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LINGüíSTICA

estudos
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~\\IIi.
~ .I EDITORA PERSPfCTIVA
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A Linguagem

I' I

I fI£:. 3,.
Coleçfo Estudos
Dirigida por J. Guinsburg

Produção: Plínio Martins Filho e Marly Orlando.


A LINGUAGEM
Introducão ao Estudo da Fala

Tradução e Apêndice
de J. Mattoso Camara Jr.

. ~\\'/~
~ ~ EDITORA PERSPECTIVA

~I\\~
Título do original
LANGVAGE, An lntroductlon lo Ih. Sludy of 8p<.ch ,

Copyrighl @1921 by Harcourt Blacelovanovilch,lnc.


@ 1949 by lean V. Sapit. Publlshed by Arralliemcnl wilh Haucourt
Brace Jovanovitch, Inc.

Direitos em língua portuguesa reservados à


EDITORA PERSPECfIVA S.A.
Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025
01401 - São Paulo - Brasil
Telefone: 288-8388
1980
Sumário

Advertência à 2~ Edição ; : IX
Prefácio do Tradutor ".. . . . . . . I
Prefácio do Autor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

I. Parte Introdutória: Linguagem e sua DefilÚção. . . . . . . . . . 11


2. Os Elementos da Fala 27'
3. Os Sons da Linguagem. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
4. A Forma na Linguagem: Os Processos Gramaticais . . . . . . . 53
5. A Forma na Linguagem:Os Conceitos Gramaticais. . . . . . . 71
6. Os Tipos de Estrutura Lingüística 99
7. A Língua como Produto Histórico: A Deriva. . . . . . . . . .. 119
8. A Língua como Produto Histórico: A Lei Fonêtica 137
,9. Como as Línguas se Influenciam Entre Si . . . . . . . . . . . .. 153
"10. Língua, Raça e Cultura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 165
) I. Língua e Literatura , 175
AP£NDlCE 183
Um Século de Estudos Lingüísticos nos Estados UlÚdos da
América. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 185
NOTADO EDITOR

Objeto de duas edições aqui no Brasil, de há muito esgota.


das, a reedição desta obra vem ao encontro de sugestões feitas
neste sentido à Editora Perspectiva por estudiosos e professores.
Na verdade não se poderia privar os nossos estudos lingüísticos
da presença de um livro que é um "clássico" da especialidade
e cuja transposição vernácula se deve ao saudoso J. Malloso
Camara Jr., o qual dá, neste trabalho, não só um padrão de
interpretação fiel e adequada da linguagem do autor, de uma
adaptação magistral da exemplificação inglesa, como acrescenta,
ao fim, um valioso anexo histórico-crítico sobre a lingüística
americana e o papel de Sapir nesse contexto.
Advertência à 2~Edição

Graças ao interesse da Livrari~ Acadêmica., a quem já tanto devem


os estudos lingüísticos e filológicos no Brasil, sai agora a 2. ediçã~ da
minha tradução do livro clássico de Sapir sobre A 1Ã1I{Juagem, intro-
duçá<J ao estud<>da fa1J:J.

Como já expliquei no "Prefácio" da 1. edição de 1954, essa tradu-


ção foi feita em 1938, quando ainda. vivia Sapir. que morreu com 56 anos
de idade em 1939. S6 dezesseis anos, mais tarde, portanto, a minha tradu-
ção portuguesa conseguiu vir à luz, esgotando-se ao fim de 3 anos.
Apesar do interesse despertado (como prova a safda do livro num prazo
que podemos considerar rápido, dada a modéstia do nosso mercado livrei-
ro), a 2. edição teve de esperar 14 anos para se efetivar.

Entretanto, c0II!0 dizem os franceses, à quelque ehose m1J.lh.eu'rest bon.

A tradução do livro clássico de Sapir reaparece no Brasil num mo-


mento doe mais propIcias. Com efeito, agora, o pêndulo da linguistica
norte.americana se afasta do mecanicismode Bloomfield e vai no sentido
do Seu amigo e contemporâneo, que dele teoricamente divergia nos pen-
samentos.básicos e foi por isso marginalizado injustamente, pouco depois
de sua morte, até os fins da década de 1960. A partir dai, em verdade,
as Estruturas Sintáticas de No.m Chomsky ('s Or.venh.ge 1957) e o
ataque fulminante do jovem lingÜista à psicologia behaviorista., repre-
sentada na obra de Skinner (Lang. 35.26, 1959). começaram a se fazer
sentir, valorizando indiretamente a figura. e os trabalhos de Sapir. Bloom-
field é que passou a ser, por sua vez, injustamente marginalizado, de
acôrdo com o mau ve.zo norte-americano. de polarizar as posições cien-
tificas.

A esta 2' edição me pareceu, por isso, interessante anexar um meu


trabalho de 1963,1 que trata da hist6ria crítica da linguistica dos ElIt~
dos U~idos, vista pelos olhos de um observador estrangeiro, e coloca Sapir
em perspectiva histórica ao lado de Boas e Blommfield. Desta sortc,
procurei (não digo que o consegui) satisfazer o desiderato expresso na
parte final do meu uPrefácio" à l' edição desta tradução.

Rio de Janeiro, 1969

J. MAT1"08O CAM.ARAJIl.

1. Aproveito 8. oportunidade para agrndccer de públit'o no Dr. José Manuel


Rivaa Baeconi, diretor do Instituto Caro 1 Cuervo de Bogotá, n pronu autoriuçlo
para eu reproduzir use e!Jtudo hi!Jt6rieo-erltieo, eonstante daa ...ttal de um Simp6llio
pnblieadaa com copyrigAt por &eu Inlltituto (Programa b,teramtlriooM de Linguúhca
y E",e1iaua de IdiofM6, El Simpono tk Cartagena, ...tgodo 1963, Informe. y Co.
municacicmt", Bogotá, Irutituto Caro y Ctu'nlO, 1965).
Prefácio do Tradutor'

Esta Tradução. que data de 1938, foi o meu primeiro f.sforço paTa
Icx;aliza,r diante dos nossos estudiosos a figura do lingüista norte-ame.
-ica:no Edward Sapir1; tna.f '4$ contingência.! ainda precária.! da MS-
,a atividade editorial só agora permitem que ela se publique, graças à
direção esclarecida de Augusto Meyer no Instituto Nacional do Lit'TO.
A eda altura já me havia. resignado ti relegá-l.a para o /u11.dc da
gaveta dos empreendimentos frtL$trados. Fizera-o com tanto mais pesar
quanto mais convencido me cu;ho da suma importância de uma obra. em
que foram trCl{Odtu linha.! nova.! de interpretação e pesquisa e de que
parte um movimento teórico e técnico de singular relevo nos quadro,
do pe1LSamento contemporâneo.
O Autor aprofundou e ampliou as suas idéias atrGt,és do ensino uni-
versitário e de numerosos artigos e monografias, anteriores e posteriores
ao livro e hoje em grande parte reunidos pelo professor Mandelbaum, da
Universidade da Califórnia, sob o título de Escritos Seletos de Edward
Sapir sobre Linguagem, Cultura e Personalidade'l. Do que ai consta em
matéria de lingüística são de especial importância os estudos sobre -
radrões Sônicos: na Linguagem e A Realidade Psicológica dos: Fonemaa,'
que lançaram as bases da 4lfonémica" norte-americana, e, de caráter ge-
ral, - Diale~o, Linguagem, Linguagem e Ambiente, A Posição da Lin-
güística como Ciência e A Fala como Traço de Personalidade •.
O núcleo da filosofia de Sapir está, porém, todo lUJui, nede lit'ro, e
vazado num estilo de divulgarão d01ltrin.dria, a um tempo empolgante,
colorido e fácil. Trata-se de uma exposição básica para os upecialutal
e, ainda, particularmente indicada para o grande público; poU aqui,
ainda mais que em outro! trabalhos, se revela n.o A utor aquela capaci-
dade estilística, que, na fra.se de Stanley Newman "fala Q() leitor como
ti uma pessoa e não como a um intelecto desencantado",' Q() contrário da
lingu.agem abstraia, seca e inte1l.CionaZmente monótona da modenWJ
"lingüística científica" norte-americana.
Quando a obra apareceu, em 1921, Edward Sapir já tin1uz em ,eu
ativo muitas e perctu::ientes pesquisas nas líng1UJS índias dOI Estado,
Unidos e do Canadá, como o takelma (Oregon),' o yana (Califórnia), o
2 A LINGUAGEM

nutka (.1ha d. Va1lC01lv.r), O paiút. (UtaJt) • O !arei [!arce.) (Alb.rta).


FOTa prindpalme71.te levado para eue âmbito pe14 .tUa comunhão com o
trabalha d. Fra ••• BOa!, o grande antrop6logo da Univ.r!idado de Colú•••
bia, q1U .se propusera continuar O empreendimento tU J. W. Powell, ftD
Bureou. de Etnologia Americana da lmtituição SmitM01Iian4,' M ,entido
de l.vantam.nto • análÍ!e dO! língua! {ndiO! da América do Norte.' Na
~quipe que então se constituiu e culminou com a elaboração do Manual de
Llnguas Indias Am.ricanas, publicado a partir d. 1911, Sapir •• duto-
cO'U pela lUO formação lingüútica especializada, decorrente da co-ndição
d. graduado .m filologí<Jgermânica pela Univ.r!idad. d. Colúmbia.
A visão /ÜQl6gica ampliou-se-lhe, por sua vez, com a experiê7lGta
et'Mlógica (I com o exemplo tU Boas, a cujo respeito tem as ugllint6.t
palavras na análise d4 língua takelma, com que concorreu para aque~
Manual: "Para concluir, devo agradecer ao professor Franz Boas va-
liosos conselko, em referinda a vários pontos de método e o seu '71ft.
resse ativo no progresso do trabalho. Foi em grande parte devido a ele
que me animei a afastar.me dq. rotina da descrição gramatical. e fi dis.
tribuir e interpretar os fatos de uma maneira mais consentânea com o
espírito dq. pr6pria língua takelma"'.
Auim. a um tempo antrop6logo, linflÍÍtsta de campo e indo-europeú.
ta. soube Edward Sapir ccmciliar. os três interesses em diversos trab~
lhos, como na monografia sobre A Perspectiya Temporal na Cultura
Americana Aborígine 10, em que enquadra a lingiií.!tica na pesquisa et.
no16gica, • no .!tudo !obr. Ao Continuas GlotaJizadas .m Návaho, NuI.k!l
e Kwak:iutl, onde toma em c~eração a célebre hipótese dai laringeai8
indo-européüu, surgida na gramática compprativa pelo estudo do fO'M,.
tici8mo hitita; e, da evidência fonética índia, ascende a uma interpretação,
que mais tarde se consolidou sob a pena do seu colega e amigo Edgar 8her.
tevantu. Seg-unM esse pensamento, as lc.ringeais teriam tido o caráter de
oclwâo glotal (ing. glottaJ stop) • t.riam MO .m núm.ro de quatro .m doiI
pares de surda-sonora, aO passo que o hitita só 1I.OS Buegura da existência .
de duas e a fonética hist6rico-comparativa não nos elucida sôbre a "ítida
ftatureza desses sOn.!.
Muito mais importante, porém. foi a síntese harmoniosa e feliz a
que chegou com a compreensão de uma ciência geral da linguagem, fora
dos lindes românicos, germânicos, indo-europeus, 1,'!t7títicos ou outros,
em que se confinaram muitos outros grandes teoristos. Como já tive
ocasião de acentuor alhures. "com Edward Barr começa um terceiro
grupo interessantíssimo na ciência norte-ame,-icana -. aquele que eu
chamaria dos lingüistas gerais" U,
e justamente na presente obra que primeiro e mais desenvolvida-
mente se consubstancio a sua afirmação nesse sentido. Ele ainda se en-
contrava então na chefio da Divisão de Antropologia do Museu Nacio-
nal do Canadá, que assumira em' Ottawa em 1910. Mas já em 1925 era
chamado para a Universidade de Chicago, onde inaugu.rou em breve (
ensino da lingüística geral, e seis anos mais tarde, integrado no corpo
docente da Universidade de Yale, passou a desenvolver até sua morte.
ocorrida em 1939 em conseqüência de um sofrimento cardíaco, uma fi-
losofia lingiiistica em que se filia ~ chamada escola' científica norte-
PREFÁCIO DO TRADUTOR 3

amencana (scientific linguistics), firmada mais diretamente embora


p"r L.onard Bloomfi.ld.
Entre Sapir e Bloomfield há uma relação 8emelhante d que &e dea
preende na ciência franusa entre Ferdinand de Sous8Ure ti Antoine
Meillet. Num e noutro caso, tem-se, ao lado do pioneiro genial, o con.so-
lidador extraordinariamente dotado, que do! ponto.t culminante. de umo
concepçãu vigoro6C1e nova, mas ainda um tanto fluida, tira um corpo
de doutrin.a coeso, que a '16m tempo a preci.Ja e a re,t,;nge.
Meillet fê-lo colocando-se nas linhas mestrlU da escola socioMgica
de Emüs Durkheim, a que não estava ligado Saussure, em que pus tJ
opinião de DoroszewskiJl• Bloomfield, por sua vez, adaptlJv o pensamen-
to de Sapir aos princípios da filosofia behaviorúta de Max Meyer e Paul
Weis!, criando o que ele próprio denominou a teoria mecanicista, qUB
faz abstração da "hipótese" da mente ,tO interpretaÇão do fato lingiií.s-
tico. Partindo-se do estudo das línguas índias, instituiu-se assim uma
técnica descritiva de grande nitidez e c,liciênda, cujos resultados se têm
~rquivado em grande parte na revista IJAL, ora sob a direção de C.
F. Vo.gelin, qut em 1944 r•• ""el"" o vol. X inlerrompido. Consolidou-
'e, entre outros, u conceito de fonema (som distintit)o mínMn.o d4 língua)
s o de morfema (forma diltintiva mínima), como ba.ss da análise s tso.
rioação da fala, qutr no livro hoje 'clálsico d. Bloomfield sobre a Lin.
guagem 14, quer na tradicional ret"Ílta do mesmo nome, que, fundada
em 1925 como órgão da Sociedade Lingüística da América, .se tornou
porta-.t)oz da escola. Em seguida, empreendeu-se uma reft.Otlaçáod4 gra-
mática e do ensino dC1$ línguas lato sensu, aplicada de ma1leira q1UUS
sensacional ao ensino das línguC1$vivas no exército norte-americano du-
rante a Grande Guerra, numa experiincia pedagógica que assentou pn-
macialmente num Esboço-Guia de Bloomfield 11.
Sob um cupeeto particular, entretanto, a atuação de Bloomfield foi
um tanto descoroçoante: ele é em grande parte responsável por ter-u
quase fechado o caminho MS Estados Unidos a uma exploraç4o estéti-
Ca da linguagem.
Sapir, ao contrário, a sugeriu e até a iniciou, tanto no presente li.
vro como em diversos artigos. Atraía-o neste sentido o pendor para a
música e a poesia, das quais fez um uviolino de lngrts". A sua intui-
Ç'40 artística, sobre concretizar-se em composiÇ(1es poéticas, esparsa.f em
variadas revistas. e na atividade pianística, revela-se em intereuanttl
estudos estéticos. H aja vista O que dedicou aos Fundamento'i Musicais
do Verso, infelizmente não incluído na compilação Mandelbaum, cit.: aí,
depois de clarificar o complexo conceito áo ritmo, mostra. o caráter re-
lativamente "livre" de todo e qualquer verso, me.smo quando aparente.
mente mais subordinado à métrica".
Foi esta faceta de um espírito filosoficamente amplo que fcu;ilitO'U
a sua .concepção da linguagem como uma arte coletiva", no que se de-
Il

clara, num passo deste livro, solidário com Benedetto Groce.


Seria, não obstante, um erro profundo associá-lo ao pensamento lin-
güútico do filósofo italiano. Nada há mais distante de um Karl Vossler,
de um Terrcu;ini, de um Bonfante, saídos com as suas correntes, respecti-
vamente idealista alemã e neolingüi.dÜ':o italiana, do esteticismo de Grau,
4 A LINGUAGEM

do que 0$ scientific linguiBts norte-americano,. E ene diJtanciame71to,


qtul em regra &etron.smuda em radical antagonilmo, como no debate de
1947 entre G. Bonfante e Robert HaU na revista Language, não parte
67-elu.&ivamentedo mecanicismo 8 do método "cientifico" de Bloom/ield,
que :na frfU8 convicta de JIall olhuru "opera por postulado,. hisp6tue, 8
t'erificação"". Já estava bem explícito na teoria Japiria1l4, qua.n.do Te.
lega para um plano Itcundário os a&pectos afetivos da linguaflem, dil.
lOCiada cultura o fato Ungüútico e vê na língua, antes de tudo e sobr~
tudo, uma forma coletiva pré-racional, que impõe ao indit'íduo os seus
canai.! de expreuão e tem nas !1L(U mudanç.as uma uderit'o" própria.
No âmbitu da lingüística européia, as afinidades com o pemamento
de Sapir estão na corrente saussunano, a que Vossler e os neolingiiida.s
claramente se contrapuseram.
A critica de Alan Gardiner u, como adepto de Sau3Sure, qU(Jnto a
uma suposta confusão entre langue e parole por parte de Sapir, a qual
parece em verdade depreensível no próprio subtítulo do presente livro
(lntrodução.ao estudo da fala), é inadequada. Gardiner, depois de tra-
duzir o francês parole por speeeh (port. "fala"), só compreende o termo
inglês com a significação que lhe imprimira de um ponto de vista tenni-
nológico estrito, sem considerar por outro lado como O conceito de "pa-
drão" (ing. pattern), um dos Leitmoti\"e da f,10sofia lingüística de Sa-
pir, se concilia com o da langue saussunano. Num e noutro, temos a idéia
de um sistema fonnal coletivo, de uma pauta que regula a atividade da
fala lato sensu ou linguagem".
Não é de estranhar, portanto, que o pensamento de -Sapir tenha im-
pressionado duas escolas européias, inegavelmente filiadas em Saussure:
a "glossemática" do Círculo de Copenhague e a "fonologia" do Círculo
de Praga. L. H jelmslev, na notícia que em 1939 dedicou à morte de Sapir
,em Acta Lingüistiea (1, 76-7), que é o órgão daquele primeiro Círculo,
presta tributo ao mestre norte-americano e ao livro que aqui se traduz,
como uma das fontes da concepção estruturalista que tem desenvolvido
com seus companheiros de Copenhague. O Círculo de Praga, oficialmen.
te fundado cinco anos depois da publicação do presente livro, entrou
em contado com Sapir em 1930, quando o convidou a participar do Con-
gresso Fonológico InternaGÍonal naquela cidade, a que, entretanto, ele
não pode comparecer 10.
Não é nada provável que Sapir, como at'enta Leo Spitzer num arti-
go recente (UPor Que na língua há rnudança''')I\ tenM sido influencia-
do pelas idéias de Baudouin de Courtenay, o mestre de São Petersbu.rgo,
a que não é estranha em seus primórdios a fonologia de Praga. £ sinto-
mático, a este respeito, que neste livro de 1921 Sapir ainda não utilize
o termo "fonema", típico de Baudouin para duignar um con<:eito("equi-
valente psíquico do som") muito próximo do que desenvolve o mestre
nor~e-americano 22.
Só alguns anos mais tarde é que o ténno aparece em Sa]Jir, a prin.
cípio esporadicamente edepois de maneira sistemática, como nos artinos,
citados, de 1933, sobre a Linguagem e sobre A Realidade Psicológica dos
Fonemas. Pode-se, em verdade, atribuir a adoção ao eXemlJlo do Círculo
PREFÁCIO DO TRADUTOR

,de Praga, tanto quanto ao de Leonard Bloomfield, que Ja ~m 1926,' apre~


~enta71do HUm Conjunto de Postulados para a Ciência da Linguagem lt

na revista Lnnguage (2, 153-64), torna mais precisa 11a essência e na


nomenclatura a interpretação do som lingüistico, definindo,o: "Um feixo
mínimo de traços vocais é um fonema ou som distinti\'o",
Como quer que l6;a, o fato é que Sapir por muito tempo It a:teve
tU preferência a /6rmulaJ como - 41,om", 11,0m padronizado", I'ponto ds
um padrão ,6nicoJl, para ainda 86 falar em "101\,8ma", de maneira coeren~
te, num artigo de 1931 !obre 110 Conceito de Lei Fonética verificado nas
Lfnguaa Primitivas por Leonard Bloomfield", quando se reporta ao autor
comr,ntado 23.
O U30 do termo, afinal, parece ter-lhe sido imposto pelo se-ntimento
de não criar um cisma meramente tenninológico, em ffUe de uma adoção
generalizada na Europa e na América. .
Não há a lIle/lOr dúdda porém, de (]UC llll lilluiHstica norte-americana,
como frisou o l'elho l"ruJlZ lJOfUJIU lIuticia ubilu<Íria de 1939 110 'JJ~l~,
dedicada ao seu colab(Jntdur c brilhault' c.x-almw (10, 58-63), é essencial-
mente de Edward Sapir a intuiçãu do som da fala como ,'aloJOlingüistiw
sobreposto à simples Joealizaçãofísica,
Neste aspecto, como em muitos outros de fecunda originalidade, ca-
beria aprecia,' o pensamento sapiriano em face do q~ havia antes dele
e do que se elaborava em torno dele ou paralelamente a ele, do. mesma
sorte que depreender o que lhe deve o hodierno e amplo movimento eI.
trvturalista, europeu e "órte-amencano. Não é, porém, matéria que S6
cinja a um Prefácio e se compadeça com os modestos propósitos de utn
Tradutor. A este o que deve importar exclusivamente é interpretar (om
fidelid4de a linguagem do seu Autor. Portanto, a minha única n.mtribul-
ção foi aqui a de procurar esclarecer a exemplificação ingUsa ou outra,
pondo-a ao alcan.ce dos leitores de língua portuguesa a quem o inglês (l
outros idiomas estrangeiros não são familiares Jfo.
Notas ao Prefácio

1. Embora nueido Ilm Lauemburgo, na Prúsllia, perto de Danuig, em 1884, Edwaro


Bapir , uma autêntica expressão da cultura norte-americana, onde se integrou ainda
ar. intlneia, ao emigrar com sua famtHa para 011 Estados Unid03 aos 5 anos de idade.
2. 8dected Writing. 01 Edward lIapir in Language, Cultuf'e Gnd PCTlOMlity. ed'tr.d
br David G. J!anlÜlbau"" Berkeley, 1949j com uma noticia eritieo.biogrê,fica e uma
bibliografia completa.
3. Sound PaUern.r in lAnguagt, LAnguage 1925, I, 37.51. La Realité P,ychologiqM
&t, PhoMme., Journal de P8Ychologie 1933, XXX, 247-65; a compilação Mandt>lbauru,
fit., dA. a redaçlo ingleaa - Tliil P&ychol0!Jical Reality 01, PlKmemcs. 46.60.
.•• DWakct (Encyclopedia 01 B0ci4r 8cit'fI,Ctl, New Yorlr:, 1931, vo1. 5), LangUlJge
(idem, 1933, voI. 9), unguage (lnd Enmf'onment, que é uma. p:-eleçJ.o na AasociaçAo
Antropo16giea Amerie&na em 1911, publicada no A:mtTican A:nthropotogut em 1912,
segundo noe informa o profesaor Mandelbaum (Seleeted Wrifingl, cit., 89), The SrIJ-
tVl of LiflguilHc.t e.t 11 8cieue (L4nguage, 1929, 5, 207 ••14), Speeeh a.J a Per.tonality
Trair (JwmaZ ol Soc'ology, 1921, 32, 802-905).
5. Na re8enha dos Seleeted Writing, cito lnternational JOtwnal of A:merioan Li".
gtNtw (IJAL), BloomingUln, Ind., 1951, H, 183.
6. 0& nomes indiO! nlo elo aqui aportuguesados, salvo quando o aportuguesamento
j' é tradicional. 86 hOUVAligeira!l modificações na.e grdi&8 inglesll.'l que poderiam
levar li. perplexidade o leitor de Hngua portuguesa. Os .nomes de Hnguas ou tribos,
de origem francesa ou ingll'8a, foram grifad08 e mantidos tais quaÍB.
7. A Ill8tituiçAo Smith.soniana, criada em 1846 por Ato do CongreMo par&. aumen.
tar e difundir a ciência, com e&rá.ter ofiC'ial, decorre de uma doação te9tamenUria. de
.Jam~ Smithson para. esse fim.
8. Sobre Bou como lingüista, ~oD8ultar - Reman .Jakob8on, Â OrirntGÇdo Un-
giiút~ de Franz Boa.t (FrllJU Boa.t A:pp"ooch to L4nguagc), lnternatNmal JOVf'nQI
of ,.jmerican Linguuticl (I.JAL), Bloomington, Ind., 1944, 10, 188.95.

9. Hllndbook of A:mcrioan Indian Langooge.t, Waahington, D. C., 1922, lI, 8.


10. T.me Perspeet.tJtJ '" A:boriginal A:merican CultUf'e - A: Stu4y 'n
Method (1916)
(8elected W",Hng', cit., 389.462); ai já. há a eoneeituaçA,ode bea lingüistica, como
central e perifériea. (pAg. 412), hoje tio desenvolvida nu "normas areais" doe neolin.
güista.s italianOll.
11. SturteV'lLnt, no !leU trabalho de 1942 (The Indo.H.Uite Laring'.,'1l.t; ef. minha
resenhA no Bole""" fk F.Zologia, Rio, 1947, no. 7) df'Clare. muito dever la idéias de
~a.pir neste particulAr.
12. 08 E.!tudos Lingütstic<Js nos E8tados Unidos da ,.jméTica do Norte, Rio, 1945,
pág. 11.
8 A LINGUAGEM

13. Retiro.me ao artigo de W. Dorolzewlki, Quelque. Remarque! lU1' ltl. RappOf'&.


dtl la Sociolopic tt d" la Li1lguilUqvc, Durkhtim et FerdiMM de SOUIUf"I, Journol
de P,vchologic, Patil, 1933, XXx, 82.91. Alhurea, tratei Dal. defletl.volridamente da
qUettl..o (Co1\tribuir40 d EltiZ"tico Portugll. •.,a, Rio, 19~3).
14. Loft{JtMJge,New York, 1933.
15. OatUne Guidt for thIJ 8tudy 01 Forng" z..onguoge TetU1l"'9, Baltimore, Md.,
1942. Eua experiência pedagógiea foi euidadOl!lamente estudada num livro de Paul
Angiolillo (Ârmed Force$' Forno" Lc."fJ1ItlJge TtaClli"g, New York, 1941), de que fiz
uma resenha na reviata Culttwa, Rio, 1949, 1.2.
16. TM Mv.n:oal FOUM4tioM 01 Yenc, JouYft4l 01 Engli.IIl aftd Germ4ft'c P1&üology,
Urbana, li!., 1921. XX, 213-28.
,
17. Robert HaIl Jr., [n Memoriam LeO'ftOrd Bloomfidd, Lingua, Barrem, 1950, lI, 119.
18. The ThcOf'Y of Speccll and Language, Oxlord, 1932, pAgo 130, n. Cf. aeima,
nota. 13.
]9. A posição de Sapir ainda ressalta mai.s nitida no a.rtigo sobre ~ Fala como
Traço de Pe-rIOMltd6ck, cito
20. Á!J afinida.des do Circulo com Bapir foram ressaltadas mais de uma vez por
Trubctzkoy' e R. Jakobeon. Cf. especialmente o Relat6Tio de!lte último no Bexto Con.
gresso Internacional de Lingüi.stas, .A.ctel, Parill, ]9~9, pAg. 5.

21. Why doeI Lang1UJge Changtl, Modcrn Lang'UlJoe Qllatt1'ly, 8eattle, W&l'h. ]O~3,
4, 415.6. Ao eontr6.rio, para Trubehkoy a teoria de Sapir 'Ifoi criada em total indo.
pendência de Bl\udouin de Courtenay e IDellmode Baullsure" (JO\lrnal de P,ycholog-ic,
cit., pig. 230)

22. O termo, que jâ existia. em grego para designar "emiss~o vocal", foi U8adO
pratieamcnte ao tnpsmo tempo pelos médicos do laboratório de Marly, por S&US8Ure
e por Bll.udouin. de Courtenny; mas neste é que tem llÍ8tema.ticnmente um conceito
ni.tido novo.
23. The Conccpt of PlIondk Law tu telted -in Pritnie-ive Language8 by LeonnrJ
Bloomficld (Selectrd WJ"itingl, cit., 73.82).
2.. Os esclarecimentOll do Tradutor, no testo ou em notai, se aeham entre colehetn..
Prefácio do Autor

Destina-se este livrinho a' dar uma VlS8.Ode conjunto a respeito da


linguagem e não propriamente a coligir fatos da linguagem. Pouco lhe
cabe dizer sobre os fundamentos psicológicos últimos da fala, e, dos
fatos tanto atuais descritivos como históricos, das várias línguaS só mi-
nistra o que é suficiente para ilustrar certos princípios. O seu escopo
precípuo é mostrar a minha maneira de conceber a linguagem e as suas
relações com outros interesses humanos básicos: o problema do pensa-
mento, a natureza do' processo histórico, a rac:a, a cultura, a arte.
A visão a~im obtida será útil, creio eu, não só aos que se dedi-
cam à lingüistiea, mas também ao público em geral, ser.lpre meio pro-
penso a relegar as noções lingüísticas para a elnsse dos pedantismos pl'i.
vativos dos espírit.os essencialmente vadios. Um conhecimento das rela-
c:óes mais amplas existentes em sua ciência é essencial aos lingüistas pro-
fissionais. se querem escapar à esterilidade de uma atitude puramen-
te tGcnica.
Jo:ntrc os contemporâneos de relevo que escreveram sobre as coi-
sas do pensamento, Croce é um dos poucos que mostram ter compreendi-
do a significação fundamental da linguagem, assinalando..lhe a íntima
relação com o problema da arte. Muito devo à sua percuciência!
Independentemente do interesse intrínseco que têm, as formas e 0.'1
processos históricos da linguagem oferecem um valor diagnóstico de mÁ-
xima importâuc.ia para a compreensáo de alguns dos problemas mais
árduos e fugidios da psicologia do pensamento, E' para a compreenSl:10de
ncrÍ\'a, estranha e de efeitos ncumulados, na vida do espírito humano,
que chamamos história, progresso ou e\'olu~ão. Esse ,'alor depende prin-
cipalmente da natureza inconsciente e irracional da estrutura lingüís-
tica.
Evitei n maior parte dos termos técnicos e todo~ OI; símbolos técni-
cos da academia lingüística. Núo há um só sinal diacrítico no li no.
Sempre quo foi passivel, a discussão assentou em material ingles. Foi,
porém, necessário, dentro do plano do livro, que inclui UUla apre<.'iação

• [Cf., no Prefácio do Tradutor. o que !lC diz na pág. 11.]


