Você está na página 1de 14

Ioseph Ki-Zerbo

; Para quando a
Africa?
Entrevista com Renê Holenstein

Tradução de Carlos Aboim de Brito


INTRODUÇÃO

A memória, trampolim para o futuro

No decurso destas entrevistas, gostaria que o senhor me falasse


sobre as questões e os desafios que o século que começou representa
para a África. Dirijo-me ao senhor porque é um historiador célebre e
porque foi uma testemunha privilegiada de grande parte da história
africana do século passado. Além disso, sempre foi um personagem
contemporâneo politicamente engajado, que representou e defendeu
os interesses e os pontos de vista do continente africano em nu-
merosas conferências e em comissões internacionais de alto nível.
Comprometeu-se, como político de renome, com o futuro do seu país
- pagando muitas vezes com o seu próprio corpo. Como historiador,
através de seus livros e conferências, contribuiu para dar a conhecer
a história mundial a partir de uma perspectiva africana. No decurso
das nossas conversas, pedirei ao senhor que comente os aconteci-
mentos históricos atuais de um ponto de vista africano. Vemos hoje
a África mergulhada no caos, envolvida em conflitos étnicos, embo-
ra essas imagens sejam encaradas como coisa normal. Quais são as
grandes questões que se colocam hoje na África?

Entre as grandes questões está, em primeiro lugar, a do Es-


tado. O Estado mal consegue se formar e já é pressionado por
instituições como o Banco Mundial. Elas exigem que exista
uma estrutura estatal cada vez menor, e a influência das em-
presas multinacionais impõe-se cada vez mais. Será que a África
terá tempo de criar um tipo de Estado semelhante ao europeu?
Hoje, os dirigentes africanos fazem do Estado um Estado patrí-
monial ou étnico, que não é um verdadeiro Estado, que trans-
cenda os particularismos pelo bem comum. Que tipo de Estado
acabará por sair dele?
12 Joseph Ki-Zerbo Para quando a África? 13

I Nascido em 1923, no Sene- A seguir, há a questão da unidade e da fragmentação da partir de uma perspectiva africana. O senhor devolveu aos africanos 2 Grande rede norte-ameri-
gal, Cheik Anta Diop criou África. Minha idéia, como você sabe, é que a África deve cons- cana de notícias, de alcance
a sua história. De objetos da etnologia européia que eram, o senhor
uma nova escola de estudos mundial. (N.E.)
históricos e antropológicos so- tituir-se através da integração, que não existe verdadeiramente fez deles sujeitos do seu próprio destino. Como se sabe, até os anos 3 O biface é um pedaço de
bre a África e, em particular, pedra de formato aproxima-
o Egito antigo em sua relação
hoje. É pelo seu "ser" que a África poderá realmente vir a tê- sessenta, era difundida na Europa a crença de que a África não ti- damente oval, com uma extre-
com a África negra. De 1981 Ia; mas é preciso um ter autêntico, não um ter de esmola, de nha uma história que valesse a pena ser contada. Qual é o lugar da midade larga, por onde é se-
até sua morte, lecionou na guro, e a outra alongada, com
Faculdade de Letras e Ciências mendicidade. Trata-se do problema da identidade e do papel a história da África na histotiogratia geral? as duas bordas laterais cortan-
Humanas de Dacar (capital do desempenhar no mundo. Sem identidade, somos um objeto da tes. Essa borda é feita pela per-
Senegal). (N.E.) cussão com um seixo duro, de
história, um instrumento utilizado pelos outros, um utensílio. A África é o berço da humanidade. Todos os cientistas do modo a retirar lascas da pedra,
E a identidade é o papel assumido; é como numa peça de tea- mundo admitem hoje que o ser humano emergiu na África. até lhe dar o formato apropria-
do. É o mais antigo utensílio
tro, em que cada um recebe um papel para desempenhar. Ninguém o contesta, mas muita gente esquece isso. Estou certo fabricado pelo Homo erectus.
(N.E.)
Na identidade, a língua conta muito. O século que co- de que, se Adão e Eva tivessem aparecido no Texas, ouviríamos
meçou assistirá à decadência das línguas africanas? Sua lenta falar disso todos os dias na CNNz. É verdade que os próprios
asfixia seria dramática, seria a descida aos infernos para a iden- africanos não exploram suficientemente esta "vantagem com-
tidade africana. Porque os africanos não podem contentar-se parativa", que consiste no fato de que a África foi o berço de
com elementos culturais que recebem do exterior. Somos forja- invenções fundamentais, constitutivas da espécie humana du-
dos, moldados, formados e transformados através dos objetos rante centenas de milhares de anos. Foi a partir do continente
manufaturados que nos vêm dos países industrializados do africano que o Homo erectus, graças ao fogo que descobriu (Pro-
Norte, com o que eles têm de carga cultural. Em contrapartida, meteu também era africano) e graças ao biface! - instrumento
enviamos para o Norte objetos que não têm qualquer men- e arma muito eficiente -, pôde migrar para a Europa: outrora,
sagem cultural a dar aos nossos parceiros. A troca cultural é no Norte do planeta, coberto de calotas geladas, a vida era im-
muito mais desigual do que a troca dos bens materiais. Tudo possível; não há vestígios humanos na Europa, nos períodos
o que é valor agregado é vetor de cultura. Quando utilizamos mais recuados. Além disso, foi no Egito que a maior civilização
esses bens, entramos na cultura daquele que os produziu. So- da Antigüidade surgiu; e o Egito é o filho natural dos primeiros
mos transformados pelo vestuário europeu que usamos, pelo tempos da África como berço da humanidade, embora tenham
cimento com o qual construímos as nossas casas, pelos com- tentado desligar o país dos faraós da África, pretendendo que
putadores que recebemos. Tudo isso nos molda, enquanto nós faz parte do Oriente Médio. O líder da Frente Nacional na Fran-
enviamos para os países do Norte algodão, café e cacau bruto, ça - Iean-Maríe Le Pen - e seus parceiros deveriam aprender
que não contêm valor agregado específico. Em outras palavras, a história real do mundo. Isso os levaria diretamente a reco-
estamos confinados a setores onde produzimos e ganhamos o nhecer que seus antepassados foram os primeiros emigrados
menos possível, e a nossa cultura tem poucas possibilidades vindos da África.
de se difundir, de participar da cultura mundial. É por isso que
um dos grandes problemas da África é a luta pela troca cultural O senhor tem um percurso fora do comum: passou uma grande
equitativa. Para isso, é necessário dar infra-estrutura às nossas parte da infância no Alto Volta (hoje Burkina Fasso), no Senegal
culturas. Uma cultura sem base material e logística é apenas e em Mali, onde fez os seus estudos básicos e secundários. Depois,
um vento que passa. durante os anos cinqüenta, estudou História na Sorbonne (em Paris)
e foi o primeiro africano a obter ali um doutoramento, a mais alta
o senhor pertence, juntamente com o senegalês Cheik Anta Diop', distinção acadêmica. Que motivos o levaram a estudar História?
àquela geração de historiadores africanos eméritos, que redesco- Quem foram os seus professores? O senhor se ocupou da história
briram a história africana e reinierpretaram a história mundial a africana enquanto era estudante?
14 Joseph KI-Zerbo Para quando a África? 15

