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O poder dos Memes: humor, risos e protestos 1

Anderson Lucas da Costa Pereira 2

O humor presente nos Memes expostos nesse estudo já é um aspecto relativamente recorrente na Web, sob a forma de sátiras, ironias, charges, entre outros. Os Memes vem sendo utilizados como estratégia retórica, seja por parte de políticos ou ocupantes de cargos públicos, seja por parte da população em geral. Sendo assim, a emergência de novas formas de humor, propiciada pelas tecnologias de informação e comunicação, reforça ainda mais a importância de se pensar o uso deste humor (MARTINO, 2014). Estudar o humor é também analisar a sociedade (BERGSON, 2001) que o utiliza como código de interpretação do “real". Pois, o sentido humorístico dos Memes se estabelece no interior de certos contextos discursivos, no qual, o humor gera um tipo, também, de interação social (HALFELD, 2013).

Prefeitura lança concurso para escolha da marca “Belém 400 anos”

Cercada por rios e igarapés; ruas e avenidas contornadas por frutíferas e frondosas mangueiras; culinária variada e gosto musical diversificado, assim, se apresenta Belém do Pará: terra do açaí, do carimbo, do Ver-o-Peso 3 e de gente pai D’égua! 4 E Como parte das comemorações pelos 400 anos de Belém, a serem festejados em 2016, a prefeitura municipal lança o “Concurso Belém 400 anos - Marca Comemorativa”, que escolherá a melhor arte gráfica em homenagem ao aniversário da capital paraense 5 . “Concursos são sempre estimulantes. E, neste caso, o concurso de criação da logomarca dos 400 anos de Belém demonstra na prática que as ideias de todos são bem- vindas", afirma a diretora do Núcleo de Publicidade da prefeitura, “É importante deixar claro que qualquer pessoa pode participar do concurso, basta gostar de criação gráfica e conseguir expressar o amor pela cidade, dando ênfase às nossas características mais culturais” 6 .

1 Trabalho final apresentado ao curso Antropologia do lúdico e humor, ministrado pelo Professor John Comeford e pela professora Ana Carneiro. 2 Mestrando do primeiro ano (2015) do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Museu Nacional/UFRJ. Matrícula 115010134. andersonlucas219@yahoo.com.br

3 Mercado público localizado no centro comercial de Belém.

4 Termo popular para se referir a uma pessoa considerada muito legal.

5 Da Redação - Agência Belém de Notícias - 23/04/2015. www.belem.pa.gov.br

6 Fonte: www.belem.pa.gov.br, 24/04/2015.

Minutos após o lançamento do edital, muitos internautas começaram a sugerir suas primeiras ideias para expressar o amor pela cidade, dando ênfase às características culturais mais significativas da capital:

características culturais mais significativas da capital: Memes1: “400 anos de Belém” Memes da Cantora Fafá de

Memes1: “400 anos de Belém”

significativas da capital: Memes1: “400 anos de Belém” Memes da Cantora Fafá de Belém: os seios

Memes da Cantora Fafá de Belém: os seios da cantora substituem os zeros dos quatrocentos. Montagem que faz referência aos quatrocentos anos da Capital Paraense.

faz referência aos quatrocentos anos da Capital Paraense. Memes 2: “400 anos de Belém”, BRT. Memes

Memes 2: “400 anos de Belém”, BRT.

Memes referente ao que seriam os terminais de passageiros do BRT: obra que a anos vem sendo alvo de críticas da população paraense devido aos escândalos milionários de desvios de recursos e atrasos da obra. Dias após lançado o edital, a procura da qual seria a melhor “marca” que representasse os “400 anos” da capital, a população é surpreendida com mais um motivo, não

muito agradável, para repensar as comemorações da cidade aniversariante: "Baldaço" é utilizado como protesto pela falta d'água em Belém.

é utilizado como protesto pela falta d'água em Belém. Fonte: diário online. Jornalista se junta a

Fonte: diário online. Jornalista se junta a manifestação e coloca um balde na cabeça para a reportagem sobre o "Baldaço".

