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Pedro Pereira Leite

Ecomuseus e
Museologia Social

Informal Museology Studies nº 14

Summer 2016
Ficha Técnica:
Informal Museology Studies
Papers on Qualitative Research
Issue 14 – summer /2016
Directory
Pedro Pereira Leite
ISSN – 2182-8962
Editor: Pedro Pereira Leite
Publisher: Marca d’ Água: Publicações e Projetos
Redaction: Casa Muss-amb-ike
Ilha de Moçambique,
3098 Moçambique
Lisbon: Passeio dos Fenícios, Lt. 4.33.01.B 5º Esq.
1990-302 Lisbon –Portugal

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 2


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Índice
APRESENTAÇÃO ....................................................................................... 8
SOBRE ECOMUSEUS, ECOMUSEOLOGIA E MUSEUS COMUNITÁRIOS ............. 10
Sobre a origem do conceito de ecomuseu. ................................................. 10
Qual é o modelo (conceito) do Ecomuseu................................................... 10
Origens do modelo de ecomuseu .............................................................. 11
Formas de Ecomuseus no tempo .............................................................. 11
Lugares dos ecomuseus ........................................................................... 12
As formas dos ecomuseus e museus de comunidade ................................... 12
A ecomuseologia fracassou? ..................................................................... 14
Os ecomuseus em Portugal ...................................................................... 15
Princípios do Ecomuseu ........................................................................... 15
Nova museologia segundo Peter Van Mensh (1990) .................................... 16
Nova Museologia segundo Maria Célia (2000) ............................................. 17
Ecomuseologos....................................................................................... 17
A crítica da nova museologia à ecomuseolgia ............................................. 18
A crítica da museologia social aos Museus de Hoje ...................................... 19
Museologia Social e Intersubectividade ...................................................... 19
Museologia Social e a lógica do Poder ........................................................ 20
Comentários .......................................................................................... 20
Conclusão .............................................................................................. 21
Bibliografia ............................................................................................ 22
QUE FUTURO PARA OS ECOMUSEUS ......................................................... 23
1. O ecomuseu: meio século de experimentações ....................................... 23
2. Uma prospectiva indispensável ............................................................. 24
3. Três vias de método ............................................................................ 25
4. Quais são os riscos? ............................................................................ 26
4.1. O risco político ................................................................................. 27
4.2. O risco económico ............................................................................ 28
4.3. O risco de mudança de geração ......................................................... 29
4.4. O risco da não-pertinência ................................................................. 31
4.5. O risco de interesses particulares ....................................................... 31
4.6. O risco da coleção ............................................................................ 32
4.7. O risco da patrimonialização .............................................................. 34
4.8. O risco da norma imposta ................................................................. 35

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4.9. O risco do modelo ............................................................................ 36
4.10. O risco da organização .................................................................... 38
4.11. O risco da profissionalização ............................................................ 39
5. Quais são as tendências? ..................................................................... 40
5.1. As legislações territorializadas ........................................................... 40
5.2. As estratégias de redes ..................................................................... 41
5.3. O aparecimento de novas fórmulas ..................................................... 42
5.4. A mobilização das partes interessadas ................................................ 44
5.5. O apelo a práticas de ordem económica .............................................. 46
5.6. A ligação com as políticas do desenvolvimento sustentável .................... 47
5.7. A generalização do digital .................................................................. 48
5.8. Uma organização territorial solidária ................................................... 49
5.9. Transformar os museus tradicionais.................................................... 50
6. Quais são os desafios? ......................................................................... 51
6.1. Avaliar a utilidade social do ecomuseu ................................................ 51
6.2. Escolher os objetivos e as prioridades ................................................. 53
6.3. Escolher as estratégias ..................................................................... 54
6.4. Tornar-se uma empresa mista ou híbrida ............................................ 55
7. conclusão ........................................................................................... 58
Integrar o ecomuseu no desenvolvimento sustentável ................................. 58
DOCUMENTO ESTRATÉGICO DOS ECOMUSEUS ITALIANOS .......................... 60
1. Preâmbulo ......................................................................................... 61
1.1.Situação atual................................................................................... 61
1.2 Consolidar a experiencia adquirida de “Mondi Locali” ............................. 62
1.3 Estratégias e objetivos ....................................................................... 64
2. Agenda 2016. Projetos para o futuro dos ecomuseus ............................... 65
3. Revisão dos princípios ......................................................................... 70
4. Glossário ........................................................................................... 73
5. Definições .......................................................................................... 76
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O INVENTÁRIO PARTICIPATIVO ............... 78
NOTAS MILANESAS SOBRE ECOMUSEOLOGIA SOCIAL ................................ 88
Proposta de constituição duma rede de ecomuseus portugueses ................... 94

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APRESENTAÇÃO

Neste número dos Informal Museology Studies apresentamos uma


reflexão sobre Ecomuseus e os processos de ecomuseologia social. Este
último termo é de certa forma uma redundância, pois toda a
ecomuseologia será também, por definição, um museologia social. É
todavia esta ligação entre o modelo do Ecomuseu e os processos da
museologia social que queremos debater. Esse é um tema que nos surge
a partir da participação da participação na 24º conferencia Geral do
Conselho Internacional dos Museus, que aconteceu em Milão entre os
dias 3 e 9 deste mês. De seguida apresentamos as nossas notas de
preparação para o programa “Encontros com o património”, realizado em
novembro de 2015, onde tentamos refletir sobre o momento dos
ecomuseus e da ecomuseologia.

De seguida apresentamos um artigo de Graça Filipe e Hugues de


Varine, publicado em 2015, “Que Futuro para os Ecomuseus”, onde os
dois autores, a primeira museóloga com uma experiencia de 35 anos no
Ecomuseu do Seixal, e em outras experiencias, e Hugues de Varine-
Bohan, um dos criadores do termos e seu militante desde 1973.Neste
artigo os autores fazem um balanço das experiencias dos últimos 30
anos e enuncia os principais problemas e desafios dos ecomuseus numa
perspetiva da agenda 2030.

De seguida apresentamos aversão em português do documento


estratégico para os Ecomuseus Italianos, documento que esteve na base
das discussões de Milão, e sobretudo na sua proposta de criação duma
Rede Europeia de Ecomuseus. Finalmente apresentam-se algumas
considerações de Hugues de Varine sobre o Inventário Participativo, uma
das ferramentas da prática dos ecomuseus.

As fotografias são o resultado da nossa participação no fórum dos


Ecomuseus em Milão e da Expedição ao parque Natural da Ria Formosa
em Portugal.

Milão, julho 2016

Pedro Pereira Leite.

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SOBRE ECOMUSEUS, ECOMUSEOLOGIA E MUSEUS
COMUNITÁRIOS

Pedro Pereira Leite1

Roteiro para programa “Encontros com o Património da TSF, programa emitido em 28


de novembro de 2015, onde participamos juntamente com Graça Filipe, do Ecomuseu
do Seixal e Santiago Macias, arqueólogo e Presidente Câmara Municipal de Moura,
numa realização de 2

Sobre a origem do conceito de ecomuseu.


O termo ecomuseu surge à volta duma mesa de café, em Paris, em conversa
entre Huges de Varine e o conselheiro do secretário do ambiente de França.
Trabalhava-se na IX Conferência Geral do ICOM, que teve como tema “O Museu
a Serviço do Homem, Atualidade e Futuro –o Papel Educativo e Cultural” Varine,
que à época era secretário do ICOM, discípulo de Georges Henri Riviere que
havia reformado o Museu do Homem em Paris (1897-1985, manifestavam esta
preocupação com a relação do homem com a natureza.

Vivia-se na altura as preocupações com a ecologia, uma ciência então nascente,


preocupada com os usos dos recursos naturais sem comprometer as gerações
futuras. Estavem também na ordem do dia a discussão sobre a função social da
ciência, a forma como a educação devia ser mobilizada para construção do
futuro, a questão do desenvolvimento.

O contexto do surgimento do conceito é o de um debate sobre a função dos


museus na sociedade, de que forma que um território sobre o qual vive uma
população se mobiliza a partir das suas memórias. O ecomuseu representa um
debate que cruza a questão da interdisciplinaridade, do ambiente e a
comunidade.

Qual é o modelo (conceito) do Ecomuseu


O modelo de ecomuseu é pensado como um centro de criação de cultural feito a
partir da interacção entre a cultura e a natureza.

1
Centro de Estudos Sociais Universidade de Coimbra/ Programa de Doutoramento em
Musseologia ULHT
2
Ver em http://www.tsf.pt/programa/encontros-com-o-
patrimonio/emissao/ecomuseus-e-museus-comunitarios-4898954.html

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Origens do modelo de ecomuseu
Na origem do conceito de ecomuseu estão os museus de ar livre que existiam
no norte da Europa, onde, num cenário de mudança da ruralidade, se
procuravam conservar aldeias e representações das formas de viver das
comunidades rurais. Como secretário de ICOM, Varine transfere e adapta o
modelo à realidade francesa, em 1971, em Grenóble.

Formas de Ecomuseus no tempo


De acordo com Varine podem-se considerar três gerações de ecomuseus que se
sucedem no tempo

 •Um primeiro tempo os museus de ar livre, que privilegiam a


conservação de elementos patrimoniais ”in situ”, com o propósito de
desfrutar um território ou um paisagem. Este modelo aplicado por Varina
no caso francês alarga ao
conceito de preservação à ideia
de construção dum território. O
seu desenvolvimento: que
implica atividades económicas.
É desenvolvido nos anos
sessenta.
 •Um segundo momento, que Varine aplica ao ecomuseu de do Haut-
Creusot, na antiga região industrial do Loire, procura, dentro da lógica do
desenvolvimento do território, implicar as comunidades. É desenvolvido a
partir de 1971
 •Um terceiro momento, desenvolvido pelo ecomuseu do Haute Beauce,
no Québec, a partir da década de oitenta. Neste terceiro momento,
estabiliza-se a ideia de território, participação da comunidade e
desenvolvimento.

A partir dos anos noventa Varine considera que a ideia de ecomuseus está em
crise mas não os princípios da nova museologia que ele transporta. Defende a
ideia de um museu integral, que já havia sido proposta no Conferência de
Santiago do Chile em 1972.

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Lugares dos ecomuseus
Os diferentes modelos dos ecomuseus vão expandir-se por todo o mundo.
Partindo do norte da Europa, desenvolvem-se em França. Expandem-se para o
Canadá, para os Estados Unidos para o México e para o Brasil. Na Europa para
Itália e Portugal.

As formas dos ecomuseus e museus de comunidade


Os ecomuseus e museus de comunidade podem apresentar-se de múltiplas
formas, nomes e designações.

• Ecomuseus – a partir de Hugues de Varine, em França em Le Crssout


• Integral – a partir da proposta de Varine em 85
• museus de vizinhança, a partir das experiencias nos EUU,
• museu de território
• museu local ou polinucleado em Portugal

dependendo das tradições de cada país.

Para efeito de análise


considera-se as seguintes
características:

• Nova museologia deve


relevar.

• o Território –
integra a relações com o ambiente e as sus múltiplas escalas de
interacção
• o Comunidade – dever partir de processos participatórios e
questionar as questões da regulação social (poder)
• o Objetos- assume a pluralidade dos objetos, das memória e das
heranças. Os objetos são transições que ajudam ao conhecimento.

Os processos museológicos desenvolvem-se em cenários, que podem


constitui-se como organizações (museus, centros culturais, coleções) ou em
atos performativos, em escolas, no espaço público

Por contraste a museologia tradicional centra-se

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• o No edifício do museu
• o Nas coleções
• o Nos visitantes

Momentos de emergência da Nova Museologia

• 1958 – Conferência do ICOM no Rio de Janeiro – realça a função


educativa dos museus
• 1972 – Mesa Redonda de Santiago do Chile. Museus da América do
Sul estabelecem a educação como função social dos museus
• 1984 –
• o Declaração Declaração de Oaxtepec, sobre a participação da
Comunidade.
• o Enconto de Ecomuseus no Quebéc. Reconhece a necessidade de
trabalhar uma nova museologia.
• 1985 – Declaração de Lisboa sobre a “nova Museologia”
• 1992 – Declaração da UNESCO em Caracas- «A Missão do Museu na
América latina hoje: novos desafios.»,
• 2013 – “Por uma museologia do Afeto” Declaração do MINOM, Rui de
Janeiro.
• 2015 – Declaração da UNESCO sobre “Museus e coleções, a sua
diversidade e função social”

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A ecomuseologia fracassou?
Nos anos noventa, perante a crise e decadência de muitos dos ecomuseus de
referência, discutiu-se a questão dos resultados desta nova museologia como
produtora de “desenvolvimento”. Era então evidente um certo esgotamento de
muitas destas experiências renovadoras na europa e no Canadá. Contudo,
noutros lugares, como por exemplo no México e mas tarde no Brasil a
museologia comunitária e os processos de participação das comunidades am
ações de preservação e reconstrução das suas memórias, patrimónios e
heranças florescia.

Na altura conclui-se a relevância para estes processos museológicos dos


processos de gestão, das vontades políticas e da capacidade de agenciamento
dos profissionais e a necessidade de qualificação desses profissionais.

Em paralelo, verificou-se igualmente que em muitos lugares se constituíram


ecomuseus, que embora com uma preocupação de conhecer um território e
ainda que nem sempre tivessem uma preocupação de desenvolver a
participação da
comunidade, todos se
articulavam na ideia do
“desenvolvimento”.
Deste modo, pode-se
concluir que a ideia de
”desenvolvimento” de
constitui como função
da museologia.

Grosso modo consideram-se hoje três tipos de museus.

• O museu tradicional, com base nas coleções


• O museu espectáculo, que procede essencialmente à celebração de
narrativas, destinadas ao turismo ou a outros públicos
• Os museus das comunidades, centrado na participação e na
construção de novas narrativas.

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Os ecomuseus em Portugal
Em Portugal a ideia de Ecomuseu chega pela mão de Huges de Varine, à época
conselheiro cultural da embaixada francesa em Lisboa.

• Em 1979, surge a ideia de criar um ecomuseu na Serra da Estrela.


Uma ideia de integração da cultura, associada á instalação do Parque
Natural, criado em 1976). A ideia no entanto não vingou
• Em 1982 , instalação do Ecomuseu do Seixal. Participação da Câmara
Municipal, de António Nabais e Graça Filipe.
• 1985 – Criação do Museu Etnográfico de Monte Redondo

O ecomuseu foi uma figura que depois de desenvolve em algumas localidade,


com maior ou menor extensão de participação das comunidade e de integração
no território. Alguns ecomuseus: Barroso, Zezere, Lousã, Rio Maior.

Dois casos relevantes: Museu da Comunidade da Batalha, Museu de Mértola.

Princípios do Ecomuseu
Segundo Matilde Ballargue (1992) um ecomuseu define-se por 4 princípios

a) A identificação com um território e seus habitantes

b) A identificação das necessidades e anseios duma população

c) Atuar como membro duma comunidade. O museu necessita de capturar o


tempo e construir uma agenda (aggionarmento)

d) Aceitar a pluralidade do objetos e dos tempos e espaços. Aceitar que os


museus também se transformam.

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Noutro documento (1996), e na sequência da sua reflexão crítica sobre o
conceito, Hugues de Varine define ecomuseu como um processo museológico
que contem os seguintes elementos:

• Um território, um património e uma comunidade

• Um espaço de desenvolvimento integral (museu integral)

• A sustentabilidade do projeto

• A valorização da identidade local

• Um espaço de exercício de cidadania

As mais recentes reflexões sobre o conceito de ecomuseu e museu de


comunidade estabilizaram estes elementos.

Contudo, alguma reflexão crítica tem vindo


a chamar a atenção para que todos estes
elementos se situam numa escala local.
Defende, que se deverá acrescentar um
elemento de análise do global

Nova museologia segundo Peter Van Mensh (1990)


Peter Van Mensch caracterizou, na sequência da evolução da ideia de
ecomuseologia para nova museologia os seguintes elementos

• A mudança do objetos para a comunidade


• A ampliação do conceito de objeto museógico
• A preservação in situ
• Os conceitos de descentralização (polinucleado)
• A tendência para a conceptualização
• A racionalização da gestão dos museus (introdução de operações de
planeamento e gestão de recurso),
• A tendência para musealizar as instituições culturais, criando áreas de
expografia temporárias ou não

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Nova Museologia segundo Maria Célia (2000)
Maria Célia Moura Barrao, pelo seu lado, a partir do Brasil, define esta nova
museologia em 2000, como:

• O reconhecimento de indentidades colectivas


• A utilização da memória colectiva
• A tendência para a reconfiguração dos patrimónios (criar de novo)
• A atuação na museologia como prática social
• A socialização da preservação do objeto museológico
• A interpretação da relação da sociedade com o meio
• A predominância da ação da comunidade

Ecomuseologos
• Ana Mercedes Stoffel – Museu da Comunidade da Batalha
• Georges Henri Riviere – Museu do Homem Paris
• Hugues de Varine - Ecomuseu
• Isbel Vitor – Museu do Trabalha de Setúbal
• Jonh Kinar museus de vizinhança em Anacostia (USA)
• Maria Celia Moura Santos – Processos museológicoa na Bahia
• Mario Chagas – Museus de Favela no Rio de Janeiro
• Mário Moutinho. Museu de Monte Redondo
• Raul Lugo – Otaxepr e Nyarit
• René Rivard e Pierre Maylan – Museu do Quebec

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A crítica da nova museologia à ecomuseolgia

Alguns autores têm abordado a museologia social como uma proposta


interdisciplinar crítica que trabalha a partir da relação dos seres humanos como
os objetos socialmente qualificados num determinado cenário.

Autores como Mário Chagas, Mário Moutinho, Nestor Garcial Canclinni ou


Boaventura Sousa Santos tem chamado a atenção para os lugares de
patrimonialização como processos de tensão social suscetíveis de mostrarem
uma tensão libertadora ou reguladora. Os processos museológicos, numa
perspetival crítica situam-se ora numa dimensão de reificação (de libertação)
ora numa dimensão de revivificação (de regulação)

Na sua dimensão de libertação os processos museológicos:

• Procuram um espaço de pratica de liberdade


• Interrogam o tempo como descoberta da diversidade
• Iniciam processos de conhecimento que questionam o real acomo
proposta de ação comum

A esta dimensão, contrapõe-se a dimensão reguladora, onde os processos


museológicos:

• Organizam o espaço
• Controlam o tempo
• Vigiam e normalizam as práticas.

Esta crítica
permite
entender que
os processos
museológicos
são também
lugares de
afirmação de
poderes, que
ora exibem e

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afirmam hegemonias. Os processos museológicos constituem-se como espaços
rituais mas também se podem constituir como e lugares de passagem.

A crítica da museologia social aos Museus de Hoje


A oposição entre a reificação e revivicação nos processos museológicos permite
olhar para os museus de hoje em função da sua apropriação pela sociedade.

Para os museus tradicionais, que privilegiam o objeto e o espectáculo centram-


se na ilusão e na recriação do real. A museologia ou é uma arte do espetáculo
ou uma técnica de conservação que aplica de forma acrítica um dado saber.

Para os museus sociais, que privilegiam o encontro e a experimentação de


inovação social, centram-se na produção do cogito: do conhecimento e da
cidadania.

A museologia social faz uma crítica ao museus espetáculo na medida em que


estres processos se centram na produção de marcas. Há um processo de
mercantilização de objetos de referência (igrejas, fábricas, ruas da cidade,
edifícios notáveis) que face a sua
erosão são preservados como
marcas (do tempo no espaço). A
crítica da museologia social
estende-se igualmente às festas
reivivicantes. (os cortejos
históricos, romanos, medievais
ou de outros tipos, contrapondo
com a criatividade da festa social.

Museologia Social e Intersubectividade


Os museus socias, com base na comunidade usam os objetos para construir
histórias. Não são os objetos que contam uma história. A inversão desta relação
com o objeto, ou melhor a ultrapassagem desta relação entre os sujeitos com
os objetos permite colocar a museologia social no campo da relação da
intersubjticidade.