4 Sobre este assunto, ver as Não, e, aliás, a história africana era desconhecida. Fiz todos Depestre7 e outros, nos terem apresentado um olhar alternati- 7 René Depestre nasceu em
obras de Herbert Marcuse. 1926, no Haiti. Em 1945, so-
os meus estudos no âmbito francês, com manuais franceses. vo sobre a África, um olhar sem complexos, que respondia ao
5 Nascido na Martinica, em mente com o curso secundá-
1913, Aimé Césaire formou- Não havia nada no programa que tratasse da África. Ainda desprezo com um desafio. Eles próprios tinham ficado trauma- rio completo, publicou sua
se na Escola Normal Superior primeira coletânea de poemas
de Paris. Quando estudava na pequenos, tínhamos de utilizar um livro de História francês tizados com essa educação capenga, míope, que desprezava e
e fundou o jornal La Ruche,
França, começou a escrever e que começa assim: "Nossos antepassados, os gauleses ..." Assim, ocultava os valores da cultura africana, desde as línguas até a um espaço para os intelectu-
fundou, junto com Senghor ais haitianos que lutavam pela
(ver nota 6) e outros, a revista no início da nossa formação, houve deformação. Repetimos civilização material; e responderam, juntamente com Alioune identidade nacional. Após
l/Êtudiant Noir. Voltou à Marti- maquinalmente o que queriam inculcar-nos. Mais tarde, na DiOp8,com uma "presença africana", uma mensagem de renas- uma insurreição fracassada em
nica como professor. Foi eleito 1946, foi exilado. Na França,
prefeito de Fort de France em universidade, fiz todos os meus estudos sem uma referência cimento. estudou Letras e ligou-se ao
1945 e deputado na Assem- Nós, os historiadores africanos, realizamos a mudança indo movimento anticolonialista.
à história da África, salvo de modo superficial, em relação à
bléia Nacional Francesa em Expulso em 1952, passou por
1946. Em 1957, criou o Parti- história européia, para assinalar o papel da África durante o ainda mais longe. Afirmamos a necessidade de refundar a His- vários países (inclusive Haití,
do Progressista Martíniquês, de onde foi novamente ex-
tráfico dos negros, por exemplo. Posso citar-lhe ainda os assun- tória a partir da matriz africana. O sistema colonial prolonga-
com a proposta de indepen- pulso), até fixar-se em Cuba,
dência por uma via comunista tos do doutoramento: "Florença no século XV", "A Alemanha va-se até a esfera da investigação. Todas as pesquisas em agro- onde trabalhou no Ministério
de inspiração pan-africanista. das Relações Exteriores e no
Sua vasta obra inclui poesia, de Weimar" ... Mas nada sobre a África! Pouco a pouco, essa nomia, geografia e economia eram feitas em grandes institutos
Conselho Nacional da Cultu-
ensaios e peças teatrais. (N.E.) exclusão foi-me parecendo uma monstruosidade. Ao estudar a no estrangeiro. A pesquisa era um dos instrumentos da coloni- ra, além de fundar a editora
6 Léopold-Sédar Senghor nas- Casa de Ias Américas. Em 1978
ceu em 1906, no Senegal. Li- Idade Média européia e o período contemporâneo, tive vontade zação, a tal ponto que a investigação histórica tinha decidido
foi trabalhar na UNESCO, em
cenciou-se em Letras em Paris, de conhecer a história africana. Começava a interessar-me, que não havia história africana e que os africanos colonizados Paris. (N.E.)
onde conheceu Aimé Césaire 8 Alioune Diop (1910-1980)
(ver nota 5), com quem es- precisamente porque a sua ausência nos doía e nos deixava estavam pura e simplesmente condenados a endossar a histó- nasceu no Senegal e bachare-
tabeleceu os fundamentos da ria do colonizador. Foi por esta razão que nos dissemos que lou-se em Filosofia na Univer-
sequiosos. O desejo de exumá-Ia, de me envolver nela, nasceu
negritude. Tornou-se professor sidade de Argel (capital da Ar-
e, durante a Segunda Guerra dessa contradição. tínhamos de partir de nós próprios para chegar a nós próprios. gélia). Após a Segunda Guerra
Mundial, quando lutou no Mundial, passou a trabalhar
Optei pela História, inicialmente, porque meu pai teve uma vi- Você sabe que procuramos novas fontes da história africana,
Exército francês, participou da na administração colonial. Em
Frente Nacional Universitária. da longa. Ele era um homem de História. Era portador de uma particularmente a tradição oral. Provei que a expressão "pré- 1947, fundou o jornal Presença
Em 1945, foi eleito deputado Africana, que atuou como um
pelo Senegal, em 1955, Secre- parte da nossa história local, dado que fora o primeiro cristão história" era inadequada. Não vejo por que razão os primeiros
pólo de concentração do mo-
tário de Estado e, em 1960, tor- do Alto Volta, e gostava de contar os acontecimentos. Assim, humanos, que inventaram a posição ereta, a palavra, a arte, a vimento anticolonialista afri-
nou-se o primeiro presidente cano, o qual promoveu o Pri-
do Senegal, cargo que ocupou fui preparado para o ofício de historiador por essa educação. religião, o fogo, os primeiros utensílios, os primeiros habitats,
meiro Congresso de Artistas
até 1980, quando se retirou da Considero também que a História é "mestra de vida" (Historia as primeiras culturas, deviam ficar fora da história! Ninguém e Escritores Negros (1956) e
vida política, passando a viver criou a Sociedade de Cultura
na França, onde morreu em magistra vitae). É uma disciplina formadora do espírito, porque me contradisse. Onde quer que haja humanos, há história, Africana, de que Alioune Diop
2001. (N.E.) com ou sem escrita! Você vê que havia coisas a endireitar. De foi secretário-geral até sua
nos ensina a raciocinar pela consciência, dentro da lógica e
morte. (N.E.)
além da ciência. Pouco a pouco, forjou-se em mim uma dupla qualquer modo, reconstruímos a História sobre bases que, em-
atitude. Uma consistia em dizer: "quero regressar às minhas bora não sendo especificamente africanas, são essencialmente
raizes", o que é um movimento capital para a constituição de africanas. Pode-se dizer que nós, historiadores, fizemos um
uma personalidade madura e autêntica. A outra constatava os enorme esforço. Não digo que fizemos tudo, mas partimos da
múltiplos elos que ligam este continente a todas as regiões do metodologia, da problemática, da heurística da nossa discipli-
mundo, no tecido da história. Foi assim que a minha personali- na para renová-Ia, também a serviço do continente africano,
dade "situou-se por oposição", como dizem os filósofos. Consi- mas em primeiro lugar a serviço da ciência, como gostava de
dero que é um privilégio beneficiar-me de uma "personalidade repetir Cheik Anta Diop.
multídimensíonal'". Na Sorbonne, lancei-me de corpo e alma aos estudos, com
Além disso, o que despertou meu interesse pela história afri- paixão, aproveitando ao máximo a oportunidade muito rara,
cana foi o fato de os nossos colegas mais velhos na Sorbonne, que nos era oferecida, de sermos discípulos de grandes mestres
como os poetas Aimé Cêsaíre', Léopold-Sédar Senghor-, René da ciência histórica e política, como Pierre Renouvin, André
16 Joseph Ki-Zerbo Para quando a África? 17

