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Os Meios de Comunicação

de Massa e a
Comunicação em Geral
Jornais e televisão 456
Jornais 456
A Transmissão Televisiva 457
O impacto da televisão 459
TV e Violência 459
Os estudos sociológicos sobre as notícias da televisão 462
Géneros televisivos 464
Teorias dos media 465
As primeiras teorias 465
Jiirgen Habermas: a esfera pública 465
Baudrillard? o mundo da hiper-realidade 466
John Thompson: os media e a sociedade moderna 467
As novas tecnologias da comunicação 469
Os telemóveis: a vaga do futuro? 470
A Internet 472
As origens da Internet 473
O impacto da Internet 475
A globalização e o s meios de comunicação 477
Música 478
Cinema 479
As «grandes empresas» de media 480
O imperialismo dos meios de comunicação 482
Os media globais e a democracia 483
Resistência e alternativas aos media globais 484
A questão da regulamentação dos media 485
Conclusão 488
Sumário 488
Questões para reflexão 490
Leituras adicionais 490
Ligações à Internet 490
Capítulo 15: Os Meios de Comunicação de Massa
e a Comunicação em Gerai

Vivemos numa era marcada pela interconexão, na ampla variedade de formas, como a televisão, os jor-
qual as pessoas de todo o mundo participam numa nais, os filmes, as revistas, a rádio, a publicidade, os
única ordem de informação, o que decorre, em gran* jogos de vídeo e os C D s . Chamamos-lhes "mass"
de parte, do âmbito internacional das comunicações media porque abrangem um grande número de pes-
modernas. Devido à globalização e ao poder da Inter- soas. Por vezes são denominados como meios de
net, é possível receber a mesma música popular, notí- comunicação de massa.
cias, filmes e programas de televisão de Caracas ao Os mass media são frequentemente associados
Cairo. Os canais noticiosos que operam ao longo das apenas ao entretenimento e, como tal, são considera-
24 horas relatam histórias assim que estas ocorrem e dos como marginais para a vida da maioria das pes-
difundem a cobertura de eventos para o resto do soas. Esta visão é, no entanto, parcial: as comunica-
mundo. Filmes feitos em Hollywood ou Hong-Kong ções de massa estão presentes em muitos outros
atingem audiências e m todo o mundo, enquanto cele- aspectos das nossas actividades sociais. Os jornais e
bridades como as Spice Girls ou Tiger Woods são a televisão têm uma larga influência nas nossas expe-
famosas em qualquer continente. riências e na opinião pública, não apenas por afecta-
rem as nossas atitudes de várias formas, mas também
A o longo das últimas décadas, temos sido teste-
porque são meios de acesso aos conhecimentos de
munho de um processo de convergência na produção,
que dependem muitas das nossas actividades sociais.
distribuição e consumo de informação. Formas de
comunicar, como a impressão, a televisão e o cinema, Iniciaremos o estudo dos meios de comunicação
esferas relativamente independentes no passado, têm examinando duas das suas primeiras formas, os jor-
vindo a entrelaçar-se extraordinariamente. As divi- nais e a televisão. Abordaremos também o impacto
sões entre formas de comunicação tomaram-se mais da televisão e o papel da transmissão pública. Passa-
ténues: a televisão, a rádio, os jornais e os telefones remos em seguida para a análise de algumas das teo-
estão a passar por transformações profundas devido a rias principais neste campo e para a análise do papel
avanços na tecnologia e à rápida disseminação da dos media na protecção do espaço público. Nas par-
Internet. Embora os jornais e similares permaneçam tes finais do capítulo, iremos explorar a emergência
centrais nas nossas vidas, assiste-se a uma transfor- dos media electrónicos e das telecomunicações,
mação nas suas formas de organização e de forneci- incluindo a Internet, e discutiremos a globalização
mento de serviços. Os jornais podem ser lidos online, dos meios de comunicação de massa em décadas
o uso do telefone móvel cresce exponencialmente e a recentes,
televisão digital e os serviços de difusão por satélite
permitem uma diversidade de escolha sem preceden-
tes. N o entanto, é a Internet que está no centro da Jornais e Televisão
revolução das comunicações. C o m a expansão de tec-
nologias como o reconhecimento de voz, as trans- Jornais
missões e m banda larga, as ligações por cabo, a inter-
Os jornais, na sua forma moderna, têm a sua origem
net ameaça eliminar as diferenças entre os media tra-
nos panfletos e nas folhas de informação impressas e
dicionais, tornando-se assim o canal por excelência
difundidas desde o século X V I I I . Os jornais só se tor-
de oferta de informação, entretenimento, publicidade
naram «diários», com muitos milhares ou milhões de
e comércio para os vários públicos dos media.
leitores, a partir dos fins do século X I X . O jornal
Neste capítulo, abordaremos as transformações representou um desenvolvimento extremamente
que afectam os mass media e as comunicações como importante na história moderna dos meios de comuni*
parte da globalização. Os mass media incluem uma cação, pois continha vários tipos de informação num
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formato limitado e facilmente reproduzível- Os jornais terá passado mais tempo a ver televisão do que em
continham num único exemplar informação sobre qualquer outra actividade, com excepção do dormir.
assuntos correntes, entretenimento e publicidade. Hoje praticamente todos os lares possuem um apare-
A imprensa diária barata começou nos Estados lho de televisão. N o Reino Unido, os aparelhos de
Unidos. Os primeiros jornais diários ao preço de um T V estão ligados, em média, cerca de cinco a seis
cêntimo apareceram primeiro em Nova Iorque e horas por dia. Acontece algo semelhante nos Estados
foram mais tarde copiados pelas outras grandes cida- Unidos e nos outros países ocidentais. N o Reino
des do leste. Nos princípios do século X X existiam Unido, indivíduos a partir dos quatro anos de idade
jornais citadinos ou regionais que cobriam a maioria vêem, em média, vinte e cinco horas de televisão por
dos estados americanos (em contraste com os países semana! As pessoas idosas vêem o dobro de televisão
da Europa, mais pequenos, não se desenvolveram jor- e m relação às crianças dos quatro aos quinze, e as
nais nacionais). A invenção de papel de impressão mulheres vêem ligeiramente mais televisão do que os
barato foi um elemento chave para a difusão em homens (ver figura 15.1).
massa dos jornais, a partir dos finais do século X I X .
O número de canais de televisão, a que os britâni-
Os dois grandes exemplos de jornais de prestígio, cos têm acesso, tem crescido devido aos avanços na
na viragem do século, eram o New York Times e o The tecnologia por cabo e por satélite. E m 1998, cerca de
Times de Londres. Muitos dos jornais mais influentes 13% dos lares britânicos subscreveu a televisão por
nos outros países tomaram-nos como modelo. Os jor- satélite, enquanto 9 % subscreveu a televisão por cabo
nais mais vendidos tornaram-se uma força política e ( H M S O 2000). A televisão digital tornou-se comer-
ainda o continuam a ser no presente. cialmente disponível no Reino Unido em 1998.
Durante meio século ou mais, os jornais foram a
via principal para fazer chegar a informação, rápida e .-4 televisão pública
compreensivamente, ao público em geral. A sua N a maioria dos países, o Estado tem estado directa-
influência enfraqueceu com o aparecimento da rádio, mente envolvido na administração da televisão. N a
do cinema e - algo muito mais importante - da tele- Grã-Bretanha, a B B C , que iniciou a nível mundial os
visão. Os dados relativos à leitura de jornais demons- programas de televisão, é uma empresa pública. É
tram que a proporção de pessoas que lê um diário financiada por taxas pagas por todas as casas que
nacional na Grã-Bretanha tem vindo a decrescer possuam u m aparelho de televisão. Durante alguns
desde o início dos anos SO. Entre os homens, a pro- anos a B B C foi a única organização na Grã-Bretanha
porção caiu de 7 6 % em 1981 para 6 0 % e m 1998-9; autorizada a transmitir programas de rádio ou de tele*
os níveis de leitura são, de alguma forma, mais bai- visão, mas actualmente, paralelamente aos dois
xos entre as mulheres, porém com uma queda seme- canais da B B C , a B B C 1 e a 2, existem outros três
lhante: de 6 8 % para 5 1 % ( H M S O 2000). canais comerciais terrestres ( I T V , Canal 4 e Canal 5).
As comunicações electrónicas poderão realmente A frequência e duração da publicidade é controlada
contribuir para diminuir ainda mais a circulação dos por lei, com um máximo de seis minutos por hora.
jornais. A informação noticiosa está agora disponível Estes regulamentos aplicam-se igualmente aos canais
online quase instantaneamente e permanece em cons- que transmitem por satélite, que se difundiram
tante actualização ao longo do dia. Pode aceder-se amplamente na década de oitenta.
gratuitamente à leitura de muitos jornais online. Nos Estados Unidos, as três maiores cadeias de
T V são canais comerciais - a American Broadcasting
A Transmissão Televisiva
Company ( A B C ) , a Columbia Broadcasting System
( C B S ) e a National Broadcasting Company ( N B C ) .
A seguir à ascensão da Internet, a influência crescem As cadeias só estão autorizadas, por lei, a possuir
te da televisão é provavelmente o factor mais impor- cinco estações licenciadas que, no caso destas três
tante no desenvolvimento dos meios de comunica- organizações, se encontram nas maiores cidades.
ção, nos últimos quarenta anos. Se se mantiverem as Deste modo, as «três grandes» cobrem cerca de um
tendências actuais de ver televisão, cada criança nas- quarto da população, através das suas estações. H á
cida hoje, quando chegar à idade dos dezoito anos, cerca de 200 outras estações filiadas em cada uma
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llomtna

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4 anos ou mal® 4 «nos ou mate

Hora* «emanais per peesoa

Figura 15,1 Audiência de televisão por género e idade no Reino Unido, 1998 (horas semanais por pessoa).
Fonte* A 8 A R B ; A G 8 Ltd; R S M B Ud; Social Trends, 30 (2000). p. 211. Crown copyright.

destas cadeias, perfazendo 90 por cento das cerca de nos continuar a controlar o conteúdo deste meio,
7 0 0 estações do país. Estas cadeias dependem das como o fizeram no passado. Como vimos, os media
suas receitas em publicidade. A Associação Nacional ocidentais parecem terem desempenhado um papel
de Emissores (National Association ofBroadcasters), básico nos acontecimentos que produziram as revolu-
uma organização privada, estipula as normas que ções de 1989 na Europa de Leste (ver capítulo 14:
regulam o tempo dedicado à publicidade: 9.5 minutos « O governo, a política e o poder», p. 424).
por hora durante os períodos de maior audiência e 16
minutos nos outros. A s companhias de T V utilizam O futuro da BBC
estatísticas recolhidas regularmente (índices) sobre o A posição da B B C , tal como a de outras estações
número de pessoas que vê certos programas, para públicas na maioria dos países, encontra-se sob prés-
estabelecerem as suas tarifas de publicidade. Os índi- são e tem sido alvo de muita controvérsia. O seu futu*
ces exercem também uma forte influência sobre a ro está ameaçado pela proliferação de novas formas
continuidade ou o f i m da transmissão de um dado de tecnologias da comunicação. C o m o desenvolvi-
programa. mento da tecnologia digital, novos canais aparece*
O poder das grandes cadeias diminuiu desde o ram. Centenas de canais por satélite ou por cabo
advento da televisão por satélite e por cabo. E m mui- virão a estar à disposição do público. Os canais
(os países europeus, incluindo a Grã-Bretanha, e nas pagos, a televisão por assinatura e a " T V interactiva"
maiores cidades americanas, o telespectador que ameaçam todos em conjunto minar as audiências da
subscreve o serviço tem ao seu dispor um amplo B B C . E m 1995, a B B C tinha um pouco mais de 4 0 %
leque de canais e programas. Nestas circunstâncias, e da audiência. É vista somente por 3 3 % dos telespec-
particularmente se tivermos em conta a influência tadores com televisão por cabo e satélite, começando
dos vídeos, as pessoas estabelecem cada vez mais a muitos a questionar a obrigatoriedade do pagamento
sua própria «programação», em vez de dependerem da taxa televisiva.
da programação das estações. A privatização da B B C tem sido sugerida. Assim,
A transmissão via satélite ou por cabo está a alte- poderia obter o seu rendimento a partir da publicida-
rar a natureza da televisão em quase toda a parte. de, tal como os outros canais, e a sua taxa poderia ser
A partir do momento em que estas começaram a anulada. Contudo, até agora, tem-se rejeitado a ideia
avançar sobre os domínios dos canais ortodoxos de da sua privatização integral. Muitos acreditam ser
televisão, tornou-se ainda mais difícil para os gover- importante não privatizar a B B C . Porém, iniciou-se
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um processo de comercialização de parte da activida- sistemas de transmissão televisiva e a propriedade de


de internacional da B B C destinado a angariar fundos aparelhos de televisão têm tradicionalmente sido
para o financiamento do seu serviço público nacio- limitados, como na Europa de Leste, na antiga União
nal. A B B C é um dos mais conhecidos e respeitados Soviética e em zonas da Ásia e África, têm assistido
"nomes de marca"; em anos recentes tem-se procura- a uma grande expansão nas suas capacidades de
do capitalizar este bem com o estabelecimento de transmissão televisiva. O número crescente de canais
"parcerias", com o objectivo de criar novos canais de de T V e a crescente popularidade da televisão tem
televisão para mercados globais (Herman e McChes- propulsionado a procura de mais programação. M u i -
ney, 1997). Como têm notado alguns comentadores, tas vezes, as condições existentes para a produção
os efeitos da desregulamentação no contexto em que nacional não bastam para satisfazer a procura cres-
opera e as pressões financeiras transformaram a B B C cente, sendo necessário importar programas de tele-
num sistema comercial que preserva parte do seu ele- visão. Assim, mercados anteriormente fechados
mento original de serviço público. foram invadidos por empresas de comunicação social
O futuro da B B C não é claro. Por um lado, o siste- estrangeiras, devido ao facto de os governos terem
ma de taxa televisiva não pode resistir se as audiências vindo a liberalizar as normas sobre a transmissão
da B B C caírem bastante, porque haverá resistência televisiva (ver caixa). Este aspecto, associado aos
popular a aumentos. Nos próximos anos, as receitas avanços nas tecnologias por satélite e por cabo, veio
provenientes da taxa televisiva revelar-se-ão insufi- facilitar muito a transmissão televisiva para além das
cientes para suportar as despesas crescentes com a pro- fronteiras do estado-nação.
dução e a aquisição de direitos de programas de quali-
dade elevada. As receitas da publicidade serão cada
vez mais importantes no financiamento de programas O impacto da televisão
(Currie e Siner 1999). Por outro lado, o valor do servi-
T ê m sido feitas muitas pesquisas para tentar avaliar os
ço público da B B C não deveria ser subestimado.
efeitos dos programas de televisão. A maioria tem-se
\
preocupado principalmente com as crianças - o que se
A medida que o sector da televisão é desregulamenta-
compreende, dado o grande número que vê T V e as
do, torna-se cada vez mais importante o papel da B B C ,
possíveis implicações para a sua socialização. Os dois
em especial na manutenção da qualidade da programa-
tópicos de pesquisa mais comuns são o do impacto da
ção, e - agora que as pessoas acima dos setenta cinco
televisão na propensão para o crime e para a violência
anos estão isentas de taxa - por atingir segmentos da
e o da natureza das noticias televisivas.
população socialmente excluídos. Como comentou o
Director de Política e Planeamento para a B B C :
T V e violência
« E x i s t e m reais receios de que mais significa p i o r , de q u e
a co m p et i ç ão irá f r a g m e n t a r as audiências e o investi- A incidência da violência nos programas de televisão
m e n t o através de m ú l t i p l o s escapes, l e v a n d o a valores está bem documentada. Os estudos mais extensivos
de tablóide e a u m a nação d i v i d i d a entre os q u e a b r a ç a m foram efectuados por Gerbner e os seus colaborado-
os novos serviços e os que nâo t ê m capacidade finan- res, que analisaram amostras das horas de maior
ceira o u q u e não desejam f a z ê - l o . À política p ú b l i c a audiência e dos programas dos fins-de-semana das
coloca-se e n t ã o o desafio de fornecer o m e l h o r dos dois principais cadeias americanas desde 1 9 6 7 . 0 número
m u n d o s , continuar a crescer e m a n t e r a q u a l i d a d e ( C a r - e a frequência de actos e episódios violentos foram
r i e e Siner 1 9 9 9 ) . analisados em vários tipos de programas. A violência
é definida, na pesquisa, como a ameaça de força físi-
ca, ou o seu uso, contra o próprio indivíduo ou outros,
A televisão global em que estão envolvidos danos físicos ou a própria
Nos últimos vinte anos, tiveram lugar mudanças morte. Os dramas televisivos tinham um carácter
importantes nos campos da tecnologia e da política altamente violento: em média, 80 por cento desses
que conduziram a uma maior globalização da progra- programas continham cenas de violência, com uma
mação televisiva. Muitas zonas do mundo, onde os taxa de 7.5 episódios violentos por hora. Os progra-
ÍT
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A televisão e a globalização: o c a s o da índia

