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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA - CAMPUS UNIVERSITARIO DE JEQUIE

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS


CURSO DE LETRAS VERNÁCULAS

.LíNGUA PORTUGUESA I
(SINTAXE DO PORTUGUÊS)
(RESUMOS, SELEÇÃO DE TEXTOS E EXERCíCIOS)

Organizador
André Luiz Faria

2° SEMESTRE de 2011
SUMÁRIO

PARTE 1- RESUMOS E SELEÇÃO DE TEXTOS p.

Plano de Curso , 03
Tabela de correção das avaliações 05

INTRODUÇÃO (REVISÃO DE ALGUNS CONCEITOS) 04


A NGB nas Gramáticas escolares " 04
I - NGB - Texto resumido 05
11- NGB - Termos da oração 06
111- A estrutura sintática 07
IV - Brevíssima revisão da GT - o período composto 09
V - Termos básicos da oração (ROCHA LIMA, [1972] 1996, p. 234-258) 09

UNIDADE 1 ................................•......................................................................... 04
i •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••

1- O objeto da sintaxe (AZEREDO, 1979) 04


11- A arquitetura da gramática (KATO & MIOTO, 2009) 04
111- Sofrendo a gramática (PERINI, 1996) " 04
IV - Termos da oração (DUARTE, 2007) ..................................................................................................................•............... 04
V - Sobre os processos de estruturação sintática (AZEREDO, 1979) 04

UNIDADE 2 , 04
X - Relações gramaticais, esquemas relacionais e ordem de palavras (DUARTE, 2003, p. 278-321) 04
XV - Língua portuguesa em contexto de mudança (DUARTE, 2001) 04

(Apresentação - GRUPO 01) - Colocação pronominal (VIEIRA, 2007) "" ~ 04


(Apresentação - GRUPO 02) - Concordância nominal (BRANDÃO, 2007) 04
(Apresentação - GRUPO 03) - Concordância verbal (VIEIRA, 2007) 04
(Apresentação - GRUPO 04) - Regência de alguns nomes (Gramáticas Tradicionais) 04
(Apresentação - GRUPO 05) - Regência de alguns verbos (Gramáticas Tradicionais) 04

UNIDADE 3 .........................................................................................•.............................................•.......................................... 04
VI- Constituição do período (ROCHA LIMA, [1972] 1996, p. 259-286) 04
VI- O processo de coordenação e subordinação: uma proposta de revisão (FAVERO, 1992) " 04
VII- Articulação de orações: problema gramatical ou lógico? (CARONE, 1996) " 04
VIII- Coordenação e subordinação (DUARTE, 2007) 04
IX - Uso da vírgula entre os termos da oração e entre as orações do período (SAVIOLl, [1988] 2002) 04

PARTE 11- EXERClclOS

PARTE 111- TEXTOS CONTEMPORÂNEOS PARA DISCUSSÃO E10U ANÁLISE DOS FENÔMENOS ESTUDADOS

1- Você (Pasquale Cipro Neto - O Globo, 1998) .......................................................................................................•............. 03


11- O "SE", VELHO DE GUERRA (1) (Pasquale Cipro Neto - Revista Cult, 2001) " 03
111- O "SE", VELHO DE GUERRA (2) (Pasquale Cipro Neto - Revista Cult, 2001) 03
IV -Infantilidades (Verissimo - O Globo, 2000) 06
V - Deixo claro minha posição (Pasquale Cipro Neto - O Globo, 1998) 07
VI- Educação: ela nps interessa? (Lya Luft - Veja, 201 O) 04
VII- A maior ironia (Lya Luft - Veja, 2011) " 04
VIII- Desistência (Verissimo - O Globo, 2009) 04
I
I
\

I
1- Plano de Curso

PLANO
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA DE
Campus Universitário de Jequié CURSO

• Departamento de Ciências Humanas e Letras - DCHL

DISCIPLINA PRE.REQUISITO
L1NGUAPORTUGUESA I Português Instrumental

C.H,SEMESTRAL PROFESSOR C.CR DITO ANO PERIODO LIETIVO


60 HORAS T I P I E 2011 2011.2
2 1 O
André Luiz Faria
APROVADO EM REUNIÃO DEPARTAMENTAL ASSINATURA DO DIRETOR A

EMENTA
Processos sintáticos: coordenação e subordinação. Redução e desenvolvimento de orações. A oração e seus elementos. Sintaxe de
concordância, de colocação e de regência. Pontuação.

OBJETIVO GERAL
Examinar as relações sintáticas básicas da Iingua (e seus padrões oracionais), tendo em vista o reconhecimento e os
mecanismos de organização da frase, sobretudo em padrão oracional. Estudar as relações sujeito/predicado e seus
constituintes, os processos de subordinação e coordenação, consideradas a regência, a concordância e a colocação pronominal
como fatores condicionantes nos processos seletivo-combinatórios. Desenvolver conhecimentos teóricos e práticos da
morfossintaxe, tendo em vista a melhoria do uso das modalidades oral e escrita da língua.

OBJETIVOS ESPECIFICOS POR UNIDADE


I. UNIDADE
• Distinguir frase, período e oração.
• Identificar período simples.
• Analisar sintaticamente os termos da oração: essenciais, integrantes e acessórios .
• Reconhecer os padrões oracionais do português

11• UNIDADE
• Identificar os processos de coordenação e subordinação
• Classificar as orações coordenadas sindéticas e assindéticas
• Classificar as orações subordinadas: substantivas, adjetivas e adverbiais
• Distinguir orações desenvolvidas e reduzidas .

111• UNIDADE
• Identificar as concordâncias nominal e verbal, observando seus usos contemporâneo
• Identificar as regências verbal e nominal, observando seus usos contemporâneo
• Usar a pontuação, relacionando-a aos conhecimentos da sintaxe dos períodos simples e composto
• Agrupar na oração os termos que a constituem

CONTEUDO PROGRAMATICO
I • UNIDADE
• O objeto de estudo da sintaxe.
• Níveis da hierarquia sintática: sintagma, oração, periodo .
• A estrutura interna dos sintagmas nominal, preposicional, adjetivai, adverbial
• Sintagmas simples e complexos (orações subordinas)
• Termos da oração: buscando separar sintaxe e semântica
• A tradicional dicotomia SUJEITO - PREDICADO
• A tradícional tripartição: termos essenciais - integrantes - acessórios
• Verbo como núcleo da oração - transitividade verbal
• Os termos da oração: sua estrutura
• Padrões sentenciais do português

"
"
11 UNIDADE
• A concordância nominal e verbal
• A regência nominal e verbal
• A ordem dos constituintes
• Algumas características sintáticas do português brasileiro no nível oracional (oral e escrito):
• (a) mudança no quadro pronominal e consequência para a sintaxe: estratégias de indeterminação do sujeito; a
preferência dos sujeitos nulos e plenos; desaparecimento do clítico de terceira pessoa; variação entre clítico
dativo e o acusativo na segunda pessoa)
• (b) mudança na ordem dos constituintes da oração: a colocação dos pronomes clíticos; a restrição à ordem VS
com consequência para a concordância; a topicalização e o deslocamento à esquerda)

111 UNIDADE
• Relações de subordinação e coordenação: o período composto como reflexo das relações estabelecidas no
período simples
• Construções de coordenação (NGB, outras abordagens, o nexo semântico elementos coordenados)
• Construções de subordinação nos sintagmas complexos (NGB, outras abordagens, padrões de construção com
SNs complexos, construções relativas (com e sem antecedente) ou SADJs complexos; SADVs complexos - nas
modalidades oral e escrita)
• A sintaxe do parágrafo padrão
• Mecanismos sintáticos de coesão textual (a coesão sentencial e inter-sentencial)
• Pontuação
PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS
aulas expositivas;
leitura de textos;
discussão de textos lidos;
produção de textos.

AVALIAÇÃO
prova escrita;
relatórios;
seminários;
pesquisas.

BIBLIOGRAFIA BASICA
AZEREDO, José Carlos de (1990). Iniciação à sintaxe do português. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
CARONE, Flávia de B. (1991). Morfossintaxe. São Paulo: Ática.
(1991). Coordenação e subordinação. São Paulo: Ática
CUNHA, Celso (1984). Gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: MEC-FENAME.
& CINTRA, L. F. Lindley (1985). Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
DUARTE, M. Eugênia L. (1997) "Aspecto do sistema pronominal nas regiões Sudeste e Centro-Oeste". Letras & Lingüística: Anais do XI
Encontro Nacional da ANPOLL, 501-509.

(1997). "O sujeito nulo no português brasileiro e no português europeu". Comunicação apresentada no XLV Seminário do
GEL. Campinas, SP.
(1989)."Clítico acusativo, pronome lexical e categoria vazia no português do Brasil"ln: F. Tarallo (org.) Fotografias
sociolingüísticas, pp. 19-34. Campinas, Pontes.
FARIA, André Luiz (2008). Os termos da oração. Apresentação ENEL.
MATEUS, M. H. M. et alii (2003). Gramática da língua portuguesa. Coímbra: Almedina.
MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (1989). Tradição gramatical e gramática tradicional. São Paulo: Contexto.
MIOTO, Carlos et allii (2005). Manual de sintaxe. Florianópolis. Insular.
PERINI, Mário A. (1985). Para uma gramática do português. São Paulo: Ática.
(1997). Sofrendo a gramática. São Paulo: Ática.
ROCHA LIMA, Carlos Henrique de (1982). Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Olympio.
VIEIRA, Silvía Rodrigues & BRANDÃO, Silvia Figueiredo (2001). Morfossintaxe e ensino de Português: reflexões e propostas. Rio de
Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
FERNANDES, Francisco. Dicionário de regime de substantivos e adjetivos. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1967.
__ ' Dicionário de verbos e regimes. 4.ed. Porto Alegre: Globo, 1967.
HAVY, A. B. de. Necessidade de uma gramática padrão da língua portuguesa. São Paulo: Ática, 1984.
KURI, Adriano da Gama. Pequena gramática. 8.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1962.
__ ' Lições de análise sintática. 4. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1967.
LEMLE, Miriam. Análise sintática: teoria geral e descrição do português. São Paulo: Ática, 1984.
LOBATO, L. Sintaxe gerativa do português: da teoria padrão à teoria da regência e ligação. Belo Horizonte: Vigília, 1986.
LUFT, Celso Pedro. Moderna gramática brasileira. 7. ed. Porto AleQrel Rio de Janeiro: Globo, 1986.
TABELA DE CORREÇÃO DAS AVALIAÇÕES

SIMBOLO PROBLEMA I DESVIO


C Concordância
R Re ência/crase
O Orto rafia/acentuação
P Pontua ão
E Elementos de coesão tem os verbais, con'un ões, ordem das
A Coerência
V Variado vocabulário, coloca ão ronominal, "eco", falta ou excesso de arti o
T Tema mal desenvolvido ou ausência de introdu ão, desenvolvimento, conclusão
G Para rafa ão
? Trecho confuso

ATENÇÃO:

Evite repetição de palavras (Repet.), adjetivações e exclamações (Adj.), aspas no título, marcas de oralidade,
vocabulário rebuscado sem necessidade;
Não use introduções com "Desde os primórdios ..,", ou coisas do gênero;
Também não faça conclusão "apoteótica", com perguntas, lições de moral ou com o "óbvio", tais como "Diante
do exposto acima, podemos concluir, portanto, que ...";
Observe que, nos textos dissertativos acadêmicos, também se espera que você consiga produzir textos com
informatividade. Por isso, procure transpor para o papel o que você sabe do assunto, com base nas
informações dos textos lidos, mas sem copiá-los;
Deixe as brincadeiras para o bate-papo com os amigos: o texto dissertativo geralmente tem um teor de
seriedade que não combina com ironias mal empregadas.

CORREÇÃO DA GRADE

ITEM O ue faz erder ontos


Tipologia textual (dissertação) Paragrafação, ausência de introdução, desenvolvimento, conclusão,
=
(TI 2 ontos excesso de ad'etiva ões
Tema + Tema mal desenvolvido, digressões, clichês, trechos confusos,
Coerência textual incoerências, repetições de idéias
=
TC 4 ontos
Coesão textual Repetição de palavras, elementos de coesão (tempos verbais,
=
CS 2 ontos con'un -es, ordem das alavras, ronomes, ontua ão
Adequação à modalidade Marcas de oralidade, concordância, regência/crase,
Escrita ortografia/acentuação, não usar o "padrão culto"
=
(ME 2 ontos
11.A NGB NAS GRAMÁTICAS ESCOLARES

A terminologia adotada nas gramáticas escolares do português se baseia na Nomenclatura Gramatical Brasileira,
elaborada por gramáticos e filólogos eminentes e publicada em 1959. Desde então, o ensino de gramática nas
escolas passou a adotá-Ia, o que dava aos professores a garantia de que um determinado conceito gramatical .
passaria a ser nomeado sempre da mesma maneira, o que não acontecia antes, pois um mesmo conceito podia
receber mais de uma denominação, criando problemas para professores e alunos.Exemplo típico é o do
complemento nominal, que tinha as seguintes denominações: objeto nominal (Maximino Maciel), complemento
restritivo (Carlos Góis), complemento terminativo (Eduardo Carlos Pereira) e adjunto restritivo (Alfredo Gomes).

A NGB divide a gramática em fonética, morfologia e sintaxe. Entende que o estudo sintático deve abranger a sintaxe
de concordância, a sintaxe de regência e a sintaxe de colocação e classifica os termos sintáticos segundo a função
exercida na oração. Assim, a análise de uma determinada sentença leva em conta essencialmente a função
sintática de seus termos (sujeito, predicado, predicativo, complemento verbal, complemento nominal, adjunto
adverbial etc.), desconsiderando quase sempre a constituição interna de cada um deles. Por isto, pode-se dizer que
a doutrina sintática adotada pela NGB considera as funções sintáticas como a base para o conhecimento da
estrutura da oração e do período. As limitações desta concepção de sintaxe serão discutidas no decorrer do curso.
111- NOMENCLATURA GRAMATICAL BRASILEIRA (Texto resumido)
Divisão da Gramática: Fonética, Morfologia e Sintaxe

FONÉTICA
I - A Fonética pode ser: Descritiva, Histórica, Sintática
11- Fonemas: vogais, consoantes e semivogais

MORFOLOGIA
A Morfologia trata das palavras: a) quanto a sua estrutura e formação; b) quanto a suas
flexões; e c) quanto a sua classificação.
1- A estrutura das palavras: raiz, radical, tema afixo (prefixo e sufixo), desinência
(nominal
e verbal), vogal temática, vogal e consoante de ligação, e cognato.
11- Formação das palavras: derivação, composição e hibridismo.
111- Flexão das palavras: quanto a sua flexão, as palavras podem ser variáveis e
invariáveis.
IV - Classificação das palavras: substantivo, artigo, adjetivo, numeral, pronome, verbo,
advérbio, preposição, conjunção e interjeição.

SINTAXE
1- Divisão da Sintaxe: a) de concordância (nominal e verbal); b) de regência (nominal
e verbal); c) de colocação

11- Análise Sintática


Da oração
1 - Termos Essenciais: sujeito e predicado
Sujeito: simples, composto, indeterminado, oração sem sujeito
Predicado: nominal, verbal, verbo-nominal
Predicativo: do sujeito e do objeto
Predicação verbal: verbo de ligação, verbo intransitivo e verbo transitivo (direto e indireto)

2 - Termos integrantes da oração: complemento nominal, complemento verbal (objeto direto e indireto) e agente da
passiva.
3 - Termos acessórios da oração: adjunto adnominal, adjunto adverbial e aposto
Vocativo

Do Período.
1 - Tipos de período: simples e composto
2 - Composição do período: coordenação e subordinação
3 - Classificação das orações: absoluta, principal, coordenada (sindética e assindética) e subordinada (substantiva,
adjetiva e adverbial) .
IV - NGB · TERMOS DA ORAÇÃO.

1- Termos essenciais
Sujeito Paulo saiu.
Saímos.
Derrubaram algumas árvores.
Vive-se bem aqui.

Predicado Paulo [viu o menino].


Paulo [estava triste].
Paulo [chegou cansado].
(Predicativo) Joana está [triste].
Joana encontrou-o [aborrecido].

2 - Termos integrantes
Complemento nominal Inspecionamos a construção [da ponte].

Complemento verbal
Objeto direto Construíram [a ponte].
Objeto indireto Ofereceram rosas [à moça].
A moça gosta [de rosas].
Agente da passiva A armadilha foi preparada [pelo caçador].

3 - Termos acessórios
Adjunto adnominal A casa [do juiz] está sendo demolida.

Adjunto adverbial O trem partiu [ontem].


Comemos um sanduíche [na praia].

Aposto D. Pedro I, [Imperador do Brasil], proclamou


a Independência.

Vocativo [Pedro], venha cá!


VI- A ESTRUTURA SINTÁTICA
1. FUNÇÕES, CLASSES E SINTAGMAS
A gramática tradicional considera as funções sintáticas como elementos primitivos da gramática. No entanto, para
definirmos a função de sujeito (termo com o qual o verbo concorda), temos de nos valer de noções mais básica,
como as de verbo e de concordância. Por causa disto, os linguistas gerativistas formularam uma teoria sintática
incluindo apenas as classes gramaticais (Nome, Verbo, Adjetivo, Preposição, Advérbio) nas representações
sintáticas (árvores) das sentenças.

FUNÇÕES CLASSES SINTAGMAS LEXICAIS


SUJEITO NOME --+ SINTAGMA NOMINAL
PREDICADO VERBO --+ SINTAGMA VERBAL
OBJETO DIRETO ADJETIVO --+ SINTAGMA ADJETIVAL
OBJETO INDIRETO PREPOSiÇÃO --+ SINTAGMA PREPOSICIONAL
PREDICATIVO ADVÉRBIO --+ SINTAGMA ADVERBIAL

1.1. Funções
Perini (1985) faz um comentário crítico sobre as descrições das gramáticas escolares tradicionais, mostrando que
há, em tais gramáticas, uma doutrina gramatical explícita (DGEx.), a que é exposta na gramática e que, por
exemplo, "conceitua o sujeito como o termo sobre o qual se faz uma declaração" (p. 16), e uma doutrina gramatical
implícita (DGlmp.), "que não é nunca explicitada, nem reconhecida como existente, mas que na verdade guia
nossas decisões dentro da prática da análise gramatical" (p.17). Para desqualificar a definição de sujeito da DGEx,
Perini faz a seguinte análise:
(1) "O sujeito é o termo sobre o qual se faz uma declaração."
Digamos que se peça a uma pessoa gramaticalmente treinada para identificar os sujeitos das orações abaixo:
(2) Carlinhos corre como um louco
(3) Carlinhos machucou Camilo
(4) esse bolo eu não vou comer
(5) em Belo Horizonte chove um bocado
Ela dirá que o sujeito de (2) e de (2) é Carlinhos; o de (4) é eu; e 5} não tem sujeito. Essas análises estão de acordo
com a prática corrente, e creio que são de aceitação universal. Mas até que ponto se harmonizam com a definição
(I), também geralmente aceita? É surpreendente verificar como são numerosos os choques entre a definição e a
análise. Em (2) pode-se dizer sem problemas que a oração veicula uma declaração sobre Carlinhos, e sobre
ninguém mais. Já em (3) isso não fica assim tão evidente: não haverá aí também uma declaração sobre Camilo?
Quando chegamos a (4), a situação se torna ainda mais desconfortável: como defender a tese de que (4) é uma
afirmação acerca de mim, e não acerca do bolo? Finalmente, (4), que é uma oração sem sujeito, necessariamente
(segundo a definição) não deveria estar declarando nada sobre coisa alguma; no entanto, (5) exprime claramente
uma declaração sobre Belo Horizonte. Feita a desqualificação da definição (1), pertencente à DGEx., Perini propõe
a definição abaixo para sujeito:
(7) Sujeito é o termo com o qual o verbo concorda.
E comenta:
A prática gramatical observada sugere que (7) seja, pelo menos, parte da definição de sujeito existente na DGlmp.
Com efeito, (7) nos permite não só identificar Carlinhos como sujeito de (2) e de 3}, mas também, inequivocamente,
eu como sujeito de (4). Já (5) não tem sujeito porque o verbo não concorda com nenhum dos termos da oração. A
definição (7) abrange qualquer ocorrência de sujeito, mesmo que este termo esteja em outra posição na sentença
que não seja a usual, como nos exemplos abaixo:
(a) Chegaram de São Paulo ontem de manhã aqueles três estudantes italianos.
(b) Apareceu lá em casa no sábado o cachorrinho pequinês da Maria.
Estas sentenças revelam que se deve levar em conta, também, no estudo do sujeito, a sua posição canônica de
ocorrência (como muitas outras línguas, o português é uma língua SVO). Chomsky (1965) foi o primeiro lingüista a
formalizar apropriadamente as estruturas sintáticas, indicando que as funções derivam das relações
entre os sintagmas (unidades sintáticas construídas em torno de um núcleo). Segundo este modelo, o sujeito é o
sintagma nominal que, juntamente com o sintagma verbal, compõe a sentença. Analisando a sentença (c) abaixo
num diagrama em árvore, temos:
(c) O aluno fez o exercício.
(d) S
3
SNSV
!3
o aluno V SN
!!
fez o exercício
A sentença (c) tem dois sintagmas nominais, mas apenas o SN o aluno está diretamente ligado à sentença (S). O
outro sintagma nominal, contido no SV, é o objeto direto. Na seção X, formalizaremos apropriadamente as
estruturas sintáticas, usando os recursos da Teoria X-Barra.

1.2 • Classes e sintagmas


Classes como nomes, verbos, adjetivos, preposições e advérbios são chamadas lexicais, porque se referem a
elementos do mundo objetivo, extralingüístico. Assim, os nomes se referem a entidades, os verbos denotam
.eventos, os adjetivos referem-se a estados, os advérbios correspondem a circunstâncias e as preposições
representam relações.
Como vimos no texto de Akmajian, a estrutura sintática deriva dos agrupamentos de palavras hierarquicamente
combinados. Estes agrupamentos formam as unidades sintáticas básicas, também conhecidas como sintagmas,.os
quais são construídos em torno de núcleos lexicais, como os mencionados acima, ou em torno de núcleos
funcionais, como flexão, complementador e determinante. Estes últimos serão analisados mais detalhadamente na
seção X.
1- Exemplos de sintagmas nominais:
1) [O estudante de Física] comprou [aquele computador].
2) [Aquele computador] enguiçou.
3) Eu encontrei [o estudante de Física].
2- Exemplos de sintagmas verbais:
4) Paulinho [comprou aquele computador].
5) Jonas [encontrou Paulinho].
6) Jonas [ofereceu os doces ao menino].
3- Exemplos de sintagmas preposicionais:
7) Joana correu [no calçadão] [com o surfista].
8) Joana colocou o livro [sobre a mesa].
9) Joana comeu os biscoitos [com alegria].
10) Joana quebrou uma xícara [de porcelana].
4- Exemplos de sintagmas adjetivais:
11) Almino está [muito triste].
12) O deputado é [favorável ao emendão].
13) Ele está [consciente da situação].

2. A ESTRUTURA INTERNA DOS SINTAGMAS


Nesta seção, apresentam-se exemplos dos diferentes sintagmas, com expansões à esquerda e à direita, ou
compostos apenas pelos respectivos núcleos. Estes últimos estão grafados em negrito.

SINTAGMA NOMINAL (SN)


a) Carminha
a Carminha
b) os porquinhos
os três porquinhos
os três rechonchudos porquinhos
c) contratação de empregados
apresentação da peça
entrega do prêmio ao estudante
fornecimento de água à população
d) aquela moça do terceiro andar
uma funcionária da Universidade que eu encontrei
SINTAGMA VERBAL (SV)
[Dormíamos].
[Compramos um apartamento].
[Entregamos o prêmio ao estudante].
[Encontramos o rapaz no botequim às três horas].
[Comíamos bolachas com imenso prazer].
SINTAGMA ADJETIVAL (SA)
Rapunzel ficou [triste].
Rapunzel ficou [muito triste].
Ele está [consciente da situação].
Ele está [muito consciente da situação].
SINTAGMA PREPOSICIONAL (SP)
Ele agiu [com rapidez].
Rapunzel ficou presa [no castelo].
A livraria vende livros [sobre a China].
O livro estava [sobre a mesa].
O prefeito contava [com os vereadores].
É preciso interromper a mortandade [de peixes].
SINTAGMA ADVERBIAL
Paulo corria [cedo].
Ele chegou [muito tarde].
Jonas correu na praia [ontem].

3. FUNÇÕES SINTÁTICAS DOS SINTAGMAS


Um mesmo sintagma pode ter diversas funções sintáticas, dependendo de sua distribuição na sentença. Assim, por
exemplo, um SN pode ser sujeito, objeto direto, predicativo do sujeito, predicativo do objeto, etc. Veja, a seguir,
exemplos com sintagmas nominais e sintagmas preposicionais exercendo diferentes funções sintáticas.
3.1. SN
SUJEITO
1- Minha secretária corre no Ibirapuera.
2- O torcedor do Flamengo corre no calçadão.
3- Aquele atleta que encontramos no botequim ganhou uma medalha de ouro.
4- A construção da casa durou três meses.
OBJETO DIRETO
5- Jonas encontrou minha secretária no Ibirapuera.
6- O ministro viu o torcedor do Flamengo no calçadão.
7- Jonas admira aquele atleta que encontramos no botequim.
8- O banqueiro financiou a construção da casa.
PREDICATIVO DO SUJEITO
9- Paulo é um estudante inteligente.
10- A Terra é um planeta.
PREDICATIVO DO OBJETO
11- Eu considero Paulo um atleta.
12- Mana julga Paulo um rapaz moderno.
13- Maria julga-o um rapaz moderno.
3.2. SP
OBJETO INDIRETO
15- Jonas entregou o livro ao bibliotecário.
16- Josefina deu presentes aos meninos de rua.
17- Paulinho ofereceu bombons ao irmão.
18- Joaquim gostava de balas de hortelã.
IV - BREVíSSIMA REVISÃO DA GT

I. ORAÇÕES COORDENADAS
As orações coordenadas podem ser:
* independentes - aquelas que não exercem função sintática em relação à outra;
* sindéticas - aquelas em que a conjunção vem expressa;
* assindéticas - aquelas em que a conjunção está subentendida.

Apresentam-se a seguir algumas das conjunções coordenativas mais comuns:


• aditivas - e, nem, não s6... mas também ...
• adversativas - mas, porém, todavia, contudo, entretanto ...
• altemativas - ou...ou, quer ...quer, seja ...seja, ora ora, nem ...nem...
• explicativas - pois, porque, que, já que, visto que .
• conclusivas -logo, portanto, por conseguinte, então, assim...

Exemplos de orações coordenadas:

1. Ela estudou muito e foi aprovada.


2. Ela estudou muito e não foi aprovada.
3. Nem estuda, nem trabalha.
4. Nem estudando, nem trabalhando, consegue sucesso.
5. Ela é louca; ninguém, pois, a leva com seriedade.
6. Não a levem com seriedade, pois ela é louca.

11.ORAÇÓES SUBSTANTIVAS
As orações substantivas exercem uma das seguintes funções sintáticas:
• sujeito ( = subjetiva);
• objeto direto ( = objetiva direta);
• objeto indireto ( = objetiva indireta);
• complemento nominal ( = completiva nominal);
• predicativo ( = predicativa);
• aposto ( = apositiva);
• agente da passiva ( = agente da passiva).

A oração substantiva é sempre introduzida por:


a) conjunção integrante - que, se.

OBS.1: Para que o que seja considerado uma conjunção integrante, a oração não pode ser interrogativa.
Ex.: 1) Não sei se vou.
2) Não sei que queres.
3) É bom que venhas.

OBS. 2: As orações substantivas podem eqüivaler aos pronomes demonstrativos esse, isso.
b) pronome indefinido
Ex.: Quem espera nunca alcança.

c) pronome interrogativo ou advérbio interrogativo


Ex.: Não sabia quantos foram.
Não sabia como foram.

111.ORAÇÓES SUBORDINADAS ADJETIVAS


As orações subordinadas adjetivas correspondem a um adjetivo. Portanto, caracterizam, identificam o nome ou pronome. Podem
ser:
1 restritivas - são aquelas que especificam, particularizam a principal;
2 explicativas - são aquelas que generalizam, explicam, esclarecem a principal;
iniciadas por pronomes relativos - pronomes que se referem ao seu antecedente (nome ou pronome).

Exemplos:
Pronomes relativos:
• que - usa-se para coisa, pessoa; equivale a o qual, a qual ...;
• quem - usa-se para pessoa; vem regido de preposição;
• cujo, cuja - indica posse; pode ser adjunto adnominal;
• onde - equivale a em que, no qual, na qual; pode ser adjunto adverbial de lugar;
• quanto - geralmente ap6s tudo, todos ...;
• como - normalmente após meio, modo ...; pode ser adjunto adverbial de modo ou meio.

OBS. 3: Deve-se observar se o verbo é regido ou não de preposição.


OBS. 4: Deve-se observar se o pronome exerce sempre uma função sintática.
Exemplos:
1. Este é o homem que encontramos.
2. Este é o homem a quem encontramos.
3. Este é o homem com quem nos encontramos.
4. Este é o homem a que nos referimos.
5. Este é o homem a quem nos referimos.
6. Este é o homem de que necessitamos.
7. Este é o homem de quem necessitamos .
.8. A fazenda que vistamos ficava longe.
9. A fazenda a que fomos ficava longe.

OBS. 4: Oração principal é completada pela subordinada, pois lhe falta algo, é "carente"; oração subordinada completa a principal ou outra
oração, é função sintática da outra.
IV. ORAÇÕES SUBORDINADAS ADVERBIAIS
As orações subordinadas adverbiais correspondem a um adjunto adverbial. Podem ser introduzidas pelas seguintes conjunCÕes
subordinativas1:

1. causal 2_ porque, pois, que, já que, visto que, porquanto, uma vez que...
2. consecutiva3 - que, de forma que, de modo, que após intensidade tão/tal, tanto/tamanho ...
3. concessiva - embora, apesar de que, ainda que, se bem que, por mais que, posto que, conquanto que, não obstante, malgrado, a
despeito de...
4. condicional - se, caso, salvo, a menos que, contanto que, desde que, uma vez que .
5. comparativa - como, tal, qual, tal qual, que nem, tanto ... quanto, mais... que, menos que...
6. conformativa (de acordo) - como, conforme, segundo, mediante, consoante ...
7. final- a fim de que, para que, que, porque...
8. proporcional - à proporção que, à medida que, ao passo que...
9. temporal - quando (tempo certo), enquanto (concomitância), sempre que (freqüência), desde que (tempo inicial), até que (tempo final),
antes que (anterioridade), depois que (posterioridade), logo que, assim que, mal (instantaneismo), apenas {imediatismo) ...

V. ORAÇÕES REDUZIDAS
As orações reduzidas não apresentam conectivo. Apresentam verbos:
• no infinitivo (-R);
• no gerúndio (-NDO);
• ou no particípio (-DO, -TO, GO, -SO).
Podem ser desenvolvidas em outras: coordenadas ou subordinadas - adjetivas, adverbiais, substantivas.
É proibido fumar.
1. Estudando, você aprende.
2. Acabado o trabalho, saímos todos.
3. Foi a última a sair.

1 Há, neste grupo, alguns casos de locuções prepositivas. São exemplos de locuções prepositivas: a despeito de, em virtude de, em
decorrência de ...
2 Sempre que houver uma oração subordinada adverbial causal vai haver uma consecutiva e vice-versa.
3 Idem; ibidem.

II \ ".",'t4~"'ill"" t'lftll). t."~
"""~.~
{'~
,_,el. L .,\\\\ i~,"~'\'
\\ \ \:
A frase será, ainda, afinnadva ou .
P~"~'" ou negue alguma coisa. ' negativa, conforme nela se afirme 1. O SUJEITO
o sujeito é expresso por substantivo, ou equivalente de substantivo.
\
.~"'.~

b{'~~;L Às vezes, um substantivo sozinho exprime o sujeito da oração:

"'i.,X;f~}'
",- '-.."h"" ..•..
~
.-!",<f~
CONCEITO DE ORAÇÃO
Deus é perfeito!
Casos há, no entanto, em que sentimos necessidade de precisar ou
restringir a significação do substantivo:
Oraçao é a frase - ou membro de frase _ . Brancas pombas cast(ssimas 'Voavam.
mente em sujeito e predicado. que se. blparte normal-
Neste exemplo. o sujeito não se compõe apenas de um substantivo,
Em certo tipo de oração pod tod . mas, ao contrário, de um substantivo acompanhado de outros elemen-
faltar o sujeito. ' e, aVIa(como se verá pouco adiante),
tos que lhe precisam ou limitam o sentido fundamental. Diz-se, então,
Serve de modelo a frase decJarativ 'fi - que o substantivo é o núcleo do sujeito.
qualquer traço dominante de natu a~manl ;staçao de umjufzo, sem
Quando apresentar um s6 núcleo, o sujeito é simples; havendo mais
lhe a organização gramatical. reza emotiva, capaz de perturbar-
de um núcleo, chama-se composto. .
Comparem-se as duas frases:
- A sala estd suja. -, Exemplos: .
A cegueira lhe tortu~va os últimos diªs de vida (sujeito simples).
expressão de uma opinião refletida sobre o estado da sala A cegueira e a pobreza lhe tonuravam os últimos dias de vida
e '
~ .Que sala suja! -, (sujeito composto).
frase mterpretadora p' . I O sujeito ainda pode ser detetminado, ou indetennillado.
diante da sujice da ~al~~nclpa mente, de nosso sentimento de repulsa
É detennillado, se identificável na oração - expHcita ou implicita-
Por aí se vê que a diferença entre fr -. mente, illdetennilrado, se não pudermos ou não quisermos especificá-lo.
o grito 'socorro" é uma fi • ase e oraçao reSIde na fonna: Para indeterminar o sujeito, vat~-se a Jfngua de um dos dois expe"
todavia não é u~a o - rase~ Já que expressa um sentido completo' dientes: . ro..'
trutura ~aracterístico~:~r~;~~~~~~ i:~~ cat~~ dos ele~~ntos de es~
cado. Por outro lado 'Q' pa I a em sujeito e predi- 1) Empregar o verbo na 3. ssoa do plural, sem referência ante-
'que voc~ leia este l;v~:' é ::: que ,!oc~ leia este livro', o conjunto rior ao pronome eles ou el a\~ubstantivo no plural;
2) Usá-lo na 3~ pessoa, mg!itar acompanhado da partícula se.
porqu~ possui os termosl6gicos ~~~aa~e~~~~~~~oa~ Crit~rio formal, desde que o verbo seja intraq~J vo, ou traga complemento preposicional.
conteudo, urna frase, uma vez que não tem sentIdo uni~~: e~~~~~e~~~
Exemplos: lf:f'
Falam mal daquela moça. Vive-se bem aqui.
Mataram um guarda. Precisa-se de professores.
TE~OS BÁSICOS DA ORAÇÃO
ORAÇÃO SEM SUJEITO
Pode dar-se o caso de a oração ser destituída de sujeito: com ela,
Em s~a. estrutura básica, a oração consta de dois t . referimo-nos ao processo verbal em si mesmo, sem o atribuirmos a
- SUjel~O: o ser de quem se dii algo' ermos. nenhum ser. Nem há o propósito de esconder o sujeito, atitude psi-
- Predicado: aquilo que se diz do s~jeito. cológica orientadora das construções indeterminadas.
234 235

I.
, r
• -
- _.
-----
---..._--~--
.•... _- ....•
--, '-.

....
-_

--~---_._-_._._,
•••••• - __ o ••••• _ •••• __ ._. •• __ ._ •• __ ••• •

..
._. __ ••••

São orações sem sujeito - e tre 'i' "


menos da uture (ch ~ outrélS- as que denotam fenô--'
~rnol e as que?:m overbt,rovejOu ontem, anoitece tarde durante o ,;,1 Que desejam voc2s? Onde estão as crianças? Quanto custou o
'/ ~ os ve os haver fin~ , ,1
soalmente em constru - , -.,er, ser, empregados impes- >~ livro?
çoes como as segumtes: * ,:. :f ..
Hd grand~s poetas no Brasil. .:. , Como fugiu o ladra0? Quando chegará o navio? Porque foi em-
bora a empregada?
Fazia mUito frio naquele mês.
fez
(I
ontem !J"êsanos que ele se doutorou.
ra ao anOJtecer de um dia de novembro
ir} o,'
Intercalando-se a locução é que, deixa de prevalecer tal preferência:
Que É QUB voc2s desejam? Quando É QUB o navio chegará?
4Jerfam talvez duas horas da tarde. ... Do mesmo modo, quando a interrogação não começar pelos refe-
.HoJe stlo 22 de outubro. ridos pronomes ou advérbios, o comum é a colocação do sujeito antes
Note-se que a impessoaJid d d . '. do verbo, indicando-se o valor interrogativo apenas pela pronúncia as-
res que com eles formam p
Não podia havf>r
::r:
e taISverbos se estende aos auxiJia-
cendente: .
Seu filho passou no exame? O navio chegará- ainda hoje?
~, no t1ie~ ses! como
clas mais tristes.se vê nos exemplos abaixo'.
~Ostuma h~ver reuniões às terças-feiras. b) Nas orações da voz passiva, construfdas com a partícula se:
ai fazer CInco anos que você se casou. . Vendem-se carros usados. Não se aceitam reclamaçOes posterio-
res.
COLOCAÇÃO DO SUJEITO NA ORAÇÃO
c) Nas orações que contêm uma funna verbal do imperativo _ sem-
Considera-se ordem direta aquel . . pre que, para efeito de realce~for enunciado Q.pronomepessoal sujeito:
da oração, seguindo-se-lhe o verb a em que o sUJeJtovem no rosto Eu não cumprirei essas ordens absurdas; cumpre-as tu, se quiseres.
mentos, com o primeiro lugar entI; o;ompanhado dos seus comple- I

Exemplo: e es reseIVadopara o objeto direto. 1 d) Com os verbos dizer, perguntar, responder; etc., nas orações

.
A If ua
presença inspira cOnfiança aos jovens.
ngua POrtuguesa entretanto oli •
I que aparecem como elemento adicional em que se acrescenta a pessoa
que proferiu a oração anterior:
vunentos neste particul~r permiti' d erece grande liberdade de mo- Renunciarei ao cargo! disse o ministro.
ordem iI,versa. ' n o-nos, com freqíJência, adotar a - Que sabe a respeito do ponto sorteado? - perguntou o exa-
Há mesmo certas inversões .I .
minador.
ao verbo, já consagradas pelo 'u:~P:~~~oennatelddol~ujeito em relação Tais orações podem vir intercaladas:
a Inguagem culta. Mas isso - exclamou o sacerdote - é um sacrilégio!
INVERSÃO NORMAL .00 SUJEITO
e) Quando a oração se inicia por advérbio fortemente enfático:
Nas condições a seguir e d LÁ vão eles, lá vão...
maneira notória para a invneursma-
era ahos, a fndo!e do idioma inclina, de AQUI está o seu dinheiro!
" €) ver. + SUJeito:
a) Nas'orações interrogativa '" d Uma Inversão que requer cuidado
quando e porque: . s, 100Claas por que, Oflde,quanto, como,
É habitual, ainda que não sistemática, a inversão do sujeito a VER.
BOS como aparecer, chegar, correr, restar, surgir,
INTRANSITIVOS
. •• <? arrol~ento das COnstruões . ". etc. - o que pode levar o leitor a interpretar como objeto direto o
histÓrica portuguesa, cit., pp. 1~ a ~rpesSOaJS fOIfeito por Epillnio Dias, Sintaxe sujeito posposto. Convirá, então, lembrar-lhe que, ao analisar lima
~ 236 oração, a primeira coisa que se faz é examinar a natureza do veroo
(se ele é intransitivo, ou transitivo) e, logo ap6s, procurar o seu st,ljeito.
~~
t'll.t •••••••• f{\ •. ~ "
Exemplos:
Da natureza desse verbo é que decorrem os mais termos do predi-
Apareceu, enfIm, o conejo real. cado. Verbos há que são suficientes para, sozinhos, representar a noção
Chegaram boas no/Idas! predicativa. Chamam-se Intransitivos. .
Correm, ~ela cidade, os boatos mais contraditórios Exemplos:
~estam, amda, algwnas esperanças. . Neva. O soldado morreu. Todos fugiram .
"'r - ';~: surgiu o Ano Novo! - .\ Outros, ao contrário, requ~rem, para açab,:~'mtêçdclade.doipredi-.
cado, a presença de um ou mais termos quelbeS'compl~tein'a~com"
2. -O PREDICADO !.;, preensão. São os verbos transitivos. i'; ."
Exemplos: '.i" '.....

