Você está na página 1de 17

Introdução ao Estudo do Direito

1.Conceito e problemas fundamentais do Direito


• O Conceito de Direito:
Castro Mendes define direito como “o sistema de normas de conduta social. assistido de
proteção coativa”

O Direito decorre de 2 premissas:

• “Ubi Homo, Ibi Societas” – O Homem tem uma natureza eminentemente social.
• “Ubi Societas, Ibi ius” – O Homem vive em sociedade, em convivência com
outros homens, pelo que é o Direito que vai “promover a solidariedade de interesses
e resolver o conflito de interesses”, surgindo como uma ordem normativa.

a) “Ubi Homo, Ibi Societas”  Natureza social do Homem


A necessidade de o Homem viver em sociedade, esta chamada predisposição para a
sociabilidade, funda-se em diversas causas:

1. Necessidade vital e psicológica:


O Homem é dotado de uma plasticidade compensadora da sua pobreza instintiva, pré-
formativa, formada através da exposição contínua a situações sociais permanentes
impulsionadas pela necessidade básica de colaboração.
O Homem é dotado de “apetitus societatis” (Hugo Grócio).
O Homem é um ser social / um “animal social” (Karl Marx).
Uma tendência movida pela necessidade da integração na sociedade, a chamada
aculturação.
2. Necessidade de segurança:
O Direito promove a solidariedade de interesses, resolvendo os conflitos mais dilacerantes
para o tecido social.

3. Necessidade económica:

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Para um sistema ser eficiente a todos os níveis, precisa de uma estrutura organizacional,
na esfera da economia não é diferente. Necessita de um conjunto de regulações, por
exemplo ao nível da circulação de capitais, para ser eficiente.
4. Necessidade de política e de defesa militar:

A imprescindibilidade de afastar uma anarquia, de haver um governo, uma hierarquia, bem


como separar a sociedade de um regime ditatorial militar, julgar crimes de guerra e
inviabilizar conflitos armados.

A Autoridade social:
Com o fim de obstar à anarquia e ao caos, existe na vida em sociedade, uma autoridade
social, que recebe o poder diretivo destinada a:
• Estabelecer regras de conduta para todos os membros do grupo;
(Poder normativo)

• Tomar decisões concretas relativamente aos problemas do dia-a-dia;


(Poder decisório)

• Impor, imperativamente, as regras de conduta e as decisões concretas aos


respetivos destinatários, sob o escopo da correspondente sanção, caso não as
cumpram;
(Poder sancionatório)

Concluindo:
Compete à autoridade social conciliar e harmonizar os interesses de cada um,
fixando a esfera de faculdades, responsabilidades, deveres e ónus destes, mediante
a criação de regras ou normas de conduta, ou seja, mediante a criação de uma
ordem normativa.
Por outro lado, a autoridade toma as decisões que foram necessárias em nome de
todos.
E, finalmente, impõe o respeito por aquelas regras e estas decisões.

E como seria a vida dos Homens em sociedade sem uma autoridade social?

• Jean-Jacques Rousseau – “O bom selvagem”

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Para o autor, todos os Homens viviam livres e iguais, vivendo em contacto com a natureza
e seguindo os ditames desta;
Despreza o progresso material que trouxe a civilização e com ela a corrupção;
Rejeita também o desenvolvimento da economia, que originaria sentimentos de
conflitualidade/comportamentos agressivos, devido à sociedade desigual na propriedade
privada;
O “status naturalis” é o egoísmo;
Preconiza a existência de um contrato social, essencial para restabelecer a felicidade
perdida, baseado num mínimo de segurança, imperando a “volunté générale”;

• Thomas Hobbes
O Homem é profundamente egoísta, procurando obter vantagem à custa dos outros;
O “status naturalis” é o de que os Homens vivem em guerra contínua, “como lobos de si
próprios” (homo homini lupus);
Pacto de sujeição para colocar termo a este status, sendo este pacto a figura do Estado,
ao qual devemos ceder os nossos direitos;
Submissão à autoridade/vontade absoluta do Estado;

• John Locke
Homem tem aspetos bons e aspetos maus, assim como tendências para a prática do bem
e tendências para a prática do mal. Estas são influenciadas por aspetos como a educação,
temperamento ou as circunstâncias de vida;
O “status naturalis” é o da maioria respeitar as leis da natureza, no entanto há a minoria
(delinquentes) que não o faz;
Não é útil continuar a viver sob um estado de natureza, tornando-se fundamental uma
passagem para o estado de sociedade, através do contrato social e a criação de uma
autoridade social que governará a comunidade;

