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IV

DEDICO ESTE TRABALHO:

 Aos meus filhos (Thallys Henrique e Thayanne), que tão cedo me ofertaram ao campo
missionário.

 À Gleide Borges Aguiar, a qual Deus nos fez amigas e o amor nos momentos de
angústia nos tornou irmãs.
V

AGRADECIMENTOS

Ao Senhor Deus que me capacitou à conclusão deste curso, apesar das minhas
debilidades.

À minha Igreja Nova Vida do Alcântara (RJ) que tem me apoiado, investido e
acreditado no ministério missionário o qual o Senhor me confiou.

Ao Pastor Haroldo Gomes (In Memorian) meu discipulador, referencial, e que se


tornou, além de um pai na fé, um pai terreno. Um líder usado por Deus para me reintegrar à
sociedade, me preparar e me enviar ao campo missionário.

À Pastora Dulce Gomes por sua identificação pessoal com as minhas necessidades
missionárias, dando-me assistência de forma especial e única.

Ao Pastor Kamp, que além de um grande referencial, será sempre o pastor da minha
juventude.

À irmã Marlene Rolin que foi um instrumento usado por Deus tanto para descoberta
desse gracioso dom (ensino) como para investimento financeiro do mesmo e suas constantes
orações.

À Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados (PB), por sua compreensão à minha
ausência nos momentos finais desse curso.

Ao Presbítero Pedro Soares que apesar das minhas limitações de saúde sempre confiou
na capacitação de Deus sobre a minha vida para o ensino.

Ao Presbítero Juarez Rodrigues pela parceria e afinidade na paixão pelo ensino


fidedigno da Palavra de Deus.

À minha amiga Gleide B. Aguiar que apesar da distância geográfica esteve sempre
presente com sua amizade através de palavras de motivações e orações.

Aos meus filhos (Thallys Henrique e Thayanne) pela compreensão, incentivo e


paciência durante todo o período de pesquisa e redação.
VI

À Drª. Ana Emilia (Aninha) por ter com carinho e profissionalismo contribuído para o
meu equilíbrio emocional, durante um período de grande estresse.

À minha mãe, Sulanita Mansur Vitória, pelo seu abençoado ventre que me acolheu e
me deu a oportunidade de nascer para honra e glória de Deus.

Ao meu pai, Néris Campos Lima (In Memorian), que mesmo não tendo conhecido a
Cristo como seu Senhor e Salvador, foi grandemente usado por Ele para que hoje eu pudesse
viver esse momento de vitória.

À tia Juçara (Tia Jú) obrigada por você não desistir de mim. Tenho certeza que você
não se arrependeu. Te amo por tudo.

À Dina Araújo e todas as “Servas do Rei”, por suas fiéis intercessões.

Ao amigo Anderson Alves Rossi, por me fazer sentir tão à vontade e tão transparente.
Você é muito especial.

À irmã Alice, por ser uma mantenedora sensível, que só chegava às horas certas.

À irmã Zélia por seu carinho, admiração e cuidado expresso de forma tão maravilhosa.

À colega íntima Itatiara Facure por sua paciência, carinho e dedicação em momentos
de grandes lutas, desafios e debilidades.

Aos meus professores que compartilharam dos seus conhecimentos, contribuindo


assim para o meu crescimento ministerial.

Ao mestre Leonardo Paulino que de forma singular se dedicou à orientação deste


trabalho.

Ao Pastor Lídio Osório que contribuiu de forma especial na elaboração desta


monografia.
7

RESUMO

Alguns têm considerado um grande desafio entender o que de fato os autores


neotestamentários escreveram em seus livros, e o que entenderam seus primeiros leitores. Ao
ler as muitas traduções existentes em nosso vernáculo, tanto quanto os muitos comentários
bíblicos, percebemos que os questionamentos são ainda maiores do que imaginamos. Neste
trabalho, abordaremos a complexidade de não estarmos lendo o texto na língua original e das
desvantagens que isto nos proporciona quanto ao completo entendimento do mesmo ao
expositor. Estabelecemos como referencial teórico gramáticas gregas, léxico, comentários
bíblicos, e autores que abordam pregação expositiva no Novo Testamento. Fica configurada,
aqui, uma reflexão sobre a pesquisa no texto original neotestamentário, de forma a considerar
também os aspectos históricos e culturais que o constituem.
8

ABSTRACT

Some have been considering a great challenge to understand the one that in fact the authors of
the New Testaments wrote in yours books, and what understood its first readers. When
reading the a lot of existent translations in our vernacular, so much as the many biblical
comments, we noticed that the questions are still larger than we imagined. In this work, we
will approach the complexity of we be not reading the text in the original language and of the
disadvantages that this provides us with relationship to the complete understanding of the
same to the exhibitor. We established as reference theoretical Greek grammars, lexicons,
biblical comments, and authors that approach the preaching originating from of the biblical
exhibition in the New Testament. It is configured here, a reflection on the research in the
original text of the New Testament, in way to also consider the historical and cultural aspects
that constitute it.
9

SUMÁRIO

RESUMO.....................................................................................................................................7

ABSTRACT................................................................................................................................8

INTRODUÇÃO.........................................................................................................................10

CAPÍTULO I ANÁLISE DE TERMOS...................................................................................13

1 A relevância da língua grega..................................................................................................13

2 Exposição do Novo Testamento.............................................................................................15

CAPÍTULO II AS LIMITAÇÕES DE UMA INTERPRETAÇÃO DO NOVO


TESTAMENTO SEM A CONSULTA À LÍNGUA ORIGINAL.............................................18

1 Limitação léxica......................................................................................................................20

2 Limitação sintática..................................................................................................................23

2.1 CONJUNÇÃO kai...............................................................................................................24

2.2 TEMPO VERBAL AORISTO............................................................................................26

CAPÍTULO III AS VANTAGENS DA CONSULTA À LÍNGUA ORIGINAL (GREGO


KOINÊ) PARA A EXPOSIÇÃO DO NOVO TESTAMENTO...............................................30

1 Componentes do preparo para a exposição bíblica.................................................................31

2 A relevância dos originais......................................................................................................32

3 A língua original é consultada direta ou indiretamente.............................................,,.,.........36

CONCLUSÃO.................................................................................................................,,,,......38

BIBLIOGRAFIA.......................................................................................................................40
10

INTRODUÇÃO

Estamos atravessando um momento histórico nacional bastante difícil concernente à


área teológica e doutrinária da Igreja Cristã. Estamos inseridos num contexto evangélico
nacional marcado por uma profunda confusão teológica, a qual se manifesta pela expressão de
várias e diferentes teologias e doutrinas de caráter espúrio, que supostamente estão sobre o
fundamento bíblico, mas que na verdade se revelam deturpações das Sagradas Escrituras.
Idéias errôneas dos homens, invenções humanas, e muitas vezes até ações demoníacas, a fim
de macular a pureza doutrinária da Igreja de Cristo e disseminar o erro entre o povo de Deus.
Acreditamos que uma das fortes razões pelas quais as distorções teológicas têm se
manifestado e se alastrado no seio do Protestantismo seja o fato da ausência de uma análise e
estudo acurados e responsáveis da Palavra de Deus. Para que isso ocorra, um fato de
considerável relevância é o conhecimento das línguas originais. O domínio dos idiomas nos
quais foram escritos a Bíblia é de valor inestimável e de grande utilidade para que as verdades
bíblicas sejam extraídas dos textos, bem como o impacto que as mesmas causaram em sua
época.
Como estaremos abordando os escritos neotestamentários, o foco da presente pesquisa
será a relevância da língua grega para a exposição do Novo Testamento.
Ao longo dos séculos, os cristãos têm estimado muito a Bíblia, aceitando-a como
Palavra de Deus escrita. Poucos, porém, já se precipitaram em dizer que é fácil compreendê-
la. Contudo, como seu objetivo é revelar a verdade e não ocultá-la, não há dúvida de que Deus
pretende que a entendamos. Além do mais, é vital que compreendamos a Bíblia, pois nossas
doutrinas sobre Deus, o homem, a salvação e os acontecimentos futuros dependem de uma
interpretação correta das Escrituras.
Orígenes1 (185 – 254 d.C.), por exemplo, considerava muito a inspiração das
Escrituras, mas foi culpado de fazer mau uso da Bíblia ao menosprezar seu sentido literal e
encará-la como “uma enorme alegoria” com muitos significados ocultos.
Infelizmente, observamos que muitos seminaristas, os quais se constituem público
alvo da presente pesquisa, não dispensam o devido valor ao estudo básico da língua grega
ministrado como cadeira obrigatória nos cursos de Bacharelado em Teologia dos seminários