o predicado pode ser: A cc!ança encontrou) (o quê?) A criança acudiu. '1: "(aq~em1)
A CrIança comprou O professor aludiu (a quê?)
Nominal.
Verbal. A criança deu. ) (o quê?) (a q~em'»
.Verbo-nominal ou misto. Os alunos pedIram .
Em função do tipo de complemento que exigem para formar uma
PREDICADO NOMINAL expressão compreensiva, os verbos classificam-se, pois, em dois gran-
des grupos:
tiv~ ~r::;:n~:e)':dnal tem por núcleo um Mme (substantivo, adje- - Intransitivos: ou de predicação completa.
- Transitivos: ou de predicação incompleta.
Consideremos as seguintes frases:
Pedro é - doente PREDICADO VERBQ-NOMINAL ou MISfO
" está " O predicado verbo-nominal ou misto tem dois núéleos: um, expresso
" anda " por um verbo, intransitivo ou transitivo; outro, indicado por um nome,
" permanece " chamado, também, predicativo.
,'continua " A razão é que o predicado misto representa a fusão de um predicado
t, ficou " verbal com wn predicado nominal. Exprimindo wn fato, encernt a de-
" parece "
finição de um ser.
se ~: ~~~~~~: :~~::ÇãO feita relativamente ao sujeito Pedro contém- Cumpre distinguir dois casos:
1) O -predicativo se refere ao sujeito da oração:
Este adjetivo é na realidade d. d
t
teres de forma e p~siÇão receb~ o ~~e ca o; mas, pelos seus carac- O trem chegou atrasado, *
:~::v0nd'
.
ou, apenas _ predicatf:o. I~S a~:~~:
,a ar, pennallecer, colltinuar -fi
~~~l? :;:~:e
-
~~:-
~,
onde os elementos resultantes da decomposição seriam:
O trem chegou.
mdicativos dos diversos aspectos sob' car: parecer? sao elementos e
de doente em relação a P d Ch os quaIs se conSidera a condição (O trem estava) atrasado.
e ro. amam-se verbos de ligaçao.
.•."Nada mais claro nem mais conciso do Q,ucesses dizeres em que dois vocábulos
PREDICADO VERBAL valem, associados, por duas proposições distmtas. Partiu dotlllt resulta dos pensa-
mentos partiu e estava doente quando partiu. Da( O uso, em latim e outros idiomas,
O predicado verbal que exp . f: do caso nominativo para o anexo em tais frases. À análise do gramático ou lingüista
u)maação, tem por núcÍeo um ve~~~~:C~m~~~h~~a~~n~ea_
coimdeenotou'tr°U não compete, claro é, volver a essa operação psicológica nem decompor em muitas
e ementos. ' , os palavras o que a linguagem se limita a expressar em dois vocábulos ..• (Said Ali, Gra-
mática histórica da lfngua portugllesa, cit., p. 157 nota).
I

238 239
2) a
predicativo se refere ao obi t d'
indireto exprimindo às
.
~e o Ireto e, maIs. raramente, ao - Tais complementos têm recebido várias denominações: objeto 110-
predicado verbal: ' vezes, a conseqU2nda do fato indicado no minai (Maximino Maciel), adjunto restritivo (Alfredo Gomes), com-
plememo restritivo (Carlos G6is), complemento tenninativo (Eduardo
A Bahia elegeu Rui Barbosa senador, Carlos Pereira, Sousa Lima).

como que cruzamento das orações: Exemplos:


A invenção da Imprensa foi um grande acontecimento.
A Bahia elegeu Rui Barbosa. Sua resposta ao examinador provocou palmas.
e Foi transferida nossa viagem a SOo Paulo.
(Rui Barbosa ficou) senador. A sentença foi favorável ao réu.
Exemplo de predicativo do objeto indireto:
aSenado votou contrariamente d pe1Ulde morte.
Para facilitar-lhe a identificação, convém ter presentes as seguintes
Todos lhe chamavam ladra0!
regras práticas: .
a
pred!cat!vo ladra0 se refere ao objeto indireto lhe. 1) Tratando-se de adjetivo. ou advérbio, não há a menor dúvida:
O predicativo pode vir precedido de uma das . - . o termo que a eles se liga por preposição é,SEMPRE, complemento
para, por. da palavra como , ou de Iocuçao_ pr~I?OSIçoesde, em. nominal:
prepositiva.
a) Ofensivo tl honra, prejudicial tl saúde, útil tl coletividade, igual
Exemplos:
a mim; responsável pelo desastre; confiante no fUturo; desejoso de gló-
Ele graduou-se de doutor.
~avi foi ungido em rei. .
ria; tolerante com os amigós, etc. ,.
b) Independentemente de minha vontade; desfavoravelmente a nÓs;
odos o co.nsideravam como wn aventureiro. contrariamente aos nossos desejos, etc.
Sempre o tiveram por stiblo (ou na conta de stiblo).
2) Tratando-se, porém, de substantivo, é preciso cuidado para não
confundir o complemento nominal com o 'adjurlto adnominal', que,
TERMOS INTEGRANTES DA ORAÇÃO quando expresso por locução adjetiva, se apresenta com a mesma forma
daquele: preposição + substantivo.
Subordinados respectiva t • Comparem-se:
bal, dis~inguem-se na oraç~~~~:~ ~:c~e? sudbstantivo e .ao núcleo ver- copo de vinho. (adjunto) invasão da cidade (complemento)
complementos: p eles e termos IDtegrantes ou rosa com espinhos (adjunto) conversa com opa; (complemento)

- O complemento nominal. Como, pois, fazer a distinção?


- Os complementos verbais. A diferença consiste em que os substantivos do primeiro grupo (copo,
- O.agente da passiva. rosa) são ;mrans;tivos; ao passo que os do segundo (invasão, conversa)
admitem emprego como transitivos - o que somente pode acontecer:
a) Com o substantivo abstrato de açcJo, correspondente a verbo da
1. COMPLEMENTO NOMINAL mesma família que exija objeto (direto, ou indireto), ou complemento
circunstancial:
Complemellto nominal é o termo' . . . inversão da ordem (cf. inverter a ordem - ohjeto direto);
tiva do núcleo substantivo (e às v que dIDteg!a.a slgmficação transi-
obediência aos pais (cf. obedecer aos pais - ohjeto indireto);
quais, então, se equiparam ;0 sub~:~tiv~ ~~~~~~x~ ~~ ~~~~~b~~).os ida a Roma (cf. ir a Roma - complemento circunstancial).
240 .
b) Com o substantivo abstrato de quaiidade. derivado de adjetivo .2. COMPLEMENTOS VERBAIS
que possa usar-se transitivamente:
certeza d4 vitória (cf. certo da vitória); São os seguintes:
fidelidade aos amigos (cf. fiel aos amigos). Objeto direto
Objeto. indireto*
Observaçfo: Complemento relativo
Esta tentativa de sistematização didática pareee-mc satisfat6ria para orientar os es- Complemento circunstancial
tudantes.
Se bem que, do ponto de vista do ensino elementar, a distinção entre 'complemento
OBJETO DIRETO .. .., ..•.... ... '.. .... ;
nominal' c 'adjunto adnonúnal' se afigure algo perturbadora c, alt, 8u~rOua - o . .... 'vre 'resentl opa-
certo é que esteia em conceitos lingllísticos que D!o podem deixar de levar-se em conta Objeto direto é o comple~ento que, ~a voz ~tl a~ L .. P:: .....•. ,:i.;
numa descrição fiel da estrutura da frase.
O cerne da questão mergulha raízes no conceito (por excel!ncia complexo) de tran- 'lente da ação verbal. Identifica-se facl1me~te.. ... i ," .,i, • .•..

sitividade e intransitividade; e ainda se prende, em certa medida, ao problema (oAo C "t da voz passlva ..
menos complexo) de emprego concreto ou abstrato do substantivo.
a) porque pode ser dOsUJel3~. pessoa às forrn'aspronominais átonas
b) porque correspon e, na . ,
Ora, apenas substantivos abstratos de ação, relacionados a verbos transitivos ou
amarrados a complemento circunstancial por preposiçfo determinada, podem, por de- o, a, os, as.
fmiçfo, ser 'transitivos'; o mesmo passa com substantivos abstratos de qualidade, de- O objeto direto indica: . _ .
rivados de adjetivos transitivos. Desde que se concretizem, ou a açAo ou a qualidade a) o ser sobre o qual recaI a açao.
por: eles expressa D!o transborde p;ua um 'objeto' - lomar-se-ão intransitivos.
Eis por que, muita vez, ao mesmo ndcleo substantivo se junta variavelmente com- Castigar o filho.
plemento nominal ou adjunto adnominal, conforme o termo preposicionado represente, Louvar os bons.
ou não, o 'objeto' da açAo. Acrescente-se que esses casos à primeira vista ambrguo~ b) o resultado da ação:
ocorrem tão-s6 com a preposição de, em razão, porventura, de ser ela a mais vazia
das preposições. Construir uma casa.
Criar wn poema.
Cotejem-se os seguintes exemplos:
a) A invenção de palavras caracteriza O estilo de Guimarães Rosa.
c) o conteúdo da ação:
(Complemento nominal: 'palavras' é o objeto, a coisa inventada, o paciente da açAo Prever a nwrte do ditador.
contida no substantivo 'invençlo' - aqui usado, portanto, transitivamente). Discutir polltica.
b) A invençllo de Santos Dumonl abriu caminho à era interplanetária.
(Adjunto adnominal: 'Santos Dumont' não é o objeto da ação, o paciente, a coisa in-
ventada; e sim o seu agente. A ação expressa pelo substantivo não vai além dele - Objeto Direto Preposlcional . _
o que lhe dá o caráter de palavra. intransitiva).
Basta que o substantivo, ainda que abstrato de ação, venha empregado como con- Ordinariamente não élOfiobjetoe:~~ft~~~:~~a~~~r:~~:~~; a~~~
creto, para que desaceite complemento nominal. davia casos há em que e a gura .
Ponham-se lado a lado estas frases:
, ça se faz de ngor. . .
em que a sua presen á C objeto direto preposlClOlwl.
a) A plantação de cana enriqueceu, outrora, a economia do país. O complemento chamal.r-se-, : :~dema o emprego da prepo-
(Complemento nominal: 'plantação' tem, aqui, valor abstrato - a ação de plantar, É OBRIGATÓRIO, na mguage. ,
cujo objeto e 'cana').
b) Em poucas horas, o fogo destruiu toda a plantação de cana. sição:**
(Adjunto adnominal: já agora, 'plantação' é nome concreto, e, portanto, intransitivo).
b' eto indireto é 'complemento verbal' ,
De tudo decorre, por outro lado, que ao mesmo núcleo substantivo se possam su- '" Nem sempre (como adiante ve!cademos) o °.bal nominal ou verbo-nominal' -,
bordinar, ao mesmo tempo, adjuntos e complementos nominais - a exemplo de cons- mas sim 'termo integrante do predl o - ve, ,
truções como estas: independentemente da nature~, do verbo. Q lar amente desenvolvido em espanhol,
a) O amor de Jesus às criancinhas ... "'''' O objeto direto prepoSlcIgn~: e'o it~iano literário não o emp.regam. Ele
(Adjunto adnominal: 'de Jesus'; compl. nominal:. 'às criancinhas'). é também freqüente no galego. d' talão no sardo e em alguns dialetos pro-
b) A derrota de Napoleão em Waterloo ... apar~, ainda, ~e m~do. ~~a~~p' :~~fo ocorre no romeno, porém com a prepo-
(Ambos são complementos nominais: 'de Napoleão' e 'em Waterloo'). vençaiS e da Itália meo lO •
sição pe (latim per).
243
242
" , . - - --.-..- --.~-
1) Com as formas tô' d
"Júr Cé' n~cas os pronomes pessoais' "Cuando la sentencia < a 3~ pessoa do singular com se > toma el
10 sar conqUistou .
O mundo com fortaleza' carácter de impersonal, se coloca el verbo en el singular, y lo que es
Vós'a mim com gentileza, " (CAM- ) objeto de su acción va regido de )a preposición ti, verbi gratia: se atro-
"R b'- . . OES peUa ti los desvalidos; se detesta ti los malvados."*
u lao VIUem duas rosas vul
queceu a sala, a mulher e a si ,~a(:.: uma festa imperial, e es- Diz-se, pois, corretamente:
"Quem sabe se o destino mar' . ACHADODE ASSIS) Louva-se aos deuses.
ta?" (MONTEIROLOBATO) cara Justamente a ela como a elei- Adora-se aos (dolos.
2) Com o pronome qu
"() d' ,em, d e antecedente expresso' É FACULTATIVOo emprego da preposição:
'.. per I meu pai e s nh .
auES LoBO) e or a quem muito amava ... " (RODRI- 1) Com pronomes referentes a pessoas (ninguém, alguém, todos,
"Eu sou Daniel, aquele eremita a outro, etc):
daste em tua casa ... " (BERNAR~ES)quem tal ano, e dia hospe- "Diz Cristo universalmente, sem excluir a ningUém, que ninguém
3) ~om o nome Deus: pode servir a dous Senhores ... " (VIEIRA)
.Que muito fazes em louvar a Deus . "juro pela fé, que devo a Baldufno meu predecessor, que vos
ndade, quando em abundân ' ' quando Vives em prospe- hei de cozer vivo, em üa caldeira, como ele cozeu a outro, que
de alguém?" (BERNARDES)la, quando sem vexação nem injúria roubou üa viúva pobre." (BERNARDES)
"Só há uma cois á '
4) Quando se Coor a necess na: possuir a Deus." (RUI BARBOSA) •'A todos encanta
"(.,.) o reit r denam pronome átono e substantivo: Tua parvofce ... " (CAMÕES)
o o esperava e aos seus respeitáveis hóspedes... " A mesma arbitrariedade se nota com os pronomes de tratamento
"Foi a comadre do Rubião (HERCULANO) (V. Ex~, V. S~, etc.): . o

vendo-os passar defronte cÍaq~~~a~~s~lOu e mais ao cachorro, "( ... ) colocaram a V. Ex.a na desgraçada situação de desmentIr
5) Quando um verbo transitivo d' . .ACHADODE ASSIS) na sua carta a narrativa dos Atos dos Apóstolos." (HERCULANO)
panhado da partfcula se: Ireto se usa Impessoalmente, acom- "Eu já tive a honra de cumprimentar a V. Exfl ... " (CAMILO)
Aos pais ama-se com fiervor 2) Com nomes próprios ou comuns - para evitar a ambigüidade,
"Ev'. .
lta-se, aSSim, muitas vezes, a confu - , ou por fatores outros (não bem caracterizados) que se condicionam
um valor reflexivo, em vez do d s~o de ser atrIbufdo ao verbo
frase como seu ver adelro valor. Com efeito, uma ao sentimento de certas épocas ou de certos escritores.
. . A~m-se o~ pais com fervor a) por necessidade de clareza:
sIgOlficana, à pnmeira vista - "Dai-me igual canto aos feitos da famosa
tes ou seguintes, que: ' quando nao esclarecida pelas preceden- Gente vossa, que a Marte tanto ajuda ... " (CAMÕES)
_ Os pais se amam um ao outro ••A mãe aOpróprio filho não conheça." (CAMÕES)
e nao que:
"Vence o ma) ao remédio," (ANTÔNIOFERREIRA)
Os filhos os amam
ou "De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão
Eles sOo amados pelos filhos". * seguindo aos leOes na caça; para se sustentarem do que a eles
sobeja." (VIEIRA)
>li J. Matoso Câmara Jr El
F. Briguiet. 1938 p 175 o. ementas da IÚlgua pátria
• o • •
3- série Rio de J anelro.
o •
' >li Salvá, Granunatico,. apud Mo Said Ali, Dificuldades da lfllgllG portllgllcsa. 5~
edo. Rio de Janeiro, Acadêmica, 1957. po 980
244
245
.:';~~
"Tal havia que ao meu consertador julgava digno de um hábito ., "Tal é a construção" - anota Mário Barreto - "pontualmente ob-
de Cristo." (FRANCISCOMANUEL DE MELO) servada pelos nossos escritores-modelos. Valem-se de como par~ o re-
ferir ao nominativo, e dão-lhe a partrcula~se or~feremél~atl\,Q ou
"Rasteira grama exposta ao sol, à chuva,
acusativo." (Novfsslmos, 84; cf." também, Fl1'os; 18~:-18SJ."._
Lá murcha e pende:
Não perigando a clareza, pode ir o c~Ó1p~epte,p'lO'com,preposlça.o
Somente ao tronco que devassa os ares
ou sem ela. No seguinte trecho de Camllo:dlspe:"~o~~sf9:B'~~P;?IS
O raio ofende! " (GONÇALVESDIAS) do segundo como por não haver nenhumrlscode,':mn~91():~I;~:' j'
b) por fatores não bem caracterizados: " - Maridos dignos são unicamente aquélesqueélfag~rn,'co.mo
"Benza Deus aos teus cordeiros." (RODRIGUESLOBO) a filhas as mulheres; são aqueles que as mulhereseslren:lecem
"( ... ) o verdadeiro conselho é calar, e imitar a santo A.nt~nio."
como pais ... " .",:.' ,.. ;".:,',.
Ou não terá Camilo, que possu(a como PO?cOSOsenUD1e(Jtod~J!n~
(VIEIRA) gua, buscado a( uma leve matização de senudorao pôr,erncontraste
"Não culpo ao homem; para ele, a cousa mais importante do mo- as duas construções? ., .." ... . .
mento era o filho." (MACHADODE ASSIs) Com efeito, houve quem esta~lecesse sutil diferençaeptre frases
dos tipos "tratavam-no como pai" e "tra~vam-no como a pat'-'. N.a
"Apenas excetuo exfguo número, e pode ser que, unicamente, primeira, pai figuraria à guisa de um predicado, um modo de ser atn-
a Péric/es, teu tutor; porque tem cursado os filósofos. " (RUI BÁR- buído a o (no); assim se diria de alguma pessoa a quem se olhass~ com~
BOSA) se fora pai sem que de fato o fosse. Na segunda, ao contráno, pai
3) Com o pronome quem, sem antecedente: denotaria ~m 'ente' com"todas as qualidáiles de pai. *
"Não me tenha amor ninguém Os seguintes exemplos parece confirmarem a observação:_ .
Para oh:" q querer. "( ... ) e nós habituamo-nos a tê-la em conta de segunda mae. tam-
Que abOll'c'IiJ u quem me quer." (RODRIGUESLOBO) bém ela nos amava como filhos." (HERCULANO)
"Nos brutos para doutrina dos homens parece que imprimiu o "Não ando gente estes dias; porém nem por isso deixam os des-
Autor da Natureza particular instinto de amarem a quem os ama." gostos de me tratar muito como a gente." (FRANCISCOMANUEL
(BERNARDES) DE MELO)
4) Com nomes antecedidos de partfcula comparativa (como, que, 5) Quando o objeto direto precede o verb~: A "

do que): "aos ministros todos os adoram, mas mnguém os cre.


"É o que há poucos' meses a teus pés e de joelhos, este pobre (FRANCISCOMANUEL DE MELO)
velho, que te ama como afilho, te pediu em nome de Deus: perdãol ~'NãO façais caso disso, que a relógios do chão ninguém os es-
perdão!" (HERCULANO) cuta " (FRANCISCOMANUEL DE MELO)
"Isto causou estranheza e cuidados ao amorável Sarmento, que "( ) enfim, ainda ao pobre defunto o não comeu a terra, e já
prezava Calisto como a filho." (CAMILO) o tem comido toda a terra." (VIEIRA)
"Mas nada me entusiasma. 6) Quando a preposição se apresenta com valor de um verdadeiro
Olho-te como' a um jalltasma." (ALBERTODE OLIVEIRA) partitivo:
"Acusam-no de haver beneficiado mais a sua famOia que ao povo •••A observaçlo que tem mais de um século, t de Andrés Bello-Rufmo J. Cuervo,
romano." (CAMILO) (Gramática de la l;ngua castellana, Buenos Aires, Sopena Argen~, 1945, p. 373),
aceita e desenvolvida por Cnervo (D;cc;onar;o de construccion y rlg/men de la lengua
"Eu antes o queria que ao doutor ... " (CAMILO) 1 castellana. tomo I, A-B, Paris, 1886, vIa, p. 13).
i, 247
246
. j
"Ouvirás dQscomos. comerás do leite e partirás quando quise-
res." (RODRIGUESLOBO) . Coillplemento da oração
"Do pano mais velho usava. O objeto indireto pode figurar em qualquer tipo de predicado (ver-
Do plJo mais velho comia," (CEcfLIA MEIRELES) bal. nominal. verbo-nominal). perfilando-se. até. ao lado de verbos
7) Em certas construções idiomáticas: in ansitivos e de verbos na voz passiva. Situa-se. portanto. menos como
cumprir o dever, ou cumprir com o dever; um complemento do verbo (de cujo regime, na maioria das vezes, in-
puxar a/aca, ou puxar da/aca. - depende) do que como um complemento da oraçl1o -, da qual é. aliás,
facilmente dispensável em muitas situações.
"Arrancam das espadas de aço fino
Morfologicamente, caracteriza-se por vir encabeçado pela preposição
Os que por bom tal feito ali apregoam." (CAMÔES)
a (às vezes, para) e corresponder, na terceira pessoa. às formas pro-
Objeto Direto Interno nominais átonas lhe, IhéS.
Verbos intransitivos podem trazer complemento representado por Sintaticamente. desaceita - sálvo exceções rarfssimas - passagem
substantivo do mesmo radical. contanto que este venha acompanhado para a função de sujeito na voz passiva. E por implicar o traço + PES-
de adjunto: SOA, não lhe é possível. evidentemente. apresentar-se sob a forma de
morrer morte gloriosa oração subordinada. (Ver p. 263) .
dançar danças malditas Eis os esquemas de construção em que se integra (ou pode integ~ar-
sonhar sonhos ruins se) esse termo oracional:
••'" morrerás morte vil da mão de um forte." (GoNÇALVESDIAS) 1) Dar esmola a um me1ldigo. (Dar-lhe esmola)
. Escrever a um al1Úgo. (Escrever-Ihê)
Igualmente ocorre em outras línguas: Mandei flores para a 1loiva. (Mandei-lhe flores)
Beatam vitam vivere (latim) 2) Beijar o anel ao cardeal. (Beijar-lhe o anel)
Viver uma vida feliz 3) Ter respeito aos mais velhos. (Ter-lhes respeito)
Morir una santa muerte (espanhol) Sílvia servia de olhos ao marido. (Servia-lhe de olhos)
Morrer morte santa
Madre Calcutá foi mãe a muitos desgraçados. (Foi-lhes mãe)
Estes complementos se chamam objetos diretos imemos e. também, Ouvi essa história aos meus avós. (Ouvi-lhes essa hist6ria)
às vezes. são expressos por palavras que. não sendo co-radicais dos 4) O ancião fez saber aos herdeiros a sua última vontade. (Fez-lhes
saber)
verbos respectivos. pertencem. todavia. ao mesmo grupo de idéias:
Donnir um sono tranqüilo. 5) A prova pareceu difícil aos esiudames. (Pareceu-lhes difícil)
Chorar lágrimas de sangue. Dói a um pai a ingratidão dos filhos. (Dói-lhe a ingratidão ... )
6) Obedecer aos superiores. (Obedecer-lhes)
Querer às cria1lças. (Querer-lhes)
OBJETO INDmETO 7) O documento foi entregue ao mi1listro por mim. (Foi-lhe entregue)

O objeto indireto represen -;0. SER ANIMADO* que se dirige ou


destina a ação ou estado que o xpressa.
São estes os casos incontroversos
.
de objeto indireto:
I) Serve de complemento a verbos acompanha90s de objeto direto,
representando o elemento onde termina a ação. E o caso comum dos
..•• Quando subst~tivos referent~ a 'coisas' (lato smsu) se usam como objeto in-
direto, devem conslde~ar-se - ensina Hayward Keniston - como se fossem capazes chamados verbos bitrallsitivos. como dar, oferecer, emregar, doar,
de receber tratamento Igual ao de pessoas (cf. 1he sy/lfax o/ casti[ian prose: lhe sÍJC- "dedicar, negar, recusar, dizer, pergumar, comar, narrar, pedir, ro-
temth ce/llury. Chicago, University of Chicago, 1937, p: 8). Antonio Tovar Gra- gar, pagar, dever, etc. Eni suma: os verbos 'dandi', 'dicendi', 'ro-
mática histórica latina: siruaxis, Madri, Espasa-Calpe, 1946, p. 45. '
gandi', seus correlatos e reversos.

~. (:..... 248. _ .
Exemplo: Exemplos:
"Iracema, depois que ofereceu aos chefes o licor de Tupã, saiu "Este a mais nobres faz fazer vilezas ... " (CAMÕES)
do bosque." (José DE ALENCAR) "Assim é (disse Solino) que até 6culos, que se inventaram para
2) Junta-se à unidade formada de verbo + objeto direto, indicando remediar defeitos da natureza, vi eu já trazer a algullS por galan-
o possuidor de alguma coisa. taria." (RODRIGUESLOBO)
Exemplos: "Três cousas acho que fazem
"( ... ) mandou cortar a cabeça a Ado!1f(!.J" (VIEIRA) ao doudo ser sandeu ... " (GIL VICENTE)
"Ouço ~ grito: o Dr. Soero acabou de extrair um dente a uma
senhora." (ANIBAL A. MACHADO) 5) Liga-se a verbos intransitivos unipessoais, designando a pessoa
em quem se manifesta a ação. . .
"Beijou a mão a el-rel e saiu." (HERCULANO) Exemplos:! ..... , •.
3) Acompanha certos co!'' \ "){''':HJOS constituídos de verbo + ob-
"Pareceu a e/-rei e aos seus que lhes acudla o Céu com socor-
jeto direto, dos quais depel1l.i~;" ;"
ro." (FREI LuIs DE SOUSA)
Tais conglomerados, que em latim regiam dativo, equivalem muitas
vezes a verbos simples: "Capitu propôs metê-lo em um colégio, donde s6 viesse aos sá-
bados; custou muito ao meTlinoaceitar esta situação." (MACHADO
ter medo a (= temer), ter anior a (= amar), fazer guerra .a
(= guerrear), p~r freio a (= refrear), etc. . DE ASSIS)
Exemplo: 6) Une-se a alguns verbos pessoais (de regências variadas), quando
J> . "Não tenho medo lo<" i<Jlmento." (CAMÕES) empregados em determinado sentido. Estão no caso, por exemplo:
;\inda se podem incluir neste grupo conglomerados do tipo dos se- . querer (com o sentido de amar, estimar)
gumtes: . valer (com o sentido de socorrer) ..
servir + (lhe) + de + predicativo;
ser + (lhe) + predicativo; Ainda ou~os há cuja regência tem :ariado através dos séculos .•co~o
ouvir algo a algufm; obedecer, resistir e agradar, que hOJe s6 se empregam com oOjet? I.n-
merecer algo a a/gufm. direto mas possuíam dupla sintaxe (obedecer-lhe e obedeâ-Io, reS1Stlr-
Exemplos: lhe e ;eslsti-Io, agradar-lhe e agradtl-lo) na linguagem dos séculos XVI
"( ... ) servi de olhos a um cego." (FREI Luis DE SOUSA) e XVII.
"sê mãe, conforto, providência, filha Nota: . . fi .
Verbos como gostar de, depQ1der de, precisar dI!. carecer de, tembra;.se ~e,. 18,r
ao velho 11U1nlrque não tem ventura." (TOMÁS RIBEIRO) de, COllsentir em, assistir a (lima ftsta), proce~er a, e!c., não têm ~bJeto UldHctO.
"os cantares que ouvira aos bisavós incultos O complemento deles, que será estudado a segtur, se fllla ora no ablativo, ora no ge-
nitivo, e se denODÚnacomplemellJo relativo.
torne-os a ouvir de n6s ... " (CASTILHO)
4) Figura num tipo especial de construção, na qual os verbosfazer,
deixar, mandar, ouvir e ver se combinam a infinitivo acompanhado COMPLEMENTO RELATIVO
de objeto direto, ou a verbo de ligação seguido de predicativo. * Complemellto relativo" é o complemento que, Iigad? ao verbo por
uma preposição determinada (a, com, de, em, et~.),. Jnte~ra, co~n(]
, rata-se da controv7rtida es~tura 'faire [aire quelfIue cMse tl quolqu 'Wl', em valor de objeto direto, a predicação de um verbo de slgmficaçao relativa.
exegese se têm afadigado militas mestres da filologIa românica.
,'J .• .
'. Notícia das várias ~eoriasexistentes em tomo dessa construção pode ter-se nas se-
gwntes fontes: Romatua, n!' 42, 1913, p. 629; Estlldos de lingiUstica românica 110 Eu- *A denomiitação .complemen~o relativo' inspira-se n~ generali.~ção do conceito
ropa e lIa.Amé"!ca desde 1939 a 1948 (suplemento bibliográfico da Revista portuguesa de régime relatif, propOsto por Meyer Lübke para regênCIaSrrontetnças dessa nossa.
defilolog,a, COImbra, 1951, p. 24); Juan Bastardas Parera, Particularidades sillJácticas (Grammaire des Íangues romolles, traduçAofrancesa, 2~ 00., 3 vols., Viena, Stcchert,
dei latú, medieval, Barcelona, 1953, p. 173. 1923, vaI. 3, p. 349.

250 251
Distingue-se niti,damente do objeto indireto pelas seguintes cir-
cunstâncias: Este complemento pode construir-se, também; sem preposição:
a) Não representa a pessoa ou coisa a que se destina a ação, ou em A guerra durou cem anos.
cujo proveito ou prejufzo ela se realiza. Antes denota, como o objeto Distar muitos qui/~metros.
direto, o ser sobre o qual recai a ação. É expresso:
b) Não corresponde, na 3~ pessoa, às formas pronominais átonas a) Por um nome regido das preposições a ou para, indicativas de
lhe, lhes, mas às formas tônicas ele, ela, eles, elas, precedidas de pre- direçao:
posição:
Ir a Roma.
assistir a um baile - assistir a ele Nota:
depender de despacho - depender dele É o acusativo de direção do latim: Ronrom projicisci (ir a Roma); Lesbum se COI'-
precisar de conselhos - precisar deles ferre (trasladar-se para LesOOs):
anuir a uma proposta - anuir a ela
gostar de uvas. - gostar delas b) Por um nome sem preposição, ou com ela, que exprima tempo,
ocasiao:
reparar nos outros - reparar neles.
Viver muitos anos.
Trabalhar toda a vida.
COMPLEMENTO CIRCUNSTANCIAL "E o meu suplfcio durará por meses," (HERCULANO)
Nota: '
É um complemento de 'natureza adverbial - tão indispensável à cons- É O acusativo de tempo do latim: Triginla annos mil (viveu trinta alias).
trução do verbo quanto, em outros casos, os demais complementos
verbais. .t
C) Por um nome sem preposição, que indique peso; preço; distância
Se compararmos frases como: no espaço e no tempo:
Pesar dois quilos.
Irei a Roma e Jantarei em Roma-, Valer uma fonuno.
verificaremos que, na 'segunda, o liame entre a preposição e o subs- Custar mil cruzeiros.
tantivo se nos mostra muito mais fntimo do que na primeira, onde, Recuar três léguas.
pelo contrário, a preposição como que forma bloco com o verbo. * Te- Envelhecer vinte anos.
mos, aí, com efeito, dois sintagmas: Nota:
Este último é o acusativo de espaço do latim: Ager latus pedes trecentos (um campo
com a largura de 300 pis: ou com 300 pis de largura).
Irei a [Roma] e l Jantarei [ em Roma. J
Por seu valor de verbo de direção, ir exige, por assim dizer, a pre- 3. AGENTE DA PASSIVA
posição a para ligá-lo ao termo locativo.
Outros exemplos: É O complemento que, na voz passiva com auxiliar (também cha-
Morar em Paquetá. mada voz passiva analftica), representa o ser que praticou a ação verbal.
Estar d janela. Exemplo:
Ter alguém ao colo. Nossa casa foi construída por este engenheiro.
Sendo este complemento o verdadeiro agente, ou seja, aquele que
.••Cf. 1954,
C. de 8oer, exerce a ação, podemos transformar a construção passiva em ativa,
Leiden, p. 31. SYlltaxe du/rallçais modeme, 2~ ed., Leiden , UlÚversitaire pers e, neste caso, ele figurará como sujeito:
Este engenheiro construiu nossa casa.
.\-\\\\\~\,.~\" ••• \ .\ •••• '•••.•••• '•• I •• I_~.,~~.
o agente pode declinar de importância a ponto de ser omitido: j.. A um só e mesmo núcleo substantivo é licito sobordinar, ao mesmo
Nossa casa foi construída há muitos anos. . tempo, adjuntos adnominais em formas variadas.
(Por quem? Ntlo sei, ou ntlo interessa dizer.) I
Exemp os: .
Introduz-se o agente da passiva pela preposição por e, às vezes, de: Viúva rica e sem filhos.
Os cartagineses foram vencidos pelos romanos. Meu bom amigo de infdncia.
Nosso chefe era muito estimado de superiores e subalternos. Um varão piedoso e de invulgar saber; .
"O quarto foi invadido de gente, repórteres, fotógrafos."
(FERNANDOSABINO)
2. APOSTO
: ';,,~
..r.:....-::~~i.}:;~d:~:...';. <}.:'"

Um substantivo (ou pronome) pode-se fazer acompa~arirhediata-


mente de outro termo de caráter nominal, a Utulo de:ihdividualiiáção
TERMOS ACESSÓRIOS DA ORAÇÃO
ou esclarecimento. ' . ,. -,'
Exemplos:
Além dos termos integrantes que acabamos de estudar, podem fi- Durante sete anos, Jacó serviu Labão, pai de Raquel.
gurar na oração outros elementos, tais como: Hermes Fontes, grande poeta brasileiro, estreou comum for-
Adjunto adnominal moso livro: Apoteoses.
Eu, Brds Cubas, escrevi este romance com a pena da gaUlOfa
Aposto
Adjunto adverbial e a tinta da melancolia.
É importante acentuar que o substantivo fundamental e o aposto que
se lhe junta designam sempre o mesmo ser.
1. ADJUNTO ADNOMINAL Geralmente, entre um e outro desses termos há ligeira pausa, as-
Ao núcleo substantivo, qualquer que seja a função deste, pode jun- sinalada na escrita por vírgula.
tar-se um termo de VALORADJETIVO,para acrescentar-lhe um dado Mas há um tipo de aposto em que não se usa vírgula: aquele com
novo à significação. o qual se dá a denominaçOo do ser, individualizando-o dentro do seu
O adjunto adnominal é expresso por: gênero.

a) Adjetivo: Exemplo:
Lar feliz. O padre Anchieta foi o primeiro professor do Brasil.;~
Verdes mares bravios. Do mesmo modo:
bj Locução adjetiva: O poeta Olavo Bilac . O romance Dom Casmurro .
Cavalo de raça. A lagoa Rodrigo de Freitas .
O marechal Rondon .
Rosa sem espinhos. O rio Tejo ...
O maestro Carlos Gomes...
c) Artigo (definido, ou indefinido):
O professor.
Um professor; • A Grammaire Laro/lSSe dll XX~ si~cle (Paris, LarOllSse, 1950, p. 71) c Mallricc
d) Pronome adjetivo, ou numeral adjetivo: Grevisse, Le bom usage (7~ ed., Paris, Gembloux, J. DlIclIlot/Palll GCllthncr, 1959,
Minhas filhas. Aquele dicionário. Algumas palavras. Pessoas cujos p. 153), ensinam que, em construções que tais, o aposto vem alllecipaJo. Dc t.1I sorte
que, em maC'lre Corbeau, le maréchal Foch, le phi/osophe P/atoll, os substantiv(l<
exemplos devemos seguir. Que profissão desejas abraçar? apostos seriam, respectivamente, maitre, maréchal e r ":"'.wphe.
Dois irmãos. Terceiro lugar. Não entendemos assim; todavia, aí fica a informaçãu.

254 255
Neste último caso, pode o aposto prender-se ao fundamental pela
preposição de:*
*
Mencione-se, por fim, aquele tipo de aposto que se refere ao sen-
tido global de uma oração:
A cidade de Londres ... O nome de Maria .
A serra da Mantiqueira ... O mês de março . . Suas palavras foram muito injustas, fato que me desgostou pro-
fundamente. .
Também especialmente digno de nota é o aposto de que nos ser- Os alunos estavam reunidos no pátio, o que facilitou a chamada.
vimos para fazer uma enumeraçt1o. Assim:
O império romano possuía numerosas províncias: HispOnia, Gá-
lia, Itália, Dácia, etc. 3. ADJUNTO ADVERBIAL
Várias Ifnguas - franc~s, italiano, alemi10 e rético - Se falam
na S~(ça. É o termo que acompan]Ia o verbo, exprimindo as particularidades
Eis três mulheres bíblicas: Sara, Rebeca e Lia. que cercam ou precisam o fato por este indicado;.

Neste último exemplo, os apostos Sara, Rebeca e Lia representam . É expresso:


como que desdobramentos do núcleo - mulheres.
a) Por um advérbio:
Entre o fundamental e o aposto aparece, às vezes, uma das locuções Visito-o diarlamelUe.
explicativas isto é, a saber, por exemplo, e outras de igual teor: Cometeu o crime premeditadamente.
Perderam todos os bens, a saber: dois apartamentos, uma fazenda O navio passou longe.
e um autom6vel.
Dar-Ihe-ei o livro amanha.
Casos há em que o aposto, expresso por um dos pronomes indefi- Outrora, éramos felizes.
nidos tudo, nada, algo, alguém, ninguém, outrem, quem? ou, ainda,
b) Por uma expressão adverbial:
por o mais, o restallle, etc. - sintetiza vários substantivos ou prono-
mes fundamentais: Partiremos de madrugada.
Lerei seu romance na próxima semana.
As cidades, os campos, os vales, os montes, tudo era mar.
Os colegas de trabalho, os velhos amigos de infância e até os A classificação do adjunto adverbial, mormente quando constituído
parentes mais chegados, ninguém lhe trouxe uma palavra de con- por expressão adverbial (preposição + substantivo), nem sempr: se
forto. alcança fazer com facilidade. E isto porque ela depende das relaçoes,
Filhos, netos, bisnetos, quem o socorrerá na velhice? muita vez sutis, estabelecidas pela preposição introdut6ria.
Sobrevivente do naufrágio, ele conseguiu salvar algum dinheiro; Como sabemos, uma s6 preposição pode estabelecer diferentes re-
porémj6ias, roupas, docpmentos, o mais submergiu com o navio. lações, como é o caso, por exemplo, da preposição de (o que concorre
Obsen'ação:
para dificultar a interpretação):
Se a ordem dos tennos da oração fosse esta: •...porém o mais - jóias, roupas,
os três substantivos passariam a funcionar
doclOlIt:l/tos - submergiu com o navio .• -.
~omo apostos a '0 mais' que, então, seria o sujeito. O mesmo cabe dizer a respeito '" Minuciosa classificação dos vários tipos de aposto pode ler-se em José Oiticica,
dos outros exemplos acima citados. ob. cit., p. 241. .
Sobre casos como Colégio Pedro 11, Teatro Carlos Gomes, ma Gonçuh'e.f D,a.f,
etc., que outrora se diziam, v~maculamente,. Colégio de Pedro li, Teatro de Carlos
... Gomes' rua de Gonçalves D,as, tendo haVido, portanto, mudança de construção,
>fiRepare-se em que, na construção' A cidade de Londres', os dois tennos (cidade f

e LOlldres) se identificam, pois que ambos designam o mesmo ser. Não se confunda, I consu1t~-se especialmente a Mário Barreto, De gramárica e de linglUlgem, 2 vols.,
I Rio de Janeiro, O Norte, 1922, vol. 2, pp. 180 e 221. Acreditamos que. para essa
portanto, com estruturas do tipo de .A neblina de Londres', .A população de Lon-
drcs' • etc., em que de Lolldres tem valor adjetivo, funcionando como adjunto adnominal. evolução tenha concorrido mais a analogia (confusão de construções) do que a cos-
tmneiramente alegada influencia francesa.

257
• o OBJETO DA SINTAXE
José Carlos Azeredo

A comunicação por meio da linguagem verbal (falada ou escrita) consiste na associação entre dois planos estruturais:
a expressão - formada por segmentos sonoros ou gráficos - e o conteúdo ou significado. No ato mesmo da comunicação,
um indivíduo produz frases - segmentos de extensão variável que, apoiados ou não numa situação específica e/ou num
contexto discursivo, funcionam como unidades de sentido. Os segmentos (1) Cuidado e (2) Afastem-se que a pedra vai rolar
são frases, sendo que (1) se apóia numa situação específica. Assim também são frases as duas formas possíveis de uma
resposta à pergunta Por onde os peixes respiram?, a saber, (3) Pelas guelras e (4) Os peixes respiram pelas guelras,
sendo que (3) se apóia num contexto discursivo.

A eficiência da comunicação verbal depende da possibilidade de construirfldentificar e relacionar entre si esses


segmentos no interior do texto. Por ora, interessam-nos as unidades que compõem esses segmentos e as espécies de
relações travas entre elas.

Em (2), assim como em (1), temos frases porque ambas são unidades de sentido e de comunicação. Todavia, (1) é
uma frase unitária, enquanto (2 )consiste em varias unidades concatenadas segundo certos princípios. A noção de unidade,
nesses casos, decorre da associabilidade entre certos segmentos do plano da expressão e certos significados do plano do
conteúdo. Afastem-se, por exemplo, inclui vários significados: ordem, representado pela entoação; movimento, representado
por afasto; ouvinte e plural, expressos pelo (e)m, e reflexibilidade, manifesto no se. Os falantes de português procedem a
essas associações porque cada um desses elementos conserva se valor noutras combinações - noutras palavras, eles são
regulares, manifestam um sistema subjacente - e porque esses elementos se acham distribuídos numa dada ordem que não é
exclusiva desta construção. O valor das unidades que se combinam para construir segmentos maiores. Neste sentido,
escolhemos afast- - num conjunto (paradigma) que reúne afasto, abaixo, aproxim- e todas as unidades que possam figurar
naquela posição; (e)m num conjunto (paradigma) que reúne -a, -IZJ, -(elmos, -ai, (e)m,e se num conjunto (paradigma que
reúne me, te, se nos, vos). Os princípios que regulam a combinação (sintagma) determinam aquela ordem, ou uma variante
Se afastem, em vez de emafastse, seemafast, emseafast.

As frases são classificáveis segundo sua estrutura interna; as que se constroem em toro de um verbo se chamam
orações. É destas que se ocupa o nosso trabalho.

A oração é o objeto da sintaxe, assim como a palavra é o objeto da morfologia. Uma e outra se deixam às vezes
analisar em constituintes significativos menores que se combinam segundo certos princípios. Ao contrário da palavra, que tem
uma estrutura interna fixa, a oração tem uma estrutura interna móvel. Letreiros, por exemplo, é uma construção morfológica
porque leit-, -eiro e -s (a) ocupam necessariamente essas posições, (b) não se deixam separar pela intercalação de outra
unidade, (c) não sofrem qualquer efeito das relações anafóricas, como a elipse e a substituição. Por outro lado, um segmento
como Clara voltou da festa é uma construção sintática porque se pode dizer Da festa voltou Clara, ao contrário do previsto
em (a), Clara voltou da festa, ao contrário do previsto em (b), A festa de que Clara voltou ... Virgília voltou do cinema e
Clara da festa, ao contrário previsto em (c).

Tendo por unidade máxima a oração, a Sintaxe estuda, portanto, os meios pelos quais se indicam as relações entre
os constituintes das construções de estrutura interna móvel.

Constituintes da Oração

A oração foi conceituada no item anterior como a estrutura organizada em torno de um verbo. Embora provisória, esta
definição confere estatuto de oração aos exemplos 1-4 e o nega aos exemplos 5-8, abaixo:

(1) A chuva destruiu as obras. (5) Cuidado.


(2) Anoiteceu. (6) Hotel Nacional.
(3) Todos os homens são mortais~ (7) Sim.
(4) O prazo expirou. (8) O avião procedente de Nova Iorque.

Sendo assim, só o verbo é essencial à existência de uma oração. Os outros constituintes se ligam de algum modo a.
ele, e em torno dele compõem a oração. A natureza dessa relação se manifesta na função - conjunto de propriedades
sintáticas - de cada constituinte. Na oração (1), acima, por exemplo, os constituintes a chuva e as obras se relacionam de
modo diverso com destruiu. O primeiro se caracteriza pelas seguintes propriedades sintáticas: (a) identifica-se em número e
pessoa com o verbo, (b) é substituível por um pronome em forma nominativa - ela -, (c) toma parte numa construção
preposicionada por + a chuva - quando a oração é convertida à voz passiva. Por seu tumo, as obras apresenta as seguintes
propriedades sintáticas: (a) é alheio à caracterização número-pessoal do verbo, (b) substituível por pronome em forma
acusativa - as - (c) adquire, convertida a oração à voz passiva, identificação número-pessoal com o verbo.
A função de cada constituinte exprime, basicamente, o tipo de relação que este tem com a construção de que faz
parte. Esta relação pode ser de três tipos: (a) o constituinte é um elemento essencial à existência da construção, (b) o
constituinte é um elemento exigido pelo membro essencial à existência da cosntrucao, (c) o constituinte é um elemento
dispensável à construção.

Se compararmos, no nível da oração, as frases (2) e (9)


(9) Anoiteceu cedo
concluiremos que cedo pertence à categoria (c) e anoiteceu à categoria (a). Por outro lado, em orações como (1),
nota-se, em face da possibilidade de (10)
(10) Chuva destruiu obras
- forma típica das manchetes - que a e as pertencem à categoria (c), enquanto chuva e obras pertencem à categoria
(b), de vez que destruiu obras, chuva destruiu, ou simplesmente destruiu, não podem, fora de um contexto discursivo,
construir, por si sós, orações.

À luz desses dados, diríamos que destruiu é essencial à existência da oração, mas não, ao contrário de anoiteceu,
suficiente.

Oração e informação

A oração é tradicionalmente considerada uma estrutura de duas p~rtes - sujeito e predicado - às quais se atribuem
papeis complementares na expressão das ideias.

Segundo o modelo clássico. a oração atualiza linguisticamente a organização do raciocínio, que consistiria em eleger
um tema ou tópico da comunicação e dizer algo a seu respeito. Sapir supunha que essa operação correspondesse a uma
necessidade natural do homem no processo de entendimento/expressão, tanto que escreveu: "Deve-se haver alguma coisa
que sirva de tema a algo a ser dito a respeito desse tema". O tipo corrente é o de frases com o verbo ser: A baleia é um
mamífero, em que a baleia é o tema e é um mamífero, o comentário.

A frequente coincidência entre o tema da comunicação e o sujeito gramatical, por um lado, e, por outro, o comentário
e o predicado, induziu os gramáticos a identificá-los e a adotar como definição destas categorias gramaticais o que seria
sempre válido apenas para aquelas categorias do raciocínio. Com efeito, na frase Os doces de abóbora ninguém comeu, o
tema é os doces de abóbora e ninguém comeu, o comentário.

Este exemplo seria suficiente para mostrar a inadequação das definições que fazem dependerem os conceitos de
sujeito e predicado das categorias do raciocínio. Além disso, não importa à descrição gramatical se dizermos Trovejou, este.
fato constitui qualquer comentário a respeito de qualquer tema. O esquema geral que se supõe fundamentar o raciocínio não
se impõe à organização gramatical das frases, mesmo porque as línguas não são unicamente. nem talvez essencialmente,
meio de raciocínio. Boa parte dos enunciados que proferimos no discurso espontâneo se resume num constituinte, que pode
ser uma palavra, isto é, "Alô", "Antônio", "Novamente?" - ou uma construção maior, isto é: "Pois não", "Boa ideia". Se
nos exemplos "Novamente?", "Boa ideia" se podem entrever formulas de apreciação ou comentário a um fato não codificado
no discurso mas presente na situação, o mesmo não se dirá dos restantes. E. ainda assim, os termos a que aqueles
comentários servem de predicado são variáveis segundo a interpretação que se faça da situação - para "Boa ideia",
poderíamos recriar contextos como "Isto é uma ...", "Você teve uma ..." - razão por que estão além do alcance da análise
gramatical.

Em vista de tudo isso, acreditamos que seja mais apropriado caracterizar os constituintes da oração segundo a classe
sintática do seu eixo, o verbo. Com isto dizemos que a oração consistirá ora no eixo isolado - Trovejou - ora no eixo mais os
constituintes exigidos por sua classe sintática. Se o verbo de uma oração pertence a outra classe sintática, como consertar,
empregado em sentido ativo, teremos outros dois constituintes que se ligam imediatamente à oração, já que ambos são
obrigatórios nesse nível. Sujeito e Objeto são funções que certos constituintes exercem relativamente à oração e que se
definem pelo conjunto de propriedades sintáticas de cada um (v. item anterior). Nenhuma hierarquia parece haver entre eles;
pelo menos nada indica que esses constituintes têm de ser dispostos hierarquicamente.

1
A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

Mary A. Kalo*
Carlos Mlolo**

1. Introdução

o estudo das relações gramaticais envolve tradicionalmente ~~e


sUJeit'!.-(pr~dicadb, ou ainda de sujeito, de verbo e complemento e de adjunto.
AlêÍÍÍ.-dek~~pre foi considerado objeto da sintaxe o estudo da ordem
desses constituintes. Lembremos que, nesse sentido, os universais sintáticos
de Greenberg (1963) eram generalizações indutivas sobre a correlação entre a
ordem dos constituintes maiores e dos menores nas línguas naturais. Por exem-
plo~,um dos universais greenbergian~a língua com a ordem
@o-objE9 teria também a orden(prei)Qsição-nom~

(v IA-)
Neste livro, vamos abordar as noções funcionais e a ordem sentencial pres-
supondo que ambos são derivados de conceitos estruturais mais primitivos.

C- ~b?J~P0,J:,;v~ Contudo, os termos tradicionais continuarão a ser usados como rótulos faci-
litadores.
-r
Neste capítulo introdutório, fazemos um breve histórico dos conceitos gra-
GJ
C maticais e mostramos as inovações e os refinamentos elaborados pelos gerati-
tv~
D;\/)4 vistas a partir dessa herança. Procedendo assim, pretendemos fornecer suporte
~').vl"1",'--t" I conceitual aos outros capítulos que compÇíem este livro.

I
* Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. nR 303.274/2005-0).
** Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq (Proc. nR 300.557/2005-1).

23
Ii
MARY A. KATO • CARLOS MIOTO
• A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
••
2. As noções que herdamos dos gregos categorias gramaticais de~o e moc!9.lAdvérbios e preposições parecem
até hoje constituir classes mistas, contenJ~6aãssesrêx1cais e subclasses
Os conceitos de Jsujeito e de predic~ são tão antigos quanto o próprio gramaticais. Assim, enquanto os advérbios e.JE.:-~eapresentam a mesma
conceito de gramática e remontam, no Ocidente, a istóteles. Tais conceitos ~dade de adjetivos, outros, como ~~-ªo, exibem características
L--
nao são, no início, independentes dos conceitos das classes gramaticais nome, típicas de classes gramaticais, isto é, a propriedade de não admitirem ino-
abreviado nas representações como (N), e verbo (V), os quais são definidos em vações lexicais.
termos de suas funções lógicas de constituírem uma sentença (S) ou um juízo de Temos, assim, as seguintes subclasses:
verdade-falsidade. Isso explica por que, para Aristóteles, o Adjetivo (A) também
(2) Categorias
é considerado verbo.
~
(1) S (= juízo) Lexicais (abertas) Funcionais (fechadas)
N T
~
V G
Sujeito = N VIA = Predicado
A Caso
Essas categorias substantivas, nome e verbo, foram concebidas indepen- Número
dentemente também por Platão, na Grécia, e por Panini, na índia, ambos no Pessoa
) Pron
sécul9 V a.c. É também co Arist~ue temos a descoberta de ~gorias
~, como tempo ( e ,~~ (~, as primeiras estritamente gra- Modo
maticais na história da gramanca, e, ai~percategoria@ju~, que Adv Adv
englobava todas as demais categorias. Outros termos usados para distinguir essas Prep Prep
duas sub classes são: para as categorias [+substantivas], classes lexicais, classes
abertas; para as categorias [-substantivas], classes funcionais ou gramaticais,
classes fechadas. 3. A contribuição estruturalista: o sintagma e a arquitetura
Enquanto orverDõ~ol eram vistos como uma mesma classe por dos constituintes imediatos
~óteles e~~s~a !unção predica~a, por sua o;e~,
vez, descobrem o artigo (Art) e agrupam este e o adjetivo como subcatego- Se os gregos levaram séculos para desco~!as~ramaticais vistas
--~--- ~
rias nominais, o que nos leva a supor que o agrupamento foi motivado pelas acima, foi s6 comE estrutur~sm3que(ÇâtegOrias intermedi~ entre a pala-
similaridades morfológicas de gênero~, este último também descoberto vra e a sentença foram desco ertas. ~través de equivalências distribucionais,
pelos~s. É com eles, ainda, que temos a análise ~redi~.adoS-e~b:'" linguistas estruturalistas estabelecem as coinbinações de palavras (sintagmas)
"~nstituintes~ classificação dos~trii:iiili.lvos e intran~ e das que equivalem, em contexto sintático, às palavras simples:
..sentenças em...3.~~~
<:r.assivasJAs categorias parecem definir-se formalmente
trã"ésaerua morfologia. (3) Categoria Sintagma Símbolo
Finalmente, dos séculos IVa.C. a 11 d.c.,~exananIíõSpassam a con- N Sintagma Nominal SN
V Sintagma Verbal SV
ceber o ~etiyo como uma 9asse autônoma ~O_Q.<Wl!=_ e acre~centam ainda,
A Sintagma Adjetival SA
ao rol das categorias, as seguintes classes de palavras: ~a4v.~rblo_(A_dv), a
Prep Sintagma Preposicionado SPrep
preposição (Prep) e o pronome (Pron). São também os descobridores das
-~'" .. - ~- ,--=--~_. ~--

24 25
.~,

MARY A. IlATO • CARLOS MIOTO A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

(4) a) [SNChico] [Sysorriu]. Note-se que, nessa representação, o verbo é o núcleo de SV, o sujeito é
b) [SNO cantor] [svdedilhou o violão]. um constituinte externo a SV, enquanto o complemento é um constituinte
c) [SNO cantor de olhos verdes] [svcantou um novo samba]. interno a SV.

(5) S

~ 4. A lógica moderna de Frege e uma nova arquitetura:


SN SV
"No princípio era o V"
Chico sorriu
O cantor dedilhou o violão
Se para Aristóteles o conceito de sujeito era fundamental para estudar a
O cantor de olhos verdes cantou um novo samba
lógica das proposições, para Frege, o pai da lógica moderna, tal conceito é
dispensável. Abandonando os dois constituintes proposicionais aristotélicos
A partir dos estruturalistas, é postulado que a sentença (S) é composta de
em (8), Frege passa a trabalhar com os conceitos em (9), eliminando a assi-
sintagma nominal e sintagma verbal, em lugar de nome e verbo, ou de sujeito e
metria entre sujeito e complemento.
predicado. Enquanto o sujeito é considerado o constituinte SN imediatamente
dominado por S, o compll:mento é dominado pelo SVe pode ser um SN, um
(8) SENTENÇA(Juízo) '" SUJEITO(N) + PREDICADO(V)
SPrep, um SV ou mesmo uma S, como exemplificado em (6): (9) PREDICADO+ Argumentos

(6)' a) O presidente ouviu [SNO boato].


Os predicados classificam-se conforme o número de lugares (argumentos)
b) O presidente acreditou [SPrep
no boato].
c) O presidente resolveu [svreceber os grevistas]. que exigem para formar uma proposição: Os predicados não se limitam a ver-
d) O presidente achou [s que sua visita foi útil]. bos, mas podem ser também adjetivos ou até nomes. Assim, podemos ter:

Na estrutura, o complemento seria o constituinte irmão do núcleo V, isto (10) a) predicados de um lugar Sorrir x
Cair x
é, um constituinte de SV não dominado imediatamente pela sentença:
Homem x
Grande x
(7) S
b) predicados de dois lugares: Verxy
Matarxy
~
SN SV Paixy
Orgulhoso x y
O presidente ~ c) predicados de três lugares: Dárxyz
v SN (O boato) Colocarxyz
SPrep (No boato) Doação (doaçãodo dinheiro ao orfanato
., ) • y
pe 1a VIUVa.
SV (receber os grevistas)
S (que sua visita foi útil)
Essa representação é absorvida pela sintaxe moderna, mas como represen-
Sujeito Complemento
tação dos itens no léxico, onde, em lugar de variáveis x, y, z, os argumentos
aparecem com papéis semânticos, os chamados papéis temdticos (6) (agente,

26 27
MARY A. KATO • CARLOS MIOTO
• A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

experienciador, instrumento etc.), além de se apresentarem como argumentos como flexão ora como tempo. A categoria flexão pode abrigar não apenas a
externos ou internos (este marcado pelos parênteses em (11)). flexão de tempo, mas também a flexão de concordância.

(11) a) sorrir 8 (14) s


b) matar 81 (82)
~
SN FLEX SV
Quando há apenas um argumento, com papel O em geral agentivo, este
é um argumento externo, como no caso de telefonar, viajar, pular, chorar, e ~
temos aí os chamados predicados inergativos. Já, no caso de um argumento v SN
único com papel O não agentivo, o argumento é interno e temos os chamados
predicados inacusativos. É o caso de verbos como cair, aparecer, existir, que Em uma ramificação arbórea binária, adotada a partir da década de 1980,
têm o sujeito posposto como a ordem não marcada. Flex e SV passam a ser irmãos e a sentença passa a ser uma projeção de Flex,
ou seja, um sintagma flexional (SFlex) com Flex como núcleo e Flex' como
(12) a) telefonar 8agem 01 inergativo) a categoria intermediária entre Flex e SFlex:
b) aparecer (8.agen) 01 inacusativo)
c) comprar 8agente(8.agem) (V transitivo) (15) Flex

(13.) a) Luiz telefonou. ~


SN Flex'
b) Apareceu um fantasma.
c) Ele comprou o novo Harry Potter. ~
Flex SV

~
5. A relação de predicação V sv

5.1. A interface léxico-sintaxe: o papel da morfologia Nessa representação, o predicado é uma categoria aberta, que só se satura
quando preenchemos a sentença com o sujeito. O SN sujeito tem uma liga-
Embora os gregos estivessem mais interessados em lógica e retórica, o voca- ção indireta com V, através de Flex. Considerando-se que a flexão temporal
bulário criado para tratar de juízos de verdade e de falsidade era o da gramática, vem muitas vezes somada com a flexão de concordância, pode-se dizer que o
donde sua contribuição enorme para a descoberta das classes de palavras e das sujeito nessa representação é o que tradicionalmente consideramos o sujeito
primeiras palavras funcionais/gramaticais. Compreen de-se também por que gramatical, isto é, aquele com que concdrda o verbo e que, quando prono-
tempo chamou logo a atenção de Aristóteles. Quando se lida com verdade e minal, exibe o caso reto (nominativo).
falsidade de juíws, nota-se que é o tempo que lhes confere valor de verdade.
Uma sentença no infinitivo não é nem verdadeira nem falsa. (16) a) [svcomprar o novo Harry Potter]
b) [Fl••.Passado, 3" pessoa sing. [svcomprar o novo Harry Potter]]
Chomsky e seus seguidores, utilizando-se de argumentos sintáticos e não
c) [Elel.nomlnl[Fla.Passado,3" pessoa sing. [svcomprar o novo Harry Potter]]]
lógicos, trataram a categoria tempo, desde o início, como um constituinte
d) Ele comprou o novo Harry Potter.
central da sentença. Como a categoria tempo se manifesta como flexão (Flex)
em muitas línguas ocidentais, o núcleo sentencial passou a ser tratado ora

28 29
'1
MARY A. IlAlO • CARLOS MIOlO 'I A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

I
Uma regra morfológica junta os morfemas de tempo e de pessoa ao verbo,
resultando daí a forma flexionada do verbo, como aparece em (16d).
! (22) a) O ladrão viu a vítima perto do policial.
h) O ladrão viu a vítima perto dele.
r c) O ladrão viu a vítima perto de você.
Em línguas com caso morfológico, como o latim e o japonês, a função
ohl
de sujeito está eminentemente associada ao caso nominativo, e a ordem dos t
constituintes é relativamente livre.
o caso acusativo do objeto é tradicionalmente considerado como atri-
buído pelo verbo assim como o caso oblíquo é atribuído pela preposição. O
(17) a) Magistra puellam docet.
Mestra-nom menina-acus ensina
nominativo é o caso não marcado.
h) Puellam magistra docet. O que se viu nesta seção é que o domínio em que um elemento se torna
parte da estrutura sintática, deixando sua forma de dicionário, é a sentença,
(18) a) Jun-ga Hanako-o tsuretekita. entendida como a projeção da categoria Flex, a qual estabelece a relação de
Jun-nom Hanako-acus trouxe predicação através da concordincia e do caso nominativo.
h) Hanako-o Jun-ga tsuretekita.

5.2. Verbos de ligação


No português culto h~ ainda um resquício desse caso morfológico nos
pronomes, como se pode ver no contraste possível entre o nominativo e o Os chamados verbos de ligação como ser, estar, parecer têm uma proprie-
acusativo dos pronomes de primeira e terceira pessoas. dade em comum: o sujeito de sentenças que os contêm não são argumentos
deles, mas do predicativo.
(19) a) Ele me viu perto de casa.
h) Eu o vi perto de casa. (23) a) O ator é talentoso.
h) A adolescente está grávida.
As línguas naturais têm essencialmente duas formas de codificar funções c) Os anéis parecem preciosos.
gramaticais: através da morfologia e através da ordem de constituintes. No
português falado no Brasil, a terceira pessoa singular ele/ela e plural eles/elas Assim, as sentenças em (24) são malformadas, não porque parecer não
assim como a segunda pessoa indireta (= você, com flexão de terceira pessoa) possa ocorrer com o anel e o ator como sujeitos, já que podemos ter (23a, c),
apresentam comportamento de nomes, isto é, são invariáveis quanto à mor- mas porque talentoso não pode ser predicado de o anel e grdvido não pode
fologia de caso nas diversas funções e, como consequência, têm a mesma ser predicado de o ator.
distribuição posicional dos nomes, relativamente fixa.
(24) a) *0 anel parece talentoso.
(20) a) O policial viu o ladrão perto da vítima. h) *0 ator está grávido.
h) Ele viu o ladrão perto da vítima.
c) Você viu o ladrão perto da vítima. O que ocorre, então, é que a relação temática se manifesta dentro do
nom complemento dos verbos de ligação, em uma relação de predicação a que
chamamos minioração (MO) (small clause).
(21) a) O ladrão viu o policial perto da vítima.
h) O ladrão viu ele perto da vítima. (25) a) [MO o ator [talentoso]]
c) O ladrão viu você perto da vítima. h) [MO a adolescente [grávida]]
acus c) [MO os anéis [preciosos]]

30 31
MARY A. KATO • CARLOS MIOTO A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

"~o

Ao se combinarem com verbos de ligação, o sujeito da MO passa a ser o 6. A relação de complementação


sujeito gramatical da sentença, movendo-se de sua posição de origem onde
deixa uma lacuna. O verbo (assim como o predicativo, se for o caso) passa a Em oposição à noção de sujeito, temos a noção de complemento. Vimos que
concordar com ele. a sintaxe moderna assimilou a lógica fregeana, mas o fez mantendo a assimetria
entre o argumento externo e o interno. Se um verbo tem dois argumentos, o
(26) a) [o ator é [MO [_ 1 [talentoso]]]. externo acaba sendo o sujeito da sentença (ou da predicação). Se um verbo tem
b) [a adolescente está [MO [_ 1 [grávida]]]. apenas o argumento externo, este vai ser o sujeito. Se um verbo tem apenaS
c) [os anéis parecem [MO [_ 1 [preciosos]]]. o argumento interno, este (ou, em certas situações como nas MOs, um SN
que faz parte dele) vai ser o sujeito. Por isso, é preciso estar atento para não
Mas uma MO pode ter predicados de outros tipos: um SPrep (sem graça), aplicar a noção de sujeito apenas ao que é argumento externo nem confundir a
um SN (um gênio) ou um SV (lutar). noção de argumento interno com a de complemento. Um argumento interno
(29a,b), parte de um argumento interno (29c,d) ou, no limite, mesmo um
(27) a) Essa atriz é sem graça.
adjunto (2ge,f), pode acabar sendo o sujeito da sentença:
b) Essemenino parece um gênio.
c) Viver é lutar.
(29) a) Maria chegou [_ l.
b) Maria foi assaltada_.
Existem duas outras particularidades importantes na morfologia quando
c) Maria parece [_ 1 cansada.
temos sentenças com verbos de ligação. Uma delas, que se manifesta no d) Maria parece ( [ _ 1 ) estar _ cansada.
português, é que o predicativo concorda Coln o sujeito em gênero e número e) A Belina cabe muita gente [_ l.
quando ele é do tipo que espelha morfologia flexional. A outra, que se ma- O Este apartamento bate bastante sol [_ l.
nifesta em línguas como o latim, é que o predicativo, se for um SN (ou um
adjetivo), espelha o mesmo caso do sujeito, um tipo de concordância de caso. O complemento de um verbo, por sua vez, é um argumento interno que
Essas particularidades podem ser consideradas indícios de que os verbos de não foi ou não pôde ser promovido a sujeito, o que acontece sempre que o
ligação, apesar de poderem apresentar-se com um SN à esquerda e outro à verbo tem argumento externo. Os verbos podem ter no máximo dois com-
direita, como em (27b), devem ter uma estrutura argumental diferente da de plementos, cunhados pela tradição como direto e indireto. Em línguas com
um verbo transitivo. Comparemos as sentenças em (28): morfologia casual rica, como o latim e o japonês, o SN complemento direto
em geral exibe o caso acusativo, como vimos em (17a) e 08a). O indireto
(28) a) Este menino parece um leão. é marcado por outros casos, como o dativo. Isto é, o complemento tem de
b) Este menino aprisionou um leão.
ser marcado por um caso diferente do c:j.so do sujeito, marca que pode ser
considerada um reflexo da assimetria entre sujeito e complemento.
O SN que se localiza à direita do verbo transitivo aprisionar em (28b) é
O PB, que não tem morfologia de caso (a não ser para os pronomes de
referencial e é o complemento desse verbo; o SN que se localiza à direita do
primeira e segunda pessoas), marca essa assimetria posicionando os comple-
verbo de ligação parecer é um predicado (não é um argumento) e é apenas
mentos após o verbo, a não ser que eles sejam clíticos. A posição natural do
parte de seu argumento complexo definido como uma MO.
complemento direto é logo ap6s o ~erbo do qual é irmão e do qual recebe o caso
acusativo. O complemento indireto é o último e tem de vir preposicionado,
pois, do contrário, não seria marcado por caso. Existem, ainda, verbos que

32 33
cp
,-
MARY A. UTO • CARLOS MIOTO A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

têm apenas um complemento e, mesmo assim, regem idiossincraticamente (32) a) Maria é considerada [MO [ _] inteligente] pelo João.
uma preposição, como gostar em (30): b) Maria foi julgada [MO [_] inocente] pelo juiz.

(30) João gosta de Maria. A voz passiva é um tipo de construção inacusativa: o agente é "retirado"
da posição de argumento externo e o particípio passivo não atribui acusativo.
A presença obrigatória da preposição é atribuída à incapacidade de o verbo Dessa forma, o SN sujeito da MO deve virar o sujeito da sentença ou deslocar-
atribuir acusativo ao seu complemento. se para a posição de sujeito para receber caso nominativo.
Certos verbos transitivos podem ter como complemento uma MO, como A noção de complemento pode ser generalizada de forma a envolver outros
exemplificado em (31): núcleos. Em especial, vamos estendê-la afirmando que os demais núcleos
lexicais podem ter complemento:
(31) a) João considera [MO Maria inteligente].
b) O juiz julgou [MO Maria inocente]. (33) a) aptidão para o magistério
b) apto para o magistério
o queacontece de interessante em (31) é que o sujeito da MO Maria c) por preguiça
recebe caso acusativo dos verbos transitivos num processo de marcação de
caso excepcional: o verbo atribui acusativo para um SN que não é o comple- Em (33a), temos que para o magistério é complemento do nome aptidão,
mento dele. assim como do adjetivo apto em (33b); em (33c), preguiça é o complemento
. Por fim, comparemos o contexto sintático em (31) com o que envolve um da preposição por .
verbo de ligação em (25) e (26), aqui repetidos:

(25) a) [MO o ator talentoso] 7. A relasão de adiunsão


b) [MO a adolescente grávida]
c) [MO os anéis preciosos] As sentenças podem ser expandidas por constituintes que, não tendo
propriedades de argumento, são adjuntos. Para distinguir argumentos de
(26) a) o ator é [MO [_] talentoso].
b) a adolescente está [MO [_] grávida]. adjuntos, comparemos as funções dos SPreps em (34) e (35):
c) os anéis parecem [MO [_] preciosos].
(34) a) João gosta de Florianópolis.
b) João filmou a invasão de Roma.
o SN sujeito da MO em (25) tem de se deslocar para virar o sujeito da
sentença. Em (31), a sentença já tem sujeito e, por isso, Mari{l não pode sofrer
(35) a) João telefonou para Maria de FloriaíJ.6polis.
deslocamento semelhante. Aqui se capta essa distinção em termos da categoria b) João visitou a cidade de Roma.
caso:já que o verbo de ligação é incapaz de atribuir acusativo (é inacusativo),
o SN precisa deslocar-se para a posição de sujeito para ser marcado por nomi- Como ensina a tradição gramatical, em (34) de Florianópolis e de Roma
nativo; por outro lado, já que os verbos transitivos de (31) são atribuidores de são argumentos respectivamente do verbo gostar e do nome invasão, que lhes
acusativo, o SN Maria se mantém in situo A situaçáo em (25)-(26) é reeditada, atribuem a função temática que eles desempenham. Entretanto, os mesmos
se passamos as sentenças de (31) para a voz passiva: SPreps funcionam como adjunto em (35): do SV em (35a) e do nome cidade
em (35b). Eles não recebem sua função temática de nenhum constituinte da

34 35
MARY A. IlATO • CARLOS MIOTO A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

sentença, mas, ao contrário, realizam um tipo de predicação, sobre o SV em adjuntos e como são pendurados os argumentos na representação arbórea
(35a) (donde o rótulo tradicional de adjunto adverbial) e sobre o nome em (40):
em (35b) (donde o rótulo tradicional de adjunto adnominal).
Os adjuntos são acoplados a constituintes e a sentenças sem lhes modificar (40)
o estatuto categorial nem a sua projeção. Assim, se adjungirmos um adjetivo ou
um Sprep a um nome, o conjunto resultante continuará sendo um nome:

(36) a) [SNlivro]
b) [SNlivro didático]
c) [SNbom livro didático]
d) [SNbom livro didático de estórias]

Como observamos em (36), o número de adjuntos que um constituinte


pode ter é indeterminado. Da mesma forma, se adjungirmos um advérbio
ou um sintagma preposidonal a um verbo, o resultado continuará sendo um Quando combinamos Ar& com o núcleo X, o que vamos ter é a projeção
verbo: intermediária X' de X; quando combinamos X' com Arg1, o que temos é a pro-
jeção máxima XP de X. Entretanto, quando inserimos na árvore o adjunto, a
(37) a) [Syandar] projeção XP não muda.
b) [svandar muito] Porque os núcleos têm projeção máxima, o número de argumentos de um
c) [Syandarcom cuidado] núcleo é previsível: uma sentença tem no máximo um sujeito (sujeitos com-
d) [Syandartodos os dias]
postos, coordenados são um só) e no máximo dois complementos (valendo o
mesmo para complementos coordenados). No entanto, como não podem alterar
Também nesse caso o número de adjuntos é indeterminado:
a projeção de um núcleo, o número de adjuntos é imprevisível. Assim, a sentença
em (41a) pode ser expandida pelo acréscimo de novos adjuntos:
(38) a) [svandar muito todos os dias]
b) [syandar muito habitualmente desde a última consulta médica]
(41) a) João trouxe a mesa.
b) João trouxe a mesa de Florianópolis.
Spreps ou advérbios também se adjungem a sentenças sem lhes alterar o
c) João trouxe a mesa de Florianópolis de carro.
estatuto de sentenças: d) João trouxe a mesa de Florianópolis de carro na semana passada.
e) FelizmenteJoão trouxe a mesa de Flórianópolis de carró na semana passada.
(39) a) [SPl",
Ontem [SFlaO Pedro andou muito]].
b) [SFla[SFI",
O Pedro chegou tarde] infelizmente]. Embora possa ser o caso, nem sempre a expansão se faz pelo acréscimo
de adjuntos ao mesmo XP. Em (41a), podemos conceber que de carro e de
Os argumentos (Arg) expandem a projeção de um núcleo sintático, sendo
Florianópolis sejam adjuntos do SV por especificarem o meio e o lugar da cena
pendurados dentro de sua projeção máxima. Os adjuntos, ao contrário, não
encabeçada pelo verbo trazer. Em (41c), podemos conceber quejelizmente,
expandem a projeção de um núcleo sintático, e são pendurados nas bordas
por expressar uma opinião do falante, seja adjunto da sentença. Entretanto,
(da projeção máxima) de um sintagma. Compare como são pendurados os
devemos conceber que na semana passada, por significar tempo, seja adjunto

36 37
MARY A. IlATO • CARLOS MIOTO A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

de SFlex, a categoria que incorpora o tempo verbal. Procedendo assim, conse- (44) se
guimos explicar por que a sentença em (42b) é bem-formada, enquanto (42a)
~
não é: na semana passada não pode predicar ou especificar o tempo futuro e SFlex
amalgamado ao verbo trazer. que/se

(42) a) *Joãotrará a mesa de Florianópolisde carro na semanapassada. (45) a) [Sflaele comprou o novo Harry Potter].
b) João trará a mesa de Florianópolisde carro na semana que vem. b) Pedro disse [se que [SFlaele comprou o novo Harry Potter]].
e) Pedro perguntou [sese [Sflaele comprou o Harry Potter]].
d) João se empenhou para [seque [Sflaele comprasse o novo Harry Porter]].
8. A periferia à esquerda da sentença
Outros elementos que podem aparecer introduzindo sentenças subor-
dinadas são os pronomes Q interrogativos ou relativos (quem, o que, qual,
A área da sentença que fica à esquerda do sujeito, que é chamada de pe-
quando, onde). Ao introduzir as sentenças subordinadas, os pronomes Qsaem
riferia esquerda, é um lugar especial por onde a sentença se expande. Além
de sua posição de origem para se colocar na periferia à esquerda da sentença,
de conter constituintes adverbiais, como felizmente em (41e), pode também
deixando uma lacuna no lugar de origem:
conter constituintes que. desempenham duas outras funções. A primeira é a
função discursiva de codificar o tópico (42a) ou o foco (42b) da sentença:
(46) a) O jornalista perguntou [sequem ~FIaascriançasviram[_] cotrendoJ].
b) O jornalista perguntou [seonde ascriançasviramo ladrão [_lll.
[SFla
(42) a) A Maria, [SFlao João comprou florespara ela]. c) Esta é a pessoa [secom quem [SFla
eu viajei[_] no últimoverão]].
b) Para a Maria [SFlao João comprou flores, não para a Joana].
d) João mora [seonde ascriançasviramo ladrão [_lll.
[SFla

A segunda é a função gramatical de possibilitar o encaixe de uma sentença Os pronomes Q interrogativos podem também encabeçar uma sentença
em outra: matriz:

(43) a) Ele comprou o novo Harry Potter. (47) a) [seQuem [SFl


••as crianças viram [_] correndo]]?
b) Pedro disse [que [SFlaele comprou o novo Harry Potter]]. b) [seQuando [SFlaas crianças viram o ladrão [_ J]]?
e) Pedro perguntou [se [SFlaele comprou o novo Harry Potter]].
d) João se empenhou para [que [SFlaelecomprasse o novo Harry Porter]].
Em sua constituição sintática, os elementos interrogativos-Qpodem formar
unidades complexas, que são chamadas de sintagmas-Q:
A sentença que formamos, ou derivamos, em (43a) se expande do lado
esquerdo, mediante o acréscimo dos itens que e se, para ser parte de uma outra
[48] a) [seQue ator [SPl
•• o jornalista entrevistou [_ J]]?
sentença superior. Para que a sentença [ele comprou/comprasse o novo Harry b) [scEm que dia [SFlaele entrevistou o ator [_ J]]?
Potter] possa ser o complemento dos verbos ou da preposição da sentença
matriz, é preciso que um elemento gramatical a introduza: a conjunção que O português brasileiro coloquial tem sentenças que mostram que a po-
ou se, que hoje designamos complementizadores (C). O primeiro é o eomple- sição das palavras e dos sintagmas Q é em SC, já que eles podem preceder o
mentizador não marcado e o segundo é o interrogativo. Os complementiza- complementizador que:
dores preenchem C, sendo o núcleo de sua própria projeção se (Sintagma
Complementizador):

38 39

MARY A. KAro • CARLOS Mloro A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

(49) a) Pedro perguntou [se quem que [sFlcJ_l comprou o novo HanyPotter]]. Resumo
b) Pedro perguntou [seque aluno que [SFlcx
[_l comprou o novo HanyPotter]].

Neste capítulo, apresentamos brevemente a história dos conceitos grama-


As formas em (49) mostram que a estrutura de SC é complexa, podendo ticais. Começamos pela antiguidade clássica, passamos pelos estruturalistas e
abrigar uma posição nuclear C, onde ficam os complementizadores que e se, e pela lógica fregeana e chegamos aos refinamentos e aos novos conceitos ela-
uma posição sintagmática para onde podem mover-se elementos pronominais borados pela gramática gerativa. O que é posto em destaque são as relações
e sintagmas. gramaticais que serão abordadas nos vários capítulos deste livro. A primeira
relação destacada é a de predicação (ver capo 2), em que é destacado o papel
(50) CP da morfologia mediando a relação entre o sujeito e o predicado. Além disso,
~ pôs-se em destaque o papel dos chamados verbos de ligação, verbos que "aju-
XP C' dam" a estabelecer a predicação. A segunda relação envolve a noção de com-

I~ plementação (ver capo3) que, além de ser aplicada a constituintes que comple-
mentam o verbo, o nome e o adjetivo, foi estendida a constituintes que com-
I C SFlex
plementam as preposições. Em seguida, foi abordada a noção de adjunção (ver
Quem I

[que alunoll
que
que
D
[_ li comprou o novo Harry Potter
capo4), que procuramos caracterizar formalmente por oposição a argumentos
e funcionalmente por oposição a sujeitos e complementos. Os conceitos fun-
cionais que resultaram desse procedimento foram três. O primeiro foi o con-
. A posição XP em (50) não é ocupada apenas por elementos ~ mas também ceito de sujeito que está correlacionado à noção de predicado. O que pode
por elementos focalizados, como os que aparecem ~m maiúsculas em (51): acabar sendo sujeito de um predicado é a) o argumento externo, b) um argu-
mento interno e c) no limite, um elemento que não é argumento. A noção de
(51) [se O PEDRO que [SFlcx
[_] comprou o novo Hany Potter, não o João]]. complemento coincide com a de argumento interno, muito embora o inverso
não se sustente. A noção de adjunto se aplicou a constituintes que não são
o queocorre em se tem a ver com a natureza ilocucional da sentença argumentos. E, por fim, foi mostrado brevemente como a periferia esquerda
(interrogativa, declarativa) ou ainda com a função discursivo-informacional da sentença é ativada quando a sentença é ou não encaixada.
de foco.
li
J Observamos, por fim, que função discursivo-informacional de tópico
I: (STop) é também codificada na periferia esquerda da sentença: Sugestões de leitura
i
II (52) a) [STop
Meu carro [SFlcxo pneu dele furou]]. Para a contribuição grega à teoria gramatical, consultem-se Robins (1964)
li
b) [STop
Esse vinho [se quanto [SFlcx
você pagou por ele]]]? e Lyons (1971).
JH c) A Maria disse [se que [STOPos meninos [SFlcx
ela vai buscar (eles) à tarde]]]. Para a contribuição estruturalista, leiam-se, por exemplo, Bloornfield (1933)
e Fries (1940).
Como o tópico coocorre com constituintes localizados em se, como ve- Para a teoria da gramática em que se baseou boa parte deste capítulo,
mos em (52b, c), deduzimos que se trata de um constituinte independente leia-se Raposo (1992).
de se. A posição relativa entre STop e se na periferia esquerda difere se a Para as noções fregeanas, consulte-se Pires de Oliveira (2001).

I1
sentença é matriz ou encaixada: naturalmente, na matriz STop precede se e
na encaixada STop não pode preceder se.
Sobre a periferia esquerda da sentença, consulte-se Rizzi (1997), e sobre a
da sentença do português brasileiro, consulte-se Mioto (2003).

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proces. ()Post()s~(~euct>m m~/e-f" ' ,,' t;,o. ~""l'Ó~~Ó. 'o ";::-"":'i',liik}v.i2PERINI, Mano A. (19~~). So
expressa lIalida9~:,'tal'~~~T~p,âte -d ;;~,i,;~~i~:~:aú~!gramática.
São Paulo: Atlca. ,
-~';.:i:
:>:{:

dessasicoisas no mome' ó~ín;qú~;~'rlt.ss~fo: AJbntec~ que;


até hoje, ninguém teve a i "ia de usar "ícarapara txprimir urna
qualidade; e é por isso, some e, quxícara continua sendo ape-
nas nome de uma coisa. Tambe não ocorreu a ninguém utili-
zar paternal para designar um co' a (um novo tipo de escola?); Passei grande parte da vida estudando, dis~utindo e escre-
e é por isso que paternal ai oa é tã nitidamente qualificativo. vendo ~ respeito de gramática, e me preocupo bastànte com a
A distinção entre a class dos "adjeti s" e a dos "substantivos" atitude que as pessoas têm para com essa disciplina. Muitas
simplesmente não exi e. vezes, percebi um certo espanto diante da informação de que o
estudo da gramática é a minha ocupação principal; j;l escutei res-
mungos no sentido de que eu "soube unir o inútil ao desa~radá-
Sinto-me rigado a dizer que a conclusã acima nao e acei- vd". Qyal será o motivo desse alto índil ': de rejeição?
ta pela mai Ia dos lingüistas. Muitos dos meus olegas rangem Outras disciplinas há que são tão ou mais difíceis, como por
os dentes e raiva quando ouvem uma heresia c mo essa. No exemplo a matemática e a química e, para alguns, a história. Mas
entant ,até hoje ninguém respondeu aos argumen os apresen- nenhuma suscita reações tão violentas como a gramática; parece fácil
tado Clemaneira a me satisfazer. Por isso, continuo esacredi- aceitar q~e alguém seja matemático, geógrafo, especialistaém cogu-
ta o de adjetivos e de substantivos, e continuo fazen melos ou grande autoridade na fisiologia dos morcegos; mas um
f a. Talvez eu tenha muito a pagar na outra vida. gramático é uma pessoa que todos consideram excêntrica ou coisa
pior. Existe com certeza alf:.,rum
f:\tor de rcpugnânl"ia associado a essa
disciplina, e vale a pena especular um pouco a respeito.
\':'unos comc~'ar isolando alguns sintomas. Primeiro, alguns
professores, alunos c pais de alunos advo~ó\ln a supressão pura e
simples do ensino gramatical. Outros reagem e, nessa discussão,
os argumentos se radiealizam: uns sustentam que a gram;ltica "não
serve para nada"; outros, que "sem gramática não é possível

46 47
MÁRIO A PfRltll
6 SOfRftlDO A (,f\AMÁTIC/\

aprcndcr português". Não dcvc ser nem uma coisa nem outra. Esses são sintomas de uma doença bastante gravc que afli-
Mas é um sintoma de que há algo de errado no reino da gramá- ge a disciplina. Não vou dizer que tenho aqui no bolso o santo
ticl. Não existem controvérsias como essa no que diz respeito à remédio que vai efetuar a cura. Mas tenho sugestões que, me pare-
física, à biologia ou ao inglês. ce, vale a pena experimentar. Pior, pelo menos, não pode ficar;
Outro sintoma é o seguinte: ao chegar aí pelo segundo ano do e talvez o paciente melhore. E com isso, quem sabe, diminuire-
segundo grau, os jovens já estão fazendo planos para sua vida mos um pouco o sofrimento 'de alunos e professores (sim, pro-
futura. No caso de querer cursar a universidade, alguns pretendem fessores também), possibilitando a eles estudar gramática sem
ir para direito, outros gostariam de se dedicar à geologia ou à astro- essesentimerito de frustração, inutilidade e finalmente ódio que
física. C2!lantossonham em se tornar gramáticos? Alguns, possi- tantos experimentam.
velmente, mas nunca encontrei um sequer. Por ser difícil demais?
Não pode scr; a gramática não tem por que ser mais difícil do que
outros cstudos científicos. Afinal, o que há de esquisito com .essa Vamos começar pelo diagnóstico: V('udizer o que, na minha
tão odiada matéria? opinião, está errado com o ensino de gramática.
O terceiro sintoma é de preocupar. Imaginemos um aluno de Eu diria que o ensino de gramática tem três defeitos, que o
terceiro ano primário e um de terceiro colegial. O primeiro sabe um inutilizam enquanto disciplina: primeiro, seus objetivos estão mal
pouco de matemática - digamos, as quatro operações. Não vou colocados; segundo, a metodologia adotada é seriamente inade-
afirmar que todo aluno de terceiro ano primário saiba as quatro ope- quada; e, terceiro, a própria matéria carece de organização lógi-
rações; mas muitos sabem, e não é absurdo um professor entrar na ca. O leitor perguntará, provavelmente, ( que é que sobra de bom,
sala esperando que todos saibam. Já o aluno de terceiro colegial tem se a disciplina está torta sob esses três ")ontos de vista tão fun-
de saber mais do que as quatr6 operações. Afinal, ele tem oito anos damentais. A resposta é: ~obra a<}ueladisciplina da qual todos
a mais de escolaridade; e, correspondentemente, o professor de nos lembramos com arrepios ~e horror.
lllatcll1:íticacspera mais dele do que de um aluno de prim:irio. Vaql0s examinar ~ada úma dessas deficiências (e aqui slIJ.!;i-
Mas com a gram:itica a sitU:l\.:toé outra. O aluno de tercei- 1"0 que () leitor confronte o que digo com' suas Icmhral1c;as de
ro ano primário j:í est:í estudando as classes de palavras e a aná- sala de aula).
lise silll:ílica - c não sahc. Ao dlcgar ao tcrceiro colegial, con-
tinua estudando a análise sintática e as classes de palavras - e
continua não sabendo. Um professor de português, mesmo que Em primeiro lugar: os objetivos da diJeiplina eJtão mal (olocadOJ.
de colegial, não pode entrar na sala esperando que os alunos domi- Muitos professores dizem (e acreditam) que o estudo da gr:unáti-
nem a análise sintática, ou que possam distinguir uma preposi- ca é um dos instrumentos que levarão o aluno a ler e escrever melhor
ção de um advérbio, sob pena de graves decepções. E eles estu- - ou, para ser mais exato, o levarão a um domínio adequado da
dam esse assunto há oit~ anos, às vezes mais! Decididamente, linguagem padrão escrita. Esse motivo é alegado constantemente,
,~ alguma coisa está muito errada. quando se quer defender a presença da gramática no curríCl.t.lo.
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MÁRIO A. PERINI
,6. SOfRENDO A GRAMÁ rl( A
.. ]

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Ora, não existe um grão de evidência em litvor disso; toda a
te clareza, embora talvezinãtrp,pi,ls.sam;<:JCplicit;,r; c essc lO UIll
evidência disponível é em contrário. Vamos pensar um momen-
dos fatores do descrédito. da,discipíiliáe?~re ,eles.
to: se é preciso saher ~ramática para escrever hem, será ele espc- _.' ,'. ':.:" ...' :---. 2:;... ': • ,.., .. '-,~.

r;ll" que :IS pessoas que escrevem bem saibam gramática - ou, ,', : -~~'::'''''i':- '/ .. "
;"0-1."

pelo menos, que as pessoas que sabem gramática escrevam bem.


Em segundo lugar: a m~todologiâ't.í!tâdeqÍlilda. Aqui, em vez
Ser:i que isso acontece? Meu autor brasileiro f:lVorito é Luís
de metodologia, eu deveriaf.'llar ~e j,j~tit\,de diante da matéria".
Fernando Veríssimo; na minha opinião (e na de alguns outros),
E, para compreender bem essepto~l~ITla~'Y.ul1(~s'cQmparar () ensi-
ninguém escreve melhor do que ele hoje em dia, no Brasil. Mas
no de gramática com o deouttâs di,~éipli,p~~.,::
o Veríssimo não sabe praticamente nada de gramática; por ter
Pensemos no caso de utrt:ptQfes~ora~'his~~riaique diga a seus
sido mau aluno, por ter abandonado a escola, por não ter feito
alunos que, no século XVI. a rcgi:Ü.lôllde;y}ven)()s era ocupada
letras? Nãc). Não sabe gram;itiea pela mesma razão que nós, que
por povos indígenas. Nessemottieiih~;l.únalÜllo pode pergun-
fomos bons alunos, fizemos nossos cursos até o fim e temos diplo-
tar: "Professor, .como é que o senhor sabe disso?". E () professor
ma de letras, n:io a salwmos: porquc ningll/m sahe ~rall1:ítica. E
dcvc tcr meios de responder; cle pode alegar tIue 11,\ dOl"lIIl1t'1I1
os
isso não impede peJo menos al~uns de nós de escrever tolera-
da época que atestaol a prcsençadt;'~' íli~io.~;.cs~ava~'ül:'s arqul:'O-
velmente bem ou mesmo (como o Vcríssimo) muito bem.
lógicas que revelam artefatds'índigénasertstos de habi ta~'ücs etc.
Façam um levantamento entre seus amigos: vocês descobri-
O importante a observar é: o 'ãlund ~im (j diFeito' de f:lzer aquela
rão que alguns deles escrevem corretamente, outros até bem. Mas
pergunta, e o professor tem (j ddvelde'fcsponder; ou pelo mcnos
nenhum deles lhes dirá que sabe gramática; isto é, que tem segu-
rança na análise de uma oração, ou na classificação de uma pala-
tentar responder. Afinal de cOrítaii,:êiti úm cuis? de hist<Íria estu-
da-se o que realmente acoritecdinó' pti'ssa'dd,c saher hist(íria é
vra como advérbio ou preposição. A conclusão necessária é que
também saber como é que se~abehúj~:ó que êlcontcccu l1:í tre-
as pessoas que escrevem hem nem sempre (na verdade, quase
zentos ou quatrocentos ano~ atrás; Isso vale, em termos h:\sicos,
nunca) sabem gramática.
para as outras disciplinas,.séja a física, seja a geografia.
Por outro lado, se lermos uma gramática qualquer (inclusi-
Mas, em gramática, as coisas costumam ser diferentes. O pro-
ve, provavelmente, a minha), nos convenceremos rapidamente
fessor diz que o futuro do subjuntivo do verho 'VI'/' é 'l1l'1l1do til
d(. (Iue saber gramática não é garantia de escrever bem. Qyan-
'vir etc.: assim, "devemos" (ou "deveríamos") dizer qllal1'/o til tI'
tas grarn:íticas são vazadas em estilo confuso e deselegante? Isso
'vir mnanhõ ... O aluno sabe muito hem que ninguém fala assi m;
lI:io dcv('ria acontecer, se a ~rafll:ítica é a panacéia que dizem ser.
todos dizel1los 'lllmldol'U ""{lt,: .. Em outras palavras, o (1'1(' o pro-
Voltemos ao ponto principal: os objetivos dessa disciplina
fessor está ensinando não bate com o que se observa lia realida-
estãC) mal colocados. O!lando justificamos o ensino de gramá-
de. Se um aluno perguntar por que o professor est:í dizendo tIue
tica dizendo que é para que os alunos venham a escrever (ou
a forma é quando eu 'vir, a resposta (se houver rcsposta) sed que
ler, ou falar) melhor, estamos prometendo uma mercadoria que
é a.rsim que é o certo. Note-se: não se deu nenhum moti\'o ClCio-
não pod.emos entregar. qs alunos percebem isso com hastan-
nal, deu-se uma ordem: faça assim, senão vai ser pior para você,
50
-=---==----==-_.
- -----===================~"':"' .. =_"=mr="""""""-.

MÁRIO A. PERINI

6. SOFRENDO A GRAMÁTICA

Será que um professor de história poderia dizer a um aluno que


havia índios no Brasil porque assim é que é o certo? Será que, Sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração. (p. 119)
na aula de flsica, se pode dizer que os corpos se dilatam como
Muito bem, isso nos diz com certa clareza o que é um sujei-
calor porque é assim que está no livro?
to. Mas a própria gramática não respç:ita a definição. Em outras
Essa situação é que eu tinha em mel;1tequando disse que a passagens, os autores chamam de "sujeito" outra coisa, que não
atitude diante da matéria é inadequada. O professor e o aluno de é aquilo que foi definido com esse nome. Assim, na págjna
geografia entendem a matéria como o estudo de um aspecto da 125, dizem:
organização do universo; no c~so, a estrutura do nosso planeta,
o modo pelo qual está ocupado pelos seres vivos, sua divisão em Algumas vezes o verbo não se refere a uma pessoa determina-
unidades políticas etc. Mas o estQdo de gramática não é, na cabe- da, ou por se desconhecer quem executa a ação, ou por não haver
\'a deles, ()estudo de um aspecto do universo: é apenas uma série interesse no seu conhecimento. Dizemos, então, que o Jly'eito é
;lldelt'1"1n;lll1do.
de ordens a serem obedecidas, porque é assim 'que é o certo. Será
de espantar que pouca gente se interesse?
Mas o que tem a ver o sujeito com quem pratica a ação? O
sujeito não é o ser sobre o qual se faz uma declaração? Devería-
~os ter sujeito indetermin.ado quando não se sabe, ou não se quer
E, além do mais, a matéria carece de organização lógica. Mas
dizer, sobre quem se faz a declaração. Mas aqui o autor simples-
note-se: não estou dizendo que a gramática não tem lógica. Falo
mente pulou para o\jtra concepção de sujeito, sem nem sequer
da matéria que se ensina nas escolas com o nome de "gramáti-
avisar: sujeito seria o,.e1emento que pratica a ação.
ca"; não da gramática enquanto disciplina racional.
Na página 122; encontramos a frase:
Essa é uma acusação ~éria, e evidentemente é preciso justi-
Qyem disse isso?
ficá-la amplamentc. Aqui ~ou dar 1'6 um cxemplo, que dev,c ser
suficiente para deixar o leitor com a pulga atrás da orelha. Qyem e o pronome quem vem marcado como sujeito. Mas qual é a decla-
quiser maiores detalhes poderá dar uma olhada, por exemplo, ração que se faz sobre quem? Aliás, essa frase, que é uma per-
na obra de Amini B. Hauy, Da necessidade de uma gramática- gunta, nem sequer contém uma declaração. Logo, segundo a defi-
padrão da língua portuguesa (Atica, 1983), ou no meu livrinho nição dada, não deveria ter sujeito, pois nela não se faz declaração
Para uma nova gramática do português (Atica, 1985).
sobre coisa alguma. Novamente, o autor desrespeita a definição
Encontramos em uma das gramáticas: portugue~as mais que ele mesmo deu.
conhecidas, a de Celso C~nha e Lindley CintraJ, a seguinte Vamos à página 126; ali se encontra a frase:
definição de sujeito:

---
f Estou fomando a ohra dc Cunha c Cilltra como cxcmplo; mas qualquer das gramáticas
Na sala havia ainda três quadros do pintor.

I Essa frase é dada como sem sujeito. Não há dúvida de que


atualmcntc utilizadas 1l:IScscolas aprcsenta os mcsmos dcfeitos. Os autores de gramáticas
são al1ll'S "ítimas de Ulna tracliç~n dn que ('ull'"tlns dei". essa frase contém uma declaração; mas será uma declaração sobre
nada (já q~e não há sujeito)? Será possível fazer uma dedamção
j
I ••.• '. ~,~A~'~' ~ ~ ••• ;~'::~;~~ ••• 'JI~~~r!'.;~!~t~r
d(;cHi'i~.:..:"./~<,.t~-;
sohre nada? Pára ~im, peló' me~O~}êjSá'ff}a.~~fra¥'~h1a -$".~'1r/:c...~ . ~

õlqü-e'"
tura?a lín~aJá eleve,estaF.pe1ostabeJ(j.st~A:flfiM:êlê'tóiifas'; ~
"9 . cfu;~;êÜavelmente
é realmente.o sujeito? Nãdépossíveh1tie!ái<:lefin'ição vadPéle 'i
frase para frase; mas essa 'é a impressão que se tem. A gramática "h~iV".:, {.i<;l.;.) •.~?~J";Hh~'5,:g;r~:~~':'~~~r~s,
. !;:;'}:i:ff1:if,f.:iLi' :",.;j;'~~i enge-
nh~íto';, 'Óutroscom~rêi~Ql~sâ#d~itt,i~i~i;Playhôys ou vagabun-
dá uma definição a ser aprendida, mas nãopodemos respeitar essa '.' :;"' .• , ...., . ,".;-; ':" .f_I.,~~:;,,:. ""''';') ~4 .~l.{~.f.l,...~~f. '.

dos. A maioria das rtiatériasé irrelevante para a maioria dos alu-


definição se quisermos explicar por que o sujeito de Quem disse
nos: para que é que um advogado precisa de química, ou um
isso? é quem, ou por que a frase Na sala havia ainda três quadros
matemático, de história?
do pintor não tem sujeito.
() prohlema é que as gramáticas escolares, aqui como em mui- . Mas isso não quer dizer que essas matérias devam ser excluí- I
tíssimos outros pontos, não são organizadas de maneira lógica;
das do curso. Aliás, o argumento de que "não preciso saber isso
porque não vai me servir para nada" é simplesmente uma ilusão.
I
,I
e como aprender uma disciplina qu~ não tem organ~zação lógi-
nl? Não é de espantar que ninguém tenha segurança nessa maté- Precisamos saher, e sabemos, um mundo de coisas que não ser- .1
ria; e não é de espantar qu~ ninguém goste dela. vem para nada. Acontece que esse saber "inútil" é que f.1z de nós
membros da nossa cultura, do nosso país e do nosso século.
Vivemos u~aépoca dominada (para bem e para mal) pela idéia
de ciência; e conhecer algo de ciência é o que se espera de cada
Como (oi que a nossa matéria chegou a esse ponto? Since-
ramente, não sei dizer; mas é urgente resgatá-la do poço. Ou seja, cidadão;' seja qual for ~ sua profissão. Não quero dizer que cada
indivíduo deva ser um cientista; mas deve ter noção da idéia que
nÓs, que somos os amigos, precisamos nos conscientizar dos
problemas da gramática, antes que os inimigos o façam. a nossa'época faz do universo físico, psíquico e cultural. Nesse
contexto, estudar (algo de) física e (de) história é essencial.
O que pode ser feito desde já? Vou dar, a seguir, algumas sugés-
tões; e convido os interessados a entrar na discussão. É aí que eu colocaria o estudo da gramática. Assim como a
biologia revela alguns aspectos da estrutura e do funcionamento
dos seres vivos, assim como a geografia leva o aluno a conhecer
Em primeir~ luga.r,é necessário redefinir os objetivos da dis- o planeta onde vive, a gramática lhe traria algum conhecimento
ciplina. Vamos parar de prometer coisas .que não podemos cum- da linguagem, esse maravilhoso e complexo mecanismo qlle lhe
prir: vamos reconhecer de vez que estudar gramática não é um dos permite comunicar-se com seus semelhantes. Em uma palavra,
meios (muito menos o meio) de se chegar a ler e escrever melhor. deve-se estudar gramática para saber mais sobre o mundo; não
para aplicá-la à solução de problemas práticos tais' como ler ou
54
55
/., - - - .-.::... -
•••
MÁIIIO A. PEII/NI

cscrever melhor. É assim que sugiro que seja reformulado o


objetivo do estudo de gramática na escola.

Mas, tal como um professor de biologia nunca determina como


d,',l't'.rl'!" a natureza, o professor de gramática ted de deixar de lado

a prclcnsão de determinar como devc ser a língua. Um biólogo


7. As (. AVATAS PI: MÁRIO OlllNT/\N,\
(nõo bta saber uma Hngua para entendê-Ia)
niio diz que "os insetos dto'W111 ter seis pernas (e o que tiver dnco
ou sele est:í errado)"; c1ediz, simplesmente, que os insetos têm /

seis pernas, e pronto. Para ele, simplesmente não faz sentido per- /

guntar o que é o "certo": insetos com seis pernas ou com oito?


A natureza é como é, não como os biólogos mandam.
Da mesma forma, o gramático vai precisar aprender a dizer
o que a língua é, não o que (segundo ele) deveria ser. Em vez de
dizer, por exemplo, que "o certo'; é chimpanzé, e que chipanzé é
errado, terá de procurar primeiro qual é a forma efetivamente
usada. No m:íximo, poderá dizer que a forma chimpanzé se A resposta parece bastante b .a: transmitimos idéias usando
cncontra ainda cm alguns textos escritos (do tipo mais conser- a língua. Assim, se vou passa (lo na r a e vejo uma avestruz (diga-
vador), mas que, para a maioria dos f.1lantes (e escreventes), a mos que seja uma rua mui pcculiar,. noe o tdfcgo de aveStru-
lill'lIl:1l:I"bi/'illl':.I': () l)tIl.dc vai precisar aprender pode ser colo- zes é intenso), digo ao J eu amigo: O/~. /ti 'lIai uma tl'l'I"J/mz,
cado CIIIuma ünira 1i-asc:1I HllgUil / (omo l~ l1áo (omo deveria ser. Com:isso, trans;nito de erminada inti.mll;~:10 ao llIeu amigo; Clll
outras pa Iavras,
' pass para a mcnte lf c outr~l \ pcssoa lima lt . I"cla
que est:\va original ente em minha mente. \.
Finalmente, é claro que precisamos de melhores gramáticas: Para isso, evid ltemcnte, é preciso que as uuas pcssoas cm
mais de acordo com a linguagem atual, preocupadas com a des- questão conheça a mesma língua; qUf ambas chamem aquele
crição da língua e não com receitas de como as pessoas deveriam animal des.yeita de avestruz (e não autn :he, ou sh"uzzo, ou .fIram);
f:llar e escrever. E, acima de tudo, precisamos de gramáticas que que ambas sai m utilizar os verbos olh.:r e ir, e assim por dian-
.(aram Jentido, isto é, que tenham lógica. Q!Je as definições s<:;am te. Uma vez' so arranjado, as duas pessoas se entenderão. Para
l"Ompreensíveis e que sejam respeitadas em todo o trabalho. Se que as pess as se entendam, é necessário - e suficiente _ que
filIem a n sma língua.
cu digo que uma vaca é um animal de quatro patas, não tenho
o dircito de afirmar que l\Jimosa é vaca porquc tem manchas no É i o mesmo? Veremos que não. Na verdade, para quc se dê
lombo. Por que isso seria permitido em gramática? a co preensão, mesmo em nível bastante elementar, é neccs~,:írio
que as pessoas tenham muito mais em comum que silUp1csrnçn-
- em uma palavra, mais espírito crítico. Só assim I<>derá
o ensino da gramática proporcionar um campo para o
exercício da argumentação e do raciocínio, contribuindo
para a formação intelectual dos estudantes.
: A leitura deste livro não pressupõe treinamento espe-
cí~ico em Lingüística. Os termos técnicos utilizados são Introdução
d~finidos no próprio texto, ou no vocabulário crítico final.
E~ige-se apenas conhecimento da gramática tradicional e
uma mente aberta para a discussão de seus fundamentos.
Isso não significa que o texto seja sempre fácil de ler. Há
complexidades inevitáveis, em especial nos pontos em que
a perspectiva adotada difere mais profundamente das idéias
tradicionais. Mas certamente ninguém ignora a grande
complexidade da linguagem humana, nem o estado de igno-
rância em que nos encontramos a esse respeito. Aqui, Todos concordam que é necessário descrever a língua
como em toda a parte, fugir ao problema não é maneira em novos moldes. Antes, porém, de iniciar o trabalho,
de começar a resolvê-lo. A tarefa. que nos espera é longa será preciso chegar a um acordo sobre que moldes serão
e difícil; mais uma razão para que não a adiemos. esses. Lembremo-nos de que se trata de preparar uma
Alguns amigos me ajudaram na realização deste tra- gramática pedagógica: isso significa que uma das tarefas
balho, de diversas formas. Em especial, mencionarei Mary a enfrentar é a de selecionar (ou, mais provavelmente,
Kato, Jânia Ramos e Milton do Nascimento. A eles, e aos inventar) uma linguagem para transmitir os resultados da
demais, meu muito obrigado. investigação lingüística das últimas décadas sem, por um
lado, falsificá-los, nem~ por outro, tornar o texto inacessível
a quem não seja um lingüista profissional.
:E: evidente que alguma "falsificação" será inevitável,
na forma de simplificações, na forma de soluções inseguras,
apresentadas ao lado de soluções bem fundamentadas, na
forma sobretudo de uma certa escassez (nunca ausência
completa!) de argumentação polêmica. Creio que essa si-
tuação é não apenas suportável, mas indispensável. Certa-
mente é assim que procedem os autores de textos de Física,
Biologia ou Sociologia: ninguém tenta colocar já no pri-
meiro momento, ou em textos dirigidos a não.,.especialistas,
todas as complexidades da teoria, ou toda a confusão das .
discussões acadêmicas. O objetivo é, antes de tudo, comu-;~;i;,::>
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10
11
nicar resultados, deixar entrever métodos e evitar dar a
impressão de que a disciplina é um conjunto de princípios dos. estudos lingüísticos. Parece-me indicado fazer da des-
fixos e universalmente aceitos. crição formal (morfossintática) a linha mestra da descri-
ção, e apenas nesse aspecto se tentará dar uma visãfl
Dentro das linhas acima indicadas, o primeiro pro-
razoavelmente abrangente da estrutura da língua. Quanto
blema é a escolha do arcabouço teórico a ser adotado. ];:
desejável neutralizar, tanto quanto possível, os grandes ao componente semântico, será preciso estabelecer metas
problemas não-resolvidos da teoria lingüística moderna; mais modestas: ele será esboçado, procurando-se generali-
apresentar-se-á, assim, uma visão propositalmente super- zações, mas sem oferecer propriamente um conjunto estru-
ficial, que permita a tomada de um "panorama geral" turado. A semântica terá de ser, a rigor, uma espécie
aceitável para muitos lingüistas. Como um exemplo, tome- de antologia de apêndices à descrição gramatical. Não
vejo inconveniente nessa solução, que me parece a melhor
mos o problema fundamental da relação entre estrutura
nas atuais circunstâncias.
observável (superficial) e interpretação semântica (o signi-
ficado). Há no momento algumas dezenas de soluções Já que convém, dados os objetivos pedagógicos da
concorrentes, todas insuficientes, para esse problema; opt.ar gramática, conservar tanto quanto possível a linguagem
por uma delas, arbitrariamente, seria pretender que todos tradicional, faz sentido iniciar a discussão explicitando os
aprendessem os detalhes de um modelo (com todo o tra- pontos fracos da doutrina ~'r~matical vigente. Procurarei
balho que isso implica) sem nenhuma garantia de que isolar neste trabalho as grailq,es questões básicas que não
seja, ou venha a ser, um modelo predominante em Lin- são adequadamente tratadas' dentro da gramática tradi-
güística (isso se deve exigir, é claro, de lingüistas profis- cional (de agora em diante, abreviadamente GT). Minha
sionais; mas nunca de professores de línguas, cujo inte- abordagem é teórica: preocupo-me em explicitar as crenças
resse em Lingüística, embora grande, é instrumental). e princípios gerais que subjazem à prática da análise. Nisso
o presente. trabalho contrasta com a maioria das obras
Creio que existe a possibilidade de uma solução de
correntes; com efeito, é incomum discutir-se as bases teóri-
compromisso segundo as linhas seguintes: incluiremos na
gramática uma dupla descrição, a saber (a) uma descrição cas da GT: a maior parte dos trabalhos se concentram
na análise de problemas específicos (uma rara exceção é
em termos formais da estrutura sintática superficial; e (b)
Hauy, 1983). O resultado, como tentarei mostrar, é uma
uma descrição de aspectos da interpretação semântica,
gramática construída sobre um caos teórico, não sendo
colocada, na medida do possível, em paralelo com a' des-
de admirar que ela seja também caótica.
crição silltática. No caso da sintaxe e da morfologia,
far-se-á um esforço no sentido de preservar, onde possível, Antes, gostaria de fazer uma advertência: nosexem-
a nomenclatura tradicional. Já no caso da semântica não plo~ aqui citados não é minha intenção acusar os autores
vejo como isso possa ser feito, dada a inexistência pura das gramáticas atuais de incompetência ou de falta de
e simples de uma terminologia semântica minimamente honestidade intelectual. Eles são, e creio que muitos deles
coerente dentro da gramática tradicional. o reconhecem, vítimas de uma tradição que fez da tarefa
Q graudeexaustividade desses dois componentes será do gramático pouco mais do que uma compilação estéril.
K:':"'~,é:(_". necessaria~:~!e;:.~u.ito diferente, em vista do atual estado
Acontece que, até bem recentemente, havia po,uca alter-
nativa fora dessa linha; faltavam trabalhos de ?nális~l dn .1 ...

