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Foto: Divulgação

do meu livro (Maquiagem/Editora Senac).

V&A - Para ficar atualizado onde Duda Molinos garimpa novas técnicas, onde bus- ca aperfeiçoamento? Molinos - Tudo pode me inspirar. A inspiração é incerta, ela vem de qualquer coisa. Às vezes de um saco de lixo a gen- te tira uma idéia e pensa em fazer um des- file inteiro de roupa de saco de lixo. Um profissional de beleza precisa estar aten- to ao que acontece no mundo, não só no mundo da estética, mas em todos os periféricos. Tem de prestar atenção na arquitetura, culinária, na moda, compor- tamento, cinema, música. Com a veloci- dade das imagens e das transformações que ocorrem no nosso cotidiano, preciso reunir um banco de dados extenso para produzir imagens diferentes e de impacto. Não sei exatamente definir on- de, mas de qualquer lugar se tira uma idéia. No trabalho que fiz para a revista Quem Acontece, em 2001, eu tinha de transformar o Paulinho Vilhena na Jes- sica Rabbit (personagem sexy do filme de animação Uma Cilada para Roger Rab- bit), a Débora Bloch virou Anita Ekberg (atriz sueca conhecida pelo seu papel no filme La dolce vita, de Fellini). Peguei o briefing da revista, me inspirei nas divas do cinema e em personalidades. Sou au- todidata, gosto de pegar o bonde andan- do e de sentar na janelinha (risos).

V&A - Então a maquiagem serve para mascarar. Ela transforma as pessoas? Molinos - Ela serve para tudo. Serve pa- ra salientar qualidades, esconder defeitos. Pode simplesmente reforçar o estilo pes- soal de alguém. A maquiagem é usada em causas mais técnicas para cobrir uma ci- catriz, uma mancha, enfim, ela tem vários estágios na vida da gente, e na maioria das vezes, ela entra sem que percebamos.

V&A - Cite uma mulher que o senhor gos- ta de maquiar, de produzir e uma quase im- possível de agradar ? Molinos - Só posso te responder me- tade desta pergunta, (risos). Uma mu- lher legal, a mais antenada, bonita e de bom gosto, a mais culta dentro dessa coisa que é trabalhar com a imagem, sem dúvida é a Gisele (Bündchen). Is- so não é minha opinião apenas, é um pensamento quase unânime na moda.

opinião apenas, é um pensamento quase unânime na moda. 24 Ela é uma mulher fácil de

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Ela é uma mulher fácil de lidar, mas é exigente e tudo em volta dela exige pre- cisão, porque qualquer trabalho com a marca Gisele Bündchen sempre envol- ve muito dinheiro.

V&A - Ela dita comportamentos? Molinos - Claro que sim. Ela criou uma linguagem e um maneirismo entre as mulheres do mundo inteiro. Aquele cabelo dela, o jeito que se veste, a pos- tura como ser humano. A Gisele é des- ses tipos de mulheres que não precisam de muita maquiagem, a produção com ela tem de preservar o natural, a beleza dela é ser natural.

V&A - Esse maneirismo, o cabelo ca- sual, essa proposta de ser natural, quase cara-lavada, há algo de Duda Molinos na Gisele? O senhor se vê na Gisele Bünd- chen? Molinos - Maquio a Gisele há 20 anos. No Brasil faço praticamente todos os tra-

balhos dela, e quando tenho de dividir a res- ponsabilidade quem assume o comando é

o Daniel Hernandez. Mas já fiz trabalhos

na Espanha, em Paris. A Gisele é uma mo- delo de jet set internacional e acaba tendo um colaborador em cada lugar do mundo, em função de tempo, de agenda, de dinheiro. Essa última campanha da Viva- ra é minha. E existe sim uma grande em- patia entre nós. Quando trabalho com ela não precisamos demorar um tempão para encontrar o que queremos. Conheço o que

a Gisele gosta e o jeito que fica bempor ter trabalhado com ela tantas vezes, nós dois temos os mesmos gostos, basicamente. Bas- ta um olhar e já sabemos o que fazer em cada trabalho.

V&A - O que mudou na Gisele nos últi- mos 20 anos, a idade transformou a bele-

za dela, ela precisou de retoques? Molinos - Imagine, ela está exatamen- te igual. Sem tirar nem pôr. Continua com o mesmo tipo de conduta, mesma índole, mesmo corpo, o mesmo cabelo. Acredito que a fama trouxe alguns obstáculos, mas ela sabe como ninguém os transpor.

V&A - O senhor não vai mesmo me dizer uma mulher complicada de produzir? Molinos - Não. De jeito nenhum. Eu te confesso que nunca peguei uma mulher assim. O meu modus operandi me ajuda bastante, porque questiono tanto, dou vá- rias soluções, demonstro. Quando resolvo fazer alguma coisa é porque estou em co- mum acordo com a atriz, com o fotógra- fo, com o produtor de moda. Já vi a luz, sei que tipo de personagem ou que tipo de mulher ela vai encarnar. Não há possibi- lidade de dar errado. Ela prova várias roupas, coloco ela na luz onde vai ser fo- tografada para sentir o efeito da maquia- gem, tento entender a iluminação que vai ser usada para escolher os melhores recursos da maquiagem e para a produ- ção do cabelo.

V&A - Quanto tempo leva uma produção desse porte? Molinos - No último comercial da Pante- ne que fiz para a Gisele, de cabelo e maquia- gem foram dois dias com ela, tendo sessões de três horas e meia cada. Mas alguns dias antes, peguei uma menina, que tinha o mes- mo tom de pele, rosto e cabelos parecidos com os da Gisele, para fazer testes. Maquiagem não é uma coisa fútil como muita gente pen- sa, envolve um estudo aprofundado. É um tra-

balho artístico no sentido que envolve cria- ção e a construção de uma imagem, alicer- çado sob muita técnica. Todos os trabalhos com a Gisele envolvem tanto dinheiro que eu não ganharia durante uma vida, então nada pode dar errado.

V&A - Temalguma personalidade que o se- nhor gostaria de maquiar ou de ter maquiado? Molinos - Tem uma mulher que sem-

pre admirei pela coragem, pelo estilo e pela determinação de manter uma imagem. Gostando ou não do resultado final, admiro a Elke Maravilha. Ela é muito exagerada, mas talvez, até por is- so, ela me passa essa sensação de cora- gem, de personalidade forte e de senso es- tético dentro de uma estética que é só