Cerca de 600 mil pessoas são afetadas com a falta de abastecimento de água na região metropolitana. Os três dias em que Belém conviveu sem abastecimento d'água, não passou em branco, pelo menos para os manifestantes que protestaram, em frente à Companhia de Saneamento do Pará (COSANPA), no bairro de São Brás. A manifestação apelidada de "Baldaço", foi mobilizada por um grupo de ativistas digitais via WhatsApp e contagiou as demais mídias sociais. Os manifestantes cantando palavras de ordem, como "A nossa luta é todo dia, a nossa água não é mercadoria!" e "O povo tá na rua, Jatene a culpa é tua!", em referência à gestão do governador Simão Jatene, ecoaram não só pelas ruas de Belém, mas também nas mídias digitais. Vários Memes gerando humor com a situação, começaram a circular nas redes sociais da capital paraense 7 . Vistos como mídias digitais (MARTINO, 2014), os Memes para tornarem-se conteúdos de humor de sucesso na Web, precisam que seus significados sejam compartilhados, e seu contexto seja claro para que a mensagem se efetive. O antropólogo Peter Kollock (1998) e o cientista político Robert Axelrod (1984) afirmam que a cooperação em ambientes virtuais, não tendo a mesma ancoragem do mundo físico, é em grande medida baseada em um histórico de reciprocidade. Em outras palavras, nós cultivamos identidades coletivas a partir de elementos de representação comum, criados e compartilhados entre nós.

7 Informações disponíveis em: 06/07/2015 - Créditos: Reprodução/Facebook, http://www.diarioonline.com.br

Assim, tanto os Memes criados para o aniversário de Belém como os dos protestos pela falta d’água, são elementos de representação comuns de pertencimento a um grupo social (SIMMEL, 1950). E nesse caso, vistos como fenômenos sociais, e o humor do conteúdo deles só faz sentido quando pensado para o outro ou sobre o outro quando se faz parte da mesma rede de contato ou contexto social (SHIFMAN, 2014).

da mesma rede de contato ou contexto social (SHIFMAN, 2014). Memes 3: Mosqueiro é um balneário

Memes 3: Mosqueiro é um balneário próximo à Belém

Memes 3: Mosqueiro é um balneário próximo à Belém Memes 4: Belém cidades das mangueiras Nesse

Memes 4: Belém cidades das mangueiras

Nesse caso, nos Memes 3 e 4, ambos estão com a temática do aniversário da capital paraense, sendo o 3 referente aos possíveis moradores da cidade seguindo para um local que tenha água, que no caso seria o balneário de Mosqueiro, região muito procurado nos finais de semanas, chamo atenção para a logomarca da CONSAPA substituindo os zeros dos quatrocentos anos. E no Meme 4, os zeros são substituídos por duas mangueiras fazendo ao mesmo tempo alusão a falta de água e ao apelidodado a cidade citada como a cidade que tem muitas árvores de manga, “Belém, cidade das mangueiras”. Usando o caso de Belém como exemplo, o Meme pode ser visto como algo que, além de se disseminar com velocidade nas redes, ele é “camaleão”, ganha versões e tem o seu significado alterado, reapropriado em um rápido intervalo de tempo. Um Meme é sempre carregado de sentidos e referências. De acordo com Shifman (2014), um Meme é sempre um conjunto (ou um acervo) de conteúdos. Ou seja, os Memes não funcionam sozinhos, pois eles não têm significado algum fora de um contexto específico. Desse modo, muitas vezes para interpretar um Meme não basta simplesmente reconhecer os signos que eles representam, é preciso antes reconhecer uma série de narrativa

na qual a repetição e a imitação constituem não somente a estrutura formal, mas a experiência própria da produção de afetos que essa linguagem tenta provocar (MAIA; ESCALANTE,

2014).

que essa linguagem tenta provocar (MAIA; ESCALANTE, 2014). Memes 5: Logomarca da Companhia de abastecimento de
que essa linguagem tenta provocar (MAIA; ESCALANTE, 2014). Memes 5: Logomarca da Companhia de abastecimento de

Memes 5: Logomarca da Companhia de abastecimento de água de Belém novamente aparece, fazendo alusão ao aniversario da capital e talvez, de forma exagera, seria o mesmo tempo de problemas enquanto prestadora de serviços. No mesmo Meme, a cabeça do governador do estado embaldadocom a logo da empresa. O governo do Estado foi o grande alvo dos Memes, devido ser considerado pelos protestos com o principal culpado pela falta d’água na cidade.

