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Faculdade de Economia 

Universidade do Algarve 

A Ética Empresarial  
e a Exploração Infantil  

Vilma Azevedo 
vilmazevedo@gmail.com 
 
Mestrado em Marketing 
UALG/IPLeiria 
 
 
 
Julho 2009 
Índice

1. Introdução ................................................................................................................ 3
2. A Ética nos Negócios e nas Empresas .................................................................... 4
2.1 Pacto Global Entre as Empresas........................................................................ 5
3. A Globalização e a Sua “Outra Face” ...................................................................... 6
4. Declaração dos Direitos da Criança......................................................................... 7
5. Considerações Finais............................................................................................... 7
Webgrafia..................................................................................................................... 9

2
1. Introdução

Este trabalho surge no âmbito do enquadramento teórico da disciplina de Ética e


Comportamento, tendo por objectivo consolidar os conhecimentos adquiridos nas
aulas.
A motivação pessoal para o estudo do tema: “A ética empresarial e a exploração
infantil” resulta do interesse adquirido ao longo da minha formação académica, visto
ser um tema que me suscita grandes conflitos morais.

Estamos inseridos numa época de globalização e consequente crescimento da


economia em que, cada vez mais, as empresas são um elemento fundamental e
integrante, adaptando assim, a sua política interna a este grande fenómeno.
Com o crescimento da concorrência e dos seus mercados, muitas são as empresas
que são obrigadas a encontrar parcerias e outras alianças económicas de modo a
conseguirem expansão noutros mercados, ou até mesmo a encontrarem a fixação e
projecção no seu próprio ambiente de mercado. Assim, encontram novas fontes de
matérias-primas e novas fontes de mão-de-obra, de preferência a baixo custo 1 . Este
é o caso da mão-de-obra infantil.

Primeiramente irei abordar e definir a questão da ética nos negócios, referindo o


Pacto Global entre as empresas. Seguidamente, irei contextualizar o outro lado da
globalização empresarial, dando exemplos das indústrias que utilizam mão-de-obra
infantil e expondo algumas estimativas da quantidade de crianças que se apresentam
nesta situação.
Por fim, irei referir os Direitos da Criança, presentes na Declaração da ONU, tal como
uma breve reflexão.

1 Crf. Rhinesmith, O Guia do Gestor para a Globalização: Seis Chaves para o Sucesso num Mundo em
Mudança. 1996

3
2. A Ética nos Negócios e nas Empresas

No plano empresarial, a ética dirige-se para a reflexão das atitudes, valores e


condutas humanas, orientadas para o mundo dos negócios, na sua vertente moral.

O autor António Robalo Santos, considera que uma empresa pode ser definida como
o “conjunto de recursos organizados em torno da produção de bens e serviços, com
o objectivo de maximizar a criação de valor para os detentores do capital através da
maximização dos seus lucros (e/ou do preço/valor das acções ou quotas) e,
acessoriamente (e na medida em que tal ocorra para a consecução deste principal
objectivo) da maximização da sua utilidade para outros stakeholders (empregados,
clientes, fornecedores, parceiros, comunidade, etc).” 2 . Assim sendo, as empresas
contribuem positivamente para a satisfação das necessidades dos seus
stakeholders, agindo de acordo com padrões de ética, tal como defende o World
Business Council Sustainable Development (WBCSD) 3 , proporcionando vantagens
competitivas para o seu negócio e assegurando a longevidade.

Deste modo, as práticas de gestão dos negócios deixam de estar centradas


exclusivamente na obtenção de lucros tendo em conta apenas os interesses de
proprietários ou accionistas. As novas questões de natureza social, cultural,
ambiental e ética têm vindo a integrar as novas preocupações do mundo empresarial.
Assim, a ética empresarial está relacionada em três campos: teórico, prático e
semântico, tal como ilustra o seguinte esquema:

Fonte: http://www.eticaempresarial.com.br/

Nestas últimas décadas, o mundo dos negócios e as empresas, assistiram ao


aparecimento de movimentos defensores da ética neste campo empresarial – o
movimento ético, a responsabilidade social e a teoria dos stakeholders.
2
Crf. A. J. R. Santos, Gestão Estratégica – Conceitos, modelos e instrumentos, 2008, p. 27.
3
Para o WBCSD a responsabilidade social é o comportamento ético de uma organização em relação à sociedade.
4
Com eles criaram-se as Organizações Não Governamentais (ONG’s) que
desempenharam um importante papel no desenvolvimento económico, social e
cultural de muitos países – International Transparency.