10 A UNGUAGEM

dos tipo..qproteíformes em que se vaza a expressão do pensamento hu~


mano, citar alguns exemplos exóticos. Não me sinto obrigado a desculpar-
me disso.
Em ,:.irtude da falta de espaço, tive de deixar de 'parte muitas
idéias ou princípios em que gostaria de tocar. Outros pontos tiveram do
Bcr tratados na alusão rápida de uma sentenc;a ou no ("orrer de uma
frase.
Confio, não obstante, em qUE' o es')encial se acha aqui concatenado
e de sorte que sirva de estímulo a estudo .mais fundamental num campo
ora entregue ao abandono.
Desejo expressar a minha apreciaçiio cordial dos conselhos sin.
ceros e sugestões valiosas de certo número de amigos que leram a obra
em mamISCI'ito, especialmente os Profs. A. L. Kroeber e R. 11. Lowic da
Universidade da Califórnia, Prof. \V. D. \Valli:; da Escola Superior
de Rcoo e o Prof. fI. Zcitlin da Unh'crsidade de Illinois.
1.Parte Introdutória:
Linguagem e sua Definição

Falar é um aspecto tão trivial da ,ida cotidiana que raramente nos


detemos a analisá-lo. Parece tão nntural no homem quanto andar, c pouco
menos do que respirar.
Basta, entretanto, um momento de reflexão para convencer-nos de
que essa espontaneidade não passa de uma impressão ilusória nos.'ia. O
••r~esso de aquisi~ão da linguagem é, em suma, coisa completamente di-
\"ersa do processo de aprender a andar.
No caso desta última fun«.:ão, a cultura - em outras palavras a mas-
sa tradicional dos usos sociais - não entra propriamente em jogo. A
criança é individualmente apta, em virtude do complexo conjunto de fa-
tores a que chamamos hereditariedade biológica, a executar tod06 os aju3-
tamentos musculares e nervosos que lhe são pl'c('isos para. andar. Pode-se
dizer que a própria conformação de tais músculos c das partes deterrni.
naJas do sistcma nervoso já é por si adequada aos movimcntú8 que andar
e atividades semelhantes impõcm. Na .realidade, o pequenino ser hwnano
normal está predestinado a andar, não porque os adultos o assistam na
aprendizagem, mas porque o próprio organismo, desde o nascimcnto, se
não desde o munento da concepção, vem preparado para o dispêndio rle
energia nervosa e para as: adaptac:õcs musculares que exige a atividade
de andar. Em resumo, trata.se de uma função biológica inerente ao h~
mem.
O mesmo não se dá com u linguagem.
t:evidente que, até certo ponto o indivíduo humano está predestina-
do a falar, mas em ,irtudc da circunstância de não tcr nascido mera.
mente na natureza, c sim no regaço de uma sociedade, cujo ('f.('OPO 1"<!cio.
nal é chamá.lo para as: suas tradições.
Eliminai a sociedade e não haverá dúvida em supor que ele apren.
derá a andar, dado que sobreviva de qualquer maneira. É igualmente
indubitável, porém, que jamais aprenderá a falar, isto é, a comunicar
idéias segundo um sistema tradicional. Hemovei agora. o recém.nascidll
do meio social para que ele acaba de vir e transplantai.o para um meio
12 A LINGUAGEM

completamente estranho. Dcsenvolver~se-á a capacidade de andar' no novo


ambiente quase como se teria desenvolvido no ambiente antigo. Mas a
fala ficará em completa dif)Cordância com a fala do meio nativo.
Andar é, portanto, uma atividade humana geral, que só varia num
limite muito preciso à medida que passamos de um indivíduo a outro.
j:; uma variabilidade il1".oluotária e sem significação. Falar é uma ativi-
dade humana que varia, sem limites previstos, à medida que passamos
de um grupo social a outro, porque é uma herança puramente histórica
do grupo, produto de um U~ Isocialprolongado. Varia como variam todos
os esfor<:os criati\'os - não tr~oconscientemente talvez, mas pelo menos
tão evidentemente quanto as l"cligiões,as creol;as, os costumes, e as artes
dos diferentes povos.
Andar é uma futH;ão orgânica e instinti,'a (embora não seja a bcm
dizer um instinto); f31nr é nma função não instintiva, uma função ad-
quirida, "cultural",
Há um fato que muito tem concorrido para fazer com que se deixe
freqüentemente de reconhecer a linguagem como o sistema merainente
convencional de símbolos sonoros que na realidade é, induzindo o espí-
rito popular n atribuir à ath-idade uma base instinti\"a, que absoluta-
mente não exi'ite~ :e a observação muito conhecida de que, sob a pressão
de uma emoção, ,sob o acicate de uma dor súbita ou de umlj.alegria irre-
freada, por exemplo, emitimo.'i sons que as pessoas que nos oU\'em, in-
terpretam como indicativos da própria emoção, Há, entretanto, uma dife-
rença cabal entre tais cxprcSfo>ões in\"oJuntárias de sentimento e o tipo
normal de comunicação de idéias em que consiste o falar,
Aquelas emissões vocais são, com efeito, instintivas, mas também &b
não-simbólicas; em outros termos, um grito de dor ou alegria não indica,
como tal, a emoção; não se apresenta por si, por as.'iimdizer, para anun-
ciar que determinada emoc;ão-está sendo sentida, O que faz é servir rlc
escoamento, mais ou menos instintivo, à energia nervosa; nté certo ponto,
ê parte e parcela da própria ernot;ão,
Demais, esses gritos instintivos não constituem uma "comunicação"
no sentido estrito do termo, Não se dirigem a alguém, e são surpreendi-
dos, antes do "que propriamente ouvidos, à maneira do ladrar de um cão,
do ruído de passos, do sibilar do vento. Podemos di7.er que transmitem
certas idéias a quem os ouve, mas no sentido muito geral com que é lici-
to dizer que todo e qualquer som, ou, melhor, qualquer fenômeno, traJH-
mite uma idéia ao cérebro humano, Se o grito involuntário de dor, ecn-
vencionalmente representado por um "Oh!", pode ser considerado um
verdadeiro símbolo de linguagem, equivalente a uma idéia tal comI')
"Estou com muita dor", não há como não admitir que o aparecimento
das nuvens seja o símbolo da mensagem nÍtida - "Vai provavelmente
chover", Ora, uma definição da linguagem assim por tal modo lata, qUI~
inclui todos os tipos de inferência, torna-se sem "alor e sem maior alcance,
Cumpre, além disso, não cair no erro de identificar as nOSSB.':j
inter~
jeiçõeS convencionais (como oh!. ah!. psiu!) com os gritos instintivos
propriamente ditos,
Essas interjeições fixaram de maneira toda convencional os sons nl1~
turais, Diferem enormemente, portanto, de idioma para idioma, de acor-
do com o gênio fonético específico de cada um. Como tais, podem ser
PARTE INTRODlITÓRlA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO 13

consideradas partes integrantes da linguagem, no sentido propriamenw


.cultural deste termo, sendo, como são, distintas dos gritos instintivos pro-
priamente ditos; da mesma sorte que as palayras cuckoo e killdeer [ou em
.português, analogamen~e, "bern-te-vi"l] são distintas dos gritos dos pás-
saros por elas representados, e a orquestra~ão da tempestade na ouvertu-
Te do ~ui1herme TeU de Rossini não é a própria tempestade.
Em outros termos, as interjei~ões e as palavras de sons imitativo~.
na fala normal, estão para os seus protótipos naturais na mesma rela~ão
e
em que a arte, que é uma coisa puramente social cultural, está para
a natureza que lhe serve de tema.
Haveria a objeta); talvez que, embora as interjeições difiram algum
tanto de língua para lingua, oferecem, não obstante, impressionantes tra.
ÇOB comuns para que se possa cotuliderá.las expressões de um fundo in~
tinti\'o geral.
Mas o problema das interjeições em nada se distingue daquele que
nos pode ser proposto ante as várias maneiras nacionais de pintar.
Uma pintura japonesa que representa uma montanha, é a um tempo
diversa e semelhante, comparada a uma pintura moderna européia sobre
o mesmo tema. É o mesmo aspecto da natureza que se sugeriu a ambas e
que ambas "imitam". Contudo, uma ~ outra não são a mesma coisa, e ambas.
não são a rigor uma expressão direta daquele acidente natural. As duai
maneiras de representa<;ãonão são idênticas, porque procedem de tradi-
ções hist6ricas diversas e foram executadas com diversa t~nica pict6rica.
A interjeição japonesa e a inglesa foram, da mesma sorte, sugeridas
por um protótipo natural comum - o grito instintivo, e são inevitavel-
mente sugestivas uma da outra. Diferem, por outro lado (muito, 011
pouco, não importa), porque foram criadas com materiais ou técnicas
historicamente diycrsas, quais são as tradições lingüísticas, os sistema"l
fonéticos e os hábitos de fonac;ãodistintos dos dois POyos.
Ao contrário, os grito:i instintiYos, propriamente ditos, são pratica-
mente id~nticos para toda a humanidade, da mesma sorte que o nosso
esqueleto humano ou sistema nen'oso é, em última análise, um trac,:o
"fixo" do organismo humano, ou seja um trac;o apenas variáye1 de ma.
neira mínima c "acidental".
Acresce que as intel'jeic;Õ{'ssão na fala elementos de somenos impor-
tância.
Valem mais como demonstração de que até êles, inquestionavelmentc
os sons da linguagem que mais se aproximam da emissão instintiva, são
de natureza instintiva apenas aparenteme.nte.
Se fosse possível, portanto, demonstrar que a linguagem, de maneira
global, considerada nos seus longínquos fundamentos históricos e psieo.
lógicos, provém das int('rjci(~ões,não banria como concluir daí ser ela
atividade instinth-a. ::\las,na realidade, todas as tentativ8:-;para uma tal
demonstra~ão da origem da linguagem foram infrutíferas. :Não há evi.
dência tangível, de ordem histórica ou de outra ordem, que se preste a
admitirmos que a massa dos elementos e dos processos da lin~uagem seja
uma evolução das intcrjeiçÕ<.'s.Esta" constituem uma porção mínima e
funcionalmente insignificante do vocabulário de qualquer língua; em ne.
nhmna época e em nenhuma província lingüística até hoje conhecida vi-
14 A UNGUAGEM

mos sequer uma tendência apreciável para elaborar.se com elas a trama
de fundo da linguagem. Nunca passaram, quando muito, de um debrum
decorativo para aquele amplo e complexo tecido.
O que dissemos das interjeições aplica-se. ainda com mais razão, às
palavras de som imitativo.
Palavras como whippoOTll.!ill, to mew, to caw [ou, com exemplos por-
tugueses, "miar", jjgrugrulejar" 2] não são em absoluto sons naturais que
o homem tenha reproduzido instintiva ou automaticamente. São cria~õc.<o
do espírito humano, arroubos da fantasia humana, como tudo mais na
linguagem. Não nos vieram diretamente da naturezaj foram apenas
sugeridos por ela e modulam-na à sua feição.
Por isso, a teoria onomatopaica da origem da linguagem, segundo a
qual nós falamos por gradual evolução dos sons de caráter imitativo, não
nos conduz realmente a um ponto de partida no instinto, como a ele não
nos conduz o exame da linguagem geral hodierna.
A teoria em si não merece mais crédito do que a sua equivalente em
referência às interjeições.
É verdade que certo número de vocábulos que não nos parecem hoje
ter valor imitativo, vão relacionar-se a uma forma fonética' anterior que
nos leva, com probabilidade, a originá-los das imitações de sons natura i".
É o caso do verbo inglês to laugh. [porto "rir"]. Não obstante, é ue todo
impos'l>ívelprovar, e não parece sequer razoável supor, que uma propor-
ção apreciável dos elementos de linguagem ou qualquer coisa dJ seu me-
canismo formal possam ter provindo de uma fonte onomatopaica.
Por mais propensão que se tenha, sob o fundamento de certos prin-
cípios teóricos, a atribuir importância precípua, nas línguas dos POV<t.i
primitivos, à imitação dos sons naturais, não-é possível fugir à eridência
de que essas Hnguas não mostram especial predileção para os vocábulos
de origem imitativa. Entre os povos mais primitivos da América aborÍ4
~ne, as tribos athabáskan do rio Mackcnzie falam idiomas que parecem
quase ou em absoluto prescindir de palavras dessa espécie,-ao passo que
em muitos idiomas supf>rcivilizados,como o alemão e o inglês, as onomn-
topéiac" são usadas com bastante freqüência. Isso prova quão pouco fi
essência da linguagem depende da mera imita~ão das eois.l~da natureza.
Estamos agora em condições de estabelecer uma definição satisfató-
ria da lin~uagem. f~um método puramente humano e não-instintivo de
comunicação de ,-jéias, emoções e desejos por ll1:eiode um sistema de sím-
bolos voltmtariamcnte produzidos. Entre eles, avultam primacialmente
os símbolos auditivos, emitidos pelos chamados "órgãos da fala". Não há
uma base discernÍl,"cl de instinto na fala l;umana considerada como tal,
embora muitas expressões instinth-as e a própria natureza ambiente sir-
,"am de estímulo ao desrnvoh.imento de certos elementos lingüísticos, e
embora muitas tendências instintivas, motrizes e outl'aS, ofel'eçam um
teor oa molde predeterminado à expressão lingüística. Comunica,:õcs, hu-
manas ou animais, (se é qUf' mrreccm este nome) decorrentes dos grito~
involuntários instintivos não constituem, a nosso vcr, fatos de linguagem.
Acabo de referir-me aos "órgãos da fala", e pode parecer à primeira
vista que isso importa na incoerência de admitir que a fala é uma ativi-
dade instintiva, biologicamente predeterminada.
PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO 15

Mas não nos iludamos com essa maneira de dizer.


Não há, a rigor, órgãos da fala; há apenas órgãos que são inciden.
talrncnte utilizados para a produção da fala. Os pulmões, a laringe, a
abóbada palatina, o nariz, a língua, os dentes c os lábios serycm todos
para esse fim; mas não podem ser considerados órgãos primordiais da
fala, da mesma sorte que os dedos não 8<1.0órgãos de tocar pinHo nem os
joelhos os órgãos da genuflexão religiosa.
A fala não é uma atividade simples executada por um ou mais órgão'i
biologicamente a ela destinados. É uma trama extremamente complexa
e ondeante de ajustamentos - no cérebro, no sistema nervoso, e nos
órgãos de articulação e audição - em direção ao fim colimado, que é a
comunicação das idéias.
De uma maneira geral, pode-se dizer que os pulmões se "desenvolveram
em conexão com a função vital chamada respiração; o nariz como órgão
do olfato; os dentes como órgãos úteis para triturar o alimento, ingerido
em condições impróprias para a digestão.
Se, por conseguinte, esses e outros órgãos são constantementc utili-
zados na fala, é apenas porquc um órgão qualquer, \lma vez existente e
na medida em que depende do governo da vontade, pode ser utilizado
em aplicações secundárias. No que tange à fisiologia, a fala é uma função
I
cxcrescente, ou, para sermos mais precisos, um grupo dc funções excres-
centes. Tira o proveito quc pode de órgãos e funções, ncrvosos e muscu-
lares, que se criaram e se mantªm para outros fins muito divcrsos.
É vcrdade que os psicofisiologistas aludem à locali7.ação da fala no
cérebro.
Isto só pode significar que os sons da fala estão localizados na região
auditiva do cérebro, ou numa parte limitada dessa região, precisamente
como outras espécies de bons cst~o aí localizados; e que os processos mo-
tores previstos na fala (por exemplo, os movimentos das cordas vocais
na laringe, 08 movimentos da língua necessários à emissão das vogais.
08 movimentos dos lábios neces.'l.ários à articulação de certas consoantes
e muitos outros) estão localizados na região da atividade motriz, preci-
samente como todos os demais impulsos das di\'Crsas atividades motrizes.
Da mesma maneira, é na região visual do cérebro que está localizudo o
governo de todos aqueles proces.'lo.'l de reconhecimento visual impostos na
leitura. Naturalmente, os pontos particulares, ou grupos de pontos, da
localização, nas diversas regiões cerebrais, referente a um dado elemento
lingüístico l'Rtào ligados entre si por linhas de associação, de ~orte que
o aspecto externo, ou psicofísico, da linguagem é o de uma vasta rede de
locali7.ações aRsociadas, no cérebro e nas regiões nervosas inferiores, sen-
do fundamentais, sem dúvida, entre todas, as locali7.ações auditivas.
Contudo, um som da nossa fala localizado no cérebro, mesmo ass0-
ciado aos movimentos dOR órgãos fonadores neces..",ários para produzi-lo,
está longe dc ser um elemento da linguagem. Cumpre-lhe, a mais, ass0-
ciar-se com outro elemento ou grupo de elementos da noSSe'),experiência
digamos, por exemplo, uma imagem visual, ou uma cla88e de imagen'i
visuais, ou um sentimento de rela<.:iio - para que possa ter valor lin-
~üístico sequer rudimentar. Es.o;e elemento da no~a experiência é o con.
tcúdo, 011 "significado" da unidade lingüística; os vários proces..'IDScere-
16 A LINGUAGEM

brais, como o auditivo e o motor, imediatamente anteriores ao ato de fa-


lar e ao ato de ouvir o que .se fala, são como um símbolo complicauo ou
um índice desses "significados", fuja essência p.studaremos mais adiante.
Já vemos, portanto, que a linguagem, em si mesma, não é nem podo
ser Ioealizada de uma maneira definida, pois consiste numa relação sim~
bólica toda peculiar - e fisiologicamente arbitrária _ entre todos os
elementos da nossa experiência, de um lado, e, de outro lado, certos ele-
mentos ~leciollados. localiza~os nas regiões auditiva, motriz, etc. do cé-
rebro e do sistema nervoso.
Só podemos dizer que a linguagem está localizada no cérebro DO sen~
tido geral. e praticamente inútil, com que dizemos que todos os aspectos
da nossa consciência, todos os interess<.>se toda a atÍ\idade do homem
"residem no cérebro".
Logo, não há outra solução senão aceitar a linguagem como um sis-
tema fnncional completo que pertence à constituição psíquica ou "espi.
ritual" do homem. Não é possível defini-la em termos psicofísicos, por
mais essencial que seja uma base psicofisica para os atos lingüísticos do
individuo.
Do ponto de vista do fisiologista ou do psicólogo, pode parecer qu~
é fazer uma abstração precária propormo-nos a tratar do tema da lin.
guagem sem referência constante e explícita àquela base.
Mas tal abstração se justifica.
Podemos com proveito tratar da intenção, da forma e da história da
linguagem, precisamente como tratamos de qualquer outro aspecto da
cultura humana - da arte ou da religião, por exemplo - à maneira .de
uma entidade institucional ou cultural, deixando de lado os mecanismoS'
.orgânicos e psicológicos que a condicionam, como coisa aceita uma vez
por todas.
Fica, por conseguinte, entendido que esta introdução ao estudo da
fala não se preocupa com os processos fisiológicos e psicofisiológicos pres-
supostos no ato de falar. O nosso estudo da linguagem não é o da gênese
e operação de um mecanismo concreto; é, antes, um inquérito acerca da
fW1Çãoe da forma desses sistemas arbitrários de simbolismo conhecidos
pelo nome de ulínguas".
Já aqui observei que a essência da linguagem está em atribuir sons
convencionais, voluntariamente articulados, ou um equiYalente desses
sons, aos diversos elementos da nossa experiência.
O vocábulo "casa" não é um fato lingüístico se apena.':Ivirmos nele
o efeito aCllStico produzido pelas vogais e consoantes que o constituem
pronunciadas em certa ordem; nem os processos motores e as sensações
táteis resultantes da articulação do vocábulo; nem a percepção auditivo.
dessa articulação por parte do om;ntej nem a percepção visual do vocá-
bulo na página manuscrita ou impressaj nem os processos motores e as
sensações táteis que fazem parte do ato de escrever o vocábulo; nem a
.memória de uma dessas ou de todas essas experiências.
É só quando ('ssas, c Jlossl\'elmente outras, experiências associada.,;
:se.associam por sua vez com a imagem de 11ma casa, que começam <1
tomar <1 feição ue símbolo, de pala na, de elemento lingüístico.
PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO 17

.Mas não é suficiente o simples fato de tal associação.


Uma pessoa pode ter ou\-ido uma dada palavra numa dada casa
1':TI c;muições impressivas, c desde então, aquela palavra e a imagem
daquela casa se associam de tal sorte no seu espirito que a presença
de uma na consciência determina a presença da outra. Esse tipo dc
associação não constitui linguagem.
A associação tem de ser puramente simbólica; em outros termos,
o vocábulo tem de denotar, anexar a imagem, não tem de ter outra apli-
cação senão a de uma fieha de referência para todas as ocasiões De.
cessárins ou conn'llieDtcs. Tal associação, voluntária c até certo ponto
arbitrária com.o é, requer um considcrá\'cl exercitnmento de atenção
consciente. P<'1o 111N105 nos primeiros tempos, porque o hábito a torna
bem depressa quase tão automática como todas as outras associaçõcs
mentais e mais rápida do que a maioria delas.
:Mas fomo,i, sem querer, um pouco longe demais.
Experi~ncia ou imagem auditiva, motri7. ou visual - o. símbolo
"easa", se relacionado à única imagem de uma dada casa vista em dada
ocasião, tah"ez possa, dentro de um critério indulgente, ser considerado
elemento de nossa falaj mas é óbvio desde logo que uma fala assim
constituída tem ponco ou nenhum valor para o fim da comunicação
entre os homens.
O universo das nossas experiências precisa de ser enormemente sim-
plific~do e generalizado para que scja possível fazer um im"entlÍrio
simbólico de todas as nos.<>as experiências de coisas e relações; e um in-
ventário desses é imperativo para podermos transmitir idéias.
Os elementos da linguagem, os símbolos que ficham. a experiência
humana,. de\.em, portanto, estar associadas a grupos inteiros, classes de.
limitadas de experiência, que não as próprias experiências individuais.
Só assim é possível a comunicação entre os homens: pois a experiência
individual, alojada numa consciência individual, é, a rigor, incomuni-
cánl. . Para co~wljcar-se, é.lhe necessário ser atribuída a uma c!assc
que a comunidade humana tacitamente aceita como identidade. É assim
que wna impressão singular que eu tive de determinada caSll passa a
identificar~se com todas as minhas outras impressões a respeito, ante-
riores e posteriores.
E não basta.
É preciso que a minha memória generalizada, que é a minha "noçãol)'
desta casa, se dissolva com as noçõcs que todos os outros indivíduoo,
que virem a casa, dela formaram. O caso de uma experipncia singular,
que consideramos a princípio, ampliou-se agora, portanto, e abarca
todas as impressões ou imagens possíveis que seres humanos formaram,
ou poderão formar, da casa citada. Esta simplificação preliminar da
experiência é, no fundo, a que apresentam um grande número de ele-
mentos lingüísticos; a saber, os chamados nomes próprios, nomes de
animais'c coisas individuais. t, em última análise, o tipo de simplifi-
cação que a história e a arte pressupõem ou têm por escopo.
Mas não podemos contentar.nos com essa medida de redução na in-
fini<lr.de da expcrii'ncia humana.
Temos de ir ao âmago das coisas c amalgalnar massas inteiras de
experiências, até certo ponto tiio scm.<"lhantesque nos pC'rmitam - gros-
18 A LlNGUAGEM

seira mas com'cnientcrnentc - tratá-Ias como idênticas. Considera-se


que esta casa, c mais aquela, c mais 1I1ilharcs de fenômenos análogos ofe-
recem suficientes tra~os comuns, apesar de grandes e óbdas difcrcnC:lls
de uNalhc. c classifica-se n todos debaixo de um ml'Srtlo título.
Em outros termos, o elemento lingüístiro "casa" é o símbolo ini-
cial e final, não de uma percep«:ão isolada, ou sequer da noção de Ufficl
coisa particular, ma:i de um "conceito", isto é, de uma cômoda cápsu-
la de pensamento, que contém milhares de experiências distintas e é
capaz de absorver milhares de outras mais. Se cada elemento lingüís-
tico significante é o símbolo de um conceito, o desenrolar da nossa fala
pode ser interpretado como a apresentação de certas relações estabele-
çjdas entre esses conceitos.
Tem.ge ventilado a miúdo a questão de saber se o pensamento. é
possível sem a linguagem; mais ainda, se a linguagem c o pensamento
não são duas facetas do mesmo processo psíquicoo
A qucstão é tanto mais árdua quanto tem sido desfigurada por
certas incompreensões.
Preliminarmente, convém ohsenoar que, quer o pensamento neces-
site, quer não nc(~cssit(' de sim1Jolismo, isto é, da linguagem, a manifes.
tação desta última não indica sempre a pref-Clu:a de pensamento. Vimos
que o elemento lingüístico típico rotula um conceitoo Kão se scgue daí,
porém, quc o uso da linguagem seja sempre ou quase sempre, conceptual.
Na vida comum, preocupam nos menos os conceitos do que certas parti.
cularidades concretas e rcla~ões específicas. Quando digo, por exemplo
- "Fiz um bom almot;o hoje de manhã", é dam que não estou em tra-
balhos de um pensanH'uto substarlf'ioso, e que o que eu tenho para trans.
mitir não passa de uma lC'mbloaIH;aagradiivel que entrou pelos canais
da expressão habitual. Cada elemento 'da scnlem;a define um dado con-
ceito, ou uma dada rela<;ão conceptual, ou a combina,:üo dc um e de ou.
tra, mas a sentença em seu conjunto nüo tcm o mcnor alcance conceptual.
t como se um dínamo, capaz de gerar a 1'or,:a elétrica que f.{o\'er-
na um ascensor, se limitasse a alimentar a campainha de um portão,
O cotejo é mais sugestivo do que parece à primeira vista,
Pode-se considerar a linguagem um instrumento c"'paz de percor-
rer toda uma gama de usos psíquicos. O seu desdobramento não se li.
mita a acompanhar o conteúdo interno da consciência; acompanha~o
~m nh'eis diversos, indo desde o estado mental que é dominado pelas
imagens conClocta8, até aquele em que só são focali70ados pela atenc:ão
os conceitos abstratos e as suas rchH;õcS, () que (,OIlHlrnentc recebe o nome
de raciocínio, Destarte, apenas a forma exterior da linguagem é con.s-
tante; a significa<;ão interna, o valor ou intensidade psíquica, .varia li-
vremente com a aten~ão ou o interesse seleti\'o do espírito, e também -
inútil é dizê-lo - com o descnvohoimcnto gernl do espírito. Do ponto
de vista da linguagem, pode-se definir o pensamento como sendo o mais
alto conteúdo latente ou potencinl da fala, o conteúdo que se obtém
com atribuir a cada um dos elem{'ntos do discurso o seu valor conceptual
mais pl('no, Daí s(' seglH~ quc a linguagem e o pensamento não são e,'itri.
tamente eoinci<1clltes. Quando mnito, a ling-uagem pode chegar a ser fa.
ceta externa (lo pellsamento, no nível mai~ alto e gemi da expres.<Ül.')
simbólica o
PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO 19

Para aprCHcntar sob oulra forma a nossa doutrina, digamos que


a linguagem é, primariamente, uma função pré-racion.aJ: Limita-sc com
humildade a ('ntre~ar ao pensamento, nela latente e eventualmente ex-
teriorizável, as suas elassifica~ões c as suas formas; não é, como ingê-
nuamente se costuma supor, o rótulo final de um pt'nsarncnto concluído.
Perguntando à maioria das pessoas RC lhes é possível pensar sem
a linguagem, obteríamos provavelmente es1a resposta: "Sim, mas IlÚO é
('oisa fácil. Contudo, sinto que é possÍ\'cl",
A linguagem é então uma roupagem!
. E se fósse, ao contrário, não tanto uma roupagem quanto uma ~.
trada feita, um canal!
Com efeiro, é mais do que provável que a linguagem seja um ins-
trumento aplicado, de início, abaixo do plano dos conceitos e que o
pensamento tenha surgido de uma interpretação requintada do cor~teú-
do lingüístico.
Em outros termos,' o .produto descJ1yoh'e-se com o instrumento, e o
pensamento, na sua gênese e na sua prática diária, é tão inconcebh'el
sem a linguagem quanto o raciocínio matemático é impraticável sem a
alavanca de um simbolismo matemático adequado. Ninguém supõe que a
mais difícil, embora, das proposições matemáticas esteja na dependên-
cia inerente de um jogo arbitrário. de símbolos; mas é impossível ad-
mitir que o espírito humano, sem isso, seja capaz de alcanc:ar e apreen-
ocr uma proposição de tal ordem.
O autor deste livro está convencido de que a impressão que tem mui-
ta gente, de poder pensar, ou até raciocinar, sem linguagem é uma ilu-
são.
Tal ilusão parece-nos provir de um determinado grupo de fatores.
O mais simples deles é a incapacidade de distinguir entre a eyoca-
ção das imagens e o pensamento. ~ inconte~táyel que tiio depressa tenta-
mos pôr uma imagem em relação consciente com outra, sentimo-nos ar-
rastados para um curso silencioso de palavras. Pode ser que o pensa-
mento seja um domínio natural, separado do domír.io artificial da fala,
mas a fala parece ser a única estrada conhecida que nos conduz a ele.
Outra fonte ainda mais freqüente de impressão ilusória de que a
linguagem pode' ser posta de lado no ato de pensar, é a incapacidade que
geralmente se tem, de compreender que a linguagem não' se confunde com
o seu simbolismo auditivo.
O simbolismo auditi\.o pode ser substituído, ponto por ponto, por
u:n. simbolismo motor ou visual (muita gente, por exemplo, é capaz de
ler num sentido meramente visual, isto é\ sem o elo intermediário de
uma série de imagens mentais auditivas, correspondentes às palavras
impressas ou escritas), ou pode ainda ser substituído por outros tipos.
mais ~utis e fugidios, de transferência, que já não são tão fáceis de definir.
Dizer, portanto, que se pensa sem linguagem, porque não se percebem
jmagens mentais auditivas coexistentes, está muito longe de ser uma
a firmução válida.
l~-nos lícito ir ao ponto de suspeitar que a expressão simbólica do
pensamento pOS8a, em alguns casos, desenrolar-se fora dos lindes da
consciência, de sorte que a impressão de um curso de pensamentos estre-
mes de linguagem é, para espíritos de certo tipo, relativamente justifi-
20 A UNGUAGEM

cúvcl, mas só relatiysmente.


Em termos psicofísicos, isto significa que os centros mentais audi-
tivos. ou seus equivalentes \'isuais ou motores, justamente com as linhns
adequadas de associação, que formam. a contra parte cerebral da fala, são
tão levemente tocados durante o processo de pensar que não emergem
na consciência.
Seria um caso limite - o pensamento pousando de leve nas grim-
pr.g ~ubmersas da linguagem, em vez de cingi-las para vir à tona com elas.
A psicologia modernél. tem demonstrado com que pujança o simbo-
lismo trabalha no cérebro inconsciente. É-nos, portanto, mais fácil com-
preender hoje, dú que há vinte anos passados, que o mais rarefeito pen-
samento pode não passar da contraparte consciente de um simbolismo
lingüístico inconsciente.
Ainda uma palavra a respeito da relação entre a linguagem e \)
pensamento.
O ponto de ,ista que assumimos, não exclui de maneira alguma fi
possibilidade de ser o crescimento da linguagem em alto grau depen-
dente do desenvolvimento do pensamento.
Podemos admitir que a linguagem surgiu pré-racionalmente - de
que modo e em que nível da athidade mental não saberíamos dizcr ao
certo - mas não queiramos supor que um sistema altamente desenvol-
vido de símbolos vocais se tenha "estabeleddo antes da gênese d06 con.
ceitos distintos e da faculdade de pensar, que lida com êsses conceitos.
~ antes de crer que os processos de pensar se firmaram, como uma es-
pécie de fluxo psíquico, quase com os primeiros tentames da expressão lin.
güística; e que, a seguir, o conceito, uma vez definido, reagiu sobre a ,ida
do correspondente símbolo lingüístico, incentivando um ulterior cresci-
mento da linguagem.
Ainda nmos esse complexo processo de interação da liuguagem e do
pensamento realizar-se atualmente sob os nossos olhos. O instrumento
torna possível o produto, o produto aperfeiçoa o instrumento.
O advento de um novo conceito é invariàvelmente" facilitado pelo
, uso mais ou menos forçado de um antigo material lingüístico; o con.
ceito não atinge a uma vida individual e independente. senão depois do
ter encontrado uma encarnação lingüí!Ztica própria. l'a maioria dos ca.
sos, o novo símbolo é apenas qualquer coisa extraída do material lingüís.
tico já existente, à custa de métodos norteados por prc<:edentes, que se
impõem" ditatorial c esmagadoramente. Assim que possuímos a nova pa-
la\Ta, sentimos instintivamente, como que com um suspiro de alivio, que
o conceito está em no~as mlios. Só depois de termos o símbolo é que sen-
timos também ter uma chave para o conhecimento ou compreensão ime-
diata do conceito. Seríamos tã.o prontos a morrer pela "liberdade", a
lutar pelos "ideais", se estas ,duas palavras não estivessem estridulandG
dentro de nós? Aliá.'3,a palàna, como bem sabemos, pode deixar de ser
uma chave; pode também ser um grilhão ...
" A linguagem é, antes de tudo, um sistema auditivo de símbolos.
Na medida em que é articulada, também é um sistema motor; maR
êste seu aspecto motor é e,identemente secundário em relação ao audi-
tivo. ~os indivíduos normais, o impulso para o discurso parte da esfera
das imagens auditivas, e daí se transmite aos nervos motores que go,.ernam
os órgãos da fala. Os processos motores e as conseqüentes" sensações motri-
PARTE INTRODUTORIA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO 21

zes não são, contudo, a conclusão, o ponto de parada final. São simple.+
mente um meio de atingir e reger a percepção auditiva, tanto de quem
fala como de quem ouve. A comunica~ão, que é o' verdadeiro objeto do
discurso, só se efetua eficientemente, quando as percepções .auditivas de
quem ouve são vertidas para a série, apropriada e colimada, de imagens,
de pensamentos, ou de umas e outros combinados.
Logo, o ciclo da fala, na medida em que se pode considerar um ins-
trumento puramente exterior, comec;:ae termina no reino dos sons. A
.concordância entre as imagens auditivas iniciais e as percepções auditi.
'~8Sfinais é o selo, a garantia social do. bom êxito do processo executado.
Como já. vimos anteriormente, o curso típico desse processo pode
sofrer inúmeras modificações, ou transferenllias em sistemas equivalenteM 1

sem perder com isso os seus genuínos caracteres formais.


A mais importante dessas modificações é a abreviação do processo
da fala implicada no ato de pensar. Manifesta-se indubitàvelmlJnte de
muitas maneiras, segundo as peculiaridades estruturais ou funcionais
de cada cérebro,
O seu aspecto menos modificado é aquele que consiste .no ''falar de si
para si" ou IIpensar em voz alta". Aí, quem fala e quem ouve resumem-
se numa s6 pessoa, da qual é licito dizer que se comunica consigo mesma.
De maior relevo é a abreviação mais acentuada em que os sons ,vo-
cais deixam de ser articulados. A ela se prendem todas as variedade.'f
de discurso silencioso e de pensamento normal. Só há excitação dos cen.
tras cerebrais auditivos; ou, então, o impulso para a expreBeão lingüís-
tica comunica-se também aos nervos motores que se comunicam com 08
órgãos da fala, mas sofre uma inibição quer nos músculos desses 6rgãos,
quer num ponto dos próprios nervos motores; ou, ainda, talvez, os cen-
tros auditivos mal são ou não são sequer impressionados; e o proces.~
ua fala manifesta-se diretamente na esfera 'motriz.
E deve haver, além desses, outros tipos de abreviação.
Quão comum é a excitação dos nervos motores na fala silenciosa,
de que não resultam, entretanto, quaisquer articulações visiveis ou au-
cliveis, nos prova a nossa sensação freqüente de fadiga nos 6rgãos vo-
cais, particularmente na laringe, depois de uma leitura excepcional-
mente estimulante ou de um estado de reflexão intensa.
Todas as modificações até agora consideradas estão diretamente amol-
dadas ao processo típico da fala nonos!.
De maior interesse e importância é a possibilidade de transferência
de todo o sistema do. simbolismo lingüístico em têrmos outros que não
os pressupostos no ato típico de falar.
Esse ato, como ,;mos, é a execul).ão de sons e de movimentos destina-
dos a provocar tais sons, Não entra em jogo o sentido da visão.
Suponhamos, porém, que não se ouvem apenas os sons articulado",
mas também se vêem as próprias articulal)ÕC8à medida que o interlocutor
as executa. Evidentemente, uma vez atingido um grau suficientemente
alto de destreza na p(>rcep~ão desses mO"imentos dos 6rgãos da fala,
está aberto o caminho para novo tipo de simbolismo lingüístico - aqu~-
te em que o som é substituído pela imagem das articulações que o pro-
duzem. Essa espécie de sistema não tem maior valor para quase todos
nós, que já possuímos o sistema auditivo-motor, do qual é ela, quando
12 A LINGUAGEM

muito, uma tradução imperfeita, de vez que nem todas as articulações


são visíveis. Ninguém ignora, entretanto, que excelente serviço presta 806
surdos-mudos a arte de "ler pelos lábios", corno método subsidiário para
aprenderem a falar.
O mais importante de todos os simbolismos lingüistic08 visuais é, in-
discut'ivelmente, o do vocábulo escrito ou impresso, a que corrc'..sponde,
na esfera motriz, o sistema de movimentos delicadamente ajustados que
I'c"iultam na escrita, na dactilografia e em outros métodos gráficos de
exteriorizar a linguagem.
O traço significativo que caracteriza es.<;esnovos tipos de simboIi!{-
mo, além da peculiaridade de já não serem um subproduto da fala nor.
mal propriamente dita, é que cada elemento (letra ou vocúbulo gráfico),
no sistema, corresponde a um elemento específico (som, grupo sonoro,
ou vocábulo pronunciado) no sistema primário.
A linguagem escrita, para empregarmos uma frase matemática, é
assim uma equivalência termo a terInO da sua contra parte falada. A:J
formas escritas são símbolos ~undúrios das formas faladas - sim-
bolos de outros s.fmbolos - mas, não obstante, é tilo exata a ~orl'E~spon.
dência que se podem substituir inteiramente aos outl'OS, não apenas em
teoria, mas ainda na prática atual dos que só lêem com os olhos, e até
talvez em certos tipos de reflexão mental.
Apesar de tudo, é prová ••.el que as associaçõcs auditivo-motrizes
persistam latentes pelo menos, isto é, entrcm inconscientemente em jogo.
Até as pessoas que lêem c pensam sem em nada apelar para as imagens
sonoras., não prE'scindem, em última análise, daquelas associações. Estão
apenas manuseando o meio circulante, a moeda dos símbolos visuais, como
um substituto cômodo dos bens c scnif,os econômicos, que são os sím-
bolos 811ditivos fundamentais.
As possibilidades de transferência em linguagem são praticamente
ilimitadas.