~~~tld,;.i,.:.aQiI!,~
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13
língua feitos sobre bases sólidas, e os próprios princlplos
Já aqui se desrespeita a definição dada algumas pági-
da Lingüística moderna eram, por assim dizer, privilégio
nas antes. Se é que existe sujeito indeterminado, ele deveria
de uns poucos eleitos. A partir do grande desenvolvimento
ocorrer nos casos em que se desconhece o ser sobre o
dos estudos lingüísticos no Brasil que presenciamos nos
qual se jaz a declaração; afinal, a definição de sujeito só
últimos anos tornou-se possível pensar realisticamente na
menciona essa característica dos sujeitos. No entanto, (2)
elaboração de uma alternativa à gramática usual. A crítica
está formulada como se o sujeito tivesse sido definido em
aqui feita, portanto, é uma crítica à gramática, não aos
gramáticos. termos de quem pratica a ação.
A gramática, nesse ponto, é inconsistente, ou pelo
menos incompleta (não menciona a presumível conexão
Um exemplo entre o sujeito e o ser que pratica a ação). E esse não é
um caso isolado; é um exemplo dentre muitos, decorrências
Voltemos agora ao nosso tema principal. Uma defi- de uma atitude muito generalizada de falta de um esforço
nição comum de "sujeito" é a seguinte: teórico constante. Ao se enunciar uma afirmação grama-
tical como (2), é preciso estar consciente de certas cren-
(l) "O sujeito é o termo sobre o qual se faz uma
declaração". (CUNHA, 1975, p. 137.) ças que subjazem à afirmação; no caso de (2), está sub-
jacente a crença de que o sujeito exprime o nome do ser
A partir dessa definição podemos tirar um exemplo
que pratica a ação. O esforço teórico a que me refiro
da pouca consistência da GT. (1) é a única definição de
consiste em tentar conciliar essas crenças subjacentes em
sujeito dada na gramática; é de se esperar, pois, que ela
um corpo doutrinário logicamente consistente - uma tcoria
reflita a noção de sujeito válida para toda a análise. Quero
g~amatical. E isso falta na GT.
dizer: no momento em que apresentamos (l) como a
definição de sujeito, assumimos o compromisso de mantê-Ia . Se tivesse de apontar a grande falha fundamental da
como a definição de sujeito em toda a gramática. Em nossa tradição gramatical, eu escolheria justamente essa: a
outras palavras, o termo "sujeito" corresponde a uma no- a"usência de conscientização adequada do importe teórico
ção unificada e consistente, à qual as regras gramaticais das afirmações que constituem a gramática. Esse problema
podem fazer referência. De outra maneira, para começar, está na raiz do divórcio entre a doutrina gramatical, tal
não se compreenderia a necessidade de definir sujeito. como explicitada em definições como (1) ou (2), e a
Ora, logo adiante na mesma gramática, encontramos prática da análise, tal como se observa quando um exem-
a afirmação seguinte: plo concreto é considerado (ver a seção 2). E está na
raiz também da baixa qualidade de nossas descrições gra-
(2) "Algumas vezes o verbo não se refere a uma
maticais. No momento em que assumimos a responsabili-
pessoa determinada, ou por se desconhecer quem
dade de vincular nossa análise, e toda ela, a uma teoria
executa a ação, ou por não haver interesse no
geral do funcionamento da língua, os defeitos ficam evi-
seu conhecimento. Dizemos, então, q~e o sujeito
dentes para qualquer um. Como disse acima,. somos todos
é indeterminado". (CUNHA, 1975, p. 141.)
vítimas de uma tradição defonnada; e sua maior defor-
14

mação é precisamente o tipo de irresponsabilidade teórica


que acabamos de ver.
A tarefa de fazer a nova gramática principia, por
conseguinte, por uma conscientização das deformações da
2
doutrina e da prática gramaticais. Nesse trabalho não pre-
tendo restringir-me à crítica, tão freqüente e sempre fácil
Doutrina explícita
demais, da GT; mas vou começar pela crítica, tendo a
preocupação de isolar os grandes problemas gerais. Espero
e doutrina implícita
que a partir daí seja possível começar a colocar novos
,alicerces, com o objetivo de construir algo de novo no
lugar do que for eventualmente descartado.

Voltemos à definição de sujeito, a saber:


(l) "O sujeito é o termo sobre o qual se faz uma
declaração" .
'" Já vimos que, em outras passagens da gramática, uma
outra definição de sujeito (o termo que denota o ser que
pratica a ação) aparece debaixo do pano. Agora vamos
examinar alguns exemplos concretos de análise. Digamos
que se peça a uma pessoa gramaticalmente treinada para
identificar os sujeitos das orações abaixo:
un Carlinhos corre como um louco
( 4) Carlinhos machucou Camilo
(5) esse bolo eu não vou comer
(6) em Belo Horizonte chove um bocado
Ela dirá que o sujeito de (3) e de (4)né Carlinhos; o de
(5) é eu; e (6) não tem sujeito. Essas análises estão de
acordo com a prática corrente, e creio que são de aceita-
ção universal. Mas até que ponto se harmonizam com a
definição (l), também geralmente aceita? É surpreendente
verificar como são numerosos os choques entre a definição
e a análise. Em (3) pode-se dizer sem problemas que a

'!~
"~
.. ~ . ...... .... ...
.. ,i&.ê:".,,"'~?~.-;.h,.~<L.,
•.••••••
.. ...
, .é.•••••••
. ... .
"• ~ •• '•••••• e ••. .. ~,
~
••• 'I,
~,''-
17
oração veicula uma declaração sobre Carlinhos, e sobre
ninguém mais: Já em (4) isso não fica assim tão evidente: facilidade em citar (l) quanto em encontrar o sujeito de
não haverá aí também uma declaração sobre Camilo? (5) ou (6). Essas pessoas dirão que o sujeito de (5) é
Quando chegamos a (5) a situação se torna ainda mais eu e dirão que (6) não tem sujeito, em geral sem per-
desconfortável: como defender a tese de que (5) é uma ceber que isso não pode ser feito com base em (1). ,.
afirmação acerca de mim, e não acerca do bolo? Final-
Tudo se passa como se a aprendizagem. da. gra~atlca
mente, (6), que é uma oração sem sujeito, necessariamente envolvesse duas tarefas não-relacionadas. Pnmelro, e 'p~e-
(segundo a definição) não deveria estar declarando nada ciso aprender, entre outras coisas, a identificar .0. s~Jelto
sobre coisa alguma; no entanto, (6) exprime claramente de uma oração; depois, é preciso aprender a. ~efmlç(~ode
uma declaração sobre Belo Horizonte.
sujeito. Mas note-se: a identifica~ão dos sUjeitos nao se
Isso exemplifica uma contradição bastante clara entre faz com base na definição apre~dlda; faz-se com .base em
a definição explícita de sujeito e a prática de identificação alguma outra definição, nunca exteriorizad~, mas mcga;-cl-
de sujeitos tal como se encontra quando da análise de mente existente (por que senão, como exphca~ o al.t~ Dlvcl
casos concretos. Tais contradições são, em geral, toleradas, de coincidência entre as diversas pessoas ao IdentlfIc~rem
e mesmo ignoradas, por aqueles que trabalham com a GT. os sujeitos das orações?). Aprende~?s (l), mas. nao a
A razão para isso é, a meu ver, a seguinte: existe na ver- levamos a sério. Identificamos o SUJ~ltOda man~lra que
dade uma dualidade de doutrinas gramaticais dentro do sentimos ser a mais adequada, mUlto embora ISSOnos
que chamamos gramática tradicional. Uma dessas doutrinas coloque em choque com a D~Ex., de ~~e (l) é uma parte.
está expressa, mais ou menos, nas gramáticas usuais. Essa Ou seja, aprendemos a identIfIcar o sUjeIto apesar do n?sso
doutrina (a que podemos chamar "doutrina gramatical conhecimento da DGEx. (que aqui nos aponta um qlml?ho
explícita", ou DGEx.) é que inclui definições como (1), que não seguimos), e não por causa dele.. Para expl~car
acima, que conceitua o sujeito como o termo sobre o qual esse fato, postulo a existência de uma doutrm.a. gramatical
se faz uma declaração. Sabemos, porém, que as mesmas implícita (DGImp.), que não é nunca explICitada, ne~
pessoas que propõem ou aceitam tais definições não as reconhecida como existente, mas que na verdad~ gUla
seguem na prática. Quando enfrentam a tarefa de encon- nossas decisões dentro da prática da análise gramatl~a.J._
trar o sujeito de uma oração, sempre analisam orações De acordo com essa doutrina implícita, a. defmlçao
com chover como não tendo sujeito, muito embora, como de sujeito não pode ser. (l). Qual. ~e~a , e I a, entao.
- ? No
vimos, tais orações possam perfeitamente fazer declarações momento, não disponho de uma defmlçao realmente c?m-
sobre aIguma coisa.
pleta e adequada a todos os casos; mas acho que a segumte
S que. existe aqui, subjacente a essa análise, uma é uma aproximação:
outra definição de sujeito; que aplicamos quando quere-
mos encontrar o sujeito de uma oração.' E importante , (7) Sujeito é o termo com o qual o verbo concorda.
A prática gramatical observada sug.e~e que. (7) seja,.
frisar que essa definição implícita é tão bem conhecida,
embora em nível não-consciente, quanto (1). Se tomarmos
I
I
pelo menos, parte da definição de sUjeIto :x~stent.e. na
DGImp. Com efeito, (7) nos permite não so Identlfl,car
algumas pessoas com instrução gramatical, elas terão tanta

I Carlinhos como sujeito de (3) e de (4), mas ta~bem,


inequivocamente, eu como sujeito de (5). Já (6) nao tem
18

19
sujeito porque o verbo n- d
terinos da oração. ao concor a com nenhum dos
fenômeno". O professor poderá responder que não, que
em (8) os diamantes "praticam a ação de brilhar". Ora,
.E~ ~esumo: a prática dos estudos gramaticais revela
a eXJstencla de ~uas doutrinas, a DGEx., que é "oficial- tais respostas acabarão nos levando a uma definição do
mente reconhecIda" e explicitada nas gramáticas e a tipo "ação é tudo aquilo que se exprime por meio de um
D~I~mp., n~nca explicitada, mas que realmente subjaz à verbo" - o que esvazia a definição de verbo como palavra
analIse realIzada. Essa não é uma descoberta nova. Creio que exprime ação, pois a reduz a uma tautologia.
que Jespersen se refere a esse fenômeno quando afirma: A atitude de "dono da verdade" se observa, por
exemplo, quando o professor define o sujeito como "aquç!c
~('.' ,) o gramático treinado sabe se uma palavra dada é um
que pratica a ação". Se o aluno objetar com um exemplo
d/etlvo ou um verbo não por se referir a tais definições como:
mas praticamente da mesma maneira pela qual todos nó;
ao vermos um animal sabemos se é uma vaca ou um gato" (9) Marília foi perseguida por um São Bernardo
(JESPEASEN, 1924, p. 62.) .
onde Marília não pratica a ação, o professor poderá re-
trucar: "Ah, mas aí 'é voz passiva". Ou sejá, a definição
de sujeito dada não está completa; na verdade, a definição
Incoerência e autoritarismo nunca será completada, de maneira a proporcionar sempre
um. caminho de fuga a contra-exemplos embaraçosos. As
A -,?GEx. e a DGlmp. só coincidem em parte; há conseqüências da exposição dos alunos a essas situações
~rand:s. areas em que elas entram em choque. No entanto /
não podem ser favoráveis nem à sua formação intelectual.
•IS analIses levadas a efeito (com base na DGlm ) _' nem ao seu respeito pela matéria .
usualmente justificadas com base na DGEx O P'lt sdao
como não d' d' . resu a o, Aquilo que desejamos, como professores, é evidente-
. po la elxar de ser, é um discurso incoerente mente uma boa gramática da língua, não uma explicitação
que ?J~I.tas vezes força o professor a assumir . _ '
autontanas ou de "dono da verdade" pOsJçoes da DGlmp. -.- que, embora quase sempre mais correta do
nega d 'd
A
' - por exemplo que a DGEx., está longe de refletir uma análise coerente
,n o a eVI encla, ou então dando a entender ao alun~ da estr!Jtura da ~Íngua. Mas essa explicitação da DG Imp.
que c/e, professo.r, é detentor de conhecimentos mais avan-
pode ter valor educativo, porque nos põe em guarda con-
çados, qu: permItem a solução das incoerências presentes
tra situações como a atual: a convivência pacífica com con-
mas que sao por demais esotéricos para que o aluno a ele~
possa ter acesso. tradições gritantes. Uma formação gramatical intelectual-
mente sadia só pode ser atingida através de um exame racio-
ym exemplo de negação da evidência temos quando nal e rigoroso do fenômeno da linguagem e da estrutura da
um a uno aponta (corretamente) que brilham, em: língua, nunca através de princípios desconexos e, o que é
(8) os diamantes brilham mais que os t ,. pior, ministrados dentro de um esquema de autoridade. Mas
ex '. opazJOs
i m::~,~e uma ~uahdade: e não uma ação, estado ou fenô- isso pressupõe a existência de uma teoria gramatical que
" logo, nao devena ser considerado um "verb " possa di.i-igir o esforço de análise e compreensão do fun-
e que verbo '" I o , se
e a pa avra que exprime ação, estado ou cionamento da língua. E antes de ser possível trabalhar
com essa teoria, será preciso desenvolver (nos alunos e

~ ~".JiIl ••• 1'1


i" 'li' fi '" C'\, r), -. ) , , -" , , , ,
MÁRIO A. PERfNI

6. SOFf\[NDO A GRAMÁTICA

Será que um professor de história poderia dizer a um aluno que


Sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração. (p. 119)
havia índios no Brasil porque assim é que é o certo? Será que,
na aula de física, se pode dizer que os corpos se dilatam como Muito bem, isso nos diz com certa clareza o que é um sujei-
calor porque é assim que está no livro? .to. Mas a própria gramática não respçita a definição. Em outras
Essa situação é que eu tinha em me1,ltequando disse que a passagens, os autores chamam de "sujeito" outra coisa, que não
atitude diante da matéria é inadequada. O professor e o aluno de é aquilo que foi definido com esse nome. Assim, na página
geografia entendem a matéria como o estudo de um aspecto da 125, dizem:
organização do universo; no c~so, a estrutura do nosso planeta,
Algumas vezes o verbo não se refere a uma pessoa determina-
o modo pelo qual está ocupado pelos seres vivos, sua divisão em
da, ou por se desconhecer quem executa a ação, ou por não haver
unidades políticas etc. Mas o es~do de gramática não é, na cabe-
interesse no seu conhecimento. Dizemos, então, que o JUjeito é
\';\ deles, o estudo de um aspecto do universo: é apenas uma série indeterminado.
de ordens a serem obedecidas, porque é assim que é o certo. Será
de espantar que pouca gente se interesse? Mas o que tem a ver o sujeito com quem pratica a ação? O
sujeito não é o ser sobre o qual se faz uma declaração? Devería-
mos ter sujeito indeterminado quando não se sabe, ou não se quer
E, além do mais, a matéria carece de organização lógica. Mas dizer, sobre quem se faz a declaração. Mas aqui o autor simples-
note-se: não estou dizendo que a gramática não tem lógica. Falo mente pulou para OlItra concepção de sujeito, sem nem sequer
da matéria que se ensina nas escolas como nome de "gramáti- avisar: sujeito seria o,.elemento que pratica a ação,
ca"; não da gramática enquanto disciplina racional. Na página 122, encontramos a frase:
Essa é uma acusação séria, e evidentemente é preciso justi-
Q!Iem disse isso?
ficá-Ia amplamente. Aqui ~()u dar só um exemplo, que dev,e ser
suficiente para deixar o leitor com a pulga atrás da orelha. Q!Iem e o pronome quem vem marcado como sujeito. Mas qual é a decla-
quiser maiores detalhes poderá dar uma olhada, por exemplo, ração que se faz sobre quem? Aliás, essa frase, que é uma per-
na obra de Amini B. Hauy, Da necessidade de uma gramática- gunta, nem sequer contém uma declaração. Logo, segundo a defi-
padrão da Ifngua portuguesa (Ática, 1983), ou no meu livrinho nição dada, não deveria ter sujeito, pois nela não se faz declaração
Para uma nova gramática do português (Ática, 1985). sobre coisa alguma. Novamente, o autor desrespeita a definição
Encontramos em uma das gramáticas! portugue~as mais que ele mesmo deu.
conhecidas, a de Celso C~nha e Lindley Cintra \ a seguinte Vamos à página 126; ali se encontra a frase:
definição de sujeito:
Na sala havia ainda três quadros do pintor.
-----
I E$tou tomando a ohra de Cunha e Citllra como exemplo; mas qualquer das gramáticas I Essa frase é dada como sem sujeito. Não há dúvida de que
atualmente utilizada$ tHlSescola$ apresenta os meSJJ1()$defeitos. Os autores de gramáticas
$ilo anll'S \'ítimas de urna tracliçiio do l]ne l'ull'al!os dda. essa frase contém uma declaração; mas será uma declaração sobre
nada (já q~e não há sujeito)? Será possível fazer uma dedar:.'}.ção
",\"
~.
la" .S\"',tt ~,Jum i ,. .

em nós mes~os) a atitude intelectual conveniente" eXIgI-


remos de ' , . \
, nos mesmos. um mvel de rigor e coerência do
qual os estudos gramaticais tradicionais estão muito longe"
e nos colocaremos diante do objeto de estudo não com~
meros r,e~eptores. de conhecimentos já produzidos, mas
3
como CrIticas e cnadores de conhecimento novo. Nenh
mudança no
d d
t' d uma
con eu o conceptual da disciplina terá utili-
T és problemas básicos I
a e sem essa mudança de atitude .
.Acredito que a tentativa de explicitação das desar-
mamas entre ,I?G~x, e DGlmp" assim como os outros
a~pectos, d.a cntJca a gramática tradicional (ou à gramática
nHo-tradlclonal, bem entendido') é um 'uh
. - d' . caml o para a
c~!açao e um tIpO de atitude que permitirá à nossa disci-
p ma ser realmente útil na formação intelectual dos
estudantes.
Vamos agora e a 'nar com algum detalhe três tópicos
que devem ser esclar idos e explicitados antes de se em-
preender qualquer n ativa de renovação da gramática.
E~es tópicos são: a rei São entre o aspecto semântico e
o aspecto formal a linguà~em; a definição de "paradigma
gramatical"; e a istinção en\re ciasses e funções. Esses três
pontos me par cem particula\mente relevantes, razão pela
qual optei p tratá-los em pdsição de evidência nas pró-
\
ximas subse ões. \.
\ \.
\
\
I e o semântico
mo seria uma "boa" gramática do português?
Ideal ente, ela deveria desempenhar a contento duas fun-
çõe : (a) descrever as formas da língua (isto é, sua fono-
logia, sua morfologia e sua sintaxe) ; e (b) explicitar o rela-
cionamento dessas formas com o significado que veic
Esses estão entre os objetivos de qualquer gramática, a
que nem sempre estejam claramente formulados. ou berr
_ ... :,

.,. .. '

mente' se"choca com ;a-tobje,çãºt~_ _.p,R~ª;íy~I:;é indispen-


sável continuar', trabàlIi~ndo-_~-tóm;~tuiiia~~:grároáticacujas
deficiências são evidetit~~:f~f~i~~;iííã~'~;êxi~te;
,Qutra que se
possa utilizar. 'i Z;L<-;,'_:)~n~>- _ - " _
Não que nãohajà-)teséó~lt~ntameÍlto em todas as
áreas interessadas:-os;;ptõtêssÔres~:ts~ntem que a doutrina
gramatical é ultrapassarla,inê6êrê'nte e muitas vezes sim-
plista até a ingenuidade;\cisaiuilos .tendem a desencan-
tar-se de uma discipliná que -s6nem a oferecer-lhes um
conjunto de afirmações aparentemente gratuitas e sem gran-
de relação com fatos observáveis. Na sala de aula, às
vezes o único refúgio são as atitudes autoritárias, quando
ti professor não se sente em condições de liderar discussões
verdadeiramente racionais sobre gramática .
..•-
• ~;------
I
i
, I
-:;-

,"I"')~..i I L .~.
."' ••. ,~."!\, .1' '..;n.~
'.:,.:.,,J';.:.;;;\i, ';,p' ,' _ 7
"'," '~~".' o/f;,",,'/ - ------------------------
~'',:':~"rp.<t::'
:;;~,i'l1;Q~~.~ Ora, não se pode esperar do professor de Português, os que me parecem ser as .grandes falhas da doutrina
,~tlt.~Yl~./ por mais bem formado que seja, que vá elaborando sua gramatical vigente. Em cada caso, parto de uma crítica
.~.>\~~\
~i:'.~?lft~
:11";, dl.t\'!.'.'
'j' gramática à medida que se desenvolve o curso; ele é um
profissional do ensino, e não um lingüista: não tem o
treinamento (nem o tempo) para levar a efeito pesquisa
.'
da posição tradicional; em seguida, proponho as linhas
gerais de uma solução. O resultado, espero, contribuirá
para dar idéia de uma proposta para uma nova gramática
;);1:; ~~t~?::: tão longa e complexa. A responsabilidade deve cair, sem do português.
~~"J , 'f.I~;.~i~;':';/ dúvida, sobre os pesquisadores da universidade, das áreas Para isso, foi necessano abordar certo número de
: T~Wlí!.~jj~\, de Lingüística e de Língua Portuguesa: a esses cabe a questões teóricas. Com efeito, é minha opinião que, se
;, :;tl~~:"Y;';1' : . obrigação de criar a nova gramática. a gramática tradicional está em tão mau estado hoje em
.;~:~~~Lf~'~'~: As falhas da gramática tradicional são, em geral, re- dia, isso se deve em grande parte a uma injustificada timi-
,!'.i~if..i~"'f"; sumidas em três grandes pontos: sua inconsistênc:ia teórica dez em abordar os problemas graD1aticais dentro de uma

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todas as outras variantes. Todos os três pontos merecem das questões reais de análise gramatical. Neste livro, parto
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como base para o ensino quando os três estiverem devida- há, simplesmente, esperanças de se chegar a uma prática

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';';.:~~H~;:;:'i tando o dialeto padrão como uma das possíveis variedades O presente trabalho é parte de um projeto maior,
..~~~~~9~;:.:.~i" da língua, adequada em certas circunstâncias e inadequada que espero levar a efeito nos próximos anos, de elabo-
":rtl't;:..1;',::.' em outras (é tão "incorreto" escrever um tratado de Filo- ração de uma nova descrição do português padrão (uma
.'.':;~!{'.S\. sofia no dialeto coloquial quanto namorar utilizando o nova .gramática portuguesa). Mas a publicação da nova
:{1.i/;1~1.t:. dialeto padrão). Depois, a gramática deverá descrever pelo gramática, em si, cairá no vazio se não se fizer acompanhar
;'~~1l~~I~~;iJ:~;Ti' menos as principais variantes (regionais, sociais e situa- de um amplo debate sobre os fundamentos do ensino
';ht:~L'~
..:,./ donais) do português brasileiro, abandonando a ficção, gramatical: seus objetivos e as maneiras de atingi-los. Este
. ~~~~;l'rr~~~ cara a alguns, de que o português do Brasil é uma entidade livro deve, pois, ser encarado como um convite à discussão
",'::'.::
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:~t".;:l.'~.'~.;: simpl~: e :omo,gênea•. ~ina!~ent~, e. acima de t~dtO'
. grama Ica evera ser SISema Ica, eoncamen te consls en e
t dos grandes traços de urna ,nova gramática portuguesa,
que possa servir de apoio à rennvaçãn do ensino grama-
! "'1 i :In. e livre de contradições. tical entre nós. Mais do que a substituição de uma. doutrina
~ ,i ~~A;/ :£ este último aspecto do planejamento da nova gra- gramatical por outra (o que seria de utili~ade qpestioná-
L'\ 'i.i~:.!~~:: mática que nos ocupará aqui. Como é inevitável em um vel), creio que se deve almejar a criação delnovas;atitudes,
k)~~'l
r!óÍ,\:' livro tão pequeno, fui obrigado a selecionar alguns assun- caracterizadas por 'maior responsabilidade Iteárie:a, maior
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,t~s,deixando o~t~s de lado; portanto, tomei comotápicos ,_ rigor de raciocinio, libertação do argume~td da at°n,d~d~
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I
.e... Termosda oração
Maria Eugenia Duarte

Uma das dificuldades enfrentadas pelos que buscam entender a estrutura da


oração com base nas 'gramáticas tradicionais é a forma pela qual se distribuem os
chamados "termos da oração". A clássica tripartição desses termos em "essenciais",
"integrantes" e "acessórios" não contribui para uma visão das relações entre os
constituintes da oração, além de induzir o aluno a pensar que os chamados termos
"essenciais" são mais importantes do que os demais. À imprecisão resultante do uso
de tais adjetivos alia-se a falta de complementaridade entre os termos que compõem
cada um dos três grupos: o "predicado", por exemplo, é um termo "essencial",enquanto
os complementos verbais, que fazem parte do predicado, são termos "integrantes".
Finalmente, os grupos apresentam elementos que se situam em diferente~ níveis da
hierarquia sintática: os complementos verbais e nominais, de um lado, e os adjuntos
adverbiais e adnominais, de outro, classificados entre os termos "integrantes" e
"acessórios", respectivamente, reúnem "termos" ligados ao verbo e ao nome. Como se
vê, essa forma de distribuir os termos da oração não contribui para o entendimento
das relações gramaticais que se estabelecem entre eles. .r:

Além das dificuldades expostas, de caráter estrutural, temos dificuldades de


ordem conceitual. É conhecida de todos a crítica que Perini (1985) faz às definições
das gramáticas tradicionais, que misturam critérios semânticos e sintáticos. O autor
é firme ao criticar a inconsistência de uma definição que prega ser o sujeito "o ser

~I
Termos da oração 187
186 Ensino de gramática

"predicado". Por que será que a gramática tradicional (GT) classificaos predicados em
sobre o qual se faz uma declaração", quando a própria gramática nos diz que há
"verbais", "nominais" e "verbo-nominais"? É justamente porque neles se encontram
orações sem sujeito. Quanto ao predicado - "tudo aquilo que se diz do sujeito" -,
os elementos que projetam os constituintes centrais da oração, incluindo o próprio
como aplicar a definição, se há orações sem sujeito? Uma simples investigação sobre
sujeito. A esseselementos chamamos "predicadores", que são responsáveispela estrutura
o uso da língua revela que essa bipartição da oração em "sujeito" e "predicado" (com
principal da oração. A classificação tradicional dos predicados decorre então do fato
tais conceituações) só tem sentido num context~ em que alguém, por exemplo,
de as orações exibirem:
pergunta "Cadê o João?" e obtém como resposta "O João emigrou para Portugal".
1. Um predicador verbal: pular, ocorrer, comprar, entregar, partilhar, morar.
De fato, na oração citada, "O João" é o termo sobre o qual se diz alguma coisa
("emigrou para Portugal"). Num contexto em que alguém pergunta "Quais são as 2. Um predicador nominal representado por um adjetivo - inteligente,
novidades?", qualquer resposta (como "O João emigrou para Portugal", "Chegaram as prejudicial - ou por um substantivo - professor.
encomendas", "Aconteceuum acidente") trará uma informação nova, que inclui o sujeito 3. Um predicado r verbal e um nominal simultaneamente.
gramatical e o predicado. Além do mais, nenhum de nós jamais usou essesconceitos para Esses predicadores selecionam normalmente um argumento externo (a que
identificar o sujeito e o predicado de uma oração ("Qual é o ser sobre o qual essa oração

9
chamamos sujeito) e, opcionalmente, argumentos internos (a que chamamos
diz alguma coisa?").Na verdade, ~as definições de sujeito e predicado que constam de complementos). Todas as vezes que tentamos identificar os termos de uma oração
nossasgramáticastradicionaissão as conceituaçõesde "tópico"e "comentário",que 0- que contenha um predicado r verbal, como, por exemplo, "oferecer", e perguntamos:
coincidir ou não com os elementos a que nos referimos como "sujeito" e "predicado". "quem oferece", "oferece o quê?", "oferece a quem?", ou dizemos "alguém oferece
Assim, numa sentença como "Corrida de cavalo,eu nunca fui ao jóquei clube" (N - , alguma coisa a alguém", estamos, na verdade, observando a estrutura argumental
o termo "corridade cavalo"é o tópico sobre o qual se fazum comentário "eu nunca fui ao projetada pelo predicado r ou, em outras palavras, estamos buscando entender qual é
jóquei clube". Em outra sentença - "A minha amiga Maria nunca foi ao jóquei pra ver a seleção semântica que esse predicador faz.
uma corrida de cavalo"-, o tópico "aminha amigaMaria" coincidecom o sujeitogramatical
da oração e o comentário coincide com o que chamamos predicado.
Assim, quando se tem como propósito descrevere entender a estrutura da oração,
Os predicadores verbais e seus complementos
é mais razoável olhar para o elemento nuclear que dá origem à oração, o "predicador", Os predicadores verbais podem projetar as seguintes estruturas:
e tratar o "sujeito" como um entre os vários termos articulados com esse predicador.
Neste capítulo, procuraremos refletirsobre os termos da oração levando em conta (1) Estruturas com três argumentos: a. Ele deu o dinheiro aoSpobres.
os níveis da hierarquia sintática, do mais amplo para o mais restrito, observando como b. Eu dividi o pão com os pobres.
esseselementos se organizam e se articulam. Procuraremos ainda interpretar o que está c. Eu levei as crianças ao colégio.
por trás das classitlcaçõestradicionais, reconhecendo o quanto elascontribuíram, apesar
de todas as críticas, para os estudos atuais sobre a sintaxe da língua. (2) Estruturas com dois argumentos: a. Ele matou o pássaro.
b. Isso interessa aos alunos.
c. Eles acreditam em você.
Confronto entre abordagem tradicional e d. Eles .!!!Q!:i!ill no Rio.

outras perspectivas (3) Estruturas com um argumento: a. As crianças pulam. , .,,~•.._


I-
b. Chegou uma encomenda. -
c._ Houve muitas festas. -r '/
Os núcleos da oração ou "predicadores"
Ao contrário do que costumam fazer as descrições tradicionais, que sempre (4) Estruturas sem argumento: Choveu
iniciam as lições de análise sintática pelo "sujeito", comecemos nossa reflexão pelo

. ;
Termos da oração 189
188 Ensino de gramática

Em (lc), finalmente, o segundo argumento interno'é um circunstancial,


As estruturas representadas em (l) apresentam um argumento externo, o sujeito
incluído pelas gramáticas tradicionais que adotam a NGB entre os adjuntos adverbiais,
gramatical "ele/eu" (que é regido pelo verbo, do qual recebe caso nominativo (ou caso
isto é, um termo acessório. Vemos, entretanto, que "ao colégio" em (lc) não é um
reto), e que tem aqui o papel semântico de agente, mas pode ter outros, como o de
adjunto, mas um dos complementos selecionados por "levar". Rocha Lima, mais
experienciador de uma ação, o de paciente etc.) e dois argumentos internos ou
uma vez, é o que mantém o estatuto de complemento para esse termo, classificando-
complementos. O primeiro argumento interno nas três estruturas é o termo classificado
o coerentemente como "complemento circunstancial" (que poderia ser também
como "objeto direto", um termo não regido de preposição que recebe do verbo caso
chamado de "complemento adverbial").
acusativo, tem o papel semântico de paciente ou tema e pode ser substituído pelo
pronome oblíquo (ou clítico acusativo) o(s), a(s):
(l c) Eu levei as crianças ao colégio I Eu levei as crianças @.