A museologia social constrói espaços e tempos de encontro e assume a sua


relação de reconfiguração dos poderes sociais na sua dimensão libertadora.

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Museologia Social e a lógica do Poder
A museologia social procura ultrapassar o impasse criado pela relação cultura
com natureza, assumindo a sua dimensão integral. Na sua lógica processual de
enfrentamento com o real a museologia social assume-se como uma
museologia emancipatória que procura reconstruir encontros. Nesse sentido, na
sua crítica ao paradigma do desenvolvimento contesta a noção de crescimento
infinito e propõe a regulação a partir do encontro e procura compatibilizar os
objetivos de curto
prazo com os de
longo prazo.

Comentários
De Osca Navarras Corral

La Nueva Museología fue un movimiento contestatario. Con le tiempo sus


postulados fueron asumidos, al menos en la teoría, por la «Museología
Tradicional», haciendo que la la Nueva Museología dejase ser nueva y mutase
hasta lo que conocemos como Museología Social, un espacio donde entra toda
experiencia que potencia la función social del museo.

En este proceso la la Museología Social creo ha dejado de tener como uno de


sus primeros objetivos realizar una crítica a los museos espectáculos. Era un
camino que conducía al «infinito». Las experiencias comunitarias que se están
produciendo por todo el mundo adoptan los postulados de la Museología Social
porque son los que mejor se adaptan a sus condiciones y necesidades y porque
son los que pueden ayudar a resolver los interrogantes y problemáticas de cada
comunidad.

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Conclusão
A oposição entre a reificação e revivicação nos processos museológicos permite
olhar para os museus de hoje em função da sua forma de apropriação pela
sociedade. Para os museus tradicionais, que privilegiam o objeto e o espetáculo
centram-se na ilusão e na recriação do real. A museologia ou é uma arte do
espetáculo ou uma técnica de conservação que aplica de forma acrítica um
dado saber. Para os museus sociais, que privilegiam o encontro e a
experimentação de inovação social, centram-se na produção do cogito: do
conhecimento e da cidadania. A museologia social faz uma crítica aos museus
espetáculo na medida em que estes processos se centram na produção de
marcas. Há um processo de mercantilização de objetos de referência (igrejas,
fábricas, ruas da cidade, edifícios notáveis) que face a sua erosão são
preservados como marcas (do tempo no espaço). A crítica da museologia social
estende-se igualmente às festas reivivicantes, (os cortejos históricos, romanos,
medievais ou de outros tipos), contrapondo com a criatividade da festa e da
produção de bens sociais.

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Bibliografia
Chagas, Mario (2000). “Memória e Poder: dois movimentos”. In Cadernos de
Sociomuseologia nº 19. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias,
Lisboa. 2000

Filipe, Graça e Varine-Bohan, Huges (2015). “Que future para os Ecomuseus?”


in Alamden- II série, nº 19, janeiro 2015, pp 21-35

Moutinho, Mário (1989). Museus e Sociedade, Museu Etnológico de Monte


Redondo, Monte Redondo 1989

Moutinho, Mario (1993). Sobre o conceito de museologia social, in Cadernos de


sociomuseologia, nº 1

Pereira, Pedro Cardoso (2010). O Património perante o Desenvolvimento,


Lisboa, ULHT, Tese de Doutoramento em museologia

Pessoa, Fernando (1992). – Museologia nas Áreas Protegidas.in Correio da


Natureza, nº 17, pp. 38-39, Serviço Nacional de Parques Reservas e
Conservação da Natureza. 1992. Lisboa.

Lopes, César L, Historia e Ideias da nova museologia. (1988) In: Textos de


Museologia. Cadernos do Minom 1. MINOM, Lisboa, 1991.

Pessoa, Fernando (1993).Sobre ecomuseus e museus comunitários

Primo, Judite dos Santos (1999). “Pensar contemporaneamente a museologia”


in Cadernos de Sociomuseologia, nº 16

Primo, Judite dos Santos (2008). Museus locais e ecomuseologia - Estudo para
o ecomuseu da Murtosa, in Cadernos de Sociomuseologia, nº 30

Rivière, Georges Henri. Definición evolutiva del ecomuseo. Revista Museum,


vol. XXXVII, n°148. Imágenes del ecomuseo. Paris: Unesco, 1985.

SANTOS, Maria Célia Teixeira Moura. (2000) Reflexões museológicas: caminhos


de vida.Cadernos de Sociomuseologia n.º 18, Universidade Lusófona de
Humanidades e Tecnologias, 2000. Lisboa.

VARINE-BOHAN, Huges (2012) As Raízes do Futuro: O Patrimônio a Serviço do


Desenvolvimento Local,Porto Alegre: Medianiz.

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QUE FUTURO PARA OS ECOMUSEUS

Por Graça Filipe3 e Huges de Varine4

Reflexão sobre os movimentos de experimentação museal iniciados nas décadas


de 1960 e 1970, que conduziram à afirmação da “nova museologia” e dos
“ecomuseus”. Os autores traçam uma prospetiva da evolução deste movimento
no curto e médio prazo, com
base no estudo de casos e na
análise detalhada dos riscos, as
tendências e os desafios que
enfrentam os ecomuseus para
cumprir a sua missão de gestão
do Património ao serviço da
sociedade5.

NOTA da Redação. Por vontade dos autores, este texto deverá ser lido
na sua versão publicada na Revista Almaden, abaixo referenciada.

Em breve neste espaço será incluída a leitura crítica deste artigo.

1. O ecomuseu: meio século de experimentações


Os ecomuseus nasceram de diversos movimentos de experimentação museal
nos anos 60 e 70 do século passado, originários de iniciativas locais, em
contextos locais, sem normas impostas e sem concertação entre os promotores
dos projetos. O México criou, sucessivamente, museus nacionais revolucionários
pelo seu conceito e a sua museografia (1964), museus locais, museus escolares
e museus comunitários. Nos Estados Unidos, as lutas pelos direitos cívicos
geraram os “neighborhood museums” (museu de vizinhança), dos quais o de
Anacóstia foi o mais espetacular, devido a John Kinard, apadrinhado pela
Smithsonian Institution (1966). Em África, na Nigéria recentemente tornada
independente, um museu nacional foi criado pelas diferentes comunidades
envolvidas na construção da unidade nacional (1963). Em França, um conjunto
de circunstâncias levou à criação do museu, mais tarde chamado ecomuseu, da
comunidade urbana Le Creusot-Montceau (1972). Na América Latina, a Mesa
Redonda de Santiago (1972) adotou o conceito de “museu integral” ao serviço
da sociedade.

3
Graça Filipe – Museóloga, Ex diretora do Ecomuseu do Seixal
4
Huges de Varine – Ecomuseólogo, Ex diretor geral do ICOM
5
Texto publicado em Almaden- Revista II série, nº 19, janeiro 2015, pp 21-35

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Foi a partir da Conferência Geral do ICOM de 1971 que estas iniciativas,
multiplicando- -se, ganharam progressivamente um sentido e um nome, de
“nova museologia”. Como toda a instituição que pretende ser radicalmente
diferente sente muitas vezes a necessidade de ter um novo nome, a palavra
“ecomuseu”, inventada num outro contexto, foi rapidamente adoptada pelos
militantes desta nova museologia, para se demarcar dos museus tradicionais e
tentar definir novas características. Apesar do termo não abarcar senão uma
pequena parte do campo da nova museologia, prestando-se mal a definições
demasiado limitativas, convencionaremos neste texto utilizá-lo para representar
todas as instituições estabelecidas sobre um território, onde é gerido o
património de uma comunidade, para e por essa comunidade.

Resultante deste processo, o ecomuseu é uma inovação metodológica que deu


prova de eficácia, tanto para a ação cultural, como para a valorização do
património e para o desenvolvimento local. Mas é de uma grande fragilidade,
pois raramente atingiu a fase de reconhecimento institucional. Responde mal às
regras e às normas fixadas para os museus e os outros equipamentos culturais.
Envelhece mal, pois está estreitamente ligado aos seus fundadores e ao
momento da sua criação. Apresenta uma grande diversidade de modos de
organização, de financiamento, de relações com o mundo político-
administrativo. É sobretudo um lugar de experimentação museal e patrimonial:
nesta qualidade, pode ser confrontado com insucessos, rejeições por parte da
comunidade ou da
administração, derivações para
uso económico ou por
folclorização. Tudo isso justifica
a questão que colocamos no
nosso artigo.

2. Uma prospectiva indispensável


É por certo útil e intelectualmente satisfatória a prática quotidiana da
ecomuseologia (e da ecomuseografia), a que outros chamam sociomuseologia,
ou estudar e analisar a teoria e as práticas passadas e atuais dos ecomuseus,
mas é também necessário questionar-se se e como é que este movimento vai
viver e prosseguir nos próximos anos. Com efeito, para já na Europa, mas
também fora dela (por exemplo, no Japão), as restrições de financiamentos
públicos a todos os níveis, do nacional ao regional e ao local, conjugam-se com
as tentativas para controlar e normalizar o uso do termo museu, mesmo sob a
forma ecomuseal.

Também se deve colocar a questão do futuro mais distante, daqui a uns 20 ou


50 anos. Será o ecomuseu reintegrado na norma dos museus, por uma simples

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musealização progressiva do património, sob a forma da classificação de um
crescente número de edifícios e de sítios e através da extensão das coleções
adquiridas, postas em reserva ou expostas, o que retirará progressivamente
cada vez mais objetos da vida cultural e social? Ou o ecomuseu prosseguirá na
via da inovação para acompanhar as mudanças da sociedade e a extensão da
noção de património vivo, utilizado, em transformação, em criação, sob a
responsabilidade da comunidade? Ou então, o ecomuseu vai simplesmente
atrair sob a sua denominação – ainda que raramente naquilo que é o seu
espírito – inumeráveis museus locais já existentes, onde se conservam coleções
de etnologia, de arqueologia, de história, de indústria, que em França foram
agrupados com os ecomuseus na categoria de “museus de sociedade” ?

Por outro lado, podemos colocar a questão da validade do termo “ecomuseu”,


que abarca tantas realidades diversas, mas não confirma automaticamente a
presença e a interação dos três termos: território, património, comunidade.

3. Três vias de método


Vamos basear-nos numa série de exemplos escolhidos em vários países, mas
privilegiaremos a nossa experiência pessoal ligada a dois ecomuseus que
apresentam a característica comum de serem relativamente antigos, portanto
de nos permitirem estudar a sua evolução num espaço temporal: o ecomuseu
de Creusot-Montceau, em França, cuja fundação remonta a 1972, e o ecomuseu
do Seixal, em Portugal, criado em 1982 como museu municipal e a partir de
1983 denominado como ecomuseu. Os dois conheceram evoluções diferentes
mas podem ser considerados como representativos das grandes linhas da
ecomuseologia.

– O ecomuseu de Creusot-
Montceau nasceu de uma
encomenda política, mas em
seguida tomou a forma de
uma associação comunitária,
agrupando o conjunto das
partes interessadas no
património de um território
de 16 municípios industriais e
agrícolas. Conheceu crises internas e externas, várias reformas estatutárias,
para finalmente se tornar, em 2012, um museu de coleções, uma instituição
científica e cultural dependente administrativa e tecnicamente da Comunidade
urbana de Le Creusot-Montceau. A sua função turística foi desenvolvida a partir
dos anos 90 do século XX.

– O ecomuseu do Seixal é uma instituição municipal desde que foi criado,


destinado a gerir o património de todo o território do concelho do Seixal,
polinucleado, apoiando-se fortemente na participação e na memória dos
habitantes, em particular ligadas ao trabalho, à indústria – especialmente à

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construção naval e à navegação, à moagem, à cortiça, aos explosivos, à
siderurgia – e à história social. Funciona essencialmente para a população do
Seixal e dá uma particular atenção à programação de atividades para os jovens
em idade escolar, mas desenvolve também iniciativas destinadas aos públicos
exteriores. O seu centro de documentação, os objetos, os edifícios e os sítios
que gerem mais diretamente constituem objeto de uma intensa atividade de
investigação científica e de valorização museográfica.

A partir destes dois exemplos, e de outros tomados tanto no Brasil como em


Itália, vamos colocar três séries de questões, que servirão de guias para uma
reflexão sobre três grupos de questões quanto ao futuro do ecomuseu:

• Que riscos os ecomuseus encontram ou podem encontrar no presente e


no futuro, sobretudo devido ao seu carácter inovador e não conformista – ou
mesmo, como alguns diriam –, heterodoxo ou herético, em relação à norma
museal internacional?

• Que tendências se operam atualmente ou se delineiam, no quadro das


estruturas e instituições locais de que fazem parte os ecomuseus, e que
impacto têm sobre eles?

• Que desafios vão ser exigidos aos ecomuseus, pelas escolhas, pelas
tomadas de decisão e pela invenção de métodos e de meios novos, para que
estejam aptos a desempenhar um papel próprio, nos seus territórios e nas suas
comunidades?

É das respostas a esta


série de questões que
dependerá, a nosso
ver, a capacidade dos
ecomuseus, não
somente para
sobreviverem, mas
sobretudo para
cumprirem a sua
missão de gestão do
património ao serviço
da sociedade.

4. Quais são os riscos?


Como acontece com toda a inovação que, felizmente, por um lado, ainda não
tenha sido congelada e, por outro, infelizmente, não tenha obtido o
reconhecimento das estruturais culturais oficiais, tal como sucede com
frequência, e que, além disso, se mantenha predominantemente experimental
e, portanto, instável, o ecomuseu é confrontado com um grande número de
riscos, devidos à sua envolvente institucional, social e política. Para evitar que

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 26


tais riscos destruam o ecomuseu, de alguma maneira, é necessário ter
consciência deles.

Mas o exercício é difícil, porque não há dois ecomuseus semelhantes e se, por
comodidade, aqui adotamos a palavra ecomuseu, já vimos anteriormente
tratar-se na verdade de uma nebulosa, ou talvez de uma constelação de
projetos locais, com características, dimensões e denominações diferentes.
Portanto, da nossa seguinte lista de riscos convirá referenciar, para cada
situação em particular, aqueles que são reais e os mais perigosos para a
existência e para o futuro de um determinado projeto. Tentaremos enumerar
aqui esses riscos, sem os ordenar segundo uma ordem específica, para não
privilegiar um ou outro, nem influenciar o leitor.

4.1. O risco político


O território é um espaço natural e cultural, mas é também político. O
ecomuseu, por não ser uma instituição clássica, porque recorre a objetivos e a
métodos não clássicos, porque pretende mobilizar a fazer participar a
comunidade de cidadãos, muitas vezes fora das estruturas e das lógicas
administrativas, pode gerar conflitos, ou tornar-se objeto de um
“aproveitamento” político, ou ser uma fonte de alienação, sob a capa de
inovação e de uma
linguagem moderna.
Também acontecem
mudanças de
atitudes políticas, por
ocasião de eleições
ou de crises internas
no poder local, por
vezes até devido à
hostilidade de um
simples autarca. Os
eleitos podem tentar
instrumentalizar o ecomuseu, tomando-o como instrumento de manipulação
dos cidadãos, tendo em vista projetos de ordenamento de território, de
atentados ao ambiente cultural e natural, por exemplo em situações
relacionadas com ciclos eleitorais. Há quem veja no ecomuseu um meio de
reforçar uma identidade local, para excluir elementos exógenos da comunidade.
Outros centram os seus interesses no impacto da valorização do património
sobre o turismo. O poder local não irá abandonar o património e as instituições
que o representam (museus, bibliotecas, arquivos, associações locais) para
responder às exigências sociais maioritárias que o pressionam, para dar
prioridade ao emprego, à saúde, à educação ou ao lazer?

Como se poderá assegurar ao ecomuseu, seja qual for o seu estatuto e a


origem do seu projeto, uma verdadeira independência, para as suas escolhas e

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os seus programas, face a estes riscos? Esta questão é tanto mais crítica,
quanto os cidadãos, individual e coletivamente, em comunidade, não estão
quase nada habituados a assumir a responsabilidade do seu património comum
e a desempenhar um papel efetivo no desenvolvimento do território.

4.2. O risco económico


Mesmo no caso de os ecomuseus serem no início e essencialmente projetos e
acções levados a cabo por voluntários, militantes, associações ditas “sem fim
lucrativo” e, sobretudo, nos casos em que são operacionalizados por
profissionais, ligados ou não aos poderes locais, têm necessidade de meios
humanos e materiais, portanto de orçamentos e de fontes de recursos
regulares.

Ora, após o início do movimento dito da “nova museologia”, os projetos têm


sobretudo o apoio financeiro público, tomando habitualmente a forma de
subvenções de investimento ou de funcionamento, normalmente anuais ou,
mais raramente, plurianuais. Esses orçamentos de base são completados por
recursos obtidos junto de fontes diversas, públicas ou privadas, ou do
mecenato, a partir de dossiês de projetos negociados ou de candidaturas a
programas.

Ora não só esses modos de


financiamento conduzem a
uma forte dependência dos
poderes públicos e da sua
“boa vontade” ou das suas
exigências (referidas no
parágrafo e no risco
precedentes), como também
são precários. Tanto mais
que a sua obtenção depende
de arbítrios políticos da
parte dos decisores: se os créditos disponíveis diminuem, ou se a procura social
exerce uma pressão mais forte sobre urgências sociais, as pretensões do
ecomuseu passam muitas vezes a segundo ou a terceiro plano de prioridades.

Aquilo a que atualmente se chama a “crise” económica e social, mas que em


parte talvez seja também uma viragem durável do crescimento em proveito dos
países emergentes, assim como as novas necessidades geradas pelas
alterações climáticas e a tomada de consciência ecológica, constituem outras
tantas ameaças para as instituições culturais, estruturalmente frágeis e pouco
reconhecidas.

Os recursos próprios dos ecomuseus são, na melhor das hipóteses, fracos e


imprevisíveis, quando decorrem de receitas turísticas e de produções locais
tradicionais em processo de redescoberta e de modernização.

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Quanto aos mecenas, as suas decisões não são induzidas por lógicas de
desenvolvimento ou de património, mas pelo interesse pessoal desses mecenas,
a título individual ou coletivo, por um ou outro projeto.

É assim que as instituições bancárias italianas, quase tão burocráticas quanto


os poderes públicos, afetam os seus créditos a partir de critérios definidos por
comissões inteiramente estranhas aos territórios e aos projetos que lhos
solicitam.

Para os ecomuseus, pelo contrário, pelo menos para aqueles que procuram um
certo profissionalismo, os orçamentos aumentam sem cessar, devido ao custo
dos salários do pessoal, das prestações externas que seguem a inflação ou a lei
do mercado, e também às normas nacionais e europeias cada vez mais
exigentes (acessibilidade, segurança, em particular).

Nessas condições, como


tornar o ecomuseu capaz de
cumprir as suas missões de
gestão patrimonial, de
educação escolar e popular,
de adaptação à mudança
social, de acolhimento dos
visitantes, de animação
comunitária? Como
demonstrar aos
financiadores tradicionais o
seu papel de instrumento insubstituível do desenvolvimento local, cultural,
social e económico? Como fazê-lo subir na hierarquia das prioridades políticas e
administrativas?

4.3. O risco de mudança de geração


Mesmo quando o seu projeto é fruto da decisão de uma pessoa, de uma
associação ou de uma administração, um ecomuseu é a criação de uma
geração, num dado momento da história do território e da sua população. Se
esta é composta principalmente de mineiros, ou de agricultores, ou de artesãos,
aquele decisor responderá aos gostos, às preocupações, às necessidades dessa
população, ou de uma parte mais activa desta.

Passado o tempo e quando uma nova geração activa acede ao poder de


iniciativa e de decisão, o ecomuseu, fundado pela geração precedente, mantém
o seu interesse para a nova? A sociedade mudou, as atividades do passado
podem ter desaparecido, o olhar sobre o património é diferente. Se a mina
fechou, se os técnicos agrícolas mudaram, a importação dos bens de consumo
fez desaparecer numerosos pequenos artesãos e comerciantes, se o território
sofreu uma desindustrialização, a população ativa passou a estar
predominantemente ligada aos serviços, o passado pode parecer menos

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 29


importante, ou a sua interpretação pode ser diferente. E a terceira geração
estará ainda mais distante dos conceitos iniciais. Como acompanhar a mudança
em tempo real?