Exemplo vulgar é o côJigo telegráfico ~Iorse, em que as letras da


palavra escrita são representadas por uma seqüência convencionalmente
estabelecida de pancadas longas e breves. Aí a transferência parte mais
da palavra escrita do que diretamente dos sons vocais. A letra do cc)..
digo telegráfico é, portanto, um símbolo do símbolo de um símbolo. Disso
não se conclui, naturalmente, que o operador ade.strado, a fim de chegar
à compreensão da mensagem telegráfica, tenha de transpor a seqüência
individual das, pancadas na imagem visual do vocábulo, para, em se-
guida, mauifcstar.sc-Ihe a imagem auditiva normal. O método exato
de ler mensagens telegráficas muito ,'aria, sem dúvida, com o indivíduo.
:f; até concebível, se não a rigor provánl, que certos operadores, no qUf!
tange pelo me,nos à parte consciente do ato, tenham aprendido a pensar
. diretamente em termos de um simbolismo de pancadas metálicas, ou,
se têm por ventura forte propens~o natural para o 8iJnbolismo motor,
em termos de um simbolismo tátil-motor correlato, ue!oien\"olvidocom a
prática de despachar as mensagens. Outro inte~es-<;antegrupo de tipo,;
de transferência lingüístic-a é I) das diferentes linguagens de gestos, para
uso' dos surdos-mudos, dos mongt'.<;.. trapistas .votados a silêncio perpétuo, GU
de interloeutor('s que se defrontam fora do alcance da voz.
PARTE INTRODUTÓRIA, LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO 23

Alguns desses sistemas são equival~ncias termo a termo da fala


normal; outros, ('orno o simbolismo dos gestos militares ou a linguagem
mímica dos Índios uas planuras norte.amP-l'i('anas (compreendida por
tribos que falam línguas mutuamente inilJteligÍ\'cis). são transferência ..•
imperfeitas, que sc limitam a apresentar certos elementos lingüístic.o':l
de maior monta, mínimo indispensável para a~ circunstâncias críticas.
Xestes últimos sistemas, bem como nos simbolismoR ainda mais imper-
feitos que s'e usam no mar ~u nas selvas, poderia parecer que a lingua-
guem já não entra propriamente em ac,:ão, c que as idéias são diretamente
transmitidas por um processo simbólico perfeitamente distinto ou por
um método de imita~ão quase instintiva. Seria errônca ta! ionterpretação.
A intcligibilidade desses simbolismos tão 'lagos, só é explicável, porque
eles se traduzem automaticamente c silenciosamente para ().•~ termos da
fala plena.
Resta, portanto, concluir que toda comunicação voluntária de idêias,
feita fora da fala normal, ou é uma transferência direta ou indireta d'J
simbolismo típico da lingungem que se fala e se ouve, ou pressupõe pelo
menos a ação intermediária do vcrdadeiro simbolismo lingiiistico,
Ai cstá um fato da mais alta importância.
O jogo das imagens auditivas c das correlatas imagens motrize.'i
que conduzem à articula<:áo, constituem, qualquer que seja o desvio de
processo adotado, nascente histórica de toda linguagem c de todo pen-
Mrnento.
E ainda há outro ponto de maior importánC'ia,
A facilidade com que o simbolismo da fala se transfere num c nau.
tro sentido, de uma ti'<.'nica para outra, está por si só indic:mdo que os
merOS sons ,'ocais não são o fato essencial da linguagem, ('on.<;i~tindo toste,
mais propriamente, na dassificac:ão, na modelagem e na r;cria'.:ão dos
conceitos. Mais uma vcz, a linguagem, como ~strutura, mostra ser, na
sua face interna, o contorno do pensamento.
f~esta lillg"n:Ig'('m ahstrata, mais do que os fatos 'físicos <la elocução,
que nos interrssa rTll nosso inquérito.
Não há fato geral mais rele\"ante ('111 referência à linguagem do que
a sua uni\"crsaljdadr.
Pode-se pôr ('In dúddn que uma ou outra tribo se entregue a ati.
\'idades di::;nas do nome de religião ou de arte, mas não sc sabe de nenhum
povo que núo p0'ilõlla uma língua plenmnelltc d('sell\"ol"idn. O ínfimo bo~
xi mano sul.afri('&no rxprime.se nas 'formas de um rico sistemü lin~üís.
tico, perfeitamente comparável em essência à fala dos civilizados fran.
ceses. Não é preciso dizer (IUe os conceitos mais abstratos não são a ri.
gor tão luxuriantemente reprrscntados na linguagem do homem selva,
gem, bem como lhe faltam a rica termino~ogia e a sutil delimitação de
matizes que slio o reflexo de uma cultura superior, )las essa espécie de
desenvolvimento lingüístico que acompanha o crescimento histórico de
uma cultura e Que, nos seus últimos estágios, costumamos associar com
a literatura, é, a rigor, qualquer coisa de artificial.

o material básico da linguagem - o desNlVolvimento de sistema fo-


nético nitido, a associação específica dos. elementus vocais com os con~
ceitos, e a provisão delicada de expressões formais para toda sorte de
relações - tudo isso se nos depara rigidamente rl'aliznJo e sistematiza.
24 A LINGUAGEM

do em qualquer língua conheeida. Muitas línguas primitivas possuem,


aliás, uma riqueza de formas e uma luxuriância latcate de expressões quo
eclipsam tudo o que se conhece nas línguas de civilização moderna. Atá
no simples setor do inventário lingüistico, o leigo deve-se preparar para
estranhas surpresas. Não passa de um mito a afirmação vulgar de que as
línguas primitivas estão condenadas a uma extrema pobreza de expressão.
Não é menos notável do que CSSJl universalidade da linguagem a sua
quase incrível diversidade.
Aqueles dentre n6s quP. estudaram francês ou alemão, ou melhor
ainda, latim ou grego, sabem que formas variadas pode assumir um
pensamento. As divergências formais entre o modêlo inglês e o latino
são, entretanto, comparativamente insignificantes diante da perspectiva
do que conhecemos de mais exótico nos inúmeros modelos lingüísticos
do presente e do passado.
A universalidade e a diYersidade da fala conduzem-nos a uma in.
ferência significativa.
Forçam.nos a acreditar que a linguagem é uma herança imensa-
mente antiga da raça humana, sejam ou não sejam todas as suas va~
riantes desdobramentos hist6ricos de uma única e pristina forma. ~ du.
vidoso que outra qualquer aquisição cultural do homem, seja ela a arte
de acender fogo ou a de lascar pedra, possa proclamar maior vetustet..
Inclino--me a crer que precedeu até os aspectos mais rasteiros da cultura
material, e que eles, na realidade, não foram estritamente possiveis até o
momento em que se delineou a linguagem, instrumento da expressão sig-
nificativa.
ao Capítulo 1

1. [KiUdeer é o nome de um pequeno pássaro norte-americano, del'lconhecid.,


entre nós (acg1oHlfl6 voci/enu). E'spkie de "tarambolo". Cuckoo corrE'Sponde ao por-
tugnê .• "cuco", que nlio é, entretanto, como o nom4't inglês, uma criação onomatopai.
e& direta, derivandO-lIe do latim cuculu-. Pareceu-ROl' &eoll8elhãvel btUlC&t um e.zem.
pio nosso com pleno valor ilUltrativQ.]

2. [Os exemplos do original inglês são: whipPQOf'wilJ (pãssaro norte-umf'rican<>,


oaprimulgw 1Jooilerw), to mew (port. "miar") e to ('4U) (port. ugra..snar", que nli.o
~ onomatopéia direta, pois vem do latim CT'ocitare). Na exemplificação em port'J-
guês obedeceu.se ao critério exposto Da nota anterior. I
2.0s Elementos da Fala

Já nos referimos mais de uma vez aos "elementos da fah", enten-


dendo sob essa expressão grosso modo, aquilo que geralmente tem o
nome de "palavras" ou "vocábulos';1. Cumpre-nos alentar melhor para
t'sses elementos c familiarizar-nos com a matéria-prima da linguagem.
O mais simples elemento da fala, - c por "fala" entenderemos da-
qui por diante o sistema auditivo do simbolismo ling-üístieo, a corrente
das palavras pronunciadas -, é o som uno, embora, como '"eremos
adiante, o som não seja em si mesmo uma estrutura simples, senão o
resultado de uma série de ajustamentos indepcndentrs, mas mtimamen-
le correlatos, dos órgitos vocais.
Xão obstante, o som simples não é a rigor um elemento da fala,
porque a fala é uma função significati,'a, e o som, considerado em si
mesmo, não tem significação.
Pode acontecer quc um som simples venha a ser isoladamentc um
elcm('nto significativo (como, no caso do francês a "tem" e à "para",
ou do latim i ''''ai''), mas trata-se dc uma coincidência fortuita entre
o som e o termo significativo. E isto não apenas cm teoria, mas até
muitas vezes na realidade histórica do fato; é assim que os exemplos ci-
tados vêm a ser meras forma ••. reduzidas de grupos fonéticos origina-
riamente mais longos - latim habet e ad, e indo-europeu ei respectiva-
mente. Se a linguag-em é uma estnttura e os seus elementos significativos
os tijolos que a eompõcm, os sons vocais ~ó podem ser comparados com
o barro informe e cru de que se fazem os tijolo.'S.

Neste capítulo, portanto, não nos preocuparemos mais com os sons


considerados como tais.
Os elementos verdadeiramente signifieati,'os da linguagem são cm
geral seqüências de sons, que tanto podem constituir palavras como par-
tes significativas de palavras, ou, ainda, grupos de palavras. O que
distingue cada um desses element03 é que ele representa o sinal externo
de uma idéia específica, seja um eOilceito uno, uma imagem una, ou
ccrto número de conceitos ou iml1g-ens nitidamente ligadas num todo.
28 A UNGUAGEM

A palavra propriamente dita pode ser ou deixar de ser o elemen.


to significativo mais simples que se nos depara.
Das pals\Oras inglesas sing, [verbo l/cantar"] si'ngs, {llele canta"L sin-
ging, ["cantando"] singe,', ["cantor"], cada uma transmite uma idéia per-
feitamente definida e inteligível, embora seja uma idéia solta e, por
isso, funcionalmente, sem valor prático:
Reconhecemos imediatamente que tais palavras são de duas espé-
cies. A primeira, sing, é uma entidade fonética indivisível, que transmi-
te a noção de determinada ath;dade específica. As outras três pressu-
põem a mesma noção fundamentalj mas, em virtude do acréscimo de
outros elementos fonéticos, a noção sofre uma torsão que a modifica ou
lhe dá delimitsl1iio mais precisa. Representam, em certo sentido. con.
ceitos compostos que ~ecorrcm do conceito fundamental. Podemos, por
conseguinte, analisar as pala'\'ras sings, singing e singer como expressões bi-
nárias que encerram um conceito básico, um conceito de "assunto" (sing).
e, a mais, um concC'itode ordem mais abstrata - de pessoa, de número,
de tempo, de func:ão - ou um grupo desses conceitos reunidos.
Se simbolizarmos um termo do tipo sing pela fórmula algébrica A2,
teremos de simholizar têrmos como sings e singer pela fórmula A + b.
O C'lC'ml'nto.1 tanto pode Rer uma palavra independente e completa
(sin!}) romo a substimcia fundarnrntal, a chamada raiz, tema! ou "ele-
mento radica}" (sill[}-) de uma pnlana. O elemento b (-s, -ing, -er) é
o índice ue um conccito subsidiário e em regra mais abstratoj pode-se
dizer que acresc('ntn ao cOllceito básico uma limitação formal, dando-
IolC à palavra "formA.t, o s<'u alcance mais lato. Podemos chamá-lo um
"('!('nwnto g-ramatical"' ou afixo.

Como vcremos mais adiante, o elemento gramatical, que será me-


lhor, a rigor, denominar Hincremento gramatical", pode não vir sufixado
ao radical. Pode ser um elemento prefixado (como U1l- valor negativo, de
unsingable), pode inserir-se no próprio corpo da raiz (como o n. do latim
vinco, OIvenço",em contraste com a sua ausência em vid, uvenci"), pode ser
uma repetição completa ou parcial da raiz, ou pode consistir em alguma
modificação na forma interna da hLIZ (mudança de vogal eomo em
sung e $ong4), mudança de consoante eomo em dead, [porto IImorto"]
e death [porto "morte"]; desIocação de acento; abreviação posterior.
Esses diversos espécimes de elementos e modificações gramaticais afere.
cem uma peculiaridade comum: não poderem na maioria dos casos ser
usados isoladamente, mas ao contrário precisarem de qualquer maneira
adaptar-se ou soldar-se ao radical para transmiti!' uma noção inteligf-
ve1.
É melhor, portanto, modificarmos a nos.<;afórmula A +b para
A + (b), indicando os parênteses a incapacidade de ter o elemento
vida separada.
Além disso, o elemento gramatical não se limita em ser inexistente
quando não cstá asso~iado a um radical j tem a mais a peculiaridade de
em regra dever a medida de sua significa~ão à classe particular do elemento
radical a que se juntou. ~ as.qim que o -$ do inglês he hit$ [port. <lele
acerta o alvo", com a desinência $ da 3,. pessoa do singul3r) simboliza
noção muito dh-ersa do -$ de book$ {porto Hli\"ros",com a desinência -s
do plural), simplesmente porque hit e book têm classifica,:ão diversa
os ELEMENTOS DA FALA 29

quanto à sua função. [O mesmo podemos dizer, por exemplo, em por-


tuguês do a final de "canta" verbo "cantar", e do a final de "gata"
oposto 8 "gato"].
Apressemo-nos a salientar, por outro lado, que, sc é verdade que
o elemento radical pode uma vez ou outra identificar-se com uma pala-
vra, não se segue daí que possa sempre, ou habitualmente sequer, ser
usado como palavra. Assim, hort., jardim, de formas latinas como hortus;
horti, e horto, é uma abstração tão inegável, apesar de apresentar um al-
cance mais facilmente aprec.nsivel, quanto o sufixo -ing de 8ÍlIgillg.
Nem um D.,em outro existem como elemento lingüístico, independente-
mente inteligível e satisfatório.
Logo, tanto o radical propriamente dito como o elemento gramatical
&10 apreendidos, cxclush-smentc, por um processo de ab~tra<;ão. Pare.
ccu.n08 con,-enicnte indicar sing-cr por A + (b); hortus deve ser, pois,
indicado por (.1) + (b).
Até aqui, a palsna foi para nós o único elemento lingüístico e~-
contrad{\ cuja existência possamos afirmar. Antes de dcfini.la, entretan.
to, convém examinar "mais de perto essa espécie de pa~avra ilustrada por
sing_ Teremos realmente razão para identificá-la com o elemento radi-
cal? Representa realmente ela uma correspondência simplcs entre o COIl.
('cito C a expressão 1ingüística~ Açuele elemento sing., que deduzimos de
sings, singing e singe,' e a que podemos com exatidüo atribuir um valor
conceptual geral e im'al'iáyel, será o mesmo fato lingüístico da palan'a
sing'
Seria quase absurdo pô-Io em dúvida; mas, não obstante, basta uma
ligeira reflexão para mostrar que a dúvida é de todo justificável.
A palavra sing não pOde, como ninguém ignora, ser usada de tal
maneira que só se refira ao seu conteúdo conceptua!. A existência de
formas tão evidentemente congênitas como sang e sung indica, ao pri.
meiro relance, que sing não se refere ao passado, mas que, ao contrário,
pelo meo.osem grande parte do seu âmbito de aplicação, sc circunscreve
ao presente. Por outro lado, o uso de sing como infinith-o (em to sing,
por exemplo, ou em he will sing, [port, IOcantará"]li indica haver firme
e forte tendência para. se dar à palavra a irrestrita amplitude de um
conceito específico. Contudo, se sing fosse, com exatidão, a expressão as-
sente de um conceito invariável, não haveria lugar para as aberrações
vocálicas que se nos deparam em sang, sung e song, nem iríamos encon.
traI' sing usado espcclficamente para indicar o tempo presente em todas
as pesso~, exceto uma (a terceira pcssoa do singular sings).
O fato real é que sing é uma como que forma crepuscular de brilho
vago, entre a posi~ão de verdadeiro elemento radical e a de palavra se.
cundária do tipo singing. Embora lhe falte um sinal externo para indi-
car que ela traz em si mais do que uma idéia abstrata, sentimos que pesa
sobre ela. uma névoa incerta de valor acrescido. A fórmula A não pare-
ce representá.la tão bem quanto .•.i + (O).

Temos a tcnta<:ão de dizer que sing pertence ao tipo A +(b) eom


a ressalva de que a parte (b) se esvaÍu. E não estaríamos fantasiando,
porquanto a evidência histórica prova, com tôda a segurança, que sing
foi de início uma porção de palavras completamente distintas, do tipo
30 A LINGUAGEM

A + (b), que mergulharam na nova forma eom valores separados. A


parte (b) de cada uma perdeu-se como elemento fonético tangível; mas
a sua força persiste, atenuada embora. Sing de I sing é o correspon-
dente ao anglo-saxão singe; o infinitivo sing, a singan,' o imperativo
sing, a sing.

Desde a derrocada da morfologia inglêsa, ocorrida ao tempo da Con-


quista Normanda, a nossa língua tem-se posto à cata de simples pala-
vras-conceito, estremes de conotações formais, mas ainda não conseguiu
criá-las, salvo talvez em relação a certos advérbios soltos e outros ele-
mentos des.om ordem.

Se o tipo de palavra indccomponÍnl da nossa língua fosse realmente


uma palavra.conceito pura (lipo AL em vez de ser de um estranho tipo
de transição A + (O), sing, work. house, e milhares de outros termo~
seriam comparáveis às genuínas palavras radicais de numerosas outras
HnguaslS• Tal é, por exemplo ao acaso, a palavra nutkaf hamot. ~'osso".
O correspondente termo inglês bone só superficialmente lhe é compará.
vel. /lamot significa "osso" em sentido indefinido; à palavra inglesa
adere a noção do número singular. O Índio nutka poderá transmitir
a idéia de pluralidade de várias maneiras se quiser, mas não lhe é pre.
ciso; hamot serve para o singular e para o plural, desde quc. não haja
interesse em assinalar a distinção. Ao contrário, tão depressa dizemos
bone (sal .••.
o no uso secundárjo para indicar matéria) [cf. em português
"faca de ossoltL não especificamos apenas a natureza do objeto; ma~
damos a entender, quer queiramos quer não, que se trata de um objeto
só. E esse incremento de valor é tudo.
Conhecemos agora quatro tipos formais distintos de pala\T3s: .•1
(nutka hamot); A + (O) (sing, bone); ,1 (b) +
(singing);
(A) + (b) (latim IlOrI1ls).

Só há, a mais, outro tipo fundamentalmente po&-;ívc!: A + R, reu-


nião de dois ou mais radicais independentes num só termo. Tal é o caso
de {ire-enginc [porto "bomba de inc(.ndio"] ou uma forma siú equiva.
lente a eat-stand ("comer-ficar em pé") (i. e, "comer no momento em
que se está ('l~ pé") .. Acontece, freqüentemente, porém, que um dos
elementos radicais se torna funcionalmente tão subordinado ao outro que
assume o caráter de elemento gramatical. Podemos servir-nos no caso da
fórmula .ti + b, tipo que gradualmente, pela perda da conexão externa
entre o elcnwuto ~ubordinado b e a sua contraparte independente R, pode
confundir-sI" com o tipo mais comum .ti + (b). Uma palavra como
beautiful {port. "formoso"] (ao pé da letra, "cheio de beleza") é um
exemplo de Li + b, visto quc a terminação -{ui [variante do adjetivo
{uU, "cheio"] mal pl'('senll o sinete da sua linhagem. Uma palavra ('orno
homely ["singelamente"], ao contrário, já é do tipo l1 + (b), pois nin-
g-u~m a n:1o ser um ent('ndido dc lingüística pf'r('cl~ a conexão entre .ly
e a palavra independente like [da mesma sorte ql1{', em português, entre a
terminação adverbial .mente e o subs.tantivo mente, cérebro].
É claro que, na prática, esses cinco ou seis tipos fundamentais po-
dem indefinidamente complicar~se de várias maneiras.
O elemento (O) pode ter \.8101' múltiplo; em ontro~ termos, a mo.
os ELEMENTOS DA FALA 31

diíicação formal, iner('nte à noc,:ãobásica da palana, pode referir-se a


mais de uma categoria. i\um exemplo tal como o latim cor, "corac,:ão"
não há a simples transmissão de um conceito concreto, pois aderem ao
\'ocábulo, quc é na realidade menor do que o elemento radical (cord-),
os três conceitos formais, distintos mas entrelaçados, de número singular,
classifica<:ãode gênero (neutro), e caso (sujeito-complemento). A fór-
mula gramatical completa para cor é, portanto, ,1 + (O) + (O) + (O)
n30 obstante ser apenas (..1) - a fórmula meramrntc externa e fonética,
indir:muo (A) a raiz deduzida COJ'd- e o sinal algébrico "menos" a per-
da de material fonético. O que há de notável em referência a uma pala-
vra como cor, é quc as tl'~S restric,:õesao eonccito não ficam somente
pressupostas quando a palana imcrge em seu lugar na sentença; estão
decisivamente entranhadas no vocábulo e não podem ser eliminadas em
ocorrências da prática.
Outras complicações resultam de um desdobramento de partes.
Numa dada palavra, pode haver vários elementos de ordem A (o que
Ja simbolizamos com a fórmula .il +
B), de ordem (A), de ordem b,
de ordem (b). Finalmente esses tipos podem-sc combinar entre si de
inúmeras maneiras.
Línguas relativamente simples como o inglês, ou mcsmo o latim,
só ilustram modesta proporção de tais possibilidades teóricas. Mas, se
tirarmos os nossos exemplos de um como que depósito de línguas, de lín-
guas exóticas tanto quanto daquelas com que estamos mais familiariza-
dos, verificaremos que dificilmente haverá mna possibilidade teórica que
não se tenha realizado na prática.
Um exemplo valerá por mil, um tipo complexo mostrará a possibi-
lidade de centenas de outros. Vou buscá.lo 80 paiúte, a língua que fa-
lam os índios dos áridos planaltos do sudoeste do Utah.
A palavra wii-tu-kuchum-punku-rugani-iugui.va-ntü.m-u8 é de com-
primento excepcional, me.:;mona sua própria língua, mas não é, de
maneira alguma, um monstro psicológico. Significa - "aqueles que vão
sentar-se e cortar à faca uma vaca preta (ou um touro) ", ou, na ordem
do~ elementos índios, - "faca-preta-búfalo-manso-cortar-sentarem-sc-fu-
turo-particípio-plural animado". A fórmula para tal palavra, consoante
nosso simbolismo, seria, pois, (F) + (E) + C + d + + A B + (g)
+ (h) + (i) + (O). l': o plural do particípio futuro do verbo com-
posto "sentar-se e cortar", A + B. Os elementos (g), para o futuro, (h),
sufixo de particípio, e (i), índice do plural animado, são elementos gra-
maticais que nada nos diriam em posição isolada. A fórmula (O) desti-
na-se a explicar que a palavra completa, em adição ao que nela defi-
nidamente se exprime, transmite ainda uma idéia relacional, a da sub-
jetividade; em outros termos, o vocábulo com essa forma só pode ser
usado como sujeito da sentença, e não em outra relação sintática, como
a de objeto direto por exemplo. O radical A ("cortar"L antes de com-
binar-se com o seu coordenado B ("sentar-se). combina-se por sua vez
com dois elementos nominais, ou grupos de elementos: - um tema
de emprego instrumental (F) ("faca"), que figura como radical de
muitos nomes, mas na forma dada não constitui um nome absoluto; e
um grupo de emprego objetivo (E) + C + d ("preto, vaca ou touro").
l2 A LINGUAGEM

.Kste grupo por sua vez, consta de um radical de adjeti.vo (E) ("preto")
que não se usa independente (pois a no~iío absoluta de llpreto" só pode
ser comunicada sob o aspl:'eto de particípio verbal: "feito preto"), e de
um nome composto C + d ("búfal<rmnnso"). O radical C significa pro-
priamente "búfalo", mas o elemento d, na realidade um nome, de ,;da"
independente, que significa "cavalo" (originàriamente Ucão" ou uanimal
dom~ico" em geral). costuma a se usar regularmente como, elemento
meio-subordinadot para indicar tp.:e o animal expresso pelo radical con.
trguo é propriedade do alguém.
Observa-se que o todo completo (F) + (E) + +
O d + A + B,
quanto à sua fun~ão, não é mais que uma base verbal, correspondente
ao "ng- de uma forma inglêsa como singing,' que continua com forçn
verbal dcpois do aeréscimo do elemento tcmporal (g) - ficando enten-
dido que este (g) não está prõpriamente apenso apcnas a B mas a tõda
8 base complexa una; e que os elementos (h) + (i) +(O) transfor-
roam a expressão verbal n.um nome formalmente bem definido.
~ tempo agora de procurarmos decidir o que se entende por pa-
lavra.
O no.~ primeiro impulso, sem dúvida, teria sido definir a pa-
lavra como 8 contrapartc simbólica, lingüística, de um dado conceito .
•lã vemos que tal definic:ão é impossível. Na realidade, é impossível de-
finir o vocábulo dentro de seu aspecto funcional, pois pode ser tudo,
desde li expressão de um conceito simples concreto, abstrato, ou pura-
mente relacional '(como nas partrculas "de", upor", 'Ie") até à expressão
de um pensamento completo (como no latim dico, udigo", ou, sob forma
mais elaborada, numa forma verbal nutka que designa "Estou acostuma-
do 8 comer vinte coisas redondas", isto 'é, ''maçãs'" "enquanto faço isso
ou aquilo"). Neste último. caso, identifica-se com a senten~a.
O vocábulo ê apenas uma forma, uma entidade de contornos defi.
nidos que chama a si grande ou pequena parte do conceito do pensa-
Illento integral, na medida em que o gênio da 1fngua se eompraz em o
permitir. e por isso que, se de um lado os elementos radicais e gramati.
C4is,que encerram os c~nceitos isolados, são comparáveis de uma língua
a outra, não o são os vocábulos propriamente ditos.
Elemento radical (ou gramatical) e sentenc:a, eis as unidades "fun-
cionais" primordiais da linguagem, sendo aquele o minimo aootraídG
e esta a encarnação esteticamente satisfatória de um pensamento unifi-
cado. As unidades práticas "formais" da linguagem, os vocábulos ou pa-
lavras, podem ocasionalmente identificar-se com uma daquelas unidades
funcionais; mais a miúdo, porém, medeiam entre os dois extremos, en-
carnando uma ou mais noções radicais com uma ou mais no,:õcs subsi-
diárias.

Podemos trazer o mar a um copo dágua, dizendo que os elementos


radical e gramatical, abstraídos que são das realidades da fala, corres-
pondero ao mundo de conceitos da ciência, abstraídos que são das reali-
.aades da experiência, e que a palavra, a unidade exist«:ntc da fala,
corresponde a uma unidade dessa experiência praticamente apreendida
- à hist6ria, à arte. A sentença s6 é a contrapartc 16gicado pensamento
integral, se acusar em si realmente os elementos radicais e gramaticais
os ELEMENTOS DA FALA 33

percebidos no âmago das palavras que 8 compõem. ~ ao contrário 8


contra parte psico16gica da experiência, da arte, Quando se lhe sente,
como aliás normalmente sucede, o mero jogo das palavras.
À medida que se acentua a necessidade de definir o pensamento
única e exclusivamente como tal. a palavra vai-se cada vez mais tor-
nando irrelevante como meio de expressão. É-nos fácil, portanto, com-
preender por que o matemático e o Iogicista são levados a pôr de parte
a palavra e 8 estabelecer os pensamentos com o auxilio de símbolos que
têm, um a um, o mais rígido valor unitário.

).Ias _ objetar-se-á - a palavra nno é, por acaso, também uma


abstração, tal qual o radicalY Não é arbitràriamente deduzida da SCD-
tenç.a expressa, como um elemento conceptual mínimo que o mundo no~
ministra! Alguns lingüistas têm~na assim interpretado, com efeito, mn~
parece~me - com muito discutíveis provas em mão.
~ verdade que em casos particulares, especialmente em algumas
das línguas altamente sintéticas da América aborígine, não é sempre
fácil dizer se um dado elemento da frase deve ser tido como .••.
ocábulo in-
dependente, ou como parte de um vocábulo maior. Esses casos de tran-
siçiio, por mais perplexos que nos deixem em determinados momentos,
não enfraquecem, :lontudo, a doutrina da validez psicológica da pala-
vra. A experiência lingüística, tanto através da sua fonua normalizada
e escrita quanto da resultante elo uso cotidiano, indica esmagadoramente
que não há, em regra geral, a menor dificuldade em focalizar-se .8 pal8~
"ra na consciência como realidade psicológica. 1\ão pode haver prova
mai~ convincente do que a seguinte: o indio,~ingênuo e completamente
ocspercebido do conceito da palavra escrita, não tem aprssr disso difi~
culdade séria em ditar um texto a um investigador lingüístico, palavra
por palannõ prop~ndc, naturalmente, a ligá-las entre si, à maneira da
enunciação oral, mas, se chamado à pausa e feito compreender o que
dele se pretende, isolará imediatamente os vocábulos como tais, repetin-
do-os sob a forma de unidades. Recusa-se, por outro lado, a isolar o
elemento radical ou o gramatical, porque, alega, "não faz sentido"9.
Qual é, cntHo, o critério objetivo da palavra? Quem fala e quem
ouve têm o s('ntimcnto da palavra, admitamos; mas como justificar tal
sentimento! Sc a fun~ão não é o critério último da palaHa, qual é esse
critério?
A pergunta é mais fácil do que a resposta. O melhor será dizer
.que a palavra é o menor trccho de signiiicação, plenamentc' satisfató-
rio, ('fi que a scntcnc,:ase resolve. Núo pode ser secionado scm pertur-
bação de sentido. ficando sempre em nossas mãos, como fragmrntos inú-
teis, uma ou outra, ou ambas, das partes cindidas. Na práti('a, ('!'~e('ri.
tério sem maiores pretensões 'Presta mais serviço do que se poderia su-
por. Numa sentença inglesa como it is unthinkable é simplesmente im-
possível agrupar os elementos em outros ou menores vocúbulos do que
08 três indicados. Think [verbo Hpensar"] ou thinkable [adj. deriyado
eom o suf. -able, porto Hávei"] são isoláveis, mas como nem un- [prefi~
xo negatiyo), nem -able [porto H.ável"], nem is, un- apresentam alcance
satisfatório, temos de deixar unthinkable como um todo. integral, obra
34 A LINGUAGEM

de arte em miniatura. [Em porto a frase teria outro teor, neste ~8SO es-
pecial; seria qualquer coisa como - l~ão se pode pensar nisto"].

A esse Usentimento" da palavra ajuntam-se freqüentemente, mas


não invariavelmente, certos caracteres fonéticos externos. O principal
é o acento. Em grande se não a maior parte das linguas, o vocábulo é as-
sinalado por um acentt) unificador, eerta ênfase numa das sílabas, à qual
as outras ficam subordinada.'i. Só ao gênio próprio de cada' língua _
inútil é dizê-lo - cabe impor qual das sílabas tem de ser assim distiIi.-
guida.
A importância do acento no papel de unificação do vocábulo é óbvia
em certos exemplos inglê.'lcs como unthinkable, chara.cterizing [porto
"caracterizantc"]. O longo vocábulo paiúte que analisamos, traz o sinete
de rígida unidade fonética, por várias razões entre as qu&is principal-
mente o acento na sua segunda sílaba (wií, "faca") e uma redução ("en-
surdecimento" para usarmos o termo fonético técnico) da vogal final
(-mii, plural animado).

Caracteres como o acento, a cadência, e o tratamento das consoantes


e vogais no corpo de um vocábulo são-nos, não raro, útil auxílio para
a demarcação externa das palayra~; mas não é lícito, de maneira nenhu-
ma, ver aí, segundo se faz às vezes, os responsáveis diretos da existência
psicológica delas. Quando muito, fortalecem êles um sentimento de uni-
dade, que já está presente em nosso espírito por outros motivos.
;mos que a maior unidade funcional da fala, a sentença, tem como
•Já .••
a palavra existência psicológica, tanto quanto meramente lógica ou abs-
trata. Nem é a sentença de definição difícil. ~ a expressão lingüística
de uma proposição. Conjuga um sujeito do discurso ao que em referên-
cia a ele se diz.

"Sujeito" e "predicado" podem estar combinados numa só pala-


vra, como no latim dico; cada um pode ser expresso separadamente,
como no equivalente inglês I say; cada um ou um deles pode ter qua-
lificativos ,tais que resultem em proposições complexas de muitas es-
pécies. Não importa o número desses elementos qualificativos (pala-
,Yras ou partes funcionais de palavra) que são assim introduzidas, pois
não tiram à sentença o sentimento de unidade, desde que de per si e em
conjunto, entrem como contribuição para a definição quer do sujeito
do discurso, quer do âmago do predicado1o.
A sentença -- "O prefeito de Nova York vai fazer uma alocução
de boa.s-vindasem francês" é logo sentida como afirmação Wla, incapaz
de redução com transferirem-se certos de seus elementos, na sua forma
dada, para as senten~as precedentes ou seguintes. As idéias auxiliares "de
Nova York", "de boas-vinda,," e "em francês" podem ser suprimida::;
sem prejudicar o curso idiomático da sentença. "O prdeito vai fazer uma
alocução" é uma proposição perfeitamente inteligível .Mas não podemOfl
ir além nesse processo de redução. Não poderemos dizer, por exemplo,
"Prefeito vai fazcr"ll. A sentença reduzida resolve-se naturalmente !tum
sujeito - "o prefeito" - e num predicado _ "vai fazer uma alocução".
É hábito dizer que o sujeito essencial de uma tal sentença é "prefeito" e
que o predicado C&'lcncialé "vai fazer", ou mesmo "vai", sendo-lhes
OS ELEMENTOS DA F ALA 35

06 outros. elementos estritamente subordinados. Tal análise, entretanto,


é puramente esquemática e desprovida de valor psicológico. É muito
mdhor N~{)nhccerfrancamente que um ou aI11bosos termos da senten-
ça proposicional podem ser incapazes de se expressar sob a forma de
uma palavra única. Há línguas que podem enunciar tudo que figura
em "Q.prefeito-vai-fazer.uma-alocução" com duas palavra.<J,uma palavra
sujeito e uma palavra predicado; mas o si"ntetismo.em nossa língua não
vai a esse ponto.
A verdadeira conseqüência que importa tirar de tudo isso é que,
por baixo de uma sentença conclusa, há um tipo vivo de sentença, com
caracteres fonnais fixos. Esses tipos fixos, ou arcabnuços, podem ser s0-
brecarregados por tanto material adicional quanto fôr eomprazível II quem
fala ou escreve; mas são, em si mesmos, tão rIgidamente mmistrados
pela tradição como os elementoo radicais e gramaticais que se dcuuze..
das palavras completas.
Podem ser conscientemente criadas novas palavras à custa dos ele.
mentos bá.-iicose sob o modelo de palavras antigas; ma.~ dificii.mente
se criariam novos tipos de palavras. Do mesmo niodo, são constante--
mente criadas novas sen~nças, mas sempre nas estrilas linhas tra~
dicionais. A sentença ampla permite, nfl.Oobstante, em regra, .consi.
derável liberdade no manuseio do que pooeremos chamar suas par.
tes "não-es.'JCnciais".É essa margem de liberdade que dá ensanehas ao
estilo individual.
A as.<JOCiação habitual dos elementos radicais, gramaticais, pala.
\TaS e sentenças com conceitos, ou grupos de conceitos entre si inte-
grados, é o fato propriamente dito da linguagem. f} importante obfler-
var que há em todas as línguas certa fortuidade de as.'>OCiação. A~im,
a idéia de hide pode exprimir.se pela palana conceal, [como em portu-
guês, correspondentemente, "esconder" e "ocultar"} e a noção de thru
times por thrice [em português, só "três vezes"]. A expressão múltipla
de um único conceito é universalmente considel'ada fonte de vigor c va.
riedade lingüística, e não dc.<;:necessáriaextravagância. :Menos agradá-
vel é certa incoerência de correspondência entre a idéia e a expl'e&<I.;w
lin-
~ística no eampo dos conceitos aootratos c relacionais, mormente quando
o conceito se encarna num elemento gramatical. Assim, parece-me que
a incoerência, na expressão da pluralidade, entre as palavr?_-ling:le:sa ..~
books [sing. book "livro"]' oxen [sing. ox, "boi"], sheep [sing. sheep,
"carneiro"] e geese [sing. goose, "ganso"] se nos apresenta mais sob o
aspecto de uma imposição tradicional inevitável do que de uma luxnri:m.
cia feliz.
t óbvio que há para cada língua um limite que não lhe é dado
transpor. Muitas, é certo, vão incrivelmente longe neste particular; IDaa
a história lingüística mostra conclusivamente que, mais cedo ou mai!i
tarde, as associações menos freqüentemente ocorrentes s:.10banida.~ em
proveito de outras mais vitais. Em outros termos, toda.~ as línguas têm
uma tendência inerente à economia de expressão. Se essa tendência fosso
de todo inoperante, não haveria gramáti<.'A.O falo gramatical, aspecto
universal da linguagem, é apenas a manifestação do sentimento RemI
de que conceitos e relações análogas se exprimem, mais convenirntc.
36 AUNGUAGEM

mente, por meio de formas análogas. Uma Ilngua que, porventura, f•••.
se plenamente "gramatical", seria um engenho perfeito para a expressão
dos conceitos. Infelizmente, ou afortunadamente, nenhuma tem essa coe-
rência tirâniea. Todas as gramáticas vnzam.
Supusemos até agora que o material da linguagem s6 reílete "
mundo doe conceitos e, também no que cu
me aventurei a chamar o pIn-
n.o "pre-racional", o mundo' das imagens, que são a matéria-prima do~
conceitos. Supusemos, em outros termos, que a li~guagem se move in.
wiramente no âmbito ideacioDal ou cognitivo.
:fJ tempo de alargar este quadro.
O aspecto volitivo da consciência é também, até certo ponto, expU.
citamente servido pela linguagem. Quase todas as Hnguas têm meios
especiais de exprimir as ordeIL'~ (nas formas irrtperativas do verbo, por
exemplo) e oe desejos inatingidos ou inatingíveis (lV ould he might come!
ou W01tld he were here!) [Tomara que ele venha!" qu, uQuem o dera
8.qui"].
As emoções, de maneira geral, parecem ter na linguagem um e..-'lCoa-
douro menos adequado. A emoção tende, aliás, prO\'erbialmente, para 8.
perda da voz. Contudo, quase todas se não todas as interjeições deyem ser
creditadas à expressão emocional, além de uma por~ão de elementos lin~
güisticos que traduzem certos modos, como M formM duhitativas ou po-
tenc~iais, talvez possíyci~ de interpretar como o refll~xo de estados emo--
cionai~ de hesitação ou dúvida, isto é, de um medo, atenuado.
De maneira geral, cumpre admitir quc a idea~iio reina suprema na
linguagem, c que a ,,"oliçio e II emoção entrsij1 como fatores nitidamente
secundários.
Isto, aliáB, é perfeitamente compreensivel.
O mundo da imagem e do conceito, a pintura infinita e cambiante
da realidade objetiva, é o assunto inevitável da eomunicaçáo humana,
pois é exclusivamente, ou pelo menos essencialmcntc, nos termos deste
mundo que é pO&~ívela ação efetiva. Desejo, intenção, emoção são uma
cor pe&'>Oslprojetada sôbre o mundo objetivo; ~ií.o aplicação privativa
de cada alma individual e-, como tal, de somenos importância para uma
alma pr6xima.
Is.w não quer dizer que a \'oliÇ<lioC a. emo<;ão deixam de manifcs-
tar-se. Não estão a rigor jamai,'! ausentes da fala normal, mas a sua
úXprcss.~o não li de natureza propriamente lingüística. Os matizes de
ênfase, de tom, de fraseado, a variável r&pi<1ez.e continuidade de pro--
núncia, os movimentos do corpo que a acompanham, tudo isso. exterio.
rixa alguma ('oisa da vida Íntima dos impulsos e dos sentimcntosj mas,
como l::SSCS meios de expressão são, em última análise, mero.~ aspecto.~
modificados de enunciação instintiya que o homem partilha com O'l ani.
mais inferiores, não podem ser considerados parte integrante da lingua-
gem, na sua concepção essencialmente eultural, por mais inseparávei'i
qUE: sejam da vida atual dela. E tal expressão meramente inBtintÍVa, da
volição e da emoção é, o mais das ve1.es, suficiente, e muitas vezes mais
que suficiente, para o propósito da comunicação.
os ELEMENTOS DA FALA 37