(la) Ele deu-Q / Q deu aos pobres.


Temos, conforme o exposto antes, um quadro que nos diz que um predicado r
(lb) Eu dividi-Q / Q dividi com os pobres.
verbal (o núcleo de um predicado verbal) seleciona no máximo três argumentos: o
(lc) Eu levei-.!!,l/ .!!,lleveiao colégio argumento externo, a que chamamos "sujeito", e dois argumentos internos: o primeiro
será sempre o "Obje~'reto"; o segundo pode ser um "objeto indireto", um
O segundo argumento interno tem características sintáticas e semânticas
"complemento relativo" o "complemento circunstancial". Veremos mais adiante uma
diversas. Em (la), temos um "objeto indireto", um termo regido de preposição
proposta mais resumida,. ara essa classificação. .
(em geral "a" na escrita padrão e "para"I"prà' na língua oral), cujo papel semântico
Passemos aos ~os que selecionam dois argumentos em (2). Temos em (2a),
é o de beneficiário, alvo ou fonte de uma ação, que tem geralmente o traço
"Ele matou o pássaro", uma estrutura muito freqüente na língua: um predicador
semântico [+animado] e pode ser substituído na escrita padrão pelo pronome
verbal que seleciona um argumento externo, "sujeito", e um interno, "objeto direto".
oblíquo (ou clítico dativo) lhe:l Como vimos em (la), o objeto direto é um termo que recebe caso acusativo, podendo
'.. ser substituído pelo clítico "o". Esse objeto direto (argumento interno do verbo) pode
(la) Ele deu-lhes / lhes deu o dinheiro.
aparecer na função sintática de sujeito, naturalmente sem perder seu papel semântico
:1 de tema ou de paciente da ação verbal:
.1 Os predicadores "doar", "oferecer", "entregar", "tirar", "trazer" etc. têm o mesmo
::1
comportamento sintático que o verbo "dar" em (la), isto é, selecionam três argumentos,
(2à) O pássaro foi morto.
sendo o terceiro um objeto indireto.
(là) O dinheiro foi dado aos pobres .
Em (lb), o segundo argumento interno, embora sempre regido de preposição,
(lb') O pão foi dividido com os pobres.
.li tem características sintáticas e semânticas diferentes das do objeto indireto: não pode
(lc') As crianças foram levadas ao colégio.
ser substituído pelo clítico "lhe", não tem o papel semântico de beneficiário, alvo ou
fonte e não tem necessariamente o traço [+animado]. A GT, com base na Nomenclatura
Observe-se que, nas estruturas anteriores, o argumento interno (objeto direto)
Gramatical Brasileira (NGB),1 classifica-o igualmente como objeto indireto. Rocha
passa a exercer a função "sintática"4 de sujeito (entrando em relação de concordância
Lima (1972), entretanto, distingue essa função, classificando o segundo argumento
com o verbo), mas mantém seu estatuto de argumento interno e seu papel semântico.
interno da estrutura como "complemento relativo":
O argumento externo ("ele") foi suspenso. Se o falante desejar, esse argumento pode
aparecer na estrutura em outra função sintática, precedido de uma preposição, um
(lb) *Eu dividi-lhes o pão' / Eu dividi o pão com eles.
termo a que a tradição gramatical se refere como "agente da passivà':

Fazem parte desse grupo verbos como "encarregar", "convencer", "persuadir"


(2à') O pássaro foi morto por ele.
etc., cujo complemento relativo aparece geralmente em forma de oração ("encarreguei
(là') O dinheiro foi dado aos pobres por ele.
o João [de fazer o relatório]"), ou ainda "transformar", "partilhar" etc.
.
,', -
190 Ensino de gramática
• Termos da oração 191

(l b") O pão foi dividido com os pobres por ele. semântica a que nos referimos como "temà', e pode aparecer' em posição pós-verbal,
(lc") As crianças foram levadas ao colégio por ele. quando é novo (indefinido) na oração, ou pré-verbal, quando é definido ("A encomenda
.::,' chegou"). Temos então dois tipos de verbos com um argumento: o primeiro grupo,
Passemos a (2b), em que temos um argumento externo e, como argumento que poderíamos chamar de intransitivo, que compreende um grande número de verbos,
interno, um "objeto indireto", que, tal como em (la), pode ser substituído pelo como "correr", "dançar", "trabalhar", "estudar" etc. e o segundo, classificado como
clítico dativo: "inacusativo" (isto é, um verbo que tem seu argumento único gerado na posição de
argumento interno, tal como um objeto direto, mas que não recebe caso acusativo;
(2b') Isso interessa-lhe / lhe interessa. daí o nome "inacusativo"):

Poucos são os verbos que se encaixam nessa estrutura. Entre eles estão os verbos (WgOU-ª'
"pertencer", "agradar", "telefonar". 5 (3b") Ela chegou.
A estrutura em (2c) mostra igualmente um complemento regido de preposição,
mas, tal como ocorre com o segundo argumento interno de (lc), ele não pode ser Desse grupo fazem parte verbos como "aparecer", "ocorrer", "surgir", "nascer",
substituído pelo clítico "lhe" e não tem necessariamente o traço [+animado], razão pela "morrer".6
qual não deve ser classificado como objeto indireto, mas como complemento relativo: Em (3c) temos um caso excepcional: um verbo que seleciona apenas um
argumento interno. As evidências de que esse complemento é um objeto direto vêm
(2c') *Eles acreditam-lhe / lhe acreditam. da impossibilidade de antepô-lo ao verbo e de lhe atribuir caso nominativo:?

Esse é um extenso grupo de verbos do qual fazem parte "gostar de", "desistir (3c)*Elas houve(ram).
de", "assistir à', "pensar em", "acreditar em", "sonhar com", "concordar com", "lutar
contra" e muitos outros. Finalmente, a estrutura em (4) nos mostra um predicado r que não seleciona
Finalmente, temos nesse conjunto os verbos do tipo ilustrado em (2d), qualquer argumento (externo ou interno). Fazem parte desse grupo os verbos relativos
compondo um grupo reduzido, que seleciona, tal como os verbos em (lc), um a fenômenos da natureza, como "chover', "trovejar", "nevar" etc., que constituem as
complemento circunstancial. Desse grupo fazem parte, além de "morar", os verbos nossas "orações sem sujeito".
"viver", "ir", "vir", "sair", sempre que relacionados a um circunstancial ("ele vive em Resumindo, os predicadores verbais podem projetar estruturas com até três
Roma", "ele foi a Roma", "ele veio de Romà', "ele saiu de casa"). argumentos. O argumento externo, à esquerda, e dois internos, à direita:
Passemos às estruturas que selecionam um único argumento, ilustradas
em (3) e aqui repetidas: Quadro 1
O predicador verbal e seus argumentos segundo Rocha Lima.
(3a) [As crianças] pulam.
ARGUMENTO EXTERNO PREDICADO R VERBAL ARGUMENTOS INTERNOS
(3b) Chegou [uma encomenda].
(3c) Houve [muitas festas]. Sujeito Verbo Objeto direto
Objero indireto

Os três verbos em (3) selecionam um único argumento. A tradição gramatical Complemento relativo
classifica os dois primeiros como intransitivos e o terceiro como transitivo direto, Complemento circunstancial
numa estrutura sem sujeito. Uma análise mais atenta dos dois primeiras nos mostra
que o argumento único em (3a) é, em geral, um termo com o traço [+agentivo], que Observe-se que a simplificação proposta pela NGB, além de desconsiderar o
ocupa a posição pré-verbal. Em (3b), o argumento é [-agentivo], tem a função estatuto argumental (selecionado pelo verbo) do complemento circunstancial, perde

.~.
Termos da oração 193
192 Ensino de gramática

em alcance explanatório quando deixa de distinguir o objeto indireto (dativo) do Os predicados "complexos"
complemento relativo. Uma sentença como Há certos predicadores verbais que se combinam com predicadores nominais,
gera do uma estrutura complexa a que a tradição gramatical se refere muito
(5) Eu agradeço [aos ouvintes] [por sua atenção], coere temente como predicado verbo-nominal (embora a redução de "verbal" para
"verbo rmação do adjetivo composto que dá nome ao predicado às vezes
ficaria sem análise possível com o quadro limitado da NGB. Teríamos dois objetos prejudique a compreensão). Os predicadores verbais que podem participar de tal
indiretos. Com o quadro de Rocha Lima, anterior à NGB, podemos verificar que o estrutura não são muitos, podendo ser listados facilmente. Os predicadores nominais
que torna a sentença gramatical em português (isto é, uma sentença capaz de ser são, entretanto, ilimitados. As estruturas a seguir ilustram o predicado verbo-nominal:
produzida e entendida pelo falante/ouvinte) é a possibilidade de termos um objeto
indireto (aos ouvintes = lhes) e um complemento relativo (por sua atenção), sem a (7a) O João achou/julgou/considerou a festa ótima.
necessidade de lançar mão do artifício de dizer que, para analisá-la, teríamos que (7b) Sua atitude deixou o João satisfeito.
transformá-la em "Eu agradeço aos ouvintes a sua atenção", eliminando a preposição
do complemento relativo e transformando-o num objeto direto ("agradeço alguma Observe-se que os verbos citados selecionam dois argumentos: alguém achou/
coisa a alguém"). julgou/considerou alguma coisa; alguma coisa deixou outra. Por outro lado, a oração
apresenta, além do predicador verbal, um predicado r nominal, que seleciona igualmente
um argumento externo, tal como um predicado nominal que vimos em (6) (alguma
Os predicadores nominais coisa ótima, alguém satisfeito). É a soma desses dois predicadores com seus argumentos
Vejamos as sentenças ~ seguir: que produz a estrutura classificada como predicado verbo-nominal: verbo + objeto
direto + predicativo do objeto. É interessante lembrar o que está por trás da maneira
(6a) João é professor. pela qual a GT nos ensina a identificar o segundo núcleo desse predicado, dizendo "a
(6b) João é inteligente. festa foi ótimà', "o João ficou satisfeito". Na realidade, esseelemento a que nos referimos
(6c) O cigarro é prejudicial à saúde. como objeto direto é o sujeito do predicador nominal. Como o adjetivo ou substantivo
não pode atribuir caso (nominativo) ao seu sujeito, este recebe caso oblíquo (acusativo)
Os elementos grifados em (6) constituem o núcleo do que a tradição chama de do predicador verbal; daí atribuir-se a esse argumento a função de objeto direto e
predicado nominal, além de serem classificados como "predicativos do sujeito". Por referir-se ao predicador nominal como "predicativo do objeto":
que serão elesos núcleos do predicado? Porque são essesnomes (substantivos e adjetivos)
os responsáveis pela projeção da estrutura sentencial. Tal como os verbos, os nomes (6a') O João achou-ª ótima.
selecionam argumentos: alguém professor, alguém inteligente, alguma coisa/alguém (6b') Sua atitude deixou-Q satisfeito.
prejudicial a alguém/alguma coisa. Como nossa estrutura sentencial precisa de um
verbo que lhe dê as marcas de tempo, número, pessoa, modo e atribua caso nominativo No português do Brasil, esse argumento aparece sob a forma de pronome reto
ao sujeito, lançamos mão de um verbo "de ligação", como mostram as sentenças em com função acusativa ou fica apagado, estando o uso do clítico restrito à escrita formal:
(6). O verbo de ligação não é o responsável pela projeção da estrutura, mas lhe dá o
estatuto de oração. Os predicadores nominais em (6a) e (6b) selecionam apenas o :,". (7à') O João achou ela ótima. (O João achou _ ótima)
argumento externo, "sujeito"; o predicado r nominal em (6c) seleciona, além do (7b") Sua atitude deixou ele satisfeito.
argumento externo "o cigarro", um argumento interno "à saúde", o "complemento
nominal", que está para o predicado r nominal assim como os argumentos internos
que vimos em (1) e (2) estão para seu predicador verbal.

I
/

194 Ensino de gramática Termos da oração 195

Poderíamos então representar a estrutura do predicado verbo-nominal da predicador aparecerá em última posição, estará numa forma nominal (ver capítulo
seguinte maneira: "Saberes lingüísticos na escolà') e continuará a ser o responsável pela distribuição da
estrutura argumental da sentença. Há, entretanto, estruturas como "ter medo", em
o João achou[que a festa foi ótima] [afesta foi ótima] [achou afesta ótima] que se pode perguntar se temos um predicador verbal "ter", que seleciona um
00 sujo pred. sujo 00 pred. obj. argumento interno (objeto direto), ou se este funciona quase como um auxiliar do
predicador nominal "medo".
Uma estrutura semelhante é a projetada pelos verbos causativos (mandar, fazer,
deixar) e de percepção (ver, perceber, notar), todos eles verbos de dois argumentos,
o argumento externo
um externo e um interno:
Examinados os predicadores verbais e nominais e seus argumentos internos,
(8a) O João mandou [os fIlhos sair da sala] (O João mandou [que os fIlhos olhemos brevemente o argumento externo, classificado geralmente como "sujeito".
saíssem da sala]) Um dos aspectos que nos parece inteiramente equivocado, por misturar critérios
(8b) O João viu [os ladrões entrar] (O João viu [que os ladrões entravam]) sintáticos (estruturais) e semânticos, é a classificação do sujeito em "simples",
"composto", "oculto", "indeterminado", além de podermos ter a "oração sem sujeito".
Observe-se que o argumento interno dos verbos grifados aparece em forma de Vejamos que a estrutura (ou forma) do sujeito (se é simples ou composto) é um
oração. Essas orações ("os fIlhos sair da salà', "os ladrões entrar"), que funcionam aspecto absolutamente irrelevante. Trata-se de dois ou mais sintagmas coordenados,
como objeto direto de "mandou" e "viu", têm o verbo no infInitivo impessoal (ou o que pode acontecer com os termos que aparecem nas demais funções:
gerúndio), que não pode atribuir caso reto ao seu sujeito. Como ocorreu nos exemplos
em (7), o predicador da oração principal rege o sujeito dessa oração infInitiva, (9a) Eles compraram [livros e cadernos].
atribuindo-lhe caso oblíquo: (9b) Eles deram presentes [aos pais e (aos) filhos].
(9c) Eles pensam [em casar e (em) ter muitos fIlhos].
(8a') O João mandou [-os sair da sala]
(8b') O João viu [-os entrar] A mesma lógica que classifIca o sujeito em "simples" ou "composto" deveria
fazer o mesmo em relação ao objeto direto composto (9a), ao objeto indireto composto
O português brasileiro, entretanto, prefere o infInitivo pessoal nessas estruturas. em (9b) e ao complemento relativo composto em (9c). Deve-se, pois, descartar uma
E o infinitivo pessoal, graças às marcas de concordância, pode reger seu sujeito, classificação inadequada e sem propósito.
atribuindo-lhe caso nominativo, uma estrutura praticamente categórica na fala e já Classificar um sujeito como "oculto" (ou "subentendido", "desinencial", entre
em franca implementação na escrita: outros tantos nomes) só faz sentido se a ele se opuser o sujeito "expresso". Quando se
considera que a possibilidade de expressar ou não o sujeito em certas estruturas é uma
(8a") O João mandou [eles saírem da sala] propriedade que distingue as línguas humanas, pode-se defender que tal classificação
(8b") O João viu [eles entrarem] seja mantida, desde que feita com coerência.
Quanto ao sujeito "indeterminado", que é uma noção semântica, tal classificação,
Antes de passarmos à próxima seção, uma palavra se faz necessária sobre a da mesma forma que vimos antes, só faz sentido se ao sujeito indeterminado se opuser
estrutura dos predicadores. Limitamo-nos aqui a mostrar os predicadores verbais em o sujeito "determinado", isto é, o sujeito que tem referência defInida no contexto
formas simples, deixando de tratar das locuções verbais (como se vê em "deve chegar", discursivo. Teríamos, então, uma proposta para classificar o sujeito que poderia ser
"vai mandar", "tinha dividido", "está pulando"), que podem apresentar um ou mais assim delineada: (a) quanto à forma (estrutura), o sujeito pode vir expresso ou não
de um auxiliar que veicule noções ligadas a dever/obrigação/possibilidade ou a tempo expresso; (b) quanto à referência (seu conteúdo, seu valor semântico), o sujeito pode"ter
futuro, tempo transcorrido, aspecto durativo do processo verbal. Em tais casos, o referência defInida, indefInida ou não ter qualquer referêncÍa:
196 Ensino de gramótica Termos da oração 197

Quadro 2 Aprende-se também que: (a) o pronome "se" é um índice de indeterminação


A classificação do argumento externo segundo do sujeito e (b) tal construção só ocorre com o verbo intransitivo (em 12a) e transitivo
sua forma e referência (conteúdo). indireto (em 12b) - que para nós é um verbo transitivo relativo, como ficou claro ao
REFER£NCIA FORMA distinguirmos o objeto indireto do complemento relativo.

Expresso O que dizer então de construções como:


Não expresso j/
,i,
EulNós/As meninas/Elas foram ao
Definida - Fui/_Fomos/_Foram ao teatro
(l3a) Não se usa mais máquina de escrever.
ontem. teatro ontem.
Eles estão assaltando nesse bairro. (l3b) Vende-se apartamento.
Indefinida _ Roubaram as rosas do jardim.
_ Ptecisamos de ordem e progresso. Nós precisamos de ordem e progresso.
_ Não usa mais máquina de escrever.' A gente precisa de ordem e progresso. Em tais casos, diz a gramática, o que temos é uma construção passiva (daí o
Vende apartamento. Você vê muito comércio no centro.
pronome "se" ser classificado como apassivador) com um sujeito determinado - "máquina
Sem referência _ Choveu muito. - de escrever" e "apartamento", o que se evidencia com a concordância verbal em:
_ Fez frio. -
Houve confusão.
(14a) Não se usam mais [máquinas de escrever].
A tabela anterior mostra a forma e a referência do argumento externo dos
(l4b) Vendem-se [apartamentos].
predicadores da oração. O português do Brasil prefere, na modalidade oral, os sujeitos
de referência defmida "expressos", tanto na primeira e segunda pessoas como na terceira. Para nós, que a essa altura já aprendemos a identificar os argumentos de um
Assim, a estrutura em b, a seguir, é mais provável do que a estrutura em a: predicador verbal, fica fácil entender que, nas construções anteriores, o verbo concorda
com o argumento interno, que em (14a) e (14b) está "funcionando" como "sujeito". E
(l Da) O João esteve aqui ontem. Disse que vai emigrar para Portugal. onde está o argumento externo? "Quem não usa mais máquinas de escrever?" "Quem
(lDb) O João esteve aqui ontem. Ele disse que vai emigrar para Portugal. vende apartamentos?" Sabemos que o verbo seleciona um argumento externo, mas não
identificamos esse argumento, que está, na verdade, tão indeterminado quanto os
Na escrita padrão, em gêneros mais formais, ainda predominam os sujeitos de argumentos externos em (12a) e (12b): "quem vive mal nas grandes cidades?"; "quem
referência definida não expressos. precisa de ordem e progresso?". Acontece que, nessas duas orações, a posição do argumento
Os sujeitos de referência "indeterminadà' são hoje preferencialmente "expressos" externo à esquerda dos verbos está disponível; assim, dizemos que o argumento externo é
na fala, seja pelo pronome "eles" seja por "a gente" e principalmente por "você". Há, o sujeito indeterminado. Em (13a,b) e (14a,b), como a função sintática de sujeito já é
entretanto, uma estrutura com o verbo na terceira pessoa do singular, capaz de realizada pelo argumento interno, não temos uma função para o externo, que fica suspenso.
indeterminar o argumento externo. Vejam-se os exemplos: Podemos então concluir que o pronome "se" é sempre usado para indeterminar
o argumento externo, seja numa construção ativa (em que o sujeito indeterminado éo
(lIa) Não usa mais máquina de escrever. próprio argumento externo), seja numa construção passiva (em que o argumento interno
(lI b) Vende apartamento. funciona como sujeito gramatical). A diferença, então, entre o uso de "se" apassivador
e "se" indeterminador está na interpretação sintática que o usuário da língua dá ao
Sabemos que há um argumento externo, mas não podemos identificá-lo. argumento interno dos verbos transitivos diretos. São freqüentes em português
Propositadamente, não foram incluídas no Quadro 2 as estruturas de construções com tais verbos, em que o argumento interno não funciona como sujeito:
indeterminação com "se", que merecerão tratamento à parte. Uma consulta às gramáticas
descritivas tradicionais ensinará que o sujeito está indeterminado nas seguintes orações: (l5a) _Não se usa mais [máquinas de escrever].
(l5b) _Vende-se [apartamentos].
(12a) Vive-se mal nas grandes cidades. (Quem vive mal?)
(l2b) Precisa-se de ordem e progresso. (Quem precisa de ordem e progresso?)
198 Ensinode gramática Termosda oração 199

Tal como em (12), temos novamente disponível a posição do argumento externo O primeiro tem a estrutura de um sintagma adverbial (SAdv), os dois outros vêm sob
e construções com o sujeito indeterminado por meio de "se" indeterminador. Assim, a forma de sintagmas preposicionais (SPs). Esses "adjuntos adverbiais" podem ocorrer
toda construção com "se" (apassivador ou indeterminador) tem o argumento externo em número ilimitado e não devem ser vistos como termos "acessórios".Afinal, para que
indeterminado. A classificação do "se" dependerá da estrutura que o usuário preferiu: se compreenda tudo o que o usuário quer comunicar, nada é dispensável numa oração.
tratar o argumento interno como sujeito, ou manter sua função original de objeto Em resumo, os termos articulados com um predicado r verbal, excetuando-se o
direto. No português brasileiro falado, embora as construções com "se" sejam muito sujeito ~o direto, têm classificações diferentes, se levarmos em conta o quadro
pouco freqüentes, os usuários preferem a estrutura ativa; na escrita padrão, por outro simPVflcado da &GB, o de Rocha Lima e um mais recente, apresentado em Mateus et
lado, ainda se privilegia a passiva, por força da tradição escolar normativa. alo (2003). Este último reúne sob o rótulo de oblíquos 10 todos os termos articulados
Quanto aos sujeitos não argumentais (também chamados sem referência, por com o verbo, excetuando o objeto direto e o indireto (dativo):
i'
; não terem conteúdo semântico), característicos das "orações sem sujeito", o português
Quadro 3
os representa de forma não expressa, tal como o espanhol e o italiano. O leitor poderia
Termos articulados com o predicador verbal:
se perguntar: "Mas por que se representaria algo que não tem referência?". Ocorre
argumentos internos e adjuntos.
que outras línguas, como o francês e o inglês, preenchem a posição com um pronome
sem conteúdo semântico (sem referência), a que a teoria lingüística se refere como
GT (NGB) GT (Rocha Lima) Mateus et alo (2003)
sujeito expletivo,9 o que nos permite levantar a hipótese de que há, à esquerda desses
Objeto direto Objeto direto Objeto direto
verbos, em português, espanhol e italiano, um expletivo não expresso. Veja-se o
Objeto indireto Objeto indireto (dativo) Objeto indireto (dativo)
contraste em (16) e (17): Complemento rdativo Oblíquo nuclear

Agente da passiva Agente da passiva Oblíquo nuclear


(16a) _ Llueve. (Espanhol)
Adjunto adverbial Complemento circunstancial Oblíquo nuclear
(16b) _ Piove. (Italiano) Adjunto adverbial Oblíquo não nuclear

(17a) li pleut. (Francês) Observe-se que, com o quadro descrito em Mateus et al., inspirado em estudos
(17b) It rains. (Inglês) lingüísticos recentes, temos uma simplificação que, longe de ser simplista, permite
reunir sob o rótulo de "oblíquos nucleares" os termos selecionados pelo verbo (isto é,
Os adjuntos adverbiais que fazem parte de sua estrutura argumental) e como "oblíquos não nucleares" os
termos que se ligam ao verbo opcionalmente e podem aparecer em número ilimitado.
Além dos argumentos selecionados pelo predicador da oração, podem se juntar
a ele elementos que caracterizam as circunstâncias relacionadas ao evento: o onde, o
como, o quando, o por quê, o para quê ... Trata-se de termos não selecionados pelo Os outros "termos"
predicador, mas que se adjungem à sentença situando o evento no tempo e no espaço. E o que dizer dos "adjuntos adnominais" e "apostos"? Estes, além de out~os
Retomando a sentença em (1a), poderíamos articular ao predicador alguns termos, "complementos nominais", podem aparecer na estrutura interna dos termos
não obrigatoriamente selecionados por ele: mencionados e não devem ser separados num primeiro recorte da estrutura sentenci;U..
Antes, devem permanecer num nível hierárquico inferior ao dos sintagmas maiores.
(l8) [Ontem], [no centro da cidade]' ele deu o dinheiro aos pobres [por causa que os contêm. Veja-se o trecho de Veríssimo a seguir:
de uma promessa].
(19) O mito da era Kennedy, do domínio encantado de um rei guerreiro e
Os termos entre colchetes, que respondem às perguntas "quando?", "onde?", sábio, bonito e justo sobreviveu a todas as revisões de uma presidência discutível.
"por quê?", estão articulados ao verbo "dar" e se classificam como "adjuntos adverbiais". (Veríssimo, O Globo, 21 jul. 1999)
Termos da oração 201
200 Ensino de gramática

Ternos aí urna estrutura projetada pelo predicado r de dois lugares (ou dois Urna última palavra, porém, deve ser dita sobre essa arquitetura da oração. No

argumentos) - sobreviveu: alguém (ou alguma coisa) sobreviveu a alguém (ou alguma momento em que as palavras se organizam em sintagmas e estes, em orações,
coisa). Num primeiro nível de análise ternos apenas um argumento externo (sujeito) e estabelecem-se relações de concordância, de regência e de ordem. A concordância nominal
um interno (complemento), já que não apareceram circunstanciais (adjuntos adverbiais): e verbal deixa explícita a relação de dependência (subordinação) (a) entre os elementos
que se articulam com o substantivo para determiná-lo, quantificá-lo ou modificá-lo e

Quem sobreviveu? (b) entre o verbo e seu sujeito, respectivamente. O verbo, por sua vez, rege/comanda

[SNO mito da era Kennedy, do domínio encantado de um rei guerreiro e sábio, seu sujeito e seu objeto direto, atribuindo-lhes caso nominativo e acusativo,
respectivamente, enquanto a preposição rege/comanda o SN que se encontra dentro de
bonito e justo]
Sobreviveu a quê? um SP. A ordem, que em nossas gramáticas fica em geral restrita à colocação dos

[spa todas as revisões de urna presidência discutível] clíticos (pronomes átonos) e é baseada até os dias atuais na ordem lusitana, ultrapassa
esse fenômeno. Ela deveria tratar da ordenação dos elementos dentro do sintagma (a

o SN com a função de sujeito, cujo núcleo é o substantivo "mito", veio precedido ordem do adjetivo, por exemplo, dentro do SN) e desses na oração (a ordem dos
do determinante "o" e seguido de dois SPs:"da era Kennedy" e "do domínio encantado de argumentos em relação ao seu predicador, a ordem dos adjuntos) e dessas no período.
um rei guerreiro e sábio, bonito e justo", a que a tradição gramatical classifica corno Mas essa já seria urna outra história, que foge aos limites deste capítulo.

adjuntos adnominais. Poderíamos igualmente ter aí um aposto representado por um SN


ou por uma oração "que perdura até os dias atuais", por exemplo. Esses termos, fosse qual
fosse sua forma, deveriam estar dentro do SNsujeito num primeiro recorte de análise. O Por que e como ensinar
complemento de sobreviveu, representado pelo SP, tem, da mesma forma, uma estrutura
interna que apresenta a preposição "á' e o SN"todas as revisões de uma presidência discutível",
o trabalho com os termos da oração em sala de aula não deveria, em princípio,
limitar-se à sua mera identificação, sob pena de se tornar enfadonho e sem finalidade.
cujo núcleo é o substantivo "revisões" acompanhado de um complemento nominal "de
Reconhecer e identificar os constituintes da sentença é importante para que o aluno
uma presidência discutível". Veja-se, entretanto, que a fiagmentação da oração em todos
entenda, por exemplo, a concordância entre verbo e argumento externo e, sobretudo,
esses constituintes internos nos faria perder de vista a estrutura principal da oração: [alguém]
por que existe dificuldade maior em realizar tal concordância quando o "sujeito" sintático
sobreviveu [a alguma coisa]. Podemos, então, dizer que, dentro dos constituintes maiores
se comporta corno um argumento interno, estrutura típica dos verbos inacusativos
da oração, é possível encontrar outros elementos articulados com o substantivo (os adjuntos
("chegaram as encomendas"). Veja-se a esse respeito o capítulo "Concordância verbal".
adnominais, o aposto e o complemento nominal) e com o adjetivo (o complemento
Reconhecer e identificar os constituintes da sentença é ainda importante para
nominal). Mas, só se deve trabalhar, num primeiro recorte, com o(s) predicador(es), seus
a boa utilização dos sinais de pontuação: o aluno entenderá melhor, por exemplo, que
argumentos e os eventuais adjuntos adverbiais.
a vírgula não deve ser usada entre o predicador e seus "argumentos", a menos que
ocorra um "adjunto" interveniente ou que a ordem canônica desses argumentos seja
Sobre as implicações da organização mudada. Enfim, cabe ao professor levar o aluno a produzir sentenças a partir de
dos termos na oração predicadores verbais e nominais e torná-lo capaz de identificar os padrões sentenciais
de sua língua, que todo falante domina sem esforço e que o estudante tem a chance
Neste capítulo, tivemos a preocupação de rever os termos da oração, resgatando
de conhecer e analisar. Afinal, o conhecimento de corno funciona a própria língua é,
a tradição gramatical e chamando a atenção para uma análise que leve em conta a
tal corno o conhecimento de história, geografia, matemática, física, química, uma ."
estrutura projetada pelo(s) predicador(es). Vimos que os predicadores verbais e
das habilidades que a escola deve desenvolver no aluno.
nominais são os responsáveis pela projeção da oração, isto é, selecionam os argumentos.
Articulam-se ainda aos predicadores os adjuntos adverbiais (ou oblíquos não nucleares).
Não nos detivemos na forma pela qual as palavras se organizam em sintagmas e estes
em orações e estas. em períodos e estes no texto.

• Termos da oração 203
202 Ensino de gramática

MATEUS,M. H. M. et aI. Gramática da língua portuguesa. Lisboa: Canúnho, 2003.


Notas PERINI,M. A. Para uma nova gramática do português. São Paulo: Ática, 1985.
, o termo "clitico" tem sido preferido para a referência aos pronomes oblíquos átonos. O termo, cuja raiz está presente PONTES,E. O tópico no português do Brasil. Campinas: Pontes, 1987.
nos vocábulos "pr6clise", mesóc1ise" e "êndise", se refere à sua atonicidade, que o leva a ser pronunciado juntamente
U

com a palavra que o precede ou o segue. No Brasil, preferimos a segunda alternativa. A sugestão de utilizar 05 cliricos ROCHALIMA, C. H. da. Gramática normativa da língua portuguesa. 32. ed. Rio de
de terceira pessoa ("o" e "lhe") para o reste de função acusativa ou dativa vem do fato de, nas outras pessoas os cliticos Janeiro: José Olympio, 1972.
acusativo e dativo terem a mesma forma ("me", "te" etc.), não ajudando, pois, na distinção entre o objeto direto ou
indireto. No entanto a expressiva redução no uso dos c1£ticos de terceira pessoa, tanto o acusativo quanto o dativo. na
I

língua oral e a conseqüente falta de familiaridade com esses elemenros tornam às vezes difícil essa subsrituição. Uma
conjugação da estrutura do complemento com seu traço semântico pode ajudar a identificar a sua função.
, A Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), ainda utilizada na maioria das gramátic:LS pedag6gic:l5, é resulrado de uma
simplificação proposta por gramáticos e fil610gos, tendo sido publicada pelo Minisrério da Educação e Cultura por meio
da Porraria n. 36, de 28 de janeiro de 1959. (Para uma "explicação" da nomenclatura proposra, c£ Kury 1964.)
l O asterisco antecedendo uma oração significa, neste capitulo, um uso não coerente com a função. Na realidade, pelas
razões exposras na noca 1, há hoje. na escrita padrão, certa confusão no uso dos clíticos acusativo e dativo na terceira
pessoa, que se deve ao fato de tais elementos já não estarem presentes no processo de aquisição da linguagem, sendo,
pois, fruto da ação da escola e do conrato com a escrita.
, Note-se que a função sintática (estrutural) de um termo muda, na passagem da voz ativa para a passiva, mas seu papel
usemân cico" permanece.
S Há uma grande oscilação entre a presença e a ausência da preposição fia"junto ao complemento dos ve~bos interessa!"'
(I

e «agradar', por exemplo. É comum ouvirmos ou lermos "A aula interessou/agradou os alunos" em vez de "aos
alunos". De modo inverso, verbos transitivos diretos como "cumprimentar", "favorecer", "elogiar", <'encantar" aparecem
com um complemento regido de preposição "a ("O presidente cumprimentou/elogiou ao vencedor"; "o juiz favoreceu
ao adversário"; "o ator encantou ao público" em vez de "o vencedot", "o adversário", "o público"). Essa variação pode
levar a mudanças na transirividade desses verbos, um fenômeno que não será novidade na hist6ria da ICngua portuguesa.
6 Cada vez mais o português brasileiro prefere a ordem S(ujeito)V(erbo) também com os verbos inacusativos,
provavelmente em conseqüência de mudanças no nosso quadro pronominal e na ordem dos constituintes. Alguns
del"" como "nascer", "moner", que costumavam aparecer com a ordem V(erbo) S(ujeito) em sentenças apresenrativas
já aparecem preferencialmente com sv (Em vez de "morreu/nasceu fulano de tal na clínica taL", ouvimos/lemos
"fulano de tal morreu/nasceu na clínica tal .. .". ) .
I" 7 No português europeu, que conra com um sistema de c1iticos mais produtivo, o esratuto de argumento interno do
li
I; 8
complemento de "haver" é facilmente comprovado ("Não as havia").
Essa forma de indeterminação sem um índice (seja o pronome "se", seja um pronome nominativo. como "você", na
i: gente") é comum na fala, embora menos freqüente do que a indeterminação com "você".
,I i
9 É preciso atentar para o fato de que. mesmo que o português não preencha essa posição, ela está disponível no
sistema. Nesse sentido, a comparação com outras línguas é extremam~nte importante para o estudo da estrutura de
uma língua. Pontes (1987) está entre 05 pioneiros que aponraram construções em que essa posição disponível é
ocupada por outro constituinte. São estruturas típicas da fala espontânea e sua ocorrência no ponuguês brasileiro
tem sido relacionada à sua característica de língua de tópico ou de língua orientada para o discurso. Entre os dados
fornecidos pela autora, temos:
(i) Essas janelas ventam muito.
10 Atente-se para o fato de que o termo «oblíquo" reúne e1emenws não nominativos (sujeito), não acusativos (objeto
direto), não dativos (objeto indireto). Na tradição latina correspondetiam aos casos genirivo e ablativo.

Referências bibliográficas
CUNHA,C. F. da; CINTRA,L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
KURY, A. da G. Pequena gramática para a explicação da nova nomenclatura gramatical.
9. ed. rev. Rio de Janeiro: Agir, 1964.
SOBRE OS PROCESSOS DE ESTRUTURAÇÃO SINTÁTICA

José Carlos Azeredo (Faculdade de Letras I UFRJ)

Poucos gramáticos brasileiros, entre os quais José Oiticica, têm identificado na correlacão e na justaposição processos de
estruturação sintática distintos da subordinação e da coordenação. A maioria entende que aqueles processos servem apenas para
materializar certas relações fundamentalmente coordenativas ou subordinativas. Assim, nos exemplos (i) Ele ficou surdo e paralítico e (ii)
Ele não só ficou surdo como paralítico - versão "enfática" do (i):' temos fundamentalmente uma coordenação dos predicativos surdo e
paralítico; e no exemplo (iii) Ele me abraçou com muita força, de sorte que quase me quebrou os ossos, e em sua versão "enfática" (iv) Ele
me abraçou com tanta força, que quase me quebrou os ossos, a oração consecutiva é sempre subordinada. 4 Pelo menos nestes
exemplos pode-se dizer que a construção correlativa é antes uma opção enfática do que um processo sintático distinto. 5 Já a justaposição
conta ainda com menor número de adeptos. O ponto de vista de Oiticica foi refutado por Sílvio Elia 6ao comentar a análise de exemplos
como Não o vejo há dois anos. Com efeito, nenhum conectivo une a oração há dois anos a Não o vejo. Opondo-se a Oiticica, que diz não
haver subordinação, mas justaposição, no exemplo citado, observa Sílvio Elia:

•...nada impede que uma oração justaposta (isto é, relacionada com outra sem conectivo) seja
simultaneamente, pelo seu valor lógico, coordenada ou subordinada. A mesma relação de dependência pode ser
expressa de formas diferentes: ajustaposição é uma delas, a conexão outra.• 7

Vemos assim a orientação que prevaleceu: justaposição difere de conexão, e não de subordinação ou de coordenação.
Aceita a tese de que justaposição e correlação não se acham no mesmo plano da subordinação e da coordenação - não nos
vamos deter mais nesta questão por não ser nossa preocupação central neste artigo - passemos à distinção fundamental.

Coordenação e subordinação

Muitos gramáticos costumam denunciar a inadequação do critério que conduz à identificação da oração coordenada como oração
independente. Othon M. Garcia, por exemplo, chama falsa coordenação à que se dá em enunciados como O dia estava muito quente e eu
fiquei logo exausto. Observa que no exemplo citado "só existe coordenação quanto à forma, não quanto ao sentido, pois, nà realidade, a
particula "e" não está aproximando ou concatenando dois fatos independentes: entre "estar muito quente" e "ficar logo exausto" existe uma
coesão íntima, uma relação de causa e efeito." a Othon M. Garcia é taxativo: "Que independência existe, por exemplo, nas orações
"portanto, não sairemos"? e "mas ninguém o encontrou"? Independência significa autonomia, autonomia não apenas de função mas
também de sentido." 9 Levado às últimas conseqüências, o raciocinio de Othon M. Garcia desemboca num impasse. Com efeito, num
enunciado como (v) João pintava a parede e Maria lavava a louça, nada impede que se apreenda uma relação de concomitância, também
instituível pela conjunção subordinativa 'enquanto', em nada incompatível com a idéia de 'concatenação'. Seria o caso de dizer que há
também falsa subordinação? Parece que não. As observações de Othon M. Garcia são pertinentes no contexto de seu livro, dedicado em
parte á análise da propriedade entre meios de expressão e idéias. Entretanto, se é verdade que é importante para o usuário da língua ter
em vista que os divetsos mecanismos sintáticos pelos quais se exprime um dado conteúdo podem ter efeitos expressivos diversos, e que a
teoria lingüística deve levá-los em conta numà análise apropriada da competência comunicativa dos falantes, devemos reconhecer que
ainda não estamos teoricamente aparelhados para ir muito além das relações formalmente instituidas.
Afinal, o fato de que o mesmo dado real possa ser comunicado quer pelo enunciado (vi) Ele chegou cedo mas não conseguiu
ingresso ou por (vii) Ele não conseguiu ingresso embora tenha chegado cedo, não diminui a propriedade de neles reconhecer processos
sintáticos distintos. Pois são as características formais desses processos que nos importa depreender e sistematizar neste trabalho.
Parece que o melhor tratamento da distinção entre subordinação e coordenação, entre nós, se acha nos trabalhos de Gladstone
Chaves de Melo, que aponta aqueles processos nas estruturas menores que a oração. Efetivamente - o que é óbvio para o gramático e o
professor, mas não para o aluno - subordina-se o adjunto ao núcleo, na estruturação do sujeito, do predicado etc.; coordenam-se dois
predicados, dois predicativos etc. Tudo indica que a subordinação é um processo que cria funções, enquanto a coordenação liga unidades
sem alterar sua natureza sintática. Assim, em (viii) a espuma branca, branca é um adjunto por força da posição e da concordância, mas em
(ix) A espuma é branca, branca é um predicativo, função que lhe foi conferida pelo verbo ser. Temos ai duas funções, cada uma devida a
um conjunto diferente de mecanismos subordinativos. Por outro lado, em (x) A espuma é branca e fina ou em (xi) A espuma é branca mas
ª
impura, a intercalação de ou mas em nada alterou a função dos termos unidos por elas.
Subordinar é estabelecer uma hierarquia (é o que indica a função do verbo "sub-ordin-ar); coordenar, ao contrário, • é ligar
funções do mesmo nível (co-orden-ar). Donde se conclui que há uma hierarquia das funções e que quaisquer funções se podem
reorganizar I coordenar - atreladas ao mesmo núcleo.

4Cf. Câmara Jr. (1977, p. 87): "A correlação se estabelece, - a) por coordenação, ou b) por subordinação, conforme o conectivo utilizado e a
noção de seqüência ou de sintagma, respectivamente, que daí decorre; exs.: a) é não só bravo mas hábil: b) é tão bravo que chega a ser
temerário.
5 Cf. Luft (1976, p. 46).
6 EUA, Silvio. Justaposição. Jornal de Filologia, São Paulo (2): 107 -112, abril~unho 1955.
7 Ibidem, p. 108.
a GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 4. ed. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1976. p. 21.
9 Ibidem, p. 19.
• Gladstone C. de Melo discorda desse ponto de vista: "Anda muito difundido o conceito, absolutamente errôneo, de que uma oração
coordenada é o contrário de oração subordinada. Não é o contrário" é outra coisa. (Melo (1978), p. 148). Seu raciocínio parece apoiado na
circunstância de que orações subordinadas podem estar coordenadas entre si. Daí dizer que se trata de "perspectivas diferentes". Ele tem
razão, no nosso entender, no que diz respeito à coordenação por aâição ou alternância. Há entre as próprias conjunções coordenativas
diferença de níveis de atuação: orações conclusivas, explicativas e até mesmo adversativas se deixam "coordenar" por ª,ou, nem (ver
adiante).
São tradicionalmente tidas como funções primárias o sujeito e o predicado, como funções secundárias os complementos, como
funções terciárias os adjuntos. Estes se subordinam aos primários e secundários, e os secundários aos primários.
Pensamos que seria mais conveniente falar em subordinação de objeto, por exemplo, não ao verbo, mas ao conjunto a que
pertence: o predicado. Com efeito, o verbo transitivo não é o predicado, mas um constituinte dele, seu núcleo, e o objeto outro constituinte,
porém subordinado. Um termo é subordinado numa construção se sua função difere da exercida pela construção. Em vista disso,
perguntamo-nos se é apropriada a lição dos gramáticos segundo a qual o predicado é subordinado ao sujeito. Alguns diriam que isto é
óbvio porque o verbo concorda com o sujeito, e não este com aquele. Acontece que, apesar dos gramáticos, andam por ai exemplos de
concordância do verbo com o objeto - Faziam dez dias, admiram-se os escritores (v. Ali (1966:96)) - e ninguém ousa acreditar que o verbo
seja dependente do objeto. Como só faz sentido identificar um termo como subordinado em contraste com outro, o núcleo da construção, e
como a oração não se reduz a nenhum núcleo - se este houvesse, seria o predicado e não o sujeito, haja vista "as orações sem sujeito" H -

não cabendo dizer que qualquer deles seja subordinado ao outro, preferimos apreender as funções de sujeito e predicado relativamente ao
todo de que fazem parte; a oração. Este critério desfará, ainda, a contradição da gramática tradicional, que após identificar o sujeito como
termo subordinante, chama subordinada à oração que faz papel de sujeito. Nossa impressão é que sujeito é uma função adquirida por um
sintagma nominal graças à relação que se dá entre ele e a oração (relação esta apreensivel através dos privilégios sintáticos do sujeito em
cotejo com os do objeto: cf. ele/o, concordância/não-concordância). Isto é, o sujeito e o predicado são termos subordinados à oração, assim
como a oração subjetiva é subordinada à oração mais alta, de que participa como sujeito. -

A coordenação

Ensinam os gramáticos que há, em português, cinco espécies de conjunções coordenativas: aditivas, adversativas, alternativas,
explicativas e conclusivas. Othon M. Garcia lembra que também na coordenação se observa certa dependência semântica mais do que
sintática, salvo, talvez, no que diz respeito às conjunções "e", "ou" e "nem". Noutras palavras, as conjunções aditivas e as alternativas
parecem semanticamente irrelevantes, ao passo que as restantes instituem relações lógicas constantes e não se prestam tanto à
polissemia. Com efeito, nos exemplos abaixo o mesmo 'e' liga orações que travam relações lógicas distintas:

(xi) Choveu muito e o rio transbordou (causa/efeito).


(xii) Fique aqui e você verá o disco-voador (condição/resu/tado).
(xiii) Fiquei lá e não vi nenhum disco-voador (oposição).
(xiv) João lavava os pratos e Maria cantava boleros (concomitância).

A observação de Othon M. Garcia a respeito das conjunções 'e', 'ou' e 'nem' tem alcance ainda mais amplo. Aquelas conjunções,
assim como 'mas', ligam orações subordinadas, o que não se passa com as conjunções conclusivas e explicativas. Impõe-se assim uma
sistematização das conjunções coordenativas, segundo estabeleçam relações lógicas - adversativas, explicativas e conclusivas - ou
relações gramaticais - aditivas e alternativas.
No enunciado (xv) Gonçalo é vegetariano, portanto não come came, as orações coordenadas não podem coordenar-se como
objetos diretos, a menos que se interponha um 'e: (xvi) Disseram-me que Gonçalo é vegetariano e que, portanto, não come came. É claro
que é possivel dizer (xvii) Disseram-me que Gonçalo é vegetariano; portanto, não come carne. Neste caso, entretanto, a conclusão é
minha, e não funciona, por isso mesmo, como objeto de Disseram-me. Em (xviii) Disseram-me que Gonçalo é vegetariano, pois só come
soja e legumes, a oração introduzida pelo 'pois' "explica" o conteúdo da anterior, mas não é um objeto de Disseram-me, motivo por que
não admite ser precedida por 'e que', ao contrário da conclusiva. O exemplo (xviii) é sutilmente ambíguo: a informação de que "Gonçalo só
come soja e legumes" pode estar sendo dada por mim - obviamente uma explicação - ou pelo sujeito de disseram. No primeiro sentido, a
explicação refere-se a tudo que precede; no segundo, somente a Gonçalo é vegetariano.
Esses dados parecem indícar que 'pois' é, com efeito, uma conjunção, ao passo que 'portanto' atua como advérbio. Note-se ainda
que ele é deslocável para vários pontos da oração: ...e que não come carne, portanto.
Notemos agora o exemplo (xix) Gonçalo é vegetariano, mas não come abóbora; estas orações podem subordinar-se a um verbo
transitivo e continuar coordenadas: (xx) Disseram-me que Gonçalo é vegetariano, mas (que) não come abóbora. Se no lugar de 'mas'
pusermos 'entretanto', as coisas mudam de figura; no enunciado (xxi) Disseram-me que Gonçalo é vegetariano, entretanto não come carne,
a presença de 'que' após 'entretanto' é forçada. Não seria isto outro indicio do papel adverbial de 'entretanto'? Afinal, há forte preferência
pela construção em que se enquadra uma oração conclusiva coordenada a outra objetiva direta (cf. xvi): (xxii) Disseram-me que Gonçalo é
vegetariano e/mas que, entretanto, não come abóbora. A coocorrência de 'mas' e 'entretanto', de caráter enfático, explica-se por ser o
primeiro conjunção, e o segundo, advérbio (note: ... mas que não come abóbora, entretanto).
Estes dados tornam precária a classificação de portanto (conseqüentemente, por conseguinte, por isso) e entretanto (no entanto,
todavia, contudo, porém) como conjunções, papel que só aparece encarnado pelas aditivas 'e/nem', pelas alternativas, pelas explicativa
'pois' e pela adversativa 'mas'. A conclusiva 'logo' resiste ao deslocamento, mas parece admitir o 'e que', da mesma sorte que as demais
conclusiva s e adversativas.

Aspectos semântico-sintáticos

H Evanildo Bechara entende que expressões como Fogo!' Parada de ônibus. são "orações cujo enunciado se relaciona com a situação em
que se acha o falante e, assim, contém um elemento extralingüístico" (Bechara (1967), p. 15). Preferimos, por razões didáticas, seguir a
lição mais generalizada que distingue frase - qualquer enunciação que encerre um propósito definido - e oração - construção organizada
em torno de um verbo.
- O hábito de chamar reto ao pronome que desempenha o papel de sujeito, e oblíquo ao que desempenha o papel de complemento trai a
suposição de que s6 este último é dependente. Ora, sujeito é uma função tão dependente quanto objeto; esta dependência se manifesta
por meios específicos em cada língua: nominativo/acusativo, ret%blíquo. A escolha do nominativo, por exemplo, como forma
representativa do nome em latim, para fins de dicionarização e referência nas gramáticas é tão arbitrária quanto a escolha de qualquer
outro caso. Nenhuma dessas formas é sintaticamente neutra .
A análise das orações coordenadas tem de atentar para seus aspectos formais e semânticos, para as subclasses distribucionais a
que aludimos no item precedente e para a maneira como elas deixam perceber a participação do locutor no enunciado (ver abaixo).
Há incompatibilidade semântica entre aditivas e alternativas. Já, formalmente, não se combinam por serem ambas conjunções.
Por outro lado, entre adversativas e aditivas não há incompatibilidade; só o 'mas', por ser conjunção, repele a companhia do 'e'. - Num
exemplo como (xxvi) Ele foi a Roma e não viu o Papa, o conteúdo adversativo da segunda oração é obra do 'não'; o 'e' presta-se apenas a
unir duas entidades gramaticais da mesma natureza - papel exclusivamente formal. Note-se que é incongruente dizer (xxvii) Ele não só foi a
Roma, como não viu o Papa.
A adição e, abaixo dela, a alternância são, por conseguinte, os processos coordenativos por excelência; o contraste - 'mas' -
pode também unir entre si termos subordinados a um terceiro, sendo que as alternativas e as aditivas, por natureza lógica, unem elementos
sem limite e a adversativa somente dois.
As explicativas e as conclusivas constituem conteúdos lógicos de certas orações, ditas coordenadas por razões antes formais que
semânticas. Seus verbos são irredutíveis às formas nominais - característica comum às orações subordinadas em geral -; além disso, elas
não podem ser deslocadas para o início do período - propriedade que têm as orações adverbiais não correlativas. Não deixa ainda de ser
oportuno notar que, da mesma sorte que as adversativas - e isto é uma característica das orações coordenadas - essas orações podem
exprimir uma apreciação/participação do falante àquilo que relata no conjunto de oração príncipal e subordinada (releiam-se os comentários
a propósito de (xviii)). Comparem-se os exemplos (xxviii)/ (xxix) e (xxx)/(xxx):

(xxviii) Dizem que Gonçalo come pouco quando chega o verão.


(xxix) Dizem que Gonçalo comerá pouco se não servirem espinafre.
(xxx) Dizem que Gonçalo come pouco; entretanto, não parece.
(xxxi) Dizem que Gonçalo comerá pouco; portanto, sirvam espinafre.

Em (xxviii)/(xxix), a oração temporal e a condicional - subordinadas - são informações dadas pela mesma pessoa que diz que
"Gonçalo come/comerá pouco". Já em (xxx)/(xxxi), o contraste e a conclusão exprimem a participação de quem reporta o enunciado
"Dizem que Gonçalo come/comerá pouco."
Encerrando, destaquemos uma particularidade do par 'explicativa/conclusiva'. O conteúdo de (xxxii) Gonçalo é vegetariano, pois
só come soja e legumes, pode ser expresso por uma construção conclusiva, desde que se invertam as orações: (xxxiii) Gonçalo só come
soja e legumes, portanto é vegetariano. A ordem das constatações é a mesma: fato e inferência, embora a ordem da enunciação seja
invertida.
Concluindo, cremos que uma análise dos aspectos sintático-semânticos da coordenação e da distinção fundamental
coordenação/subordinação, para não ser superficial e enganosa, deva tomar em consideração os fatos que evocamos, aínda que de modo
desordenado, no presente estudo, que não tem a pretensão senão servir modestamente ao ensino de português.

