O desenvolvimento da
escrita
A aprendizagem da escrita é uma tarefa pluridimensional e complexa. Todavia, é
um acto que deve estar amplamente informado pelas práticas de formação,
sobretudo ainda por se tratar da aprendizagem de uma língua segunda, como é o
caso do Português para muitas crianças na maior parte das províncias em Angola. Por
estas razões, apresentamos a seguir uma metodologia do ensino da escrita.
O desenvolvimento da
escrita
Passos determinantes para o ensino da escrita no ensino primário.
Pereira e Azevedo (2005) propõem um modelo integrador de
ensino e aprendizagem da escrita, que pressupõe 10 passos a
percorrer por professor e alunos. Descrevê-los-emos de seguida,
comentando-os e exemplificando.
O 1º passo - Relação escrita - oralidade - centra-se nesta relação
que, não sendo linear, não pode ser entendida como se uma fosse
separada da outra. A escrita e a oralidade estabelecem entre si
relações de reciprocidade, particularmente evidentes no ensino da
escrita.
O desenvolvimento da escrita
De facto, a produção verbal escrita é de um nível de dificuldade
superior ao da produção verbal oral, já que quem escreve tem de
organizar, gerir e avaliar o conteúdo a dirigir ao destinatário através
da língua num quadro comunicativo diferido, quer dizer, não
presencial.
Assim, no ensino da escrita, a competência compositiva pode ser
trabalhada recorrendo à oralidade, procurando que as crianças
verbalizem oralmente o que querem dizer; nas trocas comunicativas
que se estabelecem para a melhoria dos textos ou ainda nas
discussões orais em torno das possibilidades discursivas de um texto.
O desenvolvimento da escrita
O 2º passo – Diversificação dos escritos - relaciona-se com a máxima que
se aprende a escrever, escrevendo. Escrever, particularmente nos primeiros
anos de aprendizagem, é uma actividade complexa e não pode ficar
confinada a momentos pontuais e esporádicos. É preciso que estes
momentos e situações de escrita sejam muito frequentes, assim como os
tipos de texto sejam diversificados para que os alunos compreendam as
funções da escrita. São elas: a função expressiva (que pressupõe um maior
grau de liberdade na escrita); a função comunicativa (exercemo-la quando
escrevemos cartas, recados, mensagens, instruções…) e epistémica, (esta
função da escrita está presente quando estudamos, escrevendo sínteses,
resumos, tomando notas…), pois a escrita é uma poderosa estratégia de
aprendizagem.
O desenvolvimento da escrita
Estas funções da escrita (expressiva, comunicativa e
epistémica) configuram modalidades de escrita que têm de
fazer parte tanto do currículo de formação das EMP’s, como
do ensino primário em Angola. Estas modalidades de escrita
podem estar associadas quer à aprendizagem da língua
propriamente dita, quer de outros conhecimentos veiculados
pela língua. Ter em conta as finalidades dos escritos implica
pensar a linguagem dos textos em função da intencionalidade,
ou seja, da tipologia textual e dos destinatários.
O desenvolvimento da escrita
O 3º passo - Escrita e pensamento – este passo assenta
no pressuposto de que o próprio acto de escrever ajuda a
pensar e a construir conhecimento sobre a escrita.
Assim, o ensino-aprendizagem da escrita deve ser
organizado e centrado no processo e não apenas no que
está bem ou mal no produto final. Escrever implica
também tempo de maturação e pressupõe a
transferência dessa aprendizagem para outra situação de
escrita.