~ verdade que certos escritorcs, tratando da plrieologia da linguo-


gerou, negam esse seu caráter predominantemente cognitivo, e tentam ao
contrário demonstrar que a origem do maior número dos elementos lin-
güísticos estú nos domínios do sentimento. Confesso-me inteiramente in-
capaz de acompanhar-lhes o pensamento. O que há de verdade nas suas
elucubrações parece-me que pode resumir-se em dizer que 8 maioria das
pala.\"ras, como praticamente todos 08 elementos da consciência, tem em
si uma tonalidade emotiva, uma derivante tênue, mas nem por isso me-
nos real e às vezes insidiosamente poderosa, de dor ou prazer.
Não se trata, entretanto, em regra de um valor inerente à pr6pria
pals\T8j é. antes, um enxerto no verdadeiro tronco da palavra, no seu
cerne conceptual. Muda, não somente, de século para século (o que se
dá tnmMm, naturalmente, com o conteúdo conceptual), mas varia nota4
velrncntc de um individuo para outro, de ncôrdo com as ac;sociaçóe8pes-
soais de cada um: "Rl'ia até, cm verdade, dc tcmpos a tempos na pr6pria
consciência de cada indivíduo, à medida que as suas experiências o amol4
dam e que ele muda de disposi<,:.ão.
Sem dú,;da, há tonalidades emotiva.g,ou conjuntos de tonalidades,
socialmente Dceitas para. muitas palavras, além e acima portanto da for4
~a de a,lJ.'iOCia<:ão
indh'idual i mas são, nas melhores condiçôcs, coisas ex.
cessrvamcnte variáveis e falazes.
Raramente têm fi rigidez do fato primário central.
Todos concordamos, por exemplo, que storm, temp(;st e hu.rricanel1,
à parte das leves difc)'cn~.asde sua sig'nificu~ão atual, têm uma tonali-
dade emotiva distinta, que impressiona de modo pl'àticamcnte cqui\'a.
lente, todos aquêlcs que falam e escrevem eom alma o inglês. Sentimo'!:
que storm é um tcrmo mais geral e deeididnm('ute menos "magnificentc"
que os outros dois; tempcst nfLolmnhra apenas o mar, mas ganhou pro-
vàvclmente, no espirito de muitos, 11m bl'ilho surdo, em virtude de "Uma
nssociação de idéias rotn o grande <hnma de Shakc.speare; hurricane tem
maior intensidade, uma rudeza mais direta que os seus sinônimos. Não
oh<rtante,o sentimento individual podr vadar enormementc. Para alguns,
tempe.st e hu.rric(ule podem afigurar-se "fracos", termos literários, apre-
sentando 8 palavra mais singela storm. um valor vívido e brutal que os
outros não pos.'mem (pense-se em storm and stress). Se pas.<mmosa in-
fância ruminando lh.ros de aventura.~ acerca dos piratas do mar das
Antilhas, é provável que hurrica1te tenha para nós certo arroubo he-
róicou; se já fomos por desgraça colhidos num furacão, não é imprová.
vel que a palavra nos pareça gélida, desanimadora, sinistra.
'FA're valor das palavras não é, a rigor, de nenhuma utilidadr para
R ciência i o filÓfrofoque pretende ehe~ar à ,'erdadc e não meramente
persuadir, tem ai o seu mais insidioso inimigo. Mas o homrm r£lrarnf'ntr
se rircunscrcve à ciênrin pura, à N.'flexnoint{'gra1. Bm regra, banha as
Ruas atividadflS mentais numa corrente tépida de sentimento, e lança
mão da emoção que despertam as palavras como um bom auxílio para
a excitação desejada. Tira disso grande proveito o artista literário. t, en-
tretanto, curioso notar que até para o artista há aí um perigo. As pala-
38 A LINGUAGEM

vras, de tonalidade emotiva constante e por todos aceita sem hesitação,


tomam-se uma espécie de recurso cômodo, cl~hê&. De quando em quando,
t) artista temae insurgir-se e obrigar 8 palavra a voltar a exprimir ('I
conceito puro, buscando a força da emoção no poder criativo de uma
justaposição, toda pessoal, de conceitos ou imagens.
Notas ao Capítulo 2

1. (O termo inglês u'ord foi aqui traduzido ora por l)alal'ra ora por v()(6bulo.]

:? Rt'l'rrmrcmO!l 115letra::! mniú:;culns para os Tauicais.


3. Estas palavras não t'Stão aqui usauns no seu IH'UtiJO et'ltritameute técnico.

4. [~uitop. verbos ingle!'cs ('xprimem o prE'térito e o particípio pa..'5RUO, (' aUi


a açli.o substantivnda (p.ubstantivo abstrato), por meio de umR mudança de vogal na
raiz; é o chamado ohlaut, gradn~âo vocálica ou apofonill.. Aqui, 8'UTl.g é o particl.pio
passado, e 30ng o substantivo abetrato "canto".]
5. [O futuro inglêe forma-se com adjunção dos auxiliares .naU ou wül li. formll.
do infinito, como em portuguêll h6. Da realidade histórica uma combinaçAo do ln-
finitn eom o pl'Cl'cnte do '-erho "haver".]

6. Não diseutimos aqui o carãter geral il~olRnte de Unguas como o chin~


(ver capo VI). Palavras. radicais podem apresentar'l.Ie Das mais \'ariadas linguall,
e até em muitas do mais alto grau de complexidade.
1. Falado por um grupo de tribos índias da ilha Vancouver.

8. Neste e noutros exempl05 tirados de Iinguas exóticas :rui forçado por con-
sidel'll.ções práticas a 9implificar as formas fonética:4 reais. Isto não terA. maior
importância, pois estamos tratando das formas como tais e nAo do scu conteúdo
fonético.

9. Esl.las experiências orni:l, que eu tenho tido mais de uma \'ez como estu-
dioso de campo da:o 1io~uas índias americanas, foram c1ll.rnmente confirmadas lJvr
experiências pt'!'soais de outra sorte. Por dua." Vézes (;C\!tineiint('ligt>nt('s jO\"t'TlSi.n-
dios a e!'crCVCi" suas própria.s Iinguas de acordo com o sistema fonético qu(' rou ('01'
prl'go. Aprenderam comi~o ap('tlas n r('prt'Sentar com pn'ci!t1i.o os sons fonéticO'!
considerado!'! em !li. Ambos tin'ralU cNta ~ificuldade em aprender a df'Compor o
\'ocúhulo nos 80ns constituintes, mll.!l não, absolutam •... nte, em determinar os vo.
l'ábuhs. bto amlX'R o fi1:•...ram t'om ph'na e espontânea prl'Cisão_ Em c('ntt'nas de
I':í.g-inas de um texto manus('rito nutka que obtive de um desses rapazl'8, ().'I \'ocá.
fJUI,,!', quer fossem entidades abstratas relacionai!l como tique" e "mas", quer
fõ!'sem palavras proposicionais complexa." como o exemplo nutk3. supracitado, fo-
I:Uli, pmticamrontc 8('m exc('t;ão, i!l011ld08precisumente como 1"t: ou outro qualqucr
"ntendido o teria f('ito. T&.i~ •...xperii'ncias COIUpt"880as ingênuas, a falar e a ('5-
crever. concorrem mais para convcnce••-nos da unidade plasticamente delimitada da
palavra, do qu(' a~ lauda." dl' urna arg-umt'ntaçáo purame!lte te6ric&.

10. 'E; duvidOllOque "sent('nças coordenadas", como "Ficarei mas você pode ir",
p088tUIl !ler eOm!ider3.das predicllç~ realmente unas, verdadeiras Bentenças. BiW
sentença" num sentido estilistieo que nA.o é o ponto de vista ling'Üilltico e estri-
40 A LINGUAGEM

t.a.mente formal. A grafia. - 'jFiearei. Mas v~ pode ir" -, é intrinsecamente tI.o


justitieAvel como - "Ficarei". "Quanto 8. vocli, pode ir". O sentimento da intima
COnexão daa duas propOlliçõe8 sugere uma representa.çli.o visual convencional, que
nlí.o deve desorientar o esplrito a.nalitieo do obae"ador.
11. Exceto, ta1vet:, n88 1I'WIACheUe, dos jornais. E8eaa, contudo, 8Ó alo Hngo.
gem num eentido derivado.

12. E .. q. o hrilhante aut<lr-.!Iolandês Jacq. van Ginneken.


13. [Cabe uma análise dessas, mas !!em perfeita analogia, com tu! co.rrcspondf'[I.
tos pahwra.s portuguesas "temporal", "tormeutn" .e "borrasca.", sendo que a se-
gunda terá talvez, pela associação com o eabo das Tormentu e eom o episódio ea..
meniano do Adamastor, aquele "brilho Bunto" ressaltado em tcmpc,t.]
H. [Hun"oaM, porto "hracão", G empréstimo ao espanhol huracdn.)
3. Os Sons da Linguagem

Vimos que a estrutura meramente fon~tica da fala não constitui


O fato intimo da linguagem e que o som simples da emissão vocal ORO
é, em si mesmo, um elemento lingüístico. Apesar disso, a fala está t.ã.:>
inevitavelmente ligada' aos sons e à.sua articulação, que não podemos
deixar de dedicar ao assunto da fonética algumas considerações gera.i!i.
A experiência tem demonstrado que nem os aspectos puramente for.
mais de uma lingua, ne~ o curso da sua história pod~m ser plenamente
compreendidos sem referência aos sons em que cs<mforma e essa histó-
ria se encarnam. Uma preleção minuciosa de fonética seria por demais
técnica para o leitor comum e tão frouxamente relacionada ao nOHSO tema
central que não justificaria o espaço consumido; mas podemos, não
obstante, dedicar alguma atenção a uns poucos fatos e idéias precípuo~J
relacionados com os sons da linguagem.

A impressão que o homem médio tem da sua lingua, é que ela é


construída, acusticamente falando, de um número comparativamente pe-
queno de sons distintos, cada um dos quais é representado com aceitá-
vel precisão, no alfabeto corrente, por uma letra, ou em raros casos, por
duas ou mais letras que se alternam. Das Hnguas estrangei,tIl8, excetua.
das certas diferenl1u notáveis que não logram escapar ao seu ouvido
ineducado, acha em regra que os sons que utilizam elas., 860 aqueleB mee.
mos com que já está. familiarizado, mas que há um "sotaque" misteric>-
SO, certo caráter fonético de análise difrcil,' o qual, independentemente.

dos sons propriamente ditos, dá 80 conjunto um ar peregrino.


Essa impressão ingênua é grandemente ilusória nos scus dois sen-
tidos.
A .análise fonética nos convence que o número de sons C gradações
sonoras de possível e clara distinção, habitualmente empregado..<;por
quem fala uma língua, é muito maior do que reconhece o leigo.
Provavelmente nenhum inglês entre cem tem a mais remota suspei-
ta de que o t de um vocábulo como sting [porto "ferrão"] não é abso-
42 A LINGUAGEM

lutamente O mesmo som que o t de tcem [porto "verter"], de vez que


este último possui uma l'descarga expirat6ria" que o s inicial não deixa
haver no primeiroj que o ea [i prolongado] de meat [Hcame"] é de du-
ra<:ão perceptl\"elmente menor que o ea de mead ["hidromel"]; ou que
o s final de um vocábulo como heads ["cabeças"] não é o som de z que
tem o s de please, com a plenitude do seu zumbido. Estrangeiros, que
adquiriram domínio prát.ico da língua inglesa e eliminaram as gr08Sei-
ras aproximações fonéticas dos seus compatriotas menos cuidadosos, fa-
lham em regra em atentar para essas distinções menores, o que ~ncor-
re para emprestar à sua pronúncia inglesa o sotaque curioso e falaz
que todos percebemos.

Se não diagnosticamos esse sotaque como o efeito acústico total


produzido por uma série de erros fonéticos leves ma.q especificos, é sim-
ple.qmentc porquc nunca nos compenetramos, por nossa vez, claramente,
do material fonético de que dispomos.

Comparando os sistemas fonéticos de duas Hnguas tomadas ao acu-


so, inglês e russo, por exemplo, é que podemos avaliar quão poucos ele-
mentos fon"éticos de uma têm exata correspondência na outra. Assim, o
t de uma p:lla\"ra russa como tam, "ali", não é nem o do inglês sting
nem o do inglês teem. Diferc de ambos na sua articulação "dental", ou,
em outros termos, porque do contacto do ápice da lingua com os dente~
superiores e não, como o t inglês, do cont.aeto da língua, aquém do ápi-
ce, com a zona alveolar acima dos dentes; difere, ainda, do t de teem
por causa da ansência da descarga expiratória nntes da emissOO da "0-
gnl SC'guinte, de sorte que há um efeito acústico de natureza mais nítida
e "met1ilica" do que em inglês. Por sua vez, o l inglês não é conhecido
em russo, que possui, por seu lado, dois sons de l distintos. os quais um
indh'iduo inglês normal muito dificilmente reproduziria com. exatidão
- um l "("ayo" e Nrno "ue gutural, e um l j1suave", palatalizado, que
muito imperfeitamcnte podemos indicar, em termos ingleses, por ly [9
o som português Ih de ilha}. Até um som tão simples, e aparentemente
invariável, como o m, difere nas duas Hnguas. Numa palavra russa como
most, "ponte", não há o mesmo m que no inglês most [superlativo dê
mueh, "muito"]: os lábios arredondam-se mais francamente durant~ '1
articulação; donde uma impressão auditiva mais pesada e ressonante.
As vogais, inútil é dizê-lo, diferem completamente em inglês e em russo,
pois que ncm duas sequer são propriamente iguais.

Entrei nesses detalhes ilustrativos, de pouco ou nenhum interes-


se específico para nós, apenas com o objetivo de ministrar uma espécie de
base experimental, capaz de convencer. nos da tremenda variabilidade
do.<; sons vocais. Contudo, um inventário completo dos recursos acústi-
cos de todas as línguas européias, perto de nós, embora incalculavel.
mentc latos, não conseguiria dar uma idéia justa da verdadeira ampli-
tude da articulação da voz humana.

Em muitas línguas da Ásia, da .l\frica e da América aborígine, há


cla.<:;.~s inteiras de sons, dos quais todos nós não temos a menor idéia.
Não são n~ess.ariamente mais difíceis de enunciar do que outros com
que estão familiarizados nossos oU\;dos; apenas, prec;supi>em ccrtas ar-
OS SONS DA LINGUAGEM 43

ticulaçõcs dos órgãos da fala a que de início não habituamos 0.<; nO!i&O-">
órgãos. Pode-se, aliás, afirmar, sem receio, que o número total dos sons
vocais possíveis é muito superior ao que está prati('.lUnf'llte('m uso. Um
foneticista experimentado não teria, com eferto, dificuld:tde em inn't1tnl'
sons desconhecidos à investigação objetiva:

Um dos motivos que nos tornam árduo acreditar que a s,.;tte do.'i
sons possíveis da fala seja indefinidamente extensa, está em' 11('SSO há.
bito de conceber o som como impressão simples c inanalisável, em Vl!'7. de
aceitá.lo como a resultante de uma porçlw de articula<:&>smusculares,
distintas, que se realizam si!Uultâneamente. I...evemudança em uma des-
tas dá. nos novo som, relacionado com o antigo por causa da persistência
das demais articulações, mas acusticamente distinto, -tão sensível se tor-
nou o om'ido humano ao jogo cambiante do mecanismo da voz.
Outro motivo da nossa falta de imaginação fonética está em que,
embora o nosso ouvido seja delicadamente apto a surpreender os sons
vocais, os músculos dos nossos órgãos da. fala se tornaram, muito cedo
na vida, exclusivamente habituados às especiais articula,:ões e si'itemns
de articulação, que nos impõe a enunciação dos soI1s tradicionais da
nossa língua. Todas ou quase todas as outras articulações estão perma-
nentemente inibidas, quer por falta de experiência, quer por uma, eli.
minaç.ão gradual. Naturalmente que não perdemos completamente o p0-
der de executá.las; mas a extrema dificuldade quc sentimos em aprcn-
ttf'r novos sons 'de uma língua csfrangeira, é prova suficiente da C3tra-
oha rigidez que a maioria das p<,.ssoasadquiriu no governo voluntário
dos órgãos da fala. É o que ressalta irrefragável, se contrastamos essa
relativa falta de liberdade no.~movimentos'voluntários da elocução' com
a liberdade inegavelmente plena da gesticulação voluntária.

A rigidez da articula~iio foi o preço que tivemos de pagar pela es-


pontaneidade da nossa mestria em lidar com um simbolis;moaltamente
necessário. Não é possível ser esplêndidamente line na e-~olha capricho.
Ra dos movimentos e ao mesmo tempo saber cscolhê-Ios com segurança
fataP.

Há, portanto, um número indefinidamente lato de sons articula-


dos à disposição do mecanismo da falai cada língua faz uma sel~.ão
explícita e rigidamente econômica nesse rico acervo; e cada um dos mui-
tos sons vocais possíveis é condicionado por certo número de articula.
çôcs musculaI'('s independentes, que trabalham juntas e simulttmc.as
na sua produção.
É impossível nestas pagmas dar uma explicação cabal da ativida.
de de cada órgão da fala - naquilo que tal atividade interes&'\ à lin-
guagem -, nem podemos preocupar-nos com a clas.~ficação dog son~
fundamentada no seu mecanismo de produção'. Só podemos aventurar.
nos a traçar um rápido esboço.
Os órgãos da fala são os pulmões e os brônquios; a garganta, prin.
cipalmente a parte conhecida pelo nome de laringe, ou, em linguagem
familiar, a "maçã de Adão"; o nariz; a úvula, que é o órgão mole, pon.
tudo e facilmente móvel que fica no fundo do palato; o palato que se
44 A LINGUAGEM

divide em posterior, móvel - Upalsto mole ou véu palatino" -, e em.


"palato duro"; a língua; os dentes i e os lábios. O palato duro, o véu
palatino, a língua, os dentes c os lábios podem ser considerados wna
espécie de caixa de ressonância combinada, cuja variação constante de
forma, principalmente em virtude da extrema mobilidade da lingua, é o
principal fator que dá ao sopro expirat6rio a preciosa qualidade dé som".
Os pulmÕC8 e os brônquios são órgãos da fala apenas na medida
em que ministram e canalizam a corrente de ar expirat6rio, sem a qual
é impossível a articulação audível. Deles não depende um dado som (>9.
peeffico, ou o caráter acústico dos sons, exceto possivelmente .0 acento ou
intensidade. Pode ser, com efeito, que as diferenças de intensidade de-
corram de leves diferenças na força de contra~ão dos músculo'J pulmo-
nares; mas até essa influência dos pulmões ~ negada por alguns entcn-
didos, que explicam as flutuações de acento, que tanto concorrem parI!.
~ar cor à fala, pela atividade mais delieada das cordas glotais. EstaR
cordas são duas pequenas membranas quas~ horizontais e altamente sen-
síveis dentro da laringe, a qual consiste, por sua vez, principalmente,
de duas grandes cartilagens e algumas outras menores e de certo nÚInC.
TO de pequenos músculos que governam a ação de tais cordas.

As cordas glotais, assim ligadas as cartilagens, são para os 6rgfi.os


da fala humana o que são para uma clarineta as suas duas hastes vi-
bratórias ou para um violino as suas cordas. São, pelo menos, capazes
de três tipos distintos de movimentos, todos importantíssimos. Elas po-
dem aproximar-se pu afastur-se uma da outra, podem \'ibrar como as
hastes ou as cordas de um instrumento de música, e podem tornar-se
tensas ou írou.'{asna direção do comprimento. O último tipo desses mo-
vimentos permite-as vibrar com diferentes extensõcs ou graus de tensão,
e dele3 dependem as yaria~(je~de altura, presentes não apenas no canto,
mas até nns modula<;õcsmais.,falazes da fala comum. Os outros doi~
tipos de ação glotal detf'rminam a natureza da "07., considerando-se
HVOZ" o nome mai~ adequado para o sopro expiratório utilizado na fala.
Se <l.'.l ('.Ordasestão bem separadas. e permitem que o ar se eseare sem mo-
dificaçiio, temos as condiçoo'it(>enicament~conhecidas pelo nome de "en-
surdecimento". Todos os sons produzidos nestas circunstâncias são "sur-
dos". Tais são o sopro simples, não modificado, que passa para a boca
e que, pelo menos aproximativamente, corresponde ao som representado
por h [h aspirado inglês de have, por exemplo1. e, a mais, um grande
número de articulações especiais na câmara bucal, como p e s.
Por outro lado, as coroas vocais podem juntar-se sem vibrar. Quan-
do isso aeontc-ce,a eorrente de ar fiea interrompida. Essa leve suspen-
são ou "tosse presa" que assim sc faz ouvir, não é considerada em inglês
um som definido; mas ocorre apesar de tudo, e não poucas vêzcs5• Tal
pausa momentânea, t<'Cnicamentechamada OC1tLqâO glotal"6, é elcrnen:"
H

to integrante da fala em muitas línguns como o dinamarquês, o leto,


os dialetos chineses e quase todas as Hngua~ dos indios americanos,
Entre os doi.'3extremos da expirac:ão completamente franca e da ex~
piração interrompida, está 8 posi<:ãoadequada à \"oz propriamente dita.
Nela, as cordas se aproximam, mas não tanto que impeçam a saida do
OS SONS DA LINGUAGEM 45

ar; as cordas põem-se em vibração e daí resulta um wm musical de al-


tura variável. Um tom assim produzido diz-se "sonoro". Pode ter um
número indefinido de qualidades, de acordo com determinada po..'iil.:ão
dos órgãos superiores da fala. As nossas vogais, os elementos nasais
(como m e n) e outros como b, z e lJ são tedos Ronoros. A prova mais
cômoda da sua <;()norida~e ê a possibilidade de pronunciá-los com qual.
quer altura de voz, ou, noutros termos, de cantá-Ios'.
Os elementos mais claramente audíveis da fala são os sonoros.
Como tais, sobre eles praticamente pesam todas a'õ!diferenças significati-
ya.,;de intensidade, altura p unidade silábica. Os sons surdos são ruídos
'articulados que cortllm o flu.xo da voz com transitórios momento.q de si-
lêncio.
Como intermediários acústieos entre as cmlss(}(;Sfrancamente surdas
e sonoras, estão certos tipos característicos de enunciação vocal, o mur-
múrio e o cochicho por exemplos. Estes e ainda outros tipos de voz são
relati\'amente sem importância em inglês (" na maioria das outras lín-
guas européias, mas há línguas onde eles assumem preeminência na elo-
cução normal.
O nariz não é um órgão ativo da fala, mas é altamente importante
como câmara de ressonância. Pode isolar-se da .boca, que é a outra gran-
de câmara de ressonância, pela suspensão da parte móvel do véu pala-
tino, o que impede a passagem do sopro expiratório para a cavidade na-
sal; se, por outro lado, se deixa o véu palatino ficar caido, livre e de-
simpedidamente, de sorte que a corrente de ar passa tanto para o na-
riz como para a' boca, forma-se com um e outra uma câmara de ress0-
nância comhinl'.da. Sons como b e a (em fatMT por exemplo) têm ROno-
.ridade oral, isto é, o sopro sonorizado não recebe ressonância nasal. Tão
depressa se abaixe o véu palatino, porém, e o nariz participe da câmara
de ressonância, os sons b e a adquirem peculiar qualidade "nasal" e tor-
nam-se respectivamente m e a ...•.
ogal nasalada escrita an em francês (e.
g. sano, tante). Os únicos sons inglescs9 que normalmente recebem res-
sonância nasal são m, n e o ng de sin.g [que é um n gutural distinto do ':\
comum ou dental]. Pràticamente, porém, todo.~os sons podem ser nasa.
lados, não apenas as vogais - vogais nasaladas são corriqueiras em to-
das as partes do mundo -, mas até sons como l ou z. Nasais surda~
(não-sonoras) são perfeitamente possíveis: ocorrem, por exemplo, em
cinrico [celta do pais de Gales] e em grande número de linguas dos
{ndios americanos.
Os órgãos que t"onstituem a câmara de ressonância oral, podem ar-
ticular-se de duas JnanE."Íl'as.
Pode-se deixar que a corrente de ar, ao-
nori?..ada ou surda, nasalizada ou ~não, passe pela boca sem interrupção
ou impedimento; ou entiio pode-se, quer interrompê-Ia momentâneamente,
quer deixá-la escoar-se por uma passagem muito estreita com resultante
fricção do ar. Há ainda transições entre êstes dois últimos tipos de ar-
ticulação.

A corrente dc ar emitida livremente adquire certa cor ou qualida.


de particular, segundo a forma variável da câmara de ressonância oral.
Esta forma é principalmente determinada pela posição das partes mó-
46 A LINGUAGEM

veis: a língua e os lábios. Conforme a língua se eleva ou se abaixa, se


retrai ou avança, se retesa ou se afrouxa, e conforme 08 lábios fazem
bico, isto é, se arredondam mais ou menos, ou se deixam ficar em p().
s.ição de repouso, resulta grande número de qualidadc..~ distintas. São
elas as vogais. Teoricamente, são em número infinito; praticamente, o
ouvido só consegue apreender um número limitado, mas surpreendente-
mente grande, de posições de ressonância.

As vogais, nasaladas ou não, são normalmente sonoras; em não


poucas línguas, contudo, também ocorrem "vogais surdas".10
Os restantes sons orais são geralmente reunidos na classe das "con-
soantes". Nelas, a corrente de ar sofre um embaraço qualquer, de sorte
que dai resulta menos ressonância e urna qualidade tônica mais aguda
ou incisiva.
Consideram-se em regra quatro principais tipoo de articulaçilo no
grupo lato das consoantes. A corrente de ar pode ser completamente in-
terrompida por um momento num ponto dado de cavidade. Sons assim
produzidos, como t, ou d, ou P. dizem.se "oclusivos" ou uexplosivos"l1.
Ou a corrente de ar pode ser contInuamente imprlmsada numa pa.<;sagem
estreita, e não inteiramente detida. Exemplos des.'KlS"espirantes" ou ufri.
cativas", como são chamadas, são s, z, y (isto ê, o iod, ou i consonantal,
que entre nÓ8 aparece nitidamente em "ioiô", Uiaiá"]. A terceira classe
de consoantes, as l'laterais", são semi-oclusivas. Há uma interrupção
efetiva no ponto da articulação, mas a corrente de ar se escapa pela.,;
dUM passagens laterais, ou por uma delas. O nosso d inglês, por exem-
plo, pode transformar.se facilmente em l, que tem a sonoridade e a pc-
siç.ão do d, simplesmente com deixar.se cair um dos lados da língua
junto 8ü ponto de eontaeto, de tal maneira que dê saida à corrente de
ar. As laterais são possiveis em muitas posições distintas. Podem ser
surdas (O II cinrico ê um exemplo) tanto quanto sonoras. Finalmente, a
oclusão pode ser um movimento intermitente rápido; em outros termos,
o órgão ativo do contacto - em regra a ponta da língua, menos freqüen-
temente a úvula 12 - pode pôr.se em vibração de encontro ou perto do
ponto de contacto. Estes sons são a'i "vibrantes", ou "consoantes roladas",
cujo exemplo dos mais típicos temos no T inglês normal. Existem bem
desenvolvidas em muitas línguas, em regra sob o aspecto de sonoras, mas
também não poucas vezes sob o aspecto de surdas como p.m cÍllrico e
paiúte.
O modo de articulação oral não basta evidentemente para definir
uma consoante, Há também por considerar o lugar da articulação.
Podem dar-se contactos em grande número de pontos, desde a raiz da
língua até os lábios. Não ê necessário procurarmos esgotar aqui este a.'i-
sunto bastante intrincado. Dá-se o contacto entre a raiz da língua e a gar.
ganta 13, entre uma dada parte da lingua e um ponto do palato (como
em k, ch ou l), entre uma dada parte da língua e os dentes (como no th
inglês de thick e then), entre os dentes e um dos lábios (praticamente.
sempre, os dentE'S superiores e o lábio inferior, como em f), ou entre os
dois lábios (como em p ou no inglês tu).

As articulações linguais são de todas as mais intrincadas, porque a


os SONS DA LINGUAGEM 47

mobilidade da língua permite que um dos seus pontos, o ápice por exem-
plo, se articule de encontro a uma porção de pontos opostos de contacto.
Daí, decorrem muitas posições de articulação com que nno estamos fa-
miliarizados, como a posição dental típica do t e d em russo e italinno;
ou a posição ucerebraI" do sflnscrito e outros idiomas da índia, quando o
ápice da língua se articula contra o palato duro. Como não há solução
de continuidade da arcada dentária até a úvula e do ápice u raiz da lín-
gua, é e\;dente que todas as articulações em que este último órgão ful)-
eiona, constituem uma série orgânica (e acústica) continua. As posiçõcs
succdem.se gradativamente, mas cada idioma escolhe um número limi-
tado de posições claramente definidas, como características do seu si'l-
tema consonântico, fazendo abstração das intermediárias ou extremas.
lIuita.c; vezes há certa latitude na fixação da posição requerida. É o
que sucede, por exemplo, com o som inglês k que numa palavra como
kin [port. "parentesco"] se articula muito mais para a parte anterior da
boca do que em cool [porto ufresco"]. Psicologicamente, não chegamos a
tomar conhecimento desta diferença, que fica sendo, portanto, meramen-
te mecânica, não-es..'JCncial.
Já outro idioma poderá dar à diferença, ou ~
outra pouco maior, um valor preciso, assim como o fazemos para a dis-
tinção de posiçõesentre o k de kin e o t de tin [port. llestanho").
A classifiea~ão orgânica dos SQnsda fala é coisa simples, depois
do que acabamos de ver quanto à sua produ~ão. Um som qualquer pod"
ser posto no seu devido lugar com a resposta apropriada a estas quatro
principais perguntas: - Qual a posição das. cordas glotais durante a
articulaçãoT A corrt'nte de ar passa apenas pela boca ou também se
escoa em parte pclo nariz' A corrente passa livremente na boca ou 8(,-
fre um impedimento qualquer, e, neste caso, ae que espécie' Quais os
pontoB precisos da articulação na boea1H gssa classificação quádrupla.
explorada em todas as suas ramificaçõesu, é suficiente pura explicar
todos ou praticamente todos os sons da linguagem18•
01'1hábitos fonéticos de uma língua não ficam, entret.'mlo, exaus.
tivamente definido..
•• com dizer que ela utiliza tais e quais Mns dentre
a gama sem fim a que acabamos de lan~ar um rápido olhar. Subsiste ain-
da a importante questão da dinilmica desses elementos fonéticos.
Duas lín~nas podem, teoricamente, consistir das m~sma.'isérie'i ní-
tidas de conSO'lntcse vogais, e produzirem, não obstantc, efeitos acús-
ticos totalmente diversos. Uma delas não reconhecerá variaçôcs notá-
veis na duração ou "quantidade" dos elementos fonéticos, enquanto a
outra procurará as.••inalá-las euidadosame\lte (na maioria, talyez, das
línguas, há distinção entre as vogais longas e breves; e, em muit.'l8,
como o ita.liano, o sueco e o ojíbwa as consoantes longas não se eonfun-
c1<>m com as breves da mesma natureza). Ou uma língua, o inglês, diga.
mos, será muito sensível para as. rela~Ó('sde intensidade, enquanto em
outm, o franel'S. digamos, a intensidade merece muito menor considera-
(:<10. Ou, ainda, as difercn~as de altura da voz, que MO inseparáveis da
prática da 1ing'ungcm,não se consub&tanciarão~no vocábulo, ma.'i,como
l'lll inglês, serão mais ou meno..')
caprichosas, ou, quando muito: um fcnô-
11l<:no retórico, ao passo que em outras línguas, como em sueco; em lituâ-
nio. em l~h!nl3s, em siamês e na maior parte das língul1s africanas serão
48 A LINGUAGEM

mais sutilmente graduadas e sentidas eomo caracteres integrantes dos


próprios vocábulos.
:Métodos diversos de silabae;:.ão também concorrem para diferenças
acústicas notáveis. Ai o que mais importa, talvez, são as diversíssimas
po~ibilidades de combinar os elementos fonéticos. Cada língua tem suas
peculiaridades.
o
A combinação ts, por exemplo, encontra.se

tanto em in-
glês eomo em alemáAJ, mM em inglês s6 ocorre em fim de pa1aVTaB (como
em kats) [plural de hat, porto jjchapéu'~], ao passo.que ocorre livremente
em alemão como equivalente psicológico de um som simples (como em
Zeit, Katze), [porto "tempo", "gato"]. Algumas línguas admitem grandes
conglomerados de consoantes ou de grupos de vogais (ditongos); já em
outras não podem juntar-se sequer duas consoantes ou vogais. Freqüen.
temente um dado som só ocorre em determinada posição ou sob circuns-
tâncias fonéticas especiais. Em inglês, por exemplo, o z de azure [porto
"azul"] não aparece em início de palavra, ao mesmo tempo que a quali-
dade peculiar do t de sting [porto "ferrão"] depende de um s prece-
dente. Tais fatores dinâmic~ em sua tonalidade, são tão importantes
para a compreensão adequada da Índole fonética de uma língua, quan-
to o próprio sistema fonético, e, não raro, muito mais até.
Já vimos, incidentemente, que elementos fonéticos ou caracteres di-
nâmicos, como a quantidade e a' intensidade, têm ."valores" psicológi-
cos variáveis. O inglês ts de hats não passa de um t seguido por um s
funcionalmente independente; o ts da palavra alemã Zeit vale por
uma unidade, à maneira, digamos, do t do inglês tide [porto "maré"].
Por outro lado, o t de time [porto l'tempo"] é, com efeito, perceptivel-
mente distinto do de stillg, mas a diferença na consciência do indiví-
duo inglês é de toda desprezfvel; não tem "valor". Se compararmos 0'1
sons do t do haida, língua' indiana falada nas ilhas da Rainha Carlota,
verificaremos esta mesmn diferença de articulação com um valor real.
Numa pala\'ra como sting, "dois" o t é pronunciado precisamente à ma-
neira do inglês sting, mas em sta, preposição de origem - lide", o t
é claramente "aspirado" tal qual o de time. Em outros termos uma di-
ferença objetiva, irrelevante em inglês, é de valor funcional em haída;
do ponto de vista psicológico dêste idioma, o t de sting difere tanto do
de sta quanto, do nosso ponto de vista, difere o t de time do d de divine.
Uma investigação ulterior ministraria a interessante conclusão de quc
o ouvido haida considera a diferença entre o t inglês de sting e o d.
de divine tiio insignifi('ante quanto, para o ouvido inglês lei!!o, é a d'i~
ferença entre o t de stillg e o de time.
Por conseguinte, a comparação objetiya dos. sons em. duas ou mais
línguas não tem sentido psicológico ou histórico se tais sons não são pri.
meiramente "ponderados" c os seus Hyalorcs" fonéticos bem dctermi-
nadoa. Esses yalorcs, por sua vez, decorrem do comportamento e fun-
cionamento geral dos I!lOM, na prática viva da língua.