Ayrnard, Fernand Braudel, Rayrnond Aron e outros. Durante Tradicionalmente, a História ocupa-se de questões relativas ao pas- 9 Kwame Nkrumah (1909-
1972) nasceu na antiga Costa
esse período, vivi num meio onde a ideologia marxista preva- sado. Gostaria de convidâ-lo a precisar a sua concepção da História. do Ouro (atual Gana). Estudou
lecia nitidamente. Os estudantes africanos da época estavam O desenrolar dos processos históricos é um produto do acaso, ou os Educação e Filosofia na Uni-
versidade Lincoln, nos EUA,
mais ou menos marcados por essa ideologia, devido à Guerra desenvolvimentos históricos estão submetidos a leis? Como historia- onde lecionou após a gradua-
Fria. Éramos "súditos coloniais", com uma superestrutura dor, como o senhor apreende o futuro? ção. Nesse período, foi eleito
presidente da Organização dos
intelectual incompatível com esta condição. O marxismo des- Estudantes Africanos da Amé-
rica e do Canadá. Foi para a In-
mascarava as realidades camufladas e decodificava os discursos A história anda sobre dois pés: o da liberdade e o da neces- glaterra em 1945, onde ajudou
alienantes das justificativas, e também apresentava um volun- sidade. Se considerarmos a história na sua duração e na sua a organizar o Sexto Congresso
Pan-Africano, em Manchester,
tarismo capaz de fazer a história, de transformar as sociedades totalidade, compreenderemos que há, simultaneamente, con- e foi vice-presidente da União
e de caminhar para a criação de um "homem novo"; assim, ha- tinuidade e ruptura. Há períodos em que as invenções se atro- dos Estudantes da África Oci-
dental, participando da luta
via simultaneamente a luta concreta, a rejeição radical do status pelam: são as fases da liberdade criativa. E há momentos em pela descolonização. Voltou à
Costa do Ouro em 1947 e tor-
quo. Era o tipo de compromisso exigido pela nossa condição que, porque as contradições não foram resolvidas, as rupturas nou-se secretário da Conven-
de africanos naquele momento. Ao mesmo tempo, fui muito se impõem: são as fases da necessidade. Na minha compreen- ção da Costa do Ouro Unida
(UGCC). Foi preso em 1948
marcado por Emmanuel Mounier, um filósofo cristão, que re- são da história, os dois aspectos estão ligados. A liberdade re- e, depois de libertado, fundou
teve muitos elementos da tradição européia do espírito crítico presenta a capacidade do ser humano para inventar, para se o Partido da Convenção do
Povo (CPP), que tinha o lema
e de luta para libertar a pessoa humana de todas as forças de projetar para diante rumo a novas opções, adições, descober- "auto-governo já" e pregava
a desobediência civil. Foi
opressão e obscurantismo. Emmanuel Mounier sublinhava que tas. E a necessidade representa as estruturas sociais, econômi- novamente preso em 1950. A
o combate pela justiça não deve abafar a liberdade, mas a liber- cas e culturais que, pouco a pouco, vão se instalando, por vezes Inglaterra concordou em dar a
independência ao país, e nas
dade humana, longe de ser uma condição, era sempre uma li- de forma subterrânea, até se imporem, desembocando à luz do primeiras eleições, em 1951,
berdade sob condições. dia numa configuração nova. De uma certa maneira, a parte Nkrumah, ainda preso, foi
eleito para a Assembléia Legís-
Obviamente, os comunistas africanos se autoproclama- da necessidade da história escapa-nos, mas pode-se dizer que, lativa. Libertado, concordou
em liderar o novo governo,
vam "verdadeiros progressistas" e se recusavam a renunciar à mais cedo ou mais tarde, ela há de se impor por si própria. colaborando com os ingleses
plataforma do "socialismo científico". Para eles, nós, os cris- Assim, não podemos separar os dois pés da história - a histó- para encaminhar a indepen-
dência, proclamada em 1957.
tãos progressistas, éramos suspeitos de complacência com os ria-necessidade e a história-invenção -, como não podemos Como primeiro ministro e
ocidentais porque, considerando a luta de classes como uma separar os dois pés de alguém que anda: os dois estão combi- depois presidente de Gana,
Nkrumah seguiu orientação
constatação histórica, recusamo-nos a vê-Ia como uma opção nados para avançar. Como a história tem esse pé da liberdade, marxista, estabelecendo o
unipartidarismo e buscando
teórica e uma estratégia inequívoca. Para nós, a revolução que antecipa o sentido do processo, existe sempre uma grande promover a industrialização.
não consistia necessariamente numa fratura violenta, mas na porta aberta para o futuro. A história-invenção reclama o futu- Em 1966 foi deposto por um
golpe militar apoiado pelos
transformação estrutural inscrita no tempo, preocupada com ro; incita as pessoas a se impelirem para algo inédito, que ainda EUA,e passou a viver no exílio
a maioria dos despojados, mas, simultaneamente, recusando não foi catalogado, que não foi visto em parte alguma e que, até sua morte. (N.E.)
10 A África deve se unir. (N.E.)

transferir para as minorias os custos humanos incompatíveis subitamente, é estabelecido por um grupo. Isto significa que
com um mínimo de direitos e recusando o reformismo cúm- nem tudo está fechado a cadeado pela história-necessidade:
plice da violência estrutural do status quo. Os cristãos africanos continua a haver sempre uma abertura.
demonstraram, na realidade, que eram tão nacionalistas como Apresento um caso muito concreto para mostrar que as
quaisquer outros. Em revistas como Tam-Tam, por exemplo, to- duas bases, os dois motores da história estão estreitamente li-
maram a dianteira no debate sobre a "descolonização" e sobre gados: a unidade africana. Ela vai realizar-se mais cedo ou mais
um socialismo democrático adaptado às realidades, interesses tarde, mas não sabemos exatamente como. Quando Kwame
e valores da África. Nkrumah? teve esta idéia luminosa - Africa must unite'? -, ha-
18 Joseph Ki-Zerbo Para quando a África? 19

