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Esquerda Diário

Martes 24 de Julio de 2018


10:40 hs.

MULHERES
Nós mulheres, o proletariado

Andrea D’Atri
@andreadatri

Celeste Murillo
Argentina | @rompe_teclas

No início de 2018, a editorial Traficantes de Sueños publicou O patriarcado do


salário*, de Silvia Federici. Em meio ao ressurgimento do movimento feminista em
escala internacional, o debate sobre as relações entre patriarcado e capitalismo
volta à cena, em diálogos sem isenção de controvérsias entre feminismos e
esquerdas anticapitalistas, marxistas e socialistas.

Ver online
*Título traduzido livremente de El patriarcado del salario.
Ilustração: Hidra Cabero

Desde meados do século XIX e até as primeiras décadas do século XX, a incorporação
das mulheres ao trabalho fora do lar - propiciado, no início, pelo desenvolvimento
capitalista e logo reforçado pela “escassez” da força de trabalho masculina gerada pela I
Guerra Mundial -, chocou-se contra a falta de direitos políticos para as mulheres. A relativa
igualdade com os homens no mercado de trabalho, a qual as massas femininas eram
empurradas pelo capital (como também acontecia, em plena revolução industrial, com as
crianças), colocava em destaque ou tornava mais contrastante sua desigualdade na
sociedade civil. Poderíamos dizer que a relativa e nova “igualdade perante (alguns
aspectos) a vida” fazia insustentável a inadequada e antiquada “desigualdade perante a
lei” entre homens e mulheres. Nesta contradição, pode-se pensar que embebe a luta pelos
direitos civis e fundamentalmente pelo sufrágio feminino, encabeçada por mulheres
instruídas na Inglaterra e outros países avançados e acompanhada por grandes setores de
trabalhadoras.

No início do século XX, o Estado operário transicional surgido da Revolução Russa


estabeleceu medidas que tendiam à socialização do trabalho doméstico, que era realizado
por mulheres, um dos pilares fundamentais da política bolchevique para a emancipação
feminina. Ainda que as medidas de socialização enfrentaram muitos limites por causa da
guerra e da crise econômica, foi uma experiência avançada para por fim ao isolamento das
mulheres no lar e favorecer sua inserção na vida pública [1].

Nos anos 1970, a segunda onda feminista colocou em evidência a relação entre o pessoal
e o político. Desfazendo essa mistificação, as mulheres estavam questionando,
imprescindivelmente, aquilo que o capital tinha conseguido institucionalizar e naturalizar
como discordância desde meados do século XX: a separação entre o público (produção,
trabalho assalariado) e o privado (reprodução, trabalho não remunerado). Os primeiros
debates sobre o trabalho doméstico e seu papel no modo de produção capitalista se
remontam nesses anos. O trabalho doméstico produz mais-valia? Há um modo de
produção patriarcal - sustentado no trabalho doméstico - diferenciado do modo de
produção capitalista ou há um só sistema capitalista-patriarcal no qual a reprodução da
força de trabalho está determinada e subordinada à produção de valor de troca?
Em 1972, a autonomista marxista feminista Mariarosa Dalla Costa publica na Itália e na
Grã-Bretanha, simultaneamente, O poder da mulher e a subversão da comunidade, com a
colaboração da norteamericana Selma James. Ali assinalam que o trabalho reprodutivo é
fundamental para o funcionamento do capitalismo e que seu caráter essencial está
invisibilizado pela ausência de retribuição salarial. Junto com Silvia Federici em Nova York
e Brigitte Galtier em Paris, fundam o Coletivo Feminista Internacional para promover esse
debate e coordenar ações em diversos países através de uma rede de comitês “pelo
salário para o trabalho doméstico”.

Entre muitos outros textos com diferentes enfoques que firmaram esse debate, em 1983
surge “O marxismo e a opressão às mulheres. Por uma teoria unificada” da
norteamericana Lise Vogel. Enquanto avançava a contraofensiva neoliberal,
enclausurando o período de radicalização de massas da década anterior, Vogel postulava
que a ordem de gênero do capitalismo se apoia estruturalmente na articulação social entre
o modo de produção capitalista e os lares da classe trabalhadora, em vez de em um
patriarcado anacrônico ou em um modo de produção doméstico separado radicalmente do
que estabelecem as relações entre capital e trabalho.

