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XIV Encontro Anual da ABEM

Belo Horizonte, 25 a 28 de outubro de 2005

Construção de instrumentos e organologia: a experiência na UFSCar

Daniel Gohn
Universidade Federal de São Carlos – UFSCar
dgohn@uol.com.br
Resumo. Este relato tem como objetivo descrever a experiência dos três primeiros semestres de existência da
disciplina “Construção de Instrumentos e Organologia”, parte do curso de Licenciatura em Música da
Universidade Federal de São Carlos. Iremos detalhar algumas das atividades realizadas até o momento,
incluindo a construção de instrumentos musicais com materiais diversos, como madeira, plásticos, tubos de
PVC, papel e cartolina; pesquisas sobre a história de instrumentos; discussões e estudos sobre o uso de
instrumentos alternativo para a realização musical; atividades de composição e improvisação com os
instrumentos construídos; e a participação de convidados nas aulas, como luthiers e especialistas em
diferentes formas de construção de instrumentos.

Introdução

Este relato tem como objetivo descrever a experiência dos três primeiros semestres
de existência da disciplina “Construção de Instrumentos e Organologia”, parte do curso de
Licenciatura em Música da Universidade Federal de São Carlos. Tal disciplina é obrigatória
em dois semestres e torna-se opcional para um terceiro, sempre com uma carga horária de 4
horas semanais. Atualmente, através de uma parceria firmada entre o Departamento de
Artes e o Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar, é ministrada no
Laboratório de Produtos, contando com amplas instalações, máquinas e ferramentas, e a
disponibilidade um técnico especializado.
O curso de Licenciatura em Música da UFSCar, iniciado em 2004, visa a formação
do profissional dentro de uma perspectiva que valoriza sua atuação em três vertentes: como
educador musical, como músico e como agente cultural (ou animador sócio-musical),
envolvendo a comunidade local em diversas atividades e estimulando a participação de
alunos em projetos fora dos limites da universidade (Joly, Santiago, Kater e Cortegoso,
2003). A disciplina “Construção de Instrumentos” contempla esta visão múltipla e abre
possibilidades para o desenvolvimento da criatividade dos alunos, expondo-os a situações
que exigem a solução de problemas, o gerenciamento de tarefas, pesquisas, habilidades
manuais e muito trabalho em grupo.
Neste artigo, iremos detalhar algumas das atividades realizadas até o momento,
incluindo a construção de instrumentos musicais com materiais diversos, como madeira,

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1998 e Brito. clavas de PVC. A atividade prática de construir instrumentos musicais a partir de materiais diversos é o principal foco da disciplina que serve como tema para este relato. mais do que sugerir que a construção de instrumentos serve para lidar com a escassez de recursos. Dentro do espírito pedagógico proposto por Schafer. castanholas de colher de pau. 282). 2003. Construção de Instrumentos As práticas da construção de instrumentos e do trabalho exploratório de diferentes objetos sonoros são apontadas por diversos autores como meio para um grande desenvolvimento da criatividade dos alunos (Brito. tubos de PVC. caixetas. não há “receitas de bolo” definitivas. existe 2 . Dessa forma. Schafer. p. e a participação de convidados nas aulas. a construção parte de propostas colocadas pelo professor. pesquisas sobre a história de instrumentos. atividades de composição e improvisação com os instrumentos construídos. kazús. Os alunos são encorajados a experimentar com diferentes combinações de materiais e buscar alternativas para a possível falta de algum item. paus-de-chuva. apenas uma comunidade de aprendizes” (Schafer. em que “não há mais professores. não há regras ou etapas limitadoras que impeçam que os alunos inventem seus próprios instrumentos ou adaptem as idéias trabalhadas para seus próprios propósitos. flautas transversais e flautas pan de PVC. foram construídos pandeiros com latas e tampinhas de garrafa. beliscofones (com tubos de PVC e bexigas). 2003).plásticos. No entanto. sobre acústica. e sobre o funcionamento dos instrumentos musicais. marimbas de cabo de vassoura. 1991. Swanwick. 1991. despertando sua curiosidade e interesse e contribuindo para o entendimento de questões sobre a produção do som e suas propriedades. entre outros. papel e cartolina. cuícas de lata. que indica os materiais e procedimentos para chegar a um determinado resultado sonoro com o instrumento pretendido. ou seja. Usualmente. chocalhos de diversos tipos. 1998). como luthiers e especialistas em diferentes formas de construção de instrumentos. Documentos oficiais do governo brasileiro também indicam a construção de instrumentos como conteúdo a ser inserido nos currículos da educação musical (Brasil. platinelas. discussões e estudos sobre o uso de instrumentos alternativo para a realização musical.