Direito Objetivo VS Direito Subjetivo

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Direito Objetivo Direito Subjetivo
Compreende o conjunto de normas Vantagens, faculdades ou
Jurídicas de proteção coativa a que poderes por aplicação das
Todos os homens devem prestar obediência. normas de direito objetivo,
que são reconhecidas aos
indivíduos e previstas
naquelas regras

Norma de Agir 

Ex: Direito Civil; Direito Administrativo; Faculdade de Agir

Ex: direito de propriedade;

direito do sufrágio;

Direitos Reais; Ciência do Direito e Ordem Jurídica;


Direitos Reais  Direitos absolutos que o individuo pode efetivamente realizar, ao
contrário dos direitos de personalidade, relacionados com valores, inferidos numa
dimensão axiomática.
Ex: Direitos Reais = direito à propriedade; direito ao casamento;
Direitos de Personalidade = direito à liberdade;

Ciência do Direito  Corresponde à ciência que estuda e teoriza cientificamente o direito


objetivo e os direitos subjetivos.
Ordem Jurídica  Neste sentido, a expressão direito engloba as normas que impõem
padrões de conduta, os seus destinatários, também assim os órgãos que criam e aplicam
tais normas.

Direito & Estado (Estado-Sociedade);


Elementos 
• Povo: Conjunto de pessoas submetidas à ordem jurídica estatal.
• Território: Elemento material/espacial/físico do Estado, delimitado por fronteiras
naturais ou artificiais.
• Poder político: Organização necessária ao exercício do poder político.

Funções 
• Função política: Definição e prossecução pelos órgãos do poder político, dos
interesses/objetivos.
• Função legislativa: Prática dos atos legislativos pelos órgãos competentes.
• Função jurisdicional: julgamento de todo o tipo de litígios.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


• Função administrativa: satisfação de necessidades coletivas, que se entende que
incumbe ao Estado prosseguir.

O Direito (norma jurídica) entre as ordens normativas ;

Norma jurídica vs Norma de natureza ou Lei da Física


Norma Jurídica: Dirige-se com caráter imperativo à vontade do homem, podendo ser violadas.
Norma da natureza/ lei física: Referem-se explicativamente aos fenómenos naturais, pelo que
não se deve falar em obediência ou desobediência.

Norma jurídica vs Normas Morais


Norma Jurídica
Dotada de Intersubjetividade (regula as ações entre sujeitos) e tem sempre uma relevância
exterior, pressupondo uma exteorização.
A violação da norma jurídica provoca sempre uma alteração no mundo exterior.
Ex: Homicídio/Corpo
Finalidades: Estabelecimento de regras essências de uma sociedade, visando a convivência
harmoniosa.
Essência: Compatibilizar interesses conflituantes.
Coercibilidade material (punição/sanção)

Norma Moral
Dotada de Intersubjetividade, já que respeita à conduta isolada do Homem, e tem uma relevância
interior, focando-se no eu.
Finalidades: Aperfeiçoamento individual, realização do bem.
Essência: Consciência ética, o bem consigo mesmo.
Coercibilidade psíquica (remorso)

Norma Jurídica vs Norma Religiosa


Norma Jurídica
Criada pelos Homens.
Regula as ações entre estes para zelar pela Justiça, Segurança e Direitos Humanos.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Coercibilidade material: Obriga a todos os cidadãos, sob a ameaça de sanções temporárias ou
terrenas.

Norma Religiosa
Criadas pelo Ser Transcendente
Regula as ações entre os crentes e Deus e entre os crentes.
Não é coercível materialmente: Obrigam apenas os crentes e são dotadas de sanções
espirituais ou intraindividuais.