Essas considerações acerca do valor fonético leyam-nos a uma con.


ccp~i1o importante.

Por trás do sistema de sons puramente objetivo, peculiar a uma


língua e a que só se chega por laboriosa análise fonética, há um siste-
ma mais restrito, "intimo" ou "ideal", que, igualmente inconsciente tal-
OS SONS DA LINGUAGEM 49

vez como sistema aos homens em geral, pode muito mais facilmente ser
tra"ido para o campo da consciência, à maneira de um padrão" defini.
do, de um mecanismo. psicol6gico. Esse sistema fonético intimo, sobre-
carregado embora que esteja pelo que há a mais de mecânico e insig-
nificante, é um principio real e imensamente importante Da vida de uma
Hngua. Pode persistir como padrão, ineluindo o número, a relação e
o funcionamento dos elementos fonéticos, muito tempo depois de o seu
conteúdo fonético ter mudado. Duns línguas ou dialetos, historicamente
relacionados, podem não ter um som em comum, sem que 08 seus siste-
mas fonéticos ideais deixem de constituir um só padrão. Com isso, não
quero absolutamente dar a entender que um padrão desses seja imu.
tAvel. Pode reduzir, ampliar ou alterar a sua conformação funcional, mas
em marcha infinitamente menos rápida do que a dos sons propriamente
ditos.
Toda língua, por conseguinte, é caracterizada tanto pelo seu sis-
tema ideal de BOns e pelo seu padrão fonético de subsolo (sistema, di.
riamos nós, de átomos simbólicos) quanto por uma definida estrutura
gramatical. Ambas essas estruturas, a fonética e a conceptual, mos-
tram o sentimento instintivo da forma que há na linguagem.
Notas ao Capítulo 3

1. "VokLotários", note-8e bem. Quando berramOll, n'1Imungamos, ou deixamos


de qualquer maneiro. a voz entregue a si mesma, como tendemos a fazer quando
nOl'l achamos sozinhos no campo por um belo dia de primavt>ra, jâ 011.0 cslnmos
fixando articulaÇÕt's vocaÜl por meio do governO da vontade. Nestas circunstância",
6-U08 quase certo chegar a 80ns vocais que nunca soubemos provocar na prática.

2. Se a fala, lIob o seu aspecto a.eÚ8tieo e articulat6rio - objetar'8&-6. _


é com efeito um sistema rl.gido, c0I!10 se explica n10 haver eeqtle~ duas' pessoas
que falem igual t A resposta é simples. Toda essa parte da fala que estA fora do
rigido areabouço atticulat6rio 010 entra na fjid~ia" da. fala, Bendo apenas um
a.cré.'1cimo de eomp1ies.~ vocal mais ou men06 iIUltintiva, ins<'parável da fala no.
-prática. Toda a cor da linguagem individual - a ênfase e a rapidez de elocuçlo
pussoal, a cadência, o tom do vOlo- é um tato e%tralingül.!tico, da mesma sorttl
que 8.8 exprl'!cls3cs fortuitas de desejo c emoçlo ficam quase' sempre fora da 6I{.
prC9!!10 lingilistica. A fala, como todos os elementos culturaUl, exige sel~A.o <i~
coneeito, inibição das extruagll.neifl.ll do comportamento instintivo. O fato de a
sua "idéia" nunca realizar-se como tal na prática, em virtude de serem os seuII
executores organismos instintivamente animados, é comum a ela e a toda e qual-
q-.l('r outra manifestação cultural.

3. Classificaç6cs puramente acústins, tais como para logo se sugerem 'l.


primeira têntativa de anlJise, gozam atualmente de menos favor entre os foneti-
cista.s do que aa classificaç&>s orgânicas. E9tas últimas têm a vantagem de scr mni~
objetivas. Acrt'SCe que a qualidade o.eústica de um flOro depende da sua articula.
çl.o, embora para a consciência lingüística tal qualidade seja um fato prim6.ril'J
e nAo lleCundé.rio.

4. Entende.se aqui por qualidade a natureza e ressonância inerente ao flom


propriamente dito. A qualidade geral da vOlo individual é outra coisa totalm('nt~
diversa. E.~ta. última é principalmente determinada pelos caracteres anatômicos da
laringe de cada individuo, e não t{"m qualquer interesse lingüistico.

5. Como !la parte final de um no! pl'OlIunciado l'O!:l rai,'a (r às vezes ('1l.
crito nope!), ou na pronúncia d.' at dl/. fcita (,O!II ('uidado t'x~.t'Sl'ih'r., onde sc OUW!
um:\ leve pausn {"ntre o t p o a.
6. [Ufll..se aliás, muit~'l H'Zl'S em lingüistica o t~rmo inC"l~s!itClnl; glottal dof'.}

i. L!':HI(! aqui "c:\lllar" rnt H'utido lalo. Xin~utõm poile t':\l1tnr imlf'finidn..
rol'nh' um l'Oln cúmo b ou d, m:'!.S ql~alquer pes.~oa ('OIh' t>mlllinr uma toada numa 'lé.
rie de bb ou dd. il rnant'ira do "pizzieato" arrancado aos iostrumrntoo dI' rorna.
52 A LINGUAGEM

Uma fI,~rie di) ton9 f>XecUtM08 50brl." consoantes continuas como m. ::, ou i, dá I)
efeito de um murmúrio, assobio ou zumbido. AliAs, o murmúrio nia ê mais do que
uma unsaJ continua sonora, mo.ntida numa s6 altura. ou de altura variável, con.
forme se deseje.

S. O eochicho da conversação comum é uma combinação de 1I0D8surdos ~


110m"coehieha.d06", nO sentido em que se toma. este termo em fonética.

9. Independentemente da nasaJaçlio involuntâria de todos 08 elementos llO-


OOf08 na elocução daqueles que falam "pelo nariz", d~ maneira ufanhosa".
lO. E.!Ita.stambém podem ser definidas como uma corrente de ar surda, de-
simpedida, com timbrell vocais variáveis. No longo voeá.buJo pai6te citado à. p~.
-n O primeiro" e o ü (por ii entende-se um u como em franc&) f~ 810 pro-
Duneiad08 liam voz.

11. ÂI oe1uaivu n&aai.l, como m ou 11, podemni.turalmente nI.o resultar de


um& nrdadeir& oclu.a&o,pol.l nll.o hl um meio de deter a corrente de ar no nariz
por uma artlculaç10 definida.
12. Teorieamenta, OI lAbioe tamWm podem articular-.e desaa maneira. Mas
ae j'Tibrantel labiaJa;" .10 por certo n.tu na tala eepontlnea.

13. Tal poeiç.ão, dita "taucal", nito é comum.

14. Por "pontos de articulação" deve.sc t:J.mb~m entenuer a.! posiç3r:s lin-
guais e labiais da.! voga.is.
15. Incluindo.se, na quarta categoria, certo número de ajulltamcntos espe.
dais de ressonância que não pudemos especificar.
16. Apenas na medida em que se trata de sons expiratórios, isto é, pronun-
ciados com a corrente de ar expelida dos pulmões. Certas lingutl.'l, como o hoten-
tote e o boximane da Africa do Bul, também U:m SOM iMpirat6ri08, pronunciadO<'!
com uma sucção de ar em vários pontO<'!de contaelo bucais. Sii.o os chamados cJi.
'lUI"'!l [aportuguesamento do inglês click).

17. A coneepçAo do sistema fonétieo id(>al, do padri.o fonético de nmB Uno


gua nM é, pelos lingüistas, tio bem compreendida quanto deveria ser. A esse res-
peito, o observador prático, desde que tenha bom ouvido o um genul:no faro d!L
Ungua, ~tá muitas vezes em melhores condições do que o minuciOllO foneticistA.,
que corre o risco de ser esmagado pela massa de suas observações. Já me referi
no minha experiência adquirida no ensinar indi09 a escrever suas própria.! Ungutl.'l,
por causa do valor probante di580 em C&80div(>~o. ~ igualmente 6tH agora. V".
ritiquei quo é ditki1 18nl.o impoeeivel levar um l:ndlo a taur distinçôca fonéticu
que nl.o correepondam a "pontal do leu po.drlo HngUbtico", por mELi, que euM
dlterençaa impreuionem objetivamente ao DOIIO ouvido j mu qualquer diteren~
tonõUc" .util, mal aud!vel, dMde que coincidiue com um "poDtd' d••quels padrlo,
era expreeaa fi.cU e yolull.u'riamente na tterita. Atentando p"ra o meu intérprete
D\ltka a escrever lU" Ungua, tive muitu veue a lmpr8l110 de que ele eetava tran.
el'e?8udo uma seqi1ência id(>8.1de elementos 1on~tieos que ouvia, inadequadamente
<lo ponto de vista objetivo puro, mu que Interptet&vELde acoroo com a. intt'nçlo
da pronúncill. (>llpontlnea geral. lTraduz-l!Ieaqui por "padrlo" o !Armo inglêe patt~,
CIlpeelalizndo por Sapir numa signifie.a.t:Ao téeniea que ficou tradicional na lin.
giHstic8. norte-americana j o português "pauta." também se presta para a tradução,
mll.8 "padrlo" parece adaptar.BC melhor a todQ.!!ll8 ocorrêncitl.'l e merece ficar com"
o equivalente tecnicamentc firmado de paUcr1t.]
~(Wt& l(1k) cl }"Ú!M 1t.J<;l-
4. A Forma na Linguagem:
Os Processos Gramaticais

A questão da forma em linguagem apresenta-se sob dois aspecta:.


Podemos considerar os métodos formais empregados por. mD.a lín-
gua, os llseus proCessos gramaticais", ou verificar a distrib~ dos
('onceitos em referência à expressão. formal. Quais são os padrões for-
mais dessa língua? E que tipos 4e conceitos lhes servem de conteúdo'
Os dois pontos de vista são plenamente distintos.
A palavra inglesa 1lnthinkingly [correspondente, pelo sentido, 8
qualquer coisa em português como "sem pensar"] é, de maneira geral,
cotejável, quanto à forma, -à palavra reformers [porto "reformadores"];
ambas constam de um radical, que pode figurar como verbo indepen-
dente (think. form); em ambas esse radical é precedido por um elemen-
to (un., Te-), que traz significação definida e mtidamente concreta, mas
não pode ser usado como termo independente; e ambas terminam por
dois elementos (-ing, -ly, -er, -s), que limitam a aplicação do conceito do
radical num sentido relaciona!'
Este padrão formal, - (b) + A + (c) + (d)' - é um traço
característico da lfngua. Exprime-se por meio dele um número incal-
culável de funçõesj em outros termo~, todas as idéias que podem ser co-
municadas por meio de elementos de prefixação e sufixação, se tendem
por um lado a encaixar-se em grupos menores, não constituem por ou.
tro lado sistemas funcionais naturais. Não há nenhum motivo de or-
dem lógica, por exemplo, para que a funçii? numeral do -$- seja expressa
pelo mesmo processo formal que a idéia contida em -ly [sufixo adverbial
como o porto "-mente"]. :t perfeitamente concebh'el que, noutra 1fngua,
se trate o conceito modal (-ly) em moldes inteiramente diversos dos da
pluralidade. O primeiro pode ser transmitido por um vocábulo inde-
pendente (digamos, thus unthinking) j o último por um prefixo (diga-
mos, "plural'''Z -reformer). E há naturalmente um número ilimitado de
possibilidades outras.
Sem sair do próprio âmbito da língua inglesa, é fácil tornar .6bvia
es.~ relativa independência entre a forma e a função. ~ assim que a
idéia negativa contida em Ull- pode ser expressa com a mesma jus-
54 A LINGUAGEM

teza por um elemento sufixado (.less) numa pala\Ta como thoughtlessly


[porto udesatentamente"]. Tal dualidade de expressão formal para a
fun~ão negath ..a seria inconcebível em certas línguas, o csquim6 por
exemplo, onde só seria admissível um elemento de sufixa~ão.
Por outro lado, a no~ão de plural dada pelo -5 de reformers é expres-
sa com a mesma preeisáo pela palavra geese [plural de goose, Hganso"),
com o empr~go de método completamente distinto. :Kão é tudo. O princí-
pio da mutação vocálica (goose - geese) não está em absoluto restrito
à expressão da idéia da pluralidade; pode também funcionar como índi-
ce da diferença de tempo (c. g. sing - sano, throw - threw)3. Por
seu lado, a expressão do tempo pretérito em inglês não depende exclusi.
\"amente de uma mudança de vogal. Na maioria dos casos, manifesta.se
por meio de um sufixo distinto (die.d, U'ork.ed) [preto de to die, flmorrer"t
to wo,.k, "trabalhar"].
Quanto à função, died e san.g são análogos i da mesma sorte que
reforme,.se geese. Quanto à forma, temos de agrupar esses vocábulos de
maneira diversa. Tanto die-d quanto reform.er-s emprcgam o método
da sufixação dos elementos gramaticais; tanto san.g quanto geese deri.
,vam o seu valor gramatical da circunstância de diferirem as suas vogais
das de outros vocúbulos quc Ih{'.~estão int('iramcntr relacionados na
forma e no sentido (goosc; sing, sun.g).
Cada língua dispõe de um ou mais métodos formais para indicar
a relação de um conceito secundário com o conceito b~sico do radical.
Alguns desses processos ~ramaticais, como a sufixação, n'cham.se muito
espalhados; outros, como a muta~ão vocálica, são O1("no:;(comuns, mas es-
tão longe de ser raros i outros ainda, como a acentuação e n mutação con-
sonnntal, constituem até certo ponto anomalia!'!.
Kem todas as línguas são tão irregulare.~ quanto a inglesa na ma-
neira de atribuir fun~rH:'saos processos gramatirais de que dispõem. Em
regra, os conceitos de natureza mais fundamental, como o de plurnlidade
e o de tempo, são exclush'nmcnte nprC'i'lentndospor um método único qual-
quer; mas é rcgra com tantas exceções que não podemos pl'omovê.la a
um princípio. Para onde quer que nos yoit{"mos. r{"ssalttl ti \'prdade de
que o padrão formal é uma coisa, e é outra coi"a a sua utilização. Mais
alguns exemplos da expressão múltipla de fun~Ô('s idênticns, em outras
Hnguas além do inglês, con('orrcr,io para tornar ainda mais vívida Cs<la
concepção da liberdade relativa que há entre função e forma.
Em hebrairo, como em outras línguas semíticas, a idéia vcrbal, consi-
derada em si mesma, é expressa por três, ou menos a miúdo por dUM
ou quatro consoantes características. Assim o g-rupo x-mor dit a idéia de
"guardar", o grupo g.n-b a de "furtar", n.t.n a de "dar". Natural-
mente que tais sf"qüências ronsonânticas são apenas abstraídas da.~ for-
mas rC'almf'nte pxislpntps. A~ ronsoante~ ligam-se (>nll'c si dt' di\'('rs~
maneiras, por meio de vog-ais enrart(,l'ísticas que \'ariam segundo a id~ia
que lhes cabe exprimir. Sãu também muito usados prefixos e sufixos, O
método da. muta~ão n)(~:ílica intrrna está exemplificado em x.ama,.,
"~uardou" . .Tomcr "g'uardando", xamur. "sendo guardado", xm01', "~Rr.
dar". Analo~mnente {/mlOb. "furtou". gonch. "furtando", ganllb, "sendo
furtado", {l1Iob "furtar". ~Ias nem todos o!'!infinitivo.." se formam pelo
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 55

tipo de X1nor c nnob, 0\1 por outros tipos de mutaç:ão yocAlica interna.
Certos verbo!'!sufixnm um cl~mcJlto t para o infinitivo, e. g., ten.eth lidar",
1teyo-th, "scr". Por outro lado, ns idéias pronominais, podem ser expres.
sas por yocábulo~ indcpcndcnt~s (c. g'l anoki, "eu"). por prefixos (c.
g. e.:z:mo" "eu guardarei"). por sufixos (c. g. :romar-ti, ueu guardei").
Em nass, HnRua India da Colúmbia Britânica, formam.se 08 plu~
rais por quatro rnétooOB distintos. A maior pu rte do.<;nomes (e dos ver.
boa) são r.oouplicados no plural, isto é, uma parte do radical se repete,
e. g. UVat, llpcssoa", gyigyat, Ugente". Já um segundo método está no
UBOde r.crtos prefixos C'aracterísticos. e. g., an'on, "mão", ka-an'on, "mãos";
wai "um remo", lu-wai, "vúrios remos". Outros plurais, ainda, se formam
por .meio de uma mutac;:iiointcrna de vogal, e. g., gwula "manto", gwila,
Umantos" .. Enfim, uma quarta classe de plurais é constitufda por nomes
que sufixam um elemento gramatical, e. g., u:aky, "irmão", wakykw,
u'1l1lla06
- " •

De grupos de exemplos como esses - e podemos multiplicá-los ad


t'l4useam - só nos resta concluir que a forma lingüística pode e deve
&er estudada em seus muitos aspectos, independentemente das funções
respectivas.
1: tanto mais justificável assim procedermos quanto todM as lín-
gua:s manifestam um curioso ins.tinto para desenvolver um ou mais pro-
eeasos gramaticais especiais à custa de outros, tendendo a perder de vista
o valor funcional explícito que o processo possa ter tido a princípio, como
que comprazendo-ec no mero jogo dos seus meios de expressão.
Nilo importa que num caso como o do inglês goou - geese, foul
defile ["sujo" - "sujar"), sing - SQ"lg - sung possamos provar que
RC trat.a de processos histôricnmente distintosj que a altcrnância vocá.-
lica de sino e sang tenha precedido dc séculos, como tipo especffico de
processo gramatical, o proccsso aparentemente paralelo de goose e geese.
~ão é nl('nos verdade que hfL (ou houve) em inglês, na época em que
sc constitufram geese e formas análogas, uma tendência inerente a utilizar
a mudança de ,"ogal como método lingüfstico significativo. Sem o grupo
de tipos já existentes de alternância vocálica como sing - sang - sung,
é muito du\'idoso que as condições especiais que acarretaram a evolução
das formas geese, teeth, [plural de tooth, "dente"] saídas de goose, tooth,
tivessem tido a força de induzir o sentimento lingüistico natiyo a chegar
'a admitir como psicologicamente aceitáveis esses novos tipos de forma-
~ã.odo plural•.
Este sentimento de forma considcrada cm si mesma, expandindo-sc
liv~ementc segundo linhas determinadas, e grandemente inibido em certa.<;
direções por falta de moldes pré-estabelecidos, deveria ser mais claramen-
te compreendido do que parece ser. 86 um exame geral de diversfas~
espécies de línguas nos dá a perspectiva adequada a tal respeito.
Vimos no capitulo anterior que toda Hngua tem um sistema foné.
tieo intimo de padrão definido. Vemos agora que também tem o sen-
timento definido de constituir padrões para a formação gramatical.
Ambos esses impulsos, subterrâneos e de grande força diretriz, em prol
das formas definidas, operam pelo prazer de operar, sem a preocupa-
56 A LINGUAGEM

ção inicial de preencher uma lacuna na expressão de certos conceitos ou


de dar forma externa consistente a certo!! grupos de concp.itos. Inútil ê
dizer que tais impulsos s6 encontram realização na expressão de funções
concretas. É preeiso haver a intenção de dizer alguma coisa para dizê~
la sob uma dada forma.
Seja-nos licito agora examinar um pouco mais sistematicamente,
conquanto sempre resumidamente, os vários processos gramaticais que
8 pesquisa lingürstica conseguiu depreender.

Agrupam-se em seis tipos principais: ordem vocabularj composição;


afixação, que abrange o uso de prefixos, sufixos e infixos; modificação
interna do elemento radical ou gramatical em referências quer a uma
vogal, quer a uma consoante; rcduplicaçãoj c diferenças de acentuação,
sejam elas dinâmicas (intensidade). sejam tônicas (altura, também cha-
mada "tom" e entoação). Há ainda processos quantitativos especiais quais
o alongamento ou (l abre\;ação de vogais e a gcminação de consoantes
mas que podem ser consideradas como subtipos especiais do processo
de modifica~ão interna. ::F.: possível que ainda restem outros tipos formais,
mas não terão provavelmente maior importância num exame perfunctório.
Importa nüo esquecer que um fenômeno lingüístico núo pode ser tido
como ilustração de um "processo" definido, senão quando lhe é increp-
te um determinado valor funcional. A mudança eonsonântica em inglês, por
exemplo, de book-s e bag.s [s no primeiro caso, z no segundo] não tem
significação. .£ uma mudança puramente externa e mecânica provocada
pela presença de uma consoante anterior contfgua, que é surda no pri.
meiro caso e sonora no segundo'. .£ objetivamente a mesma alternância
mecânica que se verifica entre o nome house ["casa"] e o verbo to hou.se.
Já aqui, entretanto, cOl'responde a uma função gramatical importante,
qual a de indicar a passagem de um nome a verbo. M duas alternâncias
pertencem, portanto, a categorias psicológicas inteiramente diversas. Só
a última cit.ada é uma verdadeira ilustração de modificação consonântiea
como processo gramatical.

O método mais simples, pelo menos mais econômico,de indicar qual-


quer espécie de noção gramatical é justapor dois ou mais vocábulos numa
ordem definida, sem procurar, por uma' modificação inerente, estahel{>-
cer a conexão entre eles. Alinhemos ao acaso dois vocábulos simples in-
gleses, sing praise, digamos. Isto, em inglês, não acarreta um pensa-
mento concluso, nem estabelece nitidamente uma relação entre a idéia
de "cantar" e a de "louvar". Apesar de tudo, porém, é-nos psicologica-
mente impossível ouvir ou ver as duas palavras justapostas sem um es.
forço para lhes dar certa dose de significação coerente. A tentativa não
terá por certo bom êxito pleno i mas o que importa assinalar é que tão
depressa se apresentem ao espírito humano dois ou mais conceitos radi-
cais em imediata seqüência, tentará ele conjugá-los sob um valor qual-
quer. No caso de sing praise, eada um de noo chegará provavelmente
a um resultado provisório distinto. Eis algumas das possibilidades la-
tentes da justaposi~ão, interpretadas em forma corrente mais satisfa-
t6ria: nng praise (to him)! ["cante em seu louvor!"] $inging praise
["cantando o louvor"], praise expressed in a $ong ["louvor expresso
em canto"]; to sing lUU1 praise ["eantar e louvar"] i one who sings a
Nvw clt.. {lu;.. tct.~ \2.vel, "'-
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 57

song Df praise [flpessoa que canta um canto de louyor"]. (à maneira


de compostos ingleses como killjoy, i. e., upessoa que mata a alegria") j
he sings a song 01 praise (to him) ["ele canta um canto de louvor (em
honra de alguém)"). São, pois, indefinidamente nUJIlerosas as possibili.
dades teóricas de amoldar esses dois conceitos num grupo significativo
de conceitos, ou até num pensamento concluso. Nenhuma delas se reali-
zará. por certo em inglês, mas há muitas línguas em que é coisa habitual
o jogo de um desses processos de amplificação. S6 depende, portanto, do
gênio da língua a função que pode estar inerentemente pressuposta numa
dada seqüência de vocábulos.

Algumas línguas, como o latim, exprimem praticamente todas as


relações por meio de modificações no corpo da própria palavra. Nelas,
a ordem das palavras presta-se a ser antes um princípio ret6rico do que
estritamente gramatical.
Diga eu em latim hominem femina videt, ou femina hominem videt,
'Ou h.ominem videt femina, ou ainda videt femina hominem, o alcance
da frase não apresentará. maior ou nenhuma diferença, salvo talvez no
que respeita ao efeito ret6rico ou estilístico. uA mulher vê o homem" será
.8 significação invariável de cada uma dessas sentenças.

Em chinuk, l!ngua dos Indios do Rio Colúmbia, há igual liberdade,


pois a relação entre o verbo e 09 dois nomes acha~8e inerentemente fi~
xada nos vocábulos, como em latim. A diferenc;:a entre as duas Unguas
está em que o latim faz com que os pr6prios nomes estabeleçam as. suas
relações de um para outro e de cada um para o verbo, ao passo que
o chinuk sobrecarrega o verbo com toda a responsabilidade fonnal,
-dando-lhe um conteúdo que pod,emosmais ou menos indicar por "ela-ele-vê".
Eliminai os sufixos casuais latinos (-Q e -em) e os prefixos prono-
minais do chinuk (flew..ele"), e já cessa a indiferença na ordem dos
vocáhulos; tcremos de culti~'ar os recursos de que dispomos. Em outros
termos, a ordem das palavras passará a ter um valor funcional real.
O latim e o chinuk estão num pólo. Em pólo oposto, estão lln.
guas como o chinês, o siamês, o anamita, em que toda e qualquer palavra,
para funcionar adequadamente, tem de encaixar-se num lugar prede.
terminado. A maioria das línguas ficam entre esses dois p6los. Entre
nós, por exemplo, não haverá diferença gramatical apreciável, se eu dis-
ser - "ontem o homem viu o cão", ou - "o homem viu o cão ontem",
mas já núo me será indiferente dizer - "ontem O homem viu o cão", ou
- "ontem o cão viu o homem", ou ainda - "ele está aqui", ou - "está
ele aquit" Num dos casos do último grupo de exemplos, a distinção vi-
tal entre sujeito e objeto dcpende unicamente da colocação de certas pa-
lavras na sentença, e, noutro, uma leve diferença de seqüência importa
numa diferença cabal ('ntre afirma~ão e pergunta. ~ claro que, nORSeS
dois casos, o nosso princípio da ordem vocabular é um meio tão eficien-
te de expressão quanto rm latim o uso de sufixos casuais ou de uma
partícula interrogatiya. Não sc trata de pobreza funcional, e, sim, de
.economia formal.
Já vimos alguma coisa do processo de composição: união numa só
palavra de dois ou mais elementos radicais. Psicologicamente, esse pro-
cesso alia-se mtimamente com o que repousa na ordem das palavras,
58 A UNGUAGEM

uma vez que a relação entre 08 elementos também fiea preMUpoata e não
explicitamente estabelecida. Difere noutro sentido, porque 08 elemen~
tos componentes são compreendidos como partes constituintes de um
.organismo vocabular único. Línguas como o chinês e o inglês, em que.
o princípio da ordem rígida se acha bem desenvolvido, tendem não p?ucas
vezes a desenvolver palavras compostas. De urna seqüência vocabu.
lar chinesa do tipo jin tak, "homem virtude", i. e.,
lia virtude dos homens",
s6 há um passo para justaposições mais convencionais e psicologicamente
unificadas como t'ien tsz, "céu filho", i. C, "imperador", ou xui fu, uágua
homem'" i. c, f.carregador dágua". No último exemplo podemos até,
aliás, francamente escrever xui.fu numa só palav"ra, pois a significação
do composto, considerado em seu todo, é tão divergente dos valores eti.
mol6gicos exatos do..'Jelementos componentes quanto a do vocábulo inglês
typewriter [port. "dactilógrafo"] o é dos valores meramente combina-
dos de type e writer [respectivamente, fltipo de impressão" e uescritor"J.
Em inglês a unidade de typewriter é além disso assegurada por um
acento predominante na primeira s.Oabae pela possibilidade da adjunção
de sufixos à palavra em seu conjunto, como o s do plural; e o chinês
também unifica 08 scus compostos por meio da acentuação.
Resta-nos a')Sim concluir quc, o processo de composição, embora nas
suas longínquas origens vá ligar-se a ordens vocabularcs tfpicas na sen-
ten~a, é hoje na sua maior parte um método especializado de expressar
relaçõcs.

O francês tem ordem de palavras tão rígida quanto o inglês; mas


não possui nada de semelhante à raculdade de que dispõe este último,
de reunir palavras em unidades mais complexas. Por outro lado, o gre-
go clássico, apesar da sua relativa liberdade na colaeaç..todas palavras,
mostra considerável propen!õiiiopara a formação de termos compostos.
~ curioso observar como as Hngl.las diferem enormemente na habi-
lidade de utilizar o processo de composiçüo. Teoricamente, seria de, es-
perar que um expediente U\o simples como é o que IlOS deu as palavrns
typewriter blackbird e legiões de outras, não fosse nada menos do que
J

um processo gramati~al universal. Tal não sucede, porém. Há um grande


número de línguas, como o esquim6, o nutka e, com raras exceções, os idio-
mas semiticos em geral, que nüo sabem compor elementos radicais. O mais
c'itcanhávcl é qtle muitas dessas Hnguas não são, em absoluto, infensas
a fOTma~õesvocabulares complexas, mas ao contrário praticam sinte-
.
scs que deixam longe quasc tudo o que o grego c o sânscrito ousam fazer.
.

Era de esperar, por exemplo, que uma palavra nutka, como uquando,
segundo dizem, ele ficou ausente por quatro dias", contivesse pelo me-
nos três elementos radicais, correspondentes aos conceitos de "ausente",
I'quatro" e "dia". Ma..~,na realidade, qualquer palavra nutka é absoluta-
mente incapaz de composição, no' sentido que damos a este termo. Coml-
trói-se, invariavelmente, de um só radical e maior ou menor número
de sufixos, cuja significa~ão pode ser quase tüo conereta quanto a do
próprio radical. No exemplo particular que citamos, o radical dá a
idéia de "quatro", sendo as no~ões de "dia" e "ausente" expressas por
sufixos tão inseparáveis do núcleo da palavra quanto o é de sing ou hunt
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 59

um elemento inglês como -tr em singer ou hunter [ou os sufixoa portu-


gueses de "cantor",' "caçador", correspondentemente].
A tendência para a síntese .vocabular não é, de maneira alguma, por-
tanto, a mesma coisa que a tendência para a composição dos radicais,
embora seja esta última, não poucas vezes, um meio cômodo de que ~
serve aquela -.para manifestar-se.
Bá uma variedade assombrosa de tipos de composição. Dependem da
função, da natureza dos componentes e da sua ordem.
Em' muitas línguas, a composição circunsereve-se ao que podemos
chamar a função delimitadora, isto é, entre dois ou mais elementos com-
ponentes um obtém qualificação mais exata pelo contacto com os outros,
que em nada concorrem para a construçã<? formal da sentença. Em in.
glês, por exemplo, elementos componentes. como red (Uvermelho") em
redcoat' ou over [preposição uacima"] em overlook [propriamente, em
português, llolhar por alto"] apenas modificam a significação do vocá-
bulo essencial coat e look sem absolutamente partilhar ds predicação ex-
pressa pela .sentença.
Já . outras Hnguas, como o iroquês e o náuhat}T confiam ao
método da composição trabalho muito mais pesado. As<iim, em iro-
quês, a composição de um nome, sob a sua form.s radical, com um. verbo
seguinte é método típico para exprcssarcm.se rela~ões c.asuais, especial-
mente de sujeito ou objeto. "Eu-carne-como", por exemplo, é o método
regular iroquês para construir a senten~a - "estou comendo carne". Em
~utras línguas, formas análogas podem transmitir noções locais, instru.
mentais ou outras. Formas inglesas como killjoy e marplot [de to mar.
Hestragar''. e pIai, Hprojeto"] também ilustram a composição entre ver-
bo e nome, mas o vocábulo resultante tem função estritamente nominal, a-
não verbalj não nos ~ licito dizer he marplots. [A mesma observação apli-
ca'"8eao portuguêsj ex.: "guarda-chuva"].
Certas Hnguns admitem n ('omposi~ão de todos ou quase to<10!Õ;
o!-ô
tipos de elementos. O paiúte, por exemplo, ('ompõe nome com nome, ad-
jetivo com nome,' verbo com nome para formar nome, nome com ve~'oo
para formar verbo, advérbio com verbo, verbo com verbo. O yana,
língua índia da Califórnia, pode compor à vontade nome com nome e
verbo com nome, mas não verbo com verbo. Por outro lado, o iroquês 56
pode compor nonLe com verbo; nunca, nome com nome, como faz o in-
glês, ou verbo com verbo, como fa7.emtantas outras linguas.
Finalmente, cnda língua tem seus tipo~ enracterístico.s de ordem de
composição. Em inglês o elemento que qu~lifi('n é r('gularmente antepos.
to; em outras, é posposto. Às vezes, são usados ambos 08 tipos. como em
yana, onde carne de vaca é limais amarga-caça", mas figado de veado é
expresso por Ufígado-veado". O objeto composto de um verbo precede
o elemento verbal em paiúte, náuhatl e iroquês, mas se lhe segue em yana,
tsínRhian' e nas línguas algonkin.

