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Laços de Família:

Etnias do Brasil

Family Ties:
Ethnic groups in Brazil
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Laços de Família:
Etnias do Brasil

Family Ties:
Ethnic groups in Brazil

Este livro foi publicado com benefício


da Lei de Incentivo à Cultura nº- 8.313,
do Ministério da Cultura.
This book has been published under
the auspices of the Law of Cultural
Incentive, no. 8313, Ministry of Culture.
A SBD agradece a todos os patrocinadores
SBD is grateful to all sponsors

Realização PROJETO APOIO Institucional


Realization project Institutional Support

Diversidade étnica do Brasil e o Centenário da SBD


Brazil’s Ethnic Diversity and SBD’s 100th Anniversary
A participação no Projeto Cultural do Centenário da Sociedade Brasileira de Participation in the Cultural Project of the Sociedade Brasileira de Dermato-
Dermatologia – SBD é motivo de grande satisfação para a Colgate-Palmolive, por logia – SBD’s 100th Anniversary is motive of great satisfaction for Colgate-Palmolive,
meio da marca Protex. Presente nos lares brasileiros desde a década de 1980, through the Protex brand. A household name in Brazil since the 1980s, Protex has
Protex sempre teve o compromisso de cuidar da saúde da população de seu país always been committed to caring for the country’s population health, supporting
sendo a favor de causas capazes de gerar grandes transformações. causes that are capable of major transformations.
O Projeto do Centenário enaltece a diversidade étnica do Brasil e a saúde The 100th Anniversary Project exalts Brazil’s ethnic diversity and healthy skin,
PATROCINADOR COPATROCINADORES APOIO
da pele, com o propósito de democratizar o conhecimento. E Protex apoia esta and aims to democratize knowledge. Moreover, Protex supports this unprecedented
SPONSOR COSPONSORS SUPPORT
iniciativa inédita, pois acredita que a comunicação e a interação com a popula- initiative because it believes communication and interaction with the population also
ção também se dão por meio da arte, cultura, fotografia e história. occur through art, culture, photography, and history.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia é reconhecidamente importante The Sociedade Brasileira de Dermatologia is recognized as an important reference
referência no exercício da dermatologia no país com ética e competência. Para- in the exercise of dermatology in the country with ethics and competence. Congra-
béns a todos da SBD pela nobre missão e por este memorável aniversário. tulations to all at the SBD for their noble mission and for this memorable anniversary.
O H
Diferentes olhares do conhecimeto O ser humano é, em grande parte, produto do seu meio. Essa é a
premissa que norteou o estabelecimento do foco da presente obra,
que traz leituras diversas sobre o fenômeno do sincretismo e da mis-
Human beings are mostly a product of their own environment. That
assumption has guided the focus of this work, which provides a num-
ber of readings about the phenomenon of syncretism and miscegena-

Different Ways of Looking at Knowledge cigenação do povo brasileiro como traço inerente e potencializador
de sua própria trajetória.
tion of the Brazilian people as an inherent and potentiating trait of
their own course.
Aspectos socioeconômicos, políticos, culturais e biológicos Socioeconomic, political, cultural, and biological aspects are ad-
são aqui levantados, sem a pretensão de esgotar qualquer reflexão ou dressed in this work, with no intention of exhausting any reflections or
mesmo fazer prevalecer este ou aquele ponto de vista. O objetivo é, making a specific point of view prevail over others. First and foremost,
antes, apresentar diferentes olhares sobre questões fundamentais our objective is to present different perspectives about questions that
para a construção da identidade brasileira, como diversidade étnica, have been fundamental to construct the Brazilian identity as a result
que, por sua vez, remete aos aspectos mais elementares relacionados of ethnical diversity, which, in turn, refers to the most elementary
à pele humana e sua influência como fator determinante de múlti- aspects related to the human skin and its influence as a determining
plas experiências de vida – estéticas, sexuais, etárias, religiosas, de factor of multiple life experiences – aesthetical, sexual, age-related, reli-
classe, de gênero etc. – desde os primórdios da humanidade. gious, class- and gender-related – from the earliest origins of mankind.
Do ponto de vista da história da sociedade brasileira, a questão From the point of view of the history of the Brazilian society, the
da pele esteve na ordem do dia entre o fim do século XIX e as pri- fact that the skin issue was at the top of the agenda between the late
meiras décadas do século XX, não por acaso quando o país buscava 19th century and the early 20th century, when the country was seeking
firmar sua identidade. Doenças carregadas de alto teor de preconcei- to establish its identity, was not fortuitous. Diseases burdened with
to, como sífilis e lepra ou hanseníase, cuja incidência atingia pata- intense prejudice, as syphilis and leprosy – or Hansen’s disease – the
mares epidêmicos em razão do desordenado processo de urbaniza- incidence of which reached epidemic levels as a result of a disorderly
ção e da progressiva concentração de pessoas nas grandes cidades, urbanization process and a growing concentration of people in large
eram veementemente combatidas por uma medicina cada vez mais cities, were fought energetically by a type of medicine increasingly
adepta do discurso científico e imbuída do ideal de progresso que based on scientific speech and imbued with an ideal of progress that
culminou com o perfil da sociedade existente nos dias de hoje. culminated in the profile of the currently existing society.
Ainda na seara específica da medicina e da saúde pública, o Still in the specific sphere of medicine and public health, a glance
olhar sobre a evolução da dermatologia no Brasil, que teve na cria- at the evolution of dermatology in Brazil – whose guiding beacon in
ção e na atuação da Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD the course of time was the creation and the initiatives of the Sociedade
importantes balizadores ao longo do tempo, permite aprofundar a com­ Brasileira de Dermatologia – SBD (Brazilian Society of Dermatology)
­preensão das especificidades da pele do povo brasileiro e seu papel- – will help to understand the particulars of the skin of the Brazilian
-chave no direcionamento dos estudos desenvolvidos nessa área. people and their key role in guiding the studies developed in that area.
Os textos de especialistas em história, antropologia, sociologia Texts by specialists in history, anthropology, sociology, and der-
e dermatologia são complementados pelo registro fotográfico de matology are complemented by photographic records of Brazilian citi-
cidadãos brasileiros, especialmente crianças e idosos de diferentes zens, especially children and the elderly from different parts of the
regiões do país, feito por profissionais de renome que se preocupa- country, produced by renowned professionals who endeavored to evi-
ram em evidenciar, por meio dos mais diferentes traços biológicos, dence, by means of the most diverse biological traits, the miscegenation
os processos de miscigenação e aculturação que marcam a consti- and acculturation processes that mark the ethnical constitution and
tuição étnica e o retrato do Brasil atual. the current portrait of Brazil.
Boa leitura e boas descobertas a todos. Enjoy your reading and your findings.
Tempo&Memória / Arte do Tempo Tempo&Memória / Arte do Tempo
Sumário
Table of Contents
A utopia do progresso e da modernidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

The Utopia of Progress and Modernity. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

Sociedade, saúde e medicina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

Society, Health, and Medicine. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

Ensaio sobre a pele.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

Essay on the Skin. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

Harmonia e conflito entre as cores do Brasil étnico: do real ao simbólico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68

Harmony and Conflict in the Colors of Ethnical Brazil: From Real to Symbolic. . . . . . . . . . . . . . . . . . 79

A longevidade e os desafios da dermatologia no século XXI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86

Longevity and the Challenges Facing Dermatology in the 21st Century. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
A pele e a vida no fluxo do tempo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90

Laços de família : etnias do Brasil = Family ties : Skin and Life in the Flow of Time. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
ethnic groups in Brazil / organização da
Editora ; [versão para o inglês Luiz Antonio Marcio Scavone. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Pedroso Rafael]. – São Paulo : Tempo & Memória,
2012. Ary Diesendruck.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110

Edição bilíngue: português / inglês José Caldas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122


Bibliografia.
Gal Oppido. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
1. Características nacionais brasileiras
2. Cultura – Brasil 3. Famílias – Brasil 4. Grupos Patricia Gouvêa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146
étnicos – Brasil I. Título: Family ties : ethnic
groups in Brazil.

11-14110 CDD-306.089698

Índices para catálogo sistemático:


1. Brasil : Cultura e etnias : Antropologia
cultural : Sociologia 306.089698
2. Brasil : Etnias e cultura : Antropologia
cultural : Sociologia 306.089698
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


A utopia do progresso
e da modernidade
As transformações políticas e econômicas que ocorreram Os ideais de modernização e progresso que os ventos ampliava suas fronteiras e entrava para a era da industriali-
na Europa no final do século XIX abriram espaço para a traziam da Europa passaram, então, a nortear a construção zação após a invenção do pneumático, em 1890. Belém e
ampliação das conquistas industriais e a expansão dos ne- da unidade política e cultural brasileira, centrada no forta- Manaus viviam a Belle Époque, com a inauguração do Tea-
gócios entre os países, introduzindo o mundo nas práticas lecimento da identidade nacional. A República, empenha- tro Amazonas, em 1896, testemunhando o período áureo
capitalistas. O clima de otimismo e confiança no progres- da na divulgação de uma imagem civilizada do país, sobre- do ciclo da borracha. Arquitetos, pintores, construtores fo-
so e no futuro estendeu-se à moral, aos costumes e à cul- tudo no campo da ciência e do urbanismo, iniciou, sem ram trazidos da Europa para a realização da obra, com ma-
tura das sociedades. nenhum planejamento, um crescimento acelerado e desor- terial importado, exceto as cadeiras e o piso, confeccionados
No Brasil, a abolição da escravatura e a deposição da denado, que resultou nas péssimas condições de vida de com material local, sob rigorosa supervisão dos europeus.
monarquia marcaram a transição para o século XX. A aliança uma população formada por pessoas recém-saídas de uma Eixos do movimento de modernização inspirado nos
dos militares com os cafeicultores paulistas, ambos ávidos sociedade escravocrata e miscigenada e por imigrantes. ideais republicanos, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro,
para ampliar sua participação política, culminou com o As novas estruturas comerciais e financeiras modifica- a capital federal, incrementavam as ações de remodelação
golpe da proclamação da república e o consequente fortale- vam as feições e características de várias cidades brasileiras, urbana. O café transformou São Paulo, tirando-o da condi-
cimento das velhas oligarquias. Os militares, recalcados sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro. Com a intensificação ção de província culturalmente atrasada. A cidade já vinha
pela posição secundária a que foram relegados, buscavam o da migração, esses centros urbanos transformavam-se em se preparando para atender ao volume de negócios gerados
reconhecimento de sua presença na política, negada pela aglomerados de pessoas de origens e condições sociais pelos capitalistas do interior, que, não raro, optavam por ali
monarquia. Os cafeicultores, por sua vez, detinham o poder diversas que vinham em busca de oportunidades de tra- fixar residência. A necessidade de escoamento do café para o
econômico da nação, já que os engenhos do Nordeste esta- balho. No entanto, esse crescimento acelerado, por um porto de Santos demandou não só o alargamento de ruas e
vam em franca decadência por causa de uma conjuntura lado, refletia progresso e desenvolvimento e, por outro, avenidas como a expansão do sistema ferroviário. A paisa-
internacional desfavorável e pela introdução de outras cul- denunciava a falta de infraestrutura e o despreparo das gem e o ritmo da cidade se modificaram. As velhas constru-
turas na região. Sem condições financeiras, viam-se impos- cidades para alcançar a tão almejada modernidade. ções coloniais foram demolidas para dar lugar a igrejas, pré-
sibilitados não só de implementar qualquer modernização dios e palácios, dos quais sobressaíam as obras do arquiteto
em suas estruturas como de promover a transição da mão O desenvolvimento Ramos de Azevedo; praças e jardins foram remodelados,
de obra escrava para a assalariada. São Paulo, portanto, com e a modernização dos grandes centros avenidas largas rasgaram a cidade, como a Paulista, inaugu-
sua lavoura cafeeira em ascensão, era o cenário privilegiado Os grandes centros apresentavam diferentes caracte- rada em 1891, onde foram erguidos palacetes luxuosos para
para as mudanças econômicas, sociais e urbanísticas; assim, rísticas no final do século XIX: Rio de Janeiro e São Paulo os barões do café, com jardins inspirados no mais puro estilo
nada mais natural que os paulistas reivindicassem igual- mostravam seu potencial produtivo e um acelerado proces- francês. A aristocracia cafeeira começou a se afastar do cen-
dade de representação política entre as províncias. O impe- so de industrialização e modernização, enquanto Salvador e tro, buscando áreas mais saudáveis para fixar residência. No
rador dom Pedro II, porém, negou, e o Império perdeu o Recife mantinham-se nos padrões tradicionais, recuperan- centro, ficaram as casas bancárias, escritórios, sedes de jor-
apoio de São Paulo, sinalizando o fim tardio da monarquia do-se da decadência da lavoura açucareira e tentando uma nais, hotéis, restaurantes e lojas sofisticadas, onde circula-
no Brasil, cem anos depois da Revolução Francesa. reação com o cultivo do cacau. Na região Norte, a borracha vam políticos, jornalistas, homens de negócios, fazendeiros.

Avenida Central, no Rio de Janeiro, na década de 1910. Avenida Central in Rio de Janeiro in the 1910s.
Foi um dos símbolos da reurbanização comandada pelo It was one of the symbols of the reurbanization led by Mayor
prefeito Francisco Pereira Passos, entre 1902 e 1906. Francisco Pereira Passos between 1902 and 1906.
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


No Rio de Janeiro, centro político do país, de grande de pessoas, e de doenças, as medidas de saneamento toma-
projeção social, as mudanças já haviam começado no iní- ram a dianteira no processo de modernização do Brasil e
cio do século, quando a família real mudou-se para o Bra- na construção da sua identidade como República.
sil, em 1808, e a sede da corte foi instalada na cidade, que, A ciência tornou-se a via estratégica para empreen-
a partir de então, foi se consolidando como centro intelec- der a reorganização dos centros urbanos, uma vez que
tual e cultural do país. O intuito da República era transfor- os grandes avanços nas pesquisas médicas garantiam o
mar o Rio de Janeiro em uma capital moderna, nos moldes combate às doenças que devastavam as novas popula-
europeus. Avenidas, como a Central, atual Rio Branco, ções urbanas, inserindo o Brasil na comunidade cientí-
marcaram o novo projeto urbanístico da cidade, mansões fica internacional.
de estilo art nouveau, edifícios de fachadas suntuosas de O nível de desorganização social era alarmante. A ca-
cristal e mármore e lojas luxuosas integraram-se à cena pital federal estava em colapso, amargando as consequên-
urbana. Homens elegantes e mulheres vestidas no rigor da cias do lixo nas calçadas, da falta de esgoto, do precário
No cotidiano do Rio de Janeiro, no fim moda francesa frequentavam salões de chá, cafés, restau- abastecimento de água, das epidemias e de outras moléstias
do século XIX, muitos ambulantes ofereciam rantes e teatros, alguns dos quais apresentavam espetáculos urbanas que assolavam a população marginalizada e ex-
seus serviços, entre eles os amoladores. internacionais para o deleite da elite carioca, como o São posta ao abandono social em virtude da nova organização
Pedro e o Lírico, onde o tenor Caruso apresentou-se em econômica do trabalho. Em São Paulo, a explosão demo-
In the everyday life of Rio Janeiro in the late
1903. Mas o maior deles, o Teatro Municipal, foi inaugu- gráfica provocada pelo café e pela industrialização eviden-
19th century, many street vendors offered their
rado somente em 1909. Aos poucos, o Brasil abandonava ciava a absoluta falta de estrutura compatível com a nova
services, knife grinders among them.
suas feições rurais e se tornava moderno e urbano. realidade, revelando que o clima de reprovação urbana não
Mas nem tudo era cartão-postal. A aristocracia ca- se restringia à capital federal.
feeira, tanto de São Paulo como do Rio de Janeiro, vivia o As primeiras medidas saneadoras ocorreram no go-
sonho da Belle Époque; porém, o desenvolvimento desor- verno de Campos Sales (1898-1902), com a criação do Ins-
denado das cidades e de suas populações revelava o pa- tituto de Manguinhos, em 1900, e com a vacinação contra
radoxo “palácios e cortiços”: os trabalhadores urbanos a peste bubônica que infestava a população, assim como a
tinham uma condição de vida degradante, que em nada febre amarela, a cólera, a varíola, o tifo e a tuberculose. As
lembrava o luxo e a ostentação da aristocracia. Viviam em doenças trouxeram consequências econômicas desastro-
cortiços, em dormitórios comunitários, e sofriam com o sas, pois o Brasil passou a ser considerado um país perigo-
desemprego e as epidemias; eram famílias inteiras convi- so, não pela violência, mas pelas enfermidades contagiosas,
vendo sem condições mínimas de higiene e com alta taxa o que se refletia no transporte marítimo e, portanto, na ex-
de mortalidade infantil. Para confrontar o fluxo crescente portação do café, principal fonte de divisas.
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


No governo Rodrigues Alves (1902-1906), as provi- na compra de ratos, o que estimulou a criação do animal
dências foram mais drásticas na reorganização urbana da como fonte de renda e atraiu os meninos de rua para o
capital federal, principalmente quanto às medidas sanitá- “negócio” – cada rato morto entregue no Desinfectório
rias. Uma equipe com amplos poderes foi formada para Central proporcionava-lhes algum rendimento. Instituiu
atuar nas áreas prioritárias: a urbanização coube ao enge- a “Brigada de Mata-Mosquito”, para eliminar os criadouros
nheiro Francisco Pereira Passos; o saneamento ficou sob a de insetos, uma campanha mais invasiva, que gerou os
responsabilidade do médico sanitarista Oswaldo Cruz; e a primeiros protestos contra os seus métodos. Ambas as
modernização do porto, uma das portas de entrada das ações visavam diretamente ao controle da peste bubônica e
epidemias, a cargo do engenheiro Lauro Miller. da febre amarela, respectivamente.
Pereira Passos, que conhecera de perto a obra de A febre amarela tornou-se endêmica e foi muitas vezes
planejamento urbano de Paris, empreendida pelo barão devastadora. Em 1876, por exemplo, matou 3.476 pessoas.
Haussmann, imediatamente implementou a operação A doença chegou ao Brasil no final do século XVII, a
“Bota-Abaixo”, que, para eliminar os pontos de aglomera- primeira epidemia ocorreu em 1685, em Olinda, e se espa-
ção e embelezar a cidade, efetuou a demolição de cortiços e lhou para outras cidades de Pernambuco e da Bahia. Após
Vendedoras de mercado. Rio de Janeiro, 1875. favelas para o alargamento de ruas. O “Bota-Abaixo” foi muitos surtos, ressurgiu na Bahia, em 1849, e nesse mesmo
alvo de levantes populares e críticas da população, que não ano assolou o Rio de Janeiro, com repetidas irrupções nas
Open-air market vendors. Rio de Janeiro, 1875.
foi incluída em nenhum tipo de benfeitoria. décadas seguintes. No Estado de São Paulo, ela entrou pelo
Oswaldo Cruz, médico sanitarista, com especializa- porto de Santos, trazida pelos imigrantes a caminho das
ção em microbiologia realizada no Instituto Pasteur, de Pa- lavouras de café, e, a partir da zona portuária, a epidemia
ris, passou a integrar, junto com os cientistas Vital Brazil e alastrou-se pela cidade, contrariando a crença de que não
Adolfo Lutz, a comissão encarregada de investigar a peste ultrapassaria a barreira da serra do Mar, escapou da zona
bubônica em Santos, atestando assim sua qualificação para litorânea em surtos constantes, chegando a várias cidades
o novo cargo de diretor-geral da Saúde Pública. O Departa- do oeste paulista e a Campinas, que por todo o final do
mento Geral de Saúde Pública (DGSP), criado em 1897, século XIX foi castigada por sucessivas epidemias.
tinha como principais atribuições a inspeção sanitária dos
portos fluviais e marítimos, a fiscalização do exercício da A Revolta da Vacina
medicina e da farmácia e os estudos sobre doenças infecto- O alvo seguinte de Oswaldo Cruz foi a varíola. A va-
contagiosas. De imediato, ele iniciou a operação “Mata- cina contra essa doença já era conhecida na Europa havia
-Ratos”, que consistia basicamente no recolhimento siste- mais de cem anos, mas desconhecida no Brasil, e, para sur-
mático do lixo das ruas, no uso de raticidas e até mesmo tir o efeito desejado era necessário que um grande número
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


Equipe de cientistas do Instituto Oswaldo Cruz, A team of Instituto Oswaldo Cruz scientists in Para o combate da febre amarela no Rio de Janeiro, In the fight against yellow fever in Rio de Janeiro,
no Rio de Janeiro, década de 1910. O avanço Rio de Janeiro, in the 1910s. The advancements organizou-se uma grande equipe de Mata-Mosquito a large Mosquito-Killing team was put together
das pesquisas médicas passava, então, a orientar in medical research started to guide public health no início do século XX. in the early 20th century.
a política de saúde pública no país. policies in the country.
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

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de pessoas fosse imunizado simultaneamente. Sob a indig- como social. Do ponto de vista político, a revolta levou
nação da população e os questionamentos irônicos da im- o paraense Lauro Sodré, general, senador e opositor de-
prensa a respeito dos métodos utilizados para as “melho- clarado do governo de Rodrigues Alves, a assumir a pre-
rias na cidade”, em 31 de outubro de 1904 foi aprovada a lei sidência da Liga contra a Vacinação Obrigatória. Ao
da vacina antivariólica obrigatória. Além das críticas con- contestar a lei, Sodré não se colocava apenas em posição
tra a falta de limites das autoridades em relação à aplicação contrária à obrigatoriedade da vacinação, mas denun-
de penas e multas à população, havia a questão trabalhista, ciava o domínio do país pela oligarquia do café, a qual
pois para obter um emprego era necessário apresentar o Rodrigues Alves representava.
atestado de vacinação, fornecido por médicos particulares, Oswaldo Cruz acabou deixando o cargo de diretor
que cobravam pelo documento. da Saúde Pública e fundou o Instituto Soroterápico, que
A promulgação da lei gerou uma revolta da popula- em 1908 receberia seu nome, Instituto Oswaldo Cruz,
ção contra as imposições do Estado. A vacinação obriga- com o objetivo de ampliar o estudo das doenças que asso-
tória tinha a oposição da massa operária, já em início de lavam o Brasil e investigar as populações que viviam lon-
sindicalização, que se via sob uma “ditadura sanitária”; ge dos grandes centros. Assim, organizou expedições que,
dos positivistas, que se referiam à vacinação como “tortu- sob seu comando, partiam para o desbravamento do inte-
ra higiênica”, um atentado à liberdade individual; e de mo- rior do país. De março a outubro foram empreendidas
narquistas insatisfeitos com a República. Em 10 de novem- três expedições para o Nordeste e o Centro-Oeste e uma
bro deflagrou-se uma revolta e as ruas do Rio de Janeiro para a bacia amazônica, com a participação de Artur Neiva
se transformaram em palco de guerra. Os insurgentes e Belisário Penna. O caráter sociológico do material pro-
enfrentaram as tropas da polícia com bombas e barrica- duzido por eles – documentação escrita, quadro de doen-
das, mas foram logo debelados, deixando um saldo de ças, levantamento da fauna e da flora, anotações e foto-
muitos mortos e centenas de feridos e prisioneiros. O grafias – revelou as condições econômicas e sociais do
Criticado pela imprensa por meio de charges
governo recuperou o controle da situação, mas a imagem Brasil rural e causou forte impacto nas elites intelectuais,
e artigos, o sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz
de Oswaldo Cruz, com seus métodos, ficou maculada. A revelando-se bastante eficaz para subsidiar as campanhas
defendeu posições polêmicas.
vacinação obrigatória foi suspensa e o resultado, desas- a favor do saneamento. Sob a influência dos artigos de
While criticized by the press through charges troso: um surto mais intenso da doença eclodiu em 1908, Belisário Penna publicados no Correio da Manhã, em 1918
and articles, Oswaldo Cruz advocated atingindo milhares de pessoas. No balanço da situação, foi criada a Liga Pró-Saneamento.
controversial standpoints. ficou clara a impossibilidade de se empreender ações de Oswaldo Cruz, demonizado pela imprensa em ra- Referências bibliográficas
saúde pública sem a colaboração da população, que deve zão dos métodos utilizados na direção da Saúde Pública
CARNEIRO, Glauco. História da dermatologia no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2002.
ser previamente esclarecida, informada e mobilizada, em 1903, foi glorificado em 1907, quando recebeu a me-
levando em conta fatores psicológicos, sociais e culturais. dalha de ouro no XIV Congresso Internacional de Higie- COSTA, João Cruz. O Positivismo no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.
A lei foi de encontro a uma população despreparada e ne e Demografia, realizado em Berlim, levando o Brasil, CUKIERMAN, Henrique Luiz. Yes, nós temos Pasteur. Manguinhos, Oswaldo Cruz e a história da medicina no Brasil. Rio de Janeiro:
aterrorizada pelo método invasivo de aplicação da vacina, mais uma vez, a ser reconhecido internacionalmente pela Relume Dumará; Faperj, 2007.

que simbolizava o medo de uma limpeza não só urbana comunidade científica. MARTELLI, Celina Maria Turchi; STEFANI, Mariane Martins de Araújo; PENNA, Gerson Oliveira; ANDRADE, Ana Lúcia S. S.
“Endemias e epidemias brasileiras, desafios e perspectivas de investigação científica: hanseníase.” Revista Brasileira de Epidemio-
logia, v. 5, nº- 3, 2002.
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Saga: A grande história do Brasil. São Paulo: Abril Cultural, v. 5, 1981.
STEPAN, Nancy Leys. A hora da eugenia: raça, gênero e nação na América Latina. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.
THIELEN, Eduardo Vilela et al. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do
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18

Vendedor ambulante, Rio de Janeiro, 1896.


LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


Street vendor, Rio de Janeiro, 1896.

The Utopia of Progress


and Modernity
The political and economic changes that took place in Europe São Paulo, leading to the tardy end of monarchy in Brazil, one extended its borderlines and entered an era of industrializa-
in the late 19th century paved the way for the expansion of hundred years after the French Revolution. tion with the advent of the rubber tire in 1890. The inaugura-
industrial advancements, encouraging the growth of busi- The ideals of modernization and progress that the winds tion of Teatro Amazonas in 1896 attests to the golden era of
ness among countries and introducing capitalistic practices brought from Europe started guiding the construction of a the rubber cycle, bringing the Belle Époque to Manaus and
to the world. An optimistic atmosphere of trust in progress Brazilian political and cultural unit focused on strengthening Belém. Architects, painters, developers were brought in from
and in the future was extended to morals, customs, and the its national identity. The Brazilian republic, endeavoring to Europe to undertake the job. All theater materials were im-
culture of societies. disseminate a civilized image of the country, mostly in the ported, except for the seats and the floor that were made with
In Brazil, the transition to the 20th century was marked fields of science and urbanism, gave rise to an unplanned, ac- local materials under a strict supervision of the Europeans.
by the abolition of slavery and the deposition of monarchy. An celerated, and disorderly growth that brought about extreme- As agents of a modernization movement inspired by re-
alliance between coffee farmers from the state of São Paulo ly bad living conditions to a population that had just left an publican ideals, the cities of São Paulo and Rio de Janeiro –
and the military, both eager to increase their political partici- enslaving, miscegenated society that included immigrants. the capital city of the country at that time – drove the urban
pation, culminated in a coup that gave rise to the proclama- The new commercial and financial structures were remodeling initiatives. With it, coffee-farming São Paulo was
tion of the republic and a resulting strengthening of the politi- changing the features and characteristics of various Brazilian no longer a culturally backward province; the city was prepar-
cal economic power of old oligarchies. The military, resenting cities, especially São Paulo and Rio de Janeiro. As migration ing to meet the business volume brought by capitalists from
the secondary position which had been assigned to them, intensified, those urban centers were transformed into ag- the interior, who often chose to settle in the capital. The need
sought the recognition of their presence in politics, which the glomerations of people of different origins and social condi- to drain the production inflow to the port of Santos not only
monarchy had denied. In turn, those coffee farmers retained tions, who had come to the cities in search of work opportu- required the broadening of streets and avenues but also the
the economic power of the nation, due to the fact that the for- nities. If, on the one hand, that unbridled growth was a sign expansion of the railway system. The city landscape and pace
mer sugar mills of the Northeast had become openly decadent of progress and development, on the other, it clearly de- had changed. Old colonial buildings were demolished to make
because of an international state of affairs that was unfavor- nounced a lack of infrastructure and readiness to reach their room for churches, buildings, and mansions, among which the
able for the introduction of other crops in that region. Lacking longed-for modernity. works of architect Ramos de Azevedo stood out; squares and
financial conditions, they could neither promote any type of gardens were remodeled, broad avenues, such as Avenida
modernization in their structures, nor transfer their former Development and modernization of large centers Paulista, inaugurated in 1891, crisscrossed the city, and sump-
slave labor to wage-earning labor. Thus, São Paulo, with its In the late 19th century, Brazilian cities showed different tuous mansions, the gardens of which were inspired in the
prosperous coffee farming economy, was a privileged scenery features. Large centers, such as Rio de Janeiro and São Paulo, purest French style, were built along the way for coffee barons.
for economic, social, urbanistic, and demographic changes. showed their productive potential and an accelerated industri- The coffee-farming aristocracy began to withdraw from
Therefore, nothing more natural for Paulistas (the people alization and modernization process, while Salvador and Re- downtown areas in search of healthier areas. There remained
from the state of São Paulo) than to claim political representa- cife preserved their traditional standards, recovering from the downtown banking houses, offices, newspaper head offices,
tion among the provinces in equal terms, which Emperor decadence of sugarcane farming and attempting a response in hotels, restaurants, and sophisticated shops, whose patrons
Dom Pedro II denied, and the Empire lost the support of the form of cocoa farming. In the Northern region, rubber were politicians, journalists, businessmen, farmers.
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In Rio de Janeiro, the political hub of the country, which Science had become a strategic way to undertake the areas: urbanization was assigned to engineer Francisco Pereira
enjoyed significant social status, changes had already started reorganization of urban centers, since significant advance- Passos; sanitation fell to Oswaldo Cruz, a public health
in the beginning of the century, when the royal family moved ments in medical research ensured the fight against the dis- officer; and engineer Lauro Miller was assigned the port
to Brazil in 1808, transferring the court to that city, which eases that devastated new urban populations, positioning modernization, a major door to epidemics.
from then on was also consolidated as an intellectual and Brazil in the international scientific community. Pereira Passos, who was closely acquainted with the
cultural hub in the country. The republic intended to turn The extent of social disorganization was alarming. The Paris urban-planning work, conducted by Baron Haussmann,
Rio de Janeiro into a modern capital city, in the European country’s capital city was collapsing and suffering the bitter immediately implemented operation “Tear-Down,” which
fashion. Avenues, as Central – current Avenida Rio Branco – consequences of trash on the sidewalks, a lack of adequate aimed to eliminate crowded areas and beautify the city
marked a new urbanistic project for the city, Art Nouveau sewerage system, a precarious water supply, epidemics, and by demolishing slums areas and broadening streets. The
styled mansions, buildings displaying sumptuous crystal and other urban diseases that plagued a marginalized population “Tear-Down” operation gave rise to revolt from a population
marble façades, and luxurious shops became part of the that was exposed to social destitution as a result of the new that had not been included in any type of improvement.
urban scenery. Elegant men and women dressed in the latest economic organization of work. In São Paulo, the population Oswaldo Cruz, a public health officer who had speciali­
French fashion were regular customers of tea houses, cafés, explosion caused by coffee and industrialization gave proof zed in microbiology at the Pasteur Institute in Paris joined a
restaurants, and opera houses, as São Pedro and Lírico, of a total lack of compatible structure with the new reality, committee along with Vital Brazil and Adolfo Lutz to investi-
where tenor Caruso performed in 1903. The Municipal indicating that urban inadequacy was not restricted to the gate the bubonic plague in Santos, confirming his qualification
Theater was only inaugurated in 1909. Little by little, Brazil capital city of the country. for the new position of Public Health Director General. The De-
changed its rural aspects to become modern and urban. The first sanitizing efforts took place in the Campos partamento Geral da Saúde Pública – DGSP (General Public
But not all was as beautiful as a postcard. The coffee- Sales administration (1898–1902) with the establishment of Health Department), created in 1897, was assigned, among
farming aristocracy of both São Paulo and Rio de Janeiro Instituto de Manguinhos in 1900, and the vaccination against other duties, the sanitary inspection of fluvial ports and sea-
were experiencing the dream of the Belle Époque; however, a the bubonic plague that infested the population, just as yellow ports, inspection of the medicine and pharmacy practice,
disorderly growth of cities and their populations revealed the fever, cholera, smallpox, typhoid fever, and tuberculosis. and studies about infectious diseases. Cruz started a “Rodent-
“mansion and slum” paradox: city workers faced a degrading Those diseases brought about catastrophic economic conse- Killing” operation immediately, which basically consisted of
life standard that held no resemblance to the luxury and quences for Brazil, since it was then regarded as a hazardous systematic garbage collection from the streets, use of raticides,
ostentation of the aristocracy. They lived in slums, collective country, not on account of violence, but because of the conta- and even the sale of rats, to foster rodent raising as a source of
dormitories, and suffered with unemployment and epidemics. gious diseases, and that had an impact on sea shipments and, income and to attract street homeless boys to the “business” –
Entire families lived together without minimum sanitary therefore, in coffee exports, its main source of revenue. each dead rat delivered at Desinfectório Central meant money.
conditions, with a high infant mortality rate. In order to In the Rodrigues Alves administration (1902–1906), He also implemented a “Fly-Killing Brigade” to eliminate
confront the ever-growing flow of people, and diseases, sani- stricter measures were adopted for the urban reorganization sources of insects, a more invasive campaign, that generated the
tation efforts took the lead in the modernization process of of the country’s capital city, particularly as regarded sanitation. first protests against his methods. Both efforts were directly
Brazil and in the construction of its identity as a republic. A strongly empowered team was set up to address priority aimed at controlling bubonic plague and yellow fever, respectively.

