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A Guerra das Malvinas na Imprensa Brasileira: a Visão do Jornal do Brasil

Introdução

Maycom Pinho Santiago

Este artigo tem por objetivo o estudo da Guerra das Malvinas à luz do Jornal do Brasil. A guerra, quando analisada pelo prisma da mídia impressa soma no leque de possibilidades de leitura do evento e em alguma medida ajuda no aprofundamento de suas interpretações. Portanto, o jornal figura aqui como ponto de partida e alicerce para a inferência do posicionamento brasileiro e de outras nações diante do conflito, da opinião pública, dos trâmites da questão nos organismos internacionais bem como a visão do próprio jornal a respeito da guerra. Foram analizadas as edições do Jornal do Brasil, de 2 de abril a 14 de junho, disponíveis em seu acervo digital na internet. O trabalho feito foi o de “cola e tesoura“ - nas palavras do historiador Robin George Collingwood - onde selecionou-se e analizou-se trechos cruciais dos quais foi possível extrair as interpretações aqui apresentadas.

Primeiras Impressões

Faz exatamente trinta anos desde 1982 quando o Reino Unido e a Argentina lançaram-se em um confronto armado com duração de dez semanas, com vitória inglesa, pela posse das Ilhas Malvinas 1 . Apesar de curto – se comparado a outros embates bélicos que marcaram o século XX – o conflito gerou impacto suficiente para suscitar calorosos debates dentro dos principais organismos internacionais. Países de todos os continentes lançaram juízo sobre a agressão argentina, uns posicionando-se contra, outros a favor; uns apenas observando atentamente o curso da história, outros participando diretamente nas negociações do conflito, quer seja nas discussões no âmbito das Nações Unidas ou na Organização dos Estados Americanos (OEA). Para o

1 Malvinas para os argentinos e Falklands para os britânicos.

Brasil, que mantinha relações amistosas com ambos os países, era interessante que o impasse se resolvesse em tempo hábil e da melhor maneira possível, uma vez que estava em jogo não apenas uma contenda restrita a Londres e Buenos Aires, pela soberania das ilhas, mas a geopolítica regional e a correlação de forças no Cone Sul, àquela altura abalada. É mister para os historiadores bem como para as elites políticas tratarem com mais atenção o tema, uma vez que o ano que passou foi marcado por inflamados discursos tanto do Parlamento inglês quanto da Casa Rosada a respeito da soberania das ilhas. David Cameron, atual Primeiro-Ministro inglês declarou em 2011 em um de seus discursos: “Enquanto as ilhas Falklands quiserem ser território soberano britânico, vão permanecer território soberano britânico, ponto final“ 2 . Horas depois Cristina Kirchner, atual presidente da Argentina, retrucava do outro lado do Atlântico a afirmação de Cameron:

Yo quiero decirles, en nombre de todos los argentinos, que los argentinos nunca creímos en los puntos finales de los derechos humanos y mucho menos de los derechos soberanos de nuestra sigla Malvinas. Que solamente la mediocridad , que solamente la arrogancia cree que se puede poner el punto final a una historia. Vamos a seguir incansablemente reclamando esa soberania sino el que se siente a dialogar y a negociar como marca la resolución de Naciones Unidas. Vamos hacerlo en todos y cada uno de los foros. Vamos a decir que en el siglo XXI siguen siendo una burda potencia colonial en decadencia, porque el colonialismo es algo antiguo además de injusto. Y lo vamos a decir sin cansarnos, y lo harán los que vengan después de mi, y los hijos de nuestros hijos, pero las vamos a volver a recuperar en el marco del derecho internacional y de la paz. Que nos les quepan dudas! 3

2 A fala do Primeiro-Ministro se tem bases em um argumento utilizado desde os anos 1960, e está

viculada

presidente-argentina-ataca-reino-unido-por-ilhas-malvinas.shtml.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/931332-

à

Declaração

dos

Direitos

dos

Povos. Ver:

3 Ver: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/southamerica/falklandislands/8581788/Argentina-

President-Britain-is-a-crass-colonial-power-in-decline.html#ooid=5weTdqMjoJBm24l-

rUssQf6BujZdmG8V.

