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Copyri111t1 © by Marcos Reigota, 1994

Nenhuma parte desca publicação pode ser gravada,


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armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecãnicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia da editora.

Primeira edição, 1994


4ª reimpressão, 2006

Revisão: Cdssio A. Leite, Alfredo


Leite e Dirceu Scali Jr.
Capa: Loise Weiss
SUMÁRIO

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Reigota, Marcos
O que é educação ambiental / Marcos Reigota.
São Paulo :Brasiliense, 2006. - - (Coleção primeiros
passos ; 292) Introdução ............................ .. ..... ......................... 7
A educação ambiental como educação política ... 9
4ª reimpr. da I' ed. de 1994. Histórico da educação ambiental ...................... 13
ISBN 85-11-01292-3
Definindo conceitos .... ....................................... 19
1. Educação ambiental 1. Título li. Sc'ric Contextos possíveis .................. ...... ...... ..... ......... 23
06 1086 ('f)f) 104.2 Objetivos ........................................ ............. ....... 31
Índices para catálogo slstemlltkll' Conteúdos .................. .. ..... ....... ..... .................... 35
1. Educação ambiental 304 .2 Metodologia ... ........... .. ....................................... 37
A avaliação dos alunos ..... .............. .... ........... .... 44
Recursos didáticos .... ..... ... ...... .......................... 47
editora brasiliense s.11. A educação ambiental no Brasil ........................ 50
Rua Airi, 22 - Tatuapé - CEP 033 10-010 Snu 111111111 S I'
fone/Fa~ (Oxx l 1) 6198- l<IHR Perspectivas futuras .......................................... 53
www.editorubrasiliensc.co111 .h1 Conclusão ............ .............................................. 58
livraria brasiliense s.a. lndicaçõ~s para leitura ...................•........... .... ... 60
Av. At.evcdo, 484 - 1'Jcuapé- CEP 03308-000 Sno l'uulo SP
Fone/Fax: (Oxx 11) 6197-0054
l1 vrnriu\brosiliense@editorabrasiliensc.com bt
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INTRODUÇÃO

A idéia de escrever este livro surgiu a partir do


meu contato com professores de primeiro e se-
gundo graus, estudantes universitários, pesquisa-
dores, técnicos de órgãos públicos, empresários
e ambientalistas nos inúmeros cursos e palestras
que dei pelo Brasil nos dois últimos anos.
Embora todos tivessem um grande interesse
pela educação ambiental, poucos conheciam a
sua história e os seus princípios. Num desses
cursos, chamou-me muito a atenção a informa-
ção dada por um funcionário de uma empresa es-
tatal, responsável pelo Departamento de Educa-
ção Ambiental, de que era a primeira vez que ele
entrava em contato com a educação ambiental
que eu expunha.
n MARCOS REIGOTA ••
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l\ll11cJo à quase inexistência de literatura a res-
pollo, esse fato me estimulou, para não dizer
ohrlqou, a escrevê-lo, pois acredito que o funcio-
1111rio não é o único com essa responsabilidade e
nossa situação.
O conteúdo desse livro é a base dos cursos e
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO
pnlostras a que me referi; é também o resultado
ci o discussões sobre educação em geral e educa- EDUCAÇÃO POLÍTICA
çno ambiental em particular com colegas e ami-
nos, tais como: Fábio Cascino, Hercília Tavares
do Miranda, Moacir R. do Vallt, Nícia Wendel de
Mngalhães, Nilda Alves, Rosália Ribeiro de Ara-
Antes de definirmos a educação ambiental
qno, Roseli Pacheco, Salete Abraão, a quem
que queremos fazer precisar;ios ter cla~o que o
,\proveito para agradecer o estímulo.
problema ambiental não esta na quantidade ?e
Um agradecimento muito especial vai para
QessQ_as que existe no planeta e que necess1~a
Cnio Graco, que leu a primeira versão desse livro
cõnsumir cada vez mais os recursos naturais
poucos dias antes de seu falecim ento.
para se alimentar, vestir e morar.
As suas sugestões foram incluídas e as crfti- É necessário entender que o problema está
ws foram consideradas.
no excessivo consumo desses recursos por uma
pequena parcela da humanidade e no desperdí:
cio e produção de artigos inúteis e nefastos a
qualidade de vida.
Não se trata de garantir a preservação de de-
terminadas espécies animais e vegetais e dos re-
cursos naturais, embora essas questões sejam
importantes. O que deve ser considerado priorita-

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10 MARCOS REIGOTA O QUE~ EDUCAÇÃO AMBIENTAL 11

11urrnmto sáo as relações econômicas e culturais O homem contemporâneo vive profundas di-
1111tro n humanidade e a natureza e entre os ho- cotomias. Dificilmente se considera um elemento
rnon::>. da natureza, mas como 'um ser à parte, observa-
Dessa forma, o componente "reflexivo" da dor e/ou explorador da mesma. Esse distancia-
oducação ambiental é tão importante quanto o mento fundamenta as suas ações tidas como ra-
''. 1tlvo" ou o "comportamental". cionais, mas cujas conseqüências graves exigem
dos homens, nesse final de século, respostas fi-
Em relação ao primeiro trata-se de fundamen-
lt>sóficas e práticas para acabar com o antropo-
tnr uma "nova aliança" que não só possibilite às
centrismo e o etnocentrismo.
uspécies naturais a sua sobrevivência, mas tam - Nas relações sociais, a ética está muito pouco,
bóm à humanidade. ou quase nunca, presente. A possibilidade de le-
Assim, a /educação ambiental déve ser enten- var vantagem em qualquer situação é o clichê
cllda como educação política, no sentido de que básico predominante.
ola reivindica e prepara os cidadãos para exigir A educação ambiental crítica está, dessa for-
justiça social, cidadania nacional e planetária, au- ma, impregnada da utopia de mudar radicalmente
togestão e ética nas relações sociais e com a na- as relações que conhecemos hoje, sejam elas en-
hiroza. tre a humanidade, sejam entre esta e a natureza.
A educação ambiental como educação política Voltemos um pouco aos aspectos políticos da
nnfnti7a antes a questão "por que" fazer do que educação ambiental. Desde o seu início, ficou
claro que é absolutamente vital que os cidadãos
"corno" fazer. Considerando que a educação am-
do mundo insistam para que se tomem medidas
l>luntnl surge e se consolida num momento histó- de apoio a um tipo de crescimento econômico
rico do grandes mudanças no mundo ela tende a que não tenha repercussões nocivas sobre a po-
q11m.tlonar as opções políticas atuais e o próprio pulação, que não deteriore de nenhum modo seu
c:onc:ollo de educação vigente, exigindo -a, por meio nem as suas condições de vida.
prh1cfplo, criativa, inovadora e crítica. Observe que aí já se fala em "cidadão e cida-
A tlca ocupa um papel de importância funda- dã do mundo" e na importância de sua participa-
m nini 11a educação ambiental. ção na definição de um projeto econômico, por-
MARCOS REIGOTA
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t mto político. A educação ambiental deve orien-
tar 80 para a comunidade. Deve procurar incenti-
vnr o indivíduo a participar ativamente da resolu-
çno dos problemas no seu contexto de realida-
des específicas.
Os cidadãos do mundo, atuando nas suas co- HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO
munidades, é a proposta traduzida na frase mui- AMBIENTAL
to usada nos meios ambientalistas: "Pensamento
global e ação local, ação global e pensamento
local".
Claro que a educação ambiental por si só não
resolverá os complexos problemas ambientais pla- Em 1968 foi realizada em Roma uma reunião
11etários. No entanto ela pode influir decisivamente de cientistas dos países desenvolvidos para se
para isso, quando forma cidadãos conscientes dos discutir o consumo e as reservas de recursos na-
sous direitos e deveres. Tendo consciência e co- turais não renováveis e o crescimento da popula-
nhecimento da problemática global e atuando na ção mundial até meados do século XXI .
!1 UCl comunidade, haverá uma mudança no siste- As conclusões do "Clube de Roma" deixam
ma, que se não é de resultados imediatos, visí- clara a necessidade urgente de se buscar meios
vols, também não será sem efeitos concretos. para a conservação dos recursos naturais e con-
Os problemas ambientais foram criados por trolar o crescimento da população, além de se in-
llornens e mulheres e deles virão as soluções. vestir numa mudança radical na mentalidade de
1 :,tns não serão obras de gênios, de políticos ou consumo e procriação.
tucnocratas, mas sim de cidadãos e cidadãs. Seus participantes observam que: "o homem
deve examinar a si próprio, seus objetivos e valo-
res . O ponto essencial da questão não é somente
11 sobrevivência da espécie humana, porém, ain-