Os efeitos da globalização dos media podem ser nais de comunicação como um mercado vibrante,
vistos de modo claro no caso da índia, onde tem porque o enorme tamanho da população e a diver-
havido um crescimento exponencial das emissões sidade de culturas e línguas significa uma procura
de T V na última década. Em 1991, existia um canal alargada de muitos tipos de programas e canais.
de T V propriedade do estado indiano, mas e m 1996 Como estado pós-colonial, com elevadas taxas de
existiam quase setenta canais, incluindo a maior iiiteracia e um sentido frágil de identidade, a índia
rede de televisão asiática, a Z e e TV. era dominada pelo transmissor nacional de T V
Em anos recentes a paisagem dos media tem Doordarshan. O governo indiano confiou na Door-
darshan como meio para construir a unidade nacio-
mudado profundamente na Índia. A enorme classe
nal, promover um certo "desenvolvimento" de objec-
média (250 milhões de pessoas) que fala inglês
tivos entre a população e educar a cidadania india-
torna este país um dos mercados de media que
mais cresce no mundo (Thussu 1999). Actualmente, na. Embora os media impressos (jornais e outros)
a índia é vista por muitas companhias internacio- tenham sido sempre livres na índia, a Doordarshan
OS M E I O S DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 461

loi rigidamente controlada e censurada. Um dos (uma mistura de Hindi e Inglês, preferida pela popu-
pontos de viragem significativos nas transmissões lação urbana jovem). A programação da Z e e TV
televisivas na índia teve lugar sob a liderança de demonstrou o sucesso da refundlção de produtos
Indira Gandhi (1967-78 e 1960*4), que acreditava globais com temas locais. Os talk~show$ e concur-
. na televisão como meio fundamental para a promo- sos de T V não eram géneros familiares aos índia-
ção de ideias de construção da nação entre a popu- nos, mas a Z e e T V adaptou com sucesso os forma-
. lação. Gandhi dirigiu a expansão de transmissores tos de espectáculos ocidentais para uma audiência
de televisão, tendo introduzido a televisão a cores indiana (Thussu 1999).
no país. À medida que as forças globais se tornaram
Em 1991, o governo indiano liberalizou o sector cada vez mais fortes na radiotelevisão indiana, a
da comunicação, abrindo a porta a empresas Doordarshan foi forçada a responder à competição
estrangeiras para transmitirem programação no mediante o alargamento das suas ofertas. Numa
: âmbito de um sistema anteriormente fechado. As mudança observada em muitos países do mundo, a
transmissões por satélite - como as da Star T V de missão de serviço público da Doordarshan foi gra-
Hong Kong e a C N N americana - tornaram-se extre- dualmente substituída por políticas orientadas para
mamente populares entre a elite urbana educada, o lucro e o mercado. Além de fornecer conteúdos
Instigando um crescimento rápido nas ligações por educacionais, a Doordarshan começou a incluir pro-
cabo e por satélite. No início dos anos 90, tal visio- gramas de entretenimento para procurar reforçar os
namento era limitado a uma pequena e influente seus indices de audiência. Este movimento em
minoria, alvo de interesse para os anunciantes, para direcção à privatização dos media na índia - a
quem a transmissão televisiva na índia era uma maior democracia do mundo - tem sido criticado
excelente forma de promover os seus produtos. por muitos observadores, que argumentam que a
T V indiana se está a tornar "corporatízada* e domi-
Em 1998, todos os principais canais de T V por
nada pelos gigantes dos media ocidentais. Esta
cabo - incluindo a BBC, a CNN, o Discovery, a Star,
linha de argumentação defende que, quando o jor-
a M T V e a C N B C - transmitiam e m paralelo com
nalismo, a produção de notícias e os conteúdos
companhias indianas. Apesar de estas transmitirem
televisivos são orientados por preocupações de
muitos conteúdos estrangeiros, "localizaram" muitas
mercado, a qualidade do conteúdo decai, tornando-
vezes os programas adicionando legendas em
•se a programação dominada pelas necessidades e
Hindi, ou através da emissão de programas que
opiniões dos anunciantes (Thussu 1999).
cobriam tópicos de interesse específico para a
índia. Outros argumentam que a globalização dos
A Z e e TV era o maior e o mais bem sucedido dos media na índia tem sido importante por quebrar o
canais indianos de T V que surgiu e m concorrência controlo do Estado sobre as transmissões de T V e
com o Doordarshan. Lançado em 1992, o primeiro por contribuir para a expansão da esfera pública.
canal privado indiano de T V em Hindi tinha eclipsa- A ZeeTV, por exemplo, dedica multo mais atenção
do o Doordarshan com 3 7 % da audiência em 1996, às opiniões de políticos da oposição que a Door-
enquanto o último retinha 2 8 % (Herman e McChes* darshan, forçando-a a liberalizar a sua cobertura
ney 1997). A popularidade da Zee T V parece estar política (Herman e McChesney 1997). A emergên-
relacionada com uma combinação de factores, cia de novos operadores comerciais tem, a este res-
incluindo programas inovadores, inéditos para as peito, alargado e revitalizado a esfera pública na
audiências indianas, e o uso extensivo de "Hinglish" índia.
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mas infantis exibiam níveis de violência ainda mais estabelecendo paralelos com aspectos da sua vida
altos, embora as mortes fossem menos comuns. Os quotidiana. As crianças reconhecem, por exemplo,
desenhos animados continham um número mais ele- que a violência na televisão não é "real". Na opinião
vado de actos e episódios violentos do que qualquer de Hodge e Tripp, não é tanto a presença da violência
outro tipo de programa (Gerbner et ai, 1979, 1980; nos programas de televisão que afecta o comporta-
Gunter, 1985). mento, mas sim o quadro geral de atitudes no qual ela
Se for uma realidade, de que forma a violência é apresentadae «lida».
televisiva pode influenciar as audiências? F. S. Ander-
son reuniu as conclusões de sessenta e sete estudos,
O s es t u d o s sociológicos s o b r e as n o t í c i a s
levados a cabo entre 1956 e 1976, que investigavam
da televisão
a influência da violência televisiva sobre as tendên-
cias agressivas das crianças. Cerca de 3 quartos dos A informação em televisão tem sido alvo de uma
estudos reivindicavam ter encontrado alguma forma grande atenção por parte de estudos sociológicos.
de tal associação. E m 20 por cento dos casos não foi Considerando que grande parte da população não lê
possível obter resultados definitivos, embora em 3 jornais, os noticiários televisivos tornam-se assim
por cento dos estudos os investigadores tenham che- uma fonte de informação crucial sobre os aconteci-
gado à conclusão de que a violência na televisão mentos mundiais. O Grupo dos Meios de Comunica-
diminuía as tendências agressivas (F. S. Anderson, ção Social de Glasgow ( Glasgow Media Group), da
1977; LitbtnetaL, 1982). Universidade de Glasgow, levou a cabo alguns dos
Os estudos que Anderson analisou, porém, dife- mais conhecidos e polémicos estudos sobre a infor-
rem largamente nos métodos usados, na força da mação televisiva. Este grupo de pesquisa publicou
associação supostamente revelada e na definição do uma série de obras que criticam a apresentação da
termo «comportamento agressivo». Nos dramas de informação; Más Notícias (Bad News), Mais Más
características violentas (e em muitos desenhos ani- Notícias ( M o r e Bad News), Notícias Realmente Más
mados para crianças), estão presentes temas subja- (Really Bad News) e Notícias da Guerra e da Paz
centes de justiça e castigo. U m número maior de mar- (War and Peace News). As estratégias de pesquisa
ginais do que nas investigações policiais na vida real implementadas foram semelhantes nestes estudos,
são incriminados neste tipo de filme; nos desenhos embora os objectos de interesse divergissem.
animados, personagens perigosas e ameaçadoras A primeira e mais influente publicação, Más Notí-
recebem o que merecem. Não há uma relação neces- cias ( 1 9 7 6 ) , baseou-se numa análise das notícias emi-
sária entre o visionamento de cenas de violência e a tidas pelos três canais (o Channel 4 ainda não existia
sua imitação por parte dos telespectadores. Estes tal- na altura) do Reino Unido entre Janeiro e Junho de
vez sejam mais influenciados pelos temas morais 1975. O objectivo era proporcionar uma análise sis-
subjacentes. E m geral, os estudos sobre os efeitos da temática e imparcial do conteúdo das notícias e da
televisão nas audiências têm tendência a tratar os forma como eram apresentadas. Más Notícias con-
telespectadores - adultos e crianças - como tendo centrasse na descrição dos conflitos industriais. As
reacções passivas e não discriminatórias em relação mais recentes publicações concentram-se mais na
ao que vêem. cobertura política e na Guerra das Malvinas.

Segundo Robert Hodge e David Tripp, as atitudes As notícias sobre relações industriais eram tipica-
das crianças em frente à televisão não se limitam ape- mente apresentadas de forma selectiva e unilateral de
nas ao mero registo dos conteúdos dos programas, acordo com a conclusão do estudo Más Notícias. Ter-
mas envolvem interpretação e leitura daquilo que mos como «distúrbio», «radical» e «greves sem sen-
observam (Hodge e Tripp, 1986). Estes estudiosos tido» sugerem opiniões anti-sindicais. Era muito
sugerem que grande parte da pesquisa não tem tido mais provável mostrar imagens das consequências
em conta a complexidade dos processos mentais das provocadas pelas greves, o que impressionava o
crianças. Ver televisão, por muito insignificante que público, do que falar das suas causas. As imagens
seja o programa, não é em si uma actividade de baixo visionadas faziam aparecer frequentemente as activi-
nível intelectual; as crianças «lêem» o que observam, dades dos manifestantes como irracionais e agressi-
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO E MGERAL480

vas. Assim, por exemplo, as reportagens sobre gre-


pequeno grupo. Por fim, de acordo com a análise rea-
vistas a impedir a entrada de trabalhadores na fábrica
lizada por Harrison, algumas das afirmações do
privilegiariam os confrontos, mesmo sendo estes
Grupo de Glasgow eram falsas. Contrariamente ao
pouco frequentes.
afirmado, as notícias nomeavam de facto os sindica-
Más Noticias também designava os que constroem tos envolvidos e pronunciavam-se sobre o carácter
as notícias como "guarda-portões" do que poderia oficial ou não oficial das greves.
aparecer, ou, por outras palavras, daquilo que o públi-
Em resposta a estas críticas, os membros do Grupo
co poderia ter notícia. Assim, os confrontos entre tra-
fizeram notar que a pesquisa de Harrison tinha sido
balhadores e direcção seriam largamente noticiados,
em parte apoiada pela I T N , comprometendo a sua
enquanto outras contestações industriais prolongadas
imparcialidade académica. As reproduções visiona-
e mais consequentes seriam ignoradas. A visão dos
das por Harrison não estavam completas e algumas
jornalistas, segundo o Grupo de Glasgow, espelha a
passagens nem sequer tinham sido transmitidas pela
perspectiva dos grupos dominantes da sociedade, que
ITN.
consideram os grevistas como perigosos e irrespon-
Desde então, membros do Grupo de Glasgow têm
sáveis.
levado a cabo um conjunto de pesquisas. N o artigo
Reacções críticas Seeing is Believing (Ver é Crer), um dos seus mem-
bros. Greg Philo, apresentou um estudo sobre as
O estudo do Grupo de Glasgow foi bastante discuti- memórias que as pessoas têm dos acontecimentos
do no círculo dos meios de comunicação e na comu- passados. Questionou especificamente sobre as
nidade académica. Alguns produtores de noticiários recordações da greve dos mineiros de 1984-5, uma
acusaram os estudiosos de mostrar simplesmente o extensa e prolongada confrontação entre o sindicato
seu ponto de vista, que, na sua opinião, se alinhava dos mineiros, liderado por Arthur Scaigili, e o gover-
com o dos grevistas. Eles fizeram notar que enquan- no conservador de Margaret Thatcher (Philo, 1991).
to Más Notícias tinha um capítulo sobre «Os sindica-
Philo mostrou fotografias da greve a grupos dife-
tos e os meios de comunicação», faltava um outro
rentes de pessoas e pediu-lhes para escreverem notí-
sobre «As administrações e os meios de comunica-
cias, colocando-as no papel de jornalistas. Também
ção». Este aspecto deveria ter sido considerado, uma
as questionou sobre as recordações que tinham da
vez que, segundo os críticos, os jornalistas são fre-
greve; se a recordavam como pacífica, ou não, por
quentemente acusados pelas administrações de terem
exemplo. Chegou à conclusão de que as histórias
preconceitos contra elas, e náo contra os grevistas.
redigidas pelas pessoas lembravam em muito as notí-
Os críticos académicos apresentaram argumentos cias televisivas da época, tendo sido reproduzidas
similares. Martin Harrison (1985) teve acesso a frases inteiras.
reproduções de noticiários transmitidos pela I T N
Mais de metade das pessoas questionadas pensava
(Independem Television News) durante o período do
que os piquetes dos grevistas tinham actuado de
estudo. A sua argumentação, baseada neste material,
forma violenta (na verdade tinha ocorrido pouca vio-
demonstrou que os cinco meses analisados não cor-
lência). Philo chegou à conclusão de que «pode ser
respondiam a uma situação típica. Tinha havido um
muito difícil criticar o relato de um meio de comuni-
número anormal de dias perdidos devido à greve
cação dominante, se há pouco acesso a fontes de
durante o período de estudo. Teria sido impossível
informação alternativas. Nestas circunstancias, não
utilizar todo este material e por esta razão o peso
se deve subestimar o poder dos meios de comunica-
dado aos episódios mais vivos era compreensível.
ção» ( 1 9 9 1 , p . 177).
D o ponto de vista de Harrison, o Grupo de Glas-
Em Getting The Message (Mensagem Recebida),
gow cometia um erro quando afirmava que as notí-
o Grupo de Glasgow reuniu estudos recentes sobre a
cias se concentravam demasiado nos efeitos das gre-
transmissão de notícias. O seu editor, John Eldridge,
ves. Afinal, há um número muito maior de pessoas
fez notar a actualidade da polémica levantada pelo
habitualmente afectado pelas greves do que as que
trabalho anterior (1993). Dizer em que consistirá a
participam nelas. Por vezes, a vida de milhões de pes-
objectividade na redacção de notícias será sempre
soas pode ser perturbada apenas pelas acções de um
difícil. Contra aqueles que afirmam que a objectivi-
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM G E R A L 464