2.1 Pacto Global Entre as Empresas

O actual aumento do volume de negócios e da concorrência empresarial, inserem-se


numa sociedade global marcada pela gestão das relações e pelo tratamento da
informação, onde são cada vez mais complexas as tomadas de decisões sem
infringir os códigos de ética universais.
Assim, de modo a que as empresas consigam ter uma base dos princípios éticos foi
criado o Pacto Global 4 . Este é composto por um conjunto de nove princípios que
abrangem as áreas dos direitos humanos, das normas laborais e do respeito pelo
meio ambiente:
1. As empresas devem apoiar e respeitar a protecção dos direitos humanos
proclamados internacionalmente;
2. Certificar-se de que não são cúmplices em violações de direitos humanos;
3. As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento do
direito à negociação colectiva;
4. Eliminar todas as formas de trabalho forçado e obrigatório;
5. Abolir o trabalho infantil;
6. Eliminar a discriminação no domínio do emprego e da actividade profissional;
7. As empresas devem apoiar uma abordagem cautelosa dos problemas ambientais;
8. Levar a cabo iniciativas que visem promover uma maior responsabilidade
ambiental;
9. Incentivar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias favoráveis ao ambiente.

Trata-se de um compromisso voluntário por parte das empresas, sem qualquer tipo
de carácter regulamentador, mas que integra a vertente da criação de parcerias com
organismos da ONU e outras identidades. O seu funcionamento remete para quatro
vertentes: o fomento da aprendizagem, do dialogo, da acção e da divulgação 5 .

4
Pacto global entre as empresas a nível mundial, proposto por Kofi Annan, que visava estimular a harmonização
das políticas e práticas empresariais eticamente correctas.
5
Crf. M. P. S.V. Mendes, A Responsabilidade Social da Empresa no Quadro da Regulamentação Europeia,
2007. Disponível em: https://repositorio.iscte.pt/.
5
3. A Globalização e a Sua “Outra Face”

Tal como já foi referido anteriormente, com a globalização, muitas empresas não se
preocupam com os métodos para obterem longevidade num mercado cada vez mais
competitivo, como tal, a exploração infantil ainda é uma realidade.

Muitos dos países do Hemisfério Sul, apenas conseguem manter-se activamente no


mercado com a participação do trabalho de criança. Sem o custo de mão-de-obra
barata 6 , muitas empresas iriam diminuir o nível de exportação e o de receitas, e por
outro lado, aumentar o valor das dívidas (a competitividade da empresa seria
praticamente nula).
Esta realidade verifica-se não só nas empresas multinacionais como também nas
indústrias tabaqueiras (Philip Morris, Altadis); da fruta, nomeadamente da banana
(Chiquita, Del Monte); e na do cacau (Cargill). No Malawi, a indústria tabaqueira é a
principal fonte de emprego – estão empregadas dezenas de milhares de crianças; no
Equador, crianças da faixa etária dos 7/8 anos trabalham 12 horas nas plantações de
banana, e, na Costa do Marfim, milhares de crianças são usadas como mão-de-obra
nas plantações do maior produtor de cacau 7 .

De acordo com Organização Internacional do Trabalho (OIT), estima-se que sejam


cerca de 218 milhões as crianças, entre os 5 e os 17 anos, que trabalham no mundo.
Dessas, consideram-se que cerca de 126 milhões sejam forçadas a efectuar
trabalhos perigosos 8 . O trabalho infantil tem, por essa razão, constituído
preocupação de muitos países, instituições, governos e parceiros sociais, que a esta
problemática vêm dedicando esforços contínuos.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 200 mil
crianças e adolescentes são vítimas de tráfico. São compradas e vendidas na África
central e ocidental. Na Reunião de Cúpula Mundial da Infância, em 2002, Kofi Annan
afirmou que: “Desgraçadamente, fracassamos em proteger os direitos fundamentais
das crianças”.
Por outro lado, também nos países considerados mais desenvolvidos, existem crianças que são
escravas laborais: na agricultura, na construção civil, nas fábricas de tecelagem e de calçado 9 .