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11 MARCOS REIGOTA O QUE IÔ EDUCAÇÃO AMBIENTAL 15

dn mais, a sua possibilidade de sobreviver sem de continuarem operando nas mesmas condi-
culr em um estado inútil de existência". ções que operavam em seus respectivos países.
Dessa reunião foi publicado o livro Limites do Essa atitude não será sem conseqüências gra-
Crescimento (Ed. Perspectiva, São Paulo, 1978), ves e os resultados se farão sentir nos anos que
que foi durante muitos anos uma referência inter- virão . No Brasil, o "exemplo" clássico é Cubatão,
nacional às políticas e projetos a longo termo e onde, devido à grande concentração de poluição
foi também alvo de muitas críticas, principalmen- química, crianças nascem acéfalas; na Índia, o
te de intelectuais latino-americanos, que liam nas acidente de Bophal, ocorrido numa indústria quí-
entrelinhas a indicação de que para se conservar mica multinacional que operava sem as medidas
o padrão de consumo dos países industrializa- de segurança exigidas em seu país de origem,
dos era necessário controlar o crescimento da provocou a morte de milhares de pessoas. Esse
população nos países pobres. acidente junto ao da usina nuclear de Tchernobyl
Um dos méritos dos debates e das conclusões são considerados os maiores acidentes ecológi-
do Clube de Roma foi colocar o problema ambien- cos contemporâneos .
tal em nível planetário, e como conseqüência dis- Uma resolução importante da conferência de
so, a Organização das Nações Unidas realizou Estocolmo foi a de que se deve educar o cidadão
om 1972, em Estocolmo, na Suécia, a Primeira para a solução dos problemas ambientais. Pode-
Conferência Mundial de Meio Ambiente Humano. mos então considerar que aí surge o que se con-
O grande tema em discussão na conferência vencionou chamar de educação ambiental.
do Estocolmo foi a poluição ocasionada principal- A UNESCO é o organismo da ONU responsá-
mente pelas indústrias. O Brasil e a Índia, que vel pela divulgação e realização dessa nova pers-
viviam na época "milagres econômicos", defende- pectiva educativa e realiza seminários regionais
rnrn a idéia de que "a poluição é o preço que se em todos os continentes, procurando estabelecer
pngn pelo progresso". os seus fundamentos filosóficos _e pedagógicos.
Com essa posição oficial, esses países abriram A partir desses seminários, um grande núme-
ne pc.>rtus para a instalação de indústrias multina- ro de textos, artigos e livros foram publicados
l'lormla poluidoras, impedidas ou com dificuldades pela UNESCO em diversas línguas.
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1!1 MARCOS AEIGOTA 17


O QUE !Ô EDUCAÇAO AMBIENTAL

Os principais seminários realizados por essa Nesse mesmo período, a primeira ministra no-
ln~,tiluição estão inseridos na história da educa- rueguesa, Gro-Brundtland, patrocina reuniões em
çuo ambiental e precisam ser destacados. várias cidades do mundo, inclusive São Paulo, para
Em Belgrado, na então Iugoslávia, em 1975, se discutir os problemas ambientais e as soluções
foi realizada a reunião de especialistas em edu- encontradas após a conferência de Estocolmo.
cação, biologia, geografia e história, entre outros, As conclusões foram publicadas em várias lín-
o se definiu os objetivos da educação ambiental, guas. O livro O Nosso Futuro Comum, também
publicados no que se convencionou chamar "A conhecido como relatório Brundtland, fornece os
Carta de Belgrado". subsídios temáticos para a EC0-92. É a partir
- I
Em Tibilissi, na Geórgia (ex-URSS), em 1977, desse livro que o conceito de desenvolvimento
realizou-se o Primeiro Congresso Mundial de sustentável se torna mais conhecido. Aí também
Educação Ambiental, onde foram apresentados se enfatiza a importância da educação ambiental
os primeiros trabalhos que estavam sendo de- para a solução dos problemas.
1
senvolvidos em vários países. Dez anos depois, Nos vinte anos que separam as conferências
ocorreu em Moscou o Segundo Congresso de mundiais de Estocolmo e Rio de Janeiro houve
Educação Ambiental. uma considerável mudança na concepção de
Nessa época, a então União Soviética vivia o meio ambiente. Na primeira se pensava basica-
início da perestroika e da glasnost, e temas como 1 mente na relação homem e natureza; na segunda
desarmamento, acordos de paz entre a URSS e o enfoque é pautado pela idéia de desenvolvi-
os EUA, democracia e liberdade de opinião per- mento econômic9.
meavam as discussões dos presentes. Essa mudança se fará sentir nos discursos,
Muitos especialistas consideravam inútil falar projetos e práticas diversas de educação ambien-
0 111 oducação ambiental e formação e cidadãos tal que surgiram desde então.
unq1mnto vários países (inclusive o anfitrião) conti- Se por um lado temos uma grande variedade
111111vnm a produzir armas nucleares, impedindo a de práticas que se autodefinem como sendo
prntlclpnção dos cidadãos nas decisões políticas. "educação ambiental", mostrando a sua criativida-
MARCOS REIGOTA
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do o importância, por outro lado temos práticas
multo simplistas que refletem ingenuidade, opor-
tunismo e confusão teórica, conceituai e política.