Niterói, 26 de julho de 1979.

BIBLIOGRAFIA

1. SAID ALI, M. Dificuldades da língua portuguesa. 6. ed. Rio de Janeiro, Acadêmica, 1968.203 p.

2. BECHARA, Evanildo. Licões de português pela análise sintática. 7. ed. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1967.353 p.

3. CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de lingüística e gramática. 7. ed. Rio de Janeiro/Petrópolis, Vozes, 1977. 266 p.

4. ELlA, Sílvio. Justaposição. Jornal de Filologia, São Paulo (2): 107-112, abrilDunho 1955.

5. GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 4. ed. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1976.508 p.

6. GILI Y GAYA, Samuel. Curso superior de sintaxis espaliola. e. ed. corro y notablemente ampliada. Barcelona, Publicaciones y Ediciones
Spes, S. A., 1948.315 p.

7. LUFT, Celso P. Moderna gramática brasileira. Porto Alegre, Globo, 1976. 193 p.

8. MELO, Gladstone Chaves de. Gramática fundamental da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1978.258 p.

9. . Novo manual de análise sintática. Rio de Janeiro, Simões, 1954. 190 p.

10. OITICICA, José. Uma gramática. Niterói, Tip. J. Gonçalves, 1955.70 p.

- A restrição a que temos nos referido diz respeito à contigüidade. Com efeito, no período (xxiii) Gonçalo é vegetariano, mas não come
abóbora nem bebe chá, há um conjunto oracional de expressão e conteúdo adversativo, no interior do qual duas orações se ligam
aditivamente. Veja-se ainda (xxiv) Gonçalo é vegetariano, pois só come abóbora e só bebe chá (duas orações explicativas coordenadas por
'e') e (xxv) Remetemos dois convites ao Orlando, mas ou ele se mudou ou está doente, (em que duas orações adversativas se unem por
meio de ou ...ou) .
_4'.. ~ ..,.__ .__ .

8. Relações gramaticais e esquemas relacionais


e pelo(s) seu(s) argumento(s) interno(s), e o sujeito, i.e., o c\)nstituinte que satura lJ pr~llic"do
ou, por outras palavras, o argumento externo do predicador.
De um modo geral, uma oração coincide com uma frase e, neste caso, () predicado inclui
pelo menos um elemento verbal; vejam-se os seguintes exemplos, em que II predkado está em
itálico e o sujeito entre parêntesis curvos:
, ,v
..
,.
(I) (a) (O miúdo) comeu um gelado.
MATEUS 1 M, H. M. et a/H (1989). (b) (O miúdo) tinha troçado do irmão.
Gramática da língua portuguesa, (2) (a) (O miúdo) está contente.
';oimbra: Almedina. (b) (O miúdo) é filho do Pedro.

Em' (Ia), o predicado é constituído pelo predicador verbal (=comeu) e pelo seu argumento
Abordaremos, neste capítulo, as RELAÇÚES GRAMATICAIS dos constituintes na cons- interno (=um gelado); em (Ib), o predicado inclui, para além do predicador verbal (=troçado)
troçA0 'frase' e a ORDEM LINEAR segundo a qual ocorrem nas frases básicas. do Português. e do seu argumento interno (=d I o irmão), o verbo auxiliar (= tinha). Em (2), o predicadll
Consideremos as seguintes 'frases: inclui um verbo predicativo (=está, em (2a); é, em (2b», para além de um prcdicador-
-adjectival, em (2a) (=contente); nominal (=filho), seguido do seu argumento intcrno (=d I o
(1) (a) O jornalista contou a novidade aos amigos. Pedro), em (2b).
(b) •A novidade aos amigos o jornalista contou. Contudo, há casos em que oração e frase não coincidem. Considere-se um cxcmplo co-
mo (3):
(la) ~ uma frase básica do Português que pode caracterizar-se sintacticamente, numa pri-
meira abordagem, como uma sequência em que:
(3) O João considera a Maria inteligente.
(i) cada constituinte tem uma dada relação gramatical;
(ü) os constituintes ocorrem segundo uma dada ordem linear (veja-se a agramatlcalidade Nesta frase, existem dois domínios de predicação:
de (lb) vs a gramaticalidade de (Ia)).
Esta caraeterfstica sintáetica repc:rta-se à rorma final das frases, i.e., à forma sintáctica que , (3') (O João) considera a Maria inteligente.
corrcspolldc à sua realização material no discurso. Para uma descrição sintáctica satisfatória é (3") O João considera (a Maria) inteligente.
nccasúio que se considerem nfveis de estrutura mais abstractos que a forma final: a(s) estru-
tun(.) ou rorma(s) subJac:ente(s). '.~ .,0 ~.'fo Assim, a frase (3) é analisável numa oração cujo predicado é a sequência em ilálico cm In
Tal como acontece na forma final, também na(s) forma(s) subjacente(s) cada constituinte e o sujeito o constituinte o João e numa ORAÇÃO PEQUENA, cujo predicado é o consli-
tem uma dada relação gramatical que pode ou não coincidir com a que tem na forma final. Nas tuinte em itálico em (3") e o sujeito o constituinte a Maria.'
frases b4sicas do Português, i • relação gramatical final dos constituintes que detérmina a ordem
Unar da SUl oc:orrfndal• 8.1.1. Sujeito (=SU)

8.1. Relações gramaticais (4) SU = dI relação gramatical do constituinte que ocorre como argumenlo exh.:rno do
predicador, i.e., do argumento que ocupa uma posição externa à projecção máxima
Um domínio sintáctico de predicllção - i.e., uma ORAÇÃO!, contém dois termos funda- definida pelo predicador.
mentais: o predicado, i.e., o constitui'lte ou sequência de constituintes formado pelo predicador Em Português, o SU pré-verbal é o constituinte (nominal ou oracional) imediatamcnle
dominado por F; o SU póS-verbal é o constituinte adjunto ao nó SV-.

I Clamamos frases básicas às frases declarativas positivas simples não marcadas _ i.e .. sem constituin-
tes afectados por proc:asos de marcação prosódica ou sintáetica.
J ~ o modo como esta generalização deve ser entendida em frases com verbos inacusalivos e em '0 exemplo (3) ilustra a construção transitiva predicativa. Sobre as propriedades desla ((ln,truçao no
constnJçIllespassivas, veja-se, respectivamente, 10.4. e 10.5. Português veja.se MARRAFA 85. '
.' P?" outras palavras, uma oração ~ u domlnio sinláctico em que uma projecção máxima de nalureza Sobre a análise de frases envolvendo igualmente a existência de uma mação pC4ucna. w;;,'sc 11/4 c, •
pr~lCIhva rICasaturada mediante a existência de um sujeito. bibliografia ai indicada.
, Sobre sujei los pós-verbais, ver 10.2.• 10.3. e 10.5.
LL.U'
'co,,'\'
Ji' <.; ~., ~A ••• A, •• .,
't60
& • &1 'to li' ~ 'lo> ,.
.4 I~I
(5) Proprieer.des tiplcas de SU

A proeminência sintáctico-semântica do SU traduz-se:

(a) relativamente à ordem de palavras, pelo facto de, nas frases básicas, o SU ocorrer na
prtmán posiçio argummtal na frase;
(b) relativamente ao controlo de processos gramaticais, pelo facto de o SU ser:
- o controlador tfplco da concordincla verbal;
_ o controlador preferencial da amifol'1lfrásica (intra- e inter-oracional);
- O controlador exclusivo dos pronomes anaf6ricos;

(i) Dadas as características dd flexão verbal em Português, quando o SU é um pronome


aio aIf,tico tem, &enimente, uma realização nula - Soube que passaste no exame.
Parabbul é mais natural do que Eu soube que lu passaste no exame. Parabéns! Esta
,I
propriedade tem vários corolários:
l
,
I. I.

(a) A lnexbtfnda de SUs «gramaticais» - aparentes ou vazios - que, noutras lín-


I' 'I ,

guas, funcionam como «suporte~ em estruturas com verbos impessoais (compare-


... I
-se Chove torrencialmente com 11rains caIS and dogs), ou como ('marcadores» de (a"''') O gelado foi comido pel(o miúdo).
posição de SU (compare-se Parece que o João jd chegou com JI seems John has
tllready arrived);
(b) A lDexlstincla de uma forma pronominal nominativa que exprima o chamado SU 8.1.2. Objecto directo (=OD)
«lndetmnlnad~; este pode ser expresso: .
_ pelo clltico nominativo se acompanhado da 3.' pessoa do singular de um verbo (7) OD = dI relação gramatical do argumento interno de predicadores verbais de dois ou
(compare-se Diz-se que o 'eile vai fallar com O" dil qu'il manquera du lai/); três lugares que é, tipicamente, paciente (com Pc) ou objecto (com Pproc ou Pn). Nas
_ pela 3.' pessoa do plural de um verbo com SU nulo (compare-se Dizem que o frases básicas, é o constituinte nominal ou oradonal imediatamente dominado pnr SV,
llile vai fallar com They say Ihere wilf be a lack of milk} ... à direita do verbo.

! '; ~ {6) Testes pan identificação de SU final (8) Propriedades tiplcas de 00


! ,
(i) Substituição pela forma !lominatlva do pronome pessoal: (i) Com certos verbos transitivos, o 00 final pode ser nulo, quando não se especifica o
objecto particular da espécie típica que costuma ocorrer
, como OD do verbo:
(a) (O miúdo) comeu um gelado.
(a') (Ele) comeu um gelado. (9) (a) O João leu (0)00 toda a noite.
..,. (b) A Ana está a comer (0)00.
I i/li' (ü) Construção de uma estrutUI'1ldlvada em que o SU ocorra em posição de contraste e
os restantes constituintes mantenham a posição inicial (Ser SU que X): Nestes casos, o estado de coisas descrito é interpretado geralmente como um processo;
(a") Foi (o miúdo) que comeu um gelado. (ii) Com certos verbos transitivos que exprimem tipos gerais de eventos ou processos, o
argumento que deveria ocomr como 00 Onal pode ser Incorporado no verbo, pas.
sando este a exprimir um subtipo desse tipo geral de eventos ou processos':

• J &ta propriedade foi proposla ;l(la primeira vei para o Português, no quadro da leoria clássica da
O.O.T., por MEl RELES 72. Correspondendo a um dos processos de supressão do SUo ela foi designada
. por qlltdlz do pronome SU MO enf6tico e dislinguida da suprcS.lão do SU por identidade (EQUIINP dele-
I O processo de incorporação do OD no verbo lem. porlanlo, como entrada um vert>ode

n.'
/I lugares c. ,
1
6'j tioD)como na conslruçãO: .Eu quero (eu) sair».
como resutlado. um verbo dc lugares. .
\-
(10) (a) O Presidente fez (um discurso)OD na Asscmbleia.
(b) O Presidente (discursou)v na Assembleia. ( 17) Testes para identificação de OD

(i) OD final
(ili) Quando de natureza nominal, o argumento nuclear com a função de 00 é o argu-
IDelltoque admite mais flldlmeute um especificador 0: (a) Substituição do constituinte 00 pela forma acusativa do pronome pl"li~oal:
(11) (a) Vi (miúdos)OD no jardim. (1) (a) O miúdo comeu (um gelado)oD.
(b) .(Miúdos)su estão a brincar no jardim. (1) (a""') O miúdo comeu-(o)OD'
(c) .Demos os rebuçados a (miúdos)Q1.
(b) Formulação de uma interrogativa de instanciação sobre o constituinte OI)
(iv) O OD final ocorre tipicamente sem pre~ção. Notem-se no entanto os seguintes
casos de OD precedido de preposição: (segundo o esquema {quem} é que 5U V?), que constitui a resposta n~1ll
o que

(a) Quando o 00 é o pronome relativo quem, ocorre obrigatoriamente precedido redundante:


de a:
(I) (a""''') P: O que é que o miúdo comeu?
(12) Vi o velhote a quem o Luís ajudou. R: (Um gelado).

(b) Quando o OD é um clítico pronominal com redobro, o pronome de redobro (c) O constituinte 00 de uma frase activa tem, na passiva que lhe correspondc. a
ocorre na forma tónica precedido de a: relação de SU:

(13) Vi-(OS)ODa eles à saída do cinema. (1) (a"''') (O gelado)su foi comido pelo miúdo.
II
i
(c) Em certas expressões feitas, o OD ocorre precedido de a: (ii) OD subjacente: um OD subjacente pode ocorrer na construção particípio absoluln. , I

mantendo a mesma relação semântica com o predicador:


! I
~~ .: '
(14) (a) amar a (Deus)OD (mas amá-(Lo)oo).
(18) Comido (o gelado)OD, o miúdo f"i brincar.
(b) temer a (Deus)oD (mas temê-(Lo)oo). I !:
(v) Nas frases básicas, o OD final ocorre:
(~:~bjeCIO i.di,eclo (=01) I!
, ,
(a) imediatamente A direita do verbo!;
(b) imediatamente l dlnita do OI, se: (19) OI = dC relação gramatical do argumento interno de verlJOsde dois ou trê~ lugarcs ;i
I '

- OI for um clftko:
que tem, tipicamente, a função semântica de recipiente ou orig~rn.
Nas frases básicas, o OI é constituinte imediato de um SP que é nó.irmão à Jilclla
do constituinte com a relação gramatical de 00 ou do \'erbo.
III:
I

II
(IS) O João deu-(lhe)Q1 (um livro)oo. ; li
(20) Propriedades tipicas de OI
'li!
- OD for um SN longo ou complexo ou uma frase complemento: I;
(i) OI é, tipicamente, um argumento (+ANIMAOO).
Ocorrem Ois (- ANIMADO) nos seguintes casos: 11.
(16) (a) A Ana comprou a(o Gonçalo)Q1 (o quadro do vencedor da 2.' Bienal de
. I. Artts Pl4sticas de Cerveira)OD.
(b) A Ana contou a(o Gonçalo)Q1 (o filme que foi ver ontem)oo. (a) Com certos predicadores de dois lugares, que admitem Ois [-ANIMADOI: il'l
'. I

(c), O jOl1l31Qacontou a(os amigos)ol (que lhe tinham c:msurrulo a repottagem)OD'


(21) (a) obedecer a(o regulamento)OI'
(b) sobreviver a(o massacre)Q1.
'.
I'
(b) Com certos predicadores de três lugares, que podem também ser u$aJ\l~ Cllml) ./
I
,,/'" '),~ .. '''"-/ /.,.,
t65 I _
(26) Testes para identificação de Oi final
prcdicadores de dois lugares, ocorrendo neste caso o constituinte OI interna-
mente ao SN com a função de OD: (i) Substituição do constituinte OI pela forma dativa 00 pronome pe~~lla\:

(22) (a) cortar (as folhas)OD atas árvores)Qt 1/.' (25) (a) O miúdo deu o brinquedo alo amigoh}l'
às . (ti) O miúdo deu-(lhe)Qt o brinquedo.
(b) cortar (as folhas das drvores)OD' !i
(U) Formulação de uma interrogativa de instanciação sobre o constituinte OI
(23) (a) limpar (o PÓ)OData mesa)Qt
(segundo o esquema a {quem} é que SU V (OD)?), que constitui a re~po~la não
à que
(b) limpar (o pó da mesa)OD
redundante:
(e) Com dar ou fazer, seguido de um OD que designa um estado de coisas, OI é
frequentemente (-ANIMADO): (25) (a') P: A quem é que o miúdo deu o brinquedo?
R: A(o amigo).
(24) (a) dar (uma pintura)OD atas estantes)Qt
às
(b) fazer (uma limpeza)OD ata casa)Qt 8.1.4. Predicativo do sujeito (=Pred SU) e do objecto direcro (=Pred OD)
à
Repare-se que estas construções admitem um..~blíquo (=OBL) em vez de um OI: (27) PRED SU = 111 relação gramatical dos constituintes que fazem parte llo prc<ill'.lllllem
". -\
frases predicativas (i.e., em frases com verbos predicativos I e do argumento neutro
'(24) (a') dar (uma pintura)oD. n(as estanles)ooJ dos predicadores estativos identificacionais.
(b') fazer (uma limpeza)ÓD n(a casa)oBl/ /
Nas frases básicas, um PRED SU ocorre sempre num dos scguinte~ nllltnlll~.
-I VPRED- X (cf. (2a»
As mesmas CQnstruçóesadmitem incorporação de OD no verbo, passando o ar- _I VESTATIVOIDENTlFICACtONAl - X (cf. (28))
gumento OI a funcionar como OD:
(2) (a) O miúdo está VPRED(contente)PREDSUo
(24) (a") pintar (as estanles)oD
(b") limpar (a casa)OD (28) O senhor João é VE~1.IDENT.(o porteiro da Faculdade)pRED SII'

(ü) Quando OI é um SN ou uma frase, ocom precedido de a; se for um pronome pes- (29) Propriedades típicas de PRED SU
, soai apresenta a forma ;lallva da flexão casual: -;.:"
(i) PRED SU é um predicador adjectival ou nominal, que ocorre no contexto I "I'KW-;
(25) (a) O miúdo deu (o brinquedo)oD ato amigo)Qt. neste caso:
(b) O miúdo deu-(lhe)Qt o brinquedo. '
(a) se o PRED SU for um ADJ, a relação semântica que o ADJ mantem nllll 11 SU
(ili) Nas frases básicas, um OI final ocorre: é a de atribuição de uma dada propriedade à entidade designada por SII. e o
PRED SU apresenta as mesmas marcas de género e número de SU:
(a) lmedlataJlltote à direita de OD (ver, por ex., (25a));
(b) lmedlatamalte à direIta do verbo, se: (30) (a) Ela anda (cansada)PRED SUo
(b) Os miúdos foram (amorosos)PRED SUo
- OI for um cUfir" (ver. por ex., (25b»';
_ OD for W'! (ver (16a) e (16b» ou uma frase comple- (b) Se o PRED SU (or uma expressão nominal qualitativa (por ex.. um C.lPIIII/U. 11111
mento (vel hC1rror,um perigo, uma vergonha, ... ), a sua relação semântica com o SU é a de
atribuição de uma dada propriedade à entidade designada por SU. c não existe
concordincla de gênero e número entre o PRED SU e o SU:
:~. I ~ I oosi~~ de OI quando ate ~ um pronominalc1ltico,ver 13.
(31) (a) Os teus amigos são (um amor)PREO SUo
(b) Os pontos de Português foram (uma desgruça)PREI.>SU. (ii) O PREO 00 concorda em geral em género e número com (l OI):

(c) Se o PREO SU for um nominal com especificador 0, a relação semântica entre o (39) O J.oau ach a ( a Mana.) 00
{(muito
'(
bOllilU)PREIJ OI.>'
. b .
SU e o PREO SU é a de Inclusio da entidade designada por SU na classe que o mUito omto)PREO00.
PRED SU define intelJSionalmente,e o PREO SU apresenta as mesmas marcas de
gálero e número do SU:
8.1.5. Relações gramaticais oblíquas
(32) (a) A Maria é (escultora)PREO SUo
Os argumentos com a relação gramatical de OBL são:
(b) O Luis e o Antônio são (actores)PREO SUo
- argumentos nucleares, como em:
(d) Se o PREO SU for um nominal areetado de determinação indefinida, a relação
semântica do SU com o PREO SU é a de membro da classe definida intensional.
(40) (a) (O Joãu)su pôs (o livro)oo (na estame)OBl'
malte por PRED SU, e o PREO SU apresenta, em geral, as mesmas marcas de i
cfaero e número do SU: (b) (O Pedrolsu foi (ao 8rasi/)OBL' I
~J '. f I
(c) (A sessão)su durou (três horas)OBl'
;, I
(33) (a) Eles são (uns cineastas muito conhecidos)pREO SUo
(b) A Maria é (uma ôptima escultora)PREO SUo - argumentos não nucleares. que podem manter uma grande variedade de relaçües semân.
ticas com a parte nuclear da predicação. Assim, há OBLs que, semanticamente:
,\

(ü) Quando o predicador é um verbo estativo identfficacional, o PREO SU é o argu-


". ' mento neutro desse predicador e pode ser um nominaJl ou uma frase; a relação (i) fornecem especificações adicionais do estado de coisas des-:rilo; ~ \I (;;150 dos
argumentos com a runção semântica de instrumento l:

semântica entre o SU e o PREO SU é uma relação de equivalência ou de identifica.


çio, cujo termo-origem é o argumento SU: (41) O João cortou-se (com o abre.lalas)OBl'
(34) (a) Ele é (o professor de Sintaxe-Semdntica)PREO SUo (ii) designam outras entidades participantes no estado de coisas descritu; c o caso de
(b) O problema é (que a sessão não teve quórum)PREO SUo argumentos com a função semãntica de comilativo (ver p2a)) ou bi:neliciário
(ver (42b»: i
(iü) Em certos casos, a concordância verbal pode fazer-se com o PREb SU:
(42) (a) O Luís foi ao cinema (com a Ana)OBl' I,
(35) (a) São (duas)pREo SUo (b) O meu amigo pintou esse quadro (para a Maria)oBL
(b) Foram (meses e meses de seca)PREOSUo
(iii) localizam o estado de coisas descrito no tempo e no espaçu; é u caso de ,Hgll'
(36) PREO 00 = df relação gramatical do constituinte que é o núcleo di 'oração pequena mentos com a função semântica de tempo (ver (43a)), duração ou freqllência
DI posição de complemento de verbos transitivos predicativosl. (ver (43b»), e o de argumentos com a função semântica de locativo (ver (-tola))
ou direccional (ver (44b»):
,' (37) Propriedades tfpicas de PKED OD
(43) (a) Encontramo-nos todos (logo à noite)OBl'
(b) Eles vão ao cinema (todas as semanas)OBl.
(i) O PREO 00 é um adjectival ou nominal, que constitui o núcleo predicativo da
oração pequena na posição de complemento do verbo transitivo predicativo, e tem
como argumento externo o constituinte com a relação gramatical de 00: (44) (a) O João almoçou (no Damas)OBl'
(b) O porteiro carregou as malas (para o táxi)OBL'
(38) O João acha (a Maria)OD (uma óptima astrojisica)PREO 00.
(iv) descrevem um estado de coisas em relação de conectividade cunceplual com o
I Sempre afectado de determinação definida ou usado genérica ou universalmente (nos enunciados
definitOrios). I Note-se contudo que os verbos usar e utilizar têm um argumenlo nuclear imlrumcnlo (11m a rrla\~\I
I Sobre verbos transitivos predicativos, ver 8.2. gramatical de 00:
Ex: O ladrão usou (um pt.de.cabra)'NST 00 para abrir a janela do carro.

e
~
f?i~~~ f--" 1" \,' i{ 'i." t", I
168
,. .. a., •• ." ao Ao Ao .i a, •. .., a, •.•
~.r6"ir~.lr6'",:
t~,~'" i~l.

estado de coisas desr.rito pela predicação nuclear; é o caso de argumentos com a (g) SU VPREDPREOsu OBL X
função semântica de causa (ver (45a» ou Om (ver (45b)): (h) SU V OBL X
(i) SU V X
(45) (a) Há falta de leite (por causa da seca)OBL' (j)VX
(b) Tenho de sair já (para não perder o avião)oBL'
(2a) é o esquema típico de frases em que o predicado r é um verbo transilho de Irês lu-
Em geral, os constituintes OBL são introduzidos por uma preposição que marca a sua gares, pertencenle à classe dos predicadores não eslalivos transferenciais (causativo, c não
funçlo semAntica. No caso em que os OBLs são frases, é a ocorrência de um dado coneclor que causativos)l. Em geral, o argumento com a função semântica de objeclo (o li\'T(l. em \ LI)) é
exprime o tipo de relação semântica existente entre a predicação e o argumento frásico OBL. 00, e o argumenlo com a função semânlica de recipiente (o Pedro, em (Ia)) ou uril!clIl (em
verbos como comprar, receber, por ex.) é OI.
(2b) é o esquema caracterlstico de frases em que o predicado r é um verbo Iransililo de três
lugares, sendo um dos seus argumentos nucleares OBL. Os verbos que determinam este eS4ue.
l
8.2. Esquemas re/acionais ma têm, portanto, um SP como um dos seus argumentos inlernos .

(2c) é o esquema caracterlstico de frases em que o predicado r é um verbo Iransitho de dois


Os ESQUEMAS RELACIONAIS representam os tipos possíveis de organização sintáctica lugares).
das frases bãsicas de uma lingua, !ornecendo informação sobre: (2d) é o esquema tlpico de frases em que o predicador é um verbo Iransilh'o predicatho',
" '
(2e) é o esquema tlpico de frases em que o predicador é um verbo de dois IUl\ares com um
(i) o número de argumentos nucleares do predicador; argumento interno OI'. Em geral, esse argumento é (+ANIMAOOI e tem a função scmântica
(ii) a relação gramatical final de cada um deles;
(üi) a ordem linear segundo ~ qual ocorrem os constituintes da frase.
I Veja-se a seguinte lista exemplificativa:
anunciar comprar dizer oferecer
É o predicador seleccionado que determina a ocorrência de um dado esquema relaciona\.
apresentar dar mos/ror pagar
Se considerarmos as seguintes frases: Todas as listas de predicadores apresentadas !leste capitulo foram elaboradas a panir d,,, h,las de
verbos, adjectivos e nomes do Português Fundamental.
(1) (a) (O João)su deu (o livro)OD (ao Pedro)OI (ontem)OBL' , Veja-se a seguinte lista exemplificativa:
SU V 00 com OBl: confundir, par/ilhar, reparlir
(b) (Ele)su partilhou (o almoço)OD (com o amigo)oBL'
SU V 00 de OBL: afastar, aproximar, ('Konder
(c) (O Pedro)su adorou (o teu presente)OD' ,." SU V 00 em OBL: converler, ('nfiar, transformar
(d) (O Pedro)su achou (esse livro)OD (desinteressante)PRED OD. SU V 00 por OBL: distribuir, substituir, Irorar
(e) (A exposição)su agradou (aos crlticos)OI' Sobre verbos como os acima exemp1ificados,veja-se EPIPHANIO 17. cap, IV.A. pp 1011,157
(f) (O bebé)su estd (contente)PRED suo , Veja-se a seguinte lista exemplificativa:
abrir cantar crer
,(g) (A Joana)su é (parecida)PRED su (com o pai)oBL' eseUl'er
adorar chatear descobrir
'I,' (h) (A Ana)su conta (com VocêS)OBL(para o jantar)OBL' desenvolver eSl/uecer
agarrar comer
(i) (O primo dela)su emigrou. aprender compreender detestar emular
G) Choveu (hoje)oBL' atacar conseguir empregar fazer
beber construir enganar [rel/u •.••,"r
Os exemplos (1) ilustram os esquemas relacionais das frases básicas do Português. Apresen-
ganhar organizar sentir
tá.los-emos em (2), representando através da variável 'X' os constituintes que são argumentos supor
guardar ouvir
opcionais (nas frases consideradas, são argumentos opcionais: ontem, em (la); para o jantar, em imaginar pensar Itr
(Ih); hoje, em (li)): lavar queimar ultrapassar
ler querer ver
(2) (a) SU V OD OI X matar recordar
(b) SU V OD OBL X • Veja-se os seguintes exemplos:
achar considerar
(c) SU V 00 X I Veja-se a seguinte lista exemplificativa:
(d) SU V 00 PREOOD X SU V a OI: acudir bastar obedecer rrpul(lIlJ1
(e) SU V OI X agradar convir ocorrer wbr(\,ll:a

aparecer faltar perltnrer sl/rcda


(f) SU VPRED su X
de cxperienciador (com verbos estativos experienciais), de recipiente ou de origem.
(2t) e (2g) são os esquemas típicos em que o predicador:
propriedadc~ 'lgnificalivas com o argumento interno OD dos verbos transitivos. Vejam.se as
seguintes propriedades destas duas classes de verbos:
pertence a uma subelasse de verbos estalivos de dois lugares que exigem um PREO
(i) SUl;
(3) Construção Particípio Absoluto:
(ii) é adjedivaJ ou Dominai de um lugar - ocorrendo nesse caso o esquema SU V Enquanto o SU dos verbos inergativos, à semelhança do argumento externo dos ver.
PREOsu X (cf. (2f)) - ou de dois lugares - ocorrendo nesse caso o esquemaPRED
SU bos transitivos, não admite tal construção (cf. (4a) e (4b)), o SU final dos verbos
VPREDPREOsu OBL X (cf. (2g})l.
inacusativos, tal como o argumento interno 00 dos verbos transitivos, admite-a (cf.
(5a) e (5b)):
(2h) é o esquema característi(;" de frases em que o predicador é um verbo de dois lugares
com um argumento interno OBV. , I
(4) (a) .Trabalhado (o João) vs (o João)su trabalha.
. (~i~é o esquema característico de frases em que o predicador é um verbo de um lugar, (b) .Revisto (o João) vs (o João)su reviu (as provas)OD.
cUJouruco argume?to nuclear ocorre como SU final. O diferente comportamento dos SUs finais
destes verbos relativamente a certas construções e processos permite-nos distinguir duas subclas- (5) (a) Chegado (o João) vs (o João)su chegou.
ses: a dos ,verbos loergalivos e a dos verbos ergativos ou loacusaliv0s4. (b) Revistas (as provas) vs (o João)su reviu (as provas)OD'
Com efeito, enquanto o SU final dos verbos inergativos tem um comportamento análogo
ao do argumenlo externo de verbos transitivos, o SU final dos verbos inacusativos partilha (6) Enquanto as formas participiais de verbos inergativos não podem ocorrer nem em
posição predicativa em construções com verbos predicativos (cf. (7a)) nem em posi.
ção atributiva (cf. (7b)), as formas participiais de verbos inacusativos, à semelhança
das formas participiais de verbos transitivos, podem-no (cf. (8) e (9)):
I É o ca50 dos verbos eslalivos ideolificacionais (como par~c~re ser).
• Veja-se a seguiole lista de verbos prcdicalivos:
(7) (a) '0 rapaz está rido.
(i) s~r, uvdar-Jt, tomar.s~; (b) .0 rapaz rido ...
(ii) estar, antÚlr.continUllr.Iiear.pm7lan~ur.
(8) (a) O rapaz está desmaiado.
Os .verbos de
aspectU31$.(Cf. (i) incluem ser c as suas vafianles aspecluais; os de (ii) incluem mar e as suas vafianles
5.4.1.) (b) O rapaz desmaiado ...
.. Veja-s~
«11)) a seguinte lisla exemplificativa de predicadores adjeclivais ((i») e' de'predicadores
de dOISlugares: nominais (9) (a) A janela está fechada.
(b) A janela fechada...
(i) { a OBL: alenw. igual. sens{vtl. útil•..... ~ .'~ ~::.
SU VPRED PRED com OBL: par«ido. solid4rio•...
de OBL: amigo. ch~io. di/~r~n/e•...
(10) Enquanto os verbos inergativos, à semelhança dos verbos Iransitivos, podem ser a
por OBL: doido. r~sponsdvtl.... _;.,.
entrada de nominalizaçães em - or (cf. (lia) e (Ub)), os verbos inacusativos não o
(ü) a OBL:
{ podem ser (cf. (12)):
SU VPIlED PRED com OBL: agressão.alusão. insulto, oposição,...
de OBL: cumplicidade.solitJDmdad~ •...
cutpa, ~, salUÚldes •... (11) (a) correr - corredor
por OBL:
) SU V OBL: demorar. durar desresptito. responsabilidade•... trabalhar - trabalhador
SU VII OBL: assistir (=eslar presenre), faltar. r~corr~r (b) construir - constructor
SU V com OBL: contar. correr, gozar. lUtar informar - informador
• SU V d~ O~L: d~p~ndtr.laur. gostar. pr~cisar.rir. Sofrer
-314. eSobre esla 84.
ELlSEU dislInçao, proposta ofiginalmenre em PERLMUlTER 17 '. veja-se RAPOSO 81 pp . 290-
Veja.se a seguinre lista exemplificativa:
(i) Vtrbos ~rgativos
antÚlr p~ar (ii) Vtrbos inacusativos
assobiar rimar aeon/tCtr
dtsaparecer
brincar rir apartcer
desmaiar
corrtr saltar cair
morrtr
chegar
tÚlnçar trllbaihar nascer
crescer
ocorrer
1"7"
surgir
...
(12) chtgar - 'chtgador
frase, por uma preposição se'manllcamellle.v~ZI<l,;:~í,rt';!:)/;,"~',,;~~;;0\;
dtS11Uliar- 'dtsmaiador Esta hipótese parece ser corrobôradap,or ãlgUíis?f~~t~~:~~T"fi
naufragar - 'naufragador fases anteriores de evolução da língua, o argumcntonite~n%~
ocorria sem preposição, como 00 final'; em segundo lugaf;:'a~:~?';;f,;A*:"
o con5tr~te entre (10)-(11) e (12) deve-se ao facto de o processo derivacional em questão ção quando o argumento. interno é um SN ~u um~ frase mhlÍltIY,~ic;;(}~.... . o" .' •

apenas ter como domínio de aplicayão verbos que selecclonam um argumento externo. preposição quando se trata de uma frase fimta (veja-se o contrastc.cmr~'.;(;;i',!;,t\.rj:.
6
»: . ;r>.~\ ..t~;.'~t':g\1il';p:ir\'J9;
(2j) ~ o esquema característico de frases em que o predicador é um verbo impessoal'. Os
verbal impessoais não scleccionam argumento externo e, quando têm argumento interno (como
(1
(14) (a) O João gosta da Maria.
!
.......
,!
~ o caso de havtr), este nunca OCOrre,na forma final da frase, na posição com a relação (b) O João precisa de uma boa lição.
gramatical de SUo
as ~uemas relacionais apresentados em (2) e as propriedades das classes de predicadores (15) (a) O João gosta de ler. \
que determinam a sua ocorrência suscitam as seguintes observações: (b) O João precisa de apanhar um susto.

(i) As propriedades dos verbôs inacusativos mostram a insuficiência da distinção tradi- (16) (a) O João gosta que a Maria toque jlallta.
cional enfre verbos transitivos e intransitivos. Com efeito, na tradição gramatical cha- (b) O João precisa que lhe dêm uma boa lição.
mava-se 'intransitivos' aos verbos de um lugar que apenas seleccionam um argumento
externo; ora, como vimos, o SU final dos verbos inacusativos comporta-se, relativa- Oe qualquer modo, o .argumento interno destes verbos não tem o (\J1npllfl~.
mente aos processos sintáeticos e morfológicos indicados em (3) (10) e (12), como um mento nem de um 00 final (não é substituivel pela forma acus~tivo do pronome
argumento interno. Por outras palavras, o 5U final destes verbos é um OD inicial. pessoal) nem de um OI final (não é substituível pela forma dativa do ml:SnlOPfll'
Deste modo, os verbos inacusativos escapam à classificação tradicional: não são ver. nome), razão pela qual lhe atribuímos a relação gramatical de OBl. (final)
bos intransitivos porque st.leccionam um argumento interno, nem são verbos transiti-
vos porque não selecclonam argumento externo.
(ü) O esquema relacional indicado em (2h) é exigido por verbôs de dois lugares cujo
argumento interno é tipicamente preJ)QSicionado.
. Note-se em primeiro lugar que os argumentos internos prec~idos de a carac-
terísticos deste esquema relacional se distinguem dos argumentos rnternos com a rela-
ção gramatical de OI pelo facto de, ao contrário destes últimos, não admitirem ~ ~::
substituição pela forma dativa do pronome pessoal: .

(13) (a) assistir à aula vs 'assistir-lhe


(b) faltilr ao aamt \lS 'faltar.lhe

Em segundo lugar, é provável que o argumento interno de alguns destes verbos


seja um 00 inicial que, quando é de natureza nominal, ocorre realizado estrutural-
mente como um SP. Por outras palavras, estamos a sugerir que os verbos em questão
tenham perdido proprieáades de atribuição de caso acusativo, razão pela qual o seu
argumento nominal, para ser legitimado, precisa de ser precedido, na forma final da

I $lo verbal impessoais: .


(i) Os verbal e perífrases verbai5 meteorológicos como amanhecer, anoitecer, chover, nevar. trovejar,
tJtiIr CRiar (frio. 101, chuva);
(ii) O verbo existencial haver, cujo único argumento nuclear ~ OD;
, Este ~ o caso de verbos experienciais como gOltar. rir, 'roçar.
(üi) Os verbos fazcr e ler. elll e'-pressões como:
, Sobre a natureza nominal das frases inlinitivas. veja-se RAPOSO/1l7.
.) É tarde
O contrasle entre o comportamento dos argumentos nominais c não nominais destes verhos ~1l11cre4ue
b) Faz anos que não a vejo.
a presença da preposição seja devida ao Fihro do Caso.
t../UMr\ I l-, IVI. L:.:.U8~llfa L. ,LVV I l. «Cf I:)!! IV

de língua em contexto de mudança» In:

.-••
~.
Cadernos do IV Congresso Nacional de,
~inguística e Filologia, vaI. IV, no. 12, pp. \

•••
•• ~ no. 12, pp.51-61. (2001) .
5161.
(Publicado em Cadernos do IV Congresso Nacional de lingüística e Filologia, vol. IV,

\?,:.\~
• w~ ~~'. ENSINO DA LiNGUA EM CONTEXTO DE MUDANÇA
•••V \..) .,' .•
~ ; ... ,~"';',.:':.>~
1!!8 .... ./) ~ Maria Eugênia Lamoglia Duarte (UFRJ/CNPq)


@\~~~>~:r~:;l/

\..-
•.-

Gostaria de começar esta conferencia com um esclarecimento sobre seu próprio
título, cuja primeira parte se refere ao "ensino da língua- propositalmente sem o
adjetivo materna, que em geral vem acompanhando esse sintagma. Com isso espero
deixar claro que quando nos referimos a ensino da língua creio estarmos nos referindo

.-
-8
à língua .oficial que aprendemos na escola, geralmente e infelizmente "a duras
penas., tendo que tidar com regras e conceitos muitas vezes sem qualquer sentido,
que nem sempre conseguimos apticar. Não me refiro, pois, àquela variedade que
~

•e adquirimos desde os primeiros meses de idade, a partir dos dados que nos são
fornecidos pelos familiares e outras pessoas que nos cercam, num processo natural,
J8 que não depende da ação da escola e que já está conduído aos seis, sete anos de
e. idade, não constituindo privilégio daqueles que têm acesso à escola. Esta sim é para


e
mim a língua materna.
Feita essa distinção, passemos a lembrar a natural distância que separa língua
-8
oral e língua escrita, a primeira em constante evolução, a segunda, por seu próprio
I@
@ caráter convencional, mais conservadora. Parece, no entanto, que essa distância, no

-8 que se refere ao português do Brasil, é mais profunda. Isso fica patente, por exemplo,
e quando se vai ensinar português para estrangeiros. Já na primeira lição, o professor
-e encontra problemas com as estruturas com o verbo 'haver', por exemplo. Ele ensina
~ que o que a gramática diz é que "o certo. é: 'há muita gente no jardim', mas diz ao
-e aluno que ele vai ouvir e falar 'tem muita gente no jardim'. Ensina que "o certo" é 'você
-e. foi ao cinema?', mas que ele vai ouvir 'você foi no cinema?'. Ensina que
-e
••
J8
escrevemos/deveríamos escrever 'nós não a vimos ontem', mas falamos/ouvimos 'a
gente não viu eia ontem'. Ensina que a gramática prescreve 'Contaram-me uma
história', mas ele vai ouvir 'Me contaram uma história'. E nós poderíamos continuar
"'-

~ com um~J~ interminável de exemplos.


./-. )
I@ ~~(essas diferenças são freqüentes em todos os sistemas quando se opõe
II@ língua oral à escrita? Se tomarmqs o português europeu atual, a resposta será "Não•.
-e Quando se analisa uma amostra do português europeu coloquial, o que se encontra
~ são variações no nível da concordância e da regência, por exemplo, mas está Jáo uso
~
do verbo haver existencial, estão lá as ocorrências de pr6dise com elementos
~
atratores e as êndises sem atratores, independentemente do nível de escolaridade do

S@
~
,""..,
,fi
iI
fJ
indivíduo. E por que o mesmo não se dá aqui? Porque o modelo de norma culta que i
€I
tomamos era diferente do português efetivamente usado no Brasil. Falemos um pouco
ti
de como se constituiu a norma culta entre nós e vejamos por que se criou esse abismo (t
entre o que se fala e o que se ensina (e nem sempre se aprende) na escola brasileira.
••
Para tanto, eu tomo aqui brevemente as considerações de Pagotto (1998), que
••
nos lembra que a norma culta escrita no Brasil se estabeleceu no decorrer da segunda
metade do século passado e se fixou na primeira metade deste século, à imagem e
•41
semelhança da norma vigente em Portugal, numa tentativa de uma elite intelectual se ••ti
manter em oposição aos demais segmentos da população iletrada. Desta forma, à
ti
medida que o Brasil se tomava politicamente independente de Portugal, um
fi
movimento de dependência cultural tomava força, no sentido de imitar os padrões
~. li
portUgueses.(~ que o português europeu, ao contrário do brasileiro, passara til
nos séculos anteriores (particularmente no século XVIII) por um processo de mudança
••
-"•
fonológica, com inúmeras conseqüências para a sintaxe.
Uma dessas mudanças se refere ao fato de que a fala portuguesa passou a
privilegiar a êndise, isto é, seus pronomes átonos começaram a se dJticizar da direita '
para a esquerda, e o português do Brasil teve que se ajustar a um padrão que não era
ti
ti
absolutamente o seu. Em outras palavras, nós brasileiros, que não tínhamos sido

protagonistas desse processo (uma vez que quem mudou foram eles, não nós!)
passamos a ter que obedecer à norma de não começar frase com pronome. Vem daí a -"
clássica história da colocação dos pronomes átonos, a principal bandeira da norma
culta no Brasil. E o discurso que se desenvolveu ao longo de toda a primeira metade
deste século foi aquele discurso da condescendência, segundo o qual na fala informal,
-
""
"tudo bem usar a próclise sem atrator", mas na escrita, "é de rigor", "impóe-se" a
êndise. Algumas gramáticas chegam a afirmar até que a êndise é a posição natural ti "
dos pronomes em português. Alguns chegam a dizer que o hábito de usar a próclise
faz parte da índole dócil do brasileiro em oposição à rispidez do europeu (como se o
e",
ladrão que diz 'me passa o dinheiro', iniciando a frase com pronome mostrasse
e.,
alguma docilidade).
Em conseqüência disso, há um abismo entre língua oral e escrita, o que fi
favorece a existência de uma indústria lucrativa do certo e do errado, do "pode" e "não IJ
pode", contribuindo para aumentar um preconceito lingüístico absolutamente irracional. li
Um dos agentes mais atuantes dessa onda normativista que assola o país (plagiando,
..,
com algumas alterações, Stanislau Ponte Preta) chegou a dizer, numa entrevista, que ••
foi ao Maranhão porque tinha ouvido dizer que lá se falava um llbom" português.
Vejamos o que ele diz: .,
ÉI

"
ti
? /C"-'
-."

"Certa vez fui ao Maranhão porque me disseram que lá se falava um


português menos contaminado. Pura lenda. Acho que, no cômputo geral, o
carioca é o que se expressa melhor sob a ótica da norma culta. Ele não
come o .s" quando usa o plural, utiliza os pronomes com mais propriedade,
n~o erra tanto nas concordáncias e tem uma linguagem mais criativa."
(Entrevista de Pasqua/e Cipro Neto a VEJA de 10.09.97)

As palavras do professor mostram que ele é o produto exato dessa cultura


preconceituosa que se constituiu ao longo da primeira metade do século XX. Isso se
vê no uso do termo "contaminado", mostrando que ele ignora que todo sistema
lingüístico é essencialmente variável; isso se vê nas avaliações sem qualquer
fundamento teórico, quando por exemplo ele diz que o carioca não .come" o .s",
.... ~--~\
quando nós sabemos que todos nós .comemos. o .s., uns mais outros menoS. Aliás, )
. "'-- .•. .•..- _ •..
os trabalhos pioneiros sobre a queda do -s como marcador de plural foram feitos por
- ./

Marta Scherre, com base justamente na fala de cariocas. Quanto ao fato de o carioca
ter "uma linguagem mais criativa., é difícil saber o que isso significa: como é possível
ser criativo e se expressar melhor sob a ótica da norma culta ao mesmo tempo, como
-'-. . '\

quer o tal professor?...• Aliás/


.
\, ,
uma coisa que esse senhor parece não saber é que o
.

Brasil, de norte a sul, de leste a oeste, tem uma surpreendente unidade no que se
refere à sintaxe. (Mas vejam bem, unidade não significa uniformidade!) Trabalhos
realizados em universidades por todo o país têm revelado essa unidade. As diferenças
mais notáveis se situam no campo da fonética e do léxico.
A essa altura, os que me ouvem devem estar se perguntando: mas o que tem
isso a ver com o tema em discussão? Ou ainda: devemos agora pregar uma espécie
de desobediência fJngüística, uma revolta contra a norma culta estabelecida?

••et Naturalmente que não. Se eu lembro esses fatos é porque estou falando para colegas
e para futuros professores de língua portuguesa, que não podem deixar de ter em

e. mente as razões dessa distância enorme que separa a escrita padrão e o uso da

••
••
língua entre nós. Assim, o ensino da língua portuguesa na escola - que na minha
opinião é erroneamente chamado de ensino de língua materna, repito, já que a língua
et matema, essa o aluno quando chega à escola já adquiriu sem dor - o ensino de língua

••
..,,• portuguesa oficial deve ser feito com os cuidados semelhantes aos ublizados no
ensino de uma segunda
"",--- língua,
.._ .... '~' _-...._.N-.' "... ...... ~. deixando claro ao aluno que se trata de uma
modalidade diferente da que ele habitualmente usa e que se presta justamente à

, escrita e, em raras ocasiões, à fala.

.-t
E isso nos leva a uma outra questão: qual é afinal a língua escrita padrão no
Brasil hoje? A gramática normativa retrata com fidel"ldadeos fatos dessa modarldade?