De todos os processos gramaticais o da afixação é incomparavel-


mente o mais freqüentemente empregado. Há línguas, como o chinês e
o siamês, que não fazem uso gramatical de elementos que, concomitante-
60 A UNGUAGEM

mente, não possuam valor independente como radicaisj mas Hnguas des-
sa espécie são pouco comuns.
Dos três tipos de afixação, - o uso de prefixos, de sufixos e de in-
fixos -, é o segundo o mais encontradiço. Pode-se até adiantar, sem re-
eeio, que os ~ufixos entram em maior escala na obra fonnal da linguagem
do que todos os outros métodos reunidos. Vale salientar que há não poucas
Jinguas de afixação, que absolutamente não fR7.f'In lL'>O de prefixos e pos_
suem um aparelhamento complexo de sufixos. Tais são o turco, o hoten-
tote, o esquimó, o nutka e o yana. A.lgumas delas; como as três últimaa
citadas, têm cente"nasde sufixos, e muitos (luja significação é tão con-
creta que, na maioria das 'outras linguas, teria de expressar-se por
meio de radicais. O caso inverso, do uso de prefixos com completa ex-
clusão de sufixos, é m•..ito menos comum. Tem-se um bom exemplo em
khmer (ou cambodjiano) t falado na Cochinchina francesa,. mas ainda aí
há tra~os de antigos sufixos, que deixaram de funcionar como tais, e
hoje s:io sentidos como partes integrantes do radical.
Uma maioria considerável de línguas conhecidas usam a prefixação
c a sufixação a um só e mesmo tempo, mas a importância relativa dos
dois grupos de afixos muito varia naturalmente. Em alguns idioma.~.
como o latim e o russo, só aos sufixos cabe relacionar o vocábulo ao res-
to da senten-:a, circunscrevendo-se os prefixos à expressão daquelas idéias
Que delimitam a significação concreta do radical, sem influir no com.
portamento dele na proposição. Uma forma latina, como remittebantur
(leram mandados de volta" pode servir de ilustração 'para esse tipo de
distribuição de elementos. O'"prefixo Te-, lide volta apenas qualifica,
lt

até certo, ponto, a significação inerente ao radical mitt., "mandar", no


paç,soque os sufixos -eha-, -nt- e -UT transmitem noções.menos concretas,
mais estritamcnte formais, de tempo, pessoa, pluralidade e passividade.
Em compensação, há línguas, como o grupo bântu da África e as
1fnguas athabaskan da América do Norte', em que vêm em primeiro
lugar os elementos de sentido gramatical, e aqueles que se seguém ao
radical constituem uma classe relativamente dispensável. A palavra hupa
te-s-e-ya-te, "irei", por exemplo, consta de um radical -y4, "ir", três pre.-
fixos essenciais e um sufixo formalmente subsidiário. O elemento te- in-
dica que o ato se realiza cá e lá no espaço ou através de um espaço con.
tinuoi não tem praticamente um alcance bem determinado fora dos ra-
dicais verbais a que está acostumado a juntar.se. O segundo prefixo -s-
é ainda de menos fácil definição. O mais que podemos dizer é que se
usa com formas verbais de tempo "finito" c assinala ação em progresso,
antes do que um inicio ou um fim de a-çiio.O terceiro prefixo .e- é um
elemento pronominal, "eu", que só se pode usar em tempos finitos. Im-
porta ficar bem compreendido que o uso do -e. é condicionado pelo do -8.
ou outros prefixos alternativos e que te-, também, está na prática liga-
do ao emprego do _s_. O grupo te.s-e-ya é, pois, uma unidade gramatical
firmemente coesa. O sufixo -te, que indica o futuro, não é mais nceei-
eá.rio ao seu equilíbrio formal, do que o Te- prefb:ado, do vocábulo la-
tino supracitado; não é um elemento capaz de existência isolada, tendo
mais uma função de delimitação material do que estritamente formal:o.
os PROCESSOS GRAMATICAIS 61

Não ê sempre, entretanto, que podemos agrupar os sufixos para


opô-Ios ao grupo dos prefixos. Provavelmente na maioria das línguas
que utilizam os dois tipos de afixação, cada grupo tem ambas as funções,
a de delimitação e a de expressão formal ou relacional. O mais. que po-
demos dizer ~ que cada língua tende a exprimir sempre, de uma 56 ma-
neira, as funç~ semelhantes. Se um dado verbo e.'<prime um dado
tempo por sufixação, é mais do que provável que exprima os seus ou-
tros tempos de modo análogo, e, mais ainda, que. todos os verbos tenham
elementos temporais sufixos. Analogamente, esperamos em regra e~con~
trar os elementos pronominais, na medida em que se integram no verbo,
consistentemente prefixados ou sufixados.. }.las esta praxe está longe de
ser. absoluta. Já vimos como o hebraico prefixa os seus elementos pro-
nominais em certoB casos, e, em outros, os sufua. Em chimariko, lín-
gua índia da Calif6mia, a posição dos afixos pronominais depende do
verbo; em alguns verbos são prefixados, e, em outros, sufixados.
Não será necessário dar muito mais exemplos das categorias de pre-
fixação e sufixação. Bastará um de cada uma delas para ilustrar suas
possibilidades formativas.
A id~ia exprcs.~ em inglês pela sentença I came to givt it to her
(port. "Vim para lho dar."l diz-se em chinukll i-rt-.a-I-u-d-a-r. Este
vocábulo - e trata-se de um vocúbulo perfeitamente unificado com um
acento nitido no primeiro -a. - consta de um elemento radical -d- "dar",
seis prefixos funcionalmente distintos, conquanto foneticamente frágeis,
e um sufixo~ Dos prefixos, i- indica passado recente; -rt-, o sujeito pro-
I
. nominal "I" [porto "eu"], -i- o objeto pronominal l'it" [porto "o"] uj -a-
o segundo objeto pronominal "her" (port. "lhe"l j -1-, um elemento pre-
posicional que indica que o prefixo pronominal precedente deve ser to-
mado como objeto indireto (her-to, i.e., "to her" [como em porto "a ela",
que se poderia usar em vez de "lhe"] j e -u-, elemento que não é fácil de-
finir satisfatoriamente, mas que de modo geral indica movimento par-
tido da pes.OÕloa que fala. A parte -ant sufixada modifica o conteúdo do
\Ocrbonum sentido local; ajunta à noção contid.a no radical a de "che-
~adn", i"hl é, "ida lOU vinda) para aquele fim"o Vê-se, claramente, as-
sim, qt..~ em chinuk, como em hupa, a engrenagem gramatical assen-
ta mais nos prefixos do qu{' nos sufixos.
Caso im"erso, (Im quc os ('tementos expressivos sc ag-Iomeram grama-
ti('ulmente, ('orno cll: latim, no fim do vocábulo, é-nos ministrado pelo
fOI, (nome inglt-s "rapôsa", pronuncie-se foksl. uma das línguas algon-
kis mais bem ('onhe<'idas no vale do Mississipio Consideremos a forma
eh-kilt'i-n-a-m-oht-a.ti-wa-ch (oi), "cntão eles todos fizeram (-no) fugir de-
lcs".-'.Aqui kiwi- ~ o radical, radical verbal que indica a noção geral de
"moyimento indefinido para um e outro lado, cá e lá". O elemento prefi-
xado eh- quase não é mais do que uma parHcula adverbial para indica!'
subordinação temporal; tradu-la convenientemente o nosso "então". Dos
sete sufixos, incluídos neste vocábulo tão elaborado, -n- parece ser ape-
nas um elemento fon~tico de liga-:ão entre o radical verbal e o -(I- se-
guinte13; cste -a- é um radical secundáriou que denota a idéia de "fuga,
fugir"; -nt- 'des.igna causalidade em referência a um objeto animadoUj
62 A UNGUAGEM

-o(ht)- indica atividade que recai no sujeito (ou, seja,.8 chamada voz
mediaI ou médi~passiv8 do grego) j -(a)ti- é o elemento de reciprocida-
de l'um ao outro"j 4wa--ch(i)- é a terceira pessoa animada. do plural'
(-wa- para o plural e chi, mais propriamente pessoal) das"chamadas
formas "conjuntivas". Pode-se' traduzir a palavra mais literalmente
(mas, apesar de tudo, só aproximadamente quanto à impressão grama-
tical do conjunto) por "então eles (seres animados) fizeram um ser
qualquer animado andar cá e lá em fuga de um para outro entre si", O
esquim6, o nutka, o yana e outros idiomas têm equipamentos analogamen-
te complexos de sufixos, embora difiram em grande escala as funções
que tais sufixos realizam e os principios por que se combinam.
Reservamos para ilustração separada o curiosíssimo tipo de ele-
mentos de afixação conhecidos pelo nome de "infixos" . .t completamente
ignorado em inglês, a menos que consideremos o .n. de stand [presente
de l'ficar de pé"), em contraste com stood [pretérito), uma consoante
infixada.

A1Jantigas linguas indo-européias, como latim, grego e sânscrito,


faziam um uso relativamente considerável de n8Sàis infixadas em certos
verbos, para diferençar o presente de outras formas verbais (contras-
te-BCo latim vinco "venço", com vici "venci"; o grego lamb-an-o, "tomo"
com e-lab-on, "tomei"). Há, entretanto, exemplos mais impressionantes
do processo, exemplos em que ele assumiu uma função mais claramente
definida, do qúe nesses casos'latinos e gregos. :f; especialmente predomi-
nante em muitas línguas do sudeste da Ásia e do arquipélago malaio.
Bons cxenlplos, tirados do khmer ou cambodjiano são tmeu, "aquele que
passeia", e duneu. "passeio" (nome verbal), ambos derivados de deu.
"passear". Podemos ir buscar outros exemplos em bontok-igorot, língua
filipina, em' que um -in- infixado traz a idéia do produto de uma ação
realizada, e. g. kayu, "madeira", kinayu "madeira apanhada". [i. e., "le-
nha"]. São também usados, sem parcimônia, infixos no verbo bontok-
igorot. Assim, um -um- infixado é característico de certos verbos intran.
sitivos que possuem sufixos pronominais de pessoa, e. g., sad. "esperar"
sumid-ak, "eu espero"; kineg, "calado", kuminek.ak "eu estou calado".
Em outros verbos Indica futuro, .e. g" tengao-. "celebrar um feriado",
tumenga.o-ak, "terei um feriado". O pretérito é freqüentemente indicado
pelo illfixo -in-; se já existe o infixo -um-, combinam-se os dois elemen-
tos em -in-m-, e. 8., ,kiuminek-ak "estive calado".
:f; cvidente quc o processo de infixação tem nessas línguas (c em auas
cognatas) a mesma vitalidade que em outras possuem os prefixos e su-
fixos mais comuns.

o processo é também encontradiço em certo número de línguas da


América aborígine. O plural yana forma-se às vezes por um elemento
in fixado, e. g., k'uruwi "curandeiros", k'uwi, "curandeiro"l'j em ehi-
nuk, US8.SC um -1- infixado em ccrtos verbos para indicar atividade 1"e.
petida e. g., ksik'lude1k;: uela fica olhando para êle", iksik'lutk "ela
olhou para elc" (elementó radical -tk), Nas línguas' siuan há um tipo
p~uliarmcntc intcress:mte de infixação, qual o de certos verbos inseri-
rem elementos pronominais no próprio corpo do radical, e. g., siucÀeti,
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 63

Ufazer uma fogueira", chewati, Ueu fiz uma fogueira"; :ruta, "perder'\
x1lunta-pi, un'ós perdemos" (um objeto).
Processo subsidiário, mas não de maneira alguma, ~em importância,
é o da mutação interna vocálica ou consonantal. Em algumas Unguas,
como em inglês (sing, !anu, !ung, longj goose, geese), a primeira dessas
mutações tornou-se um dos maiores métodos para indicar mudança bá-
sica de função gramatical. E, seja como fór, o processo continua vivaz,
ao ponto de atrair 08 nossos filhos para caminhos ínvios. Todos conhece-
mos algum meninote que fala em "kaving brung something" [em vez
de broughl, particípio paaaado do verbo lo brillg, trazer J por analogia
com formas como sun..!Ae flung [verbos to sing, Ucantar" e to fUng,. Har_
rerncssar"]. Em hebraico, já o vimos, a mutação vocálica ainda é mais
significativa do que em inglêsj e o que é verdade para o hebraico, tam.
bém o é, naturalmente, para todas as outras línguas semíticas. UM pOU.
cos exemplos do chamado plural Ilquebrado" do arábicou servirão de au-
plemen~ à."1 formas verbais hebraicas que já citei a outro propósito. O
neme balad, Hlugar", tem para plural a forma bilad18; gild, uesconde-
rijo" faz o plural gulud; de ragil, Ilhomem", o plural é rigal; de xibbBl.:,
"janf!la", o plnral é xababik. Fenômenos muito semelhantes encontram-
se nas línguas hamíticas da África Setentrional, e. g., em shilhll izbil,
"cabelo", plural izbelj G-slem, "peixe", plural i-slim-en.; sn, "saber", sen
"estar sabendo"j nni, "cansar", rumni, "estar cansado"j ttss20, "adorme-
cer", ttoss "dormir". Dc analogia impressionante com as altcrnâhcias in-
glêsas e gregas do tipo sing-sang e leipo, "deixo", leloipa "deixei", são
em somalill os éaaos de ai, "sou", il, "era"; i.dah-a, "digo", i-di, "dizia",
deh, "dize!"
A mutação vocálica é também de grande significação em certo nú-
mero 4e línguas índias americanas. No grupo athabáskan muitos verbos
mudam a qualidade ou a quantidade da .••. ogal do radical ao mudar, de
tempo ou' de modo. O verbo návaho correspondente a "ponho (grão)
numa vasilha" é bi-hi-x-dja, em que dja é o radicalj o tempo pretérito
bi-hi-dja', tem um a longo seguido da "oclusão glotal"U; o futuro é bi.h-
de-:r-dji com a mudança completa da vogal. Em outros tipos de verbos
návaho, as mutações ,"ocáBcM seguem linhas diferentes, e. g., yah-a-ni-ye
"carregais (um fardo) para (uma cavalariça)"j pretérito yaJt-i-ni-yin
(com i longo em yin, sendo o n aqui usado para. indicar nasalação) j fu-
turo, yah-a-di-yehl (com e longo). Em outra língua" índia, o yokutsU, as
modificações vocálicas manifestam-se tanto nas formas nominais como
nas verbais. Assim. buchong "filho" forma o plural boch.ang.i (em con~
traste com a forma objetiva b'UGhong-a)i de enax, uavô", o plural é inax-a;
o .••.
erbo engtyim Hdormir forma o continuativo ingetym-ad, Uestal' dor-
tl

mindo" c o pretérito ingetym&:r.


As mutaçôcs de consoante, como processo funcional, são por certo mui~
to menoS freqüentes do que as modificações vocálicasj mas, a bem dizer
não são raras.
Em inglês tem-se um grupo de casos interessante - o de certo,.'i
nomes e verbos correlatos que s6 diferem pela consoante final surda ou
sonora. São exemplos wreath (com th como em think) mas to wreathe
(com th como em then) [porto "grinalda" e uengrinaldar"] j hou.se, mas
64 A LINGUAGEM

to Mus6 (com s pronunciado como z) [porto "casa" e "alojar"]. Q~e


temos o sentimento nitido da troca, como meio de distinguir o nome dlJ
verbo, prova-o n extensão do processo na boca de muitos americanos para
um nome do tipo me (e. g. the rise Df democracy) - pronunciado riu
- em contraste com o verbo to rise, de s igual a z [porto "erguer"].
Nas línguas célticas, as consoantes iniciais sofrem várias espêcies
de mudança de acôrdo com a relação gramatical subsistente entre o vo-
cábulo e o que precede. Assim, em irlandês moderno, uma palavra como
bo "bOi" pode, em adequadas circunstâncias, tomar as formas bh.o (pro-
nuncie-se wo) ou mo (e. g'l an bo, "o boi", sujeito, mas tir na mo, "terra
dos bois", possessivo do plural). No verbo, o principio tem, como uma das
suas mais notáveis conseqüências, a aspiração das CODiOantesiniciais do
pretérito. Se um verbo começa por I, digamos, troca o I por Ih (que
hoje se pronuncia h). nas formas do passado; se começa por U, a con-
soante passa, em formas análogas, a gh (pronunciado como espirante
sonora gU ou como Y, segundo a natureza da vogal seguinte). Em ir-
landês moderno, o princípio da mutação consonantal, que começou no
perfodo mais arcaico como conseqüência secundária de certas condições
fonéticas, tornou-se, pois, um dos. proces.<;QSgramaticais primordiais da
Ungua.
Tão notáveis talvez quanto esses fenômenos irlande8l.''s são as per-
mutas consonantais do fuI, língua africana do Sudão. Aqui, verifica-
Re que todoa os nomes pertencentes à classe pessoal formam o plural
com a mudança da inicial U, dj, d, b, k, c.h e p para y (ou wL y, r, W,
h, s e I respectivamente, e. g. djim-o ucompanheiro'\ yim-'be "companhei_
ros", ,»0-0 l'batedor" (nas caçadas), fio-'be "batedores". :f; curioso obF.er-
var que nomes pertencentes à classe dos objetos formam o seu singular
e plural de um modo exatamente inverso, e. g., yola-re, "lugar de relva
('re:-«>icia", djola-dje, "lugares de relva crescida"; fitan-du, "alma'~, pitaI-i,
"almas". Em nutka, para citarmos ainda uma Hngua, em que se encon-
tra esse processo, o t ou tp& de muitos sufixos verbais torna-se hl em
formas que designam repetic;:ão,e. g'l hita.'ato, "cair para fora", hita-áhl,
"ficar caindo para fora"; mat-achixt-utl, "fugir pela água",' m4t-achixt-
;ohl, "ficar fugindo pela água". Além disso, o hl de certos elementos pas-
sa para um peculiar som h nas formas do plural, e. g. yak-ohl "contun-
dido na face", yak-oh, "(gente) de face contundida~'. Nada mais nntural
do .que a importância da reduplicação, ou seja, em outros termos, a Te-
peti~ão. total ou parcial do radical. O processo é geralmente empregado,
com transparente simbolismo, para indicar certos conceitos corno distri-
buição, pluralidade, repetição, atividade habitual, aumento de tamanh(),
acréscimo de intensidade, continuidade. Até em inglês não é desconhe-
cido, embora não se considere em regra um dos recursos formativos tí-
picos da língua. Pala\T8S como goody-goody e to pooh-pooh [de goody,
"bobo" e pooh!, exclamação de desprezo] tornaram-se parte aceita de
nosso vocabulário normal; mas o método da duplicação pode ser usado,
em dados momentos, mais espontâneamente do que o indicam tais exem-
plos assim csteriotipados. Locuções como a big big man [Uhomenl.arrão"]
ou Let it CQoltill it's thick thick ["Deixe esfriar até ficar bem consisten-
te"] são muito mais comuns, especialmente na fala das mulheres e crian-
c;as do que o fariam supor os n06BOScompêndios de linguagem [cf., em
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 65

português, Uest' fraquinho. fraquinho!"]. Contudo a enorme porção de


palavras, muitas de Bom imitativo ou de intenção pejorativa, que têm
reduplicaçóeBem inglês, com alternância às vezes de vogal ou de consoan.
te, constituem uma classe à parte: são do tipo de sing~s01lg. ri!f.Talf,
wishy-washy, harum-skarurn, roly-poly [cf., em português, "zig-zag", "tic-
-tae't, "bule-bule", "bim-bão", donde "bimbalhar", etc.]. Palavras desse
tipo são pràticamente universais. Exemplos como o russo Chudo-Yudo
(um dragão), o chinês ping-pang (para o bater da chuva no telhado)2',
o tibetano kyang-kiong, "preguiçoso", o manchu porpon-parpan urame_
lento", lembram curiosamente, na sua forma e psicologia, térmos mais
próximos de n6s.
Não se pode dizer propriamente, entretanto, que o processo redupli-
cativo tenha uma significação gramatical especifica em inglês [.ou em
português l.
Convém buscarmas alhures a sua ilustração. Casos cama a hatentate
go.go, ".olhar cuidadosamente" (de go, "ver"), somali fen-fen "ranger as
dentes para todo lada" (de ten, ranger as dentes), chinuk iwi-iwi,
"elhar em valta com cuidada, examinar" (de iwi, aparecer) .ou tsinshian
am'an "vários (são) bons" (de am bom) não se afastam do âmbito na-
tural e fundamental do processo. Função mais abstrata é exemplifica-
da em ewe ", em que tanto os infihitivas como .os adjetiv.os verbais se
f.ormam do verbo por duplicação; e. g. yi, "ir", yiyi "ação de ir", WQ
"fazer", wowo, "feita"U, mawomawo "ação de nãa fazer" (com dupli-
cação tanto do radical verbal como da partícula negativa). Duplicações
cansativas são caracteristicas do hotentote, e. g., gam-gam.n "fazer dizer"
(de gam, dizer). Ou usa-se a processo para derivar vcrbos de nome~. co-
mo no hatent.ote khoe-khQf, "falar hotentote" (de khoe-b, homem haten-
tote) ou em kwakiútl metmat, ucomer .ostras" (elemento radical meto,
"ostra") .

Os exemplos mais caracterfsticos de reduplica~.iia sãa aqueles que


rC'petemuma parte apenas da ra.dical. Seria passh-eI demanstrar a exis-
tência de um vasta número de tipos farmais, nessa reduplicação par-
cial, segunda a processo - se serve de uma .ou mais cansaantes radicais,
preserva, enfraquece .ou altera a vagaI radical, .ou se refere ao cameço,
a.o meio ou ao fim do radical. As funções sãa até mais exuberantemente
desenvoltas do que com a reduplicação simples, embora a noção básica,
pelo menos na sua origem, seja quase sempre de repetição ou continui-
dade. Pode.se buscar de todas as partes do mundo exemplos ilustrati-
vos d~ssa função fundamental. Reduplicàçõcs iniciais ternos em shilh
ggen, "cstar darminda" (de gen "dormir"); fuI pepeu-'do, "mcntiraso"
(i. e., aquele que sempre mcnte), plural fefeu-'be (de feu'a, "mentir");
bontok-igorot anak, "criança", ananak "crianças"; kamu-ek, '~apresso.me",
kakamu-ek "apresso-me mais"; tsínshian gyad, "pessoa", gygyad, l'pOVO";
nass gyibayuk. Ufugir", gyigyibayuk "aquele quc fage". Psicolôgicamen.
te comparáveis, mas com a roouplicaçãa no fim, são somali ur, llcorpo",
plural urar; haússa suna, Hnome", plural sunana-ki; washo30 gusu ''bú_
falo", gususu, "búfal.os"; takelma31 himi-d. "conversar cam... OI, himim-d-
"ter o hábito de conversar com... ". Ainda mais comumentc do que a
duplicaçãa simples, essa duplicaçãa parcial do radical assumiu em muitas
66 A LINGUAGEM

línguas funções que não parecem ter a menor relação com a idéia de
aumento.
Talvez os exemplos mais conhecidos sejam os da reduplicação ini-
cial das nossas antigas lingus8 indo-européiss, que auxilia a formação do
pretérito de muitos verbos (e. g. sânscrito dadar-xa, ''''i'', grego leilopa
"deixei"; latim, tetigi, '1.oquei", g6tico Zelo', uconcedi"). Em nutka em~
prega.se não raro a reduplicação do elemento radical em ~iação com
certos sufixos; e. g. hluch-, ''1nulher'', forma hluhlucb,-'ituhl, "sonhar com
uma mulher", hluhluch-k'ok 'ÍJareeido com uma mulher". Exemplos psi-
cologicamente semelhantes ao grego e ao latim são, em takelma, muitos
casos de verbos que exibem duas formas do radical, uma usada no pl'&-
sente e no pretérito, a outra no futuro e em certos modos e derivados
verbais. A primeirà tem uma reduplicação final, que não figura na se-
gundaj e. g. al--yebeb-i'n 'mostro-Ihe (ou mostrei-lhe)'" al-yeb-in, f'mos-
trar-lhe-ei".
Chegamos agora ao mais sutil dos processos gramaticais: variações
de acentuação, quer na intensidade, quer na altura.
A principal dificuldade em isolar o acento como proc~~ funcio-
nal está em que ele se acha muitas vezes tão combinado com ~lternâncias
de quantidade ou qualidade vocálica, ou tão complicado pela presença
de afixos que o seu valor gramatical aparece sob aspecto mais seeundá~
rio"do que primordial.
Em grego, por exemplo, é um característico das fonnas verbais re-
cuarem o ac~nto o mais longe possível, dentro das regras prosódicas ge-
rais, enquanto os nomes apresentam maior liberdade de acentuação. Há,
assim, uma importante diferença de acento entre uma forma verbal como
eluthemen, "fomos libertados", acentuado na penúltima silaba, e o seu
derivado principal lutheis, "libertado", acentuado na última. A presença
dos elementos verbais típicos c- e ~men, no primeiro caso, e do s nominal,
no segundo, concorre para obumbrar o valor inerente da alternância de
acentos. Es,<revalor ressalta nItidamente em formas duplas inglesas como
to ref'Und (verbo, oxítono) e a ref'Und (nome, paroxítono), to extract
c an extract, to come down e a come down,' to lack luster e lack-luster
eyes; em que a diferença entre o verbo e o nome só depende da mudan
ça de acentuação (É o que anàlogemente se verifica em português entre
a 1.' pessoa singular do indicativo presente e o Domedeverbal correlato,
de, por exemplo, "(eu) reverbero", paroxítono, e U(o) revérbero", propa.
roxítono, "(ele) iaLrica", paroxítono, e "(a) fábrica", proparoxítono, etc.].
Nas línguas athabáskan, há não raro sigJ\ificativas alternâncias de acen-
to como em návaho ta-di-gis, uv6s vos lavais" (acentuado na segunda sí-
laba) e ta-di-gi3. uêle se la\'a" (acentuado na primeira)u.
O acento de altura pode desempenhar função tão importante quan.
to o de intensidade e talvez a desempenhe mais a mi6do. O simples fato,
entretanto, de serem as variações de altura essenciais na fonética de
uma Ungua, como em chinês (e. g. feng, "vento" com tom nivelado, [eng,
"servir" com tom decrescente) ou em grego clássico (e. g, lab.on, "ten-
do tomado", com tom simples ou alto no sufixo de particípio -01tj gtt1uzik-
01t, "de mulheres", com um tom circunflexo ou d"'l'escente no sufixo
casual -on) não constitui por si SÓ, neeessariamente, uma aplicação da
OS PROCESSOS GRAMATICAIS

altura para fins funcionais, ou, digamos melhor, gramaticais. Em taÍ.9


casos a altura está meramente integrada no radical ou no afixo, como
estão as consoantes e as vogais.
Já é coisa diferente uma alternância chinesa do tipo de chung (ni-
velado), "meio", e chung (decrescente), flacertar no meio"; mai (cres-
cente), "comprar" e mai (decrescente), llvender"j pei (decrescente), --cos-
tas'\ c pei (nivelado) ulevar às costas". Exemplos desta ordem não são,
a rigor, comuns em chinffi, nem se pode dizer que a lingua possua atual.
mente o sentimento nítido de simbolizar nas diferenças tônicas a dis-
tinção entre o nome e o verbo.
Há idiomas, entretanto, em que tais diferenças têm importância gra-
matical das mais fundamentais~ São elas particulannente comuns no
Sudão. Em ewe, por exemplo, existem, provavelmente de subo, "servir",
duas formas reduplicadas, uma infinitiva subosubo, "servir", com tom
baixo nas duas primeiras snabas e alto nas duas últimas e uma adjetiva
subosubo, "(aquele) que serve", em que todas as silabas são em tom alto.
Ainda mais notáveis são casos ministrados pelo shilluk, uma das lin.
guas das cabeceiras do Nilo. Assim, o plural de um nome muitas vezé3
difere do singular pela entoação; e. g., yit (alto), "ouvido", mas yit
(baixo) "ouvidos". Nos pronomes, pode-se distinguir três formas apenas
pelo tom: e, "ele", tem tom alto e é subjetivo, -e, "o" (e. g., a chwol-e,
"ele o chamou") tem tom baixo e é objetivo, -e "dele" (e .. g., wod-e,
"casa dele") tem tom médio e é possessivo. Do elemento verbal gwed-,
uescrever", formam-se gwed-o "(ele) eSl1reve", com tom baixo a passiva
gwet, "(estava) escrito", com tom decrescente, o imperativo gwet! "es-
creve!", com tom cres;cente, e o nome verbal gwet, "escrita", com tom
nivelado.
Sabe-se que na América aborígine também ocorre o acento de altu-
ra como processo gramatical. Bom exemplo de urna dessas linguas de
entoação ê o tlinguit, falado pelos índios da costa meridional do Alasca.
Aí, muitos verbos variam o tom do radical conforme o tempo; hun, tlyen.
der", sin, "ocultar", tin, "ver", e muitos outros radicais, pronunciados
em tom baixo referem-se ao pretérito, e em tom alto, ao futuro. nus-
tram outro tipo de função as formas takelma hel, "canto", com altura
decrescente, mas he1, "cante!" com uma inflexão de voz ascendente; há
paralelamente se1, (decrescente) Upintado de prêto", sel (crescente),
"pinta-o!".
Bem pesado tudo isso, torna-se evidente que o acento de altura, como
a intensidade e as modificações vocálicas ou consonantais, é utilizado com
muito menos parcimônia, como processo gramatical, do que poderíamos
supor provável dentro dos nossos hábitos lingüísticos.
Notas ao Capítulo 4

1. Quanto ao limbolismo, ver capituJo lI.


2. Plural é &qui um II.mbol0 para qualquer prefixo que inulque a pluralidade .
.3. [No euo de gOf»,.geue, como de outrOll plunia ma".tt""'lI.
(tootll..te(l'th,
moulIl'.mk.t, etc.) I. mudança da vogal 'no plural roi devid9. à a~li.o usimilat6ria.
do um , final, mal! tarde dt!lapareeido. t o fenômeno em aleml0 """taut, ou lJejlL,
Hmeta.fonia". Em ..mg'8(JfIg, throw.Chrc'lO, cto:. lLIIdiferençaa de ,.ogal provfm dlUl pri.
mitivu formaa indo-européias, eon.lJtitulndo o ehamado oblaut. i. e., "gradaçA.o voei.
Helio" ou uapofonia" em que uma dada ra1z. tem ora a ,"ogal o ora (1', ora uma V'Ogal
roow:ida..l
4. [Ver a nota 3, pAgo 66.)

5. [Fenômeno ané.logo verifica-se em português com O '8 do plural em contado


com uma consoante seguinte surda ou 80nora: "09 Cãl'8" (i'08" com final surda), "OI
bois" ("os" com final sonora.)
6. [Literalmente. "casaco vermelho"; mas quanto ao sentido "homem de farda",
';militar".]
7. A Ungua dos astecas, ainda falada em grande parte do México.

8. Uma Hngua índia da Colúmbia Dritânica (' intimamente relacionada com


o nB88. j6. aqui citado.

9. Que inclui Hnguas como o návaho, apache, hupa., carner (nome inglês, porto
"carn'gador"], chipew:ran, lO1óCheu.r [nome franci;s].

10. bso poderá surpreender o leitor inglês. Em regra consideramos o tempo uma
funt;:llo que se exprimo apropriadamente de maneira toda formal. Tal noçlio deriva.
fie do pendor que o estudo da gramática latina n08 deu. Na realidade, o futuro in.
glês (l shall gol não se expressa absolutamente 'por um afixo; demai£l, pude ser ex.
presso pelo presente, como em - to.morrow 1 lea~'~ th" pla.ee [l<amanhA.deixo eate
lugar"], onde a função temporal é inerente ao advérbio to.morrow [porto "amanhi."].
Em menor grau embora, o hupa .te é tlio írrelf".ante ao vocábulo verbal propriamente
dito, quanto "amanhã" ao n~::lO"scntimento" de I leave [porto fldeixo"].
11. Dialeto wishram.
12. :r\n r("uliclad("him (forma masculina. ao pa..~soque ~it é neutro); mas .,
chinuk, como o latim e o francês, p08sui gênero gramatical. Pode-se tratar um
ohjcto de "he" [de], "shc" [ela} ou "it" [gênero neutro] de acordo com a forma
característica do nome que o dl'Signa.
13. Esta análise {, inscb"Ura. £:: pro,"ávcl que o .n. possua uma função, ainda
por d('Slindar. As língua.'" algonkin são de uma eomplt"xidadt" fora do comum e apre.
"'l"utnm muitos problema!! de detalhe ainda não r("solvidos.
70 A LINGUAGEM

14. "Radieo.iI locundlÚ'iOl" '-Ao elementOll que 11110 IUf1%OI do ponto' doe "lata
formal, nunca figurando .em o suporte de um v(lrdadeiro radical, mu cuja. funç!o,
qualquer que seja. o teu iDtento ou prop6eito, , tio CODcret&quanto •. do pr6prio
radieaI. Radicai. verbaia .eeundlriOl desae tipo elo earacterÚlticu du l1Dguu aI.
gonkin e do yana.
15. Nas 11pguaa algonkin, todu as pesaOllA I' coilu .10 conheeid •.• como
nnimndlUl ou inaniml1das, da me!m3. lorte que em latim ou alcmlo 110 ('onoohidu
romo DlR!lculinas, :femininas ou neutl'U.
16. [Traduziu.se por "curandeiro" a Iocuçlo medicinc.mon, que a eseola antro-
pológica inglesa de TyIo!' e Fruer vulgarizaram e que os autores franceses (Lel)"
Brühl, por ext'mplo) transpõem literalmente para homme.médiciM.)
17. Dialeto egípcio.
18. lU. também mudanças de acento e quantidade vodJiea nestas formu,
mas as exigências da simplificação impõem.nos desprezA..lns.
19. Lingua. bcrbere de Marrocos.
20. Algumas Hnguas berberes admitem combinações cOD.l!lonantais,que, a n6s
':nltros, parecem impronunei6.vei8.
21. Uma das linguas haml:ticas da Africa oriental.
22. Ver pflg" 56.
23. Falado no ~eDtro meridional da Califórnia.