A questão do voluntariado e do profissionalismo coloca-se aqui. Os profissionais


estão provavelmente mais aptos a acompanhar a evolução do território e das
necessidades da comunidade, mas tendem a substituir os usuários, tanto na
decisão como na acção. Os voluntários, saídos da população, pertencem
frequentemente à geração precedente e as suas escolhas ressentem-se. Além
disso, sendo em geral mais velhos, têm uma disponibilidade limitada, pelos
seus projetos pessoais, pelas suas responsabilidades familiares e pela sua
saúde. A geração “ativa”, a dos 30-50 anos, está pouco ou não está disponível
e não se compromete fora do seu trabalho e da sua família. Enfim, os jovens
têm uma cultura própria e não praticam o ecomuseu, habitualmente, fora do
quadro de programas escolares, portanto fazem-no sobretudo como um público
cativo.

O ecomuseu de Creusot-Montceau tentou remediar o resultado da interacção


dos referidos fatores, durante quarenta anos, passando por diversas crises,
para finalmente se institucionalizar e renunciar à participação comunitária.

No Ecomuseu
Municipal do Seixal,
sob a tutela do
poder local, a
mudança de geração
dos autarcas teve
reflexos evidentes
tanto ao nível das
escolhas de novos
projetos, por vezes
em detrimento de
anteriores projetos de aproveitamento do património, como ao nível das formas
de interação com a população. Aliás, os dois aspetos tornaram-se fatores
importantes para a vida do Ecomuseu, dado que novas áreas urbanizadas
trouxeram novos habitantes e outras mudanças ao território, exigindo um maior
esforço da própria equipa técnica do Ecomuseu. Apesar das tentativas de vários
membros da equipa, investigadores e mediadores, que procuraram integrar a
participação de elementos da população nos inventários e na programação de
exposições, a dependência incondicional do poder político e a chegada de uma
nova geração profissional tornaram cada vez difícil pôr em prática a
participação comunitária.

Como fazer evoluir o museu ao ritmo das gerações, tentando visioná-lo para
uma geração adiantada e não o deixar numa geração atrasada? Será isto uma
utopia? Um museu pode ultrapassar os primeiros 20 ou 25 anos sem declínio no

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 30


espírito dos habitantes e tornar-se progressivamente, na melhor das hipóteses,
um museu clássico, de vocação prioritariamente turística?

4.4. O risco da não-pertinência


Para além da questão do ritmo das gerações, que se aplica sobretudo à
comunidade, enquanto detentora (shareholder) e usuária (stakeholder) do seu
património, podemo-nos colocar o problema do olhar que têm sobre o
ecomuseu os outros stakeholders, enquanto elementos exteriores interessados,
tais como os eleitos, os agentes turísticos, os empregadores locais, a
administração do património, as associações, os investigadores e docentes de
todos os níveis. Concordam com os princípios, os programas, os modos de ação
do ecomuseu, encontram neste um interesse suficiente para o apoiarem
moralmente, materialmente, intelectualmente e politicamente?

Pois se o ecomuseu lhes parecer inútil, ou não suficientemente útil, corre-se o


risco de que aqueles o abandonem aos seus próprios meios, insuficientes, ou
que procurem tomar o seu controlo. Tanto mais que todas as partes
interessadas têm elas próprias ritmos de evolução e de mudança diferentes, e
não têm por hábito considerar a comunidade como detentora de um direito
prioritário na gestão
e na utilização do
seu património.

Como dar ao
ecomuseu uma
“plasticidade”
suficiente para que
possa ser
reconhecido como
útil e pertinente pelo
maior número
possível dos atores de desenvolvimento local, que consideram ter legitimidade
para se interessar pelo património? Voltaremos a estas preocupações ao
abordarmos a governança do ecomuseu, a que se deverá a possibilidade de
coabitação de todas essas legitimidades nas instâncias decisórias, ao lado da
legitimidade da comunidade e dos seus membros.

4.5. O risco de interesses particulares


De que participação falamos? Nunca acontece ser a população inteira a tomar
tal atitude, mas sim grupos, associações, apaixonados do passado, militantes
do desenvolvimento local e do património, uma minoria atuante que contribui
para mobilizar pontualmente os outros cidadãos sobre projetos concretos de
interesse geral. É normal que assim aconteça e a participação dos habitantes é
um percurso lento de efetuar, quanto mais não seja porque a maioria dos
cidadãos não está pronta a agir coletivamente, fora do sistema de democracia

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 31


de representação que é norma na Europa. Mas é um verdadeiro risco e
sabemos como está muitas vezes presente nos ecomuseus, devido ao seu modo
de criação. Estes assentam efetivamente, à partida, em poucas pessoas e
hipermotivadas. A motivação destas é geralmente o interesse geral, o serviço
da comunidade, a preocupação pelos recursos patrimoniais e o desenvolvimento
do território. Todavia, encontramos por vezes proponentes de projetos que
agem sobretudo em nome próprio, por interesse de carácter erudito, ou como
colecionador, ou agente de turismo local ou por ambição política. Têm
tendência para adquirir e assegurar não uma “liderança de serviço”, mas um
papel dominador no seio da sua comunidade. Pode também ocorrer o risco de
uma vontade exterior, atuando em nome do bem dos habitantes e do seu
património, por eles, mas sem eles. Ou então o desejo de controlar uma
iniciativa local passível de servir fins políticos e económicos, de ordem pessoal.

Como evitar tais desvios? Será necessário recorrer à “normatividade” do


ecomuseu, com um caderno de encargos muito preciso, que imponha o respeito
de normas, em detrimento da inovação e da diferença? Como conciliar o apoio
dos poderes públicos locais, das universidades, das “personalidades” locais,
com as intenções mais desinteressadas que eles tenham ou que se suponha
terem?

4.6. O risco da coleção


Lembraremos aqui que, segundo o conceito base de ecomuseu, a coleção não
está no centro do projeto ecomuseal. De algum modo é resultante da missão de
gestão do património do território e da comunidade associada ao ecomuseu. O
ecomuseu pode ser herdeiro de uma coleção, pode constituir uma a partir de
doações espontâneas, ou para
proteger um conjunto de objetos
ou um sítio em perigo aos olhos
da população, etc. Mas cuidar da
coleção ou o seu
acrescentamento não devem
prevalecer sobre a gestão do
património global da
comunidade.

No ecomuseu há porém a palavra museu e com frequência os ecomuseus são


submetidos, a maior parte das vezes contra a sua vontade, a leis e
regulamentos comuns a todos os museus e que conferem à coleção o lugar
principal (veja-se, por exemplo, a definição do Conselho Internacional de
Museus). Também para os membros da comunidade todo o museu, ainda que
precedido do prefixo “eco”, deve acumular uma coleção e conservá-la como
tesouro da comunidade. E as doações que não se podem recusar, ou as
recolhas mais ou menos espontâneas, por exemplo por ocasião de inventários

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 32


ou de exposições, conduzem à criação de uma coleção cada vez mais invasiva e
exigente.

No Ecomuseu do Seixal, a constituição de um grande acervo e a dificuldade de


controlo das incorporações, principalmente devido à tentativa de dar resposta
às expectativas expressas por muitos habitantes locais, teve um duplo efeito de
renovação das práticas ecomuseais, mas constituiu também um indubitável
fator de crescimento do orçamento necessário ao funcionamento. O debate
sobre a patrimonialização e o balanço da gestão patrimonial, uma vez que no
Seixal o ecomuseu foi assumido como “serviço de património” no âmbito
territorial, são cruciais para compreender os atuais problemas e encarar
soluções para o futuro do Ecomuseu.

O risco é portanto o de vermos o ecomuseu tornar-se a médio ou longo prazo


um museu comum e a coleção mobilizar a maior parte dos seus meios em
pessoal, em espaço e no respetivo orçamento. Mesmo se o ecomuseu, no início,
não tem edifício próprio e trabalha realmente sobre o conjunto do território, vai
acabar por ter
necessidade de
armazenar a sua
coleção, de a
inventariar, de a
conservar e proceder a
algum restauro, de
investir na organização
dos espaços e em
equipamentos. É o que
progressivamente
aconteceu também no
ecomuseu de Creusot-Montceau, ou no de Fourmies-Trelon, no Norte de França.

O ecomuseu é então literalmente sufocado pela quantidade de objetos, de


documentos e pelo tempo que eles requerem, sem contar o efeito induzido na
maior parte dos profissionais, que ás vezes se transformam inconscientemente
em colecionadores, sendo esta uma tendência inerente ao especialista em
património: fica-se fascinado por tal ou tal objeto que se quer estudar, depois
conservar, proteger, mesmo se é para o fechar no fundo de uma sala de
reserva.

O Ecomuseu Municipal do Seixal trabalhou durante vários anos na elaboração


de uma Carta do Património, assente quer num inventário de património
material, quer num levantamento e registo de memória oral junto de centenas
de habitantes locais, constituindo uma importante base de dados sobre o
território e o património reconhecido por grande parte da população, muito para
além do inventário do património musealizado.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 33


O princípio da “coleção ecomuseal” defendido pelo Ecomuseu du Fier Monde de
Montreal, para o distinguir da “coleção museal”, procura responder a esse risco.
A coleção do ecomuseu não é por si adquirida, conservada nas suas reservas,
mas aquilo que a compõe fica no seu lugar no território, ou em casa de
particulares, ou nos organismos públicos ou privados. Esses elementos são
simultaneamente incluídos no inventário do ecomuseu e confiados aos bons
cuidados dos seus proprietários ou vizinhos, permanecendo disponíveis para ser
eventualmente utilizados nos programas de atividades do ecomuseu.

Poderá esta resposta generalizar-se, ou outras serão possíveis, tais como a


recusa da doação, ou ainda a limitação de uma eventual coleção ao número de
objetos necessários para a exposição permanente e para as atividades
regulares? Enfim, como resolver o problema da gestão de coleções
preexistentes, inalienáveis, confiadas ao ecomuseu quando da sua fundação, ou
da transformação de um museu local existente em ecomuseu?

4.7. O risco da patrimonialização


Este risco está muito próximo do precedente, como já vimos. Inscrever um
objeto, um elemento da paisagem, uma tradição, uma canção no património
local, ao cabo de um processo participativo, como nos Mappe di comunità
italianos ou, de forma mais genérica, como no sistema de informação do
Ecomuseu Municipal do Seixal, é já dar-lhes um estatuto patrimonial. Isso não
equivale a uma proteção legal ou administrativa no sentido do inventário
nacional gerido em França pelo Ministério da Cultura, mas pode conduzir a tal,
nalguns casos. Sobretudo, pode dar lugar a “congelar” esse património, mais ou
menos equivalente a uma musealização, mesmo que permaneça ou no domínio
público ou sob domínio de privados. Essa espécie de imobilização do património
não lhe permitirá continuar a viver naturalmente, a ser utilizado, a circular no
território, se for o caso. Enfim,
a patrimonialização tem um
outro efeito perverso, aos
nossos olhos, que é o de poder
dar um valor de mercado a um
dado objeto ou edifício, e,
portanto, permitir, um dia, a
sua entrada no mercado, sem
relação com o seu carácter
cultural e afetivo.

Neste caso, o ecomuseu fica no fio da navalha, entre a valorização cultural, que
implica manter com vida o património reconhecido como tal pela comunidade, e
a valorização económica, que implica muitas vezes uma reutilização, sob formas
diversas, de elementos do património, sendo ambas importantes, a primeira
para assegurar a legitimidade e a sua credibilidade junto da população, a

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 34


segunda para fazer com que o património participe no processo de
desenvolvimento do território.

O ecomuseu pode ser ao mesmo tempo museu e empresa? Uma educação


patrimonial forte e permanente, dirigida a todos os membros da comunidade,
pode responsabilizar os habitantes e torná-los capazes de protegerem o seu
património sem o submeter a formas de conservação?

O ecomuseu pode aparecer, principalmente aos olhos dos responsáveis


económicos e políticos, como um ator positivo do desenvolvimento e não como
um conservador passadista, fechado sobre si próprio?

4.8. O risco da norma imposta


A maior parte das leis e regulamentos respeitantes aos museus aplicam-se
também aos ecomuseus, salvo em Itália e, talvez, na China. Ora esses textos
são estabelecidos a partir de uma definição de museu-instituição, que parte do
princípio da existência de uma coleção inalienável e que define as condições da
sua conservação, de estudo, de exposição, etc., e supondo a existência de um
edifício e o acolhimento de públicos. Os ecomuseus não podem responder a
normas baseadas nestes princípios.

Além disso, a tradição, senão a lei, classifica os museus em função de uma


“disciplina de base”, supostamente a que abrange a dominante científica
principal da coleção: um
museu é de etnologia, ou de
belas-artes, ou de ciências
naturais, ou de história. O
ecomuseu, que representa o
património de um território,
utiliza todas as disciplinas
mas não se reconhece em
nenhuma em particular.

Em França, um resultado
dessa política museal foi a criação, sob iniciativa da Inspection des Musées de
Province da Direction des Musées de France, de uma categoria de “museus de
sociedade”, no seio da qual se enquadram os ecomuseus. Estes últimos são,
portanto, considerados segundo os mesmos critérios dos museus locais de
etnologia, de artes e tradições populares, de história, de arqueologia, de
indústria, etc. E a Federação dos Ecomuseus e Museus de Sociedade é o
resultado desta confusão. De país in ventor do ecomuseu, a França assumiu um
retrocesso considerável, com algumas exceções.

Em Itália, pelo contrário, os ecomuseus permanecem claramente no exterior do


mundo dos museus tradicionais, graças à existência em muitas regiões de leis
regionais dos ecomuseus que lhes conferem definições específicas, retomando

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 35


sempre as noções de território, de património, de comunidade e, sob uma
forma ou outra, de função so cial da instituição. Neste país, novos riscos podem
aparecer: um formalismo demasiado grande conferido ao processo de redação
de cada lei, pondo em risco a originalidade de cada projeto e a sua adaptação
ao meio e ao território; a ligação à lei para obter subvenções correspondentes,
de museus locais que não tem nada de ecomuseus, contornando certos critérios
dessa mesma lei.

Perante esta situação geral, como garantir ao ecomuseu o seu carácter próprio,
deixar-lhe o direito à inovação, à experimentação? Mas também como
estabelecer relações de cooperação entre o sector “herético” dos ecomuseus e
os sectores mais ortodoxos dos museus e dos monumentos classificados,
sobretudo quando o território é, pelo menos parcialmente, comum? Como
escapar a uma contaminação pela norma museal, à “colecionite”, à
transformação da função social (respeitante à população) em função turística
(respeitante aos públicos)?

4.9. O risco do modelo


Cada ecomuseu é único. Cada ecomuseu é inovador no seu território, visto não
haver dois territórios semelhantes, duas comunidades idênticas, dois contextos
socioeconómicos e culturais similares, nem os conjuntos patrimoniais de um
território se assemelharem aos do território vizinho.

Portanto, não pode existir um modelo de ecomuseu, uma receita nacional ou


internacional que bastaria copiar, ou mesmo um manual de “boas práticas”
como é frequente obsessão das organizações profissionais e internacionais. E,
contudo, todos os que tiveram a experiência da criação e do funcionamento de
um ecomuseu foram
incessantemente
interpelados por pessoas
que queriam criar o seu
ecomuseu, ou um projeto
inspirado no “espírito
ecomuseu” e que não
sabiam como fazê-lo. É
uma tentativa natural, mas
em que não se deve
confiar.

O ecomuseu de Creusot-Montceau, nos anos 70 e 80 do século passado, foi


muitas vezes considerado como “o” modelo de ecomuseu. Vieram pessoas de
todo o mundo para o estudar. Mesmo em França os seus estatutos foram
copiados, ao ponto de se tornar objeto de recomendações oficiais da
administração dos museus para novos ecomuseus.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 36


Falou-se de filiação em relação a este ecomuseu, por exemplo pelo ecomuseu
de Bergslagen. Todavia, os melhores ecomuseus são aqueles que inventaram os
seus próprios projetos e as suas próprias soluções: são criações totais. Sem
dúvida, o interconhecimento entre ecomuseus é útil e desejável, para que as
ideias, os métodos, os projetos sejam partilhados e se enriqueçam
mutuamente. Mas sempre com independência e respeito pelo contexto local e
até mesmo pelas ideias próprias dos fundadores.

Como já referimos, no Seixal o Museu Municipal, criado em 1982, adotou a


designação de ecomuseu em 1983, depois de entrar em contacto com essa
nova realidade e por querer acentuar a especificidade da sua via experimental e
de participação de atores locais interessados no património. Em 1984, o diretor
do museu municipal do Seixal visitou o ecomuseu de Creusot-Montceau: dando-
se realmente conta da extraordinária semelhança entre os dois projetos, mas
de maneira nenhuma, nem nesse período, nem ulteriormente, se operou
alguma dependência, mesmo que fosse intelectual, do ecomuseu francês.

Parece possível encontrar soluções para esta problemática. A principal parece-


nos residir na cooperação entre ecomuseus e entre “ecomuseólogos”, em
grupos de partilha de experiências sobre uma base voluntária e de igualdade:
cada projeto pode ser
objeto de peer review, ou
arbitragem científica, para
usar um termo corrente no
meio académico.

Responsáveis
experimentados trazem
assim o seu olhar exterior
ao proponente do projeto.
Poder-se-á ir até um
acompanhamento
prolongado, mas não chegar necessariamente a uma consultoria. Assim
funciona em Itália, com o grupo Mondi Locali, ou no Brasil com a Associação
Brasileira de Ecomuseu e Museus Comunitários (ABREMC). De certo modo, as
“Jornadas Sobre a Função Social do Museu”, que se realizam há mais de 15
anos em Portugal, têm o mesmo papel.

Não será esta, também, a responsabilidade dos encontros nacionais e


internacionais de ecomuseus e de museus comunitários, a de ressaltar o
carácter inovador e único dos casos estudados como exemplos dos projetos
apresentados pelos participantes, mais do que as suas semelhanças,
procurando sempre evitar o jogo, estéril e consumidor de tempo, das
definições?

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 37


4.10. O risco da organização
Os ecomuseus têm estatutos diferentes, segundo os hábitos dos seus países
respetivos. Em França, têm habitualmente a forma de associações de pessoas
sem fim lucrativo, que vivem sobretudo de subvenções públicas. No Canadá,
são sobretudo “corporações”, uma forma de sociedade de interesse geral que
vive de contribuições públicas e privadas. No Brasil, são maioritariamente
fundações ou serviços ligados a municípios, por vezes também a associações.
Em Itália, são associações, cooperativas, serviços municipais. Em Portugal, são
sobretudo museus municipais e raramente têm utilizado a designação específica
e assumido o prefixo “eco”.

Na generalidade dos casos, o problema da sua organização é relativamente


independente do seu estatuto jurídico. Porque se coloca a questão da
representação da comunidade e das principais partes envolvidas no ecomuseu,
nos processos de decisão, assim como dos parceiros científicos e técnicos, dos
voluntários e dos profissionais.

Também sobre isto não há um modelo, mas identificamos sérios riscos de


afastamento dos princípios. Embora seja evidente que uma vontade ideológica
de democracia participativa total conduziria à ineficácia e ao caos, uma
governança demasiado estrita, sob pretexto de rigor, de profissionalismo e de
eficácia, poderia
matar a inovação,
a liberdade de
iniciativa e o
espírito de
experimentação.
Em todos os
casos, a
credibilidade do
ecomuseu e a sua
sustentabilidade
assentarão
largamente na
qualidade da sua organização, na sua flexibilidade e na coerência entre esta e
os objetivos sociais e culturais do projeto.

O ecomuseu é um empreendimento cultural que pertence ao sector da


economia social (ou terceiro sector) e que depende de um financiamento
híbrido, misturando recursos externos públicos e privados e recursos próprios
provenientes dos seus membros e da sua atividade.