1
Pai da Igreja – Pós-Niceno e influenciador da escola de interpretação Alexandrina. (CAIRNS, Earlle. O
cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2003. p. 113).
11

e, por conseguinte não fazem uso dessa língua no seu estudo da Palavra de Deus, resultando
com isso em análises superficiais, as quais por sua vez resultam em equívocos interpretativos.
Algumas pessoas, por sua vez, interpretam a Bíblia erroneamente sem o saber. Muitas
vezes vítimas da falta de oportunidade de um aprendizado adequado, ou até mesmo da
negligência daqueles que gozaram desta oportunidade, mas não entenderam sua
responsabilidade de se tornarem referenciais e preparadores de outros.
Nos últimos anos, vemos um interesse crescente pelo estudo bíblico informal. Muitos
grupos pequenos reúnem-se em casas ou nas igrejas para debater a Bíblia e como aplicar sua
mensagem. Será que os integrantes desses grupos sempre chegam ao mesmo entendimento da
passagem estudada? Estudar a Bíblia dessa forma, sem as diretrizes apropriadas da
hermenêutica, pode gerar confusão e interpretações que se encontram até em inequívoco
desacordo.
Quando a Bíblia não é interpretada corretamente, a teologia de um indivíduo ou de
toda uma igreja pode ser desorientada ou superficial, e seu ministério, desequilibrado.
Segundo estudiosos, um dos maiores motivos por que a Bíblia é um livro difícil de
entender é o fato de ser antigo. Os cinco primeiros livros do Antigo Testamento foram
escritos por Moisés em 1.400 a.C. aproximadamente. Apocalipse – o último livro da Bíblia –
foi escrito pelo apóstolo João por volta de 90 d.C. Isto mostra que precisamos tentar transpor
vários abismos que se apresentam pelo fato de termos em mãos um livro tão antigo.
A primeira tarefa do intérprete chama-se exegese, que é o estudo cuidadoso e
sistemático da Escritura para descobrir o significado original que foi pretendido. A exegese é
basicamente uma tarefa histórica. É a tentativa de escutar a Palavra conforme os destinatários
originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intencionalidade original das palavras do
autor.
O objetivo proposto nesta pesquisa será o de mostrar a relevância do conhecimento da
língua grega do Novo Testamento, koinê, para uma melhor exposição do mesmo, focando
erros gramaticais e usuais que se cometem, ao tentarem uma correspondência entre uma
língua tão antiga e peculiar da época com a nossa nos dias de hoje. Ainda é necessário que se
leve em conta as limitações léxicas relacionadas ao novo tom dado pelos autores do Novo
Testamento a seus vocábulos e a sintaxe cristã peculiar aos mesmos, como citado
anteriormente.
Analisaremos, ainda, a complexidade do abismo lingüístico com suas expressões
incomuns ou de sentido obscuro, difíceis de compreender em nosso idioma, juntamente com
suas estruturas léxicas e sintáticas e suas múltiplas funções.
12

Alguns gramáticos acreditam que alguns autores bíblicos além de possuir princípios e
regras gramaticais que lhes eram próprios, possuíam até mesmo desregramentos gramaticais
curiosos.
As várias traduções a que se tem acesso hoje sofreram influências diversas, como
teológicas e culturais. Muitas vezes as palavras originais expressam mais uma idéia do que
propriamente um termo específico. Alguns sinônimos na língua original não encontram
correspondente na língua receptora. O mesmo ocorre com os comentários bíblicos, pois há
momentos em que a tradução depende muito mais de uma escolha pessoal baseada em alguns
pressupostos do que na verdade uma base segura do contexto.
Esses são apenas alguns motivos pelos quais o conhecimento e a prática da pesquisa
da língua grega tornam-se relevantes à exposição do Novo Testamento.
O método que utilizaremos na reunião do material e composição da presente pesquisa
é o bibliográfico.
13

CAPÍTULO I

ANÁLISE DOS TERMOS

A análise dos termos deste tema é necessária, por entendermos que os mesmos tendem
a assumir variados conceitos em diferentes contextos.
Assim, conceituaremos os termos relevância da língua grega e exposição do Novo
Testamento, com o objetivo de tornar claro para o leitor o conceito que estaremos usando no
bojo deste trabalho, para que com base na pesquisa bibliográfica fique evidente a relevância
do objeto de nossa pesquisa.

1. A RELEVÂNCIA DA LÍNGUA GREGA

Relevância pode significar um adjetivo atribuído a um sujeito que perdoa, ou ainda,


que é conveniente ou se importa com algo ou alguém. Pode significar também algo
que se alteia acima do que o circunda; superior, sublime; nobre e distinto.
Finalmente, pode se tratar de um substantivo masculino com o significado de
importante; o que tem importância ou é necessário 1.

Na presente pesquisa o termo relevância assumirá o significado de importante, ou seja,


que tem importância ou se faz necessário. Poderíamos, então, reescrever esse título da
seguinte forma: a importância da língua grega.
A definição de língua grega é necessária considerando as variações da língua, suas
transformações e a extensão da sua história. Mas só será possível entender de forma concreta
essa definição bem como o grego objeto de nossa pesquisa a partir de uma análise de sua
história.
A história da língua grega remonta para além de 2.000 a.C. chegando mesmo aos
tempos pré-históricos, às tribos primitivas da família ariana. É muito provável que as tribos
originais que falavam o grego mais primitivo habitassem nas praias do Mar Negro. Alguns
sábios acreditam que certos dialetos se desenvolveram formando o idioma grego, antes

1
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. 5.
ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 471.
14

mesmo de as tribos terem penetrado na área da Grécia atual. Os mais antigos dialetos parecem
ter sido o dórico, o aeólico e o jônico. O desenvolvimento desses dialetos teria ocorrido entre
1.600 a 2.000 a.C. tendo aparecido com quatro grupos distintos: aeólico (lésbio, tessalônico e
boécio), ático – jônico, arcádio - cipriata e grego ocidental (noroeste da Aetólia, Locris, Elis e
outros lugares; e dórico na Corcira, em Creta, em Rodes e em outros lugares).
A primeira migração de povos gregos para Europa Continental deve ter tido lugar
antes de 1.900 a.C. Provavelmente esse êxodo se deu através da Ásia Menor, segundo a
erudição moderna, com o auxílio da arqueologia, tem demonstrado.
O período clássico da língua grega é situado desde Homero2 (900 a.C.) até as
conquistas de Alexandre (330 a.C.). Posto que o dialeto ático fosse proeminente na literatura
grega antiga e na atividade filosófica, esse dialeto gradualmente foi sobrepujando os demais,
exercendo uma influência mais vasta que os outros. O dialeto ático, que era falado inclusive
em Atenas, tornou-se a força moldadora no desenvolvimento da língua grega.
Filipe da Macedônia (meados do séc. IV a.C.) efetuou a unificação política da Grécia,
e assim foi descontinuado o isolamento em que viviam as cidades-estados dos gregos. Os
dialetos começaram a desaparecer. O filho de Filipe, Alexandre o Grande, mediante suas
conquistas de âmbito mundial, espalhou a cultura e a língua grega por toda a parte. O
resultado disso, no que diz respeito ao idioma, foi o de dissipar mais ainda as diferenças
dialetais, emergindo assim uma única forma essencial do idioma grego, o koinê. Desse modo,
o grego se tornou um idioma universal.
As datas do período do koinê vão de 300 a.C. a 330 d.C. aproximadamente. Os
historiadores dizem-nos que esse grego era francamente falado em Roma, em Alexandria, em
Jerusalém e em outros centros populosos, tanto quanto era falado em Atenas3.
A língua grega, objeto de nossa pesquisa, será, portanto, o koinê. Isso pelo fato de ter
sido ela o idioma em que todo o Novo Testamento foi escrito em seu original. O Novo
Testamento é o maior monumento desse idioma universal.
O objetivo desta pesquisa é de estabelecer a relevância da língua grega koinê no
sentido de importante e/ou necessária na tentativa de escutar a Palavra de Deus conforme os
destinatários originais devem tê-la ouvido e descobrir qual era a intencionalidade original das
palavras do autor, pois entendemos que não se deve confundir relevante com imprescindível,
por não se tratar de algo que, de forma alguma, pode-se deixar de lado ou desprezar.

2
O maior dos poetas gregos do séc. X a.C.
3
CHAMPLIN, Russel N. Artigos introdutórios (1995, volume I, p. 164).
15

Apesar de muita controvérsia ter girado em torno da discussão sobre o caráter exato do
grego do Novo Testamento, numerosos documentos em papiro, descobertos no começo do
séc. XX, alguns fragmentários, e outras porções bastante extensas, começaram a revolucionar
todo o método de estudo da filosofia neotestamentária.
Os eruditos começaram a ver que o Novo Testamento havia sido escrito na língua
comum do povo, a língua franca do mundo greco-romano. Muitíssimos papiros bíblicos e
não-bíblicos foram encontrados. Entre eles, as declarações não-bíblicas de Jesus, manuscritos
autênticos do Novo Testamento, escritos completos não-bíblicos, como cartas particulares,
petições, pesquisas de terras, testamentos, contas, contratos e outros tipos de correspondências
diárias, além de vários tipos de literatura cristã primitiva. Tudo isso demonstrou que o Novo
Testamento, quanto à linguagem, não é substancialmente diferente da linguagem comum
daquela época. A vasta maioria das palavras do Novo Testamento, desconhecida no grego
clássico, tem sido encontrada nesses documentos.
O grego koinê é essencialmente ático, mas contém elementos dos outros dialetos,
especialmente no que toca à forma e soletração de algumas palavras. Deve-se notar também
que uma simplificação geral do ático clássico teve lugar na formação do koinê, tanto
gramaticalmente como em suas expressões. Assim sendo, o grego koinê pode ser muito mais
facilmente traduzido pelo estudante moderno do que os escritos clássicos.
Koinê é um termo que designa o grego helênico ali empregado, o que tem em vista o
linguajar comum do povo, o grego padronizado da época, em contraste com a linguagem dos
autores clássicos. Contudo, é necessário esclarecer que o koinê não era uma língua cheia de
gírias e de expressões pouco recomendáveis, mas a expressão de uma grande e frutífera
educação.