Norma Jurídica vs Norma de trato social


Norma Jurídica
Estabelece regras essenciais para o conflito social.
Coercibilidade material

Norma de trato social


Aperfeiçoa o convívio social, tornando-o mais ameno e cordial
Não é coercível materialmente (reprovação social)

Relação entre a ordem jurídica/norma jurídica e as demais ordens normativas

a) Assume e juridiciza algumas ordens normativas, incorporando-as na ordem jurídica


(relações de coincidência);
b) Coloca-se numa posição neutra ou de indiferença em relação, á maior parte das normas das
outras ordens (relações de indiferença), nomeadamente no que tange à ordem religiosa e
de cortesia.
Ex: Direito VS Direito Canónico;
c) Normalmente, mantém relações próximas com as ordens morais;
d) Pode ter relações de conflito;
Ex: Lei de excepção de 2002 dos Touros de Barrancos;

Direito Natural & Direito Positivo


➢ Direito positivo ou ius civitate positum é o direito posto na sociedade, nela inserido
como algo tangível/tocável, percetível pela mesma. Compreende-se como o conjunto de
normas jurídicas escritas e não escritas, vigentes no nosso território e nas relações entre
Estados.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


➢ Direito natural é a ideia abstrata do direito, o direito que devia vigorar, assente na
dignidade da pessoa humana e representa o reflexo imediato de justiça. Este ius naturale
afirma-se como o pressuposto do que é ou não correto e justo, independentemente do
direito positivo ou das variações inferidas no ordenamento social. São regras fundadas na
essência humana e não estão localizadas nem temporal, nem espacialmente, não estão
controvertidas em nenhum código nem tampouco gizadas pela mão humana.


Num mundo ideal, o Direito Natural deve nortear, servir de bússola, para o Direito
Positivo.

Este binómio deriva em 2 teorias:

Jusnaturalismo VS Positivismo Jurídico


Jusnaturalismo Positivismo Jurídico

Advoga a existência do Direito Natural, Defende que o Direito Natural não é direito pois:

colocando-o num patamar superior ao Não pode ter origem divina, já que deus não existe.

do Direito Positivo, condicionando o Não é promulgado por nenhuma autoridade social,

mesmo nas suas atuações; legitimada para o fazer.

É o fundamento legitimador de todo o O seu conteúdo é desconhecido, não havendo

Ius positivum; qualquer consenso.

Doutrina jurídica dominante desde o séc. Não há uma lei eterna e universal, válida e

V a.c. até XVI d.c., defendida por pensadores incitável em todas as épocas e lugares, uma vez

Como Aristóteles e Hugo Grócio; que a experiência mostra que as leis e costumes

No séc. XVII várias correntes de pensamento variam de época para época e lugar para lugar.

contestaram a existência do Direito Natural, A violação das suas regas não acarreta a imposição

chamando à atenção para os pontos fracos de quaisquer sanções.

de um Direito Natural eterno e universal;

Contestação nos sécs XIX E XX com a diáspora

do Positivismo Jurídico;

Jusnaturalismo VS Positivismo Jurídico (Conclusão)

➢ Debate permanecem, mas os defensores de ambas as correntes, não aceitem, passivamente


como cidadãos, qualquer direito positivo.
➢ A divergência centra-se, fundamentalmente, no ponto de saber, se as leis contrárias ao Direito
Natural, são inválidas, pelo que não se lhes deve obediência.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


O “Lex iniusta non est lex” não é de todo uma realidade, nos dias que correm.

Em Portugal: Artigo 8º/2 do Código Civil advoga a postura “dura lex sed lex”:
“O dever de obediência à lei, não deve ser afastado sob o pretexto do seu conteúdo ser injusto ou
imoral”;

Fins do Direito

1. Justiça

• Primeiro e principal fim do Direito;


• Deve ser, “para o Direito, uma bússola e um farol”// “É o farol norteador do Direito”
• “Constante e perpétua vontade de dar a cada um o que é devido”
REIS MARQUES, Mário : “Introdução ao Direito I” ALMEDINA

• Presente nos artigos 9º;13º;23º;205º;266º CRP


Noção: A justiça é um conjunto de valores que se impõe, quer ao Estado, quer aos cidadãos no sentido de
dar a cada um o que lhe é devido, e o critério geral acerca de que, em nome da justiça, deve ser definido em
função da dignidade humana.
Modalidades:

• Comutativa: Visa corrigir os desequilíbrios, que se verifiquem nas relações contratuais e


nos atos involuntários ílicitos interpessoais.
• Distributiva: Rege a repartição dos bens comuns pelos membros da sociedade, segundo o
critério de igualdade proporcional que atende à finalidade de distribuição.
• Geral ou Legal: Rege a participação dos membros da sociedade nos encargos comuns,
segundo critérios de igualdade proporcional.
Equidade: Forma de solução de conflitos jurídicos que assenta na aplicação da justiça, conforme as
circunstâncias específicas de cada caso. Distribuir direitos consoante os mais necessitados, achar a solução
mais justa para 1 problema. É a chamada justiça do caso concreto.
Ex: Jarra com valor sentimental que se partiu. Atendendo ao caso concreto, não será julgada como se fosse
um jarro normal.
Artigo 556º “Tribunal julgará equitativamente dentro dos limites que tiver por provados”

2. Segurança

Exemplos:
• Segurança internacional sem a qual não haverá paz entre os povos;
• Segurança pública interna sem a qual ficam perturbados a ordem e a tranquilidade públicas;
• Segurança individual que as autoridades e a polícia devem garantir para prevenir a prática de crimes
contra a vida, a liberdade ou a propriedade dos povos;

2161072 RÚBEN RIBEIRO


• Segurança socioeconómica que se consegue através do estímulo à poupança individual, do recurso
às companhias de seguro etc…;
• Segurança jurídica que impõe à criação de mecanismos capazes de contribuir para a assertividade
do Direito;

3. Declaração dos Direitos do Homem

Ideia jusnaturalista que se vêm afirmando desde o século XVIII, tratando-se de uma declaração dos
direitos subjetivos que devem ser reconhecidos em toda a parte, a todo o Homem, por derivarem da
natureza deste.
Cronologia:
1215  Magna Carta
1776  Bill of Rights
1789  Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
1948  Declaração Universal dos Direitos do Homem
1950  Convenção Europeia dos Direitos do Homem

O Direito como Sistema


Recordando a definição de Direito de Castro Mendes, de este como “o sistema de normas de
conduta social, assistidos de proteção coativa”, podemos assentar a noção em 3 ideias-chave:
1. Sistema
2. Norma
3. Proteção Coativa

1. Sistema

Artigos 10º/3 e 8º/3 CC; 20º CRP;


O Direito é um sistema normativo, ou seja, é um conjunto coerente e articulado de normas
jurídicas ditadas por princípios e orientadas para certos fins.
Porquê um sistema normativo?

2161072 RÚBEN RIBEIRO


• Um sistema, porque o conjunto das normas/regras se encontra articulado em termos de coerência, em
torno de uma ideia central;
• As suas regras objetivas têm de ser interpretadas de acordo com critérios lógicos e técnicos;
• Os casos omissos tem de ser resolvidos em harmonia com determinados métodos integradores;
• O conjunto de normas que o compõe está organizado, enquadrado e formado por princípios
gerais;
• Procura assegurar uma aplicação e interpretação uniformes do Direito;
• Nele vigora o princípio da plenitude da ordem jurídica;

Características e aspetos do Sistema jurídico

• Coercibilidade
• Âmbito de aplicação
Onde o Direito atua:
a) Ao impor condutas (positivas ou negativas);
b) Ao permitir (autonomia da vontade);
• Equidade
• Princípio da plenitude da ordem jurídica


a) Dos princípios que enformam o sistema jurídico, dada a sua generalidade, podem extrair-se
as soluções para as questões não previstas positivamente.
b) É possível resolver os casos não previstos na lei, através da integração de lacunas.
Ex: Método da Analogia  comparação entre o caso omisso e caso previsto;
O código transporte aéreo  que foi aplicável a partir do código dos transportes terrestres,
quando se deu a invenção dos transportes aéreos;
O exemplo clássico dado na aula de por castigo proibir uma criança de ir ao cinema,
logicamente está estará igualmente proibida de ir ao circo;

Conceito e estrutura da norma jurídica em sentido estrito


Noção: Em sentido estrito, a norma é um elemento do conceito de Direito e traduz-se na “ligação de
uma estatuição à previsão de um evento ou situação”.

Estrutura:
➢ Previsão  É o “desenho abstrato de uma situação futura e incerta, à qual, se e quando, vier a
concretizar-se (quando passar do campo hipotético para o realmente acontecido), há de ser aplicado um
comando determinado uma conduta, um comportamento.
“desenho abstrato da vida social que se pretende regular”

➢ Estatuição  Pode ser definida como a consequência jurídica imposta pelo legislador, no caso da
previsão passar de uma mera hipótese para o campo do efetivamente sucedido.
Conduta que há de ser obrigatoriamente prosseguida.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


➢ Sanção  Consequência imposta pela ordem jurídica na inobservância da estatuição.

