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A literatura comparada neste início de milênio:

Tendências e perspectivas

Anselmo Peres Alós

Doutor em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor da Universidade Federal de Santa Maria.

RESUMO:

das

origens do método comparatista, mapear o estado da arte desse campo disciplinar, a partir da evolução de diferentes compreensões teóricas e epistemológicas do fazer comparatista.

Este

artigo

pretende,

através

de

uma

revisitação

PALAVRAS-CHAVE:

literatura comparada – teoria literária – historiografia literária – epistemologias comparatistas.

RESUMEN:

Este artículo busca, a través de una revisitación de los orígenes de la metodología comparatista, mapear el estado del arte de ese campo disciplinar a partir de la evolución de distintas comprensiones teóricas y epistemológicas del hacer comparatista.

PALABRAS-CLAVE:

Literatura comparada – teoría literaria – historiografía literaria – epistemologías comparatistas.

Literatura comparada – teoría literaria – historiografía literaria – epistemologías comparatistas. 7

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REMONTANDO AOS PRIMÓRDIOS

O nascimento da Literatura Comparada como campo

diferencial nas investigações literárias data do final do século

XIX e inícios do século XX, com a intenção de, a partir da apro-

ximação das diferentes histórias literárias nacionais, construir uma história da literatura universal (CARVALHAL, 1994). Se

é verdade que a prática comparatista remonta aos inícios do século XIX, com o trabalho levado a cabo por Madamme de Stäel em De l’Alemmagne, com intenções de compreender e

divulgar a literatura, a filosofia e a cultura alemãs na França, também é mister salientar que o projeto mais amplo de cons- trução de uma historiografia cosmopolita de alcance universal nasce com Goethe e a formulação da categoria Weltliteratur (ALÓS e SCHMIDT, 2009). O comparatismo não se limita a uma simples metodo- logia de abordagem do fenômeno literário ou de corpora de obras específicas; trata-se de um campo disciplinar com uma longa tradição institucional. Basta mencionar, neste sentido, a criação dos departamentos de Literatura Comparada dentro

das universidades estadunidenses, como em Columbia, em

1899, e Harvard, em 1904 (COUTINHO, 2006). Mesmo com

a sua institucionalização, a literatura comparada estabeleceu,

desde os seus primórdios, tensas relações com outras aborda- gens consolidadas dos estudos literários. O campo de atuação

da história, da crítica e da teoria literária, e as relações dos comparatismo com estes campos, de forte tradição em função das abordagens herdeiras dos estudos filológicos, sempre foi tensa, uma vez que buscava sedimentar suas especificidades

e sua autonomia em um espaço no qual sempre foi considera-

da secundária. Com relação à tradição de investigação da his-

toriografia literária, por exemplo, a literatura comparada foi vista durante longo tempo como disciplina-meio, e não como disciplina-fim. Ao longo do século XX, tornou-se quase um lugar co- mum a afirmação de três grandes subdivisões ou tendências dentro dos estudos comparatistas, as quais convencionalmente

são referenciadas como as grandes “escolas” do comparatis-

mo: a francesa, a americana e a soviética (CARVALHAL, 1994; 2004). Ainda que estas correntes não sejam estanques nem res- peitem à risca suas denominações marcadamente geográficas

(René Etiemble, apesar de francês, aproxima-se muito da esco-

la comparatista americana, por exemplo), cabe aqui uma breve

retomada dessa taxionomia que já não dá conta das práticas comparatistas realizadas na contemporaneidade. Sob a rubrica de “escola francesa”, aloca-se uma perspec-

tiva de trabalho que enfatiza sobretudo as questões de estudo

de fontes e influências, seja de um determinado autor sobre outro, seja de uma literatura nacional sobre outra. Tania Fran- co Carvalhal refere-se a esta modalidade de estudos subdivi- dindo-a em três modalidades, de acordo com a ênfase dada ao longo da investigação comparatista: a) estudos cronológicos, quando a ênfase recai em textos literários, autores ou literatu- ras nacionais que funcionam como fontes, influenciando outros textos, autores ou literaturas nacionais; b) estudos doxológicos, quando se preocupam com o destino de determinadas obras literárias fora da tradição nacional na qual foram produzidas, bem como das opiniões cristalizadas pela crítica, em um deter-

minado país, com relação a um determinado autor estrangeiro;

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c) estudos mesológicos, quando o objetivo do exercício compara- tista é a compreensão dos fatores intermediários que funcionam

como pontos de contato entre duas ou mais literaturas nacionais, tais como a circulação de traduções de obras estrangeiras em uma determinada literatura nacional (CARVALHAL, 2004).