1.1 EXPOSIÇÃO DO NOVO TESTAMENTO

O termo exposição como objeto de nossa pesquisa, estará sempre relacionado à


pregação expositiva.
A pregação expositiva é uma comunicação de um conceito bíblico, derivado de, e
transmitido através de um estudo histórico, gramatical e literário de uma passagem
em seu contexto, que o Espírito Santo primeiramente aplica à personalidade e
experiência do pregador, e depois, através dele a seus ouvintes (ROBINSON, 2003,
p. 22).
16

Bryan Chapell (2002) acredita que a pregação expositiva não somente constrange o
pregador a interpretar o que a Bíblia diz, como também o obriga a explicar o que a Bíblia
significa na vida das pessoas hoje.
O fato do real sentido de um texto permanecer oculto até que compreendamos como
suas verdades podem governar nossas vidas, mostra-nos que a exposição completa não pode
ser limitada a uma apresentação de informações bíblicas. O expositor deve ajustar cada
detalhe explicativo da exposição a fim de que seu impacto sobre a vida do ouvinte seja
evidente.
As indicações dos deveres de nossa pregação emergem nas descrições da Bíblia das
palavras de Cristo, enquanto caminhava com dois discípulos na estrada de Emaús. Lucas
registra: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a
seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27 versão Revista e Atualizada – RA). A
palavra traduzida “expunha” quer dizer desvendar o significado de alguma coisa, ou
interpretar. Mais tarde, os dois discípulos comentam as palavras de Cristo dizendo:
“Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos
expunha as Escrituras?” (Lc 24.32 RA). Essa “exposição” das Escrituras expressa o conceito
de revelar as completas implicações de algo (como abrir completamente a porta para que se
veja o interior)4.
Desvendar e abrir o sentido da Palavra de Deus caracteriza a tarefa do expositor, não
apenas sobre a base do exemplo de Cristo, mas igualmente sobre a base do antigo precedente
bíblico, que define também as qualidades essenciais de exposição (apresentação da Palavra;
explicação da Palavra; e exortação fundamentada na Palavra)5.
A designação de Novo Testamento dada à segunda parte da Bíblia vem do latim
Novum Testamentum que vem a ser uma tradução do grego H KAINH DIAOHKH (Hē Kainē
Diathēkē) (TENNEY, 1995, p. 21).
Esta expressão grega era usada geralmente para designar “uma última vontade, ou
testamento”, como indica a tradução latina, sendo certo, contudo, que esta tradução não dá
exaustivamente todo o seu significado. O que significava realmente era uma disposição feita
por uma parte que a outra parte podia aceitar ou rejeitar, mas nunca alterar; essa disposição,
quando fosse recebida, obrigava pelas suas cláusulas as duas partes. Uma vez que o melhor
exemplo de tal escritura é um legado, usa-se o latim testamentum que traduzido em português
corresponde a testamento.

4
Grego – dianoigo.
5
Exemplo extraído de Neemias 8.5-8.
17

O termo Novo Testamento pode significar também pacto, ou seja, um ajuste,


estipulação ou contrato, que liga ambas as partes num acordo6. Implica mais do que uma
promessa, pois uma promessa obriga somente a pessoa que a fez, enquanto um pacto obriga
igualmente a ambas as partes que nele entram. Neste sentido aproximou-se da palavra
moderna “contrato”.
A palavra pacto tem este significado em Êxodo 24.1-8, que descreve a aceitação da
lei, pelo povo de Israel, no Monte Sinai. O fato de o tradutor grego do Antigo Testamento
usar diathēkē nesta passagem para traduzir a palavra hebraica que significa pacto, indica que
diathēkē pode ocasionalmente ter este sentido. E esta acepção é confirmada pela linguagem de
Lucas 22.14-20, onde o antigo pacto (diathēkē) de Êxodo 24.1-8 é posto em contraste com o
novo pacto (diathēkē) que Jesus fez com seus discípulos na última ceia.
O significado geral do termo grego é necessariamente o mesmo nos dois exemplos,
como o implica o contraste de “antigo” e “novo”.
O Novo Testamento é, portanto, o livro onde está registrado o estabelecimento e o
caráter das novas negociações de Deus com os homens por meio de Cristo. Deus põe as
condições que o homem, aceitando ou não, seguindo ou não, jamais poderá alterar, fica
obrigado a cumprir as suas exigências.
Este Novo Testamento dá corpo à revelação de Deus num Filho completamente justo
que dá aos que recebem a revelação o poder de se tornarem filhos de Deus, tornando-os
justos.
O termo Novo Testamento, implica em constranger o expositor a interpretar o que ele
diz como também o obriga a explicar seu significado na vida das pessoas hoje.
O Novo Testamento, como coleção de documentos da Antigüidade, escrito em outra
língua exige um esforço adicional para sua exposição, como o de levar em consideração seu
contexto original mediante o método conhecido como exegese gramático-histórica7.
A proposta desta pesquisa é evidenciar a necessidade do conhecimento e da pesquisa
no texto original para diminuir erros durante uma exposição, onde um conceito do Novo
Testamento será transmitido, ou seja, exposto através de um estudo histórico, gramatical e
literário em seu contexto.

6
TENNEY, Merril C. O novo testamento: sua origem e análise. 3. ed. São Paulo:Vida Nova, 1995, p. 21.
7
Um método de interpretação que enfatiza a necessidade de se levar em consideração as línguas originais e o
contexto das Escrituras. (KAISER, Walter C. Jr.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São
Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 17).
18

CAPÍTULO II

AS LIMITAÇÕES DE UMA INTERPRETAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO SEM A


CONSULTA À LÍNGUA ORIGINAL

Não se pode reconstruir o pensamento cristão primitivo se não se der atenção ao


estudo acurado da língua grega durante o primeiro século e se o estudante não possuir também
acurado conhecimento do significado e uso dos termos gregos pelos cristãos primitivos.
O alvo da boa interpretação é simplesmente chegar ao sentido claro do texto. Não
fosse por dois fatores, a natureza do leitor e a natureza do Novo Testamento, bastaria-nos
apenas a tarefa da leitura.
O fato de não estarmos lendo o texto na língua original (grego koinê) deixa-nos em
desvantagem logo que abrimos o livro. Há uma variedade significativa na sintaxe e no estilo
dos autores do Novo Testamento. Alguns gramáticos acreditam que além de possuir
princípios e regras que lhes eram próprios, possuíam até mesmo desregramentos gramaticais
curiosos. O Novo Testamento tem vocabulário próprio, com palavras raras e compostas,
algumas das quais formadas pelo próprio autor1.
O verbo metanoevw significava para o grego mudança de mente ou de opinião, mas
usado pelos profetas hebreus, por João Batista ou por Jesus, queria dizer completa mudança
de caráter e disposição, abandono completo de atitude negativa para com Deus e consigo
próprio e a tomada de outra posição diferente, positiva2. Esta mudança de significado é
alcançada pelo conceito de pecado dos judeus, diferente dos gregos em tudo.
A influência cristã na semântica3 das palavras e na sintaxe do Novo Testamento é
notável. Alguns desses novos significados têm um caráter técnico ou ritual.
Os autores do Novo Testamento deram, em geral, um novo tom a seus vocábulos.
Elevaram, espiritualizaram e transfiguraram palavras então correntes, colocando velhos
termos em nova roupagem, acrescentando mais brilho às concepções já luminosas. Palavras
como agaph, eirhvnh, zwhv, pivsti, swthriva, cavri, suneivdhsi transformaram-se em instrumentos

1
BITTENCOURT, B. P. O novo testamento: cânon, língua, texto. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1984. pp. 63,
64, 65, 66).
2
Exemplo extraído da obra de BITTENCOURT (1984, p. 60).
3
Estudo das mudanças ou trasladações sofridas, no tempo e no espaço, pela significação das palavras.
19

de grande poder a elevar a língua do Novo Testamento a pedestal de glória que só com o novo
movimento poderia alcançar.
Tome-se, por exemplo, eirhvnh4. Nos escritores clássicos, ou mesmo no período ático,
quer dizer libertação ou cessação de guerra ou luta. No Antigo Testamento a palavra ainda
guarda significado semelhante ao traduzir o momento em que a ira de Deus cessa e restaura a
harmonia entre Ele e os homens (Sl 29.11; 85.8, 10; Is 57.19; Ez 34.25). No Novo Testamento
“paz” indica o estado espiritual de gozo ao qual a graça e a misericórdia de Deus conduzem o
homem por sua libertação do pecado. É algo que vem depois da justificação pela fé (Rm 5.1).
A própria sintaxe cristã é diferente. A frase preposicional en Cristw/ë envolve uso
especial do dativo locativo. Jamais alguém no passado escreveu que estava “em Moisés” ou
“em Platão”. Alguns chamam esta construção de dativo místico. pisteuvein5 como usado pelos
autores do Novo Testamento, especialmente por Paulo e no Quarto Evangelho, indica mais
que confiança pessoal: é a entrega total, é união mística en Cristw..
As várias traduções acessíveis hoje, sofreram influências diversas, como teológicas e
culturais. Muitas vezes algumas palavras originais expressam mais uma idéia do que
propriamente um termo específico. Alguns sinônimos na língua original não encontram
correspondente em nossa língua.
Não temos por objetivo o questionar a inspiração da Palavra de Deus que, entendemos
estar preservada pelo mesmo. Mas, o de resgatar o impacto causado aos primeiros leitores do
Novo Testamento, perdido em parte em nossos dias e cultura.
Consultar a língua original de qualquer obra é não cair nas armadilhas de
“significados” e de “anacronismos”6 alcançando um entendimento também original em
relação ao seu autor.
Somado aos erros gramaticais e usuais que se cometem, ao tentarem uma
correspondência entre uma língua tão antiga e peculiar da época com a nossa nos dias de hoje,
ainda é necessário que se leve em conta às limitações léxicas relacionadas ao novo tom dado
pelos autores do Novo Testamento a seus vocábulos, e a sintaxe cristã, peculiar aos mesmos,
como citado anteriormente.