6
Nestes países, as crianças são inferiormente remuneradas em comparação aos adultos. Algumas nem chegam a
ter remuneração, pois o seu trabalho é considerado apenas “ajuda”.
7
Crf. I. Ramonet, em http://diplo.uol.com.br/2002-07,a353.
8
Crf. http://www.peti.gov.pt/peeti_conferencia.asp.
9
120 mil nos Estados Unidos, 200 mil na Espanha, 400 mil na Itália e mais de 2 milhões na Inglaterra.
6
4. Declaração dos Direitos da Criança

A Declaração 10 expressa que a criança requer protecção e cuidados especiais, quer


antes, quer depois do nascimento, no decurso da sua imaturidade física e mental.
Sintetizada em dez princípios, a Declaração afirma os direitos da criança: à
protecção especial e a que lhe sejam propiciadas oportunidades e facilidades
capazes de permitir o seu desenvolvimento de modo são e normal e em condições
de liberdade e dignidade (Princípio 2); o seu direito a um nome e a uma
nacionalidade, a partir do nascimento (Princípio 3); a gozar os benefícios da
previdência social, inclusive alimentação, habitação, recreação e assistência médica
adequadas (Princípio 4); no caso de crianças defeituosas ou incapacitadas, o direito
a receber o tratamento, a educação e os cuidados especiais exigidos por sua
condição peculiar (Princípio 5); a criar-se num ambiente de afecto e segurança e,
sempre que possível, sob os cuidados e a responsabilidade dos pais (Princípio 6); a
receber educação (Princípio 7); a figurar entre os primeiros a receber protecção e
socorro, em caso de calamidade pública (Princípio 8); a protecção contra todas as
formas de negligência, crueldade e exploração (Princípio 9); e a protecção contra
todos os actos que possam dar lugar a qualquer forma de discriminação (Princípio
10).

Assim, com a exploração infantil, as empresas deixam de cumprir a maioria dos


princípios da Declaração. O Princípio 2, porque priva a criança de um
desenvolvimento saudável, podendo deixar sequelas a nível físico e psicológico, sem
liberdade e dignidade; o Princípio 4 que advém do anterior; o Princípio 6 que
desampara a criança do afecto e da segurança do pais, pois foram “obrigadas” a
crescerem e a se desenvolverem mais rapidamente; o Princípio 7 que com o trabalho
infantil impossibilita a formação intelectual da criança; e finalmente o Princípio 9 que
condena qualquer forma de negligência, crueldade e exploração.

5. Considerações Finais

Com a exploração infantil é certo que as empresas diminuem os seus custos de


produção, com mão-de-obra mais barata e com menos direitos relativamente aos

10
Crf. ONU – Comité Social Humanitário e Cultural da Assembleia-geral.
7
adultos, mas esta prática é antiética pois estão a privar as crianças de todos os seus
direitos humanos, além de se oporem ao Pacto Global.

Existem ainda várias companhias que recorrem à exploração infantil, e esta prática
não é exclusiva dos considerados países subdesenvolvidos. Ainda vários países na
Europa utilizam esta mão-de-obra “barata”.

Será que se justifica influenciar a vida de milhares de crianças, podendo deixar


sequelas psicológicas e físicas e privá-las do direito à infância, apenas para a
empresa conseguir manter-se nas corridas competitivas?

"(…) Terminar com a exploração do trabalho infantil obriga a reafirmar o direito de


todas as crianças do Mundo a uma infância digna e saudável, de que seja banida a
escravidão, a servidão e a exploração sexual, económica e social. (…)
Agir em defesa dos direitos das crianças a estudar e a construir para si próprias um
futuro digno e civicamente responsável, cria para todos nós o dever de cooperarmos
em favor dum desenvolvimento económico e social que exclua todas as formas de
exploração das crianças (…)".
Jorge Sampaio – Ex-Presidente da República Portugal

8
Webgrafia

http://www.eticaempresarial.com.br/
http://www.consciencia.net/brasil/infancia/exploracao.html
http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=536
http://www.unicef.org
http://www.ILO.org
http://www.peti.gov.pt/peeti_conferencia.asp
http://www.oitbrasil.org.br/
http://diplo.uol.com.br/2002-07,a353
http://eticanosnegocios.blogspot.com/2006/10/dia-da-criana-x-trabalho-infantil.html

MENDES, Maria Pereira da Silva Velez – A Responsabilidade Social da Empresa no


Quadro da Regulamentação Europeia. Lisboa: Dissertação submetida como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre em “Novas Fronteiras do Direito”, Setembro
de 2007. [2009-04-02] https://repositorio.iscte.pt/