••:~
~~~
•.•.... --

"',';:
.,,~

••ê
Uma confrontação entre os resultados das pesquisas que temos realizado e uma e
til
observação da escrita padrão sugere que a distância entre o que se fala e o que se
fi
escreve nos jornais e revistas de circulação nacional é grande, mas não tão grande

quanto mostram nossas gramáticas. Muitas daquelas observações
gramáticos em notas de rodapé, como sendo ocasionais "desvios" cometidos
feitas por alguns
pelos •
'I
"incuráveis" brasileiros, são hoje a norma. À medida que novas gerações de escritores
e jornalistas vêm surgindo, usos nacionais vão se sobrepondo aos lusitanos num

!f
processo que é lento, claro, mas que vai ganhando terreno. Como diz o Professor
Bechara (1999:567), há fenômenos ainda não aceitos pelos gramáticos "apesar da
'•.
'I
insistência com que penetram na linguagem das pessoas cultas".
I
.,~,,~,
__
~bservem, por exemplo, os trechos
veiculada em jornais e revistas de circulação nacional. Comecemos
a seguir,

regência verbal.! Qualquer observador atento verá que há uma variação muito grande
extraídos da língua padrão
pelos, casos de '.

'.
i '~

~~-,._~-.... ..~,,:;~".::-l -
no uso do verbo assistir, ora com complemento regido de preposição ora como
transitivo direto, aparecendo na passiva ou com seu complemento representado pelo I
c1ítico acusativo: •
41
fi
Assista a um filme como ele deve ser assistido
31.05.2000)
(Anúncio em VEJA,

Malhação é daqueles programas de televisão que deveriam exibir, antes ,I •
de cada capitulo, uma mensagem do Ministério da s.íJúde advertindo que
ele faz mal à saúde. Mas, sinceramente, assis(i;,) nestes dias vale
.' . ~ l.-/''''I'
qualquer risco., Afinal; quando o espectador terá a oportunidade de ver
"

novamente, na mesma cena, estes dois gigantes da arte de representar


/

•••
que são Alexandre Frota e Luciano Szafir. (Xexéo, JB, 14.05.99)

Freqüentemente o contrário acontece: verbos transitivos diretos aparecem com ,


um dítico dativo, como ilustram os exemplos a seguir, em que o autor, ao retransmitir
mensagens de leitores, passa por um desses usos sem perceber e na mesma coluna

lhe faz uma crítica::

, -""'"

"Meu carissimo Xexéo, há quanto tempo nao}!.'~ azucrino..." Começava


assim um dos e-mai/s desta semana. Leitor nunca azucrina. (Xexéo, JB,
7.4.99)
•.... ,

••
"'-


••• "Existe alguma razão evidente para o personagem de Jos~~Wilker usar o
pronome lhe indevidamente? São exemplos recentes: Eulhfi amo, eu lhe

•• encontrei." A leitora tem razão. E Aguinaldo Silva prometeu que nessa


novela todo mundo ia falar corretamente. Mas personagem nordestino de
i""""\
"-~-

(I novela da Globo sempre fala eu lhe amo. Sabe-se lá por quê. (JB, 7.4.99)

•• \ ..

É claro que nós sabemos por quê. Nosso sistema de pronomes díticos vem
8 passando por um longo processo de mudanças há já bastante tempo. Alguns chegam
a estar praticamente ausentes da língua oral, como o acusativo e o dativo de terceira
pessoa (.0. e .Ihei, este último resistindo na segunda pessoa, possivelmente para
evitar o 'e-, talvez por cerimônia. .. .._" "")
I !
Ainda ilustrando essa instabilidadel na regêl'lçj~,de certos verbos, -temos o
L.~-.-. ---'----,-'
exemplo a seguir, em que o autor, a propósito dono de um estilo muito formal, no
mesmo parágrafo usa o verbo implicar com duas regências:

Uma mudança no formato dos jornais implica obrigatoriamente em uma _


mudança de concepção. E dada a preferência que a nossa imprensa
mimetizou da nt: implicará uma alteração de teor. (Alberto Dines, JB,
10.07.99)

Com relação à ordem dos cJiticos, parece que estamos passando por um
momento muito especial. iSe por um lado' a próclise em início absoluto de oração já
'---- ' .., '. -: --' -- l.c- ;
começa a vencer todas as bravas resistências, J por outro! temos observado uma
ocorrência de ênclise nos contextos em que se espe~ria' â próclise, contrariando o
uso habitual no Brasil. Seria a vitória da insistência do ensino normativo?

Antes que o prezado amigo ou a encantadora senhora peguem da pena


para escrever uma carta fulminando minha ignoráncia, me apresso a dizer
que a palavra passarideo não existe, embora eu ache que devia existir. £
como borboletáceo, criação famosa de um vestibulando de Medicina, em
Salvador, nos mitológicos tempos em que os vestibulares não eram
unificados e faziam-se provas orais. (J. Ubaldo Ribeiro, 2000:95)

Ninguém deu-se ao trabalho de examinar o papel do Tribunal de Contas


nesse ou em outros descaJabros. Ninguém lembrou-se de juntar o caso à
deplomvel situação do Judiciário... (Dines, JB, 05.08.2000)

~ ..
~-.,..-_---------------------------------~

o que esses dados sugerem é.que a norma culta não é uniforme, que a língua
escrita também é variável, embora em menor escala que a oral, porque ela é
produzida por seres vivos, que adquirem sua linguagem nas mesmas condições que
os não escritores e, por mais que tentem seguir uma norma presumível, que consta
dos manuais de redação, acabam por se "trair" em algum momento. Na realidade,
pode mesmo se tratar de uma questão de sensibilidade do escritorljomalista para a
realidade lingüística de seu país. Caso ele não mude. corre o risco de não ser
entendido. A esse propósito. eu vou citar aqui um trecho de GraCllianoRamos. já
,"
é
bastante conhecido de todos mas bem ilustrativo:
ti
.":
r .\
.' ,.~n '
\_:> "Eu não lia direito, mas arfando penosamente conseguia mas6gar os
••
'.,conceitos sisudos: IA preguiça é a chave da pobreza' _ 'Quem não ouve

......
conselhos
alguém'.
raras vezes acerta' - 'Fala pouco e bem: ter-tNo por
.-••"
Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele .,.
.-••
.:;m.
." na página final da carta. As outras folhas se desprendiam. restavam-me as
. '. linhas em negrito, resumo da ciência anunciada por meu pai.
- Mocinha, quem é o Terteão?-

-'/ Hoje difiCIlmente encontramos a mes6clise na mídia impressa. ficando suas


.-•••
ocorrências mais limitadas a alguns textos acadêmicos (apesar de nossas gramáticas
a considerarem "de rigor" quando o verbo se encontra no Muro e não há um "atrator").
••
Ie-
1"1
Mesmo ensaístas e cronistas, dos mais formais aos mais informais, costumam e~a:
,'-1
(@!li
Pare-se um pouco para pensar e se verificará que esse imposto está .~

menos destinado a melhorar a saúde dos pacientes do que a do bolso dos 't-
donos de hospital. (Toledo, Veja, 19.06.96) Ifri"
,r
Talvez conseguissem que suas barrigas roncassem em uníssono. Mas ai,
rr
lhes faltaria a ret6rica. (Veríssimo, JB,27.04.96)
ir
r
~
E o interessante é que os que tentam a todo custo seguir essa 'norma idealizada .~
relativa à "colocação" pronominal acabam "cometendo" hipercorreções, como é o caso ta
dos exemplos em que há ênclise apesar de aparecer um atrator.
••••
Além de mostrar que a língua escrita é variável, os dadas aqui exibidos revelam
ainda que nós não temos uma desaição eficaz e realista da norma culta esaita. ,p ••
Poucos são os corajosos que assumem a realidade da mudança lingüística e deixam •••
!~

'.~
v--,.... '•••

(I
ioÍA
..

"
•.-••
.-
de atribuir as diferenças entre a norma culta brasileira e a européia a uma mera

, questão de estilo formal versus informal. E, enquanto esses fatos não forem
registrados por nossas gramáticas, a partir dos dados da escrita padrão, os

~
• professores continuarão a se sentir entre a -cruz e a espada., e, com receio dos
concursos e vestibulares, vão acabar por ignorar o uso efetivo em favor de um ~
idealizado.
Eu gostaria de ilustrar a falta de sintonia entre a descrição gramatical e o fato
lingüístico com a questão do c1íticoacusativo de terceira pessoa, o nosso pronome
oblíquo átono o. São inúmeros os trabalhos centrados na língua oral que mostram

•• estar esse c1itico em franco processo de extinção, sendo substituído pelo pronome
pessoal do caso reto, pelo próprio Sintagma Nominal repetido ou simplesmente por
uma posição vazia, a que se tem chamado de objeto nulo. Assim, num comentário

•"
-,-.
sobre a Maria, teríamos com maior probabilidade uma resposta como (b), (c), (d), em
I..>-' vez de (a):

(a) Eu não a vejo há muito tempo .

• (b) Eu não vejo ela há muito tempo.

"
t
(c) Eu não vejo a Maria I essa menina há muito tempo.

• (d) Eu não vejo _ há muito tempo .

Observem que em (d), o verbo não muda sua transitividade. O ouvinte interpreta
a sentença preenchendo a posição do objeto com o antecedente no contexto
discursivo. Qualquer falante do inglês, francês, italiano ou espanhol aqui presente


t
sabe que isso não ocorre nessas línguas, que devem obrigatoriamente preencher a

••
posição do objeto. E eu devo dizer que, embora possível no português europeu, essa

-.••-. construção em (d) é bastante marginal e só ocorre em contextos sintáticos iniciais,


nunca em contextos subordinados. A construção em (b) igualmente não aparece no
português europeu. Agora observem os resultados de trabalhos sobre a representação
do objeto direto anafórico no português falado em várias partes do Brasil:


-..~
••
e.
"'"
Pesquisas
Variantes
Clítico
OMENA
(79) - RJ
DUARTE
(86) - SP
MALVAR
(92)-DF
PARA
(97) - RJ
LUIZE
(97)- SC
AVERBUG
(98) -RJ
0% 5% 1% 0% 1% 1%
~
Pronome
e 24% 15% 25% 14% 9% 15%

•• SN - 17% 28% 24% 36% 41%


••• 7
, fi

•CI
Objeto nulo 76% 63% 46% 63% 54% 43% ••ti
TOTAL 100% 100% 100% 100% 100% 100%
ti
Realizações do objeto direto anafórico em pesquisas sobre língua oral
fi
(tabela adaptada de Averbug, 2000)
"•
Observe-se que o índice mais alto de uso do clítico acusativo é de 5%. Em todas fi
as amostras analisadas, o objeto nulo é a forma preferencial para a representação do «I
ti

.,•,
objeto direto anafórico. Faltam-nos, é claro, pesquisas sobre outras regiões do Brasil,
mas pode-se dizer que uma criança adquirindo a linguagem nessas regiões
pesquisadas não terá entre os dados a que é exposta para construir sua gramática a
presença do clítico acusativo. Ao contrário de uma criança portuguesa, que ouve
ti
clíticos em profusão e os adquire naturalmente, a criança brasileira não adquire o
clítico acusativo de terceira pessoa. Ela vai aprender a usá-lo durante o processo de ••
escolarização e, a julgar pelos dados da tabela acima, vai limitar seu uso ã escrita ou ã

fala muito formal.
É exatamente isso que mostra Corrêa (1991), cuja pesquisa revela que o
fi!
"•
aparecimento do clítico acusativo de terceira pessoa se dá primeiro na escrita para só
••
então começar a surgir na fala. E como se dá essa recuperação do clítico acusativo
pela escola? O trabalho de Averbug (2000) é revelador. Numa pesquisa baseada em •.-
textos produzidos por alunos de séries finais, desde o CA até a Universidade, a autora
revela que, ã medida que o nível de escolaridade sobe, cresce o uso do clítico ••
acusativo e cai o uso do pronome pessoal do caso reto (nominativo). Observem-se os
resultados no gráfico a seguir:
••
••
••••

fi
~
r

•.,
0% tIS
CA 4a. Série &a.Série ENS.MÉD. ENS.SUP.

'_ClitiCO .Pronome DSN anafórico DObjeto nulo I


••••
.'.'
Representação do objeto direto anafórico segundo a escolaridade (%) 4E
(Gráfico 3.2 de Averbug, 2000:58)

KÀ~'
••
•••
••• Observe-se que, à medida que cresce o nível de escolaridade, cresce o uso do dítico
e cai o uso do pronome pessoal do caso reto, que chega a desaparecer na escrita dos

•• universitários. Assim, o processo de escolarização consegue levar o aluno a usar o


clítico e inibe o uso do pronome nominativo. Mas veja-se que esse êxito é relativo e

• que o uso dos SN anafóricos e o uso do objeto nulo, embora diminuam, se mantêm
como estratégias importantes para representar o objeto anafórico. Naturalmente, essa
recuperação do clitico pela escola não se dá sem problemas, o que é esperado, pois
uma estrutura ausente da fala será vista pelo aluno como algo absolutamente novo.
Em estruturas simples rEu o vi) essa recuperação é bem mais fácil do que em
estruturas complexas, como as que envolvem verbos transitivos predicativos (MEua
'~-

acho sensacionar) e causativos (MMandei-osair") e tempos compostos (UNãoa tenho


visto") entre outras (cf. a esse respeito Duarte 1989).
De qualquer forma, o que o gráfico mostra é que uma descrição honesta da
língua escrita não pode ignorar que o uso de SNs anafóricos e de uma posição vazia
são estratégias legítimas, ao lado do dífico, para representar o objeto direto anafórico
hoje na língua escrita. Da mesma forma, um curso de formação de professores não
pode ignorar a realidade lingüística brasileira.
Já há muitas pesquisas sobre o português falado no Brasil e esses resultados
têm revelado uma grande semelhança no que se refere à sintaxe do português
brasileiro em todo o território nacional. Muitas pesquisas sobre a escrita padrão estão
igualmente sendo realizadas. É preciso que a Universidade faça com que essas
pesquisas cheguem aos que atuam nas salas de aula para que possam tomar o
ensino mais atual e eficaz. É claro que isso envolve, além de um trabalho organizado,
uma mudança de mentalidade, e mudanças de mentalidade não ocorrem da noite para
o dia. Mas devemos nos esforçar para encarar com realismo o fato inexorável de que,
assim como mudam os homens, também mudam os sistemas lingüísticos, e tentar não
agir como agem alguns, para quem uma palavra não pode ser usada porque ainda
não aparece nos dicionários (quando sabemos que os dicionários só registram uma
nova palavra depois de ela passar a ser usada); uma estrutura não é legítima porque
ainda não foi registrada pelas gramáticas, embora apareça com freqüência na escrita
padrão.
É preciso, pois, que nós, professores e futuros professores de língua portuguesa,
tenhamos consciência de que (a) a distância natural que separa língua oral e escrita é
agravada no caso do português brasileiro pelas condições sob as quais se fundou a
norma culta no Brasil e (b) a falta de uma descrição do padrão escrito toma essa
_------
•. "-- -
distância bem maior do que ela.de fato é. O que nós vimos aqui brevemente permite
f
e

chegar à condu são de que diferenças nascidas já há muito tempo, e forçadas a se ""
conter por um normativismo exagerado e irracional, já não conseguem mais se conter ••
dentro dos limites que lhes impuseram e começam a se firmar em nosso sistema. ••
••
Só com essa consciência, vamos obter êxito no processo de facilitar ao aluno o
acesso a uma variedade que ele ainda não domina e saber em que aspectos devemos •••
investir esforço e tempo, deixando para mais tarde o trabalho de ndar com fatos e
gramaticais que já não fazem parte do que é realmente o padrão atual. Nesse sentido, 4'
sim, estaremos contribuindo para munir o aluno de uma outra ferramenta de que' ele e
ainda não dispõe - a língua portuguesa oficial - que constitui, juntamente com a •••
língua materna, que ele domina tão bem quanto qualquer outro brasileiro que jamais
entrou numa sala de aula, um instrumento de identidade cultural, em meio a tantas •e
outras fonnas de expressão da cultura de um povo. E a escolha dos autores nesse
trabalho que se rearlZa na escola é fundamental. É preciso levar isso em conta •
particulannente nos primeiros anos escolares sob pena de acontecer ao aluno o
mesmo que aconteceu com Graciliano ao ler os conselhos do pai. Um autor sensível

•••

.'

às mudanças por que passa nosso sistema é Luís Femando Verissimo, de quem eu ••
•••
cito aqui um trecho bem a propósito do tema que discutimos, retirado da dissertação
de mestrado de Cavalcante (1999):

"E tenho conseguido me manter inocente de grandes pecados ortográficos


•.,c-
e gramaticais desde então, pelo menos se você não for um fanático
sintático. Vez que outra um leftor escandalizado me chama a atenção para
••
e
alguma barbaridade que eu prefiro chamar de informalidade, para não
chamar de distração ou ignorânda mesmo. Afinal, se a gente não pode
••
tomar liberdades com a própria língua... E nenhum pronome fora do lugar
justifica a perda de civl7idade."(Verfssimo, O Globo, 19.04.99) ~

Cf'
Para conduir, eu gostaria convidar os que me ouvem a ajudar a descrever o
r
r
verdadeiro português padrão brasileiro, citando Kato (1999:221): "Parece estar na hora
~
de a lingüística resgatar o estudo da língua escrita como objeto (...) contribuindo assim ~
para a área da aquisição e da aprendizagem e para um melhor entendimento do que
ocorre nas nossas escolas".

@

••••
••.,..-
fi'

10 ~.e- ••
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••
-.•
'tQ.

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e Instrumentos UngOísticos. 2, 49-68 .

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Estruturalismo
Marcos Antonio Costa

Este capítulo trata da escola estruturalista, dando ênfase às propostas de


Ferdinand de Saussure e de Leonard Bloomfield.

o legado de Saussure
A rigor, não podemos falar de um conceito único para o termo estruturalismo.
Mesmo sem levarmos em consideração que a antropologia, a sociologia, a psicologia, entre
outras áreas das ciências humanas, podem se apresentar sob a orientação de uma teoria
estruturalista e nos restringindo aos domínios exclusivos das diversas escolas lingüísticas,
torna-se evidente a impropriedade do uso indistinto do termo para todas elas. Entretanto,
essas escolas, de um modo ou de outro, apresentam concepções e métodos que implicam
o reconhecimento de que a língua é uma estrutura, ou sistema, I e que é tarefa do lingüista
analisar a organização e o funcionamento dos seus elementos constituintes.

Sistema, estrutura, estruturalismo


Sabemos que um sistema resulta da aproximação e da organização de
determinadas unidades. Por possuírem características semelhantes e obedecerem a
certos princípios de funcionamento, essas unidades constituem um todo coerente,
coeso. É essa idéia que nos permite falar, por exemplo, da existê~cia de um sistema
solar, de um sistema circulatório, respiratório, digestivo, etc. Descrever cada um desses
sistemas significa revelar a organização de suas unidades constituintes e os princípios
que orientam tal organização.
114 .Manual de lingüístico Estruturalismo 11 5

Saussure, o precursor do estruturalismo, enfatizou a idéia de que a língua é um Podemos, como quer Saussure, pensar a estrutura lingüística a partir desse
sistema, ou seja, um conjunto de unidades que obedecem a certos princípios de mesmo entendimento: estabelecemos comunicação porque conhecemos as regras da
funcionamento, constituindo um todo coerente. A geração seguinte coube observar gramática de uma determinada língua. Ou seja, conhecemos as peças disponíveis do
mais detalhadamente como o sistema se estrutura: daí o termo "estruturalismo" para jogo e suas possibilidades de movimento, como elas se organizam e se distribuem.
designar a nova tendência de se analisar as línguas. Não se trata, obviamente, do conhecimento acerca das regras normativas que
O estruturalismo, portanto, compreende que a língua, uma vez formada por encontramos nos livros de gramática. Não estamos falando de regras estabelecidas
elementos coesos, inter-relacionados, que funcionam a partir de um conjunto de regras, por um grupo de estudiosos em um determinado momento da história. Se assim
constitui uma organização, um sistema, uma estrutura. Essa organização dos elementos fosse, aqueles que desconhecessem tais regras não se comunicariam.
se estrutura seguindo leis internas, ou seja, estabelecidas dentro do próprio sistema. O que regula o funcionamento das unidades que compõem o sistema lingüístico
O desenvolvimento da lingüística estrutural representa um dos acontecimentos são normas que internalizamos muito cedo e que começam a se manifestar na fase de
mais significativos do pensamento científico do século xx. Não poderíamos compreender
aquisição da linguagem. Trata-se de um conhecimento adquirido no social, na relação
os incontestáveis progressos verificados no quadro das ciências humanas sem compreen-
que mantemos com o grupo de falantes do qual fazemos parte. Esse conhecimento, tal
dermos a elaboração do conceito de estrutura desenvolvido a partir das investigações do
como no jogo de xadrez, independe da materialidade, da substância da qual as peças são
fenômeno da linguagem. Toda uma geração de pensadores, entre os quais Jacques Lacan,
formadas. Podemos lembrar que o sistema fonológico de uma língua pode ser expresso
Claude Lévi-Strauss, Louis Althusser, Roland Barthes, evidencia em suas obras a contribui-
não a partir de uma substância sonora, mas, por exemplo, a partir de sensações visuais
ção pioneira de Ferdinand de Saussure relacionada à organização estrutural da linguagem.
(movimento dos lábios). É desse modo que, em geral, as pessoas surdas de nascença
Curiosamente, as idéias de Saussure, que se tornaram ponto de partida do
aprendem o sistema de uma determinada língua sem nunca ter ouvido seus sons. O que
pensamento que caracteriza a lingüística moderna, tornaram-se públicas com o famoso
se pretende demonstrar a partir dessa realidade é que a substância não determina de
Curso de Lingüística geraL, livro que, !la verdade, é a reconstrução, a partir de notas
modo algum as regras do jogo Lingüistico, que são independentes do suporte físico - som,
redigidas por alunos, de três cursos lecionados por Saussure entre 1907 e 1911 na
movimento labial, gestos, etc. - em que se realizam.
Universidade de Genebra, cidade onde o lingüista nasceu. O trabalho foi organizado
Em resumo, a abordagem estruturalista entende que a língua é forma (estrutura),
por dois discípulos, Charles Bally e Albert Sechehaye.
É no Curso - publicado em 1916, três anos após a morte de Saussure - que e não substância (a matéria a partir da qual ela se manifesta). Reconhece, entretanto,
enconrramos os conceitos fundamentais do modelo teórico estruturalista. Esse modelo, a necessidade da análise da substância para que possamos formular hipóteses acerca
como já mencionamos anteriormente, apresenta a linguagem como um sistema do sistema a ela relacionado. Um sistema que não apresenta qualquer manifestação
articulado, uma estrutura em que, tal como no jogo de xadrez (analogia abundan- material, que não seja expresso por algum tipo de substância, não desperta qualquer
. temente utilizada por Saussure), o valor de cada peça não é determinado por sua interesse científico, uma vez que não pode ser investigado .
materialidade, ele não existe em si mesmo, mas é instituído no interior do jogo. Essa concepção de linguagem tem como conseqüência um outro princípio do
É fácil entendermos que pouco importa se, no xadrez, as peças são de madeira, estruturalismo: o de que a Lingua deve ser estudada em si mesma e por si mesma. É o
ferro, marfim ou de outro material qualquer. A possibilidade de darmos andamento que chamamos estudo imanente da Lingua, o que significa dizer que toda preocupação
ao jogo depende exclusivamente de nossa compreensão de como aspeças se relacionam extralingüística precisa ser abandonada, uma vez que a estrutura da língua deve ser
entre si, das regras que as governam, da função estabelecida para cada uma delas e em descrita apenas a partir de suas relações internas. Nessa perspectiva, ficam excluídas
relação às demais. as relações entre língua e sociedade, língua e cultura, língua e distribuição geográfica,
Se substituirmos o material das peças, isso em nada afetará o sistema, já que o língua e literatura ou qualquer outra relação que não seja absolutamente relacionada
valor de cada peça depende unicamente das relações, das oposições, entre as unidades. com a organização interna dos elementos que constituem o sistema lingüístico.2
Podemos, por exemplo, utilizar uma simples tampinha de garrafa como se ela vaLesse
a torre de nosso jogo. Para isso, é necessário tão-somente que o valor atribuído a essa
Língua e fala
tampinha não seja correspondente ao valor do peão, do bispo, da rainha ou de qualquer
outra unidade do sistema de jogo do xadrez. Em relação e em oposição a todas as Quando estudamos Saussure, é freqüente encontrarmos um grupo de dicotomias
Outras unidades, nossa tampinha precisará valer uma torre. relacionado ao pensamento do famoso lingüista. O termo dicotomia designa a divisão
116 . Manual de lingüística Estruturalismo 11 7

lógica de um conceito em dois, de modo que se obtenha um par opositivo. Podemos, Sincronia e diacronia
assim, observar dualidades como: líIj1guae fala, sincronia e diacronia, paradigma e
Nesta seção, conheceremos mais uma dicotomia saussureana, relacionada ao mé-
sintagma, forma e substância, significbdo e significante, motivado e arbitrário. Essas
todo de investigação a ser adotado pelo lingüista em suas pesquisas: sincronia e diacronia.
são algumas das chamadas dicotomias saussureanas. A partir de agora vamos observar
No início do século XIX, as semelhanças encontradas entre determinadas línguas
algumas delas, começando pela dicotomia entre língua e fala.
levaram os pesquisadores a acreditar na existência de parentescos entre elas. As
Até agora usamos sem maior rigor o termo linguagem. Para Saussure, entretanto,
investigações passaram a ter como um de seus principais objetivos o agrupamento
a linguagem deve ser tomada como um objeto duplo, uma vez que "o fenômeno
dessas línguas em fimflias, o que acontecia através de um método de estudo chamado
lingüístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma
histórico-comparativo. Entre essas famílias, temos a indo-européia, que reúne, entre
não vale senão pela outrà' (Saussure, 1975: 15). Assim sendo, a linguagem tem um
outras, a maior parte das línguas européias, assim como as línguas do chamado grupo
lado social, a lfngua (ou langue, nos termos saussureanos), e um lado individual, a
indo-irânico, como o persa e o sânscrito, língua sagrada utilizada pelos hindus nos
fila (ou paro/e, nos termos saussureanos), sendo impossível conceber um sem o outro.
cerimoniais religiosos há cerca de 1.220/800 a.c.
Para Saussure a língua é um sistema supra-individual utilizado como meio de
Aos 21 anos, Saussure havia escrito Mémoire sur le systeme primitif des voyelles
comunicação entre os membros de uma comunidade. O entendimento saussureano é o de
indo-europeene (apud Malmberg, 1974), obra que faz parte da bibliografia relativa ao
que a língua corresponde à parte essencialda linguagem e constitui um tesouro- um sistema
pensamento do século XIX. Durante todo esse século, a investigação acerca da linguagem
gramatical - depositado virtualmente nos cérebros de um conjunto de indivíduos
foi marcadamente de caráter histórico. Pouco interesse havia em se estudar a língua de
pertencentes a uma mesma comunidade lingüística. Sua existência decorre de uma espécie
um determinado grupo de falantes fora de um quadro de considerações históricas.
de contrato implícito que é estabelecido entre os membros dessa comunidade. Daí seu
A partir dos anos de 1870, a geração dos neogramáticos procurou mostrar que a
caráter social. Para Saussure, o indivíduo, sozinho, não pode criar nem modificar a língua.
mudança das línguas possui uma regularidade, segue uma necessidade própria, não de-
Diferentemente, a fala constitui o uso individual do sistema que caracteriza a
pendendo da vontade dos homens. Com esseobjetivo, desenvolveram uma teoria das trans-
língua. Nas palavras de Saussure, é "um ato individual de vontade e de inteligência"
formações lingüísticas baseada em método estritamente científico, afastando-se dasespe-
(1975: 22), que corresponde a dois momentos: as combinações realizadas pelo falante
culações vagas e subjetivas que marcaram os estudos da linguagem no início do século XIX.
entre as unidades que compõem o sistema da língua, objetivando exprimir seu
De acordo com a escola dos neogramáticos, a lingüística necessariamente deveria
pensamento, e o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações.
ter um caráter histórico, já que sua tarefa seria estudar as transformações das línguas em
Trata-se, portanto, da utilização prática e concreta de um código de língua por um
busca de explicações e formulações de regras de um "vir-a-ser" dessas línguas. Para
determinado falante num momento preciso de comunicação. Em outras palavras, é a
Hermann Paul, o grande teórico da escola, a simples descrição de uma língua representaria,
maneira pessoal de atualizar esse código. Daí seu caráter individual. De acordo com
unicamente, a constatação de um fato, mas de forma alguma uma ciência.
Saussure, a língua é a condição da fala, uma vez que, quando falamos, estamos
A distinção feita por Saussure entre a investigação diacrônica e a investigação
submetidos ao sistema estabelecido de regras que corresponde à língua.
sincrônica representa duas rotas que separam a lingüfstica estdtica da lingüística evolutiva.
Portanto, o objeto de estudo específico da lingüística estrutural é a língua, e
"É sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência, diacrônico
não a fala, sendo esta última tomada como objeto secundário. Isso se dá porque é ~a
língua, conhecimento comum a todos, que se encontra a essência da atividade tudo que diz respeito às evoluções. Do mesmo modo, sincronia e diacronia designarão
comunicariva, e não naquilo que é específico de cada um. Como já mencionamos respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução." (Saussure, 1975: 96).
anteriormente, toda preocupação extralingüística é abandonada, e a estrutura da língua Assim, enquanto o estudo sincrônico de uma língua tem como finalidade a
é descrita apenas a partir de suas relações internas. descrição de um determinado estado dessa língua em um determinado momento no
Isso não significa que se possa estudar a língua independentemente da fala, tempo, o estudo diacrônico (através do tempo) busca estabelecer uma comparação entre
uma vez que, entre os dois objetos, existe uma estreita ligação: a língua é necessária dois momentos da evolução histórica de uma determinada língua. Podemos citar a análise
para que a fala seja compreensível e para que o falante, conseqüentemente, possa vir da variação entre o uso de "ter" e "haver" no português contemporâneo no Brasilcomo exem-
a atingir os seus propósitos comunicativos; por outro lado, a língua só se estabelece a plo de estudo de caráter sincrônico, já que o termo "variação"implica a coexistência de duas
partir das manifestações concretas de cada ato lingüístico efetivo. Assim, a língua é, ou mais formas em uma mesma época. Por outro lado, a análise da trajetória de mudança
ao mesmo tempo, o instrumento e o produto da fala. pane> pãe > "pão", do latim ao português, caracteriza-se como uma abordagem diacrônica.
118 Manual de lingüístico Estruturalismo 119

o estruturalismo proposto por Saussure não apenas aponta as diferenças entre do sistema lingüístico. Ele é formado, por sua vez, de duas partes absolutamente
essas duas formas de investigação, mas, sobretudo, registra a prioridade do estudo inseparáveis, sendo impossível conceber uma sem a outra, como acontece com as
sincrônico sobre o diacrônico. Ou seja, para Saussure, o lingüista deve estudar duas faces de uma folha de papel: um significante e um significado.
principalmente o sistema da língua, observando como se configuram as relações internas Poderíamos dizer que o significante consiste numa seqüência de fonemas, como
entre seus elementos em um determinado momento do tempo. Esse tipo de estudo é acontece, por exemplo, com a seqüência "linguagem". Precisamos, porém, de um
possível porque os falantes não têm informações acerca da história de sua língua e pouco mais de cautela para entender o verdadeiro sentido atribuído por Saussure ao
não precisam ter informações etimológicas a respeito dos termos que utilizam no dia- conceito de significante. Comecemos por compreender que, de acordo com a proposta
a-dia: para os falantes, a realidade da língua é o seu estado sincrônico. estruturalista saussureana, a língua é uma realidade psíquica. Como já dito, um tesouro -
Na defesa de tais idéias, o lingüista utiliza, mais uma vez, a analogia entre o um sistema gramatical - depositado virtualmente no cérebro de um conjunto de
sistema lingüístico e o jogo de xadrez. Conforme a análise de Saussure, tanto no jogo indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade lingüística.
da língua como durante uma partida de xadrez estamos diante de um sistema de
Assim sendo, as faces que compõem o signo lingüístico são ambas psíquicas e
valores e assistimos às suas modificações: assim como ocorre com os sistemas
estão ligadas, em nosso cérebro, por um vínculo de associação. Sendo assim, o
lingüísticos, a disposição das peças no tabuleiro sofre contínuas mudanças. A qualquer
significante, também chamado de imagem acústica, não pode ser confundido com o
instante, porém, essa disposição pode ser descrita conforme a posição das peças naquele
som material, algo puramente físico, mas deve ser identificado com a impressão psíquica
momento específico do jogo, o mesmo acontecendo quando se trata da descrição de
desse som, a representação da palavra enquanto fato de língua virtual, estando a fala
um estado particular de língua. Não importa o caminho percorrido: "o que
absolutamente excluída dessa realidade.
acompanhou toda a partida não tem a menor vantagem sobre o curioso que vem
A outra face do signo, o significado, também chamada de conceito, representa
espiar o estado do jogo no momento crítico; para descrever a posição, é perfeitamente
o sentido que é atribuído ao significante - o sentido, por exemplo, que atribuímos ao
inútil recordar o que ocorreu dez segundo antes" (Saussure, 1975: 105). Além disso,
significante "linguagem" anteriormente mencionado como "capacidade humana de
argumenta-se que, embora não sejam muitos os falantes conhecedores profundos da
comunicação verbal". Daí o entendimento de que o signo, unidade constituinte do
evolução histórica da língua que utilizam, todos nós demonstramos dominar, ainda
sistema lingüístico, resulta da associação de um conceito com uma imagem acústica.
na infância, os princípios sistemáticos, as regras da língua que ouvimos à nossa volta.
A descrição lingüística sincrônica tem por tarefa formular essas regras sistemáticas
A arbitrariedade do signo lingüístico
conforme elas operam num momento (estado) específico, independentemente da
combinação particular de movimentos (das mudanças) já ocorridos. A filosofia desenvolvida na Grécia antiga é um marco inicial, no Ocidente, do
Cabe observar ainda que o movimento de uma pedra no tabuleiro implica a debate sobre as relações entre a linguagem e o mundo. A discussão era se os recursos
constituição de uma nova sincronia, uma vez que tal movimento repercute em todo o lingüísticos através dos quais as pessoas descrevem o mundo à sua volra são arbitrários
sistema. O conjunto das regras do jogo, porém, é mantido. Essas regras, como já vimos ou se esses recursos sofrem algum tipo de motivação natural. Essas duas teses
anteriormente, situam-se fora do tempo do jogo e são prévias à sua existência e realização. representam desdobramentos das especulações filosóficas que dividiram os gregos na
É o próprio Saussure, contudo, que nos alerta quanto ao ponto em que a analogia entre antigüidade clássica em convencionalistas e naturalistas. Enquanto os primeiros
o jogo de xadrez e o sistema lingüístico se mostra falha: a ação do jogador ao deslocar defendiam que tudo na língua era convencional, mero resultado do costume e da
uma pedra e, conseqüentemente, exercer uma alteração no sistema é intencional. Na tradição, os naturalistas afirmavam que todas as palavras eram, de fato, relacionadas
língua, diferentemente, nada é premeditado, "é espontânea e fortuitamente que suas por natureza às coisas que elas significavam.
peças se deslocam - ou melhor, se modificam" (Saussure, 1975: 105). Que relação podemos observar entre a seqüência "linguagem" e o sentido a ela
atribuído? Quando nos referimos a "livro" como "conjunto de folhas de papel capaz

o signo lingüístico
de guardar uma obra literária, científica, artística, etc.", haveria alguma motivação
especial para a escolha desse termo ("livro"), e não a de um outro qualquer?
Uma vez compreendido que a língua representa um conjunto de elementos Afirmar que o signo lingüístico é arbitrário, como fez Saussure, significa
solidários, uma estrutura, cabe-nos conhecer a natureza desses elementos. 'Saussure reconhecer que não existe uma relação necessária, natural, entre a sua imagem acústica
afirma que a língua é um sistema de signos. O signo é, portanto, a unidade constituinte (seu significante) e o sentido a que ela nos remete (seu significado). Isso significa dizer
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120 . Manual de lingüístico
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que o signo lingüístico não é motivado, e sim cultural, convencional, já que resulta I \ etc.), estamos compondo sintagmas. As relaçóes sintagmáticas decorrentes do caráter
do acordo implícito realizado entre os membros de uma determinada comunidade. i linear da linguagem dizem respeito às articulações entre os sintagmas e relacionam-se
Trata-se, portanto, de uma convenção. às diversas possibilidades de combinação entre essas unidades.
A arbitrariedade do signo lingüístico pode ser mais bem compreendida quando Devemos, portanto, entender como sintagmáticas as relações in praesentia, ou
observamos a diversidade das línguas. Cada língua apresenta um modo particular de seja, entre dois ou mais termos que estão presentes (antecedentes ou subseqüentes)
expressar os conceitos: ninguém discute, por exemplo, se "livro" ou book se aproximam em um mesmo contexto sintático. Por englobar diferentes níveis de análise, a noção
mais, ou menos, do conceito apresentado anteriormente. Por outro lado, poderíamos de sintagma deve ser compreendida de uma maneira ampla.
argumentar que certas unidades lingüísticas apresentam-se como contra-exemplos da a) No nível fonológico, as unidades se combinam para formar as sílabas. Quanto às
arbitrariedade. As onomatopéias (do tipo "au-au", "tic-tac")3 parecem ser motivadas, restrições impostas pelas regras do sistema lingüístico, sabemos, por exemplo, que a
não-arbitrárias. No entanto, argumenta Saussure, elas "não apenas são pouco língua portuguesa não admite sílaba formada sem som vocálico.
numerosas, mas sua escolha é já, em certa medida, arbitrária, pois não passam da
Ex: Ca-sa, bar
imitação aproximativa e já meio convencional de certos ruídos" (1975: 83). Contudo,
lL ~ lL~~
Saussure reconhece que a arbitrariedade é limitada por associações e motivações
CV CVC
relativas: assim, "vinte" é imotivado, mas "dezenove" não o é no mesmo grau, porque
evoca os termos dos quais se compõe, "dez" e "nove". b) No nível morfológico, os morfemas se unem para formar a palavra, ou sintagma
Saussure observa ainda que o princípio da arbitrariedade do signo lingüístico vocabular, como caracterizam alguns autores. Desse modo, prefixos e sufixos
não implica a compreensão de que o significado dependa da livre escolha do falante. respectivamente antecedem e sucedem o radical (com Rad (= radical), VT (= vogal
A língua, como já apresentado anteriormente, é social, não estando ao alcance do temática), Pref (= prefixo) e Suf (= sufixo)).
indivíduo nela promover mudanças .. Ex: Menin - o, in - feliz - mente
~ ~ ~ ~ ~
Rad VT Pref Rad Suf
Relações sintagmáticas e relações paradigmáticas
c) No nível sintático, as palavras se combinam para formar frases. É inadmissível
Sendo a língua um sistema, cabe-nos compreender a forma como as unidades
como frase construções tais como "De gosta bolo menino o". (SN (=sintagma nominal),
constitutivas desse sistema encontram-se relacionadas umas às outras. Quando SV (=sintagma verbal)).
descrevemos essas relações, estamos explicitando a organização dos elementos
Ex: O menino - gosta de bolo.
constituintes da estrutura lingüística e, em última instância, reconhecendo o
~ ~
funcionamento do sistema,
SN SV
Comecemos por entender que o signo lingüístico exibe uma característica
bastante particular, a qual, embora considerada demasiadamente simples, torna-se Além das relações sintagmáticas que dizem respeito à distribuição linear das
fundamental para a compreensão da língua como um sistema: o signo lingüístico unidades na estrutura sintática, as línguas apresentam relações paradigmáticas ou
representa uma extensão. Isso significa que, ao ser transmitido, ele constitui uma associativas que dizem respeito à associação mental que se dá entre a unidade lingüística
seqüência cuja dimensão só pode ser mensurável linearmente. Decorre daí o chamado que ocupa um determinado contexto (uma determinada posição na frase) e todas as
cardter linear da linguagem articulada. Uma frase, por exemplo, é constituída por um outras unidades ausentes que, por pertencerem à mesma classe daquela que está
certo número de signos lingüísticos que são apresentados em linha, no tempo, um presente, poderiam substituí-la nesse mesmo contexto.
após o outro. Sabemos, contudo, que, por se tratar de um instrumento de comunicação, As relações paradigmáticas manifestam-se como relações in absentia, pois
a frase deve ser construída de acordo com determinadas regras. Por isso mesmo, a caracterizam a associação entre um termo que está presente em um determinado
distribuição das palavras (dos signos) não ocorre de maneira aleatória, e sim pela contexto sintático com outros que estão ausentes desse contexto, mas que são
exclusão de outros possíveis arranjos distribucionais. importantes para a sua caracterização em termos opositivos.
Quando combinamos duas ou mais unidades (por exemplo: "re-ter"; "várias Ocorre que os elementos da língua nunca estão isolados em nossa memória. Eles
pessoas"; "a lingüística estrutural"; "eu tenho alguns projetos para a minha vidà', são armazenados em termos de determinados traços que os caracterizam, como estrutura,
122 . Manual de lingüística Estruturalismo 123

classe gramatical, tipo semântico, entre outros. Assim, a palavra "livreiro", por exemplo, Sob o rótulo de estruturalismo, a lingüística moderna conhece duas vertentes
• . . " 4
está associada a elementos como "livro" e "livraria" a partir do radical que está na base desses pnnClpals: a europela e a norte-americana.
elementos. Por outro lado, podemos estabelecer uma outra série de relaçõesparadigmáticas
tomando como base o sufJ)w: "leiteiro", "sapateiro", "garimpeiro", entre outros.
De algum modo essa organização dos elementos lingüísticos na nossa memória,
A corrente norte-americana
para Saussure, é importante na caracterização de uma frase. Por exemplo, podemos
substituir uma desinência verbal de pessoa e número por outra do mesmo tipo (estud~/ O estruturalismo norte-americano é representado pelas idéias de Leonard
estudamos), um adjetivo por outro adjetivo ou locução adjetiva (Ele é bondoso/Ele é Bloomfield, desenvolvidas e sistematizadas sob o rótulo de distribucionalismo ou
caridoso/Ele é do bem), um substantivo por outro substantivo (Gostaria de comprar lingüística distribucional. A teoria da linguagem proposta por Bloomfield, dominante
um livro/Gostaria de comprar uma fazenda), etc. Para Saussure, além da possibilidade nos Estados Unidos até aproximadamente 1950, é apresentada de maneira independente
de ocorrência em um mesmo contexto, as relações paradigmáticas são também no momento em que o pensamento de Saussure começa a ser conhecido na Europa.
decorrentes da semelhança de significação (educação/aprendizagem), da semelhança Ocorre que, ao lado de algumas diferenças, muitos são os pontos em comum - ou, pelo
sonora (livro/crivo) ou de qualquer outra situação em que a presença de um elemento menos, convergentes -entre as propostas formuladas pelos dois autores, o que nos permite
lingüístico suscita no falante ou no ouvinte a associação com outros elementos ausentes. conceber a teoria distribucionalista como uma vertente do estruturalismo.
Desse modo, podemos concluir que as relações sintagmáticas e as relações O objetivo da teoria formulada por Bloomfield é a elaboração de um sistema
paradigmáticas ocorrem concomitantemente. Na seqüência "Gostaria de comprar de conceitos aplicáveis à descrição sincrônica de qualquer língua. Para tanto, parte
dos seguintes pressupostos:
uma fazenda", a unidade "comprar", por exemplo, ao mesmo tempo em que se encontra
em relação paradigmática com "vender", "entregar", "olhar" e tantas outras unidades, • cada língua apresenta uma estrutura específica;
também mantém relações sintagmáticas com "gostaria", "de", "umà' e "fazenda". Da • essa estruturação é evidenciada a partir de três níveis - o fonológico, o
mesma maneira, no nível fonológico, em se tratando da seqüência /bola/, o fonema /b/ morfológico e o sintático - que constituem uma hierarquia, com o fonológico
se encontra em relação páradigmática com /s/, /m/, /g/, etc. e em relação sintagmática na base e o sintático no topo;
com /b/, /1/ e la/o Esses fatos nos permitem compreender melhor o porquê da língua • cada nível é constituído por unidades do nível imediatamente inferior: as
ser um sistema, uma estrutura, e não uma mera reunião de elementos. Adotando construções são seqüências de palavras; as palavras, seqüências de morfemas;
uma perspectiva estruturalista, podemos afirmar, então, que o que permite o os morfemas, seqüências de fonemas;
funcionamento da língua é o sistema de valores constituído pelas associações, • a descrição de uma língua deve começar pelas unidades mais si~ples,
combinações e exclusões verificadas entre as unidades lingüísticas. prosseguindo, então, à descrição das unidades cada vez mais complexas;
Essassão, em linhas gerais,asprincipais idéiasformuladas por Saussure.Elasrepresen- • cada unidade é definida em função de sua posição estrutural - de acordo
tam o alicerce da lingüística estrutural e, ao mesmo tempo, fundam a lingüística moderna. com os elementos que a precedem e que a seguem na construção;
Durante a primeira metade do século xx, privilegiando diferentes aspectos das • na descrição, é necessária absoluta objetividade, o que exclui o estudo da
idéias de Saussure, surgem, na Europa, pelo menos três importantes grupos de estudos semântica do escopo da lingüística.
lingüísticos: a Escola de Genebra, a Escola de Praga e a Escola de Copenhague. As O autor pressupõe ainda que o processo de combinação de unidades para
duas primeiras não se limitaram ao estudo meramente formal da linguagem, adotando formar construções de nível superior (combinação de fonemas que resulta em
a visão de que a língua deve ser vista como um sistema funcional, no sentido de que morfemas, combinação de morfemas que resulta em palavras e combinação de palavras
é utilizada para um determinado fim: a comunicação. que resulta em frases) é guiado por leis próprias do sistema lingüístico. Ou seja,
Por outro lado, a Escola de Copenhague focalizou o aspecto formal das línguas, enquanto determinadas construções são permitidas, outras são totalmente bloqueadas
deixando sua função num plano secundário. Ou seja, essa escola adotou concepção na língua. No português, por exemplo, uma construção do tipo "Lingüística aluno
saussureana de língua como um sistema autônomo e, através de Hjelmslev, desenvolveu de gosta estudar o" seria indiscutivelmente inaceitável.
uma teoria chamada de glossemática, aprofundando principalmente os conceitos de De acordo com a concepção da lingüística distribucional, para que possamos
forma e substância (expressão e conteúdo). estudar uma língua, faz-se necessário:
Estruturalismo 1 :25
124 . Manual de lingüística

• a constituição de um corpus, isto é, a reunião de um conjunto, o mais por unidades de ordem inferior. Assim, para decompor os enunciados do corpus, os
variado possível, de enunciados efetivamente emitidos por usuários de uma distribucionalistas utilizam um método chamado de análise em constituintes imediatos.
determinada língua em uma determinada época; Nessa perspectiva, uma frase é o resultado de diversas camadas de constituintes. Por
• a elaboração de um inventário, a partir desse corpus, que permita determinar exemplo, a estrutura da frase "O aluno comprou um livro" é descrita comoa combinação
as unidades elementares em cada nível de análise, assim como as classes que de dois constituintes: um sintagmanominal ("o aluno") e um sintagma verbal ("comprou
agrupam tais unidades; um livro"). Por sua vez, cada um desses dois constituintes imediatos é formado por outros
• a verificação das leis de combinação de elementos de diferentes classes; constituintes: o sintagma nominal "o aluno" é formado por um determinante ("o") e
• a exclusão de qualquer indagação sobre o significado dos enunciados que por um substantivo ("aluno"); o sintagma verbal "comprou um liv~o" é formado por
compõem o corpus. um verbo ("comprou") e por um sintagma nominal ("um livro"). Podemos observar
abaixo como nossa frase pode ainda ser segmentada em outros constituintes:
Essa postura mecanicista da lingüística de Bloomfield apóia-se na psicologia
behaviorista fortemente difundida nos Estados Unidos a partir de 1920, que tem ~ Frase o aluno comprou um livro
Skinner como um de seus maiores teóricos. Ao tomar o próprio comportamento ~ Sintagmas o aluno I comprou um livro
como objeto de estudo da psicologia, e não como indicador de alguma outra coisa ~ Palavras o I aluno I comp~ou I um I livro
que se expresse por ele ou através dele, o behaviorismo rompe com a compreensão de ~ Morfemas o I alun/o I comprlou I um Ilivrlo
que as impressões, criadas na mente do homem pelos objetos e eventos, geram seu ~ Fonema o I a/l/u/n/o I kJó/plrlo/u I li I lIi/v/rlo
comportamento. Segundo essa corrente, o comportamento humano é totalmente
explicável e, portanto, previsível a partir das situações em que se manifesta Conforme podemos observar, a análise distribucional (e o modelo estruturalista
independentemente de qualquer fator interno. Logo, ele pode ser compreendido como como um todo) apresenta uma perspectiva demasiadamente formal acerca do fenômeno
o conjunto de uma excitação ou estímulo e de uma resposta ou ação. lingüístico, restringindo a tarefa do pesquisador, ao descrever uma língua, à classificação
No que diz respeito ao comportamento lingüístico, a psicologia behaviorist~ dos segmentos que aparecem nos enunciados do corpus e à identificação das leis de
fornece a seguinte explicação: uma comunidade ensina o indivíduo a emitir uma combinação de tais segmentos.
dada resposta verbal (a expressar um lermo), provendo estímulos reforçadores quando As formulações propostas por Bloomfield sob a inspiração do behaviorismo
essa resposta ocorre na presença da coisa para a qual o termo proferido é tomado representaram, nos estudos lingüísticos desenvolvidos nos Estados Unidos durante as
como referente. O indivíduo, por exemplo, aprende a dizer "cadeirà' na presença de primeiras décadas do século xx, uma oposição às idéias mentalistas que defendiam
uma cadeira ou objeto similar não por uma questão de apreensão do significado de que a fala deveria ser explicada como um efeito dos pensamentos (intenções, crenças,
"cadeira", mas porque essa resposta, na presença do objeto, tem uma história de sentimentos) do sujeito falante.
reforço provido pela comunidade verbal. Na perspectiva de Skinner, termos como Ao lado de Bloomfield, Edward Sapir é apontado como um autor clássico da
"conteúdo", "significado" ou "referente" devem ser desprezados, pelo menos enquanto lingüística norte-americana do início do século xx. Entretanto, os estudos de Sapir
propriedades de respostas verbais. rompem os limites do estruturalismo saussureano, uma vez que adotam o postulado
O método de análise que caracteriza a vertente americana da lingüística estrutural de que os resultados da análise estrutural de uma língua devem ser confrontados com
é conhecido como análise distribucional, apresentado nos Estados Unidos por os resultados da análise estrutural de toda a cultura material e espiritual do povo que
Bloomfield, com a publicação de Language, em 1933. Objetivando chegar à descrição fala tal língua. As seguintes idéias estão relacionadas à hipótese Sapir- WhOlf
total de um estado sincrônico de língua, esse método parte da observação de um corpus
• cada língua segmenta a realidade à sua maneira e impõe tal modo de
para descrever seus elementos constituintes de acordo com a possibilidade de eles se
segmentação do mundo a todos os que a falam. Nesse sentido, a língua
associarem entre si de maneira linear. Pressupõe-se, assim, que as partes de um língua
configura o pensamento: as pessoas que falam diferentes línguas vêem o
não se organizam arbitrariamente, mas, ao contrário, apresentam-se em certas posições
particulares relacionadas umas às outras. Trata-se, portanto, de um método puramente mundo diferentemente;
descritivo e indutivo que corrobora o entendimento de que todas as frases de uma língua • os modelos lingüísticos relacionam-se aos modelos socioculturais. As distinções
gramaticais e lexicais, obrigatórias numa dada língua, correspondem às

I
são formadas pela combinação de construções - os seus constituintes -, e não de uma
simples seqüência de elementos discretos. Esses constituintes, por sua vez, são formados distinções de comportamento, obrigatórias numa dada cultura.
126 . Manual de lingüística

Tanto a teoria proposta por Sapir-Whorf como o modelo de análise distribucional Gerativismo
formulado por Bloomfield inserem-se na situação lingüística específicados Estados Unidos
naquele início de século. Havia no continente americano cento e cinquenta famílias de Eduardo Kenedy
línguas ameríndias - o equivalente a aproximadamente mil línguas - apresentadas sob a
forma de material lingüístico oral ainda não descrito, o que representava um grande
problema para os administradores e etnólogos da época. A perspectiva antropológica
presente nos postulados de Sapir-Whorf e a psicologia comportamental que influenciou as
idéias de Bloomfield encontram terreno fértil nesse contexto particular.
Esse contexto, portanto, marcou o estruturalismo dos Estados Unidos,
difereneiando-o da lingüística européia. Pode-se dizer que, enquanto Sapir foi o
pioneiro, Bloomfield foi o consolidador da lingüística naquele país, criando uma
teoria mais bem delimitada do que os lingüistas anteriores.

Exercícios
Neste capítulo, apresenta-se em linhas gerais os principais aspectos que
1) Comente a afirmativa saussuriana: caracterizam a corrente de estudos lingüísticos conhecida como erativismo. Analisaremos
''A língua é um sisrema cujas partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade a oncepça'õde lin uagemnumana que norteia as pesquisas dessa cor bem como
sincrânica" (Saussure, 1975). faremos um exposição da maneira gerauvista de observar, descrever e ex licar os fato ~
2) Defina os conceiros de "língua" e "fala". das línguas naturais. rata-se de uma visão geral, introdutória e simplificada, destinada
3) Um dos posrulados de base da lingüística estrutural é que o signo é. arbitrário. Explique o que ao estudante que conhece pouco ou nada sobre o gerativismo. Nas indicações.
significa essa afirmação. bibliográficas, apresentadas no fim do livro, o leitor encontrará sugestões de leituras em
4) A lingüística estrutural reconhece o princípio saussuriano de que todo o mecanismo lingüistico repousa português para prosseguir nos estudos sobre o assunto.
sobre relações de dois tipos: sintagmáticas e paradigmáticas. Explique tal princípio.
5) A afirmativa de que "a lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si
mesma e por si mesma", que finaliza o texto do Curso de lingüistica geral, é fundamental para que
possamos compreender os postulados de Saussure. Faça alguns comentários a respeito dessa questão.
A faculdade do linguagem
6) Aponte três características da lingüística descritiva norte-americana (distribucionalismo) que fazem A lingüística gerativa - ou gerativismo; ou, ainda, WJ!ldtica erativa - é uma corrente
dela uma vertente do estruturalismo saussuriano.
e ~~ s da ciência da linguagem que teve início no tados Unido , no final da década
ae 195 a partir dos trabalhos do lingüista Noam Choms ,professor do Instituto de
~ ecnologia de Massachussets, o MIT. Considera-se o ano ~ a data do nascimento da
Notas lingüística gerativa, ano em que Chomsky publicou seu primeiro livrC@ÜturassintdtUãs)
Trata-se, portanto, de uma linha de pesquisa lingüística que já possui cmqüenta anos de
1 A noção inicial era a de sistema, proposta por Saussure. A noção de estrutura se desenvolveu do termo saussuriano:
tendo sido estabelecido que a língua constitui um sistema} cumpre estabelecer como se estrutura esse sistema.
Essa caracteristica se desenvolveu de modo mais forte na chamada Escola de Copenhague, sobretudo com Louis
Hjelmslev.As chamadas escolasde Praga e de Genebra, desenvolvendo uma linha um pouco diferente, procuraram
,
1
plena atividade e produtividade. Ao longo desse meio século, o gerativismo passou por
diversaSmodificações e reformulações, que refletem a preocupação dos es uisadores dessa
relacionar essa estrutura com a noção de "função".
corrente em elaborar um odeio teórico formal ;inspirado na matemática, capaz de
•'1 Saussure caracteriza as onomatopéias autênticas como aquelas que representam imitações aproximativas e já meio escrever e explicàr a stratamente o que é e como funciona a linguagem humana .
convencionais de certos ruídos, em oposição àquelas que impressionam por sua sonoridade sugestiva, como, por )ngüís . a gerativa foi inicialmente formulada como uma espécie de resposta
exemplo, tilintar, chover e piar. .
e rejeição a modelo behaviorist de descrição dos fatos da linguagem, mod~lo esse
4 O estruturalismo europeu está representad.oprincipalmente pela lingüística funcional desenvolvida pela Escola de
Praga. As questões relacionadas a essavertente são tratadas em capítulo específico. que foi dominante na lingüística e nas ciências de uma maneira geral durante toda a
~- ..--

128 Manual de lingüística


,. Gerativismo 129

primeira metade do século xx. Para os eIlã~ dentre os quais se destacava o abandonado, como de fato foi após a publicação da resenha de Ch . .
se apresenta como um mod I d ' . omsky, o geratiVlsmo
lingüista norte-american&onar obm lel, li~~gem humana era interpretada e o capaz e supera-lo e substituí-lo
como um condicionamento social, uma resposta que o organismo humano produzia Com as suas idéias Ch -. . .
d I' oms revlt lZOUa concepção racionalista
mediante os sÚmulo que recebia da interaç1õ social. 'Essa resposta, a partir' da repetição B~ m~uagem, em, oposição franca e direta à concepção empiri .
constante e m canica, seria convertida em hábitos, que caracterizariam o oo~ ~e~ e d. emaiS estruturalistas norte-americanos e europeus ara
comportamento lingüístico de um falante. Vejamos, por exemplo, como Bloomfield capacI a e h umana de falar e entender uma IÍn u (. .oms <y, a
comport ento~"" d 'd" g a pelo menos), ISto é, o
(1933: 29-30) descrevia a maneira pela qual uma criança aprendia a falar uma língua: de um d' .. :' , IStiCO os m."lvlc!.uG, e ser compreendida como 'esultado
IS OSltlVO111,; , uma capacidad ' ' , ~
Cada criança que nasce num grupo social adquire hábitos de fala e de resposta nos humano (e - 1 e gene a e, poltanto,~~na ao organism
primeiros anos de sua vida. [...] Sob estimulação variada, a criança repete sons vocais. b .. nao comp etamente etermmada pelo mundo exterio~, como iZlam os
[00'] Alguém, por exemplo, a mãe, produz, na presença da criança, um som que se
assemelha a uma das sílabas de seu balbucio. Por exemplo, ela diz doU [boneca].
Quando esses sons chegam aos ouvidos da criança, seu hábito entra em jogo e ela
produz a sílaba de balbucio mais próxima, da. Dizemos que nessemomento a criança
eh~vlOnstas), a ~u~ deve estar fincada na biologia do cérebro/mente da es écie e é
destmada a CO~Sti.tUl.r a competência lingüística de um falante.
~ra a competencla Imgüística é o que ficou conhecido com ac"u
H' d f . .
sa dis os' pão.irJ.
J J /'
ae aa mgua e
ata.
1/
começa a imitar, [00'] A visão e o manuseio da boneca e a audição e a produção da espécie h::n:n:t~, mUitas eVidências de que a linguagem seja uma faculdade natural à .
. ensemos, por exemplo que ex I ' d I
palavra doU (isto é, da) ocorrem repetidas vezesem conjunto, até que a criança forma todos os' d' 'd h ' , c um o-se os casos pato ógicos graves
m IVI uos umanos, de todas as raças e I d' -' '
um hábito, [00'] Ela tem agora o uso de uma palavra. as regiões do planeta e em todos os tem d h.' ~.qua quer c~n Iça0 SOCial,em todas
Para um behaviorista, a linguagem humana é exatamente o que descreveu ao cabo de alguns anos de 'd pos a Ist~na foram e sao capazes de manifestar,
VI a e sem rece b er mstru - I' .
Bloomfield: urr(!enf)1nen~õíllitivraü9) um istema e a lto ado como competência lin üística _' ,çao exp IcIta para tanto, uma
frases É notável g a
h capaCidade natural e mconsciente de produzir e entender
resposta a estímulos e fixado pela repetição. Numa resenha feita e 195 sobre o
. . . que nen um outro ser do planeta, a não ser o ró rio h .
livro C!!.mEortamento verbal, escrito por B. F. Skinner, professor da famosa universidade
~:~:~:::I~:pr ~:tur~mente udmsis~emade linguagem tão compfex:como °u:ea:~~~:
de Harvard e principal teórico do behaviorismo, Chomsky apresentou uma radical e mUltosanos etremamento Ene '
impiedosa crítica à visão comportamentalista da linguagem sustentada pelos dos computadores modernos é ca . .mm~s~oomalspotenteearrojado
ele d paz de reprodUZir artifiCialmente os aspectos mais
behavioristas. Na resenha, Chomsky chamou a atenção para o fato de um indivíduo mentares o comportamento li ngUlStico
..,. d e uma criança de menos de 3 anos de idade
,
humano sempre ~lQ!criativamente no uso da linguagem, isto é, a todo momento, os como cn~r o,u compreender uma frase completamente nova. '
seres humanos estão construindo frases novas e inéditas, ou seja, jamais ditas antes
mais m~r:::t~or outra razão ~ue a faculdade da linguagem é a característica mental
pelo próprio falante que as produziu ou por qualquer outro indivíduo.
, d I q!:1es:p'~ra..2s umanos dos demais primatas superiores e do resto do
Por isso, todos os a antes são criativo, desde os analfabetos até os autores dos .! mun o natura . apel d ," .
teórico d' "d o gela~lvlsmo o selOda lingüística é constituir um modelo
clássicos da literatura, já que to os cnam m lfiltamente frases novas, das mais simples e capaz e escrever e exp Icar fu' ~--;---,.--.,-.,..-_":
, '. c - ....
- ..---_~.:..: a natureza e o nClOnamento dessa faculdade
w:
f
despretensiosas às mais elaboradas e eruditas. Pensemos, por exemplo, na frase que que slgnmca procurar compre d 'o
h ;> en er um os aspectos mais importantes da mente
acabamos de produzir aqui mesmo neste texto, É muito provável que ela nunca tenha sido .umana,_~mo afirmou o próprio Chomsky (1980: 9): .•
proferida exatamente da maneira como o fizemos, bem como jamais será dita novamente Uma das razõespara estudar a li (
essoalmente' nguagem exatamente a razão gerativista) - e para mim
da mesma forma. Chomsky chegou a afirmar, inclusive, que criativÍ a o pnnc ;, P , a maispremente delas
um "espelhodo ,." d' - é aposSI
'b1
I Idad"e InstIgantedevera linguagemcomo'
as~~t"dm:-âo compofl'ãmenwlíngi.íístiêõ uman aqUi mais 1/ d' eSplflto ,como IZa expressãotradicional Com isto nã .
fundamentalmente distingue a linguagem humana dos sistemas de comunicação animal. li~;~a~~~o~~~~eC::!:~express;~os ~ as distinções dese~volvidas no ~s~L~~~~I~~~n;~
De acordo com esse pe~mento de Chomsky, se considerarmos a cnativldade ã construído I °hsmo e os o pensamento e o universo do "senso comum"
s pe a mente umana Mais" . d I
principal característica da linguagem humana, então devemos abandonar o modelo possibilidaded d b. , d' JnstI~ante am a, pe o menos para mim, é a
nam sua estrut~raesco m, ~tra;~s o estu_dod~lIng~agem,princípiosabstratosque gover-
teórico e metodológico do behaviorismo, já que nele não há espaço para eventos criativos, . I 'd h~ us~,pflnclplOsque sao UfilversalS por necessidadebiológicae não por
pois, para lingüistas como Bloomfield, o comportamento lingüístico de um indivíduo slmp es aCl ente (StóflCO , e que d ecorrem de caracteflsncasmentais
' . da espéciehumana.
deve ser interpretado como uma resposta completamente previsível a partir de um dado ,", __ Com o gerativismo
