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“A cultura da Educação” de Jerome

Bruner

Este foi um livro fundamental em minha trajetória acadêmica, mesmo sendo uma leitura recente.
Demorei pra ler (200 páginas em 2 tardes), mas às vezes o tempo é necessário para que a leitura
seja mais rica e produtiva.

E ainda mais importante que ler, é transcrever as passagens importantes e articular a leitura em
paráfrases e explicações orais (aos amigos e marido cobaia), com direito a debates e devaneios.

Como Bruner mesmo diz, só 'externalizando' o conhecimento adquirido é que o aprendizado se


'concretiza'. Essa é minha maior razão de socializar parte de minhas leituras e reflexões no blog:
iluminar, instigar, provocar, trocar (ou qualquer coisa parecida) com possíveis leitores e
interessados! =)

Segue o super resumo, com ênfase nos capítulos que mais me interessaram:

Prefácio

“O ensino é apenas uma pequena parte do modo como uma cultura inicia as crianças em suas
formas canônicas.” (P.vii)

Bruner questiona o objetivo das escolas “que deveria ser o de simplesmente reproduzir a
cultura”, inserindo nos alunos, os valores, normas, padrões e comportamentos da sociedade em
que vivem, mas acredita que a principal preocupação deveria ser a de “preparar os alunos para
lidarem com o mundo em mutação no qual estarão vivendo!”

Bruner diz que o título deste livro se deve ao fato de que “a cultura molda a mente” e é ela que
“nos dá um conjunto de ferramentas com as quais construímos não apenas nossos mundos, mas
nossas próprias concepções de nós mesmos e de nossas capacidades.”

“O conhecimento adquirido é mais útil para alguém que está aprendendo quando ele é
‘descoberto’ por meio dos esforços cognitivos do próprio indivíduo que está aprendendo,
pois, dessa forma, ele é relacionado ao que se conhecia antes e utilizado em referência a
isto.” – Aprender fazendo! “O professor, nesta versão da pedagogia, é um guia para o
entendimento, alguém que ajuda o aluno a descobrir por conta própria.” (P. XI)

Bruner considera a narrativa “como um modo de pensamento e uma expressão da visão de


mundo de uma cultura. É por meio de nossas próprias narrativas que construímos
principalmente uma versão de nós mesmos no mundo, e é por meio de sua narrativa que
uma cultura fornece modelos de identidade e agência de membros. A apreciação da
narrativa não vem de uma única disciplina, mas de uma confluência de muitas: literatura,
socioantropologia, lingüística, história, psicologia, até mesmo informática.”

Bruner valoriza as escolas que ‘estabeleceram ‘culturas de aprendizagem mútua’, pois seria a
melhor maneira de compartilhar a cultura, trocando “conhecimento e idéias, divisão de trabalhos,
troca de papéis e oportunidade de refletir sobre as atividades do grupo.” (relação com Jenkins e
Levy – comunidades do conhecimento)

1. Cultura, mente e educação (mais revelador!)


Resumo: Neste capítulo, Bruner distingue sobre duas visões da mente – computacional e
cultural, onde a cultural seria a mais adequada para pensar a educação. O papel da escola seria
o de transmitir e oportunizar uma construção cultural dos alunos, onde a expressão
narrativa seria parte fundamental da construção de identidade e desenvolvimento de auto-
estima. Ele estabelece 9 preceitos fundamentais relacionados à educação e cultura: perspectiva,
restrições, construtivista, interacional, externalização , instrumentalismo, institucional,
identidade/auto-estima e narrativo

Na visão do culturalismo, “a mente não poderia existir se não fosse a cultura”, pois “a evolução
da mente humana está ligada ao desenvolvimento de uma forma de vida onde a ‘realidade’ é
representada por um simbolismo compartilhado por membros de uma comunidade cultural na
qual uma forma técnico-social de vida é organizada e interpretada em termos desse simbolismo.
Esse modo simbólico não é apenas compartilhado por uma comunidade, mas conservado,
elaborado e transmitido a gerações da sucessivas que, devido a esta transmissão, continuam a
manter a identidade da cultura e o modo de vida.” (p.16)