J1 A sala do Jogo de Bola era a via nele uma inspiração, uma visão e uma vontade política que "O povo reunido não pode receber ordens." A revolução é o 12 A mão invisível do mercado,
quadra de esportes do palácio
puseram em marcha os jovens universitários que éramos na considerada pelo liberalismo
de Versalhes, residência ofi- inverso do existente. É não só virar a página, mas mudar de como o regulador natural das
cial do rei francês. Em maio época. É o que eu chamo o pé da liberdade. Mas o presidente
dicionário. atividades econômicas. (N.E.)
de 1789, Luís XVI convocou a
Assembléia dos Estados Gerais da Costa do Marfim, Houphouet-Boigny, não queria a unidade
(representantes da nobreza, do africana nessa época. Foi o que ele exprimiu ao afirmar que a
clero e da burguesia). Os repre- o historiador pode predizer esse futuro?
sentantes da burguesia recu- Costa do Marfim não devia ser a vaca leiteira da Federação dos
saram-se a seguir regras dís-
criminatórias, e o rei mandou Estados da África Ocidental. No entanto, a necessidade impôs- Não, o historiador pode avaliar ou prognosticar, mas não
fechar a sala do palácio onde se a ele. Quando criou indústrias na Costa do Marfim, percebeu
eles se reuniam. No dia 20 de fazer predições proféticas. Haverá leis gerais na história? Esta
junho, tendo-se proclamado que era necessário que outros países enviassem trabalhadores questão foi a pedra de toque das teorias marxistas e do cíen-
deputados e formado a As-
para as plantações ou para a construção civil da Costa do Mar- tificismo em geral. Filósofos como o francês Auguste Com te,
sembléia Nacional, invadiram
a sala do Jogo de Bola e jura- fim. Também necessitava dos países vizinhos como compra- antes de Karl Marx, quiseram predizer a evolução da história
ram não sair dali até que fosse
promulgada a Constituição, dores. Assim, foi o próprio Houphouét-Boígny quem criou o humana e dos modos de produção, baseando-se sobretudo,
sendo apoiados por alguns Conselho do acordo que agrupa os Estados da África Ocidental
membros do clero e da nobre- aliás, na evolução do Ocidente europeu. Ao desenvolverem
za. No dia 9 de julho, organi- francófona. É um caso muito preciso em que vemos que há, de uma "teoria das etapas", julgaram que havia um desenvolvi-
zaram a Assembléia Nacional
tempos em tempos, grandes personalidades cuja imaginação mento mecânico, puramente materialista, da história humana.
Constituinte que, na noite de
4 de agosto, proclamou a ex- provoca saltos para diante. Mas, por vezes, fica-se sob o pé da
tínção dos direitos feudais na
Deixaram de ter confiança na capacidade de ação livre e na exi-
França. A única exceção na eli- necessidade subterrânea durante muito tempo, até o dia em gência fundamental de liberdade que existem na natureza hu-
minação das antigas regras de que as pessoas dizem que é absolutamente necessário mudar
desigualdade foi a escravidão mana. Foi através da sua própria indeterminação que a espécie
dos negros nas colônias, que de direção. humana se desligou e distinguiu dos animais, para se constituir
permaneceu. (N.E.)
como é hoje.
Qual é o lugar da revolução na sua concepção da História? Agora, cai-se num outro pensamento único que considera
que o liberalismo total - não a liberdade! - deve libertar to-
A revolução é o processo estrutural que, de forma invisível, das as energias positivas. Como se a famosa "mão ínvísível"?
faz as coisas avançarem até o momento em que a potencialída- existisse! Nada é tão contraditório como esse termo, dado que
de dessas estruturas é tal que torna-se absolutamente necessá- a abordagem do liberalismo pretende estar baseada na raciona-
rio dar um salto qualitativo. Menciono mais uma vez o caso da lidade mais pura. Se a nossa sorte está ligada à mão invisível,
unidade africana. Suponhamos que continuamos sem unidade como se pode afirmar que isso é racional? Pelo contrário, é o
durante mais cinqüenta anos e que os problemas se agravam, adeus à razão, o adeus à racionalidade! O liberalismo torna-se
do ponto de vista das epidemias, do analfabetismo, do empre- uma religião, precisamente porque já não se baseia em coisas ra-
go etc. Estou certo de que grupos cada vez mais numerosos da cionais, e os resultados positivos não se vêem. Mas se a mão é in-
sociedade civil dirão um dia: "Isso não é possível, basta, é de- visível, o pé que espezinha os direitos dos mais fracos não é.
mais!", e criarão os Estados Gerais do continente africano. Será No que me diz respeito, diria que chegamos a um grande
como na noite de 4 de agosto de 1789, quando a Assembléia momento da história humana. Quando a globalização fracas-
Nacional Constituinte francesa votou a revogação dos últimos sar - e está no caminho do fracasso, porque produziu, não só
privilégios da nobreza e do clero. Será um ato tão revolucio- a pobreza, mas a pauperização -, será o momento das opções
nário como o momento em que ]ean Sylvain Bailly, que presi- estratégicas corretas para a humanidade no seu conjunto. Quan-
diu essa sessão memorável da Assembléia Nacional na célebre do se provar que o capitalismo também não tem uma resposta
sala do leu de Paume+, declarou em nome do Terceiro Estado: determinante, decisiva, definitiva a dar para uma história hu-
20 [oseph Ki-Zerbo

mana correta, talvez estejam reunidas as condições para desco- GlOBALlZADORES E GlOBALlZADOS
brir finalmente uma solução específica: para instalar uma nova
decoração, inventar um novo cenário e fazer uma nova escolha
de atores para uma nova peça, mais digna do ser humano.

o processo de globalização registrou, nos anos noventa, uma acele- 13 Chamado originalmente
"antíglobalísmo", o alterglo-
ração extraordinária. A economia em rede é onipresente, a "aldeia balismo surgiu como um mo-
planetária" tornou-se proverbial. Mas, ao mesmo tempo, desenvol- vimento de resistência contra
o modelo econômico neoli-
ve-se a resistência contra o neoliberalismo. Nos países industria- beral. Aos poucos, incluiu no-
vas bandeiras fora do âmbito
lizados, muitas pessoas consideram-se mais como vítimas do que econômico, como a preserva-
como beneficiá rias da globalização. Aparentemente, os capitães da ção de identidades culturais
e direitos humanos. Passou,
economia mundial estão cheios de compreensão relativamente aos assim, de uma contestação in-
tra-ocidental a um movimento
motivos da oposição. Alan Greenspan, presidente do Banco Central mundial, voltado para a busca
dos Estados Unidos, reconhece o "receio legítimo" que os alterglo- de modelos alternativos de de-
senvolvimento. (N.E.)
balistas" têm de perder, no nível local, o controle político do seu 14 O Fórum Econômico Mun-
dial (World Economic Forum,
destino. Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial de WEF) é uma fundação criada
Davos>, declara que os temores expressos nos movimentos de pro- em 1971, com sede em Gene-
bra (Suíça), cujos membros são
testo são compreensíveis. Michel Camdessus, antigo diretor-geral do escolhidos por sua posição no
ramo de negócios ou no seu
Fundo Monetário Internacional (FMI), pensa que a "globalização, país de origem, e pela dimen-
por aproximar os povos, pode ser um avanço para a unidade do são global de suas atividades.
Esses membros, as aproxima-
mundo". Segundo ele, "não se deve nem sacralizâ-la, nem demonizâ- damente mil maiores empre-
sas do mundo, pagam uma
Ia, mas tentar humanizâ-la em nome da dignidade da pessoa". Qual anuidade de $12.500; os par-
é a sua apreciação da globalização? Do que se trata exatamente? ceiros são cerca de 100 mem-
bros com direito de decisão,
Quais são os desafios para os países africanos? que pagam uma anuidade de
$250.000. Sua reunião anual,
para a qual são convidados
Do ponto de vista africano, a globalização é o desenvolvi- alguns líderes políticos, inte-
lectuais e jornalistas, é reali-
mento lógico do sistema capitalista de produção. Este atingiu zada em Davos, na Suíça. O
um patamar a partir do qual deve necessariamente adquirir di- WEF é visto, por seus membros,
como um lugar privilegiado
mensões planetárias - ou desaparecer. Os conceitos de compe- para o debate dos principais
problemas econômicos do pla-
titividade e rentabilidade levam a uma espécie de darwinismo'" neta, e, por seus críticos, como
econômico. Resultado: só os mais aptos - the fittes t, como um fórum empresarial em
que as grandes corporações
dizem os ingleses - sobreviverão. Através da globalização, o internacionais negociam entre
CIÊNCIA SEM CONSCIÊNCIA É
A RuíNA DA ALMA E DO CORPO

Há estagnação do desenvolvimento tecnológico na África?

