Você está na página 1de 5

O dinheiro como

forma do valor
Gentil Corazza*

Este texto procura avaliar as críticas feitas a meus textos por Claus Germer
em “O caráter de mercadoria do dinheiro segundo Marx — uma polêmica”,
publicado nesta revista. Devido à limitação de espaço, procurarei ser objetivo
ao esclarecer e reafirmar meus argumentos.
Entendo que neste debate sobre o conceito de dinheiro em Marx estão
envolvidas algumas questões importantes: primeiro, a pretensão de Germer de
“identificar com precisão” o conceito de dinheiro em Marx, que o define
“explicita e inequivocamente como uma mercadoria”. Mais ainda, Germer
entende não haver “qualquer possibilidade de interpretação diversa”; segundo,
além de interpretar ser esta a única teoria de Marx, parece que, para Germer, se
o dinheiro não for uma mercadoria, ou seja, se ele não tiver valor intrínseco,
não pode desempenhar sua função de medir os valores das mercadorias. Sua
questão é: como algo que não possui valor pode medir valor? Em terceiro
lugar, Germer diz expressamente não estar preocupado em demonstrar se a
teoria de Marx é “verdadeira ou falsa”.
Entendo que o pensamento de Marx é um pensamento complexo demais
para permitir interpretações precisas e inequívocas. Interpretações são sempre
interpretações pessoais. Além disso, Marx não deixou uma teoria monetária
completa e acabada. Mais ainda, como é possível pretender tratar uma questão
tão relevante devido as suas implicações sobre o restante da teoria de Marx,
sem considerar se a mesma é “verdadeira ou falsa”?
Por isso, se procuro desenvolver, ao lado de outros intérpretes de Marx, a
perspectiva do dinheiro como “forma do valor”, em primeiro lugar, o faço
porque penso que ela realmente existe, em Marx, sendo inclusive mais central
e relevante que o conceito de “dinheiro mercadoria; em segundo lugar, porque
estou convencido de que ela é mais coerente com seus conceitos derivados de
dinheiro de crédito, de capital monetário e de capital fictício; em terceiro lu-

* Economista e Professor da Ufrgs. E-mail: gentil@ufrgs.br

28 • REVISTA Soc. bras. Economia Política, Rio de Janeiro, nº 11, p. 28-32, dezembro 2002
gar, porque penso que ela é poderosamente verdadeira para explicar os fenô-
menos monetários e financeiros atuais, o que já não se pode dizer em relação
ao conceito de dinheiro mercadoria. Embora o conceito de “dinheiro mercado-
ria” exista em Marx, ele não representa a idéia central e não esgota a comple-
xidade de sua teoria monetária. Por isso, ficar preso a esta interpretação, como
se fosse a única possível, além de não corresponder a toda verdade, significa
aceitar que a teoria monetária de Marx não consegue mais explicar a realidade
monetária e financeira do capitalismo contemporâneo.
Por outro lado, parece existir alguma concordância entre meu texto e o de
Germer que consiste em conceituar o dinheiro como “forma de valor”, sendo
que a divergência residiria no significado da expressão: “forma de valor”. Para
Germer, Marx a entende unicamente como “forma material” de valor. Concor-
do que no exemplo usado por Marx, ao desenvolver a gênese lógica do dinhei-
ro, a partir do confronto de duas mercadorias, a “forma simples do valor” signi-
fica “forma material” do valor. No entanto, “a forma material” do valor, assumida
pelo dinheiro na sua gênese, não esgota toda a complexidade do conceito de
dinheiro em Marx nem esgota todo sentido de “forma do valor”.
No mesmo sentido, parece sintomático o título do artigo de Germer: “o
caráter de mercadoria do dinheiro”. Pergunto, o que significa o “caráter” de
mercadoria se o que caracteriza uma mercadoria e a diferencia de um valor de
uso qualquer é justamente o seu valor de troca? Se o “caráter” significar “valor
de troca”, penso que seria um conceito de dinheiro plenamente aceitável e
compatível com o de “forma de valor”.
Nesta perspectiva, já procurei demonstrar à exaustão em meu texto que,
para Marx, o dinheiro é o próprio “valor” de uma mercadoria, que assume uma
existência autônoma e independente no “valor de uso” ou na “forma material”
de outra mercadoria. Assim, parece lógico e natural que, para Marx, a primeira
forma dinheiro do valor tenha sido uma mercadoria, pois a gênese da forma
dinheiro provém do confronto de duas mercadorias: “20 varas de linho = 1
casaco”. E, justamente porque esta “forma simples do valor” já contém toda
complexidade, contradição e fetiche da “forma dinheiro”, não se pode con-
cluir, como faz Germer, que o dinheiro é uma mercadoria. E ponto final.
A partir da própria citação de Marx, procuro argumentar que, antes de o
dinheiro ser “forma material”, ele é apenas “forma” do valor. É isso que quero
dizer com o adjetivo “pura” forma, ou seja, “pura” não está se contraponto a
“impura”, como afirma Germer, mas, quer dizer “somente”, “fundamentalmen-
te”, isto é, o dinheiro é essencialmente forma, ele possui uma “essência for-
mal” e não uma “essência material”. E a forma, enquanto forma, em si mesma,

REVISTA Soc. bras. Economia Política, Rio de Janeiro, nº 11, p. 28-32, dezembro 2002 • 29
enquanto tal, nada tem de material. É neste sentido que uso o adjetivo “imaterial”
e procuro radicalizar dizendo que o dinheiro é “pura forma imaterial” do valor.
No entanto, se os adjetivos “pura” e “imaterial” dificultam a compreensão,
podemos suprimi-los e ficar com a expressão aceita por todos, de que dinheiro
é “forma de valor”. Isto é o essencial da definição. E podemos manter a afirma-
ção de o dinheiro, “enquanto forma” do valor, nada tem de material. O dinhei-
ro, como diz Paulani (1991), é pura forma, ou ele possui uma essência formal.
Germer me interpreta mal quando afirma que, para mim, o “dinheiro é
uma essência imaterial que necessita de um suporte físico, para nele encarnar-
se” ou quando diz que proponho “uma forma sem conteúdo”. O que afirmo é
que o dinheiro não é uma essência imaterial, mas uma forma de existência,
cujo conteúdo é o valor. O problema é que não se pode separar forma e conteú-
do. A natureza da “forma” ou da “aparência” é determinada pela natureza do
conteúdo, ou pela sua essência, o valor, que é social, imaterial, universal. Por
isso, não há formas vazias e sem conteúdo. No caso da “forma dinheiro”, o
conteúdo é o próprio valor, cuja natureza não é material, mas social, geral,
abstrata, universal, da mesma forma que o trabalho abstrato. É por isso que o
dinheiro, enquanto forma, não possui valor, pois ele é o próprio valor, que
assume uma forma de existência independente e autônoma em relação à mate-
rialidade das mercadorias.
Germer também me cobra por não tratar do “valor de troca”. Isto me
surpreende, pois, de que outro valor estou falando senão do valor de troca?
Acaso trato do valor de uso? Falo do valor no mesmo sentido em que Marx fala
do valor na frase “o valor de uma mercadoria manifesta-se no valor de uso de
outra”. O que é o “valor de uma mercadoria”, para Marx, senão o valor que se
manifesta como “valor de troca” numa relação entre duas mercadorias.
Novamente, é preciso insistir que, para Marx, o processo de gênese do
dinheiro é um processo de gênese de formas do valor, a forma simples, a forma
relativa, a forma equivalente geral, até a forma dinheiro. Trata-se de encontrar
a forma mais adequada de existência do valor. Na mercadoria, ele se encontra
disfarçado de valor de uso particular, o que não combina com sua natureza
social abstrata. Antes de falar que o dinheiro é a mercadoria geral, Marx o
define como a “forma dinheiro” do valor. O que deve ficar claro é que a forma
dinheiro do valor, por ser forma, deve assumir uma expressão material, não
importa qual dos seus exemplos históricos, como o sal, gado, tabaco, ouro, ou
um dos seus signos modernos, bilhete de papel, lançamento contábil ou um
simples impulso eletrônico.
Uma outra questão relevante não enfrentada por Germer diz respeito à
derivação, desenvolvimento e articulação lógica da cadeia conceitual que for-