Nas últimas décadas, a extraordinária feminização da força de trabalho - que se


materializa sob condições de precariedade - e a relativa conquista de direitos democráticos
que, em certo sentido, equipara “cidadãos e cidadãs de distintos gêneros” elevou as
aspirações das mulheres que hoje padecem no notável contraste entre essa “igualdade
perante a lei” e a, sem dúvida persistente, “desigualdade perante a vida”. Nesse
choque,deveríamos buscar os fundamentos dessa nova onda internacional do movimento
de mulheres que se expressa nas ruas dos EUA em solidariedade com a população
imigrante e contra o governo Trump e suas políticas xenófobas, na Argentina pelo direito
ao aborto, no Estado Espanhol contra a violência de gênero assegurada pelas instituições
do regime político, para mencionar alguns exemplos. Além disso, essa nova onda, ainda
com objetivos diversos, se re-apropria da linguagem e das formas que, historicamente,
construíram as classes trabalhadoras em sua luta contra a exploração: greve de mulheres,
paralisação internacional de mulheres, “se nossas vidas não valem, produzam sem nós”.

Serão essas manifestações o prelúdio de uma nova recomposição subjetiva dessa classe
trabalhadora do século XXI que tem mudado de rosto? Surgirá, dessa nova configuração
da classe trabalhadora, um feminismo anticapitalista e socialista - que hoje apenas
representa pequenas frações do movimento de mulheres internacional - que seja capaz de
organizar amplos setores dessas massas femininas? Não podemos antecipá-lo mais que
com nossa ação militante nessa perspectiva. Em todo caso, seja qual for o resultado desse
ressurgimento do movimento de mulheres com um proletariado muito diferente do que se
configurava na década de 1970, impõe-se uma releitura e atualização dos debates já
clássicos entre feminismo e marxismo sobre a relação entre patriarcado e capitalismo e
como esta se manifesta no trabalho reprodutivo, majoritariamente realizado pelas
mulheres.

Já hoje, com a revitalização desses debates da teoria da reprodução social, o clássico


texto de Vogel se revaloriza no calor da intervenção de acadêmicas e ativistas
norteamericanas que se propõem a construir “um feminismo dos 99%”, dialogando com o
novo movimento de mulheres. Como afirmava Lise Vogel (e segue vigente):

“Politicamente, tanto o movimento socialista como o movimento feminista socialista se


enfrentam com a difícil tarefa de lutar em favor das mulheres sem sucumbir a dois perigos
igualmente ardilosos. Por um lado, devem manter-se a postos contra o feminismo burguês,
a limitada luta para alcançar a igualdade dentro do marco da sociedade capitalista; e, por
outro lado, não devem permitir que concepções simplistas ou economicistas da luta de
classes releguem a um lugar subordinado à luta pela libertação das mulheres.
Apresentando o problema em outros termos, as/os socialistas comprometidas/os com a
libertação da mulher devem encontrar uma maneira adequada de vincular a luta feminista
à luta a longo prazo pela concessão do poder político e a transformação social [2].”

Desde essa perspectiva que se expressa em nossa militância no movimento


internacionalista, feminista socialista e revolucionário de mulheres Pão e Rosas, e sem
pretender esgotar a discussão nessas linhas, abordamos esta primeira leitura de O
patriarcado do salário, de Silvia Federici, que reúne seus artigos mais recentes sobre esse
velho e renovado debate.

O trabalho do valor e o valor do trabalho

Silvia Federici encontra, na definição de trabalho produtivo como gerador de valor, um viés
“masculino” que justificaria, como contrapartida, a gratuidade do trabalho reprodutivo
(majoritariamente feminino), um trabalho “desvalorizado” socialmente diante de outro
trabalho que é o único que o capitalismo considera como verdadeiramente útil.