Sim. Podemos dizer que não há desenvolvimento tecnoló-


gico além de um certo nível de industrialização. Fundamental-
mente, a tecnologia anda junto com a indústria - a tecnologia
condiciona a indústria e a indústria condiciona a tecnologia.
Não é por acaso que as tecnologias do mundo contemporâneo
se desenvolveram nos países onde havia mais manufaturas,
como em certas cidades italianas na Idade Média, no vale do
Reno e nas cidades do Mar do Norte, na Holanda e, sobretudo
no século XIX, na Inglaterra e na Escócia. Como a África está
reduzida até hoje a comercializar apenas produtos brutos, não
foi impelida a inventar. Na Antigüidade, o Egito estava muito
avançado em astronomia. Os pensadores gregos, como Tales
e Euclídes, "abasteceram-se" junto aos egípcios. No início da
Idade Média, as invenções dos árabes e dos chineses foram
muito úteis ao Ocidente. Este último só teve ligação com as
conquistas da Grécia através dos árabes. Estes desenvolveram
(e a Europa aperfeiçoou) as descobertas da China relativas à
bússola, à imprensa, à pólvora para canhão. Foram estas gran-
des descobertas que permitiram à Europa enriquecer, acumular
e preparar as vias da tecnología industrial.
Desde o século XVI até os nossos dias, a África foi inibida.
Foi confinada à imitação, ao consumo das invenções de ou-
trem. Foi desresponsabílízada, do ponto de vista do progresso
técnico e industrial. Durante esse tempo, o tráfico dos negros
facilitou à Inglaterra o acesso à supremacia industrial. Não é
86 Joseph Ki-Zerbo Para quando a África? 87

41 Samory Touré (c. 1835- por acaso que Londres, Manchester e Liverpool tornaram-se Com a ultrapassada técnica da fundição a cera perdida, os 42 Mvemba-a-Nzinga, da dinas-
1900), nascido em Mali, desde tia Ntotila do antigo reino do
1850 alugou seus serviços as capitais industriais da Europa. Era nesse meio que se estava produtores africanos tinham imitado todas as armas que lhes Congo, batizado com o nome
como soldado. Em 1860, mais bem preparado para inventar máquinas. Havia aí uma es- caíam nas mãos. Em outras palavras, tinham uma capacidade de Afonso I, reinou de 1509 a
tornou-se chefe de guerra dos 1540. Era filho do rei Nzinga-
Kamara (família de sua mãe). pécie de aspiração funcional e estrutural para ir mais longe em endógena de produção muito digna de nota. Se os europeus a-Nkuwu (chamado pelos eu-
Criou o primeiro exército pro- matéria de equipamento. Assim, foram aperfeiçoadas e desen- tivessem estabelecido um sistema de cooperação e de parceria ropeus Manicongo), batizado
fissional da região, equipado com o nome de João I, com
com armas de fogo. Combi- volvidas a máquina a vapor e as máquinas de fiar e de tecer. a partir dessa época, em vez de querer esmagá-los e condená- quem os portugueses entraram
nando guerra e diplomacia, em contato em 1491, quando
los depois a não inventarem mais nada, a África estaria hoje
em 1878 havia conquistado começaram a explorar a região
todo o Alto Níger. Entre 1886 Por que houve um desenvolvimento descontínuo das ciências e das industrializada. do Congo. (N.E.)
e 1889, assinou diversos tra-
tados de cooperação com os
tecnologias nas diferentes partes do mundo? Por que razão a ciência O outro exemplo mostra que havia, por parte dos inva-
franceses, para preservar seus é particularmente desenvolvida em certas partes do mundo? sores e dos colonizadores, uma intenção de embargo sobre a
territórios; mas, a partir de
1890, enfrentou uma longa tecnologia e a ciência na África. Já no século XVI, o rei Afonso
guerra contra as tropas colo- Muitos elementos interagem aqui. Na Europa, a tecnologia do Cong042 tinha preparado tudo para mandar vir produtores
niais. Foi preso e deportado
em 1898. (N.E.) e a indústria não chegaram a todos os lugares e ao mesmo tem- europeus. Ainda não havia indústrias, mas artesãos de altíssima
po. Por que razão os Bálcãs não têm o mesmo surto industrial qualidade que produziam à mão: pedreiros, ferreiros, carpin-
que a Grã-Bretanha no início do século XIX? Por que razão o teiros etc. Afonso queria que os portugueses lhe enviassem
desenvolvimento industrial na França ocorreu nas regiões do artesãos para formar, acompanhar e enquadrar os seus próprios
Centro, enquanto só começou um século mais tarde na Bre- produtores endógenos. Recusaram-lho.vembora ele estivesse,
tanha e no Maciço Central? Eu explico essas diferenças por sob todos os pontos de vista, no mesmo nível que os europeus,
uma espécie de dialética: nas regiões onde a ciência e a técnica no sentido em que tinha se convertido à religião cristã e lutava
estavam avançadas, o progresso tinha maiores possibilidades mesmo para suprimir a religião tradicional africana. Afonso
de arrancar. Não é um círculo vicioso casual, mas o arranque procurava uma verdadeira parceria. Em vez disso, foram insta-
inicial; geralmente, a explosão da ciência é um efeito de pata- lados mercados negreiros para comprar os seus próprios súdi-
mar proveniente do encontro fortuito ou combinado de vários tos, e ele próprio esqpou a um atentado na igreja, mesmo no
"insumos positivos". meio da missa ... Através destes exemplos, pretendo dizer que,
Insisto em algumas proibições para explicar o desenvolvi- embora a ciência de tipo europeu não se tivesse desenvolvido
mento descontínuo da África em relação à Europa. Vejamos na África, os saberes estavam extremamente desenvolvidos.
dois exemplos. O primeiro diz respeito à luta do chefe ma- Um "embargo histórico" impediu que a África se beneficiasse
linque, Samory Toure", na Alta-Guiné, contra a chegada dos das trocas com a Europa e o mundo árabe. No fim das contas,
franceses na época colonial. No decurso de uma longa guerra, poderíamos muito bem imaginar trocas proveitosas' para as
esse grande africano demonstrou que estava à altura dos seus duas partes. Porque esses primeiros exploradores da África
adversários, embora tivesse armas muito menos sofisticadas deram-se conta do extraordinário desempenho africano no
- espingardas que datavam mais ou menos do período do domínio técnico.
tráfico dos negros. Para se abastecer, procurou instalar manu- De um modo geral, podemos dizer que, esporadicamente,
faturas de armas. Então, os ourives e os caçadores (dozos) da ao longo da história, há uma espécie de explosões de desco-
região mandinga começaram a reproduzir os fuzis europeus bertas. O desenvolvimento técnico da humanidade fez-se, em
que tinham arrancado aos franceses nos combates. Mas, quan- diferentes momentos, através de todos os continentes, tendo
do Samory Touré foi derrotado pelos franceses, as manufaturas cada um, por sua vez, contribuído para ele. O espírito humano
de armas foram proibidas. Ele fizera aquilo que os japoneses está à espreita por toda parte, em busca de compreender, me-
iriam fazer décadas mais tarde: imitar os produtores europeus! lhorar, progredir. As inovações tecnológicas ocorreram porque
88 Joseph Ki-Zerbo Para quando a África? 89