DEFININDO CONCEITOS

É comum observarmos afirmações de que a


educação ambiental é o mesmo que ensino da eco-
logia, cabendo aí também a biologia e a geografia.
No entanto são temas distintos. Se atentar-
mos somente à ecologia, verificaremos que é
uma ciência que estuda as relações entre os se-
res vivos e o seu ambiente físico e natural.
A ecologia tem também as suas subáreas,
tais como a ecologia humana e a ecologia social.
Nas últimas décadas surgiu a ecologia política,
que está muito mais relacionada com os movi-
mentos sociais do que com a ciência Ecologia.
Portanto , existe hoje uma certa confusão con-
ceituai, não só no que diz respeito ao ensino de
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li MARCOS REIGOTA O QUE !Ô EDUC AÇÃO AMBIENTAL 21

uco.logia e da educação ambiental, entre o pro- meio cósmico, geográfico, físico e o meio social
r1ss1onal da ecologia (ecólogo) e o militante político com as suas instituições, sua cultura, seus valores".
(ecologista), mas também em relação ao termo Esses três exemplos de definição de meio am-
rneio ambiente. biente, que estão longe de terminarem aqui, mos-
Este último está constantemente presente nos tram a variedade de compreensão do mesmo. E
meios de comunicação de massa, no discurso você, leitor, com certeza deve ter a sua própria
dos políticos e dos militantes verdes, nos livros definição, cujas características dependem dos
didáticos, nas artes plásticas, na música, no cine- seus interesses científicos, artísticos, políticos, fi -
ma, no teatro etc. losóficos, religiosos , profissionais etc.
Mas o que se entende por meio ambiente? Para que possamos realizar a ed ucação am-
As definições podem ser as mais variadas pos- biental, é necessário, antes de mais nada, co nhe-
síveis, dependendo das nossas fontes de consulta. ce rmos as concepções de meio ambiente das
Assim, o geógrafo francês Pierre Jorge define pessoas envolvidas na atividade. Ass im, para po-
que "ao mesmo tempo o meio é um sistema de der expor com mais clareza a minha proposta
relações onde a existência e a conservação de de educação ambiental, considero inevitável
uma espécie são subordinadas aos equilíbrios apresentar a definição de meio ambiente que a
entre os processos destrutores e regeneradores e sustenta, e que é diferente das apresentadas
seu meio - o meio ambiente é o conjunto de da- anteriormente.
dos fixos e de equilíbrios de forças concorrentes Defino meio ambiente como: um lugar determi-
nado e/ou percebido onde estão em relações di-
que condicionam a vida de um Grupo biológico".
nâmicas e em constante interação os aspectos
Para o ecólogo belga Duvign eaud, "é evidente naturais e sociais. Essas relações acarretam pro-
quo o meio ambiente é composto por dois aspec- cessos de criação cultural e tecnológica e proces-
tos: 1) o meio ambiente abiótico físico e químico sos históricos e políticos de transformação da na-
o 2) o meio ambiente biótico". tureza e da sociedade.
Para o psicólogo Silliany, meio ambiente "é o Podemos comparar essa definição de meio
quo cerca um indivíduo ou um grupo, englobando o ambiente com as anteriores e poderemos obser-
MARCOS AEIGOTA ••
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vnr que ele não é visto apenas como sinônimo
cio meio natural. Razão pela qual parto do princí-
pio de que a educação ambiental não é sinônimo
do ensino de ecologia, embora não prescinda da 1
mesma.

CONTEXTOS POSSÍVEIS PARA A


EDUCAÇÃO AMBIENTAL

' É consenso na comunidade internacional que a


educação ambiental deve estar presente em todos
os espaços que educam o cidadão e a cidadã.
Assim, ela pode ser realizada nas escolas, nos
parques e reservas ecológicos, nas associações
de bairro, sindicatos, universidades, meios de co-
municação de massa etc.
Cada contexto desses tem as suas caracterís-
ticas e especificidades que contribuem para a di-
versidade e criatividade da mesma.
Nos parques e reservas ecológicos o enfoque
é prioritariamente as espécies animais e vegetais
que aí vivem e as suas interdependências. Nas

-----------------·~ ...•• associações de bairros , analisam-se os proble-


mas ambientais cotidianos e as suas possibilida-
11·1
MARCOS REIGOTA
O OUE Ê EDUCAÇÃO AMBIENTAL 25

dos de solução. Nos sindicatos, as condições de Em meados da década de 80, houve um im-
tra?alho, ~anuseio de produtos tóxicos, segurança portante debate nos meios educacionais. Discu-
o riscos sa~ tem~s básicos dados. As universida- tia-se se a educação ambiental deveria ser ou
des se dedicam a ~armação de profissionais que não uma disciplina a mais no currículo escolar.
possam atuar nas ~rversas áreas do conhecimento O -Conselho Federal de Educação optou pela
v?ltada~ para o mero ambiente; entre elas as ciên- negativa, assumindo as posições dos principais
cia~ mais t~cnicas, como a engenharia, e as ciências educadores ambientalistas brasileiros da época,
mais refle~1vas, como a antropologia. que consideram a educação ambiental como uma
Os ~eros de comun icação, por meio de de- pers pectiva de educação que deve permear todas
bate.s, frl~es, artigos enfocando os problemas as disciplinas.
amb1enta1s, contribuem para a conscientização Atualmente, ouvimos com freqüência, princi -
da população. palmente dos políticos apressados, que o ensino
~ es~ola é um dos locais privilegiados para a de ecologia deve ser disciplina obrigatória nos
realrzaç_ao da educação ambiental, desde que dê currículos.
oportunidade à criatividade. Já observei que ensino de ecologia e educa-
- Um o~tro aspecto consensual sobre a educa- ção ambiental são diferentes, no entanto é muito
çao ambiental e que não há limite de idade para comum serem vistos como sinônimos.
o~ seus estudantes, tendo um caráter de educa- Embora a ecologia, como ciência, tenha uma
çao p_ermanente, dinâmica, variando apenas no importante contribuição a dar à educação ambien-
q~e drz respeito ao seu conteúdo e à metodolo- tal, ela não está mais autorizada que a história,
gia, procurando adequá-los às faixas etárias a o português, a química, a geografia, a física etc.~
que se destina. A educação ambiental, como perspectiva edu-
Procurarei enfatizar aqui a educação ambiental cativa, pode estar presente em todas as discipli- ,
nas, quando analisa temas que permitem enfocar(
~as e~colas de primeiro e segundo graus, embo-
as relações entre a humanidade e o meio natural, \
a murtos dos seus aspectos possam ser utiliza-
e as relações sociais, sem deixar de lado as suas
dos e adaptados em outros contextos educativos. especificidades.
MARCOS AEIGOTA
O QUE~ EDUCl\ÇÃO AMBIENTAL 27