4
Paz.
5
Crer (infinitivo).
6
Confusão de data quanto a acontecimentos, pessoas, ou significado de termos.
20

1. LIMITAÇÃO LÉXICA

A lexicologia é a parte da gramática que se ocupa da etimologia das palavras e das


várias acepções delas. (FERREIRA, 2001, p. 333).
Para interpretar lexicamente, faz-se mister conhecer a etimologia dos vocábulos, o
desenvolvimento histórico de seu significado e o uso específico no documento em
consideração. Dever-se-á notar cuidadosamente o sentido do termo enfocado em diferentes
autores de um mesmo período. Exemplo dá-nos a palavra daimovnion. No Novo Testamento
geralmente expressa um ser espiritual maligno (um demônio) que produz distúrbios físicos ou
mentais nas criaturas humanas. Josefo tomou-o na acepção de uma deidade, uma divindade.
Aparece neste sentido uma vez no Novo Testamento, em Atos 17.18: xevnwn daimonivwn dokei
kataggeleu einai (“parece ser proclamador de deuses estrangeiros”).
Outros exemplos serão extraídos do livro de Tito, que passará, então, a nortear o
presente capítulo.
As palavras, como dito anteriormente, assumem significados específicos em
documentos e contextos também específicos. Nos documentos neotestamentários, objeto da
presente pesquisa, mais particularmente na carta do apóstolo Paulo a Tito (1.6), ao estabelecer
qualificações para a ordenança de ministros o apóstolo usa o substantivo aswtiva1
(libertinagem, esbanjamento) ao referir-se aos filhos dos mesmos.
Histórica e culturalmente, os primeiros leitores do texto em questão, ao lerem tal
substantivo tinham um entendimento, subconsciamente, do sentido em foco. Era inevitável
não entender que se tratava da incapacidade de guardar dinheiro, alguém que o desperdiçava
especialmente com a implicação de fazê-lo em prazeres, arruinando, desse modo, a si mesmo,
com vida luxuriosa e extravagante. Era alguém libertino e esbanjador. Significava
“prodigalidade, desperdício, e dissipação”2. Não tinha necessariamente a idéia de gastos
corruptos, dissolução, (RA e Revista e Corrigida Fiel – RCF), nem tão pouco de maldade
como menciona a Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH).
Como podemos observar, se tentarmos um paralelo entre nossas traduções, nossos
dicionários da língua portuguesa e os originais estaremos dando ao texto uma idéia espúria e
impondo ao mesmo um significado desconhecido ao autor e à compreensão dos primeiros
leitores.

7
Substantivo, feminino, singular, genitivo de aswtiva, a", h.
8
Dicionário Vine (pp. 717 e 953).
21

De igual forma podemos citar o exemplo do termo mansidão. O que dizer a respeito da
compreensão que temos quanto a mesma?
Quando não a entendemos como um temperamento pacífico, não agressivo ou não
violento, sereno e tranqüilo3, entendemos como fraqueza e pusilanimidade em maior ou
menor extensão.
No entanto ao analisarmos prauvthta4 (mansidão) no verso dois do capítulo três da
carta do apóstolo Paulo a Tito, não consiste só no comportamento exterior da pessoa; nem
ainda em suas relações para com o próximo; tampouco na sua mera posição natural 5. Antes é
uma entretecida graça da alma, cujos exercícios são primeira e primariamente para com Deus.
Na verdade a mansidão é a entrega da nossa vontade a Deus. Exige que nossa atitude egoísta
seja substituída pela submissão àquele que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua
vontade” (Ef 1.11).
A mansidão diz respeito às nossas reações diante das circunstâncias e das pessoas que
Deus coloca em nosso caminho. O fato de sermos afetados por aquelas circunstâncias da vida
que estão além do nosso controle pertence ao âmbito da mansidão.
Abraão exemplificou a mansidão quando Deus o testou, ordenando-lhe que
sacrificasse seu único filho Isac (Gn 22). Esse herói do Antigo Testamento não levantou
objeções. Não discutiu com Deus. José demonstrou mansidão de um modo singular. O ódio e
o desprezo dos seus irmãos não provocaram nele revolta nem hostilidade. Quando acusado
falsamente de ter tentado estuprar a mulher de Potifar, ele superou essa injustiça ao considerá-
la uma provocação benéfica proveniente de Deus. Os anos que passou na prisão foram para
ele como que um treinamento para desempenhar um serviço maior. Apenas os
verdadeiramente mansos são capazes de passar por tão duras provações sem sentir mágoas,
nem acalentar um espírito de vingança.
Poderíamos prosseguir em outros diversos exemplos envolvendo de Davi ao próprio
Jesus. No entanto, o mais importante é observar que todas as atitudes de mansidão eram
relacionadas às atitudes e reações diante das circunstâncias que se tinha a enfrentar.
Não é de se admirar que o apóstolo Paulo tenha dito que toda mansidão deveria ser
mostrada a todos os homens (Almeida Corrigida Fiel - ACF). Significando um coração que
não luta contra Deus e nem se debate com Ele. Esta mansidão, porém, sendo em primeiro
lugar uma mansidão perante Deus, também o é diante dos homens, até de homens maus,

9
FERREIRA, 2001, p. 447.
10
Substantivo, feminino, singular, acusativo de prauvth".
11
Dicionário Vine (pp. 771, 772).
22

proveniente de um senso de que estes, com os insultos e danos que possam infligir, são
permitidos e empregados por Ele para castigo e purificação dos eleitos.
O entendimento comum à época era que quando o homem era manso, era porque ele
não podia se ajudar. O Senhor Jesus era manso (Mt 11.29) porque Ele tinha os recursos
infinitos de Deus à sua disposição.
Mediante tal análise percebemos claramente a distância de equivalência léxica entre o
termo mansidão para os originais neotestamentários e para época hodierna.
Enriqueceremos o assunto em questão usando um último exemplo: oikonovmoj (Tt 1.7).
A palavra despenseiro é muito comum no Novo Testamento. O vocábulo grego
oikonovmoj designa um mordomo ou superintendente (geralmente um escravo), encarregado de
providenciar o alimento e todas as coisas necessárias a uma grande propriedade. Ele prestava
contas, não aos seus colegas, mas ao seu senhor. Não tinha de tomar suas próprias iniciativas,
e muito menos exercer sua própria autoridade pessoal. Simplesmente tinha de cumprir as
ordens do seu senhor e cuidar do serviço.
Da mesma forma, Paulo se considera responsável, não perante o povo de Deus ou
qualquer Tribunal humano (1Co 4.3), mas somente perante o Senhor. E é assim que ensina a
Tito. Paulo ensina que os ministros devem ter uma consciência tenaz de que devem prestar
contas de sua mordomia, e que esta consciência deve torná-los ainda mais sensíveis e alertas
para as necessidades dos irmãos. Não os dominando, nem os bajulando, mas agindo de modo
responsável com eles, sem privá-los do que Deus providenciou para eles.
Como um bom mordomo, o ministro vai garantir que o alimento certo chegue na hora
certa. O mordomo nada tem a oferecer exceto o que ele mesmo recebe do seu Senhor. A
motivação suprema deve consistir em que “um dia terei de prestar contas a Deus”. O
mordomo não espera condenação nem louvor de ninguém, deixa que seu Senhor faça o
julgamento de seu trabalho.
Com essa explicação cultural da época neotestamentária em relação ao vocábulo
oikonovmoj (despenseiro) e da imagem produzida nas mentes da época, entendemos que o
objetivo de todo líder e mestre do evangelho, o propósito e meta de todas as suas lutas, inclui
“a administração da fé requerida por Deus”.
O mordomo dentro desse contexto vai além de distribuição de cestas básicas, e
organizações burocráticas ou de espaço e lugares para sentar, mas sim administrar os tesouros
espirituais com respeito à casa ou família de Deus.
Concluímos, então, que uma definição de fidelidade tem como foco o significado do
original. A estrutura lingüística do original era natural e significativa, ou seja, inteligível. Não
23

apresentava uma estrutura gramatical ou léxica que fosse impossível ou muito difícil de
entender. Pelo contrário, era uma estrutura usada nos diálogos do dia-a-dia. Esta característica
dava ao texto original uma qualidade dinâmica que deve ser preservada numa tradução fiel6
para exposição em nossos dias, comunicando ao ouvinte ou leitor a mesma informação e
impacto que o original comunicou aos primeiros leitores. A mensagem não é alterada nem
distorcida; não ganha nem perde em conteúdo mais do que o inevitável.

2. LIMITAÇÃO SINTÁTICA

Sintaxe é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras nas frases e das
frases no discurso. (FERREIRA, 2001, p. 507).
Para interpretar sintaticamente, é necessário que se conheça os princípios gramaticais
da língua em que o documento foi originalmente escrito. O expositor deve lembrar-se, a todo
tempo, de que a função da gramática é simplesmente expor leis da língua, não determiná-las.
Isto é, desenvolveu-se primeiramente a língua como instrumento de comunicação das idéias
da humanidade e, depois, escreveram-se gramáticas voltadas à explicação das leis e princípios
que lhe regem a operação como veículo de expressão do pensamento. Na língua nativa,
percebe-se o sentido da fraseologia quase que subconsciamente, mas em se tratando de língua
estrangeira, tem-se de adquirir, mediante diligente esforço e labor, a perspectiva da língua e
acompanhar-lhe de perto as formas de expressão para alcançar-lhes o real significado.
Como vimos anteriormente, uma mesma palavra pode ter vários sentidos. Essa
associação de uma forma com vários sentidos não se limita apenas aos itens léxicos, pois
ocorre também nas funções múltiplas das estruturas gramaticais. Além disso, assim como os
sentidos que se associam a uma palavra são específicos para cada língua, também são
específicas as várias funções que se relacionam com uma determinada estrutura gramatical.
Referente à limitação sintática, escolhemos na epístola de Paulo a Tito duas funções
múltiplas, dentre as tantas outras existentes, que têm apresentado muitos problemas aos
expositores. São elas: conjunções e o tempo verbal Aoristo.
É mister lembrar que não faremos nenhuma análise profunda dos tópicos em questão,
mas uma análise breve e, ao mesmo tempo fundamental para ilustração do assunto em
questão.