Além disso, Bruner diz que o culturalismo “toma como sua primeira premissa o fato de que a
educação não é uma ilha, mas parte do continente da cultura.” (p.22)

“A cultura, portanto, embora produzida pelo homem, ao mesmo tempo forma e possibilita o
funcionamento de uma mente distintamente humana. Nesta visão, a aprendizagem e o
pensamento estão sempre situados em um contexto cultural e dependem da utilização de
recursos culturais. (...) A mente igualada ao poder de associação e à formação de hábitos
privilegia o ‘exercício de repetição’ como a verdadeira pedagogia, ao passo que a mente
considerada como capacidade de reflexão e discurso sobre a natureza de verdades necessárias
favorece o diálogo socrático. E, ainda, tudo isto está ligado a nossa concepção de sociedade e
cidadãos idéias.” (p.17)

“Pensar sobre o pensar deve ser um ingrediente principal em qualquer prática da educação que
delegue poderes.” (p.28)

Em relação ao papel da educação é importante considerar que ‘a realidade que atribuímos


aos mundos que habitamos são realidades construídas’ e a ‘educação deve ser concebida
como algo que auxilie o ser humano a aprender a utilizar as ferramentas de produção de
significado e de construção da realidade, a adaptar-se melhor ao mundo em que ele se
encontra, ajudando no processo de modificá-lo quando necessário. Neste sentido, ela
pode até mesmo ser concebida como ajudando a se tornarem melhores arquitetos e
construtores.’ (p.28-29) (relação com Hannah Arendt)

Bruner então critica a educação tradicional, que ignora o saber dos alunos, como se
fossem’ tabulas rasas’ e torna professores transmissores do saber. Na opinião dele, a
melhor maneira de superar essa visão e abordagem pedagógica seria considerar espaços
onde os indivíduos ajudam uns aos outros, cada qual de acordo com suas habilidades,
como já defende Jenkins e Levy sobre as comunidades do conhecimento e inteligência
coletiva. Isso não quer dizer que a presença de um professor não seja necessária, mas
que ele não precisa exercer sua função de forma monopolizada, mas possibilitar um
espaço de troca entre todos! (p.29)
Para Bruner “a aprendizagem (e tudo mais que ela possa ser) é um processo interativo no qual
as pessoas aprendem umas das outras, e não apenas mostrando e dizendo.” (relação com Paulo
Freire)

Neste sentido, Bruner considera de extrema importância a externalização do


conhecimento, pois só assim envolve “um registro de nossos esforços mentais, que fica
fora de nós e não vagamente na memória. É algo parecido como produzir um rascunho,
um esboço, uma ‘maquete’” do saber. (p.31)

“O maior marco na história da externalização foi o surgimento da escrita e da leitura, que


colocaram o pensamento e a memória que andavam ‘por aí’ em tabuletas de argila ou em
papel. (p.32)

Bruner destaca que a escola é um dos primeiros contatos da vida fora da família, portanto
essencial na formação de identidades e papéis sociais. (p.41) Seria então fundamental que as
instituições de ensino trabalhassem a auto-estima da criança ou deixariam de cumprir uma das
suas funções principais.

“A escola é uma entrada para a cultura e não apenas um preparo para a mesma, então devemos
reavaliar constantemente o que a escola faz para a concepção que o aluno jovem tem de seus
próprios poderes e de suas chances percebidas de ser capaz de lidar com o mundo na escola e
após a mesma (sua auto-estima).”