_. ' as I'
Inguas d . d '
elxam e ser mterpretadas como um
estímulo, tal como é possível prever que um cão começará a latir ao ouvir, por exemplo, I ~om'po.t"t:rffiefftt5'sOCla . . .
'f ..'di .....;-I~é1::..<f-. I e con IClOna e passam a ser analisadas corno uma
o som de uma campainha caso tenha sido treinado para isso.l Se o behaviorismo deve ser
f
. -1!!=U a e menta natural A morada da linguagem passa a ser a mente humana,
130 Manual de lingüístico Geratlvismo 131

o modelo teórico A gramática como sistema de regras


Naturalmente, apenas postular a existência da faculdade da linguagem como A primeira elaboração do modelo gerativista ficou conhecida como gramdtica
um dispositivo inato que permite aos humanos desenvolver uma competência tramformacional e foi desenvolvida e reformulada diversas vezes durante as décadas
lingüística não resolveria todos os problemas da lingüístic.a gerativa. Era (e ainda é) de 1960 e 1970. Os objetivos dessa fase do gerativismo consistiam em descrever
preciso descrever exatamente como é essa faculdade, como ela funciona e como é como os constituintes das sentenças eram formados e como tais constituintes
possível que ela seja geneticamente determinada se as línguas do mundo parecem tão transformavam-se em outros por meio da aplicação de regras. Por exemplo, a sentença
diferentes entre si. Para dar conta dessa aparente contradição entre a hipótese da I "o estudante leu o livro" possui cinco itens lexicais, que estão organizados entre si
faculdade da linguagem e as milhares de línguas existentes no planeta, os lingüistas
da corrente gerativa vêm elaborando teorias que procuram explicar o funcionamento
da linguagem na mente das pessoas. Ao observar os fatos das línguas naturais, um
l através de relações estruturais que chamamos de marcadores sintagrndticos, e tais
marcadores poderiam sofrer regras de transformação de modo a formar outras sentenças,
como "o livro foi lido pelo estudante", "o que o estudante leu?", "quem leu o livro?",
gerativista faz-se perguntas como: etc. Ou seja, os gerativistas perceberam que as infinitas sentenças de uma língua eram
formadas a partir da aplicação de um finito sistema de regras (a gramática) que
• O que há em comum entre todas as línguas humanas e de que maneira elas
transformava uma estrutura em outra (sentença ativa em sentença passiva, declarativa
diferem entre si?
em interrogativa, afirmativa em negativa, etc.) - e é precisamente esse sistema de
• Em que consiste o conhecimento que um indivíduo possui quando é capaz
regras que, então, se assumia como o conhecimento lingüístico existente na mente do
de falar e compreender uma língua?
falante de uma língua, o qual deveria ser descrito e explicado pelo lingüista gerativista .
• Como o indivíduo adquire esse conhecimento?
Vejamos um exemplo. A sentença (s) "o aluno leu o livro" é formada pela
• De que maneira esse conhecimento é posto em uso pelo indivíduo?
relação estrutural entre o sintagma nominal (SN) "o aluno" e o sintagma verbal (sv)
• Quais são as sustentaçÕes físicas presentes no cérebro/mente que esse
"leu o livro". O SN é formado pelo determinante (DET) "o" e pelo nome (N) "aluno";
conhecimento recebe?
e o SV, por sua vez, é formado pelo verbo (v) "leu" e pelo outro SN "o livro", o qual se
Para procurar responder a perguntas como essas, a lingüística gerativa propõe- forma também por uma relação entre DET e N, no caso "o" e "livro" respectivamente.
se a analisar a linguagem humana de uma forma matemática e abstrata (formal), que Toda essa estrutura sintagmática pode ser mais claramente visualizada no esquema
se afasta bastante do trabalho empírico da gramática tradicional, da lingüística abaixo, denominado diagrama arbóreo (ou, simplesmente, drvore), que é a famosa
estrutural e da sociolingüística, e se aproxima da linha interdisciplinar de estudos da maneira pela qual os gerativistas representam estruturas sintáticas.
mente humana conhecida com ciênci~ogniti~ maneira pela qual tais perguntas
vêm sendo respondidas constitui o mo o teortco do gerativismo. . S
Ao longo dos anos, lingüistas de todas as partes do mundo (inclusive do Brasil,
desde a década de 1970) têm trabalhado na formulação e no refinamento do modelo SN SV
teórico gerativista. O mais importante deles é o próprio Chomsky, mas existem muitos
~ ~
estudiosos que dele discordam e acabam formalizando modelos alternativos, que às DET N V SN
vezes divergem crucialmente do modelo chomskyano. Não há qualquer dúvida de
que Chomsky seja não só o criador como, principalmente, o mais influente teórico
da lingüística gerativa - e um dos mais importantes estudiosos da linguagem de
I
o
I
estudante
leu
IA / ~
todos os tempos -, no entanto não se deve traçar um sinal de igual entre Chomsky e
o gerativismo. É muito comum encontrarmos gerativistas que não são chomskyanos, DET N
apesar de que, quase sempre, ser chomskyano significa ser gerativista. Vejamos a f'
;.. : I I
seguir as principais características dos modelos chomskyanos (e convidamos o leitor, o livro
ao avançar em seus estudos, a conhecer os modelos diferentes). Figura 1: representação arbórea.
132 Manual de lingüística Gerativismo 133

Essas rel1;rasde composição sintagmática explicam como uma estrutura simples Na década de '1990, a idéia da transformação de uma estrutura profunda numa
como esta é gerada, mas não são sl,lficientes para explicar como uma outra estrutura estrutura superficial seria abandonada em favor de uma visão que não mais representava
relacionada, como a voz passiva, seria formada a partir da estrutura de base; no caso, a voz estruturas, e sim as derivava - mostrando os. passos pelos quais uma estrutura é
ativa. Para dar conta da relação entre estruturas diferentes, mas relacionadas, os gerativistas formada (derivada) sem que ela tenha de ser comparada com uma outra estrutura
formularam as regras transformacionai~ ..Essencialmente, uma transformação forma uma independente. Não obstante, a idéia das transformações como operações
estrutura a partir de uma outra previamente existente. A estrutura primeiramente formada . computacionais (fenômenos sintáticos) que derivam sentenças é o tópico central da
é chamada de estrutura profunda, e a estrutura dela derivada chama-se estrutura superficial. pesquisa gerativista até o presente momento.
Nesse sentido, a voz ativa é interpretada como a estrutura profunda sobre a qual são Outro centro de atenção dos gerativistas sempre foi compreender como é possível
aplicadas as regras transformacionais que geram a voz passiva, a estrutura superficial. que os falantes de uma língua tenham intuições sobre as estruturas sintáticas que
produzem e ouvem. Por exemplo, todo falante nativo do português sabe que uma
S
frase como "quantos livros você já escreveu?" é perfeitamente normal e pode ser falada
por qualquer um de nós sem causar estranhamento. Trata-se, portanto, de uma frase

DET
---------------SN

N
gramatical, normal na língua. Esse mesmo falante do português também sabe, pela
sua intuição, que uma frase como "*que livro você conhece uma pessoa que escreveu?"
I
O
I
estudante
não é normal, é estranha, é uma frase agramatical da língua (e, por isso, aparece
antecedida do asterisco, que indica a agramaticalidade).
DET N Ora, como é que o falante sabe disso? Como ele consegue distinguir uma frase

O
I
livro
I gramatical de uma frase agramatical em sua língua? Note bem: estamos falando de
ESTRUTURA PROFUNDA um conhecimento implícito, inconsciente e natural acerca da língua que todos os
falantes nativos possuem, e não das regras da gramática normativa que aprendemos
REGRAS DE TRANSFORMAÇÃO na escola. Na escola nunca são analisadas construções como a frase agramatical citada.
1. seleção do verbo "ser" + "particípio"; 2. movimento do objeto para a posição de sujeito; a) quantos livros você já escreveu? ~ gramatical
3. manifestação do agente como Sintagma Preposicionado (SP).
b) * que livro você conhece uma pessoa que escreveu ~ agramatical
Figura 3: gramaticalidade VS. agramaticalidade.
S
Um outro exemplo: na sentença "João disse que ele vai se casar", todo falante

~
SN
----------- SV
nativo de português sabe que o pronome "ele" pode referir-se tanto a João quanto a
outra pessoa qualquer (do sexo masculino), diferente de João e citada anteriormente

A )\
DET N
I I no discurso - isto é, a frase pode dizer que o próprio João vai se casar ou que um
o livro outrO homem vai se casar. Mas na frase "Ele disse que João vai se casar" o falante sabe
que "ele" não pode ser a mesma pessoa que "João" - e, nesse caso, a frase diz somente
AUX PART P SN
que João vai se casar. Todos os falantes de português conhecem inconscientemente
I I I
foi lido por
(pelo)
/\
DET
I
N
I
essas pequenas regras que acabamos de descrever e é por isso que entendem e produzem
as frases de sua língua. Mas como isso é possível? Como podemos saber essas coisas se
ninguém nos ensina explicitamente como a língua funciona?
Esse conhecimento lingüístico inconsciente que o fulante possui sobre a sua língua
e que lhe permite essas intuições é o que denominamos competência lingüística - o
O estudante
ESTRUTURA SUPERFICIAL conhecimento interno e tácito das regras que governam a formação das frases da língua. A
Figura 2: transformação passiva. competência lingüística não é a mesma coisa que o comportamento lingüístico do
134 Mónual de lingüística Gerativlsmo 135

indivíduo, aquelas frases que de fato uma pessoa pronuncia quando usa a língua. Esse uso gramática quando algum de seus componentes se transforma ao longo do tempo,
concrdo da língua denomina-se desempenho lingüístico (também conhecido por perdendo ou ganhando formas. Esse último tipo de análise gerativista é o que mais se
performance ou, ainda, atuação) e envolve diversos tipos de habilidade que não são aproxima da lingüística baseada em dados concretos do uso da língua (corpus). No
lingüísticas, como atenção, memória, emoção, nível de estresse, conhecimento de mundo, Brasil, trabalharam e trabalham nessa linha, que ficou conhecida como sociolingüística
etc. Imagine que você desejava pronunciar a frase "Vou tentar a sorte", mas enrolou a língua paramétrica, lingüistas de importância e reconhecimento internacional como Fernando
e acabou dizendo "vou tentar a torte". Ora, o que aconteceu foi apenas um erro de execução, Tarallo, Mary Kato, Maria Eugênia Duarte, entre outros.
com a preservação do segmento Itl no início da palavra "sorte", o que não significa que seu
, conhecimento sobre o português tenha sido abalado. O que ocorreu não foi um problema
de conhecimento, mas de uso, de desempenho, de performance da língua. A gramática universal: princípios e parâmetros
Classicamente o interesse central das pesquisas gerativistas recai na competência
lingüística dos falantes - muito embora só se possa ter acesso a ela através do Com a evolução da lingüística gerativa no início dos anos 1980, a idéia da
desempenho -, pois é essa competência que torna o indivíduo capaz de falar e competência lingüística como um sistema de regras específicas cedeu lugar à hipótese
da gramática universal (Gu). Deve-se entender por GU o conjunto das propriedades
compreender uma língua. De acordo com essa abordagem, é somente através do
gramaticais comuns compartilhadas por todas as línguas naturais, bem como as diferenças
estudo da competência que será possível elaborar uma teoria formal que explique o
entre elas que são previsíveis segundo o leque de opções disponíveis na própria GU. A
funcionamento abstrato da linguagem na mente dos indivíduos.
hipótese da GU representa um refinamento da noção de faculdade da linguagem sustentada
Em razão desse interesse central na competência lingüística, os estudos clássicos
pelo gerativismo desde o seu início: a faculdade da linguagem é o dispositivo inato,
do gerativismo não costumam usar dados lingüísticos reais (performance) retirados do
presente em todos os seres humanos como herança biológica, que nos fornece um
uso concreto da língua na vida cotidiana. O que interessa fundamentalmente ao
algoritmo, isto é, um sistema gerativo, um conjunto de instruções passo a passo - como
gerativista é o funcionamento da mente que permite a geração das estruturas lingüísticas
as inscritas num programa de computador - o qual nos torna aptos para desenvolver
observadas nos dados de qualquer corpus de fala, mas não lhe interessam esses dados em
(ou adquirir) a gramática de uma língua. Esse algoritmo é a GU.
si mesmos ou em função de qualquer fator extralingüístico, como o contexto
Para procurar descrever a natureza e o funcionamento da GU, os gerativistas
comunicativo ou as variáveis sociais que influenciam o uso da linguagem. Os gerativistas
formularam uma teoria chamada de prindpios e parâmetros. Essa teoria possui pelo
usam como dados para as suas análises principalmente (1) testes de gramaticalidade,
menos duas fases: a fase da teoria da regência e da ligação (TRL), que perdurou por
nos quais frases são expostas a falantes nativos de uma língua, que devem utilizar sua
toda a década de 1980, e o programa minimalista (PM), em desenvolvimento desde o
intuição e distinguir as frases gramaticais das agramaticais, e (2) a intuição do próprio
início da década de 1990 até o presente.
lingüista, que, afinal, também é um falante nativo de sua própria língua.
As pesquisas da teoria de princípios e parâmetros foram e são desenvolvidas
Não obstante, os gerativistas que fazem pesquisas aplicadas (psicolingüistas, sobretudo na área da sintaxe, pois é exatamente nas estruturas sintáticas que mais
neurolingüistas, etc.)2 também observam os dados do uso da língua, em situação evidentemente se percebem as grandes semelhanças entre todas as línguas do mundo,
i
natural ou em situação experimental, procurando extrair deles informações para o mesmo entre aquelas que não possuem nenhum parentesco, o que facilita o estudo da
modelo de explicação da competência lingüística. Por exemplo, esses gerativistas se I GU. Por exemplo, todas as línguas do mundo possuem estruturas como orações adjetivas,
interessam por (1) testes e experimentos psicolingüísticos, com pessoas de todas as orações interrogativas e funções sintáticas como sujeito, predicado, complementos.
idades, nos quais os informantes são levados a produzir ou interpretar determinados A possibilidade de estudar a sintaxe isolada dos demais componentes da gramática
tipos de estruturas lingüísticas; (2) testes e experimentos de aquisição da linguagem (léxico, fonologia, morfologia, semântica) é conseqüência de um conceito fundamental
com crianças, além de gravações da fala natural destas; (3) testes e experimentos do gerativismo, o de gramdtica modular. Segundo ele, os componentes da gramática devem
! ,
neurolingüísticos através dos quais se observa o funcionamento do cérebro quando ser analisados como módulos autônomos, independentes entre si, no sentido de que são
em atividade lingüística e também o desempenho lingüístico de pacientes afásicos governados por suas próprias regras e não sofrem influência direta dos outros módulos.
(pessoas que possuem dificuldades no desempenho lingüístico em decorrência de Isto é, o funcionamento de um módulo como, digamos, a sintaxe, é cego em relação às
uma lesão cerebral, na maior parte das vezes); (4) evidências das mudanças lingüísticas operações da fonologia, por exemplo. Naturalmente existem pontos de interseção entre os
por que passam as línguas, como uma maneira de compreender o que ocorre com a módulos da gramática, afinal a sintaxe cria sintagmas e sentenças a partir das palavras do
.,. _. "':'-.

Gerativismo 137
136 Manual de lingüística

léxico, e o produto final da sintaxe (a sentença) deve receber uma leitura fonológica e Vejamos agora um exemplo de parâmetro. Se considerarmos que o valor
também uma interpretação semântica básica, que no gerativismo se chama forma lógica. semântico básico da frase (a) seja, digamos, algo como "João disse que ele mesmo, o
Podemos visualizar essa interação entre os módulos da gramática no esquema a seguir. próprio João, vai se casar", saberemos que "ele" se refere a "João". "João" é o sujeito
da oração principal, e "ele" é o sujeito da oração subordinada. Dizemos, então, que os
sujeitos das duas orações são correferenciais. O que é interessante nesse exemplo é
.1
que o sujeito da segunda oração poderia não ser preenchido por um pronome anafórico,
isto é, o sujeito da oração subordinada poderia ser oculto - que na lingüísrica gerativa
chamamos tecnicamente de sujeito nulo (representado aqui informalmente por 0) -,
SINTAXE como ocorre na sentença (c) "João disse que 0 vai se casar".
i) João disse que ele vai se casar ("ele" ~ sujeito preenchido)
ii') João disse que 0 vai se casar ("0" ~ sujeito nulo)
FONOLOGIA
Podemos dizer que a língua portuguesa se caracteriza por suportar a ocorrência
Figura 4: o modelo de gramática.
de sujeitos nulos, como ocorre também nessas frases "0 saí ontem", "0 fomos ao
Nessa ilustração, vemos que o elemento central da gramática é a sintaxe. Ela cinema", "0 fez o trabalho?", "0 choveu ontem", etc. Tanto nesses casos quanto na
retira do léxico as palavras com as quais construirá, segundo suas próprias regras, oração subordinada em (ii), o SN sujeito do sv predicado não possui nenhum elemento
estruturas como sintagmas e sentenças, que da sintaxe são encaminhadas à preparação pronunciado, está vazio, nulo, como se ilustra na sentença (S) abaixo.
para a pronúncia, no módulo fonológico, e para a interpretação formal, no módulo
S
semântico. Nessa maneira de compreender o funcionamento da gramática, a morfologia
é interpretada como parte do léxico, já que dá conta da estrutura interna da palavra, SN SV
e também como parte da fonologia, uma vez que deve dar conta das alterações mórficas
fonologicamente condicionadas. o vai se casar

No programa minimalista atual, entendemos por "princípio" as propriedades saí ontem


gramaticais que são válidas para todas as línguas naturais, ao passo que "parâmetro" choveu hoje
deve ser compreendido como as possibilidades (limitadas sempre de maneira binária)
Figura 5: parâmetro do sujeito nulo (+).
de variação entre as línguas. Por exemplo, quando analisamos as sentenças (a) "João
disse que ele vai se casar" e (b) "Ele disse que João vai se casar", vimos que em (a) o Deixar o sujeito nulo é uma propriedade do português e também de outras línguas,
pronome "ele" pode referir-se tanto a "João" quanto a qualquer outro homem como o espanhol, o italiano, mas essa propriedade não é comum a todas as línguas
anteriormente citado no discurso, mas na frase (b) "ele" não pode se referir a "João" e humanas. Se traduzíssemos as sentenças do quadro acima para línguas como o inglês e
necessariamente faz referência a um outro homem. o francês, teríamos necessariamente de preencher o SN sujeito com um elemento
Essa diferenciação entre a referencialidade do pronome "ele" nas duas frases pronominal, pois nessas línguas o sujeito nulo é uma estrutura agramatical. A frase (ii),
pode ser explicada da seguinte maneira: nesse contexto, o pronome faz referência a por exemplo, só poderia apresentar, em inglês, o pronome anafórico he, e nunca o sujeito
algum elemento que precisa ter sido citado anteriormente no texto - trata-se de um nulo "0", independentemente da referencialidade da anáfora pronominal ou zero:
pronome anafórico. É um princípio da GU que uma anáfora necessariamente deve
(i) John said that he is going to get married
suceder o seu referente, e nunca o contrário. É por isso que na frase (a) "ele" pode ser
(ii) * John said that 0 is going to get married
tanto "João" quanto outro homem citado numa frase anterior, já que ambos os termos
antecedem o pronome. Já no caso de (b) "João" não pode ser o referente de "ele", pois A existência de sujeitos nas sentenças é um princípio da GU, mas a possibilidade
o pronome antecede o nome. Se traduzíssemos (a) e (b) para qualquer língua do de deixá-los nulos nas frases é um parâmetro da GU, pois línguas como o português se
mundo, o resultado seria sempre o mesmo: em (b) seria impossível ligar o pronome caracterizam como [+ sujeito nulo], enquanto línguas como o inglês são [- sujeito nulo].
ao nome citado, mas em (a) isso pode ocorrer. Trata-se, portanto, de um princípio da É por essarazão que dissemos que os parâmetros que diferenciam as línguas são previsíveis
GU, exatamente igual em todas as línguas naturais. e distribuídos sempre de maneira binária (+ ou - o parâmetro x). O léxico, por exemplo,
rI 138' Manual de lingüístico Gerativismo 139

não é um fator de diferenciação entre as línguas que possa ser interpretado como opção disso quando descobriu o jovem inglês C. S., que não possuía parentesco com os K. E., mas
paraméuica, já que o léxico é sempre arbitrário e, por isso mesmo, imprevisível. apresentava os mesmos distúrbios lingüísticos que os membros dessa família. Monaco
analisou o tOXP2 de C. S. e constatou o que presumi~: C. S. apresentava um defeito na mesma
S
unidade de DNAdo FOXP2 deficiente da família K. E. Daí o geneticista proclamou o que
~
SN SV pode ser a descoberta do primeiro gene responsável pela genética da linguagem humana.
Independentemente de as pesquisas de Anthony Monaco serem confirmadas
He Is going went out It rained
to get yesterday today ou não - e há muitos geneticistas que as refutam -, o importante é que elas abriram
married ou aprofundaram a discussão, fora do âmbito da lingüística gerativa, sobre as bases
Figura 6: parâmetro do sujeito nulo (-). genéticas da linguagem humana.~é um gene~xistente também em outros
primatas, como chimpanzé e go~ em quantidade muito reduzida - e isso
Ao compararmos as figuras 5 e 6, percebemos que somente lípguas como o
pode explicar a limitada capacidade de comunicação lingüística desses animais.
português (e também o espanhol, o italiano, etc.) permitem o sujeito nulo "0", casos
De fato, se o mapeamento dos genes humanos apontar, como a hipótese FOXP2
que conhecemos pela gramática tradicional como sujeito oculto, indeterminado e
esboça, a existência de genes cuja função na genética de nossa espécie é controlar o
inexistente. Como indica a figura 6, línguas como o inglês (bem como o francês, o alemão,
uso de pronomes, a construção de orações subordinadas, a flexão de verbos, etc.,
etc.) não permitem o sujeito nulo e exigem o preenchimento do SN sujeito da frase nem
então a faculdade da linguagem e sua disposição na GU através de princípios e
que seja com um pronome expletivo (sem conteúdo semântico), como o itdo inglês.
parâmetros podem passar a ser considerados não mais hipóteses abstratas mas sim
O projeto da lingüística gerativa é observar comparativamente as línguas humanas-
fatos do mundo natural. Conseqüentemente, a lingüística gerativa será a corrente da
com os seus milhares de fenômenos morfofonológicos, sintáticos, semânticos e sua
ciência da linguagem que travará forte diálogo com as ciências naturais.
suntuosa complexidade - com o objetivo de descrever os princípios e os parâmetros da
GU que subjazem à competência lingüística dos falantes, para, assim, poder explicar como

é a faculdade da linguagem, essa parte notável da capacidade mental humana.


Exercícios
1) Em seu livro O imtinto da linguagem, o lingüista e psicólogo norte-americano Steven Pinker afirmou
o FOXP2 e o genético do linguagem
",","L- __ ", .-
que a linguagem natural é um instinto da espécie humana, uma capacidade que herdamos da natureza.
Para Pinker, assim como as aranhas são naturalmente programadas para tecer teias, os humanos são
Em outubro de 2001, um geneticista inglês chamad(])I",Ant~~y_~?n~S9Jprofessor programados para falar (pelo menos) uma Hngua. Explique por que essa afirmação de Pinker deve
da Universidade de Oxford e integrante do Projeto Genoma-I-Iumano, anunciou a ser considerada coerente com os fundamentos da lingüística gerativa. Você concorda, em parte ou
descoberta do primeiro ene que aparentemen;"~tá destitlado;~iar a capacidade completamente; com a afirmação do psicólogo-lingüista? Vê nela algum exagero? Comente.
!ingii.í2.ti<:~~umana: o FOXP . Monaco estudou diversas gerações da família K. E.,3 e 2) Leia as sentenças abaixo. Ponha um asterisco antes daquelas que considerar, segundo a sua intuição,
constatou que todos os seus membros possuíam distúrbios de linguagem que não estavam agramaticais e escreva OK depois daquelas que considerar gramaticais. Logo após explique: de onde
associados a algum problema físico superficial como língua presa, audição ineficiente, etc. vem essa intuição sobre as frases da Hngua?

Esses distúrbios diziam respeito à conjugação verbal, à distribuição e à a) Parece que os alunos estão cansados.

referencialidade dos pronomes, à elaboração de estruturas sintáticas complexas, como as b) Os alunos, parece que estão cansados.

orações subórdinadas. O interessante é que os avós, pais, filhos e netos da família K. E. não c) Os alunos parecem estar cansados.

possuíam aparentemente nenhum outro distúrbio cognitivo além dessesproblemas com o d) Os alunos parecem estarem cansados.
e) Parece os alunos estarem cansados.
sistema lingüístico. Monaco analisou amostras de DNAdessa família e descobriu que uma
f) Parece os alunos estar cansados.
única unidade de DNAdeum só gene wava corrompida. O FOXP2 é um dos setenta genes
g) Os alunos, parece que eles estão cansados.
diferentes que compõem o cromossomo 7, que é responsável pela arquitetura genética do
3) No final da festa do aniversário do seu filho, dona Maria ia anunciar que estava na hora de cortar o
cérebro humano. Esse g~~~~~FOXP2,possui 2.500 unidades de DNA,e só uma delas bolo e' disse a seguinte frase: "Vamos, gente, esrá na hora de bortar o colo!". A própria falante riu do
apresenta problemas na genética da família K. E. Monaco estava quase certo de que esse que disse e corrigiu a frase logo depois. O erro lingüístico que dona Maria cometeu deve ser explicado
gene deveria ser responsável pela capacidade genética associada à linguagem, e teve certeza como um problema na competência ou no desempenho lingüístico? Explique.
140' Manual de lingüística

4) Observe o que diz John Lyons a respeito da propriedade


"O que é impressionante na produtividade
lingülsrica da produtividade:
das línguas naturais, na medida em que é manifesto
Sociolingüística
na esrrurura gramatical, é a extrema complexidade e hererogeneidade dos principios que a Maria Maura Cezm-io
manrêm e consrituem. Mas, como insistiu Chomsky, esra complexidade e hererogeneidade não Sebastião Varre
é irresrrira: é regida por regras. Dentro dos limires esrabelecidos pelas regras da gramárica, que.
são em parre universais e em parre específicos de dererminadas línguas, os falantes narivos de uma
língua rêm a liberdade de agir criarivamente - de uma maneira que Chomsky classificaria de
distintivamente humana - consrruindo um número indefinido de enunciados." (Lyons, 1987: 34)
Explique o que é: a) criatividade como qualidade disrintivamente humana e b) criatividade regida
por regras.
5) O esrrururalismo lingülsrico concebia a linguagem humana como uma forma de comportamento, e
esre era interpretado como "uma resposta fisiológica a estímulos exrernos, podendo ser condicionado
e programado - da mesma forma que ratos de laboratório podem ser treinados a puxar uma alavanca
para obrer comida" (O Globo, 2000: 414). Explique por que o gerarivismo pode ser interprerado
como um modelo de análise lingülsrica radicalmente oposto ao modelo estruturalisra/behaviorisra.
6) Observe os dados do inglês e do espanhol abaixo. Leve em consideração rambém a tradução dessas
frases para o português. Explique o comportamento dos sujeitos e dos objetos (nulos ou preenchidos)
nessas rrês línguas de acordo com as noções de princípios e parâmetros. A sociolingüística é uma área que estuda a língua em seu uso real, levando em
Inglês Espanhol consideração as relações entre a estrutura lingüística e os aspectos sociáis e culturais da
produção lingüística. Para essa corrente, a língua é uma instituição social e, portanto,
Did you see John? Tu visre a'Juan?
In!. você viu João? Você viu João? não pode ser estudada como uma estrutura autônoma, independente do contexto
Yes, I saw him. Si, yo lo vi situacional, da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meio de comunicação.
Sim, eu vi-o Sim, eu avi A sociolingüística parte do princípio de que a variação e a mudança são inerentes
• Yes, I saw. Si, lo vi às línguas e que, por isso, devem sempre ser levadas em conta na análise lingüística.
Sim, eu vi 0 Sim,00vi O sociolingüista se interessa por todas as manifestações verbais nas diferentes variedades
• Yes, saw him. * Si, yo vi de uma língua. Um de seus objetivos é entender quais são os principais fatores que
Sim, o vi-o Sim, eu vi 0
motivam a variação lingüística, e qual a importância de cada um desses fatores na
* Yes, saw. * Si, vi configuração do quadro que se apresenta variável. O estudo procura verificar o grau
Sim, 0vi 0 Sim,0vi0
de estabilidade de um fenômeno, se está em seu início ou se completou uma trajetória
7) Explique por que descobertas genéticas como a do gene FOXP2 e pesquisas em neurolingüística e em que aponta para mudança. Em outras palavras, a variação não é vista como um efeito
psicolingüística em geral são uma forma de pôr à prova, para refutar ou confirmar, a validade do acaso, mas como um fenômeno cultural motivado por fatores lingüísticos (também
episremológica das hipóteses da lingüística gerativa.
conhecidos como fatores estruturais) e por fatores extralingüísticos de vários tipos
(conforme mostraremos através de vários exemplos). A variação ilustra o caráter
adaptativo da língua como código de comunicação e, portanto, a variação não é
Notas assistemática. O lingüista, ao estudar os diversos domínios da variação, deve demonstrar
como ela se configura na comunidade de fala, bem como quais são os contextos
I Para uma melhor caracrerizaçãoda epistemologia behaviorisra e sua superação pela psicologia recente, ver Mehler e
Dupoux (1990). lingüísticos e extralingüísticos que a favorecem ou que a inibem.
2 Cabe ressalrarque os esrudos de psicolingüísrica, de neurolingüísrica e de lingüísrica hisrórica não são conduzidos A sociolingüística abordada neste presente manual firmou-se nos Estados Unidos
exclusivamente sob um viés gerativista. Existem inúmeros pesquisadores de orientação não formalista nessas áreas.
3 A família e os indivíduos que parricipam de experiências científicas são sempre referidos por suas iniciais, como é o na década de 1960 com a liderança do lingüista William Labov e é comumente
caso aqui. ou por nomes fictícios, para preservar sua privacidade. denominada de "sociolingüística variacionista" ou "teoria da variação". Possui uma
metodologia bem delimitada que fornece ao pesquisador ferramentas para estabelecer
142' Manual de lingüística Sociolingüístlca 143

variáveis, para coleta e codificação dos dados, bem como instrumentos computacionais se, também, que a falta de concordância podia ocorrer tanto na fala de pessoas analfabetas
para definir e analisar o fenômeno variável que se quer estudar. A abordagem como na fala de alunos universitários, por exemplo. Mas a freqüência de uso era muito
variacionista baseia-se em pressupostos teóricos que permitem ver regularidade e diferente e continua a ser muito diferente. As pessoas analfabetas têm tendência a marcar
sistematicidade por trás do aparente caos da comunicação do dia-a-dia. Procura o número plural apenas no primeiro elemento do sujeito, deixando o substantivo e,
demonstrar como uma variante se implementa na língua ou desaparece. sobretudo, o verbo sem marcas. Já as pessoas mais instruídas têm tendência alta de
O termo "variante" é utilizado para identificar uma forma que é usada ao lado de expressar o plural no núcleo dos sujeitos, nos determinantes e no verbo (que, assim,
outra na língua sem que se verifique mudança no significado básico. Tomemos, por concorda com o sujeito em número e pessoa). Mas isso não significa que a forma padrão
exemplo, a variação nos pronomes pessoais na primeira pessoa do plural ilustrada com não ocorra na fala não-culta; também não significa que a forma não-padrão não apareça
o verbo "falar". Temos as formas "nós falamos" e "a gente fala" como variantes do presente na classe dos universitários. Entretanto, as probabilidades de ocorrência num e noutro
do indicativo. Ambas as expressões são aceitas pelas pessoas em geral, mas a estrutura grupo são distintas e relevantes. Cabe ao sociolingüista descobrir os contextos que
"nós falamos" é considerada mais formal, enquanto "a gente fala" soa mais coloquial. favorecem a variação: a) na fala de um mesmo grupo de falantes; b) entre grupos distintos
Tendo essas duas variantes em vista, um sociolingüista poderia se perguntar: de falantes divididos segundo variáveis convencionais, a exemplo de sexo, idade,
escolaridade, procedência, etnia, nível socioeconômico. A partir da freqüência de uso
a) Em que contexto social um mesmo falante se utiliza de cada uma das duas variantes?
das variantes, cabe a ele estimar as tendências associadas a cada freqüência e verificar se
b) Ou será que há um contexto específico para uma das formas?
se trata de variação instável ou estável. No primeiro caso, poderia ainda indagar se algum
c) Há diferença nos usos dessas formas ao se compararem crianças, jovens e adultos?
tipo de mudança lingüística está ocorrendo ou se está prestes a ocorrer.
d) Há diferenças ao se compararem pessoas cultas com pessoas analfabetas?
Como vimos pelos dois exemplos citados, o conjunto das variantes denomina-
e) E quanto a pessoas de nível socioeconômico distinto?
se "grupo de fatores" ou "variável lingüística" . Cabe ao lingüista estabelecer através da
f) É possível saber se a forma mais coloquial, "a gente fala", está substituindo a forma
análise quais são as variáveis lingüísticas relevantes para a descrição e interpretação do
canônica "nós falamos"?
fenômeno que está estudando. Por exemplo, a sibilante e a ausência da mesma em
g) Há verbos (provavelmente os mais formais) que motivam o uso de "nós"? Quais
"meninas" e "meninà' são variantes de número. Podemos dizer que a variável <s>,
seriam esses verbos? E quais outros (provavelmente os menos formais) motivariam o
cuja representação é feita com parênteses angulares, tem as variantes sibilante e zero.
uso de "a gente"?
Uma variável pode ser binária, como a de número singular e plural, com duas
Além das variantes citadas que combinam "a gente" com a terceira pessoa do variantes, ou eneária, com três ou mais variantes. Vamos ilustrar a variável eneária com
singular e "nós" com primeira do plural, temos mais duas variantes, mais a vibrante final. O "r" final, que ocorre em palavras como "cantar", "for", "der",
estigmatizadas, que são: "nós falà' e "a gente falamos". Diante dessas variantes, mais "qualquer", "melhor", "mulher", tem diversas variantes fonéticas no Brasil: a) a pronúncia
perguntas podem ser feitas: vibrante alveolar do Sul do Brasil; b) a pronúncia retroflexa (com a ponta da língua voltada
para trás) do interior de estados como São Paulo; c) a pronúncia velar do Rio de Janeiro,
a) Qual o grau de escolaridade das pessoas que usam essas formas?
por exemplo; d) a fricativa glotal e e) zero, ou seja, a ausência de som. Podemos dizer
b) Há incidência da forma "a gente" mais verbo na primeira do plural na fala de
que essas são as principais variantes da variável vibrante /rI na realidade. Para simplificar
pessoas cultas? Em que contexto tais incidências tendem a ocorrer?
a análise, vamos reduzir a variável vibrante a duas variantes: presença ou ausência de
Uma das contribuições da pesquisa sociolingüística foi a constatação de que muitas consoante vibrante final. E vamos chamá-la de varidvel dependente. Examinemos agora
formas não-padrão também ocorrem na fala de pessoas com nível superior, algumas das variáveis lingüísticas associadas à presença ou à ausência de vibração. Vamos
principalmente nos momentos mais informais. Graças a sua metodologia de análise da chamá-las de varidveis independentes. As variáveis lingüísticas podem ser (1) a classe
língua em situação real de comunicação, a sociolingüística consegue medir o número sintática da forma em -r: verbo, nome, adjetivo, outros; (2) no caso de verbo, a classe
de ocorrências de usos de uma variante e, sobretudo, fazer previsões sobre as principais modo-temporal: infinitivo, subjuntivo; (3) ainda no caso de verbo, a vogal temática
tendências de uso em relação a essa variante. Assim, por exemplo, num estudo sobre a indicadora de conjugação: -a, -e, -i, -o; (4) a variável extensão, com as variantes:
concordância verbal que se iniciou com a fala dos analfabetos adultos do Rio de Janeiro, monossílabo, dissílabo, trissílabo e polissílabo. As variáveis extralingüísticas envolvem:
na década de 1970, constatou-se que, ao lado da variante ''As meninas brincam no a) gênero, com as variantes masculino e feminino; b) idade, com as variantes: criança,
quintal", os analfabetos privilegiavam o uso de ''Asmenina brinca no quintal". Verificou- jovem, adulto, velho ou uma escala de idade.
144 . Manual de lingüística Sociolingüística 145

A pergunta agora seria: qual é a variante de "r" que é mais eliminada em cada (b) variação social: associada a diferenças entre grupos socioeconômicos, compreende
situação? As pesquisas mostram que o "r" final de verbo no infinitivo é, na maioria variáveis já citadas, como faixa etária, grau de escolaridade, procedência, etc.;
das vezes, mais eliminado da fala de informantes de todos os graus de escolaridade do (c) variação de registro: tem como variantes o grau de formalidade do contexto
que o "r" final de substantivos e adjetivos. A variável escolaridade, por exemplo, é interacional ou do meio usado para a comunicação, como a própria fala, o e-mail, o
relevante para a descrição do fenômeno, dado que os falantes com mais tempo de jornal, a carta, etc.
escolarização tendem a manter o "r" mais do que os analfabetos. Ambos os grupos
Estamos apresentando cada variável como se a mesma operasse de forma
tendem a manter mais no caso dos substantivos do que com verbos.
autônoma, sem interferência das demais variáveis associadas ao comportamento da
Há outras variáveis que podem influenciar a variação, além das mencionadas
variação. Entretanto, o que ocorre normalmente nas línguas é uma interação mais ou
acima. Assim, por exemplo, o grau de formalidade do item é um fator relevante: o "r"
menos estreita entre as diferentes variáveis. Assim, uma inovação lingüística começa
final de um verbo menos usado, como "postergar", tem maior chance de ser pronunciado
numa determinada região (variável regional), mas é própria de um grupo socioeconômico
do que de um verbo do dia-a-dia, como "falar". O contexto fonológico da seqüência
desfavorecido (variável social). A variante pode passar a ser usada pelo grupo
que segue é também relevante. Com efeito, a presença de um fonema vocálico na palavra
socioeconômico mais alto nos momentos mais informais (a variável é, então, o registro).
seguinte favorece a manutenção do fonema consonantal por um processo de
Um exemplo em que podemos ver a atuação dos três tipos de variável independente
ª
reorganização da sílaba, como em "pegar criança", enquanto um som consonantal é o caso do uso de "tu" vs. "você" com o verbo na terceira pessoa do singular: "tu fez", "tu
desfavorece a presença dessa variante de prestígio, como em "tomar hanho". quer". Do ponto de vista regional, podemos dizer que há cidades, como o Rio de Janeiro,
Tomemos um segundo exemplo da variação no uso da língua, dessa vez com que apresentam tanto a variante "você" quanto a variante "tu"; a variável idade aponta
foco na alternância entre presença e ausência do pronome "eu". Podemos constatar a preferência de jovens pelo uso de "tu", e a variável escolaridade a associa com os menos
que, no português brasileiro, é variável a manifestação da primeira pessoa, 1 como escolarizados; já a variável registro mostra que o pronome "tu" tende a ser usado nos
"comprei um livro" ou "eu compr~i um livro". A primeira forma ocorre com mais momentos mais informais.
freqüência na língua escrita e a segunda, na língua oral. Com relação à língua oral, o Podemos flagrar variação em todos os níveis da língua. Por exemplo, no nívellexical,
sujeito oculto tende a ocorrer nas orações que apresentam uma seqüência de ações poderíamos citar conhecidas oposições de forma: "jerimum" (Bahia) e "abóbora" (Rio de
realizadas pelo mesmo sujeito. Somente a primeira oração de uma seqüência é que Janeiro); "guri" (Rio Grande do Sul) e "menino" (Rio de Janeiro).2 No nível gramatical,
apresenta o sujeito explícito, como no exemplo: vimos a variação "elas brincam/elas brind'. No nível fonético-fonológico, podemos dar
... tinha uma... árvore um tronco... aí eu ... me abaixeipra poder não bater bati com como exemplo a variação regional das pronúncias de uma palavra como "morena", com a
isso aqui... aí fiquei... desmaiado uma hora e meia duas horas... aí acordei no hospital vogal pré-tônica aberta no Nordeste e fechada na maior parte do Brasil. Nesse nível situa-
com isso aqui... aberto e as costas toda arranhada... (RJ) se grande parte da variação que contém formas estigmatizadas, como o segundo membro
Em várias línguas em que o sujeito pode ser explícito ou oculto, ele tende a dos pares seguintes: flamengo ~ framengo, lagarta ~ largata, bicicleta ~ bicicrera.
ocorrer no início do enunciado e na mudança de referente (por exemplo, se o informante Na dimensão propriamente social estão as diferenças lingüísticas verificadas
está falando de Pedro e passa a falar de si próprio), e o sujeito oculto tende a ocorrer com a comparação entre o dialeto padrão - considerado correto, superior, puro - e os
na cadeia de tópico, ou seja, quando há várias orações se referindo a uma mesma dialetos não-padrão - considerados incorretos, inferiores, corrompidos. A variante
pessoa, tornando o discurso mais coeso e econômico (ver o capítulo "Funcionalismo"). padrão é ensinada na escola e valorizada pelos membros da sociedade, tanto pelos que
Dessa forma, o aparente caos da variação é desfeito, e o lingüista demonstra a a dominam como pelos que gostariam de dominá-la, posto que sabem da sua
importância para se adquirir prestígio.
sistematização que existe no uso das variantes de uma língua. A diversidade e a
O contexto situacional é responsável por uma série de variações lingüísticas.
variabilidade são características inerentes aos sistemas lingüísticos e passam também
a ser objeto de estudo com o advento da sociolingüística. Dependendo da situação em que o falante se encontre, ele utiliza mecanismos
lingüísticos diferentes para se expressar. Assim, a sua linguagem apresenta diferenças
O estudo dos processos de variação e mudança permite estabelecer três tipos
básicos de variação lingüística: lexicais, gramaticais e fonéticas distintas devido ao contexto, ao ouvinte ou ao meio
através do qual a informação é transmitida (fala ou escrita, carta, e-mail, artigo, etc.)
(a) variação regional, associada a distâncias espaciais entre cidades, estados, regiões ou Desse modo, por exemplo, um diretor de faculdade se expressa de diferentes
países diferentes; a variável geográfica permite opor, por exemplo, Brasil e Portugal; formas, dependendo se está discutindo os novos recursos tecnológicos da educação
146 Manual de lingüística Sociolingüístlca 147

com outro profissional da área, se está dando uma aula, se está explicando para o Assim como a etnolingüística e a psicolingüística, a sociolingüística veio
reitor a necessidade de contratar um professor, se está conversando com o filho sobre preencher um vazio deixado pelo gerativismo, que considera objetivo legítimo de
a escola, com o amigo sobre o futebol, com a família sobre a próxima viagem, etc. estudo apenas o aspecto interior das línguas e a competência lingüística. Dessa forma,
Cada pessoa tem um enorme repertório lingüístico que a torna capaz de adaptar sua as novas disciplinas vêm priorizar os fatores sociais, culturais e psíquicos que interagem
linguagem às diferentes situações vividas. na linguagem.
Em síntese, a língua é uma estrutura maleável, que apresenta variações, mas Esses fatores são considerados essenciais para o estudo lingüístico porque o
há muitos elementos gramaticais, fonéticos e léxicos que são comuns às variedades de homem adquire a linguagem e dela se utiliza dentro de uma comunidade de fala,
uma língua. Nem tudo é variação, havendo um número enorme de elementos comuns tendo como objetivos a comunicação com os indivíduos e a atuação sobre os
que são estáveis. A variação configura-se como um conjunto de elementos diferentes interlocutores. Portanto, muito se perde ao abstrair a língua de seu uso real.
de outro, conjunto de outro grupo, de outra localidade ou de outro contexto. O Labov demonstrou que a mudança lingüística é impossível de ser compreendida
lingüista pode demonstrar que a variação é previsível e determinada por fatores fora da vida social da comunidade em que ela se produz, pois pressões sociais são
lingüísticos e/ou extralingüísticos, como veremos nas próximas seções. exercidas constantemente sobre a língua.

o advento da corrente Os precursores da sociolingüística


sociolingüística variacionista Conforme podemos imaginar, a variação lingüística não era ignorada pelos
antigos estudiosos da língua nem pela lingüística como ciência antes da década de
O estruturalismo e o gerativismo não incluíram nas suas análises a variação
1960. Muitos lingüistas procuraram demonstrar a relação entre língua, cultura e
porque esta estava fora do âmbito do objeto da lingüística, o qual deveria ser abstraído
sociedade e podem ser considerados os precursores da corrente sociolingüística. Aqui
do "caos" da realidade do uso lingüístico.
apenas faremos menção a movimentos em favor da inclusão de variáveis sociais nos
Como fruto da insatisfação diante dos modelos existentes que afastavam o
Estados Unidos e na França.
objeto da lingüística da realização da língua e de suas diversas manifestações, vários
Na década de 1930, os dialetólogos que trabalhavam no Linguistic Atlas ofthe
lingüistas procuraram outros caminhos. Um desses caminhos culminou com o
United States and Canada passaram a incorporar informações sociais, além das
surgimento da sociolingüística.
geográficas, para o levantamento dos dialetos, dividindo os informantes em três grupos
O termo "sociolingüística" surge pela primeira vez na década de 1950, mas se
de acordo com o nível de escolaridade.
desenvolve como corrente nos Estados Unidos na década de 1960, especialmente
MeiUet (1926), procurando uma explicação para as mudanças lingüísticas na
com os trabalhos de Labov, bem como os de Gumperz e DeU Hymes e a conferência
França, afirmou que toda modificação na estrutura social acarreta uma mudança nas
The Dimensiom ofSocio!inguistics, de WiUiam Bright, publicada em 1966 sob o título
condições nas quais a linguagem se desenvolve e que, portanto, a história das línguas.
de Socio!inguistics. Na conferência, o autor afirma que o escopo da sociolingüística
é inseparável da história da cultura e da sociedade.
está na demonstração de que existe uma sistemática covariação entre a estrutura
Os sociolingüistas contemporâneos vêm consolidando as bases teóricas e
lingüística e a estrutura social.
metodológicas do estudo da língua em situação real de comunicação e demonstrando
DeU Hymes (1977), como antropólogo, concebe a sociolingüística como um
a existência da natureza socioestrutural da linguagem. As pessoas provenientes de
campo que inclui contribuição de várias disciplinas, como a sociologia, a lingüística, a
diferentes classes sociais falam dialetos bastante diferentes (com divergências em todos
antropologia, a educação, a poética, o folclore e a psicologia. Enfatiza que, apesar de
os níveis, incluindo o gramatical).
englobar tantas áreas, a sociolingüística é uma disciplina autônoma, pois seu objetivo
final é diferente dos objetivos de cada uma das disciplinas citadas. Interessa-lhe identificar,
descrever e interpretar as variáveis que interferem na variação e mudança lingüística.
Labov (tal qual Saussure) vê a lingüística como uma ciência do social; dessa Sociedade e linguagem
forma, a sociolingüística equivale à lingüística com ênfase na atenção às variáveis de O indivíduo, inserido numa comunidade de fala, partilha com os membros
natureza extralingüística. dessa comunidade uma série de experiências e atividades. Daí resultam várias
148 Manual de lingüística Sociolingüística 149

semelhanças entre o modo como ele fala a língua e o modo dos outros indivíduos. palavras só podem ser proferidas pelos homens e outras, apenas pelas mulheres. Por
Nas comunidades organizam-se agrupamentos de indivíduos constituídos por traços exemplo, em zulu, uma língua falada na África, a mulher é proibida de dizer o nome do
comuns, a exemplo de religião, lazeres, trabalho, faixa etária, escolaridade, profissão sogro, o nome dos irmãos deste e o nome do genro, quer estejam vivos ou mortos, e também'
e sexo. Dependendo do número de traços que as pessoas compartilham, e da intensidade não pode falar uma palavra semelhante ou derivada: uma mulher cujo genro chame-se
da convivência, podem constituir-se subcomunidades lingüísticas, a exemplo dos Umdnzi com o radical mdnzi (água), por exemplo, deverá evirar todos os vocábulos em
jornalistas, professores, profissionais da informática, pregadores e estudantes. que se apresenta a palavra mdnzi e os complexos fônicos semelhantes.4
Nas sociedades em que é nítida a separação da população em classes sociais e Nas sociedades em que as funções sociais entre homens e mulheres se aproximam,
econômicas, a relação entre língua e classes sociais se verifica com bastante evidência. a diferença de linguagem de um e outro é menos nítida, mas existe. Por exemplo, em
Para exemplificar, vejamos o trabalho de Labov (1966) sobre a emissão da consoante nossa língua, o marido pode dizer "Esta é minha mulher", já a mulher deve evitar a
Ir! pós-vocálica em Nova York, pesquisa que é um marco para a história dessa corrente. frase "Este é o meu homem", que, em determinados contextos, soa vulgar.
Labov pesquisou o referido fenômeno em três lojas de departamento de Nova Pesquisas mostram que as mulheres tendem a usar as formas padrão de uma língua
York: uma freqüentada pela classe alta, outra, pela média e a terceira freqüentada pela com maior freqüência do que os homens. Há muitas tentativas de explicação para a
classe baixa. Induziu os empregados a proferir as palavras fturth (numeral quarto) e diferença, nenhuma totalmente convincente ou suficiente. Segundo alguns estudiosos, isso
floor (piso, andar) como resposta à sua pergunta sobre em que andar se encontrariam se dá porque, dentre outros fatores, da mulher é cobrado um comportamento mais rígido,
produtos quelhe interessavam. Observe-se que a consoante I r! aparece em dois contextos em conformidade com as normas, em todos os sentidos, inclusive no que se refere ao
diferentes: posição pós-vocálica final e posição pós-vocálica não-final. Labov descobriu comportamento lingüístico. Devido a essa cobrança social, a mulher teria uma
que a preservação da vibrante ocorria com maior freqüência na loja da classe alta e média preocupação maior em reproduzir as formas lingüísticas consideradas de prestígio dentro
do que na loja da classe mais baixa, revelando que a pronúncia do Ir! pós-vocálico é de uma comunidade lingüística. Nos estudos efetuados sobre o português do Brasil,
considerada de prestígio. Além disso" o autor - ao comparar o que se verificava com os quando uma variante é estigmatizada e outra é prestigiada, verifica-se a tendência de as
registros sobre o grau de manutenção da vibrante em Nova York em décadas anteriores - mulheres empregarem a variante de prestígio. Quando uma forma nova deixa de ser
concluiu que o Irl estava sendo recuperado na cidade após a Segunda Guerra. estigmatizada, as mulheres utilizam-na geralmente com maior freqüência que os homens.
A situação é diferente do que ocorre no inglês padrão da Inglaterra e de algumas
regiões dos Estados Unidos, locais onde a pronúncia padrão não emite o som
consonantal, ou pelo menos não emitia na época da realização da pesquisa. Dessa
forma, a variação entre a realização e a omissão do Ir! está relacionada com a
Aspectos teórico-metodológicos
comunidade lingüística e a classe social. da sociolingüística
Um outro exemplo para ilustrar a relação entre variação lingüística e classe social é
A pesquisa sociolingüística tem como ponto de partida o objeto de estudo para
o não-uso da desinência -s da terceira pessoa do presente do inglês (He/she/it travels, plays,
daí construir o modelo teórico. O objeto de estudo normalmente se localiza no uso do
s!eeps). Trudgill (1974) compara os resultados de pesquisas realizadas em duas cidades:
vernáculo, ou seja, da língua falada em situações naturais, espontâneas, em que
Norwich, na Inglaterra, e Detroit, nos Estados Unidos. Os resultados demonstram que,
nas duas cidades, a classemédia elimina a marca -s em menos de 10% dos dados, enquanto supostamente o falante se preocupa ~ais co~ q~dize~ do q~le co~~~~~ dizer.
Trabalha-se com o falante-ouvmte real, em sItuaçoes reaISde lmguagem. Busca-
a classe trabalhadora baixa elimina em mais de 70% dos dados (em Norwich, a taxa de
se, através do estudo das manifestações lingüísticas concretas, descrever e explicar o
eliminação do -s chega a quase 100%). Dessa forma, a percentagem média leva a um
fenômeno da linguagem.
modelo previsível, representando toda a comunidade. Assim, por exemplo, se um falante
é da classe trabalhadora baixa provavelmente omitirá a desinência -s. A análise dos fenômenos de mudança lingüística (mais do que de variação)
procura levar em conta cinco grandes dimensões estabelecidas por Weinreich, Labov
Um outro exemplo para ilustrar a relação entre sociedade e linguagem é a diferença
e Herzog, em seu estudo clássico de 1968:
entre os falantes do sexo masculino, de um lado, e os do sexo feminino, de outro. Nas
sociedades em que as funções entre homens e mulheres são muito distintas, os falantes de 1) os fatores universais limitadores da mudança (e variação), que podem ser sociais
um e outro sexo falam dialetos bastante diferenciados, como é o caso de línguas de várias ou lingüísticos;
partes do mundo. Uma das razões desta diferenciação é reportada ao tabu:3 determinadas 2) o encaixamento das mudanças no sistema lingüístico e social da comunidade;
,' , .

150 Manual de lingüística Sociolingüística 151

3) a avaliação das mudanças em termos dos possíveis efeitos sobre a estrutura lingüística prestígio entre classes, sexos e gerações. Mas, para ocorrer a mudança, é necessário
e sobre a eficiência comunicativa; um período de variação entre formas.
4) a transição, momento em que há mudanças intermediárias; A variação estável consiste em diferenças lingüísticas que caracterizam cada
5) a implementação da mudança: estudo dos fatores responsáveis pela implementação grupo social, cada cidade, região, cada canal (oral ou escrito). A variação está presente
de uma determinada mudança; explicação para o fato de a mudança ocorrer numa em todas as línguas num dado momento. Assim, por exemplo, podemos citar a variação
língua e não em outras, ou na mesma língua em outros momentos. entre [IJ] (consoante velar) e [n] (consoante alveolar) para a terminação -illg dos
verbos do inglês (speakingl"falando", walkingl"andando", watchingl"assistindo"), que
O sociolingüista procura recolher um grande número de dados através da
é um caso de variação que permanece estável na língua inglesa há séculos. Essa variação
gravação em fitas magnetofônicas de um número considerável de informantes. Hoje
é determinada pelo grau de escolaridade e pela classe social: falantes com grau alto de
todos os tipos de produção lingüística são gravados. Na busca da fala menos
escolaridade usam a forma padrão [IJ] e falantes com grau baixo de escolaridade e da
monitorada, costuma-se pedir aos informantes para produzirem narrativas de
classe baixa tendem a usar a forma não-padrão [n].
experiência pessoal, para que o envolvimento emocional com o assunto narrado os
Outro exemplo é o caso da alternância [1]vs. [r] dos grupos consonantais do
fizesse produzir um discurso espontâneo, informal.
português: "c[I]aro" ~ "c[r] aro" , "bicic[l]età' ~ "bicic[r]età'. Pesquisas demonstram que
Os informantes escolhidos são aqueles nascidos e criados na comunidade a ser
esse é um caso de variação estável que caracteriza duas comunidades de fala: a forma
estudada ou aqueles que aí vivem desde os 5 anos de idade. O ideal é que se formem células
não-pa~rão [r] é usada pelos falantes das classes menos favorecidas e com baixo grau de
de dados com o mesmo número de informantes: dois sexos (cada qual com o mesmo
escolandade. A outra forma, canônica, é usada pelo grupo mais escolarizado.
número de informantes); três níveis de escolaridade e quatro faixas etárias, por exemplo.
A sistematicidade da linguagem é buscada através do estudo da variação. As À medida que as crianças entram na escola e o seu nível de escol<Jridadesobe,
variantes - entendidas como modos diferentes de dizer a mesma coisa - são concebidas aumenta a ocorrência da forma padrão [I] na sua fala.5 A mudança ocorre quando,
como estando em competição na língua, sendo que o favorecimento de uma sobre após um período de variação de duas ou mais formas, a forma mais nova e de menor
outra ocorre devido a fatores lingüísticos e não-lingüísticos (contexto lingüístico, prestígio se espalha e substitui a forma antes mais usada. Podemos dar como exemplo
classe social, sexo, faixa etária, etc.). a pronúncia 11/ pós-vocálico do português do Brasil, que passou a ser pronunciado
O lingüista busca formular regras variáveis que descrevem e explicam os pesos \ como uma semivogal ( sa[w], pape[w]) em todo o território brasileiro, exceto na
relativos ligados aos fatores associados à ocorrência de duas formas variantes. A regra região Sul (que mantém a consoante).
é variável porque não é categórica, ou seja, não se aplica sempre. Por exemplo, em Ao analisar o momento atual de uma língua, é difícil dizer se um determinado
português a regra que estabelece que o artigo vem antes do substantivo, e não depois, fenômeno lingüístico é um caso de variação estável ou de mudança em curso. Os
é categórica, mas a regra que estabelece a concordância entre o artigo e o substantivo sociolingüistas têm uma metodologia para dizer se uma forma está ou não vencendo
é variável: "as casaslas casà'. outra forma mais antiga. É possível analisar o tempo real ou o tempo aparente. O
Nas décadas de 1960 e 1970, os fatores extralingüísticos da linguagem foram tempo real é observado através da pesquisa de duas ou mais épocas, sendo ideal o
por demais valorizados, mas, a partir da década de 1980, Labov postulou que o estudo de dois momentos que se distanciam no mínimo em 12 anos e no máximo em
aspecto lingüístico deveria ser privilegiado sobre o social. A variação é reconhecida. 50 anos. O lingüista pode gravar informantes e revisitá-los anos mais tarde para ver
como existindo dentro do sistema lingüístico. A teoria recebeu reformulações, I
como é o comportamento de determinadas variáveis, como concordância nominal,
reduzindo o peso d~ .social pa~a destacar as moti~ações es~encialmente lingüísticas. i;\ I ~~,ciJ,\ concordância "verbal, uso de pronomes, pronúncia do Ir! final, etc. Pode também
Os resultados da anahse de vanantes podem definu duas sItuações: ..I(,"",~~v,,\c7')/,.JI.' comparar gravações de entrevistas atuais com entrevistas dadas em rádio há várias
V~rr
("
.I. I~ / (lJ' ti
.fi CJ •... décadas. Pode comparar dados de textos antigos, observar atlas lingüísticos, estudar
a) a existência de estabilidade entre variantes;
b) a competição entre as variantes com aumento de uso de uma das variantes.
< ,.u')-' I fi I
''lV1Jr Q,..,r'r'í
(",' . "iY/)'
I as descrições feitas por outros lingüistas ou gramáticos. Ele terá, assim, diversos meios
de verificar se duas formas estão em variação ou se são um caso de mudança.
No primeiro caso, diz-se que ocorre variação e no segundo, mudança em curso: !,,"'. Muito comum também é a técnica de estudo do tempo aparente: o lingüista grava
A variação é facilmente detectada, pois para ela ocorrer é necessário simplesmente o amostras de informantes de diferentes faixasetárias para observar se uma dada forma ocorre
favorecimento do ambiente lingüístico. Para ocorrer uma mudança lingüística, no mais na fala de crianças e jovens do que na de adultos e idosos. Um uso muito elevado de
entanto, é necessária a interferência de fatores sociais, refletindo as lutas pelo poder, o ocorrência da forma nova na fala de jovens pode indicar mudança em curso.
152 Manual de lingüística Sociolingüística 153

Outros fatores devem ser somados à faixa etária para dar mais certeza ao já implementadas na fala, mas que ainda não são aceitas nas gramáticas normativas.
pesquisador. A escolaridade, por exemplo, é um importante fator: quando falantes. Com isso, a área da educação se enriquece com as informações que podem ser usadas
mais cultos estão usando uma forma que anteriormente não tinha prestígio, isso também no ensino da língua culta, que passa a ser baseada em dados reais.
significa que ela deixou de ser estigmatizada e passou a ser normal dentro da No que se refere ao ensino de línguas estrangeiras, as pesquisas acerca da variação
comunidade de fala de pessoas escolarizadas, o que pode significar mudança, ou seja, podem contribuir para fornecer material para que as aulas sejam baseadas na forma
substituição de uma forma mais antiga pela forma nova. como realmente os nativos falam, na preparação de material com diversos tipos de
Vemos que a sociolingüística não trabalha com a idéia de se separar a sincronia registros com as suas variações lingüísticas típicas, na escolha do dialeto a ser ensinado,
da diacronia, como era normal na metodologia estruturalista. Ao analisar um dentre outros elementos.
determinado momento, é possível verificar aspectos relativos à mudança da língua Os pressupostos teórico-metodológicos da sociolingüística são trabalhados em
quando, por exemplo, se compara a fala de jovens e adultos de mais de 40 anos. O diversos centros de pesquisa no mundo. No Brasil, as pesquisas nessa linha começaram
lingüista está também estudando a sincronia porque jovens e adultos realizam a língua a ser desenvolvidas na década de 1970, através da atuação de alguns grupos de
num dado recorte do tempo. Portanto, a sociolingüística tanto descreve o que ocorre pesquisadores, a saber: o grupo do projeto Mobral Central, o grupo do projeto da
nas diferentes comunidades de fala, tendo em vista diferentes fatores lingüísticos e Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro (Nurc) e o do projeto Censo da Variação
extralingüísticos, como dá explicações relativas às tendências de mudanças. Lingüística no Estado do Rio de Janeiro (Censo), tendo como coordenadores os
Essa corrente trabalha com dados estatísticos, mas os números são apenas o professores Miriam Lemle, Celso Cunha e Anthony Naro, respectivamente. A partir
ponto de partida para o lingüista fazer as suas análises. Só ele pode chegar a conclusões daquela década, muitos trabalhos foram realizados nessa linha.
sobre os fatores que motivam ou desfavorecem uma variante. Ele seleciona os fatores Hoje, em várias universidades brasileiras, há grupos que seguem os pressupostos
importantes a partir de sua experiência, de seu conhecimento sobre a teoria e sobre o téorico-metodológicos da sociolingüística, como o Programa de Estudos sobre o Uso
fenômeno em questão e de sua intuição. Depois, de acordo com os resultados da Língua (Peul), continuidade do Projeto Censo, o próprio Nurc - na Universidade
preliminares de sua pesquisa, fará os cruzamentos de fatores, como, por exemplo, (a) Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); o projeto de Variação Lingüística da Região Sul do