a adaptação das propostas pelos alunos surpreende pela originalidade. Para se montar a escala de uma oitava. a paciência e o auto-estímulo. como. valorizando o processo das pesquisas sonoras mais do que o resultado final obtido. Durante todas as atividades. mas dentro de um contexto estabelecido pelo trabalho realizado durante a construção.o propósito de estimular o uso da imaginação. a área da “organologia” é observada através de pesquisas dos alunos. os métodos. apresentadas nas aulas na forma de seminários. com as clavas de PVC. Para denominar essa criação. 3 . por exemplo. A sugestão inicial era construir uma marimba com cabos de vassoura. arredondar as pontas e dar um “ajuste fino” ao instrumento com um afinador eletrônico. dando maior estabilidade e ressonância ao instrumento. A troca de informações se mostrou bastante intensa e proveitosa. transparências e demonstrações com os instrumentos sendo comentados. principalmente com instrumentos em que cada indivíduo (ou grupo) é responsável por parte da construção. Outras repartições da gaveta foram cobertas com madeira para que também pudessem ser percutidas com baquetas. descrevendo seus mecanismos de funcionamento e as principais obras. pode-se constatar um trabalho em grupo de grande harmonia e cooperação. como no caso do “gavetofone”. Esta gaveta fazia parte de um conjunto de móveis velhos que era usada pelos correios e seria jogada no lixo. compositores e intérpretes que o utilizaram. surgiu a idéia de utilizar uma gaveta do estilo “caixa de banco”. sob o risco de se produzir instrumentos sem nenhuma preocupação de qualidade. As separações eram perfeitas para que os pedaços de madeira fossem colocados. Pesquisa e estudos Juntamente com a construção de instrumentos. Cada grupo (duplas ou trios) fica incumbido de investigar a história de um determinado instrumento. espontaneamente começou a se utilizar a palavra “gavetofone”. mas após cortar as madeiras nas medidas corretas. com o uso de materiais de livros e sites da Internet. Em muitos casos. as ferramentas. Este resultado deve ser analisado sempre. é preciso que todos compartilhem o afinador eletrônico. com separações para se colocar notas de dinheiro.

e os também americanos do Blue Man Group. é colocado em discussão e estudo durante as aulas.O uso criativo de materiais alternativos para a realização musical. Outros vídeos mostrando a ação de luthiers e a história de instrumentos musicais tradicionais e inovadores também fazem parte do programa. Atividades de composição e convidados Depois de terminados. panelas. e vídeos de shows do Stomp e do Blue Man Group são assistidos. buscando identificar a sonoridade de cada um de seus instrumentos (que são previamente estudados). de restauração) dos instrumentos. que utilizam o PVC de forma diferente do Uakti. enriquecendo a experiência do aluno e sua visão do fazer musical.). como base para a proposta de desenvolver trabalhos de composição e improvisação. posteriormente. os instrumentos musicais construídos são utilizados em atividades de composição. etc. analisado em vídeos e escutas de CDs. Para tanto. Fechando o ciclo que se inicia com o processo de elaboração e construção (e. temos a etapa de exploração de suas possibilidades sonoras. 1991) é colocado em pauta. São enfocados grupos como o Uakti. inserindo seus instrumentos em show performáticos. Extrapolando o objetivo de ensinar a construir objetos que produzem música. ao mesmo tempo em que se quebra a noção de que música pode ser produzida apenas com os instrumentos tradicionais. que depois são apresentadas para as crianças do Laboratório de Musicalização da UFSCar. Gravações do Uakti são atentamente escutadas. isqueiros. para se construir um bom instrumento. O conceito de “paisagem sonora” (Schafer. quando necessário. em discussões e atividades de busca de objetos sonoros inusitados nas redondezas da sala de aula. shows como o americano Stomp. o construtor deve tocá-lo. Estas pesquisas e estudos possibilitam aos alunos conhecer melhor todas as famílias de instrumentos musicais. que serve de inspiração para a construção de instrumentos com tubos de PVC. Seguindo o princípio de que. bolas. jornais. que parte de situações do cotidiano para criar números musicais (com baldes. a meta da disciplina “Construção de Instrumentos e Organologia” é ampliar os horizontes para ao alunos. tanto na definição do que é música. os alunos combinam as sonoridades disponíveis 4 . são realizados exercícios de musicalização de histórias. quanto o que é instrumento e educação musical.