Norma perfeita = Previsão  Estatuição  Sanção


Ex: Na sociedade y quem não fizer x é punido com Z

Norma imperfeita= Estatuição  Previsão


Ex: “Diz-se coisa, tudo aquilo que possa ser objeto de relações jurídicas” 202º CC

Características da norma jurídica em sentido estrito

1. Hipoticidade  Os efeitos jurídicos que a norma estatui, só se produzem se se verificarem


os factos previstos.
A estatuição deriva da sucessibilidade da hipótese expressa na previsão;

2. Generalidade  A norma jurídica aplica-se a uma categoria abstrata de pessoas:


• Generalidade vertical quando as normas se aplicam simultaneamente a todos os que
estão em determinada situação.
Ex: direito à vida.
• Generalidade horizontal as normas, que definem a competência de um cargo/officium,
que se dirigem a uma certa categoria de pessoas.
Ex: Lei da Defesa dos Consumidores, só se aplica evidentemente, a consumidores.

3. Abstração  a norma jurídica não se aplica a apenas um caso concreto, mas sim a número
indeterminado de casos subsumíveis à categoria prevista.
4. Outros apontados pela doutrina: Imperatividade; violabilidade;
bilateralidade/alteralidade; coercibilidade;

Imperatividade  As normas traduzem-se numa estatuição ou imposição de comandos.


Distingue-se das leis cientificas, na medida em que estas limitam-se a verificar os factos e
descrevê-los, exprimindo, contrariamente ao direito, juízos de existência e não de valor.

Violabilidade  Dirigindo-se a pessoas livres, pode a norma jurídica ser violada pelos
destinatários, diferentemente das leis científicas que não são violáveis (executam-se). O
destinatário não tem controlo sobre elas.

Bilateralidade/Alteridade Refere-se ao objeto regulador do direito que é a conduta do ser


humano nas suas relações intersubjetivas com os outros seres humanos, daí a bilateralidade, nos
quadros de um modelo societário.

Coercibilidade  Traduz-se na possibilidade de usar a força para impedir e reprimir a violação


da norma (proteção coativa e repressiva).

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Norma em sentido lato (Lato Sensu)
Corresponde ao elemento autónomo da Forma por que nos aparece a ordem jurídica,
designadamente os textos legais.

Classificação da norma jurídica Lato Sensu

Normas Éticas VS Normas Técnicas


Em face de determinadas situações, Dada uma determinada previsão,
deve-se seguir determinada conduta; a conduta é um meio de realizar
Existe um dever; certo fim;
O acto contrário é ilícito e implica sanção Não se trata de um dever, mas sim de um ónus
Ex: 483º CC. (encargo).
O acto contrário não é ílicito, mas acarreta apenas
uma sanção em sentido impróprio do termo, apenas
uma desvantagem
Ex: 413º CC

Normas de estatuição material Normas de estatuição jurídica


VS
Projetam o seu comando sobre a vida Normas cujo conteúdo se esgota no plano
social, ou seja, a sua estatuição reporta- jurídico;
se a atos dessa vida;
Estatui-se algo, mas sob a forma de consequência
Ex: 1323º CC jurídica.
Está ínsito uma configuração material, Ex: 130º CC
neste caso um animal ou coisa;

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Normas Imperativas VS Normas Permissivas
Imposição de um dever ou uma conduta; Concedem alguma faculdade e
permitem/autorizam algum comportamento.
Pode ser:
Podem ser:
a) Normas precetivas
Quando a conduta que se impõe é uma a) Normas facultativas
acção, um facere. Permitem ou facultam certos comportamentos,
Ex: 1230º/2 CC reconhecendo determinados poderes ou
b) Normas proibitivas faculdades e deixando ao arbítrio do indivíduo
Quando a conduta que se impõe é uma praticar ou não esses atos.
omissão, um non facere.
Ex: 1347º CC Ex: Permissão pura 1036º CC;
Concessão da autonomia da vontade 223º
Principio da liberdade de forma 219º

b) Normas supletivas
Normas aplicadas aos negócios jurídicos que
não tiverem excluído a sua aplicação, não
estiverem definido o regime a aplicar.
“na falta de…/ se não tiver previsto…”
Ex: 772º
Na falta de uma norma a dispor sobre aquele
regime, é regido pela supletiva.
c) Normas interpretativas
Esclarecem o sentido do trecho legal.