a forma "a gente" e o grau de formalidade do verbo, e (b) a forma "a gente", o grau de Brasil (Varsul) - na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e na Universidade
formalidade do verbo e o fator idade. Os dados estatísticos servem para comprovar, Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Diversas teses foram defendidas com o objetivo
refutar e reconstruir hipóteses a partir do olhar treinado do lingüista. de. descrever as formas variantes do português do Brasil e de explicar os fatores
Para aprimorar as análises com um número grande de dados e de fatores, lingüísticos e extralingüísticos que favorecem/desfavorecem as variantes lingüísticas.
houve um grande desenvolvimento de programas computacionais para essa área. Muitos projetos buscam novas alternativas para explicar a variação e a mudança,
a partir de outras áreas da lingüística como o funcionalismo. Por outro lado, há
grupos funcionalistas que aproveitam o aparato teórico-metodológico da
Expansão da sociolingüística sociolingüística para preparar o corpus e para coletar e analisar os dados, como é o
Além de contribuir para a descrição e explicação de fenômenos lingüísticos, a caso do projeto Discurso & Gramática, iniciado pelo professor Sebastião Votre na
sociolingüística também fornece subsídios para a área do ensino de línguas. Os UFRJ e que hoje conta com representantes em diversas universidades do Brasil.
sociolingüistas postulam que os dialetos das classes desfavorecidas não são inferiores,
insuficientes ou corrompidos. Afirmam que esses dialetos são estruturados com base
em regras gramaticais, muitas das quais diferentes das regras do dialeto padrão. Dessa Exercícios
forma, a sociolingüística cria nos (futuros) professores uma visão menos preconceituosa
1) Caracterize a área de estudos denominada de sociolingüística.
e incentiva-os a valorizar todos os dialetos e a mostrar à criança que o dialeto culto é
2) Quais são os três tipos básicos de variação lingüística? Cite exemplos no nível fonético-fonológico.
considerado melhor socialmente, mas que estrutural e funcionalmente não é nem
3) Cite algumas variáveis lingüísticas e extralingüísticas que podem explicar o uso das variantes do
melhor nem pior que o dialeto da comunidade do aluno.
fonema Irl em português em posição pós-vocálica (final de sílaba).
A sociolingüística, com suas pesquisas baseadas na produção real dos indivíduos,
4) Cite um exemplo em que fique claro que há uma relação intrínseca entre língua e sociedade.
dá-nos informações detalhadas acerca da variante produzida pelas pessoas mais 5) Diferencie variação estável de mudança em curso. Que recursos metodológicos o lingüista pode
es~olarizadas, sobre as variantes que deixaram de ser estigmatizadas, e das mudanças utilizar para afirmar se um fenômeno lingüístico é caso de mudança em curso?
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154 Manual de lingüístico Soclolingüística 155

6) Qual o papel da variável gênero (sexo) na merodologia sociovariacionista? só não contava com a janela fechada. Foi uma vergonha, quando todos viraram para frente e
7) Para se estudar a mudança lingüística, o pesquisador pode fazer um estudo em tempo real ou em viram a janela suja de gordura e o bife no chão, o Ricardo só quis abrir um buraco no chão e se enfiar.
tempo aparente. Qual a diferença entre os dois métodos de pesquisa? Não sei se foi por isso, mas o Ricardo não se casou com a Roberta.
8) Cite alguns grupos de pesquisa que fazem estudos sociovariacionistas no Brasil. (Corpus Discurso & Gramática, RJ)
9) Compare os contexros fonéticos em que ocorrem os sons [t] (som alveolar) e [tf] (som africado) no
Rio de Janeiro. Qual a regra que descreve a variação entre o som alveolar e o africado nessa cidade?
Observe nos exemplos a seguir que o mesmo tipo de variação também ocorre em [d] e [d3].
time ['tSimi]
Notas
tero ['tetu] I Cf. Paredes da Silva, 1988 e Cezario, 1994.
rolo ['tolu] 2 Cada exemplo ocorre em vários estados da federação. Os mencionados são apenas para figurar como ilustração.
tive ['tSivi] 3 Segundo Trudgil/ (I974), na língua o tabu está associado às coisas que não são ditas e às palavras que não devem ser
usadas. O tabu pode estar associado ao sagrado ou às coisas proibidas.
tudo ['tudu]
• Cf. Guérrios, 197~, p. 33.
dito ['d3itu]
, Cf. Mol/ica, 1987 e Cezario, 1991.
dedo ['dedu]
adiado [ad3i'adu]
10) Compare a produção oral com a escrita de um mesmo informante (Valéria, nível superior incomplero).
Apresente algumas das diferenças entre as duas modalidades (variação de registro).
FALA
E: eh:: e::... agora eu queria que você me contasse uma história ... que tenha acontecido com
alguém algum amigo seu ... seu pai ... seu irmão que você não estivesse presente ... alguém te
contou e que você achou a história engraçada [ou triste ou!]
I: [ahn ahn] ... ah:: ... essa eu... eu me lembro sim ... achei tão engraçada ... foi um ami! um
no i! não ... um amigo de um amigo meu ... que foi jantar na casa da noiva ... aquele jantar
assim ... primeira vez e tal oficializar o noiva::do aí ele:: ... estava jantando e tal ... ele ... ele já
não gosta muiro de bife de carne ... ai estava lá não conseguia partir o bife de jeiro nenhum
e tal... aí ele chamou a atenção do pessoal ... pra uma outra coisa ... entendeu? apontou assim pro
outro lado da mesa ... e ele viu que tinha uma janela atrás «riso de E» ele pegou o bife e tacou
«riso» mas ele não reparou muito ... a janela estava fechada ... «riso)) sério ... O bife saiu ...
bateu na janela ... e começou a escorrer ... grudou ... eSCOrreu... quando eu (ouvi) ele contando
aquilo ... cara ... eu dei! muiro ... foi muito engraçado ele contando ... ele contando o que aconteceu
com ele ... cara ... foi muito engraçado ...
E: e ninguém viu que o bife!
I: não ... aí depois todo mundo olhou ... ele viu que o bife! o bife ali... a família roda sem graça
«risos» aí (é) o fim da história ...
E: e ele casou com a menina ou naquele dia acabou?
I: não ... não casou ... não chegou a casar com essa não... foi casar com uma outra «riso))

ESCRITA
Um conhecido meu foi jantar na casa da noiva, era o primeiro jantar com a família
toda reunida, foi servido bife, sendo que o Ricardo não gostava muito de carne e ainda por
cima o bife estava <iuro, que mal dava para partir.
Atrás dó Ricardo havia uma janela, aproveitando a oportunidade em que todos olhavam
em sentido oposro, não pensou duas vezes, fincou o garfo no bife e o arremessou para trás, ele
r

Funcionalismo
Angélica Furtado dtz Cunha

o funcionalismo é uma corrente lingüística que, em oposição ao estruturalismo


e ao gerativismo, I se preocupa em estudar a relação entre a estrutura gramatical das
línguas e os diferentes contextos comunicativos em que elas são usadas. Assim, a
abordagem funcionalista apresenta não apenas propostas teóricas distintas acerca da
natureza geral da linguagem, mas diferentes concepções no que diz respeito aos objetivos
da análise lingüística, aos métodos nela utilizados e ao tipo dos dados utilizados
como evidência empírica.
Os funcionalistas concebem a linguagem como um instrumento de interação
social, alinhando-se, assim, à tendência que analisa a relação entre linguagem e sociedade.
Seu interesse de investigação lingüística vai além da estrutura gramatical, buscando na
situação comunicativa - que .envolve os interlocutores, seus propósitos e o contexto
discursivo - a motivação para os fatos da língua. A abordagem funcionalista procura
explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua, analisando as condições
discursivas em que se verifica esse uso. Para compreender isso melhor, vejamos dois
exemplos que refletem um fenômeno relativamente comum no nosso dia-a-dia:

a) Você é desonesto.
b) Desonesto é você.

Como explicar a diferença entre essas duas sentenças? Certamente, uma análise
que observasse apenas seu caráter sintático não daria conta de indicar por que o
falante usaria a sentença exemplificada em (a), em lugar da exemplificada em (b).
Ocorre que, ao contrário do que acontece em (a), que constitui uma afirmativa, a
sentença (b) está relacionada a uma situação comunicativa típica de réplica, marcada
pela inversão do predicado desonesto, que vai para o início da frase. Isso significa que
essa sentença só faz sentido em um contexto em que o interlocutor tenha feito
158 Manual de lingüística Funcionalismo 159

anteriormente o mesmo insulto. Esse exemplo demonstra a essência da análise organização interna do sistema lingüístico (como na fonologia de Praga, por exemplo),
funcionalista, que amplia seu campo de visão, recorrendo ao contexto de uso o qual, a modelos mais recentes, que consideram as funções que a linguagem pode
por hipótese, motiva as diferentes estruturas sintáticas. desempenhar nas situações comunicativas, dando maior ou menor peso aos aspectos
Ou seja, na análise de cunho funcionalista, os enunciados e os textos são cognitivos relacionados à comunicação.
relacionados às funções que eles desempenham na comunicação interpessoal. Ou É costume distinguir as análises na linha funcionalista com base no grau em
seja, o funcionalismo procura essencialmente trabalhar com dados reais de fala ou que se considera o condicionamento do sistema lingüístico pelas funções externas. A
escrita retirados de contextos efetivos de comunicação, evitando lidar com frases postura mais radical propõe que as funções externas (tais como os propósitos
inventadas, dissociadas de sua função no ato da comunicação. É a universalidade dos comunicativos dos interlocutores) definem as categorias gramaticais, de modo que
usos a que a linguagem serve nas sociedades humanas que explica a existência dos não seria necessário postular categorias autônomas e independentes. Em outras palavras,
universais lingüísticos,2 em contraposição à postura gerativista, que considera que os não existiria o nível estrutural chamado sintaxe: a língua poderia ser descrita unicamente
universais derivam de uma herança lingüística genética comum à espécie humana. com base nos princípios comunicativos.
Funcionalistas e gerativistas divergem também com relação ao processo de aquisição Nessa linha, inserem-se o trabalho de Ou Bois (1985) sobre a estrutura dos
da linguagem. Os funcionalistas tendem a explicá-lo em termos do desenvolvimento das argumentos preferida em uma dada língua e o trabalho de Hopper & Thompson
necessidades e habilidades comunicativas da criança na sociedade. A criança é dotada de (1980), que trata a transitividade como uma categoria que deriva do discurso.
uma capacidade cognitiva3 rica que torna possível a aprendizagem da linguagem, assim Uma postura mais moderada admite uma interação entre forma e função, de
como outros tipos de aprendizagem. É com base nos dados lingüísticos a que é exposta em modo que as funções externas atuariam concomitantemente com a organização formal
situação de interação com os membros de sua comunidade de fala que a criança constrói a inerente ao sistema lingüístico, influenciando-a em certos pontos, sem fundamental-
gramática da sua língua. Os gerativistas, por outro lado, explicam a aquisição da linguagem mente definir suas categorias básicas. Servem como exemplo dessa postura mais
em termos de uma capacidade humana específica para a aprendizagem da língua. moderada o funcionalismo de Oik e de Halliday, que, reconhecendo a inadequação
Ao mencionarmos a idéia de uma capacidade cognitiva rica, frisamos mais do formalismo, propõem a incorporação da semântica e da pragmática4 à análise
uma importante característica do funcionalismo: a visão de que a linguagem não sintática. Vejamos mais detalhadamente alguns desses diferentes modelos funcionalistas.
constitui um conhecimento específico, como propõem os gerativistas, mas um conjunto
complexo de atividades comunicativas, sociais e cognitivas integradas ao resto da
psicologia humana. Assim, a visão funcionalista de cognição assume que a linguagem
reflete processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem
o funcionalismo europeu
significados, adaptando-os a diferentes situações de interação com outros indivíduos. Embora freqüentemente contrastado ao estruturalismo, o funcionalismo surge
Ou seja, os conceitos humanos associam-se à época, à cultura e até mesmo a inclinações como um movimento particular dentro do estruturalismo, enfatizando a função das
individuais caracterizadas no uso da linguagem. unidades lingüísticas: na fonologia, o papel dos fonemas (segmentais e supra-
Resumindo o que foi visto até aqui, o modelo funcionalista de análise lingüística segmentais) na distinção e demarcação das palavras; na sintaxe, o papel da estrutura
caracteriza-se por duas propostas básicas:
I, da sentença no contexto. Atribui-se aos membros da Escola de Praga, que se originou
no Círculo Lingüístico de Praga fundado em 1926 pelo lingüista tcheco Vilém
a) a língua desempenha funções que são externas ao sistema lingüístico em si;
Mathesius, as primeiras análises na linha funcionalista. Com relação ao ponto de
b) as funções externas influenciam a organização interna do sistema lingüístico.
vista saussuriano, esses lingüistas se opunham à distinção nítida entre sincronia e
Sendo assim, a língua não constitui um conhecimento autônomo, independente diacronia, assim como à noção de homogeneidade do sistema lingüístico. Sua
do comportamento social, ao contrário, reflete uma adaptação, pelo falante, às contribuição pode ser sintetizada no uso dos termos função/funcional, no
diferentes situações comunicativas. estabelecimento dos fundamentos teóricos básicos do funcionalismo e nas análises
. Por um lado, essas propostas opõem o funcionalismo às abordagens que não se que levam em conta parâmetros pragmáticos e discursivos.
Interessam pela atuação de fenômenos externos à estrutura das línguas (como o Foi na área dos estudos fonológicos, principalmente, que a Escola de Praga
estruturalismo e ogerativismo); por outro lado, elas contrastam diferentes visões obteve maior projeção. Entre os seus principais representantes, destacam-se Nikolaj
funcionalistas, opondo modelos mais antigos, que focalizam as funções associadas à Trubetzkoy e Roman Jakobson, ambos de origem russa. Os trabalhos de Trubetzkoy
160 Manual de lingüística Funcionalismo 161

lançaram os fundamentos para o desenvolvimento da fonologia de um modo geral. Podemos tratar esses enunciados como sentenças diferentes com base nas
Deve-se a ele a teoria estruturalista do fonema, a noção de contraste funcional utilizada diferenças na ordenação dos seus elementos, ou podemos tratá-los como versões
na distinção entre fonética e fonologia, a teoria dos sistemas fonológicos desenvolvida alternativas de dizer a mesma sentença, já que transmitem o mesmo conteúdo
com Jakobson e o conceito de traços distintivos, mais tarde incorporado à teoria da semântico ou a mesma informação. Temos aqui um problema semelhante ao que
fonologia gerativa, em 1960, por Chomsky e Halle, discípulo e colaborador de Jakobson. apresentamos no exemplo anterior: como justificar o uso de uma ou outra dessas
De acordo com a fonologia desenvolvida em Praga, os fonemas, definidos como sentenças em um determinado contexto?
elementos mínimos do sistema lingüístico, não são elementos mínimos em si, mas feixes Se considerarmos, como costumam fazer os funcionalistas, que a organização
ou conjuntos de traços distintivos simultâneos. Por exemplo, o fonema Ipi é constituído sintática da cláusula é motivada pelo contexto discursivo em que esta ocorre, não podemos
dos traços: oclusivo, bilabial, surdo; enquanto o fonema Ibl reúne os traços; oclusivo, dizer que (a) e (b) seriam empregadas na mesma situação de comunicação. Ou seja,
bilabial, sonoro. Logo, Ipi e Ibl diferem quanto à sonoridade, e é essetraço [+ ou - sonoro] embora essas cláusulas pareçam equivalentes do ponto de vista semântico, elas diferem
que distingue pares mínimos, como as palavras "pata" e "bata' ou "pico" e "bico". do ponto de vista pragmático. Essa diferença pragmática está relacionada ao status
Além da função distintiva, Trubetzkoy e seus seguidores estabeleceram também informacional dos elementos que compõem a cláusula: nos exemplos em questão, é
a função demarcadora e a função expressiva dos fonemas. A função demarcadora interessante o fato de "esse livro" ter ou não sido mencionado anteriormente, ou seja,
serve para marcar a fronteira entre uma forma e outra na cadeia da fala. O acento constituir ou não informação nova para o interlocutor. No caso do exemplo (b), o termo
tônico das palavras, por exemplo, tem uma função demarcadora importante no "esse livro" já foi mencionado, apresentando status de informação dada (ou informação
português, como em "fábrica" (substantivo) e "fabrica" (verbo). A função expressiva velha), o que motiva sua colocação no início da sentença. Questões dessa ordem estão
de um traço fonológico indica o estado de espírito do falante, seus sentimentos ou diretamente envolvidas no papel funcional da sentença, tal como sugerido por Mathesius.
sua atitude, como, por exemplo, a pronúncia enfática de uma palavra, com o Seguindo a tradição da Escola de Praga, Jan Firbas desenvolveu, no começo da
alongamento da vogal (lliiiiindo(). década de 1960, um modelo da estrutura informacional da sentença que buscava
Jakobson, por sua vez, é responsável pela introdução do conceito de marcação analisar sentenças efetivamente enunciadas para determinar sua função comunicativa.
na morfologia. Aplicado primeiramente na fonologia, o princípio de marcação Nesse modelo, a parte da sentença que representa informação dada, ou já conhecida
estabelece a distinção entre categorias marcadas e categorias não-marcadas, em um pelo ouvinte, tem o menor grau de dinamismo comunicativo, ou seja, a quantidade
contraste binário. Por exemplo, a oposição entre Ipi e Ibl, vista anteriormente, se dá de informação que ela comunica aos interlocutores no contexto é a menor possível.
através do traço sonoridade. Quanto a esse traço, então, Ibl, que se caracteriza pelo Essa parte é denominada tema. A parte que contem a informação nova apresenta o
traço [+ sonoro], é marcado, já Ipi, caracterizado pelo traço [- sonoro), é não-marcado. grau máximo de dinamismo e forma o rema. Suponhamos o seguinte diálogo:
Na morfologia, com relação à categoria de número, a forma "meninos" [+ plural] é
A: O que Maria comprou?
marcada em oposição a "menino" [- plural], forma não-marcada. As idéias de Jakobson
B: Maria comprou uma bolsa preta.
extrapolaram a lingüística, refletindo-se nas áreas da poesia e da antropologia.
Os lingüistas da Escola de Praga estenderam o funcionalismo para além da Nesse contexto, "Maria comprou" é o tema e "uma bolsa preta" é o rema.
fonologia. Com relação à estrutura gramatical das línguas, Mathesius antecipou uma Como mencionamos anteriormente, a tendência geral é que as partes que contêm o
concepção funcional da sentença, que deu origem, mais tarde, à teoria da perspectiva menor grau de dinamismo comunicativo tendem a vir no início da sentença, enquanto
funcional da sentença, um tipo de análise em termos da informação transmitida pela as partes com o grau mais alto vêm por último.
organização das palavras. O conceito de informação, tal como é usado na lingüística, Em oposição à corrente lingüística que focalizava o estudo da linguagem enquanto
é definido como um processo de interação entre o que já é conhecido ou predizível e expressão do pensamento, os funcionalistas de Praga enfatizaram o caráter multifuncional
o que é novo ou imprevisto (Halliday, 1985). A categoria perspectiva dá conta do da linguagem, ressaltando a importância das funções expressiva e conotativa, entre outras,
Contraste entre sentenças sintaticamente distintas que descrevem o mesmo estado de além da referencial (ver o capítulo "Funções da linguagem"). A influência da Escola de
coisas. Vejamos dois enunciados como os apresentados abaixo: Praga foi duradoura e profunda. As idéias originadas nesse período são a fonte para
diversos trabalhos posteriores, principalmente de Roman Jakobson e André Martinet,
a) Eu já li esse livro. considerados os dois divulgadores mais importantes do pensamento lingüístico
b) Esse livro eu já li. internacional da Escola de Praga. Dentre as principais contribuições dessa escola estão
162 Manual de lingüístico Funcionalismo 163

a distinção entre as análises fonética e fonológica dos sons, a análise dos fonemas em (responsáveis pelos modelos de interação verbal em que as estruturas lingüísticas são
traços distintivos e as noções correlatas de binário e marcado. usadas). Dik trabalha com uma concepção teleológica de linguagem. Para ele, o principal
O funcionalismo também se faz representar em algumas outras correntes interesse de uma lingüística funcionalista está nos processos relacionados ao êxito dos
lingüÍsticas pós-saussurianas da Europa no século xx. Saussure influenciou mais de perto falantes ao se comunicarem por meio de expressões lingüísticas.s
a chamada Escola de Genebra, cujos principais representantes são Charles Bally,Albert
Sechehaye e Henri Frei. Enquanto Sechehaye limitou-se basicamente a discutir as idéias
de Saussure, Bally, interessado na relação entre o pensamento e sua expressão lingüística,
deu novo impulso à estilística, que definiu como o estudo dos elementos afetivos da
o funcionalismo norte-americano
linguagem. Concentrou sua atenção nos desvios que o uso individual (a fala) é levado A partir do estruturalismo, a lingüística norte-americana foi dominada por
a impor ao sistema (a língua). Essa proposta baseia-se no fato de que não há separação uma tendência formalista que se enraizou com Leonard Bloomfield e se mantém até
intransponível entre esses dois aspectos da linguagem -língua e fala -, posição teórica hoje com a lingüística gerativa. Entretanto, paralelamente foi se desenvolvendo uma
por definição funcionalista. Por sua vez, Frei notabilizou-se por sua análise referente aos tendência para o funcionalismo sob influência dos trabalhos de etnolingüistas, como
desvios da gramática normativa, que, segundo sua proposta, não são fortuitos, mas Fram Boas, Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf.
refletem tendências resultantes da necessidade de comunicação e constituem, portanto, Dwight Bolinger é freqüentemente apontado como um dos precursores da
uma rica fonte de estudos lingüísticos. Frei se fez o promotor da lingüística de base abordagem funcionalista norte-americana. Ainda durante o predomínio das teorias
funcional, que associa os fatos lingüísticos a determinadas funções a eles relacionadas. formais, Bolinger chamava a atenção para o fato de que fatores pragmáticos operavam
Essa influência chegou até Martinet, que manteve freqüente contato com os principais em determinados fenômenos lingüísticos estudados pelos estruturalistas e gerativistas.
lingüistas de Praga, sobretudo com Trubetzkoy, por quem foi bastante influenciado. Embora não tenha avançado um esboço completo de uma gramática funcionalista,
Outra manifestação funcionalista podemos ver na Escola de Londres, sobretudo, Bolinger impulsionou o funcionalismo com suas análises de fenômenos particulares,
através das idéias de Michael K. Halliday. A teoria funcional de Halliday, que surge em especial seu estudo pioneiro sobre a pragmática da ordenação das palavras na cláusula.
na década de 1970, está centrada em um conceito amplo de função, que inclui tanto Em contraposição à postura estruturalista, que enfatiza o princípio da
as funções de enunciados e textos quanto as funções de unidades dentro de uma arbitrariedade, a questão da iconicidade, que prediz uma correlação direta entre um
estrutura. Apoiado na tradição ernográfica de Boas-Sapir-Whorf e de Bronislav conceito e sua representação lingüística, volta a atrair o interesse dos lingüistas, em
Malinowski, Halliday defende a tese de que a natureza da linguagem, enquanto sistema especial a partir da década de 1960, quando o foco da atenção recai sobre os estudos
semiótico, e seu desenvolvimento em cada indivíduo devem ser estudados no contexto tipo lógicos e os universais lingüísticos. Essa área de investigação foi enfatizada
dos papéis sociais que os indivíduos desempenham. A postura de Halliday reflete sobretudo pelos crioulistas6 e pelo lingüista Joseph Greenberg (1966), interessado na
também a influência do lingüista inglês John Firth, para quem a linguagem deve ser variação tipológica entre as línguas.
considerada parte de um processo social. É por volta de 1975 que as análises lingüísticas explicitamente classificadas
A tendência de analisar a língua de um ponto de vista funcional está também como funcionalistas começam a proliferar na literatura norte-americana. Essa corrente
presente no chamado grupo holandês. No final da década de 1970, o lingüista holandês surge como reação às impropriedades constatadas nos estudos de cunho estritamente
Simon Dik e seus seguidores desenvolveram um modelo de sintaxe funcional em que as formal, ou seja, nas pesquisas estruturalistas e gerativistas. Os funcionalistas norte-
funções em uma sentença são analisadas em três níveisdistintos. Tomemos, como exemplo, americanos advogam que uma dada estrutura da língua não pode ser proveitosamente
a sentença "João chegou cedo". "João" desempenha a função sintática de sujeito, a função estudada, descrita ou explicada sem referência à sua função comunicativa, o que,
semântica de agente e a função pragmática de tema. Primeiro as funções semânticas são aliás, caracteriza todos os funcionalismos até aqui mencionados.
associadas com os predicados no léxico (por exemplo, agente + "chegar"), e o núcleo de Diferentemente das teorias formais, o funcionalismo pretende explicar a língua com
uma sentença (no nosso exemplo, "João chegou') pode ser ampliado por satélites ("cedo", base no contexto lingüístico e na situação extralingüística. De acordo com essaconcepção,
nesse caso). As funções sintáticas são então relacionadas aos seus elementos e, por último, a sintaxe é uma estrutura em constante mutação em conseqüência das vicissitudes do
às funções pragmáticas. A lingüística, portanto, tem que tratar de dois tipos de sistemas de discurso, ao qual se molda. Ou seja, há uma forte vinculação entre discurso e gramática: a
regras:de um lado, as regrassemânticas, sintáticas, morfológicas e fonológicas (responsáveis sintaxe tem a forma que tem em razão das estratégias de organização da informação
pela constituição das estruturas lingüísticas), de outro lado, as regras pragmáticas empregadas pelos falantes no momento da interação discursiva.
164 Manual de lingüística Funcionalismo 165

Dessa maneira, para compreender o fenômeno sintático, seria preciso estudar a Além desses autores, há um grupo de funcionalistas europeus na Alemanha
língua em uso em seus contextos discursivos específicos,pois é neste espaço que a gramática que trabalha com questões de mudança lingüística, gramaticalização e empréstimo e
é constituída. Em termos funcionalistas, essa concepção de sintaxe corresponde às noções segue um modelo semelhante ao dos lingüistas norte-americanos. Esse grupo reúne,
de "gramática emergente" (Hopper, 1998) ou "sistema adaptativo" (Ou Bois, 1985). entre outros, Bernd Heine, na universidade de Colônia, Tânia Kuteva em Dusseldorf.
Considerar a gramática como um organismo maleável, que se adapta às Vale destacar a recente aproximação entre a lingüística funcional e a lingüística
necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes, implica reconhecer que a cognitiva, representada por antigos gerativistas, como Ronald Langacker (1991),
gramática de qualquer língua exibe padrões morfossintáticos estáveis, sistematizados George Lakoff (1987), e ainda por psicolingüistas, como Michael Tomasello (1999)
pelo uso, ao lado de mecanismos de codificação emergentes. Em outras palavras, as e John Taylor (1995), que também rejeitam a tese da autonomia da sintaxe, proposta
regras da gramática são modificadas pelo uso (isto é, as línguas variam e mudam), e, pela gramática gerativa, e propõem a incorporação das dimensões sociais e cognitivas
portanto, é necessário observar a língua como ela é falada. Nesse sentido, a análise nos estudos lingüísticos.
dos processos de variação e mudança lingüística constitui uma das áreas de interesse No panorama brasileiro, os estudos de cunho funcionalista ganham impulso a
privilegiado da lingüística funcional. partir da década de 1980 com a constituição de grupos de pesquisadores que propõem
O texto considerado pioneiro no desenvolvimento das idéias da escola fatores de natureza comunicativa e cognitiva para interpretar o funcionamento de
tópicos morfossintáticos em textos falados e escritos. Aqui também se acha refletida a
funcionalista norte-americana é The Origins o/Syntax in Discourse, publicado por
diversidade de orientações teóricas de base funcionalista, e os pesquisadores costumam
Gillian Sankoff e Penelope Brown em 1976. Nesse trabalho, as autoras fornecem
combinar diferentes perspectivas em suas análises.
evidências das motivações discursivas geradoras das estruturas sintáticas do tok pisin,
Em trabalho pioneiro, Rodolfo Ilari publicou, em 1987, Perspectivafitnciona!
língua de origem pidgin de Papua-Nova Guiné, ilha ao norte da Austrália.
dafase portuguesa, que trata do dinamismo comunicativo em termos de tema e rema,
Em 1979, Talmy Givón, influenciado pelas descobertas de Sankoff e Brown,
na linha dos estudos da Escola de Praga.
publica From Discourse to Syntax, texto explicitamente antigerativista, que afirma
Entre os grupos constituídos, destacam-se os pesquisadores do Projeto Norma
que a sintaxe existe para desempenhar uma certa função, e é essa função que determina
Urbana Culta, que abrange várias capitais do país, do Projeto de Estudo do Uso da
a sua maneira de ser. Os trabalhos de Givón (1984, 1990, 1995,2001, entre outros)
Língua da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Peul-uFR]) e do Grupo de Estudos
se caracterizam pela busca de parâmetros substantivos, isto é, motivados comunicativa
Discurso & Gramática, sediado em várias universidades (Universidade Federal do
ou cognitivamente, para a explicação de fatos gramaticais.
Rio de Janeiro, Universidade Federal Fluminense, Universidade do Estado do Rio de
Se ainda não há uma teoria gramatical funcionalista completa e unificada, há
Janeiro, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Federal do
uma quantidade expressiva de análises funcionalistas, sobretudo do inglês. Alguns
Rio Grande do Norte).
lingüistas norte-americanos, como Givón, Sandra Thompson e Paul Hopper,
O Peul tem formação sociolingüística: seus trabalhos focalizam a variação
sobressaem pelos seus estudos individuais.
lingüística sob a perspectiva da função discursiva das variantes selecionadas, de acordo
Sozinha ou em co-autoria, Thompson produziu alguns trabalhos considerados com o quadro do funcionalismo norte-americano. Destaca-se, nesse grupo, a
marcos na análise funcionalista. Entre esses,podemos destacar seu estudo sobre aspassivas participação de Anthony Julius Naro, que em parceria com Sebastião Votre publicou
em inglês, em que Thompson observa que a ocorrência de uma cláusula passiva em inglês vários artigos seguindo a orientação de Givón.
é motivada por dois fatores pragmáticos distintos: um deles prediz uma passiva sem O Grupo de Estudos Discurso & Gramática, criado por Sebastião Votre, também
agente e o outro, uma passiva com agente. Em Transitivity in grammar and discourse trabalha com os pressupostos do funcionalismo norte-americano, tendo como foco central
(1980), em co-autoria com Paul Hopper, os autores reinterpretam o conceito tradicional de interesse o estudo dos processos de gramaticalização. Os resultados de suas pesquisas
de transitividade como uma propriedade escalar constituída de dez parâmetros sintático- podem ser vistos em Manelona, Votre e Cezario (1996), Rios de Oliveira (1998), Furtado
semânticos independentes e co-variantes. De acordo com a presença ou ausência desses da Cunha (2000) e Furtado da Cunha, Rios de Oliveira e Martelona (2003).
parâmetros, a cláusula pode ser mais ou menos transitiva. O complexo de transitividade Dentre os princípios e as categorias centrais dessa corrente funcionalista estão:
e seus parâmetros individuais se associam a uma função discursivo-comunicativa: a de informatividade, iconicidade, marcação, transitividade e plano discursivo e
assinalar as porções centrais e periféricas de um texto narrativo. Fatores discursivos, gramaticalização. Nesse quadro, os processos de gramaticalização e discursivização
portanto, interferem na codificação da transitividade, como veremos adiante. constituem pontos privilegiados de investigação.
166 Manual de lingüística Funcionalismo 167

Informatividade Nesse caso, o referente "o motorista" não foi mencionado, não constituindo
O princípio de informatividade focaliza o conhecimento que os interlocutores informação dada (ou velha). Entretanto, como um ônibus implica a existência de um
compartilham, ou supõem que compartilham, na interação verbal. De um modo motorista, o ouvinte não tem problemas em identificar essa informação, que, por isso,
geral, a aplicação desse princípio se tem voltado para o exame do status informacional também não pode ser classificada como nova. Temos aí um caso de referente inferível.
dos referentes nominais. Desse modo, um sintagma nominal pode ser classificado O status informacional dos elementos lingüísticos é importante no sentido de
como dado, novo, disponível e inferível. que interfere, por exemplo, na ordenação que eles assumem na cláusula, como veremos
Um referente pode ser dado, ou velho, se já tiver ocorrido no texto (referente a seguir no conceito de iconicidade.
textualmente dado) ou se estiver disponível na situação de fala (referente situacionalmente
dado), como os próprios participantes do discurso: falante e ouvinte. Vejamos os dois
casos respectivos nos exemplos seguintes, retirados do corpus Discurso & Gramática:7
Iconicidade
a) aí o mecânico falou que ... (0) não sabia qual o homem que tinha apertado O princípio de iconicidade é definido como a correlação natural e motivada
aquilo ((riso)) entre forma e função, isto é, entre o código lingüístico (expressão) e seu significado
b) E: e:: agora eu queria que você me ... me dissesse... alguma coisa que (conteúdo). Os lingüistas funcionais defendem a idéia de que a estrutura da língua
você sabe fazer... ou que você... goste de fazer... e como é que se faz isso... reflete, de algum modo, a estrutura da experiência. Como a linguagem é uma faculdade
No exemplo (a), o sujeito do verbo "saber" (marcado pelo símbolo 0, que humana, a suposição geral é a de que a estrutura lingüística revela o funcionamento
indica sua omissão) foi mencionado na primeira cláusula, constituindo um caso de da mente, bem como as propriedades da conceitualização humana do mundo.
referente anteriormente dado: "o mecânico". Por isso ele não precisa ser repetido na Em sua versão original, o princípio de iconicidade postula uma relação isomórfica,
sentença seguinte. No exemplo (b), em que o entrevistador pede ao informante que de um para um, entre forma e conteúdo (Bolinger, 1977). Contudo, estudos sobre os
ele diga algo que sabe fazer, embóra a palavra "você" seja ambígua no sentido de que processos de variação e mudança, ao constatar a existência de duas ou mais formas
pode se referir a qualquer pessoa, o contexto permite que interlocutor (o entrevistado) alternativas de dizer "a mesma coisa", levaram à reformulação dessa versão forte. Na
perceba que é a ele que o falante deseja se referir. Em circunstâncias desse tipo, como língua que usamos diariamente, em especial na língua escrita, existem, por certo, muitos
a situação contextual não deixa dúvidas quanto ao sentido do termo, temos um caso casos em que não há uma relação clara, transparente, entre expressão e conteúdo.
de referente situacionalmente dado. Nesses casos, a relação entre forma e significado é aparentemente arbitrária,
Um referente é novo quando é introduzido pela primeira vez no discurso, como uma vez que o significado original do elemento lingüístico se perdeu total ou
no exemplo (c). Se já está na mente do ouvinte por ser geralmente um referente único parcialmente, assim como a motivação para sua criação. Por exemplo, o item
(num dado contexto), é chamado disponível. São exemplos de referentes disponíveis "entretanto", hoje, tem um valor opositivo que justifica sua classificação como
termos como "a lua", "o sol", "Pelé" ou "Petrópolis", como no caso (d): conjunção adversativa (ex: "Estudou muito, entretanto não passou").
(c) aí quando chegou ... ali na:: decida/ porque é... Barra ... Tijuca ... né? Esse uso é completamente distinto de seu significado original utilizado em textos
quando estava quase chegando a... Tijuca ... vinha um ônibus na:: arcaicos do português, como advérbio temporal, com valor de "enquanto isso", "ao
direção deles ... e tinha um caminhão ... parado aqui (Informante 12, mesmo tempo", "entre tantos acontecimentos" (essa idéia permanece no item "entre"
Dario, Discurso & Gramática, RJ) encontrado na construção: "entre" + "tanto").8 O mesmo se deu com a conjunção
(d) ... mas ... eu fui a Petrópolis com uma amiga ... que nunca tinha concessiva "embora" (ex: "Embora tenha estudado muito, não passou"), proveniente da
subido a serra. expressão com valor temporal "em boa horà', muito comum, sobretudo na era medieval.
Um referente denomina-se inferível quando é identificado através de um processo Essa expressão era comumente acrescida a determinadas frases em virtude da crença de
de inferência - exemplo (e) - a partir de outras informações dadas. As entidades que o sucesso dos atos estava relacionado ao momento em que eram praticados.
inferíveis geralmente são codificadas com um artigo definido: Há, portanto, contextos comunicativos em que a codificação morfossintática
(e) ... quando ela viu o ônibus passar... mas o ônibus já estava indo ... e é opaca em termos da função que desempenha. Isso ocorre porque a iconicidade do
ela começou a gritar e todo o ponto de ônibus assim lotàdo... né? ela código lingüístico está sujeita a pressões diacrônicas corrosivas tanto na forma quanto
começou a gritar pro motorista ... mas ela estava um pouco longe ... na função:

" I
~.,-,- ,

168 Manual de lingüística Funcionalismo 169

a) o código (forma) sofre constante erosão pelo atrito fonológico, tendo sua forma próximo mentalmente coloca-se proxlmo sintaticamente. Esse subprincípio se
diminuída. Ex: "em boa hora" > "embora". manifesta, por exemplo, no grau de integração que o verbo da oração principal exibe
b) a mensagem (função) é constantemente alterada pela elaboração criativa através de em relação ao verbo da subordinada:
processos metafóricos e metonímicos. Ex: na conjunção "entretanto" o valor espacial,
a) Maria ordenou: fique aqui.
expresso originalmente pela preposição "entre" (ex: ''A casa fica entre a igreja e o
b) Maria fez a filha ficar ali.
supermercado"), é estendida para uma noção mais abstrata, referente a um espaço
c) A filha não queria ficar ali.
existente entre seqüências de acontecimentos (ex: "Muita coisa aconteceu entre a
discussão e a briga"). Esse é o ponto de partida para o uso arcaico com valor de Essas orações indicam que, quanto menos integrados os dois eventos estão, tanto
concomitância temporal que acaba se estendendo para o atual valor concessivo. mais provável que um elemento de subordinação ou uma pausa separe a oração
subordinada da principal. Em outras palavras, o subprincípio da integração correlaciona
Os dois tipos de pressão geram ambigüidade. Quanto ao código, verifica-se
a distância linear entre expressões à distância conceptual entre as idéias que elas
correlação entre uma forma e várias funções: é o que ocorre com "embora", que pode
representam. Na primeira oração, temos dois eventos separados, o ato de dizer algo e o
ser empregado como concessivo (ex: "Embora tenha estudado muito, não passou")
ato de ficar ali, além disso, os verbos (núcleos da oração) referem-se a sujeitos distintos
ou com o valor que alguns gramáticos chamam de "partícula de afastamento"
e apresentam codificação modo-temporal distinta. Na segunda frase, a integração
(ex: "Vou embora assim que a aula acabar"). Quanto à mensagem, observa-se correlação
semântica e sintática é maior: já não é tão fácil dizer que são dois eventos separados e
entre várias formas e uma função: no português atual, coexistem com a conjunção
não há um elemento explícito que separe sintaticamente as duas orações. O sujeito da
concessiva "embora" e várias outras com mesmo valor, como "mesmo que", "ainda
segunda é objeto da primeira. Na terceira oração, a fusão semântica e sintática é ainda
que", "apesar de", entre outras.
maior, pois também não é nítida a distinção de eventos diferentes e o sujeito de "querer"
Em sua versão mais branda, o princípio de iconicidade se manifesta em três
é o mesmo de "ficar", e obrigatoriamente o sujeito desse segundo verbo aparece apagado.
subprincípios, que se relacionam à: quantidade de informação, ao grau de integração
Há ainda o fenômeno da iconicidade relacionado à ordenação dos elementos
entre os constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação seqüencial dos
na cadeia sintática. Nesse caso, temos os chamados subprincípios de ordenação
segmentos. Vejamos cada um deles.
seqüencial. O primeiro deles é o subprincipio da ordenação linear, segundo o qual a
Segundo o subprincipio da quantidade, quanto maior a quantidade de
ordenação das orações no discurso tende a espelhar a seqüência temporal em que os
informação, maior a quantidade de forma, de tal modo que a estrutura de uma
construção gramatical indica a estrutura do conceito que ela expressa. Isso significa eventos descritos ocorreram:
que a complexidade de pensamento tende a refletir-se na complexidade de expressão sabe como é feito um bom strogonof .. compra o camarão:: limpa o camarão...
(Slobin, 1980): aquilo que é mais simples e esperado se expressa com o mecanismo põe o camarão... boto cebola... pimentão... tomate ... cozinho ele... deixo ele
morfológico e gramatical menos complexo. A atuação desse subprincípio pode ser cozinhar um pouquinho assim...
vista no comprimento maior das palavras derivadas (que tendem a veicular mais As orações acima estão colocadas sintaticamente na mesma ordem em que
informações semânticas e/ou gramaticais) em comparação com as palavras primitivas ocorreram na realidade: primeiro compra-se o camarão, depois limpa-se o camarão, e
de que se originam, refletindo na forma a ampliação do seu campo conceitual: assim por diante. A inversão da ordem das orações implicaria também uma mudança
BELO> BELEZA> EMBELEZAR> EMBELEZAMENTO
na seqüência real dos fatos.
O segundo subprincípio ligado à ordenação é o subprincípio da relação entre
Outro exemplo é a repetição de certas estruturas verbais, em que o falante ordem seqüencial e topicalidade. Nesse caso, temos uma conexão entre o tipo de
deseja expressar o aspecto iterativo e/ou a intensidade da ação descrita, como em: informação veiculada por um elemento da cláusula e a ordenação que ele assume.
... ele fugiu com a moça ... daí fugiram ... começaram a correr e o homem Um exemplo de como isso ocorrer pode ser visto no fato de que informações velhas,
atrás deles ... correram ... correram ... correram ... enquanto isso ... o homem ou já mencionadas, tendem a ocorre no início da cláusula e informações novas, no
correndo ... correndo atrás deles ... final. Vejamos o exemplo que segue:
O subprincípio da integração prevê que os conteúdos que estão mais próximos Tenho vários amigos, mas meu preferido é Carlos. Carlos está sempre comigo
cognitivamente também estarão mais integrados no nível da codificação - o que está nas horas de diversão.
170 Manual de lingüística Funcionalismo 171

Podemos notar que o referente "Carlos", quando mencionado pela primeira apresenta forma mais simples, ou seja, ocorre sem a desinência -Si e possivelmente por isso
vez, aparece no final da frase ("meu preferido é Carlos" ao invés de "Carlos é meu é aprendida mais facilmente pelas crianças do que as formas de plural.
preferido"). Entretanto, na cláusula seguinte, "Carlos" é novamente mencionado, No nível sintático, o conceito de marcação também apresenta conseqüências
constituindo, portanto, informação velha. Nesse caso, ele ocorre no início da cláusula. interessantes no uso da língua. Comparemos as duas construções abaixo:
Esse subprincípio pode assumir características diferentes quando associado à
a) Eu uso esta roupa.
noção de contrastividade. Esse caso pode ser visto, por exemplo, na tendência de se
b) Esta roupa eu uso.
antepor na cláusula determinados trechos para efeito de contraste:
A sentença exemplificada em (b) é mais marcada, já que a ordenação mais
a) João comprou um carro.
comum é a que está indicada em (a): sujeito ("Eu") verbo ("uso") objeto ("esta roupa").
b) Foi João que comprou um carro.
Essa questão tem implicações interessantes quando pensamos na expressividade dessas
c) Foi um carro que João comprou.
estruturas. Qual seria a mais expressiva das duas? A resposta seria a do exemplo (b),
Tanto o sujeito "João" quanto o objeto "um carro" da cláusula (a) apresentada já que expressa algum tipo de força argumentativa associada à idéia de que aquela
anteriormente podem ser colocados em situação de foco contrastivo, como ocorre em roupa é de um tipo que agrada mais ao falante do que alguma outra. Isso não ocorre
(b) - foi João, e não outra pessoa, que comprou o carro - e em (c) - foi um carro, e não no primeiro exemplo, em que temos uma simples afirmação, que não apresenta
outra coisa, que João comprou. Essas construções refletem a preocupação do necessariamente qualquer argumento desse tipo.
funcionalismo em trabalhar com as expectativas do falante em um contexto particular: Essa é a importância do conceito de marcação no que diz respeito ao uso da língua:
a crença, por exemplo, de que outra pessoa que não João tivesse comprado o carro, no uma forma lingüística mais corriqueira, que apresenta alta freqüência de uso, tende a
caso de (b), ou de que João comprou outra coisa que não um carro, no caso de (c). ser conceptualizada de modo mais automatizado pelo usuário da língua e isso significa
que essa forma tem pouca expressividade. Assim, quando querem ser expressivos, os
falantes usam formas marcadas. É o que ocorre em frases como a apresentada em (b).
Marcação Vale ressaltar que a marcação que caracteriza uma forma lingüística é relativa,
Os termos "marcado" e "não-marcado" foram introduzidos na lingüística pela pois uma construção pode ser marcada num dado contexto e não-marcada em outro.
Escola de Praga. Aqui a idéia-chave é a de contraste entre dois elementos de uma Por exemplo, a voz passiva sintética ("Vende-se casa") é muito marcada na língua oral
dada categoria lingüística, seja ela fonológica, morfológica ou sintática. Um entre por ser bastante i~comum. Entretanto, num texto escrito formal ela não é marcada,
dois elementos que se opõem é considerado marcado quando exibe uma propriedade já que ocorre com relativa freqüência.
ausente no outro membro, considerado não-marcado. Assim, no campo da morfologia,
por exemplo, é interessante observar, nesse sentido, a categoria de número: a forma Transitividade e plano discursivo
"meninos" [+ plural] é marcada em oposição a "menino" [- plural], forma não-marcada.
As formas não-marcadas apresentam várias características, tais como: Para a gramática tradicional, a transitividade é uma propriedade dos verbos -
que são classificados como transitivos, quando acompanhados de objeto direto ou
a) maior freqüência de ocorrência nas línguas em geral e em uma língua particular; indireto, ~u intransitivos, quando não há complemento. A proposta de Hopper e
b) contexto de ocorrência mais amplo; Thompson (1980) não opõe binariamente verbos transitivos a intransitivos, mas trata
c) forma mais simples ou menor; a transitividade como uma propriedade escalar que focaliza diferentes ângulos da
d) aquisição mais precoce pelas crianças. transferência da ação de um agente para um paciente em diferentes porções da oração.
Se observarmos com cuidado, veremos que o elemento que está no singular Vejamos os exemplos seguintes, extraídos de uma narrativa que reconta o filme Batman:
apresenta essascaracterísticas das formas não-marcadas: ocorre mais na língua, pois usamos a) Batman derrubou o Pingüim com um soco.
mais palavras no singular do que no plural; apresenta contexto de ocorrência mais amplo, b) A Mulher Gato não gostava do Batman.
pois dizemos, por.exemplo, que vamos ao mercado comprar cenoura, mesmo sabendo que c) Esse rio tem uma forte correnteza.
compraremos mais de uma - o que significa que o singular éutilizado no contexto do plural; d) Então o Pingüim chegou na festa.
172 Manual de lingüística
Funcionalismo 173

Pela classificação da gramática tradicional, as três primeiras orações são Em fundo estão as informações que são colocadas no texto para dar suporte às
transitivas, pois apresentam um objeto como complemento do verbo. Segundo a orações de figura. São as informações básicas que contextualizam as ações de figura,
formulação de Hopper e Thompson, (a) é a que ocupa lugar mais alto na escala de indiéando normalmente o local ou o momento em que elas ocorrem, como elas
transitividade, seguida de (d), (b) e, por último, (c), tendo em vista aspectos como a ocorrem, assim como expressam as causas e as finalidades dessas ações. Freqüentemente
dinamicidade do verbo, a agentividade do sujeito e o afetação do objeto. são expressas por orações que apresentam verbos estáticos, como "ser" e "estar" na
Hopper eThompson associam a transitividade a uma função pragmática: o modo forma de presente do indicativo ou de pretérito imperfeito:
como o falante organiza seu texto é determinado, em parte, pelos seus objetivos
FUNDO
comunicativos e, em parte, pela sua percepção das necessidades do seu interlocutor. Nesse
a) "meu pai estava andando"
sentido, o texto apresenta diferentes planos discursivos, que distinguem as informações
b) "ele morava no outro lado da Penhà'
centrais das periféricas. O grau de transitividade de uma oração, ou o lugar que ela ocupa
c) "ele estava passa~do por ... por baixo da pa ... da passagem subterrânea
na escala de transitividade de Hopper e Thompson, reflete sua função discursiva
característica, de modo que orações com alta transitividade assinalam porções centrais do trem"
do texto, correspondentes à figura, enquanto orações com baixa transitividade marcam d) "ele anda com aquelas capangas"
as porções periféricas, correspondentes ao fundo. Vejamos o seguinte fragmento: e) "era um assalto"
f) "era o dia de pagamento"
meu pai estava andando ... ele morava no outro lado da Penha e:: ele estava
passandopor...por baixoda pa...da passagemsubterrâneado trem aí dois caras . O texto anterior mostra oposição de tempo, aspecto e dinamicidade: as sentenças
um escuro alto... forte e um branco também alto... forte... esbarraram nele e
da primeira seqüência da figura contêm verbos de ação, como "esbarrar", "abrir",
ele anda com aquelas capangas ... ai:: a capanga caiu no chão ... abriu os
documentos ... dinheiro ficou tudo espalhado no chão... e eu/ ele abaixou pra . "pegar", entre outros, que estão no pretérito perfeito. Em fundo, exemplificado na
catar os documentos quando eleabaixou ... oscarasfàlaram que era um assalto . segunda seqüência de orações, vemos orações que contextualizam o evento narrado,
aí pegaram o dinheiro a conta de luz ... tudo que tinha...juntaram colocaram com comentários descritivos e avaliativos do narrador.
na capanga e levaram a capanga embora ... e aí meu pai foi pra casa fàlou que
tinha sido assaltado aí elesresolveram ir na polícia ... né?pra dar queixa e depois
teve todo trabalho de pedir segunda via de documento ... de conta de luz de conta Gramaticalização
de dgua ... eficou sem o dinheiro ... era o dia de pagamento...
Como já mencionamos anteriormente, o funcionalismo caracteriza-se por uma
Em figura estão os eventos perfectivos em itálico, que expressam a seqüência
concepção dinâmica do funcionamento das línguas. Nessa perspectiva, a gramática é
de ações que caracteriza a narrativa:
vista como um organismo maleável, que se adapta às necessidades comunicativas e
FIGURA cognitivas dos falantes. Isso implica reconhecer que, ao lado de padrões morfossintáticos
a) "dois caras esbarraram nele" estáveis, sistematizados pelo uso, a gramática de qualquer língua exibe mecanismos
b) "a capanga caiu no chão"
de codificação emergentes, que são conseqüentes da necessidade de formas mais
c) "abriu"
expressivas. A gramaticalização é um fenômeno relacionado a essa necessidade de se
d) "ele abaixou"
refazer que toda gramática apresenta.
e) "os caras falaram"
Gramaticalização designa um processo unidirecional, segundo o qual itens lexicais
f) "aí pegaram o dinheiro"
e construções sintáticas, em determinados contextos, passam a assumir funções gramaticais
g) "colocaram na capanga e"
e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais. A
h) "levaram a capanga embora"
tendência é que esse processo ocorra com itens ou expressões muito freqüentes, o que faz
i) "meu pai foi pra casà'
com que o termo normalmente sofra desgaste fonético, perdendo, assim, expressividade.
j) "falou que rinha sido assaltado"
1) "aí resolveram ir pra polícia" Com isso, o elemento deixa de fazer referência a entidades do mundo biossocial para
m) "depois teve todo trabalho de ... pedir segunda via" assumir funções de caráter gramatical, como ligar partes do texto, indicar categorias
n) "e ficou sem o dinheiro ..." gramaticais, como o tempo de um verbo ou o gênero de um nome, etc.
174 Manual de lingüística Funcioralismo 175

Considerando que substantivos, verbos e adjetivos são elementos lexicais e que Exercícios
preposições, conjunções, arrigos, morfemas derivacionais e flexionais, entre outros,
1) A abordagem funcionalista da linguagem não corresponde a uma teoria particular, mas a vários
têm valor gramatical, são exemplos de gramaticalização:
modelos teóricos que, embora diferentes em certos aspectos, apresentam pontos essenciais em comum.
a) A trajetória de substantivos e verbos para conjunçÕes: Quais são esses pontos?
2) Estabeleça uma correspondência entre as diferentes escolas funcionalistas e as caracterlsticas apre-
É o que ocorre com o verbo "querer", que passa a ser utilizado como conjunção sentadas abaixo:
alternativa em "Quer chova quer faça sol, estarei lá", ou com o elemento "logo", que a) O funcionalismo estruturalista

no porruguês arcaico tinha valor de substantivo e que atualmente pode ser empregado b) A teoria funcional de Halliday
c) O modelo de Dik
como conjunção conclusiva em cláusulas como "Penso, logo existo".
d) O funcionalismo norte-americano
b) A trajetória de nomes e verbos para morfemas: ( ) analisa as expressões lingüísticas com o intuito de compreender os processos relacionados ao
êxito comunicativo dos falantes.
É o que se dá em passagens como a que ocorre com a expressão "tranqüila ( ) utiliza um conceito abrangente de função que compreende tanto as funções de enunciados
mente", em que o substantivo "mente" ("intelecto") passa a desempenhar papel de e textos quanto as funções de unidades lingüísticas dentro de uma sentença.

sufixo formador de advérbio: "tranqüilamente". Ou em trajetórias como a que acontece ( ) postula uma forte vinculação entre discurso e gramática, de tal modo que a sintaxe resulta,
em grande parte, das estratégias de organização da informação utilizadas pelos falantes no
com a locução "amar hei", em que a forma do verbo "haver" ("hei") se incorpora ao
evento comunicativo.
verbo, passando a funcionar como desinência de futuro: "amarei". ( ) ressalta a função dos fonemas na distinção das palavras e o papel da organização estrutural da
sentença na transmissão de informação contextual.
Concluindo, vimos neste capítulo que o funcionalismo difere das abordagens
3) Assinale as afirmativas que estão de acordo com os postulados da abordagem funcionalista:
formalistas - estruturalismo e gerativismo - primeiro por conceber a linguagem
a) A existência de universais lingüísticos é explicada em termos de uma dotação lingüística
como um instrumento de interação social e, segundo, porque seu interesse de genética compartilhada pela espécie humana.
investigação lingüística vai além da estrutura gramatical, buscando no contexto b) A existência de universais lingüísticos é motivada pelos usos comuns a que a ling~agem se
discursivo a motivação para os fatos da língua. A abordagem funcionalista procura presta nas comunidades de fala.

explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua, analisando as c) As funções que a língua desempenha têm influência sobre a organização interna do sistema
lingüístico, o que significa que a relação entre forma e conteúdo é motivada.
condições discursivas em que se verifica esse uso. O funcionalismo admite que um
d) A arbitrariedade, ou ausência de relação direta entre expressão e significado, permeia todos
grande conjunto de fenômenos lingüísticos é o resultado da adaptação da estrutura os níveis de organização do sistema lingüístico.
gramatical às necessidades comunicativas dos usuários da língua. Se a função mais e) A gramática é um organismo maleável, que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas
importante da língua é a contínua interação entre as pessoas, que se alternam como dos usuários da língua.

falantes e ouvintes, essa função deve, de algum modo, condicionar a forma do 4) Classifique os elementos em itálico em termos do seu status informacional nas duas passagens
retiradas do corpus do Grupo de Estudos Discurso & Gramática de Natal, RN:
código lingüístico.
a) Eu tive um namorado, meu vizinho, que minha mãe não queria, e por este motivo eu não
Para essa corrente teórica, os domínios da sintaxe, semântica e pragmática são conseguia de deixar de namorar este rapaz, fiz muita coisa que hoje eu não faria, mentia;
relacionados e interdependentes. Por um lado, não há estruturas lingüísticas que apanhei por causa dele, mais não valeu a pena porque hoje nós estamos com outras pessoas.
operem independentes do significado; por outro lado, se fatores discursivos contribuem b) Eu vou contar uma viagem que a gente fez, hoje faz quinze dias, lá pra casa de minha avó,
sabe? Bom Jesus. Aí quando meu pai chegou lá, começou beber umas, né? Aí a gente veio. No
para a codificação sintática, então a pragmática deve ser incorporada à gramática. Ao
caminho, o carro ficava no meio da pista e a gente tudo preocupado. Parecia que eu que vinha
lado da descrição sintática, cabe investigar as circunstâncias discursivas que envolvem
dirigindo, sabe?
as estruturas lingüísticas - seus contextos específicos de uso e os propósitos
comunicativos dos interlocutores. Segundo a hipótese funcionalista, a estrutura é
uma variável dependente, pois são os usos da língua que, ao longo dos tempos, dão Notas
forma ao sistema. A necessidade de investigar a sintaxe em termos da semântica e da
1 As correntes estruturalista e gerativista focalizam, em suas análises, os aspecrôs estruturais ou formais da sentença,
pragmática é comum a todas as abordagens funcionalistas atuais. deixando de lado os fenômenos interacionais a ela relacionados.
'.
Termos da oraçõo

Maria Eugenia Duarte

Uma das dificuldades enfrentadas pelos que buscam entender a estrutura da


oração com base nas gramáticas tradicionais é a forma pela qual se distribuem os
chamados "termos da oração". A clássica tripartição desses termos em "essenciais",
"integrantes" e "acessórios" não contribui para uma visão das relações entre os
constituintes da oração, além de induzir o aluno a pensar que os chamados termos
"essenciais" são mais importantes do que os demais. A imprecisão resultante do uso
de tais adjetivos alia-se a falta de complementaridade entre os termos que compõem
cada um dos três grupos: o "predicado", por exemplo, é um termo "essencial",enquanto
os complementos verbais, que fazem parte do predicado, são termos "integrantes".
Finalmente, os grupos apresentam elementos que se situam em diferente~ níveis da
hierarquia sintática: os complementos verbais e nominais, de um lado, e os adjuntos
adverbiais e adnominais, de outro, classificados entre os termos "integrantes" e
"acessórios", respectivamente, reúnem "termos" ligados ao verbo e ao nome. Como se
vê, essa forma de distribuir os termos da oração não contribui para o entendimento
das relações gramaticais que se estabelecem entre eles.
Além das dificuldades expostas, de caráter estrutural, temos dificuldades de
ordem conceitual. É conhecida de todos a crítica que Perini (1985) faz às definições
das gramáticas tradicionais, que misturam critérios semânticos e sintáticos. O autor
é firme ao criticar a inconsistência de uma definição que prega ser o sujeito "o ser
r . I

J .l t1 l!1 1ft
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li 6 .~ j
186 Ensino de gramática Termos da oração 187

sobre o qual se faz urna declaração", quando a própria gramática nos diz que há "predicado". Por que será que a gramática tradicional (GT) classificaos predicados em
orações sem sujeito. Quanto ao predicado - "tudo aquilo que se diz do sujeito" -, "verbais", "nominais" e "verbo-nominais"? É justamente porque neles se encontram
corno aplicar a definição, se há orações sem sujeito? Urna simples investigação sobre os elementos que projetam os constituintes centrais da oração, incluindo o próprio
o uso da língua revela que essa bipartição da oração em "sujeito" e "predicado" (com sujeito. A esseselementos chamamos "predicadores", que são responsáveispela estrutura
tais conceituações) só rem sentido num context~ em que alguém, por exemplo, principal da oração. A classificação tradicional dos predicados decorre então do fato
pergunta "Cadê o João?" e obtém corno resposta "O João emigrou para Portugal". de as orações exibirem:
De fato, na otação citada, "O João" é o tetmO sobre o qual se diz alguma coisa 1. Um predicador verbal: pular, ocorrer, comprar, entregar, partilhar, morar.
("emigrou para Portugal"). Num contexto em que alguém pergunta "Quais são as 2. Um predicado r nominal representado por um adjetivo - inteligente,
novidades?", qualquer resposta (corno "O João emigrou para POttugal","Chegaram as prejudicial - ou por um substantivo - professor.
encomendas", "Aconteceuum acidente") trará uma informação nova, que inclui o sujeito
3. Um predicador verbal e um nominal simultaneamente.
gramatical e o predicado. Além do mais, nenhum de nós jamais usou essesconceitos para
Esses predicadores selecionam normalmente um argumento externo (a que
identificar o sujeito e o predicado de uma oração ("Qual é o ser sobre o qual essaoração
chamamos sujeito) e, opcionalmente, argumentos internos (a que chamamos
diz alguma coisa?").Na verdade, ;sas definições de sujeito e predicado que constam de
complementos). Todas as vezes que tentamos identificar os termos de urna oração
nossasgramáticastradicionaissão as conceituaçõesde "tópico"e "comentário",que po
que contenha um predicador verbal, como, por exemplo, "oferecer", e perguntamos:
coincidir ou não com os elementos a que nos referimos corno "sujeito" e "predicado".
"quem oferece", "oferece o quê?", "oferece a quem?", ou dizemos "alguém oferece
Assim, numa sentença corno "Corrida de cavalo,eu nunca fui ao jóquei clube" (N
alguma coisa a alguém", estamos, na verdade, observando a estrutura argumentaI
o termo "corrida de cavalo"é o tópico sobre o qual se fazum comentário "eu nunca fui ao
projetada pelo predicador ou, em outras palavras, estamos buscando entender qual é
jóquei clube". Em outra sentença - "A minha amiga Maria nunca foi ao jóquei pra ver
a seleção semântica que esse predicador faz.
urna corrida de cavalo"-, o tópico "aminha amigaMarià' coincidecom o sujeitogramatical
da oração e o comentário coincide com o que chamamos predicado.
Assim, quando se tem corno propósito descrevere entender a estrutura da oração, Os predicadores verbais e seus complementos
é mais razoável olhar