são capazes de misturar em jogos estratégicos a gestão das identidades coletivas e suas dicotomias essenciais instituídas pelo poder estabelecido, de modo a fazer emergir uma política do devir, de criação e efetuação de novas formas de subjetividade.

Este aspecto nos parece bastante interessante, porque nos remete à estatística como tecnologia de gestão dos coletivos sociais. Assim como a cooperação entre cérebros reclama a participação dos grupos minoritários organizados na definição da finalidade da pesquisa científica, a sociedade de controle reúne condições de possibilidade homólogas para a intensa influência dos mesmos grupos políticos na formulação do programa estatístico, tanto na cobertura quanto na definição de suas categorias de classificação. Este é um aspecto central, já que a realidade da descrição estatística, dicotômica por definição, adquire eficácia normativa ao ser convalidada pela ordem pública. Por um lado, a estatística, ao contrário do que se costuma afirmar, não é um dado, já previsto e reificado, mas uma informação, que pode ser e é continuamente resignificada, recebendo interpretações ampliadas ou restritivas de acordo com o interlocutor e a ordem do discurso. Isso é válido, sobretudo, para as informações estatísticas mais disputadas, pouco consensuais, como é o caso dos indicadores sociais. Por outro lado, a participação ativa dos grupos minoritários demanda e avaliação dos números e seus pressupostos conceituais precipita mudanças severas, embora de baixa visibilidade social, nos procedimentos estatísticos de objetivação, cujo critério não raro tem se deslocado da antiga noção de objetividade da realidade exterior para a de objetividade da dimensão subjetiva, ou seja, percepções sobre pertencimentos subjetivos, como ocorre especialmente em classificações étnico-linguísticas

Por fim, o quarto e último ponto nos vem da substituição do assalariamento pela política de renda. O modelo de salário, resíduo do regime da fábrica, implica não apenas uma relação de subordinação a um empregador, mas também a recomposição de um sujeito majoritário que se sobrepõe e inibe a todas as subjetividades possíveis. Em seu lugar, a política de renda permite reconciliar as diferenças no interior e no exterior do assalariamento, sem recair em um padrão majoritário e sem se confundir com uma simples distribuição equitativa dos recursos. Ao contrário, a política de renda permitiria compreender e valorizar a multiplicidade do tempo de trabalho enquanto tempo de vida, a

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heterogeneidade das temporalidades e subjetividades. Embora insista neste aspecto, Lazzarato é muito pouco claro sobre o modo como estas diferenças qualitativas, cujo desdobramento infinitesimal pretende estimular, podem ser mensuradas e quantificadas em remunerações e prestações, base para qualquer política de renda.

A questão da política de renda não é um problema isolado. Lazaratto arrisca-se a cair em um profundo idealismo por diversas vezes, tanto por seu excesso de confiança nas estratégias pós-identitárias dos grupos minoritários, para o que se vale de uma generalização do caso feminista, sem enfrentar a tomada de posição dos movimentos negros e homossexuais, para não falar das minorias étnicas nacionais, que parecem ir na direção oposta. Inspirando-se no pós-humanismo e no pós-estruturalismo, Lazzarato incorre no paradoxo de um idealismo sem sujeito, alimentado por redes sócio-técnicas, que, para agravar o quadro, não possui o apelo sedutor do racionalismo subjacente à filosofia da consciência, que ferozmente critica. Seu silêncio sobre o sistema financeiro e os processos que conformam uma inteligibilidade global às dinâmicas atuais é bastante sintomático. A análise apressada que faz da moeda, cuja virtualidade lhe permite “capturar a articulação da diferença e da repetição” é, no mínimo, constrangedora. Esta falta de “ceticismo na razão” torna a aparecer no que diz respeito às possibilidades organizacionais e políticas da cooperação virtual nas tecnologias informáticas, em que se baseia o cerne de seu argumento. Vejamos um único exemplo: o uso de informações georreferenciadas, como as do Google, igualmente criadas pela “captura e apreensão recíproca entre as mônadas”. Os mapas digitais fazem com que todos se sintam em casa, precisamente porque se baseiam no conhecimento dos moradores da região, que podem contribuir com informações de sua própria rua, não tanto para criar bens comuns, como para ampliar a atratividade da vida nas grandes cidades. Revelados nos mapas, os serviços de conveniência e lazer ganham fôlego novo na e pela ação das mônodas, renovando assim antigas promessas de felicidade e bem-estar nascidas no capitalismo da fábrica. Nestes termos, devemos nos perguntar: um outro conceito de democracia e uma nova esfera pública não-estatal podem emergir de uma prática política pautada pelo utilitarismo econômico, que está na raiz das análises clássicas sobre a democracia moderna? Esta é uma questão decisiva que, oportunamente, não chega sequer a ser formulada por Lazzarato.

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