12
Uma tradução que transfere o significado e a dinâmica do texto original.
24

2.1. CONJUNÇÃO kai

Conjunção é a palavra que liga duas orações ou dois termos semelhantes de uma
mesma oração. (PASCHOALIN, 1996, p. 135).
Freqüentemente, ligamos palavras e palavras, frases a frases, cláusulas e cláusulas.
Isto deu origem a uma classe de vocábulos conectivos, por isso chamados de conjunções.
(CHAMBERLAIN, 1989, p. 170).
Há uma grande quantidade de conjunções no grego, jungindo7 não apenas palavras,
frases, cláusulas e até sentenças, mas ainda parágrafos a parágrafos. A conjunção serve para
tornar clara a relação entre os dois elementos por ela unidos.
As conjunções se dividem em duas classes gerais, uma que une elementos de projeção
diversa, designada de hipotética ou subordinante, e outra, de conjunções que unem elementos
de igual projeção, designadas de paratéticas8 ou coordenantes.
kaiv estabelece ligação, em moldes não precisamente definidos, por isso é a conjunção
mais usada através do Novo Testamento. Admite, de modo geral, três acepções distintas, que
não se limitam aos escritos neotestamentários.
Mero conectivo, a traduzir-se como e. É, naturalmente, o uso mais freqüente e mais
simples, por vezes a aparecer em cadeia, numa seriação de vocábulos de qualquer
modalidade, como se vê em Filipenses 4.9 “a] kai. evma,qete kai. parela,bete kai. hvkou,sate kai.
ei;dete evn evmoi, tau/ta pra,ssete kai. o` qeo.j th/j eivrh,nhj e;stai meq u`mw/n ”9 (quatro vezes,
verbos), Romanos 9.4 “oi[tine,j eivsin VIsrahli/tai w-n h` ui`oqesi,a kai. h` do,xa kai. ai` diaqh/kai
kai. h` nomoqesi,a kai. h` latrei,a kai. ai` evpaggeli,ai”10 (cinco vezes, substantivos), Apocalipse
7.12 “le,gontej VAmh,n h` euvlogi,a kai. h` do,xa kai. h` sofi,a kai. h` euvcaristi,a kai. h` timh. kai. h`
du,namij kai. h` ivscu.j tw/| qew/| h`mw/n eivj tou.j aivwn/ aj tw/n aivwn, wn\ avmh,n”11 (seis vezes,
substantivos).

Não raro do contexto surgem matizes de sentido que afetam o teor básico e permitem
ou impõem tradução específica. É o que se pode ver em João 3.19 (“au[th de, evstin h` kri,sij
o[ti to. fw/j evlh,luqen eivj to.n ko,smon kai. hvga,phsan oi` a;nqrwpoi ma/llon to. sko,toj h to. fw/j

13
Ligar por jugo, subjugar.
14
De parataktiko ", forma adjetiva procedente de paratassw – coloco ao lado; arranjo de par com.
9
O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz será
convosco.
10
São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas.
11
Dizendo: Amém! O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder, e a força sejam
ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!
25

h=n ga.r ponhra. auvtw/n ta. e;rga”)12; 4.20 (“oi` pate,rej h`mw/n evn tw/| o;rei tou,tw| proseku,nhsan
kai. u`mei/j le,gete o[ti evn ~Ierosolu,moij evsti.n o` to,poj o[pou dei/ proskunei/n”)13; 6.46; (“ouvc
o[ti to.n pate,ra tij e`wr, ake,n eiv mh. o` wn para. tou/ qeou/ ou-toj e`wr, aken to.n pate,ra)14 7.30
(“VEzh,toun ou=n auvto.n pia,sai kai. ouvdei.j evpe,balen evp auvto.n th.n cei/ra o[ti ou;pw evlhlu,qei h`
w[ra auvtou/”)15 e 1 João 2.9 (“o` le,gwn evn tw/| fwti. ei=nai kai. to.n avdelfo.n auvtou/ misw/n evn th/|
skoti,a| evsti.n e[wj a;rti”)16, em que o teor adversativo ou concessivo parece prevalecer,
reclamando a tradução e, no entanto; e, contudo; porém; mas, antes. Em Lucas 12.24
(“katanoh,sate tou.j ko,rakaj o[ti ouv spei,rousin ouvde. qeri,zousin oi-j ouvk e;stin tamei/on ouvde.
avpoqh,kh kai. o` qeo.j tre,fei auvtou,j po,sw| ma/llon u`mei/j diafe,rete tw/n peteinw/n”)17,
entretanto, parece estabelecer um contraste, correspondendo, destarte, à adversativa enfática
avlla.. Neste caso, outra vez, é injunção do contexto. Já em Marcos 15.25 (“kai. o[te evne,paixan
auvtw/| evxe,dusan auvto.n th.n porfu,ran kai. evne,dusan auvto.n ta. i`ma,tia ta. i;diaÅ kai. evxa,gousin
auvto.n i[na staurw,swsin auvto,n”) parece quase assumir o sentido temporal de o[te – quando:
h=n de. w[ra tri,th kai. evstau,rwsan auvto,n – “era a hora terceira QUANDO (o) crucificaram”
(grifo meu).
Elemento adjuntivo, quando se deve traduzir por: também; assim como. Nesta
acepção, não exerce propriamente função conjuncional, coordenante, mas é de conveniência
considerá-la neste contexto para que apreenda o estudioso esta especial distinção do sentido
de um mesmo termo. Nestes moldes aparece com substantivos: kaiV oi maqhtaiv sou (Jo 7.3) –
“os teus discípulos também”; com pronomes: kai gar egw anqrwpo upo exousivan (Mt 8.9) –
“pois também eu (sou) um homem sob autoridade”. O kai dá a entender que estão ambos em
situação similar, o jovem enfermo e o centurião. Pode ocorrer também com verbos, advérbios
e mesmo conjunções.
Elemento ascensivo, quando requer a tradução kai telw’nai até; mesmo; até mesmo.
É climático em teor. Introduz algo especial, fora do comum: (Mt 5.46) acentua que, “até”
mesmo publicanos amam aos que os amam e, daí, esse padrão de amor não se pode aceitar
como adequado aos filhos do Pai Celestial. O grau de intensidade desta acepção decorre
inteiramente do contexto.

12
O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as
suas obras eram más.
13
Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.
14
Não que alguém tenha visto o Pai, salvo aquele que vem de Deus; este o tem visto.
15
Então, procuravam prendê-lo; mas ninguém lhe pôs a mão, porque ainda não era chegada a sua hora.
16
Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas.
17
Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os
sustenta. Quanto mais valeis do que as aves!
26

Dois exemplos práticos podem ser encontrados em Tito 1.1 e 1.9, com relação à
abordagem feita acima.
No versículo 1 do capítulo 1 de Tito temos a frase: Paulo doulo qeou' apovstolo de
Ihsou' Cristou' kata pivstin ekleltw'n qeou' kaiV (grifo meu) epivgnwsin alhqeiva th kat j
eujsevbeian (“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos
eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade - RA). Neste primeiro
texto encontramos a conjunção kai com função de coordenativa copulativa, ou seja,
estabelecendo relação de soma como mero conectivo (... “para promover a fé ... e para
promover o pleno conhecimento”...).
Já no versículo 9 do mesmo capítulo: antekovmenon tou' kata thVn didachVn pistou'
lovgon, ina dunato kai (grifo meu) parakalei'n ejn th'/ didaskalia/ th' ugiainouvsh/ kai
antilevgonta elevgkein (“apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha
poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem - RA).
Encontramos a conjunção kai com função coordenativa correlativa. Uma função que na
verdade expressa unidade um tanto mais íntima do que lhe é de costume. Via de regra, viria
proposta com a partícula enclítica tev mais a palavra ou locução de que é conectivo (exemplo:
te kai ... te – não só ... mas também; tanto ... quanto; assim ... como). Passando uma idéia de
relação mútua, com o mesmo teor de intensidade. De uma só fonte (“apegado à palavra fiel”)
vem o poder para exortar e para convencer, persuadir pelo reto ensino.

2.2 TEMPO VERBAL AORISTO

Quanto ao tempo verbal, conviria ao expositor desde logo desvencilhar-se da noção de


que a idéia primária da flexão verbal do grego é tempo (momento da ação). A idéia
fundamental é a qualidade de ação estatuída.
Há uma nuança temporal na flexão verbal do grego, todavia, é de todo secundário em
relação à expressão qualitativa da ação. Este dado temporal se evidencia explicitamente só no
modo Indicativo. Nos modos Subjuntivo, Optativo e Imperativo e no Infinitivo e no
Particípio, é aspecto inteiramente relativo, quando neles subsiste.
Essa é a razão de encontrarmos todos os tempos verbais no Indicativo, enquanto os
demais modos se limitam praticamente ao presente e ao aoristo.
27