dade nâo faz sentido (ver "Baudríllard: o mundo da diferentes. Ingredientes como o «suspense» e o mis-
hiper-real idade"), Eldridge afirma ser importante tério fazem parte das séries policiais e nâo habitual-
olhar de forma crítica para os produtos mediáticos. mente das telenovelas.
A exactidão das notícias pode e deve ser estudada. N o Os produtores conhecem as expectativas das
fim de contas, espera-se que os resultados de um jogo audiências e operam de acordo com estes limites, o
de futebol sejam emitidos com precisão. U m exemplo que permite alguma rotina no seu trabalho. Podem
tão singelo como este, segundo Eldridge, pode servir ser constituídas equipas de actores, realizadores e
para nos recordar que questões relativas à verdade escritores, especialistas em determinado género.
estão sempre presentes no relato das notícias. Adereços, cenários e guarda-roupa podem ser utiliza-
Afirma, porém, que a notícia nunca é apenas uma dos vezes sem conta. A lealdade das audiências pode
«descrição» do que de facto aconteceu num determi- ser obtida através de uma habituação a um programa
nado momento. A sua construção complexa influen- regular determinado.
cia regularmente o seu conteúdo. Quando um políti-
co convidado emite uma opinião sobre uma questão As telenovelas
controversa, por exemplo, sobre o estado da econo- A telenovela foi inventada pela rádio e pela televisão,
mia e o que se deveria fazer - este comentário torna- sendo presentemente considerada o tipo de programa
se «notícia» em programas posteriores. mais popular da T V . Quase todas as telenovelas -
EastEnderSy Coronation Street ^ Brookside e outras -
são dos programas televisivos mais vistos na Grã-
G é n e r o s televisivos
-Bretanha semanalmente. As telenovelas enquadram-
Hoje e m dia a televisão não pára. A publicidade inter- -se em diferentes tipos ou subgéneros, pelo menos as
vala programas, mas não há interrupções. As cadeias que são transmitidas pela televisão britânica. As tele-
de televisão sentem-se na obrigação de pedir descul- novelas produzidas no Reino Unido, como Corona-
pa quando há interrupção do programa. Produtores e tion Street, caracterizam-se pelo seu lado autêntico e
espectadores consideram a televisão um produto con- terra a terra, e interessam-se pelas vidas dos mais
tínuo: na verdade muitos canais mantêm-se continua- desfavorecidos. Depois há as importações america-
mente no ar. nas, como Dallas e Dynasty nos anos 80, que retra-
tam indivíduos com vidas mais deslumbrantes. À ter-
A televisão é um fio contínuo, mas a sua progra-
ceira categoria pertencem as importações australia-
mação é uma confusão. U m horário para um único
nas, como Neighbours. Estas produções, de menor
serão, por exemplo, poderá conter uma listagem de
custo, retratam os ambientes e modos de vida da clas-
programas muito diferentes, um a seguir a outro.
se média.
A ideia de género é útil para a compreensão da natu-
reza aparentemente caótica da programação televisi- As telenovelas têm um carácter contínuo tal como
va (Abercrombie, 1996). Produtores e espectadores a televisão. Histórias pontuais podem terminar e
utilizam este termo para melhor definir o que é visto. algumas personagens aparecem e desaparecem, mas
Os programas são categorizados e m noticiários, tele- a telenovela e m si só acaba quando é retirada do ar.
novelas, concursos, programas musicais e filmes de A tensão provém de situações-chave que são brutal-
acção e «suspense» (Thrillers). Cada género tem mente interrompidas. Assim, o telespectador terá de
regras próprias que o distinguem dos outros. aguardar pelo episódio seguinte.
O conteúdo de um programa determina em parte o As telenovelas exigem uma atenção diária por
seu género. Assim, as telenovelas têm por cenário um parte do telespectador, não fazendo qualquer sentido
ambiente doméstico, os «Westerns» desenrolam-se ver apenas um único episódio. Desenvolvem uma
na América histórica do século dezanove. Também se história que o telespectador conhece; as personagens,
caracterizam pelas suas personagens e situações. As suas personalidades e modos de vida são-lhe familia-
personagens definidas como principais nas telenove- res. Os meandros da história tomam-se pessoais e
las, famílias no seu lar, por exemplo, serão tidas emocionais - as telenovelas na sua maioria não se
como secundárias em filmes de acção e «suspense». interessam por contextos sociais ou económicos mais
Os géneros suscitam igualmente expectativas muito amplos, que só constituem a sua moldura exterior.
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 465

Os sociólogos têm opiniões distintas no que se modernas. Segundo McLuhan, «o meio é a mensa-
refere à popularidade das telenovelas - um fenómeno gem». Isto é, a natureza dos meios de comunicação
corrente em todo o mundo, não apenas na Grã-Breta- social, que se podem encontrar numa determinada
nha e na América, mas também em África, na Ásia e sociedade, influencia muito mais a estrutura dessa
na América Latina. Alguns pensam que elas propor- sociedade do que o conteúdo ou a mensagem, em si,
cionam um escape, especialmente para as mulheres veiculados pelos media. A televisão, por exemplo, é
(as telenovelas são mais vistas pelas mulheres do que um meio de comunicação muito diferente de um livro
pelos homens) que consideram a sua vida aborrecida impresso. É electrónico, visual e composto por ima-
e opressiva. Tal opinião não é de todo convincente, gens sucessivas. U m a sociedade em que a televisão
tendo e m conta que muitas personagens das teleno- tem um papel preponderante vive um dia-a-dia dife-
velas levam uma existência tão problemática quanto rente de uma sociedade que apenas dispõe do impres-
a dos telespectadores. A ideia de que elas retratam so. Assim, os noticiários televisivos transmitem uma
aspectos universais da vida pessoal e emocional seria informação global, de uma forma instantânea, a
mais plausível. Exploram dilemas que muitos enfren- milhões de pessoas. Os meios de comunicação social
tam e talvez até possam ajudar alguns telespectadores electrónicos, pensava McLuhan, estão a criar uma
a pensar nas suas vidas de maneira mais criativa. aldeia global - as pessoas, por todo o mundo, assis-
tem à divulgação das principais notícias e assim par-
De que fornia se poderiam considerar as enormes
ticipam, simultaneamente, dos mesmos acontecimen-
implicações dos meios de comunicação? Esta é uma
tos. Por exemplo, milhões de pessoas, em países dife-
das preocupações dos que têm desenvolvido interpre-
rentes, seguiram o desenrolar da intriga sobre o Pre-
tações teóricas sobre o seu papel no desenvolvimen-
sidente Americano Bill Clinton e a antiga estagiária
to e na organização social. É sobre estas interpreta-
da Casa Branca Mónica Lewinsky. Após um ano
ções que nos debruçaremos de seguida.
cheio de revelações, acusações e de impiedosa cober-
tura dos media, o escândalo finalmente acalmou
Teorias dos media devido ao fracasso do pedido de impugnação do man-
dato de Clinton. Por todo o mundo, os telespectado-
A s p r i m e i r a+s t e o r i a s res tinham participado do mais dramático e poderoso
episódio político e mediático da modernidade tardia.
A C o m u n i c a r ã o - a transferência de informação de
um indivíduo ou grupo de indivíduos para outro, quer
pela fala quer através dos mass media actuais - é cru-
J ú r g e n H u h e r m a s : a esfera pública
cial em qualquer sociedade. Dois dos primeiros e
influentes teóricos da comunicação social foram os O filósofo e sociólogo alemão Jurgen Habermas está
autores canadianos Harold Innis e Marshall M c L u - ligado à «Escola de Frankfurt» de pensamento social.
han. Innis ( 1 9 5 0 , 5 1 ) sustentava que diferentes meios A Escola de Frankfurt era constituída por um grupo de
de comunicação social influenciam, fortemente, for- autores que se inspiravam em M a r x , mas que, no
mas contrastantes de organização da sociedade. entanto, acreditavam que os pontos de vista de Marx
O autor indica como exemplo as pedras com hieró- precisavam de ser radicalmente revistos para serem
glifos - escrita gravada - que foram encontradas em aplicados na actualidade. Entre outras coisas, acredita-
algumas civilizações antigas. D e facto, as inscrições vam que M a r x não tinha dado atenção suficiente à
feitas na pedra permanecem por muito tempo, mas influência da cultura na sociedade capitalista moderna.
não são fáceis de transportar. São, por isso, um meio
A Escola de Frankfurt fez um estudo extensivo do
muito pobre para estabelecer o contacto com lugares
que designavam como «indústria da cultura», que
distantes. Assim, as sociedades que dependem desta
para eles abrangia as indústrias de entretenimento dos
forma de comunicação não podem desenvolver-se
filmes, a televisão, a música popular, a rádio, os jor-
muito.
nais e as revistas. Sustentavam que a proliferação da
McLuhan (1964) desenvolveu algumas das ideias indústria da cultura, com os seus produtos estandar-
de Innis e aplicou-as, em especial, aos meios de dizados e pouco exigentes, minava a capacidade dos
comunicação social das sociedades industrializadas indivíduos no que diz respeito ao pensamento inde-
466 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

pendente e crítico. A Arte desaparece, dominada pela de lnnis e McLuhan, é um dos mais influentes teóri-
comercialização - «Os Maiores Sucessos de Mozart» cos actuais dos meios de comunicação social. Bau-
( M o z a r f s Greatest Hits). drillard considera que o impacto dos modernos meios
Habermas pegou em alguns destes temas, mas de comunicação de massa é muito diferente e, muito
desenvolveu-os de um modo diferente. Ele analisa o mais profundo, do que o de qualquer outra tecnolo-
desenvolvimento dos meios de comunicação social gia. O advento dos mass media, e m particular dos
desde o princípio do século dezoito até ao presente, meios electrónicos como a televisão, transformou a
traçando o percurso do que denomina como «esfera própria natureza das nossas vidas. A televisão não
pública» desde o seu aparecimento até ao seu declí- nos «representa» só o mundo, mas, de uma forma
nio subsequente (Habermas, 1989). A esfera pública gradual, define o que é, realmente, o mundo em que
é um espaço de debate público onde se podem discu- vivemos.
tir questões de interesse geral e uma área na qual se Como exemplo, consideremos o julgamento de
podem formar opiniões. O . J. Simpson, um caso judicial muito falado que se
A esfera pública, segundo Habermas, desenvol- desenrolou entre 1994-95 em Los Angeles. Simpson
veu-se, primeiro, nos salões e cafés de Londres, Paris j á se havia consagrado como estrela do futebol ame-
e outras cidades europeias. As pessoas costumavam ricano, mas, mais tarde, tornou-se conhecido mun-
encontrar-se nesses salões para discutir questões do dialmente por ter aparecido em vários filmes popula-
momento, usando, como meio para esse debate, res, incluindo a série «Naked G « « » ( A A r m a Nua).
folhas de notícias e os jornais que estavam a começar Foi acusado de ter assassinado a mulher, Nicole, e,
a surgir. O debate político tornou-se um assunto de depois de um julgamento muito prolongado, foi ili-
particular importância. Embora, apenas, uma peque- bado. O julgamento foi transmitido peia televisão e
na parte da população estivesse envolvida, Habermas visto em muitos países, incluindo a Grã-Bretanha. N a
afirma que os salões foram vitais para o início do América o julgamento era transmitido regularmente
desenvolvimento da democracia. Foram eles que em seis canais de televisão.
introduziram a ideia de ser possível a resolução de O julgamento não decorreu, apenas, na própria
problemas políticos através da discussão pública. sala do tribunal. Tratou-se de um acontecimento que
A esfera pública - pelo menos em princípio - envol- uniu milhões de telespectadores e comentadores dos
ve indivíduos que se encontram de igual para igual meios de comunicação social. Este julgamento é ilus-
num fórum de debate público. trativo daquilo a que Baudrillard chama hiper-reali-
Contudo, Habermas conclui que o que se esperava dade. Já náo existe uma «realidade» (os aconteci-
deste desenvolvimento inicial da esfera pública não se mentos dentro da sala do tribunal) que a televisão nos
realizou totalmente. O debate democrático é abafado, permite ver. A «realidade» é, de facto, uma profusão
nas sociedades modernas, pelo desenvolvimento da de imagens nos ecrãs de televisão do mundo inteiro,
indústria da cultura. O desenvolvimento dos meios de que definiu o julgamento como um acontecimento
comunicação social de massas e o entretenimento de global.
massas leva a que a esfera pública se tome, em grande Mesmo à beira do início das hostilidades no Golfo
parte, um logro. A política é encenada no parlamento e em 1991, Baudrillard escreveu um artigo de jornal
nos meios de comunicação social, ao mesmo tempo intitulado « A Guerra do Golfo não pode acontecer».
que os interesses comerciais triunfam sobre os interes- Quando a guerra foi declarada e se travou o sangren-
ses do público. « A Opinião Pública» não se forma atra- to conflito, podia parecer que, obviamente, Baudril-
vés de uma discussão aberta e racional, mas sim atra- lard se tinha enganado. Nada disso. N o f i m da guer-
vés da manipulação e do controlo - como, por exem- ra, Baudrillard escreveu um segundo artigo: « A
plo, sucede na publicidade. Guerra do Golfo não aconteceu». O que é que ele
queria dizer com isso? Ele pretendia demostrar que
essa guerra não era como outras guerras que aconte-
Baudritlard: o mundo da hiper-realidade ceram na história. Que se tratava de uma guerra da
O autor francês pós-modemista Jean Baudrillard, era da informação, um espectáculo televisivo, que
cujo trabalho foi fortemente influenciado pelas ideias permitia a George Bush e Saddam Hussein, exacta-
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 467

mente como a quaisquer outros espectadores por todo mensagens dos meios de comunicação social. Citan-
o mundo, assistirem à cobertura da C N N para sabe- do as palavras de Thompson:
rem o que, realmente, estava a «acontecer».
Baudríllard sustenta que, numa era em que os As mensagens dos media são vulgarmente discutidas
meios de comunicação social estão em todo o lado, por indivíduos no acto da recepção e posteriormente ...
criou-se, na verdade, uma nova realidade - a hiper- Essas mensagens são transformadas através de um pro-
•realidade composta pela mistura do comporta- cesso subsequente de contar e recontar, de interpretar e
mento das pessoas com as imagens dos media. reinterpretar, pelo comentário, pela anedota e pela críti-
O mundo da hiper-realidade é construído por simula* ca ... Ao apoderarmo-nos dessas mensagens e ao incor-
eros - imagens que só ganham o seu significado a porá-las de uma forma rotineira nas nossas vidas, esta-
partir de outras imagens e que, assim, não se funda- mos constantemente a moldar e a dar novos contornos
mentam, de fornia alguma, numa «realidade exter- às nossas capacidades e aos nossos conhecimentos, a
na». U m a campanha publicitária dos cigarros Silk testar os nossos sentimentos e preferências e a expandir
Cut, por exemplo, nunca se refere aos cigarros, mas a os horizontes da nossa experiência (Thompson, 1995,
anúncios antigos que apareceram numa longa série. pp. 42-43).
Nenhum líder político da actualidade poderá ganhar
uma eleição se não aparecer constantemente na tele-
A teoria de Thompson sobre os meios de comuni-
visão: a imagem televisiva do líder é a «pessoa» que
cação depende da distinção entre três tipos de inte-
a maioria dos espectadores conhecem.
racção (ver Quadro). A interacção face-a-face, como
ocorre com a situação de pessoas a conversarem
numa festa, é rica e m pistas de que os indivíduos se
J o h n T h o m p s o n : o.s m e d i a
servem para darem sentido ao que os outros dizem
e a sociedade m o d e r n a
(ver capítulo 4 , «Interacção Social e Vida Quotidia-
Inspirando-se em parte nos escritos de Habermas, John na»). A interacção mediada envolve a utilização de
Thompson analisou a relação entre os meios de comu- um meio de comunicação social tecnológico - papel,
nicação social e o desenvolvimento das sociedades conexões eléctricas, impulsos electrónicos. U m a
industriais (Thompson, 1990,1995). Desde os primei- característica da interacção mediada reside no facto
ros tempos da impressão até a comunicação electróni- de se estender tanto no tempo como no espaço -
ca, afirma Thompson, os meios de comunicação social ultrapassa, em larga medida, os contextos da interac-
desempenharam um papel central no desenvolvimento ção face-a-face comum. A interacção mediada pro-
das instituições modernas. N a opinião de Thompson, cessa-se, de uma forma directa, entre os indivíduos -
os mais importantes fundadores da sociologia, incluin- por exemplo, duas pessoas a falarem ao telefone -
do M a r x , Weber e Durkheim, prestaram pouca atenção mas não existe a mesma variedade de pistas como
ao papel dos meios de comunicação social como agen- quando as pessoas estão frente a frente.
tes capazes de moldar inclusive o início do desenvol- U m terceiro tipo de interacção é a quaseinterac-
vimento da sociedade moderna. ção mediada. Esta refere-se ao tipo de relações
Embora simpatizando com algumas das ideias de sociais criadas pelos meios de comunicação social de
Habermas, Thompson também o critica, tal como é massas. U ma tal interacção estende-se através do
crítico, igualmente, em relação à Escola de Frankfurt tempo e do espaço, mas não liga os indivíduos de
e a Baudríllard. A atitude da Escola de Frankfurt era uma forma directa: daí o termo «quase-interacção».
demasiado negativa em relação à industria da cultu* Os dois primeiros tipos são «dialógicos»: os indiví«
ra. Os modernos meios de comunicação social de duos comunicam de uma forma directa. A quase-inte-
massas, diz Thompson, não impedem o nosso j uí z o racção mediada é «monológica»: um programa de
crítico; de facto, eles fomecem-nos muitas formas de televisão, por exemplo, é uma forma de comunicação
informação a que não tínhamos acesso no passado. E , num só sentido. As pessoas que assistem ao progra-
segundo Thompson, o que Habermas tem em comum ma podem discuti-lo e talvez até fazerem os seus
com a Escola de Frankfurt é tratar-nos excessiva- comentários, dirigindo-se ao aparelho de televisão -
mente como se fôssemos os recipientes passivos das mas, claro, este não lhes responde.
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM G E R A L 468

A GWKSA P O I S , 6 AS O U T R A S
PESSOAS v A o
5MITH-86RNEY
APANHA-LO
FAZ D I N H E I R O
A O S A ftSUSTOS
C O M O SE FAZIA
âktTT£41àPklTP QUE T§M NO
QUINTAL

Um ouvinte activo ganha ao seu interlocutor.