“O que Marx não viu é que no processo de acumulação originária não só se separa o
campesinato da terra senão que também ocorre a separação entre o processo de
produção (produção para o mercado, produção de mercadorias) e o processo de
reprodução (produção da força de trabalho); esses processos começam a separar-se
fisicamente e, além disso, a serem desenvolvidos por distintos sujeitos. O primeiro é
majoritariamente masculino, o segundo feminino; o primeiro assalariado, o segundo não-
assalariado [3].”

Mas nem “produtivo”, nem “valor” têm, no contexto de O Capital de Marx uma valorização
moral. O fato de determinado trabalho não gerar valor não deve confundir-se com o fato de
que esse trabalho seja considerado inútil. De fato, o próprio Marx afirma que o caráter não
produtivo (quer dizer, não gerador de valor) do comércio e as finanças, que são vitais para
a circulação do capital, mas sem gerar mais-valia e sem ser produtivas e ninguém poderia
afirmar que por esta afirmação, o autor de O Capital, não reconheceu o rol indispensável
de ambas as atividades nesse modo de produção (ainda que nessas atividades a
diferença do trabalho doméstico sejam compensadas com creches).

Marx define como trabalho produtivo aquele trabalho que gera valor de troca: esta
definição é específica e responde à descrição da lógica de um modo de produção (o
capitalismo):

“...trabalho produtivo é uma determinação daquele trabalho que em si e para si não tem
absolutamente nada a ver com o conteúdo determinado do trabalho, com sua utilidade
particular ou o valor de uso peculiar no que se manifesta. Assim, um trabalho de conteúdo
idêntico pode ser produtivo e improdutivo [4].”

Marx não se ocupa especificamente das características desse trabalho reprodutivo, mas
sim “estabelece o vínculo necessário entre produção e reprodução mais além de sua
separação aparente” [5]. Na introdução dos Grundrisse, o monumental rascunho de 1857
de O Capital, estabelece como as categorias da economia capitalista - a produção,
circulação e reprodução (econômica) do capital - devem ser compreendidas dentro de um
socio-metabolismo muito mais amplo, que inclui todas essas atividades fundamentais para
a reprodução da sociedade a qual a economia política, com seu olhar excludente ao que
ocorre no mercado, deixa de lado. Nesse sentido, oferece as bases para entender como
entra o trabalho doméstico na totalidade do modo de produção, com sua produção de
valores de uso que não se convertem em valores de troca, e sim que se esgotem em um
“consumo produtivo” na mesma esfera privada na que são gerados, o que resulta em vital
para a reprodução da força de trabalho. Tithi Bhattacharya, intelectual feminista da
corrente denominada teoria da reprodução social, vê no trabalho humano, como Marx, a
“premissa da história humana” e que,

“...o capitalismo, entretanto, reconhece o trabalho produtivo para o mercado como a única
forma de “trabalho” legítimo, enquanto que a enorme quantidade de trabalho familiar,
assim como o comunitário que serve para sustentar e reproduzir a classe trabalhadora ou,
mais especificamente, sua força de trabalho, é naturalizada como não existente [6].”

O capitalismo relega às mulheres (hoje deveríamos dizer, para maior precisão, que as
sobrecarrega com) o trabalho reprodutivo não remunerado. Desta forma, o capitalista,
ainda não extrai mais-valia dessa atividade, por tratar-se de um trabalho que não gera
valores de troca (quer dizer, não é passível de ser trocado no mercado), conta com essas
tarefas levadas a cabo de forma não remunerada para a reprodução da força de trabalho.
Daí que o trabalho reprodutivo seja indispensável, ainda que não gere valor nem, portanto,
mais valia, é dizer, ainda desde o ponto de vista estrito da lógica do capital, seja um
trabalho não produtivo.