A denominação “escola americana” passa a circular com

maior destaque no cenário comparatista internacional a partir da polêmica instaurada pelo trabalho “The Crisis of Compa- rative Literature”, apresentado no II Congresso Internacional da ACLA (American Comparative Literature Association), em Chapell Hill, no ano de 1958, por René Wellek. No compara- tismo de orientação americana, a necessidade de se dar conta de “duas nações e duas línguas distintas” como conditio sine qua non para caracterizar um estudo literário como um estudo de natureza comparatista passa a ser questionado, e emergem propostas como a de estudos que contemplem duas literaturas nacionais, mas apenas uma língua (como estudos de aproxi- mação da literatura brasileira com a portuguesa e a moçambi- cana), ou estudos que deem conta de uma única nação e duas línguas (como, por exemplo, um estudo hipotético sobre a poe- sia paraguaia escrita em castelhano e em guarani). A interdisci- plinaridade passa a ser acolhida no interior do comparatismo, seja através de estudos que aproximam diferentes linguagens artísticas (envolvendo, por exemplo, literatura e cinema, lite- ratura e pintura, literatura e escultura) ou diferentes campos disciplinares (estudos que dão conta de um determinado cor- pus de obras literárias, concomitantemente, a partir do ponto de vista dos estudos literários e de outro campo de estudos,

como a antropologia, a filosofia, a sociologia ou a psicologia).

A escola “soviética”, que tem entre seus principais expo-

entes fundadores Victor Zhirmunsky e Dionyz Ďurišin, cos- tuma julgar a literatura como produto da sociedade na qual é produzida, buscando sempre estabelecer correspondências en- tre a evolução da literatura e a evolução da sociedade na qual é produzida, ao longo da história (ZHIRMUNSKY, 1994). O princípio subjacente a este tipo de investigação é o de que para cada mudança ocorrida no funcionamento social de uma de- terminada nação correponde uma mudança no continuum da literatura, seja no campo das formas, seja no campo dos temas abordados. É inegável aqui o impacto do estudo “Da evolu- ção literária”, de Iuri Tynianov, na estruturação desta corrente comparatista. Segundo Tynianov, há uma correspondência en- tre o que ele denomina como sendo a “série social” (o conjunto de acontecimentos e relações de causa e consequência no cam- po da estrutura social ao longo do tempo) e a “série literária”, ou seja, o conjunto de interrelações, fenômenos e mudanças no campo da evolução de uma determinada literatura ao longo do tempo (TYNIANOV, 1971).

DA CONSOLIDAÇÃO E INSTITUCIONALIZAÇÃO DO COMPARATISMO

A literatura comparada não é apenas um método ou

abordagem de análise literária. A partir da segunda metade do século XX, o comparatismo consolida-se não apenas como es- tratégia de aproximação do fenômeno literário, mas como um campo disciplinar institucionalizado. Um estudo comparatista

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strictu sensu demandava do investigador o conhecimento de

pelo menos duas línguas distintas e e de duas tradições literárias nacionais distintas. Entretando, um dos grandes e espinhosos debates ao lon- go da história do comparatismo foi o que tentava – e tenta, aon- da hoje – chegar a um ponto pacífico com relação aos métodos

e ao objeto de investigação deste campo disciplinar. Em defesa das abordagens interdisciplinares, Henry H. H. Remak define

a literatura comparada como “a comparação de uma literatura

com outra ou outras, e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana” (REMAK, 1961, p. 3). De acordo com Alfred Owen Aldridge, por sua vez, “a Literatura Compa- rada pode ser o estudo de qualquer fenômeno literário do pon- to de vista de mais de uma literatura nacional ou em conjunto com outra disciplina intelectual, ou até mesmo várias” (1969, p. 1). Estas redefinições do campo de atuação comparatista surgem como tentativa de dar conta dos problemas levantados por Wellek em “The Crisis of Comparative Literature”. Mes- mo em trabalhos recentes, como no livro de Susan Bassnett, a questão da definição dos limites e da definição do objeto do comparatismo são retomados. A autora afirma que, ao fim e ao cabo, o que se pode afirmar com segurança é que a Literatura Comparada “envolve o estudo de textos entre culturas, que

ela é interdisciplinar e que ela está voltada para os padrões de relações entre as literaturas no tempo e no espaço” (1993, p. 1). Como resultado destas discussões, o comparatismo sob a rubrica de “escola americana” passa a se organizar em torno de cinco modalidades relativamente bem diferenciadas, as quais, ao serem recuperadas, permitem que melhor se compreenda o estado da arte do comparatismo no cenário da academia con-

temporânea:

1) Estudos dos gêneros literários, suas formas e sua evo- lução ao longo do tempo. Sob a rubrica generalista de estudos de poética desdobram-se abordagens específicas e frutíferas, tais como em teoria dos gêneros literários e a narratologia. A narratologia configura um exemplo pertinente para mostrar como uma abordagem inicialmente restrita ao âmbito dos es- tudos literários acaba estendendo-se a estudos em outros cam- pos, como a teoria fílmica (AUMONT, 1995) e a análise cultural (BAL, 1994, 1997 e 2000). 2) Estudos de temas ou de mitos literários – método que

remonta à Stoffgeschichte 1 de orientação germanófila – , de suas recorrências, transformações e deformações ao longo do tem- po e do espaço, isto é, do tratamento dado a determinados conteúdos como elementos constituintes das obras literárias. Dentro da tematologia, merece destaque um campo específico:

a imagologia, que se preocupa em investigar como os textos

literários de uma determinada literatura nacional projetam uma imagem de identidade nacional, e como outras literaturas nacionais recebem e absorvem essas representações. 3) Estudos interartes ou interdisciplinares, isto é, aqueles que aproximam uma determinada obra ou um determinado corpus de obras literárias a uma obra ou corpus de obras artísti- cas de outra natureza, tal como a música, a pintura, a escultura ou o cinema:

Na fase clássica da disciplina, havia, sem dúvida, uma pene- tração em áreas distintas do conhecimento, mas o locus de per-

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tencimento do estudo era deixado claro. Hoje essas fronteiras foram lançadas por terra e o sentido da interdisciplinaridade se amplia de tal modo que tende a generalizar-se, sendo mui- tas vezes substituído pela ideia de cultura (COUTINHO, 2006, p. 50).

Uma das evoluções das investigações neste campo, ori- ginadas dos estudos de recepção, influências de traduções de obras estrangeiras em uma determinada literatura nacional, abriu margem para o campo dos estudos de traduções semióti- cas. Neste campo a adaptação de um romance para o cinema, por exemplo, é considerada como uma prática de tradução em chave ampla.

4) Os estudos que se focam no diálogo entre a literatura comparada e outras abordagens do fenômeno literário: a histo-

riografia, a teoria e a crítica literária. O trabalho de René Wellek

e Austin Warren com o volume Theory of Literature (1949, p.

29-56) é um dos trabalhos pioneiros no estabelecimento destas relações. 5) Os estudos que dão conta de eras, períodos ou mo- vimentos literários, dedicando mais atenção às características gerais que se fazem presente em uma determinada época do que à análise de obras individuais. Esta vertente está fortemen-

te ligada aos pressupostos operantes na historiografia literária, apontando para uma vocação mais cosmopolita, ao colocar em confronto tradições literárias distintas 2 . O relatório redigido por Charles Bernheimer, acerca do estado da arte do compara- tismo nas universidades estadunidenes, no seio da American Comparative Literature Association (ACLA), e publicado no volume coletivo por ele organizado, intitulado Comparative Literature In The Age of Globalization, bem como as discus- sões que se produziram em seu entorno, marcaram o ano de 1993 como o momento da virada multiculturalista nos estudos de literatura comparada. Como em todas as grandes viradas, esta reformulação dos rumos epistemológicos da disciplina resultou em ganhos e em perdas. Dos ganhos, o maior deles foi uma fertilização do campo comparatista, a partir da aber- tura institucionalizada para os estudos culturais, marcando uma tomada de consciência com relação ao papel político da literatura no campo mais amplo dos debates acadêmicos das ciências humanas. Das perdas, a maior delas foi uma fragili- zação ainda maior da identidade institucional da literatura comparada como campo de investigação, ao assumir seu inte- resse por objetos de estudo tradicionalmente restritos a outros campos disciplinares, tais como a antropologia e a sociologia 3 . O impacto deste relatório foi tal que a Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), em seu VI Encontro Inter- nacional, ocorrido em 1998, na Universidade Federal de Santa Catarina, faz da proposta epistemológica lançada por Bernhei- mer em 1993 o tema central do evento: “Literatura Comparada