O ponto de vista de Thompson não é o de que o francês, Destutt de Tracy, no final do século X V I I I .
terceiro tipo vem para dominar os outros dois - que Nessa altura ele utilizou-a com o sentido de «ciência
era essencialmente o ponto de vista de Baudrillard. das ideias».
Pelo contrário, os três tipos coexistem, actualmente, Contudo, mais tarde, outros autores que se lhe
nas nossas vidas. Os meios de comunicação social de seguiram utilizaram o termo com um sentido muito
massas, como sugere Thompson, alteram o equilíbrio mais crítico. M a r x , por exemplo, considerava a ideo-
entre o público e o privado nas nossas vidas. Ao con- logia como uma «falsa consciência». Grupos podero-
trário do que diz Habermas, muito mais informação sos são capazes de controlar as ideias dominantes que
vem hoje até ao domínio público em comparação circulam numa sociedade de modo a justificar a sua
com o que acontecia no passado e isto leva, muito posição. Por isso, segundo M a r x , a religião é, muitas
frequentemente, ao debate e à controvérsia. vezes, ideológica: ensina os pobres a contentarem-se
com o que têm. O analista social deveria pôr a des-
A Ideologia e os mediu coberto as distorções da ideologia, de modo a permi-
O estudo dos media está intimamente relacionado tir que os mais desfavorecidos adquiram uma pers-
com o impacto da ideologia na sociedade. Por ideo- pectiva verdadeira da vida que têm - e para que
logia entendemos a influência das ideias nas crenças empreendam acções que levem a melhorar as suas
e nos comportamentos das pessoas. Este conceito tem vidas.
sido amplamente utilizado em estudos dos meios de Thompson chama à teoria de Tracy a concepção
comunicação social, bem como noutras áreas da neutral da ideologia e à teoria de M a r x a concepção
sociologia, mas desde há muito suscita controvérsia. critica da ideologia. As concepções neutrais «carac-
A palavra foi usada pela primeira vez por um escritor terizam os fenómenos como ideologia ou como ideo-
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 469

Quadro 2.1 Tipos de sociedades humanas pré-modernas

TIPOS DE INTERACÇÃO

Características Interacção Interacção Qusse-interacçâo


da interacção face-a-face mediada mediada

Constituição no espaço Contexto de co-presen* Separação dos contextos: Separação dos contextos:
e no tempo ça; sistema de referên* disponibilidade ampliada disponibilidade ampliada
cia no espaço e no tem» no tempo e no espaço no tempo e no espaço
po partilhado

Alcance das pistas sim* Multiplicidade de pistas Estreitamento do alcance Estreitamento do alcance
bòlicas simbólicas das pistas simbólicas das pistas simbólicas

Orientação da acção Orientada para recepto- Orientada para receptores Orientada para um raio
res específicos específicos indefinido de potenciais
receptores

Dialógica/Monológica Diatógica Dia lógica Monológica

Fonte: John B. Thompson, The Medfe aod Modernity, Polity Press, 1995.

lógicos sem que isso implique que esses fenómenos «quase-interacçao» - as audiências não podem res-
sejam, necessariamente, enganadores, ilusórios ou ponder de uma forma directa.
estejam comprometidos com os interesses de algum
grupo em particular». As noções crfticas de ideologia
As novas tecnologias da comunicação
«transmitem um sentido negativo, crítico ou pejorati-
vo» e trazem com elas «uma crítica ou uma condena- Embora nos tenhamos concentrado, até agora, nos
ção implícita» (Thompson, 1990, pp. 53-4). jornais e na televisão, não devemos, apenas, pensar
Thompson afirma que a noção crítica é preferível, nos media nestes termos. U m dos aspectos mais fun-
porque liga ideologia e poder. A ideologia é o exercí- damentais dos media diz respeito à própria infraes-
cio do poder simbólico - do modo como as ideias trutura através da qual a informação é comunicada e
passaram a ser utilizadas para esconder, justificar ou transmitida. Alguns avanços tecnológicos importan-
legitimar os interesses dos grupos dominantes da tes durante a segunda metade do século X X têm
ordem social. transformado completamente a face das telecomunU
O Grupo dos Meios de Comunicação Social de cações - a comunicação da informação, sons ou ima-
Glasgow, nos seus estudos, estava de facto a analisar gens à distancia através de um meio tecnológico.
os aspectos ideológicos da informação transmitida As novas tecnologias da comunicação, por exem-
nos noticiários televisivos. As notícias tendiam a plo, estão por trás de alterações profundas ao nível dos
favorecer o governo e a direcção à custa dos grevis- sistemas monetários do mundo e dos mercados de
tas. Thompson acredita que, e m geral, os meios de acções. O dinheiro já não é ouro, ou notas no bolso.
comunicação de massas - incluindo não só os noti- Cada vez mais, o dinheiro se tem tornado electrónico,
ciários, mas também toda a gama de programas - em guardado nos computadores dos bancos do mundo.
grande parte, expandem o raio de acção da ideologia O valor do dinheiro que se possa ter no bolso é deter-
nas sociedades modernas. Eles chegam a grandes minado pelas actividades dos que negoceiam nos mer-
audiências e estão, nas suas palavras, baseados na cados monetários electronicamente associados. Esses
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM G E R A L 470

mercados só foram criados nos últimos dez ou quinze manha, França, Reino Unido e Suíça! O tráfego tele-
anos: são um produto da união entre os computadores fónico internacional está desigualmente distribuído:
e a tecnologia das comunicações por satélite. « A tec- enquanto o uso médio per capita mundial de chama-
nologia», já se disse, «está, de uma forma rápida, a das internacionais é de 7.8 minutos, entre os países
transformar a bolsa num mercado global único, aberto desenvolvidos (membros da Organização para a Coo-
24 horas por dia» (Gibbons, 1990, p. 111). peração e Desenvolvimento Económico O.C.D.E.) a
Quatro tendências tecnológicas têm contribuído média é de 36.6 minutos. Na Africa Subsahariana, a
para estes desenvolvimentos: o aperfeiçoamento média é de 1 minuto por pessoa (Held et al. 1999).
constante das capacidades dos computadores, junta- A estratificação do uso telefónico internacional
mente com a diminuição dos preços; a digitalização reflecte uma maior discrepância entre a introdução de
da informação, que toma possível a integração das novas tecnologias em sociedades mais e menos desen-
tecnologias dos computadores e das telecomunica- volvidas (ver quadro 15.1). E m 1995, existiam em
ções; o desenvolvimento das comunicações por saté- média nos países desenvolvidos 546 linhas telefónicas
lite; as fibras ópticas que permitem que mensagens por 1000 pessoas, enquanto que em economias de
muito diferentes sejam enviadas por um único e baixo rendimento a média mal excedia 25 linhas tele-
pequeno cabo. A sensacional explosão das comunica- fónicas por 1000 pessoas. Porém, existem também
ções nos últimos anos não dá sinais de abrandamento. indicadores de que tais discrepâncias poderão atenuar-
N o seu livro Ser Digital (1995), o fundador do •se algum dia através das capacidades das novas tec-
laboratório dos media no Instituto de Tecnologia de nologias. Tal como mostra a figura 15.2, algumas
Massachusetts ( M I T ) , Nicholas Negroponte, analisa a nações menos desenvolvidas têm vindo a investir for-
importância profunda da informação digital nas tec- temente em infraestruturas de telecomunicações de
nologias das comunicações mais utilizadas. Qualquer ponta, antecipando-se aos países desenvolvidos na
tipo de informação» incluindo imagens, imagens em concepção de redes telefónicas totalmente digitais. Os
movimento e sons, pode ser traduzida e m «bits». U m avanços tecnológicos podem acentuar a estratificação
bit ou é um 1 ou um 0 . Por exemplo, a representação e a desigualdade, mas também constituem a promessa
digital de 1 , 2 , 3 , 4 , 5 , é 1 , 1 0 , 1 1 , 1 0 0 , 1 0 1 etc. A digi- de reduzir tais desigualdades, possibilitando a comu-
talização - e a velocidade - estão na origem do desen- nicação em zonas pobres e isoladas.
volvimento dos multimédia: o que costumavam ser Assim, como iremos ver, é provável que o uso da
diferentes media utilizando tecnologias diferentes Internet contribua para a maior parte do crescimento
(como as que implicam imagens e sons) podem agora no tráfego telefónico internacional no futuro. O aces-
ser combinados num único meio ( C D - R O M / compu- so à Internet e o número crescente de utilizadores em
tador etc.). A velocidade dos computadores duplica todo o mundo incitou, na última década, a que os
em cada ano e meio e a tecnologia atingiu, actual- avanços tecnológicos tornassem a actividade online
mente, uma fase em que uma cassete vídeo pode ser mais acessível e disponível.
traduzida numa imagem no écran de um computador
pessoal, e vice-versa. A digitalização também possibi-
lita o desenvolvimento dos meios de comunicação O s Telemóveis: a vaga do futuro?
interactivos, permitindo aos indivíduos participar acti-
Os anos 90 testemunharam o desenvolvimento de u m
vamente, ou estruturar o que vêem ou ouvem.
fenómeno novo nas telecomunicações: a popularida-
U m resultado destes avanços tecnológicos, e uma de crescente dos telemóveis. Em 1990, existiam 11
manifestação primária de globalização, é o crescimen- milhões de telemóveis em todo o mundo. U m a d * '
to exponencial do número de chamadas telefónicas da depois, mais de 4 0 0 milhões de pessoas ut*!*zavam
internacionais. Enquanto em 1982 o número de minu- telemóveis! Face ao número de pessoas com compu-
tos por chamada elevava-se a mais de 12 biliões, em tadores pessoais - 180 milhões - toma-se clara a
1996 este número tinha aumentado para mais de 67 razão pela qual os telemóveis são cada vez mais vis-
biliões de minutos por chamada. Deste incrível volu- tos como o futuro das telecomunicações.
me de chamadas internacionais, 50 por cento tinham Os telemóveis não são propriamente um fenóme-
origem em apenas cinco países: Estados Unidos, Ale- no novo, mas é recente a tecnologia que os tem trans-
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 471

Figura 15.1 Alguns indicadores sobre a introdução de informação e telecomunicações, por nível de rendimento do pais

Grupo Unhes telefónicas Computadores pessoais Utilizadores da Internet


por 1000 pessoas, 1995 por 1000 pessoas, 1995 por 1000 pessoas, 1996

Economias de baixo
rendimento 25.7 1.6 0.01

Economias de
médio-baixo rendimento 94.5 10.0 0.7

Economias de
médio-alto rendimento 130.1 24.2 3.5

Economias recentemente
industrializadas 448.4 114.8 12.9

Economias de
rendimento elevado 546.1 199.3 111.0

Fonte: Banco Mundial, Worfà Development Report, 1998, p. 63.

formado num fenómeno global. Os telemóveis desig-


nados de " primeira geração", com tecnologia analó-
gica, foram os primeiros a demonstrar a possibilida-
de de conjugar comunicação e mobilidade. A tecno-
logia digital produziu uma "segunda geração' 1 de
telefones mais rápidos, pequenos, eficientes e conve-
nientes. Como os preços continuaram a descer e as
capacidades de recepção estenderam-se a distâncias
cada vez maiores, a popularidade dos telemóveis dis-
parou: as novas ligações para redes móveis ultrapas-
sam hoje em muito as ligações de linhas de telefone
fixas (ver figura 15.3). E m alguns países, onde as
linhas fixas têm pouca oferta e a infraestrutura tele-
fónica é pouco desenvolvida, os telemóveis oferecem
um serviço fiável e muito útil (ver figura 15.4).

A tecnologia raramente estagna, mas no caso dos


telemóveis continua em constante evolução. A muito
antecipada "terceira geração" de tecnologia de telemó-
veis anunciará a era da "Internet sem fios". C o m a
M*os0gftaKz*fc»
ajuda do WAP, a informação existente num site da
Figure 15.2 Tipos de economia, por percentagem de Internet será filtrada e mostrada em palavras num ecrã
rede telefónica digital (1993). de telemóvel. Os utilizadores poderão aceder à Internet
Fonté: Dados relativos a 164 economias da International Tefeco- através do seu telemóvel para movimentar contas ban-
munic&tion Union. 6anco Mundial. WorUS Devetopment Report cárias, encomendar bilhetes ou mesmo ver cabeçalhos
1998-9. Oxford Uníversity Press, 1996, p. S9. de jornais e cotações de acções. Os computadores e
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM G E R A L 472

100 60
Ifetemóveis
90
•Filipinas Frtàncfea
'Noruega
80 50

70 Japão
4
•Ubano Suécia
, «Malásia isrui* , , •
40
TMfeafe «Kuwait Austrália 4 Dinamarca

Telemóveis
fixos Nova Zelândia
30 •Venezuela
•Sn lanka * Singapura
• U.S.
Iiáfla • UK
•Africa do Sul
20 •Gabão
Canadá
••Chie

SáJgtea *
10 • •
i i i i i i 1
^ China •Arganil na ,
Espanha Fraoça
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998