24. Ver pig. 51.


25. Esaas grafias elo apenas aproximaçliea grosseiraa de ecrtC18 lI01UIeimpk!8.

26. Donde o nosao ping-poAg.

27. Lingua africana da C08ta' de Guiné [Também se uaa em portuguAs o nome


gege.]
28. No adjetivo verbal o tom da llegunda ll!laba ditere do da primeira.
29. "Click" inieial (pAg. 61, Dota" 16) omitido.
.30. Ungua india de NevadL
31. Lingua india de OregoDo
32. Nlo 6 improvbel, entretanto, que eew &1tem1nclu .ejam primordial-
mente de natureu. t4nlet. (altura).
5. A Forma na Linguagem:
Os Conceitos Gramaticais

Vimos que o \'ocábulo isolado exprime um conceito simples ou uma


combina<,:ão de conceitos tão intrincados que constituem uma unidade
psicol6gica. Examinamos rapidamente, além disso, sob um aspecto estri-
tamente formal, os principais processos que são usados em todas as lin.
gURS conhecidas com O fim de submeter os conceitos fundamentais, -
aqueles que estão corporificados .nos vocábulos inanalisá\'cis ou nos ra~
dicais de um vocábulo -, à influência modificadora ou formativa dos
conceitos subsidiários.
Neste capitulo, olharemos mais de perto para a natureza do mundo
dos conceitos, na medida em que esse mundo se reflete e sistematiza na
estrutura lingüística.
Comecemos com uma sentcn<.:a simples inglesa que inclui vários ti.
pos de conceitos - the {armer kills the duckling.
Uma análise perfunctória revela aqui a presença de três conceitoi
distintos e fundamentais relacionados entre si por uma porção de ma-
neiras. São eles: {armer ["lavrador"]' sujeito do discurso i k'ill [ljmatar",
na 3.' pessoa do presente Hmata"]' que define a natureza da atividade
a que a sentença se referej e duklillg [duck, Hpato", e o sufixo dimi-
nutivo -Ung, p.ara indicar um j'filhote de pato"]. outro sujeito do dis-
cursai que toma parte importante, embora um tanto passiva, nessa ati.
vidade. Podemos ter uma ,'isão do lavrador {farmer] e do animal [duck-
ling] e construir sem dificuldade uma imagem do ato praticado [killing].
Em outros termos os elementos {armer, kill e duckling definem conceitos
de ordem concreta .
.Análise lingüística mais cuidadosa, porém, mostra-nos logo que os
dois sujeitos do discurso, por mais singela que seja a nossa visão mental
a respeito, não estão expressos da maneira direta E' imL"<!iatapor que no.'i
impressionam. Farmer é em eerto sentido um conceito perfeitamente
unificado, em outro' sentido é "aquele que lavra (farm, verbo "lavrar"].
O conceito transmitido pelo radical (farm-) não é absolutamente um con-
ceito de pe.rsonalidade, mas de atividade industrial (to {arm), que parte
por sua vez do conceito de um tipo particular do objeto (a {arm) [isto
72 A UNGUAGEM

ê, em inglês, o substantivo de coisa farm, "herdade, fazenda", determinou


a formação de um verbo to farm, de que saiu por sua vez o substantivo
de pessoa farmer expresso no exemplo]. Da mesma sorte, o conceito de
duckling está em posição ulterior à do conceito expresso.pelo radical d1LCk.
Este, que pode figurar como vocábulo independente, refere-se a toda
uma classe de animais, grandes e pequenos, ao passo que duckling está
limitado na sua aplicação. aos filhotes dessa classe. O vocábulo farmer
tem um sufixo "agentivo" -er, ao qual cabe a função de indicar a pes-
soa que realiza uma dada atividade [como em porto "-dor" de '1avrador",
por exemplo, que é "aquele que lavra"}. Tal sufixo transforma o ver-
bo to farm num nome agcntivo, precisamente como transforma os verbM
to sing, to paint, to teach [((cantar", "pintar''. uensinar", ou seja, flJ~
fessar"] nos nomes agentivos correspondentes singer, painter, teacher
[porto ffcantor'\ upintor", uprofessor"p. O elemento -ling não apresen-
h' um uso igualmente amplo, mas a ~a significação é 6b,il'.: Acrescenta
ao conceito básico a noção de pequenez (como ainda em gosling e fled-
yeling) ou a noç~o correlata de ffmesquinhez desprezível" (como em
weakling, princeling, hireling). Tanto o agentivo -er quanto o diminu~
tivo -ling transmitem idéias nitidamente concretas (de uma maneira ge_
raI as de upessoa que faz" e Upequeno")j mas esse caráter concreto não
fica bem acentuado. O papel dos dois sufixos não é tanto definir con-
ceitos distintos quanto servir de elemento intermediário entre certos
conceitos. O -er de farmer não diz pràpriamente uaquêle que (farms)"j
indica apenas que a esp~ie 'de pessoa a que chamamos {armer está
tão associada às atividades da lavoura que pode ser convencionalmente
I
concebida como sempre ocupada nessas atiddades. Evidentemente, irá
à cidade e tratará de atividades muito outraS, mas sempre com a pape-
leta lingülstíca de {armer.
A linguagem revela nisto certa incapacidade, ou se quiserem, certa
tendência rígida a olhar muito além da função imediatamente sugeri-
da, confiando em que a imaginação e a força do hábito bastam para
preencher as transições de pensamento e os detalhes de aplicaç.ã.oque
distinguem do conceito concreto (to farm) um ~seu conceito "derivado".
(farmer). Seria, com efeito, impossível a qualquer língua exprimir
eada idéia concreta por um radical ou por uma palavra independente.
O que há de concreto na experiência é infinito i os recursos da língua
mais rica são estritamente limitados. A lingua tem, pois, for.;osamente
de jogar inúmeros conceitos debaixo da rubrica de certos' conceitos bá-
sicos, servindo-se de outras idéias concretas ou semiconcretas como in~r- .
m~iários funcionais. As idéias pxpressas por ('sc elementos intermediá-
rios, - os quais podem ser vocábulos independentes, afixos ou modifica-
ções do radical -, podem ser chamadas uderivadas" ou f'qualificativas".
Alguns conceitos concretos, como kill, são expressos por um radical; ou.
tro..••, como {armer e duckling, por um meio derivado.
Em correspondência a esses dois modos de expressão há, dois tipos
de conceitos e de elementos lingüísticos, um radical ({arm, kill, duck) e
outro derivado (-er, .lin9). Quando um V"ocábulo(ou um grupo unifica,-
do de vocábulos) contém um elementó (ou um vocábulo) derivado, a
significação concreta do radical (farm., ;Juck-) tende a esvair-se da cons-
ciência e a deixar-se substituir por um novo valor concreto (farnler
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 73

duckling), que é antes sintético na expressão do que propriamente na:


idéia. Na nossa sentença, por exemplo, não entram a rigor os. concei-
tos de fa~ e duckj ficam meramente latentes 1 por motivos formais., na
expressão lingüística.
Voltando à sentença, sentimos que a análise de [armer e du.ckling
não interessa praticamente à compreensão do seu conteúdo e não inte-
ressa absolutamente à percepção da sua estrutura global. Partindo-se da.
sentença, os elemento!! derivados -er e .ling são apenas detalhes da ec0-
nomia local de dois de seus têrmos (farmer e duckling) por ela aceitos
c:omo unidades de expressão.
Evidencia-se essa indiferença da sentença, romo. tal, a uma parte
da análise dos seus vocábulos com 'substituirmOH a' farmer e duckling v().
r.ábulos radicais como man ["homem"] e chic,k ["pinto"], obtendo novo
conteúdo material, é certo, mas não absolutamente novo molde estrutural.
Podemos ir além e substituir outra atividade à de matar, a de "segu4
rar" d~gamos [inglês. to lake]. A nova senten~a lhe man takes the chick,
é totalmente diversa da primeira quanto ao assunto mas não quanto à
maneira de tratá.lo. Sentimos instintivamente, sem a mais leve tentativa
de análise consciente, que as duas senten~as adotam precisamente o
mesmo padrão, que são na realidade uma mesma séntença fundamental,
diferindo apenas pelo revestimento material. Em outros termos, expri.
mem de maneira idêntica idênticos conceitos de relação. A maneira fo,
por assim dizer, tríplice - o uso de um vocábulo inerentemente rela.
ciona! (lhe) [artigo definido] em posições análogas; a oeqüência aná.
Ioga (sujeito, predicado constituído de verbo e objeto) dos termos con-
cretos da sentença; e o uso no verbo" do elemento sufixado -s [desinên-
cia do indicativo presente da 3.' pessoa singular].
Mude-se um desses caracteres da senten~a e ela fica modificada,
leve ou profundamente, sob o seu aspecto puramente relacional, não-
material. Se omitir~se the (farmer b'lls duckling, man takes chick)
ela toma-se impossível; não entra num padrão formal reconhecido e os
dois sujeitos do discurso parecem incompletos, suspensos no vácuo. Sen-
timos, que não há relação estabelecida entre eles, relação essa que já
está prevista na mente de quem fara e quem ouve. Assim que othe li
anteposto aos dois nomes, sentimos um alivio. Ficamos sabendo que. o
lavrador e a ave de que nos fala a sentença, são o mesmo lavrador e a
mesma ave, a que nos referíamos, ou de que ouvíamos referência, ou \!m
que pensávamos, momentos antes. Se eu encontrar um homem que não
está cogitando e nada sabe do citado lavrador, defrontarei provavelme~te
com um olhar .de pasmo por toda r.esposta, ao lhe. comunicar que "the
farmer C'quem é eleT") kills lhe duckling ("não sabia que ele tinha um,
I'Icja ele lá quem fôr"). Se, não obstante, o fato me parecer digno de ser
comunicado, serei forçado a falar de "a farmer up my way'" ["um la-
vrador lá das minhas bandas"] e de a duckling of his ["uni patinho
seu"l. :Esses vocabulozinhos, the e a, [artigos "0" e "um"] têm a impor4
tante função de estabelecer ama referência definida ou indefinida.
Orrdtindo o primeiro th€ e abandonando concomitantemente o .$
~ufixaJo, obtenho um tipo inteiramente novo de relações. Farmer,
km the duckling implica que me estoc dirigindo a um lavrador, não
74 A LINGUAGEM

apenas falando dele i e, além disso, que ele não está matando a ave, mas
recebendo uma ordem minha neste sentido. A relação subjetiva que ha.
,\;8 na primeira sentença, tornou.se uma relação vocatiV8j e a 8tÍ\'i-
dade passa a ser concebida em termos imperativos e não indicativos.
Concluímos, 'portanto, que se o lavrador deve scr apenas uma pes-
soa de quem se fala, o artigo tem de voltar ao seu lugar e o -$ não deve
ser Bupresso.. Este último elemento claramente define, ou antes, auxilia
a definir uma sentença enuneiativa em contraste com uma ordem.
Verifico, além disso, que, se quiser falar de vários lavradores, núo
poderei dizer - the farmers kills lhe duckling, mas sim _ the fanners
kill the duckling. Evidentemente, pois, o -$ pressupõe a singularidade
do sujeito. Se o nome é singular, o verbo tem uma forma que lhe corres-
ponde, e tem outra, se o nome é pluraP. A comparação com fonnas
como I kill [I.> pessoa do singular] e you kill [2.' pessoa do plural] mos-
tra, a mais, que o -s tem exclusiva referência a uma pessoa outra que
não aquela que fala ou "aquela com que se fala. Concluímos, pois, que
conota aí uma relação pessoal, ao mesmo tempo que uma noção de sino
gularidade. E a comparação com uma frase como - The farmer killed
{pretéritoj porto "matou"] the duckli.ng indica haver ainda neste sobre4
carregadissimo -s a designação nítida do tempo presente.
O caráter indicativo da sentença e a referência de pessoa podem ser
considerados conceitos inerentes de relação. O número é evidentemente
sentido pelos que falam inglês como uma relação necessária, pois, do con-
trário não hayeria razão para exprimir-se duas vezes o conceito _ uma
vez no nome, outra vez no verbo. O tempo também é claramentCl senti-
do como conceito de relaçãoj se o não fosse, poder-sc-ia dizer lhe farmer
killed-s para corresponder a - the farmer kills.
Dos quatro conceitos inextricavelmente entrelaçados no sufixo os,
todos são sentidos, pois, como conceitos de relação, sendo que dois t~m
o caráter de relação necessária. A distinção entre um verdadeiro con-
ceito de relação e um que é apenas sentido e tratado como tal, sem que
seja parte intrínseca da natureza das coisas, merecerá maior aten~iio
. nossa daqui a um momento.

Finalmente, é-me possivel modificar radicalmente o contorno rela.


cional da sentença com alterar a ordem dos seus elementos. Se forem
trocadas as pOEliçõe8 de farmer e kills, a sentença ficará - kil13 the farmer
the ducklin.g, o que é muito naturalm,ente interpretado como uma ma-
neira insólita, mas não ininteligível, de fazer a pergunta - does the far-
flter kill the duckling'~. Nesta. nova sentença, não se concebe o ato co-
mo necessariamente em. realização. Pode, ou não, estar-se passando esse
ato, ficando apens."l pressuposto que a pessoa que fala quer saber a ver-
dade c acha que pode ter informação da pessoa com quem fala. A sen-
tençA interrogativa possui uma "modalidade" inteiramente diversa da
declarativa, e pressupõe uma atitude nitidamente diversa da parte de .
quem fala para quem ouve.
Haverá mudança ainda mais notável nas relações pessoais, se tro-
carmos a posi~ão de {armer e du<:kling. The duckling k111sthe farmer en-
volve precisame~te os mesmos sujeitos do discurso e o mesmo tipo de ati-
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 75

vidade que a nossa primeira sentença, mas os papéis estão invertidos.


A ave vingou-se do qomem, e~mo o verme do provérbio, ou, para usarmos
a terminologia gramatic8.1, o que era "sujeito" é agora Hobjeto", e o
que era objeto. é ag<>rasujeito.
O quadro infra analisa a sentença do ponto de vista dos eoncei:'
tos nela expressos c dos processos gramaticais utilizados para tal ex-
pressão:
I. Ccm.ceilol Concretos:
1. Primeiro sujeito do discurso: farmer.
2: Segundo sujeito do discurso: duckling.
3. Atividade: kil!.
--- analisáveis em:
A. Comeitos Radicais:
1. Verbo: (to) farm.
2. Nome: duck.
3. Verbo: kill.
_B. Cm1ceitos Derivados:
1. Agentivo: e::tpresso pelo sufixo -er.
2. Diminutivo: expresso pelo sufixo -ling.

11. Conceitos de Relação


Referência:
1. Referência definida quanto ao primeiro sujeito do discur-
so: expresso pelo primeiro the, que tem posição prepositiva.
2. Referência definida quanto ao segundo sujeito do discur~
80:expresso pelo segundo the, que tem posi~ão prepositiva.

Modalidade:
3. Declarativa: expressa pela seqüência de suj~ito mais verbo;
e pressuposta pelo .$ sufixado.
Relações pessoais:
4. Subjetividade de farmer: expressa pela anteposição de far-
mer a kills e pelo .s sufixado.
5. Objetividade de duckling: expressa pela posp08içiio de duc-
kling a kills.
Número:
6. Singularidade do primeiro sujeito dt! discurso: expresso pela
ausência de sufixo de plural em farmer; e pelo sufixo .$ no
verbo seguinte.
7. Singularidade do segundo sujeito do discurso: expresso pela
ausência do sufixo do plural em duckling. .,
76 A LINGUAGEM

Tempo:
8. Presente: expresso pela ausência de sufixo' de pre~rito no
verbo; e pelo -8 sufi.udo.

Nesta curta sentença de cinco vocábulos, estão expressos, portanto,


treze conceitos distin~ três dos quais radicais e concretos, dois deriva.
dos e oito de relação.
Talvez o "mais notável resultado da análise seja a prova, mais uma
vez obtida, da curiosa falta de correspondência em nossa língua entre
a função e a forma. O método de sufixação é usado tanto DOS elemen-
tos derivados como DOS de relaçãoj vocábulos independentes ou radicali
exprimem tanto idéias concretas (objetos, atividades, qualid8.des) carol,)
idéias de relação (artigos the e aJ vocábulos que definem relações de lu-
gar como in, on, at) [cf. em português os artigos 'jo'~e <Jum", e as pre-
posições."em", "sobre", "a"]; um mesmo conceito de relação pode ser
expresso mais de uma vez (assim, a singularidade de fanner é expres-
sa negativamente no nome e positivamente no. verbo); e um elemento
pode conter um grupo de conceitos intrincados em vez de um só concei-
to deCinido (as8im, o -s de kills enearna nada menos que quatro rela~ões
que logicamente são independentes entre s~).
A nossa análise poderá parecer um tanto elaborada; apenas, porém,
porque estamos tão habituados aos nossos conheeidiss.imoscanais de ex-
pressão que eles chegam a se nos apresentar como inevitáveis.
Ora, a análise destrutiva do que é familiar, vem a ser o único mé-
todo para chegannos a compreender modos fundamentalmente diferen-
tes de expressão. Perceber o que há de fortuito, de ilógico, de desequili-
brado na estrutura da língua nativa, é meio caminho andado para sen-
tir e apreender a expressão' das várias classes de conceitos em tipos de
fala estranha. Nem tudo que é "extranacional" é intrmsecamente de na-
tureza ilógica e complexamente forçada. Não raro, é precisamente aquilo
que n06 é familiar, que perspectiva mais ampla revela ser curiosamente
esporádico.
De um porito de ,,;sta puramente lógico, é óbvio que não há uma
ràwo inerente para explicar por que os conceitos expressos na nossa sen-
tença de há pouco estão considerados, tratados e agrupados da maneira
que vimos. Tal ~ntença é antes o produto de forças psicológicas, histó-
ricas e irrefletidas, do que uma síntese lógica de elementos nitidamente
apreendidos na sua -individualidade.
~ o que se verifica, em maior ou menor grau, em todas as línguas,
se bem que nas formas de muitas delas se nos depare, melhor do que nas
nossas formas inglêsas, um reflexo mais coerente e consistente daquela
análise, orientada para os conceitos individualizados, que nunca está in-
teiramente ausente da linguagem, embora complicada e sobrecarregada
com fatores mais irracionais.

Exame perfunctório de outras línguas, proxlmas e remotas, mostrar-


nos-ia bem depressa que alguns ou tOOosos treze conceitoe que sucedo
figurarem na nossa scnten~a de há pouco, podem não só ser expressos
sob forma dif~rentc como ficar diferentemente agrupados entre si; que
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 77

alguns deles podem ser postos de lado; e que outros conceitos, que não
forani leyados em consideração na construção inglesa, podem passar a
ser tratados como absolutamente indispensáveia à inteligibilidade da pro-
posição.
Consideremos primeiramente a possibilidade de um tratamento di.
verso para os conceitos ineluídos na sentença. inglesa.

Se nos voltarmos para o alemão, verificaremos que, na sentença equi-


valent€:' (Der Bauer totet das E-ntelein), o definido. da referência ex-
pressado pela partícula inglesa the está inevitavelmente combinado com
três outros conceitos - núIt;lero (tanto der como das são explIcitamente
singulares), caso (der é súbjetivoj da..Jé subjetivo ou objetivo, logo Por
eliminação, é aqui objetivo), e gênero, novo conceito de ordem relaciona!
llue neste caso não está explicitamente, pressuposto em inglês (der é mas-
culino, das é neutro). Aliás, a tarefa principal de exprimir o caso, o nú-
mero e o gênero cabe em alemão mais propriamente às partfcwa.s de re.
ferência do que às palavras que traduzem os conceitos concreÚ)S(Bauer,
Entelein) e das quais esses conceitos de relação devem logicamente de.
pender. Também na esfera doa conceitos concretos é digno de nota que
o alemão cinde a idéia de "matar" no conceito básico de morto" (tot)
II

e no conceito derivado de "fazer que seja isto ou aquilo" (pelo .método


da mutação vocálica, tõt-) .[0 treroado indica a vogal eu, do francês}eu,
por exemplo, resultante em alem.ãode"uma evolução do o de tot] j ,o al~
mão tõtet (anallticamente, tot + mutação vocálica + et), 'lfaz que
seja morto" é, aproximadamente, o equivalente formal do, n()&CK) de4d-en-s,
embora a aplicação idiomática desta última palavra seja outra, [~ d~
l'ivado de dead "morto", como o porto "amortecer", e, como este, só de
aplicação secundáriaD].
Podemos fazer maior digressão e lançar os olhos para o método de
expressão em yana. ~m tradução literal o equivalente yana da nossa
sentem;ll de há pouco serã qualquer coisa como - mata ele lavrador-
II

ele a patinho", em que uele" e lia" são grosseiras llproximações - de


um pronome geral da terceira pessoa para .qualquer gênero e número,
e de uma partfcula objetiva que indica que o nome seguinte se' prende
ao verbo em função outra que não a de sujeito. O elemento sufixado
em "mat-a" (ou, em inglês, kiU-s] corresponde ao nosso sufixo, salvo
em dois pontos importantes: não acarreta referência ao número do su-
jeito e esclarece que se trata de um fato verídico, sob a garantia da pes-
soa que fala. O número só fica, indiretamentc, expresso em virtude da
ausência do sufixo verbal especifico, que indicaria a pluralidade do su-
jeito, e dos elementos específicos do plural para os dois nomes. Se a afir-
mac;.ãotivesse sido feita sob a garantia de uma terceira pessoa, teria de
ser tLo;adoum sufixo temporal-modal completamente diverso. Os pronO:
mes de referência ("ele") nada dizem quanto ao número, gênero e caso.
.Aliás, o gênero falta completamente.ao yana como categoria de relação.
A sentença yana já mostra, por conseguintc, que se pode fazer abs-
tração de alguns dos nossos conceitos supostamente essenciais; e tanto
a sentença yana quanto a 'alemã mostram, a mais, que se pode sentir a
necessidade de expressar certos ('onceitos, que os homens de língua in-
glesa, ou antes os hábitos da lingua inglesa, não têm na mínima conta.
78 A LINGUAGEM

~ possível prosseguir e ir dando novos e inumeráveis exemplos de


divergência com a forma inglesa. mas temos de nos contentar com mai,
algum •• ilUBtrações ap"n ••.
Na sentença chin ••• - Man kiU duck, que 'pode ser 'considerada equi-
,'alente prático de TIt. man kilZ, flt. duck, não hã, para a consei@ncia
chinesa, a sensação de infantilidade, hesitação e deficiência, que experi.
mentamos diante da correspondente tradução literal. Cada um dos tr@s
e
conceitos.concretos, - dois seres uma ação -, 6 diretamente expresso
por um -vocábulo monossilábico, que é ao mesmo tempo um mera radical;
os dois conceitos de relação, - sujeito e objeto -, são' unicamente ex.
pressos pela posição das .palavras que designam os seres antes e depoiog
da palavra' que designa a ação, E é tudo. Noção de defiuido ou indefi.
nido, número, personalidade como aspecto inerente do verbo e tempo, sem
falar em gênero, - tudo isto não recebe expressão na sentença chinesa,
que, não obstante, é uma comunicação verbal perfeitamente adequada,
desde que haja, bem entendido, aquele contexto, aquele fundo de qua-
dró de compreensão mútua, essencial à completa inteligibilidáde da lin-
guagem. Nem esta ressalva prejudica o argumento, pois também na sen-
ten~a inglesa deixamos sem expressão grande número de idéias, das quais
umas estão implicit&lr.cnte~ccitas, e outras foram desenvolvidas, ou vão
sê-lo, no curso da conversação. Nada se disse, por exemplo, nas senten-
ças ingllsa, 'alemã, yana e chinesa, a respeito das relações de lugar en-
tre o lavrador, o pato e das dos interlocutores.~om eles ou entre si. Será
que o lavrador e o pato estão ambos, ou está um .ou outro, fora da vista
da pessoa que fala, ou dentro de âmbito visual dela ou de quem ouve, ou
ainda são vistos de um terceiro ponto de referência "acolá'" Em outros
termos, parafra.seando-se grosseiramente certas idéias "demonstrativas"
latentes, esse lavrador (invisivel para nós, mas posto atrás de uma
porta não longe de mim, estandó tu sentado acolá fora 'de alcance) mata
aquele pato (que te pertence)! ou aquele lavrador (que vive na ,tua
vizinhança e que estamos vendo acolá) mata aquele pato (que lhe per~
tence) I Esse tipo de frase elabOradamente demoUBtrativo é estranho à
nossa maneira de pensar, 'mas 'pareceria naturalíssimo, quiçá inevitável,
a um índio kwakiut!,
Quais são, então, os. conceitos absolutamente essenciais na fala, o~
conceitos que têm de ser forçosamente expreSSOB para que a linguagem
seja um meio satisfatório de comunicação'
:e claro que temos de ter, antes de tudo, um bloco de conceitos bási-
cos ou radicais, o assunto concreto da fala. Temos de ter objeto~, a~;
qualidades para conversar a respeito, e tudo isso tem de ter simbolÕ8
correspondentes que sejam vocábulos independentes ou radicais. Nenhum's,.
proposição, por mais abstrato que seja o seu intuito, é humanamente
possível sem um ou mais pontos de contacto com o mundo 'conçreto dos
sentidos. Em toda proposição inteligivel, têm de ser expressas duas, pelo
menos, de..'lS8sidéias radicais, embora em casos excepcionais uma, ou até
uma e outra, fique pressuposta no contexto.

E, em segundo lugar, têm de ser expressos conceitos de relação tais


que os conceitos concretos fiquem enlaçados entre si, construindo uma
forma definida e fundamental de proposição, onde não deve haver qual-
os CONCEITOS GRAMATICAIS 79

quer dúvida a respeito da natureza das relações existentes entre os con-


ceitos concretos. Temos de saber qual deles estA direta ou indiretamen.
te relacionado ao outro, e como o esta. Se queremos falar de uma coisa
e de uma açio, temos de saber se estão coordenados entre si (e. g. uele
gosta do vin.ho e do jogo"); ou se a coisa está. concebida como o pento
de partida, o "agente" da a~ão, ou seja em linguagem usúaI como "sujeito",
a que a ação está p:.-cdicada, ou se, 80 contrArio, é o ponto final, o Uobje.
to" da ação.
Se qu~ro comunicar urna idéia inteligível acêrca de um lavrador,
um pato e a ação de matar, não ê suficiente apresentar os respectivos
símbolos lingüísticos à t08, em qualquer ordem, confiado em que a pes-
soa que me ouve, tire uma espécie de norma de relação dentre as pos-
sibilidades gerais do caso.
AJj relações sintáticas fundamentais precisam de ser expressas sem
ambigüidade.
Posso permitir-me guardar silêncio a propósito do tempo, do lugar,
do número e de muitos outros tipos de conceitos, mas não posso fugir
de poaitivar quem estA pratieando o ato. Não há nenhuma língua conhe-
cida que possa ou tente fugir a isto, da mesma sorte que nenhuma logra-
ria enuneiar qualquer eoisa sem o emprego de sfmbolos para os con-
eeitos coneretos.
Temos, 86Sim, mais uma vez diante de nós a distinção entre os con-
ceitos esseneiais ou inevitáveis, e os que são dispensáveis. Os primei~
são universalmente expressoSj os últimos são parcimoniosamente desen-
volvidos em algumas Hnguas, e, em outras, elaborados com exuberância
pasmosa.
Mas que nos impede de lam~ar esses conceitos de relação, "secundá.
rios" "dispensáveis", no grupo amplo e flutuante dos conceitos derivados
ou qualificativos, de que já, há pouco, tratamos!
Haverá, afinal de contas, uma diferença fundamental entre um eon-
ceito qualificativo como a negação em unhealthy [prefixo Uft-, como flin"
do português uinsalubre"] e uma relação como a de número de boob
[ou em porto ''livros'']! Se unhealthy pode ser aproximadamente para-
fraseado por not healthy [porto "não salubre"), não será igualmente le-
gítimo, com certa violência embora ao gênio da ]fngua, parafrasear book.,
por severa! book [ou, em português, "muito livro]' Com efeito, há !tn-
guas em que o plural, quando chega a Ber expresso, é coneebido no mes-
~o espírito moderado, restrito, quase poderíamos dizer acidental, com
que sentimos a negação em unhealthll. Para tais !tnguas, o conceito de
.' .número não tem a menor significação sintática, não é essencialmente tra-
tado como expressão de uma relação, mas entra no grupo dos conceitos
derivados, ou até no dos conceitos básicos. Entretanto, em inglês, como
em francês, em alemão, em latim, em grego, - em todas as línguas en-
fim com que estamos familiarizados, - a idéia de número não fica ape-
nas apensa a um dado conceito de coisa. Pode ter de certo modo êsse
valor meramente qualificativo, mas a sua força estende.se muito além.
Propaga-se 8 muitos outros pontos da sentenc;:a, modelando outros con-
ceitos, até" aqueles que não têm relação inteligível com o número, para
80 A LINGUAGEM

dar-lhes formas que se dizem em correspondência ou "concordância" com


o conceito básico que a ela se adaptou em primeiro lugar.
Se em inglês a man fal18 [eom o -$ da 3.• pessoa do singular) mas
- men falI", não é porque tenha havido uma modificação esSencial na
U

natureza da ação, ou porque a idéia de plural inerente em "men" [plu-


ral de man, uhomem"] deva, pela própria natureza das idéias, referir~
se também à aÇão por eles realizada.

o que estamos fazendo em tais sentenças é o que a maioria das Hn~


guas, em maior ou menor grau, e de cem maneiras diversas. está no há.
bito de fazer, - lançando uma ponte ousada entre dois tipos de concei.
tos fundamentalmente distintos, o concreto e o de relação abstrata, in.
cutindo no último, por assim dizer, a cor e a densidade do primeiro. Por
uma espécie de metáfora violenta, o conceito material é 'obrigado a subs-
tituir.se (ou entrelaçar.sc) ao estritamente relacional.

o caso ainda será mais evidente, se trouxermos à balha o gênero.


Nas duas frases inglesas The white woman that comes e The white
men that come nada nos diz que o gênero, tanto quanto o número, pos-
sa ser elevado a um conceito secundário de relação. Parece à primeira
vista qualquer coisa de artificial e for~ado fazer da masculinidade e da
feminilidade, conceitos materiais crassos, e filosoficamente acidentais
(como são), um meio de relacionar uma qualidade a uma pessoa ou uma
pessoa a uma ação; nem nos ocorreria facilmente, se não tivéssemos es.
tudado os clássicos, que se pudesse ir ao absurdo de inocular em dois
conceitos de relação tão sutis como Hthe" e "that" [artigo e pronome re-
lativo] as noções combinadas de número e sexo.

Entretanto, tudo isso, e mais ainda, acontece em latim. 11Ia alba te.
mina quae venit e illi albi homin.es qui veniunt, traduzidos conceptual.
mente, correspondem ao seguinte: aquêle - um - feminino - agente'
- um - feminino - branco - agente feminino - fazer _ um - mu.
l1ter que - um - feminino - agente outro 8 - um _ agora _ vir
fi. e. cada palavra latina desdobra-se num nome radical somado a con-
ceitos de unidade, feminino, agente, atualidade, 3.• pessoa, etc.] j e aquele
- muito - m~ulino - agente muito - masculino - branco _ agen-
te masculino - fazer - muito - homem que _ muito _ masculino _
agente outro - muito - agora - vir [i. e. cada pala\'ra latina desdo-
bra-se num nome radical somado aos conceitos de masculino, de plurali.
dade, agente, atualidade, 3.• pessoa]. Cada yocábulo implica nada menos
do que quatro conceito.~:um conceito radical (quer concreto propriamen-
te dito - branco, homem, mulher, vir, quer demonstrativo.- aquele,
que) e três conceitos relacionais tirados das categorias do caso, número,
gênero, pessoa e tempo. Logicamente, apenas o caso' (relação de mulher
ou homem com o verbo seguinte, de que com o seu antecedente, de aquêle
e branco com mulher e homens e de que com vir) exige imperativamen-
te expressão, e isso apenas em conexão com os conceitos diretamente atin-
gidos (não há, por exemplo, necessidade de informar que a brancura é
uma brancura de agente)1°. Dos outros conceitos relaeionais alguns são
A\ v I./> clt.:r juJzv> ~l 'I.c ...•..
os CONCEITOS GRAMATICAIS 81

meramente parasitos (o gênero em todas as circunstâncias; o número no


demonstrativo, no adjetivo, no relativo e no verbo), outros sãO sem im.
portância para a forma sintática essencial da sentença (número no nomej
pessoa; tempo).
Um chinês inteligente e sutil. habituado como está a ir diretamente
ao âmago da forma lingüística, exclamará diante da sentença latina:
uQuanta criação pedantescal" - Ser-lhe-á difícil, defrontando pela pri-
meira 'Çezas complexidades ilógicas das nossas línguas européias, sentir.
Re à vontade numa atitude que de tal modo confunde o assunto da lin-
guagem com O seu padrão formal, ou, para expriminno-nos com mais
exatidão, que aplica certos conceitos fundamentalmente concretos a usos
de tão atenuada relação.
Exagerei algum tanto o que há de concreto no aspecto subsidiário,
ou melhor, não-sintático, dos nossos conceitos de relação, para que se
depreendessem os fatos esseneiais com apreciável relevo.
Inútil é dizer que um francês não tem no cérebro uma nftida noção
de sexo quando fala de un arbre (em inglês a - masculino tree) ou de
une pomme (a - feminino apple). Nem temos nós outros ingleses, di-
gam o que disserem os gramáticos, uma impressão muito viva' do tempo
presente, em contraste com todo o passado e todo o futuro, quando dize-
mos He comes [cf. em português, "ele chega"] 11. ~ o que se vê clara-
mente com o uso do presente para indicar não s6 o futuro (H e comes
to-morrow) [em português, uele chega amanhã"] mas também a ativi-
dade geral dissociada da especificação do tempo (Whenever he comes,
I am glad to see him) [ou, em português - "Sempre que ele chega,
alegro-me dc vê-Io") onde o verbo se refere mais a ocorrências passadas
e posuvelmente futuras, do que à atividade presente.
Tanto em francês comõ em inglês, nos exemplos dados, a~ idéias
primordiais de sexo e tempo diluiram-se, portanto, em virtude da analo-
gia formal e das extensões de sua aplicação ao ümbito das relações gra-
maticais, ficando tão vagamente definidos os conceitos ostensivamente
indicados que é mais pela tirania do uso do que pelas necessidades da
expressão concreta que se nos impõe a seleção desta ou daquela forma.
Se esse processo de esgarçamento conceptual continuar a fazer-se, pode-
remos aeabar por ter nas mãos um sistema de formas, donde se terá
esvafdo toda a cor de "ida e que apenas persistirá por inércia, duplican-
do-se-Ihes as funçWs sintáticas secundárias com prodigalidade sem fim.
Daí, em parte, os complexos sistemas de conjugação de tantas lin.
guas, nos quais diferenças de forma não se ,fazem acompanhar de consig-
náveis diferenças de função.
Deve ter havido uma época, por exemplo, embora anterior à mais
antiga evidência documental, em que o tipo de formação temporal re-
presentado por drove ou sank [pretéritos com apofonia de to drive,
"guiar", e to sink, "mergulhar"] diféria pelo sentido, num grau levémen-
te cambiante que fosse, do tipo (killtd, worked) [com o sufixo - ed).
que se firmou em inglês como a maneira predominante de formação do
pretérito; da mesma sorte que hoje ainda reconhecemos uma distinção
apreciável entre esses dois pretéritos, de um lado, e, de outro lado, o
"perfeito" (has driven, hiU killed) [formas compostas com o auxiliar
82 A LINGUAGEM

Mve, llter"), distinção que, por sua vez, poderá ter cessado numa deter.
minada fase vindoura da Ungua li,

A forma sobrevive ao seu conteúdo CODceptual. Uma e outro alte-


ram-se sem cessar; mas, de maneira geral, a forma tende a subsistir de-
pois de o espírito se ter esvaído ou mudado de corpo. Forma irracional,
forma por amor à forma - seja qual fôr o nome que se dê a esta ten.
déneis lingüistica de insistir em distinções formais pela simples razão
de que já estão constituídas - é tão natural na vida da lingu&gem,
como é, na vida social, a persistência de modos de conduta que perde-
ram há muito a 8ua razão de ser.
Há outra tendência poderosa para fa,orecer uma elaboração formal
que. já não corresponde estritamente a nítidas dif..,renças conceptuais.
:e a tendência a construir esquemas de classificação que enquadrem à
força todos os conceitos lingüísticos.
Uma vez convencidos de que todas as coisas são de maneira definida
ou boas, ou más, ou brancas, ou pretas, é dificil aceitarmos a atitude
mental que reconhece que cada coisa, de per si, pode ser a um tempo
boa e má (ou, em outros têrmos, indiferente" ou a um tempo preta e
branca (ou, em outros termos, parda); e ainda mais difícil é confor-
marma-.nos a admitir que as categorias do bom e do mau, ou do preto
e do branco, possam em certos casos ser inaplicáveis.
A linguagem, a muitos r~8peitos, é também caprichosa e renitente
em referência a suas classificações. Faz questão de ter lugares marea-
dos para tudo, e não tolera que nada fique de fora. Qualquer conceito
em demanda de expressão tem de submeter-se às regras classificat6rias
do jogo, à maneira desses inquéritos estatísticos em que o mais comicto
ateu tem de figurar como católico, protestante ou judeu para ser leva-
do em considera~o.

Em inglês partimos sempre da idéia de que toda ação tem de ser


concebida em ref~rência aos três tempos padrões. Se, portanto, deseja-
mos enunciar uma proposição \"erd.adeira para amanhã e para hoje, da-
mos de barato que o p'resente pode ser prolongari.o e às vezes de tal ma-
neira que abranja a etemidadeu. Em francês, sabemos uma \"ez' por
todas que todo ser é masculino ou feminino, seja animal ou coisaj da
mesma sorte que, em muitas línguas da América e da Ásia Oriental,
todos os seres pertencem por principio a ce~ categoria .formal (por
exemplo, em forma de anel, de bola, longo e delgado, cilíndrico, em
forma de lençol, em massa como açúcar) e como tais são enunciadOR
(e. g. duas batatas da cl~ das bolas, três tapetes da classe dos len-
çóis) ou, até, corno tais "existem" e são "manuseados em qualquer sen-
tido" (assim, nas Hnguas athabá.skan e em ynna, "carregar" ou Hjogar"
uma pedra é coisa muito diversa do que carregar ou jogar um toro,
tanto no âmbito lingüístico quanto no da nossa experiência muscular).
Exemplos desses podem ser multiplicados à vontade.
Dir-se--ia que, em ce~o período do passado, o espírito inconsciente
da raça fez insofridamente um inventário da sua experiência, se jWlgiU
a uma classificação prematura mas inapelável, e arreou os herdeiros da
língua com uma ciência que eles já não aceitam mas não têm a força
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 83

de destruir. Todo dogma, rigidamente prescrito pela tradição, ret '\S.-se


em formalismo. As categorias lingüísticas constituem um sistema de
dogmas remanescentes - os dogmas do Inconsciente. Como conceitos,
são, muitas vezes, apenas semi.reaisj a sua vida tende a .deperecer no
sentido da forma por amor à forma.
Há. ainda uma terceira causa para explicar a forma que não tem
significação, ou, antes, as diferenças de forma que não têm significação.
~ o trabalho mecânico dos processos fonéticos que pode determinar
distinções formais onde não há, e nunca houve, distinções funcionais.
Muitas das irregularidades e complexidades formais dos nossos sistemas
de declinação e conjugação são devidas a esse processo.
O plural de hat é hats, o plural de seI! é selves. No primeiro caso,
temos um simples legítimo .8 a simbolizar o pluralj no segundo caso,
ternos um z combinado com uma mudança, no radical, de f para v. Não
temos, portanto, aqui o caso de uma convergência de formas que origi-
nariamente exprimiam conceitos nItidamente distintos, - como vimos
que deve ter sucedido com as formas paralelas drove e worked -, mas
um desdobramento meramente mecânico 'do mesmo elemento formal sem
o corresponde~te dese'nvolvimento de um novo conceito.
Esse tipo de evolu~ão das formas, por conseguinte, sendo embora de
máximo interesse para a história geral da língua, está à margem do DOS-
00 escopo atual, qual o de compreender a natureza dos conceitos grama.
ticais e a sua tendência em dege~erar em fichas pura~ente formais.
Estamos agora em condições de rever a nossa primeira classifica.
ção dos conceitos totais como se exprimem na linguagem e sugerir o
esquema seguinte:

r. Conceitos (concretos) fundamentais (tais como objetos, ações,


qualidades) : normalmente expressos por vocábulos independentes ou ele.
mentos radic~aisj não implicam, como tais., relac:õcs H.
lI. Conceitos de derivaç.iio (menos concretos, em regra, do que 08
do n.9 I e mais do que 08 do n.9 III) : normalmente expressos pela afixa-
ção de elementos não. radicais aos elementos radicais ou por uma modifi.
cação interna destes últimosj diferem do tipo I porque definem idéiaR
que não interessam ao pensamento de conjunto da' proposição, mas dão
ao radical um incremento especial de significação e se acham inerente-
mente associados de modo especifico com os conceitos do tipo I 15.
lI!. Conceitos com:retos de relação (ainda mais abstratos; contudo,
não inteiramente desprovidos de qualquer coisa de concreto): normal.
mente expressos por afixação de elementos não-radicais aos radicais, mas
geralmente mais afastados destes últimos do que sucede com os elemen~
tos do tipo lI, ou por modificac:ão interna dos radicais; diferem funda-
mentalmente do tipo lI, porque indicam ou implicam relac;:ãesque trans-
cendem ~o vocábulo particular a que estão imediatamente ligados,- assim
servindo de passagem para os seguintes:
IV. Com:eitos puros de relação (puramente abstratos): normal~
mente expressos pela afixaçüo de' elementos não-radicais aos radicais (em
cujas circunstâncias tais conceitos se apresentam freqüentemente entre-
84 A UNGUAGEM

laçados com oa do tipo IH), ou por modificação interna, por vocábulos


independentes, por posiçãoj destinam-se a relacionar entre si os elemen-
tos concretos da proposição, dando-lhe forma sintática definida.
A natureza dessas quatro classes de conceitos, no que se refere ao
seu valor concreto ou à sua faculdade de exprimir relações sintátieM,
pode simbolizar-se da seguinte maneira:

I. Conceitos Fundamentais.
Conteúdo Material ..... {
lI. Conceitos de Derivação.

Relação {m. Conceitos Concretos de Relação.

