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Appadurai e a Vida Social das Coisas

Introdução: Mercadorias e a Política de Valor

Arjun Appadurai

In: A Vida Social das Coisas: As Mercadorias sob uma Perspectiva Cultural. Niterói: Eduff,
2009

Arjun Appadurai é um antropólogo indiano que tem um fértil diálogo no campo


dos Estudos Culturais Pós-Coloniais. Travou sua carreira acadêmica em universidades
dos EUA (Princenton, Chicago e Pensilvania), com trabalhos sobre a modernidade e
globalização, identidade e diáspora.
Na Introdução do livro A Vida Social das Coisas (Eduff, 2009), o autor procura
desconstruir certo etnocentrismo que ainda prevalece nas abordagens sobre a circulação
de mercadorias, introduzindo desde a antropologia, novas concepções a um campo
hegemonizado pelos estudos econômicos.
A desconstrução o etnocentrismo nas abordagens sobre a mercadoria, passa
primeiro pela descolonização da própria mercadoria em relação ao capitalismo,
reconhecendo a existência de objetos com valores econômicos em outras sociedades.
Noutro sentido, é chamar atenção para o fato de que a própria construção do capitalismo
não pode ser compreendida somente em termos de contribuições europeias ou a partir
de um viés econômico de inovações tecnológicas, produção e consumo a despeito de
outras complexidades (e intercâmbios) culturais e políticas também presentes.
Na obra de Marx e Engels, apesar do enfoque na mercadoria como algo associada
ao dinheiro, ao lucro e à produção capitalista, há brechas que apontam para a
possibilidade de existir “mercadoria” em outras sociedades. Apparudai procura apoio
também em George Simmel para sustentar uma noção de “mercadoria” mais abrangente
como “qualquer coisa destinada à troca” (p. 22) – haja vista que a troca pressupõe uma
atribuição de valor a determinados objetos.
Portanto, para Appadurai, as mercadorias são compreendidas como resultado de
um processo de atribuição de valor às coisas. Nesse sentido, mais do que determinar
que tipo de objeto possa ser classificado como mercadoria, o autor discute
o processo de atribuição de valor a esses objetos que os faz tornar mercadorias. Um
processo, diga-se de passagem, que não pode ser reduzido a razões econômicas, mas
que envolve dimensões históricas, sociais, culturais e políticas. Um processo dialético
que envolve as coisas, os seres humanos e os contextos nos quais estão imersos. Um
processo que não é reduzido às particularidades do capitalismo moderno industrial.
No processo de troca no qual o valor é atribuído às coisas estão presentes, entre
outras coisas, desejos, demandas, sacrifícios e conhecimentos. Nesse sentido, o autor
trabalha com a noção de regimes de valor que são dados no tempo e no espaço. Quer
dizer, trata-se de compreender “os modos como desejo e demanda, sacrifício recíproco e
poder interagem para criar valor econômico em situações sociais específicas” (p. 16).
Desta forma, o autor sustenta que as coisas possuem uma história social, uma trajetória,
uma biografia social que pode atravessar diferentes regimes de valor. Os objetos, as
coisas, não são mudos. Se é certo que não há inerência de valor nas coisas, por outro
lado, quando compreendidos em seus processos de circulação, observamos a historia
acumulada em suas trajetórias, sendo possível, a partir deles, depreender seus contextos
sociais.
Permuta, troca de presentes, dádiva, possuem, assim, um “espírito em comum”
com a mercadoria, uma vez que os valores são definidos socialmente, influenciados por
critérios políticos e culturais. É um equívoco assumir que em sociedades não
monetizadas, a economia é “anti-social”. Marcel Mauss, com a dádiva, e Karl Marx,
com a mercadoria, não estão localizados em polos opostos e contraditórios como se
pode assumir. Há importantes pontos de encontros em ambas as abordagens. Tanto as
mercadorias, como as dádivas são permeadas por relações sociais, por coerções morais e
simbólicas.
Bourdieu trata a troca de presentes como uma forma de circulação de mercadorias,
no qual o “cálculo econômico” também está presente, embora não de forma explícita
como no capitalismo. O objetivo dele e de vários outros autores é o de restituir a
dimensão cultural no capitalismo, bem como a dimensão econômica em outras
sociedades.
Em linhas gerais, trata-se de reconhecer que todas as coisas tem um potencial
mercantil. Por isso a importância de se analisar a trajetória das coisas para que se
possa inferir as circunstâncias que as colocam numasituação mercantil, isto é, uma