Imagem da Avenida Paulista, em São Paulo, projetada pelo View of Avenida Paulista in São Paulo, designed by engineer
engenheiro Joaquim Eugênio de Lima e inaugurada em 1891. Joaquim Eugênio de Lima and inaugurated in 1891.
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Yellow fever became endemic and often devastating; necessary to present a vaccination certificate, and that cer- of a League Against Compulsory Vaccination. By opposing
in 1876, for example, it killed 3,476 people. The disease tificate was issued by private physicians who charged for it. that law, not only did Sodré assume a contrary position to
had arrived in Brazil in the late 17th century, and the first When that law was promulgated, people rose against the compulsoriness of vaccination, but he also denounced
epidemics was recorded in 1685, in the city of Olinda, the impositions of the State. The workers’ mass, just begin- the control of the country by a coffee-farming oligarchy,
in the state of Pernambuco, and spread to other cities in ning its unionization process, was against compulsory vacci- which Rodrigues Alves stood for.
Pernambuco and Bahia. After a large number of out- nation, since, from a worker’s standpoint, it was a “sanita- Oswaldo Cruz finally left his position as Public Health
breaks, it reappeared in Bahia in 1849, and in that same tion dictatorship”; positivists referred to vaccination as Director to found Instituto Soroterápico, which in 1908
year it rava­ged Rio de Janeiro, with repeated outbreaks in “hygienic torture,” an assault against individual freedom; would be renamed after him – Instituto Oswaldo Cruz – with
the following decades. In São Paulo, it appeared in Santos, and monarchists were dissatisfied with the republic. On the purpose of broadening the scope of the studies on the
an entrance door for immigrants on the way to coffee November 10, a rebellion broke out, and the streets of Rio de diseases that plagued the country and surveying the popula-
farms, and from the port area, the epidemics spread to the Janeiro were transformed in a seat of war. Insurgents fought tions that lived far from large centers. Therefore, he orga-
city. And, contrary to the belief that it would not overcome police forces with bombs and barricades, but were soon nized expeditions that, under his command, attempted to
the Serra do Mar mountain range, it escaped from the overcome, leaving behind many casualties among dead, explore the backlands of the country. From March to October
coast zone in constant outbreaks, reaching a number of cities wounded people, and prisoners. The government restored three expeditions were made to the Northeastern and the
in the west of the state of São Paulo and Campinas – which control of the situation, but Oswaldo Cruz’ image and his Midwestern regions of the country, and one to the Amazon
throughout the whole end of the 19th century was plagued methods had been tainted. Compulsory vaccination was basin – Artur Neiva and Belisário Penna took part in those
by successive epidemics. suspended with a catastrophic result: a very strong outbreak expeditions. The sociological nature of the material they
of the disease took place in 1908, infecting thousands of peo- produced – written documents, a table of diseases, a survey on
The Rebellion against vaccination ple. An analysis of the situation made clear that it would not the fauna and flora, observations, and photographs – revealed
Smallpox was Oswaldo Cruz’ next target, a vaccine be possible to undertake public health efforts without the the economic and social conditions of rural Brazil, and stron­g­
for which had been known in Europe for over one hundred cooperation of the population, which was to be clarified, ly impacted the intellectual elite, showing to be very effective to
years, but unknown in Brazil. For the vaccine to work, a informed, and mobilized ahead of time, taking psychological, raise funds to sanitation campaigns. Under the influence of
large number of people should be vaccinated at the same social, and cultural factors into account. That law encoun- Belisário Penna’s articles published in the Correio da Manhã
time. Facing the indignation of the population and the ironic tered a population that was unprepared and terrorized with newspaper, a Pro-Sanitation League was created in 1918.
questioning of the press about the methods employed to the invasive method through which the vaccination had Oswaldo Cruz, who had been scorned by the press on
“improve the city,” on October 31, 1904, a bill was approved been applied – which symbolized the fear of an urban and account of his methods in the management of Public Health
to make smallpox vaccination compulsory. In addition to social cleansing. From a political standpoint, that rebellion in 1903, was glorified in 1907, when he was awarded a golden
the criticism against the lack of authorities’ limits when it influenced Lauro Sodré – a general and senator from the medal at the 14th International Congress on Hygiene and Reference List
came to imposing penalties and fines on the people, there state of Pará, who was also an overt opponent of the Demography, held in Berlin, granting international recogni-
CARNEIRO, Glauco. História da dermatologia no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2002.
was also a labor issue, since in order to get a job, it was Rodrigues Alves administration – to take on the presidency tion to Brazil by the scientific community one more time.
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Family ties: ethnic groupS in brazil
Sociedade, saúde e medicina
Toda ciência reflete, em parte, a conjuntura social na qual pesquisas e de médicos brasileiros pela comunidade cientí- imigrantes eram propícias às sucessivas epidemias, que dizi-
está inserida. Com a medicina no Brasil não foi diferente. fica internacional estimularam o interesse no desenvol- mavam centenas de trabalhadores. A reputação negativa do
Historicamente, podem ser identificadas três fases: paje- vimento de ações profiláticas. Os médicos brasileiros país espalhou-se, levando alguns governos a desencorajar e
lança, pré-científica e científica. Na primeira, os protago- passaram a beber da fonte, indo ao encontro da realidade até a proibir a imigração de sua população para o Brasil.
nistas eram os índios, os missionários e os portadores de europeia, já bem desenvolvida, para adaptá-la à realida- A situação da saúde pública mostrava-se bem distante do
licença e diploma. Por mais de duzentos anos prevaleceu a de local. Após as discussões geradas pela Gazeta, cinco ideal de modernidade pretendido; assim, as medidas e
contribuição indígena, que foi sendo adaptada aos méto- médicos brasileiros participaram do 1-º Congresso Mundial ações empreendidas pelo governo visaram, sobretudo,
dos da medicina europeia pelos missionários, até a entrada de Dermatologia e Sifiligrafia, em Paris, em 1889, entre os melhorar a imagem do país no cenário internacional.
maciça dos escravos africanos, que trouxeram as endemias quais Bruno Chaves, autor de Mercúrio e seus decompostos, Em 1890, foram criados o Conselho de Saúde Pública
próprias do seu continente. No final do século XVIII, eram então indicado para membro da Société Française de e o Serviço Sanitário Terrestre, para tratar das questões de
os barbeiros, os boticários e alguns físicos os responsáveis Dermatologie et de Syphiligraphie. higiene pública e do combate de doenças transmissíveis,
pela medicina no Brasil. Oswaldo Cruz e o Instituto de Manguinhos sedimenta- moléstias endêmicas e epidemias, mas a atuação do governo
A segunda fase teve início com a chegada da família ram o momento no qual a pesquisa abandonou seu caráter na área de saúde durante longo período foi determinada
real, quando o desenvolvimento da colônia deu um salto predominantemente bibliográfico e voltou-se para uma pela Constituição de 1891, que assegurava a autonomia dos
para manter a civilidade do estilo de vida europeu. Na área produção acadêmica de identificação das causas, diagnós- Estados e dos municípios, em virtude do pacto com as
da saúde, foram criadas duas escolas de cirurgia, uma em ticos e tratamentos de doenças desconhecidas. Surgem o oligarquias. Até 1910, os problemas de saúde não foram
Salvador e outra no Rio de Janeiro, aumentando as possibi- professor e o pesquisador. politicamente priorizados na agenda nacional e os estudos
lidades de especializações – farmacêutico, parteiro e mé- e pesquisas restringiram-se a espaços especializados, como
dico –, e a medicina passou a ser entendida como ofício, A saúde pública na República Velha o Instituto Oswaldo Cruz e o Instituto de Manguinhos, que
registrando-se um crescente interesse pelos estudos cientí- As epidemias devastadoras de febre amarela, varíola e se manifestavam diante das crises sanitárias geradas pelo
ficos das doenças que atingiam a população, como sífilis, cólera que o Brasil enfrentava impediam sua consolidação crescimento desordenado e das precárias condições de vida
lepra e bouba, o grande mal do Brasil Colônia. como um Estado moderno e civilizado e retardavam o pro- da população mais pobre e marginalizada.
O início do século XX marcou a fase científica, em que cesso de construção da identidade nacional. No Rio de No contexto das reformas comandadas por Oswaldo
os médicos detinham importante papel na busca pela identi- Janeiro, a inadequação das velhas estruturas urbanas às novas Cruz, entram em cena importantes cientistas, cujos traba-
dade nacional e na qual as políticas públicas de saúde passa- demandas refletia-se, entre outros aspectos, nos aglomera- lhos foram fundamentais para a definição de uma política
ram a ser inseridas no planejamento das cidades e das zonas dos de pessoas em regiões insalubres, focos permanentes de de saúde. Os embates ideológicos e científicos passaram a
rurais como forma de combate sistêmico das doenças. difteria, tuberculose, malária, lepra, tifo e outras endemias delinear um novo perfil da ciência e a estimular reformas,
A partir da segunda metade do século XIX os gran- que atacavam a população mestiça. Em São Paulo, além de de modo que, no início do século XX, a principal figura na
des avanços nas faculdades de medicina, a publicação da a cidade viver situação semelhante à da capital federal, as área da saúde era o higienista, responsável direto pelas
Gazeta Médica da Bahia em 1866 e o reconhecimento das condições precárias oferecidas pelos fazendeiros de café aos ações sanitárias, símbolo das ações do Estado.

Avenida Beira-Mar, próximo à Lapa, no Rio de Janeiro. Avenida Beira-Mar, near Lapa neighborhood, in Rio de Janeiro.
Uma das grandes obras do Plano de Embelezamento da Cidade, A major effort in the City Embellishment Plan, carried out by
promovido pelo prefeito Pereira Passos no início do século XX. Mayor Pereira Passos in the early 20th century.
A entidade buscava reconhecimento como espaço de con-

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ciliação das diferentes posições teóricas – dos seus 18 fun-


dadores, 10 eram dermatologistas. O desenvolvimento da
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entidade foi rápido: um ano após a sua fundação, já con-
tava com 81 associados, dos quais 52 eram do Rio de
Janeiro. A primeira reunião científica ocorreu em 1-º de
março de 1912 e nesse mesmo ano outras dez reuniões fo-
ram realizadas. Entre os temas abordados, com a grafia da
época, estão: “Boubas (Silva Araújo Filho); Moléstia de
Duhring (Fernando Terra); Granuloma Ulcerosos Tropi-
cal, Lupus Erythematoso, Vericose Juvenil (Eduardo
A medicina tradicional e a imprensa compartilhavam das pesquisas e da formação e especialização de profissionais Rabello); Tratamento das Ulceras da Perna com Iodo
as críticas à nova medicina, que aderia às inovações vindas capacitados para o tratamento e controle dessas moléstias. (E. Crissiuma); e Lepra e Nastina (Fernando Terra)”1. Nas
da Europa, polarizando a discussão. De um lado, a Facul- No Brasil, a dermatologia foi institucionalizada em décadas seguintes, os membros da sociedade continuaram
dade de Medicina do Rio de Janeiro e os consultórios da 1883, com a implantação da cadeira de clínica de molés- contribuindo com trabalhos para o desenvolvimento da
capital, que criticavam os métodos de Manguinhos pratica- tias cutâneas e sifilíticas nas faculdades de medicina do dermatologia, e várias doenças foram descritas e caracteri-
dos nas ações de saneamento “invasivas”, alegando o privi- Rio de Janeiro e de Salvador, com João Pizarro Gabizo e zadas por dermatólogos brasileiros, como a doença autoa-
légio dos seres microscópicos em detrimento dos pacientes Alexandre de Castro Cerqueira, respectivamente, à frente gressiva hanseniana (Rubens David Azulay) e a dermatose
enquanto indivíduos; de outro, os laboratórios, que seguiam das cátedras. Até então Antônio José Pereira da Silva anserina (Padilha Gonçalves), entre outras. Os Anais da
as regras da medicina francesa de Pasteur, e a medicina Araújo era o responsável pelo ensino livre da dermatolo- dermatologia, editados a partir de 1925, foram fundamen-
experimental de Manguinhos, que criticava a medicina tra- gia na primeira clínica de doenças do Brasil, criada na tais para a divulgação das pesquisas e ideias desses cientis-
dicional pela limitada capacidade sensorial de seus médicos Policlínica Geral do Rio de Janeiro. A Policlínica foi fun- tas e médicos entre a comunidade científica.
para perceber as tendências das doenças e as possibilidades dada em 1881 para prestar assistência médica gratuita à
de sua erradicação. Mas, mesmo havendo divergências, tanto população carente e propunha o tratamento do doente em Os ideais eugênicos chegam ao Brasil
a medicina tradicional quanto os laboratórios e a medicina sua residência, para evitar a contaminação de outros enfer- A eugenia foi um movimento científico social que de- Prédio da Santa Casa de Misericórdia, que, durante anos, foi sede Santa Casa de Misericórdia building, which for many years was the seat
instrumental, de caráter experimental, buscavam uma uni- mos em ambientes hospitalares. Entre suas especialidades, fendia o aprimoramento da espécie humana por meio da da Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD, no Rio de Janeiro. of the Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD, in Rio de Janeiro.
dade, visando ao fortalecimento do discurso científico. estava a de moléstias sifilíticas e da pele, sob responsabili- preservação da “pureza” de determinados grupos sociais
dade de Silva Araújo. O Instituto de Manguinhos também considerados “adequados” na reprodução, como garantia
As doenças da pele e a vanguarda da dermatologia: a contribuiu vigorosamente para a consolidação dos estudos de herança de bons genes para as futuras gerações. No
Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD das doenças de pele: inúmeros trabalhos de pesquisa foram Brasil, surgiu em resposta às teorias degeneracionistas eu-
Além da febre amarela, da tuberculose e da varíola, desenvolvidos e aperfeiçoados por cientistas como Adolfo ropeias do século XIX, que criticavam a miscigenação dos
outras doenças revelavam problemas que ultrapassavam as Lutz, Adolpho Lindemberg, Paulo Parreiras Horta, Gaspar trópicos. As explicações hereditárias e a ideia de “adequa-
consequências das próprias enfermidades, como as doenças Vianna, Rocha Lima, Henrique de Beaurepaire Rohan dos” e “inadequados” seriam uma estratégia eficaz para o
da pele – evidenciadas pela presença de manchas, feridas e Aragão, Arêa Leão, Armínio Fraga, Eduardo Rabello, aprimoramento da população mestiça, baseada em ações
deformidades, elas estigmatizavam o indivíduo, colocan- Fernando Terra e Olympio da Fonseca Filho. de médicos e juristas europeus. A lepra e a sífilis, ao lado do
do-o em uma posição de exclusão na sociedade, pois a pele Nesse momento de reestruturação da medicina brasi- alcoolismo e da tuberculose, eram doenças associadas à
é um órgão de comunicação e denuncia o corpo não sadio; leira, em 1912, a luta antivenérea ganhou força e entrou em degeneração da raça, portanto incompatíveis com o desen-
entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, processo de reorganização, com a criação da Sociedade volvimento harmônico de uma sociedade que perseguia os
a sífilis e a lepra foram as mais marcantes entre as várias Brasileira de Dermatologia – SBD, que logo se tornou um ideais de modernidade pretendidos pela república, um
doenças que atingiam a pele, pois estavam diretamente polo de articulação de profissionais de diferentes institui- cenário desafiador para os sanitaristas.
ligadas ao isolamento e ao preconceito. Daí a importância ções, que se agregavam em torno das pesquisas nessa área. Alguns fatores, como a crise entre a monarquia e a
república, a participação do Brasil na Primeira Guerra
Mundial e a carência de universidades que possibilitassem
o estudo sistemático da eugenia fortaleceram a sua intro-
dução no país, mas até 1917 somente algumas iniciativas
esparsas de intelectuais e cientistas mencionavam a euge-
nia como caminho possível para a modernidade.
Em 1918, a teoria ganhou adeptos e defensores. O
médico paulista Renato Kehl fundou a Sociedade Eugênica
de São Paulo, que tinha entre seus associados Arnaldo Instituto Butantã, em São Paulo, construído a partir da aquisição Instituto Butantã, in São Paulo, built after the acquisition of Fazenda
da Fazenda Butantã pelo governo estadual. A intenção era instalar Butantã by the state government, which had planned to set up a

1. Glauco Carneiro. História da dermatologia no Brasil. Sociedade


um laboratório de produção de soro antipestoso para combater o surto laboratory to produce serum against the bubonic plague that had
Brasileira de Dermatologia, 2002, p. 59. de peste bubônica que se propagava no Porto de Santos, em 1899. spread in the Port of Santos, in 1899.
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Vieira de Carvalho, fundador da Faculdade de Medicina a eugenia teve um caráter exclusivamente de saneamento, apresentou o trabalho “A luta contra a sífilis e moléstias
de São Paulo, o médico sanitarista Arthur Neiva e o psi- apoiado em uma medicina intervencionista, que impunha venéreas em São Paulo”, que abordava os serviços médicos
quiatra Franco da Rocha. A sociedade se definiu como ações maciças de higiene entre a população. prestados pelo Estado no combate à sífilis e a outras doenças
uma organização culta de caráter científico, produziu al- venéreas e apontava os “males venéreos” como responsáveis
guns estudos, mas nunca realizou pesquisas, dedicando-se Sífilis, nova postura em relação à doença pela degeneração da raça, reforçando a importância eugê-
basicamente a divulgar as ideias e a introduzir o tema no O agravamento das epidemias estava condicionado nica da educação sexual e do tratamento desses “doentes”.
debate. Na literatura brasileira, Monteiro Lobato escreveu a fatores políticos e econômicos de interesse nacional re- No entanto, cresceu e se consolidou a crença de que o
O choque das raças ou o presidente negro, publicado em lacionados ao desenvolvimento industrial e ao ideal de problema brasileiro residia em larga medida na sífilis e não
1926, fazendo do enredo uma defesa veemente dos ideais modernização do país. A sífilis, alvo de preconceito e forte- na mistura de raças, e, por essa ótica, a própria doença teve
eugênicos. Amigo de Renato Kehl, enviou-lhe uma carta mente hostilizada, espalhava-se rapidamente, tornando os importância estratégica, pois implicou sucessivas interven-
dizendo: “Renato, tu és o pai da eugenia e a ti devia dedi- doentes mais oprimidos, omissos e rebeldes ao tratamento, ções sanitárias para atacá-la e curar seus males. A historia-
car meu Choque, grito de guerra pró-eugenia [...]. Precisa- dificultando as primeiras tentativas de combate à doença. dora Nancy Stepan identifica um clima de “nacionalismo
mos lançar, vulgarizar estas ideias. A humanidade precisa Em 1925, a Sociedade Brasileira de Dermatologia alte- realista” na década de 1920, que levaria os brasileiros a pro-
Menino índio, de uma coisa só: poda [...]”. rou a denominação para Sociedade de Dermatologia e Sifilo- curar novos caminhos para interpretar sua condição social
Mato Grosso, 1888. As ações eugênicas propostas no Brasil eram de or- grafia, em referência direta à sífilis, doença que comprometia e climática e seu perfil racial, afastando-se assim dos pa-
dem restritiva, como a regulamentação do casamento, a múltiplos órgãos: os ossos, os olhos e a pele, e os sistemas drões europeus. Os sifilógrafos brasileiros contribuíram
Indian boy, segregação, a esterilização, e outras, construtivas, de edu- nervoso e cardiovascular – um flagelo da sociedade, uma para a consolidação desse pensamento de forte apelo nacio-
Mato Grosso, 1888. cação higiênica e de propaganda dos princípios eugênicos, doença considerada não só horrível como degradante e vul- nalista, que valorizava o que o Brasil tinha de não europeu
mas essas ações nunca se concretizaram, apesar de passarem gar. Contra a sífilis, militavam no Rio de Janeiro o grupo da em vez de atribuir todos os males à miscigenação das raças.
a ser amplamente discutidas. Os eugenistas propunham Faculdade de Medicina, que reunia Fernando Terra, Eduardo O início da década foi marcado pela mudança nas ações e
homogeneizar a raça nacional por meio de um processo de Rabello e Oscar da Silva Araújo; o grupo de Manguinhos, políticas de profilaxia da sífilis. Foi criada a Inspetoria de
branqueamento feito, por exemplo, com o controle das formado por Adolfo Lutz, Gaspar Vianna, Arêa Leão e Hera- Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, dando início
políticas imigratórias e do processo de miscigenação, mas a clides Cesar de Souza-Araujo; e o grupo da Policlínica do Rio ao processo de centralização política da saúde e de ações
dura realidade era que as práticas sanitárias não davam de Janeiro, integrado por Werneck Machado e seus auxiliares. dirigidas ao tratamento e profilaxia da sífilis, que significou
conta de frear as epidemias e erradicar as doenças. Nesse De São Paulo, Antônio Carini e Adolpho Lindemberg, ambos uma nova postura política em relação à doença. No co-
momento em que a nação procurava firmar sua identidade ligados ao Instituto Bacteriológico, integravam a sociedade. mando da inspetoria estava o sifilógrafo Eduardo Rabello,
a ciência encontrou campo para difundir as teorias da No primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, reali- além de Oscar da Silva Araújo e Joaquim Mota Vale. A polí-
hereditariedade, entendendo a vida humana como resul- zado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em julho tica de combate à sífilis foi baseada principalmente na propa-
tado de processos biológicos e a eugenia como meio ideal de 1929, Mendes de Castro, médico auxiliar da Inspetoria ganda higiênica de caráter educativo e no tratamento de
de exercer sua função na sociedade. Desse modo, no Brasil, de Educação Sanitária e Centros de Saúde de São Paulo, doentes em dispensários ou hospitais especializados.
e Viana; no Mato Grosso, em 1816, o capitão-general
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Oyenhausen fundou, em Cuiabá, o Hospital dos Lázaros,


chamado depois Hospital de São João dos Lázaros. Em São
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Paulo, a Santa Casa de Misericórdia fundou o Hospital dos


Morféticos, em 1805, que funcionou na chácara Olaria. No
interior do Estado, em 1806, foi construído um hospital para
morféticos em Itu, que existiu por 125 anos; e em Campinas,
em 1863, foi instalado o Hospital dos Lázaros de Guapira.
Durante muito tempo a lepra era confundida com
outras doenças como a sífilis e a elefantíase dos gregos, mas
a ampliação das pesquisas ao longo do século XIX possibi-
Hanseníase, o mal dos séculos Cesar de Souza-Araujo afirma que não havia lepra entre os litou aos médicos uma avaliação melhor dos doentes. No
O homem em cuja pele ou carne aparece cor estranha, tu- indígenas, e muitos viajantes que percorreram o interior do Brasil, o dr. Joaquim Cândido Soares de Meirelles apresen-
mor ou espécie de mancha reluzente, que seja indício de Brasil também concluíram em seus relatos que as tribos pu- tou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1831, o
mal de lepra, será conduzido ao Sacerdote Aaron ou a qual- ras não eram acometidas dessa infecção. “Paralelo entre as duas espécies de elefantíases e entre a le-
quer de seus filhos; o qual, se vir lepra na pele, com o pelo No Brasil, segundo o médico Fernando Terra, estudioso pra”, primeiro trabalho sobre a doença. Foi o início de uma
embranquecido e a parte mesmo que parece leprosa mais da lepra e um dos fundadores da SBD, há registros de casos série de outros, apresentados por Francisco de Paula Cân-
deprimida que a pele e carne restante, declarará que é chaga desde 1600, mas somente muito mais tarde, em 1741, foi dido, Luís Vicente De-Simoni e João Maurício Faivre. A
de lepra, e o considerará impuro, e o que a tem, será sepa- criado, em Recife, um asilo para atendimento aos doentes. Academia Imperial de Medicina era o palco dos debates
rado da companhia dos outros. Terá as vestes rasgadas, a A Coroa Portuguesa era omissa em relação à cons- em torno das pesquisas para identificação da lepra. Em
cabeça desgrenhada, se cobrirá até o bigode e irá gritando: trução de instituições para o atendimento dos leprosos. agosto de 1845, os médicos presentes à reunião apresenta-
Impuro, impuro! Todo o tempo que estiver leproso e No Rio de Janeiro, as autoridades tentaram, em vão, obter ram seus pareceres a respeito do trabalho de João Maurício
imundo ,habitará sozinho, fora do povoado. da Coroa recursos para a instalação de um asilo na Igreja Faivre, sobre o uso das águas termais de Caldas Novas, em
Levíticos 13, 2-3 e 45-46 de Nossa Senhora da Conceição. Então, em 1741, o gover- Goiás, no tratamento de leprosos e da elefantíase dos gre-
nador do Rio de Janeiro, capitão-general Gomes Freire de gos, vulgarmente chamada de morfeia.
Em 1874, o médico e botânico norueguês Gerhard Andrade, conde de Bobadella, mandou construir as pri- Em 1847 a lepra foi definida como uma realidade
Henrik Armauer Hansen iniciou a desmistificação da cren- meiras instalações, mantendo a instituição até a sua morte. nosológica diferenciada das demais doenças, com a publi- Negra da Bahia, 1885.
ça que por séculos relacionou a lepra ao castigo divino e às O asilo originou o Hospital de Lázaros, que desde 1763 cação do tratado ilustrado Om Spedalsked, dos dermatolo-
Bahia female Negro, 1885.
impurezas e pecados dos indivíduos, ao identificar o Myco- está sob a responsabilidade da Irmandade do Santíssimo gistas noruegueses Daniel C. Danielssen e C. W. Boeck, que
bacterium leprae como o bacilo causador da doença. Sacramento de Nossa Senhora da Candelária. A partir de descreviam a lepra lepromatosa. Em 1863, Rudolf Virchow
É uma das mais antigas enfermidades referidas pelo 1941, passou a se chamar Hospital Frei Antônio, em home- descreveu e identificou o granuloma lepromatoso; e, em
homem. O Japão, a China e a Índia já conheciam a doença nagem ao bispo dom Antônio do Desterro. Na Bahia, tam- 1879, o alemão Albert Nissier comprovou a presença do
havia quase quatro mil anos, mas sua origem não é precisa, bém devido à omissão da Coroa, dom Rodrigo José de bacilo em material leproso.
existe muita controvérsia entre os estudiosos; no entanto, a Menezes fundou, com o auxílio do povo, o Hospital São A descoberta do Mycobacterium leprae por Gerhard
região da faixa setentrional da África central, da Nigéria à Cristóvão dos Lázaros, na Quinta dos Jesuítas, em Salvador, Hansen, no entanto, mostrou um agente patogênico pecu-
Abissínia, deve ser considerada como foco principal, uma que prestou serviços até 1947. liar, mas não esclareceu os mecanismos da infecção e sua
vez que ainda é a parte do globo mais afetada pela doença. Em outros Estados também foram criadas áreas e insti- transmissibilidade, o que dificultou a conexão do bacilo
Ao continente americano a lepra chegou na época da tuições para leprosos: em Belém, no Pará, a Santa Casa criou, com a lepra, estimulando um debate que adentrou as pri-
expansão marítima, com os colonizadores portugueses, em 1815, o Hospício dos Lázaros, que atendia toda a região meiras décadas do século XX. O auge do embate ocorreu
espanhóis, franceses e holandeses, e posteriormente com Norte e funcionou até 1938; no Maranhão, a partir de 1826, em Berlim, em 1897, com a realização da I Conferência
os africanos. Na obra História da lepra no Brasil, Heraclides foram criadas várias aldeias de leprosos, como São Bento Internacional de Leprologia, o primeiro encontro interna-
cional sobre a lepra. A conferência definiu o bacilo como a
causa verdadeira e exclusiva da doença, abrindo a possibi-
lidade de uma intervenção terapêutica mais precisa, definida
em suas considerações finais pela notificação compulsória
e pelo isolamento. As conclusões dos debates orientaram as
medidas profiláticas dos governos nas décadas seguintes.
Na reconstrução histórica da lepra como doença microbiana
foi fundamental a realização do Congresso Internacional
de Dermatologia, em 1904, que ratificou essa decisão e deli-
berou a incausalidade da lepra.
No Brasil, não foram implementadas medidas oficiais
de combate efetivo da doença nos primeiros dez anos da
da Sociedade de Medicina e Cirurgia – professor Eduardo

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Rabello e doutores Werneck Machado e Guedes de Mello –;


da Sociedade de Dermatologia – professores Fernando
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Terra, Juliano Moreira e Adolfo Lutz –; da Sociedade Mé-
dica de Hospitais – doutores Sampaio Viana, Silva Araújo
Filho e Oscar Dutra e Silva –; e da Associação Médico-Cirúr-
gica – doutores Paulo Silva Araújo, Henrique de Beau­repaire
Rohan Aragão e Belmiro Valverde.

Contagionistas versus anticontagionistas – Adolfo


Lutz e Belmiro Valverde
república. O Regulamento Sanitário, de 1890, determinava O Brasil não ficava alheio às discussões. O laborató- Em novembro de 1915 a Comissão de Profilaxia da na Conferência Americana de Lepra, realizada em 1922, Mas os adeptos do confinamento para profilaxia da que dispusessem de recursos financeiros, observando
notificação compulsória apenas para casos de febre amarela, rio anatomopatológico, criado em 1894 no Hospital dos Lepra promoveu um debate sobre as formas de contágio no Rio de Janeiro. O debate sobre a questão não saiu doença defendiam que uma ilha seria o local mais apro- rigorosamente medidas de higiene e desinfecção. Assim,
cólera, difteria, peste, sarampão, escarlatina e varíola, sem Lázaros, realizava pesquisas de bacteriologia do bacilo da da lepra. Nesse evento, Adolfo Lutz defendeu a teoria da de cena até 1930, nas reuniões da Academia Nacional de priado, inspirados em Molokai, no arquipélago havaiano, em 1919, a comissão apresentou os resultados em suas
citar a lepra. Em 1894, pelo Decreto nº- 1.657, fundem-se o lepra em diferentes culturas. Era um dos principais centros transmissão por mosquitos que haviam picado doentes em Medicina, nas quais Belmiro Valverde apresentou outros que se tornou referência para políticas públicas de combate conclusões, recomendando o isolamento dos leprosos,
Laboratório Bacteriológico e a Diretoria Sanitária para de tratamento da doença, conforme as exigências do perío- estado febril, com presença dos bacilos no sangue, e afirmou trabalhos, defendendo sempre sua posição contrária às à lepra. Oswaldo Cruz já havia se manifestado sobre o tema base racional da profilaxia da lepra, sem distinção de classe
constituir o Instituto Sanitário Federal, que no parágrafo do. O diretor clínico, Azevedo Lima, enviou para a Confe- em sua conferência que o isolamento sem os cuidados con- teorias de Adolfo Lutz. em relatório ao ministro do Interior, J. J. Seabra, em que ou indivíduo.
segundo do seu estatuto fazia referência à doença, subordi- rência de Berlim a comunicação intitulada “A lepra no Bra- tra a transmissão por mosquitos era uma medida imperfei- Outros importantes pesquisadores publicaram estu- defendia a transferência dos doentes para “colônias de Mas já em 1916, no I Congresso Paulista de Medici-
nando os hospitais e isolamentos ao instituto. Essa reforma sil”, que defendia o contágio e o isolamento do doente ao ta para regiões de alta presença desses insetos, e suscitou o dos da doença levando em conta diversos aspectos. Sobre leprosos”, estabelecimentos onde eles poderiam, além na, Emílio Ribas havia feito uma conferência tecendo uma
representou um avanço, na medida em que dava à higiene considerar que cada leproso é um perigo aos que o cercam, debate. O dr. Belmiro Valverde, após enaltecer a idoneida- o tema “casamento e lepra”, em 1916, os doutores Paulo de receber o tratamento adequado, continuar se dedicando série de considerações sobre os problemas do isolamento
pública um caráter científico. seja em casa, seja no hospital. José Lourenço de Magalhães, de científica de Adolfo Lutz, ponderou o trabalho de outros Silva Araújo e Belmiro Valverde apresentaram A lepra e o à alguma atividade. Seu plano era isolar os doentes na ilha em seu texto “A lepra: sua frequência no Estado de São
As discussões sobre a lepra ficaram então divididas anticontagionista ferrenho, foi um de seus principais opo- autores contrários à teoria e apresentou estudos realizados casamento, ligado diretamente ao conceito de eugenia. Grande, mas não deu prosseguimento ao projeto, pois Paulo – Meios profiláticos aconselháveis”, referindo-se à
entre contagionistas e anticontagionistas e giravam em sitores teóricos. Em 1900, Magalhães publicou seu trabalho nas Antilhas que provavam a inexistência do bacilo de Sobre “lepra e domicílio”, os doutores Eduardo Rabello assumiu a direção do Instituto Oswaldo Cruz, desligando-se escolha do local para o isolamento dos leprosos. Alertava
torno das formas de transmissão do bacilo de Hansen. Étude sur la lèpre au Brésil, suscitado principalmente pela Hansen no tubo digestivo dos insetos; o dr. Fernando Terra, e Silva Araújo Filho apresentaram Relações entre a lepra e da Diretoria-Geral de Saúde. ele que isolar o doente em uma ilha, tirá-lo do convívio
Sabia-se que o contágio se dava pelo contato com o doente, Conferência de Berlim, que, na sua opinião, ocorreu sob médico estudioso da lepra e um dos fundadores da SBD, o domicílio. Em 1907, no 6-º Congresso Brasileiro de Medicina e social, seria o erro mais grave, argumentando que hospitais
única fonte do vírus, mas não se conheciam ainda as vias ideias preconcebidas, expressas em suas conclusões. também contestou a teoria, alegando que ela não só contra- Cirurgia, realizado em São Paulo, a Seção de Dermatolo- de zonas habitadas recebem doentes com moléstias muito
de penetração do bacilo no organismo humano: supu- As sociedades e instituições que reuniam médicos riava os autores mais respeitados como desconsiderava a Confinamento ou isolamento? gia e Sifiligrafia, sob a presidência de Werneck Machado, mais contagiosas do que a lepra, sem nenhum perigo para
nha-se que por vias oral, genital ou cutânea. Os mosquitos eram o centro dos debates científicos sobre as doenças que contribuição do Hospital dos Lázaros, que ele dirigia, no A tese do contágio acabou prevalecendo em um pe- aprovou uma moção apresentada pelos doutores Ulysses a saúde pública, desde que observados os princípios de
e insetos parasitas, como pulgas e percevejos, também devastavam as populações do país. No caso da lepra, por bairro de São Cristóvão, onde eram raros os casos de lepra, ríodo repleto de incertezas sobre as formas de transmis- Paranhos, Alberto Seabra e Adolpho Lindemberg, que higiene. E citou como exemplo o Hospital de Isolamento de
eram suspeitos de transportar e inocular o bacilo. A não iniciativa da Associação Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, apesar da existência de mosquitos. Mas considerou a são da doença, e a opção por isolar os doentes foi conside- propunha como medidas o isolamento dos leprosos em São Paulo, localizado em zona altamente populosa, que em
transmissão hereditária reunia o maior número de provas. em 1915 foi constituída a Comissão de Profilaxia da Lepra, possibilidade do mosquito como agente transmissor, reco- rada a melhor delas. O isolamento já havia sido previsto colônias agrícolas, aproveitando as ilhas brasileiras desabi- 22 anos de funcionamento não disseminou nenhuma
Discutia-se, sim, a possibilidade de transmissão da predis- com base na proposta do dr. Belmiro Valverde. Por suges- mendando à comissão a continuidade dos estudos. Por em 1904, no título sobre “Profilaxia geral das moléstias tadas, mas férteis; a notificação compulsória da moléstia; e doença pelas vizinhanças.
posição para a doença, como na tuberculose. A doutrina tão e orientação do professor Juliano Moreira, a comissão fim, Carlos Seidl, presidente da comissão, acatou a pro- infecciosas”, do Decreto nº- 5.156, que fazia parte da legis- a criação e educação de recém-nascidos filhos de leprosos
da hereditariedade foi aceita por influência dos autores contou com a participação de todas as sociedades médicas posta do dr. Paulo Silva Araújo, de levar adiante as ideias lação da reforma sanitária conduzida por Oswaldo Cruz. nos orfanatos dos Estados. Em 1918, na Comissão de Pro- A polêmica entre Belisário Penna e Eduardo Rabello
noruegueses, que realizaram estudos com base na reali- da capital federal, desenvolvendo importantes estudos sobre do dr. Juliano Moreira, sobre a necessidade de experiên- Nessa época, era intenso o debate em torno dos proble- filaxia da Lepra, Fernando Terra e Juliano Moreira, em Mesmo não estando entre as prioridades sanitárias do
dade deles, sem considerar a transmissão da doença os vários aspectos da doença. Ao encerrar os trabalhos, em cias para comprovar a transmissão por insetos. mas sanitários no Rio de Janeiro. Em relação à lepra, con- “Lepra e isolamento”, destacaram como medida profilática governo na década de 1910, os médicos incluíram a lepra
em outros países. No Havaí e nas Filipinas, por exemplo, 1919, a comissão apresentou suas conclusões para embasar A conferência desencadeou acalorados debates. Entre siderada doença crônica, os hospitais tornaram-se impró- o afastamento do convívio social daqueles que foram atin- em seus debates em face da ameaça do avanço da doença e
era comprovado que a separação dos filhos de mães a lei para regulamentar o combate à lepra. os defensores incondicionais de Lutz estavam Henrique de prios para o tratamento e controle da moléstia, sendo gidos pela doença. das dificuldades de estabelecer as formas de transmissão e o
leprosas logo após o nascimento evitava a contamina- A Comissão de Profilaxia da Lepra era formada pelos Beau­repaire Rohan Aragão, também do Instituto Oswaldo substituídos por leprosários, que se diferenciavam por A questão era bastante complexa e as discussões tratamento. Assim, foi criada, em 1920, a Inspetoria da Pro-
ção. Com esses argumentos, essa doutrina foi definiti- representantes da Academia Nacional de Medicina – dou- Cruz, e Emilio Gomes, antigo bacteriologista da saúde pú- oferecer uma terapêutica mais especializada: o recolhi- envolviam aspectos de naturezas diversas. O isolamento filaxia da Lepra e das Doenças Venéreas (IPLDV), com base
vamente afastada. tores Emílio Gomes, Alfredo Porto e Henrique Autran –; blica do Rio de Janeiro; entre os adversários, o dr. Fernando mento e a segregação do doente. poderia ser feito no próprio domicílio somente por aqueles na nova configuração da doença como problema nacional.
Terra, diretor do Hospital dos Lázaros, catedrático de
dermatologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro
e presidente da SBD, e, principalmente, Belmiro Valverde.
Os contagionistas apontavam a falta de dados experimen-
tais comprobatórios da transmissão pelo mosquito. Valverde
admitia a intervenção de insetos, mas combatia a teoria de
Lutz, citando o Amazonas, Estado infestado por mosquitos,
mas que apresentava baixa ocorrência de lepra.
Adolfo Lutz prosseguiu defendendo sua teoria ao
longo de toda a sua trajetória como pesquisador, apresen-
tando suas ideias no 2-º Congresso Sul-Americano de
Dermatologia e Sifilografia, em 1921, em Montevidéu, e
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A proposta profilática desse órgão foi alvo de críticas para abrigar um grande hospital de isolamento. O objetivo
e discussões, sendo emblemático o debate entre Belisário não era apenas assegurar o bem-estar do doente, mas garan-
Penna e Eduardo Rabello sobre o isolamento praticado tir a preservação da saúde da população sadia.
pela IPLDV. Penna considerava a lepra o problema mais Eduardo Rabello era desfavorável à proposta de
grave do país e, em sua opinião, somente medidas rigorosas Penna, apontando o fracasso desse tipo de medida em ou-
seriam eficientes para enfrentar o “descaso dos poderes pú- tros países, reiterando assim a orientação do IPLDV
blicos”. Em vários artigos publicados na imprensa defendia quanto ao isolamento em leprosários ou em domicílios,
a criação de um município para segregar todos os leprosos com liberdade de escolha para o doente, desde que obser-
do país. Do outro lado estava o dermatosifilógrafo Eduardo vadas as exigências da autoridade sanitária. Essa orienta-
Rabello, dirigente do IPLDV entre 1920 e 1926, que defen- ção também sofreu críticas, embora o governo já tivesse
dia o isolamento dos doentes em leprosários como forma iniciado a construção das instituições. Rabello argumen-
de evitar o contágio. Mas a escassez de verbas e a insu­ tava que o número insuficiente de leprosários dificultava
ficiência do número de instituições para abrigar os doentes o isolamento nosocomial, conforme determinava a legis-
levaram a inspetoria a aceitar o isolamento domiciliar. lação, e propunha a construção de colônias agrícolas longe
O estopim da polêmica foi a publicação de um artigo dos centros urbanos, o que não despertaria temor e inse-
em que Penna criticava a atuação do Estado no combate à gurança na coletividade. Em suma, Penna sustentava a Negro cesteiro, 1875.
lepra desde o início da República, desacreditando o sistema ideia de que os doentes deveriam viver “como nós”, mas
de isolamento praticado pelo IPLDV e o uso terapêutico do isolados, e Rabello acreditava que o melhor seria man- Negro basket maker, 1875.
chaulmoogra e mostrando cálculos alarmantes da evolução tê-los “entre nós”, também isolados. A ideia da construção
da doença, com o objetivo de desqualificar a eficácia e o pa- das colônias agrícolas acabou ganhando vigor e sendo
pel dos leprosários. Afirmava que o único meio seguro de se aceita como modelo principal para o isolamento. Na dé-
Índio botocudo – nome atribuído a vários evitar a propagação seria a retirada dos leprosos da socieda- cada de 1930, o governo federal empreendeu uma série de
grupos indígenas brasileiros de línguas de, considerando a internação em hospitais uma prisão into- construções desses estabelecimentos pelo país, mesmo
e regiões diferentes –, Sul da Bahia, 1875. lerável. Apontava como solução a construção de municípios sem alterar as estruturas de combate à doença.
denominados Município da Redenção ou Município dos As ações políticas fizeram com que as ações profiláti-
Botocudo Indian – a name given to various Lázaros, onde os doentes viveriam livremente, com possibi- cas perdessem uniformidade. Washington Pires, à frente
indigenous Brazilian groups of different languages lidades de trabalho, e seriam responsáveis por suas questões do Ministério da Educação e Saúde Pública, em 1934, im-
and from different regions – South of Bahia, 1875. sociais, políticas e administrativas. A ideia era inspirada no plementou uma série de reformas nos serviços federais de
projeto de Oswaldo Cruz, que em 1913 propôs o isolamento saúde, extinguindo a Direção Nacional de Saúde Pública
dos leprosos na ilha Grande, onde já existiam instalações (DNSP) e a Inspetoria da Profilaxia da Lepra e das Doenças
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Venéreas (IPLDV), pulverizando as atividades e transferin- compulsório efetivamente se concretizou a partir da década doença divulguem, sempre que possível, os novos e atuais
do a responsabilidade do combate à lepra para os Estados. de 1960, com a criação dos “dispensários”, que prestavam conceitos e avanços sobre a hanseníase, uma doença curá-
Mas a pesquisa científica sobre a doença, que já era incen- serviços ambulatoriais para investigação de casos novos e vel, de baixa contagiosidade e contra a qual a maioria da
tivada desde 1927 no Laboratório de Leprologia do Instituto observação dos casos suspeitos, que seriam internados se população possui “defesas imunológicas naturais”.
Oswaldo Cruz, dirigido pelo leprólogo Heraclides Cesar de confirmado o diagnóstico. Com o fim do isolamento com-
Souza-Araujo até 1950, ganhou novo impulso com a cria- pulsório, os doentes poderiam sair dos asilos, se quisessem, O controle e a detecção precoce
ção do Centro Internacional de Leprologia, resultado das e o tratamento poderia ser feito em centros de saúde. Mas, No século XXI, a endemia de hanseníase encontra-se
negociações entre o governo brasileiro e a Liga das Nações. pelas décadas de segregação pelas quais haviam passado, quase extinta como um problema global de saúde pública,
Carlos Chagas foi o primeiro diretor, sucedido após a sua muitos escolhiam continuar nos leprosários, porque não ti- mas o Brasil, assim como a Índia, está incluído entre os
morte por Eduardo Rabello. nham para onde voltar ou como sobreviver na sociedade. países com maior prevalência da doença – é o único da
Uma estabilidade maior à política de saúde publica Na esteira das mudanças exigidas pela doença ocorre- América Latina que ainda não conseguiu erradicá-la.
foi conferida em 1934, quando Gustavo Capanema assu- ram modificações nos métodos profiláticos e nas políticas “Declínio da prevalência”, “eliminação da hanseníase
miu o Ministério da Educação e Saúde Pública. Porém, as de controle da hanseníase, baseadas na descentralização do no mundo”, “tratamento ambulatorial de curta duração” e
estatísticas apontavam o número insuficiente de asilos e atendimento e no aumento da cobertura populacional. Em “cura” são expressões incorporadas na atual visão, em con-
hospitais especializados para recolhimento dos leprosos, 1964, o governo federal transferiu a responsabilidade dos traponto aos estigmas relacionados à doença até meados
implicando a elaboração de um plano nacional de combate programas relativos à doença aos Estados, com o término da do século XX.
à doença. No ano seguinte, por indicação de Capanema, Campanha Nacional de Lepra. Em São Paulo, o isolamento Assim, as formulações de política de saúde concen- Referências bibliográficas
João de Barros Barreto, diretor nacional da Saúde e Assis- compulsório dos hansenianos foi eliminado em todo o Esta- traram-se em orientar programas tendo como foco o con-
CARNEIRO, Glauco. História da dermatologia no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2002.
tência Médico-Social, em colaboração com Ernani Agrí­ do em 1967, quando o dr. Abrahão A. Rotberg assumiu a trole da hanseníase, com base na detecção precoce e no
cola, diretor dos Serviços Sanitários nos Estados, e Joaquim diretoria do antigo Departamento de Profilaxia da Lepra, na pronto atendimento de casos novos, visando extirpar as CARRARA, Sérgio. Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, na passagem do século aos anos 40. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1996.