“O modo de pensar e sentir que ajuda as crianças (e pessoas em geral) a criar uma versão
do mundo na qual, psicologicamente, elas podem vislumbrar um lugar para si – um mundo
pessoal. Acredito que a invenção de histórias, a narrativa, é o elemento necessário para
isto.” (p.43)

“Narrativa como um modo de pensamento e como um veículo de produção de significado.” (p.44)

Bruner diz que parece haver duas formas dos seres humanos organizarem seu conhecimento
do mundo: pensamento lógico-científico e narrativo. (p.44)

E o autor diz que “a convenção na maioria das escolas tem sido tratar as artes da narrativa –
canto, drama, ficção, teatro (e porque não, cinema) – mais como ‘decoração’ do que
necessidade, algo cm o qual adornamos o lazer, às vezes até mesmo como algo moralmente
exemplar”. (p.44)

Bruner diz que nossas experiências são estruturadass em formato de histórias, onde
“representamos nossas vidas (para nós mesmos e para os outros) na forma de narrativa
e onde nos identificamos e construímos nossas identidades. É de extrema importância
desenvolver uma sensibilidade narrativa, ou teremos problemas em identificar nossa
personalidade e nosso lugar no mundo. Bruner diz que engana-se aquele que acredita ser
uma habilidade natural, pois ‘para que a narrativa se transforme em um instrumento da
mente no lugar da produção de significado, é preciso lê-la, produzi-la, analisá-la, entender
seus mecanismos, sentir seus usos, discuti-la.” (p. 45)

“Um sistema de educação deve ajudar aqueles que estão crescendo em uma cultura a encontrar
uma identidade dentro dela mesma. Sem ela, eles tropeçam em seu esforço de significado. É
apenas no modo narrativo que um indivíduo pode construir uma identidade e encontrar um lugar
em sua cultura. As escolas devem cultivá-la, alimentá-la e parar de desconsiderá-la.” (p.46)

2. Pedagogia popular
Resumo: Neste capítulo, Bruner comenta sobre o método intuitivo do professor já em sala e a
importância de considerá-lo e fundamentá-lo. Além disso, fala sobre 4 perspectivas da
pedagogia, onde o aluno-ativo seria a visão mais adequada atualmente.

“Ao se elaborar teorias sobre a prática da educação em sala de aula (ou em qualquer outro
contexto, se for o caso) seria melhor levar em consideração as teorias populares que
aqueles que participam do processo de ensino já possuem. Qualquer inovação que você,
como um ‘autêntico’ teórico da pedagogia, possa querer introduzir, substituir ou
modificar, terá que concorrer com as teorias populares que já guiam professores e
alunos.” (p.54)

Bruner recomenda que se considere o saber da criança e a ajude a reconhecer o que já sabe
sobre determinado assunto (externalização), pois assim o educador ‘terá levado as crianças a
reconhecerem que elas sabem muito mais do que pensam saber, mas que elas têm que ‘pensar
sobre o assunto’ para saberem o que sabem”. (...) Ao ensinar e aprender desta forma, significa
que o educador adotou uma teoria da mente (e da aprendizagem). (p.58-59)

Ele exemplifica dizendo que uma discussão em grupo pode gerar mais conhecimento, do que
uma simples ‘descoberta’ do conhecimento (aula expositiva). (p.59)

Bruner diz que há 4 modelos de mente e de pedagogia (forma de ensino e educação) (P.59-
67):

1. Enxergar as crianças como aprendizes por imitação


2. Enxergar as crianças como se estas aprendessem a partir da exposição didática
(inatismo)
3. Enxergar as crianças como seres pensantes
4. As crianças como detentoras de conhecimento
O autor diz então que o ensino real não se limita a apenas um modelo de aprendizagem e de
ensino. “A maior parte das escolas tem por objetivo cultivar habilidades e capacidades, transmitir
um conhecimento de fatos e teorias e cultivar o entendimento das crenças e intenções daqueles
que se encontram próximos e distantes.” (p.67)

Para ele, as concepções adequadas seriam aquelas que enxergam as crianças como seres
pensantes e como detentoras de conhecimento.

3. A complexidade dos objetivos educacionais


Resumo: Neste capítulo, Bruner aborda as contradições na educação (objetivos e funções) e o
papel fundamental do professor como agente transformador, onde o foco deveria ser numa
educação plena, com alunos autônomos, conscientes e que possam transformar e superar sua
realidade e cultura.