A ação pode se focalizar como em progresso, em andamento. A designação comum


desta modalidade processual é ação linear ou durativa. A ação pode se apresentar como
completa. Quando é o caso, dá-se-lhe o nome de ação perfeita, isto é, ação de todo acabada. A
ação pode se ver como simples, indefinida (aorística, aopisto, de aorizw – não defino).
Designa-se convencionalmente esta modalidade expressional de ação punctilear.
Usaremos em nossa pesquisa o tempo verbal aoristo, por se tratar de um tempo
inexistente na língua portuguesa. Originalmente, o tempo usado para o passado, no grego, era
o perfeito. Dele surgiram os tempos secundários: imperfeito, aoristo (passado) e mais-que-
perfeito. O tempo perfeito expressa a idéia de uma ação que foi feita no passado, mas
continua no presente (permafeita) ou (permofeita). O tempo imperfeito expressa uma ação
contínua no passado. Mostra-nos que durante certa época do passado, uma determinada ação
esteve sendo praticada (linear). O tempo mais-que-perfeito expressa uma ação realizada no
passado, mas com os resultados permanecendo, por algum tempo, no passado (perfectiva).
O aoristo transmite a idéia da ação ou estado vistos como um evento. No indicativo,
usualmente tem a ver com o passado, mas em outros modos, e no infinitivo e no particípio,
não há qualquer referência temporal. É o tempo mais comum e importante do grego, e o
expositor fará muito bem em dominar sua natureza e uso. Freqüentemente a melhor tradução
em português é o pretérito perfeito (egavneto afnw ek tou' ouravou' mcoj) “De repente soou um
som dos céus” At 2.2.
Ao mesmo tempo em que o aoristo olha a ação como um todo, pode também
contemplá-la de diversos ângulos.
O aoristo constativo contempla a ação como uma totalidade, sem levar em conta a sua
duração, não visando indicar seu início ou fim. Também pode ser usado para expressar
atividade durante um período de tempo, quando essa atividade é vista simplesmente como um
fato único, por exemplo: “João correu”. Não há nenhuma idéia de ênfase sobre a continuidade
da ação. Em Atos 1.5, temos outro bom exemplo: Iwavnnh meVn ebavptisen udati (João batizou
com água).
O aoristo ingressivo coloca sua ênfase sobre o início da ação ou evento. Normalmente
é o sentido do verbo que determina isto. “Ele viveu” no sentido de “ele veio à vida” é,
claramente, ingressivo, pois se quiséssemos enfatizar a continuidade da vida usaríamos o
imperfeito. Em Jo 11.35 podemos observar bem essa diferença: edakrusen o Ihsou (“Ele se
pôs a chorar”).
O aoristo culminante ou efetivo é usado para indicar o término de um estado ou ação.
Novamente, é o sentido do verbo que determina este uso. Emprega-se geralmente com verbos
28

que significam esforço ou processo onde o aoristo mostra a obtenção do fim ou resultado dos
mesmos. Podemos observar este exemplo em Atos 5.4: “ouvk evyeu,sw avnqrw,poij avlla. tw/|
qew/”| . (Você não mentiu a homens, mas a Deus), primeiro a pessoa deve tomar a decisão de
mentir, depois elaborar a mentira e, finalmente, mentir.
O aoristo gnômico é usado para expressar um fato, verdade atemporal. Pode ser
encontrado em Lucas 7.35: edikaivwqh h Sofia apo pantwn tw'n tevknwn auth (A sabedoria é
justificada por todos os seus filhos).
O aoristo epistolar é usado para descrever uma ação ou estado a partir do ponto de
vista do leitor. De algum modo este aoristo é similar ao culminante. Paulo escreve em Fp
2.28: “spoudaiote,rwj ou=n e;pemya auvto.n i[na ivdo,ntej auvto.n” (“Eu o mandei”). Na verdade
quando Paulo escreveu ainda não o havia mandado, só o mandou após terminar a carta e,
quando a declaração é lida a ação chega a seu término.
Mais uma vez, deve ser enfatizado que o contexto e o significado do verbo usado são
os fatores determinantes. É uma falsa metodologia nomear primeiro o aoristo e, depois,
traduzir o verbo. O método correto trabalha com a oração e deixa o contexto determinar a
nuance do aoristo usado.
Do contexto decidir-se-á, em cada caso, o sentido conveniente, pois ao explicar o texto
o expositor deve ter em mente que o objetivo principal é atingir o mesmo grau de clareza e
ênfase que foi expresso no grego.
Dentro da epístola eleita como objeto de estudo do presente capítulo (a de Paulo a
Tito) extrairemos três exemplos que certamente tornarão mais clara as explicações dadas
acima.
Em Tito 1.2 temos: “na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir
prometeu (ephggeivlato 18) antes dos tempos eternos” (RA). Nesse caso trata-se de um aoristo
constantivo, pois é um tema verbal que expressa a noção de um ato continuado, durativo. Foi
prometida uma só vez, mas por ter sido prometido nos tempos eternos tem duração eterna.
Dá-nos também o entendimento de que a promessa feita na eternidade foi-nos revelada em
Gênesis 3.15 e iniciada em Filipenses 1.6.
E em Tito 1.3: “e, em tempos devidos, manifestou (efanevrwsen19) a sua palavra
mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador” (RA). Temos
um aoristo gnômico por se tratar de uma verdade “universal” e “atemporal”. Pois, a
manifestação da palavra de Deus na pregação de Paulo é uma verdade eterna e
24
Verbo terceira pessoa singular aoristo médio indicativo do verbo epaggellomai.
25
Verbo terceira pessoa singular aoristo ativo indicativo do verbo fanevrow.
29

conseqüentemente quando a pregação apostólica é repetida a manifestação da palavra


continua a acontecer.
Finalmente temos Tito 1.5: “Por esta causa, te deixei (apevlipon20) em Creta, para que
pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros,
conforme te prescrevi” (RA). Este aoristo é conhecido também como “efetivo” ou “aoristo de
desfecho” e ainda “ponto culminante”. Assinala que a ênfase está projetada ao final da ação.
A idéia é que, possivelmente, a princípio, o apóstolo Paulo não tinha intenção de deixar Tito
em Creta, mas ao se deparar com alguns problemas relevantes no local, após pensar, quem
sabe orar, e até conversar com Tito resolve deixá-lo lá (em Creta) para organizar e constituir
líderes locais. Por isso a ênfase projeta o fim da ação, a decisão final.
Como exposto no referente capítulo, esses fenômenos chamados de funções múltiplas,
tanto na estrutura léxica das línguas como na estrutura gramatical das mesmas, podem levar o
expositor a associar uma estrutura do original com uma da Língua Receptora, mesmo quando
a primeira contém uma ou várias funções que não correspondam àquelas encadeadas na
última. Para que isso não aconteça, é importante que o expositor tome conhecimento destes
fenômenos, uma vez que consta de uma natureza específica a cada língua.

26
Verbo primeira pessoa singular aoristo ativo indicativo do verbo apoleipw.
30

CAPÍTULO III

AS VANTAGENS DA CONSULTA À LÍNGUA ORIGINAL (GREGO KOINÊ) PARA


A EXPOSIÇÃO DO NOVO TESTAMENTO

Como vimos no capítulo anterior, não podemos partir do pressuposto de que as regras
lingüísticas da sintaxe de nossa língua ou as nuanças das palavras de nosso vocabulário
correspondam àquelas do grego do Novo Testamento; caso contrário, corremos o risco de
impor nossas idéias sobre o texto bíblico.
Semelhantemente, se falharmos em tomar nota das características distintivas culturais
da sociedade hebraica ou das circunstâncias históricas por detrás de um livro do Novo
Testamento, permitiremos que nosso “filtro” mental, isto é, nossos preconceitos, determinem
o que as passagens bíblicas podem ou não significar.
Percebemos, então, que o desafio da exposição bíblica não diz respeito somente à
linguagem do texto, mas, também à História. Em outras palavras, quando lemos o Novo
Testamento nos deparamos com um número muito maior de detalhes sobre os quais somos
ignorantes do que podíamos imaginar.
Esse modo de tratar a questão nos ajuda a reconhecer que os problemas da exposição
do Novo Testamento são normalmente nossos e, não do mesmo.
Por isso, a presente pesquisa não tem por objetivo superestimar o valor de se conhecer
o grego koinê. Como sugerimos no primeiro capítulo, seria extremamente lamentável dizer
que os cristãos quem têm acesso à Bíblia somente por meio de suas modernas traduções são
incapazes de aprender por si mesmo o que é a mensagem de salvação.
O alvo do estudo bíblico, como o da pregação expositiva, é um entendimento do texto
quanto ao seu sentido original e à sua aplicação diretamente ao leitor ou ouvinte na sua
situação contemporânea. Nesse processo, há duas etapas principais, caracterizadas pelos
termos exegese e hermenêutica, ou seja, devemos procurar compreender o que foi dito a eles
“lá” e “então”, e aprender a ouvir essa mesma palavra no “aqui” e “agora”.
Procuramos transpor os abismos cronológicos, geográficos, culturais, lingüísticos,
literários e sobrenaturais, interpretando de forma a esclarecer e tornar inteligível o que era
obscuro ou desconhecido para a língua receptora, e só então transmitir o significado do texto e
de sua aplicabilidade ao ouvinte moderno.
31

1. COMPONENTES DO PREPARO PARA A EXPOSIÇÃO BÍBLICA

Faremos alusão a cinco componentes básicos que precedem a preparação de uma


exposição do Novo Testamento, embora haja outros. São eles: antecedentes históricos e
culturais, definições dos parágrafos, divisões principais, gênero literário e análise teológica.
Antes da tarefa propriamente de preparar a pregação é necessário que se faça alguns
preparativos relacionados com o livro da Bíblia escolhido. Tal estudo deve fornecer ao
expositor um tema geral e uma reserva cheia de ilustrações históricas e culturais.
Muitos sermões são ricos em ilustrações atuais, como devem ser, mas tristemente
pobres quanto à vida, eventos, tensões, emoções, personalidades, problemas e outros itens que
fazem parte da coloração do pano de fundo do Novo Testamento. O expositor que fizer uso
inteligente de dados históricos e culturais enriquecerá sua mensagem cativando o ouvinte e se
aproximando com mais fidelidade da intencionalidade do autor e da compreensão dos
primeiros leitores.
As definições de parágrafos se relacionam à descoberta de quantos “blocos de
pensamentos” aparecem em todo o texto. Este componente simplesmente dividirá o livro da
Bíblia em unidades de pregação que sejam convenientes. É simples, mas não deve ser
classificado como algo que possa ser omitido. Não se deve insistir em transformar cada
oração principal num ponto do sermão. A sintática grega é muito sutil para ser manuseada
assim. Os pontos do sermão devem transmitir os pensamentos centrais do texto. Para tanto
basta que se determine os limites naturais do texto.
As divisões principais do texto recebem “vida” da expressão chave.
O gênero literário do livro e suas características (narrativo, apocalíptico, didático, etc.)
devem ser determinados e respeitados durante toda preparação da exposição, bem como o
subgênero (parábolas, texto argumentativo, parênese, etc.)1 da passagem da exposição.
Cada gênero e subgênero exigirão uma adaptação na estratégia interpretativa do texto.
A análise teológica tem por propósito fazer uma organização de idéias, utilizando-se
de argumentação do próprio texto e fora dele, para que, de uma maneira lógica e convincente,
seja feita uma exposição detalhada do assunto enunciado pela paráfrase2.