= Estudos Culturais?”. O impacto dos estudos culturais britânicos, na tradição de nomes como Raymond Williams e Stuart Hall, ao revalori-

zar manifestações culturais das classes subalternizadas, e dan- do atenção para a cultura popular, impacta de maneira intensa os estudos literários, e uma das principais consequências é o questionamento das categorias de análise mais basilares para

a história da literatura comparada, tais como as de nação, lín-

gua nacional e literariedade (este último, uma espécie de “por-

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to seguro” teórico para os estudos literários em cena desde

o advento do formalismo russo). Na América Latina, merece

destaque o questinamento feito à noção de literaridade por Antonio Cornejo Polar com a sua defesa da heterogeneidade (simultaneidade do oral e do escrito) como traço distintivo das literaturas andinas. Um dos traços diferenciadores do pensamento de Cor- nejo Polar é a sua insistência no fato de que o ponto de parti- da para o historiador das literaturas latino-americanas é a sua interpretação pessoal daquilo que conta como “literatura” em sua interpretação e avaliação da herança literária. Para ele, a literatura não é apenas um reflexo ou produto da sociedade na qual foi gendrada, mas uma força produtiva que contribui para o delineamento do perfil cultural desta mesma sociedade. Em outras palavras, a literatura não é apenas uma manifes- tação cultural de caráter derivativo, mas é também produtiva. Outro traço importante de seu pensamento é a insistência na diferença irredutível que existe entre a temporalidade da tradi- ção popular e a da tradição letrada das elites latino americanas, fortemente marcadas pela herança do pensamento iluminista que guiou o processo de formação das nações latino-america- nas. Isto é de grande monta para que se compreenda a ques- tão da marginalização das literaturas dos povos originários da América Latina (sejam as tradições orais, independentemente da língua que utilizam, sejam as manifestações literárias escri- tas em línguas autóctones, tais como o aimará e o quéchua. Para ele, a tradição latino-americana forma uma totalidade marcada por uma natureza contraditória entre seus diferentes setores e subsistemas, dos quais o confronto mais visível é o embate entre as tradições orais autóctones e a tradição escrita trazida pelos europeus:

De fato, como literaturas produzidas por classe e etnias do- minadas, [as literaturas latino-americanas de expressão autóctone] estão atomizadas e não-comunicantes: formam, na realidade, verdadeiros arquipélagos, e não está claro se constituem sistemas independentes ou se, em alguns casos, são subsistemas que convergem para um determinado eixo unificador (CORNEJO POLAR, 2000, p. 29).

A importância de se recontextualizar o potencial semió- tico da literatura ao produzir sentidos em diferentes contextos históricos coloca o comparatista, já de antemão, em uma postu- ra de leitura dupla, levando em conta simultaneamente o con- texto de produção e o de recepção de uma obra: “a História Li-

terária passa a ser a história da produção e recepção de textos,

e, para o historiador, esses textos constituem ao mesmo tempo

documentos do passado e experiências do presente” (COUTI- NHO, 2003, p. 77). Cornejo Polar, em outros termos, coloca a mesma questão, ao afirmar que “reconhecer um passado como nosso próprio passado supõe um certo modo de definir o pre- sente e de identificar a índole do futuro” (CORNEJO POLAR, 2000, p. 52). Tomar a chegada dos espanhóis, por um lado, ou a tradição pré-colombiana, por outro, como ponto de origem das tradições literárias da América Latina denuncia dois posiciona- mentos bastante distintos com relação à valoração da tradição herdada e ao que se projeta como possibilidade para o futuro. Partindo do caminho já aberto pelo comparatista pales- tino Edward W. Said em Orientalism (1978), Cornejo Polar salienta que a Europa, ao mesmo tempo em que “inventa” a

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América, “inventa-se” também a si mesma (e até com maior eficácia do que “inventa” a América). Imaginar o outro é um gesto interpretativo bastante produtivo na tarefa de figurar a si mesmo. Não se deve, em nenhum momento, subestimar o poder da imagem sobre aquilo que é imaginado:

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pertence e à qual se deve. [

que as nações andinas começaram com a conquista, e todos os indigenistas encontram as raízes nacionais muito antes, na época pré-hispânica (CORNEJO POLAR, 2000, p. 57).

muitos hispanistas imaginam

cada sujeito decide a história que lhe corresponde, à qual

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O PRESENTE E O FUTURO DO COMPARATISMO