Sendo assim, é por isso que piadas de outros países, na maioria das vezes, perdem o sentido ao serem transfiguradas para outras culturas, ao passo que outras piadas são elas próprias capazes de afirmar identidades/comunidades (SHIFMAN, LEVY, THELWALL, 2014; SHIFMAN, KATZ, 2005; WASSERMAN, 2009). Talvez para uma pessoa que visse os Memes paraenses e, sem qualquer aproximação com o contexto de aplicação destas, com certeza não entenderia a mensagem. Como indica Felinto (2008), a “paródia do publicamente conhecido” é uma das marcas claras da produção dos Memes. Nesse sentido, pode-se compreender os Memes como construções culturais que se articulam e são difundidos por agentes e/ou grupos organizados (SHIFMAN, 2014).

Memes 6 : Antiga caixa d’água de ferro de Belém Memes 7 : Meme com
Memes 6 : Antiga caixa d’água de ferro de Belém Memes 7 : Meme com

Memes 6: Antiga caixa d’água de ferro de Belém Memes 7: Meme com a antiga caixa d’água de ferro. A antiga caixa d’água de fero, construída no período de urbanização da cidade, também foi alvo dos internautas. Seu formato arredondado foi de forma criativa, comparado a uma nave espacial de ficção cientifica sobrevoando uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Esse Meme agrupa em sua mensagem referências aos quatrocentos anos de Belém e a falta d’água na capital. A água indo embora da cidade.

Os estudos sobre internet e política encontram-se evidentemente em fase de ampla efervescência. De modo geral, tem-se tornado recorrente a referência à utilização de sites de redes sociais como parte da estratégia de muitos objetivos, políticos, sociais e econômicos, e diante desses fenômenos midiáticos muitos estudos têm sido realisado. Não aprofundarei sobre as variadas pesquisas sobre a internet, apresentei os Memes do caso de Belém para compreender algumas noções de humor presentes nesses Memes e seus efeitos 8 . Assim, no caso dos Memes são válidas as ideias de Simmel (1950), quando diz que esses tipos de ferramentas ocasionam uma interação que surge sempre a partir de determinados impulsos em busca de certas finalidades. Por exemplo, impulsos religiosos, objetivos de defesa, ataque, jogo, conquista, ajuda, doutrinação e inúmeros outros fazem com que o ser humano entre em uma relação de convívio, de atuação com relação ao outro, com o outro e contra o outro, em estado de correlações com os outros” (SIMMEL 1950, p.60). Esse trocadilho serve para dizer que essas interações e finalidades de impulsos (no caso os Memes) formam uma unidade mas exatamente, uma “sociedade”. O humor (incluindo nas ideias expostas por Simmel) seria então, fatores da sociação da agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro. A sociação seria, portanto, a forma na qual os indivíduos, em razão de seus interesses – “sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, movidos pela causalidade ou teleologicamente determinados -, se desenvolvem

8 Para mais informações sobre estudos nas mídias digitais ver: Gomes et al (2009); Jamil e Sampaio (2011); Valenzuela (2014); Santos Junior (2014); Prudêncio (2014); Souza, Goveia, Carreiras (2014).

conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam(SIMMEL, 1950, p.61). Assim, como aquilo que se pode chamar de impulso artístico (incluo os Memes nesse caso) retira as formas da totalidade de coisas que lhe parecem, configurando-as em uma imagem específica e correspondente a esse impulso, o “impulso de sociabilidade”, “em sua pura efetividade, se desvencilha das realidades da vida social e do mero processo de sociação com o rela, e constitui assim o que chamamos de sociabilidade” (SIMMEL, 1950, p.64). Simmel define a sociabilidade como a forma lúdica de sociação, e mutatis mutandis algo cuja concretude determinada se comporta da mesma maneira como a obra de arte se relaciona com a realidade(SIMMEL, 1950, p.64). E segundo o autor, toda sociabilidade é um símbolo da vida, quando esta surge no fluxo de um jogo prazeroso de arte, onde esta arte, não revela uma cópia da realidade, mas uma reflexão sobre ela. Para esta noção de jogo prazeroso Johan Huizinga (1980) definiu por dois aspectos no qual jogar seria: “lutar por alguma coisaou a representação de alguma coisa”. Como por exemplo, o rito, um espetáculo, uma representação dramática, uma figuração imaginária de uma realidade desejada, são ações realizadas em tempos especiais em relação à vida quotidiana, e é dentro desse espaço que o jogo se processa e que as regras tem validade (HUIZINGA, 1980). Vou Considerar o Jogo como os Memes, manifestado em tempos especiais, está o riso, a loucura, a piada, o gracejo, o cômico, a arte. Não que a noção de jogo fosse contraria a noção de seriedade pelo contrario: o conceito de jogo enquanto tal é de ordem mais elevada do que o de seriedade. Porque a seriedade procura excluir o jogo, ao passo que o jogo pode muito bem incluir a seriedade. (HUIZINGA, 1980, p.51). Segundo Michel de Certeau(1974), a seriedade estaria no homem ordinário. Ou seja aquele privado pelas moralidades, longe de causar mal-estar na “civilização”. Sigmund Freud (1980), em seu volume sobre Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, teve o objetivo em descobrir a fonte do prazer que se obtém do humor e tentou demonstrar que a produção do prazer humorístico surge de uma economia de gasto em relação ao sentimento. Mostra ainda que há duas maneiras pelas quais o processo humorístico pode realizar-se. Ele pode dar-se com relação a uma pessoa isolada, que, ela própria, adota a atitude humorística, ao passo que uma segunda pessoa representa o papel de espectador que dela deriva prazer; ou pode efetuar-se entre duas pessoas, uma das quais não toma parte alguma no processo humorístico, mas é tornada objeto de contemplação humorística pela outra. (FREUD, 1980,

p.99).

Fica mais fácil compreender melhor a gênese da produção do prazer humorístico se considerarmos o processo que se dá no ouvinte perante o outro que produz humor. O ouvinte vê esse outro numa situação que o leva a esperar que ele produza os sinais de um afeto, que fique zangado, se queixe, expresse sofrimento, fique assustado ou horrorizado ou, talvez, até mesmo desesperado; e o assistente ou ouvinte está preparado para acompanhar sua direção e evocar os mesmos impulsos emocionais em si mesmo” (FREUD, 1980, p.100). Contudo, essa expectativa emocional é desapontada; a outra pessoa não expressa afeto, mas faz uma pilhéria. O gasto de sentimento, que é assim economizado, se transforma em prazer humorístico no ouvinte. Na verdade, para Freud o humor baseia-se numa avaliação da realidade na contra mal daquilo que seria “normal”. O humor não é resignado, mas rebelde. Significa não apenas o triunfo do ego, mas também o do princípio do prazer, que pode aqui afirmar-se contra a crueldade das circunstâncias reais(FREUD, 1980, p.102). Ou seja, o humor rejeita e reivindica a realidade. Mas Henri Bergson pergunta: Que significa o riso? Que haverá no fundo do risível? Que haverá de comum entre uma careta de bufão, um trocadilho, um quadro de teatro burlesco e uma cena de fina comédia? acrescento -, e nos Memes? Para Bergson, não há comicidade fora do que é propriamente humano. Segundo o autor, uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porém jamais risível, para ele riremos de um animal, devido nele supor ver uma atitude de homem ou certa expressão humana. Também, riremos de um chapéu, mas no caso o cômico não será um pedaço de feltro ou palha, senão a forma que alguém lhe deu, o molde da fantasia humana que ele assumiu. Bergson nos diz ainda, que o riso parece precisar de eco. não se trata de um som articulado, nítido, acabado, mas alguma coisa que se prolongasse repercutindo aqui e ali. O nosso riso é sempre o riso de um grupo” (BERGSON, 2001, p. 8). Sendo assim, o riso, talvez nos ocorra numa condução ou mesa de bar, ao ouvir pessoas contando casos que devem ser cômicos para elas ou simplesmente ver um Meme nas redes sociais da Web. Bergson (2001) sugere que para compreender o riso, impõe-se colocá-lo no seu ambiente natural, que é a sociedade; onde o riso deve corresponder a certas exigências da vida em comum e ter uma significação social. E nesse caso, os Memes de Belém, o riso provocado pelo humor das montagens, foi uma espécie de gesto social. Trata-se de uma inversão especialíssima do senso comum, que versou em modelar as reivindicações da população por uma ideia lúdica e eficaz.