Nesta qualidade, a sua organização deveria associar a comunidade, os poderes


públicos e os parceiros da sociedade civil, segundo modalidades adaptadas ao
seu estatuto jurídico.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 38


Como trazer ao ecomuseu, que é à partida um projeto colaborativo de pessoas
e de entidades locais interessadas pelo património e o desenvolvimento, uma
ajuda ao estabelecimento e ao funcionamento de um sistema organizacional
coerente com os seus objetivos e as suas necessidades em termos de meios?

4.11. O risco da profissionalização


Raramente os ecomuseus são criados por profissionais e ainda não existem
“ecomuseólogos” qualificados e reconhecidos como tal. Aliás, não existem
formações universitárias especializadas e naquelas em que se aborda
marginalmente o ecomuseu, ou são maioritariamente consagradas à
museologia tradicional ou destacam o sector do turismo.

O carácter essencialmente comunitário do ecomuseu explica o facto de aquele


ser, normalmente, ou obra de uma pessoa, ou, frequentemente, de um grupo
de pessoas membros daquela comunidade e ancorados no território, por vezes
também se tendo tornado residentes num período recente, mas ligados ao
património local. Trata-se de pessoas entusiastas, mas não especialistas, no
sentido profissional do termo. Estando decididas e disponíveis, oferecem o seu
tempo, a sua
energia, os seus
saberes, por vezes o
seu dinheiro, e
elaboram
progressivamente
um projeto,
geralmente fora do
comum, que em
seguida tentarão
levar a cabo. Se o
conseguirem,
provavelmente terão um dia que recorrer a profissionais pagos, quer para
trabalhos manuais e materiais, quer para as tarefas mais científicas e técnicas.
Os italianos procuram muitas vezes “cooperativas sociais” mais ou menos
especializadas na animação social e cultural.

No Creusot-Montceau, inicialmente recrutaram-se jovens locais pouco


formados, que em seguida se qualificaram até obter diplomas de formação
superior.

Mas, como em muitas associações, a entrada de profissionais numa organização


mantida por voluntários nem sempre corre bem. Os profissionais tendem a
assumir o poder, incluindo em domínios que são ou deviam ser da competência
da comunidade e dos fundadores, por exemplo sobre o programa. Além disso,
os salários e os diversos encargos que acompanham esse recrutamento
colocam problemas recorrentes de orçamentos e de financiamentos externos,

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 39


bem como de gestão de recursos humanos, que raramente são da competência
dos fundadores.

Contudo, em tempos de crise e de dificuldades financeiras, a existência do


ecomuseu assenta por vezes apenas nos voluntários, eles próprios tendo de
adquirir preparação, sem por isso se tornarem remunerados.

Porém, os voluntários às vezes desencorajam-se, cansam-se ou desaparecem,


enquanto os profissionais prosseguem a sua carreira noutro lado. Convém gerir
esses riscos num espírito de sustentabilidade do ecomuseu e de
sustentabilidade do património. Então, como encontrar um equilíbrio entre
voluntários e profissionais?

Como formar os primeiros e enraizar os segundos no território e torná-los


reconhecidos pela comunidade? Será necessário criar formação em
ecomuseologia, com os diplomas e a estandardização daí decorrente? Não se
poderiam criar formações profissionalizantes dirigidas tanto aos voluntários
como aos profissionais, essencialmente apoiadas na prática e na troca de
experiências entre ecomuseus?

5. Quais são as tendências?


Uma simples observação da atual inovação no campo da “nova museologia” e
da ecomuseologia permite identificar tendências mais ou menos localizadas,
algumas das quais são sem dúvida promissoras, favoráveis aos ecomuseus,
outras, pelo contrário, de agravamento de obstáculos
ao seu desenvolvimento. Tenta-se aqui descrever
algumas dessas tendências que nos parecem
evidentes. Cada leitor poderá refletir sobre outras,
que se revelem à sua volta, no plano nacional ou
mesmo no plano europeu ou internacional, que se
juntem a estas. É importante para o futuro dos
ecomuseus, como de toda a inovação frágil, olhar
atentamente para as mudanças que intervêm tão
rapidamente no nosso ambiente social, económico,
cultural e legislativo.

5.1. As legislações territorializadas


Vimos anteriormente que a maior parte dos países
não reconhecem os ecomuseus como uma categoria
legítima de estruturas de gestão patrimonial e que
normalmente estão presos à regulamentação dos mu seus comuns. Há,
contudo, excepções que poderiam multiplicar-se se os ecomuseus se tornassem
mais numerosos e adquirissem a credibilidade e a visibilidade no campo
patrimonial que ainda não têm.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 40


Note-se o caso, atualmente único, de grande número de regiões italianas que
adoptaram ou que preparam, no quadro largamente descentralizado deste país,
leis regionais dos ecomuseus.

A China parece estar em vias de chegar a um sistema aná logo, em várias


regiões, assunto tratado numa recente tese de doutoramento na Deakin
University. Podemos também assinalar o caso particular do México, onde os
“museus comunitários” são oficialmente reconhecidos no quadro do Instituto
Nacional de Antropologia e Historia e existem ao nível dos Estados federados,
ou a Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários (ABREMC) tem
refletido sobre um projeto de legislação, nacional ou ao nível de certos estados,
inspirada no exemplo italiano.

Tais decisões podem levar a estabilizar o ecomuseu, a assegurar-lhe um


mínimo de apoio público durável associado ao reconhecimento político e
administrativo, bem como a retirar-lhe progressivamente o caráter
experimental e realmente endógeno em certos territórios.

Uma outra fórmula consiste em reconhecer aos ecomuseus e projetos similares


a sua especificidade, o seu carácter experimental, a sua pertença a uma lógica
de serviço social. Isso foi feito na região Emilia-Romagna, em Itália. Nos casos
em que os municípios têm uma real capacidade de gestão autónoma e
inovadora do seu património, os ecomuseus estão muitas vezes ligados a um
serviço municipal de património que compre ende a proteção dos monumentos
classificados, a recolha da memória, o inventário participativo do património da
comunidade, sendo os ecomuseus
(independentemente das suas
designações e do seu estatuto
jurídico) reconhecidos como
instrumentos dessas missões nos
seus territórios.

Destas diferentes fórmulas


depende o futuro destes
ecomuseus e o apoio dos poderes
públicos. Resta protegê-los dos riscos de alienação dos projetos originais e de
instrumentalização, sempre presentes.

5.2. As estratégias de redes


Um pouco por toda a parte, as instituições culturais organizam-se em redes,
ora por iniciativa das próprias estruturas, ora por iniciativa dos poderes
públicos. O objetivo é melhorar a coerência, facilitar a formação dos atores e
agentes, mutualizar certos serviços, partilhar e tro car experiências sobre os
métodos, credenciar, através de um documento programático ou de uma carta
de intenções, mais ou menos negociada com os interessados, ou mesmo criar
um “lóbi” para a defesa dos seus interesses. As experiências de redes iniciadas

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 41


pelos próprios ecomuseus não conseguiram chegar a funcionar
verdadeiramente: por exemplo, na Noruega ou no Canadá (Québec). Em Itália,
cada região onde existe uma lei dos ecomuseus criou uma rede, que tem
sobretudo o propósito da permuta e da cooperação. Em França, já vimos
anteriormente que a Fédération des Ecomusées et Musées de Société foi
alargada aos museus ditos “de sociedade”, o que leva a uma confusão nos
critérios reconhecidos para a adesão à rede.

As associações ou agrupamentos voluntários de ecomuseus formam redes de


trabalho entre profissionais e responsáveis de ecomuseus. É o caso da Mondi
Locali em Itália, da ABREMC no Brasil, da Unión de los Museos Comunitarios no
Estado de Oaxaca, no México, dos Neuf de Transilie na região parisiense, em
França. O seu papel é de solidariedade, de formação recíproca, de cooperação
sobre projetos, de investigação aplicada sobre os métodos.

Constata-se, por outro lado, a existência de redes temáticas: museus de favela


ou de bairro urbano, museus indígenas ou autóctones, museus industriais, que
não usam necessariamente o nome de ecomuseus, mas que seguem os
mesmos valores e os mesmos princípios. Devemos também mencionar os casos
em que a rede abarca todos os museus de um grande território (metrópole,
província, estado, como no Brasil), ou ainda dispositivos de tipo cooperativo
que associam as estruturas culturais e patrimoniais pertencendo ao mesmo
território, com objetivos comuns de desenvolvimento da sociedade. Chamamos-
lhes “comunidades de
museus”, “sistemas de
museus” ou, em Itália,
“distritos culturais” ,
como aquele, muito
activo, de Val Camonica,
na Lombardia.

Que lugar podem aí ter


os ecomuseus, cujas
preocupações são muito
diferentes das dos
museus tradicionais (centrados na relação com as coleções e com os públicos)?

Como tirar o melhor partido possível desta tendência, sem contudo cair no erro,
sempre presente neste tipo de redes, da exclusão dos projetos que, por razões
eventualmente subjectivas, não respondem a critérios previamente fixados?

5.3. O aparecimento de novas fórmulas


Os promotores e responsáveis de ecomuseus estão geralmente muito presos a
este termo, enquanto outros atores dos patrimónios e da acção comunitária o
rejeitam ou o consideram muito pouco explícito. Além disso, o efeito de moda
que o envolve gerou por vezes criações de ecomuseus que mal respeitam os

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 42


seus princípios de base (território, património, comunidade). Tudo isso provoca,
em certos países, a vontade de se livrarem do termo ecomuseu, para procurar
outros nomes ou para voltar à forma simples “museu de…”, mesmo se não há
coleção, se a comunidade é o ator principal, e mesmo se o território está
perfeitamente delimitado e a ele se destina o projeto.

Conhecem-se, por exemplo, museus de rua, museus de percurso, museus


comunitários, museus de comunidades específicas (como foi o Anacostia
Neighborhood Museum nos anos 60 e 70 do século passado, que desempenhou
um grande papel no conceito de ecomuseu). Os museus de favelas no Rio de
Janeiro são exemplos característicos desta tendência recente.

Há também casos de projetos que não fazem referência nem ao museu, nem ao
ecomuseu, mas que deveriam realmente estar-lhes ligados, pois têm todas as
características que lhes são comuns: os Pontos de Memória, igualmente no
Brasil, os Parques culturais de Aragão (por exemplo, o de Maestrazgo de
Teruel), o Consórcio de desenvolvimento sustentável da Quarta Colónia, em Rio
Grande do Sul. Baseiam-se na valorização do património do território a partir
da mobilização e da responsabilização das populações e numa perspectiva de
desenvolvimento global.

Em Itália, em aplicação da Convenção Europeia da Paisagem (2000), o tema da


paisagem encontra-se nos nomes dos ecomuseus e é também objeto de
iniciativas particulares, sob a designação, por exemplo, de observatórios da
paisagem, que levam a
atividades de inventário, de
educação popular e de
valorização muito próximas
dos ecomuseus. Em
Portugal, reconhece-se a
influência dos princípios
ecomuseais em vários
museus criados nas décadas
de 80 e 90 do século
passado, nomeadamente
associados à valorização de património técnico e industrial, mas que optaram
na sua grande maioria por se enquadrar na formulação clássica de museu,
mesmo nos casos em que se reportam à “nova museologia” na sua
programação.

Todas essas experiências trazem aos ecomuseus ideias novas, que cada vez
mais se afastam do museu tradicional, colocando o acento principal no território
e no seu desenvolvimento, mesmo se o principal recurso continua a ser o
património no sentido mais lato. A comunidade humana continua a ser o actor e
o usuário principal. Por esta razão, quisemos, neste artigo, alargar o nosso
campo bem para lá da palavra ecomuseu. Também por isso, a observação das

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 43


novas tendências no terreno é tão importante para manter viva e criativa a
dinâmica ecomuseal, além das práticas semânticas.

5.4. A mobilização das partes interessadas


Vimos até que ponto a falta de recursos próprios dos ecomuseus e a redução
dos financiamentos públicos, devido às políticas de austeridade dos governos,
das regiões e das cidades, submetidos a uma pressão social acrescida,
fragilizam os projetos experimentais e pouco inscritos no panorama museal
tradicional. Um número crescente de ecomuseus, em diversos países, estão em
vias de proceder a uma revisão drástica das suas parcerias com aquelas que se
podem chamar as partes interessadas (stakeholders) do património e da acção
cultural. Nisso seguem o exemplo dado por numerosos grupos e projetos do
sector cultural, social, educativo e desportivo, que estão em vias de ser
abandonados pelas suas tradicionais fontes de financiamento público.

Nesta ótica, as autoridades públicas locais e regionais tornam-se interlocutoras


do ecomuseu, já não apenas no quadro das suas políticas culturais e do valor
intrínseco do património, mas devido aos recursos que esse património oferece
para a vida social, o desenvolvimento económico, o emprego, a manutenção de
produções rentáveis e a inserção de novos habitantes.

Os atores económicos locais e vizinhos, por seu lado, mostram interesse na


qualidade do seu quadro de atividade, na atratividade do território para os seus
empregados e sobretudo para os
quadros, na reutilização de
vazios industriais ou áreas de
antigo habitat pitoresco.

Devem também impedir a


poluição e a erosão física que as
suas actividades provocam no
património. Os estabelecimentos
de ensino primário, secundário e
superior necessitam dos
instrumentos pedagógicos oferecidos pelo ecomuseu e pelo território, das
oportunidades de investigação, de uma mediação com os detentores de
tradições.

Os agentes da indústria de turismo procuram no ecomuseu um pólo local de


acolhimento, de programação, de mediação, de construção de imagem, de
comunicação, permitindo otimizar os fluxos turísticos em função da capacidade
de receção do território e da população.

Os artífices especializados em profissões ligadas ao património encontram


oportunidades regulares na atividade do ecomuseu, em trabalhos de
conservação e manutenção, entre outros. As empresas exteriores ao território,

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 44


mas que encontram naquele tanto produtores como consumidores, têm
interesse no favorecimento do seu desenvolvimento e podem intervir a título de
responsabilidade social (o que é muito diferente do mecenato tradicional, que
apenas implica o gosto pessoal do dirigente). É entre todas as partes
interessadas que o ecomuseu encontra, ou pode encontrar, os voluntários que
lhe trarão a sua força de trabalho e contribuirão com as suas variadas
competências.

Resta a questão da mobilização daquelas partes interessadas que


habitualmente não consideram o ecomuseu senão como um hobby intelectual.
Há todo um discurso a inventar e a formular, uma demonstração que tem de
ser feita em termos compreensíveis para cada categoria de parceiros, para
suscitar o seu interesse e para facilitar a sua tomada de decisão para dar ao
ecomuseu apoio moral, humano e material, ou até mesmo financeiro.

Temos exemplos na ligação permanente e estrutural entre o ecomuseu de


Maranguape (Ceará, Brasil) com uma cooperativa de agricultores e uma escola
secundária; na cooperação histórica entre o Eco-museo de Val Germanasca
(Piemonte, Itália) com a Scopriminiera, que explora as minas de talco; com o
trabalho efetuado pelo Ecomusée PAYSALP (Haute Savoie, França) e uma
cooperativa leiteira para a promoção dos produtos desta e, em geral, dos
agricultores do território; nas relações muito estreitas que se estabeleceram
entre o ecomuseu de Santa Cruz (Rio de Janeiro) e as grandes empresas da
zona industrial vizinha, como Gerdau, Casa da Moeda, etc.

Entre algumas experiências do Ecomuseu Municipal do Seixal, destacamos a


ligação com os industriais de
panificação locais, no âmbito de
um projeto expositivo e
educativo sobre o ciclo cereal-
pão, em que aqueles
promoveram os seus produtos
ao longo de vários meses, num
dos núcleos do ecomuseu (o
Moinho de Maré, em Corroios),
servindo simultaneamente
objetivos educativos e de sensibilização para a saúde alimentar. Ou as relações
criadas com empresas e instituições associadas a actividades marítimas para
acções de valorização de profissões e da economia ligada ao mar.

A maioria dos ecomuseus ainda não estão habituados a essas negociações com
os parceiros que pertencem a outros sectores e outras lógicas, mas devem
aprender a existir nos seus territórios enquanto atores do desenvolvimento e,
portanto, estarem aptos a cooperar com o conjunto dos outros atores.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 45


5.5. O apelo a práticas de ordem económica
O ecomuseu torna-se por vezes um produtor e, por inteiro, um actor
económico. Algumas experiências foram tentadas a partir de lógicas de fileira,
da comercialização de produtos locais, do turismo de base comunitária. Essas
práticas integram o ecomuseu nas estratégias e nos planos de desenvolvimento
sustentável. Muitos ecomuseus, senão todos, já vendem, em lojas
especializadas, produtos “da terra”. Alguns vão mais longe e tomam a iniciativa
de intervir mais activamente na economia de proximidade, da produção à
comercialização. É assim que o programa piloto do Ecomuseo delle Acque del
Gemonese (Frioul, Itália) trabalha na criação de uma fileira económica com
todos os níveis de produção entre a cultura de um milho de montanha e a
comercialização de um pão tradicional segundo os métodos orgânicos atuais .

O Ecomuseu da Amazónia, em Belém (Pará, Brasil) assegura a formação


(capacitação) e o acompanhamento técnico de comunidades das aldeias para
um desenvolvimento de produções artesanais e hortícolas, destinadas ao
consumo familiar, assim como à venda nos mercados próximos ou nos sítios
turísticos daquela área.

Também podemos referir uma tendência que partiu do Québec nos anos 90 do
século passado, de criar economuseus , em que a produção económica rentável
prevaleceu sobre o trabalho comunitário e o serviço à população. Esta fórmula
pode facilmente derivar para a pura exploração
lucrativa de um elemento de património por
equipas especializadas, sem ligação real ao
conjunto da população. O ecomuseu local e o
movimento Mondi Locali, em Itália, organizam
todos os anos, em Argenta (província de
Ferrara, Emilia-Romagna), a participação activa
de uma quinzena de ecomuseus vindos de
todas as regiões de Itália na feira comercial
local para a promoção e a venda de produtos
locais dos seus territórios (artesanato,
enogastronomia, programas turísticos).

Os ecomuseus presentes ganham ali uma


visibilidade e uma experiência de novos
mercados reais ou potenciais, e os responsáveis
de cada ecomuseu são incitados a reflectir, com
os colegas, sobre questões de gestão, de
normas europeias, de fiscalidade, de qualidade e
de produtividade, o que será útil para eles próprios e para os pequenos
produtores locais que representam.

O turismo de proximidade e o ecoturismo, promovidos diretamente pelos atores


locais, com os capitais locais e apoiados em recursos lo cais, são uma forma
nova de integração do património no desenvolvimento endógeno. Requerem

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 46


uma mobilização concertada de todos, com reflexos positivos na economia do
território, em termos de empregos, de microempresas, de animação da vida
local, de formação de jovens, de utilização dos saberes dos mais velhos e de
reutilização do edificado.

Todas essas diversas práticas dão aos ecomuseus que habitualmente as


realizam uma credibilidade como atores e parceiros do desenvolvimento local. É
certo que o retorno no investimento e o volume de negócios são inicialmente
modestos, mas podem oferecer um caminho para o futuro. Os ecomuseus
poderiam assim, progressivamente, juntar-se ao vasto movimento da economia
social e solidária, denominada Terceiro Sector, que tende a ter uma importância
maior na economia dos territórios.

5.6. A ligação com as políticas do desenvolvimento


sustentável
Dado que o ecomuseu está estreitamente associado ao desenvolvimento do seu
território, relaciona-se naturalmente com o desenvolvimento sustentável e com
as diferentes actividades que o acompanham, todas elas mais ou menos
baseadas no património e na participação da comunidade. Quer se trate da
água, da energia, da reciclagem de resíduos ou da biodiversidade, o ecomuseu
tem um papel a cumprir na informação, na educação popular, na realização de
projetos, na observação da paisagem e das mudanças no quadro de vida.

O Ecomuseo del Paesaggio di Parabiago (no grande subúrbio Oeste de Milão)


está encarregado de criar e dar vida à Agenda 21 desse território e, nesse
âmbito, participa de
todos os projetos de
ordenamento, em
particular o do vale do
rio Olona. O
Ecomuseu de
Maranguape (Cea rá,
Brasil) foi criado na
sequência de uma
Agenda 21, para
assegurar a
continuação e
explorar os resultados daquela. Com efeito, as duas fórmulas são muito
próximas nas suas lógicas e nos seus métodos.

Além disso, o ecomuseu pode, e deveria, assegurar-se de que o património


cultural, material e imaterial, fosse integrado no processo da Agenda 21 e, em
geral, nas estratégias e nos programas de desenvolvimento sustentável dos
territórios. Muitíssimas vezes, com efeito, o desenvolvimento sustentável é
respeitante ao ambiente, em parte o social, mas praticamente nunca o cultural.
Ora não se pode ter uma visão de futuro “sustentável” sem que esteja

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 47


enraizado numa continuidade e numa diversidade cultural, e também sem que
a cultura e o património vivos sejam gerados com prudência e criatividade, para
os adaptar às mudanças da sociedade, das tecnologias e às influências do
exterior.

Nos casos citados anteriormente isso foi feito, mas também poderiam ser
referidos museus de populações indígenas (Brasil) e autóctones (Canadá) que
se empenham numa gestão do seu meio, tendo em conta não só princípios
ecológicos definidos por especialistas exteriores, como também o significado
espiritual de sítios, de objetos e de ritos que contribuíram, geração após
geração, para manter determinados recursos disponíveis para a sobrevivência e
a coesão da comunidade.

5.7. A generalização do digital


Os ecomuseus, como os museus mais tradicionais, apostam em valorizar as
“coisas reais”, os objetos, os monumentos, os sítios, ou então as “coisas
imateriais”. Mas atualmente a invasão das tecnologias digitais para a
informação e a comunicação, assim como para a investigação e a educação,
conduz a uma nova dimensão de toda a atividade baseada no património.

Isto é particularmente claro para o trabalho de inventário participativo: para


além de um primeiro inventário feito sobre o real, as técnicas de registo, de
catalogação, de reprodução, tornam possível uma exploração de meios
documentais, assim como uma implicação contínua da comunidade e de cada
um dos seus membros na investigação, no complemento e na partilha de
informações, no contributo de imagens, etc. O Google Maps, a
georreferenciação, as aplicações para smartphone são técnicas preciosas para
cartografar os elementos do
património, tanto para os
habitantes como para os
visitantes externos.

O método de audioguia
torna-se cada vez mais
utilizado, mesmo por
pequenos museus locais ou
por sítios do património
para fazer conhecer e
compreender o património
e o seu contexto, a sua história, os seus significados.

Através destes meios, os ecomuseus podem dar a conhecer e tornar acessíveis,


numa escala global, patrimónios que nunca seriam valorizados sem a
participação das próprias comunidades, nos seus territórios. O digital, que as
gerações mais jovens dominam melhor, pode também permitir associá-los aos
trabalhos do ecomuseu, mesmo fora do âmbito escolar, através das redes

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 48


sociais, das webTV que eles próprios realizam, das funções de webmaster, dos
blogues.

5.8. Uma organização territorial solidária


No momento em que a crise económica na Europa obriga a repensar as
relações entre os diferentes níveis de territórios e as escolhas orçamentais, há
lugar a uma reflexão sobre a organização e a planificação dos museus e do
património (juntando os monumentos, bibliotecas e arquivos), e sobre a
eventual cooperação entre eles, tendo em vista mutualizar as receitas e as
despesas, o pessoal, as actividades, a comunicação.

Muitas soluções são discutidas, mesmo se, até agora, um certo


conservadorismo e individualismo dos museus locais e dos seus responsáveis se
opõe ainda a iniciativas radicais e a alterações criativas dos modos de gestão:

• Começa-se a assistir a colóquios, a reflexões coletivas, mas daí só


raramente resultam decisões originais;

• Como já vimos, constituem-se redes de museus, mas raramente por


motivos de gestão e de economia, antes por razões mais frequentes de
colaboração administrativa e de realização de atividades em comum;

• Realizam-se agrupamentos ou fusões de pequenos museus, que se


tornam instituições polinucleadas, com um certo grau de autonomia para cada
elemento, mas com custos
comuns de pessoal e de
gestão.

Seja qual for a solução


adotada, para obter
resultados também eles
“sustentáveis”, é
indispensável fazer um
prévio diagnóstico da
situação à escala do
território, analisar a
situação particular de cada museu, sob diferentes ângulos (fundadores,
coleções, pessoal, meios habituais, interesse dos eleitos e das comunidades,
situação geográfica), seguidamente investigar, por concertação de interesses,
qual a solução aceitável para todos, assim como para as autoridades locais,
regionais e nacionais. Essa solução seria objeto, na medida do possível, de uma
cartografia dos elementos agrupados, de um organigrama e de convenções
formais plurianuais, para dar ao novo dispositivo uma visibilidade e uma
legitimidade fortes.

Em todo o caso, parece inevitável a aplicação, a partir de agora, de uma


verdadeira moratória sobre a criação de novos museus, assim como sobre a

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 49


extensão e a construção dos museus existentes. É irresponsável criar novas
necessidades de financiamento em funcionamento, para um futuro muito
longínquo, mesmo que os meios de investimento estejam imediatamente
disponíveis.

O princípio de base é sempre a solidariedade entre as forças do território que se


preocupam com o património e com o interesse das populações, isto é, com a
utilidade social do museu. O princípio é também a solidariedade entre os
museus de territórios vizinhos e sobretudo entre os respetivos responsáveis,
sejam eles voluntários ou profissionais.

5.9. Transformar os museus tradicionais


Sublinhamos enfim os crescentes esforços, da parte dos museus tradicionais e
dos museólogos que deles se ocupam, para adoptar o que se poderia chamar,
por analogia com as empresas privadas, uma responsabilidade social para com
o meio humano e patrimonial. Isso vai no sentido do que tinha sido
recomendado há mais de 40 anos pela Mesa Redonda de Santiago, que
precedeu a expansão dos ecomuseus e dizia então respeito exclusivamente aos
museus de arte e de ciências.

Portanto, esperamos que os ecomuseus se aproximem e cooperem para gerir


conjuntamente o património dos territórios, o vivenciado e o protegido.
Lembremos o caso do serviço educativo da Pinacoteca do Estado de São Paulo
(Brasil), que desenvolveu atividades consideráveis dirigidas às populações mais
desfavorecidas da cidade, às crianças de rua e aos portadores de deficiências.

O ICOM tem nestes últimos anos colocado em debate, por ocasião das suas
conferências gerais e das jornadas anuais dos museus, este tipo de tema,
talvez mais difícil de tratar nos grandes museus, de âmbito nacional ou
internacional, mas perfeitamente válidos para os museus regionais e de âmbito
territorial, que nas suas missões podem assumir serviços para as populações
próximas e orientar a utilização das coleções para benefício daquelas.

Os ecomuseus podem continuar a contribuir para esta mutação dos museus


tradicionais, dando aos seus profissionais o contributo dos seus princípios, das
experiências e métodos alimentados pela experiência de terreno e da conceção

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 50


que têm sobre a sua função social.

6. Quais são os desafios?


A situação actual, os riscos e as tendências anteriormente descritas exigem que
os ecomuseus identifiquem e aceitem os desafios que os aguardam, fazendo
escolhas, mesmo difíceis ou penosas, e adotando a abordagem integral
recomendada desde 1972 pela Mesa Redonda de Santiago. Isso supõe que os
fundadores e os responsáveis dos ecomuseus se ocupem não somente da
gestão do património no quotidiano, mas que se comportem como
empreendedores sociais e culturais, conscientes da importância política do seu
projeto e da necessidade de mobilizar para ele todas as forças vivas do
território.

6.1. Avaliar a utilidade social do ecomuseu


Como avaliar um ecomuseu, como determinar a sua utilidade social real? A
avaliação é um olhar dirigido à acção, aos objetivos, aos métodos, aos
resultados do ecomuseu. Não é uma mera opinião, exige um certo rigor e,
sempre que possível, a participação de atores e usuários que trarão as suas
próprias subjectividades, de maneira a confrontá-los e a partir deles retirar
orientações e propostas de modificações.

Não podemos aqui


elaborar um método e
um procedimento
adaptados a todos os
ecomuseus. Cada um
deve poder elaborar o
seu próprio processo
de avaliação. A par de
bibliografia importante
sobre a problemática
da qualidade e da
avaliação de museus,
na perspetiva da sua função social, existem trabalhos disponíveis sobre a área
específica que estamos a tratar, nomeadamente estudos realizados há alguns
anos em Itália por uma equipa da Universidade de Newcastle

A região da Lombardia adotou um conjunto de critérios e de indicadores para


gerir o reconhecimento dos ecomuseus de acordo com a lei regional de 2006.
Tentemos apenas elencar, a partir da nossa própria experiência, as questões
que consideramos pertinentes para determinar a utilidade social, que é sem
dúvida o argumento principal para defender a necessidade de apoiar e viabilizar
a longo prazo o ecomuseu. Não reconhecer essa utilidade social significaria que
o ecomuseu apenas servia aos seus fundadores ou ao pequeno grupo de
pessoas que o movimentam.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 51


As questões devem ser formuladas de um modo simples, para poderem ser
compreendidas por todos aqueles que aceitem participar na avaliação e
também por aqueles que deverão aprovar as conclusões, pois é muito
importante que estas sejam dadas a conhecer e partilhadas com o conjunto da
comunidade.

É necessário dar este passo para preparar o futuro e adaptar o ecomuseu às


mudanças da sociedade e do meio em que está inserido. Eis uma breve lista de
indicadores que cada um pode escolher, alterar, completar em função do
contexto e das aspirações dos participantes no exercício de avaliação:

• A que necessidades da população local responde atualmente o


ecomuseu?

• Que relevância é dada ao património cultural na estratégia de


desenvolvimento do poder local?

• Que espaço de discussão e de participação o ecomuseu (ou a autoridade


local, que tutela o ecomuseu), atribui à comunidade?

• Qual a intervenção dos cidadãos / das comunidades na patrimonialização


e na musealização?

• Que tipo de preparação têm os técnicos de património / museu para o


desenvolvimento local? Como reagem às tensões e conflitos em torno do
património?

• Quais as consequências da constituição, a partir de uma dinâmica


participada, de uma coleção ecomuseal cuja responsabilidade incumbirá ao
ecomuseu?

• Como operacionalizar a participação das comunidades na vida do


ecomuseu?

• Como se integram / podem integrar os museus em políticas públicas


intersectoriais à escala dos territórios?

• Até que ponto a museologia comunitária necessita de um enquadramento


legal específico e distinto dos outros museus?

Traçámos evidentemente um esboço de questões para avaliação. Pensamos que


terá chegado o momento de criar um verdadeiro programa de avaliação de
museus comunitários e talvez até de se pensar num procedimento do tipo ISO
25000.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 52


6.2. Escolher os objetivos e as prioridades
Todo o ecomuseu deveria ter sido motivo, no momento da sua criação, de um
diagnóstico do território, do estado do património e das expectativas da
população sobre o território em causa. A partir dessa base, se possível de modo
participado, associando as principais partes interessadas no desenvolvimento da
vida social e cultural do território, é necessário determinar os objetivos do
projeto. A simples valorização do património não é suficiente, é apenas um
meio para atingir verdadeiros objetivos de serviço à sociedade, que são
fundamentalmente de natureza política e devem seguir a par dos outros
objetivos de desenvolvimento sustentável desse território.

Os objetivos do ecomuseu devem ser


formulados com precisão e decorrer do princípio
geral da função social do museu e da
sustentabilidade do património no quadro do
desenvolvimento do território.

Há naturalmente um objetivo principal, que


pode ser a valorização do património no sentido cultural, ou a valorização no
sentido socioeconómico, focando um tema particular (industrial ou agrícola, por
exemplo), ou ainda uma combinação dos dois.

Esses objetivos requerem uma comunicação eficaz, dirigida aos apoios e aos
potenciais financiadores do ecomuseu, que tendem muitas vezes a considerá-lo
uma iniciativa simpática, sem dúvida, mas de importância quando muito
secundária.

Servirão em seguida de referência para toda a avaliação do ecomuseu e das


suas diversas atividades: os objetivos são respeitados? Aparecem outros,
implicitamente, que colocam em causa as prioridades e mesmo o serviço de
carácter social?

A partir dos objetivos, uma vez que estejam configurados e partilhados, e,


portanto, que sejam conhecidos por todos, faltará definir as prioridades quanto
às modalidades de acção do ecomuseu. Nessa fase será necessário ter em
conta o contexto local e dos programas de desenvolvimento para estabelecer a
credibilidade do ecomuseu, dos seus programas, das suas responsabilidades. É
assim que os ecomuseus italianos privilegiam os mappe di comunità, que
mobilizam a população e a iniciam na gestão do seu património. Para o
Ecomuseu de Manguape, em primeiro lugar está o trabalho com a escola, pois
deverão ser os jovens a assumir a manutenção e a transmissão do património
comum. Para um museu indígena do Brasil ou do Canadá, a prioridade será a
reapropriação dos territórios e dos símbolos herdados dos seus antepassados.

É a este preço que a população no seu conjunto e os responsáveis políticos do


território irão compreender que o ecomuseu é um instrumento ao seu serviço,

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 53


que responde às suas necessidades e às suas expectativas, no qual se podem
apoiar, com o qual podem dialogar e cooperar.

6.3. Escolher as estratégias


Tomadas as primeiras decisões, o ecomuseu poderá assegurar o seu futuro pela
escolha de um modelo de gestão adaptado ao seu contexto. Habitualmente,
podemos constatar duas soluções, mais ou menos opostas: a dependência
directa do poder local (municipal, na maioria dos casos) ou a independência
através de uma estrutura associativa.

Mas, como já vimos, a associação, desprovida de recursos próprios suficientes e


não podendo existir sem receber subvenções provenientes de poderes públicos
ou de privados, que não têm os mesmos objetivos, não é verdadeiramente
independente, pois tem de prestar contas anualmente aos parceiros exteriores,
que são livres de lhe dar apoio ou de a abandonar, segundo as suas razões
próprias.

A análise dos
riscos atuais e
prováveis, que já
esboçámos noutra
parte deste artigo,
orientará a
decisão, a qual
também deverá
ser partilhada com
os principais atores
locais do
desenvolvimento,
representando o poder político, a sociedade civil e os meios económicos. Em
todos os países, existe uma gama de estatutos e de modalidades de
organização de empresas de interesse público, entre os quais fazer uma
escolha. Voltaremos a este ponto.

Falemos agora de estratégia, para se ter em conta duas dialéticas


complementares que guiarão as escolhas:

• Como combinar uma iniciativa a curto prazo, uma fase de transição para
os ecomuseus existentes, que deverão procurar novas bases para se
reorganizarem, e uma fase de lançamento e de aprendizagem para os novos,
com uma perspectiva de longo prazo, que implica sustentabilidade e evolução?

• Como conciliar o quadro micro-local, o do território, sempre redutor


devido ao risco de fechamento identitário, com uma visão necessariamente
macro-global, regional, nacional, mesmo transnacional ou europeia, imposta
pela necessidade de abrir janelas para o mundo exterior?

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 54


Não há uma resposta única a estas questões, mas das respostas dadas pelos
promotores do projeto dependerão as escolhas dos principais parceiros, a
elaboração dos programas e os orçamentos, a procura de atores locais e de
cooperações externas, a definição de fontes de financiamento e das
contrapartidas aceitáveis para a sua obtenção.

Do mesmo modo se coloca a questão das relações entre estruturas culturais e


patrimoniais locais, entre o ecomuseu e os outros museus, os monumentos, as
bibliotecas e centros de arquivos, as associações de defesa do património e do
ambiente. Como vimos, os distretti culturali italianos encontram uma resposta a
essa necessidade de ligação operacional das forças do sector cultural, em
sentido lato, face às dificuldades de momento ou de futuro.

6.4. Tornar-se
uma empresa
mista ou híbrida
Como já repetimos
diversas vezes, um
ecomuseu, devido ao seu
carácter inovador,
experimental, não-
conformista, não é uma
instituição cultural regida
pelas mesmas normas que
os museus enquanto serviços públicos culturais tradicionais, cujo financiamento
é em princípio assegurado pelas coletividades territoriais, da Câmara ao Estado.

Aliás, será o ecomuseu uma instituição? Quando um ecomuseu é, na realidade,


uma estrutura municipal, como acontece no Seixal, poderá não estar bem
enquadrado numa direcção cultural, que lida mal com o carácter experimental,
com as questões ambientais, de desenvolvimento local, e também com as
acções ditas “transversais” que se distribuem pelo conjunto dos campos
sectoriais do município.

É por isso que a maioria dos ecomuseus, pelo menos na Europa, adotam o
estatuto associativo, dito “sem fim lucrativo” (por vezes também denominado
ONG, organização não governamental). Mas esta fórmula adapta-se mal,
porque torna o ecomuseu dependente de subvenções concedidas seja pelas
administrações públicas, seja pelas fundações ou mecenas, que são frágeis e
dependentes de apreciações subjetivas, da parte de políticos, funcionários,
responsáveis de bancos ou de empresas, sempre suscetíveis de mudança de
orientação e dependendo da evolução dos orçamentos e de montantes de
negócios.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 55


Ora o ecomuseu é, na prática, uma empresa de gestão e de valorização do
património de um território, possuindo todas as características de uma
empresa, mas que raramente é considerado como tal.

Gere, pelo menos indiretamente, um património comum, tem pessoal voluntário


ou remunerado, investe em equipamentos mais ou menos custosos, produz
bens comercializáveis, ou comercializa os produtos locais, participa em
programas turísticos, administra um portal ou sítios da Internet, está presente
nos meios sociais, etc. Isso supõe uma governança rigorosa, credível junto dos
parceiros e dos interlocutores públicos e privados, nalguns casos duma
capacidade de obter empréstimos dos bancos, um fundo de maneio apoiado
num capital permanente.

O ecomuseu, por todas estas razões, deve assegurar um estatuto


especialmente adaptado às suas missões e ao seu objetivo maior de servir a
comunidade.

Não é uma
empresa
capitalista,
destinada ao
lucro
remunerador
dos detentores
do capital.
Aplica-se-lhe
pois,
claramente, uma
das duas
fórmulas
seguintes (a encontrar por comparação com as legislações nacionais
aplicáveis):

• A economia mista, que associa numa estrutura de estatuto comercial os


capitais públicos (maioritários) e privados, para a gestão de um serviço cultural
de interesse social sobre um território; os capitais privados podem provir das
partes interessadas do ecomuseu, empreendedores locais, associações, pessoas
físicas, como resultado de subscrições na comunidade. Esta economia mista
está melhor adaptada a um ecomuseu que intervém fortemente no campo
económico e que reinvestirá pelo menos uma parte das suas receitas no seu
objetivo social, que é a gestão do património comum para o desenvolvimento;

• A economia social ou cooperativa, em que se juntam em paridade (um


elemento, um voto) todas as partes interessadas, pessoal, coletividades
públicas, atores económicos e associações locais, numa verdadeira empresa de
utilidade social. Constituindo uma verdadeira empresa, o ecomuseu que escolhe
este estatuto permanece uma estrutura militante, em que o investimento

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 56


intelectual tem tanta importância como o investimento financeiro. Este tipo de
estatuto tem nomes diferentes segundo o país: société à finalité sociale na
Bélgica; union d’économie sociale (UES) ou société coopérative d’intérêt
collectif (SCIC) em França; cooperativa social em Itália; organização de
comunidade civil de interesse público (OSCIP) no Brasil; social entreprises nos
países anglo-saxónicos; corporations à but non lucratif no Canadá; fundações,
cooperativas ou associações em Portugal, etc.

Os dois casos têm por regra a hibridação dos recursos, o que permite
simultaneamente uma real implicação das partes interessadas e uma
diversificação de recursos que ajuda a prevenir as flutuações económicas e
políticas do momento.