Marrocos
F i g u r a 1 5 . 3 N o v a s ligações p a r a r e d e s móveis, e m c o m - Bulgária
p a r a ç ã o c o m a s r e d e s fixas, a nível m u n d i a l , 1 9 9 0 * 8 (mi-
lhões adicionados e m c a d a ano).
Fonte: Dados da International Tetecomunication Union. The eco- principais linha* telefónicas em cada 100 pessoas
nomist 9 de Outubro 1999.
F i g u r a 1 5 . 4 C o b e r t u r a telefónica e i ntrodu ção d o tele*
móvel , 1 9 9 6 .
Fonte". Dados relativos a 45 países da International Tetecofnuní-
ligações por modem j á não serão necessários para estar catbn Union. Banco Mundial, Worfd Development Report, 1993-
online, embora seja provável que continuem a ser -â, Oxford Universtty Press, 1998. p. 59.
necessários em períodos mais longos de navegação e
browsing. M a s , para transacções rápidas, os telemó-
w
veis concebidos para i-mode" oferecerão uma manei- do, quando os dias de trabalho crescem, exigindo
ra mais rápida e conveniente para aceder à Internet. mais dos indivíduos, os telemóveis parecem acres-
" O facto de os telemóveis se poderem transportar centar-se à vida frenética e invadir o tempo privado
com facilidade transformados em instrumentos mara- das pessoas. Estes tornam-se assim sempre acessí-
vilhosos de libertação dos indivíduos" refere um veis, esbatendo«se as fronteiras entre a vida pessoal e
comentador (The Economist, 9 Outubro de 1999). É profissional. O tempo valioso "que está no meio",
inegável que os telemóveis são um enorme bem anteriormente despendido para reflectir, é cada vez
numa era marcada por constantes deslocações diárias mais invadido por telemóveis e frenéticos esforços de
para o trabalho, viagens frequentes e horários atare* último minuto para organizar os detalhes que ficaram
fados. As tarefas podem ser geridas mais eficiente- esquecidos. E m alguns locais públicos, como os com-
mente; os pais podem manter-se em contacto com os boios e restaurantes, os telemóveis começam a ser
seus filhos; o tempo despendido no trânsito ou à pro- vistos como um aborreci mento, estando a ser toma-
cura de uma rede fixa pode agora ser canalizado para das medidas para restringir o seu uso.
necessidades pessoais e profissionais. Muitas pessoas
apreciam a flexibilidade que um telemóvel oferece.
A internet
Porém, outros avisam que os telemóveis são tam-
bém um sintoma de alguns dos aspectos mais proble- N o início dos anos noventa do século X X , muitos
máticos do nosso tempo. N u m a era de ritmo acelera- peritos da indústria dos computadores concebiam o
473 O S MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

fim do reinado do computador pessoal. Tomava-se -se no exterior e, assim, entrou num período de gran-
cada vez mais evidente para eles que o futuro não está de desenvolvimento. Entre 1988 e 1998 a proporção
no computador individual, mas num sistema global de de lares britânicos com computadores passou de 18%
computadores interligados - a I n t e r n e i . Apesar de para 3 4 % . Nos lares com crianças, a percentagem era
muitos utilizadores do P C não se terem apercebido de 4 9 % ( H M S O 2000). A disseminação dos fornece-
naquela altura que o PC estava prestes a tornar-se num dores de serviços Internet comerciais (ISP's) que ofe-
terminal de acesso a acontecimentos que ocorrem recem o acesso à Net através de modems, tem impul-
noutro lugar - acontecimentos que se dão numa rede sionado o número crescente de lares com potenciali-
que se estende por todo o planeta, uma rede que não dades online. Os serviços «online», «bulletin boards»
pertence a um indivíduo ou a uma companhia. - discussão electrónica em grupo - e as bibliotecas de
software foram postos a circular na N E T por uma
variedade desconcertante de pessoas, situadas não só
na América do Norte, mas por todo o mundo. As
companhias começaram, também, a tirar partido dela.
E m 1994 as empresas ultrapassaram as universidades
como principais utilizadores da rede.
As origens da Internet
A aplicação mais conhecida da Internet é a World
A Internet surgiu de uma forma espontânea. É o pro- Wide Web ( W W W ) . Na verdade, como acontece com
duto de um mundo que deixou de estar dividido - um um cuco no ninho, ameaça apoderar-se do seu hospe-
mundo posterior à queda do muro de Berlim. No deiro. A Web é, com efeito, uma biblioteca global de
entanto, as suas origens situam-se precisamente no multimédia. Foi inventada por um engenheiro de soft-
período da Guerra Fria antes de 1989. A Net teve a ware num laboratório de física suíço em 1992; o soft-
sua origem no Pentágono, o quartel-general das for- ware que a popularizou mundialmente foi escrito por
ças militares americanas. Estabeleceu-se em 1969 e, um estudante universitário da Universidade de Illi-
no início, era denominada como rede A R P A , o que nois. Os utilizadores navegam na Web com a ajuda de
significava Pentágono Advanced Research Projects um "browser" de Internet - um software que permite
Agency (Agência de Projectos de Pesquisa Avançada aos indivíduos procurar informação, localizar sites
do Pentágono). Tinha um campo de acção limitado. específicos ou páginas de Internet, e marcam aquelas
A A R P A procurava permitir aos cientistas, que traba- páginas para referência futura. Através da Web é pos-
lhavam com contratos militares, em diferentes partes sível fazer o download de uma variedade alargada de
da América, reunir os seus recursos e compartilhar o documentos e programas, desde documentos relativos
equipamento caro que usavam. Quase como algo de a políticas governamentais até software antivírus ou
subsequente, os pioneiros pensaram numa maneira de jogos de computador. À medida que as páginas Web se
enviarem também mensagens - assim nasceu o cor- tornam mais sofisticadas, elas tornaram'se uma festa
reio electrónico, o «e-mail». para os sentidos. Muitas são adornadas com gráficos
complexos ou fotografias, ou contêm ficheiros de
A Internet do Pentágono consistia e m quinhentos
vídeo ou áudio. A Net também serve como interface
computadores até ao início dos anos 8 0 , todos colo-
principal para o comércio electrónico - as transacções
cados em laboratórios militares e em departamentos
comerciais efectuadas online.
científicos de informática das universidades. Outras
pessoas nas universidades começaram, também, a Não se sabe ao certo quantas pessoas estão, na ver-
pôr-se a par e a começar a utilizar o sistema para as dade, ligadas à Internet. Estima-se que, no início do
suas próprias necessidades. Por volta de 1987, a século X X I mais de 100 milhões de pessoas em todo
Internet tinha-se já expandido e incluía 28.000 com- o mundo possam aceder à Internet. Estimou-se que a
putadores associados, que se encontravam em uni- Internet cresceu a um ritmo na ordem dos 2 0 0 por
versidades e laboratórios de pesquisa. cento por ano desde 1985! Esta taxa de crescimento
Durante vários anos, a Internet continuou a estar exponencial parece assegurada no futuro mais próxi-
ligada só às universidades. Contudo, com a expansão mo com avanços posteriores na tecnologia de com-
dos PCs utilizados em casa, começou a movjmentar- putadores e telecomunicações. O acesso à Internet é
474 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

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Estados Árabes 30 'àúéda

Amértca Latina
Europa de Leate eCerafoas mmdia
a CEI Estados Unidos
À«e Oriental Asa
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a Pacífico

20 Singapura
Popijaçâo Utttttadorea
Regional da Internet
(em percentagem <em percentagem Canadá
da população muráal) dapoputaçftoteoJonal)
15
Estórea
'-"'•A

10 Reino Unido

Oaiar
Malásia

Figura 15.5 Utilizadores da )nterr>et em todo o mundo.


Fonte: Baseado em dates fornecidos por Wual999, Network Wizards 1998 e IOC t$99. UNPD, Human Oevefopment Report, Oxford Uni-
versity Press, 1999. p. 63.

altamente desigual (ver figura 15.5). E m 1998, 8 8 % vados níveis de acesso online e de posse de computa-
dos utilizadores da Internet mundiais viviam no dores. Mais de 100 milhões de americanos usam a
mundo desenvolvido. A América do Norte era res- Internet, enquanto tanto a Alemanha como a Grã-
ponsável por mais de 5 0 % do total de utilizadores, -Bretanha se orgulham de ter mais de 10 milhões de
embora só contenha 5 % do total da população mun- utilizadores cada um. N o Japão, um país onde a lou-
dial. Os Estados Unidos são o país com os mais ele- cura da Internet começou de algum modo tarde, mais
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 475

de 14% da população (18.3 milhões de pessoas) usa-


vam a Internet em 1999. Espera-se que este número
cresça rapidamente nos próximos anos.

O impacto da Internet

N u m mundo de espantosas mudanças tecnológicas,


ninguém pode ter a certeza daquilo que o futuro
reserva. Muitos vêem a Internet como exemplo de
uma nova ordem global surgida no final do século
vinte. Os utilizadores da Internet vivem no «ciberes-
paço». Por ciberespaço entende-se o espaço de inte-
racção formado pela rede global dos computadores
que compõem a Internet. No ciberespaço, como diria
Baudrillard, deixamos de ser «pessoas», passando a
ser mensagens nos ecrãs uns dos outros. C o m excep-
ção do e-mail, onde os utilizadores se identificam,
ninguém na Internet sabe quem os outros realmente
são, se são homens ou mulheres ou em que parte do
mundo estão. Há uma famosa banda desenhada sobre
a Internet; representa um cão em frente ao computa- 'Adorei o teu E-mail, mas pensei que fosses mais velho.'
dor. A legenda diz: « O que é óptimo na Internet, é que
® Direitos exclusivamente reservados a The New Yorker Coflec-
ninguém pode saber que és um cão». fton, 1998, Robert Weber a partir de cdrlooi>bank.com.

A difusão da Internet por todo o mundo suscitou


questões importantes aos sociólogos. A Internet está a
transformar os contornos do quotidiano, esbatendo as podem encontrar-se em salas de chat e discutir tópi-
fronteiras entre o global e o local, apresentando novos cos de interesse mútuo. Estes ciberçontactos às vezes
canais para comunicação e interacção, e permitindo evoluem para o estabelecimento de amizades exclusi-
cada vez mais a execução de tarefas quotidianas onli- vamente online, ou resultam mesmo em encontros
ne. Porém, ao mesmo tempo que fornece novas e exci- face-a-face. Muitos utilizadores da Internet tornaram-
tantes oportunidades para explorar o mundo social, a -se parte das comunidades online, comunidades qua-
Internet também ameaça minar as relações humanas e litativamente diferentes daquelas que habitam no
as comunidades. Embora a 'era da informação** ainda mundo físico. Os académicos que vêem a Internet
esteja a dar os primeiros passos, muitos sociólogos como um complemento positivo à interacção huma-
debatem as complexas implicações da Internet para as na, argumentam que esta expande e enriquece as
sociedades de modernidade tardia. redes sociais das pessoas.

As opiniões sobre os efeitos da Internet na inte- N o entanto, nem todos têm, por outro lado, uma
racção social dividem-se em duas grandes categorias. posição tão entusiástica. À medida que as pessoas
Por um lado, encontram-se aqueles que vêem o despendem cada vez mais tempo a comunicar online
mundo online como espaço de criação de novas for- e a realizar as suas tarefas diárias no ciberespaço, é
mas de relacionamento electrónico que realçam ou provável que passem menos tempo a interagir uns
complementam as interacções face-a-face existentes. com outros no mundo físico. Alguns sociólogos
Enquanto viajam ou trabalham fora do país, os indi- receiam que a expansão da Internet conduza a um
víduos podem utilizar a In^rnet para comunicar aumento do isolamento social e da atomização, argu-
regularmente com amigos e parentes em casa. A dis- mentando que, como efeito do acesso crescente à
tância e a separação tomam-se mais toleráveis. Internet nos lares, as pessoas despendem menos
A Internet também permite a formação de novos tipos "tempo de qualidade** com as suas famílias e amigos.
de relacionamento: utilizadores online "anónimos" A Internet está a usurpar a vida doméstica, já que são
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM G E R A L 476

Uma nova era d e isolamento social?


Embora seja demasiado cedo para avaliar com vas. Em primeiro lugar, a Internet parece ter provo-
alguma certeza as implicações globais d a explosão cado o afastamento de outras termas de mass
da Internet nas sociedades da modernidade tardia, media. Entre os seus utilizadores regulares, 60 por
alguns estudos sociológicos estão já a tentar deter- cento afirma passar agora menos tempo a ver tele-
minar os seus efeitos. Num estudo e m larga esca- visão, e um terço reduziu o tempo dedicado à leitu-
la sobre 4 0 0 0 adultos americanos, publicado e m ra de jornais.
Fevereiro d e 2000, os investigadores da Universi- Em segundo lugar, a internet tem vindo a esba-
dade de Stanfórd concluíram que os utilizadores ter a fronteira entre a casa e o locai de trabalho. U m
habituais da Internet despendem menos tempo quarto dos utilizadores regulares diz ter passado
com as suas famílias e em actividades comunitá- mais tempo a trabalhar e m casa, enquanto o tempo
rias do que os não utilizadores ou os utilizadores que passa no local de trabalho é o mesmo ou
não frequentes. aumentou. De acordo com o autor do estudo, a vida
O estudo revelou que 55 por cento dos inquiridos tem vindo a tornar-se um l l u x o contínuo" organiza-
tinha acesso à Internet em casa ou no trabalho, do com base na internet. Actualmente, os trabalha-
sendo 20 por cento dos inquiridos classificados dores utilizam a Internet sobretudo durante as
como "utilizadores regulares", despendendo pelo horas de trabalho "oficiais", tendendo assim a levar
menos 5 horas por semana online. trabalho para casa, em vez de terminar as suas
O estudo evidenciou duas tendências significati- tarefas no final do dia.

pouco claras as fronteiras entre o trabalho e a casa: nio fragmentado e impessoal onde os seres humanos
muitos empregados continuam a trabalhar em casa a raramente se aventuram fora de suas casas, perdendo
altas horas - consultando o correio electrónico ou ter- a capacidade de comunicar? Parece improvável. Há
minando tarefas que não conseguiram realizar duran- cerca de cinquenta anos atrás, expressaram-se receios
te o dia. O contacto humano reduz-se, os relaciona- muito semelhantes face ao aparecimento da televisão
mentos pessoais ressentem-se, formas tradicionais de no cenário dos media. N a sua obra Multidão Solitária
entretenimento, como o teatro ou os livros são margi- (1961), uma influente análise sociológica da socieda-
nalizados, e o tecido social vai-se fragilizando. de americana nos anos 5 0 , David Reisman e os seus
colegas preocuparam-se com os efeitos da T V sobre
a família e a vida comunitária. Embora alguns dos
seus receios tivessem sentido, também é verdade que
a televisão e os mass media têm, de diversas formas,
enriquecido o mundo social.

C o m o podemos avaliar estas posições contrastan- Tal como aconteceu antes com a televisão, a Inter-
tes? Existem certamente elementos de verdade em net tem suscitado tanto expectativas como receios.
ambos os lados do debate. A Internet está, sem dúvi- Será que vamos perder as nossas identidades no cibe-
da, a alargar os nossos horizontes, e apresenta opor- respaço? Iremos ser dominados pela tecnologia dos
tunidades sem precedentes para estabelecer contacto computadores em vez de sermos nós a dominá-los?
com outros. N o entanto, o ritmo frenético da sua Irão os seres humanos refugiar-se num mundo online
expansão também representa desafios e ameaças a anti-social? A resposta a cada uma destas questões,
formas tradicionais de interacção humana. Irá a Inter- felizmente, é quase de certeza «não». Tal como
net transformar radicalmente a sociedade num domí- vimos antes na discussão sobre a "compulsão da pro-
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 477

ximidade" (pg. 101), as pessoas náo utilizam a video- 2 A transferência da propriedade pública para pri-
conferência se puderem estar com as outras pessoas vados - Tradicionalmente, as empresas de media
de uma forma normal. Os executivos nunca antes e telecomunicações eram, em quase todos os paí-
tiveram tantas formas de comunicação electrónica ao ses, parcial ou totalmente propriedade do estado.
seu dispor. A o mesmo tempo o número de conferên- Nas últimas décadas, a liberalização do ambiente
cias de negócios face-a-face disparou. comercial e o afrouxamento de regulamentos tem
conduzido à privatização (e comercialização) de
A globalização e o s meios empresas de media em muitos países.
de comunicação 3 Estruturas empresariais transnacionais - As
empresas de media já não operam estritamente no
Tal como temos constatado ao longo deste livro, a âmbito das fronteiras nacionais. De igual forma,
Internet é um dos principais factores e sintomas dos as regras de propriedade dos media têm-se toma-
actuais processos de globalização. N o entanto, a glo- do flexíveis para permitir o investimento e a aqui-
balização está também a transformar a dimensão sição independentemente das fronteiras.
internacional e o impacto de outros media. Nesta sec- 4 Diversificação dos produtos media - A indústria
ção, iremos considerar algumas das mudanças que dos media tem-se diversificado e é muito menos
afectam os mass media em condições de globalização. segmentada do que no passado. Enormes conglo-
Embora os media tenham sempre tido dimensões merados de media, como a A O L - T i m e Warner, de
internacionais - como a angariação de notícias e a que iremos falar mais à frente, produzem e distri-
distribuição de filmes noutros países - até aos anos buem múltiplos conteúdos media, incluindo a
70 a maioria das empresas de media operavam no música, notícias, media impressos e programação
âmbito de mercados nacionais específicos de acordo de televisão
com regulamentos de governos nacionais. A indústria 5 Um número crescente de fusões de empresas de
dos media diferenciava-se também em sectores dis- comunicação - Tem havido uma tendência para
tintos. A maioria - cinema, imprensa, rádio e televi- alianças entre companhias em diferentes segmen-
são - operava de forma independente. tos da indústria dos media. As empresas de tele-
Nas últimas três décadas, contudo, tiveram lugar comunicações, fabricantes de software e hardwa-
transformações profundas no âmbito da indústria dos re de computadores e produtores de "conteúdos"
media. Os mercados nacionais foram substituídos por media estão crescentemente envolvidos em
um mercado global fluido, enquanto as novas tecno- fusões, à medida que as formas de media se tor-
logias conduziram à fusão de formas de media outro- nam cada vez mais integradas.
ra distintas. N o começo do século X X I , o mercado
global dos media era dominado por um grupo de A globalização dos media tem conduzido ao pri-
cerca de vinte empresas multinacionais cuja função meiro plano formas "horizontais" de comunicação.
na produção, distribuição e marketing de notícias e Se as formas de media tradicionais asseguravam que
de entretenimento podia ser observada em quase a comunicação ocorria de forma 4 1 vertical" no âmbito
todos os países do mundo. do estado-nação, a globalização leva à integração
No seu trabalho sobre globalização, David Held e horizontal da comunicação. Não só as pessoas comu-
os seus colegas (1999) apontam para cinco grandes nicam a um nível básico, mas os produtos media são
alterações que têm contribuído para a emergência da largamente disseminados devido a novos regulamen-
ordem global dos media: tos harmonizados, a políticas de propriedade e a
estratégias de marketing transnacionais. Actualmen-
I O aumento da concentração da propriedade - Os te, as comunicações e os media podem mais facil-
media globais são hoje dominados por um peque- mente estender-se para além das fronteiras de cada
no número de empresas poderosas. As empresas país (Sebrenny-Muhammadi et ai.y 1997).
independentes de pequena escala têm sido gra- No entanto, como outros aspectos da sociedade
dualmente incorporadas em conglomerados de global, a nova ordem de informação desenvolveu-se
media muito centralizados. de forma desigual, reflectindo as divisões entre as
478 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