O desenvolvimento da
escrita
O 4º passo designa-se Escrever é planificar. Conceber a
escrita como um acto de linguagem novo, único e
diferente não significa que não se deva ensinar aos alunos
a prever a configuração do seu texto, antecipando até
ideias que o texto deverá contemplar. Ou seja, deve-se
ajudá-lo a planificar o seu discurso, entendendo a
planificação como “representação interna dos
conhecimentos que deverão ser mobilizados para escrever
um texto” (Pereira, 2005). Veja-se o seguinte esquema:
O desenvolvimento da escrita
Esquema:
O desenvolvimento da escrita
A “representação dos conhecimentos que deverão ser mobilizados
para escrever o texto” é algo abstracto; contudo, procurando
concretizar, constatamos que contém vários subprocessos. Ora
vejamos: produção de ideias/ organização das ideias/ precisão dos
objectivos a perseguir com o texto em função do seu conteúdo e do
tipo de leitores a que se destina.
Na produção de ideias é importante reflectir sobre o conteúdo do
texto, o tipo de texto que se escreve e para que leitores. Por exemplo,
escrever um texto informativo sobre a chuva para os estudantes da
EMP ou um pequeno poema para os alunos das escolas primárias varia
em função do tipo de texto e dos leitores.
O desenvolvimento da
escrita
A organização das ideias pressupõe a sua selecção, hierarquização lógica para
a sua apresentação. A este propósito, acrescente-se que a investigação tem
evidenciado que os escritores iniciais tratam as ideias à medida que surgem, ao
passo que os mais experientes as classificam e organizam com o objectivo de
produzir um texto coerente.
Três aspectos ajudam nesta organização e selecção das ideias: o
conhecimento do assunto sobre que se escreve; sobre a estrutura do texto a
produzir e o conhecimento das expectativas dos leitores.
A precisão dos objectivos de escrita é efectivamente um sinal de experiência
e maturidade na escrita; pressupõe decidir o que escrever primeiro, o que
escrever a seguir, insistir em determinado ponto, resumir o que disse no
princípio…
O desenvolvimento da escrita
A planificação não pára por aqui, pois o
próprio texto já escrito e a situação de
comunicação estabelecida desencadeiam
novas ideias e outras formas de as dizer e de
organizar o texto, o que leva a pensar a
linguagem durante o próprio processo de
escrita.
O desenvolvimento da escrita
O 5º Passo - Socialização dos escritos – salienta a importância do
carácter social dos textos, ou seja, a escrita tem de sair do espaço restrito
da aula. Daqui decorre a necessidade de gerar, nas escolas, mecanismos
que estabeleçam audiências/leitores para os textos dos alunos,
assegurando esta condição essencial da produção escrita, por exemplo,
através da leitura dos escritos à turma, a outra turma, entre outros.
Redigir é antes de mais uma actividade social – o próprio acto de
escrita está condicionado por um contexto social e cultural. É pois
fundamental que se criem oportunidades de escrita com sentido para as
crianças, permitindo-lhes a descoberta da importância da escrita nas
suas vidas.
O desenvolvimento da escrita
O 6º passo – Escrever é rever os textos – assenta no
pressuposto de que se escreve na escola para aprender a
escrever; por isso, é imprescindível dedicar tempos e
momentos à revisão dos textos pelos alunos, em pares,
individualmente e colectivamente, de modo a proceder a
modificações no texto, em partes ou no seu todo. A
escrita torna-se assim objecto de estudo e trabalho. Por
exemplo, a escrita dos escritores profissionais ocorre
também através destes processos.
O desenvolvimento da escrita
Detenhamo-nos na revisão do texto. Evidentemente, não se trata de
deixar os alunos sozinhos perante a reescrita, mas de elaborar
instrumentos de apoio, tais como guiões, fichas de orientação, listas de
verificação, listas com conectores e outras indicações, que permitam aos
alunos olhar os seus textos, reescrevê- -los e perceber os ganhos da
reformulação. Efectivamente, é uma auto-avaliação orientada,
acompanhada e apoiada pelo professor, propiciando o desenvolvimento
da consciência metalinguística e metadiscursiva dos alunos; dito de outra
forma, desenvolvendo nos alunos uma boa capacidade de reflectir sobre
os seus próprios usos e discursos de forma a adquirirem um melhor
conhecimento explícito da língua portuguesa.