A escolha do estatuto é uma decisão importante que não se pode tomar com
ligeireza e que obriga a assegurar o compromisso real e durável das partes
interessadas. É igualmente necessário obter a ajuda de juristas especializados,
fiscalistas, que sejam bons conhecedores da situação do território, ir ao
encontro das estruturas análogas que podem contribuir com a sua experiência
concreta e evitar que se cometam erros.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 57


7. conclusão

Integrar o ecomuseu no desenvolvimento sustentável

Que futuro para os ecomuseus? Não podemos prever o futuro de um ou de


outro ecomuseu, que como já vimos são frágeis por natureza e estão
ameaçados por riscos diversos, confrontados com tendências ainda pouco
claras, obrigados a responder a desafios locais e exteriores.

É um movimento ecomuseal nacional ou mundial, um movimento


necessariamente solidário, para além dos apelos e das especificidades locais.
Trata-se da capacidade dos seus promotores e dos seus militantes para
continuar a inovar, a experimentar, a mudar com a sociedade, para fazer com
que o património vivo dos territórios seja um verdadeiro recurso para o
desenvolvimento desses mesmos territórios.

Isso significa que todos


os ecomuseus são
atores desse
desenvolvimento, a que
queremos chamar
“sustentável”. Quer
dizer que cada eco
museu, no seu quadro
territorial e comunitário,
deve organizar-se para
delinear o futuro a
longo prazo, enquanto preserva os valores patrimoniais, permitindo que
evoluam e se transformem, e criando novos, ligados aos antigos, abertos aos
contributos de novas populações e às influências da mundialização.

Isso faz do ecomuseu um agente social importante e complexo, presente nos


campos cultural, educativo, social e económico, assegurando uma coerência e
uma continuidade na vida quotidiana e nas iniciativas dos membros da
comunidade.

É também um agente político de mobilização dos cidadãos para participarem na


construção consciente do seu futuro e para se tornarem capazes de dominar as
mudanças que esse futuro lhes reserva.

É ainda necessário que todos o reconheçam como tal, a própria comunidade e


os poderes políticos, sociais e económicos. Para tal deve agir e ao mesmo
tempo dar-se a ver, resistir e cooperar, convencer e dar vida ao património
como um capital comum.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 58


Informal Museology Studies, 14, summer 2016 59
DOCUMENTO ESTRATÉGICO DOS ECOMUSEUS ITALIANOS

Este texto constitui um primeiro instrumento6, resultado de uma posição


comum e diversos encontros realizados em alguns ecomuseus italianos desde
2014, com o objetivo de criar uma Rede Nacional, foi aprovado em junho de
junho de 2016 e foi apresentado à 24 º Conferência Geral do ICOM7, que se
realizou em Milão, de 3 a 9 de julho de 2016, no âmbito dum sessão conjunta
entre o MINOM8, o ICOFOM9 e o CAMOC10

Os ecomuseus funcionam como processos participativos de


reconhecimento, de gestão e de administração do património cultural
local, destinados a favorecer o desenvolvimento social, ambiental e uma
economia sustentável.

Os ecomuseus são estruturas de projeto que propõem colocar em relação


as técnicas, as culturas, as produções, e os recursos de um território
homogéneo, apoiando-se nos bens culturais que existem.

Os ecomuseus são percursos de crescimento cultural das comunidades


locais, criativos e inclusivos, baseados na participação ativa dos
habitantes e a cooperação de outros organismos e associações.

6
http://www.ecomusei.eu/ecomusei/wp-content/uploads/2016/01/Documento-strategico.pdf. Tradução de
Pedro Pereira Leite
7
http://www.ecomusei.eu/ecomusei/wp-content/uploads/2016/06/WELCOME-ICOM2016.compressed.pdf
8
http://www.minom-icom.net/noticias/icom2016-special-programme-ecomuseums-and-community-museums-
wednesday-6th-july-friday-8th
9
http://network.icom.museum/icofom
10
http://network.icom.museum/camoc

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 60


1. Preâmbulo

Recordando os princípios que fundaram as ações colaborativas entre os


ecomuseus desde o seu início, pretendemos com este documento
contribuir para a génese, desenvolvimento e evolução das
experiencias ecomuseais que podem favorecer o surgimento de
modelos virtuosos de um desenvolvimento local sustentável

No novo horizonte dos ecomuseus deverá ser marcado por uma


museologia mais empenhada na busca de estratégias alternativas de
valorização do património cultural, vinculadas à procura e às mudanças
que emanam das comunidades locais. Uma museologia que seja capaz
de testar todas as possibilidades de gestão do território e de utilização
dos seus recursos, mobilizando a criatividade local e colocando em
marcha um projeto coerente de valorização do património cultural com o
objetivo de aumentar o bem-estar, não apenas económico, da
comunidade local, mas também pela valorização cultural, pela beleza da
paisagem e pelo fortalecimento do capital social comum. Uma
museologia que associe o passado e a memória às novas oportunidades
de desenvolvimento, que respeitem o espírito do lugar e as heranças
culturais locais do local.

Os ecomuseus vivem independentemente das coleções, existem porque


trabalham a partir da centralidade de um património especial, AS
PESSOAS, estimulando a sua sensibilidade de dando sentido aos seus
esforços.

1.1.Situação atual
Os ecomuseus italianos viveram um período particularmente dinâmico na
primeira década deste século, quando se assistiu a uma multiplicação
das leis regionais, mas também da organização de encontros de debate e
intercâmbio a nível nacional e europeu.

Três organismos desempenharam uma importante função na definição


dos critérios de referência e na produção de normas de funcionamento
dos ecomuseus italianos: o Laboratório de Ecomuseus de Região de
Piamonte, o Observatório dos Ecomuseus de IRES Piamonte e as
Comunidades de Práticas “Mondi Locali”

Existem em Itália uma centena de estruturas operacionais que podemos


qualificar como ecomuseus. Estão divididas em quase todas as regiões do
país. Atualmente as leis específicas sobre os ecomuseus foram adotadas

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 61


em 12 regiões ou províncias: autónomas: Piamonte (1995), Trento
(2000), Friuli Venezia Giulia (2006), Sardenha (2006), Lombardia
(2007), Umbria (2007), Molise (2008,) Toscana (2010), Puglia (2011),
Veneto (2012), Calabria (2012) e Sicilia (2014). Com base nestas leis
foram reconhecidas diversas realidades locais que refletem a qualidade e
a complexidade das formas adotadas nos procedimentos únicos, mas
também a sua capacidade de intervir nos processos territoriais em curso.

A situação varia muito de um caso para outro: em todas as regiões


dotadas de uma lei, estimuladas pelos ecomuseus mais ativos,
utilizaram-se ou procuram-se critérios de seleção que sustentam os
ecomuseus mais dinâmicos e participativos. Regiões como a Emília-
Romana, pelo contrário, escolheram-se outras modalidades para o
reconhecimento e o financiamento dos ecomuseus existentes, de forma
mais pragmática ou pelos contratos de projeto com o Instituto Regional
de Bens Culturais. Inclusive, hoje em dia, apesar da significativa redução
do financiamento público, os ecomuseus são uma realidade viva e
dinâmica que, em face dos resultados concretos alcançados e dos
trajetos percurridos, procuram entrar numa fase nova e fecunda.

1.2 Consolidar a experiencia adquirida de “Mondi Locali”


Nascida em 2007, com a finalidade de partilhar projetos e os percursos
dos seus membros, a comunidade de Práticas “Mondi Locali” representou
para muitos Ecomuseus um suporte e um instrumento eficaz de patilha e
crescimento. Entre as atividades propostas pelo “Mundo Locali”
destacam-se:

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 62


 O dia da paisagem, levado a cabo pela primeira vez em 2007,
para promover as ações de cidadania ativa. Pode contar, ao longo
dos anos, com a participação de numerosos ecomuseus de diversas
regiões italianas que contribuíram para ampliar o evento
(www.ecomusei.eu) e manter as relações de encontro e
colaboração.
 As experiências formativas do módulo JET – Jovial Ecomuseum
Training – um percurso de crescimento de capacidades em termos
de elaboração de projetos, de relações humanas e gestão de
pessoal dos ecomuseus. Utilizadas em diversas situações com
colaborações de centros de pesquisa e universidades, oferecem a
numerosos colegas a possibilidade de encontro e compreensão do
potencial das práticas ecomuseais.
 A experimentação do “Mapa da Comunidade”, como instrumento
de participação da população no reconhecimento do seu próprio
património cultural. Desde as primeiras experiencias nos
ecomuseus piamonteses, a prática estendeu-se a todos os
ecomuseus italianos e, recentemente, foi integrada nas práticas e
procedimentos de planificação da paisagem.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 63


1.3 Estratégias e objetivos
Para assegurar a continuidade dos processos comprometidos nestes
últimos anos e garantir a sua manutenção a nível local e nacional, surgiu
a estratégia de consolidar as experiências dos ecomuseus através dum
intercâmbio colaborativo e dinâmico entre estruturas ecomuseais e
outras instituições que se ocupam do património cultural.

As associações territoriais, do nível local até ao regional, são importantes


interlocutores dos ecomuseus, para garantir a sua viabilidade e
acrescentar valor aos processos de participação e aos objetivos de
desenvolvimento local. Na realidade, quanto mais estreita é a relação
entre o ecomuseu, as autoridades públicas e as instâncias de
participação da população, maiores perspetivas se abrem para operar
eficientemente no território e para reforçar a rede de colaboração local.

Mas a complexidade dos


“mundos locais” atuais
impõem a necessidade de
procurar novas alianças com
as experiencias e as
organizações semelhantes,
com os quais partilham
princípios e objetivos.

Alguns exemplos:

 À escala local: Institutos e organismos regionais para o património


cultural, inspeções, parques, organizações ambientais,
universidades, organizações de comércio justo e solidário, serviços
sociais e de saúde pública;
 À Escala nacional e internacional: O ICOM, Sociedades Territoriais,
Slow Food, militantes da Nova Museologia, Redes internacionais de
Ecomuseus e Museus de Comunidade.

Para tornar eficaz e sobretudo visível o movimento ecomuseal,


propomo-nos construir uma rede permanente a nível nacional.

Propomos para esse fim iniciar uma fase constituinte, através de um


roteiro articulado em fases sucessivas para a definição de estruturas,
modalidades e objetivos específicos da futura Rede Nacional de
Ecomuseus.

Paralelamente, propomos promover momentos concretos de intercâmbio


entre os ecomuseus, na seguinte forma: l

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 64


1. Organizar atividades e projetos com o fim de colocar mais em
colaboração ecomuseus italianos e estrangeiros sobre temas
decididos em comum, de maneira a proporcionar o intercâmbio a
cooperação nacional e transfronteiriça;
2. Colocar em Rede a os projetos em curso e comunica-los;
3. Monitorizar os resultados alcançados.

Para levar a cabo este programa, procuraremos financiamento europeu


(ver sobre esta questão o projeto www.ecoslowroad.eu).

2. Agenda 2016. Projetos para o futuro dos ecomuseus


Nessa perspetiva e também em função da eventual utilização dos Fundos
Europeus para a Cultura 2014-2020, a Agenda Ecomusei 2016, propõe-
se promover soluções ecomuseais e projetos capazes de tornar possíveis
pequenas revoluções culturais que utilizem o património local numa visão
holística, segundo os métodos e práticas para o seu conhecimento e uso
amplamente partilhados. Os Ecomuseus deverão constituir-se como
promotores de laboratórios/observatórios do património, amplificadores
locais da ideia ambiciosa e fértil de uma “cultura territorial” capaz de
ativar os processos de Patrimonialização, apoiados num conjunto de
soluções intelectuais e morais, mas também por tecnológicas e práticas.

Os objetivos previstos para a Agenda 2016 que os ecomuseus têm a


intenção de promover são as seguintes:

a) Apoiar os processos de territorialização, selecionando as boas


práticas a reproduzir, que ofereçam regras sustentáveis de governo

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 65


do território (construtivas, adaptáveis, ecológicas, relacionais, etc.)
para encontrar e promover a cultura da salvaguarda e o apoio à
gestão do património local, num período onde a proteção e tutela
italiana do património seja alvo de uma menor atenção. Os
ecomuseus valorizam a identidade dos lugares, os laços entre as
comunidades e os seus contextos de vida; é importante que o
ecomuseu contribua para a tomada de consciência sobre o
território, propondo ao “projeto de paisagem” elaborado de
maneira participativa, nos quais as comunidades de reconheçam
através duma sociabilidade renovada.

Os ecomuseus podem desempenhar um papel importante nos


processos de revitalização e repovoamento dos territórios
desfavorecidos
(lugares de
montanha e
também em
áreas em
recessão),
sobretudo pela
co implicação
dos “novos
habitantes”, na
medida em que estas pessoas transportem modos de vida
sustentáveis, capacidades profissionais inovadoras e uma
manifesta sensibilidade para as expressões culturais da tradição
local.

b) Comprometer os processos de patrimonialização, para


favorecer os movimentos la regeneração do património cultural
local, evitando que o património territorial se desqualifique pelo
contacto com os modelos consumistas estrangeiros. Adotaremos
modalidades de participação permanente das comunidades locais
nos processos de inventário, de tomada de decisões e da gestão do
património local, favorecendo os modelos de cidadania ativa e de
subsidiariedade vertical e horizontal.
A partir da relação complexa entre as novas tecnologias e a
comunicação, os ecomuseus deverão ser capazes de tornar
acessíveis os seus conteúdos culturais, difundindo-os através das
redes sociais, com o objetivo de os fazer contribuir para a
construção de inventários participativos do património, que

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 66


desempenham um papel importante na formação do “sistema
patrimonial”.
Será dada preferência a uma perspetiva que olhe para o património
cultural como um recurso indispensável para o desenvolvimento do
território e não apenas um quadro de referência para esse
desenvolvimento; uma perspetiva que considere os diversos atores
sociais como criadores dessa herança, em vez de serem
utilizadores ou recetores passivos. Todo isto deve fazer-se através
de um processo de reconhecimento e interpretação das
tradições e dos valores territoriais autênticos. É
particularmente importante, neste contexto, ter em conta a
valorização do património imaterial (Convenção de Faro11).

Para atingir estos objetivos, propomos o seguinte programa de trabalho


que constituirá a Agenda Ecomusei 2016.

• . Formação e pesquisa

Organizar a colaboração com organismos de pesquisa públicos e


privados, as associações e as fundações; promover a formação de
mediadores de processos de participativos; chegar a acordos com “spin-
off” universitários para que se possa encontrar nos territórios dos
ecomuseus um âmbito de aplicação para as suas investigações no
domínio da inovação empresarial, de experimentação e incentivo ao
autofinanciamento e autogestão; explorar formas e métodos de avaliação
de resultados obtidos pelos processos de ecomuseais de
desenvolvimento local que poderão constituir-se como referência para
boas-práticas.

Propomos o desenvolvimento de um modelo de colaboração para fazer


circular pelas universidades, fundações e empresas do terceiro sector,
para promover o nascimento de novas relações entre os ecomuseus e os
organismos que tenham uma oferta de formação em temas de gestão e
administração do território e de avaliação do impacto dos projetos locais
de desenvolvimento.

• Paisagem e Planeamento

Inspirado no modelo da região de Puglia que mostrou o seu dinamismo


graças à integração dos ecomuseus entre os redatores do seu Plano de

11
“Convenção-Quadro do Conselho da Europa Sobre o Valor do Património Cultural para
a Sociedade”, assinada em Faro em Outubro de 2005 no âmbito da Conferência de
Ministros da Cultura do Conselho Europa
http://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/cc/ConvencaodeFaro.pdf

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 67


Paisagem Regional, propomos a implementação de um programa de
desenvolvimento específico desta linha de ação com o objetivo de que os
ecomuseus locais sejam suporte aos observatórios regionais da
paisagem. Outro modo de ação será a aplicação dos princípios
enunciados na Convenção Europeia da Paisagem12 que inspira e continua
a impulsionar a maioria das ações nos ecomuseus

Propomos a elaboração dum plano de trabalho em forma de guia para os


Ecomuseus que desejam assumir o compromisso com a questão da
paisagem. Isso poderá dar lugar a uma colaboração com organismos
externos, tais como Sociedades de Território ou o Fórum Italiano dos
Movimentos para a Terra e paisagem, que trabalham na formulação de
novos modelos interdisciplinares de planeamento da paisagem. Também
testaremos novos modelos de desenvolvimento local com diversos
agentes para a transição.

• Produção e qualidade de vida

É neste setor que os ecomuseus italianos fizeram maiores esforços nos


últimos anos. É importante prosseguir com o que já foi alcançado, em
espacial para reforçar as ligações com o “Slow Food Itália13”, com as
regiões agrícolas e com as formas emergentes de comércio justo e
solidário; também continuar e transformar os eixos definidos pela EXPO
2015 "Alimentar o Planeta" em ações concretas e tangíveis para a
transformação da cultura consumista de alimentos.
12
Convenção Europeia da Paisagem (Decreto n.º 4/2005) .assinada em Florença em 20 de Outubro de 2000 -
https://dre.pt/application/dir/pdf1sdip/2005/02/031A00/10171028.pdf
13
http://www.slowfood.com/

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 68


Os ecomuseus deverão centrar-se nas novas formas de economia local,
segundo as quais se experimentam projetos de produção em fileiras
curtas e sustentáveis, transversais aos vários setores: agrícola,
ambiental, turístico, cultural e social (bem-estar).

Os ecomuseus deverão ser promotores duma compatibilização entre os


conhecimentos práticos tradicionais e a inovação tecnológica, em
particular pela experimentação de novas formas de atividade que
colocem os jovens em contacto com o seu património cultural. O modelo
ecomuseal pode apresentar um projeto real de desenvolvimento do
território em termos económicos, de coesão social e solidez estrutural,
mediante a definição de novos cenários, através duma visão de
futuro que coloque no centro a beleza, as relações humanas, o
respeito pela terram, a qualidade de vida

Propomos, a partir da avaliação das ações já desenvolvidas, definir as


linhas diretrizes que podem facilitar a criação e/ou apoio aos sistemas de
produção locais, associados à qualidade e otimização dos produtos e
atividades derivadas do património cultural e que estejam vocacionadas
para o crescimento económico, cultural e social das comunidades
implicadas.

• Educação e animação sociocultural

Os ecomuseus mostraram nos últimos anos a sua capacidade para


constituir-se como laboratórios eficazes de ação pedagógica e
educativa, sobre o tema da sustentabilidade, da paisagem e do
património cultural, ao serviço do mundo escolar, mas também da

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 69


sociedade em geral, oferecendo-se como um instrumento de “formação
contínua” e de mediação e intergeracional.

Os ecomuseus querem igualmente converter-se em disseminadores de


animação sociocultural, levando a cabo ações concretas para a
procura mais consciente da qualidade de vida. Cada ecomuseu é
portador de um património e de uma identidade particular, de um
conjunto de projetos e de relações que se expressam de forma criativa.

Para perder o legado de experiencia acumulada ao longo do tempo e


para extrair o máximo benefício face às dificuldades sócio económicas
dos territórios, os ecomuseus proporcionarão uma supervisão interna dos
resultados produzidos em termos de projeto educativo e pedagógico e
das iniciativas socio culturais sobre os temas da sustentabilidade, da
valorização da paisagem e do património cultural.

3. Revisão dos princípios


O ECOMUSEU é...

PAISAGEM porque é a expressão da população que atua na paisagem. A


é transformação, cultura, recurso dinâmico, produtiva, criativa, vital. A
ação sobre a paisagem deve ser sustentável (resiliente) para permitir ao
meio ambiente e à cultura manifestar-se e sustentar-se.

POPULAÇÃO pois são as pessoas que constituem o património “primário


e sensível” do ecomuseu, de onde proveem as ações e a criação do
sentido de pertença ao território.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 70


CONHECIMENTO: não existe se não houver aquisição de
conhecimentos por parte dos habitantes e novos residentes: É um
processo participativo onde o objetivo é o desenvolvimento local. O
ecomuseu não é apenas um museu ou um centro cultural dedicado às
coleções, e sua conservação e valorização, é também isso, mas tem
como missão implicar a população na consciência do seu próprio
património cultural, para que desenvolva uma função e económica e
social como resposta às necessidades e problemas da comunidade.