A situação atual não está porém limitada apenas a troca de palavras enérgicas por parte de ambos os países; a Argentina tem lançado à mesa suas cartas, e o governo

de Cristina Kirchner tem apostado na negociação diplomática para recuperar as ilhas, ao contrário do que fez seu antecessor, Leopoldo Galtiere, que lançou mão das armas para fazer valer a vontade argentina. Desse modo tem pressionado Londres de todos os lados,

e a última cartada foi econômica: em reunião dos chefes de Estado do Mercosul, fechou-

se o acordo de que não se permitirá o aporte de navios com a bandeira das Malvinas em

portos dos países-membros do bloco, numa tentativa de forçar o governo inglês a sentar

e negociar. Até o Chile, membro-associado do bloco e aliado inglês em 1982 ratificou o acordo e aderiu irrestritamente ao bloqueio. 4 Os tempos são outros, os governos mudaram, os atores políticos de hoje tem nas maõs uma herança, deixada por aqueles que os antecederam, a herança da guerra e suas ações estão intimamente ligadas ás ações tomadas a trinta anos atrás.

Se hoje a Argentina recorre aos meios diplomáticos para reaver as Malvinas – como sempre o fez, desde antes da guerra - não foi assim décadas atrás. A edição do Jornal do Brasil de 3 de abril de 1982 estampava em sua primeira página, como também o fizeram os principais jornais do mundo: "Argentina ocupa as Ilhas Falklands". Há muito a Argentina estava ressentida pelo fato da coroa britânica ter-lhe tomado (na visão argentina) aquele minúsculo arquipélago, âmago das questões nacionais, em 1833. O governo argentino à epoca era encabeçado por uma junta militar liderada pelo general Leopoldo Galtieri, presidente e partícipe de uma ditatura que se instalara no país por meio de um golpe de Estado em 1976. O quadro econômico e social do país não era nada bom quando Galtiere assumiu: um modelo econômico esgotado, inflação galopante, o empobrecimento da classe média, endividamento externo das empresas e do Estado, redução dos salários reais etc. A tomada das Malvinas parecia a solução para os problemas, e a criação de um inimigo externo não só uniria a nação desagregada como também fortaleceria o regime de estrutura carcomida. Cálculo errado.

Ao “invandir“ as Malvinas na esperança de resolver uma questão secular,

a Argentina criava um grande impasse. Um pequeno arquipélago no Atlântico Sul se

4 http://www.lanacion.com.ar/1435735-malvinas-chile-ratifica-el-bloqueo.

tornava um problema global. No Brasil, assim definia o Jornal do Brasil o desembarque

das tropas argentinas nas ilhas:

Ao governo militar argentino falta respaldo, faltam bases políticas, falta todo tipo de ressonância popular. E então, antes de ser um ato irrefletido, o desembarque nas Malvinas assume um aspecto de um cálculo medíocre, destinado a excitar as paixões populares, a afogar em instintos patrióticos, o que é sob todos os aspectos um penoso início de governo. 5

De maneira geral a opinião pública internacional condenou a ação argentina. O

Canadá, por exemplo, falou em ruptura do status quo e violação direta da resolução

sobre soberania de 1976, da ONU. A maioria dos países condenou a ação militar.

Diplomaticamente não ficaria bem mostrar simpatia por um ato de agressão, quando o

século já tinha sido castigado duramente por duas guerras mundiais e a chamada Guerra

Fria dividia o mundo entre EUA e URSS. A crise das Malvinas inseria-se num conjunto

maior de questões fronteiriças em aberto pelos rincões do globo, e ativá-la significava

torná-la um problema de todos. Tentaram-se todas as possibilidades de negociação, mas

Londres e Buenos Aires pareciam irredutíveis.

O Jornal do Brasil

O posicionamento oficial do governo brasileiro foi o de neutralidade. A imprensa

brasileira, entretanto, foi taxativa e não se furtou o direito de sinalizar exatamente qual o

partido tomaria nessa questão. Os principais jornais impressos em circulação no país à

época decidiram apoiar, uns a Inglaterra outros a Argentina. 6 O jornal aqui citado

5 Jornal do Brasil 3 de abril de 1982 – página 15.

6 O Correio Brasiliense, por exemplo, assim afirmava: “Uma coisa deveria ficar bem

certa, a Argentina é um país latino-americano, e merece de nossa parte, “latinos“, todo o

nosso apoio [

ela existe, chegou a hora de pormos fim ao colonialismo, e acharmos uma solução de

Maria

Barbosa e Yara Curi. Correio Brasiliense, Sessão Revista, Coluna “Malvinas“, 16 de maio de 1982, página 6. Esse argumento fornece um exemplo de como estava dividida a imprensa brasileira no que toca à questão.