Motta, assistente da Seção Técnica Geral de Saúde Pública, Secretaria da Saúde do Estado, na gestão do professor Walter fontes de infecção e evitar sequelas. CHALHOUB, Sidney. Cidade febril – Cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
elaborou um plano para a tentativa de recuperar a centrali- Leser. Foi também Rotberg quem propôs a mudança do Atualmente, o Brasil apresenta resultados que de- COSTA, Dilma Avellar Cabral da. “Entre ideias e ações: medicina, lepra e políticas públicas (1894-1934)”. Niterói: ICHF – Universida-
dade perdida na reforma anterior. A maioria dos estabele- nome da doença de “lepra” para “hanseníase” e providen- monstram tendência de declínio da prevalência em con- de Federal Fluminense, 2007. Tese de doutorado.
cimentos construídos a partir do plano começou a funcio- ciou a substituição do termo em todos os documentos ofi- sonância com os demais países endêmicos, sendo que a CUNHA, Vivian da Silva. “Centro Internacional de Leprologia: ciência, saúde e cooperação internacional no Brasil do entreguerras
nar na década de 1940, quando já estava em operação o ciais para afastar o estigma do nome da doença, que poderia distribuição da doença em todo o país é desigual entre (1923-1939)”. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz, 2011. Tese de doutorado.
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Saúde, criado em 1941, quando a lepra passou a ter uma tendo a endemia. A proposição de Abrahão Rotberg alcan- Somada aos programas de controle de prevenção, MACHADO, Maria Helena; VIEIRA, Ana Luiza Stiebler (coords.). Perfil dos dermatologistas no Brasil: relatório final. Rio de Janeiro:
avaliação mais ampla e sistemática, que há muito era exigi- çou mais tarde todo o país, por meio da Lei Federal nº- 9.010, destaca-se a importante contribuição das pesquisas cientí- Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2003.
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do termo "hanseníase", e vocábulos derivados, em todos os ciamento genômico do M. leprae, importantes ferramentas Brasil (1941-1962)”. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2007. Tese de doutorado.
A hanseníase entre nós documentos oficiais do governo federal. Com a mudança do de diagnóstico, prognóstico e vigilância. A relevância de Manual de leprologia. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Lepra – Ministério da Saúde, 1960.
Atualmente, e já desde a década de 1950, o tratamento nome, buscava-se afastar as fantasias e os preconceitos investimentos na área de produção de conhecimento está MARTELLI, Celina Maria Turchi; STEFANI, Mariane Martins de Araújo; PENNA, Gerson Oliveira; ANDRADE, Ana Lúcia S. S.
da doença é feito em nível ambulatorial. O internamento contra a moléstia, além de favorecer a educação para a saúde. cada vez mais evidente na dura batalha para a erradicação “Endemias e epidemias brasileiras, desafios e perspectivas de investigação científica: hanseníase.” Revista Brasileira de Epidemio-
compulsório dos acometidos de hanseníase foi abolido por As pesquisas de Rotberg nas áreas da alergia e imunologia da doença, na medida em que esses investimentos garan- logia, v. 5, nº- 3, 2002.
lei, em todo o Brasil, em 1954, exigindo mudanças nas polí- da hanseníase projetaram-no mundialmente. Hoje, é de tem a viabilização e a compreensão de mecanismos de SEVCENKO, Nicolau. A literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999.
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Family ties: ethnic groupS in brazil
T
Society, Health, and Medicine
To some extent, a science tends to reflect the social set of cir- by the international scientific community of research studies decimated hundreds of workers. As the negative image of
cumstances that it deals with. That was no different with conducted by Brazilian physicians aroused considerable in- the country was disseminated, some countries started dis-
medicine in Brazil. We may identify three historical phases of terest in the development of prophylactic efforts. Brazilian couraging and even prohibiting their nationals from emi-
medicine: treatment by shamans, prescientific, and scientific physicians started getting information straight from the grating to Brazil. Public health situation was very far from
medicine. In the first phase, the protagonists were the indige­ horse’s mouth by exposing themselves to actual and well-de- the intended ideal of modernity; thus government efforts
nous people, missionaries, licensed medical practitioners, veloped circumstances in Europe and then adapting them to and actions were mostly aimed at improving the country’s
and people holding a diploma. The indigenous people contri- their local situation. After debates sparked off by Gazeta, five image in the international scenario.
bution prevailed for over two hundred years, as missionaries Brazilian physicians participated in the 1st World Congress In 1890, the government created its Public Health
adapted it to the methods of European medicine, up to the on Dermatology and Syphilography, held in Paris in 1889, Council and the Terrestrial Sanitary Service to address public
massive entry of African slaves whose endemic diseases from among them, Bruno Chaves, author of Mercúrio e seus sanitation issues and fight transmissible and endemic diseases
Sede da Fundação Oswaldo Cruz, their own continent were added to local endemics. In the late decompostos, who was then nominated for membership at and epidemics, but the work of the government in the health
em prédio projetado pelo 18th century, barbers, pharmacists, and some physicists dis- the Société Française de Dermatologie et de Syphiligraphie. area was determined for a long time by the 1891 Constitution
arquiteto português Luiz de Moraes pensed medical care in Brazil. Oswaldo Cruz and Instituto de Manguinhos marked that granted autonomy to states and municipalities, as a re-
Júnior com base nos croquis do The second phase began with the arrival of the royal the moment when research abandoned its predominantly sult of a pact with oligarchies. Up to 1910, health problems in
sanitarista Oswaldo Cruz. Portuguese family, when the development of the colony bibliographic character in favor of an academic production the country had not been politically prioritized in the national
occurred in leaps and bounds to preserve European-style to identify causes, diagnoses, and treatment of unknown agenda, and studies and research were restricted to special-
Seat of Oswaldo Cruz Foundation civility. The creation of two surgery schools, one in Salvador diseases. The professor and researcher figures emerge. ized places as Instituto Oswaldo Cruz and Instituto de Man-
in a building designed by Portuguese and the other in Rio de Janeiro, increased opportunities for guinhos, which made themselves heard in the event of sanitary
architect Luiz de Moraes Júnior specialized practice – pharmacist, midwifery, and physi- Public health in the Old Republic crises caused by the disorderly growth and the precarious
based on sketches drawn by public cian – and medicine was then deemed a trade, drawing The devastating epidemics of yellow fever, smallpox, living conditions of the poorer and outcast population.
health officer Oswaldo Cruz. significant interest in the scientific study of the diseases that and cholera that ravaged Brazil thwarted its consolidation In the context of the reforms Oswaldo Cruz imple-
plagued the population, as syphilis, leprosy, and bubo, the as a modern and civilized state, and delayed the national mented, relevant scientists, whose works were fundamental
greatest evil in colonial Brazil. identity-building process. In Rio de Janeiro, the inefficiency to set a health policy, came to the stage. Ideological and sci-
The early 20th century marked a scientific phase in of old urban structures to meet new demands could be de- entific clashes started shaping a new profile for science and
which physicians played an important role in the search for tected, among other aspects, in the clusters of people in nox- encouraging reforms in such a way that in the early 20th cen-
national identity, and public health policies started being in- ious areas, permanent sources of diphtheria, tuberculosis, tury the public health officer took on a central role in the
troduced in the planning of cities and rural areas as a means malaria, leprosy, typhoid fever, and other endemic diseases health area, being directly responsible for sanitary efforts, a
of waging a systemic fight against diseases. that ravaged the mestizo population. In São Paulo, in addi- symbol of the State efforts.
From the second half of the 19th century onwards, as a tion to the city facing a similar situation to that of the Traditional medicine and the press shared their criticism
result of major advancements in medical schools, the publica- federal capital, the precarious conditions provided by coffee of the new medicine that adopted the innovations coming
tion of Gazeta Médica da Bahia in 1866, and the recognition farmers to immigrants favored successive epidemics that from Europe, thus polarizing the debate. On one side, Rio de
varicose veins (Eduardo Rabello); iodine treatment of leg

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ulcers (E. Crissiuma), and leprosy and nastina (Fernando


Terra).1 In the following decades, society members contin-
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Family ties: ethnic groupS in brazil


ued their contribution with works to develop dermatology,
and a number of diseases were described and characterized
by Brazilian dermatologists, as the Hansen’s self-aggressive
disease (Rubens David Azulay) and anserine dermatosis
(Padilha Gonçalves), among others. Anais da dermatolo-
gia, published as of 1925, were fundamental to disseminate
the research studies and those scientists and physicians’
ideas throughout the scientific community.
Janeiro Medical School and the doctors’ offices of the then Cerqueira as professors, respectively. Up to that moment, An- must introduce and popularize those ideas. Humankind multiple organs: bones, eyes, skin, the nervous and cardiovas- to consolidate that thinking of a strong nationalistic appeal,
capital city that criticized the methods followed by Mangui­ tônio José Pereira da Silva Araújo was in charge of free derma- Eugenic ideals arrive in Brazil needs one thing only: pruning….” cular systems – a plague to society, a disease regarded not only that valued what Brazil had of non-European, instead of
nhos in “invasive” sanitary actions, asserting the privilege of tology education at the first disease clinic in Brazil, created at Eugenics was a social scientific movement that be- Some of the eugenic actions proposed in Brazil were of as horrible but also as degrading and vulgar. The following imputing all evils to race miscegenation. The beginning of that
microscopic beings to the detriment of patients, actual hu- Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Policlínica Geral was es- lieved in the possibility of improving the qualities of the hu- a restrictive nature, as marriage regulation, segregation, ster­ people from Rio de Janeiro were engaged in the fight against decade was marked by a change in initiatives and policies to
man beings; on the other side, the laboratories that abode by tablished in 1881 to provide free medical assistance to the des- man species by preserving the “pureness” of certain social i­lization; others were constructive, as sanitary education and syphilis: a Medical School group that gathered Fernando prevent syphilis. The government created an inspectorship for
the rules of Pasteur’s French medicine, and the Manguinhos titute, and proposed that a patient’s treatment should be con- groups that were deemed “adequate” for reproduction and a advertising eugenic principles, but such actions never mate- Terra, Eduardo Rabello, and Oscar da Silva Araújo; an Insti- preventing leprosy and venereal diseases, called Inspetoria de
experimental medicine that criticized traditional medicine ducted at his or her own house, in order to prevent other pa- guarantee of a good genetic heritage for future generations. rialized, despite the fact they had become the subject of tuto de Manguinhos group that included Adolfo Lutz, Gaspar Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, starting a pro-
because of the limited sensory capacity of its physicians to tients from being contaminated in hospital environments. Its In Brazil, it appeared in response to 19th-century European intense debate. Eugenicists proposed to homogenize the Vianna, Arêa Leão, and Heraclides Cesar de Souza-Araujo; cess of political centralization of health and of efforts aimed
perceive trends of diseases and possibilities of eradicating specialties included syphilitic and cutaneous diseases, under theories of degeneration, that criticized the miscegenation in national race by means of a whitening process based on, for and a group from Policlínica do Rio de Janeiro that gathered at treating and preventing syphilis, which gave rise to a new
them. But in spite of their differences, traditional medicine, Silva Araújo’s responsibility. Instituto de Manguinhos also the tropics. Hereditary explanations and the idea of “ade- example, the control of immigration policies and the miscege- Werneck Machado and his assistants. From São Paulo, political attitude regarding the disease. Syphilographer
laboratories, and instrumental medicine of an experimental made outstanding contributions to consolidate studies on skin quate” and “inadequate” human beings would be an effec- nation process, but the cruel reality was that sanitarian Antônio Carini and Adolpho Lindemberg, both associated to Eduardo Rabello, and Oscar da Silva Araújo and Joaquim
nature sought a unity to strengthen scientific discourse. diseases: countless research studies were carried out and im- tive strategy to improve the mestizo population on the basis practices were incapable of curbing epidemics and eradicat- Instituto Bacteriológico, were members of the society. Mota Vale were at the helm of that inspectorship. The syphilis
proved by scientists such as Adolfo Lutz, Adolpho Lindemberg, of European physicians and jurists. Leprosy and syphilis, ing existing diseases. In that particular moment when the On the occasion of the first Brazilian Congress on Eu- fighting policy was chiefly based on sanitary advertisement
Skin diseases and the vanguard of dermatology: Paulo Parreiras Horta, Gaspar Vianna, Rocha Lima, Henrique along with alcoholism and tuberculosis, were diseases asso- nation strived to consolidate its identity, science found genics, held at Rio de Janeiro Medical School, in July 1929, of an educational nature and on the treatment of the sick in
Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD de Beaurepaire Rohan Aragão, Arêa Leão, Armínio Fraga, Edu- ciated with race degeneration and, therefore, incompatible ground to disseminate theories of heredity, regarding human Mendes de Castro, assistant physician to Inspetoria de Edu- dispensaries or specialized hospitals.
(Brazilian Society of Dermatology) ardo Rabello, Fernando Terra, and Olympio da Fonseca Filho. with the harmonious development of a society in pursuit of life as a result of biological processes, and eugenics as an ideal cação Sanitária e Centros de Saúde de São Paulo, presented
In addition to yellow fever, tuberculosis, and smallpox At that moment of restructuring Brazilian medicine, the modernity ideals intended by the Republic, a challenging means to exercise its function in society. This way, eugenics in a study entitled “A luta contra a sífilis e moléstias venéreas Hansen’s disease, the illness of the centuries
other diseases revealed problems that would reach beyond the in 1912, the antivenereal fight gained momentum and went scenario for public health officers. Brazil was of an exclusively sanitarian nature, supported by em São Paulo” that addressed the medical services provided When a person has on the skin of his body a swelling or an
consequences of the diseases themselves, as skin diseases – evi- through a reorganization process with the creation of Socie- Various factors, as the crisis between the monarchy interventionist medicine practices that imposed massive by the government in the fight against syphilis and other eruption or a spot, and it turns into a case of leprous disease
denced by the presence of spots, wounds, and deformities, they dade Brasileira de Dermatologia – SBD (Brazilian Society and the Republic, Brazil’s participation in World War I, the sani­tary initiatives among the population. venereal diseases, and cited “venereal diseases” as accounta­ on the skin of his body, then he shall be brought to Aaron the
stigmatized an individual, thus subjecting him or her to being of Dermatology) that soon became a meeting point for pro- lack of universities that would enable a systematic study of ble for race degeneration, stressing the eugenic importance of priest or to one of his sons the priests, and the priest shall
excluded from society, as the skin is a communication organ fessionals from different institutions who gathered around eugenics, fostered its introduction in the country, but until Syphilis, a new attitude towards the disease both sexual education and the treatment for the “sick.” examine the diseased area on the skin of his body. And if the
which denounces a body in bad health; between the late 19th the research in that area. That entity sought recognition as 1917 just a few scattered initiatives by intellectuals and scien­ The aggravation of epidemics was conditioned to po- Nevertheless a belief that the Brazilian problem lay to hair in the diseased area has turned white and the disease
century and the beginning of the following century, syphilis a space to reconcile different theoretical standpoints – ten tists mentioned eugenics as a possible way to modernity. litical and economic factors of national interest, related to a large extent in syphilis, and not in the mixture of races, grew appears to be deeper than the skin of his body, it is a case of
and leprosy were the most significant skin diseases, as they out of its eighteen founders were dermatologists. SBD de- In 1918, the theory gains adepts and defenders. Renato the industrial development and to the country’s moderniza- and consolidated, and, from that standpoint, the disease leprous disease. When the priest has examined him, he shall
were directly related to isolation and prejudice. Hence the im- veloped very quickly: one year after its foundation, it count- Kehl, a physician from the state of São Paulo, founds Socie- tion ideal. Syphilis, fiercely antagonized and the object of itself attained strategic importance, as it involved successive pronounce him unclean. The leprous person who has the
portance of research, training, and specialization of qualified ed eighty-one members, fifty-two of them from Rio de Ja- dade Eugênica de São Paulo, which, among its members, has prejudice, spread quickly, deeming those sick more oppressed, sanitarian interventions to fight it and cure its maladies. disease shall wear torn clothes and let the hair of his head
professionals to treat and control those diseases. neiro. Its first scientific meeting was held on March 1, 1912, Arnaldo Vieira de Carvalho, the founder of University of São neglectful, and rebellious to treatment, curbing the initial at- Historian Nancy Stepan identifies an atmosphere of “realistic hang loose, and he shall cover his upper lip and cry out,
In Brazil, dermatology was institutionalized in 1883 and, in that same year, another ten meetings took place. Paulo Medical School, public health officer and physician tempts to fight the disease. nationalism” in the 1920s, that would lead Brazilians to ‘Unclean, unclean.’ He shall remain unclean as long as he
with the creation of a chair of cutaneous diseases and syphilis Among the themes addressed, one could find: buboes (Silva Arthur Neiva, and psychiatrist Franco da Rocha. The society In 1925, Sociedade Brasileira de Dermatologia changed seek new paths to interpret their social and climate con- has the disease. He is unclean. He shall live alone. His dwelling
clinic in the medical schools of Rio de Janeiro and Salva­­ Araújo Filho); Duhring’s disease (Fernando Terra); ulcera­ was defined as a cultured organization of a scientific nature its registered name to Sociedade de Dermatologia e Sifilogra- dition, and their racial profile, thus driving away from shall be outside the camp.
dor, having João Pizarro Gabizo and Alexandre de Castro tive tropical granuloma, lupus erythematous, and juvenile and, while having produced a few studies, it never engaged in fia, in a direct reference to syphilis, a disease that affected European standards. Brazilian syphilographers contributed Lev. 13:2–3 and 45–46
research, devoting itself to disseminating ideas and introdu­c­
ing the eugenics issue in the debate. In Brazilian literature,
Monteiro Lobato wrote O choque das raças ou o presidente
negro, published in 1926, using the plot in vehement defense
of eugenic ideals. Being a friend of Renato Kehl’s, he sent him
a letter saying, “Renato, you are the father of eugenics, and I
should dedicate my Choque, a pro-eugenic battle cry…. We

1. Glauco Carneiro, História da dermatologia no Brasil. Sociedade


Brasileira de Dermatologia, 2002, 59.
by compulsory notice and isolation. Debate conclusions

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guided the gover­nmental preventive measures in the following


decades. In the historical reconstruction of leprosy as a mi-
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crobial disease, the 1904 International Congress on Derma-
tology was essential to confirm that decision and determine
the uncau­sability of leprosy.
In Brazil, no official initiatives for an effective fight
against the disease were implemented in the first ten years of
the Republic. The 1890 Sanitary Regulation established that
only cases of yellow fever, cholera, diphtheria, plague, attack
of measles, scarlet fever, and smallpox required compulsory
In 1874, Gerhard Henrik Armauer Hansen, a Norwe- Andrade, count of Bobadella, had the first facilities built, the Rio de Janeiro Medical Society, in 1831, his “Paralelo entre notice, without mentioning leprosy. In 1894, Decree #1657
gian physician and botanist, began demystifying the belief keeping that institution till the day he died. That sanatorium as duas espécies de elefantíases e entre a lepra,” the first work merged the Laboratório Bacteriológico and the Diretoria
that had associated leprosy to divine curse and to the impu- gave rise to Hospital de Lázaros, which, since 1763 has been about the disease. It was the beginning of a series of other stu­ Sanitária to form Instituto Sanitário Federal, that in the se­c­
rities of individuals for centuries, by identifying Mycobacte- under the administration of Irmandade do Santíssimo dies submitted by Francisco de Paula Cândido, Luís Vicente ond paragraph of its by-laws made reference to the disease,
rium leprae as the bacteria that caused leprosy. Sacramento de Nossa Senhora da Candelária. In 1941, the De-Simoni, and João Maurício Faivre. The Imperial Academy subordinating hospitals and isolations to the newly formed
It is one of the oldest diseases referred to by man. Ja- name of the institution was changed to Hospital Frei Antônio, of Medicine was the arena for the debates about research studies entity. That decision represented an improvement, as it
pan, China, and India had already known that illness for to pay homage to bishop Dom Antônio do Desterro. In conducted to identify leprosy. In August 1845, the physicians granted public sanitation scientific character.
nearly four thousand years, but its origin remains uncertain Bahia, also as a result of a neglectful Crown, Dom Rodrigo attending that meeting issued their opinions about João Mau- Discussions on leprosy were then divided between con-
and it is a highly controversial subject among scholars; how- José de Menezes founded, with the help of the people, Hospital rício Faivre’s work, on the use of the thermal waters of Caldas tagionists and anticontagionists, and were usually about
ever, the region of the northern strip of Central Africa, from São Cristóvão dos Lázaros, located at Quinta dos Jesuítas, Novas, in the state of Goiás, in the treatment of leprosy and means of transmission of Hansen’s bacteria. It was known
Nigeria to Abyssinia (currently Ethiopia), should be regarded in Salvador. That facility remained in operation until 1947. Greek elephantiasis, which is popularly known as morphea. that human contact, the only source of those bacteria, was
as the main source of the disease, since that part of the globe Areas and institutions for lepers were also created in In 1847, leprosy was defined as a nosological reality, the mode of transmission, but the way bacteria entered the
is still the most affected. other states: in Belém, the capital city of the state of Pará, differentiated from other diseases, with the publication of human body was not known: it was assumed that the bacte-
Leprosy arrived in the American continent at the time Santa Casa created Hospício dos Lázaros in 1815 to serve the an illustrated treaty called Om Spedalsked, by Norwegian ria spread via the mouth, genitals, or skin. Mosquitos and
of the maritime expansion, with Portuguese, Spanish, whole Northern region, and it remained in operation until dermatologists Daniel C. Danielssen and C. W. Boeck, which parasitic insects, such as fleas and bedbugs were also suspects
French, and Dutch settlers, and later on with the Africans. In 1938; in the state of Maranhão, as of 1826, various villages for described lepromatous leprosy. In 1863, Rudolf Virchow of carrying and inoculating the bacteria. Countless evidences
his work História da lepra no Brasil, Heraclides Cesar de lepers were created, such as São Bento and Viana; in the state described and identified the lepromatous granuloma; and, were gathered favoring non-hereditary transmission. In fact,
Souza-Araujo states that there was no leprosy among the na- of Mato Grosso, in Cuiabá, the capital city, captain-general in 1879, Albert Nissier, a German scholar, confirmed the people discussed the possibility of transmitting or a suscepti-
tive Brazilians, and the many travelers in their journeys Oyenhausen founded Hospital dos Lázaros in 1816, which presence of the bacteria in leprous material. bility to the disease, as in the case of tuberculosis. The theory
through the interior of Brazil also concluded in their accounts was renamed Hospital de São João dos Lázaros later on. In Despite the fact that Gerhard Hansen’s discovery of of hereditarity was accepted under the influence of the Nor-
that pure tribes were not attacked by that infection. São Paulo, Santa Casa de Misericórdia founded Hospital dos Mycobacterium leprae showed a peculiar pathogenic agent, wegian authors who had conducted studies based on their
In Brazil, according to physician Fernando Terra, a Morféticos in 1805, which was located at the Olaria farm. In it failed to clarify the infection mechanisms and its trans- own set of circumstances, without taking into account the
leprosy scholar and one of the founders of SBD, there are re- the interior of the state, in 1806, a hospital for lepers was built missibility, deeming it difficult to associate the bacteria transmission of the disease in other countries. In Hawaii and
cords of cases dating from 1600, but only much later, in 1741, in the city of Itu and remained in activity for 125 years; with leprosy, fueling a debate that went on through the first in the Philippines, for example, it had been proven that sepa-
a sanatorium to treat lepers was created, in the city of Recife. Campinas built Hospital dos Lázaros de Guapira, in 1863. decades of the 20th century. The debate reached its peak rating leper mothers from their children immediately after
The Portuguese Crown was neglectful of building insti- For a long time, leprosy was confounded with other dis- in Berlin, in 1897, at the First International Leprosy Con- birth prevented contamination. In view of that evidence, that
tutions to treat lepers. In Rio de Janeiro, authorities tried in eases as syphilis and Greek elephantiasis, but the expansion of ference, the first international meeting on the disease. The theory was definitively withdrawn.
vain to obtain funding from the Crown to install a sanatorium research studies along the 19th century deemed possible for the conference defined the bacteria as the true and exclusive cause Brazil was not inattentive to that discussion. The ana-
Instituto Vacinogênico, São Paulo, década de 1910. Instituto Vacinogênico, São Paulo, 1910s.
in the Nossa Senhora da Conceição church. Then, in 1741, physicians to reach a more adequate assessment of the sick. In of the disease, entailing the possibility of a more precise tomical pathology laboratory, created in 1894 at Hospital dos
the Rio de Janeiro governor, captain-general Gomes Freire de Brazil, Dr. Joaquim Cândido Soares de Meirelles submitted to therapeutic intervention, defined in its final considerations Lázaros, conducted bacteriological research on the leprosy
bacteria in different cultures. That hospital was a major center
of treatment of the disease, according to the requirements of
that period. Clinical director Azevedo Lima sent to the Berlin
Conference a communication entitled “Leprosy in Brazil,”
which advocated contagion and patient isolation, by regarding
each leper as a hazard to those who live in close contact with
him or her, whether at home or at a hospital. José Lourenço de
Magalhães, a tenacious anticontagionist, was one of his main
theoretical opponents. In 1900, Magalhães published his study
called Étude sur la lèpre au Brésil, as a response, above all, to
the Berlin Conference, which, in his opinion, took place based
on preconceived ideas, as expressed in its conclusions.
due prevention of transmission by mosquitoes was an im- option. Isolation had already been anticipated in 1904, un-

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perfect action in areas densely populated by those insects, der the item “General prevention of infectious diseases,” of
thus fueling the debate. Dr. Belmiro Valverde, after extolling Decree #5156, that was part of the regulation of the sanitary
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the scientific competence of Adolfo Lutz, assessed the work of reform undertaken by Oswaldo Cruz. At that time, there was
authors contrary to that theory and submitted studies con- a fierce debate about sanitary issues in Rio de Janeiro. With
ducted in the Antilles that confirmed the inexistence of reference to leprosy, which was regarded as a chronic disease,
Hansen bacteria in the digestive tube of those insects; Dr. as hospitals were no longer adequate to treat and control the
Fernando Terra, a physician, leprosy researcher, and a disease, they were replaced with leprosaria, which were
founder of SBD, also contested the theory, stating that not different insofar as they offered more specialized thera-
only did it go against the most renowned authors but also peutics: sheltering and segregating the sick.
ignored the contribution of Hospital dos Lázaros, which he But supporters of confinement to prevent the disease
Societies and institutions that gathered physicians were directed, in the São Cristóvão neighborhood, where leprosy defended that an island would be a proper place, inspired by the example of the Hospital de Isolamento de São Paulo leprosy since the beginning of the Republic, discrediting the
the center of scientific debates about the diseases that devastated events were rare, despite the lack of mosquitoes. But he took Molokai, in the Hawaiian archipelago, which had become a that was located in a densely populated area and that in isolation method that IPLDV had adopted and the thera-
the people in the country. In the case of leprosy, on the initiative into consid­e­ration the possibility of mosquitoes as disease reference for public policies to fight leprosy. Oswaldo Cruz twenty-two years of operation had not spread one single peutic use of chaulmoogra, and publishing alarming data
of Associação Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, in 1915, a carriers and recommended that the committee should con- had already voiced his opinion on that subject in a report to contagious disease to the neighborhood. on the evolution of the disease, with the purpose of disquali-
Leprosy Prevention Committee was created on the basis of tinue its research studies. At last, Carlos Seidl, president of the the Home Affairs minister J.J. Seabra, in which he advocated fying the effectiveness and the role of leprosaria. He affirmed
Dr. Belmiro Valverde’s proposal. At professor Juliano Moreira’s committee, accepted Dr. Paulo Silva Araújo’s proposal of transferring the sick to “leper colonies,” establishments where The dispute between Belisário Penna and that withdrawing lepers from society was the only safe
suggestion and guidance, the committee counted on the partici- carrying on with Dr. Juliano Moreira’s ideas on the need they could devote themselves to a daily activity, in addition Eduardo Rabello means of preventing the disease from spreading, regarding
pation of all medical societies of the country’s capital, and deve­l­ of further probing to confirm transmission by insects. to receiving an adequate treatment. He had planned to iso- While leprosy was not among the government sanitary hospital confinement as an intolerable prison. He stressed
oped relevant studies on the various aspects of the disease. On The conference aroused heated debate. Among the late the sick on Ilha Grande, but did not carry on with his priorities in the 1910s, doctors included it in their debates in that the solution was to build municipalities called Mu-
concluding its works, in 1919, the committee presented its con- unconditional supporters of Adolfo Lutz were Henrique de project, as he assumed the direction of Instituto Oswaldo view of the threat of becoming widespread, and of the diffi- nicípio da Redenção or Município dos Lázaros, where lepers
clusions to support a law to regulate the fight against leprosy. Beaurepaire Rohan Aragão, also from Instituto Oswaldo Cruz and left the General Health Directory. culties to identify modes of transmission and treatment. would live freely, would be able to work, and would take on
The Leprosy Prevention Committee was composed of Cruz, and Emilio Gomes, a former bacteriologist with the In 1907, in the 6th Brazilian Congress on Medicine and Thus, in 1920, Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doen- responsibility for social, political, and administrative issues.
representatives of the National Academy of Medicine – doctors Rio de Janeiro public health service; among the opponents Surgery, held in São Paulo, the Dermatology and Syphilogra- ças Venéreas (IPLDV) was created based on the new defini- The idea was inspired by Oswaldo Cruz’ project that, in
Emílio Gomes, Alfredo Porto, and Henrique Autran; the Society were Dr. Fernando Terra, director of Hospital dos Lázaros, phy Section, presided by Werneck Machado, seconded a mo- tion of the disease as a nationwide problem. 1913, proposed isolating lepers on Ilha Grande, which
of Medicine and Surgery – professor Eduardo Rabello and professor of dermatology at the Rio de Janeiro Medical tion submitted by doctors Ulysses Paranhos, Alberto Seabra, The preventive proposal of that agency was the object of already had facilities to house a large confinement hospital.
doctors Werneck Machado and Guedes de Mello; the Der- School, and president of SBD, and especially Belmiro Val- and Adolpho Lindemberg that proposed measures as the iso- criticism and discussion, and the dispute between Belisário The objective was not only to ensure a patient’s well-being,
matology Society – professors Fernando Terra, Juliano Moreira, verde. Contagionists pointed out the lack of experimental lation of lepers in agricultural colonies, taking advantage of Penna and Eduardo Rabello about the isolation implemented but also to guarantee that the healthy population preserved
and Adolfo Lutz; the Medical Society of Hospitals – doctors data to confirm transmission by the mosquito. While Valver­ uninhabited but fertile Brazilian islands; compulsory notice by the IPLDV was highly representative. Penna regarded their good health.
Sampaio Viana, Silva Araújo Filho, and Oscar Dutra e Silva; ­de admitted to insect intervention, he contested Lutz’ theory, of leprosy; and the creation and education of newborn babies leprosy as the most serious problem in the country and, in his Eduardo Rabello opposed Penna’s proposal by pointing
the Medical Surgical Association – doctors Paulo Silva Araújo, citing the Amazon, a mosquito-infested state that showed a with leper parents in government orphanages. In 1918, taking opinion, only strict measures would be efficient to stand up to out the failure of that type of method in other countries, thus
Negro da Bahia, 1890.
Henrique de Beaurepaire Rohan Aragão, and Belmiro Valverde. low percentage of leprosy events. part in the Comissão de Profilaxia da Lepra, Fernando Terra the “disdain of public authorities.” In various articles published restating IPLDV’s orientation regarding isolation in lepro-
Adolfo Lutz went on defending his theory in the course and Juliano Moreira, in “Lepra e isolamento”, pointed out as by the press, he advocated the creation of a municipality to saria or at home, granting the patient the freedom to choose,
Bahia Negro, 1890.
Contagionists versus anticontagionists – Adolfo Lutz of his entire career as a researcher, presenting his ideas at the a preventive measure that those who had been attacked by the segregate all the lepers in the country. Eduardo Rabello, a der- as long as the requirements of sanitary officials were com-
and Belmiro Valverde 2nd South American Congress on Dermatology and Syphi- disease should be withdrawn from social relations. matologist and syphilographer, and an IPLDV director from plied with. That position was also object of criticism, despite
In November 1915, the Leprosy Prevention Commit- lography, in 1921, in Montevideo, and in the American Con- That issue was rather complex, and discussions in- 1920 to 1926, was his opponent. Rabello advocated the isola- the fact that the government had already started to build
tee sponsored a debate on the modes of transmission of ference in Leprosy, held in 1922, in Rio de Janeiro. The debate volved aspects of various types. Isolation at a patient’s own tion of patients in leprosaria as a way to prevent transmission. those facilities. Rabello argued that the lack of enough lepro-
leprosy. During that event, Adolfo Lutz proposed the theory on that subject did not leave the stage until 1930, in the home could only be possible if that patient could afford to do But the scarcity of funds and the insufficient number of institu- saria would hinder hospital confinement as the law had
of transmission by mosquitoes that had bitten an infected National Academy of Medicine meetings, in which Belmiro so and strictly follow sanitary and disinfection procedures. tions to house the sick forced IPLDV to accept “home isolation.” stipu­lated, and proposed the construction of agricultural
person in feverish condition, with the presence of bacteria in Valverde presented further work to support his opposing Thus, in 1919, the committee presented the results in its con- That dispute was triggered by the publication of an ar- colonies far from urban centers, to avoid spreading fear and
the blood, and affirmed in his lecture that isolation without position to Adolfo Lutz’ theories. clusions, recommending leper isolation, the rational basis to ticle in which Penna criticized the way the State had fought insecurity among the healthy population. In other words,
Other relevant researchers published studies on the dis­ prevent leprosy, without distinction of class or individual.
ea­se, taking other aspects into account. On the theme “mar- But in 1916, at the 1st Congress on Medicine of the
riage and leprosy,” in 1916 doctors Paulo Silva Araújo and State of São Paulo, Emílio Ribas delivered a lecture making a
Belmiro Valverde presented A lepra e o casamento, which number of remarks about the problems of isolation in his es-
was directly associated to the eugenic concept. On “leprosy say “A lepra: sua frequência no Estado de São Paulo – Meios
and domicile,” doctors Eduardo Rabello and Silva Araújo profiláticos aconselháveis,” referring to the choice of an isola-
Filho presented the study Relações entre a lepra e o domicílio. tion place for lepers. He warned that isolating a patient on an
island and withdrawing him or her from his or her social
Confinement or isolation? environment would be a very serious error, arguing that
The contagion thesis ended up prevailing in a period hospital in populated areas accept patients with much more
filled with uncertainty about the modes of transmission of contagious diseases than leprosy, with no harm to public
the disease, and isolating the sick was deemed the best health, as long as sanitary principles are observed. And gave
transferred the responsibility for leprosy programs to the