houve pessoas que tinham o espírito alerta, inventivo, mas segue um certo número de regras que são as mesmas por toda
também porque ocorreu uma associação de idéias e de fatos. parte. Foi através desses métodos científicos que os remédios
Segundo Emmanuel Mounier, a ciência, como a liberdade r
foram aperfeiçoados, com a diferença de que, nos sítios onde
existe sob condições: é preciso que certas condições objetivas não havia escrita, a acumulação dos conhecimentos fazia-se
estejam reunidas para que surja este ou aquele tipo de inven- menos bem. Quando a transferência dos conhecimentos entre
ção. Por que razão alguns países europeus nunca tiveram prê- as gerações se realiza por via puramente oral, é evidente que há
mios Nobel da ciência? Se houve uma explosão de descobertas perdas muito maiores. Foi isso que reduziu e travou o conhe-
em certas regiões da Europa, é exatamente a mesma questão cimento científico africano. Do mesmo modo, as perturbações
que devemos colocar a propósito do vale do Nilo. Por que razão na estabilidade e a acumulação desencadeada pelo tráfico desa-
o Egito ultrapassou os outros países antigos? Por que razão, na- celeraram e desconstruíram os processos de progresso.
quilo que se chama a "pré-história", a África superou a Europa? Infelizmente, todas essas invenções foram ocultadas, para
Não era de maneira nenhuma pelo mérito superior dos pré-ho- que os países africanos fossem objetos a explorar, sem terem a
minídeos africanos. Foi com base em certas condições objetivas possibilidade de realizar um desenvolvimento endógeno! Hoje,
que as descobertas se realizaram, e que o próprio homem, o os cientistas europeus interessam-se pelos achados da África.
inventor, se constituiu na África. Vêm recolher as cascas das árvores, as raizes, as folhas, a fim de
Portanto, eu diria que é necessário distinguir uma dupla tentar descobrir os seus princípios ativos para a produção
dimensão. Enquanto não há manufatura e indústria, o espí- de remédios. Remédios que são vendidos na África, muito mais
rito humano não é solicitado. E na medida em que o espírito caro, aos inventores desprovidos de patentes ...
humano não é solicitado, estíola-se, entra em hibernação,
desconecta-se e desenvolve um complexo de inferioridade Serápreciso voltar atrás para tomar a pôr em andamento a máquina
que desarma a sua capacidade para inventar. É uma espécie de de invenção tecnológica?
desistência, que consiste em dizer: "Não é o nosso ramo, não é
o nosso terreno. 11 Assim, pretendeu-se que os africanos não ti- Não é voltar atrás! Se tivessem permitido que Samory Touré
nham capacidade para compreender as matemáticas. Evidente- tratasse com os europeus de igual para igual, se não houvesse
mente, essa tese absurda desapareceu. Mas houve um período aquela vontade de dominar, de submeter e de impedir que se de-
em que muitos africanos acabaram por aceitá-Ia. Como conse- senvolvesse, teríamos realizações inimagináveis hoje. E se Afon-
qüência disso, desmobilizaram o espírito e deixaram-se arrastar so tivesse podido lançar as suas manufaturas e se tivesse havido
pelo mimetismo e pela extroversão. trocas dignas desse nome, a África teria se desenvolvido. Estes
exemplos mostram uma vez mais o seguinte: não desenvolve-
Os métodos tradicionais de investigação têm aspectos científicos? mos, desenvolvemo-nos. Por outro lado, creio que não se trata
de voltar atrás, porque aquilo que é aplicado pelos africanos,
Os africanos fizeram progressos enormes no conhecimento mesmo hoje, por vezes é avançado.
e na utilização das plantas, por exemplo, para a cura de hepati-
tes, a redução das fraturas ... Os africanos também tinham um O que a África poderia dar à Europa, hoje, em termos de inovação?
conhecimento dos solos extremamente avançado, bem como
da preparação e conservação de certos alimentos. A acumulação No âmbito do Conselho Africano e Malgache para o Ensino
desses conhecimentos não era tão científica como na Europa. Superior (CAMES), que dirigi durante uma dezena de anos,
No entanto, convém não concluir que não há nada de científi- organizei quatro grandes colóquios sobre a farmacopéia africa-
co neles. Desde que o espírito humano se põe em movimento, na, em Líbreville, Kigali, Lomé e Niamey. Juntava curandeiros
90 Ioseph Ki-Zerbo Para quando a África? 91

africanos e universitários ditos modernos. Constatamos que, Se não tivessem refreado os negros, teríamos hoje muito
no setor da terapêutica, os africanos inovaram muito. Não há mais investigadores, entre os quais alguns prêmios Nobel.
doenças que os africanos não tenham tentado curar. O que é TemoS excelentes investigadores formados nos centros mais
característico é a abordagem psicosociosomática das terapias qualifi~ados do planeta. Infelizmente, como se sabe, há cem
africanas. Alguns psicoterapeutas franceses demonstraram que mil especialistas africanos fora da África, enquanto hospeda-
os africanos associaram sempre o remédio, a mobilização do es- mOS cem mil investigadores do Norte nos centros de pesquisa
pírito do doente e o acompanhamento social. Há remédios que africanos. Aqui, a igualdade aritmética dos números não deve
funcionam quando o curandeiro dança com o doente, quando mascarar a distorção dos papéis científicos e políticos desem-
mobiliza todas as energias psíquicas do paciente. Em matéria penhados por estes dois contingentes. Por um lado, é a quanti-
de terapia, como se sabe, não basta deixar o doente e o medi- dade cuja ausência impede um verdadeiro arranque da investi-
camento face a face. A ciência não é feita apenas de achados gação endógena na África. Por outro, é uma assistência técnica
mecânicos, químicos e bioquímicos. É também a mobilização marginal para o Norte, mas decisiva para a África. Os africanos
dos recursos e das energias que estão latentes no homem e trabalham nas instituições mais prestigiadas no estrangeiro,
que, na maior parte dos casos, ainda estão por explorar e por quer por razões econômicas ou políticas, quer porque não têm
conhecer. os equipamentos necessários na África. Além disso, o que falta
Ainda há muito a aprender. Por exemplo, seria desejável, na África é a organização. Não existe comunidade científica
não só revisitar a concepção africana da terapia, mas também a suficiente para provocar a acumulação de saber. Enquanto os
psicologia africana. Os africanos dão muita importância à psi- investigadores estiverem fechados em guetos micronacionais e
cologia. Por exemplo, o aspecto psicológico da presença huma- não tiverem relações entre si, a ciência não avançará. Porque a
na é o primeiro dos remédios. Quando entramos num hospital investigação científica avança através da contestação e do con-
na França, constatamos que há salas inteiras onde os doentes fronto intelectual entre cientistas, através da obtenção de uma
estão entregues aos equipamentos, aos remédios - sem nin- massa crítica de matéria cinzenta, abaixo da qual nada de de-
guém ao lado. Como alguém pode se curar nestas condições? cisivo ocorre. Enquanto essas condições objetivas, individuais
Se mergulhassem mais na prática psicológica dos africanos, e coletivas não estiverem reunidas, os africanos não poderão
veriam que há montanhas de conhecimentos por descobrir. exibir a sua grandeza científica e tecnológica.
Infelizmente, muitas coisas se perderam. E o Norte, excetuan- O outro aspecto que devo sublinhar é que a acumulação dos
do alguns especialistas, além disso humanistas, decretou que a conhecimentos se faz na Europa. Antes de criarmos o CAMES,
abordagem africana não tinha nenhuma contribuição a dar aos os investigadores e professores, que queriam passar de um grau
progressos da ciência. para outro, enviavam os seus dossiês e as suas produções cien-
Em matéria de ciência, bastaria conjugar o que é bom por tíficas para a França. Assim, todos os anos caíam na França,
toda parte para atingir algo de verdadeiramente universal. Por- gratuitamente, todas as investigações feitas pelos maiores pes-
que o universal não é simplesmente a adição dos diferentes quisadores africanos. A recapitulação e a acumulação eram fei-
particulares. E também não é um particular que, esmagando tas em benefício da frente pioneira na França. Além disso, não
todos os outros, pode autoproclamar-se universal. O universal sendo essas investigações necessariamente publicadas, podiam
é o que há de mais precioso em todos os particulares, que de- ser mantidas em segredo. É por isso que a questão da ciência
vem encontrar-se como os planos laterais no vértice de uma não pode ser examinada independentemente de considerações
pirâmide. políticas e dos interesses geopolítícos. Hoje, muitos africanos
participam de equipes de investigadores. Mas os diretores de
o que impede o desenvolvimento da investigação na África negra? pesquisas, os mestres, encontram-se na Europa, e as investi-
III
1

