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A ESCRITA CRIATIVA

• Os processos de escrita

Fizeram-se já alguns estudos sobre os processos de escrita. O que fazemos nós


quando escrevemos? Que fases compõem o processo de escrita? Que informações temos
em conta quando escrevemos um texto? Autores como Flower & Hayes e Bereiter &
Scardamalia procuraram responder a estas questões.
O processo de escrita era, tradicionalmente, entendido como linear, ou seja,
composto por três fases distintas que não aconteceriam em simultâneo: em primeiro
lugar a planificação, em segundo a escrita e, por último, a revisão. Por outro lado, era
também visto como um processo no qual informações como o objectivo do texto ou a
relação com o leitor não tinham qualquer papel. Assumia-se, também, que a estrutura e
organização dos textos obedecia sempre à mesma ordem: introdução, desenvolvimento
e conclusão.
Flower & Hayes são dois dos autores que apresentam outros pontos de vista
sobre os modelos cognitivos da composição escrita. Por exemplo, acreditavam que o
processador de composição, o contexto da tarefa e a memória de longo prazo do escritor
eram componentes dos processos de composição da escrita. Dentro do processador de
composição, existiriam os já referidos três processos (planificação, tradução ou
textualização e revisão), mas consideram que estes processos acontecem
simultaneamente, isto é, enquanto escrevemos também planificamos uma vez que
estamos constantemente a ajustar a estrutura e o conteúdo do texto, sem deixarmos de
rever o que vamos pondo no papel.

Planificação: estabelecem-se objectivos, activam-se e seleccionam-se


conteúdos, organiza-se a informação, programa-se a realização da tarefa;

Textualização: redacção do texto (devem ter-se em atenção a


explicitação dos conteúdos, a formulação linguística e a articulação linguística);

Revisão: leitura, avaliação e eventual correcção e reformulação do que


foi escrito. É marcada pela reflexão em relação ao texto produzido, tendo sempre
em conta a sua estrutura, os aspectos gramaticais, o seu conteúdo e a adequação
à audiência esperada.

Assim, Flower & Hayes, ao definirem tal modelo, vão encarar a escrita como
uma actividade que tem uma finalidade, um objectivo que deverá ser alcançado. Note-se
que a concepção tradicional não valorizava a importância do objectivo no processo de
escrita. Considerarão, ainda, a influência que o conhecimento e as expectativas dos
receptores do texto exercem sobre a escrita.

• Porque escrevemos?

Uma das competências nucleares básicas a desenvolver na escola é a da


produção escrita. Aprendemos a escrever porque isso nos vai ajudar no processo de
aprendizagem (todos nós utilizamos a escrita para tomar notas, fazer resumos, resolver

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exercícios, etc.). Escrevemos porque temos informações ou explicações para dar,
pedidos ou reclamações para fazer... São muitas as ocasiões em que fazemos uso dessa
capacidade fantástica.
Escrevemos, também, porque temos a necessidade de exprimir a nossa
criatividade.

• A Criatividade

A palavra criatividade tem raiz no verbo creare que significa originar, gerar,
formar. O dicionário de língua portuguesa diz-nos que «criatividade» é sinónimo de
originalidade, de engenho e de capacidade criadora. Assim percebemos que a
criatividade nos pode ajudar a construir várias coisas, por exemplo textos.
Embora a produção escrita seja uma das competências a adquirir durante a
escolaridade obrigatória, a verdade é que ela é mais vezes vista como tendo um carácter
de apoio na resolução de tarefas (veja-se a utilização da escrita na resolução de
exercícios, nos testes de avaliação, nos resumos, etc). Infelizmente, a mesma escola que
ensina a escrever põe de parte, por vezes, as potencialidades pessoais de escrita dos
estudantes.
Arredada da sala de aula a escrita criativa, aumenta a oferta de cursos e de
manuais que pretendem ensinar a escrever com criatividade. A maioria destes cursos
não se preocupa tanto com a qualidade final dos textos mas mais com o próprio
processo de produção. Pretendem levar os frequentadores a superar o medo da folha em
branco e, mesmo que o resultado não seja esplêndido, fazer perceber às pessoas a
importância da escrita na estruturação do pensamento e na expressão dos sentimentos.