Lamento profundamente esta guerra em nosso continente, mas já que

]

paz, mas que coloque as Malvinas, independente de qualquer país europeu

inclinou-se à Inglaterra. Ao ler as análises de seus correspondentes e editores fica claro ora nas entrelinhas ora explicitamente tal afirmação. As palavras, escolhidas a dedo, para referir-se aos países do conflito, falam para além de si mesmas. “O continente acordou sobressaltado com a notícia inusitada da invasão das Ihas Falklands7 , para o jornal, o desembarque argentino nas ilhas não simbolizava uma retomada legítima de um território que havia sido roubado da nação porteña, como na visão do governo de Buenos Aires, mas sim uma atitude irracional, errada, que merecia todo o repúdio, pois o direito às ilhas recaía sobre a Inglaterra. Ao longo de toda a cobertura da guerra prima- se pelo uso do termo Falklands em detrimento de Malvinas, e quando este é usado sempre está atrelado à citação direta de algum representante do governo argentino, e mesmo assim, logo em seguida lê-se Falklands em parentêses. O Jornal do Brasil acusou o governo argentino de militarizar a política, e magnificar a força como forma de resolver querelas. Todas as suas críticas recaíam sobre uma ditadura desgastada. Se utilizando daquilo que chama de fantasmas do passado, o jornal retoma os primórdios da república argentina para explicar as atitudes do governo:

Assiste-se, como que por mágica, ao reaparecimento do herói caudilhesco, do “homem forte“ que pretende tomar o destino (ou as

A veia caudilhesca é como um rio subterrâneo

que emerge, eventualmente, nesta parte do continente. Analizou-a a

mais de um século um grande argentino – Domingo Faustino Sarmiento – em livro (O Facundo). 8

Falklands) na mão [

]

O Discurso Americano e suas Contradições Os EUA condenaram a investida militar de Galtieri e anunciaram sua neutralidade em relação à contenda sobre a soberania das ilhas. Reagan falava ao telefone com o presidente argentino no exato momento em que as tropas rumavam para as ilhas, na tentativa de fazê-lo desistir da ação, propondo que se resolvesse a situação

7 Ver Jornal do Brasil, 3 de abril de 1982, pág. 15.

por meio do diálogo. 9 Porém duas questões se levantam frente ás atitudes americanas, a primeira de cunho moralista e a segunda de cunho estratégico. Sob o pretexto de "contenção do comunismo", Washington no início da década de 1980 também recorria à força para resolver uma crise regional na América Central. Fala-se aqui da intervenção militar norte-americana na Nicarágua contra a Revolução Sandinista de 1979, a qual contou com a ajuda da Argentina, alinhada fiel da política externa estadunidense na América do Sul. Como então recriminar a postura assumida por Galtieri, se o governo Reagan há pouquíssimo tempo agia da mesma forma? Desta maneira o discurso americano deixava brechas para críticas, as quais ficaram evidentes com a crise das Malvinas. O porta-voz para assuntos interamericanos do Departamento de Estado, Jeffrey Biggs, anunciou logo após a invasão argentina que a mediação americana não havia sido solicitada, oferecida ou estava sendo planejada. 10 Porém, o secretário das relações exteriores da Inglaterra, Lord Carrington, confirmou o pedido de mediação dos EUA em um apelo pessoal do presidente Reagan. O porquê do choque de informações fica em aberto. É claro que a questão interessava muito aos EUA, prova disso são os telefonemas de Reagan a Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica, e basta dizer que a crise desenrolava-se em sua área de influência para ter-se um argumento mínimo que justificasse qualquer ação americana no sentido de influir na contenda. No exato momento da invasão os EUA parecem não ter optado por um protagonismo na crise - como pode ser atestado pela declaração de seu porta-voz - atitude que não se sustentaria por muito tempo, já que nos dias que se seguiram tornou pública sua intenção em ser mediador das reivindicações das partes envolvidas. A Casa Branca participava cada vez mais á medida que a URSS ampliava na mesma proporção sua interferência no conflito. A edição de 15 de abril de 1982 do Jornal do Brasil traz em sua primeira página e exigência de Reagan que a URSS butt out (caia fora) da crise argentina. Moscou via a possibilidade de tirar algum proveito da situação e os EUA estrategicamente tentava equilibrar a balança de interesses.