Irá a Internet transformar a indústria da m ú s i c a ?


A Internet já está a mudar muitos aspectos das nos- de se adquirir na forma de COs ou cassetes em
sas vidas quotidianas, desde a procura de lazer à lojas de música. A indústria global de música integra
forma de gerir um negócio. Para as empresas de correntemente uma complexa rede de fábricas,
media Iradtcionais" - como a indústria de música - cadeias de distribuição, lojas de música e equipas
a Internet representa tanto uma grande oportunida- de vendas. Se a Internet torna desnecessários
de como uma séria ameaça. todos estes elementos, permitindo o download e a
Embora a indústria da música se concentre cada comercialização directa da música, o que sobrará
vez mais nas mãos de alguns conglomerados inter- para a indústria da música? E o que impedirá
nacionais, alguns observadores acreditam que é o empresas concorrentes baseadas na Internet de
elo mais vulnerável na "indústria de cultura", na entrar no mercado e de capitalizar a procura cres-
medida em que a internet permite que a música cente de géneros musicais de um determinado
seja extraída digitalmente (o downloadt, em lugar "nicho" e o trabalho de artistas locais? Para uma

sociedades desenvolvidas e os países subdesenvolvi- A indústria global de música gravada é uma das
dos. Nesta secção, iremos explorar as dimensões da mais concentradas. As cinco maiores empresas -
globalização dos meios de comunicação, antes de Universal (que absorveu a Polygram em 1998), Time
considerar os argumentos de alguns comentadores de Warner, Sony, E M I e Bertelsmann - controlam entre
que a nova ordem global dos media seria melhor des- 80 a 90 por cento de todas as vendas de música a
crita como "imperialismo dos media". nível internacional (Herman e McChesney 1997). Até
Janeiro 2 00 0 , quando anunciou uma fusão com a
Time Warner, a E M I foi a única empresa entre as
Música cinco indicadas que não fazia parte de um conglome-
rado de media maior. A indústria de música global
Como observaram David Held e os seus colegas na sua
sofreu um crescimento substancial e m meados dos
investigação sobre a globalização dos media e da
anos 9 0 , com um aumento de 38 por cento nas ven-
comunicação, "a forma musical é aquela que se presta
das entre 1992 e 1995 . As vendas em países em vias
mais efectivamente à globalização" (Held et a/., 1999,
de desenvolvimento foram particularmente fortes,
p. 351), porque a música é capaz de transcender as
instigando muitas empresas de topo a contratar mais
limitações da linguagem escrita e oral no acesso e
artistas locais, procurando antecipar um crescimento
apelo a uma vasta audiência. Dominada por um
do mercado.
pequeno número de empresas multinacionais, a indús-
tria global de música tem assentado a sua construção O desenvolvimento da indústria global de música
na sua capacidade para encontrar, produzir, comercia* tem-se devido basicamente ao sucesso da música pop
lizar e distribuir os talentos musicais de milhares de - com origem principalmente na América e Grã-Bre-
artistas a audiências de todo o mundo. O crescimento tanha - e à expansão das culturas juvenis e subcultu-
da tecnologia - desde os sistemas stereo pessoais, ao ras que com eia se identificam (Held et al., 1999).
Compact Disc, passando pela televisão de música A globalização da música tem, então, sido uma das
(como a M T V ) - tem proporcionado formas mais forças principais na difusão dos estilos e géneros
actuais e sofisticadas de distribuição global da música. musicais americano e britânico a audiências interna-
E m décadas recentes, desenvolveu-se um "complexo cionais. Os E . U . A . e o Reino Unido são líderes mun-
institucional" de empresas como parte da comerciali- diais na exportação de música popular, tendo outros
zação e distribuição de música a nível global. países níveis muito mais baixos de produção musical
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNíCAÇÃO EM GERAL 479

indústria que cresceu astronomicamente devido à Economist, 29 Janeiro de 2000). A pirataria online é
procura global de música popular comercial, as ten* já um dos maiores desafios que a indústria global da
dências são agourentas: de 1988 a 1998, a percen- música tem de enfrentar. Apesar de estarem a ser
tagem de mercado dominado pelos dois maiores feitos esforços no sentido de estabelecer controlos
géneros musicais - rock e pop - caiu de 6 2 por rígidos na replicação de música legalmente adquiri-
cento para 4 5 por cento (The Economist, 29 de da , o ritmo da mudança tecnológica eclipsa a capa-
Janeiro de 2000). Novos sons - como o hip-hop, cidade da indústria para travar a pirataria.
trip-hop, tounge e o acíd jazz - estão a minar o mer- O caso do Napster foi alvo de grande atenção e m
cado da música comercial mais corrente. 2 0 0 0 . 0 Napster é um software que permite às pes-
A indústria da música enfrenta já os efeitos da soas trocar ficheiros pela Internet - incluindo cópias
digitalização. A Federação Internacional da Indústria ilegais de música. A indústria discográfica desenca-
Fonográfica estima que existam normalmente mais deou diversos processos judiciais contra a pequena
de 100 milhões de faixas musicais ilegalmente colo- empresa por detrás do Napster. Mas o génio já esta-
cadas na Internet, disponíveis para o downfoad(The va fora da garrafa.

nacional, Enquanto alguns críticos argumentam que a do os filmes, pela primeira vez, viram a luz do dia,
dominação da indústria musical por estes dois países Hollywood produzia quatro quintos de todos os fil-
mina o sucesso dos sons e tradições da música local, mes exibidos nos écrans mundiais, e os Estados Uni-
é importante lembrar que a globalização é uma estra- dos continuam a ter uma influência preponderante
da com duas vias. A popularidade crescente da no panorama da indústria cinematográfica (a seguir
"música m u n d i a r (world music) - como o sucesso aos Estados Unidos, os maiores exportadores de fil-
dos sons inspjrados na música latina nos Estados mes são a índia, a França e a Itália). Os governos de
Unidos - mostra como a globalização conduz à difu- muitos países atribuem subsídios para apoiar as cine-
são cultural em todas as direcções. matografias nacionais, mas nenhum país compete
com os Estados Unidos no que respeita à exportação
de filmes. Na Grã-Bretanha, por exemplo, os filmes
Cinema
americanos representam 40 por cento do total dos
Existem formas diferentes de avaliar a globalização filmes exibidos nos cinemas anualmente. A maior
do cinema. Uma forma consiste em considerar o local parte dos países que também têm uma indústria de
de produção dos filmes e as suas fontes de financia- exportação de filmes, como a Itália, o Japão e a Ale-
mento. Se adoptarmos este critério, é então inques- manha. também importam uma grande quantidade
tionável que tem havido um processo de globalização de filmes americanos. Na América do Sul, a propor-
na indústria cinematográfica. De acordo com estudos ção é, muitas vezes, superior a 50 por cento e o
da U N E S C O , muitas nações possuem capacidade mesmo acontece em muitas partes da Ásia, África e
para produzir filmes. Nos anos 80, cerca de 25 países M é d i o Oriente. Por toda a União Europeia, a pro-
produziam anualmente cinquenta ou mais filmes, porção de receitas de bilheteiras ligadas a filmes
enquanto um pequeno conjunto de países - os Esta- americanos aumentou de 60 por cento, em 1984,
dos Unidos, Japão, Coreia do Sul, Hong Kong e índia para quase 72 por cento, em 1991, sendo que em
- liderava a produção, com mais de 150 filmes por 1996 a quota de receitas caiu de novo para 63 por
ano (Held et ai. 1999). cento ( Held et a! 1999). Os Estados Unidos são tam-
bém os maiores exportadores de filmes para nações
Outra forma de avaliar a globalização do cinema outrora clientes principais da indústria cinematográ-
consiste em considerar o peso da exportação na pro-
fica soviética.
dução cinematográfica nacional. Nos anos 20, quan-
480 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

Nem a China está a salvo de 'O Extreminador' e do alcance globalizador do cinema de Hollywood.

Em 1993, os estúdios de Hollywood geravam mais maior fornecedor de serviços de Internet do mundo,
de 50 por cento dos seus lucros na distribuição de fil- America Online ( A O L ) , anunciaram a sua intenção
mes fora do país. Estes números rondam os 60 e 70 por de criar "a primeira empresa mundial integrada de
cento em 2001. Esta tendência tem tido vários efeitos media e comunicações para o Século da Internet".
específicos. Muitos estúdios de Hollywood estão A fusão reúne o enorme "conteúdo" media perten-
envolvidos na construção de cinemas multiplex no cente à Time Warner - incluindo jornais e revistas,
exterior para aumentar a dimensão das audiências estúdios de cinema e estações de T V - com as pode-
estrangeiras. Por outro lado, a expansão de leitores de rosas capacidades de distribuição na Internet da
vídeo em muitos dos novos mercados tem aumentado A O L , cuja subscrição de base excedia, no momento
a procura de filmes em vídeo, o que permitiu arrecadar da fusão, 25 milhões de pessoas em quinze países.
8.8 biliões de dólares - mais de metade do rendimento Esta fusão gerou uma enorme expectativa nos
dos estúdios - em 1995 (Herman e McChesney 1997). mercados financeiros, já que se tinha criado a quarta
maior empresa do mundo. Mas, para além da sua
dimensão, o negócio suscitou grande atenção pelo
As «grandes empresas» de m e d i a
facto de constituir a primeira grande união entre
E m Janeiro de 20 00 , duas das mais influentes empre- "velhos" e "novos" media. A origem da Time Warner
sas de media do mundo juntaram-se na maior fusão remonta a 1923, quando Henry Luce fundou a revis-
de empresas a que o mundo até então tinha assistido. ta Time, uma publicação semanal que sistematizava e
N u m negócio no valor de 337 biliões de dólares, a interpretava o enorme volume de informação contido
maior empresa de media do mundo, Time W a m e r , e o em jornais diários. O sucesso estrondoso da Time foi
481 O S MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

em breve seguido pela criação da revista de negócios horas, e por aparelhos com ligação à Internet que
Fortune, em 1930, e da revista fotográfica Life, em cabem na palma de mão. Como afirmava Steve Case
1936. N o decurso do século X X , a empresa de comu- no anúncio da fusão," Este é um momento histórico,
nicação social Time inc. detinha estações de rádio e no qual os novos media alcançaram realmente a
T V , a indústria de música, o vasto império Warner maioridade. Nós sempre dissemos que a missão da
Brothers de cinema e desenhos animados, bem como América Online é fazer com que a Internet seja tão
o primeiro canal mundial de notícias a funcionar 24 central nas nossas vidas como o telefone e a televi-
horas, a C N N . N o momento da fusão, o volume de são, e ainda mais valiosa" ( G u a r d i a n 16 Jan. 2000).
negócios anual da Time Wamer era de 26 biliões de N o entanto, nem todos concordam que a formação
dólares; as suas revistas eram lidas por 120 milhões de "grandes empresas" de media seja um ideal a que
de leitores todos os meses, possuindo a empresa os se deva aspirar. Onde os entusiastas vislumbram uma
direitos de um arquivo de 5700 filmes, bem como dos visão, os críticos pressentem um pesadelo. A medida
mais populares programas de televisão. que os media se tornam cada vez mais concentrados,
Se a história da Time Warner era um retrato fiel do centralizados e de alcance global, há razão para nos
desenvolvimento global das comunicações no século preocuparmos com a possibilidade de o papel impor-
X X I , a ascensão da América Online é sobretudo o tante dos media enquanto fórum de livre expressão e
retrato dos "novos media" da era da informação. debate vir a ser limitado. U m a única empresa que
Fundada em 1982, a A O L oferecia inicialmente aces- controla tanto o conteúdo - programas de T V , músi-
so via telefone à Internet, cobrando uma taxa horária. ca, filmes, fontes noticiosas - como os meios de dis-
Por volta de 1994, tinha 1 milhão de utilizadores ins- tribuição ocupa uma posição de grande poder. Pode
critos. Em 1996, com a introdução da utilização ili- promover o seu próprio material (os cantores e cele-
mitada da Internet através do pagamento de uma bridades que tornou famosos), exercer a autocensura
(omitindo notícias que poderiam ser negativas para as
mensalidade regular, a adesão de novos utilizadores
\
suas holdings ou apoiantes corporativos) e pode
disparou para 4.5 milhões. A medida que o número intercambiar produtos no âmbito do seu próprio
de utilizadores continuou a crescer - em 1997, império à custa dos que estão fora.
8 milhões de pessoas utilizavam a A O L - a empresa
entrou numa série de fusões, aquisições e alianças A visão da Internet nas mãos de vários conglome-
que consolidaram a sua posição como proeminente rados contrasta gritantemente com a ideia de um
fornecedor de serviços da Internet (ISP). A Compu- domínio electrónico livre e sem restrições defendida
Serve e a Netscape foram ambas adquiridas pela pelos pioneiros da Internet há poucos anos. Nos pri-
A O L . U m a parceria com a empresa alemã Bertels- meiros anos, a Internet foi vista por muitos como um
mann em 1995 levou à criação da A O L Europa, e domínio individualista, onde os utilizadores podiam
uma aliança com a Sun Microsystems permitiu à vaguear livremente, procurando e partilhando infor-
A O L entrar no domínio do comércio electrónico. mação, fazendo ligações e interagindo fora do domí-
nio do poder empresarial. Contudo, este é um aspec-
As implicações da fusão da A O L Time Wamer tar-
to ameaçado pela presença de empresas gigantes de
dam ainda a evidenciar-se, porém já existem diver-
media e anunciantes. Os críticos preocupam-se com o
gências entre, por um lado, aqueles que vêem o negó-
facto de a expansão do poder das empresas na Inter-
cio como libertador de novas e excitantes potenciali-
net significar a futura extinção de tudo. à excepção da
dades tecnológicas e, por outro, aqueles que receiam
"mensagem empresariar. Tal poderá implicar que a
a dominação dos media por grandes empresas. Os
Internet se transforme em domínio das empresas só
entusiastas vêem a fusão como um passo importante
acessível a subscritores.
para a criação de 44grandes empresas" de media que,
através da Internet, fornecem directamente às pessoas É difícil avaliar essas opiniões divergentes; há
todos os novos espectáculos, os programas de T V , os com certeza algo de verdade em ambas as perspecti-
filmes e a música que quiserem, quando quiserem. A vas. As fusões dos media e o avanço tecnológico irão
medida que a tecnologia vai progredindo, as ligações certamente expandir a forma como as comunicações
telefónicas à Internet são substituídas por ligações de e o entretenimento são organizados e distribuídos.
alta velocidade por cabo, a funcionar vinte e quatro Tal como os primeiros pioneiros de media no filme e
482 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