O desenvolvimento da escrita
O ensino da escrita exige uma prática continuada de reflexão sobre
a linguagem escrita dos alunos. De facto, só um trabalho sistemático
sobre a reformulação das produções textuais pode transformar
formas de agir e modos de pensar dos alunos sobre os seus textos.
O desenvolvimento da escrita
O 7º passo - Aprende-se a escrever, escrevendo – diz respeito a
que para se aprender a escrever é preciso e fundamental colocar os
alunos perante verdadeiros problemas de escrita, o que não implica
pedir sempre produções globais de textos, mas também exercícios
parcelares sobre a língua escrita, tais como supressões de partes do
texto, modificações, substituições de personagens, acrescentamentos
e deslocamentos de expressões, de elementos do texto,
reconhecendo e aplicando factores de coerência de um texto, como
sejam, a progressão, a repetição, a não contradição e a relação, a que
já fizemos referência.
O desenvolvimento da escrita
O passo nº 8 - Interacção leitura-escrita – relaciona-se justamente
com a boa relação que se deve estabelecer entre a leitura de textos e a
sua escrita. Anteriormente, pensava-se que se chegava à escrita pela
leitura; deste modo, a leitura foi sempre mais trabalhada do que a
escrita. Mas para escrever bem não basta ler textos, embora os textos a
ler devam servir como referências para a escrita. Sabemos hoje que a
escrita tem passos próprios, exercícios e metodologias específicas. Deste
modo, os textos que os alunos lêem enriquecem a sua cultura,
fornecendo-lhe elementos sobre os quais podem escrever; podem servir
como modelos de escrita, funcionando como instrumentos de escrita se
a sua organização e composição textual for efectivamente evidenciada.
O desenvolvimento da escrita
O 9º passo apresentado pelas autoras - Imagem do
“sujeito escrevente” – chama a atenção para a importância
de cada aluno se sentir motivado e legitimado para escrever.
A investigação em didáctica da escrita tem evidenciado que é
fundamental proporcionar na escola motivos para a escrita e
um espaço para a sua interacção, levando o aluno a pensar
que o que escreve na escola também é importante fora dela.
Assumir-se como autor do seu próprio texto é condição
fundamental para se escrever bem.
O desenvolvimento da escrita
O 10º passo - Complexidade da tarefa de escrita – consciencializa o
professor/formador de que, se a tarefa de ensinar a escrita é
complexa, aprender é-o igualmente. Pressupõe a criação, por parte
dos alunos, de uma boa relação e adesão1 à escrita, bem como
confiança na sua própria capacidade para produzir textos com
sentido. É pois fundamental que os alunos trabalhem uns com os
outros e com o professor, que deverá funcionar como assessor dos
seus alunos. Efectivamente são inúmeras as situações e finalidades
de escrita com que nos deparamos a exigir, consequentemente,
diversas modalidades de escrita. Ora veja-se o seguinte esquema:
O desenvolvimento da escrita
Esquema:
O desenvolvimento da escrita
O texto escrito planifica-se, textualiza-se, revê-se, reescreve-se e
partilha-se, actuando o professor ao longo do processo como um
tutor que estimula, orienta e ajuda o aluno a corrigir o que faz. Além
disso, precisa de desenvolver, entre os seus alunos, um sentido de
comunidade e de partilha para que a escrita se possa realizar em
colaboração e cooperação.
Este contexto traz novos papéis ao professor, assumindo-se como
tutor e assessor, possibilitando aos alunos ambientes interactivos,
que lhes permitam aprender a escrever não só individualmente, mas
também em colaboração.
O desenvolvimento da escrita
É fundamental que o aluno circule no mundo do escrito com à
vontade e ganhe cada vez mais consciência de que o processo de
conhecimento da escrita não acaba, já que a variedade de textos é
enorme, nela se incluindo novos tipos de textos, designadamente os
produzidos pelos media (imprensa, rádio e televisão), e pelas
Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC).