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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA COMARCA DE


SEARA

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA


CATARINA, pelo Promotor de Justiça titular da Promotoria de Justiça
de Seara, com fundamento nos arts. 127, 129, III e 225 da
Constituição da República, nos arts. 1º e 2º da Lei nº 9.433/97, no
art. 5º da Lei nº 7.347/85, e no art. 846 e seguintes do Código de
Processo Civil, propõe AÇÃO DE PRODUÇÃO ANTECIPADA DE
PROVAS em face de:

ÁGUA MINERAL FONTE VIDA LTDA., pessoa jurídica de


direito privado, representada por seu sócio-admimistrador Neucimar
Celso Araldi, inscrita no CNPJ sob o nº 07.984.806/0001-00, com
sede e foro na Linha Bonita, Zona Rural de Arvoredo, nesta Comarca;

SPE ARVOREDO ENERGIA S.A., pessoa jurídica de


direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº 09.076.988/0001-47, com
endereço na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 1309, 1º Andar, Sala A,
Jardim Paulistano, São Paulo/SP.

1. Objetivo da ação

Esta ação de cautelar tem por objetivo realizar


antecipadamente prova da vazão e a qualidade da água extraída do
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poço tubular instalado em imóvel de propriedade da requerida Água


Mineral Fonte Vida Ltda.

A prova será útil e necessária em eventual ação civil


pública a ser proposta pelo Ministério Público, para que se possa
saber qual a adequada compensação ambiental a ser exigida da
requerida SPE Arvoredo Energia Ltda. antes da inundação do local
que servirá de reservatório de água para geração de energia elétrica
no Município de Arvoredo.

2. Histórico

Em agosto de 2008 o senhor Neimar Araldi, irmão do


sócio-administrador da empresa Água Mineral Fonte Vida Ltda.,
compareceu à Promotoria de Justiça de Seara informando que a PCH
(Pequena Central Hidrelétrica) de Arvoredo inviabilizará a extração
de água mineral em sua propriedade.

Segundo o relato, a água mineral ali colhida de um poço


tubular, além de no futuro vir a ser explorada comercialmente,
beneficia gratuitamente diversas pessoas da localidade, que é
atingida anualmente pelas secas da região Oeste.

Notificada da instauração de procedimento preparatório


nesta Promotoria de Justiça, a empresa SPE Arvoredo Energia Ltda.
informou que:

a) a implantação da PCH de Arvoredo não inutilizará o


aqüífero;

b) a empresa se compromete a implantar solução para a


continuidade da exploração e distribuição de água do
poço;

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c) para tanto, a SPE Arvoredo Ltda. precisa ingressar no


imóvel e realizar testes de vazão e de qualidade da
água;

d) apesar do compromisso, os representantes da


empresa Água Mineral Fonte Vida Ltda. não
autorizaram o ingresso de técnicos da empresa SPE
Arvoredo Ltda. para realizarem testes.

Convocou-se reunião na Promotoria de Justiça de Seara


para tratar do assunto, inclusive com a população afetada, ocasião
em que compareceram aproximadamente trinta pessoas.

Na oportunidade foram prestados diversos


esclarecimentos pelo Geólogo Mariano José Smaniotto, de Chapecó,
mas continuaram pendentes diversas dúvidas: o alagamento
inviabilizará ou não a extração de água?; haverá alternativa para
obter a mesma vazão e a mesma qualidade?

Os moradores do local manifestaram preocupação com a


solução do impasse, pois temem que ficar sem água potável com a
instalação da hidrelétrica, já que na região os trinta poços
perfurados anteriormente não apresentaram vazão adequada.

O representante legal da empresa Água Mineral Fonte


Vida Ltda. não se fez presente e, mesmo sabendo da importância de
sua participação, não requereu o adiamento da reunião. Enviou
advogado sócio do escritório de advocacia que trabalha para a
empresa, sem poderes de decisão.

Diante da inércia, convencionou-se que a empresa Água


Mineral Fonte Vida Ltda. informaria por escrito se autorizava ou não
a realização dos testes. Nada, nem mesmo um telefonema ao

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Ministério Público, foi feito, passando-se mais de um mês e meio da


reunião.

Por fim, a empresa SPE Arvoredo Energia Ltda.


comprometeu-se a adotar as soluções necessárias para compensar a
população. Informou, contudo, que necessita ingressar no local para
obter dados precisos.

3. Fundamentos fáticos

O que se percebe, portanto, é que a empresa Água


Mineral Fonte Vida Ltda. vem sistematicamente emperrando o
procedimento com o objetivo de no futuro valer-se da inexistência
de informações concretas sobre a vazão e a qualidade da água do
poço tubular e obter alguma vantagem em face da empresa SPE
Arvoredo Energia Ltda.

No entanto, com tal proceder, acaba colocando em sério


risco o direito ao bem-estar da população que se vale de referido
poço para suas necessidades básicas. Caso não encontrada solução
adequada a tempo – o que demanda conhecer detalhes da vazão e
da qualidade da água – fatalmente não se poderá exigir da empresa
SPE Arvoredo Energia Ltda. a compensação adequada.

Eis a preocupação do Ministério Público, que pretende


obter formal compromisso da empresa SPE Arvoredo Energia Ltda.
em localizar, instalar e fazer funcionar poço com igual vazão e
qualidade para servir aos diversos moradores de Linha
Bonita, no interior de Arvoredo.

A prova da vazão e da qualidade só poderá ser feita com


perícia. No entanto, há fundado receio de que, com o alagamento da
represa, torne-se impossível a verificação de tais fatos no curso da

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demanda principal, justificando-se, portanto, a propositura desta


cautelar antecipatória de provas.

3. Direito – Política Nacional de Recursos Hídricos

Para o art. 1º da Lei nº 9.433/97, que instituiu a Política


Nacional de Recursos Hídricos, “em situações de escassez, o uso
prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a
dessedentação de animais” (inciso III).

Para o mesmo dispositivo, “a gestão dos recursos hídricos


deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas” (incido IV). Por
sua vez, a outorga, ou a concessão de uso obtida pela Água Mineral
Fonte Vida Ltda., deverá preservar o uso múltiplo dos recursos
hídricos.

No caso dos autos, como se vê, o escasso recurso hídrico


disponível na região corre sério risco de futuramente vir a beneficiar
somente a empresa Água Mineral Fonte Vida Ltda. Sim, porque, em
caso de alagamento sem a perícia que se propõe nesta ação
cautelar, somente caberá indenização. E a indenização, como é
evidente, não beneficiará a população atingida, que somente quer
água para viver.

5. Pedidos

Ante o exposto, o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO


DE SANTA CATARINA requer:

a) o recebimento da inicial e a citação das requeridas


para apresentarem quesitos e nomearem assistente técnico, em
cinco dias;

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b) a nomeação de Mariano José Smaniotto, geólogo, sócio


da Leão Poços Artesianos Ltda. (49 3323.1444), como perito judicial,
cujos honorários, pela inversão do ônus da prova, deverão ser
custeados pelas requeridas;

c) ao final, a homologação do laudo pericial, para servir


de prova judicial em futura ação civil pública a ser promovida.

Dá-se à causa o valor de R$ 50.000,00 (cinqüenta mil


reais).

Seara, 2 de dezembro de 2008

Eduardo Sens dos Santos


Promotor de Justiça

Quesitos pelo Ministério Público:

a) Qual a vazão máxima, média e mínima do poço de Linha


Bonita?

b) Como pode ser classificada a qualidade da água de Linha


Bonita?

c) A água de Linha Bonita é considerada “água mineral”?

d) O que se exige para classificar determinada água como


“mineral”?

e) O alagamento do local em que está instalado o poço de


Linha Bonita inviabilizará a extração de água?

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f) Quais as soluções para continuar atendendo a população


de Linha Bonita após o alagamento?

g) Há viabilidade técnica, econômica e ambiental para obter


vazão e qualidade semelhantes em outro local, atendendo
a população de Linha Bonita?

h) Há viabilidade técnica, econômica e ambiental em desviar o


alagamento para impedir que atinja o poço de Linha
Bonita?

i) Quais as alternativas para manter o empreendimento (PCH)


e satisfazer as necessidades de água da população de
Linha Bonita?

j) Quais os custos estimados para cada alternativa


vislumbrada?

k) Quais os custos estimados para encontrar e perfurar outro


poço que sirva à população de Linha Bonita?