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states, with the end of the National Leprosy Campaign. In São


Paulo, compulsory isolation of lepers was abolished in the
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whole state in 1967, when Dr. Abrahão A. Rotberg took on the
directory of the former Leprosy Prevention Department, at
the State Health Secretariat, under the management of Pro-
fessor Walter Leser. Rotberg also proposed to change the name
of the disease from “lepra” to “hanseníase,” and saw that the
term was replaced in all official documents to eliminate the
stigma caused by the name of the disease that could lead a
patient to hide it, preventing his or her treatment and keeping
Penna advocated the idea that the sick should live “like us,” de Barros Barreto, Health and Medical-Social Assistance na- the endemism. Abrahão Rotberg’s proposition was adopted in
but in isolation, and Rabello believed that keeping them tional director, Ernani Agrícola, director of Sanitary Services the entire country through Federal Law #9010, dated March
“among us,” also in isolation, would be the best thing to do. in the states, and Joaquim Motta, assistant to the General 29, 1995, which made the use of the term “hanseníase,” and
The idea of building agricultural colonies started gaining mo- Public Health Technical Section developed a plan in an effort its derivatives, compulsory in all official documents of the
mentum and was approved as the main model for isolation. to restore the credibility that had been lost in the former re- fede­ral government. The name change sought to eliminate the
In the 1930s, the federal government started erecting a num- form. Most facilities that had been built as part of that plan odd fantasies and the prejudice against the disease, in addi-
ber of such facilities in the country, without changing the ap- started activities in the 1940s, when the National Leprosy tion to encouraging health education. Rotberg’s research stud-
proach to fight the disease. Service of the National Health Department, created in 1941, ies in allergy and Hansen’s disease immunology brought him
Political initiatives caused preventive measures to lose was already in operation. From then on, leprosy was the ob- worldwide renown. Nowadays, it is crucially important that
uniformity. Washington Pires, in charge of the Ministry of ject of a broader and more systematic evaluation, a real need people infected with leprosy disseminate, whenever possible,
Education and Public Health, implemented a series of chan­ges in view of the seriousness of the disease. the new and current concepts and advancements on Hansen’s
in the federal health services in 1934, extinguishing Direção disease, a curable disease of low contagiousness and against
Nacional de Saúde Pública (DNSP) and Inspetoria de Profi­ Hansen’s disease among us which most people have “natural immune defenses.”
laxia da Lepra e das Doenças Venéreas (IPLDV), fragmen- Currently, and since the 1950s, the disease is treated on
tizing activities, and transferring to each state the account- an outpatient basis. Compulsory treatment of leper patients Control and early detection
ability to fight leprosy. However, scientific research about the in hospitals was abolished by law in 1954, and required In the 21st century, the endemism of Hansen’s disease is
Reference List
disease, which had been encouraged since 1927 at the Labo- changes in the disease control policies. In fact, the real extinc- nearly extinct as a global public health problem, but Brazil,
ratório de Leprologia do Instituto Oswaldo Cruz, under the tion of compulsory isolation came into effect as of the 1960s, just as India, is included among the countries with the CARNEIRO, Glauco. História da dermatologia no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2002.

direction of leprologist Heraclides Cesar de Souza-Araujo with the creation of new dispensaries that provided outpa- highest incidence of the disease – it is still the only country in CARRARA, Sérgio. Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, na passagem do século aos anos 40. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1996.
until 1950, gained a new impetus with the creation of the tient care to investigate new cases and follow suspect cases, Latin America that has not managed to eradicate it. CHALHOUB, Sidney. Cidade febril – Cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Centro Internacional de Leprologia, as a result of negotia- which would be placed in a hospital, should the diagnosis be Expressions as “the decline of prevalence,” “elimination COSTA, Dilma Avellar Cabral da. “Entre ideias e ações: medicina, lepra e políticas públicas (1894-1934).” PhD thesis, Niterói:
tions between the Brazilian government and the League of confirmed. With the end of compulsory isolation, lepers were of Hansen’s disease in the world,” “short-duration outpatient ICHF – Universidade Federal Fluminense, 2007.
Nations. Its first director was Carlos Chagas who, after his free to leave their sanatoria, and their treatment could be treatment,” and “cure” have been embedded in current con- CUNHA, Vivian da Silva. “Centro Internacional de Leprologia: ciência, saúde e cooperação internacional no Brasil do entreguerras
death, was succeeded by Eduardo Rabello. provided through health centers. But after decades of segre- ceptions as opposed to the stigmas relating to that disease (1923-1939).” PhD thesis, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz, 2011.
Further stability to public health was granted in 1934, gation, many patients chose to remain in leprosaria, because until the mid-20th century. HOCHMAN, Gilberto. A era do saneamento: as bases da política de Saúde Pública no Brasil. São Paulo: Hucitec/Anpocs, 1998.
when Gustavo Capanema assumed the Ministry of Educa- they had no other place to go or means to survive in society. Thus, health policies have been devised to guide pro- MACHADO, Maria Helena; VIEIRA, Ana Luiza Stiebler (eds.). Perfil dos dermatologistas no Brasil: relatório final. Rio de Janeiro:
tion and Public Health. However, as statistics showed an in- In the wake of the changes required by the disease, pre- grams aimed at controlling Hansen’s disease, based on early Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2003.
sufficient number of specialized sanatoria and hospitals to vention methods were modified together with leprosy control detection and the immediate care of new cases to eliminate MACIEL, Rosa Laurindo. “Em proveito dos sãos, perde o lázaro a liberdade: uma história de políticas públicas de combate à lepra no
house lepers, a national plan to fight the disease was develo­p­ policies based on decentralization of care and on the increase sources of infection and aftereffects. Brasil (1941-1962).” PhD thesis, Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2007.
­­­­­­­­­­­­­­ed. In the following year, as appointed by Capanema, João of population coverage. In 1964, the federal government Currently, Brazil has shown results that substantiate a Manual de leprologia. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Lepra – Ministério da Saúde, 1960.
declining trend in the prevalence of the disease in agreement MARTELLI, Celina Maria Turchi; STEFANI, Mariane Martins de Araújo; PENNA, Gerson Oliveira; ANDRADE, Ana Lúcia S. S.
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Ensaio sobre a pele
Renato da Silva Queiroz

Projeta-se em nossa pele, como se fora sobre uma tela, a a distância, os “macacos nus” de outras espécies primatas, e A mansidão humana
gama variada das experiências de vida; emergem as distinguindo, mais de perto, as suas fêmeas imberbes dos A relativa fragilidade da pele humana, esse tecido fino e
emoções, penetram os pesares, a beleza encontra sua machos de faces peludas (Morris, 2005). delicado, desprovido de pilosidade espessa, cuja cicatrização
profundidade. Macia, lisa, alimentando a vaidade da ju- A rarefação da pelagem, esclarece Montagu (1981), é lenta – em comparação com a dos chimpanzés, por exem-
ventude, a pele posteriormente enrugada atesta a passa- deve ter tido valor adaptativo para os nossos ancestrais na plo –, constitui claro indício de que não fomos fortemente

E
gem dos anos. Radiante na saúde, sente um formiga- medida em que contribuiu decisivamente para a regula- afetados por pressões seletivas para resistir a ferimentos.
mento ao toque amoroso. gem térmica do corpo1. Todavia, o autor tampouco se es- Além da vulnerabilidade cutânea, diversas outras
Ashley Montagu quece da importância dessa característica cutânea para os características, precocemente selecionadas em nossa trajetó-
processos de atração e seleção sexual, visto que a nossa ria evolutiva – caninos discretos, braços encurtados, mãos
O macaco nu pele “nua”, extremamente sensível ao toque, destaca-se delicadas, pequena força da mordida, equilíbrio precário em
Em A evolução da humanidade, o célebre antropólogo como poderosa fonte de estímulos eróticos. “Na fase de razão da postura bípede, acanhada massa muscular do pes-
Richard Leakey enumera um conjunto de características sin- excitação sexual, toda a qualidade sensorial da pele está coço, gracilidade óssea, reduzida força muscular etc. –, tra-
gulares da subespécie Homo sapiens sapiens, destacando o intensificada. Sensações que em circunstâncias ordinárias duzem um enfraquecimento anatômico para a luta corporal.
caminhar bípede, incomum entre os mamíferos, e o formato seriam dolorosas geralmente se tornam muito agradáveis”, Essa fragilidade resultou de um decréscimo significativo da
arredondado da cabeça, que, diferentemente dos demais pri- como as produzidas por beliscões, apertos, mordidas sua- agressividade intragrupal, pois o incremento das formas de
matas, porta um cérebro volumoso e uma face achatada, ves e arranhões (Montagu, 1988: 223). cooperação favoreceu a atenuação do padrão hierárquico
com proeminente nariz voltado para baixo. Outro “mistério” Crânio abalonado, rosto achatado e pele glabra, típico dos primatas ancestrais (Ribeiro, Bussab e Otta, 2009).
da evolução humana, assinala o autor, diz respeito à aparente ademais de muitos outros traços típicos dos humanos, Em divergência com outros primatas, evoluímos
nudez da nossa pele, que nos diferencia dos antropoides por como bem observou Waal (2007), constituem caracterís- compartilhando alimentos em um ambiente social pací-
não exibir uma pelagem espessa: “O pelo do corpo humano ticas morfológicas neotênicas2, pois derivam da lentidão fico e igualitário, e o fizemos no interior de agrupamentos
é abundante, mas extremamente fino e curto, de modo que, do processo de maturação que nos distingue de outros bem configurados, nos quais a cooperação entre homens
para fins práticos, estamos nus”. Essa “nudez” estaria relacio- primatas (Futuyama, 1992). caçadores e mulheres coletoras parece ter desempenhado
nada à nossa capacidade de suar, inigualável entre os prima- decisivo papel na emergência da sociabilidade distintiva
tas, proporcionada pelas numerosas glândulas sudoríparas dos humanos modernos. O emprego de armas despon-
localizadas na pele (Leakey, 1982: 18). 1. A pele é um órgão multifuncional: base do tato, fonte de informa- tou, de início, como uma adaptação à animosidade extra-
Nas savanas africanas, ambiente em que o gênero ções e mediadora de sensações, protetora do organismo na medida em
grupal3, e não para a resolução de conflitos intragrupais
que constitui uma barreira entre ele e o ambiente externo, sintetizadora
Homo evoluiu no decorrer de milhões de anos como prima- da vitamina D, entre diversas outras funções. (Ribeiro, Bussab e Otta).
ta bípede, uma densa cabeleira protegia os nossos ancestrais 2. Neotenia é o processo por meio do qual traços fetais e/ou juvenis de
dos escaldantes raios solares, ao passo que o corpo “pelado” espécies ancestrais ou de nossa própria espécie são retidos nos estágios
do desenvolvimento do indivíduo, etapas que se sucedem lentamente 3. Cabe observar que as ideias sustentadas pela psicologia evolucionis-
os favorecia, resfriando-os graças ao suor. Tomando-se esse (Montagu, 1981). São traços neotênicos, entre outros: cabeça grande, ta e pela antropologia são coincidentes quanto a esse aspecto. Clastres
ambiente como cenário evolutivo, mostra-se igualmente ve- rosto achatado, formato arredondado da cabeça, rosto e dentes peque- (1980), por exemplo, referindo-se aos nativos das terras baixas da
nos, ossos cranianos finos, fechamento tardio das suturas cranianas, América do Sul, ressalta que as conflituosas relações intertribais desses
rossímil o argumento de que o peculiar padrão capilar hu- unhas delicadas, relativa ausência de pelos, prolongado período de edu- povos contrastam com a natureza pacífica do ambiente interno aos
mano constituiu um importante sinal visual, diferenciando, cação e ludicidade. grupos locais (ou aldeias).

Renato da Silva Queiroz é antropólogo e professor titular aposentado


do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo – USP,
onde obteve os títulos de mestre em ciências sociais, doutor e livre-
-docente em antropologia social.
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A favor da tese da mansidão humana intragrupo, que Embora os julgamentos afetos à estética corporal e à
se evidencia na fragilidade cutânea e em outras caracterís- atratividade estejam sujeitos às estereotipadas convenções
ticas singulares dos humanos, figura também o reduzido culturais, há consistentes indícios de que alguns critérios
dimorfismo sexual do Homo sapiens sapiens e de seus an- de avaliação do belo e do atraente são universais, donde a
cestrais, cujos machos não são significativamente maiores valorização das faces simétricas, dos corpos esbeltos e pro-
do que as fêmeas. Enquanto os gorilas machos, por exem- porcionais e de peles lisas, viçosas, imaculadas (Etcoff,
plo, alcançam o dobro do tamanho das fêmeas, entre nós 1999). Peles macias, suaves, firmes e sedosas, acompanha-
essa diferença entre os sexos não ultrapassa os 15%. Esse das de cabelos lustrosos, são atestados visuais de juventude,
reduzido dimorfismo sexual relativo ao tamanho do corpo boa saúde e, ao mesmo tempo, um poderoso sinal erótico
(que se estende igualmente aos caninos e à força muscular) da espécie. Inversamente, a presença de acne, rugas, sardas,
está associado à seleção de uma estratégia não agressiva manchas, verrugas e outras imperfeições compromete a
entre os machos para o acesso às fêmeas e à formação de beleza do rosto, do mesmo modo que estrias, flacidez, celu-
pares duradouros (Mace, 1992). lite e varizes enfeiam o restante do corpo.
Em suma, os argumentos supramencionados não São numerosos os procedimentos adotados pelas
robustecem a tese segundo a qual teríamos evoluído como mulheres mais maduras e idosas para imitar a pele fresca e
macacos assassinos, criaturas portadoras de incontrolável luminosa da juventude. No antigo Egito, elas se banhavam
instinto agressivo. É mais sensato presumir que os huma- em uma mistura de água e carbonato de cal, esfregavam os
nos exibem uma disposição inata para a conduta pacífica pés com pedra-pomes e, após o banho, untavam-se de óleos
tanto quanto para a agressão, cabendo em grande parte à vegetais perfumados com ervas aromáticas. Na atualidade,
cultura tecer os padrões que configuram a vida social, recorrem a variados procedimentos, como limpeza de pele,
pois o nosso comportamento, extremamente sensível ao cirurgia plástica, peeling, aplicação de toxina botulínica e
ambiente, não pode ser definido como pré-programado laser, e fazem uso de uma miríade de produtos cosméti-
(Leakey e Lewin, 1982). cos, com vistas na melhoria estética e no rejuvenescimento
cutâneo (Etcoff, 1999; Castilho, 2011).
A atratividade Alguns pesquisadores acreditam que nossos detectores
A “nudez” da pele humana é mais pronunciada nas de beleza identificam prontamente a relação entre juventude
mulheres. Com exceção do topo da cabeça, das axilas e da e feminilidade, e lembram ainda que as feições femininas
região pubiana, a fêmea do Homo sapiens sapiens parece ser apresentam-se sempre como mais joviais. Castilho (2011)
desprovida de pelos, ou seja, sua pele é funcionalmente nua ressalta que em diversas obras literárias dos séculos XIX e XX
(Morris, 2005). Por isso, o corpo feminino tende a ser mais a pouca idade – dos 15 aos 18 anos – desponta como um
macio ao tato e mais sensível ao toque. dos principais traços da beleza feminina, compondo o perfil
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das personagens Carolina (A Moreninha), Inocência (do Quando enrubescem muito intensamente, algumas Montagu (1988) descreve o caso de uma mulher que Charles Darwin, que abominava a escravidão, deixou
romance homônimo) e Aurélia (Senhora), entre outras. Em pessoas tornam-se mentalmente confusas, desnorteadas ou corava quando se via abraçada por outra mulher, pois te- de explicitar o valor adaptativo do rubor para não conferir
O guarani, José de Alencar assim descreve a atraente Cecília, desajeitadas, chegando a perder a presença de espírito e a mia ser rotulada de lésbica. Em Lucíola, José de Alencar legitimidade à tese segundo a qual apenas os seres superio-
moça bela e faceira na juventude dos seus 18 anos: manifestar gagueira, taquicardia, respiração alterada e tre- concebe uma surpreendente reação de Lúcia, bela e requi- res, dotados de senso moral – categoria de que eram excluí-
mores involuntários de certos músculos faciais. sitada prostituta, que “se enrubesceu como uma menina e dos os negros escravizados –, teriam a capacidade de corar.
Com efeito, Cecília estava nesse momento de uma formo-
Darwin assinalou que o rubor é mais intenso nas fechou o roupão” quando tomou ciência de que parte de Investigações posteriores constataram o valor adap-
sura que fascinava. Tinha os cabelos ainda úmidos, dos
crianças que nos adultos, nos jovens que nos idosos, nas seus seios se expunha à observação de um admirador. E tativo do rubor, nele identificando uma função apazigua-
quais escapava de vez em quando um aljôfar que ia per-
mulheres que nos homens e quando se está na presença Mário de Andrade, em Amar, verbo intransitivo, recobre de dora, visto que, à semelhança do sorriso e do embaraço,
der-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do roupão;
do sexo oposto. Bebês e crianças muito pequenas não exi- assemelhada expressão a governanta alemã contratada essa expressão contribui para melhorar a imagem pública
a pele fresca como se ondas de leite corressem pelos seus
bem tal expressão, pois as suas capacidades mentais ainda para iniciar sexualmente o garoto Carlos, que, “aprovei- de quem enrubesce – sobretudo dos que cometem trans-
ombros; as faces brilhantes como dois cardos rosas que se
não estariam suficientemente desenvolvidas para fazê-los tando um momento de sozinhos, dera um abraço tão gressões mais leves –, suscitando a condescendência dos
abrem ao pôr do sol.
corar. Todavia, cegos e negros também são suscetíveis encostado em Fräulein que ela se sentira enrubescer”. Cabe que os julgam ou avaliam (Pereira, 2008).
As preferências adultas por traços infantis específi- ao rubor – a pele destes últimos adquire uma cor mais ainda lembrar que, na mitologia grega, Eos (Aurora), tendo
cos, sustenta Sarah B. Hrdy (2001), devem ter modelado as escura e brilhante quando coram, alteração perceptível se apaixonado pelo gigante Orionte, continua a enrubescer O tocar
atrações humanas por cores, formatos e tecidos, entre os aos que lhes são mais íntimos, como cônjuges e familiares todos os dias com a recordação dessa paixão. Entre os mamíferos, as fêmeas costumam lamber os
quais se destacam pele sedosa e cabeças grandes e gra- (Pereira, 2008). Darwin opõe a teoria da evolução à crença de que o filhotes recém-nascidos. O comportamento de lamber o
ciosas. À luz dessa constatação, faz sentido a preferência Segundo Darwin, o rubor traduz uma preocupação rubor foi concebido pelo Criador para que a alma pudesse filhote, mais do que simplesmente limpá-lo, promoveria a
feminina pelo vermelho para colorir os lábios e as maçãs consigo mesmo em virtude da opinião alheia, uma preocu- exibir nas faces as diversas emoções internas dos sentimen- ativação de seus sistemas de manutenção, em especial dos
do rosto, pois essa cor, que se intensifica com a excitação pação consciente com a própria aparência, conduta moral tos morais, de modo que tivéssemos um freio para nós mes- mecanismos circulatório, respiratório e excretório, estimu-
sexual, mostra-se atraente e visível de longe. ou quebra de etiqueta; decorre da vergonha, da modéstia e, mos e, simultaneamente, uma sinalização para os outros de lando-os a funcionar adequadamente logo após o parto. As
notadamente, da timidez ou do acanhamento. Coram os que estaríamos violando regras que deveriam ser sagradas. fêmeas humanas não exibem tal conduta – e também não
O rubor que acreditam que cometeram um ato de indelicadeza, de A improcedência do postulado criacionista transpa- “catam” nem “penteiam com os dentes” os seus bebês –,
No clássico A expressão das emoções no homem e nos deslize moral, e também aqueles que são descobertos ou rece na sua incapacidade de explicar por que a timidez é a mas o prolongado trabalho de parto a que estão sujeitas,
animais (1872/2000: 290-322), Charles Darwin ocupou-se do acusados de falsidade4 ou ingratidão, assim como os que mais comum e eficiente causa do rubor, que faz “sofrer submetendo o feto a intensas contrações uterinas, equiva-
rubor, definido por ele como “a mais humana e peculiar das são objeto de zombaria, ridicularização, ofensa, elogio, quem enrubesce e constrange quem observa, sem ter a me- leria a “lamber a cria” (Montagu, 1988).
expressões”. Constatou que a face, as orelhas e o pescoço são censura e desaprovação. nor utilidade para qualquer um dos dois. [Os criacionistas] Os bebês humanos são dependentes de extensos
as regiões do corpo mais suscetíveis ao enrubescimento e que Também terão dificuldades para explicar por que negros cuidados parentais, pois vêm ao mundo em condição de
essa expressão involuntária frequentemente se faz acompa- e outras raças de pele escura enrubescem, já que neles a imaturidade comportamental, fisiológica e bioquímica, e
4. “A verdade não enrubesce”: frase atribuída a Tertuliano. “Quem
nhar de gestos como baixar ou virar a cabeça para um dos enrubesce já é culpado; a verdadeira inocência não tem vergonha de
mudança de cor na pele é quase ou totalmente invisível” se beneficiam profundamente das estimulações cutâneas
lados, esconder o rosto, olhar para baixo ou desviar o olhar. nada”: pensamento atribuído a Rousseau. (Darwin, 1872/2000: 314). sofridas no decorrer do trabalho de parto. Os nascidos de
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parto normal e a termo têm seus sistemas imunológicos pescoço, aos mamilos etc. Além disso, não se deve esquecer
ativados mais precocemente e tendem a se tornar indiví- dos agradáveis e estimulantes odores que a pele secreta e
duos mais seguros e menos estressados. A propósito, exala. Em outras palavras, toda a extensão da pele é uma
Montagu (1988) assinala que a expressão francesa “un zona erógena5.
ours mal léché” – “um urso mal lambido” – descreve uma As carícias preliminares, que exploram diversas
pessoa desajeitada, canhestra, grosseira, em suas relações partes do corpo, executadas por meio das mãos, dos
com os outros. lábios e da língua, mostram-se tão mais prolongadas e
As contrações uterinas do trabalho de parto dão iní- irrestritas quanto mais íntimos e afetivamente ajustados
cio às carícias ofertadas ao bebê, que se multiplicam com os se sentem o(a)s parceiro(a)s. Portanto, não seria descabido
cuidados a ele dispensados pela mãe. O seu íntimo contato concluir que as relações sexuais proporcionam uma densa
com a figura materna se acentua durante as sessões de alei- e intensa comunicação tátil entre os que se enlaçam no
tamento e também por ocasião dos banhos e outros proce- diálogo do amor.
dimentos de higiene corporal, oportunidades em que a
pele do bebê é friccionada e acariciada. A humanização do corpo
O bebê se sente seguro e acolhido aninhando-se no Apenas os seres humanos modificam voluntaria-
colo materno. Quando é transportado e embalado para mente o próprio corpo, ornamentando-o e introduzindo
que durma ou deixe de chorar, ouve da mãe palavras sua- nele alterações radicais e irreversíveis – extração de dentes,
vemente pronunciadas. “O ser humano pode sobreviver deformação craniana, excisão de clitóris, entre outras –
a privações sensoriais extremas de outra natureza, como a ou temporárias e reversíveis, como é o caso das depi-
visual e a sonora, desde que seja mantida a experiência lações e pinturas corporais (Rodrigues, 1975). Essas
sensorial da pele”, sustenta Montagu (1988: 106). Por isso, alterações, sujeitas a grande variabilidade porque se
os bebês privados de contatos com a mãe, ou que não processam no âmbito de grupos sociais específicos, cada
foram carinhosamente tocados ou acariciados, costumam qual com sua cultura, marcam e reafirmam status, iden-
enfrentar entraves físicos e emocionais nas fases de desen- tidades nacionais, etárias, religiosas, ocupacionais, de
volvimento subsequentes. classe, de gênero etc.
Se as carícias e estimulações cutâneas são essenciais
ao bebê, também não se mostram menos significativas na
idade adulta, particularmente nas interações amorosas. 5. “Um pedaço de pele com aproximadamente 3 centímetros de diâme-
tro contém mais de 3 milhões de células, entre 100 e 340 glândulas sudo-
Em nenhuma outra relação a pele é tão profunda e exten- ríparas, 50 terminações nervosas e 90 centímetros de vasos sanguíneos.
samente envolvida como na relação sexual. As zonas eró- Estima-se que existam em torno de 50 receptores por 100 milímetros
quadrados, num total de 640.000 receptores sensoriais. [...] O número
genas do corpo não se restringem aos órgãos genitais, mas de fibras sensoriais oriundas da pele que entram na medula espinhal
se estendem aos lábios, aos lóbulos da orelha, à região do [...] é superior a meio milhão” (Montagu, 1988: 24-25).
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Usualmente, as modificações introduzidas no corpo entre os objetos depositados em sarcófagos egípcios na composição do feio, do perigoso e do monstruoso, estig- seres anômalos, criaturas intermediárias entre o humano e o
se conformam aos ideais estéticos de cada sociedade e de (Etcoff, 1999). matizando e marginalizando portadores de síndromes e animalesco, indivíduos com hipertricose, como as “mulhe-
seus diferentes subgrupos. Entretanto, não é incomum Boa parte dos cuidados corporais, notadamente os moléstias que afetam a pele ou nela se manifestam6. res barbadas”, exibiam-se em circos e shows de horrores,
que sirvam também à expressão de inconformismos procedimentos e produtos destinados a colorir, amaciar, Em Fogo morto, romance eleito como obra-prima de atraindo multidões de curiosos aos espetáculos8.
(Queiroz e Otta, 2000). perfumar, hidratar e esticar a pele – o maior e mais estético José Lins do Rego, a superstição popular evoca o mito do Não têm outra sorte os que apresentam a modalidade
Em diversas sociedades indígenas o status do indiví- órgão do corpo –, tem por objetivo manter a sua beleza e lobisomem na estigmatização do mestre seleiro José Amaro, mais severa de albinismo – ausência de melanina na pele, nos
duo é escrito fisicamente na superfície do seu corpo. Marcas juventude. No mundo moderno, em que a boa aparência se acusado de licantropia porque cultivava o hábito de caminhar olhos, cabelos e pelos –, em especial nos países e re­giões
de pertinência, expressão de crenças culturais ou religiosas, reveste de elevado valor de sobrevivência, gastam-se fortu- solitariamente em noites enluaradas e, sobretudo, devido à cuja população exibe pele escura ou negra. As desventuras
as cicatrizes e tatuagens não ocupam um espaço separado nas em cosméticos e cirurgias plásticas. Nos Estados Unidos coloração amarelada de sua pele7, que lhe conferia um aspec- dos albinos são múltiplas, pois é sabido que, em razão da
do corpo, mas se perpetuam na própria pele, e nela tam- esses gastos representam mais que o dobro dos recursos to doentio. A negra Margarida adverte a esposa do seleiro: pele sensível, da fotofobia e de outras dificuldades visuais
bém traçam as feições do ser coletivo que se sobrepõe à desembolsados para a aquisição de material de leitura, o que causadas pela carência de pigmentação, preferem eles cir-
Comadre Adriana, o povo está falando muito do mestre
identidade individual, como se fosse uma pele social configura uma busca desesperada pela beleza por aqueles cular à noite, sob tênue luminosidade. Essa preferência e a
José Amaro... Estão dizendo que ele está virando lobiso-
(Clastres, 1974; Helman, 2003). que almejam recuperar a aparência da adolescência núbil, sua singular aparência os colocam sob suspeição, donde as
mem. [...] que aquele amarelão dele é que faz o mestre
O corpo é um artefato da cultura, apropriado, mo- como se fosse possível capturar e manter imune à ação do acusações de licantropia que lhes são dirigidas. Em algu-
correr como bicho danado.
delado e modificado por ela desde o nascimento, sendo tempo a exuberância efêmera da juventude (Etcoff, 1999). mas regiões africanas, os portadores de albinismo estão
assim submetido a um processo de humanização, já que Essas concepções e práticas associadas ao embeleza- Estigma idêntico recobre os que padecem de hipertri- sujeitos a sérios riscos, decorrentes da crença de que algu-
o uso que dele fazemos não é “natural” ou espontâneo, mento corporal, embora condicionadas pelo caráter arbitrá- cose, vulgarmente conhecida como “síndrome de lobiso- mas partes de seu corpo contêm propriedades curativas e o
mas padronizado de acordo com as numerosas técnicas rio da cultura, não se dissociam de razões e critérios univer- mem”, caracterizada pelo exagerado crescimento de pelos dom de bafejar com a sorte os que dela venham a se servir9.
corporais que o adestram para a realização de operações sais, afetos aos julgamentos estéticos e à seleção de parceiros. por todo o corpo ou em partes dele. Vistos como aberrações, A hanseníase, conhecida antigamente como “lepra”,
e movimentos socialmente rotinizados (Mauss, 1974). Por essa razão, percebemos como belas e atraentes as carac- figura como a moléstia que mais suscitou a estigmatização
Um corpo intocado, não modificado pela cultura, nada terísticas que sinalizam, sobretudo nas mulheres, juventude, de suas vítimas ao longo da história. Tomavam-se as evi-
6. É curioso observar as peculiaridades cutâneas presentes no perfil de
representa senão um ente bruto, um mero objeto da natu- nubilidade, fecundidade, saúde e boa forma, o que nos leva entidades míticas ou lendárias que povoam o imaginário popular: a dentes lesões cutâneas e neurológicas causadas pela doença
reza (Lévi-Strauss, 1957). a valorizar e a desejar, não obstante as diferenças culturais, pele mumificada do “Corpo-Seco”, figura aterrorizante dos caminhos como marcas de um castigo divino, uma punição pelos
rurais, rejeitada pela terra porque em vida pautou-se pela vilania, tendo
A expressiva maioria das modificações produzidas pessoas portadoras de pele macia e viçosa, cabelo espesso e pecados cometidos. Esse milenar estigma relegava os seus
espancado a própria mãe; o avermelhado da pele e dos cabelos da Cai-
no corpo afeta os cabelos – cortes, tinturas, ornamentos – lustroso, cintura bem marcada, corpo proporcional e face pora, entidade das florestas protetora dos animais e da caça predatória;
e a superfície da pele: depilação, pinturas, tatuagens, im- simétrica (Etcoff, 1999; Queiroz e Otta, 2000). o negrume da pele do Saci, criatura zombeteira e turbulenta de uma 8. Programas televisivos sensacionalistas exploram com relativa fre­
só perna, inseparável do cachimbo e do gorro vermelho, associada aos quência os dramas de portadores desse e de outros tipos de patologia.
plantação de piercings e escarificações. Essa paixão pelo redemoinhos e espaços liminares. 9. Ver matéria publicada pela Folha de S. Paulo em 3/11/2010, sob o
adornamento é bastante antiga, visto que arqueólogos A desumanização do corpo 7. Outros elementos reforçam a posição marginal desse personagem no título “Homem albino é eleito deputado na Tanzânia”, descrevendo os
recuperaram adereços e pigmentos corporais datados Como já foi mencionado, uma pele imaculada e viçosa cenário em que se desenvolve a história: José Amaro residia à beira da preconceitos relativos aos albinos e aos riscos que correm em países da
estrada, ocupava uma posição intermediária – a de artesão – entre o África central. Segundo a matéria, muitos tanzanianos, por exemplo,
em mais de 40.000 anos. Pertinentes a épocas mais recen- constitui uma característica universalmente valorizada e de- proprietário do engenho e os trabalhadores do eito, não tivera um filho acreditam que certas partes do corpo de albinos servem à preparação
tes, alguns tipos de estojo de maquiagem repousavam sejada. Em contrapartida, imperfeições cutâneas figuram homem e arrastava uma das pernas. de poções mágicas que proporcionam boa sorte aos que as consumirem.
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


portadores à subumana condição de seres malditos, sujos, sua saúde psíquica: identidade deteriorada e autoestima
impuros, repelentes, indesejáveis e perigosos10. afetada em consequência dos sentimentos de culpa, vergo-
O historiador Jean Delumeau (1989: 140) assim des- nha, abandono, rejeição, discriminação, solidão e impureza,
creve as representações do mal de Hansen na mentalidade além do temor de que possam contaminar pessoas próxi-
medieval e a brutalidade das perseguições sofridas pelos mas, especialmente familiares.
que contraíam a doença:
Pele: expressões e provérbios
Leprosos foram efetivamente acusados, em 1348-1350, de
A importância das funções táteis da pele está consig-
terem espalhado a Peste Negra. O aspecto horrível de suas
nada em expressões correntes no imaginário popular, embo-
lesões passava por ser uma punição do céu. Dizia-se que
ra as pessoas em geral não se “toquem”, isto é, não tenham
eram dissimulados, “melancólicos” e debochados. Acredi-
plena consciência do significado dessas expressões. Montagu Referências bibliográficas
tava-se também – concepção que pertence ao universo
(1988) reúne dezenas delas, dando prova desse uso alegórico CASTILHO, Renata dos Santos. “Estética e envelhecimento: representação da imagem para mulheres envelhescentes”. São Paulo: PUC,
mágico – que, por uma espécie de transferência, podiam
da pele. Eis algumas: “toque mágico”, “toque delicado”, “to- 2011. Tese de mestrado em gerontologia.
livrar-se de seu mal satisfazendo seus desejos sexuais com
que feminino”, “dar um toque”, “dar uma esfregada”, “entrar CLASTRES, Pierre. La société contre l’état: recherches de anthropologie politique. Paris: De Minuit, 1974.
uma pessoa sã, ou então matando-a. Em 1321, portanto
em contato”, “casca grossa”, “não me toques”, “falta de tato”,
27 anos antes da Peste Negra, leprosos acusados de terem —. “Arqueologia da violência: a guerra nas sociedades primitivas”, in: Guerra, religião e poder. Lisboa: Edições 70, 1980.
“ter as coisas na ponta dos dedos”, “sentir as consequências
envenenado poços e fontes foram executados na França. DARWIN, Charles (1872). A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
na pele”, “sentir calafrios”, “ficar todo arrepiado”.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Essa “praga maldita” suscitava um pavor generali- Por fim, evocando os provérbios mais conhecidos,
ETCOFF, Nancy. A lei do mais belo: a ciência da beleza. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.
zado , o que motivava a ruptura de laços familiares e a
11
caberia lembrar que uma pessoa falsa ou dissimulada é um
adoção de medidas destinadas a isolar os hansenianos, “lobo em pele de cordeiro” e que “a má pele não se muda”. FUTUYAMA, Douglas J. Biologia evolutiva. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética/CNPq, 1992.
condenando-os ao limbo dos espaços físicos e sociais peri- Entretanto, “há pessoas que têm duas peles” ou uma “se- HELMAN, Cecil G. Cultura, saúde & doença. Porto Alegre: Artmed, 2003.
féricos ou ao confinamento perpétuo dos “leprosários”. gunda pele”. Por precaução, é melhor “não vender a pele do HRDY, Sarah B. Mãe natureza: uma visão feminina da evolução, maternidade, filhos e seleção natural. Rio de Janeiro: Campus, 2001.
Mesmo nos dias que correm, havendo cura para essa urso antes de matá-lo”, pois “quem não pode pagar do bol- LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade. São Paulo: Melhoramentos, 1982.
doença, não é raro os pacientes exibirem, ademais das mar- so, que pague com a própria pele”. Portanto, o impreviden- LEAKEY, Richard; e LEWIN, Roger. Origens. São Paulo: Melhoramentos, 1982.
cas cutâneas hipocrômicas, máculas que comprometem a te deverá “sofrer na própria pele” os prejuízos, vendo-se LÉVI-STRAUSS, Claude. “Uma sociedade indígena e seu estilo”, in: Tristes trópicos. São Paulo: Anhembi, 1957.
obrigado a trabalhar por muito pouco ou quase nada para MACE, Georgina. “Differences between the sex”, in: The Cambridge Encyclopedia of Human Evolution. Cambridge: Cambridge Univer-
um patrão dado a “esfolar” os seus empregados, o mesmo sity Press, 1992.
10. Os termos “lazarento” e “morfético”, sinônimos de “leproso”, ainda
são empregados quando se tem a intenção de insultar ou ofender alguém. que “das costas de muitos pobres já tinha o couro tirado”. E, MAUSS, Marcel. “As técnicas corporais”, in: Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU/Edusp, v. II, 1974.
11. Nos séculos XV, XVI e XVII vigorava a crença de que a peste pode- diante de tal sofrimento, de nada adianta ficar “com os ner-
MONTAGU, Ashley. Growing young. Nova York: McGraw-Hill, 1981.
ria penetrar no corpo caso o calor e a água nele produzissem fissuras, vos à flor da pele”, pois “quem não quer ser lobo que não lhe
abrindo os poros para o ar pestilento. Por isso, a higiene corporal dos —. Tocar: o significado humano da pele. São Paulo: Summus, 1988.
europeus restringia-se a lavar as mãos e o rosto, sendo raros os banhos
vista a pele”, devendo, portanto, sempre lembrar-se de que
MORRIS, Desmond. O animal humano: uma perspectiva pessoal da espécie humana. Lisboa: Gradiva, 1996.
completos (Vigarello, 1996). “quem se lava e não enxuga, toda a pele se lhe enruga”.
—. A mulher nua: um estudo do corpo feminino. São Paulo: Globo, 2005.
PEREIRA, Yevaldo Lemos. “Enrubescimento social: evolução, função apaziguadora e modeladora do comportamento”. São Paulo:
Departamento de Psicologia Experimental – IP/USP, 2008. Tese de doutorado.
QUEIROZ, Renato da Silva; e OTTA, Emma. “A beleza em foco: condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética
corporal”, in: QUEIROZ, Renato da Silva (org.). O corpo do brasileiro: estudos de estética e beleza. São Paulo: Senac, 2000.
RIBEIRO, Fernando Leite; BUSSAB, Vera Sílvia Raad; e OTTA, Emma. “Nem alfa, nem ômega: anarquia na savana”, in: OTTA, Emma;
e YAMAMOTO, Maria Emília (coords.). Psicologia evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009.
RODRIGUES, José Carlos. Tabu do corpo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1975.
VIGARELLO, Georges. O limpo e o sujo: uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
WAAL, Franz de. Eu, primata. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
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Family ties: ethnic groupS in brazil
Essay on the Skin *