9 Reagan ao telefone com Galtiere, ver Jornal do Brasil 3 de abril de 1982 – pág. 15.

10 Afirmação de Jeffrey Biggs, ver Jornal do Brasil 3 de abril de 1982 - pág. 15.

A Invasão e seus Primeiros Desdobramentos Margaret Thatcher, conhecida como "a dama de ferro", fez jus ao adjetivo a ela atribuído e a resposta britânica à agressão argentina veio prontamente. Ela abriu um combate em duas frentes, a interna e a externa. As Falklands passaram a constituir uma questão de honra e Thatcher soube aproveitar a situação. Seu posicionamento enérgico diante da crise rendeu-lhe popularidade diante dos britânicos, o que permitiu-lhe um segundo mandato mais à frente. Lord Carrington, chanceler inglês caira nos primeiros dias da crise e o parlamento também se preparava para um novo primeiro-ministro. Thatcher precisou dobrar os sindicatos que pressionavam de todos os lados antes de dobrar a Argentina. A Inglaterra fez pedido de convocação do Conselho de Segurança da ONU que apresentou 10 votos a favor da retirada das tropas argentinas das ilhas, 4 abstenções (entre elas a URSS) e o voto contrário do Panamá. 11 Em meio às discussões no Conselho, Eduardo Roca, delegado argentino afirmava: "Escrevemos uma nova página na História. Mantemos a vontade de negociar. Tudo é negociável, menos a soberania". 12 Enquanto transcorriam os debates na ONU e na OEA, o Reino Unido não ficava de braços cruzados, mas preparava sua maior frota de desde a Guerra do Suez e rumava para o Atlântico Sul. Nas ruas de Buenos Aires, passado o afã da reconquista, o "entusiasmo cedeu lugar a debates mais ponderados" segundo o Jornal do Brasil. Um motorista dizia ao correspondente deste mesmo jornal: "a Argentina deveria resolver primeiros seus problemas (internos) para depois arranjar outros".

Londres e Buenos Aires, entre Aliados e Não-aliados

Levada a questão para a OEA (Organização dos Estados Americanos), a Argentina anunciava a possibilidade de solicitar que fosse acionado o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca), já que a Inglaterra se movimentava belicamente no sentido de garantir a devolução das Malvinas. Trata-se de um acordo de desefa mútua assinado em 1947 entre diversos países americanos; o princípio norteador do tratado é basicamente o de que um ataque de um país externo à América a um dos

11 Sobre a votação do Conselho de Segurança, ver Jornal do Brasil 4 de abril de 1982 - pág. 2.

países do continente, seria interpretado como um ataque a todos os signatários do tratado e esses "agredidos" juntariam esforços contra o inimigo comum. Mas a questão em torno do tratado tornou-se mais complexa uma vez que vários países signatários não viam legitimidade na intenção argentina em acionar o apoio bélico do continente. O argumento dos países contrários à Argentina era: "ora, já que o tratado discorre sobre uma ameaça real ou ataque efetuado por um país nao-americano e foi a Argentina quem abriu a rodada de agressões, invadindo um território sob administração britânica, então o apoio não se aplica ao caso". Como a reinvindicação argentina sobre as ilhas era antiga, o país tentou fazer algumas modificações no texto do tratado anos antes da crise de 1982, como mostra o Jornal do Brasil:

Habilmente, na 5º reunião de consulta, em Costa Rica, em 1975, a Argentina promoveu reforma do texto do tratado ampliando os limites

de jurisdição no Atlântico Sul, exatamente para incluir as Ilhas

Falklands, naquela ocasião ainda sobre o dominio tranquilo da

Inglaterra. 13

À medida que a guerra se aproximava, o governo de Buenos Aires parecia nadar contra a maré. Não contava com a boa vontade de muitos países e dentre eles os EUA, que mediram na balança os prós e os contras e anunciaram imparcilalidade na questão mas suas atitudes sinalizavam claramente um apoio a Londres. Prova disso foi o fato de disponibilizarem a base aérea da Ilha de Ascensão para ensaios militares. A Inglaterra mobilizava toda a CEE (Comunidade Econômica Europeia), ancestral da União Europeia, no sentido de impor severas sanções econômicas à Argentina. Assim anunciava o Jornal do Brasil em 7 de abril:

A CEE condenou ontem oficialmente a intervenção armada da

Argentina contra um território britânico ligado a comunidade. Ao

considerar a intervenção uma violação do Direito Internacional e dos direitos dos habtantes das Falklands o comunicado da CEE expressa

Os nove parceiros da Grã-Bretanha

na CEE mostraram-se dispostos a acatar as sanções econômicas contra

a Argentina pedidas por Londres, que incluem o boicote à compra dos

solidariedade á Grã-Bretanha [

]