Como exe~plo, vejamos o relato de uma pro- no, procurando levantar os principais ~:ob~emas
fessora de Sao Paulo. "Nas minhas aulas visita- da comunidade, as contribuições da c1enc1a, os
mos uma pedreira perto da escola. Ali os' alunos co nhecimentos necessários e as possibilidades
podem observar o mal que a poeira faz à saúde concretas para a solução deles. . .
dos operári?s_ e analisar uma das principais fon- O fato de a educação ambiental escolar priori-
tes de polu1çao do ar no bairro. Realizamos um zar o meio onde vive o aluno não significa, de
leva~t~~ento histórico desses problemas e as forma alguma, que as questões (aparentemente)
poss1b1l1dades de solucioná-los".
distantes do seu cotidiano não devam ser abor-
_A introdução dessa perspectiva na escola su- dadas, pois não devemos esquecer que esta~os
poe um~ modificação fundamental na própria procurando desenvolver n~o s~ a sua. c?nsc1en-
concepçao de educação, provoca mesmo uma cia e participação como c1dadao brasileiro, mas
"revolução" pedagógica. Na reunião da Sociedade também como cidadão planetário.
Brasileira para o Progresso da Ciência, de 1992, Para muitos professores, pais, alunos · etc., a
alguns professores comentaram que a educação educação ambiental só pode ser feita quando s.e
ambiental provocou nos alunos um grande inte- sai da sala de aula e se estuda a natureza m
re~~e pelos temas abordados e participação nas foco. Esta é uma atividade pedagógi~a muito ~ica
at1v1dades propostas, elevando consideravelmen- de possibilidades, mas corre-se o risco de te-la
te o nível de aprendizagem. Outros comentaram como única atividade possível, quando na verda-
o envolvimento ocorrido entre os professores de de é apenas mais uma.
várias disciplinas e entre eles e os alunos, não só É sempre muito agradável poder passar algu-
na escola, mas também na comunidade. mas horas estudando ou fazendo atividades em
A tradicional separação entre as disciplinas, hu- parques ou reservas ecológicos, jardins botâni-
manas, exatas, e naturais, J?erde sentido, já que o cos, ou em qualquer lugar rico nos seus aspectos
que se busca e o c~nhecimento integrado de todas naturais.
elas para a solução dos problemas ambientais. . No entanto a natureza conservada não deve
. Na educação ambiental escolar deve-se enfa- ser apresentada corno modelo, já que o que exis~
tizar o estudo do meio ambiente onde vive o alu- te no cotidiano entre o homem e a natureza e
29
O QUE !Ô EDUCAÇÃO AMBIEN TAL
211 MARCOS AEIGOTA

poluidoras, as atividades agrí~olas, as ativi?a~es


uma relação de permanente transformação de
comerciais, ou, ainda, o movimento do transito ,
ambos. Claro que devemos preservar determina-
dos locais de interesse ecológico, histórico e ar- ns poluições sonora, visual , da água e do ar, o
tístico, conhecê-los e admirá-los, porém não de- crescimento da população, a rede de saneamento
vemos tê-los como modelo extensivo a todo meio básico, entre muitos outros. , .
natural e/ou construído. Muitos parques e reservas ecologicos, assim
A educação ambiental realizada nesses espa- como os movimentos ambientalistas, oferecem
ços deve enfatizar os motivos pelos quais foram e atividades de educação ambiental às escolas.
devem ser preservados, bem como ressaltada sua Na maioria das vezes estas atividades ~e b-~­
importância estética, histórica e ecológica para os seiam na transmissão de conhecimentos c1~nt1f1 -
homens do passado e para os contemporâneos. cos e na conscientização para a conservaçao da
Enfatizei que se deve ter um maior contato natureza. Essas atividades têm o seu valor, ';1ª~
com a comunidade. As saídas da sala de aula, ou se não abordam os aspectos políticos, econ~m1 -
mesmo da escola, devem sempre que possível cos, culturais e sociais, não podem ser .conside-
ser feitas, mas não necessariamente só em visi- radas como educação ambiental, mas sim co~o
tas às áreas preservadas. ensino de biologia e/ou ecologia, em que, na maio-
Quantas vezes os professores organizam, com ria das vezes, o homem é apresentado com~ um
muita dificuldade, atividades em locais situados a elemento a mais na cadeia de energia, ou, ainda,
muitos quilômetros de distância da escola, des- como o vilão da história. .
considerando que ali mesmo existem possibilida- Com 0 crescente debate relacionando o meio
des interessantes? ambiente às questões sociais essas atividades
Pode ser na cozinha observando a presença tendem a se adaptar, porém deve-se ficar atento
o~ não dos agrotóxicos nos alimentos, os hábitos
para que o conservadorismo biológico a que nor-
alimentares, o desperdício e as possibilidades de
malmente se propõem não se transforme em ~o~­
mudança; no jardim da escola pode-se estudar a
servadorismo político, caracterizado pela v1s~o
sua rica ou pobre biodiversidade. Nas imediações
biologizante do homem. Em síntese, estou af1r-
da escola, estudar as indústrias e as .suas fontes

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•10
MARCOS REIGOTA ••
••••
mando que o professor pode educar ambiental-
mente em qualquer lugar.
Para melhor explicitar o que é, então, educa-
ção ambiental, na escola ou fora dela, creio ser
neces~ário ab?rdar os seus objetivos específicos,
conteudos, metodo e processo de avaliação dos OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO
alunos, o que será feito nos próximos itens.
AMBIENTAL

Na Carta de Belgrado foram definidos seis ob-


jetivos indicativos da educação ambiental. Eles
sóo os seguintes:

1. Conscientização
Levar os indivíduos e os grupos associados a
tomarem consciência do meio ambiente global e
de problemas conexos e de se mostrarem sensí-
veis aos mesmos.
Isto significa que a educação ambiental deve
procurar chamar a atenção para os problemas
planetários que afetam a todos, pois a camada

- - - - - - - - - -- - - - -- --- ...•• de ozônio, o desmatamento da Amazônia, as ar-


mas nucleares, o desaparecimento de culturas
MARCOS REIGOTA
O QUE !Ô EDUCAÇÃO AMBIEN TAL 33