Renato da Silva Queiroz


On our skin, as on a screen, the gamut of life’s experiences unique human hair pattern became an important visual Human mildness
is projected: emotions surge, sorrows penetrate, and beauty sign, as the “naked apes” could be differentiated from a The relative fragility of the human skin, that thin and
finds its depth. Soft, smooth source of youth’s vanity, skin distance from other primate species and differentiating, delicate tissue, devoid of thick hair, the healing of which is

I
later bears a wrinkled witness to the toll of years. Radiant from a closer distance, their hairless females from the slow – as compared to that of the chimpanzee, for example –
in health, it tingles to the affectionate touch. hairy-faced males (Morris 2005). is a clear indication that we have not been deeply affected by
Ashley Montagu The scarcity of fur, as Montagu (1981) points out, must selective pressures to resist to wounds.
have had an adaptive value for our ancestors, insofar as it In addition to cutaneous vulnerability, a number of
The naked ape contributed decisively to the temperature regulation of the other characteristics that were precociously selected in our
In The Making of Mankind, Richard Leakey, a renowned body.1 However, the author does not overlook the importance evolutionary path – discreet canine teeth, shortened arms,
anthropologist, lists a set of unique characteristics of the of that cutaneous property to the processes of sexual attrac- delicate hands, reduced biting strength, precarious balance
Homo sapiens sapiens subspecies, pointing out the bipedal tion and selection, since our “naked” skin, being extremely as a result of our bipedal posture, modest neck muscle
walking, that is uncommon among mammals, and his sensitive to touch, stands out as a powerful source of erotic mass, graceful bone framework, reduced muscle strength,
round-shaped head, which, differently from the remaining stimuli. “In sexual arousal the whole sensory character of etc. – translate into an anatomic weakening for hand-to-
primates, carries a voluminous brain and a flattened face the skin is heightened. Sensations that under ordinary cir- hand fighting. That fragility emerged as a result of a signifi-
endowed with a prominent nose turned downwards. Another cumstances would be painful often become intensely plea- cant decrease in intragroup aggressiveness, as an increment
“mystery” of human evolution, as the author points out, surable,” such as those produced by pinching, squeezing, soft in ways of cooperation favored the attenuation of the typi-
concerns the apparent nudity of our skin, which differentiates biting, and scratches (Montagu 1986, 229). cal hierarchical pattern of ancestral primates (Ribeiro,
us from anthropoids because it is devoid of thick fur: A ballooned skull, a flattened face, and glabrous skin, Bussab, and Otta 2009).
“Human body hair is very plentiful, but it is extremely fine in addition to many other typical human traces, as ade- Differently from other primates, we evolved by sharing
and short so that, for all practical purposes, we are naked.” quately observed by Waal (2007), constitute neotenic mor- food in a social, peaceful, and equalitarian environment,
That “nudity” would be related to our sweating capacity, phological traits,2 because they derive from the sluggishness and did it inside adequately established groupings, in which
unparalleled among primates, provided by numerous sudo- of the maturating process that distinguishes us from other cooperation among hunting men and gathering women
riparous glands located in the skin (Leakey 1981, 18). primates (Futuyama 1992). seems to have played a decisive role in the emergence of the
In the African savannah, the environment in which distinctive sociability of modern human beings. The use of
the Homo gender evolved in the course of millions of years weapons emerged initially as an adaptation to extra-group
as a bipedal primate, a thick head of hair protected our 1. The skin is a multifunctional organ: the basis of tact, source of infor- hostility,3 and not to solve intragroup conflicts (Ribeiro,
mation, and a mediator of sensory stimuli, protecting our organism,
ancestors from the scalding sun, while his “naked” body Bussab, and Otta).
insofar as it creates a barrier between it and the external environment, a
benefited from the cooling effect of transpiration. The as- synthesizer of vitamin D, among other functions.
sumption that such environment was the evolving scenario 2. Neoteny is a process through which the fetal and/or juvenile traces
gives rise to an equally verisimilar argument that the of either ancestral species or our own species are retained in an indivi- 3. It should be stressed that the ideas supported by evolutionist psycho-
dual development stages; phases that take place slowly (Montagu 1981). logy and by anthropology are coincident in that aspect. Clastres (1980),
Neotenic traces include, among others: a large head, a flattened face, a for example, when referring to the natives of lowlands in South Ame-
* Excerpts of works published originally in Portuguese have been freely round-shaped head, small face and teeth, thin cranial bones, a tardy rica, emphasizes that the conflicting tribal relations of those people
translated into English by the translator and been kept in Portuguese lock up of cranial sutures, delicate nails, a relative absence of hair, a contrast with the peaceful nature that extends from the internal envi-
throughout the text. prolonged educational period, and playfulness. ronment to local groups (or villages).

Renato da Silva Queiroz is an anthropologist and full professor, retired


from the Anthropology Department of Universidade de São Paulo, where
he mastered in social sciences and obtained his doctorate and habilitation
degree (Livre-Docência) in social anthropology.
main features of feminine beauty, comprising the profile of

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the following female characters: Carolina (A moreninha),


Inocência (from the eponymous novel), and Aurélia (Senho-
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


ra), among others. In O guarani, José de Alencar provides the
following rendition of Cecília, an attractive and coquettish
young lady in the youthfulness of her eighteen years of age:

Com efeito, Cecília estava nesse momento de uma formo-


sura que fascinava. Tinha os cabelos ainda úmidos, dos
quais escapava de vez em quando um aljôfar que ia per-
der-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do roupão;
a pele fresca como se ondas de leite corressem pelos seus
Cutaneous fragility and other unique traits of hu- While judgment concerning body aesthetics and at- shyness or bashfulness. Those who believe they have committed able to display on its cheeks the various internal emotions of Touch
ombros; as faces brilhantes como dois cardos rosas que se
mans favor the assumption of intragroup human mildness, tractiveness is subject to stereotyped cultural conventions, an act of impoliteness, moral slips, and those who are caught moral feelings, for us to curb our own desires, and, simulta- Among mammals, females usually lick their newborn
abrem ao pôr do sol.4
in addition to the reduced sexual dimorphism of the Homo there are consistent indications that some assessing criteria of or accused of deceitfulness5 or ingratitude, as well as those neously, to be a sign to others that we would be breaching sucklings. The behavior of licking one’s younglings, more
sapiens sapiens and of his ancestors, whose males are not beauty and attractiveness are universal, thence valorizing Adult preferences for specific childlike features, as Sarah who are the object of mockery, ridicule, offense, praise, re- rules that should be sacred. than merely cleaning them, would promote the activation
significantly larger than the females. While male gorillas, symmetrical faces, graceful and proportionate bodies, B. Hrdy (2001) upholds, must have shaped human attraction proach, and disapproval are the ones who blush. The groundlessness of that creationist assumption is of their maintenance systems, especially the circulatory, re-
for example, may become twice as big as their females, that smooth, lush, immaculate skin (Etcoff 1999). Smooth, soft, to colors, shapes, and fabrics, especially a silky skin, and large Montagu (1986) describes the case of a woman who revealed in its inaptitude to explain why shyness is the most spiratory, and excretory systems, by stimulating them to
sex difference among us does not exceed 15 percent. Such firm, and silky skin along with shiny hair are visual evidence and gracious heads. In light of that finding, the feminine blushed when embraced by another woman, as she feared be- common and efficient cause of blushing, “which makes the function adequately right after birth. Human females do
reduced sexual dimorphism regarding body size (which of youth, good health, and, at the same time, a powerful preference for red to color the lips and cheeks makes sense, ing labeled a lesbian. In Lucíola, José de Alencar conceives a blushing person suffer and embarrasses the onlooker, with- not display such behavior – they do not “clear” or “comb”
is equally extended to the canine teeth and muscle strength) erotic sign of the species. Inversely, the presence of acne, since that color is intensified with sexual arousal, it looks surprising response from Lúcia, a pretty and highly requested out having the slightest usefulness for any one of the two. their newborns with their teeth – but the prolonged birth
is associated to a choice of a nonaggressive strategy among wrinkles, freckles, stains, warts, and other imperfections attractive and visible from a distance. prostitute who “se enrubesceu como uma menina e fechou [The creationists] [w]ill also find it difficult to explain why labor to which they are subject, submitting the fetus to in-
males to take females and the establishment of long-lasting compromises facial beauty, just as grooves, flabbiness, cellu­ o roupão”6 on becoming aware that part of her breasts was Negroes and other dark-skinned races blush, since the tense uterine contractions, would be equivalent to “licking a
pairs (Mace 1992). litis, and varicose veins deem the rest of the body ugly. Blushing exposed to the observation of an admirer. And Mário de change in their skin color is nearly or completely invisible” youngling” (Montagu 1986).
In sum, the aforementioned arguments do not streng­th­ More mature and women advanced in years usually In the classic The Expression of the Emotions in Man Andrade, in Amar, verbo intransitivo, produces a similar (Darwin [1872] 2000, 314).8 Human newborns depend on extensive parental care,
en the thesis according to which we would have evolved as adopt countless procedures to imitate the fresh and luminous and Animals ([1872] 2000, 290–322), Charles Darwin ad- expression in a German housekeeper who had been hired to Charles Darwin, who abominated slavery, failed to ex- as they come to the world in a state of behavioral, physio-
murdering apes or creatures featuring an uncontrollable skin of youth. In ancient Egypt, they bathed in a mixture of dressed the act of blushing and defined it as “the most peculiar initiate in the sex life a boy named Carlos, who “aproveitan- plain the adaptative value of blushing to refrain from legiti- logical, and biochemical immaturity, and benefit enor-
aggressive instinct. It is more sensible to assume that humans water and calcium carbonate, they rubbed a piece of pumice and the most human of all expressions.” He found that the do um momento de sozinhos, dera um abraço tão en- mizing the thesis according to which only superior beings mously from the cutaneous stimulation that takes place
display an innate propensity towards both peaceful and on their feet, and, after bathing, anointed themselves with face, the ears, and the neck are the most susceptible regions to costado em Fräulein que ela se sentira enrubescer.” 7 It gifted with moral reasoning – a category that excluded en- during birth labor. Neonates of normal birth have their im-
aggressive behavior, falling to culture to weave the patterns vegetable oils scented with fragrant herbal plants. Nowadays, reddening and that that involuntary expression is often fol- should also be taken into account that in Greek mythology, slaved Negroes – would be able to blush. mune system activated more precociously and are likely to
that shape social life, since our extremely environment-sensi- they resort to a variety of procedures, as skin cleansing, plas- lowed by gestures as lowering or turning the head to one side, Eos (Aurora, the goddess of Dawn), having fallen in love with Later research confirmed the adaptative value of become more secure and less stressed individuals. In this
tive behavior cannot be deemed to have been preprogrammed tic surgery, peeling, injections of the cosmetic form of botuli- hiding one’s face, looking down, or averting one’s eyes. Orion, a giant, continues blushing everyday with the remem- blushing identifying a pacifying function in it, in view of respect, Montagu (1986) points out that the French expres-
(Leakey and Lewin 1982). num toxin, and laser treatment for the skin, and make use of When some people blush too intensely, they may become brance of her passion. the fact that, similarly to smiling and being embarrassed, sion un ours mal léché – “an unlicked bear” – is employed
a myriad of cosmetic products to improve aesthetics and re- mentally confused, disoriented, or clumsy, losing their presence Darwin opposes the theory of evolution to the belief that expression helps to improve the public image of those to describe an awkward, clumsy, and rude person in his or
Attractiveness juvenate their skin (Etcoff 1999; Castilho 2011). of mind, stuttering, displaying tachycardia, panting for breath, that blushing was conceived by the Creator for the soul to be who blush – chiefly those who commit lighter infringements – her relations with other people.
The “nudity” of the human skin is more pronounced in Some researchers believe that our beauty detectors can and involuntary quivering of certain facial muscles. giving rise to the acquiescence of those who judge or assess The uterine contractions in labor set off the fondling
women. Except for the top of the head, the armpits, and the promptly identify the relationship between youth and femi- Darwin pointed out that blushing is more intense in chil- 5. “The truth does not make one blush”: phrase attributed to Tertullian. them (Pereira 2008). provided to the neonate, and are multiplied with its mother’s
pubic region, the female Homo sapiens appears to be devoid ninity, and also remind us that feminine features always dren than in adults, in the young than in the elderly, in women “He who blushes is already guilty; true innocence is ashamed of nothing”: tender loving care. Its intimate contact with a motherly
thought attributed to Rousseau.
of hair, in other words, their skin is functionally naked present themselves as more jovial. Castilho (2011) stresses than in men, and when in the presence of the opposite sex. figure is accentuated by breast feeding and on the occasion
6. T.N.: “blushed as a little girl and closed her robe.” 8. This quotation has been freely translated by the translator, based on
(Morris 2005). For that reason, the female body tends to be that in a number of literary works of the 19th and 20th cen- Newborns and toddlers do not display that expression, since 7. T.N.: “took advantage of a moment alone and embraced Fräulein so the Brazilian edition of Darwin’s classic piece The Expression of the
of baths and other body care procedures, when that infant’s
softer to tact and more sensitive to touch. turies, early ages – from fifteen to eighteen – emerge as the their mental capacity would not be sufficiently developed to close that she felt she was blushing.” Emotions in Man and Animals which is mentioned in the Reference List. skin is rubbed and fondled.
make them blush. However, the blind and Negroes are subject
to blushing – the skin color of the latter becomes darker and
brighter when they blush, a change that can be noticed by their
close relations, as spouses and family members (Pereira 2008).
According to Darwin, blushing translates as self-concern
with the opinion of others, a conscious concern with one’s
own appearance, moral conduct, or a breach of etiquette; it
arises from embarrassment, simplicity, and especially from

4. T.N.: “In effect, Cecília had a dazzling fairness at that moment. Her
still moist hair would let a drop of moisture run down and hide in the
hollow between her linen-robed breasts; her skin was fresh as if milky
waves had run over her shoulders; her vivid cheeks as two rose-colored
thistles blossoming in the sunset.”
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


An infant feels safe and sheltered when nestling on its affectively adjusted the partners feel. So, it would be reason- to a humanization process, as we do not make use of it in character of culture, cannot be dissociated from universal yellowish color of his skin,11 which lent him a sickly appear- Albinos face various types of misfortune; in fact, due to
mother’s lap. When it is carried and rocked to sleep or to stop able to conclude that sexual intercourse provides a dense and a “natural” or spontaneous way, but in a standardized way reasons and criteria regarding aesthetic judgments and ance. As Margarida, a Negro woman, admonishes the sad- their sensitive skin, their intolerance of light, and other visual
crying, it hears its mother’s softly uttered words. “Extreme intense tactile communication between those who are en- according to the countless body techniques that train it to selecting a partner. For that reason, we perceive as beautiful dle maker’s wife: impediments arising from the lack of pigmentation, they
sensory deprivation in other respects, such as light and twined in the dialog of love. perform socially routinized operations and movements and attractive the features that indicate, especially in women, prefer to walk at night, under faint lighting. Such preference
Comadre Adriana, o povo está falando muito do mestre
sound, can be survived, as long as the sensory experiences at (Mauss 1974). An untouched body that has not been modified youthfulness, nubility, fertility, health, and a good shape, and their unique appearance arouse suspicion of lycanthropy
José Amaro... Estão dizendo que ele está virando lobiso-
the skin are maintained,” as Montagu (1986, 100) supports. The humanization of the body by culture represents nothing but a coarse living creature, and are led to value and desire, in spite of cultural dif­ about them. In some African regions, albinos face serious
mem. [...] que aquele amarelão dele é que faz o mestre
That is why newborns who were deprived of contact with Only human beings can deliberately modify their own a mere object of nature (Lévi-Strauss 1957). feren­ces, people who have soft and exuberant skin, thick risks resulting from the belief that some parts of their bodies
correr como bicho danado.12
their mother or were not tenderly touched or fondled, often bodies, ornamenting and introducing in it radical and irre- A significant majority of the changes produced in the and shiny hair, a slim waist, a proportionate figure, and a have healing properties, and those who eat them will have
undergo physical and emotional impediments in their subse- versible changes – tooth extraction, cranial deformation, clito- body affects the hair – haircuts, dyes, ornaments – and the symmetric face (Etcoff 1999; Queiroz and Otta 2000). A similar stigma is imputed to those who have hy- the gift of being smiled upon by fortune.14
quent development stages. ral excision, among others – or temporary and reversible, as skin surface: depilation, painting, tattoos, piercings, and pertrichosis, commonly known as the “werewolf syn- Hansen’s disease, formerly known as “leprosy,” is por-
While caresses and cutaneous stimulation are essen- in the case of depilation and body painting (Rodrigues 1975). scarifications. Such passion for adornments is extremely The dehumanization of the body drome,” which is characterized by an excessive growth of trayed as the disease that most stigmatized its victims in the
tial to an infant, they do not become less significant in adult These changes are subject to a broad range of variableness old: archeologists have recovered body ornaments and As mentioned earlier, an immaculate and exuberant hair in the whole body or in some areas. Regarded as ab- course of history. The unequivocal cutaneous and neurologi-
life, particularly in amorous interactions. In no other rela- because they occur within the sphere of specific social groups – pigments dating over forty thousand years. In more recent skin is a universally valued and desired feature. On the other errations, anomalous beings, intermediate creatures be- cal lesions were regarded as the marks of a divine punishment
tion is the skin so deeply and extensively involved as in each with its own culture – to designate and reaffirm status, times, a few types of make-up kits have been found among hand, cutaneous imperfections take part in the composition tween humans and animals, individuals with hypertri- for sins committed. That millenary stigma placed its carriers
sexual intercourse. The erogenous zones of the body are not and national, age bracket, religious, occupational, class, and the objects deposited in Egyptian sarcophagi (Etcoff 1999). of the ugly, dangerous, and monstrous, stigmatizing and chosis as well as the “bearded women” were displayed in in the subhuman condition of damned, dirty, impure, loath-
restricted to the genitals, but encompass the lips, the ear gender identities. Most body care items, especially procedures and marginalizing carriers of syndromes and diseases that affect circuses and horror shows, attracting large crowds of curi- some, undesirable, and dangerous beings.15
lobes, the neck area, the nipples, etc. Furthermore, we As a rule, the changes introduced in the body comply pro­ducts for dyeing, softening, perfuming, moisturizing, the skin or manifest in it.10 ous people to them.13 Historian Jean Delumeau (1989, 140) renders a de-
should not overlook the pleasant and stimulant odors the with the aesthetical ideals of each society and its different and stretching the skin – the largest and most aesthetical In Fogo morto, a novel that is recognized as José Lins Those who suffer from the more severe type of albi- scription of what Hansen’s disease represented in the medi-
skin secrets and exhales. In other words, the entire skin ex- subgroups. However, it is not uncommon for them to also organ of the body – are aimed at preserving beauty and do Rego’s masterpiece, popular superstition evokes the nism – a lack of the melanin pigment on the skin, eyes, and eval mentality and the brutality of the persecutions of those
tension is an erogenous zone.9 serve to express disagreements (Queiroz and Otta 2000). youth. In the modern world, where good looks are a valua­ble werewolf myth to stigmatize José Amaro, a saddle maker hair – have no different luck, chiefly in countries or regions who had developed the disease:
Foreplay, when it explores various parts of the body In various indigenous cultures, an individual’s status commodity for survival, people spend fortunes in cosmetics who is accused of lycanthropy because he used to walk whose people are dark skinned or belong to the Negro race.
Leprosos foram efetivamente acusados, em 1348-1350, de
and is carried out with the hands, lips, and tongue, is much is physically written on the surface of his or her body. and plastic surgeries. In the United States, those expendi- alone under the moonlight and, chiefly, on account of the
terem espalhado a Peste Negra. O aspecto horrível de suas
more prolonged and unrestricted, the more intimate and While marks of relevance and the expression of cultural tures account for twice as much as the money disbursed 11. Other elements reinforce the marginal position of that character in
or religious beliefs, the scars and tattoos do not have a to purchase rea­ding material, which is a clear evidence 10. It is interesting to note the cutaneous peculiarities present in the
the scenario in which the story is developed: José Amaro lived at the
edge of a road, held an intermediate position – artisan – between the 14. See an article published by Folha de S.Paulo on November 3, 2010,
9. “A portion of skin of about three centimeters in diameter contains separate space in the body, they perpetuate on one’s own of a desperate search for beauty by those who wish to recover profile of mythical or legendary characters that inhabit the popular
owner of the mill and the workers in that area, he had not had a male
more than three million cells, between one hundred and three hundred imaginary: the mummified skin of “Corpo Seco,” a terrorizing figure in entitled “An albino is elected congressman in Tanzania,” describing the
skin, and draw the features of a collective being that is their nubile teen looks, as if it were possible to capture son, and walked with a limp. albino discrimination problems and the risks they are exposed to in some
and forty sweat glands, fifty nerve endings, and ninety centimeters of rural paths that was rejected by the earth because the character was a
blood vessels. It is estimated that there are about fifty receptors per one superimposed to individual identity, as if it were a social and protect from aging the ephemeral exuberance of villain in life, who had spanked his own mother; the Caipora’s reddish 12. T.N.: “My friend Adriana, folks are talking a lot about José Amaro…. Central African countries. According to that article, many Tanzanians,
hundred square millimeters, amounting to 640,000 sensory receptors.… skin and hair, a character of the forest who protects animals from They say he is turning into a werewolf.… [t]hat his yellowish skin makes for example, believe that certain parts of an albino’s body can be used
skin (Clastres 1974; Helman 2003). youth (Etcoff 1999). him run as a wild beast.” to prepare magic potions that will bring luck to those who drink them.
The number of sensory fibers originating in the skin and penetrating the predatory hunting; the blackness of the Saci’s skin, a mocking and
spinal cord … is higher than half a million” (Montagu 1988, 24–25). This The body is a suitable cultural artifact that is shaped Such conceptions and practices as associated with em­ disturbed one-legged creature, inseparable from his pipe and his red 13. Sensationalistic television programs quite often explore the drama 15. In Portuguese, the terms lazarento and morfético, synonymous with
excerpt has been freely translated from the Brazilian edition. and modified by culture since birth, and thus submitted bellishing the body, while being conditioned by the arbitrary cap, associated with whirlpools and liminal spaces. of the carriers of that and other types of pathology. “leper,” are still used to insult or offend someone.
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


lesões passava por ser uma punição do céu. Dizia-se que discrimination, solitude, and impurity, in addition to the
eram dissimulados, “melancólicos” e debochados. Acredi- fear of contaminating people in close contact, especially fam-
tava-se também – concepção que pertence ao universo ily members.
mágico – que, por uma espécie de transferência, podiam
livrar-se de seu mal satisfazendo seus desejos sexuais com Skin: expressions and proverbs
uma pessoa sã, ou então matando-a. Em 1321, portanto 27 The importance of the tactile functions of the skin is
anos antes da Peste Negra, leprosos acusados de terem en- coined in current expressions in the popular imaginary, al-
venenado poços e fontes foram executados na França.16 though people in general do not “feel it” themselves, that is,
are not fully aware of the meaning of such expressions. Mon-
That “cursed plague” gave rise to a generalized fright 17 tagu (1986) collects tenths of those expressions to give proof Reference List
that disrupted family ties and brought about measures to iso- of the allegorical use of the skin. Some of them are: “happy
CASTILHO, Renata dos Santos. 2011. “Estética e envelhecimento: representação da imagem para mulheres envelhescentes” (master’s
late lepers, condemning them to the limbo of marginalized touch,” “soft touch,” “human touch,” “lend a touch,” “rubbing thesis in gerontology, PUC, São Paulo).
physical and social surroundings or to the perpetual confine- people the wrong way,” “getting in touch,” “thick skinned,” “do
CLASTRES, Pierre. 1974. La société contre l’état: recherches de anthropologie politique. Paris: De Minuit.
ment of “leper colonies.” not touch me,” “tactless,” “having things at the tip of one’s fin-
—. 1980. “Arqueologia da violência: a guerra nas sociedades primitivas.” In Guerra, religião e poder. Lisbon: Edições 70.
Even nowadays, having a cure for that disease, it is not gers,” “feel the consequences on the skin,” “having chills,” “get-
DARWIN, Charles. (1872) 2000. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras.
uncommon for patients to show, in addition to their hypo- ting goose bumps.”
DELUMEAU, Jean. 1989. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras.
chromic cutaneous marks, brownish patches that jeopardize Finally, bringing to mind well-known proverbs, it is
their psychic health: a downgraded identity and self-esteem worth remembering that a false or cunning person is a “wolf ETCOFF, Nancy. 1999. A lei do mais belo: a ciência da beleza. Rio de Janeiro: Objetiva.
impacted by the guilt feelings, shame, neglect, rejection, in sheep’s skin” and that “bad skin doesn’t change.” However, FUTUYAMA, Douglas J. 1992. Biologia evolutiva. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética/CNPq.
“there are people with two skins” or a “second skin.” As a pre- HELMAN, Cecil G. 2003. Cultura, saúde & doença. Porto Alegre: Artmed.
caution it is better “not to sell a bear’s skin before you kill it,” HRDY, Sarah B. 2001. Mãe natureza: uma visão feminina da evolução, maternidade, filhos e seleção natural. Rio de Janeiro: Campus.
16. T.N.: “Lepers were actually accused, in 1348–1350, of having spread
the Black Death. The horrendous aspect of their lesions was regarded as since “he who cannot pay from his pocket, will pay with his LEAKEY, Richard. 1981. The Making of Mankind. New York: Dutton.
a punishment from heaven. It was said that lepers were cunning, ‘melan- own skin.” Therefore, a heedless person shall “suffer on his LEAKEY, Richard, and Roger LEWIN. 1982. Origens. São Paulo: Melhoramentos.
choly’, and debauched. It was also believed – a conception that belongs
to the magic realm – that they could free themselves from the disease by
own skin” the damage caused, and see himself forced to work LÉVI-STRAUSS, Claude. (1955) 1992. “A Native Community and Its Life Style.” In Tristes Tropiques. Translated by John Weightman
means of some kind of transfer, they could get rid of their disease by satis- for very little or nearly nothing for a boss who “skins” his em- and Doreen Weightman. New York: Penguin.
fying their sexual desires with a healthy person, or by killing that person. ployees, the same person who “had skinned the back of many
In 1321, twenty-seven years before the Black Death, lepers accused of MACE, Georgina. 1992. “Differences between the sexes.” In The Cambridge Encyclopedia of Human Evolution. Cambridge: Cambridge
having poisoned wells and springs were executed in France.” poor people.” And, in view of such suffering, it is no use to University Press.
17. In the 15th, 16th, and 17th centuries it was commonly believed that “have one’s nerves on edge,” as “he who does not wish to be a MAUSS, Marcel. 1974. “As técnicas corporais.” In Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU/Edusp, v. II.
the plague could penetrate a body when heat and water produced fissu- wolf, should not wear its skin” and should always remember
res, opening the pores to pestilential air. That is why a European’s body MONTAGU, Ashley. 1981. Growing Young. New York: McGraw-Hill.
care was restricted to washing one’s hands and face, full baths being that “he who washes and does not dry himself, will have his
—. 1986. Touching: The Human Significance of the Skin. New York: Perennial Library.
quite rare (Vigarello 1996). whole skin wrinkled.”
MORRIS, Desmond. 1996. O animal humano: uma perspectiva pessoal da espécie humana. Lisbon: Gradiva.
—. 2005. A mulher nua: um estudo do corpo feminino. São Paulo: Globo.
PEREIRA, Yevaldo Lemos. 2008. “Enrubescimento social: evolução, função apaziguadora e modeladora do comportamento” (doctoral
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WAAL, Franz de. 2007. Eu, primata. São Paulo: Companhia das Letras.
Harmonia e conflito entre as cores

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Family ties: ethnic groupS in brazil
do Brasil étnico: do real ao simbólico

O
João Baptista Borges Pereira

O Brasil é hoje proclamado e autoproclamado orgulhosa- facção terrorista Shindo Renmei, nascida do resultado do Já a categoria indígena, a última na escala do IBGE,
mente o país da diversidade étnica. Tal diversidade foi conflito mundial. De um lado estavam os chamados desliza do critério de cor – que é fundamentalmente bioló-
sendo construída historicamente, aos poucos, desde o “derrotistas”, os que aceitavam como verdadeiras as infor- gico-racial – para o plano étnico-cultural. Essa quebra de
descobrimento até os dias atuais. De início, o indígena – mações de que o Japão fora derrotado; de outro, situa- princípio classificatório em termos de cor de pele expli-
habitante original do território –, com sua pele amarela- vam-se os “vitoristas”, que não aceitavam tal fato. Dessa ca-se tanto pelo grande número e ampla diversidade dos
da, um tanto indefinida, às vezes rotulada pejorativamen- aceitação-não aceitação brotou a Shindo Renmei, que grupos indígenas ainda existentes no país como pela difi-
te de “gente cor de cuia”. Nos inícios do século XVI chega passou a assassinar os “derrotistas” Brasil afora. Hoje, culdade em nominar as cores ou a cor desse Brasil tão
da península Ibérica o colono branco português. Logo superada essa fase, a colônia ganhou visibilidade plena na presente na história e tão ausente do cotidiano de certas
depois vêm se juntar aos indígenas e aos ibéricos os pre- vida nacional. Seus descendentes ocupam status expressi- áreas do país. Perdura ainda no imaginário nacional o
tos vindos de várias partes da África negra, aprisionados vos em todos os setores da estrutura social, o que colabora índio idealizado pelo romantismo dos séculos anteriores.
pelo sistema escravocrata, que foi eliminado somente no para redefinir a imagem negativa com a qual se represen- A representação popular permeada de simbologia
final do século XIX. tavam os amarelos no país (Mita, 1999). encarrega-se de nuançar ainda mais essa diversidade capta-
A essa trindade de cores, rotulada até a atualidade de Essa composição que tinge o Brasil de quatro cores da ou aprisionada pelo censo. À guisa de exemplo podem-se
alicerce do Brasil étnico, acrescentou-se em 1875 (data- entra pelos caminhos dos meios-tons, dado o histórico citar as resultantes de pesquisa de campo realizada por um
-símbolo) novas levas de populações brancas. Esse desenho processo de miscigenação entre esses segmentos popula- antropólogo norte-americano (Harris, 1967: 93). Esse
de cores (indígenas, brancos e negros) apenas é desman- cionais. Atualmente, o censo brasileiro capta e enquadra autor detecta quarenta expressões populares para designar
chado em 1908, com a chegada de imigrantes classificados esse painel de cores em cinco categorias: branco, preto, par- no Brasil o que o censo categoriza como branco, preto e
numa quarta cor: a amarela. É grande o fluxo imigratório do, amarelo e indígena. Para melhor compreender essas pardo: “branco, preto, sarará, moreno claro, moreno escuro,
representado, de início, pelos japoneses, e hoje, a partir da categorias é necessário decompô-las e daí extrair o que pre- mulato, moreno, mulato claro, mulato escuro, negro, cabo-
II Guerra Mundial, pelos chineses e, principalmente, pelos tendem anunciar e o que eventualmente venha a esconder clo, escuro, cabo-verde, claro, araçuaba, roxo, amarelo,
coreanos. Para que a trindade de cores primordial fosse cada uma das categorias censitárias: “branco, preto, amare- sarará escuro, cor de canela, preto claro, roxo claro, cor de
desfigurada pelos novos imigrantes foi preciso passar por lo”. Tais categorias retêm apenas a cor da pele predominan- cinza, vermelho, caboclo escuro, pardo, branco sarará,
cima do Decreto nº- 528, do primeiro presidente da Repú- te de indivíduos para colocá-los em grupos “étnico-raciais” mambembe, branco caboclado, moreno escuro, mulato
blica, que abria os portos brasileiros a todos os povos, com específicos, ignorando a eventual diversidade que cada um sarará, gazula, cor de cinza claro, crioulo, louro, moreno
exceção dos “nativos da África e da Ásia”. desses grupos contém. A categoria pardo é um rótulo que claro caboclado, mulato bem claro, branco mulato, roxo de
Sobre os asiáticos, no caso os japoneses, pairava a seve para englobar as cores misturadas pelo processo de cabelo bom, preto escuro, pelé”.
ideia de que eram gente desconhecida, formadora de mestiçagem. Nessa categoria, que mais se assemelha a “um Registre-se que nessas expressões de cores dos brasi-
“quistos” étnicos, traiçoeira, perigosa. Enfim, esses imi- saco de gatos”, estão englobados os mulatos de vários tons, leiros, que extrapolam as categorias censitárias, entram
grantes eram vistos como “perigo amarelo” (Dezem, resultantes da miscigenação entre os brancos e pretos; o tanto a autoavaliação como a exoavaliação. A pergunta que
2005). Essa ideia recheada de estereótipos negativos foi mameluco, produto do cruzamento entre brancos e índios; se coloca é: por que a autodefinição e a definição do outro
Morador do interior do Rio Grande do Norte, Inhabitant of the interior of Rio Grande do Norte, reforçada, após a II Guerra Mundial, pela ação violenta da o cafuzo, da união genética entre brancos, negros e índios. se distanciam. Segundo estudiosos das relações raciais no
região Nordeste do Brasil, nos anos 1970. in the Northeast of Brazil, in the 1970s.