Para Verena Alberti (1999), o riso continua a ser visto como não “sério”, mas isso, agora, é positivo, porque significa que ele pode ir para além do sério e atingir uma realidade "mais real" que a do pensado. Ou seja, “o não-sério passa a ser mais "verdadeiro" que o sério, fazendo com que a significação do riso se torne mais fundamental" (ALBERTI, 1999, p. 197). Sendo provavelmente por isso que Bergson não consegue "significar" o riso e o manteve no plano das reflexões. Segundo Mikhail Bakhtin, o riso esta impregnado de um caráter carnavalizado, grotesco, ao universalismo e à liberdade, tendo uma relação essencial com a verdade popular. Além do mais, o riso, significa a vitória sobre o medo, uma vitória sobre o medo moral que acorrentava, oprimia e obscurecia a consciência do homem. Por essa razão o riso, menos do que qualquer outra coisa, “é uma arma de libertação nas mãos do povo(BAKHTIN, 1987, p.81). Nesse caso, podemos dizer que o riso causado pelo humor dos Memes, aqui apresentados no inicio deste texto, são ao mesmo tempo um tema e uma argumentação que procurava provocar respostas. Sendo esta argumentação construída com a manipulação de símbolos que amplamente identificavam a aplicação desses Memes nos contextos nos quais foram criados. Para Darton (1986), manipular os símbolos é uma grande façanha do “fraco” para protestar contra o poder”, é o rir do “poderoso” por meios das deturpações simbólicas da normalidade do “dominador” seria uma das satisfações do “oprimido. E de acordo com Clastres (1978), rir é uma maneira de neutralizar o perigo, onde ridicularizar o sério distancia os temores. Mas, no caso dos Memes em Belém, além de provocar o riso, ridicularizou, reivindicou e contestou a ausência do Estado no sentido dele não ter cumprido com suas promessas.

Segundo Lagrou (2006), O humor do oprimido, expressa um conhecimento de como agir sobre o “mundo dos poderosos”, não só são maneiras de neutralizar o outro poderoso, mas de partilhar e se apropriar de parte de sua agência. E de acordo com Darton (2012), calúnia e difamação, humor e riso sempre foram vistos como um negócio sórdido, mas seu caráter odioso não é motivo para considerá-las não merecedoras de estudo sério. Ao destruírem reputações, ajudaram a deslegitimar regimes e derrubar governos em diversas épocas e lugares (DARTON, 2012). Longe de recorrer à ironia ou a algo que lembrasse o humor, a ideia primeira é causar indignação e repulsa, de mostrar com certa eficácia a insatisfação com o “poder”.

Para Freitas (2003), A ironia é comumente utilizada como meio pelo qual os

agentes sociais encontram não apenas um instrumento de denúncia como também de tirar

proveito de uma situação difícil, elevando-a ao plano do risível, do deboche como arma da

disputa. As ações metaforizadas constituem, fundamentalmente, as ambiguidades do ato

simbólico a partir das quais se pode atingir profundamente o opositor naquilo que ele tem de

mais frágil, seja ironizando-o, seja ridicularizando-o, de modo que o resultado culmine com a

sua desmoralização (FREITAS, 2003).

Por fim, pode-se observar que o humor, própria do indivíduo e social, para ter

sentido, ou graça, tem de, além de estar na mesma ordem temporal, ser totalmente vinculado a

um contexto cultural/social específico.

Para compreender o riso, impõe-se no seu ambiente natural, que é a sociedade; impõe-se, sobretudo, determinar-lhe a função útil, que é uma função social. Digamo- lo desde já: essa será a ideia diretriz de todas as nossas reflexões. O riso deve compreender a certas exigências da vida comum. O riso deve ter uma significação social (BERGSON apud SALIBA 2002, p. 22).

Podemos concluir então, que o humor dos Memes, como os de Belém,

depositaram esforços ao buscar aspectos sociais, remexendo em detalhes, simbologias que

causassem inquietação ou desconforto no alvo principal, sempre comprometido com uma

contextualização sociocultural local.

Desse modo, podemos dizer que os Memes são, também, uma confirmação da

organização metódica e rigorosa do humor construído socialmente. Pois neles, é exposto todo

o complexo que envolve investigação, da coleta “simbólica”, ou seja, dos aspectos sociais, à

construção da piada e à contextualização com o público. Os esforços desses Memes feitos

para o humor e pelo humor sinalizam a tese de que esse humor rompe com o simplista,

burlesco e o ridículo, buscando uma análise social sofisticada que encontra na comicidade,

sua forma de difusão.

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