~ilenares etc. são questões só aparentemen e


distantes da realidade dos alunos. t sociais. Os exemplos aqui podem ser vários, dos
mais simples aos mais complexos, tais como não
fumar nos lugares proibidos, não destruir árvores,
2. Conhecimento oconomizar energia, utilizar mais os transportes
coletivos, respeitar as regras de trânsito etc.
Levar os_indivíduos e os grupos a adquirir uma
compreensao essencial do meio ambiente global
dos problemas que estão a ele interligados e ~ 4. Competência
papel e lugar da responsabilidade crítica do ser Levar os indivíduos e os grupos a adquirir o
humano.
sa voir-faire necessário à solução dos problemas .
.O conhecimento proporcionado pela ciência e Nem todos têm capacidade técnica para resol-
pelas culturas milenares sobre o meio ambiente ver os problemas ambientais. Reconhecer essa
deve ser democrati~ado. As pessoas devem ter deficiência é um primeiro passo para superá-la. A
acesso a ele. ~~sim,. educação ambiental não oducação ambiental pode auxiliar a sua supera-
deve ser t~ansm1t1r so o conhecimento científico, ção, buscando elaborar meios técnicos com a
mas todo tipo de conhecimento que permita uma ajuda de especialistas e conhecedores autodida-
melhor atuação frente aos problemas ambientais. tas do problema.

3. Comportamento 5. Capacidade de Avaliação

L~var os indivíduos e os grupos a adquirir o Levar os indivíduos e os grupos a avaliar me-


sentido d?s valores sociais, um sentimento pro- didas e programas relacionados ao meio ambien -
fundo de interesse pelo meio ambiente e a vonta- te em função de fatores de ordem ecológica , polí-
de d~ cont.ribuir p~ra sua proteção e qualidade. tica, econômica, social, estética e educativa.
Na,o adianta so falar do meio ambi ente mas Fundamental para a participação do cidadão é
tambem mudar os comportamentos individ~ais e decifrar a linguagem dos projetos de risco ambien-
tais elaborados por técnicos especializados.
MARCOS REIGOTA
••
••••
A capacidade. de avaliação permite ou não
que_pro1eto.s duvidosos sejam efetuados. A edu-
caçao ,ªm?1ental deve procurar traduzir a lingua-
gem tecnrco-científica para a compreensão de
todos.

CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO
6. Participação
AMBIENTAL
Levar º .s. indivíduos e grupos a perceber suas
r~sponsab1lldades e necessidades de ação ime-
diata para a solução dos problemas ambientais.
Procurar _nas pessoas o desejo de participar
na construçao de sua cidadania. Fazer com que A educação ambiental não deve estar basea-
a~ pessoas entendam a responsabilidade, os di- da na transmissão de conteúdos específicos, já
reitos e ?s deveres que todos têm com uma me- que não existe um conteúdo único, mas sim vári-
lhor qualidade de vida. os, dependendo das faixas etárias a que se des-
tinam e dos contextos educativos em que se pro-
cessam as atividades.
O conteúdo_ mais indicado deve ser originado
do levantamento da problemática ambiental vivida
cotidianamente pelos alunos e que se queira re-
solver. Esse levantamento pode e deve ser feito
conjuntamente pelos alunos e professores.
Temos encontrado nas atividades de educação
ambiental conteúdos bem diversos, tais como:
saneamento básico, extinção de espécies, polui-
çãQ em geral, efeito estufa, biodiversidade, reci-
:iu MARCOS REIGOTA
••
••••
clagem do lixo doméstico e industrial energia
nuclear, produção armamentista etc. '
A e?u~ação ambiental não deve priorizar a
transm1ssao de conceitos específicos da biologia
ef?~ da geografia. No entanto, alguns conceitos
METODOLOGIA DA EDUCAÇÃO
basices, tais como ecossistema, hábitat nicho
ecológico, fotossíntese, cadeia alimentar 'cadeia AMBIENTAL
de energia :te., devem ser compreendid~s pelos
alunos, e nao decorados e repetidos automatica-
mente por eles.
Os conceitos científicos acima citados entre Muitos são os métodos possíveis para a reali-
o~Atro~, têm como função fazer a ligação ~ntre a Lação da educação ambiental. O mais adequado
c1enc1a e os problemas ambientais cotidianos . é que cada professor e prqfessora estabeleça o
Dessa forma, cada disciplina tem a sua contribui- seu, e que o mesmo vá ao encontro das caracte-
ção a dar nas atividades de educação ambiental,
envolvendo os professores de biologia, português rlsticas de seus alunos.
Na metodologia utilizada reside um dos aspec-
educação artística, história, entre outros. '
tos que caracteriza a criatividade ?~ professor
diante dos desafios que encontra cot1d1ana~ent:.
. O conteúdo da educação especial deve possibi-
litar ao aluno fazer as ligações entre a ciência as As aulas expositivas do professor nao sao
questões imedi,at.as e as questões mais ge;ais, muito recomendadas na educação ambiental;
nem sempre prox1mas geográfica e culturalmente. mas elas podem ser muito importantes quando
Tendo sido escolhido o conteúdo a ser estuda-
bem preparadas e quando deixam espaço para
do, é nece~~ário definir os métodos pedagógicos
os questionamentos dos alunos. .
a serem utilizados; no próximo item abordarei al- Uma aula expositiva bem dada, mesmo consi-
guns deles.
derada tradicional, ainda é muito melhor do que