13 Ver Jornal do Brasil, 7 de abril de 1982, pág. 15.

principais produtos de exportação argentinos e a suspensão da venda de armamentos e da concessão de créditos de exportação a Buenos Aires. 14

Começam entretanto a manifestarem-se os aliados da causa argentina, aqueles que inclusive na eventualidade de um confronto armado, como o que dias depois ocorreria, prestariam apoio bélico. Um dos primeiros a tornar público seu apoio foi Cuba. Também juntaram-se a ela Venezuela, Peru e Bolívia. E aos poucos engendrava- se uma solidariedade sul-americana para com o vizinho latino. Os rumores de que Moscou estava colaborando com Buenos Aires fornecendo informações sobre a frota britânica aumentam. Essa "simpatia" entre Galtieri e Brejnev parecia não seguir uma lógica de alinhamento ideológico, já que o regime porteño era uma ditadura de extrema direita, mas que na necessidade de um aliado forte, já que os EUA alinharam-se à Inglaterra, não vira grandes problemas em aceitar as contribuições soviéticas.

O Brasil Entra em Cena

"Se eles querem que venham. Faremos a guerra". Leopoldo Galtiere.

"Brasil age para evitar guerra no Atlântico Sul". Jornal do Brasil, 11 de abril de 1982.

O Secretário de Estado americano, Alexander Haig, pôs-se sem reservas na ponte aérea Londres-Buenos Aires na incumbência de evitar um conflito armado. Queimados os cartuchos diplomáticos de Haig, o Brasil propôs assumir a posição de "mediador oficial". Brasília acompanhava atenta a crise no Atlântico Sul desde o começo e seu envolvimento nela era direto. Com a invasão, a Inglaterra cortara relações diplomáticas com a Argentina, esta por sua vez pediu ao Brasil que representasse seus interesses em Londres da mesma forma que a Suíça o faria pelos interesses ingleses em Buenos Aires. Assim, o Brasil que havia declarado neutralidade na crise, apostava antes

14 Ver Jornal do Brasil, 7 de abril de 1982, pág. 15.

numa solução pacífica. O presidente Figueiredo enviou uma carta tanto a Galtiere quanto a Thatcher expressando sua preocupação e solicitando em nome da boa relação entre o Brasil e os dois países e em nome da paz que os líderes se propusessem a uma negociação efetiva, como consta em nota do governo brasileiro:

Fiel a sua tradição de defesa da paz e da concordia entre as nações e inspirado pelo sólida amizade que o liga a cada uma das partes, o Brasil formula veemente apelo aos governos do Reino Unido e da República Argentina no sentido de que envidem todos os esforços para buscar uma solução pacífica para a atual controvérsia. 15

Mas a Argentina só aceitava negociar se mantivesse sua soberania na área. A Inglaterra não aceitava esse pressuposto. Dito isto as conversas não andavam. O Brasil deixava claro que apoiava a reinvindicação argentina sobre as ilhas mas condenava o uso da força. Desta forma, a chancelaria brasileira habilmente ao mesmo tempo em que anunciava a neutralidade no conflito, legitimava o reclame de seu vizinho, isto sem incorrer na contradição norte-americana, uma vez que sempre trazia à memória o pacifismo que marcava sua política externa. 16

Numa querela dessa envergadura, declarar-se neutro parecia suspeito. Assim o Brasil se definiu, entretanto, bem analizadas as entrelinhas de seus discursos, ver-se-á seu apoio à causa argentina, na mesma medida em que conciliava tal apoio com a manutenção das boas relações com a Inglaterra. Porém como potência regional em afirmação, demarcou as condições para tal favorecimento, e essas expressavam-se por meio dos pronunciamentos oficias que deploravam o uso das armas.

A preocupação brasileira girava entre outras coisas, em torno da possibilidade de frente à agressão argentina, outros países do subcontinente virem-se impulssionados a resolver conflitos pendentes da mesma forma. Um exemplo claro era o Chile, que

15 Ver Jornal do Brasil, 7 de setembro de 1982, pág. 15.

16 "O arbitramento como forma de resolver conflitos transformou-se para o Brasil num credo

sustentava uma contenda espinhosa com a Argentina pelo Canal de Beagle, para citar um exemplo. As notícias que chegavam ao Brasil de Buenos Aires não sinalizavam uma predisposição à negociação, mas uma esquisofrenia desenfreada, de acordo com fonte da embaixada brasileira na capital argentina:

Os argentinos agora só pensam de um jeito, ou é amigo ou é inimigo, e uma posição brasileira que não seja bem recebida pode interromper a lua-de-mel em que vivem os dois países desde os acertos das negociações de Itaipu e Corpus. 17

O Brasil, que se cristalizava como potência regional sinalizava estar disposto a evitar uma guerra em sua "área de influência", assim lê-se no Jornal do Brasil: “A

política externa do presidente Figueiredo não pode aceitar a militarização do Atlântico Sul, com uma guerra que tanto pode desestabilizar os países envolvidos, quanto a região“. 18

O país começa a falar então em auxílio econômico para a Argentina, que teve a importação de seus produtos proibida no Reino Unido. A asfixia financeira argentina significava também um golpe na economia brasileira, e com o auxílio o Planalto tentava evitá-la, como consta no pronunciamento de alta fonte diplomática em Brasília: "O Brasil não permitiria que a Argentina se liquidasse política e economicamente, o que fatalmente aconteceria com a guerra". 19 O sociólogo Hélio Jaguaribe, procurado pelo Jornal do Brasil, faz um balanço do quadro que se instalara na região e manifesta as expectativas que rapidamente se lançavam sobre a atuação brasileira na questão:

A decisão do governo argentino, na madrugada de 2 de abril, de ocupar militarmente as Ilhas Malvinas foi, evidentemente, tão infeliz como temerária. Com efeito, a titularidade argentina sobre aquelas linhas, que o Brasil, entre outros países, reconhece, não podia, por um lado, ignorar o fato de que a Grã-Bretanha mantinha uma posse ininterrupta daqueles territórios por 150 anos. Tal posse, então destituída de legitimidade em sua origem, se tornou, por sua longa e contínua duração, algo merecedor de respeito jurídico. Por

17 Ver Jornal do Brasil, 11 de abril de 1982, pág. 12.

18 Ibid.

19 Ibid.

outro lado, é indiscutível que a agressão militar não pode ser aceita como um instrumento de preservação de direitos, como

Na

grave emergência que se criou no caso das Malvinas, há nitidamente uma missão para o Brasil cumprir. Como país amigo dos dois contendedores e país irmão da Argentina, com cujos destinos o nosso é solidário, o Brasil precisa imediatamente oferecer seus serviços de mediador. Um mediador confiável e legitimamente interessado na questão. 20

expressamente o estabelece a Carta das Nações Unidas [

]

À época, o historiador Moniz Bandeira, também procurado pelo Jornal do Brasil

para tecer comentários acerca da crise no Atlântico Sul, declarou que o

desmantelamento da economia argentina beneficiaria economicamente o Brasil, que

passaria a preencher espaços na economia europeia, e sobretudo inglesa, anteriormente

ocupados pela Argentina. Mas o Brasil parecia determinado a encarnar o neutralismo

anunciado e as autoridades econômicas brasileiras anunciavam que o país não seria

oportunista, pois os ganhos econômicos seriam de curto e não de longo prazo. Brasília

estendia a mão a Buenos Aires apostando que o integralismo lhe traria maiores

benefícios, ao invés da simples indiferença para com os problemas que a cercavam.

Além da interferência de potências bélicas e econômicas, na crise das Malvinas,

o conflito serviu como exercício de atuação da diplomacia brasileira, que na concepção

de Helio Jaguaribe tinha de procurar soluções para uma questão espinhosa que se

desenrrolava em sua área de influência e que ameaçava pintar um novo quadro de

relações multilaterais entre os países sul-americanos e destes para com as demais

nações, quadro esse que provavelmente não beneficiaria o projeto hegemônico

brasileiro, que desde o governo Geisel saía do conceito de potência intermediária, rumo

a um pragmatismo ecumênico 21 e responsável, interessado antes numa sociedade

igualitária a uma posição de liderança.

20 Ver Jornal do Brasil, 7 de abril de 1982, pág. 12.

21 VIDIGAL, Carlos Eduardo. A Integração Sul-Americana como um Projeto Brasileiro: de Uruguaiana às Malvinas. Páginas 11-13.

Bibliografia Complementar

BUENO, Clodoaldo; CERVO, Amado Luiz. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.

JAGUARIBE, Hélio. Reflexões sobre o Atlântico Sul: América Latina e Brasil ante a desarticulação do sistema interamericano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

VIDIGAL, Carlos Eduardo. A Integração Sul-Americana como um Projeto Brasileiro: de Uruguaiana às Malvinas.