O trabalho reprodutivo é útil, ainda que não se defina como produtivo desde o ponto de
vista do capital e não é necessário buscar de que maneira podemos incorporá-lo à lógica
da extração de mais valia para que possa ser reconhecido e ‘’valorizado’’ socialmente.
Esse foi o caminho adotado por algumas teóricas feministas, que tentaram explicar que se
o trabalho reprodutivo “produzia” a mercadoria força de trabalho, então deveria ser
considerado como produtivo, só que a existência de uma opressão (ideológica, cultural)
patriarcal, o manteria submisso no interior dos lares particulares e realizado gratuitamente
pelas mulheres [7]. Mas como alerta Daniel Bensaid,

“...as regras entre um trabalho realmente submetido ao capital pelo entorno do mercado e
uma atividade privada são sem embargo dificilmente comparáveis (taylorização do
trabalho de cozinha e hotelaria). Os instrumentos de medida dependem de uma eleição
arbitrária insatisfatória: se trata de calcular o que uma pessoa poderia ganhar no mercado
de trabalho durante os lapsos de tempo consagrados às atividades domésticas (custo em
lucros potenciais), assim como calcular o que se deveria pagar no mercado para obter um
serviço equivalente (custo da compra no mercado) [8].”

Nessas décadas passadas, para os debates que enfrentam feministas e marxistas, não
podemos mais que compartilhar as palavras de Bensaid que afirmava que “a transferência
imprudente dos conceitos de Marx fora de seu campo específico, obscureceram
constantemente os problemas, como ilustra o manejo aproximativo das noções de valor de
troca e trabalho produtivo” [9].

(Re)produção familiar

Na mesma linha que sua leitura particular do “viés masculino” que tem a definição do
trabalho produtivo no capitalismo, Federici se pergunta,

“... como seria a história do desenvolvimento do capitalismo se em lugar de contá-la desde


o ponto de vista do proletariado assalariado se contasse desde as cozinhas e dormitórios
nos que, dia a dia e geração após geração, se produz a força de trabalho [10].”
Com essa pergunta, instala sua crítica ao que ela considera a visão (ou melhor, cegueira)
de Marx (e logo, do marxismo) sobre o lugar que tem a mulher na reprodução da força de
trabalho e ao mesmo tempo da reprodução social no sistema capitalista.

Ainda que em O Capital não se aprofunde sobre a natureza desta produção particular da
mercadoria “força de trabalho”, é justo assinalar que se considera que a divisão sexual do
trabalho - característica das sociedades patriarcais - é prévia ao capitalismo e não surge
apenas após com sua acumulação originária. O patriarcado já estava ali; o que o fez
capitalismo foi adaptar essas relações a sua própria lógica e subordiná-las às suas
necessidades.

É que para Marx, o capitalismo é uma totalidade orgânica, um sistema cujo centro de
gravidade se encontra na geração de valores de troca e a extração de mais valia. Desde
esse ponto de vista, o funcionamento do modo de produção capitalista se centra na
exploração da força de trabalho, aquela mercadoria única e especial porque é capaz de
produzir valor de troca. E se o capitalismo se utiliza da exploração do trabalho assalariado,
não é porque não usufrua de outras formas de trabalho não assalariadas submetidas
àquela forma central que possibilita a extração de mais valia. Bhattacharya afirma que, em
O Capital, “Marx não teoriza este segundo circuito, mas que simplesmente coloca que ‘a
manutenção e a reprodução da classe trabalhadora permanece como uma condição
necessária para a reprodução do capital’” [11]

Nesse sentido, também é interessante o que afirma Lise Vogel sobre o rol da família, a
“unidade reprodutiva” por excelência, ainda que se trate de uma instituição pré-existente
ao capitalismo. Vogel outorga à família trabalhadora - quer dizer, aquela onde se reproduz
a força de trabalho - um rol indispensável no sistema capitalista e “prioriza a análise da
relação estrutural que a vincula à reprodução do capital, em lugar da estrutura interna e as
dinâmicas que caracterizam à família” [12]. Colocar a família no contexto das relações
sociais dominantes (capitalistas) permite ver o rol desta instituição pré-existente, ainda que
adaptada e com uma forma específica (família operária), e não isolar sua dinâmica interna,
na qual funcionam hierarquias de gênero e de idade, de sua funcionalidade no capitalismo.