4. Ensinando o presente, o passado e o possível


Resumo: Neste capítulo, Bruner defende 4 ideias fundamentais para transformar a educação:
agência, reflexão, colaboração e cultura. Também ressalta a importância da narrativa no
processo educativo e sua estrutura básica.

Bruner destaca 4 idéias cruciais para educação, sendo agência, a capacidade do indivíduo de
assumir maior controle sobre a própria atividade mental; reflexão como capacidade de entender
o que se aprende e seus sentidos; colaboração como a capacidade de compartilhar o
conhecimento entre grupos; e cultura, como um modo de vida e pensamento que construímos
e negociamos, transformando em ‘realidade’.

“Nós não aprendemos um modo de vida e formas de empregar a mente sem auxílio, sem apoio,
nus perante o mundo. E não é apenas a aquisição da linguagem que faz com que as coisas
sejam assim, é o ‘toma lá da cá’ da conversação que torna a colaboração possível. Pois a mente
ativa não é só ativa por natureza, mas também busca o diálogo e o discurso com outras mentes,
também ativas. E é por meio deste processo discursivo e de diálogo que passamos a conhecer
o Outro e seus pontos de vista, suas histórias. Aprendemos muito não apenas sobre o mundo,
mas sobre nós mesmos pelo discurso com os Outros!” (p.94)
“A escola é uma cultura em si, não apenas um preparo, um aquecimento. (..) A cultura é
um conjunto de ferramentas com técnicas e procedimentos para entender o mundo e lidar
com ele. (...) Uma análise mais atenta da estrutura narrativa poderia ajudar os alunos a
entenderem histórias que eles constroem sobre seus mundos.” (p.98)
5. Entendendo e explicando outras mentes
Resumo: Neste capítulo, Bruner fala sobre as teorias da mente e como nossa bagagem cultural
influencia nossa maneira de pensar.

6. Narrativas da ciência
Resumo: Neste capítulo, Bruner relaciona ciência e narrativa.

“Uma das primeiras e mais naturais formas pela qual organizamos nossa experiência e nosso
conhecimento é em termos do formato narrativo. (...) Narrativa é discurso, e a principal regra é
haver um motivo para que o mesmo se distinga do silêncio. (...) Uma história portanto tem dois
lados: uma seqüência de eventos e uma avaliação implícita dos eventos contados. (...) Você não
pode explicar uma história, tudo que pode fazer é dar a ela várias interpretações.” (p.119)

“A arte de levantar perguntas desafiadoras é facilmente tão importante quanto a arte de dar
respostas claras. (...) A arte de cultivar tais perguntas, de manter perguntas vivas, é tão
importante quanto estes dois. Boas perguntas são sempre aquelas que apresentam dilemas, que
subvertem as ‘verdades’ óbvias ou canônicas, que fazem com pré prestemos atenção nas
incongruências.” (p.123)

“Ser capaz de ‘ir além das informações’ dadas para se ‘descobrir as coisas’ é uma das poucas
eternas alegrias da vida. Um dos grandes triunfos de se aprender (e de ensinar) é organizar as
coisas em sua cabeça de uma forma que permita que você saiba mais do que ‘deveria’. O inimigo
da reflexão é a velocidade arriscada – mil imagens. (...) A história é como você consegue extrair
o máximo do mínimo. E a solução é aprender a pensar com o que você já conhece.” (p.125)

7. A interpretação narrativa da realidade


Resumo: Neste capítulo, Bruner fala sobre a estrutura narrativa e sua relação com o ensino.

8. Saber é igual a fazer


Resumo: Neste capítulo, Bruner reflete sobre a teorização da prática e sobre saber intuitivo.

9. O próximo capítulo da psicologia


Resumo: Este capítulo é complexo e o autor dividiu em 2 partes. Bruner fala sobre a importância
de estudar a mente humana em sua capacidade de aprendizado, considerando os aspectos
biológicos, e também os aspectos culturais.