O ecomuseu garante uma abordagem científica, implementa práticas e


capacita a comunidade a contribuir para o desenvolvimento sustentável.

GESTÃO: na medida em que desenvolve a cooperação entre os atores


voluntários (solidários) as associações, os profissionais e os organismos
público e privados que trabalham em conjunto para acrescentar valor ao
património cultural.

Esta gestão deve respeitar a representatividade e o equilíbrio entre as


instâncias participativas compostas por todos os atores envolvidos no
projeto ecomuseal, segundo formas de governação partilhada entre o
setor público, o sector privado e o sector associativo.

EDUCAÇÃO E PESQUISA, porque se centra a atenção da população


sobre a sua própria herança cultural, tendo como recurso a memória
social, a promoção dos processos de cidadania ativa e a formação do
público para identificar, manter e valorizar o seu património cultural.

PLANIFICAÇÃO E ADMINISTRTAÇÃO DO TERRITÓRIO, porque a


investigação e a sensibilização para a gestão participativa do património
cultural facilitam os processos de decisão partilhada sobre a
administração e o planeamento dos usos dos recursos (ambientais,
culturais, e paisagísticos). Os instrumentos de diagnósticos usados pelos
ecomuseus (tais como inventários participativos, Mapas de Comunitá)
tomaram formas específicas de Contrato-Programa na planificação
participativa (por exemplo contratos de rios 14), como suporte à
requalificação ambiental, social e à produção de paisagem.

DESENVOLVIMENTO E ECONOMIA, já que implica o ecomuseu nos


diferentes setores produtivos:

Produção alimentar e alimentação: o património relacionado com a


alimentação tradicional e o bem-estar nutricional estão diretamente
relacionados com muitas paisagens culturais italianas. A recuperação das

14
Planos de Bacia hidrográfica

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 71


profissões e a possibilidade de valorizar fileiras de qualidade oferecem
perspetivas interessantes para repovoar áreas rurais e zonas
desfavorecidas.

Artesanato e Formação: o artesanato e os saberes artesanais tornam-


se atuais face às necessidades e dificuldades económicas e pessoais, que
fazem renascer as formas de economia doméstica. O ecomuseu pode
relançar os processos de reutilização dos saberes, associando-os à
inovação tecnológica, á formação que pode abrir caminho a nova
ocupações artesanais e a uma profissionalização criativa, graças a um
pacto entre gerações.

O turismo e a acomodação: os conhecimentos técnicos do turismo


devem alcançar um profissionalismo nos locais onde o turismo possa
constituir uma opção estratégica e económica. Apesar disso, o ecomuseu
parte dum ponto de vista diferente, mais ligado ao espírito do lugar e ao
valor afetivo atribuído
pelos habitantes à sua
paisagem: a paisagem
pode ser um fator
determinante; ela é
formosa, se a
comunidade dela se
apropria, se os habitantes
lhe atribuem valor, se
contam as suas histórias,
a sua atmosfera, os seus costumes, os seus produtos, de forma
convincente e múltipla. O ecomuseu permite à comunidade tornar-se
consciente da importância da hospitalidade, ao mesmo tempo que
comunica de forma moderna com as novas média, com a Internet e com
as redes sociais.

REDE, quer dizer trocas, contaminação de práticas. É indispensável


estabelecer e consolidar a rede nacional, para valorizar as experiencias
regionais; criar contatos entre os ecomuseus e os museus comunitários
na Europa e no mundo, colaborar com Slow Food, os GAL15, o ICOM, os
Parques naturais e todos os demais organismos de diferentes perfis
(culturais, socioeconómicos, ambientais) que se ocupem da paisagem.

15
GAL – Grupos de Ação Local formados no âmbito do Programa Leder
http://ec.europa.eu/agriculture/rur/leaderplus/index_en.htm

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 72


4. Glossário
16
Mappe di Comunità (Carta de Comunidade ). Trata-se duma
ferramenta através da qual os habitantes dum determinado lugar têm a
possibilidade de representar o seu património, a paisagem, os saberes
em que se reconhecem e querem transmitir às novas gerações.
(www.mappadicomunita.it). Nele se evidência como a comunidade local
se vê, se entende, com atribui valor ao seu próprio território, às suas
lembranças, as suas transformações, à sua realidade atual e de que
forma ela quer converter no futuro. Construída através de uma
cartografia ou qualquer outro meio de representação, é produzida e
elaborada para que a população nela se possa reconhecer. Em Puglia, os
mapas converteram-se em instrumentos de produção social de
paisagem, previstos no novo Plano Paisagístico Territorial Regional
(PPTR). Em áreas territoriais homogéneas eles converteram-se em
instrumentos para a planificação e o desenvolvimento local (Casentino,
Gemonese, Trentino, Argentano, Bosco Mesola, Primaro-Ferrara, Orvieto
y Trasimeno, Barbagia y Alto Flumendosa, Monte Sibillini, Biellese ...).

Mappe di Paesaggio (Carta da Paisagem). Constituem uma evolução


das cartas da comunidade. Esta ferramenta parte do conceito de que a
paisagem é a expressão da civilização, de culturas multidisciplinares e,
em todos os lugares, um elemento importante da qualidade de vida das
pessoas. Como diferença das cartas de comunidades, “os conteúdos
organizados" de várias cartas de paisagem representam uma mala
pedagógica que permitem realizar atividades, oficinas, cursos sobre
alguns “fatos culturais”, transpostos para os territórios e torna-las
acessíveis a todos em forma de eventos, de relatos de experiencias. As
cartas de paisagem podem ser aplicadas pelas pessoas ou organizações
ativas na comunidade (Cervia).

Contrato de Rio (Plano de Bacia Hidrográfica). Uma ferramenta


para adotar um conjunto de regras onde os critérios de utilidade pública,
de rentabilidade económica, de valorização social, de sustentabilidade
ambiental contribuem em partes iguais para a procura de soluções
eficazes para a requalificação duma bacia hidrográfica. Os protagonistas
devem ser pessoas locais que desejam atuar na definição e na
concretização das políticas de proteção e gestão dum bem comum, como
é o Rio. (Villanova di Bagnacavallo e os municípios da Bacia do Lamone).

Inventário participativo. Processo para estabelecer de um diagnóstico


de um contexto territorial para o qual se preveem ações de

16
Em português veja—se a Carta do Património (http://recil.grupolusofona.pt/handle/10437/5471)

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 73


desenvolvimento sustentável, através da participação direta das
comunidades, nas diferentes categorias que compõem. Trabalha a
diferentes níveis: a emergência da memória social, o inventário do
património e dos recursos do território, a catalogação dos bens, a
definição das ações de desenvolvimento. Requerem-se abordagens
originais, métodos interdisciplinares ou não dualistas e práticas e
ferramentas inovadoras.17

Estatuto dos Lugares. Um documento que consiste num


"compromisso" entre os cidadãos e as instituições, através do qual, por
um processo participativo de reconhecimento das características
distintivas do território, considerado com um bem comum, onde se
definem as regras, direitos e deveres para o seu uso, sua valorização,
sua conservação e sua transformação. Pode-se pode definir como “um
ato constitutivo para o desenvolvimento do local: o projeto para um
futuro socialmente partilhado " (Alberto Magnaghi18).

Fileiras curtas e Locais. São processos que colocam em relação o uso


correto e sustentável dos recursos com a valorização das paisagens e das
identidades locais, com o objetivo de criar economias integradas de
desenvolvimento local. Colocam no centro os produtores e os seus
saberes e estimulam a colaboração entre os outros atores (empresas
agrícolas, laboratórios de transformação, restaurantes, agências de
turismo) com o objetivo de criar um vínculo entre os que produzem e os
que consomem. Isso garante aos primeiros visibilidade e um rendimento
decente, e aos segundos a oportunidade para usufruir as técnicas e as
culturas locais, muito mais além da simples troca de produtos.
(Gemonese, Casentino, Biella; Feria de los ecomuseos de Argenta).

Formação. Programas e iniciativas divididas em módulos destinados à


formação e educação de operadores, também dirigidos a pessoas que
não são aderentes à Rede.

Percursos participativos. Saídas no território para ler e interpretar as


suas componentes as suas interações, dirigidas principalmente à
população (Trentino, Biella).

Dia da paisagem. Criado em 2007, conta com a participação de


numerosos ecomuseus italianos. Para participar no dia da paisagem,
deve-se realizar uma Acão de participação para gerar uma maior
consciência da comunidade e a sua co implicação com a gestão das suas

17
Ver em https://inventariopartecipativo.wordpress.com/
18
https://www.amazon.it/progetto-locale-Verso-coscienza-luogo/dp/8833921506

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 74


próprias paisagens. A disseminação das práticas faz-se no próprio site
(www.ecomusei.eu).

Mediação. Processo através do qual os cidadãos são sensibilizados e


formados para tomar consciência do património material e imaterial e
dos recursos do seu território; por outro lado é um processo que facilita
a adesão e a tomada de consciência do património dos outros habitantes,
dos vizinhos, dos amigos, todas as pessoas interessadas, dos agentes de
desenvolvimento local; convidando-os a ter em conta o património e a
paisagem e a pronunciar-se sobre eles. A publicação "Manual do
Mediador do Ecomuseu" proporciona métodos e ferramentas operacionais
e dá uma contribuição para a valorização, o incentivo, e o diálogo.
(www.provincia.terni.it/ecomuseo/documenti/manuale% descargable
20del 20FE.pdf%).

Capacitação. Dirige-se aos grupos de população que são “capazes de


fazer” para conhecer o património, de se apropriar da cultura da
paisagem e de participar na governação do desenvolvimento local.

Interpretação e Narrativa. O museu utiliza ferramentas criativas e


inovadoras, diacrónicas e multidisciplinares, através das quais interpreta
e comunica o espírito do lugar (genius loci) e a identidade cultural dum
território. Assim que se recolhem os resultados das narrativas geradas
pelo trabalho sobre os lugares da cultura local, que de seguida se
devolvem aos diversos beneficiários: a comunidade (para reconhecer-se)
e ao público externo (para reconhecimento da região). Estas ferramentas
podem ser proporcionadas em espaços físicos (para o desenvolvimento
de centros de interpretação), através de ações específicas (roteiros
patrimoniais,
instalações
artísticas
utilizando
diferentes meios),
produtos
multimédia e
publicações.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 75


5. Definições
O ECOMUSEU é a POPULAÇÃO e as suas diferentes componentes, que
provoca a participação, o conhecimento da PAISAGEM e do PATRIMÓNIO.
Estimula os processos dinâmicos e as decisões partilhadas sobre o
DESENVOLVIMENTO LOCAL.

O ECOMUSEU é um PACTO, no qual uma comunidade reconstitui o


sentido do seu território (Maurizio Maggi19).

Um ECOMUSEU é qualquer coisa que representa o que é UM


TERRITÓRIO, o que são os seus habitantes, a partir da CULTURA VIVA
DAS PESSOAS, do seu meio ambiente, que HERDARAM do passado, e
que o AMAM, e que desejam mostrar aos seus convidados e TRANSMITIR
aos seus descendentes (Hugues de Varine20).

19
https://www.researchgate.net/profile/Maurizio_Maggi
20
http://www.hugues-devarine.eu/

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 76


Informal Museology Studies, 14, summer 2016 77
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O INVENTÁRIO
PARTICIPATIVO

21
Hughes de Varine

Nota da Redação: Por vontade expressa do autor, este artigo deverá ser
acedido através da sua página, referenciada.

Em breve este este espaço será ocupado pela leitura crítica do texto.

Algumas observações e conclusões pessoais do Colóquio de Gemona, de


10 a 11 de junho de 2013. As notas apresentadas não são opiniões ou
propostas elaboradas, mas apenas algumas ideias suscitadas pelo debate
no colóquio. Elas merecem certamente uma reflexão e um debate, para
aprofundar coletivamente alguns conceitos e determinados problemas.

Nem todos os participantes foram da mesma opinião ou derem


contribuições elaboradas, mas aqui apenas apresentamos as ideias base
e as estruturas das intervenções e do debate que aconteceu no
seminário. Fazemo-lo para permitir o aprofundar coletivo de certos
problemas.

Algumas observações iniciais ainda sem comentários:

 O património está vivo, por isso muda, transforma-se, ele


transforma-se, deteriora-se, valoriza-se. Quando está morto, entra
no museu ou desaparece.
 O olhar sobre o património também muda, segundo a evolução do
mundo e pela passagem das gerações. Donde os inventários, os
diagnósticos, e as políticas do património, sobretudo quando são
participativas devem evoluir.
 Para o cidadão o património é um todo que faz parte da sua vida,
do seu ambiente e da sua cultura, as palavras material e imaterial
não têm sentido.

O processo de gestão do património compreende várias fases, nas quais


as principais são:

 Em primeiro lugar o inventário, que implica a tomada de


consciência, a educação, a concertação dum trabalho coletivo, do
maior número possível de membros da comunidade
 De seguida, o tratamento dos dados: exposições, carta do
património (que é o equivalente a uma exposição), dois arquivos (o

21
https://inventariopartecipativo.files.wordpress.com/2013/05/notes-gemona-rev-hdv.pdf

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 78


meio e o conteúdo22), que servem também para a devolução á
comunidade
 Por fim a gestão propriamente dita, que inclui todas as ações sobre
o património, debaixo do chapéu da gestão, e todas as ações de
gestão do património, debaixo do título ambíguo de “valorização”,
que implicam uma responsabilidade individual e coletiva da
população.
o A "valorização" pode assumir duas formas: A partir do valor
intrínseco do património e dos seus elementos, torna-se
necessário protegê-lo, restaura-lo, torná-lo visível, organiza-
lo como componente da identidade do território e da
comunidade, para a educação dos cidadão e o lazer dos
visitantes é necessário; é uma ação de carater cultural e de
interessa público geral de deverá ser financiada pelos
poderes públicos e eventualmente pelos mecenas privado;
o Esta atividade deve igualmente mobilizar todas as boas
vontades locais e os saberes técnicos e científicos, e saber
fazer-se ouvir no exterior;
 Temos como exemplos típicos desta forma de ação
patrimonial em Gemona, com a reconstrução do
Castelo, ou em Verona com a anastilose geral, a partir
do valor do património considerado como capital
cultural e social ou por vezes também potencialmente
económico do território e da comunidade de
habitantes;

É necessário colocar o património na agenda, de o tornar vivo e


utiliza-lo para contribuir para a qualidade de vida e do ambiente dos
habitantes; a ação patrimonial é então uma componente do
desenvolvimento sustentável do território, nas suas dimensões culturais,
socias e económicas, é uma realidade e é na eficácia do seu contributo
que se encontra a sua justificação e os seus meios.

o Encontramos um exemplo desta conceção em Gemona, com


a fileira económica do agroalimentar do “Pan di Sorc”, ou em
Paysalp nas parcerias com a cooperativa de queijo. Estas
formas não são opostas nem concorrentes. São
complementares mas seguem lógicas diferentes. É apenas

22
E necessário dizer que o arquivo não seja constituído apenas por documentos administrativos e científicos
(de conteúdo), mas também por documentos fáceis de compreender e de leitura fácil, ilustrados, e acessíveis de
diferentes níveis de leitura (o meio /comunicação)

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 79


necessário ter claro quais são os objetivos de cada uma e
não os confundir.

A questão dos limites a patrimonialização coloca-se de duas


maneiras:

o Para o inventário oficial (catálogo) que implica uma proteção,


seja por um arquivo, seja para os museus, é indispensável fixar
os limites, para evitar, por absurdo, trata uma infinidade de
dados, que tornaria os poderes públicos responsáveis por
atividades que seriam impossível assumir. Mais, porque o
simples ato administrativo de patrimonialização, retira de facto
a responsabilidade de proteção aos seus detentores culturais.
(proprietários individuais e coletivos), em benefício duma
instância administrativa de controlo.
o Para o inventário ecomuseal, no sentido do Ecomuseus di Fier
Monde, a patrimonialização é o resultado de uma deliberação
que associa a comunidade e os proprietários dos bens, não com
base num espírito de arquivo ou de conservação, mas com um
objetivo de conhecimento e partilha de um bem comum e de
gestão dinâmica participativa e responsável desse bem
 Aqui a noção de limite é formulada por critérios de
utilidade (ou funcionalidade) e sensibilidade, através dos
quais de afere a capacidade da comunidade de se
encarregar da responsabilidade desse património.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 80


A participação é uma palavra vaga que cobre pratica sociais diferentes:
seja da simples formação duma codecisão, passando por diferentes
aspetos da concertação e consulta.

o No caso do inventário a participação envolve diferentes aspetos


do processo:
 A escolha dos elementos do património a colocar nos
inventários (por exemplo o mapa de comunidade),
 A responsabilidade pela preservação;
 A curadoria,
 A utilisação dos elementos,
 A pesquisa sobre os elementos referenciados como
património,
 Mobilizar os saberes dos membros da comunidade, para
além do estrito inventário
 E a validação dos produtos de valorização (por exemplo,
exposições, publicações)

É necessário também entender que a questão de representatividade


dos participantes (segundo se trata de pessoas físicas ou de
associações ) ao longo do processo

o Não poderemos nunca incluir a totalidade da população, nem


mesmo a sua maioria. A questão é saber que a parte que
participa é mais ou menos significativa da diversidade da
comunidade.
o Então o problema será o seguinte:

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 81


 Como alargar o grupo de participante para além da
primeira fase do inventário?
 É necessário não esquecer que há sempre dois modos de
participação:
 O visível, que ó o das pessoas que incluem os
grupos de trabalho ou que aportam a suas
contribuições materiais ou física para a ação;
 E a invisível, que é aquela que decorre da troca de
informações informais no grupo, que é mais difusa,
que se desenvolve no interior dos grupos como
crenças, e que se exprime de forma informal,
através da participação visível nos grupos formais.

O inventário no tempo. Atualmente, em Itália, o inventário está


reduzido ao Mapa da Comunidade, que é uma fotografia do património
num dado momento.

o A questão coloca-se em relação a Gemona sobre a extensão do


inventário para além do mapa: como fazer se ele é uma
ferramenta interativa em permanente transformação (ver
Parabiago ou Val di Merse).
o Como fazer com o inventário em face da evolução do olhar das
populações e em função da sucessão de gerações (fator interno)
ou das influências culturais que resultam da globalização dos
gostos e das práticas (fator externo).
o É necessário repetir o exercício periodicamente, (com que
periodicidade?), ou é submetê-lo a validação interna e externa
cada vez que à perceção da alteração do olhar da comunidade
sobre o património.
 Quais serão então os indicadores e como os interpretar?
 Qual é o papel das equipas de profissionais?

A avaliação tem estado relativamente ausente ou pouco referenciada


nas discussões, mas ela também se aplica ao processo de inventário e à
gestão participativa do património.

o Ela pode ser vista a partir de dois pontos:


 Do desenvolvimento e dos resultados do inventário,
tendo em conta o objetivo inicial e o método de
escolha, o modo de verificação da realidade e a
realidade da participação e o seu caráter
representativo, e seu significado;

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 82


 O comportamento da equipa de animação e de
recolha do inventário. O seu respeito pelos
princípios ligados à vontade de fazer participar a
participação, a relevância do seu papel
(manipulação, recolha de informação, mediação,
rigor com o guião metodológico, deontologia).

Ultrapassar a Crise. Podemos estar a pensar duas formas de pensar o


património.

o De que se trata duma crise grava, mas temporária. Um dia,


mais ou menos próximo, o nosso mundo europeu reencontrará
o seu equilíbrio, e o financiamento à cultura e ao património
regressarão, em diferentes escalas de território e reencontrarão
os níveis anteriores à crise.
 Neste caso, interessa manter o património através da
máxima participação dos cidadãos, nomeadamente
através do voluntariado.
o Mas no caso de não se tratar duma crise clássica, mas do fim da
ilusão dum crescimento perpétuo e o início uma nova fase que
ninguém pode prever o fim nem as formas de chegada.
 Nesta possibilidade interessa refletir, na escala dos
territórios, o que é que deve ser conservado, reutilizado,

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 83


ou simplesmente documentado, para reforçar as raízes da
cultura e da qualidade de vida dos modos tradicionais.
o Nestas duas hipóteses, o conceito de crise é desmobilizador e
não produtivo. É necessário pensar sobre os fatos exteriores da
responsabilidade de um eventual dissolução da cultura
tradicional e do seu património.
o É então necessário manter uma ação sobre o património
evitando um envolvimento demasiado ambicioso. É aí que se
compreende a moratória sobre a criação de novos museus e dos
investimentos desproporcionados no património.