1
LIEFELD, Walter L. Exposição do novo testamento do texto ao sermão. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1988. p.
51.
2
Consiste em um resumo, em uma frase, das idéias encontradas na análise lexicográfica.
32

A análise teológica deverá comentar o tema que resuma a verdade do texto com uma
pequena expressão. É a apresentação, de maneira sistemática, de um estudo da verdade
teológica do texto em toda a Bíblia.
Finalmente, uma interpretação satisfatória da Bíblia requer uma pré-disposição
submissa. Não podemos lançar uma parte das Escrituras contra a outra, nem podemos
interpretar um detalhe das Escrituras de forma que enfraqueça sua mensagem básica.
Nosso reconhecimento de que a Bíblia é humana, assim como divina, implica, de fato,
que deveríamos considerar a diversidade de seus vários autores, e diversidade de ênfases, suas
formulações únicas, e assim por diante, não significando dizer que diversidade implica abrir
mão da unidade. Há unidade na diversidade.

2. A RELEVÂNCIA DOS ORIGINAIS

O fato de reconhecermos os perigos causados pela superestimação das línguas


originais, e também que elas por si só não fornecem todo conhecimento necessário para uma
fiel exposição do Novo Testamento, não minimiza a importância das mesmas.
Para alguns cristãos, ouvir referências ao grego pode ser bastante intimidador. Às
vezes parece que o fato de saber as traduções, em suas mais variadas versões, não colocam em
risco a inspiração da Palavra de Deus torna-se suficiente para o desprezo da consulta aos
originais. No entanto, podemos afirmar que esta não é uma posição “lógica” pelo fato de
levantar inúmeras perguntas sem respostas.
Como sabemos que uma e não outra tradução é fiel aos originais? O que utilizávamos
antes das traduções serem produzidas? As traduções são infalíveis?
Faz-se mister lembrar, como já esclarecido no primeiro capítulo, que o objetivo da
presente pesquisa não é o de questionar a inspiração, que entendemos estar garantida pelo
próprio Deus. O objetivo de questionamento é o “impacto” perdido ao longo das traduções,
impacto este estreitamente relacionado à intencionalidade do autor, e eficazmente atingido
pela compreensão dos primeiros leitores.
Na verdade, a análise léxico-gramatical constitui-se em mais um dos componentes
básicos para o preparo de uma exposição.
No exemplo que daremos a seguir, vamos perceber que o impacto a ser resgatado se
revela através da cultura. No entanto, o que nos remeterá para tal percepção será a análise
léxico-gramatical.
33

Esta análise, como já visto no segundo capítulo do presente trabalho, é o processo por
meio do qual se tenta descobrir, através da gramática, seu significado por meio da verificação
dos aspectos lexicográfico3, morfológico4, partes do discurso5, e sintaxe6.
O exemplo em questão encontra-se em Lucas 9.57-62, onde se desenvolvem três
curtos diálogos. Daremos atenção especial aos dois últimos.
No segundo diálogo lemos: “a outro disse Jesus: segue-me! Mas ele disse: Senhor
deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. Mas ele lhe disse: deixa que os mortos sepultem os
seus próprios mortos. Mas tu, vai e proclama o reino de Deu” (Lc 9.59–60).
Há o uso de paralelismo invertido no texto acima citado. Além disso, a língua grega é
muito precisa em sua estrutura verbal. O tipo de imperativo usado aqui (no grego, aoristo)
indica uma ordem para começar uma ação nova. A frase “enterrar o pai” é expressão
idiomática tradicional que se refere especialmente aos deveres do filho de ficar em casa e
cuidar de seus pais até que eles jazam em paz, para descansar com todo respeito.
No idioma sírio coloquial de aldeias isoladas da Síria e do Iraque, quando um filho
rebelde procurava reafirmar a sua independência em relação ao seu pai, a repreensão final e
contundente do pai é: kabit di gurthy (você quer me enterrar). A idéia é: “você quer que eu me
apresse em morrer para que a minha autoridade sobre você termine, e você fique por sua
própria conta”7.
Obviamente os mesmos pressupostos culturais vistos acima estão em funcionamento
aqui. Os filhos têm o dever de permanecer em casa até a morte dos pais. Então, e só então,
eles podem pensar em outras opções. Mas Jesus diz que os espiritualmente mortos podem
cuidar das responsabilidades tradicionais da comunidade local, mas, “quanto a você, vá e
proclame a chegada do reino” (a palavra você (ou tu) é enfática no texto grego).
No terceiro diálogo, à semelhança do primeiro voluntário (Lc 9.57–58), este candidato
a discípulo se oferece impetuosamente para seguir o mestre (Lc 9.61–62).
A palavra grega tradicionalmente traduzida como “dizer adeus a” é apotassō. Pode
significar “dizer adeus” ou “partir de”. Ocorre quatro vezes no restante do Novo Testamento
significando partir. Só em Lucas 9.60 encontramos o mesmo verbo grego traduzido como
“dizer adeus”. A diferença entre as duas traduções é importante no Oriente Médio. A pessoa
que está indo embora precisa pedir permissão para aqueles que estão ficando. Neste caso o

3
Significado das palavras.
4
Forma das palavras.
5
Função das palavras.
6
Relação das palavras.
7
Exemplo extraído de BAILEY, Kenneth. As parábolas de Lucas. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2003.
34

objetivo verdadeiro do texto há muito tempo tem sido obscurecido com a tradução “despedir-
me”. A idéia é que o voluntário está pedindo o direito de ir para casa e obter permissão dos
“de casa” (isto é, seus pais). Todas as pessoas que ouviram o diálogo sabiam que naturalmente
o seu pai iria recusar-se a permitir que o seu filho saísse a vaguear em um empreendimento
duvidoso. Desta forma, a desculpa do voluntário é apresentada propositalmente. Derramando
lágrimas ele pode insistir, em alto e bom som, que deseja ir, mas o seu pai não lhe dará
permissão. A tradução do Siríaco Antigo expressa esta idéia ao dizer: “Deixa-me primeiro
expor o meu caso aos da minha casa”. Na verdade, aquele voluntário estava pedindo
permissão para submeter o assunto de seguir a Jesus à autoridade de seus pais.
Nessa cena cultural, citada no contexto, ele está claramente falando: “vou te seguir,
Senhor, mas é claro que a autoridade de meu pai é maior do que a tua, e eu preciso ter a
permissão dele antes de me aventurar pelo mundo contigo”. No mundo do Oriente Médio, a
autoridade do pai tradicionalmente é suprema. Não é de admirar que o pai se tenha tornado
símbolo de Deus.
Tendo isto como ponto de partida, vemos Jesus aqui exigindo que sua autoridade (as
exigências do reino) tenha prioridade sobre todos os outros relacionamentos.
A pessoa que não pode resolver a tensão das lealdades conflitantes, e vive olhando
para trás para ver o que a família está ordenando, é julgada inapta para o reino de Deus.
Este era o impacto que causava na época, este é o impacto que ainda deveria causar
nos dias de hoje. Ao ser exposto este texto em uma classe de seminário de alunos nativos do
Oriente Médio, todos literalmente empalideceram com a sua afirmação de que Jesus estava
reivindicando uma autoridade superior à do pai do segundo voluntário.
Jesus, na verdade, estava dizendo que sua autoridade é absoluta, e que não aceita
nenhuma como sendo superior à mesma.
Passaremos, agora, a outro exemplo, Filipenses 4.4-7, onde a análise léxico-gramatical
estabelece uma condicional imperceptível em nossas traduções.
A princípio, nos versículos 4-7, encontramos quatro verbos no imperativo, lembrando
que o imperativo é o modo da ordem ou do pedido, o modo da volição 8 que expressa o apelo
de uma vontade a outra, podendo expressar ordem, proibição ou pedido. O primeiro
imperativo é um verbo na segunda pessoa do plural, no presente ativo: caivrete (alegrai-vos)
de caivrw (alegre-se). Este presente demanda uma ação habitual e contínua. Neste caso,
expressa uma ordem de continuidade. Por mais que pareça fora de propósito alegrar-se em