Como resultado destas reflexões e indagações ao lon- go do desenvolvimento da Literatura Comparada entendida como campo disciplinar, os cânones revelam-se como os maio- res esteios de uma tradição euro/falocêntrica e racista, que pri- vilegiou certas vozes em detrimento de outras na construção dos paradigmas de referência e de valoração estética. O texto literário passa a ser avaliado em suas relações com outras ma- nifestações culturais, sem o privilégio concedido pela literarie- dade, e os critérios valorativos/judicativos passam a oscilar a partir do locus de enunciação do investigador comparatista. Isso não implica na falência da crítica literária, da história da lite- ratura, ou do próprio comparatismo, mas sim na tomada de consciência de os valores que entram em cena nestes campos disciplinares e não são absolutos. Como consequência salutar, são problematizados os pressupostos paradigmáticos da teo- ria da literatura, fazendo com que o trabalho de produção de conhecimento acerca dos fenômenos literários redefinam-se como um exercício metacrítico (isto é, “uma crítica da crítica”). A problematização das visões lineares e teleológicas da História faz-se presente nas discussões sobre periodização e historiografia literárias, para se pensar a tradição literária não como o mero acúmulo da produção de tetos ao longo da história, mas como um processo constante de reescritura do passado a partir de problemas do presente, estabelecendo, nos estudos comparatistas, uma verdadeira dialética entre passa- do e presente 4 . A relativização dos processos de constituição dos cânones nacionais abre um espaço importante para grupos minoritários que dele se viram excluídos ao longo da história. Assumindo suas próprias vozes e reivindicando tradições cul- turais próprias, estes grupos passal a lutar pela constituição de outros cânones, ou então, pela flexiblização dos parâmetros do cânone com vistas a abrir espaço para outras obras. As críticas feministas passam a dedicar esforços aos trabalhos de “arque- ologia literária”, recuperando a produção das mulheres deixa- das à margem da historiografia literária “oficial” e canônica. Um importante exemplo deste trabalho no contexto brasileiro é dado pelos dos volumes da antologia Escritoras brasileiras do século XIX (MUZART, 1999, 2004 e 2009), nos quais são res- gatados dos arquivos esquecidos os nomes de mais de cento e cinquenta escritoras brasileiras deixadas à margem dos manu- ais de historiografia literária brasileira, todos eles sintomatica- mente escritos por homens. Discutir e relativizar o cânone viabiliza o abalo de tradi-

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ções e sistemas de valores instituídos pelos centros de poder. A literatura comparada articula, no presente, um importante papel nestas discussões. Enquanto as nações periféricas rela- tivizam os critérios estéticos impostos pelas metrópoles, os países centrais são assolados pelas reivindicações de grupos subalternizados, nos quais mulheres, negros e homossexuais reivindicam parâmetros alternativos para a avaliação da pro- dução cultural em um importante gesto de descolonização do imaginário. Tais discussões não deslocam apenas nossa com- preensão acerca de noções como “literatura”, “identidade” e “valor estético”, mas contribuem para uma discussão mais am- pla sobre o universal e o particular, instaurando novas possi- bilidades éticas que invocam a alteridade como conceito-chave na crítica cultural. Redimensionar os regimes de representação das comunidades humanas, preocupação comum à Literatura Comparada e aos Estudos Culturais neste início de século, é o primeiro passo para que se construam novas possibilidades de relacionamento no campo social. Atrevo-me aqui a afirmar que o papel do comparatismo no cenário atual dos estudos li- terários e culturais pode ser definido como o de viabilizar a constituição de um espaço pós-disciplinar permeado simulta- neamente pelo saber e pelo poder articulados sobre a diferença cultural.

NOTAS

Stoffgeschichte é um termo de origem alemã, de difícil tradução para outras línguas, em especial para as línguas latinas. Trata da história de um determinado tema (como o amor ou os oceanos) ou mito (como o de Narciso ou o de Don Juan) ao longo do tempo, em diferentes tradições literárias. A tradução mais recorrente para esta ideia, no campo dos estudos comparatistas, seria “tematologia”.

2 A sistematização dessas cinco áreas de estudo comparatista dentro da era clássica da “escola americana” e sua importância para a compreen- são do campo dos estudos comparatistas no presente é apresentanda por Eduardo Coutinho (2006, p. 45).

3 A importância dada aqui a este relatório institucional não deve ser lida como um ato de subserviência ao colonialismo cultural estadu- nidense, mas sim como o reconhecimento da envergadura da ACLA, uma importante associação comparatista que em muito contribuiu para a constituição da Associação Internacional de Literatura Comparada.

4 Para evidenciar isto, pode-se pensar, como exemplo ilustrativo, no trabalho de reescritura do romance Robinson Crusoe (de Daniel Defoe) por Michel Tournier em Vendredi ou les limbes du Pacifique, no qual a missão colonialista de Crusoe sobre a ilha deserta (e sobre a subjetivi- dade de Sexta-Feira) é explicitada.

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