••
•••
------ -
li
MARCOS AEIGOTA O QUE i:: EDUCAÇÃO AMBIENTAL 39

;w uulas modernosas, em que o professor se o método ativo pressupõe que o processo pe-
lantasia de aluno procurando conquistar a sua dngógico seja aberto, democrático e dialógico en-
:.;lmpatia, impedindo assim que ele (o aluno) en- tro os alunos, entre eles e os professores e a
tro e~ contato com idéias, conhecimentos, expe- •tdministração da escola, com a comunidade em
nêncra e comportamento de uma geração que que vivem e com a sociedade civil em geral.
não é a sua. Vejamos um exemplo relatado por uma prof~s­
Para a realização da educação ambiental po- !-!Ora de biologia: "Para a semana da Ecologia,
damos empregar os métodos passivo (em que só rneus alunos realizaram entrevistas com .ºs vel~o~
o professor fala), ativo (em que os alunos fazem rnoradores do bairro, que conhecem a mdustnall-
experiências sobre o tema). descritivo (em que 1ação ali ocorrida. Eles nos contaram como era
os alunos aprendem definição de conceitos e nntes e depois que as indústrias chegaram. Os
descrevem o que eles puderam observar, por nlunos mantiveram também contatos com a ~sso­
exemplo, numa excursão) e\....analítico (em que os ciação de moradores e com gru~os ecolog~st~s.
alunos completam sua descrição com dados e Criaram um clube ecológico e um Jornal que e dis-
Informações e respondem a uma série de ques- tribuído na escola. Além disso fizemos (inclusive
toos sobre o tema). os professores e funcionários) uma limpeza g~ral
A educação ambiental que visa a participação na escola e plantamos muitas árvores no bairro.
elo cidadão na solução dos problemas deve em- Fizemos um levantamento dos principais proble-
pro gar metodologias que permitam ao aluno mas do bairro e as possibilidades de solução".
q11ostionar dados e idéias sobre um tema, propor A educação ambiental está também , muito li-
tmh1ções e apresentá-las. Esse é o método ativo gada ao método inter~iscipfina~. Esse metod?, n?
nrnplindo em relação à definição dada acima. ' entanto, é compreendido e aplicado das mais di-
Corn o método ativo, o aluno participa das ati- versas formas.
vldrtduB, desenvolve progressivamente o seu co- Normalmente, ele é empregado quando P~~­
nhor. lm onto e comportamento em relação ao fessores de diferentes disciplinas realizam . at1v1-
t mn, do ncordo com sua idade e capacidade. dades comuns, sobre um mesmo tema. Assim te-
111
MARCOS AEIGÇ)TA
O QUE ~ EDUCAÇÃO AMBIENTAL 4t

mos diferentes interpretações sobre o


urn pauta , . assunto O exemplo pode ser o relatado por um profes-
cas de cad: ~~cfp~~~~e1s contribuições específi- .or de matemática: "Nós fizemos um levanta-
sorAd:~iic__a ~edagógic?,
relatada por um profes-
111unto dos problemas ambientais vividos pelos
1hmo~ e por seus pais, nos locais de trabalho ,
en_cras, trabalhando com a cole a
A

portugues, e um exemplo· "R 1· g de 11111 casa, na escola. Nós analisamos esses pro-
entre 1 . • · ea rzamos debates l1lomas, comparando-os e procurando observar
exposi~:o ªo~n~s, at1v1da~es de sensibilização e 111-1 causas comuns e os efeitos particu lares, pro-
ão d . a ' encenaçoes teatrais e a realiza-

~as n~s~~r~~~~~o~r~ª~:i~~~eb;~~~~ge~~ f,~~~fh";;


r mando encontrar a solução para alguns deles".
As histórias de vida são contadas oralmente,
os tspectos mars científicos dos problemas e por escrito ou através de representações artísti-
~~~~=~~;:,,.de português trabalha a interpretaçã~ 1.as (desenhos) ou teatrais.
Por serem histórias individuais, fragmentadas,
o tlém de uma compreensão mais global sobre •l O serem expostas pelos alunos, permitem a
cã~~~' d~sse m~~od~ pode proporcionar o inter- compreensão, a identificação e a busca de solu-
expenenc1as entre professores e alu- ções coletivas para os problemas que aparente-
~~~e=c~~~~lver toda a comunidade escolar e ex- mente são individuais.
Este é também um método que permite aos
Outras metodologias também podem alunos empregar a criatividade e expressar as re-
pregadas t · . ser em-
. ' ars como: Histórias de Vidas e P d presentações, a compreensão de conceitos cien-
gog1a do Projeto. e a-
Nistórias de vida é um mé . . tíficos e dos problemas ambientais em discussão.
1111lropologia e que se aplica ~~~~ ~rrgrnado da A Pedagogia do Projeto é um método que en-
c11çt10 ambiental.' Consiste no leva em na edu- volve toda a escola, inclusive os pais de alunos,
lcrn nltmos, de histórias relacionadntamento, pe- no estudo de um te ma específico . Ele permite
tomn rnnblontal, vividas por ele as sobre um que cada disciplina desenvolva o tema proposto
mlllntm;, vi1lnhos e/ou amigos. s mesmos, por fa- sob a sua ótica e especificidade. Os pais partici-
pam, contribuindo com a sua experiência e co-
43
O QUE t: EDUCAÇÃO AMBIENTAL
MARCOS REIGOTA

rn lucação que se mani.festa nos seus objetivos,


nhecimento sobre o tema. Os alunos se empe-
1onteúdos e metodologias. · rtância
nham em explorar particularidades que lhes inte-
ressam num mesmo ano letivo. A escola pode
desenvolver um tema geral, com vários subte-
' n:
H , um outro aspecto de extrema impo
entanto pouco estudado. Trata-~e d? pro-
' osso de avaliação dos alunos, que d1scut1remos
'

mas, ligando-os ao conhecimento científico e ao


,\ seguir.
cotidiano.
Essa metodologia é praticamente desconheci-
da no Brasil, no entanto tem sido aplicada com
sucesso em vários países.
Por exemplo, na França, as escolas se mobili-
zam contra a poluição e concebem a reforma ur-
bana dos bairros onde estão inseridas. Na Espa-
nha, oitocentas escolas estiveram envolvidas com
o tema "A Árvore", que resultou na plantação, pe-
los alunos, de mais de setenta mil delas.
A Pedagogia do Projeto é uma metodologia (e
mesmo uma proposta educativa em si) que de
forma geral sintetiza todas as outras aqui abor-
dadas, pois: a) conta com os alunos nas deci-
sões (co-gestão pedagógica) ; b) promove a bus-
ca da solução dos problemas como um processo
de aprendizagem; c) utiliza o conhecimento cole-
tivo e individual; d) emprega a interdisciplinarida-
de; e) utiliza a comunidade como tema de apren-
dl1agem.
A educação ambiental, como já foi observado,
••
tom ostlmulado uma nova concepção de' se fazer
-=-- ------------··.
- - --- ----
••
•••• O QUE !Ô EDUCAÇÃO AMBIENTAL 45

Creio que a avaliação dos alunos não deve


nr feita para medir incapacidades, mas sim para
111 rmitir-lhes identificar o que precisam (ou não)
ttxplorar para a solução dos problemas ambientais.
A avaliação tradicional, quando bem feita,
A AVALIAÇÃO DOS ALUNOS
pode permitir ao aluno conhecer os seus limites
toóricos-práticos-científicos, assumindo o caráter
formativo e não aditivo.
As representações, erros e acertos científicos
dos alunos devem estimular o diálogo entre eles