João Baptista Borges Pereira é antropólogo, professor emérito da


Universidade de São Paulo, professor pleno de pós-graduação da Uni-
versidade Presbiteriana Mackenzie.
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70
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


Brasil, essa falta de concordância entre o “eu” e o “outro” logo depois das divisas de Minas Gerais com a Bahia, a pre- anteriores. O ciclo do trigo, que marcou a vida econômica
deriva de um padrão ou modelo de convivência étnica que dominância cabe aos pretos e a seus descendentes mestiços. da então São Paulo seiscentista, trouxe para essa província
se convencionou nominar “modelo de marca ou de aparên- Na região amazônica, a percentagem dá vantagem à cate- grandes levas de indígenas legalmente escravizados de
cia”. Modelo diferente do adotado por outro país pluriétni- goria indígena, com pequenas manchas de negros e mesti- todas as partes do país. De tal processo participaram como
co: os Estados Unidos. No país norte-americano a diversi- ços provenientes do Nordeste. Essas manchas podem ser atores principais celebrizados bandeirantes, como Raposo
dade étnica é definida por padrões derivados do “modelo detectadas também no Sudeste e em parte do Brasil central. Tavares. Foram os bandeirantes os grandes apresadores de
de origem, ou de sangue” (Nogueira, 1985). Em síntese, a distribuição dessa diversificada popu- índios, tanto do sertão paulista como de outras áreas do
No Brasil, as fronteiras entre as cores são débeis, lação pelo território brasileiro é absolutamente irregular país (Monteiro, 2009).
não enraizadas no patrimônio genético, o que permite e heterogênea, dando a impressão (falsa) de que ela foi O ciclo da borracha conduz para a Amazônia traba-
que elas sejam cruzadas em várias circunstâncias. Nos feita aleatoriamente. Na verdade, há um padrão na distri- lhadores nordestinos, basicamente negros e mulatos, que
Estados Unidos esse processo é quase impossível, inde- buição espacial dessa pluralidade. É um padrão de indis- acabaram, em sua maioria, fixando-se naquelas bandas,
pendentemente da aparência física que os indivíduos farçável caráter socioeconômico, apenas indiretamente ainda hoje confundidos com populações indígenas.
ostentam. Exemplo recente e atual no Brasil dessa permea- ligado às características biológicas desses diferentes seg- Nesse esquema econômico cíclico ficaram de fora os
bilidade de fronteiras étnicas foi o desencadear de política mentos populacionais. atuais Estados meridionais: Paraná, Santa Catarina e Rio
pelas cotas que visava ou visa beneficiar a população no Esse padrão foi construído historicamente a partir Grande do Sul.
seu acesso ao ensino superior. Indivíduos que em outros dos ciclos pelos quais passou a economia brasileira: o ciclo
contextos sociais seriam, pela aparência, rotulados de da cana-de-açúcar, o da mineração e o da grande lavoura A política de branqueamento e de
brancos se autoproclamam negros, porque descendentes (café). Somando-se a esses três macrociclos, o jovem país ocidentalização do país
de negro, para serem, eventualmente, beneficiados por tal passou pelo menos por dois outros ciclos menos expressi- A população branca de origem europeia, em ondas
política. Trata-se de pessoas que intencionalmente enve- vos, mas que também atuaram, a seu modo, nesse processo migratórias, chega ao Brasil a partir de 1875 (data-símbolo).
redam pelo cipoal da ambiguidade sociorracial para de distribuição-redistribuição populacional: o ciclo do tri- Pelo menos quatro ordens de fatores respondem por essa
alcançar seus objetivos. Esses indivíduos vivem rotineira- go, tendo como cenário a então província de São Paulo, e o imigração: o fator socioeconômico – o mais alardeado –,
mente dentro de um “modelo de marca”, mas manipulam da borracha, na região amazônica. ligado à busca de mão de obra para substituir os escravos
de acordo com a circunstância o “modelo de sangue”. O ciclo da cana-de-açúcar levou para o Nordeste negros que seriam libertados em 1888; o fator racial – o
multidões de escravos negros, cujos descendentes, mesti- menos explícito –, que procuraria por meio da imigração
A distribuição de cores pelo Brasil territorial ços ou não, lá ainda permanecem. O ciclo da mineração de povos brancos europeus equilibrar a balança negro-
Pode-se afirmar metaforicamente que a pele que re- deslocava para Minas Gerais, em larga medida, a mão de -branco, a favor do segundo segmento; o fator cultural –
cobriu historicamente e continua a recobrir o Brasil ostenta obra escrava, até certo ponto dispensável pelo esgotamento até certo ponto atrelado ao racial –, que buscaria firmar a
cores predominantes em diferentes áreas do país. Nas re­ do ciclo da cana-de-açúcar. Por fim, a grande lavoura ca- ocidentalização do país; e, por fim, o elemento estratégico –
giões meridionais e até certo ponto do Sudeste predomi- feeira redistribuiu para as províncias do Sudeste, até a che- aparentemente obscurecido pelos três fatores anterio-
nam percentualmente as populações brancas. No Nordeste, gada dos imigrantes, os escravos negros ociosos dos ciclos res –, que responderia pela ocupação de áreas tidas

Imagem de carnaubal cearense, nos anos 1950. Típica da região nordestina, View of a Brazilian carnauba palm plantation in the 1950s. Being typically found
a carnaúba é uma palmeira utilizada para construir casas, confeccionar in the Northeastern region of Brazil, the carnauba palm is employed in house
chapéus e sua cera tem larga aplicação na cosmetologia e na farmacologia. building, hat making, and its wax is widely used in cosmetology and pharmacology.
72
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

como despovoadas, de fronteiras indefinidas e vulnerá- mocambos), em Aluísio Azevedo (O cortiço), ou em Roger altos e baixos, tenta pedagogicamente “educar” o grupo
veis com países vizinhos. O imigrante que mais se adequou Bastide (Imagem do Nordeste em branco e preto), em Jacques para que melhor possa se movimentar dentro de uma se-
a esse perfil idealizado foi o italiano, pois, além de ser con- Lambert (Os dois Brasis). miurbana sociedade da época (Pinto, 1993).
siderado bom trabalhador agrícola, era branco, compunha Além dessa visão polarizada, binária, que incorpora, No final dessa década, estendendo-se por meados
o mundo ocidental, e, diferentemente do imigrante ale- em maior ou menor grau, o lado racial do brasileiro, o pen- dos anos 1920 daquele século, a população negra, espe-
mão – predominantemente protestante luterano –, chegara samento de Nina Rodrigues inspira, direta ou indiretamen- cialmente do Rio de Janeiro, lança as raízes da música
marcado por forte tradição católica romana e ostentava te, pelos anos afora, grande preocupação de intelectuais e popular brasileira, usando-a para sobressair-se e para
laços de parentesco étnico com a terra que o acolhia: era ou políticos brasileiros pela “normalidade”, pela “eugenia” da denunciar a discriminação de que era vítima, mesmo nas
gostaria de ser latino como o brasileiro. Essa é a explicação população. Atrás dessas preocupações, ou motivando-as, suas atividades lúdicas e no cultivo da sua religiosidade.
– talvez a principal – para justificar a quantidade de imi- está a busca de “prescrições médicas” contra os males da Assim, em 1917, foi gravado o primeiro samba – Pelo tele-
grantes italianos, em torno de 1,5 milhão de indivíduos, nação (Ribeiro, 2010). Entre esses males estava, às vezes mi- fone –, em que Donga, o autor, denuncia tais discrimina-
número inferior apenas ao contingente português. meticamente, a pigmentação negra de grande parte da po- ções legalizadas pelo Estado. Ao longo dos anos 20 e 30
pulação do país. Para usar a linguagem estatística, todo esse (século XX) a música foi o elemento escolhido pelo negro,
A polarização das cores pensamento consistia em correlacionar positivamente as ou o que lhe sobrou, para expressar sua situação de subal-
Esse painel marcado pela diversidade de raças, cores e “anormalidades” detectadas por essa medicina preventiva ternidade social (Borges Pereira, 2001).
culturas, visto hoje como natural, inerente à identidade do com a raça ou com a cor do negro. Mas todo esse processo O segundo instante histórico em que o negro ganha
país, legitimadora que é dessa identidade, chama a atenção do associativo, bem ou mal formulado, não teria existido sem a visibilidade social está ligado ao Movimento Modernista,
pensamento intelectual brasileiro ao findar do século XIX. validação do pensamento de Nina Rodrigues, que estabele- em 1922. Ao tentar construir ou reconstruir a identidade
Deve-se a Raymundo Nina Rodrigues, ou apenas ce, desde o início, correlação entre “anormalidades” e “raça” nacional, esse movimento encontra no negro, enquanto cor
Nina Rodrigues, professor de medicina legal da Universi- (ou cor negra) nos territórios de candomblé da Bahia, que e enquanto cultura, o grande símbolo dessa identidade. Da
dade da Bahia, as primeiras reflexões sobre o tema. Para se constituiu em seu locus de pesquisa empírica. trindade construtora da nossa diversidade, o branco e o ín-
esse autor, influenciado pelas escolas criminológicas italia- dio foram colocados à margem. O primeiro porque era
na e francesa, o Brasil plural de seu tempo poderia, ou Reação das cores estigmatizadas identificado como um tipo de cultura europeizante a ser
deveria, ser reduzido a dois brasis, em larga medida antípo- A história do negro no Brasil é marcada pela persis- redefinida; o segundo porque já havia sido usado, até a
das entre si: o Brasil arcaico, negro e mestiço do Nordeste e o tência e luta desse segmento étnico para se livrar do estig- exaustão, como expressão de brasilidade pelo Romantismo
Brasil progressista e branco das regiões meridionais. No ma associado a seu passado de ser escravizado e à cor de do século XIX. Restou o negro que passa a representar por
fundo, essa dicotomia definia um Brasil de pele branca e sua pele, a fim de ocupar o lugar que julga ter direito na alguns instantes o papel principal da identidade brasileira.
um Brasil de pele negra. Tal interpretação dualista, ainda estrutura social brasileira. Essa luta, com ou sem a cumpli- Porém, o negro que é colocado em cena pelo Movimento
que não tão esquemática por jogar em cena outros fatores cidade do branco, passa por várias fases. Após a abolição, Modernista é o negro-tema, isto é, o negro enquanto ex-
sociais, ganha força em reflexões posteriores, como em logo no início da primeira década do século XX, surge em pressão de cultura. O negro-ator social só surge nos movi-
Gilberto Freyre (Casa-grande e senzala ou Sobrados e São Paulo e em Campinas uma imprensa negra que, com mentos reativos a partir de 1930. Paradoxalmente, quem

O histórico processo de miscigenação entre The historical miscegenation process among


diferentes segmentos populacionais deu origem different population segments gave rise
aos mais variados perfis de indivíduos. Aqui, to a wide variety of individual profiles.
imagem de dois brasileiros fotografados em 1974. Here, two Brazilians portrayed in 1974.
enquanto grupo político negro, são colocadas na mesa de

75
74

negociação. O movimento de exaltação da pureza da pele


branca não concordou com as exigências do movimento de
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


exaltação da pele negra. A Frente, já estraçalhada interna-
mente pelo conflito entre negros da esquerda e negros da
direita, é finalmente liquidada por Getúlio Vargas. Obser-
ve-se que, diferentemente do Movimento Modernista, em
que o negro aparece como expressão de cultura que ele cria
ou lhe é atribuída, na Frente Negra Brasileira ele entra em
cena como ator social a reivindicar espaço na estrutura
social que historicamente lhe tem sido negado.
constrói o negro no modernismo é o seu contraponto: o Entre o Estado Novo de Vargas e o término da Segun-
branco, quase sempre o italiano da primeira geração. da Guerra Mundial, uma espécie de calmaria desce sobre o
“homem de cor” brasileiro, quebrada apenas pela criação
Assim, Menotti del Picchia inaugura, em 1917, a poética
do Aristocrata Clube por negros de São Paulo e pelo Teatro
de exaltação do negro com seu clássico poema – “Juca mu-
Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento. Ainda
lato”. Nessa linhagem temática situam-se Cândido Porti-
que feitas pelos negros e para os negros, difícil é não per-
nari, com os seus tipos humanos amestiçados, curtidos
ceber nesses eventos manifestações larvais de uma classe
pelo trabalho, como que cheirando a suor. Di Cavalcanti
média emergente, real e simbólica (fictícia, no dizer de
dedica-se à glorificação estética da mulata, enquanto Jorge
Florestan Fernandes), ansiosa por reconhecimento social.
de Lima faz apologia poética de sua “nega fulô”. Francisco
São tais anseios, aspirações e lutas que reaparecem reatua-
Mignone, alertado por Mário de Andrade, alimenta sua
lizados, na última década do século XX, com a criação da
inspiração musical a partir de expressões de cultura negra.
Unipalmares, tendo como objetivo explícito o ensino supe-
Destaca-se no repertório de Mignone, dentro dessa temá-
rior destinado ao aprimoramento intelectual de parcelas da
tica, a composição Quarta sinfonia para piano e orquestra,
Jangadeiro, habitante tradicional população negra de São Paulo. (Soares, 2006)
baseada na música de uma escola de samba do Rio de
do litoral nordestino, em 1950.
Janeiro. Como se afirmou, não há presença do homem
Redesenha-se a bipolaridade das cores1
negro nesse Movimento, mas sim a exaltação do que se
Jangadeiro, a traditional raftsman Na noite do dia 7 de julho de 1978, um grupo de jovens
entendia então por cultura negra como sinônimo de
of the Northeastern seacoast, in 1950. negros protestaram na escadaria do Teatro Municipal de São
popular e folclórico, dando consequentemente maior visi-
Paulo contra dois atos discriminatórios: o primeiro refe-
bilidade ao negro tomado como espécie de autenticidade
ria-se à proibição de adolescentes negros de praticarem
nacional de brasilidade. (Borges Pereira, 2011)
natação em um clube da cidade; o segundo era endereçado
Ao redor de 1930, surge aquele que, talvez, ou certa- ao regime militar que dominava ditatorialmente o país e fora
mente, pode ser considerado o mais poderoso e expressivo responsável pela prisão e morte de um operário negro. Nas-
movimento político de negros em prol do grupo: a Frente cia, assim, o Movimento Negro Unificado (MNU) que,
Negra Brasileira (FNB), liderada por Arlindo Veiga dos dentro de um referencial ideológico marxista, propunha re-
Santos, jornalista do Correio Paulistano. Seguindo uma verter a situação do grupo na sociedade brasileira a partir de
ideologia conservadora, a FNB, além de ligar-se à Igreja uma reconstrução da identidade do negro. Isso significava,
Católica no que ela tinha de mais tradicional, exaltava o entre outras coisas, a eliminação da cena social da tradicio-
regime monárquico, e paradoxalmente, corria ao encontro nal ‘identidade deteriorada’, substituindo-a por uma imagem
do integralismo de Plínio Salgado. Essa ligação política, positiva da qual o próprio grupo deveria se orgulhar.
mal iniciada, se rompe quando as reivindicações da FNB, Da agenda do MNU constava:
1. Redefinir a partir da própria estética a imagem do
negro, enquanto expressão de um corpo não branco. Entram
nesse item as preocupações com a beleza negra, principal,
mas não exclusivamente, com a beleza feminina. Ganham
destaque, como expressão dessa nova identidade ligada à es-
tética negra, os cosméticos e o cabelo. Tais preocupações
abrem brechas no mercado consumidor, gerando salões de

1. O texto deste subitem encontra-se em João Baptista Borges Pereira,


“Diversidade e pluralidade: o negro na sociedade brasileira”, in: Revista
da USP, nº- 89, mar.-mai., 2011, pp. 278-284.
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LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


beleza étnicos nas principais cidades brasileiras e indústrias negro malandro, sem escrúpulos, risível; enfim, do “negro que se tem do negro hoje não seja mais a desgastada repre-
de cosméticos que, por sua vez, estimulam uma publicidade caricatural”, que se perpetua e incomoda o grupo desde a sentação de décadas atrás. E o que é mais relevante: o
que tem como alvo o grupo negro (Gomes, 2006). fase do rádio (Borges Pereira, 2001; também Fonseca, 1994). negro já se liberta da ideologia reflexa, da imagem do Referências bibliográficas
2. Eliminar os quase quarenta rótulos pelos quais, Essa vigilância saneadora alcança até os artistas negros que espelho do “outro”, historicamente construída desde ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil. O negro na telenovela brasileira. São Paulo: Senac, 2000.
em diferentes regiões do país, se nominavam o preto e seus se prestam a representar tais papéis. (Araújo, 2000) tempos pretéritos. Em outras palavras, o negro já se vê BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. 4ª- ed. São Paulo: Global, 2008.
mestiços (Harris, 1967). Para tal seria adotado o termo 5. Eleger a educação superior, universitária, como com seu próprio e renovado olhar, embora saiba que BORGES PEREIRA, João Baptista. “Pixinguinha” (entrevista), in: Revista do IEB-USP, nº- 42, 1997, pp. 77-90.
abrangente “negro”. Essa estratégia de nominação única um dos mais poderosos recursos para reverter os sinais. resta muito a se fazer. —. “Os imigrantes na construção histórica da pluralidade étnica brasileira”, in: Revista da USP, nº- 46, 2000, pp. 6-29.
procurava alcançar dois objetivos politicamente relevantes Essa ideia, impregnada fortemente de uma mística do po- —. Cor, profissão e mobilidade – O negro e o rádio de São Paulo. 2ª- ed. São Paulo: Edusp, 2001.
para o grupo: em primeiro lugar, o número e o percentual der da escola num processo de ascensão social, parece ser A dualidade das cores desencadeada pelo MNU
—. “Trajetória e identidade do negro em São Paulo”, in: ZANINI, Maria Catarina C. (org.). Por que “raça”? – Breves reflexões sobre a
da população não branca, doravante chamada negra, cres- unanimidade entre os negros, militantes ou não. É possí- O movimento reativo dos negros acaba por restabe- “questão racial” no cinema e na antropologia. Santa Maria: Editora UFSM, 2007, pp. 87-100.
ceriam a ponto de recuperar o equilíbrio registrado no final vel distinguir na busca desse objetivo duas estratégias do lecer a polaridade das cores, reduzindo a louvada diversida-
—. “Diversidade e pluralidade: o negro na sociedade brasileira”, in: Revista da USP, nº- 89, mar.-mai., 2011, pp. 278-284.
do século XIX. Em segundo lugar, se construiria a rede de grupo. A primeira, reatualizando uma estratégia da auto- de étnica à polaridade – quase oposição – dos dois Brasis.
CUTI, Luiz Silva. … E disse o velho militante José Correia Leite. Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo. 1992.
solidariedade intergrupal, cuja ausência impedia uma ação denominada elite negra das décadas de 40 e 50 (século Todavia, pelo menos duas diferenças podem ser ressal-
DEZEM, Rogério. Matizes do “amarelo”: a gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (1878 – 1908). São Paulo: Humanitas, 2005.
política conjunta. Enfim, tentava-se com essa estratégia eli- XIX), usa a negociação com representantes de camadas tadas entre a fase anterior e a atual: como se registrou, a
minar as distâncias entre gênero, religião, nuanças de cor e mais privilegiadas da população branca (políticos, em- fase anterior resulta de uma construção levada a cabo por FERNANDES, Florestan. A integração do negro à sociedade de classes. São Paulo: FFLCH-USP, 1964.

políticas partidárias (Valente, 1986). presários, profissionais liberais, instituições de ensino) intelectuais brancos, com base nas ideias biologizadas de FONSECA, Dagoberto J. “A piada: discurso sutil da exclusão. Um estudo risível no ‘racismo à brasileira’”. PUC-SP, 1994. Mestrado em
3. Estabelecer propostas positivas de valorização para concretizar os ideais desse segmento. A segunda, em Nina Rodrigues. Na fase atual essa redução dualista, biná- ciências sociais,

dos quilombolas, de exaltação do herói mítico Zumbi, de vez da negociação, prefere um estratagema baseado na ria, é feita por militantes negros, pela perspectiva marxis- GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
estímulo e criação da Semana da Consciência Negra; cola- contestação pública e até mesmo no conflito, ao topar ta, com ênfase ao socioeconômico. Em síntese, a partir de GOMES, Nilma Lina. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo da identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
borar para o esmaecimento no imaginário negro e nacional com os entraves sociais à sua projetada trajetória. Desta 1970, o Brasil em branco e preto é redesenhado no plano HARRIS, Marvin. Padrões raciais nas Américas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
do dia 13 de maio como símbolo de uma redenção outor- última estratégia, marcada por anseios de camadas mais político-ideológico por brasileiros que se autodefinem LUCRÉCIO, F. História de um militante da Frente Negra Brasileira. São Paulo, 1987. Mimeo.
gada; exaltar a cultura chamada negra no país, onde se des- carentes do grupo negro, nascem as reivindicações de cotas como indivíduos de pele negra sem nuanças todos ansio- MALATIAN, Teresa M. As cruzadas do Império. São Paulo: Contexto, 1990.
tacam como expressões diacríticas a música, as religiões raciais nas universidades públicas. sos por eliminar os entraves reais e os estigmas simbóli- MELLO, Marina P. A. “Não somos africanos... Somos brasileiros. Povo negro, imigrantismo e identidade paulistana nos discursos da
afro e a fertilização da cultura brasileira a partir das contri- 6. Finalmente, não aceitar a pluralização do movi- cos que historicamente colocaram o “homem de cor” imprensa negra e da imprensa dos imigrantes (1900-1924). Dissensões e interações”. São Paulo: USP, 2005. Tese de doutorado em
buições dos chamados “homens de cor”. mento negro: ele é único, embora comporte várias faces, num quadro, desde sempre, de subalternidade social. De antropologia social.
4. Vigiar, até o policiamento, os meios de comunica- atuando cada qual em seu tempo, cada qual em seu lugar, certa forma, esse redesenho arranha o perfil de uma socie- MITA, C. Bastos: uma comunidade étnica japonesa no Brasil. São Paulo: Humanitas, 1999.
ção de massa, em especial a TV para, a um só tempo, au- cada qual com suas estratégias de luta (Borges Pereira, 2007). dade que se orgulha de sua diversidade étnica, que pode MONTEIRO, John. Negros da terra. Índios e bandeirantes na origem de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
mentar, positivamente, a visibilidade do negro nas telas e Os próprios militantes atuais reconhecem ser essa ser traduzida como diversidade de cores que tingem as NINA RODRIGUES, R. Os africanos no Brasil. 2ª- ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.
eliminar, se possível, de uma vez, a imagem negativa do uma agenda ambiciosa, ainda que admitam que a imagem peles dos brasileiros.
NOGUEIRA, Oracy. Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. São Paulo: T. A. Queiroz, 1985.
PINTO, Regina P. “O movimento negro em São Paulo: luta e identidade”. São Paulo: USP, 1993. Tese de doutorado em antropologia social.
QUEIROZ JR., Teófilo. Preconceito de cor e a mulata na literatura brasileira. São Paulo: Ática, 1975.
RIBEIRO, Paulo Silvino. “Prescrições médicas contra os males da nação – Diálogos de Franco da Rocha na construção das ciências
sociais no Brasil”. Tese de mestrado, Unesp-Araraquara, 2010.
SANTOS, Gislene A. dos. A invenção do ser negro. Um percurso das ideias que naturalizaram a inferioridade dos negros. São Paulo, Rio
de Janeiro: Educ, Fapesp, Pallas, 2002.
SEYFERTH, Giralda. “Construindo a nação: hierarquias raciais e o papel na política e colonização”, in: MAIO, M. C; SANTOS, R. V.
(orgs.). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz, CCBB, 1996, pp. 38-59.
—. “Colonização, imigração e a questão racial no Brasil”, in: Revista da USP, nº-º 53, 2002, pp. 117-148.
SOARES, Reinaldo da Silva. Vai-Vai – O cotidiano de uma escola de samba. São Paulo: Booklink, 2006.
—. Negros de classe média em São Paulo: estilo de vida e identidade étnica. São Paulo: USP, 2004. Tese de doutorado em antropologia social.
VALENTE, Ana Lúcia E. F. Política e relações raciais. São Paulo: FFLCH-USP, 1986.
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Harmony and Conflict in the Colors

Family ties: ethnic groupS in brazil


of Ethnical Brazil: From Real to Symbolic *

N
João Baptista Borges Pereira

Nowadays, Brazil is proudly proclaimed and self-pro- negative stereotypes, was reinforced after World War II by On the other hand, the indigenous category, the last
claimed a country of ethnical diversity. Such diversity has the violent action of a terrorist faction known as Shindo one in the Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –
developed historically, little by little, from its discovery to Renmei, which was born out of the result of that world IBGE (Brazilian Institute of Geography and Statistics)1 scale,
the present time. In the beginning, the indigenous Brazi­lian – conflict. On one side, there were the so-called “defeatists,” or moves from the color criterion – which is fundamentally bio-
the original dweller of the territory – with his yellowish skin those who accepted as true the information that Japan had logic-racial – to the ethnic-cultural sphere. That rupture from
somewhat undefined, sometimes depreciatingly labeled been defeated; on the other, there were the “victorists,” or the classificatory principle based on skin color may be ex-
“gourd-colored people.” In the early 16th century, white those who refused to accept such fact. Shindo Renmei was plained by both the large number and the broad diversity of
Portuguese settlers arrive from the Iberian Peninsula. Soon born out of that acceptance-nonacceptance conflict and the indigenous groups that still exist in this country and by
after that, Negroes coming from various parts of black started murdering “defeatists” all over Brazil. Nowadays, the difficulty to name the colors or the color of this Brazil that
Africa – imprisoned by a slavery system that was abolished having overcome that phase, the Japanese colony earned full is so present in history and so absent from the everyday life
only in the late 19th century – come to join the indigenous visibility in the life of the country. Japanese descendants hold of certain areas in the country. The national imaginary still
Brazilians and the Iberians. expressive status in all sectors of the social structure – which preserves the image of the Indian idealized by the romanti-
In 1875 (symbol-date), new batches of white people has contributed to redefine the negative image of the yellow cism of previous centuries.
were added to that color trinity, that has been known as people in this country (Mita 1999). The symbology-charged popular representation under­
“the foundation of ethnical Brazil” up to the present time. The blend that tints Brazil in four colors takes paths of takes to add further shades to the diversity collected or im-
That color drawing (indigenous Brazilians, whites, and halftones, given the history of the miscegenation process prisoned by the Brazilian census. As examples, one may
Negroes) is undone only in 1908, with the arrival of im- among those populational segments. Currently, the Brazi­ mention the results of a field research carried out by an
migrants classified in a fourth color: yellow. The immigra- lian census gathers and classifies that color panel into five American anthropologist (Harris 1967, 93). That author
tion flow was intense and was initially represented by the categories: white, black, light brown, yellow, and indige- finds forty popular expressions to name what the census
Japanese, and today, as of World War II, by the Chinese nous. For a better understanding of those categories, it is classifies as white, black, and light brown in Brazil: “bran-
and mainly by the Koreans. For the new immigrants to necessary to break them down and extract what they intend co, preto, sarará, moreno claro, moreno escuro, mulato,
disfigure the primordial color trinity, it was necessary to to announce and what each of the censual categories will moreno, mulato claro, mulato escuro, negro, caboclo, escuro,
ignore Decree 528, issued by the first president of the Bra- eventually hide: “white, black, yellow.” Those categories are cabo-verde, claro, araçuaba, roxo, amarelo, sarará escuro,
zilian Republic, that opened Brazilian ports to all people, based merely on the prevailing skin color of individuals to cor de canela, preto claro, roxo claro, cor de cinza, ver­­melho,
except “natives of Africa and Asia.” place them in specific “ethnic-racial” groups, ignoring the caboclo escuro, pardo, branco sarará, mambembe, branco
As far as Asians – in this case, the Japanese – were con- occasional diversity each group has. The light-brown cate- caboclado, moreno escuro, mulato sarará, gazula, cor
cerned, it was believed they were unknown, treacherous, and gory is a label that encompasses the colors that were com- de cinza claro, crioulo, louro, moreno claro caboclado,
dangerous people who gathered to form “ethnic cysts.” In bined as a result of the crossing of races. That category that
other words, those immigrants were seen as the “yellow is mostly similar to a “mel­ting pot” encompasses the various
1. T.N.: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (Brazi-
danger” (Dezem 2005). That idea, which was crammed with shades of mulatto, resulting from the miscegenation of lian Institute of Geography and Statistics) is the agency responsible
whites and blacks; the mameluco, a person of mixed indige­ for statistical, geographic, cartographic, geodetic, and environmental
information in Brazil. The IBGE performs a national census, and the
* Excerpts of works published originally in Portuguese have been freely
nous and white ancestry; the cafuso, a person of mixed questionnaires account for information such as age, household income,
translated by the translator. white, indigenous, and Negro ancestry. literacy, education, and Brazilian occupation.

Índio da tribo dos caiapós, grupo indígena Indian of the Caiapó tribe, a Brazilian indigenous
brasileiro da Amazônia, em 1957. group of the Amazon, in 1957.
João Baptista Borges Pereira, anthropologist, emeritus professor with
Universidade de São Paulo, full postgraduation professor with Univer-
sidade Presbiteriana Mackenzie.
went through at least two other less significant cycles –

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which affected in their own way the process of population


distribution-redistribution: the wheat cycle, having the then
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


province of São Paulo as a backdrop, and the rubber cycle
in the Amazon region.
The sugarcane cycle brought to the Northeast crowds of
Negro slaves, whose descendants – mestizo or not – still re-
main there. The mining cycle transferred to Minas Gerais a
large scale of slave labor, which, to a certain extent, was
dispensable after the exhaustion of the sugarcane cycle.
Finally, an extensive coffee-farming activity redistributed the
mulato bem claro, branco mulato, roxo de cabelo bom, and in view of their appearance would be labeled white pro- black slaves who were idle after the former cycles to the pro­ immigrants, around 1.5 million people, an amount that was illnesses of the nation (Ribeiro 2010). Among those frailties recorded, and Donga, its composer, denounces the discrimi-
preto escuro, pelé.” 2 claim themselves to be Negroes – on account of their Negro vinces in the Southeast, until the arrival of immigrants. The only outranked by the Portuguese quota. one could find, sometimes mimetically, the black pigmenta- nation legalized by the State. In the course of the 1920s and
It should be noted that those color expressions of Bra- ancestry – to benefit from that policy. It is a question of wheat cycle that marked the economic life of the 17th-centu- tion of the greater part of the population in the country. In 1930s, music was the medium Negroes chose, or the only
zilians, that extrapolate censual categories, are influenced by people who deliberately take the complicated path of sociora- ry then province of São Paulo attracted large crowds of Polarization of colors statistical terms, all that thinking consisted in positively medium left, to express their situation of social subalternity
both self-evaluation and exo-evaluation. The question posed cial ambiguity to achieve their objectives. As a rule, those legally enslaved indigenous people from all over the country. That panel, marked by the diversity of races, colors, correlating the “abnormalities” detected by that prophylactic (Borges Pereira 2001).
is, “Why are the self-definition and the definition of the other individuals live according to a “brand model,” but manipu- The leading actors who took part in that process were famous and cultures, and currently regarded as natural and inherent medicine to the race or the color of the negro. But that entire The second historical moment in which the Negro gains
placed far off?” According to scholars in racial relations in late their “blood model” to fit the circumstances. bandeirantes – members of expeditions called Bandeiras – as to the country’s identity, as well as a legitimizer of that iden- associative process, whether well or badly formulated, would social visibility is connected to the Modernist Movement in
Brazil, this lack of agreement between “me” and the “other” Raposo Tavares. The bandeirantes were major Indian captu­ tity, draws the attention of the Brazilian intellectual thinking not have existed without the validation of Nina Rodrigues’ 1922. In its attempt to build or rebuild national identity, that
derives from a pattern or a model of ethnic acquaintanceship Color distribution through territorial Brazil rers, both in the backlands of São Paulo and in other areas in in the late 19th century. thinking, which establishes, from the beginning, a correlation movement finds in the Negro, in terms of color and culture, the
that by agreement is called “brand or appearance model.” A Metaphorically, one may state that the skin that histori- the country (Monteiro 2009). Raymundo Nina Rodrigues, a.k.a. Nina Rodrigues, a between “abnormalities” and “race” (or the black color) in the great symbol of that identity. Whites and Indians were left out
different model from that adopted by another pluriethnical cally covered and continues to cover Brazil features predomi- The rubber cycle leads Northeastern workers, basically professor of forensic medicine at Universidade da Bahia, is territories of the candomblé – an African-Brazilian religion of the trinity that accounts for our diversity. The first group
country: the United States. In that North American country, nant colors in different areas of the country. In southern Negroes and mulattos, to the Amazon region. Those indivi­d­ responsible for the first reflections on the theme. Informed by – of Bahia, which became his locus of empirical research. (whites) because it was seen as a type of Europeanizing culture
ethnical diversity is defined according to standards derived regions and to a certain extent in the Southeast, white popula- uals finally settled there and are still confounded with the Italian and French forensic schools, Nina Rodrigues that should be redefined; the second group (Indians) because it
from “a model of origin or blood” (Nogueira 1985). tions prevail in percentage rates. In the Northeast, shortly after indigenous populations. believed that the pluralistic Brazil of his time could or should Response of the stigmatized colors had been used exhaustively as an expression of Brazilianness
In Brazil, the fact that color borderlines are feeble and the boundaries between the states of Minas Gerais and Bahia, Current Southern states, as Paraná, Santa Catarina, and be reduced to two countries highly antipodean between them- The history of the Negro in Brazil is marked by the by the romanticism of the 19th century. The Negro was the only
not rooted in our genetic heritage allows them to be crossed there is a predominance of blacks and their mestizo descen- Rio Grande do Sul were left out of that cyclical economic process. selves: a Northeastern Brazil that is archaic, negro, and mestizo, persistence and struggle of that ethnical segment to rid itself of remaining element that takes on for a few moments the main
in various circumstances. In the United States, that process is dants. In the Amazon region, the indigenous category has a and another Brazil that is progressist and white from the sou­ the stigma associated to its past of being enslaved and the role of Brazilian identity. However, the Negro the Modernist
virtually impossible, regardless of the physical appearance in- percentage rate advantage, with small spots of Negroes and A policy to whiten and Occidentalize the country thern regions. In essence, that dichotomy defined a white and a color of its skin, to occupy the place it deserves in the Brazilian Movement puts on the stage is the theme Negro, in other words,
dividuals may have. A recent and current example in Brazil mestizos coming from the Northeast. Those spots may also be The white population of European ancestry comes to black‑skinned Brazil. That dualistic interpretation, albeit not social structure. That struggle, with or without the complicity the Negro as a cultural expression. The social-actor Negro is
of the pervasiveness of ethnical frontiers emerged as a result detected in the Southeast and in some parts of central Brazil. Brazil in migratory waves as of 1875 (symbol-date). At least extremely schematic, since it highlights other social factors, gains of the white, undergoes various phases. After the abolition of only to emerge in the reactive movements as of 1930. Para-
of a policy that set ethnical quotas to help people’s access to In sum, the distribution of that diversified population four types of factors account for that immigration: the socio- momentum in subsequent reflections, as in Gilberto Freyre slavery, at the very beginning of the first decade of the 20th doxically, who builds the Negro in modernism is their counter-
higher education. Individuals who in another social context across the Brazilian territory is completely irregular and economic factor – the most mentioned – associated with a (Casa-grande e senzala or Sobrados e mocambos), in Aluísio century, a black press is established in São Paulo and in point: the white, almost always first-generation Italians.
heterogeneous, giving a (false) impression that it has been search for workmanship to replace the Negroes who would be Azevedo (O cortiço), or in Roger Bastide (Imagem do Nordeste Campinas, which, with its ups and downs, attempts to peda-
2 T.N.: This excerpt has been extracted from the Brazilian edition of carried out randomly. In fact, there is a pattern in the spatial set free in 1888; the racial factor – the least explicit – which, em branco e preto) and in Jacques Lambert (Os dois Brasis). gogically “educate” the group aiming at a better advancement This way, Menotti del Picchia inaugurates, in 1917, the po­­
the book Patterns of Race in the Americas, by Marvin Harris, first pub­
lished in 1964. In its original publication, the excerpt reads as follows:
distribution of that plurality. It is a pattern of undisguised by means of the immigration of white people of European In addition to that binary, polarized view that embo­d­ in the semiurban society of that time (Pinto 1993). e­tics to elevate the Negro with his classic poem – Juca mulato.
“Forty different racial types were now elicited: branco, preto, sarará, socioeconomic aspect, only indirectly connected to the bio- ancestry would attempt to tip the Negro-white balance in ies to a greater or lesser extent the racial side of Brazilians, At the end of that decade, going on to the mid-1920s, Candido Portinari goes along this thematic line with his hu-
moreno claro, moreno escuro, mulato, moreno, mulato claro, mulato logical characteristics of those different population segments. favor of the latter; the cultural factor – which, to a certain Nina Rodrigues’ thinking directly or indirectly gives rise the black population, especially of Rio de Janeiro, intro­ man mestizo characters, toughened by work, as if smelling
escuro, negro, caboclo, escuro, cabo verde, claro, araçuaba, roxo, amarelo,
sarára escuro, côr de canela, preto claro, roxo claro, côr de cinza, Historically, that pattern has been built from the cycles extent, was associated to the racial factor – which would throughout the years to a great concern among Brazilian duces the roots of Brazilian popular music and uses it to sweat. Di Cavalcanti dedicates himself to aesthetically glori-
vermelho,caboclo escuro, pardo, branco sarará, mambebe, branco cabo- through which Brazilian economy has gone: the sugarcane attempt to consolidate the Occidentalization of the country; intellectuals and politicians for the “normality” and “euge­n­ stand out and to denounce the discrimination that victi­ fying the mulatto woman, while Jorge de Lima makes a po­
clado, moreno escuro, mulato sarará, gazula, côr de cinza clara, creolo,
louro, moreno claro caboclado, mulato bem claro, branco mulato, roxo de
cycle, the mining cycle, and the great farming (coffee) cycle. and, finally, a strategic element – apparently obscured by the ics” of the population. Behind those concerns, or fueling mized it, even in their playful activities and religious cults. ­­­­­­e­tic apology for his “nega fulô.” Francisco Mignone, warned
cabelo bom, preto escuro, pelé” (58). In addition to those three macrocycles, the young country three previous factors – which would account for the occupa- them, is a quest for “medical prescriptions” against the Consequently, in 1917, the first samba – Pelo telefone – was by Mário de Andrade, nourishes his musical inspiration,
tion of areas regarded as depopulated, of undefined and vul-
nerable borders with neighboring countries. Italians were the
immigrants that most adapted to that idealized profile,
because, in addition to being considered good agricultural
workers, they were white and could blend into the Western
world, and, differently from German immigrants – mostly
Lutheran protestants – Italian immigrants were characte­r­
ized by a strong Roman Catholic tradition and featured ties
of ethnic consanguinity with the land that welcomed them:
they were – or would like to be – Latin as Brazilians. That
may be the main explanation to justify the number of Italian
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Family ties: ethnic groupS in brazil


employing expressions of the Negro culture. Along this In the period between Vargas’ Estado Novo (New
theme, the Fourth Symphony for Piano and Orchestra, State) and the end of World War II, a sort of calm descends
based on the music of a Rio de Janeiro samba school, stands over the Brazilian “colored man,” that is only disrupted by the
out in Mignone’s repertoire. As previously stated, the Negro creation of Aristocrata Clube by Negroes of São Paulo and by
is not present in that Movement, but the exaltation of what the Negro Experimental Theater, of Abdias do Nascimento.
was then understood as black culture, as synonymous with Despite having been created by Negroes and for Negroes, it is
popular and folkloric, consequently granting higher visibility difficult not to notice in those events larval manifestations of
to the Negro that was taken as a species of national Brazil- an emerging, real, and symbolic middle class (fictitious, as
ianist authenticity (Borges Pereira 2011). Florestan Fernandes puts it), yearning for social recognition.
Such cravings, aspirations, and struggles are updated and re-
Around 1930 there emerges a movement that, perhaps appear in the last decade of the 20th century, with the cre-
or most certainly, may be regarded as the most powerful and ation of Unipalmares, having the explicit purpose of granting
significant Negro political movement: Frente Negra Brasilei- higher education for the intellectual improvement of parts of
Imigrantes japoneses: Kô e os filhos desfrutando ra – FNB (Brazilian Negro Front), led by Arlindo Veiga dos the Negro population in São Paulo (Soares 2006).
de uma farta safra de caquis, Londrina – PR. Santos, a journalist of Correio Paulistano. Following a con-
servative ideology, FNB, in addition to associating to the Color bipolarity is redrawn3
Japanese immigrants: Kô and her children relishing Catholic Church in its most traditional values, exalted the In the evening of July 7, 1978, a group of young Negroes
an abundant persimmon crop, Londrina – PR. monarchic regime and, paradoxically, followed Plínio Salga- held a protest on the stairs of the São Paulo Municipal The­
do’s integralism. Soon after that political association was a­t­­er against two discriminating acts: the first referred to a pro-
established, it was broken, when FNB’s claims as a political hibition of Negro adolescents to practice swimming in a club
group were placed on the negotiation table. The movement in the city; the second was addressed to the military regime
that praised white skin purity did not agree with the de- that had established a dictatorship in the country and had
mands of the movement that praised black skin. The Front, been responsible for the arrest and death of a black worker.
already internally cut up into shreds because of a conflict be- Thus, the Movimento Negro Unificado – MNU (Unified
tween left-wing and right-wing Negroes, is finally extin- Negro Movement) was born, which, following a Marxist
guished by Getúlio Vargas. It should be noted that differently ideological reference, proposed to revert the situation of
from the Modernist Movement, in which Negroes appear as the group in Brazilian society based on a reconstruction of the
the expression of culture they have created or that is attri­b­
uted to them, in the Frente Negra Brasileira they enter the
3. See the text of this subitem in João Baptista Borges Pereira, “Diversi-
scene as social actors that claim a space in the social struc- dade e pluralidade: o negro na sociedade brasileira,” Revista da USP, no.
ture that has been historically denied. 89 (March–May 2011): 278–284.
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Family ties: ethnic groupS in brazil