“situação em que sua trocabilidade (passada, presente ou futura) por alguma outra
constitui seu traço social relevante” (p. 27). Nesse sentido, é necessário reconhecer que:
1) as mercadorias possuem uma fase social no sentido de que as coisas entram e saem
desse estado de mercadoria; 2) a candidatura das coisas ao estado de
mercadoria depende do contexto e dos regimes de valor atribuídos; 3) cada contexto,
seja ele no interior ou através de sociedades, “produz o vínculo entre o ambiente social
da mercadoria e seu estado simbólico e temporal” (p. 29).
Portanto, a mercantilização das coisas depende de uma “complexa interseção de
fatores temporais, culturais e sociais” (p. 30). No capitalismo, há uma grande tendência
à mercantilização de tudo, porém não é um fenômeno exclusivo que não possa ser
observado noutras sociedades.
O fluxo de mercadorias “é um acordo oscilante entre rotas socialmente reguladas
e desvios competitivamente motivados” (p. 31). Partindo do pressuposto de que as
coisas possuem uma trajetória que pode oscilar entre um estado de mercadoria ou não, o
autor insiste na perspectiva temporal e relacional deste processo.
Appadurai usa o exemplo do kulla, no Pacífico, um sistema não-monetário no
qual a troca é calculada segundo valores atribuídos, conforme uma mercadoria – mesmo
que seu objetivo final não seja o lucro como no capitalismo, mas reputação, prestígio,
poder. Da mesma forma que os homens dão valor às coisas, as coisas dão valor aos
homens. É preciso analisar a dialética dessa relação.
No processo de troca, não apenas as rotas oficiais são importantes, mas também
os desvios construídos. As rotas socialmente aceitas estabelecem quais são as coisas
mercantilizadas, bem como protege outras mais desse processo. Os desvios, por sua vez,
concorrem com aquelas “políticas de enclave” e, através de “rotas clandestinas”,
comercializam aquilo que “oficialmente” não era permitido. Desta maneira, provoca
tensões com o sistema hegemônico e pode vir a provocar mudanças no mesmo. Há,
nesse sentido, uma mercantilização por desvio que não pode ser desconsiderada – cujos
valores só podem ser compreendidos se relacionados às rotas das quais foram
desviados.
Portanto, rotas, desvios e novas rotas das mercadorias representam esse processo
de compreender a trajetória das coisas em sua interpenetração com aspectos políticos,
sociais e morais de cada sociedade.
Demanda (e consumo) por mercadorias é resultado de aspectos culturais, jamais
mecânicos. O fundamento das lógicas de demanda envolve desejos e necessidades
construídos no bojo de sistemas culturais e políticos. A política, muitas vezes, regula a
demanda, vide o caso de Gandhi e a desobediência civil na compra de tecidos ingleses
em favor dos tecidos manufaturados pelos próprios indianos. Além do Estado,
governantes e movimentos sociais, os comerciantes enquanto mediadores de trocas
também cumprem importante papel nesse processo – sobretudo quando são trocas de
longa distância entre sistemas culturais diferentes, com pouca comunicação entre si.
A inovação tecnológica (que viabiliza a produção de novas mercadorias) não é
provocada apenas por razões técnicas, mas motivada por aspectos sociais, políticos e
culturais também. As mudanças nos padrões de consumo na Europa que provocaram o
surgimento do capitalismo podem ser encontradas nas trocas estabelecidas com o
Oriente e na chegada de novas mercadorias que passaram a ditar a “moda” da
aristocracia, o que provocou alterações no sistema cultural vigente. Os chamados “bens
de luxo” são permeados por uma necessidade de afirmação política e de poder. Assim,
“a demanda não é nem uma reação mecânica à estrutura e ao nível de produção, nem
um ânsia natural insondável. É um complexo mecanismo social que intermedeia
padrões de circulação de mercadorias de longo e curto prazo” (p. 60). O consumo é,
pois, um “ato de comunicação”; é “social, relacional e ativo” (p. 48).
“Mercadorias representam formas sociais e partilhas de conhecimento muito
complexas” (p. 60) – formas de conhecimento de quem produz e de quem consome. Na
base do processo produtivo há uma maior padronização do conhecimento – atribuído a
própria técnica de produção. Porém, já no que diz respeito ao mercado, as demandas
externas e os sentidos atribuídos às mercadorias muitas vezes são desconhecidos dos
produtores. Os comerciantes encarregam-se de fazer a mediação entre esses dois polos
de conhecimento e, nessa posição, negocia seus lucros.