IV. Conceitos Puros de Rela~ão.


Não convém respeitar esses esquemas como a fetiches. Ao fazer uma
análise surgem freqüentemente problemas difíceis. e pode acontecer que se
hesite na maneira de agrupar um dado conjunto de conceitos. ~ especial-
mente o que s6i verificar-se com linguas exóticas, onde podemos ter, em.
bora, toda a segurança na nossa análise das palavras de uma sentença e,
contudo, não lograr adquirir esse "sentimento" íntimo da estrutura que
nos permite dizer infalivelmente aquilo que é "conteúdo material" e que
é "rela(lão".
Os conceitos da classe I são essenciais a qualquer língua, e bem assim
os da classe IV. Os conceitos 11 'e 111 são comuns mas não essenciais; es-
pecialmente o grupo 111, que representa, com efeito,' uma confusão psiccr
lógica e formal dos tipos H e IV ou doa tipos I e IV, é uma classe dia-
pe~vel de conceitos, Logicamente, há um abismo intrans.ponível entre os
n,OSI e IV, mas o gênio ilógico, metafórico da linguagem já tem sem
esfôrço coberto êsse abismo e estabelecido uma gama contínua de concei-
tos e fonnas, que nos conduz imperceptivelmente das materialidadetJ mais
cruas ("casa" ou "João Smith") às relações mais sutis.
:t:; particularmente digno de nota que a palavra independente inanali-
&Avelpertence na maioria dos casos ao grupo I ou ao grupo IV, e muito
menos a miúdo aos grupos 11 e III.
É possível a um conceito concreto, representado por um vocábulo
simples, perder inteiramente a sua significação material e passar dire.
tamente ao âmbito relacional sem perder concomitantemente a sua inde-
pendência vocabular. :t:; o que sucede, por exemplo, em chinês e cambod-
jiano quando o verbo "dar" é usado em sentido abstrato como simples
símbolo da relação "objetiva indireta" (e, g., cambodjiano l'Nós fizemos
história esta dar toda aquela pessoa que tem filho", i. e., "Fizemos. esta
história para toqos os que têm filhos"). '
Há também, é claro, não poucos casos de transição entre os gruPQ:!l
I e II e lU, bem como, já um tanto fora do âmbito dos radicais, entre
oa grupos II e IH.
Ao primeiro desses tipos de transição pertence toda a classe de
exemplos em que o vocábulo independente, depois de passar pela fase
preliminar em que funciona como elemento secundário ou qualificativo
de um composto, -acaba por tornar-se um afixo de derivação puro e sim-
OS CONCEITOS GRAMA TlCAlS 85

pies, sem contudo. perder a memória de sua antiga independência. Tal


elemento e conceito é /ull de teaspoonlull ri.
e., teo, "chá'" spoon, "C()o
1her", !ull, "eheia"j j/colherada" ou, "colher cheia de chá"], que psicolo-
~camente flutua entre o estado de conceito radical independente (com-
parar full. adjetivo) ou de elemento subsidiário de wn composto (cf.
brim-full) [brim, "borda"] e o de aimples: sufixo (er. dutiful) em que
já não se sente o seu antigo caráter concreto. [No último exemplo _ ful
é apenas um sufixo que deriva um adjetivo do substantivo duty. "dever".]
Em geral, quanto mais altamente sintético fôr o tipo lingüístico
considerado, mais difícil, e até arbitrário, será distinguir os grupos I e 11.
Não apenas se perde gradualmente a noção do concreto à medida
que se vai do grupo I ao IV i mas também esbate-se, em redução cons-
tante, o sentimento da realidade sensível dentro dos próprios grupos dos
conceitos lingüísticos. Em muitas línguas, por isso. torna-se quase ine';4
tável fazer várias subclassificações para segregar, por exemplo. os con4
ceitos mais concretos dos mais abstratos no grupo 11. Devemos, contudo,
ter sempre a preocupação de não incluir em tais grupos mais abstratos
êsse sentimento de relação, puramente formal, que mal podemos deixar
de associar com alguns dos conceitos mais abstratos que, entre nós, fi-
cam no grupo IH, a menos que haja indiscutível evidência a garantir
tal inclusão.
Um ou dois exemplos esclarecerão essas important£SSimas ressalvasu.
Em nutka, temos uma porção desusadamente grande de afixos d~
derivação (que exprimem conceitos do grupo lI). Alguns são de conteú-
do quase material (e. g., "na casa", "sonhar a respeito de"), outros, como
o elemento que indica a pluralidade ou um afixo diminutivo, são muito
mais abstratos no conteúdo. Aqueles. soldam-se mais Intimamente ao ra-
dicai do que estes, que só se podem sufixar a formações que já tenham
o valor de vocábulos completos.
Se, portanto, apraz-me dizer - 'lOS lumezinhos da casa" - o que
posso fazer numa só palavra -, tenho de formar a palavra "lume-em.
-casa", e aos seus elementos é que serão apensos os outros corresponden-
tes ao nosso - 41zinho", ao plural- e ao artigo. O elemento que es'tabelece
o sentido definido da referência, pressuposto no nosso artigo, vem no
fim de tudo_
Até ai. vai.se bem. "Fogo-em-casa-o" corresponde de maneira inte.-
ligível ao inglês the house-fire [com a anteposic;ão de house, "casa", a
{ire, "lume", para constituir um composto em que uhouse" tem fUnção
adjuntiva] u.
Mas com a noçiio diminutiva será o nutka correspondente ao inglês
- the house-firelets! 11 Absolutamente não.
Antes de tudo, o elemento plural precede o diminutivo em nutka:
"Iume-em-easa-plural-pequeno-o", ou, em outros termO$,. "casa-Iumes-xi-
nho", o que logo revela o importante fato que o conceito do plural não
é sentido tão abstrata e relacionalmente como em inglês. Interpretação
mais adequada seria the house-fire-several-let [cf. em porto "casa-Iume-
mllito-zinho") em que, entretanto, set1eral ainda é palavra muito forte,
-feL um elemento muito requintado (small, [porto "pequeno"] por outro
lado, sf'ria muito forte)1~.
86 AUNGUAGEM

Na realidade, não conseguimos trazer para nossa lfngua o valor ine.-


rente do vocábulo nutka, que parece flutuar eot.re Ifthe hOU8e~firelets" e
{tthe howe-{ire-stt.'eral-small".
O que, porém, mais que tudo, impede Qualquer possibilidade de com-
pnrst:iio entre o -8 inglês de hOUJe.{irelets (ou do porto lumezinhos] e o
several.small do vocábulo nut1(B, é o seguinte: em nutks, nem o plural
nem o afixo diminutivo correspondem ou se referem a outras partes da
sentença. Em inglês, the house-firelets "bum", e não Ifburns" (como
em porto "ardem" e não, uSl'de tl
em nutka, verbo, adjetivo, ou qualquer
);

outro elemento da sentença nada tem que ver com o caráter plural ou
diminutivo do lume. Por isso, embora o nutka reconheça uma demsTC8-
ção entre conceitos concretos e menos concretos no grupo lI, os menos
concretos não transcendem do grupo conduzindo-nos à atmosfera mais
abstrata a que nos transporta o nosso -8 do plural:
.Mas com tudo isso, objetará o leitor, já é alguma coisa que o afixo
de plural nutka se coloque à parte dos afixos mais concrctosj e acres-
cendo que talvez o diminutivo nutka tenha um conteúdo mais esgarçado
e fugidio do que o inglês -let ou ~ling ou o alemão -chen ou _lein20•
Posto isto, será. que um conceito como o da pluralidade poderá ja.
mais ser classificado entre os conceitos mais materiais do grupo In
Sem dúvida que pode.
Em yana, a terceira pessoa do verbo não faz distinção entre o sin-
gular e o plural. Não obstante, o eonceito do plúral pode ser expresso,
e quase sempre o é, pela sufixação de um elemento (-ba) ao radical do
verbo. 1t burn8 in the east [east, Uleste"] traduz-se pelo verbo ya--hau..81"21,
flburn-east-s" [i. e., o radical verbal+ leste + a desinência da 3.' pessoa.].
"They bum. in the east" [sujo pl. they, "êles"] êya.ba-hau..sil Note-se que
o afixo do plural imediatamente se segue ao radical (ya-), disjungindlHl
do elemento loca.tivo (.hau-).
Não é necessário grande gasto de argumentação para se provar que
o conceito de pluralidade ê aqui pouco' menos concreto que o de lugar
onde, lia leste", e que a forma yana ê sentida não tanto A maneira do
n0880 "They hum. in ihe east" (ardunt oriente) como A de "Burn-several-
-east-s, "uma coisa pluralmente arde a leste", frase que não conseguimOll
satisfatoriamente assimilar por falta de canais de expressão a~ropriados
onde ela em nossa !fngua possa insinuar-se.
8erá po;Wvel darmos um passo adiante e tratar a categoria de plu-
ralidade como idéia estritamente material, tal que fizesse de "livros"
um "plural livro", como o "branco" de lttivro branco" que ealha fran-
camente no grupo 17
Não é evidentemente o caso das nossas locuções "muitos livros", "vã..
rios livros". Ainda que disséssemos mony book ["muito livro"]; e "vário
livro" (como dizemos "many B book" e "cada livro"), o conceito do plural
~ão emergiria tão claramente como no novo caso que imaginamosj "muito" e
4'vário" estão contaminados por certas noções de quantidade gradativa
que não são essenciais à simples idéia da pluralidade.
Temos de voltar-n,os para a Ásia Central e Oriental em bUBC8do
tipo de expressão que procuramos.
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 87

Em tibetano, por exemplo, nga-s mi mth.ongU, ou "por homem vejo,


por mim um homem é 'visto, vejo um homem" pode igualmente significar
'lyejo homens", desde que não haja motivo especial para frisar melhor 11.
pluralidadeu. Se esta, porém, merece menção especial, é-me lícito dizer
ft{Ja-s mi rn.ams mthong,' "por mim homem-plural é visto", onde rna1nS
é a correspondência conceptual perfeita do -$ de "livros", despojado de
quaisquer elos de relação. Rnam.s segue-se 80 nome, como outro qual-
quer vocábulo atributivo - 'llomem plural" (dois. ou um milhão) à ma-
neira de ''homem branco". Não é preciso preocuparmo-nos com a plura-
lidade ou a brancura do ser expresso, desde que não nos interessa insis-
tir em tal atributo.
O que é verdade da idéia de pluralidade, é igualmente verdade de
um grande número de outros conceitos. Não pertencem necessariamente
aos pontos em que nós outros que falamos inglês, estamos habituados a
escaloná.IOs. Podem ser jogados para o grupo I ou para o grupo IV, os
d'ois pólos da expressão lingüística.
E não nos aventuremos a fazer pouco do fndio Rutka e do tibetano
por causa da sua atitude material em referência a conceitos que nos pa-
recem de relação abstrata, porque estaremos chamando sobre nós a cen-
sura dos franceses, os quais sentem uma sutileza de relação em femme
blanche e homme blanc que não encontram Das grosseiras frases inglesas
white woman e white mano O negro bântu, por sua vez, se fosse fil6s0fo,
iria além, e estranharia ver.nos, a todos, pôr no grupo II uma categoria,
8 doe diminutivos, que êle inilud'lvelmente sente pertencer ao grupo 111
e de que se serve, juntamente com outrOfJ conceitos class.ificat6rios u,
para relacionar sujeito e objeto, atributo e predicado, tal qual lidam
um russo ou um alemão com 08 seus três gêneros, ou, quiçá, com mahl
alta finura do que estes até.
:! justamente porque o nosso esquema dos conceitos é wnA QGCI\la
inclinada, mais do que propriamente umA. aná1i~J' £iloo6!lea da experiên-
cia, que não podemos dizer uma vez por todas a posição de um dadu
conceito.
Em outro;; tennos~ trInOS Q9 desistir de uma classificação bem orde-.
nada das categorins.
Que interessa colocar o tempo e o modo aqui, ou o número ali, se,
outra língua que logo se noa depara leva o tempo para um escaninho
abaixo (grupo I) e o modo e o número ptlra um escaninho acima (grupo
IV)!
Nem há maior vantagem num sumário desses no que tange 80 in-
ventArio geral dos grupos de conceitos pertencentes aos grupos 11, 111
e IV. As possibilidades são inúmeras.
Seria interessante mostrar quais os elementos mais típicos de for-
mação nominal e verbal do grupo lI; como varia a classificação dos
nomes (pelo gênero - pessoais e impessoais, animados e inanimados;
pela forma - comuns e pr6prios); como se elabora o conceito do núme-
ro (singular e plural; singular, dual e plural; singular, dual, trial e plu-
ral; singular, distributivo e coletivo); que distinções de tempo se pode
fazer no verbo e no nome (o "passado", por exemplo, pode ser indefinido,
imediato, remoto, mitico, perfeito, anterior); com que delicadeza certas
88 A LINGUAGEM

línguas desenvolveram a idéia de aspecto25 (momentâneo, durativo, con-


tinuado, inceptivo, eessativo, durativo-ineeptivo, iterativo, momentâneo-
iterativo; durativo-iterativo, resultativo e outros ainda) j que modali-
dades se podem admitir (indicativo, imperativo, potencial, dubitativo,
optatvo negativo e uma legião de outras mai.s)28; que distinções de pes-
I

soa são pos.síveis ("n\Í.3", por cxem"plo, concebido como o plural de lIeu",
ou tão distinto de lleu" ('orno de "vós" e de "ele'" - ambas as atitudes
transparecem nas linguas, - além disso, quando é que "n6s" inclui
a pessoa com que eu falo ou a exclui? _ forrn.RQ "in()lu.a.ivc," ••• up:J:l'lm~i_
va"); qual é o plano geral de orientação, nas chamadas categorias de-
monstrativas ("este" e "aquele" numa infindável procissão de yarian-
'tes)Z'; quão a miúdo a forma lingüística exprime a fonte e a natureza. de
informação em que se fundarnf':nta a pessoa que fala (por experiência
própria, por ouvir dizor 28, por interferência) j como se exprimem no
nornA JUI rP.laCÓf'.q
eintáticas (subjetivo e objetivo; agentivo, instrumen-
tal e de pessoa interessaaa2tj vários tipos de genitivo e relações indire-
tas) j e correspondentemente no verbo (ativo e passivo; ativo e estático;
transitivo e intransitivo; impessoal, reflexivo, recíproco, indefinido quan-
to ao objeto, além de muitas outras limitações especiais no ponto de par-
tida e de ehegada da cadeia geral de atividades).
Tais detalhes., por mais importantes que sejam muitos deles para a
compreensão da forma interna da linguagem, cedem o passo, em seu
'valor geral, às distinções mais radicais dos grupos que estabelecemos.
Ao leitor comum basta sentir que a lingua oscila entre dois pólos de
expressão lingiifstic.a - conteúdo material e relação e que esses
pólos tendem a ligar.se por meio de uma longa série de conceitos de
transição.
Tratando dos vocábulos e das suas várias formaa, muito tivemos
que antecipar a respeito da sentença em conjunto.
Toda língua tem seu método ou métodos especiais para reunir 08
vocábulos numa unidade maior. A importância de&ge8 métotl08 é sua-
cetivel' de variar de acordo com a complexidade do vocábulo isolado.
No latim, agit U(ele) procede" não precisa de auxilio externo para
1ÍI7Qar a 8ua posição na frue. Quer eu diga agit domituu "o amo pro-
cede", ou em sic femina agit "aasim procede li mulher" praticamente á o
mesUlo o resultado llquido quanto ao valor sintático de ogit. Só pode
tlier u1I1 "eroo, pred~eado de uma proposição, e só pode ser coneebido COIl1D

enunciação de uma atividade executada por uma pessoa (ou coisa) QU6
não por mim ou por ti. J á não sucede o mesmo com um vocábulo como
o inglês act. Act bóia sem governo na sintaxe, enquanto não definimos
a sua situação na proposição - uma coisa em "they act abominably"
["procedem abominavelmente"] e outr8 muito diversa em that was a kin-
dly act I"isso foi um procedimento gentil"]. A sentença latina fala-nos
através da segurança individual de .seu.<Jmembros; o vOCábulo inglês ne-
cessita o auxílio imediato dos seus companheiros. Isso de maneira apro-
ximada, bem entendido.
Dizer, contudo, que uma estrutura vocabular suficientemente elabo-
rada compensa a falta de métodos sintáticos externos é estabelecer uma
perigoSa petição de princípio. Os elementos do vocábulo ligam-se entre
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 89

si de maneira específica e se seguem em seqüência rigorosamente deter.


minada. Tanto vale dizer que um vocábulo, constante de 'outros elemen-
tos além do radical, é a cristalização de uma sentença., ou de parte de
uma sentença, que uma forma como agit é aproximadamente o equivalen-
te psico16gico*ode uma forma como age is 4lproeede ele".
Derrubando, pois, a parede divisória. entre. vocábulo e sentença,. c&.
be-nos. inquirir: Quais são, em última análise, os métodos fundamentais
para ligar um vocábulo a outro, um elemento voeabular a outro, ou, em
resumo, para passar das noções iaolad88, simbolizadas num vocábulo ou
num elemento voeabular, à proposição unificada que corresponde a um
pensamento!
A resposta é simples e jA está p";"'uposta n •.• considersções pre-
cedentes,
O método de relação mais fundamental e poderoso é o da ordem VI>-
cabUlaf. Pensemos numa idéia mais ou meDOS concreta, a cor digamos,
estabelecendo o seu símbolo - ''vermelho''j noutra idéia concreta, pes-
soa ou objeto, estabel.ecendo por sua vez o seu súnbolo. - Ucão"j finalmen~
te, numa terceira idéia concreta, urna ação digamos, estabelecendo pela
última vez o seu s!mbolo - "oorr(er)", Mal é poss[vel estabelecer su-
cessivamente esses três símbolos, sem relacioná~los 'de qualquer modo,
por exemplo - U(o) cão vermelho corr(e)". Longe de mim querer dizer
com isso que a proposição surgiu sempre dessa. maneira analítica, mas
tão sõmente que o próprio processo de justaposição de um conceito a
outro, de um símbolo a outro, impóe-nos certo Usentimento" de relação,
quando mais não seja.
A algumas adesões sintáticas somos especialmente sensíveis, como se~
jam por exemplo, a relação atributiva de qualidade' (cão vermelho), ou
8 relação subjetiva (cão corre), ou a relação objetiva (mata cão); a ou~
tras somos mais indiferentes, como seja, por exemplo, a relação atributi-
va de circunStância (Uhoje cão vermelho corre" ou 41eãovermelho hoje
corre", ou ucáo vermelho corre hoje", tOdas 8.8 quais são equivalentes de
proposição ou proposições em embriã<»,
Os vocábulos e os elementos vocabulares, portanto, tendem não s6
a estabelecer uma espécie de relação entre si, mas também são atraídos
una para os outros com maior ou menor intensidade. :e esta maior ou
menor intensidade, presum1Velmente, que dá em restiltado afinal os gru~
pos de elementos firmemente soldados (radical ou radicais mais um ou
vArias elementos gramaticais), por nós estudados sob a designação de
vocábulos complexos. Segundo toda a probabilidade, nada mais são tais
vocábulos do que seqüências que se junta~am e se destacaram de outras
seqüências ou elementos isolados, no de9dobramento da fala. Enquanto
têm vida plena, em outros termos, enquanto têm todo o seu valor fun~
eional, conseguem manter-se a certa distância psicológica dos elementos
contíguos. A medida que perdem grande parte da sua vitalidade, re-
caem nas garras da sentença em conjunto, e a seqüência dos vocábulos
independentes readquire a importância que em parte transferira para
os grupos cristalizados de elementos.
A linguagem estA assim constantemente enlaçando e desE'nlaçando
as suas seqüências. Nas formas altamente integradas (latim, esquim6) a
90 A LINGUAGEM

"energia" da seqüência fica em grande parte encerrada nas formações vo-


cabulares complexas, transformando-se numa espécie de energia potencial
que, durante milênios até, não se libertará. Nas formas mais anaUticas
(chinês, inglês), essa energia é móvel, pronta para qualquer serviço que
lhe solicitarmos.
Não pode haver grande dúvida que a acentuação tem freqüentemen.
te a&<Iumidouma influência diretriz na formação de grupos de elemen-
tos' ou vocábulos complexos saidos de certas seqüências na sen~nÇ&.
Uma palavra inglesa como wit1Lstand .[ou como em português Ucontra-
por"] é apenas a velha seqüência with dand, Í.. e:, againd [porto "con-
tra"} .standu,. em que o advérbio não acentuado foi contmuamente
am.arrando-se ao verbo seguinte e perdeu a sua independência 'como ele..
mento significativo. Do mesmo modo, os futuros franceses do tipo de
irai são meros resultantes da eoaleacência de vocábulos a principio inde-
pendentes: ir ai, Hir hei"32, sob a influência do acento unificador.
:\Ias a acentuação tem feito mais do que' articular ou unificar se-
qüências que já por si pressupõem uma relação sintática. ~ também o
meio mais natural de que dispomos, para salie.ntar um contraste lingüis~
tico, para indicar o elemento mb.imo de uma seqüência.
Por isso, não noa deve surpreender verificar que o acento, tanto
quanto a seqüência, pode servir, por si SÓ, de sfmbolo de certas relações.
Um contraste
como go between (ane who goe. between) e to go
betwee1l. pode ser de origem completamentesecundária em inglês, ll'1IVi
há razão de sobra para admitir que distinções análogas. prevaleceram
cm todos os tempos na hist6ria lingüística. Uma seqüência como ue'f714n
luver" e l'homem"] pode implicar algum tipo de relação em que 'fI
qualifica a palavra seguinte, donde a .eeing man ou a .een (ou -vil1õllJ)
111.011., ou é a sua predicação, donde the m.an .ee, ou the via" i.J .Je1J1\, ao

passo que uma seqüência como aee man' pode indicar que a palavra acen-
tuada até certo ponto limita a aplicação da primeira, como objeto direto
- dif,!smos, donde to &te a man ou (he) aee! the mano Tais alternâncias
de relação, simbolizadas por acentuações variáveis. são importantes e fre-
qüentes em certo número de linguasll•
~ especulação algum tanto arriscada, e contudo admissivel, ver na
ordem vocabular e na acentJlação os métodos primordiais para' a ex-
pressão de todM as rela~ões sintáticas e encarar o atual valor relaei~
nal dos elementos e vocãbulos especificos como uma situação secundária
rle\'!da a uma transferência de valores.
As.~im, podemos aventar que o -m latino de vocábulos como leminam,
dominum e civem não denotavam originàriamente.H'que "mulher", "amo"
e "cidadão" esta\'am objetivamente relacionados ao verbo da' prop08i~
t:iio, mas indicavam Qualquer coisa de muito mais concretoU, estando a
relação objetiva meramente implicada pela' posição ou acentuação do
vocábulo (elemento radical) imediatamente anterior ao -m, e que essa
consoante gradualmente, à medida que se esvaía o seu valor mais con-
creto, chamou a si uma função fioÍntática que não lhe pertencia,

Essa espécie de evolução por transferência é perceptível em mui-


tos Assim o o/ de uma frase inglesa como the law 01 the land rUa
ClL<;OS.
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 91

lei do país"] tem hoje um conteúdo incolor, ,índice que ê, tão puramente
relacional como o sufixo de genitivo -ia do latim lu urbit, ua lei da ci-
dade". Sabemos, não obstante, que era a princípio um advérbio p.e va-
lor conereto consideráveP', indicativo de separação, afastamento, e que
a relação sintática era a princípio. expre&U pela forma casual do se-
gundo. nome". Perdendo esla ..últim& a sua. vitalidade, o sdvérbio cha.
mau-lhe a função a si.
Se temos real motivo para admitir que a expressão de todas as re-
lações sintáticas ascende inevitavelmente a esses dois aspectos dinâmicos
da evolução - a ordem e a acentuaçãoSl - resulta uma tese" interes.
sante: - Todo o contp.f1do da linguagem, com seus grupos vocálicos e
consonânticos, limitava-~ na origem à interpretação do concreto; 88 re-
lações não ernm expressas a princípio na forma externa, mas apenas
pressupostas e articuladas com o auxílio da ordem e do ritmo. Em ou-
tros termos, as relações eram sentidas por intuição e apenas Uextrava-
savam-se" através de fatores dinâJuicos, que por sua vez se moviam no
plano da intuição.
Há um mé~odoespecial de exprimir relações, tão freqüente na hist6-
ria das Hnguas que. exige a noo;;saatenção por um momento. ~ o méto-
do da "concordâneia" ou de assinalação repetida.
Assenta no prindpio da palavra de passe ou do rótulo. Todas as
pessoas ou objetos que respondem à mesma senha ou trazem a mesma
marca, ficam eon~qüentemente registradas ('orno relacionadas entre si.
Uma vez isso feito, pouco interessa onde se acham e como se apresentam.
Sabe-se de antemão que urnas pertencem às outras.
Estamos familiarizados com o princípio da concordância em gre-
go e latim. A muitos dentre nós já têm causado espécie essas rimas in-
defectivcis, como t'idi illum bonum dominum, Uvi esse bom amo", ou
quarum dearmn saevarum "cujas deusas cruéis". Não .que o eco sonoTV,
qt1C'rem forma de rima, quer de aliteração38, seja -indispensável à concor-
dância, embora, sob o seu aspecto mais típico e original, a concordâncilJ
Heja quase sempre acompanhada de uma repetição de sons.
A r.ssência do princípio é simplesmente isto: vocábulos (elementos)
que pertencem uns aos outros, especialmente se são equivalentes sintá-
ticos ou estão relacionados da mesma maneira a outro vocábulo ou ele-
mento, levam a marca externa de um mesmo sufixo ou de sufixos fun-
cionalmente equivalentes.
A aplicação do princípio varia consideravelmente de acordo com
o gênio de cada lingaa.
Em latim e grego, por exemplo, há concordância entre o nome e
o vocábulo qualificativo (adjetivo ou demonstrativo) no quc respeita ao
gênero. ao número e ao caso, entre o verbo e o sujeito apenas no que res-
peita 80 número, e nito há concordância entre o verbo e o objeto.
Em ehinnk, há uma concordância de maior alcance entre o nome,
l'ujeito on ohjeto, e o verbo. Todo nome classifica~sede acordo com cin.
co categ"or,lli- masculino, feminino, neutro'o, dual e plural. "Mulher"
é fl'minino, llareia" é neutro, "mesa" é masculino. Se, por conseguinte,
('u quero dizer liA mulher pôs arl'ia na mesa", tenho de colocar no verbo
A LINGUAGEM

dados prefixos de cla&k. ou gênero que concordem com os' prefixos no-
minais correspondentes. A sentença fica então "A {fem.)~mulher ela
(fem.)-e!e (neutro)-e!e (masc.).sobre-pôs a (neutro)-areia a (masc.)-mesa".
Se "areia" tem a q~alificaç.ão de Umuita" e a mesa', de "grande", ex-
primem-se essas novas idéias como nomes abstratos, cada qual com o
seu prefixo de classe inerente ("muito" é neutro ou feminino, Ugrande"
~ masculino) e com wn prefixo possessivo refetente ao nome qualificado.
Assim, o adjetivo reporta-se ao nome, o nome ao verbo. liA mulher pôs
muita areia na mMB. grande" assume, portanto, a forma de: liA (fem.).
-mulher ela (fem.)-e!e (neutro)-ele (masc.).sobre-pôs a (fem.)-da mesma
porção (neutro.)-areia á (masc.)..{la mesma grandeza a (masc.)-mesa".
Insiste-se assim três vezes na classificação de mesa como feminino:
no nome. rio adjetivo e no verbo.
Nas línguas bântu41, o princípio da concordâ.ncia opera quase como
em chinuk. Também nelas. os nomes se classificam em certo número
de categorias e são postos em relação com adjetivos, demonstrativos, pro-
nomes relativos e verbos por meio de elementos prefixados que lembram
a classe e constituem um sistema complexo de concordãnci~. Numa sen-
tença como "Aquele leão feroz que veio cá, está morto", a' classe de
"leão", que podemos chamar a classe animal, será assinalada por meio
de prefixos de concordância nada menos de seis vezes, - com o demons-
trativo (aquele), com o adjetivo qualificativo, com o próprio nome, com
o pronome relaty/o, com o p~efixo subjetivo no verbo da cláusula rela-
tiva e com o prefixo subjetivo no verbo da oração principal ("está mor-
to"). Reconhecemos nesta insistência para a clareza externa da referên-
cia o mesmo espírito que anima a frase mais familiar illum bOl'lum do-
""",um.
Psicologicament.e,os métodos de ordem e acentuação fiC'amno pólo
oposto ao ~a concordância. Ao passo que apelam eles para o implícito,
para a sutileza do sentimento lingüístico, a concordância não suporta a
menor ambigüidade e impõe a cada momento a sua marca registrada.
A concordância tende a dispensar a ordem vocabular.
Bm latim e chinuk, as palavras independentes têm liberdade de
posição, um pouco menos em bântu. Tanto em chinuk como em bântu,
contudo, os métodos de concordância e o de ordem são igualmente im-
portantes para a diferenciação de sujeito e objeto, da mf'sma sorte que
08 prefixos classificadores do verbo se reportam ao sujeito, ao objeto ou
ao objeto indireto consoante a posição relativa que ocupam. Temos as-
sim novamente diante de nós o fato muito significativo de que em dada
emergência a ordem vocabular se reafinna, em qualquer Hn~ua, corno o
mais fundamental dos princípios de relação.
O leitor atento deve estar surpreso de que até agora pouco tenha-
mos tido que ~izer a respeito das tradicionais Upartes do di~urso".
A razão não é difícil de descobrir.

A nossa classificação convencional dos vocábulos em partes do dis-


curso ~ apenas uma aproximação vaga e incerta do inventário cabal da
experiência. Imaginamos, de início, que todos os 4tyerbos" se referem
inerentemente a urna ação, considerada em si mesma, que um 4~ome"
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 93

'" a denominação de uma coisa ou pessoa definida, cuja imagem se pode


reproduzir ,em nossa mente, que todas as qualidades são necessariamente
expressas por um grupo definido de palavras, que podemos adequada-
mente intitular uadjeti\"os".
AMim que pomos o nosso vocabulário à prova, descobrimos que as
partes do discurso estão longe de corresponder a uma análise tão simples
d. re.lidade.
Dizemos it Í! red [Ué vermelho"] e definimos red ["vermelho"]
como vocábulo qualificativo ou adjetivo. Acharíamos estranho pensar
num equivalente de ué verme'lho", em que todo o predicado (adjetivo
c verbo de estado) fosse concebido eomo verbo, precisamente da mesma
maneira por que o fazemos com "estende", ou ufaz", ou "dorme". Ora,
tão depressa damos A noção durativa de ser vermelho uma feiÇÃO in~
ceptiva ou transicional, podemos evitar &8 formas paralelas it becO'f'7l.U
red, it tunu red ["fica vermelho, torna~se vermelho"] com dizer it red-
dens ["avermelha-seU]. Ninguém negará que "avermelha-se" é um verbo
tão legítimo quanto udonne", ou até "p888eia". Não obstante, it ú red
relaciona-se com it redde71.1 quase como he sta-nd.Jcom he stah.ds up ou
he mesn•
~ apenas uma questão' idiomática inglesa ou indo-européia não po-
dermos dizer it reds no sentido it is red. Podem-no fazer centenas de ou~
tras línguas. Há até muitas que só podem exprimir o que nós chamamos
"adjetivo" por meio de um particípio verbal. Red em tais Unguas é ape-
nas um derivado verbal being red, como o são os nossos sleeping, wal-
king {particípios presentes de to sleep, "dormir", to walk, Hpa.ssear"],
Da mesma sorte que é Ucito verbificar a idéia de qualidade no caso
de reddens. é lícito representarmo-nos uma qualidade ou ação como coi.
88., Falamos de "a altura de um prédio" ou de lIa queda de uma maçã",
como se essas idéias fossem paralelas a 'lOtelhado de um prédio", ou "a
casca de uma maçã", esqueccndo-nos que os nomes ("altura", "queda")
não deixariam de indicar uma qualidade e uma ação, só porque lhe
demos a aparência de meros objetos. E assim como há Unguas que redu-
zem a verbos a grande massa dos adjetivos, outras há que os reduzem a
nomes. Em' chinuk, como vimos, "a grande mesa" é "a-mesa-sua-gran-
deza"; em tibetano, pode exprimir-se a mesma idéia por "a mesa de
grandeza", aproximadamente como dizemos "um homem de fortuna'.' em
,,'ezde "um homem rico",
Não haverá, porf.lll. certas idéias que não é pos,••ível transmitir se-
não por meio de uma clf'terminads parte do discurso'

Como dispensar, por exemplo, o "para" da frase uele veio para


casa'" Muito.simplesmente: podemos dizer "ele alcançou a casa", supri-
mindo a preposição e dando ao verbo um matiz de sentido que absorve a
idéia de rela~ão local transmitida pela partícula "para", Mas insisti-
mos em dur independência a essa idéia de relação local. Não será for-
çoso ficar com a preposição' Não; pode.se transformá-la em um nome.
Pode-se dizer qualquer coisa como - Ifele alcançou a proximidade da
casa", ou "o local da casa". Em vez de - "olhou para o espelho", po-
demos dizer - Ilperscrutou o interior do espelho", Tais expressões de-

94 A LINGUAGEM

sagradam em nossa lfngua, porque não se adaptam facilmente aos noSSÓ8


canais formais, mas há língua e mais Ungua em que as relações locais
são expressas assim. São substantivadas.
E dessa sorte poderíamos ir examinando as várias partes do discur-
80 e ir mostrando que não só umas entram pelas outras, mas que até
são em grau surpreendente umas conversíveis nas outras.
A conclusão de um tal exame seria deixar-DOs convencidos que a
(lparte do discurso" reflete não tanto a nossa análise intuitiva da realida.
de quanto a nossa habilidade em compor, partindo da realidade, uma
variedade de moldes fonnais. Uma parte do discurso, fora d•• limita-
ções da forma sintática, não passa de um fogo-fátuo.
Eis por que nenhum esquema lógico das partes do discurso - seu
número, natureza e limites precisos - é do menor interesse para o lin~
güista. Cada IIngua tem um plano seu. Tudo depende d•• demarcações
formais. que ela admite.
Não sejamos, porém, demolidores sistemáticos.
~ bom não esquecer que a fala consiste numa sér:e de proposições.
Tem de haver o que quer que seja para ponto de partida da frase, e,
uma vez escolhido este sujeito do discurso, há aquilo que se diz a res:-
peito. Essa distinção é tão fundamental que a grande maioria das lín~
guas a salientou com criar uma espécie de barreira formal entre os dois
termos da proposição. O sujeito do discurso é um nome. Como mais fre-
qüentemente se trata de uma pessoa ou de uma coisa, o nome situa~se en-
tre 08 conceitos concretos dessa ordem. Como o que é predicado ao su-
jeito é geralmente uma atividade no sentido lato da palavra, a passa-
gem de um momento a outro da existência, a forma que foi encarrega4
da do papel de predicação, noutros termos - o verbo, situa-se entre os
conceitos de atividade. Nenhuma llngua prescinde totalmente da distin.
ção entre nome e verbo, embora em C8S06 particulares a natureza dessa
distinção seja ilusória.
O mesmo não sucede com as outras partes do discurso. Nenhuma
delas é imperativamente imposta pela vida da linguagem.'.