Negro identity. That meant, among other things, eliminating music, African religions, and the fertilization of the Brazilian will act in their own time, in their own places, with their own
the traditionally “deteriorated Negro image” from the social culture based on the contributions made by the so-called fighting strategies, it is unique (Borges Pereira 2007).
scenery, replacing it with a positive image that should be the “colored men” are highlighted as diacritical expressions. Current members themselves realize that this is an ambi- Reference List
object of pride among their own group. 4. Keeping watch, to the extent of patrolling, the mass tious agenda, while they admit that the Negro image nowadays ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil. O negro na telenovela brasileira. São Paulo: Senac, 2000.
The MNU agenda included: communication media, particularly the TV in order to simul- is no longer a worn-out representation of former decades. BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. 4th ed. São Paulo: Global, 2008.
1. Redefining from his own aesthetics, the image of the taneously increase Negro visibility on the screen positively and And what is most relevant: the negro is already freeing BORGES PEREIRA, João Baptista. “Pixinguinha” (interview), in: Revista do IEB-USP, no. 42 (1997): 77–90.
Negro as an expression of a non-white body. This item com- eliminate, if possible and for once, the negative image of the himself from the reflex ideology of a mirrored image of the —. “Os imigrantes na construção histórica da pluralidade étnica brasileira”, in: Revista da USP, no. 46 (2000): 6–29.
prises a concern with Negro beauty, chiefly but not exclusively, scoundrel, unscrupulous, and laughable Negro, in other words, “other,” that has historically been built from long ago. In other —. Cor, profissão e mobilidade – O negro e o rádio de São Paulo. 2nd ed. São Paulo: Edusp, 2001.
with the Negro female beauty. The expression of that new the “caricatural Negro,” that has perpetuated and annoyed the words, the Negro already sees himself through his own and
—. “Trajetória e identidade do negro em São Paulo”, in: ZANINI, Maria Catarina C. (org.). Por que “raça”? – Breves reflexões sobre a
identity associated with Negro aesthetics stresses cosmetics group as of the radio days (Borges Pereira 2001; also Fonseca renovated gaze, while he realizes that there is still a lot to do. “questão racial” no cinema e na antropologia. Santa Maria: Editora UFSM, 2007, 87–100.
and the hair. Such concerns give rise to niches in the con- 1994). That sanitizing surveillance can even reach Negro
—. “Diversidade e pluralidade: o negro na sociedade brasileira”, in: Revista da USP, no. 89 (mar–may 2011): 278-284.
sumer market in the form of ethnic beauty parlors in major artists who are willing to perform such roles (Araújo 2000). The color duality triggered by the MNU
CUTI, Luiz Silva. … E disse o velho militante José Correia Leite. Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo. 1992.
Brazilian cities and cosmetic industries, which, in turn, foster 5. Electing higher, university education as one of the The Negro reactive movement ends up reestablishing
DEZEM, Rogério. Matizes do “amarelo”: a gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (1878 – 1908). São Paulo: Humanitas, 2005.
advertising aimed at the Negro group (Gomes 2006). most powerful resources to revert signs. That idea, strongly the polarity of colors, reducing the praised ethnical diversity
2. Eliminating nearly forty labels that designated blacks impregnated with a mystique of school power in a social FERNANDES, Florestan. A integração do negro à sociedade de classes. São Paulo: FFLCH-USP, 1964.
to polarity – almost to the point of opposition – of both Brazils.
and their mestizos in different parts of the country (Harris ascension process seems to be unanimous among Negroes, However, at least two differences may be stressed between the FONSECA, Dagoberto J. “A piada: discurso sutil da exclusão. Um estudo risível no ‘racismo à brasileira’”. PUC-SP, 1994 (master’s stu-
1967). For that purpose, they would adopt the encompassing whether active members or not. In the quest for that objec- dies in social sciences).
former and the present phase: as mentioned, the former
“Negro” term. That single-naming strategy attempted to fulfill tive, it is possible to see two strategies of the group. The first phase arises from a construction undertaken by white in- GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
two politically relevant objectives for the group: firstly, the one brings to date again a strategy self-denominated “black tellectuals, having as basis the “biologized” ideas of Nina GOMES, Nilma Lina. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo da identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
number and percentage of the non-white population, which elite” of the 1840s and 1850s that resorts to negotiations Rodrigues. In the current phase, that dualistic, binary reduc- HARRIS, Marvin. Padrões raciais nas Américas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
from now on would be called “Negro,” would grow enough to with representatives of the most privileged layers of the tion is conducted by Negro militants, through a Marxist LUCRÉCIO, F. História de um militante da Frente Negra Brasileira. São Paulo, 1987. Mimeo.
recover the balance recorded in the late 19th century. Secondly, white population (politicians, businessmen, professionals, perspective, with emphasis on the socioeconomic. In sum, as MALATIAN, Teresa M. As cruzadas do Império. São Paulo: Contexto, 1990.
an intergroup solidarity network would be built, the absence of educational institutions) to materialize the ideals of that of 1970, Brazil in black and white is drawn once again from MELLO, Marina P. A. “Não somos africanos... Somos brasileiros. Povo negro, imigrantismo e identidade paulistana nos discursos da
which was an impediment to joint political action. In other segment. The second, instead of negotiations, prefers an a political-ideological point of view by Brazilians who define imprensa negra e da imprensa dos imigrantes (1900-1924). Dissensões e interações”. São Paulo: USP, 2005 (doctoral thesis in social
words, that strategy was an effort to fill the gap in gender, artifice based on public dispute and even on conflict, when themselves as black-skinned – without shades of black – indi- anthropology).
religion, color shades, and partisan politics (Valente 1986). facing social obstacles to its planned course. From this last viduals, all of them anxious to eliminate real obstacles and MITA, C. Bastos: uma comunidade étnica japonesa no Brasil. São Paulo: Humanitas, 1999.
3. Submitting positive proposals to value quilombolas, strategy that is marked by the yearnings of the neediest symbolic stigmata that have historically placed the “colored MONTEIRO, John. Negros da terra. Índios e bandeirantes na origem de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
exalt Zumbi, a mythical hero, encourage and create the Negro layers in the Negro group, the claims for racial quotas in man” in a situation, as of always, of social subalternity. In a NINA RODRIGUES, R. Os africanos no Brasil. 2nd ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.
Awareness Week; contribute to weaken in the Negro and public universities are born. way, this new drawing scratches the profile of a society that
NOGUEIRA, Oracy. Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. São Paulo: T. A. Queiroz, 1985.
national imaginary May 13 as a symbol of granted redemp- 6. Finally, refusing to accept the pluralization of the takes pride in its ethnical diversity, which can be translated
PINTO, Regina P. “O movimento negro em São Paulo: luta e identidade”. São Paulo: USP, 1993 (doctoral thesis in social anthropology).
tion; exalt the so-called Negro culture in the country, in which Negro movement: despite comprising various aspects that into color diversity that tints the skins of Brazilians.
QUEIROZ JR., Teófilo. Preconceito de cor e a mulata na literatura brasileira. São Paulo: Ática, 1975.
RIBEIRO, Paulo Silvino. “Prescrições médicas contra os males da nação – Diálogos de Franco da Rocha na construção das ciências
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SANTOS, Gislene A. dos. A invenção do ser negro. Um percurso das ideias que naturalizaram a inferioridade dos negros. São Paulo, Rio
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SEYFERTH, Giralda. “Construindo a nação: hierarquias raciais e o papel na política e colonização”, in: MAIO, M. C; SANTOS, R. V.
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VALENTE, Ana Lúcia E. F. Política e relações raciais. São Paulo: FFLCH-USP, 1986.
S
A longevidade e os desafios
Se nos primórdios do século XX a dermatologia brasileira

87
desempenhou papel de destaque na sociedade, desenvol-
vendo trabalho pioneiro e inovador nos campos da pesquisa

Family ties: ethnic groupS in brazil


da dermatologia no século XXI
científica e da profilaxia contra doenças da pele que estigma-
tizavam a população, como a sífilis e a hanseníase, nos dias
atuais ela confirma essa posição, em consonância com as
demais especialidades da medicina na busca de soluções no
âmbito do tratamento das doenças e do monitoramento e de
Dra. Alice Alchorne1, Dra. Bogdana Victoria Kadunc2, intervenções que garantam a saúde com qualidade de vida
Dr. Fernando Almeida3 e Dr. Maurício Alchorne4 para uma população cada vez mais longeva.
Ao longo deste século a sociedade brasileira transfor-
mou-se profundamente. Nesse contexto, a dermatologia bra- cidadãos de nações sul-americanas, mais próximas, é cres- de pesquisa de novos medicamentos que compõem o arse-
sileira também se transformou, sobretudo a partir dos fins de cente o afluxo de pessoas oriundas da África e, também, da nal para tratamento de algumas doenças que têm desafiado
1990, quando deixou de ser uma especialidade eminentemen- Europa, particularmente Portugal, e dos Estados Unidos os dermatologistas.
te clínica e passou a evoluir gradativamente para clínico-cirúr- que procuram qualidade a custos comparativamente mais O desenvolvimento da cosmiatria também foi um
gica, e na esteira dessa evolução foi incluída a cosmiatria. acessíveis, vantagens que se somam ao bom atendimento marco na evolução da dermatologia brasileira neste início
Hoje, a dermatologia atua em diferentes aspectos oferecido pela rede hospitalar e, também, à imagem cada de século. Graças aos avanços das pesquisas e do desenvol-
clínicos, laboratoriais e terapêuticos, buscando os benefí- vez mais positiva do Brasil no cenário internacional. vimento de novas tecnologias, como o laser e substâncias
cios da interdisciplinaridade e o avanço da prática médica: O Brasil conta com mais de 70 centros dermatológi- como a toxina botulínica e os preenchedores, hoje o der-
oncologia, medicina diagnóstica e por imagem, pediatria, cos credenciados em vários Estados, boa parte dos quais matologista pode tratar não somente as mudanças causa-
cirurgia dermatológica, cosmiatria, além do tratamento de dedicados também à pesquisa, o que confirma o crescente das na pele em razão do envelhecimento cronológico ou
doenças infecciosas, parasitárias, inflamatórias, autoimu- interesse científico pela especialidade. Nesse sentido, des- ambiental, como também sequelas cicatriciais das mais
nes e alérgicas. taca-se, por exemplo, o Estado do Amazonas, onde as diversas origens e genodermatoses deformantes, antes
Nesse processo foram determinantes os avanços da pesquisas de doenças tropicais – relacionadas ao clima e desprovidas de recursos terapêuticos. Estas, apesar de incu-
pesquisa científica e da tecnologia, que agregaram novos re- às características ambientais e sociais da região – estão ráveis, podem ter seus sintomas amenizados, garantindo a
cursos à prática da dermatologia, tanto do ponto de vista do bastante avançadas, garantindo a importante contribuição melhoria da qualidade de vida dos pacientes.
diagnóstico quanto do tratamento. O dermatologista passou da dermatologia brasileira tanto no campo das pesquisas Assim, o incremento de pesquisas, sobretudo na área
a tratar de doenças dermatológicas que até então eram diag- científicas quanto no campo clínico e de tratamentos. da anatomia, é fundamental por garantir o uso adequado
nosticadas principalmente pelo exame clínico. As doenças No âmbito da saúde pública, além dos esforços para e a maior eficiência dos tratamentos e procedimentos apli-
de pele eram descritas com base na observação dos aspectos, garantir o controle e a prevenção de doenças crônicas como cados, considerando-se também os procedimentos cosmi-
características e localização da lesão, e levando-se em conta a hanseníase, o atendimento a doenças dermatológicas ocu- átricos. Atualmente, as pesquisas na área da cirurgia
essa morfologia era feito o diagnóstico, o que dificultava a pacionais também tem recebido investimentos por parte do dermatológica e da cosmiatria estão focadas no desen-
sua confirmação. A histopatologia avançou a passos largos. governo. São doenças que atingem trabalhadores prolonga- volvimento comparativo dos preenchedores, nas técnicas
Hoje, com a imuno-histoquímica, é possível definir o tipo de damente expostos ao sol ou que entram em contato com de lipoaspiração de pequenos volumes com laser e
célula característica de uma doença e, com isso, não só fe- substâncias químicas e metais pesados, hoje responsáveis outros recursos e nas técnicas de cirurgia oncológica para
char o diagnóstico como estabelecer o prognóstico, verifi- pelo segundo lugar entre as doenças ocupacionais em geral. retirada de tumores.
cando as formas de sua evolução e a definição do tratamento. No próprio diagnóstico de câncer de pele, uma das
No mesmo sentido foram significativos os avanços da Os avanços da dermatologia e os novos desafios na principais moléstias que aflige a população, especialmente
dermatologia na área de pesquisa, sobretudo das doenças formação de profissionais de países de grande insolação, como os do hemisfério sul,
relacionadas às disfunções imunológicas. Por ser o maior A complexidade e o avanço das pesquisas e da tecno- novas tecnologias de dermatoscopia e microscopia confo-
órgão do corpo humano, a pele possui grande quantidade logia envolvendo procedimentos e tratamentos exigem a cal permitem o exame do tecido lesionado com rapidez e
de células imunológicas. Doenças que causam imunode- constante atualização dos profissionais de dermatologia. precisão, garantindo a eficácia das intervenções e dos tra-
pressão, como a SIDA ou AIDS, e com alterações imuno- Daí a importância de cursos de capacitação, palestras em tamentos. As pesquisas estendem-se ainda para as áreas
lógicas, como lúpus eritematoso, pênfigo e vitiligo, são congressos, instituições de ensino e associações, como a de reconstrução e transplante de pele (enxertos), a exemplo
algumas daquelas nas quais o diagnóstico e o tratamento Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD, revelando o de certos casos de vitiligo.
obtiveram progressos significativos nos últimos anos. empenho dos profissionais em prol do desenvolvimento Todos esses avanços dependem, para serem domina-
1. Livre-docente de dermatologia; professora orientadora (mestrado e doutorado) da Escola Paulista de Medicina – Unifesp; professora A dermatologia brasileira distingue-se entre as prin- dessa especialidade médica. dos e aproveitados em benefício dos pacientes, de uma for-
de dermatologia do curso de medicina da Universidade Nove de Julho – Uninove. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD.
cipais escolas em nível mundial, sobretudo na área de ci- Entre os registros mais frequentes, destaca-se a der- mação conduzida por mestres e profissionais experientes
2. Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (2011-2012); doutora em dermatologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo; ex-presidente e membro permanente do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. Assistente rurgia dermatológica e cosmiatria, em que se qualifica matoscopia, cujo progresso tem permitido diagnósticos que propicie não apenas conhecimentos e práticas rele-
da Clínica Dermatológica do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo. como a segunda escola do mundo, atrás somente dos Esta- mais apurados de lesões pigmentadas que podem corro- vantes para o exercício da profissão, como também fun-
3. Professor-associado de dermatologia da Unifesp/EPM; fundador do Grupo brasileiro de Melanoma. Ex-presidente da Sociedade Brasileira dos Unidos. O interesse crescente despertado no plano borar os resultados de exames anátomo-patológicos, damentos científicos sólidos.
de Dermatologia – SBD.
internacional faz com que a especialidade salte fronteiras e considerados o padrão-ouro para diagnósticos mais pre- Um ponto crucial na agenda de educação médica conti-
4. Livre-docente de dermatologia; professor de dermatologia do curso de medicina da Universidade Nove de Julho – Uninove. Ex-presidente
da Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD. passe a atrair, também, pacientes de outros países. Além de cisos. Os biológicos são outro marco importante na área nuada tem sido a questão ética e a preocupação permanente
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in the 21st Century


LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


Longevity and the
Challenges Facing
Dermatology
W
em conscientizar especialistas desde a graduação, sobre o While in the dawn of the 20th century, Brazilian dermatology immune changes, such as lupus erythematosus, pemphigus, the commitment of dermatology professionals to the devel­ A crucial aspect in the continued medical education
delicado equilíbrio da relação médico-paciente e o compro- played a remarkable role in society by developing a trailblazing and vitiligo, are among those the diagnosis and treatment of opment of that medical specialty. agenda has been the issue of ethics and a permanent concern
misso de atuar no vasto campo das doenças sociais que ainda and innovative work in the fields of scientific research and which achieved significant progress in the last few years. Among the latest records, dermatoscopy stands out, to make specialists aware, from their very graduation day, of
afetam contingentes expressivos da população, como hanse- prevention of skin diseases that stigmatized the population, Brazilian dermatology ranks among the most impor- because its progress has allowed more precise diagnoses of the delicate balance of the doctor-patient relationship and the
níase, DST e micoses, que impactam principalmente as ca- such as syphilis and Hansen’s disease, nowadays it confirms its tant schools worldwide, especially in the area of dermato- pigmented lesions that may substantiate results of anatomi- commitment to engage in the vast field of social diseases that
madas economicamente menos favorecidas e colocam o role and position in accordance with other medicine specialties logic surgery and cosmiatry, where it ranks second in the copathological tests, regarded as the golden standard for still afflict a significant contingent of people, as Hansen’s
Brasil numa desonrosa posição de destaque entre as nações. in the search for disease-treating and monitoring solutions and world, only behind the United States. The increasing interest more precise diagnoses. Biologicals stand as another impor- disease, STDs, and mycosis that have a strong impact on the
Ética, dignidade, transparência e honestidade são interventions that are capable of ensuring health and quality it aroused abroad made the specialty cross frontiers and tant milestone in the research for new medicine to be added economically less-favored groups and place Brazil in a disho­
valores universais que têm destaque na profissão médica. of life for an increasingly long-lasting population. attract patients from other countries. In addition to people to the arsenal for the treatment of some diseases that have norable outstanding position among nations.
Nesse universo, certos preceitos devem ser observados, In the course of this century, Brazilian society under- from neighboring South American nations, there is an challenged dermatologists. Ethics, dignity, transparency, and honesty are uni-
como ter em mente que o paciente, mesmo nos procedi- went profound changes. In that context, Brazilian dermato­ increasing inflow of people from Africa and Europe, particu- The development of cosmiatry was also a milestone in versal values that should be stressed out in the medical
mentos cosmiátricos mais simples, deve ser visto e exami- logy also went through transformations, mostly from the late larly from Portugal and the United States, as they seek the evolution of Brazilian dermatology in this early new profession. Within that sphere, some principles should be
nado como um todo, para que não passem despercebidas 1990s, when it was no longer considered eminently clinical, quality at comparatively more reasonable costs, advantages century. Thanks to research advances and the development of observed, as bearing in mind that, even in the simplest
condições que poderiam garantir os benefícios de um gradually becoming a clinic and surgical specialty, with that are added to the good services rendered by our nation’s new technologies as laser and substances as botulinum toxin cosmiatric procedure, a patient should be examined as a
diagnóstico precoce, como é o caso do melanoma, que Dr. Alice Alchorne,1 cosmiatry being included in the wake of that evolution. hospital network and to Brazil’s increasingly positive image and dermal fillers, nowadays not only is a dermatologist able whole to ensure that a doctor does not overlook certain con-
pode ser detectado num exame completo. Para exercer a
dermatologia em toda a sua plenitude e abrangência, o
Dr. Bogdana Victoria Kadunc,2 Currently, dermatology encompasses different clini-
cal, laboratorial, and therapeutic aspects seeking the ben-
in the international scenario.
Brazil has over seventy qualified dermatological centers
to treat skin changes caused by chronological or environ-
mental aging, but also cicatricial aftereffects from the most
ditions that could substantiate an early diagnosis, as in the
case of melanoma, which can be detected by means of a
especialista deve dominar, portanto, os fundamentos Dr. Fernando Almeida,3 and efits of interdisciplinarity and medical practice advances: in various states, a significant number of which also engaged in varied origins and deforming genodermatoses, for which no thorough examination. In order to work in the profession in
científicos e os três pilares fundamentais da profissão: clí- oncology, diagnostic medicine, medical imaging, pediatrics, research, a fact that confirms the increasing scientific interest therapeutic resource was available. In spite of being incu­ its whole plenitude and comprehensiveness, a specialist
nico, cirúrgico e cosmiátrico.
Dr. Maurício Alchorne4 geriatrics, dermatological surgery, cosmiatry, in addition to in the specialty. In this respect, for example, the state of Ama- rable, they may have their symptoms mitigated to ensure a should, therefore, master the scientific foundations and the
Outro desafio à formação do dermatologista é a ne- treatment of infectious, parasitic, inflammatory, autoimmune, zonas, where research on tropical diseases – relating to the better quality of life for patients. three fundamental pillars of his or her profession: clinical,
cessidade crescente de atividades interdisciplinares que and allergic diseases. weather and to the environmental and social characteristics of Thus, intensified research, above all in the field of ana­ surgical, and cosmiatric.
estimulem a troca de conhecimentos entre as diversas espe- The advances of scientific research and technology that region – stands out for its advances, ensuring the impor- to­my, is essential, since it ensures an adequate use and higher Another challenge facing a dermatologist’s background
cialidades, tendo em vista os numerosos pontos de contato were decisive, as they added new resources to the practice of tant contribution of Brazilian dermatology both in the field of efficiency of relevant treatments and procedures, also taking is the increasing need to carry out interdisciplinary activities
existentes com áreas diversas da medicina, como reumato- dermatology, from both diagnosis and treatment stand- scientific research and in the clinical and treatment area. cosmiatric procedures into account. Current research in der- that foster the exchange of knowledge among the various
logia, imunologia e infectologia, entre outras. Essa exigên- points. Dermatologists began to treat dermatological dis­­­­ In the sphere of public health, in addition to efforts to matological surgery and cosmiatry is focused on the compara- specialties, in view of the numerous existing contact points
cia de ampliação do saber deve ser contemplada para que e­a­ses that up until then were chiefly diagnosed by clinical ensure the prevention and control of chronic diseases, such as tive development of dermal fillers, small-volume liposuction with other medical areas, as rheumatology, immunology,
possam ser preenchidas as dimensões científicas que se exams. The description of skin diseases used to be based on Hansen’s disease, treatment of occupational skin diseases has techniques by means of laser radiation and other resources, and infectology, among others. This knowledge-enhancing
1. Dermatology professor with habilitation degree (Livre-
colocam diante do dermatologista moderno. Docência); advisor (master’s and doctorate degrees) with Escola
the observation of their aspect, characteristics, and location also been the object of government funding. Occupational and in the techniques of surgical oncology to remove tumors. requirement should be taken into account if the scientific
Essas competências somente serão integralmente Paulista de Medicina – Unifesp; dermatology professor at the of lesions, and a diagnosis was made by taking that mor- skin diseases develop in workers who are constantly and exten- In the very diagnosis of skin cancer, one of the main dise­a­­­­­­­­­­­­­ dimensions facing a modern dermatologist are to be fulfilled.
dominadas a partir do aprendizado em serviços bem medicine course of Universidade Nove de Julho – Uninove. phology into account – which rendered confirmation more sively exposed to the sun or who are exposed to chemical ses that torments the population, particularly in countries with These competences can only be fully mastered through
A former president of the Sociedade Brasileira
equipados e conduzidos por profissionais qualificados. de Dermatologia – SBD (Brazilian Society of Dermatology). difficult. Histopathology advanced in leaps and bounds. substances and heavy metals, which are currently accountable plenty of sunlight, as those located in the Southern Hemi- learning in well-equipped services led by qualified profes-
Tal cenário de qualidade exige uma rede bem estruturada 2. President of the Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD Nowadays immunohistochemistry has made it possible to for a second place among occupational diseases in general. sphere, new dermatoscopy and confocal microscopy techniques sionals. Such quality backdrop requires an adequately
de escolas médicas, principalmente universidades públicas (2011–2012); doctorate in dermatology from Faculdade de identify the type of cell that characterizes a disease and, make it possible to perform a quick and precise exam of the structured medical school network, chiefly public universi-
Medicina da Universidade de São Paulo; a former president and a
e alguns nichos de excelência no ensino privado. permanent Deliberative Council member of Sociedade Brasileira based on such identification, not only is it possible to make The advances in dermatology and the new injured tissue, ensuring effective interventions and treatments. ties and some niches of excellence in the private sector.
Nesse sentido, papel fundamental tem sido desempe- de Cirurgia Dermatológica. Assistant with Clínica Dermatológica a diagnosis but also to provide a prognosis, based on its challenges facing professional education Research is also extended to the fields of skin reconstruction In this sense, the Sociedade Brasileira de Dermatologia
do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo.
nhado pela SBD, que, há um século, vem realizando dili- probable course and the choice of treatment. The complexity and the advances made in research and and skin transplant (grafting), as in some cases of vitiligo. – SBD has played a key role for one century, by carrying out
3. Associate dermatology professor with Unifesp/EPM; founder
gente trabalho de consolidação da dermatologia num patamar of Grupo Brasileiro de Melanoma; a former
In the same way, the advances of dermatology in the technology relating to procedures and treatments require der- In order to be mastered and used for the benefit of industrious work to consolidate dermatology at a high level.
elevado. Com estrutura de regionais nos Estados, sua rede president of Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD. research field, above all the diseases relating to immune disor- matology professionals to constantly update themselves in patients, all such advances depend on a background built Relying on a structure of regional offices in the states of this
multiplica-se por meio da capilaridade proporcionada pelos 4. Dermatology professor with habilitation degree (Livre- ders, were also relevant. Being the largest organ of the human the area. Hence the importance of qualification courses, con- by experienced masters and professionals that can provide country, its network is multiplied by the capillarity provided
Docência); dermatology professor at the medicine course of
distritos dermatológicos e pelos serviços que levam assistên- body, the skin has a large amount of immune cells. Diseases gress lectures, associations, such as the Sociedade Brasileira not only relevant know-how and practice to carry out the by dermatological districts and services that render quality
Universidade Nove de Julho – Uninove. A former president
cia médica de qualidade aos pontos mais distantes do país. of the Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD. that cause immunosuppression, such as AIDS, and with a few de Dermatologia – SBD, and teaching institutions to ratify profession, but also a solid scientific foundation. medical care to the remotest places in the country.
A pele e a vida

91
Family ties: ethnic groupS in brazil
no f luxo do tempo

A
Angela Magalhães e Nadja Fonseca Peregrino
Curadoras e Pesquisadoras Associadas

A realidade cultural brasileira é caracterizada pelo amál- Há uma extensa literatura sobre a importância do De outra forma, reconstruir esse universo pela via
gama de distintos grupos étnicos. Não podia ser diferente. cinema e da fotografia na recuperação desse processo imagética significa trazer à tona as peculiaridades da foto-
Fragmentos de memória, frutos de uma história dispersa, híbrido, que coexiste tanto nas histórias de vida como grafia contemporânea, que possui uma importância ímpar
nos ajudam a reiterar a importância vital do processo mi- em sua transmissão pelo mundo. Não por acaso a cone- no cenário artístico mundial. Hoje, mais do que nunca, a
gratório para a formação de uma sociedade não só cos- xão da imagem com o tempo nos remete a zonas impen- fotografia se caracteriza por uma nova modelação do olhar,
mopolita como culturalmente plural. Alguns exemplos sáveis, que poderiam ser totalmente apagadas da histó- tanto pela sua interação com outros meios expressivos
nos bastam. É só rememorar as influências trazidas pelos ria. São memórias construídas na fronteira de um quase quanto pelo advento da linguagem digital, na qual a tela do
imigrantes: o idioma português, a culinária italiana, as esvaecimento. No âmbito de nossa exposição “Laços de computador se tornou um paradigma da comunicação
técnicas agrícolas alemãs, os batuques musicais africanos, família: etnias do Brasil” a fotografia aparece como prin- midiática. Revelando-se cada vez mais fluida e mutante, a
a feijoada, os cultos afro-brasileiros, legados simbólicos cipal eixo de investigação conceitual e estética. Aos fotó- fotografia circula desde a clássica tradição documental,
que dão ao Brasil um perfil de múltiplos sabores e cores. grafos desse projeto formulou-se o convite para visita- passando pela sua inserção em instalações nos espaços da
Lembremos, ainda, que a base da população brasileira é rem cidades localizadas em distintas regiões brasileiras, galeria, até o registro de ações performáticas como uma linha
constituída pelos descendentes dos três antigos elemen- cujo resultado prova – aos que ainda duvidam – que o tênue, sem a qual a arte perderia seu alcance e sua coerên-
tos: ameríndios, portugueses e africanos, e que a supre- conhecimento do Brasil está muito além dos meios que cia. Dessa forma, o alargamento visual passa a ser a tônica
macia da cultura portuguesa prevaleceu por muito tempo o veiculam: livros, blogs, internet, entre outras redes de de uma ampla rede de conhecimento. Sua natureza inter-
após a interrupção da imigração africana. Quando a abo- comunicação. Na verdade, a web não consegue dar conta disciplinar é inegável. Não por acaso, em qualquer parte do
lição da escravatura se tornou uma certeza, a imigração de das inúmeras realidades que campeiam numa geografia mundo a fotografia – impressa, exposta ou projetada pela
outras nacionalidades além da portuguesa ganhou fôlego. tão grandiosa como a nossa. Não surpreende que as fo- internet – e o vídeo marcam sua presença vertiginosa nas
Suíços, alemães, judeus, eslavos, turcos, árabes, espanhóis, tos reunidas descortinem novos horizontes, permitindo atividades cotidianas, impondo-se como importantes
italianos e japoneses, por exemplo, fizeram parte desse repensar conceitos e redefinir a realidade factual com linguagens técnicas e artísticas na construção da visualidade
crescente fluxo migratório lidando, porém, com hábitos que os fotógrafos se defrontam, para irmos além das cer- contemporânea. Decifrar a imagem é sempre um desafio:
culturais completamente estranhos aos seus costumes. tezas consagradas e de um olhar padronizado pela mí- entender os seus códigos de representação e a intenção de
Sob a forte influência da tradição dos seus antepassados, dia. O desafio é levar o espectador a apreciar o potencial seus protagonistas tornou-se determinante para a confor-
conservaram durante várias gerações as características documental e ficcional das distintas interpretações e mação da história da arte no alvorecer do século XXI.
culturais trazidas de além-mar, unidos pela paixão do lu- linguagens autorais. Assim, a noção de miscigenação Assim, do ponto de vista curatorial, o que se quer
gar de origem. Preservar, quase sempre, é uma via possível racial – um traço cultural determinante para o entendi- destacar nesta exposição comemorativa dos cem anos da
para revermos as páginas escritas da existência. E, se, por mento atual da conformação do Brasil – estará conectada Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD são as estra-
uma metáfora, a distância assemelha-se a uma luz que es- a uma expressão poética e a um sentimento de ligação tégias visuais empregadas pelos artistas para retratar a
maece, o retorno ao passado pode trazer à tona experiên- da realidade sociocultural com o corpo da arte. Uma vi- diversidade étnica de um Brasil plural. No percurso a ser
cias acumuladas – relâmpagos breves, mas contundentes, são da qual aflora a condição do próprio artista como empreendido, os modelos legitimadores da representação
de lembranças esquecidas e descartadas. produtor de conhecimento. do mundo poderão ser tão subjetivos e mutantes quanto

Baianas, 1955. Baianas, women wearing typical attire


of a regional Brazilian feast, 1955.
personagens, torna-se, em sua densidade material, espaço,