vosºd~,~~:~~~ ~~u~~~~:ç~e d:p:d:':,"aç~"c,5 5~bj~ti-


o aquele que os avalia, e não provocar um fosso
untre os mesmos.
seia n.a t~ansmissão de conteúdos é natural uª~ Para se evitar, o máximo possível, a avaliação
ahav~llaçao seja feita procurando identificar o ~o oquivocada e estimular a auto-reflexão e o diálo-
n ecimento adquirido ( - ) - go, o professor deve solicitar aos alunos a auto-
através das clássicas ro~~ nao pelos alunos,
~~s~~as~~r:ul~. contegdo c~e~~fi~~r~~~t=~v~l~~s~
avaliação.
A avaliação deve ser o momento pedagógico
em que se manifesta mais claramente o nível de
ba ~orém, a educação ambiental se fundamenta envolvimento do aluno com a sociedade. Para tal
po~~~~~t~~e en~a~~~s~nÀ~s1~. ~e~~~:~a~~· ?0 m- fim é necessário considerar não só o seu conhe-
cimento científico adquirido, mas também os seus
momento extremamente difícil para o ç f e um
devido ao s f pro essor aspectos individuais, de sua cultura, de sua famí-
p eu arte componente subjetivo
?r exemplo: Como podemos av r . lia e da comunidade onde vive.
e-lo c1~adania obtido? Como os alunoªs iar o grau A idéia sobre a qual estamos insistindo de que
11 nrat1 entendem
r· cam essa perspectiva política? se deve "pensar globalmente e atuar localmente"
pode guiar a avaliação (e a auto-avaliação) de
MARCOS REIGOTA
••
••••
atitudes e comportamentos, sendo fundamental
~~~i~ aluno ?onsiga perceber os problemas da hu-
N ade acrma dos seus interesses individuais
mite~ ;;t~nto, d~ve_mos estar atentos para os. li-
- 1 avalraçao, para não tirarmos conclu-
soes apressadas sobre os alunos.
Como a educação ambiental r - - RECURSOS DIDÁTICOS
de responsabilidade não só p opoe a noçao
comunid~de_ m~s t~mbém c~ºn~i;o p~~~~t~oe :
~ut~~aval1açao e o processo pedagógico m~is
e~:c~~~~t.e (mas não o único) com a proposta
A educação ambiental conta com vários recur-
sos didáticos a ser empregados.
Eles podem ser muito simples ou sofisticados,
porém qualquer que seja a sua característica, a
sua boa aplicação depende muito da criatividade
do professor.
Entre os recursos didáticos simples, considero
a própria aula dada pelo professor, quando não é
realizada como atividade de educação ambiental
extra ou esporádica, mas sim cotidiana.
A aula funciona como recurso didático impor-
tante sempre que busca relac ionar os problemas
ambientais vividos cotidianamente pelos alunos
e o conhecimento científico existente sobro os
mesmos .
••
•••
- 49
O QUE~ EDUCAÇÃO AMBIENTAL
MARCOS REIGOTA

veis, e sempre que a oportunidade aparece o


. A própria escola, com os professor e a escola devem procurar oferecê-las
b1entais específicos d seus problemas am-
estudo e debates e' f~~e e for~e~e~ . elementos de • os alunos.
lução de muitos dei r surgir ideias para a so- Nos últimos anos, temos observado a publica-
comunidade na m""neust, en_volvendo os alunos e a ção de livros didáticos de educação ambiental.
µ ençao da mesm Uma análise mais rigorosa dos mesmos impediria
Fora da escola, as áreas v a.. de considerá-los como sendo de educação ambien-
o bairro, enfim, podem f erdes, as indúst rias,
tal, pois estão mais próximos dos livros didáticos
estimulem uma maior artr.nec:r elementos que
quanto cidadãos e p h ic1_paçao dos alunos en- de biologia e/ou geografia.
seus próximos. ' con ec1mento sobre si e os Já sabemos do efeito nefasto dos livros didá-
ticos na sala de aula, porém, num país com
Entre os recursos didátic . pouca tradição no hábito de leitura, esses livros,
acesso aos meios de c os, _pod_emos incluir o
quando permitem ir além do conteúdo científico,
Discutir em sala de a 1omu~1caçao de massa.
podem ser empregados com cautela e sem se
imprensa programa u a artigos publicados na
entrevist~s de rádi~ :t~ep?rtagens de t~levisão, transformar em guias das atividades de educa-
quecedor. · e sempre muito enri- ção ambiental.
Os recursos didáticos mais artísticos e criati-
Um "mural ou jornal ambi t I" vos são mais adequados à perspectiva inovadora
os estudantes leAem e af.1xamena nofna· escola,
, onde
~
pies realização e de resultados mu1ic1as, .de sim-
da educação ambiental.
Com a contribuição das artes plásticas é pos-
Os recursos d'id ' tº . to pos1t1vos. sível produzir trabalhos simples, baratos e de
a 1cos mais fº ·
como os "estud d . so ist1cados tais
os o meio" ·- '
resse ecológico ou a . 1 ~m reg1oes de inte-
grande interesse.
teatro etc. exig~m inv~~1~u açao d~ filmes, vídeos,
sempre de baixo custo. mentas financeiros, nem

l
Porém' algumas entidad
ssns atividades period·
.
es culturais realizam ••
icamente a preços acessí-
- -----------------···
••
•••• O QUE~ EDUCAÇÃO AMBIENTAL 51

educação ambiental desenvolvidos pela SEMA


eram extremamente conservacionistas, e a polí-
tica e práticas em vigor eram compl et amente
outras.
A educação ambiental, oficial, desse período,
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO é importante somente como referência histórica.
BRASIL Independente do governo da época, uma cons·
ciência ambiental crítica surge no Brasil, acompa-
nhando o que estava acontecendo em outros paf
ses. Como conseqüência, a educação ambiental
Já observamos qual f · . _ começa a ser realizada timidamente por peque-
conferência de Estocai o1 a po.s1~ao brasileira na nos grupos e pessoas isoladamente, em escolas,
com o modelo econôm:~· Pos1çao esta coerente parques, clubes e associações de bairro.
naturais a aia . de saque aos recursos Foi em Sorocaba, São Paulo, que ocorreu om
tecnocr~ta. p do no sistema políticd ditatorial- 1984 o Primeiro Encontro Paulista de Educaçao
Ambiental. Embora de caráter regional, esse un
No entanto, no início dos . .
Secretaria Especial do M . anos
, b .
'.º foi criada a
e10 Ambiente (SEMA)
contra reuniu pela primeira vez no Brasil os pou
cos praticantes e pesquisadores em educaçno
su ordrnada ao Ministério d T ' ambiental que apresentaram trabalhos realll'ndm.1
SEMA ser , , os ransportes. A
cnção amb~e~t:~s:~n~~~~t ~~los projetos de edu-
nos últimos anos.
Com o assassinato de Chico Mendos o com u
rosponsável pela const _ena dos Transportes o
pressão internacional sobre o Brasil devido ao
o pola Integração destar~eçª?_ da Transamazônica
. . giao ao resto do País. desmatamento da Amazônia ocorro um boom cJa
1 ssn contradição explicit educação ambiental, excessivamento pre1ent1 na
oco11õmlco-ambiental d , a o contexto político- mídia e com poucos fundamentos fllo•óflcu1 •
ª epoca. .Os projetos de pedagógicos.
Um exemplo dess
MARCOS AEIGOTA

. _
••
••••
e fora dela ª superexposiçao na mídia
m . " E pode ser verrf1cado nos vários "Pr'
erro ncontro Nacional de Ed - . ,_
realizados após 1988 . ucaçao Ambiental
Diante desse predomínio d .
práticas em det ·
,
ªquantidade de
rrmento da qualidade é com
~~~~~a~t~~~f~=~od~~::~t~~b:~~:~~ica e m~~~~ PERSPECTIVAS FUTURAS