explicando como este processo é tradicionalmente realizado na prática. Outra atividade que conecta o aluno com o exterior da sala de aula é a presença de convidados. luthier com grande experiência na construção de violinos e violoncelos e que já tem envolvimento com a Orquestra Experimental da UFSCar. O grande interesse e envolvimento das crianças nas apresentações surge como estímulo e recompensa. por exemplo. construiu flautas de papel. relatam suas experiências em aplicar idéias em suas próprias aulas. para falar sobre as propriedades do som e sobre o mecanismo de produção sonora de alguns instrumentos musicais. especialista em oficinas de construção de instrumentos com materiais alternativos. Há um projeto de pesquisa. Seu Geraldo dirigiu a produção de violinos de cartolina e papelão. com madeira. procura-se trazer estas experiências para dentro das aulas na UFSCar). que já atuam como professores no ensino fundamental. Sardo trouxe fotos e vídeos de seu trabalho e. Outras visitas estão em fase de acertos. tratando do tema da disciplina. a de um músico que também é professor de física. Os planos deste projeto incluem uma ligação entre as aulas do curso e investigações nas comunidades de São 5 . junto com os alunos. concentração e cooperação que é exigido nos trabalhos. Conclusão Muitas transformações puderam ser constatadas nos alunos durante os primeiros semestres de existência da disciplina “Construção de Instrumentos e Organologia”.para inventar temas e improvisar músicas que se encaixem no roteiro da história que estão contando. e Benedito Geraldo de Oliveira. elaborado por um dos alunos e que deverá pleitear uma bolsa de iniciação científica. São valorizadas todas as presenças que contribuam para um melhor entendimento das relações entre a música e os meios instrumentais para produzi-la. alguns dos alunos. Por exemplo. O exercício de paciência. assim como a troca de informações realizadas nos seminários e discussões em aula. Até o presente momento tivemos a participação de Fernando Sardo. Outros falam de suas tentativas de construir instrumentos a partir de materiais presentes em suas cidades de origem (na medida possível. possibilitaram mudanças que são demonstradas em conversas e ações fora da universidade.

6 . In: Referencial curricular nacional para a educação infantil. 1991. Brasília: MEC/ SEF. Secretaria de Educação Fundamental. Bibliografia Brasil. As atividades descritas neste relato fazem parte de um currículo flexível e que poderá ter alterações de acordo com os resultados observados ao longo do tempo. Swanwick. Kater. Vol (3). Ilza Zenker Leme. esperamos trazer uma contribuição real para o desenvolvimento de nossos alunos. Secretaria de Educação Fundamental. Murray. Secretaria de Educação Fundamental. ________________. Carlos. como a Prática de Orquestra e o Laboratório de Musicalização. Joly. Música. 1998. Ana Lúcia. Cortegoso. Ministério da Educação e do Desporto. Projeto de Curso de Graduação: Licenciatura em Música com Habilitação em Educação – UFSCar. O ouvido pensante. Brasília: MEC/ SEF. 2003. p. Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança. Parâmetros curriculares nacionais: arte – terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Keith. São Paulo: Editora Moderna. indicando um caminho que trilha os mesmo passos de outras atividades da UFSCar. Glauber Lúcio Alves. Santiago. Dessa forma. São Paulo: Editora Unesp. São Paulo: Editora Peirópolis. São Carlos. Ensinando Música Musicalmente. da cidade de São Carlos e da educação musical em geral. Teca Alencar. objetivando integrar a universidade à população que a rodeia. 2003. Brito. 2003. Schafer. 1998. 45-79.Carlos.