I
Para quando a África? 93
92 Joseph Ki-Zerbo

gações são, ainda hoje, acumuladas nos Estados Unidos ou na veis! A construção dos celeiros não é só uma arte do ponto de.
Europa. O resultado ou a patente são obtidos nesse nível. vista arquitetônico, é sobretudo uma técnica. Permite guardar
Penso que há enormes possibilidades na África. Mas é ne- o painço em espiga, ou outros cereais, em condições de segu-
cessário dizer que a velocidade de evolução da investigação rança total durante anos. Esses reservatórios de conhecimentos
científica é tal que, se os africanos não realizarem muito rapi- correm o risco de desaparecer pouco a pouco, se não prestar-
damente projetos de investigação conseqüentes, não só serão mos atenção. Daí a conveniência de fazer balanços dos sabe-
invisíveis, mas não existirão. Isso ameaça-nos do mesmo modo res acumulados. Sei que alguns investigadores estabeleceram.
que ameaça alguns países europeus que ainda não entraram nomenclaturas de termos científicos africanos, nas áreas de
verdadeiramente na dança da ciência. Mais uma vez, podemos botânica e ciências veterinárias. Recordo-me que uma vez, no-
fazer a pergunta: quem é o sujeito e quem é o objeto da histó- decurso das minhas viagens, sentamo-nos na beira da estrada,.
ria? Fomos inibidos, severamente limitados, mas nada nos diz no meio das plantas do mato. Pois bem, nesse pequeno espaço
que não podemos progredir. Veja o que a Índia realizou. Em em que nos instalamos, uma das nossas camaradas, com uma
pouco tempo, este país impôs-se em numerosos domínios. A certa idade, reconheceu de imediato à sua volta quatro plan-
África, com todos os seus recursos naturais, poderia ser uma tas que serviam para alguma coisa! Através desse exemplo, vi,
sede da ciência, sobretudo em matéria de biodiversidade - na que as pessoas que foram educadas pela tradição estão maís
condição de os seus recursos serem utilizados inteligentemen- bem preparadas para viver no meio africano do que aqueles
te. Mas não convém que sejamos como o gorila na floresta: que foram desenraizados. Quero dizer com isto que a educa--
instalado no meio dos elementos e pulando de galho em galho ção africana deveria ser endógena e basear-se ao máximo na
para consumir, desde que a floresta existe. Em outras palavras, acumulação dos conhecimentos africanos. O problema é que
a floresta não é uma riqueza enquanto os homens e as mulhe- muitos quadros africanos viraram as costas a este repositório de
res não a transformarem. conhecimentos. Estão muito mais voltados para o que apren-
deram ou a muito custo retiveram da sua iniciação às ciências
Como se pode valorizar os saberes tradicionais dos camponeses "modernas". Muitas vezes, não conhecem nada das realidades
africanos? e das coisas que os rodeiam; caíram na armadilha.

Particularmente em relação às variedades de milho de alto Historicamente, como se realizou o acesso à inovação? Havia técni-
rendimento introduzidas na região, sabe-se há muito tempo cas de vulgarização?
que implicam, para a obtenção das sementes, por exemplo,
maior dependência dos camponeses em relação ao mercado Isso dependia do domínio do saber. No conhecimento das.
mundial. Ora, durante séculos, os camponeses selecionaram plantas, as inovações faziam-se simultaneamente nos planos
sementes variadas, adaptadas às diferentes condições ecoló- individual e coletivo. Admitamos que um grande curandeiro
gicas e fitossanitárias. Essas variedades correm o risco de ser faz descobertas importantes na cura de um caso de doença
ultrapassadas ou rejeitadas, embora constituam uma reserva difícil. Essa descoberta difundia-se como um fogo de palha, e
muito importante para os camponeses. Felizmente, hoje, co- o curandeiro em questão via a sua clientela aumentar rapida-
meça-se a reconhecer que os camponeses encontraram fórmu- mente. Por essa via, as novidades eram rapidamente socializa-
las mais respeitadoras da natureza. das, pelo menos para os clientes que tiravam partido delas.
Os saberes camponeses devem receber toda a nossa aten- Uma das limitações das ciências africanas é o seu caráter
ção. Por exemplo, os métodos autóctones de conservação de esotérico. Mas o esoterismo também está presente nos grandes
sementes que os africanos descobriram: muitas vezes são notá- laboratórios! Quanto mais recente é a novidade, mais é escon-
94 Joseph Ki-Zerbo Para quando a África? 95

dida, salvaguardada pelo próprio curandeiro. Esta reserva cons- A Internet difunde-se mais rapidamente do que qualquer outro meio
titui um risco importante para o progresso da ciência na África de comunicação anterior. Mas a maior parte da população mundial
r

dado que não favorece a acumulação dos saberes. Na maior não participou desse desenvolvimento. O "fosso digital", isto é, a
parte dos casos, os curandeiros esperavam o último momento distância entre o equipamento de tecnologias da informação dos
para escolher aquele a quem deviam revelar as suas descober- países industrializados, por um lado, e dos países em vias de desen-
tas. Em geral, decidiam iniciar os seus filhos num certo número volvimento, por outro, é diticil de preencher. As novas tecnologias
de conhecimentos. Todavia, esperavam muitas vezes a proxi- da informação e da comunicação serão instrumentos de desenvol-

midade da morte para escolher o seu herdeiro em matéria de vimento?

