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Juan José Saer - O conceito de ficção

O título desse curto ensaio, O conceito de ficção, parece ter um tom irônico. Espera-se que a partir
dele o texto elabore uma definição mais rígida, clássica, delimitada do que é a ficção. Mas é
justamente o oposto que acontece, o que não significa que a aproximação de Saer seja pouco
rigorosa. Muito pelo contrário. Sua argumentação parte justamente da necessidade de uma
abordagem mais rigorosa da ficção, da necessidade de se levar em consideração de maneira mais
complexa alguns dos aspectos que a compõe. E isso não significa a mesma coisa que propor um
conceito fechado.

Para isso, também ironicamente, Saer inicia sua “definição” questionando alguns elementos do texto
de não-ficção. Cita duas biografias de Joyce (Gorman e Elmann), aponta suas diferenças estilísticas,
seus problemas metodológicos, sua complicada relação com as ideias de verdade, de fato, de
interpretação, de subjetivo, de objetivo. Dificuldades que não deveriam existir num tipo de texto que
tem como fim a apresentação de uma verdade. Assim, essa maneira frouxa com que as biografias e
os livros de não-ficção tratam dos limites entre subjetivo e objetivo, verdade, não-verdade, acabam
por colocar a veracidade como uma convenção literária e não uma categoria vinculada à o que é
verdadeiro.

Por isso, Saer sugere um exame mais rigoroso das relações entre verdadeiro e falso. Aponta que a
exclusão de traços fictícios não é garantia de veracidade e que deve-se levar em conta a
complexidade de se definir ou afirmar o que é verdadeiro ou real, discussão rapidamente superada
pelos supostos relatos objetivos. Junto com isso, afirma que o que é ficcional não necessariamente é
falso ou mentiroso. Cito o texto:

“Não se escreve ficções para se esquivar, por imaturidade ou irresponsabilidade, dos rigores que o
tratamento da “verdade” exige, mas justamente para pôr em evidência o caráter complexo da situação,
caráter complexo de que o tratamento limitado ao verificável implica uma redução abusiva e um
empobrecimento. Ao dar o salto em direção ao inverificável, a ficção multiplica ao infinito as
possibilidades de tratamento. Não dá as costas a uma suposta realidade objetiva: muito pelo contrário,
mergulha em sua turbulência, desdenhando a atitude ingênua que consiste em pretender saber de
antemão como é essa realidade. Não é uma claudicação ante tal ou qual ética da verdade, mas uma
busca de uma um pouco menos rudimentar.”

Saer afirma que verdade e ficção não são opostos. Diz que fazer ficção não significa obscurecer a
verdade. Aponta que colocar de maneira hierárquica a verdade sobre a ficção é uma fantasia moral. E
afirma isso não por achar que a ficção seja superior, mas sim porque a objetividade é sempre uma
ideia discutível, complexa e difícil de definir, o que complica a própria legitimação da verdade. Por
outro lado, é nessa dificuldade que está o trunfo da ficção. Sua força está justamente em se alimentar
dessa complexidade, dessa ambiguidade, dessa indeterminação, o que é diferente de afirmar que a
ficção é uma reinvidicação do falso. Diz ele que o que está em jogo na ficção é uma mescla entre um
caráter empírico e imaginário, em que verdade e falsidade se misturam, se indissociam. Assim, a
ficção não solicita ser acreditada enquanto verdade, mas sim enquanto ficção. Ela é um tratamento
específico e inseparável do mundo, que não é nem um elogio apenas ao verdadeiro, nem apenas ao
falso. Cito o texto:

“A ficção não é, portanto, uma reivindicação do falso. Mesmo aquelas ficções que incorporam o falso
de um modo deliberado – fontes falsas, atribuições falsas, confusão de dados históricos com dados
imaginários, etc. –, o fazem não para confundir o leitor, mas para assinalar o caráter duplo da ficção,
que mescla, de um modo inevitável, o empírico e o imaginário. Essa mescla, ostentada somente em
certo tipo de ficções até se converter em um aspecto determinante de sua organização, como poderia ser
o caso de alguns contos de Borges ou de alguns romances de Thomas Bernhard, está no entanto
presente em maior ou menor medida em qualquer ficção, de Homero a Beckett. O paradoxo próprio da
ficção reside no fato de que, se recorre ao falso, o faz para aumentar sua credibilidade. A massa
pantanosa do empírico e do imaginário, que outros têm a ilusão de fracionar a piacere em pedaços de
verdade e falsidade, não deixa ao autor de ficções mais que uma possibilidade: mergulhar nela.”

Saer exemplifica a importância dessa complexidade citando dois escritores como exemplos negativos
que se encontram em lugares opostos do espectro verdade-falsidade: Soljenitsin é o escritor de
Arquipélago Gulag, narrativa dos anos 70, que denúncia o sistema das gulags na União Soviética.
Sua ficção parece partir de uma verdade já definida, de uma ideologia, de um discurso elaborado
antes do exercício da ficção, o que, ironicamente acaba por aproximá-lo do realismo socialista,
estética do regime que denunciava. Do outro lado, Umberto Eco, pensador italiano da comunicação e
da semiologia, escritor de O nome da rosa e O pêndulo de Foucault. Próximo de uma estética pós-
moderna, da falsificação, da mistura de gêneros e códigos, o que Eco faz, segundo Saer, é solapar a
ficção e transformá-la em entretenimento inofensivo, em brincadeira sem consequências, em bom
produto de consumo, já que nele nada vale. Para Saer, ambos, apesar de opostos, destroem a
ambiguidade essencial para a potência da ficção, um pela via da verdade predeterminada, outro pelo
elogio ao falso.

Assim, o que é decisivo para Saer é a construção crítica entre verdade e falsidade na ficção, isto
é, sua matéria é estar à margem do verificável e de poder trabalhar com as inúmeras
possibilidades que surgem dessa não-verificação. Cito o texto:

“Por isso, não podemos ignorar que nas grandes ficções de nosso tempo, e talvez de todos os tempos,
está presente esse entrecruzamento crítico entre verdade e falsidade, essa tensão íntima e decisiva, não
isenta nem de comicidade nem de gravidade, como a ordem central de todas elas, às vezes enquanto
tema explícito e às vezes como fundamento implícito de sua estrutura. O fim da ficção [finalidade] não
é estender-se nesse conflito e sim fazer dele sua matéria, modelando-a “a sua maneira”. A afirmação e a
negação lhe são igualmente estranhas, e sua espécie tem mais afinidades com o objeto que com o
discurso. Nem o Quixote, nem Tristram Shandy, nem Madame Bovary nem O castelo pontificam sobre
uma suposta realidade anterior a sua materialização textual, mas tampouco se resignam à função de
entretenimento ou de artifício: ainda que se afirmem como ficções, querem no entanto ser tomadas ao
pé da letra.”

Para finalizar, como síntese da ideia apresentada, Saer propõe renomear o exercício da ficção.
Chama-a de antropologia especulativa, noção que englobaria e misturaria o verdadeiro e o falso, o
empírico e o imaginário, a pesquisa e a especulação.