93
92

volume e significado. Assim, os retratos das famílias se


beneficiam dessas variações, seja pela inventividade da
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


edição proposta, seja pela junção de imagens tomadas no
mesmo cenário, que, além de agregar famílias diversas,
ampliam o vocabulário da miscigenação. A consistência
narrativa também se funda nos aspectos arquitetônicos,
nos artefatos arcaicos (a roda d’água), indicativos da pró-
pria maneira como Diesendruck lida com a fotografia em
que o rigor formal, sem excessos, aparece. Surge, então,
do olhar do fotógrafo, uma arqueologia familiar íntima,
os que a ficção é capaz de inventar. Na esteira dessas pro- imagens – mininarrativas – que possuem um conteúdo subjetiva e miscigenada, que gira em torno da passagem leva ao período da ocupação holandesa naquele Estado, com o contexto histórico – se observadas as pequenas bre- mesmo de um parente próximo, que, morando aqui há
postas, aos fotógrafos coube fazer anotações sobre sua próximo dos retratos dedicados às famílias dos descenden- do tempo sem o desvanecimento da tradição. entre 1630 e 1654, num momento em que a tolerância reli- chas abertas nos tijolos como símbolo da escavação de anos, perpetua o sotaque carregado.
expedição fotográfica em diferentes cidades e, ainda, o tes italianos. O feixe de palha, a casa rústica isolada no A ideia de definir uma miscigenação, a partir de uma giosa ali vicejava, contrariando a severa vigilância da Igreja uma memória impossível de ser deixada para trás. Além Esses dois ensaios, realizados em tempos distintos,
registro em vídeo do depoimento das pessoas fotogra- horizonte, as nuvens rarefeitas, os objetos antigos, o anjo história maleável, faz parte do trabalho de José Caldas. Católica Romana que utilizava os autos da Inquisição para das fotografias, no fechamento de seu trabalho Oppido se complementam por meio da fusão de fatos separados
fadas e do making off do ambiente onde se desenvolveu o barroco e as paredes de madeira são símbolos de um exer- Percorrendo um extenso trajeto – do Amapá à foz do rio julgar aqueles considerados uma ameaça às suas doutrinas. apresenta um desenho, que faz parte de uma série de ou- no tempo, mas que podem ser vistos numa cartografia
trabalho. É exatamente por essa perspectiva que emerge cício de concisão. Se os compararmos aos haicais – pequenos Oiapoque, fronteira natural entre o Brasil e a Guiana France- Após esse período, com a capitulação dos holandeses, mui- tros produzidos em Nova York. Talvez essa obra possa ser flexível em seus contornos. Vejamos o seu itinerário. No
uma experiência compartilhada, já que o espectador terá poemas japoneses de três linhas –, transpõem a versatili- sa –, Caldas pôde mergulhar numa região que traz consigo tos judeus emigraram para outras localidades, como Nova relacionada com algumas xilogravuras do brasileiro espaço grandioso do mar, sem paredes, sem limites, a
acesso não só às fotografias produzidas como também dade de sentidos em direção ao enigma da linguagem. as marcas de uma complexa imigração ocorrida a partir da Amsterdã (atual Nova York), onde foi articulada a Congre- Oswaldo Goeldi (1895-1961), não apenas pela opacidade imagem do barco é símbolo da travessia. O tempo pare-
poderá conhecer aspectos da história privada dos perso- Pode-se fazer um paralelo entre as obras de Scavone disputa de vários países por aquele território. Não cabe gação Shearith Israel, a primeira comunidade judaica da das figuras em preto, mas pelas linhas incisivas, secas e ce girar sobre si mesmo, enquanto a água passa, como se
nagens escolhidos, numa confluência de imagens, ideias e de Ary Diesendruck, pelo menos no estilo documentá- aqui traçar uma narrativa linear dos acontecimentos, que América do Norte. Todavia, a despeito de sua importância, econômicas, que lembram vagamente uma via extravia- fosse estrada levando todas as famílias. Ao aportarmos
e significados. rio direto e preciso. Todavia, ao se basear na cenografia levaram, por exemplo, o Amapá a ser ocupado pela França a sinagoga recifense ficou esquecida durante séculos. da como um caminho de solidão. Todavia, Oppido não em Florianópolis, as luzes da cidade se acendem pouco a
Assim, Marcio Scavone se propôs mergulhar em suas do seu projeto “Profissões de rua”, usando uma lona como em 1836, contra todas as expectativas de Portugal, mas res- Foram necessários mais de trezentos e cinquenta anos para traz, como em Goeldi, a visão sombria da vida. As linhas pouco. Assim, a tênue luminosidade de uma pequena
raízes italianas. Deslocou-se até a cidade de Garibaldi, loca- pano de fundo para fotografar seus personagens em São saltar a mistura ocorrida em consequência da vinda dos que a Federação Israelita de Pernambuco solicitasse, em coloridas e esmaecidas são muito menos duras e estrutu- fresta se reflete no rosto da rendeira; ao lado, sombri-
lizada a 105 quilômetros de Porto Alegre, cuja colonização Paulo, Diesendruck distancia-se do conceito empregado portugueses, dos franceses e dos africanos descendentes 1991, o estudo arqueológico do imóvel, localizado na Rua ram campos visuais definidos bem próximos da contem- nhas abertas permanecem isoladas, silenciosas, no canto
foi realizada em 1874 por imigrantes provenientes, em sua por Scavone. Inspirado numa forma de representação, já dos mouros. Nada mais natural, portanto, que o fotógrafo Bom Jesus, no centro de Recife, identificado graças à carto- plação silenciosa de um lugar quase desabitado. da casa, como refúgio. O jogo contínuo entre ocultar-se
maioria, do norte da Itália. Lutando, até hoje, os moradores utilizada por autores como o norte-americano Irving se defrontasse com uma mestiçagem que traz em seu pró- grafia histórica e textos do historiador José Antonio Por último, Patricia Gouvêa, movida pela saudade e revelar-se parece estar no retrato do homem que traz
daquela cidade procuram salvaguardar sua tradição: a ar- Penn (1917) e os brasileiros Mario Cravo Neto (1947- prio cerne uma reflexão sobre a formação do povo brasilei- Gonsalves de Mello. Durante as escavações foram encon- de seus ancestrais, parte para fotografar a Festa do Divi- em seu rosto uma máscara de animal, enquanto a clari-
quitetura das antigas igrejas, as casas de madeira, os capitéis 2009) e Rogério Reis (1954), Diesendruck escolheu foto- ro. Não somente isso. Caldas trata desse assunto de maneira trados sete níveis de diferentes pisos. Inteiramente restau- no, em Florianópolis, a mais importante do calendário dade do sol se inscreve nos retratos da criança e das ren-
de beiras de estradas, pedaços às vezes em ruínas que se grafar as famílias do Rio Grande do Sul que fundaram a ímpar. Reafirma sua mirada através da construção de uma rados em 2001, transformaram-se num ponto obrigatório açoriano. De caráter cristão, esse evento não pode ser dis- deiras. São horas cheias de dobras que se desnudam na
fertilizam e se qualificam na origem do povoado. Nesse cidade de Porto dos Gaúchos (1955), após uma longa em- narrativa fotográfica que dialoga com o corpo na dimensão de visitação do Recife antigo, hoje totalmente revitalizado. sociado da devoção ao Espírito Santo, nem sequer da tra- pompa da Festa do Divino, em que os personagens rica-
ensaio, Scavone reitera a estratégia empregada anterior- preitada de quarenta e um dias para chegar às longínquas que ele merece como semente do processo de criação artís- De certo modo, é possível ressaltar a intenção de Gal dição que permanece acesa por meio de ações solidárias e mente trajados despertam em nós a memória dos tem-
mente no livro Viagem à Liberdade1, sobre o berço da colô- e inacessíveis terras mato-grossenses. Ao longo das déca- tica. Isso pode ser visto nas associações díspares, em que o Oppido em mostrar vários aspectos dessa história deposita- da vivência religiosa. Realizada há mais de duzentos e pos passados. Já o testemunho do movimento é dado
nia nipo-brasileira em São Paulo, de contar a história de um das lentamente abriu-se a estrada pela margem direita do fragmento do corpo humano dialoga com a textura de uma da em Pernambuco. Podemos ver isso na recuperação de cinquenta anos na comunidade de Santo Antônio de Lis- pelo caleidoscópio de imagens. Ali, a artista repete
lugar por meio dos retratos. Há, portanto, uma ideia-chave, rio Arinos, que serviu de ligação entre Porto dos Gaúchos pedra (um relógio solar) que se impõe como uma metáfora múltiplas temporalidades que convivem e afloram no pre- boa, na capital catarinense, ela é representada, invariavel- de maneira quase cinemática um fragmento das mãos da
em que um estilo documental desponta calcado na fron- e outras localidades. É preciso lembrar, porém, que até a da pele em sua conformação escultórica. Há momentos em sente por meio das diversas imagens, seja na inscrição “Rua mente, pelo aspecto folclórico, mediante o qual os açoria- rendeira, cujas diferenças visuais quase imperceptíveis
talidade, na legibilidade e clareza da imagem, sem ne- segunda metade do século XX o Brasil central era um ter- que vemos a recorrente passagem do tempo que imprime do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus (1636-1654)”, seja no nos tentam manter a autenticidade e o rigor do ato litúr- se repetem, ora no álbum aberto com fotos impressas da
nhum maneirismo estético, próximo aos retratos feitos ritório quase desconhecido, embora inúmeras expedições suas marcas, como superfícies adesivas, nos rostos dos foco direcionado às várias gerações judaicas, seja ainda nos gico. Na verdade, Gouvêa começa a pesquisar a herança Festa do Divino, ora no jogo compartilhado entre os
em 1920 e 1950, respectivamente, pelo alemão August San- nacionais e estrangeiras tenham logrado algum êxito em índios e negros. Já a proposição formal do azul combinada retratos do homem e da mulher produzidos, respectivamen- cultural portuguesa em 1999, no Rio de Janeiro. Nessa homens. Patrícia também produziu um vídeo dessa fes-
der (1876-1964) e pelo norte-americano Walker Evans adentrar o coração do país, ocupado desde tempos imemo- ao jogo de futebol nos leva a repensar os valores cromáti- te, em Nova York (janeiro-fevereiro de 2009) e Recife (se- ocasião descobre a importância da realização de rituais tividade. A relação afetiva e saudosa emerge mais uma
(1903-1975). Sua maneira de conceber o trabalho está cen- riais pelas nações indígenas. Não é difícil, então, imaginar cos, tal como se vê na obra do pintor russo Mark Rothko tembro de 2011), nos quais simboliza o deslocamento contí- para a comunidade luso-brasileira que busca reafirmar a vez na figura do barco, lugar de devaneio, símbolo do
trada numa mirada em que os personagens são colocados o esforço de Diesendruck para chegar até aquela cidade. (1903-1970), que explora a base vibrante da cor, objeto nuo dos judeus à Terra Prometida. Há aqui uma troca entre ligação direta com a memória do passado rural dos tem- périplo de nossa existência. Na sequên­cia, imagens e ruí-
numa ambiência que lhes é própria. A estes associa pequenas Ali, durante o processo de produção dos retratos, é curio- mítico da pintura, numa expressão intensificada pela a matéria e a imagem, entre coisa física e signo. Por esses pos pré-emigratórios. Mais do que isso, Gouvêa acredita dos da cidade, assim como os cantos, que têm uma
so ver o seu insight ao criar, por meio do mesmo uso da percepção cromática e conceitos complexos. caminhos, a construção de dípticos estabelece uma relação na possibilidade de reafirmar seus laços por meio de um capacidade notável de gerar uma nostalgia repentina.
1. Marcio Scavone. Viagem à Liberdade. São Paulo: Alice Publishing
lona, múltiplas versões de diferentes cenários: ora pendu- Diferentemente de José Caldas, Gal Oppido procu- peculiar entre as imagens do teto da sinagoga e a aspereza ancestral familiar esquecido; de um retrato apagado pelo No fundo, são lembranças saudosas da manifestação do
Editora, 2008. rada, ora jogada no chão, ora integrada à ambiência dos rou recuperar os traços da herança judaica, concentran- dos tijolos, que terminam por se conectar simbolicamente tempo; do português dono do botequim da esquina; ou tempo em sua ausência dentro de nós.
do-se na cidade de Recife. Consciente de que a história de
boa parte do patrimônio cultural brasileiro não se encontra
Referências bibliográficas
somente nos livros, mas aparece vívida em diversos monu-
mentos espalhados pelo país, Oppido escolheu fotografar a DANTAS SILVA, Leonardo. Holandeses em Pernambuco, 1630-1654. Recife: Instituto Ricardo Brennand, 2005.
Sinagoga Kahal Zur Israel (Rochedo de Israel), a primeira FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. Rio de Janeiro: Record, 2000.
das Américas, como um marco da presença dos judeus em SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. O Brasil – Território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Pernambuco. Um exame mais atento dessa construção nos POIVERT, Michel. La photographie contemporaine. Paris: Flammarion, 2006.
95
Family ties: ethnic groupS in brazil
Skin and Life in the Flow of Time

B
Angela Magalhães and Nadja Fonseca Peregrino
Associated Curators and Researchers

Brazilian cultural reality is a melting pot of different ethnic dissemination throughout the world. It is not by mere chance of digital language, through which a computer screen has
groups. It could not be different. Memory fragments, the that connecting image with time may send us to unthinkable turned into a media communication paradigm. Having
fruits of a dispersed history, help us reiterate the vital impor- regions that could be totally erased from history. They are become increasingly fluid and mutant, photography is
tance of the migratory process in forming a society both cos- memories that have been built in quasi-vanishing bound­ employed from the classical documentary tradition, going
mopolitan and culturally diverse. A few examples will suffice. aries. Within the scope of our work “Family Ties: Ethnic through its insertion in installations within an exhibit
Just recollect the influences brought by immigrants: the Groups in Brazil,” photography arises as the main axis of space, to the recording of action-performance as a thin line
Portuguese language, Italian cuisine, German agricultural conceptual and aesthetic investigation. The photographers without which art would lose its reach and consistency.
techniques, musical African-Brazilian rhythms, feijoada, who are taking part in this project were invited to visit cities Thus, visual magnitude becomes the keynote of a far-reaching
African-Brazilian cults, symbolic legacies that lend Brazil a in different regions of Brazil. And results give proof – to knowledge network. Its interdisciplinary nature is unde-
diversified profile of flavors and colors. We should also bear those who still doubt it – that knowledge about Brazil is far niable. It is not by chance that in any part of the world
in mind that the Brazilian population is basically composed beyond the means that convey it: books, blogs, the Internet, photography – printed, exhibited, or projected via the Inter-
of descendants of the three ancient elements: Amerindians, among other communication networks. In fact, the web is net – and video mark their vertiginous presence in routine
Portuguese, and Africans, and that the supremacy of the not up to handling the numerous realities that prevail in activities, imposing themselves as important technical and
Portuguese culture prevailed for a long time after the Afri- such a magnificent geography as ours. It is no surprise that artistic languages in the construction of contemporary visua­l­­
can immigration had ceased. Once the abolition of slavery the photographs gathered reveal new horizons, allowing us ity. Decoding an image is always a challenge: understan­ding
had been assured, the immigration of other nationalities to rethink concepts and redefine the factual reality with its representation codes and the intention of its protagonists
besides the Portuguese gained strength. Swiss people, Ger- which the photographers are faced, and to go beyond conse- has become a determining factor for the history of art in the
mans, Jews, Slavs, Turks, Arabs, Spaniards, Italians, and the crated certainties and a media-standardized outlook. The dawn of the 21st century.
Japanese, for example, took part in that growing migratory challenge is to lead the viewer to appreciate the documen- Therefore, from a curatorial standpoint, in this com-
inflow dealing, however, with cultural habits that were tary and fictional potential of different interpretations and memorative exhibition to celebrate the hundredth anniver-
totally unknown to their customs. Under a strong influ- authorial languages. Thus, the notion of racial miscegena- sary of the Sociedade Brasileira de Dermatologia – SBD
ence of their ancestors, several generations kept the cultural tion – a determining cultural trait to understand the current (Brazilian Society of Dermatology), we wish to highlight the
characteristics that had been brought from overseas, and configuration of Brazil – will be associated to a poetic visual strategies employed by artists to portray the ethnic
remained united by their passion for their place of origin. expression and to a feeling that links sociocultural reality diversity of a multifarious Brazil. In the journey to be un-
Oftentimes to preserve is a possible way to review the written with the body of art. A vision through which there emerges dertaken, the legitimizing models of world representation
pages of existence. And, if, metaphorically speaking, dis- the artist’s own knowledge-generating capacity. may be as subjective and mutant as those fiction is able to
tance resembles a fading light, returning to the past may give In other words, reconstructing that universe through make up. In the wake of those proposals, photographers were
rise to collected experiences – brief but compelling lightning images means shedding light on the peculiarities of contem- assigned to make notes about their photographic expedition
flashes of forgotten and discarded memories. porary photography, which has a unique importance in the to different cities, in addition to video recording the testimo-
There is a vast literat ure about the importance of global artistic scenario. Today, more than ever photography nial of the people who were photographed and the making of
cine­ma and photography in the recovery of that hybrid is characterized by a new molding of the gaze, both for its of the environment in which the work was developed. It is
process that coexists both in histories of lives and in their interaction with other expressive means and for the advent exactly through that perspective that a shared experience

Baianas na Igreja de Nosso Senhor do Baianas, women wearing typical attire of a regional Brazilian feast,
Bonfim, Salvador – BA, 1955. at the Igreja de Nosso Senhor do Bonfim church, Salvador – BA, 1955.
family portraits benefit from such variations – whether by

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96

the inventiveness of the proposed edition, whether by joining


images taken against the same scenario – which, in addi-
LAÇOS DE FAMÍLIA: ETNIAS DO BRASIL

Family ties: ethnic groupS in brazil


tion to aggregating various different families, expand the
miscegenation vocabulary. Narrative consistency is also
supported by architectural aspects, archaic artifacts (a
waterwheel), indicating the very manner Diesendruck
deals with a type of photography in which there arises
formal strictness, without excess. From the photographer’s
gaze there emerges an intimate family archeology, subjec-
tive and miscegenated that revolves around the passing of
will emerge, since the viewer, in addition to being able to see When compared to haiku – small three-line Japanese poems time without melting tradition away. Catholic Church resorted to the severe watchfulness of the observing the small crevices open in the bricks as a symbol of fellow who owned the tavern on the corner; or even a close
the pictures taken, will also be able to get acquainted with – they cross over the versatility of senses and move toward The idea of defining miscegenation based on a pliable Inquisition to try those who were deemed a threat to its doc- the excavation of a memory that could not possibly be left relation who, in spite of having lived in this country for a long
the private story of the characters chosen, in a confluence of the language enigma. history is part of José Caldas’ work. Having covered a long trines. After that period, with the surrender of the Dutch, behind. In addition to the photographs, in closing his work, time, keeps his or her heavy accent.
images, ideas, and meanings. One may establish a parallel between Scavone and distance – from Amapá to the mouth of the Oiapoque River, many Jews emigrated to other places, such as New Amster- Oppido presents a drawing that is part of a series of other Those two essays produced in different times comple-
Thus, Marcio Scavone proposed immersing himself Ary Diesendruck’s works, at least as far as their direct a natural borderline between Brazil and the French Guyana dam (currently New York) where they established the Con- drawings produced in New York. Perhaps that work can be ment each other by blending separate facts in time whose
deeply into his Italian roots. He traveled to the city of Gari­ and precise documentary style is concerned. However, when – Caldas was able to plunge into an area that bears the marks gregation Shearith Israel, the first Jewish community in related to some xylographs of the Brazilian Oswaldo Goeldi outlines can be seen on a flexible map. Let us have a look at
baldi, located 105 kilometers away from Porto Alegre, the in his project “Profissões de rua,” Diesendruck used a piece of of a complex immigration that took place because a number North America. However, despite its importance, the Recife (1895–1961), not only on account of the opacity of the figures their itineraries. In the magnificent wall-less and limitless
colonization of which was undertaken in 1874 mostly by im- canvas as a backdrop to photograph his characters in São of countries disputed that territory. It would not be appropri- synagogue was forgotten for centuries. Over three hundred in black, but also because of their incisive, dry, and frugal space of the sea, the boat image is a symbol of crossing. Time
migrants from northern Italy. To this day, the dwellers of Paulo, he distances himself from the concept Scavone em- ate to lend a linear account of the facts that made France and fifty years went by before the Pernambuco Federation of lines that vaguely remind an astray path as a road of solitude. seems to revolve around itself, while water flows as if it were
Garibaldi struggle to preserve their tradition: the architec- ployed. Inspired by a form of representation already used by occupy Amapá in 1836, against all expectations from Portu- Israelites requested in 1991 an archeological study in the However, differently from Goeldi, Oppido does not depict a a road taking families. On arriving at the Florianópolis port,
ture of old churches, wooden houses, capitals on roadsides, other authors such as U.S.-born Irving Penn (1917) and Bra- gal, but to emphasize the mixture that came about as a result property located on Rua do Bom Jesus, in downtown Recife, gloomy view of life. His colored and faded lines are much less the city lights up little by little. Thus, the faint light of a small
oftentimes tumbled-down pieces that are fertilized and quali­ zilians Mario Cravo Neto (1947–2009) and Rogério Reis of the arrival of the Portuguese, French, and Africans of that could be identified thanks to the historic cartography harsh and they structure defined visual fields quite similar to opening reflects itself on a lacemaker’s face; on a side, open
fied in the origin of that village. In this essay, Scavone reite­ (1954), Diesendruck preferred to photograph the Rio Grande Moorish ancestry. Therefore, it was quite natural for that and texts by historian José Antonio Gonsalves de Mello. The a silent contemplation of a nearly uninhabited place. parasols remain isolated, silent, in a corner of the house, as if
rates the strategy he employed formerly in his book Viagem à do Sul families who founded the city of Porto dos Gaúchos photographer to encounter a crossing of races that brings in excavations found seven levels of different floors. Having Finally, Patricia Gouvêa, filled with longing for her in a shelter. The continuous play of hiding and revealing one-
Liberdade,1 about the cradle of the Japanese-Brazilian colo- (1955), after a long journey that took forty-one days to arrive its own core a reflection about the forming of the Brazilian been completely restored in 2001, that location became a ancestors, goes on taking pictures of Festa do Divino, in Flo- self seems to be in the portrait of a man who hides his face
ny in São Paulo, of telling the pictorial history of a place. at the faraway and inaccessible lands of the state of Mato people. Not only that; Caldas addresses that issue in a unique must-see of old Recife, which is now totally revitalized. rianópolis, the most important celebration in the Azorian behind the mask of an animal, while the sun shines in the
Thus, there is a key idea through which a documentary style Grosso. In the course of a few decades, a road was built along manner. He reaffirms his gaze through the construction of a To a certain extent, it is possible to stress Gal Oppido’s calendar. Because of its Christian nature, that event cannot portraits of the child and the lacemakers. They are fold-filled
emerges supported by image frontality, readability, and clear- the right bank of the Arinos River, which served to connect photographic account that engages in dialogue with the body intention to show various aspects of that history that took be dissociated from the devotion to the Holy Spirit or from hours that lay bare in the splendor of the Festa do Divino,
ness, free from any aesthetical mannerism, similar to the por- Porto dos Gaúchos with other places. However, it should be in the dimension it deserves as the seeds of an artistic cre- place in Pernambuco. We can see that in the recovery of multiple the tradition that has been preserved by means of solidary where richly dressed characters arouse in us the memories of
traits done in 1920 and 1950 by August Sander (1876–1964), mentioned that up to the second half of the 20th century, ation process. That may be seen in the dissimilar associa- temporalities that live together and emerge in the present by initiatives and religious experience. Having taken place for the time long past. Now the testimony of movement is
a native of Germany, and by Walker Evans (1903–1975), mid-Brazil was a territory virtually unknown, although a tions, in which a fragment of the human body talks with the means of a number of images, whether in the “Rua do Bom over two hundred and fifty years in the community of Santo provided by the kaleidoscope of images. There, the artist re-
an American, respectively. His approach to devising his number of Brazilian and foreign expeditions managed to texture of a stone (a sundial) that imposes itself as a skin Jesus, antiga Rua dos Judeus (1636–1654)” inscription, Antônio de Lisboa, in the capital city of the state of Santa produces in a quasi-cinematographic manner a fragment of
work is focused on a gaze in which the characters are placed reach the heart of the country that had been occupied by the metaphor in its sculptural shape. In some moments, we may whether in the focus on a number of Jewish generations, or Catarina, it is invariably represented by its folkloric nature the lacemaker’s hand, whose virtually indiscernible visual
in a suitable environment. The characters are then associated native Indians from time immemorial. see the recurrent passage of time which imprints its marks, as still in the corresponding portraits of a man and a woman, through which Azorians try to preserve the authenticity and differences are repeated, at times in an open album showing
to small images – mininarratives – with a similar content to Then, it would not be so difficult to imagine the effort adhesive surfaces, on the faces of Indians and Negroes. Now produced in New York (January–February 2009) and in Recife rigor of the liturgical act. In fact, Gouvêa begins investigating printed photos of the Festa do Divino, at times in the game
those of the portraits dedicated to the families of Italian Diesendruck made to reach that city. There, along his the formal proposition of blue combined to a soccer game (September 2011), respectively, symbolizing the continuous the Portuguese cultural heritage in 1999, in Rio de Janeiro. shared by the men. Gouvêa has also made a video of that cele­
descendants. A bundle of straw, a rustic house standing alone portrait-producing process, it is interesting to notice his in- leads us to review chromatic values – as one may see in the displacement of Jews to the Promised Land. Here there is an On that occasion, she becomes aware of the importance of bration. The affectionate and longing relationship emerges
in the horizon, rarefied clouds, old objects, a baroque angel, sight, when he created, employing the same canvas artifice, works of Mark Rothko (1903–1970), a Russian painter – interchange between matter and image, physical things and rituals for the Portuguese-Brazilian community that seeks to once again in the figure of the boat, a leisure place, a symbol
and wooden walls are symbols of an exercise of concision. multiple versions of different scenarios, at times hovering in which explore the vibrating color base, a mythical object in signs. Through those paths, the construction of diptychs reaffirm a direct connection with the memories of a rural of the journey of our existence. In succession, city ima­ges and
midair, at times spread on the ground, at times integrated painting, in an expression enhanced by chromatic perception establishes a peculiar relationship between the images on the past in pre-emigrating times. More than that, Gouvêa noises, in addition to chants, have a remarkable power to
1. Marcio Scavone. Viagem à Liberdade. São Paulo: Alice Publishing
to the ambience of the characters, as it turns into space, and complex concepts. synagogue ceiling and the coarseness of the bricks that end up believes it is possible to reaffirm her ties by means of a forgot- give rise to sudden nostalgia. Deep down, they are longing
Editora, 2008. volume, and meaning, in its material density. Thus, the Differently from José Caldas, Gal Oppido attempted to connecting symbolically to the historical context – when ten family ancestor; a time-faded picture; the Portuguese mementos of the time expressed in its absence within us.
recover the traces of Jewish heritage, focusing on the city of
Recife. Being aware that the history of most Brazilian cul-
tural assets is not only found in books, but appears vividly in
a number of monuments spread all over the country, Oppido
decided to photograph the Kahal Zur Israel (Rock of Israel)
Reference List
synagogue, the first in the Americas, as a mark of the Jew
presence in Pernambuco. A more thorough examination of DANTAS SILVA, Leonardo. Holandeses em Pernambuco, 1630-1654. Recife: Instituto Ricardo Brennand, 2005.
that construction takes us to the period of Dutch occupation FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. Rio de Janeiro: Record, 2000.
of that state between 1630 and 1654, at a moment in which SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. O Brasil - Território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
religious tolerance bloomed in a country where the Roman POIVERT, Michel. La photographie contemporaine. Paris: Flammarion, 2006.
Marcio Scavone

99
Antonio. Antonio.
101
100

Ceresoli. Ceresoli.
103
102

Bortolini. Bortolini.
105
104

Olivo. Olivo.
Raisa. Raisa. Ari Bongiorno. Ari Bongiorno.

Ceresoli. Ceresoli. Remy. Remy.


Lorenzon. Lorenzon. Eccker. Eccker.

Adele. Adele. Fanti Nona. Fanti Nona.


Ary Diesendruck

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Família de Gustavo Adolf.
Gustavo Adolf ’s family.
113
112

Família Rezer.
Rezer’s family.

Família de Elizete
Reis do Nascimento.
Elizete Reis do
Nascimento’s family.
115
Dirceu Fuber e família em
frente a uma igreja luterana.
Dirceu Fuber and Family, in
front of a Lutheran church.
117
116

Ely Neumann Wilke.


Ely Neumann Wilke.
119
118

Norberto Prieve.
Norberto Prieve.

Walter Erbach.
Walter Erbach.
Roberto Sicfrid Wilke (Zico) e Rosângela
Morimã em seu barco de turismo no
Rio Arinos, em Porto dos Gaúchos – MT.
Roberto Sicfrid “Zico” Wilke and Rosângela
Morimã in their passenger boat on Rio Arinos,
Porto dos Gaúchos – MT.
José Caldas

123
BR-156, rodovia que liga Macapá a Oiapoque, próximo a TI Uaçá, setembro de 2011. Pedra: parte do relógio solar no Sítio Arqueológico Rego Grande (AP-CA-18), em Calçoene – AP, setembro de 2011.
BR-156, road connecting Macapá to Oiapoque, near Uaçá Indigenous Land, September 2011. Stone: part of a sundial at Rego Grande Archaelogical Site (AP-CA-18), in Calçoene – AP, September 2011.
125
124

Morador de Vila Velha, Oiapoque – AP, Vila Velha, Oiapoque – AP, Moradora do Sítio Arqueológico Rego Grande (AP-CA-18),
setembro de 2011. setembro de 2011. em Calçoene – AP, setembro de 2011.
Dweller of Vila Velha, Oiapoque – AP, Vila Velha, Oiapoque – AP, Dweller of Rego Grande Archaeological Site (AP-CA-18),
September 2011. September 2011. in Calçoene – AP, September 2011.

Vila Velha, Oiapoque – AP, setembro de 2011.


Vila Velha, Oiapoque – AP, September 2011.
127
126

Professor do ensino secundário da Escola Estadual de Vila Velha, Oiapoque – AP, setembro de 2011. Batuque na Festa de São Raimundo, na comunidade quilombola de Curralinho, Macapá – AP, setembro de 2011.
A secondary school teacher of Escola Estadual de Vila Velha, Oiapoque – AP, September 2011. Music and rhythm of African-Brazilian dances in São Raimundo Festivities at the quilombola community (a former place of runaway slaves)
of Curralinho, Macapá – AP, September 2011.
129
128

Comunidade quilombola do Curiaú, Mucajá (Acrocomia aculeate), Anauerapucú, Comunidade quilombola do Curiaú,
Macapá – AP, setembro de 2011. Santana – AP, setembro de 2011. Macapá – AP, setembro de 2011.
Quilombola community (a former place Mucajá (Acrocomia aculeate), Anauerapucú, Quilombola community (a former place
of runaway slaves) of Curiaú, Santana – AP, September 2011. of runaway slaves) of Curiaú, Macapá – AP,
Festa de São Raimundo, na comunidade quilombola de Curralinho, Morador da comunidade quilombola Macapá – AP, September 2011. September 2011.
Macapá – AP, setembro de 2011. de Curralinho, Macapá – AP, setembro de 2011.
São Raimundo Festivities at the quilombola community (a former place of runaway slaves) of Curralinho, Dweller of the quilombola community (a former place of
Macapá – AP, September 2011. runaway slaves) of Curralinho, Macapá – AP, September 2011.
Vila Velha, Oiapoque – AP, setembro de 2011. Comunidade quilombola do Curiaú, Macapá – AP, setembro de 2011.
Vila Velha, Oiapoque – AP, September 2011. Quilombola community (a former place of runaway slaves) of Curiaú, Macapá – AP, September 2011.
133
132

Vila Velha, Oiapoque – AP, setembro de 2011.


Vila Velha, Oiapoque – AP, September, 2011.

Futlama na maré baixa, bairro Perpétuo Socorro, Macapá – AP, setembro de 2011.
Mud soccer at ebb tide, Perpétuo Socorro neighborhood, Macapá – AP, September 2011.
Gal Oppido

135
Kahal Zur Israel, primeira
sinagoga das Américas,
construída em 1637,
Guita Charifker, artista plástica em seu ateliê, Olinda – PE, 2011. na antiga Rua dos Judeus,
Guita Charifker, a visual artist at her studio, Olinda – PE, 2011. atual Rua do Bom Jesus,
Recife – PE.
Zahal Zur Israel, the first
synagogue in the Americas,
built in 1637 on former Rua
dos Judeus, currently Rua do
Bom Jesus, Recife – PE.
137
Acima, detalhe de tijolo no interior da Sinagoga Kahal Zur Israel, com mensagens dos fiéis.
No alto, Tânia Neumann Kaufman, presidente do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, Recife – PE, 2011.
Above, detail of the brick in the interior of Zahal Zur Israel synagogue with messages from the faithful.
On top, Tânia Neumann Kaufman, president of the Pernambuco Historical Judaic Archive, Recife – PE, 2011.

Interior da Sinagoga Kahal Zur Israel.


Inside view of Zahal Zur Israel synagogue.
138

Pola Berenstein.
Pola Berenstein.

Da esquerda para a direita: Bruno Happ Botler, Alice Miriam Happ Botler e Milton Botler.
From left to right: Bruno Happ Botler, Alice Miriam Happ Botler, and Milton Botler.
141
140

Sessenta anos do casamento de Ethel e Luiz Tachlitsky, 8 de setembro de 2011. Casamento de Ethel e Luiz Tachlitsky, 8 de setembro de 1951.
Ethel and Luiz Tachlitsky’s sixtieth wedding anniversary, September 8, 2011. Ethel and Luiz Tachlitsky’s wedding, September 8, 1951.

Ateliê da artista plástica Guita Charifker, Olinda – PE, 2011.


Visual artist Guita Charifker’s studio, Olinda – PE, 2011.
Aronita Rosenblatt, professora titular de odontopediatria da Universidade Federal de
Pernambuco – prédio da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco, Recife, 2011.
Aronita Rosenblatt, a pediatric dentistry full professor with Universidade Federal de
Pernambuco – Pernambuco Science and Technology Secretariat building, Recife – PE, 2011.
145
144

Nova York, 2009.


New York, 2009.

Desenho em aquarela e nanquim, de Gal Oppido, executado no inverno de Nova York, 2009.
Watercolor and Indian ink painting by Gal Oppido, made in the New York winter of 2009.
Patricia Gouvêa

147
Da Saudade. Florianópolis – SC, 2011.
Da Saudade, Florianópolis – SC, 2011.
149
148

Díptico Jocoso. À esquerda, praia de Governador Celso Ramos. À direita, mascarado da Festa do Divino Museu Etnográfico Casa dos Açores, São Miguel – SC, 2011.
em frente à Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011. Casa dos Açores Ethnographic Museum, São Miguel – SC, 2011.
Díptico Jocoso (Playful diptych). Left, Governador Celso Ramos beach. Right, masquerader at Festival of the Divine
Holy Spirit in front of Nossa Senhora das Necessidades church, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.
151
150

Casa do Porto, da série Quasi-Nacional. Rio de Janeiro – RJ, 1999/2000.


Casa do Porto, of the Quasi-Nacional series, Rio de Janeiro – RJ, 1999/2000.

Casa dos Poveiros, da série Quasi-Nacional. Rio de Janeiro – RJ, 1999/2000.


Casa dos Poveiros, of the Quasi-Nacional series, Rio de Janeiro – RJ, 1999/2000.
153
Rendinha, da série Exercícios de Arte Lúdica. Sambaqui, Florianópolis – SC, 2011.
Rendinha (Lacework), of the Exercícios de Arte Lúdica series, Sambaqui, Florianópolis – SC, 2011.
155
154

Tríptico Divino (Cozido do Divino/Divina Farinhada). Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.
Tríptico Divino (Divine triptych) (Cozido do Divino/Divina Farinhada). Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.

Bastidores. Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.


Bastidores (Behind the scenes). Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.
157
156

As Meninas #1. Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011. As Meninas #2. Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.
As Meninas #1 (Girls #1). Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011. As Meninas #2 (Girls #2). Festa do Divino, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis – SC, 2011.
Créditos das imagens históricas
Acervo Instituto Moreira Salles
Fotógrafa Madalena Schwartz: págs. 68, 73.
Fotógrafo Augusto Malta / Coleção Brascan Cem Anos no Brasil: pág. 38.
Fotógrafo Guilherme Gaensly: págs. 21, 27 (segunda foto, de cima para baixo)
Fotógrafo Haruo Ohara: pág. 83.
Fotógrafo José Medeiros: pág. 78.
Fotógrafo Marc Ferrez: págs. 27 (primeira foto, de cima para baixo), 31, 34, 35.
Fotógrafo Marc Ferrez / Coleção Gilberto Ferrez: págs. 8, 11, 13, 18, 28.
Fotógrafo Marcel Gautherot: págs. 71, 75, 90, 94.
Fotógrafo Otto Rudolf Quaas: pág. 43.
Fotógrafos G. Gaensly e R. Lindemann / Coleção Gilberto Ferrez: págs. 24, 44.

Acervo Fiocruz Multimagens


Págs. 14, 15, 16.

Acervo Getty Images Brasil


Págs. 48, 51, 55, 60, 86.

Foto da capa: José Caldas

Historical photos credits


Instituto Moreira Salles archives
Photographer Augusto Malta / Brascan Cem Anos no Brasil collection: page 38.
Photographer Guilherme Gaensly: pages 21, 27 (second picture from top to bottom).
Photographer Haruo Ohara: page 83.
Photographer José Medeiros: page 78.
Photographer Madalena Schwartz: pages 68, 73.
Photographer Marc Ferrez: pages 27 (first picture from top to bottom), 31, 34, 35.
Photographer Marc Ferrez / Gilberto Ferrez collection: pages 8, 11, 13, 18, 29.
Photographer Marcel Gautherot: pages 71, 75, 90, 94.
Photographer Otto Rudolf Quaas: page 43.
Photographers G. Gaensly and R. Lindemann / Gilberto Ferrez collection: pages 24, 44.

Fiocruz Multimagens archives


Pages 14, 15, 16.

Getty Images Brasil archives


Pages 48, 51, 55, 60, 86.

Cover photo: José Caldas


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Rua Capote Valente, 956 c. 3
CEP 05409-002 – São Paulo – SP
Tel: (11) 3062.4561
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FAMILY TIES: ETHNIC GROUPS IN BRAZIL

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Redação dos texto históricos/Historical texts writing


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Edição, projeto gráfico e direção de arte/Editing, graphic design, and art direction
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