na música foram influenciados pela expansão das com estão sediados nos Estados Unidos. Existem
redes de T V e da indústria de música, também a era outras empresas de comunicação - para além do
da Internet provocará mudanças dramáticas nos império de Murdoch a seguir descrito - em que se
mass media; nos próximos anos, os indivíduos terão incluem a japonesa Sony, a quem pertence a C B S
muito mais capacidade de escolha no que toca ao Records e a Columbia Pictures; o grupo alemão Ber-
tipo de produtos que consomem e no que respeita ao telsmann, dono da R C A Records e de um grande con-
momento em que o fazem. Mas as preocupações junto de editoras baseadas nos Estados Unidos; e a
quanto à dominação empresarial não são deslocadas. Mondadore, a empresa de televisão propriedade de
Já há relatos de conglomerados dos media que evi- Sílvio Berlusconi, o primeiro ministro italiano.
tam j á a cobertura de notícias desfavoráveis relacio- Os produtos ocidentais foram, sem dúvida, ampla-
nadas com os seus parceiros. Os argumentos para mente difundidos por todo o globo através dos meios
manter a Internet livre e aberta assentam em convic- de comunicação electrónicos. Pico Iyer fala nas «noi-
ções importantes sobre o valor de um espaço públi- tes de vídeo de Katmandu», na frequência de disco-
co sem restrições, onde as ideias podem ser partilha- tecas no Bali (Iyer, 1989). Vídeos americanos podem
das e debatidas. ser encontrados, facilmente, na República Islâmica
É importante recordar que há poucos factos inevi- do Irão, bem como as gravações áudio de música
táveis no mundo social. As tentativas de controlar ligeira ocidental, que podem ser adquiridas no mer-
totalmente as fontes de informação e os canais de dis- cado negro (Srebemy-Mohammadi, 1992). Em 1999,
tribuição raramente têm sucesso, quer devido à legis- foram anunciados planos para a construção de um
lação destinada a prevenir monopólios, quer devido parque temático da Disney em Hong-Kong - o par-
às respostas persistentes e criativas dos utilizadores que será uma réplica em larga escala das atracções
dos media que procuram rotas de informação alterna- americanas, em vez de reflectir a cultura local. Como
tivas. Os consumidores de media não são "tontos" indicou o presidente dos parques temáticos da Dis-
ney, isto pode ser só o início: 44 Se existe só um par-
que podem ser manipulados sem esforço por interes-
\
que temático da Disney num país com 1.3 biliões de
ses empresariais. A medida que o âmbito e o volume
pessoas, tal não constitui uma comparação muito boa
das formas de comunicação e os conteúdos se expan-
com os cinco parques temáticos nos Estados Unidos
dem, os indivíduos tornam-se mais, e não menos,
que só possuem uma população de 280 milhões"
qualificados na interpretação e avaliação das mensa-
(citado em Gittings 1999).
gens e do material que encontram.

O imperialismo d o s meios
d e comunicação

A posição privilegiada dos países desenvolvidos No entanto, a questão não se prende, apenas, com
industrialmente, sobretudo no que se refere aos Esta- as formas de entretenimento mais populares, Tem
dos Unidos, na produção e difusão dos meios de sido sugerido que o controlo mundial das notícias
comunicação social, levou muitos observadores a pelas principais agências ocidentais implica o predo-
falar de um imperialismo dos media. Fala-se do mínio de uma "perspectiva do Primeiro Mundo" na
estabelecimento de um império cultural. Considera- informação transmitida. Assim, tem-se afirmado que
-se que a situação dos países menos desenvolvidos é a atenção dada ao mundo em vias de desenvolvimen-
particularmente sensível devido à falta de recursos to se traduz em informações noticiosas principalmen-
para manter a sua própria independência cultural. te em tempo de desastres, de crises ou de confronta-
Os quartéis-generais dos vinte maiores conglome- ção militar, e que outro tipo de informações diárias a
rados de media do mundo são todos localizados em que se assiste no mundo industrializado não são
nações industrializadas; a maioria deles encontra-se adoptadas nas coberturas dedicadas ao mundo em
nos Estados Unidos. Os impérios da comunicação desenvolvimento.
como a A O L - TimeWarner, a Disney/ABC e a Via- Herbert Schiller afirmou que o controlo das comu-
483 O S MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

A cobertura televisiva do m u n d o e m vias d e desenvolvimento


Um relatório encomendado por fundações britâni- 70 por cento. O relatório"Losing Perspectiva reve-
cas dedicadas à ajuda internacional, ao desenvolvi- lou que grande parte da programação sobre assun-
mento e ambiente revelou que a qualidade e quan- tos sérios - como os direitos humanos, a pobreza e
tidade da cobertura televisiva do mundo em vias de o ambiente - é discutida a altas horas d a noite ou
desenvolvimento tem decrescido dramaticamente de manhã cedo em momentos do dia com audiên-
durante a última década: o número total de horas de cias tipicamente reduzidas. C o m mais de 60 por
programação informativa sobre os países em vias cento de programas sobre o mundo em desenvolvi-
de desenvolvimento desceu para 50 por cento. mento que focem a vida selvagem e as viagens,
Alguns canais dedicam-se sobretudo a programas argumentam os críticos ser virtualmente impossível
sobre a vida selvagem e viagens, enquanto outros que cidadãos ocidentais entendam as vidas de 8 0 %
têm simplesmente reduzido os horários de progra- da população mundial que não vive no "Primeiro
mação - a ITV desceu a sua cobertura em mais de Mundo" (Stone, 2000),

nicações globais por parte de empresas americanas Os m e d i a globais e a d e m o c r a c i a


tem de ser observado em relação com vários factores.
Schiller sustenta que as cadeias americanas de T V e No seu trabalho sobre os media globais, Edward Her-
rádio têm vindo gradualmente a cair sob a influência man e Robert McChesney (1997) exploram os efeitos
do governo federal e, em particular, do Departamen- dos meios de comunicação internacionais no funciona-
to da Defesa. Mostra como a R C A , que também é mento dos Estados democráticos. Por um lado, a
proprietária das cadeias de televisão e rádio da N C B , expansão de fontes de comunicação globais pode pres-
é, também, um dos principais subcontratantes do sionar com sucesso os governos autoritários a reduzi-
Pentágono, o quartel-general das Forças Armadas e rem o seu controlo sobre as emissões controladas pelo
da defesa dos Estados Unidos. As exportações televi- Estado. Enquanto se toma progressivamente difícil
sivas americanas, juntamente com a publicidade, conter produtos de media no âmbito de fronteiras
fazem a propaganda de uma cultura comercial que nacionais, muitas sociedades "fechadas" estão a desco-
corrói formas locais de expressão cultural. Mesmo brir que os meios de comunicação podem ser uma
nos países onde os governos proíbem transmissões poderosa força de apoio à democracia (ver caixa).
comerciais dentro das suas fronteiras, em muitos Mesmo num sistema político multipartidário como o
casos, é possível captar frequentemente as rádios e as da índia, verifica-se que a comercialização da televisão
televisões de países vizinhos. permitiu mais proeminência às opiniões de políticos da
oposição (ver caixa - A televisão e a globalização: o
Schiller afirma que, embora os americanos tenham
caso da índia). Os meios de comunicação globais têm
sido os primeiros a ser afectados pelo «casulo da
permitido a disseminação em larga escala de pontos de
mensagem produzida pelas empresas..., o que está
vista como o individualismo, o respeito pelos direitos
agora a acontecer é a criação de um novo ambiente
humanos e a promoção dos direitos das minorias.
informativo e cultural totalmente dominado pelas
grandes empresas» (Schiller, 1989, páginas 168, Porém, Herman e McChesney também sublinha-
128). Dado as empresas e a cultura americana serem, ram os perigos da ordem global dos media e a amea-
globalmente, dominantes, elas têm «esmagado uma ça que tal representa para o funcionamento saudável
boa parte do mundo», de tal modo que «o domínio da democracia. À medida que os meios de comunica-
cultura] americano... estabelece as fronteiras do dis- ção globais se tornam cada vez mais concentrados e
curso nacional" (Schiller. 1991, p. 22). comerciais, afectam o funcionamento da importante
484 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

A Televisão na China: o "centro da t e m p e s t a d e cultural"

Mais de uma década âpós os acontecimentos dra- visivas como um meio de unir o pais e promover a
máticos de 1989, a queda do muro de Berlim e o Km autoridade do partido. Todavia, a televisão pode ser
da Guerra Fria entre o Este e o Oeste, a televisão um meio volátil. Não só não é possível, numa era de
tornou-se o palco central das lutas em torno da canais por satélite, controlar as transmissões televi-
democratização na República Popular da China. sivas de uma forma rígida, como as audiências chi-
A natureza contraditória da globalização é ilustrada nesas mostraram vontade de interpretar o conteúdo
claramente na China, país que sofre uma rápida televisivo de modo contraditório com as intenções
transformação cultural e económica debaixo do olho governamentais (LuII, 1997).
vigilante do Partido Comunista Chinês.
Com base em entrevistas efectuadas a 100 famí-
Como parte da sua agenda de modernização lan- lias chinesas, James Lull concluiu que as audiências
çada há mais de duas décadas, o governo chinês chinesas, tal como outras populações sob regimes
supervisionou a expansão de um sistema nacional comunistas, eram "hábeis a interpretar, lendo entre
de televisão e encorajou os seus cidadãos a com- as linhas de forma a captar as mensagens menos
prar televisões. O governo viu as transmissões tele* óbvias". Nas suas entrevistas, Lull notou que os seus

esfera pública no modo descrito por Habermas (ver de modo a que estes reflictam as tradições locais, cul-
p. 465 em cima). Alega-se que os media comerciali- turas e prioridades. A religião, a tradição e pontos de
zados dependem do poder das receitas de publicida- vista populares constituem fortes entraves à globali-
de, sendo assim compelidos a favorecer conteúdos zação dos media, ao mesmo tempo que regulamentos
que garantam o aumento das audiências e das vendas. locais e instituições de comunicação nacionais tam-
Como resultado, o entretenimento triunfará necessa- bém podem desempenhar um papel na limitação do
riamente sobre a controvérsia e o debate. Esta forma impacto dos media globais.
de autocensura pelos media enfraquece a participa- A l i Mohammadi investigou a resposta de países
ção dos cidadãos nos assuntos políticos e mina a
islâmicos às forças de globalização dos media (1998).
compreensão das pessoas dos assuntos públicos. De
A ascensão de impérios internacionais de electrónica
acordo com Herman e McChesney, os media globais que operam através de fronteiras estatais é percebida
são pouco mais do que os "novos missionários do como uma ameaça à identidade cultural e aos interes-
capitalismo global": o espaço de comunicação não
ses nacionais de muitos estados islâmicos. De acordo
comercial está firmemente a ser tomado por aqueles
com Mohammadi, a resistência contra a incursão de
que estão ansiosos por lhe dar o "melhor uso econó-
formas de media externas vai desde a crítica silencio-
mico" (Herman, 1998). Aos seus olhos, a "cultura de sa à recusa de qualquer tipo de satélites ocidentais.
entretenimento" promovida pelas instituições mediá- A reacção à globalização dos media e a acção tomada
ticas está seguramente a atrofiar a esfera pública e a
por países individuais em grande parte reflecte o tom
minar a democracia.
das suas respostas em relação ao legado do colonialis-
mo ocidental e à invasão da modernidade. Ao analisar
as respostas islâmicas à globalização dos media,
R e s i s t ê n c i a e a l t e r n a t i v a s aos m e d i a globais Mohammadi divide os estados em três grandes cate-
gorias: modernizado, misto e tradicional.
Embora o poder e o alcance dos meios de comunica-
ção globais sejam inegáveis, há forças em todos os Até meados dos anos 8 0 , a maioria da programa-
países que podem servir para desacelerar a investida ção televisiva no mundo islâmico foi produzida e dis-
dos media e que modelam a natureza destes produtos tribuída no âmbito das fronteiras nacionais ou através
485 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

entrevistados não só descreviam o que viam, mas prias opções na vida real estão sob constrangimen-
como o viam: "Os telespectadores tornam-se peritos to. A televisão comunicava às audiências chinesas
a imaginar a verdadeira situação, porque sabem que que outros sistemas sociais pareciam funcionar
q governo altera e exagera os seus relatórios. O que mais suavemente e oferecerem maior liberdade que
é apresentado, o que é deixado de fora, os assuntos o seu.
prioritários, como são ditas as coisas: todos estes Lu)) chegou à conclusão de que a televisão trou-
meios são observados e interpretados com sensibi- xe à luz do dia a contradição fundamental entre a
lidade (1997, pp. 266-7). voz monolítica do dominante Partido Comunista e
Lull concluiu que muitas das mensagens passa- -realidades alternativas" que podem ser vistas na TV.
das às audiências chinesas na T V - principalmente Para o autor a televisão está no "centro de uma tem-
em filmes importados e anúncios - são contraditó- pestade cultural" sobre o futuro da China. A televisão
rios com o modo de vida e as oportunidades dispo- tem-se tornado um meio agitador, confirmando e
níveis na sua própria sociedade. Ao observar os incentivando o descontentamento popular sobre a
conteúdos televisivos que colocam a ênfase na indi- falta de liberdades pessoais, a economia instável e a
vidualidade e na sociedade de consumo, muitos burocracia entrincheirada.
telespectadores chineses sentem que as suas pró-

do Arabsat - a rede de radiodifusão por satélite pan- rotulando-os como fonte de "poluição cultural" e de
árabe abrange vinte e um estados. A liberalização da promoção de valores do consumidor ocidental.
radiodifusão e o poder da T V global por satélite No entanto, estas respostas cerradas estão em
transformaram os contornos da televisão no mundo minoria. Mohammadi conclui que, embora os países
islâmico. Os acontecimentos da Guerra do Golfo em islâmicos tenham respondido à globalização dos
1991 tornaram o Médio Oriente um centro das aten- media tentando resistir ou providenciar uma alterna-
ções para a indústria global dos media > afectando sig- tiva, muitos consideraram necessário aceitar certas
nificativamente as transmissões televisivas, bem modificações na sua cultura de forma a manter a sua
como o consumo na região. Os satélites espalharam- própria identidade cultural. Aos seus olhos, a "abor-
-se rapidamente, com o Bahrein, o Egipto, a Arábia dagem tradicionalista", seguida, por exemplo, pelo
Saudita, o Kuwait, o Dubai, a Tunísia e a Jordânia a Irão e pela Arábia Saudita, está a perder terreno para
lançarem todos canais por satélite em 1993. N o final respostas baseadas na adaptação e na modernização
da década, eram muitos os estados islâmicos que (Mohammadi 1998).
tinham estabelecido os seus próprios canais por saté-
lite e o acesso a programas de media globais.
A q u e s t ã o da regulamentação d o s media
E m alguns estados islâmicos, no entanto, os temas
e material com que se lida na televisão ocidental têm Muitos estão preocupados com o aumento da influên-
criado tensão. Os programas relacionados com direi- cia dos empresários dos meios de comunicação social
tos humanos e com questões de género são particu- e das grandes empresas, na medida em que estas
larmente controversos. A Arábia Saudita, por exem- companhias constituem um negócio que não só vende
plo, já não apoia a B B C Arabic, devido a preocupa- mercadorias, como também influencia opiniões. Os
ções relacionadas com a sua cobertura de temas rela- proprietários dessas empresas, como Murdoch, não
tivos aos direitos humanos. Três estados islâmicos - escondem as suas inclinações políticas, o que, forço-
Irão, Arábia Saudita e Malásia - cortaram o acesso samente, se toma um motivo de preocupação para os
por satélite à televisão ocidental. O Irão tem sido o partidos políticos e para outros grupos com diferentes
oponente mais sistemático aos media ocidentais. posições políticas.
486 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