A contradição como oportunidade

Ao se referir à família operária, Federici coloca que houve um processo de transformação


desde a segunda metade do século XIX, que deixaria para trás a família da Revolução
industrial. E coloca que mesmo que Marx tenha visto a destruição da família pela
exploração capitalista, considerava - assim como Engels – que a inserção das mulheres no
mundo do trabalho era positiva, sem se dar conta “do processo de reforma que está tendo
lugar e que cria uma nova forma de patriarcado, novas formas de hierarquias patriarcais”
[13]. Para a autora de El patriarcado del salário,

“[...] a partir do final do século XIX, com a introdução do salário familiar, do salário operário
masculino (que se multiplicava por dois entre 1860 e a primeira década do século XX), foi
que as mulheres que trabalhavam nas fábricas foram repelidas e enviadas ao lar, de forma
que o trabalho doméstico se transforma em seu trabalho primordial e elas se convertem
em dependentes [14].”

Segundo Federici, o capitalismo criava as formas de uma família operária para apaziguar o
proletariado que havia se rebelado contra esta exploração sem medidas, garantindo a
existência de uma classe mais produtiva e menos desobediente. Em sua perspectiva estão
ausentes, no entanto, os processos contraditórios da luta de classes, já que, com uma
visão quase conspirativa, a classe dominante apareceria como portadora de um poder
ilimitado para impor as condições, não somente da exploração, como também da
reprodução da classe operária, sem obstáculos nem resistências.

Esta transformação que descreve Federici e que culminará na transformação da família


nuclear, a unidade familiar selada pelo salário de um operário masculino provedor e uma
mulher transformada em dona de casa, dependente deste salário que garante a
reprodução da força de trabalho, é um processo histórico que aparece aqui isento de lutas
pelo aumento de salários, pela redução da jornada de trabalho, por vitórias e derrotas
parciais, por concessões que os capitalistas também se veem obrigados a fazer para
seguir mantendo a exploração do trabalho assalariado nas melhores condições que lhes
permita a relação de forças entre as classes. Porque é necessário destacar que este,
assim como outros processos aos quais assistimos no modo de produção capitalista, é
contraditório: por um lado, expulsam as mulheres do mundo produtivo para garantir a
redução do custo da força de trabalho mediante sua dedicação ao trabalho reprodutivo não
remunerado; mas assim também reduz a população disponível para a exploração, aquela
da qual o capitalista pode extrair a mais valia.

Para a classe trabalhadora, a defesa dos laços familiares frente à voracidade da indústria
que não distingue entre homens e mulheres ou entre adulto e criança na hora da
exploração, também significou um enfrentamento com o capital para melhorar suas
condições de vida. Com o acesso massivo a escolas, hospitais e outros serviços públicos,
também melhoram as condições de vida do povo trabalhador e se transfere, da
privacidade do lar ao Estado capitalista, uma parte da carga do trabalho reprodutivo. Suas
consequências “benéficas” para a classe trabalhadora também podem ser compreendidas
pelo lado negativo: a privatização ou eliminação de serviços públicos sempre é resistido
pelas massas, já que sua consequência é um golpe ao “bolso” das famílias operárias e/ou
um aumento do trabalho reprodutivo dentro do lar, majoritariamente das mulheres da
família.

Nas últimas décadas, o capitalismo em sua forma “neoliberal” atacou aos sindicatos e
outras organizações próprias da classe operária assalariada para reestruturar a produção
incrementando a exploração por diversas vias. Mas também golpeou o processo de
reprodução social da força de trabalho, através da privatização de empresas públicas,
cortes e eliminação de distintos programas de amparo social, ajustes de orçamento que
deterioram a educação e a saúde pública, aumentos abusivos no transporte e outros
serviços essenciais que recaem sobre a economia familiar do povo trabalhador. Disto
falamos quando denunciamos que o endividamento dos países subordinados ao
imperialismo, traz junto a si políticas de ajuste que incrementam o trabalho reprodutivo
realizado gratuitamente por mulheres e meninas. A luta contra esta ofensiva do capital
sobre as massas “é também um esforço da classe para exigir sua porção de civilização”
[15].

Que a forma familiar regulada pelo “patriarcado do salário” também tenha um aspecto
funcional ao capitalismo, não significa que não coloque contradições seladas pela força
entre capital e trabalho e definidas pela luta entre as classes.