30 • REVISTA Soc. bras. Economia Política, Rio de Janeiro, nº 11, p. 28-32, dezembro 2002
ma a teoria monetária e financeira de Marx. Trata-se da cadeia conceitual que
articula as categorias dinheiro, crédito, capital monetário e capital fictício. Como
observa corretamente Rosdolski (1989), essas categorias não estão contidas,
fechadas, nem completas em si, mas cada uma delas “se desenvolve para além
de si mesma” e “não pode ser concebida plenamente sem as precedentes”.
Também o contrário parece correto: “que cada uma dessas categorias pressu-
põe a seguinte e só fundada nela poderia alcançar seu pleno desenvolvimen-
to”. Isto sugere que os conceitos, em Marx, não são contidos estaticamente nas
“letras mortas”, em que se expressam. Ao contrário, em Marx, os conceitos
entranham e reproduzem o próprio processo histórico, dinâmico e contraditó-
rio. Assim, o conceito de dinheiro reproduz o movimento expansivo do valor
de troca ou a riqueza abstrata que procura de todas as formas dominar e supri-
mir toda materialidade do valor de uso das mercadorias.
Germer também afirma que faço “referências ambíguas e citações va-
gas” de Marx, mas não diz em que consiste a ambigüidade. Ora, as abundantes
citações que faço referem-se ao Capital e aos Grundisse, onde Marx trata espe-
cificamente do dinheiro. Seria mais esclarecedor analisar essas citações, uma
por uma, e interpretar seu significado. Por exemplo, o que quer dizer Marx,
quando afirma que “o valor de troca da mercadoria constitui sua qualidade
monetária imanente”? Ou estas outras: “enquanto valor, a mercadoria é dinhei-
ro”; “o valor de troca forma a substância do dinheiro”; a essência do dinheiro
é sempre “o valor enquanto tal”; o dinheiro é “a alma da mercadoria”. Onde
está a materialidade do dinheiro nestas citações de Marx?
Por que insistir, então, na materialidade do dinheiro? Qual o motivo des-
se apego, quando isso torna difícil preservar a validade da teoria para explicar
o dinheiro no mundo atual? A razão principal de Germer parece ser sua função
de medida do valor, pois entende ele que algo que não possui valor não serve
para medir valores. Entendo que, para Marx, o valor das mercadorias se mede
como preço, ou seja, o preço é a expressão monetária do valor. Em meu texto,
reproduzo muitas passagens em que Marx acentua esta idéia, ou seja, que “preço
é este valor de troca expresso em dinheiro”, e “o tempo de trabalho, enquanto
medida de valor, só existe idealmente”.
Finalmente, podemos usar a própria citação de Marx, feita por Germer,
para argumentar em sentido contrário ao seu e resumir meus argumentos: “Mas
nunca se deve esquecer (...) que o dinheiro — na forma dos metais preciosos
— constitui a base da qual o sistema de crédito, pela sua própria natureza,
nunca se pode desprender”.
Como vemos, Marx parece estar mesmo preso ao padrão-ouro, por cir-
cunstâncias históricas. No entanto, mesmo que isto seja verdade, não se pode

REVISTA Soc. bras. Economia Política, Rio de Janeiro, nº 11, p. 28-32, dezembro 2002 • 31
concluir que o dinheiro tem que ser necessariamente uma mercadoria. Obser-
ve-se a parte final da citação: “o dinheiro — na forma de metais preciosos”.
Por que a expressão “na forma de metais preciosos”, se o dinheiro = ouro,
como escreve repetidamente Germer? Nosso argumento é que a complexidade
da teoria monetária, creditícia e financeira de Marx sobrevive e é poderosa-
mente verdadeira, mesmo sem sua base metálica. Ou seja, se conceituarmos o
dinheiro como “forma do valor”, ele pode continuar a ser a “base monetária”,
a “base dinheiro”, ou a “base valor” da qual o sistema de crédito não pode se
separar definitivamente sem “quebrar a cabeça”. O que Marx afirma é que o
sistema de crédito nunca vai se desprender de sua “base dinheiro”, enquanto
valor que é. Isto é o essencial de sua afirmação. O dinheiro — “na forma de
metais preciosos” é uma contingência histórica à qual Marx esteve submetido.
Mas seus conceitos de dinheiro, dinheiro de crédito, de capital monetário e de
capital fictício, enquanto expressões contraditórias e complexas do movimen-
to expansivo do valor, possuem um poder explicativo e verdadeiro que ultra-
passa tanto as “letras mortas” que procuram expressá-los, como as circunstân-
cias históricas em que foram elaborados.

Referências bibliográficas

CORAZZA, Gentil. Marx e Keynes sobre dinheiro e economia monetária. Revista da


Sociedade Brasileira de Economia Política. Rio de Janeiro: Sette Letras, nº 3
dezembro de 1998.
GERMER, Claus. O caráter de mercadoria do dinheiro segundo Marx — uma polêmi-
ca. 2002, mimeo.
MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
___________ Grundrisse. México: Fundo de Cultura Econômica, 1985.
PAULANI, Leda Maria. Do Conceito de Dinheiro ao Dinheiro como Conceito. São
Paulo: USP, (Tese de Doutoramento), mimeo, 1991.
REUTEN, Geert. The money expression of value and the credit system: a value-form
theoretic outline. London: Capital and Class n.º 35, summer,1988.
ROSDOLSKY, R. Génesis y estructura de El Capital de Marx. (estudios sobre los
Grundrisse). México: Siglo Veintiuno Editores,1989.

32 • REVISTA Soc. bras. Economia Política, Rio de Janeiro, nº 11, p. 28-32, dezembro 2002