saber. Levavam tempo a estudar o caráter, o comportamento,


Temos interesse em dominar bem todas essas tecnologias de
os hábitos daquele que iria herdar os conhecimentos. Como
ponta, porque é evidente que o computador só mói o grão que
se diz: o saber é pesado e perigoso. Por vezes, as plantas que
lhe dermos para moer. A massa das informações que devem ser
curam são as mesmas que envenenam. Por isso, os curandeiros
"amassadas" por todos esses instrumentos sofisticados deve vir
não podiam vulgarizar os seus conhecimentos sem as devidas
de uma coleta básica feita por humanos. A constituição dos
precauções. Infelizmente, podiam morrer subitamente, o que
dados brutos é um momento importante da gestão da infor-
provocou um atraso nos conhecimentos africanos.
mação. Penso que é necessário utilizar as tecnologias moder-
Esses conhecimentos eram também muito socializados, no
nas de comunicação como instrumentos novos. Neste plano,
sentido em que não estavam no mercado. Os grandes curan-
os africanos não ficarão na beira do caminho. Aliás, receio que
deiros não vendiam os seus produtos; não pediam nada em
sejam demasiado tentados a utilizar sempre o que há de mais
contra partida dos seus serviços. No momento de adquirir esses
novo sem dominar completamente o seu espírito. Será conve-
conhecimentos, faziam o juramento de nunca vender os seus
niente que as novas tecnologias intervenham num contexto
produtos. Uma das doutrinas dos curandeiros dizia que aquele
bem preparado. Em primeiro lugar, os programas devem ser
que vende retira o potencial curativo do remédio. Em geral, os
adaptados à realidade africana, por exemplo, no ensino. De-
clientes deviam, ou fazer um donativo simbólico para marcar o pois, temos necessidade de técnicos africanos eminentes que
seu reconhecimento - alguns cauris ou um frango -, ou não estejam enraizados na sua própria cultura. Caso contrário,
pagar absolutamente nada. É louvável esse humanismo africa- recebem-se estas tecnologias como brinquedos: dedilha-se, é
no, que soube manter o princípio de que nem tudo deve ser agradável, produz efeitos maravilhosos, mas não haverá ver-
colocado no mercado. No máximo, o produtor de saúde podia dadeira apropriação da inovação tecnológica. É como os países
esperar um contra-donativo. do Golfo que tinham mandado lançar um satélite geo-estacío-
Além da transmissão individual, a ínícíação coletiva por nário para se comunicar entre si. Mas comunicar para dizer o
faixa etária era outra via de vulgarização dos conhecimentos. quê? É preciso um conteúdo! No meu livro La Natte des autres,
No decurso da iniciação, os jovens de uma mesma aldeia ou o capítulo introdutório intitula-se "O desenvolvimento chaves na
da "pequena região" retiravam-se para espaços reservados no cabeça", e não "chaves na mão". O desenvolvimento chaves
mato. A iniciação era verdadeiramente uma sede da transfe- na mão seria precisamente o computador cujo funcionamento
rência dos saberes em todos os ramos úteis ao ser humano: interno não fosse compreendido e cujo programa não se fosse
ambiente, vida sexual, terapias, cura, conhecimentos sociais. capaz de mudar. É o aparelho no estado bruto: ensinam-nos
De certo modo, era uma comunicação gratuita, dado que o mecanicamente a utilizá-lo, mas não o integramos como uma
conjunto da aldeia se encarregava dos iniciados. Acontecia que engrenagem do nosso próprio sistema. É esse o problema capi-
o rigor das provas implicava por vezes acidentes mortais. tal da introdução das tecnologias de ponta na África.
96 Joseph Ki-Zerbo

Além disso, trata-se de impedir que as pessoas façam uma ges-


DIREITOS DO HOMEM, DIREITOS DAS MULHERES?
tão da Internet com a mentalidade do homem de Cro-Magnon.
Ter acesso à Internet é uma coisa, ética é outra. Não basta ser
cientista, saber manejar as equações, dominar a álgebra e a ge-
ometria ou a econometria. Como sublinhou o filósofo Blaise
Pascal, o conhecimento e a consciência são duas categorias
diferentes. O que difere o ser humano dos animais é a consciên-
cia. É preciso que a consciência se vá elevando ao nível da
ciência para a ultrapassar. Quanto mais a ciência avança, mais
tropeçamos nos objetivos que põem em causa opções morais,
éticas e políticas. Podemos fazer a clonagem dos seres huma-
nos? Poderemos responder a esta pergunta, não por meio de
exercícios puramente mentais, mas tomando como referência Mais de cinqüenta anos depois da proclamação da Declaração
outros parâmetros. Categorias que dependem exclusivamente Universal dos Direitos do Homem pelas Nações Unidas, no dia 10
da consciência. Nestas condições, se o ser humano não eleva a de dezembro de 1948, em Genebra, o valor universal e a indivisi-
sua consciência à medida que eleva a ciência, pode desembocar bilidade dos direitos humanos são reconhecidos no discurso oficial
em atos irreparáveis. Como François Rabelais dizia: "Ciência dos Estados e das organizações internacionais. Ao lado da proteção
sem consciência é a ruína da alma." universal dos direitos humanos no seio da ONU, também vimos
É neste sentido que devemos gerir a Internet com uma nascer instrumentos regionais de defesa dos direitos humanos, pro-
consciência nova do homem do século XXI. Se não fizermos movidos por grupos homogêneos de países no seio da Organização
progressos neste sentido, ficaremos prisioneiros, escravos e da Unidade Africana (OUA). Qual é a importância da referência aos
vítimas das invenções que vão se acumulando. Quanto mais direitos humanos em países onde a dignidade humana é constante-
se descobrem coisas que podem libertar o homem, tanto mais mente achincalhada, sem dúvida por causa da pobreza reinante? O
outros grupos humanos as utilizam para submeter o homem. que devem fazer esses países, de todo modo pobres, para a proteção
É esse o drama próprio da condição humana e, especialmente, dos direitos humanos?
do-sistema ocidental: há grandes princípios, mas, enquanto a
indústria e a pesquisa armamentistas absorverem e se apode- Os direitos humanos, na África, estão consignados em vá-
rarem de metade dos investimentos disponíveis, é um sistema rios textos fundamentais, que os Estados aceitaram ratificar.
anti-humano. A partir do momento em que a razão foi instau- Esses direitos figuram na Declaração Universal dos Direitos do
rada, o ser humano deveria ser suscetível de progresso, não só Homem de 1948 e na Carta Africana dos Direitos do Homem
na.invenção e na destruição das coisas, mas também no gover- e dos Povos. Além disso, os direitos individuais, econômicos,
no do seu próprio espírito e da sua própria consciência. sociais, civis, políticos e culturais estão consignados em todas
as constituições africanas, com diferentes matizes.
Habitualmente, faz-se a distinção entre os direitos reco-
nhecidos e os garantidos. O fato de reconhecê-Ios obriga-nos a
fazer esforços para passar à sua realização. Na minha opinião, é
necessário apresentar esses direitos como tais, colocá-Ios como
objetivos a atingir. Tomemos o caso do direito à educação. É
evidente que um país como Burkina Passo, onde há 72% de