A contradição é irremediável pois a produção capitalista se centra na extração de mais


valia que tem sua origem na exploração do trabalho assalariado, mas não pode prescindir
da reprodução social desta força de trabalho. Ou seja, a tendência de transformação em
força de trabalho de setores cada vez mais amplos das massas, desestabiliza os
processos de reprodução que também são necessários. Isto que Nancy Fraser afirma que
conduz a crises recorrentes é uma contradição que, para a feminista norte americana, “não
se situa ‘dentro’ da economia capitalista, senão na fronteira que simultaneamente separa e
conecta produção e reprodução. Nem intra-econômica e nem intra-doméstica, é uma
contradição entre dois elementos constituintes da sociedade capitalista” [16].

Desde esta perspectiva, o núcleo do funcionamento do capitalismo não pode se encontrar


“nas cozinhas e nos dormitórios” como diz Federici, mesmo que o que aí sucede esteja
precisamente modelado pelo modo de produção capitalista sobre a base de arcaicas
formas patriarcais para integrar estes processos de reprodução social a sua sede de lucro.
“A integração indireta do trabalho doméstico na determinação do salário cria então um
vínculo de dependência personalizado (e às vezes juridicamente codificado), ao invés de
uma relação de exploração no sentido específico da extração de mais valia. Este vínculo
está mais próximo das relações de dominação hierárquica que das relações de classe
modernas”, diz o marxista francês Daniel Bensaïd [17]. É o que a teórica Tithi
Bhattacharya define quase como ama máxima quando coloca que “a relação salarial
impregna os espaços não-assalariados da vida cotidiana” [18].

Neste vínculo inevitável está a necessidade de que a luta contra a opressão das mulheres
adquira uma perspectiva anticapitalista e mais precisamente, socialista e revolucionária; ao
mesmo tempo em que toda a luta da classe trabalhadora contra a exploração capitalista
não possa prescindir de um programa de ação contra a opressão feminina que, sob este
sistema, se ancora na naturalização da reprodução gratuita da força de trabalho.

A título de conclusão

O debate sobre a relação contraditória entre produção e reprodução não deveria


prescindir, no entanto, de um dado que modifica o olhar sobre estes debates teóricos,
como também o olhar político de quem tem interesse na libertação de todas as formas de
exploração e opressão. Pela primeira vez na história do capitalismo, as mulheres
constituem, aproximadamente, 40% da classe trabalhadora mundial. Isto significa que 54%
das mulheres, em idade economicamente ativa, participa do mercado de trabalho, como
trabalhadoras assalariadas [19]. Quantas dessas mais de 13000 milhões de mulheres
carregam, por sua vez, o trabalho gratuito que lhes permite reproduzir sua própria força de
trabalho como a de outras e outros? Quantas são as que fazem trabalho doméstico em
troca de um salário para que sua patroa possa ser explorada no mercado de trabalho,
cobrindo com seu próprio salário o custo destes serviços que reduzem seu próprio trabalho
de reprodução? A fenomenal transformação da força de trabalho em escala mundial
também tem transformado radicalmente as famílias da classe trabalhadora. Qual tem sido
o incremento dos lares sustentados com o salário de uma mulher, quantas são as famílias
“monomaternais”? Como são redes de mulheres que, com ou sem salário, substituem os
trabalhos domésticos ou de cuidados de outras mulheres assalariadas?

Nesta complexa e inovadora realidade não há lugar para o reducionismo de um


corporativismo sindical economicista que só integra, em sua perspectiva, uma classe
operária masculina (e, por que não também branca, nativa e heterossexual?). Mas
tampouco podemos limitar a luta das mulheres por sua emancipação a um sujeito também
estereotipado - a ama da casa -, cuja existência tem mudado substancialmente nas últimas
décadas, prescindindo da perspectiva do capitalismo em sua totalidade orgânica, que
inclui esse novo rosto feminizado da força de trabalho. Qual será o impacto que as lutas
das mulheres nos espaços da reprodução terão sobre as lutas de uma classe trabalhadora
cada vez mais feminizada? De que maneira o empoderamento das mulheres, através
desse ressurgimento do feminismo a nível mundial, impactará sobre as mulheres
exploradas e quais serão as consequências para um sindicalismo masculino, incapaz de
incorporar os setores mais oprimidos da classe?
Os feminismos que aspirem à emancipação as mulheres de todas as formas de opressão
patriarcal que hoje existem não podem ausentar-se nos obstáculos que o capitalismo
impõe para essa perspectiva, começando pelo mais evidente: no extremo de uma linha
imaginária da população mundial ordenada segundo sua riqueza, oito homens acumulam
uma quantidade de dinheiro equivalente ao que, no outro extremo, chega a sobreviver
3500 milhões de pessoas, das quais 70% são mulheres e meninas. As mulheres estamos
superrepresentadas nos dados de pobreza, precariedade e informalidade trabalhistas e
isto não está separado, portanto, das condições em que se desenvolvem nosso trabalho
reprodutivo.