O s e m p r e s á r i o s d o s media: Rupert Murdoch


Rupert Murdoch é um empresário, nascido na Aus* céus» na transmissão por via satélite, cobrindo uma
trália» dono de um dos maiores impérios dos meios á r e a que se estende do Japão à Turquia, compreen-
de comunicação social. As holdings da News Corpo- dendo os mercados gigantes da índia e da China.
ration incluem nove meios de comunicação a operar Transmite cinco canais, um dos quais é o BBC World
em seis continentes. Em 1996, a companhia teve News (as notícias do mundo da BBC).
lucros na ordem dos 10 biliões de dólares america- Em 1985, Murdoch comprou metade da compa-
nos. Murdoch criou a News Corporation na Austrália nhia cinematográfica Twentieth-Century Fox, a quem
antes de se voltar para os mercados americano e pertencem os direitos de mais de 2000 filmes. A sua
britânico nos anos 60. Começou por adquirir o News Fox Broadcasting Company surgiu em 1987, to man-
of the World e o Sun na Grã-Bretanha em 1969 e o do-se a quarta maior cadeia televisiva nos Estados
New York Post em meados dos anos 70, estabele- Unidos depois da ABC, C B S e NBC. Actualmente,
cendo as bases para a enorme expansão d e aquisi- Murdoch é dono de vinte e duas estações de televi-
ções posteriores. Actualmente os bens da News são nos S U A , q u e cobrem mais de 4 0 por cento
CorporationIncluem mais de 130 jornais em San dos lares com T V nos Estados Unidos. Também con-
Antonio, Boston, Chicago e outras cidades. Murdoch trofa vinte e cinco revistas, incluindo a popular TV
transformou muitos desses Jornais e m jornais sen- Guide. Em 1987, Murdoch adquiriu as editoras Har-
sacionalistas, que se apoiam em trés temas: sexo, per and Row dos Estados Unidos - denominadas
crime e desporto. O Sun tornou-se um grande agora HarperCollins.
sucesso, com uma circulação de mais de 4 milhões
Recentemente, Murdoch investiu fortemente na
por dia.
lucrativa Indústria de televisão digital por satélite, em
Nos anos 80, Murdoch começou, também, a especial na -cobertura de eventos desportivos ao
expandir-se na televisão, criando a Sky TV, um canal vivo como o basquetebol ou o futebol. De acordo
por satélite e por cabo que, após alguns reveses ini- com Murdoch, a cobertura desportiva é o "aríete"
ciais , provou ser um êxito comercial. Também detém para entrar em novos mercados dos media (Herman
64 por cento da cadeia Star TV, sediada em Hong e McChesney 1997). Em virtude de os eventos des-
Kong. A sua estratégia declarada é «controlar os portivos se verem melhor ao vivo. são adequados ao

Há um certo fundo de verdade na afirmação de quais os limites a aplicar? E , dado o carácter global
Murdoch de que só os governos criam monopólios. destas empresas, poderão os governos dos vários paí-
Murdoch não é um monopolista e teve de correr gran- ses, realmente, fazer esse controlo?
des riscos financeiros - e perdas - para obter a posi- A questão da regulamentação dos meios de
ção que hoje tem. T e m de enfrentar não apenas a comunicação é mais complexa do que pode parecer
competição de outros gigantes dos meios de comuni- à primeira vista. Parece óbvio que é do interesse
cação social, como os que são liderados por Eisner, público a existência de diversas organizações ligadas
mas também a de muitos outros competidores. N o aos meios de comunicação social, porque esta será,
entanto, a ideia de que a competição no mercado provavelmente, a forma de assegurar que muitos par-
impede que as grandes companhias dominem as tidos e facções políticas sejam ouvidas. N o entanto,
indústrias é. no mínimo, questionável. colocar limites aos que detêm o controlo dessas
Por reconhecerem esta situação, todos os países empresas e às formas de tecnologia que utilizam,
tomaram providências para controlar o poderio dos pode afectar a prosperidade económica do sector. U m
empresários dos meios de comunicação social, Mas país que se assume como demasiado limitador pode-
OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO OE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL 487

formato M
pay-per-view*, lucrativo para Murdoch e nas existir quando os governos os apoiam». «Nós,
para os anunciantes. Existe uma forte concorrência os das empresas noticiosas», continuou Murdoch a
pela obtenção dos direitos de transmissão de desa- dizer, «somos iluminados». Ele descobriu que na
a fios importantes entre a News Corporation e outros índia, para onde está apontada a Star TV, milhares
^impérios dos media, já que a procura global relativa de operadores privados tinham investido em antenas
as> desporto eclipsa outro tipo de eventos. parabólicas e estavam a vender a programação da
; Os governos podem causar embaraços a Mur- Star ilegalmente. Bem, o que devíamos fazer, afirma
doch, porque, pelo menos dentro das suas fronteiras, Murdoch, era aplaudir! E concluiu afirmando, «espe-
podem legislar no sentido de limitar o controlo cruza- ramos vir a manter uma sociedade duradoura com
is do dos media - isto é, uma situação em que uma estes fantásticos empresários» (Murdoch, 1994).
inesma firma é detentora de vários jornais e estações Durante algum tempo, Murdoch foi o chefe da
% d e televisão. A União Europeia também tem exprimi- maior organização ligada aos meios de comunica-
"i do a sua preocupação em relação à posição domi- ção social que o mundo jamais conheceu. Contudo,
nante de grandes empresas de media. Todavia, o em 1995, foi ultrapassado. Nesse ano deu-se a
poderio de Murdoch não é fácil de conter, dado estar fusão da Companhia Disney com a ABC, a cadeia
disseminado de uma forma global. Tem peso sufi- americana de televisão. O presidente da Disney
>

Michael Eisner deixou claro que quer competir com


ad e n t e para influenciar governos, mas isso deve-se à
Murdoch nos mercados de grande expansão da
natureza do negócio das telecomunicações que está,
Ásia. A resposta de Murdoch à fusão foi: «Eles agora
simultaneamente, em toda a parte e em parte nenhu-
são duas vezes maiores do que eu». E acrescentou:
ma. A base do poder de Murdoch não só é muito M
Um desafio maior". A recente fusão da AOL e
^grande, como também difícil de controlar.
TtmeWarner apresentou outro desafio para Mur-
Num discurso em Outubro 1994, Murdoch referiu-
doch, mas parece claro que ele não se encolherá
se àqueles que vêem o seu império como uma
com o desafio. O s quadros superiores da Disney,
ameaça à democracia e à liberdade de expressão.
TimeWarner e Viacom observaram todos que Mur-
«Porque os capitalistas estão sempre a tentar apu-
doch é o executivo dos media que mais respeitam e
nhalasse uns aos outros pelas costas*, Murdoch
Vt temem - e cujos movimentos estudam atentamente
• afirma, «os mercados livres não conduzem a mono- (Herman e McChesney 1997).
pólios. Essencialmente, os monopólios podem ape-

rá ficar para trás. As indústrias ligadas aos meios de mercado por duas ou três grandes companhias dos
comunicação social são as que apresentam um cres- meios de comunicação social ameaça, simultanea-
cimento mais rápido na economia dos nossos dias. mente, não só uma sã competição do mercado, a nível
Os que criticam a concentração dos meios de económico, como o sistema democrático - pois os
comunicação dizem que as grandes companhias empresários dos media não são eleitos. A legislação
detêm excessivo poder. Os empresários, por outro que existe contra os monopólios pode ser aplicada
lado, argumentam que, se se tiverem de sujeitar a aqui, embora varie muito por toda a Europa e em
uma regulamentação, não poderão tomar decisões muitos países desenvolvidos.
comerciais eficazes e que irão perder no âmbito da Competitividade quer dizer pluralismo ou, pelo
competição global. A l é m disso, perguntam: Quem irá menos, deveria querer dizer - e, presumivelmente, o
fazer essa regulamentação? E quem irá controlar os pluralismo é bom para a democracia. Mas o pluralis-
que regulamentam? mo será suficiente? Muitos apontam para os Estados
U m fio condutor para uma regulamentação dos Unidos ao defenderem que a pluralidade de canais de
media seria o reconhecimento de que o domínio do meios de comunicação não garante a qualidade e o
488 OS MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

rigor dos conteúdos. Muitos vêem a manutenção de nologia de informação por toda a Europa, o que tem
um sector público de transmissões forte como um sido difícil de criar. O papel da U . E . na regulamenta-
elemento chave para impedir o domínio das grandes ção dos media continua fraco, e o documento da polí-
companhias de meios de comunicação social. Toda- tica actual 'Televisão sem fronteiras" será rectificado
via, os sistemas de transmissão públicos, o que na de novo só em 2002.
Grã-Bretanha é sinónimo de B B C , criam novos pro-
blemas. N a maior parte dos países costumavam ser,
eles próprios, monopólios e em muitos países eram Conclusão
efectivamente usados como meios de propaganda
governamental. A questão relativa a saber-se quem
Como indivíduos, não controlamos as alterações tec-
irá regulamentar os regulamentadores aparece aqui
nológicas, e o ritmo acelerado dessas alterações
com toda a força.
ameaça engolir as nossas vidas. N o entanto, a chega-
U m a questão que complica a problemática da da da era de um mundo ligado por fios não nos con-
regulamentação dos meios de comunicação social é a duziu, ainda, ao Big Brother; pelo contrário, tem pro-
da velocidade muito rápida das alterações ao nível da movido a descentralização e o individualismo. Ape-
tecnologia. Os meios de comunicação estão a ser sar do enorme debate em tomo do colapso potencial
transformados constantemente por inovações técni- da infraestrutura global de computadores na viragem
cas e por formas tecnológicas outrora distintas e hoje do milénio - o tão designado U bug do ano 2000" - o
e m convergência. Se os programas de televisão são momento passou-se relativamente sem problemas.
vistos na Internet, por exemplo, qual o tipo de regu- Finalmente, não parece provável que os livros e
lamentação dos media que se aplica? Entre os estados outros meios de comunicação social «pré-eleciróni-
membros da União Europeia, a questão da conver- cos» desapareçam. Apesar de tudo, o livro é mais
gência dos media e das telecomunicações está na fácil de manusear do que uma qualquer versão com-
ordem do dia. A o mesmo tempo, alguns sentem ser putadorizada. M e s m o Bill Gates também achou
necessário produzir legislação coordenada para har- necessário escrever um livro para descrever o novo
monizar as telecomunicações, a radiodifusão e a tec- mundo de alta tecnologia que está a antecipar.

Os meios de comunicação social de massa vieram a desempenhar um papel fun-


1
1 > damental na sociedade moderna. Os meios de comunicação de massas são meios
de comunicação - os jornais, as revistas, a televisão, a rádio, o cinema, os C D s ,
os vídeos e outras formas - que atingem audiências de massa, e a sua influência
nas nossas vidas é profunda. Os media não proporcionam só entretenimento,
mas fornecem e moldam muita da informação sobre a qual nós agimos na nossa
vida quotidiana.
Os jornais encontravam-se entre os mais importantes meios de comunicação
social. Continuam a ter uma importância significativa, mas outros meios mais
recentes, em particular a televisão e a Internet, vieram suplementá-los.
Depois da Internet, a televisão é o desenvolvimento mais importante nos media
nos últimos quarenta anos. N a maioria dos pafses,o Estado encontra-se directa-
mente envolvido na administração da televisão pública. A transmissão via saté-
lite ou por cabo está a alterar a natureza da televisão em vários aspectos funda-
mentais. A televisão pública está a perder quota de audiência perante a emer-
gência de múltiplos canais, e os governos têm menos controlo sobre o conteúdo
dos programas de televisão.
489 O S MEIOS OE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

4 T ê m sido desenvolvidas uma série de teorias sobre os media e sobre a cultura


popular, lnnis e McLuhan afirmam que a influência dos meios de comunicação
social é maior em termos do modo como comunicam do que em termos do con-
teúdo que comunicam. Nas palavras de McLuhan: «o meio é a mensagem»; a
televisão, por exemplo, influencia o comportamento e as atitudes, porque, por
natureza, é muito diferente de outros meios de comunicação social, como os jor-
nais ou os livros.
$ Outros importantes teóricos são Habermas, Baudrillard e Thompson. Habermas
aponta para o papel dos meios de comunicação social na criação da «esfera
pública» - a esfera da opinião pública e do debate público. Baudrillard foi for-
temente influenciado por McLuhan. Ele acredita que os novos meios de comu-
nicação social, e em especial a televisão, mudam, efectivamente, a «realidade»
em que vivemos. Thompson diz que os meios de comunicação social de massas
criaram uma nova forma de interacção social - «a quase-interacção mediada» -
que é mais limitada, mais estreita e com um sentido único, em comparação com
a interacção do dia-a-dia em sociedade.
6 Recentemente, os avanços nas novas tecnologias de comunicações têm vindo a
transformar as telecomunicações - a comunicação de texto, sons ou imagens à
distância através de um meio tecnológico. A digitalização, a fibra óptica e os sis-
temas por satélite funcionam em conjunto para facilitar o multimédia - a com-
binação de diversas formas de media num único meio - e o media interactivo,
que permite aos indivíduos participar no que vêem ou ouvem. Os telemóveis
estão na vanguarda das inovações nas telecomunicações.
7 A Internet está a permitir níveis sem precedentes de interconexão e interactivi-
dade. O número de utilizadores da Internet por todo o mundo tem crescido rapi-
damente e o número de actividades que podem ser realizadas online continua em
expansão. A Internet está a oferecer novas possibilidades excitantes, mas alguns
receiam que esta possa ameaçar os relacionamentos humanos e as comunidades
encorajando o isolamento social e o anonimato.
8 A indústria dos media tornou-se global nas últimas três décadas. Podem discer-
nisse diversas tendências, a saber: a propriedade dos meios de comunicação
social está progressivamente concentrada nas mãos de grandes conglomerados;
a propriedade privada dos meios de comunicação social está a eclipsar a pro-
priedade pública; as empresas de comunicação social ultrapassam as fronteiras
nacionais e diversificam as suas actividades: e as fusões entre empresas de
comunicação social têm-se tomado mais frequentes. A indústria global dos
media - música, televisão, cinema, notícias - é dominada por um reduzido
número de empresas multinacionais.
9 O sentimento que se tem, hoje em dia, de habitarmos um único mundo resulta
em parte do alcance internacional dos meios de comunicação. Fala-se de uma
ordem da informação mundial - um sistema internacional de produção, distri-
buição e consumo de matéria informativa. A posição privilegiada dos países
desenvolvidos, no que respeita à ordem da informação mundial, leva a que mui-
tos acreditem que os países do Terceiro M u n d o estejam sujeitos a uma nova
forma de imperialismo dos media. Muitos críticos receiam que a concentração
do poder dos media nas mãos de algumas companhias ou indivíduos poderosos
possa ameaçar o funcionamento da democracia.
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490 OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A COMUNICAÇÃO EM GERAL

1 Deveriam os governos procurar proteger as culturas nacionais, limitando a


expansão da T V por cabo e por satélite?
1 2 Se a sua única fonte de informação fossem as telenovelas, de que forma a visão
'•PARÁ REFLEXÃO
do seu país seria distorcida ou incompleta?
3 Os mass media ampliam ou reduzem a possibilidade de um debate público aber-
to?
4 Quem poderia ser o leitor na Internet?
5 A concentração de propriedade na indústria da música terá levado à redução da
escolha do consumidor?
6 A globalização das comunicações irá melhorar a nossa compreensão de diferen-
ças culturais, ou aniquilará tais diferenças?

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