De que se trata então? Da gestão o património ou da gestão dos


elementos do património que pertencem ao mapa da comunidade ou
a um qualquer catálogo ecomuseal, ou ainda à gestão do ecomuseu
como instituição pública? Esta questão, que não se colocou desta forma,
ficou sem resposta.

o Do lado dos ecomuseus, é claro que a existência de leis


regionais em muitas regiões de Itália faz do Ecomuseu um
objeto político e administrativo que o distingue dos museus
tradicionais e que o institucionalisa, impondo-lhes certos limite
(efeito etiqueta).
o No que se refere ao património, para além do inventário, torna-
se necessário definir uma política com os habitantes do
território, que compreende, no mínimo, três grande fases.
 O conhecimento, (incluindo o balanço) do património
sobre todas as formas (o inventário propriamente dito), o
controlo do património, que inclui a
preservação/conservação e o acompanhamento da sua
transformação no tempo, a exploração do potencial
(cultural, social, educativo, económico) dos elementos do
património, no quadro de uma estratégia de
desenvolvimento sustentável do território.

O impacto económico do património é significativo, em termos de


emprego, de valor acrescentado sobre as matérias-primas e produções
locais, de novas atividades ou atividades tradicionais não deslocalizáveis,
a autossuficiência e a formação de circuitos curtos de consumo, etc.
Alem disso o efeito da frequência turística

 A gestão do património dever produzir uma oferta que responda à


procura exterior (no caso do turismo), ou responder à prioridade de
uma procura endógena que emane da própria comunidade, das

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 84


instituições que a representam ou a servem (administrações
comunais, escolas), ou ainda dos novos residentes á procura de
raízes?
o A relação com as empresas do território não se devem limitar
apenas ao mecenato, (não há empresas mecenas, apenas aos
chefes e diretores das empresas que fazem mecenato através
da empresa. É preferível e mais durável falar de parcerias (uma
cooperação sobre um objeto comum para objetivos diferentes)
ou da responsabilidade social (olhando para os salário da
empresa, das suas famílias e de uma forma geral do território
ou empresa implantada)

Problemas de debater que não foram suficientemente abordados:

 Como garantir – e controlar – a qualidade dos produtos turísticos,


agroalimentares, culturais, utilizando a património ou programas
ecomuseais?
o A questão da marca de origem ou do ecomuseu ele mesmo.
Qual o balanço social da política do património e do ecomuseu.
 Tem um efeito efetivo sobre a sua população,
nomeadamente sobre a sua avaliação
 Que modo de governação para o ecomuseu como
instrumento da comunidade para gestão do património
 A clássica associação (ONLUS em Itália), la cooperativa
associando diversas categorias de atores e de parceiros,
empresa de economia social, empresa mista controlada
pela administração comunal, fundação, etc..

Finalmente uma reflexão: é necessário um debate e uma experiencia


sobre os dois sentidos da palavra valorização: Parece-me indispensável,
procurar uma possível definição para o vocábulo Valorização, porque em
inglês não existe a palavra valorização, e devemos evitar confusões.

As palavras. A oficina deu conta durante o debate, de numerosos


vocábulos importantes, que necessitam duma espécie de léxico. Muitas
das palavras fazem parte duma linguagem corrente, e aplicam-se a
conceitos variados. Será útil dar-lhes um sentido «eco museológico» para
evitar mal entendidos.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 85


Informal Museology Studies, 14, summer 2016 86
Informal Museology Studies, 14, summer 2016 87
NOTAS MILANESAS SOBRE ECOMUSEOLOGIA SOCIAL

23
Pedro Pereira Leite

Algumas observações e conclusões pessoais do Fórum sobre Ecomuseus e Museus


Comunitários, realizado em Milão, entre 6 e 8 de julho, durante a 24º Conferência Geral
do ICOM.

O Ecomuseu e a eco museologia constituem-se fundamentalmente como


um modelo de organização para trabalhar o património duma dada
comunidade, na sua relação com o território através de métodos
participativos. Dos vários trabalhos de Graça Filipe e Hugues de Varine
fica clara a afirmação desde modelo de intervenção, que se distingue
duma museologia mais clássica, centrada sobre objetos e coleções num
edifício chamado museus. Um modelo que surge na Europa, num
contexto de crescente preocupação com a nova ciência nascente – a
“ecologia”, em 1972, no encontro de Grenoble do ICOM.

A filiação da Museologia social ou da Sociomuseologia no campo genético


ecomuseologia é clara e parece-nos hoje indiscutível. O encontro que deu
origem à “Declaração do Quebéc”, em 1984, que fundamenta o
Movimento da Nova Museologia (MINOM), surge dum encontro sobre
ecomuseologia e novos museus, realizado no Ecomuseu de Haute
Beauce. Foi um momento de encontro entre quem procurava, de um lado
atualizar a função social dos museus e de outro, aprimorar a intervenção
ecomuseal.24

Se a museologia social se agregou, no ano seguinte, em torno do


MINOM, o movimento da ecomuseologia não encontrou uma forma de
associação, de troca e partilha de ideias e projetos. Podemos considerar,
que a proposta que neste encontro de Milão é feita pelos ecomuseus,
procura atualizar esse propósito, procurando agora agregar forças,
juntando o MINOM, o ICOFON e o CAMOC. Foi por isso um evento
relevante, uma vez, que nos anos 70 a ecomuseologia encontrou sérias
resistências por parte deste comité da teoria museológica.

É natural que ecomuseologia, enquanto processo museológico, encontre


muitas correspondências no campo da sociomuseologia. Território,

23
Centro de Estudos Sociais Universidade Coimbra / ULHT
24
Isso mesmo refere Mário Moutinho em 1995 “A declaração do Quebec de 1984, in A
memória do pensamento museológico contemporâneo” (Documentos e Depoimentos)
org. Marcelo araujo & Cristina Bruno, Comitê Brasileiro do ICOM, dá um testemunho
sobre esta questão.
https://www.academia.edu/27176139/A_Declara%C3%A7%C3%A3o_do_Queb%C3%A
9c_de_1984

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 88


comunidade, participação são palavras-chave da ecomuseologia, da
museologia social, e da sociomuseologia. A função social e o
desenvolvimento também não são questões estranhas. Não valerá pois
perder muito tempo a procurar argumentos sobre a distinção entre
ecomuseus, museologia social, museus de comunidade, ou de
vizinhança. Foram formas que surgiram num dado tempo, para dar
respostas a preocupações dos processos desses tempos. Mais que
procurar diferenças interessa hoje procurar distinguir o que constitui
inovação e o que se configura como adequado aos problemas das
comunidades e dos territórios atualmente, a partir da atuação sobre os
patrimónios e heranças.

Valerá todavia a pena pensar nos desafios que o modelo da


ecomuseologia enfrenta. A sociomuseologia como se define como um
campo disciplinar, alicerçado nas práticas da museologia social, deverá
ter uma especial preocupação em acompanhar
esse debate, tanto mais que as práticas que são
tendencialmente convergentes e semelhantes.

Nestas reflexões abordaremos portanto a


ecomuseologia social como processo. Olhando
desse ponto de vista podemos afirmar, que no
encontro de Milão, a ecomuseologia se afirmou
como uma proposta sólida, convergente com o
campo da sociomuseologia e das práticas de
museologia social.

A ecomuseologia é um fenómeno no campo da


museologia. A sessão conjunto, ICOFOM,
CANMOC, MINOM foi um exemplo. Também o
foi o encontro sobre Ecomuseus e as visitas aos
ecomuseus da Lombardia. Discutir a
ecomuseologia a partir destes três comités do ICOM foi um passo que
deu vitalidade ao evento dos ecomuseus e lhe proporcionou uma ocasião
para apresentar a sua agenda

Não bastará contudo afirmar uma agenda, é também necessário dar


consistência às formas de trabalho e de relação. É necessário ir mais
longe na discussão. Criar o tal grupo de trabalho, uma organização
afiliada do ICOM, como se propôs em Milão é uma hipótese que está em
cima da mesa.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 89


Outra questão que valerá a pena olhar com atenção é a capacidade de
irradiação dos processos ecomuseológicos. Há regiões na Europa que
apresentam grande vitalidade. Itália em primeiro lugar, por razões que o
documento estratégico para os ecomuseus italianos ajuda a entender.
Em França, em Espanha, e em alguns outros países europeus, também
são visíveis. Na América do Sul e no Canadá, é surpreendente a sua
vitalidade. Sabemos da implantação dos museus comunitários no México,
embora neste encontro não tenham estado presentes. O Brasil é também
um caso de potência museal no campo dos ecomuseus.

Sabemos que estão a surgir ecomuseus na China, na Índia e no Japão. É


certamente um bom sinal das possibilidades do modelo. Mas, por outro
lado, não fica completamente esclarecida a ausência em praticamente
todo o continente africano. Não é o Ecomuseu uma proposta de
desenvolvimento do território? Se sim porque não foi e não é aplicado,
experimentado, ou mesmo enunciado como proposta. Desconhecimento
dos atores? Questão de modas? Falta de vontade?

Foi aliás essa uma das questões que levantamos na intervenção de


tivemos a propósito da nossa proposta dum “Ecomuseu do Katembe” em
Moçambique.

Primeira nota é portanto sobre o


reconhecimento do modelo, da sua extensão
na Europa e Américas, mas também da sua
limitação em alguns pontos cardeais. Será a
ecomuseologia um modelo eurocêntrico, que
apenas sobrevive em locais sobre a influência
da mercadoria, ou será possível um ecomuseu
fora da lógica do mercado? Ou seja será o
ecomuseu uma alternativa de transição? Será
possível este modelo, de usar o património
como recurso, para dar novas soluções de
desenvolvimento económico e territorial?

O conceito de ecomuseu e museu comunitário


está estável e reúne algum consenso. Será
possível que ele se venha a constituir como
uma plataforma de encontro mundial? Que tipos de diálogos serão
possível estabelecer com os processos vinculados à museologia social.

Será possível a proposta de Rede estabelecida entre os ecomuseus


italianos, seja a nível individual, seja a nível de processos, como foi feita

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 90


em Milão, em julho, ser alargada aos demais países europeus? Será
mundial ou regional? E em África, que modelo? E este é a nossa segunda
nota, sobre as reais possibilidades de criar uma rede de ecomuseus, de
base nacional ou Ibérica? Ou mesmo de dialogo lusófono ou
Iberoamericano?

A terceira nota levantada pelo encontro sobre Ecomuseus e Museus


Comunitários relaciona-se com a natureza do seu projeto. Na verdade,
como modelo museológico, tornar o território e a comunidade como
objeto patrimonial implica um projeto cultural alternativo ao mercado
global. As grandes forças mundiais são aglutinadoras, de mercados, de
financiamentos, de marcas, de fluxos de mercadorias e de pessoas. Os
ecomuseus trabalham com economias locais, de escala mais reduzida. Há
que ter isso em conta nos processos económicos, social e culturais.

A museologia não pode ser vista apenas numa das dimensões, seja ela
económica, social ou ambiental. Um ecomuseu só faz sentido se aquilo
que é feito ecomuseu irradiar, contagiar, toda a comunidade, seja do
ponto de vista educativo, cultural, social, económico ou ambiental. Ou
seja, para o processo ecomuseal ser hoje sustentável, é necessário que
seja interdisciplinar e trabalhe a cultura a partir das três dimensões:
ecomómica, social e ambiental. Como consequência, é necessário que
todo o processo ecosociomuseológico seja transdisciplinar. Que inclua
diferentes modos de conhecimento e produza diferentes soluções.

Isso leva-nos a uma


quarta nota, relativa
ao problema da
paisagem. O tema
geral da conferência
do ICOM eram os
Museu e as paisagens
culturais e aprovação
da carta de Sienna
sobre paisagens
25
culturais . Os museus
constituem como locais de interpretação da paisagem. Por maioria de
razão, os ecomuseus são, quase por definição a musealização da
paisagem. São ainda hoje os ecomuseus lugares de interpretação da
paisagens, ou poderão ser atores dessa paisagem? Como será possível
adicionar, ainda mais a questão ambiental, ausente do discurso da

25
http://icom-portugal.org/documentos_outros,129,542,detalhe.aspx

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 91


maioria dos museus, ao arrepio do que é estabelecido na Convenção da
UNESCO, sobre proteção e promoção do património mundial, cultural e
natural, de 1972. Um desafio que a carta de Sienna poderá colmatar, ou
será apenas mais uma carta no campo do Direito Internacional Público

Uma quinta nota que vale a pena relevar, é a necessária colaboração


entre os Ecomuseus, e outras organizações congéneres, tal como o
ICOMOS, organizações de turismo solidário, e do terceiro setor. Uma
relação que tem vindo a ser mal explorada, continuando as relações a
situar-se em planos separados. Os museus e as coleções de um lado, as
empresas de turismo de outros, as recomendações e as intervenções do
ICOMOS ainda de outro e o terceiro setor, talvez ainda mais longe deste
debate. Neste encontro ficou claro que é necessário criar espaços de
debate sobre questões comuns. Haverá muitas mais questões a
trabalhar. A possibilidade de estabelecer reais parcerias entre os
ecomuseus, realidade que acabam por ser distintas, seja na sua génese,
seja por vezes nos seus objetivos e princípios.

Serão possíveis redes de organizações com características tão


diferenciadas. Será possível estabelecer, através do modelo do
ecomuseu, redes de solidariedade com base no património? Que tipo de
inovação social estas organizações são capazes de construir?

A experiencia dos ecomuseus, em Itália e no mundo mostra a


possibilidade de usar este modelo como laboratório. Haverá contudo de
entender os seus limites e alcance. Para já, do que pudemos observar na
mostra apresentada em Milão, os ecomuseus podem desenvolver-se em
espaço rurais, deprimidos, em espaços urbanos ou em regeneração
urbana. Apresentam-se como organizações diferenciadas: de iniciativa
pública, municipal, de associações locais, de pequenas cooperativas.
Constituem-se como um potencial de iniciativa social de associação e
compromisso na ação, não menosprezável. Um potencial a explorar.
Trata-se dum caminho a explora em Portugal que vamos procurar
desenvolver.26

Para solicitar a associação à plataforma portuguesa, pode-se usar o mail


26

pedropereiraleite@hotmail.com, ou o dos nossos companheiros italianos

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 92


info@ecomusei.eu.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 93


Proposta de constituição duma rede de ecomuseus
portugueses

Na sequência do encontro de Milão foi enviada a vários colegas,


museólogos e ecomuseólogos a seguinte proposta de ação

Caros amigos,

1. Como é provavelmente do vosso conhecimento, no passado dia 4 de


julho, durante a 24º conferencia Geral do ICOM em Milão, decorreu um
Programa Conjunto sobre Ecomuseus e Museus Comunitários (uma
sessão organizada por três comités do ICOM (o ICOFOM, o CAMOC e o
MINOM) propostas pelos nossos colegas italianos.

Essa sessão foi seguida de um encontro nos dias 6, 7 e 8, onde se


efetuou um intenso debate, a apresentação de experiências de
ecomuseus e museus comunitários.

Os nossos colegas italianos colocaram à discussão o documento


estratégico dos Ecomuseus Italianos que podem ver em

(http://www.ecomusei.eu/?page_id=1591

versão em português - https://globalherit.hypotheses.org/5124)

Nele se aborda, para além de algumas questões relevantes sobre o


modelo dos ecomuseus, alguns desafios, que podem ser visto no relato
feito por Hughes de Varine (http://hugues-interactions.over-
blog.com/2016/07/l-ecomuseologie-s-affirme-a-
milan.html?utm_source=_ob_share&utm_medium=_ob_facebook&utm_c
ampaign=_ob_sharebar) enquanto não estão disponibilizados os
documentos na sua versão final, pelo que em breve teremos algumas
questões relevantes, nomeadamente as conclusões e os relatórios das
nossas conversas.

2. Como entre nós a Ecomuseologia está muito associada à nossa amiga


Graça Filipe e ao Ecomuseu do Seixal, e não tendo a Graça ter tido
possibilidade de ir a Milão, no regresso solicitei-lhe uma breve conversa
para nos sintonizarmos sobre estas questões, nomeadamente para a

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 94


auscultar sobre a possibilidade de criarmos entre nós, ou entre nós
Ibéricos uma rede de ecomuseus que se ligue a esta rede europeia.

Em novembro do ano passado participei, conjuntamente com a Graça


Filipe e o Santiago Macias (dos Museus de Moura) no programa da TSF
"Encontros com o Património" sobre "Ecomuseus e museus
comunitários" (http://www.tsf.pt/programa/encontros-com-o-
patrimonio/emissao/ecomuseus-e-museus-comunitarios-4898954.html)
onde de alguma forma se fez um balanço e um mapa de quem e o que
se estava a fazer neste campo em Portugal.

3. Valerá a pena, na sequência deste encontro no âmbito do ICOM,


procurar alargar esse debate que então tivemos

Sabemos que entre nós reunir vontades é sempre um caminho


complexo. O próprio ecomuseu do Seixal é um exemplo das diferentes e
persistentes dificuldades deste modelo, mas que apesar de tudo continua
vivo e crítico.

Um primeiro passo seria nesta altura cartografar, quem e que


experiências estão a acontecer em Portugal no âmbito desta relação
entre a museologia, o ambiente e o desenvolvimento local.

Se por um lado não há muitas experiências de ecomuseus (temos par


além do Seixal o Ecomuseu do Barroso, da Ria de Aveiro, do Zêzere,
ainda que apesar do nome, nem todos possam seguir o modelo dos
ecomusueus (terrtório+comunidade+desenvolvimento) e museus
comunitários, há muitos outros, locais ou rurais que usam metodologias
da ecomuselogia) e assumem preocupação de uma museologia ao
serviço da sociedade e do seu desenvolvimento.

Assim muito brevemente temos no alguns casos, no Algarve no Alentejo,


na Estremadura, no Centro e no Barroso que já estão bem referenciados,
enquanto outros estão próximos, mas provavelmente desconhecemo-nos
mutuamente (por exemplo em Maio visitei o Museu do Sal na Figueira da
Foz, onde é feio um trabalho ecomuseoloógico, sem que essa palavra
surja nas apresentações do sítio.

4. Por outro lado, também na linha do aconteceu em Itália e no que tem


vindo a acontecer entre nós, a participação do ICOMOS nesta questão
assume particular relevância, quer pela natureza dos documentos e
práticas.

Informal Museology Studies, 14, summer 2016 95


5. Assim como também a participação das redes de Turismo solidário,
responsável, ecológico, de natureza pode ser um elemento de grande
relevância nestes debates, sobretudo nas questões da procura de
alternativas e da sustentabilidade económica.

6.A nossa colega Graça Filipe está agora a dinamizar um projeto


ecomuseológico, a partir da Fábrica de Vale de Milhaços, no Seixal e no
próximo ano de 2017 celebram-se os 35 cinco anos do Ecomuseu do
Seixal. Esta seria uma boa oportunidade para fazermos um balançoo
sobre a ecomuseologia em Portugal.

6 Recordo que no encontro de Milão foi sugerido que os Ecomuseus se


agreguem num comité associados do ICOM, com objetivo de dar mais
visibilidade a este movimento e ao mesmo tempo a iniciar uma reflexão
sobre a especificidade do modelo, bem como pensar sobre formas de
formação ou estágios, para quem esteja envolvido em projetos de
ecomuseus e museus comunitários.

Até que as conclusão de Itália estejam disponíveis proponho que nos


vamos mantendo em comunicação, sobre a forma de rede e
eventualmente construir um blog sobre ecomuseologia com informação
sobre este modelo em Portugal, bem como sugestões a quem e de que
forma podemos alargar este debate.

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