Ex: Definição de doação no art. 940º do CC

.
Relativamente aos destinatários

Normas diretas Normas indiretas


Aquelas cujos destinatários são Aquelas cujos destinatários são aqueles que
intervenientes na vida social. pretendem aplicar normas jurídicas e resolver
problemas de direito (aplicadores de direito).
Podem ser:
a) Normas remissivas;
Indicam uma remissão explícita ou implícita
b) Normas de aplicação da lei no tempo;
c) Normas de Direito Internacional Privado;

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Relativamente aos efeitos jurídicos que podem produzir

Normas Autónomas Normas Não Autónomas


Podem produzir efeitos só por si e Para produzir efeitos jurídicos, têm que se
contém em si valoração jurídica, ligar a outras normas.
imperativa e permissiva.
Ex: Normas interpretativas; Normas
Ex: 1323º CC remissivas (não remissivas são sempre
Dita o que deve ser feito em determinada autónomas);
situação sem remeter para outra norma.

Relativamente à concordância com as normas gerais

Normas Gerais Normas Especiais


São aquelas que constituem o regime São aquelas que desenvolvem,
regra aplicável à generalidade das particularmente, uma espécie de
situações ou relações jurídicas de um situações ou relações jurídicas, tendo em
determinado tipo. conta a especificidade das mesmas.
Ex: 219º CC No entanto, mantendo-se em sintonia com
os princípios contidos nas normas gerais.
Ex: Normas de Direito Administrativo 
Normas Excecionais
• Não comportam aplicação analógica  não podem ser
comparadas com as outras;
• Disciplinam um setor restrito de relações jurídicas, em
contradição com as normas gerais;
Ex: 875º

Normas Gerais VS Normas Excecionais


Art.219º  A validade da declaração negocial = negócio, não depende da observância de
forma especial, salvo quando a lei o exigir  Liberdade de Forma
Ex: Posso pedir uma nata no bar, realizando compra e venda, sem qualquer formalidade.

Art.875º  “ O contrato de compra e venda de imóveis só é válido por escritura pública ou


documento particular autenticado”

Portanto, a esta norma especial vem contrapor a liberdade de forma expressa no artigo
219º, sem que alguma das 2 seja inválida. Constitui-se 1 exceção ao contrato de
compra e venda.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


A Proteção Coativa
A Coercibilidade consiste na possibilidade ou suscetibilidade de aplicar sanções, pela
força se necessário for, assegurada pelo aparelho estadual.
A proteção coativa, isto é, os meios adotados em defesa da ordem jurídica podem ser,
fundamentalmente, de 2 espécies:
• Tais meios podem atuar de ocorrer a conduta que viola a estatuição da norma
jurídica, com o escopo de evitar essa violação  proteção preventiva
Ex: Incapacidade dos inabilitados em praticar negócios jurídicos;

• Como podem igualmente, esses meios atuar após a violação da norma, tendo então
por principal fim repor a situação, como existia antes da violação e reprimir o agente
violador, visando também, genericamente, os comportamentos contrários aos
comandos normativos.
Proteção repressiva  Sanção coativa

Proteção repressiva: a sanção


Como define o Dr. Oliveira Ascensão, a sanção é uma consequência desfavorável
normativamente prevista para o caso de violação de uma regra, reforçando o caráter
imperativo desta.
Classificáveis em:
Sanções materiais são aqueles que implicam, necessariamente, a alteração da vida
social.
Sanções jurídicas é uma consequência aplicável no plano dos negócios jurídicos,
impedindo que se produzam todos/alguns dos efeitos que tendiam os negócios jurídicos.

As sanções materiais
a) Sanções compulsórias:
Visam, embora tardiamente, coagir o infrator a adotar a conduta devida, evitando que a
violação se prolongue no tempo, cessando logo que a norma jurídica desrespeitada, seja
observada.
• Sanção pecuniária compulsória  829º-A
Nas obrigações de prestação de facto infungível, ou seja, que apenas deve ser
prestado pelo devedor, sem que possa ser substituído por outrem (exceto nos casos
que exijam especiais qualidades artísticas ou cientificas ao obrigado (pintor)), o
tribunal deve condenar o devedor ao pagamento de uma quantia pecuniária por
cada dia de atraso no pagamento ou p/cada infração adicionalmente cometida.