www.escreverescrever.com

«Imagine-se no centro de Lisboa, numa sala com vista para a Praça Luís de Camões. Ao fundo da
Rua das Flores, o rio. Aqui escreve-se. Escreve-se à volta de uma mesa, em pequenos grupos cujos
elementos têm em comum a vontade de experimentar, ou de aprofundar a escrita, seja ela literária,
técnica ou até de experiências.»

(Folheto informativo sobre a ESCREVER-ESCREVER)

Na ESCREVER-ESCREVER escreve-se. Existem cursos sobre escrita


jornalística, criação de personagens, escrita de viagens, oficinas de contos, guionismo,
argumentos para banda desenhada, e muitos mais. São criados cursos novos com
frequência. Falaremos aqui apenas do workshop a que assistimos sobre escrita criativa.
O espaço está preparado para receber todos aqueles que estiverem dispostos a
parar um pouco e a passar palavras para o papel. Em cima de uma mesa enorme estão
montinhos de folhas brancas que marcam os lugares a ocupar. Alguns copos com
canetas de feltro, lápis de cor e de carvão e canetas para escrita. Parece um regresso à
escola e isso faz com que muitas das pessoas que participam nesta experiência acabem
por escrever sobre a infância e o desejo de regressar a essa etapa da vida. Ali não se

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pensa durante horas no que escrever, pelo contrário: põem-se no papel as primeiras
ideias que se têm.
Todavia, para que a criatividade se solte, são precisos alguns estímulos. Assim,
começa-se por uma actividade tão relaxante como colorir uma mandala. «Mandala» é
uma imagem circular com um centro a partir do qual o desenho se desenvolve. Monges
tibetanos criam estas imagens para nos lembrar do ciclo de vida e morte. No Tibete,
pintar uma mandala exige anos de preparação. Na ESCREVER-ESCREVER não temos
esse tempo e colorimo-la rapidamente.

Fig. 1- Mandala

Seguem-se depois outros exercícios que envolvem novos estímulos, tais com a
pintura e a música.
Para cada exercício proposto, o tempo disponível é, obviamente, limitado. Isso
faz com que a pessoa sinta que tem de escrever qualquer coisa, seja ela de grande
qualidade ou não. A folha branca tem de deixar de o ser rapidamente e o que se escreve
tem de se ler em voz alta para todo o grupo ouvir. Ninguém critica, não há textos
melhores nem piores e esse é um dos aspectos interessantes deste workshop. Escreve-se
por prazer e, mesmo que o tempo seja curto, todos os participantes acabam por colocar
experiências e sentimentos no papel.
Com um curso como este percebe-se que escrever é uma forma de olharmos para
nós próprios e de organizarmos os nossos pensamentos. Pelo regresso a actividades
geralmente deixadas na infância, sentimo-nos estimulados a escrever sem medo de
avaliações. Combinamos ideias em que nunca tínhamos pensado porque as instruções
da formadora nos fazem seguir caminhos que, geralmente, não seguimos quando
estamos noutro tipo de ambiente. Aquele é preparado para fazer escrever e creio que a
própria janela aberta sobre o rio convida a uma visita ao papel. Camões também não
resistiu ao Tejo...

Nota: Escrevemos este resumo do nosso trabalho com alguma criatividade. Resolvemos
não fazer uma síntese porque acreditamos que o tema tratado não se coaduna com uma
escrita «cinzenta». A escrita lúdica, por prazer, na qual fazemos uso da nossa
imaginação e não de modelos previamente estudados, leva-nos a pôr um pouco de nós
nas palavras. Foi isso que fizemos.