8
Ato em que há determinação de vontade.
35

obediência a um mandamento, e ainda mais sempre (pavntote), sob quaisquer circunstâncias,


não importando quão adversas sejam elas, Paulo deixa evidente que as mesmas, sozinhas, não
determinam a condição do coração e da mente. Um cristão pode alegrar-se interiormente
quando fora tudo é sombrio e escuro. Ele se alegra no Senhor, isto é, por causa de sua união
com Cristo, cujo fruto do Espírito é alegria.
O segundo imperativo é um verbo na terceira pessoa do singular, aoristo passivo.
gnwsqhvtw (seja conhecida) de ginwskw (conhecer). É um aoristo ingressivo que acentua o
aspecto inicial, o princípio ou começo de uma ação, revestida de certo teor de urgência.
O adjetivo que o apóstolo adverte que deve começar a ser conhecido entre todos os
homens refere-se à gentileza, amabilidade e tolerância. Ou seja, ser razoável nas opiniões e
julgamentos. Firme, paciente e humilde, capaz de submeter-se a injustiças, desgraças e maus
tratos, sem ódio ou maldade, confiando em Deus a despeito de tudo.
O terceiro imperativo merimna'te, antecedido de mhdeVn, ou seja, “por nada andeis
ansiosos”, é um verbo na 2ª pessoa do plural, presente ativo imperativo, indicando uma ação
já iniciada, mas que deve cessar. É um imperativo que traduz proibição.
O quarto imperativo é um verbo na 3ª pessoa do singular, presente passivo imperativo
gnwrizevsqw (seja conhecido9) gnwrivzw (tornar conhecido). Indicando, assim, uma ação de
qualidade contínua. Ou seja, eles já estavam levando suas petições a Deus, mas deveriam
continuar constantemente a fazê-lo, sem cessar de dar graças pelas bênçãos já alcançadas.
Finalmente, o futuro frourhvsei (futuro indicativo ativo de frourevw - guardar),
precedido por um imperativo e ligado por uma conjunção kai (e) tem caráter de uma oração
adverbial de resultado num tipo de oração condicional semítica, isto é, “tornem seus pedidos
conhecidos, daí, a paz de Deus irá guardar os seus corações”.
A conclusão final da presente passagem resume-se em: continuarmos uma ação já
iniciada (alegrarmo-nos no Senhor); iniciarmos, com certo teor de urgência, a tornar
conhecido entre todas as pessoas nossa razoabilidade, firmeza, paciência e humildade;
cessarmos uma ação já iniciada, o estarmos ansiosos; continuarmos uma outra ação já
iniciada, levarmos nossas petições a Deus dando sempre graças pelas bênçãos alcançadas; e
só assim, a paz de Deus guardará nossos corações e mentes.

9
A tradução em português é feita no plural porque o sujeito está no plural, embora no grego esteja no singular
por ser sujeito neutro plural, permitindo assim a tradução no singular.
36

3. A LÍNGUA ORIGINAL É CONSULTADA DIRETA OU INDIRETAMENTE

A primeira razão por que precisamos aprender como interpretar é que, quer deseje
quer não, todo leitor é ao mesmo tempo um intérprete; ou seja, a maioria de nós toma por
certo que, enquanto lê, também entende o que lê. Tendemos, também, a pensar que nosso
entendimento é a mesma coisa que a intenção do Espírito Santo ou do autor humano. Apesar
disso, invariavelmente levamos para o texto tudo quanto somos, com toda nossa experiência,
cultura e entendimento prévio de palavras e idéias. Às vezes, aquilo que levamos para o texto,
sem o fazer deliberadamente, nos desencaminha ou nos leva a atribuir ao texto idéias que lhe
são estranhas.
A tradução, pois, é em si mesma uma forma (necessária) de interpretação. Nossa
Bíblia – seja qual for a tradução que empreguemos para nós é o ponto de partida – é, na
realidade, o resultado final de muito trabalho erudito. Os tradutores são regularmente
conclamados a fazer escolhas quanto ao significado, e as escolhas deles irão afetar nosso
entendimento.
Portanto, ao manusearmos quaisquer traduções, estamos, por assim dizer, consultando
de forma indireta os originais. Paradoxalmente, é apenas depois de outros terem feito esse tipo
de trabalho, o de desenterrar fatos e trazer à luz sentidos que, de outra forma, teriam se
perdido, que alguém pode perceber, por si mesmo, a verdade que há nele.
Além das traduções temos, os comentários bíblicos e dicionários totalmente
embasados nos originais aos quais recorremos nos preparos de nossas exposições de textos no
Novo Testamento. Um bom exemplo é o Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento (DIT), que desde que veio a lume pela primeira vez em 1965, o Theologisches
Begriffslekicon Zun Neuen Testament10 tem se estabelecido como obra padrão de referência
entre os teólogos, ministros, estudantes e entre todos aqueles que se preocupam com um
entendimento mais exato dos ensinos da Bíblia.
Nenhum comentário bíblico, dicionário, ou tradução pode ter como ponto de partida
outro texto que não seja o original, no caso, o grego koinê.
Historicamente, a igreja tem compreendido a natureza da Escritura de maneira muito
semelhante a sua compreensão da pessoa de Cristo – a Bíblia é, ao mesmo tempo, humana e
divina. É esta natureza dupla da Bíblia que exige da nossa parte a tarefa da interpretação.

10
Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 2000 (Introdução).
37

Por ser a Palavra de Deus, tem relevância eterna; fala para toda a humanidade em
todas as eras e em todas as culturas. Mas porque Deus escolheu falar através das palavras
humanas na História, todo livro da Bíblia também tem particularidade histórica; cada
documento é condicionado pela linguagem, pela sua época, e pela cultura em que
originalmente foi escrito (e em alguns casos também pela história oral que teve ates de ser
escrito). A interpretação bíblica é exigida pela “tensão” que existe entre sua relevância eterna
e sua particularidade histórica.
Ou nos esmeramos por essa interpretação, ou nos condicionamos a que outros já
fizeram. O que não é possível é partir de outro ponto que não seja o original. Ou escutamos,
ao interpretarmos, a Palavra que os primeiros leitores ouviram, lá e então, e aprendemos a
ouvir a mesma no aqui e agora, ou confiamos cegamente na interpretação de outros, como
fidedigna verdade.
Com isto, nos deparamos com a realidade de que direta, quando nós mesmos vamos
aos originais, ou indiretamente, quando recorremos a comentários, dicionários, ou traduções
bíblicas, sempre manteremos contato com os escritos originais, no caso, a língua grega koinê,
na qual foi escrito o Novo Testamento como já debatido e confirmado no primeiro capítulo da
presente pesquisa.
As vantagens desse contato direto é o de podermos resolver questões que o próprio
contexto não nos assegura e que os próprios comentaristas não chegam a um acordo entre si.
Com tantos comentários, dicionários, e traduções, o que precisamos mesmo é
recuperarmos nossa prévia convicção. Precisamos reconquistar nossa confiança na
veracidade, relevância e poder do Evangelho e voltar a nos sentir impactado com ele. A
exposição não é proclamação de uma teoria, nem o debate a respeito de uma dúvida.
Estamos conscientes de que há uma erosão contínua da fé cristã. Precisamos ser
dominados por determinadas convicções, e estas convicções dependem de uma interpretação
saudável da Palavra de Deus.
Não somos preferidos de Deus, nem tão pouco privilegiados. Somos apenas, a partir
de quem, Deus estará preparando outros para a ministração de sua Palavra. Preparação esta
que se dará através do referencial do que realmente representa a responsabilidade do
aprendizado da mesma, e do diferencial em cada exposição do Novo Testamento, onde ao
mesmo tempo em que se resgata o impacto dos primeiros leitores impactando a vida dos
cristãos contemporâneos, se desperta o desejo do aprendizado para um ensino mais eficaz na
vida dos que são apaixonados e chamados a fazer o mesmo.
38

CONCLUSÃO

Ao chegarmos ao término desta pesquisa, acreditamos que a problemática que


direcionou nossas investigações foi plenamente resolvida e a hipótese confirmada.
Através das Escrituras neotestamentárias na língua grega comparadas a alguns textos
contidos em nossas traduções, algumas verdades ficaram bastante claras. Verdades essas que
desejamos aproveitar essa oportunidade para apresentarmos em caráter retrospectivo as
realidades escriturísticas que foram por nós enfocadas no decorrer dessa pesquisa, que se
fundamentou na relevância da língua grega para a exposição do Novo Testamento.
Vimos a impossibilidade de se reconstruir o pensamento cristão primitivo na
exposição do Novo Testamento sem dar a atenção devida ao estudo acurado do grego bíblico
durante o primeiro século e também sem possuir conhecimento do significado e uso dos
termos gregos pelos cristãos primitivos.
Constatamos a complexidade do fato de não estarmos lendo o texto na língua original
e das desvantagens que este fato nos proporciona quanto ao completo entendimento do
mesmo ao expositor.
A pesquisa permitiu verificar através de exemplos comparativos em textos originais e
em textos de traduções comumente utilizadas, que há casos em que apenas a análise léxico-
gramatical pode resgatar impactos causados aos primeiros leitores.
É oportuno lembrar que a língua grega foi mostrada todo o tempo como relevante e
como mais um, dos vários outros existentes, componentes básicos para o preparo de uma
exposição no Novo Testamento, como também, faz mister lembrar, que a inspiração da
Palavra de Deus não foi nem por um momento questionada, mas sim o impacto que a mesma
tem perdido através dos tempos e das culturas.
Esperamos que esta pesquisa tenha cumprido seu papel primordial, que é o de deixar
como sugestão o uso da língua grega, koinê, como valor inestimável e de grande utilidade
para que as verdades do Novo Testamento sejam extraídas dos textos, a exemplo do impacto
que as mesmas causaram em sua época.
Acreditamos que, somente assim, deixaremos de fazer uso de análises superficiais que
geram confusões interpretativas, desorientando, assim, teologicamente, indivíduos, igrejas, e
desequilibrando ministérios.
Gostaríamos de afirmar, ainda, para enfatizar a relevância da língua grega para a
exposição do Novo Testamento, que todo comentário, dicionário ou traduções bíblicas
39

neotestamentários, tem por ponto de partida os originais, portanto, como abordado no último
capítulo, direta ou indiretamente, sempre acabamos indo aos originais.
É fundamental termos a compreensão e acesso aos originais, a fim de recuperarmos
nossa prévia convicção e nos tornarmos referenciais e diferenciais em cada exposição do
Novo Testamento.
Através da argumentação exposta nesta pesquisa, desejamos encorajar a todos a quem
Deus tem dado a oportunidade de um aprendizado mais profundo de sua Palavra,
especialmente aos seminaristas, a não enterrarem seus talentos, nem desprezá-los, nem deixar
de aplicá-los, e nem negligenciá-los no preparo de novas lideranças.
40

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