2161072 RÚBEN RIBEIRO


• Direito de retenção  754º e ss.
O devedor que dispõe de um crédito contra o seu credor, goza do direito de retenção
se, estando obrigado a entregar certa coisa, o seu crédito resultar de despesas
feitas por causa dela, danos ou incumprimento no pagamento de tais despesas.
Ex: Carro “parado” na oficina, em que o dono da oficina (devedor) não entrega o
carro ao seu dono (credor), gozando do direito de retenção, pois este se demarca de
pagar o valor gasto no arranjo da viatura;

• Cumprimento coativo  828º


Prestação de facto infungível: trata-se de um facto que pode ser prestado pelo
devedor ou por outrem em sua substituição.
Ex: Penhora de um pai pela dívida do filho;

b) Reintegração ou sanções reconstitutivas

• Sanção material reintegradora por reconstituição natural  562º


Quem estiver obrigado a reparar a situação, deve reconstituí-la da maneira que
estava anteriormente.
Ex: Telemóvel partido/Acidente de carro;
Terá de haver um estabelecimento do estado de coisa material e efetivo, que existia
antes da norma.

• Execução específica
Realização da prestação imposta pela norma ofendida.
Ex: Entrega judicial de coisa determinada que o devedor se obrigou a entregar ao
credor;

• Sanção material reintegrador por equivalente ou sucedâneo pecuniário  566º


Se a situação não puder ser totalmente reconstituída (ex: prato dos descobrimentos)
têm lugar a reintegração por sucedâneo (bem semelhante) ou equivalente
pecuniário (dinheiro).
Trata-se de produzir uma situação equivalente através de bens patrimoniais do
mesmo valor ou do seu preço em dinheiro.

c) Reparação ou sanções compensatórias


• Compensação por danos morais também designados por danos não
patrimoniais  ligado aos danos morais
Impõe-se algo que represente para o lesado uma satisfação em contrapartida da
lesão sofrida.
Ex: José Diogo visita Catarina e num ataque de ira puxa da faca e tira-lhe as
vísceras para fora;

2161072 RÚBEN RIBEIRO


Não é possível cumprimento coativo, nem tampouco reconstituição natural e uma
vez que o ser humano não é possível de ser avaliado em dinheiro, afasta-se também
a reintegração por sucedâneo pecuniário.


Atribui-se uma satisfação aos familiares da vítima para compensar a dor sofrida.

d) Sanções punitivas
Aplicam um mal a um infrator como castigo em virtude da violação da norma
• Criminais: Violação de uma norma criminal.
• Civis: Estabelecidas pelo direito civil em relação a condutas indignas
Art. 2034º; 2166º; 798 a 803;
• Disciplinares: Sanção aplicável perante a violação de deveres de categoria
profissional no exercício da sua atividade.
Ex: Despedimento da ordem dos solicitadores;
• Contraordenacionais: Geralmente emanadas pela Administração Pública e punem
certas condutas, lesivas para interesses fundamentais.
Ex: Contraordenações do Código da Estrada;

Sanções jurídicas
a) Inexistência jurídica  Ocorre quando nem sequer aparentemente se verifica
qualquer materialidade de certo alto jurídico e neste caso não produz efeitos, não
havendo necessidade de reconhecer a sua invalidade.
b) Invalidade  O ato existe materialmente, mas sofre de um vício que conduz a que
não se produza os efeitos jurídicos a que tende á Nulidade ou Anulabilidade.

Nulidade Anulabilidade
Opera ipso iure (conforme direito); Tutela o interesse particular;
Tutela o interesse público; Produz efeitos precariamente, pois podem
Não produz efeitos jurídicos; ser destruídos se for invocada a
anulabilidade;
É arguível por qualquer interessado;
Necessário recorrer a uma ação de
Pode ser oficiosamente declarada por anulabilidade no prazo de 1 ano, por quem
Tribunal; tem legitimidade (lesado);
Vícios: de forma, de objeto, falta de vontade, Casos de Incapacidade do agente
contrariedade à lei; (menoridade; interdição; inabilitação) e vícios
de vontade, dolo, erro, coação moral ou
Ex: Compra e venda de imóvel sem documento
incapacidade acidental;
particular autenticado e escritura pública.

2161072 RÚBEN RIBEIRO