Como já foi observado, nos últimos anos ocor-


reu o boom da educação ambiental, tornando-a
um modismo, que confunde os seus praticantes e
usuários, e muitas atividades exóticas têm sido
chamadas de educação ambiental.
Como todo modismo, esse também deve ser
passageiro, devendo permanecer, já que a educa
ção ambiental é de extrema importância, as pro
postas que apresentem maior consistência toórl
ca e metodológica.
Com a realização da EC0-92, no Brasil, ob
servamos o surgimento de duas corrnnt os do
educação ambiental. Uma, bastante numororm, ó
a que vai no sentido do modismo o do oportunls
••
•••
mo, que é inerente a todo megRovonto .
MARCOS REIGOTA O QUE É EDUCAÇÃO AMêlll:NTAL 5G

Assim, atividades que fazem parte da ecologia, São realizados eventos científicos por todo o
da geografia, ou ainda do lazer, são rebatizadas País; são firmados acordos de cooperaçno técni-
de educação ambiental. O mais grave é o surgi- ca e intercâmbio entre diferentes países.
mento de escolas de educação ambiental e/ou Nas universidades, iniciam-se cursos novos, do
escolas ecológicas de primeiro e segundo graus reciclagem dos profissionais e de especlallznçno.
dentro das concepções conservacionistas na bio- ( Os movimentos ambientalistas e sociais ocu
logia, conservadora na política, e equivocada na \ pam espaços importantes, fortalecendo a soclo
educação, como expus no início. Essa perspecti- dade civil e a frágil democracia brasileira.
va é' a que tem ocupado com mais freqüência os - Seria muito ingênuo pensar que todo esse mo
meios de comunicação de massa, os órgãos go- vimento não passa de um modismo e oportunl s
vernamentais voltados para as questões ambien- mo passageiros. Após a EC0-92, no Brasil, nadn
tais e até mesmo algumas universidades. será como antes. As propostas educativas e ambl
A segunda é a que me interessa abordar, e entalistas que têm condições morais, éticas, tócnl
traduz todo o movimento educativo na sociedade cas, econômicas e políticas de se firmaram per
brasileira provocado pela EC0-92. Nesse movi- manecerão entre nós, mesmo que minoritárias.
mento, a educação ambiental que estava sendo A EC0-92 deve ser vista como um grando en
praticada antes do boom teve o espaço necessá- talisador educativo, não só na sociedodo brasllul
rio para se consolidar como opção pedagógica ra, mas também na sociedade planetárlu.
crítica aos modelos vigentes . Nesse contexto, surgiram no Brnsll 1·11r10 1 dl
Por outro lado, ainda devido à EC0-92, muitos especialização em educação ambiental Algun
livros, revistas especializadas, artigos críticos têm deles têm propostas sérias , mosmo quando V Ili
sido publicados. A mídia realiza debates (às vezes dos para a formação de técnlco1 para 11 1dml
sérios) com especialistas, políticos e cidadãos; a nistrações governamentais o ornpr•••• prlvld
publicidade tem destacado aspectos ecológicos; Até o momento, poucos ClJrROI d• llPI 1111 • ao
film es, peças de teatro e exposições de artes estão voltados para os proh111or11 do prlmcilro o
plásticas com temas ambientais se multiplicam. segundo graus.
56 MARCOS REIGOTA O QUE É EDUCAÇÃO AMllll N I AI llf

A tendência é o crescimento da demanda de Porém, se as aulas de biologia, ecolonln, goo


especialistas em educação ambiental, daí o pro- grafia ou de outra disciplina qualquer so trn11Hfor
vável surgimento de muitos cursos pelo País. Po- marem em educação ambiental, fica conflgurudo
rém, um acompanhamento e uma análise mais ri- um equívoco que não beneficia nem o desenvol
gorosos dos mesmos .será de fundamental impor- vimento dessas disciplinas, nem o desenvolvi
tância para que não tenhamos, num futuro próxi- menta da educação ambiental, tampouco, o n
mo, profissionais formados apressadamente defi- que é mais grave, a compreensão e a atunç o
nindo os rumos da educação ambiental no Brasil. dos alunos junto aos problemas ambientais.
Espera-se também uma maior produção teóri-
ca sobre o tema, possibilitada pelas inúmeras te-
ses de mestrado e doutorado que estão sendo
escritas por brasileiros, no País e no exterior.
Uma outra tendência, que poderá se manifes-
tar nos próximos anos, é a educação ambiental
como disciplina integradora.
Apesar de quase não ser considerada por mui-
tos profissionais como uma disciplina, temos ob-
servado o surgimento dela, como tal, na escola
primária, secundária e superior.
Uma análise mais aprofundada da educação
ambiental como disciplina precisa ainda ser feita.
Penso que a educação ambiental como disci-
plina integradora de várias atividades no âmbito
escolar pode ser um exercício rico que antecede
a inclusão dessa perspectiva nas outras discipli-
nas clássicas do currícu lo.
••
• ••• O QUE~ EDUCAÇÃO AMBll NI Al

nova razão que não seja sinônimo de uutodes


truição, exigindo o componente ético nnR reln
ções econômicas, políticas e sociais.
Portanto, é condição sine qua non nn educn
ção ambiental o diálogo entre gerações e cultur
em busca das cidadanias brasileira e planotérlu
CONCLUSÃO A educação ambiental, assim, está emponhndn
na realização do seu projeto utópico de estai.mio
cer ·uma sociedade mais justa para todos.

A educação ambiental é uma das mais impor-


tantes exigências educacionais contemporâneas
não só no Brasil, mas também no mundo.
Deve ser ainda considerada como uma grande
contribuição filosófica e metodológica à educação
em geral.
A educação ambiental que procurei abordar
aqui não está vinculada à transmissão de conhe-
cimentos sobre a natureza, mas sim à possibili-
dade de ampliação da participação política dos
cidadãos.
Nela está inserida a busca da consolidação da
democracia, a solução dos problemas ambientais
e uma melhor qualidade de vida para todos.
Ela busca
.
estabelecer uma .....,..--
nova alian{1a
- entre
a humanidade e a natureza, desenvolver uma