Lutar contra a desigualdade de gênero não pode prescindir de refletir em quê sociedade
aspiramos viver uma igualdade plena. Queremos lutar para que haja quatro mulheres entre
as oito pessoas mais ricas do planeta e sejamos 50%, genericamente equitativo, das mais
pobres? Se o centro de gravidade do capitalismo segue sendo a exploração do trabalho
assalariado e a extração de mais valia, é possível pensar a emancipação das mulheres
ignorando este nó vital do funcionamento da sociedade que vivemos? Depois de tudo,
ainda que as lutas da relação capital/trabalho e as lutas dadas nos espaços de reprodução
social tenham suas especificidades, deveríamos buscar as formas de confrontar a divisão
e o antagonismo que a classe dominante impõe, de unir o que o capitalismo dividiu
historicamente. Hoje, mais que nunca, é possível construir este caminho, porque, talvez
pela primeira vez, podemos dizer que se trata de nós mulheres, o proletariado.

NOTAS DE RODAPÉ

[1] Ver W. Z. Goldman, “Mulher, Estado e Revolução”, São Paulo, Iskra Edições, 2014.

[2] Lise Vogel, “Questions on the Woman Question”, Monthly Review 31, Nº. 2, Junho de
1979.

[3] S. Federici, El patriarcado del salario, Madrid, Traficantes de sueños, p. 19.

[4] Karl Marx, El Capital, Capítulo VI inédito, México, Siglo XXI, 1985, citado en Paula
Bach, “El sector servicios y la circulación del capital: una hipótesis”, Lucha de Clases 5,
Junho de 2005.

[5] D. Bensaïd, La discordancia de los tiempos, “El sexo de las clases”, p. 137 (inédito).

[6] T. Bhattacharya, Social Reproduction Theory, Londres, Pluto Press, 2017, p. 2.


[7] Tithi Bhattacharya faz uma revisão interessante sobre estes debates desde a ótica da
Teoria da Reprodução Social em Social Reproduction Theory, ob. cit.

[8] Bensaïd, ob.cit., p. 131.

[9] Ibidem, p. 132.

[10] S. Federici, ob. cit., p. 27.

[11] T. Bhattacharya, “Reproducción social del trabajo y clase obrera global”, disponível em
vientosur.info, 17/02/2018.

[12] S. Ferguson, D. McNally, “Capital, fuerza de trabajo y relaciones de género”.


Introducción a la edición de Historical Materialism de Marxism and the Oppression of
Women. Toward a Unitary Theory, de Lise Vogel, disponível em marxismocritico.com,
16/01/2017.

[13] S. Federici, ob. cit., p. 16.

[14] Ibidem, p.p. 16-17.

[15] T. Bhattacharya, “Reproducción social del trabajo y clase obrera global”, ob. cit.

[16] Nancy Fraser, “Las contradicciones del capital y los cuidados”, New Left Review 100,
septiembre-octubre 2015.

[17] D. Bensaïd, ob. cit., p. 129.

[18] Tithi Bhattacharya, “Reproducción social del trabajo y clase obrera global”, ob. cit.

[19] Taxa de participação na força de trabalho, mulheres (porcentagem da população


feminina entre 15-64 anos), estimativa modelada da OIT. Taxa da força de trabalho total,
modelada dos dados do Banco Mundial, disponível em https://data.worldbank.org/.

De: http://www.esquerdadiario.com.br/Nos-mulheres-o-proletariado

Em: 20180724