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LINGüíSTICA

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~ .I EDITORA PERSPfCTIVA

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A Linguagem

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I fI£:. 3,.

Coleçfo Estudos Dirigida por J. Guinsburg

Produção: Plínio Martins Filho e Marly Orlando.

A LINGUAGEM

Introducão ao Estudo da Fala

Tradução e Apêndice de J. Mattoso Camara Jr .

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~ ~ EDITORA PERSPECTIVA

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Título do original LANGVAGE, An lntroductlon lo Ih. Sludy of 8p<.ch ,

Copyrighl @1921 by Harcourt Blacelovanovilch,lnc. @ 1949 by lean V. Sapit. Publlshed by Arralliemcnl wilh Haucourt

Brace Jovanovitch, Inc.

Direitos em língua portuguesa reservados à EDITORA PERSPECfIVA S.A. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025

01401 - São Paulo - Brasil

Telefone: 288-8388

1980

Sumário

Advertência à 2~ Edição

 

;

:

IX

Prefácio do Tradutor

 

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I

Prefácio do Autor.

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9

I.

Parte Introdutória: Linguagem e sua DefilÚção

 

11

2.

Os Elementos da Fala

 

27'

3.

Os Sons da Linguagem.

 

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41

4.

A Forma na Linguagem: Os Processos Gramaticais

 

53

5.

A Forma na Linguagem: Os Conceitos

 

71

6.

Os Tipos de

Estrutura Lingüística

 

99

7.

A Língua como Produto Histórico: A

 

119

8.

A Língua como Produto

Histórico: A Lei Fonêtica

 

137

,9.

Como as Línguas se Influenciam Entre Si

 

153

"10.

Língua, Raça e Cultura.

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165

) I. Língua e Literatura

,

175

AP£NDlCE Um Século de Estudos Lingüísticos nos Estados UlÚdos da

183

América.

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185

NOTADO EDITOR

Objeto de duas edições aqui no Brasil, de há muito esgota. das, a reedição desta obra vem ao encontro de sugestões feitas

neste sentido à Editora Perspectiva por estudiosos e professores. Na verdade não se poderia privar os nossos estudos lingüísticos

um livro que é um "clássico" da especialidade

e cuja transposição vernácula se deve ao saudoso J. Malloso

Camara Jr., o qual dá, neste trabalho, não só um padrão de

interpretação fiel e adequada da linguagem do

adaptação magistral da exemplificação inglesa, como acrescenta,

da presença de

autor, de uma

ao fim, um valioso anexo histórico-crítico sobre a lingüística americana e o papel de Sapir nesse contexto.

Advertência à 2~ Edição

Graças ao interesse da Livrari~ Acadêmica., a quem tanto devem os estudos lingüísticos e filológicos no Brasil, sai agora a 2. ediçã~ da minha tradução do livro clássico de Sapir sobre A 1Ã1I{Juagem, intro- duçá<J ao estud<> da fa1J:J.

Como expliquei no "Prefácio" da 1. edição de 1954, essa tradu- ção foi feita em 1938, quando ainda. vivia Sapir. que morreu com 56 anos de idade em 1939. S6 dezesseis anos, mais tarde, portanto, a minha tradu- ção portuguesa conseguiu vir à luz, esgotando-se ao fim de 3 anos. Apesar do interesse despertado (como prova a safda do livro num prazo que podemos considerar rápido, dada a modéstia do nosso mercado livrei- ro), a 2. edição teve de esperar 14 anos para se efetivar.

Entretanto, c0II!0 dizem os franceses, à quelque ehose m1J.lh.eu'rest bon.

A tradução do livro clássico de Sapir reaparece no Brasil num mo-

mento doe mais propIcias. Com efeito, agora, o pêndulo da linguistica norte.americana se afasta do mecanicismo de Bloomfield e vai no sentido do Seu amigo e contemporâneo, que dele teoricamente divergia nos pen- samentos. básicos e foi por isso marginalizado injustamente, pouco depois de sua morte, até os fins da década de 1960. A partir dai, em verdade, as Estruturas Sintáticas de No.m Chomsky ('s Or.venh.ge 1957) e o ataque fulminante do jovem lingÜista à psicologia behaviorista., repre- sentada na obra de Skinner (Lang. 35.26, 1959). começaram a se fazer sentir, valorizando indiretamente a figura. e os trabalhos de Sapir. Bloom- field é que passou a ser, por sua vez, injustamente marginalizado, de acôrdo com o mau ve.zo norte-americano. de polarizar as posições cien- tificas.

A esta 2' edição me pareceu, por isso, interessante anexar um meu

trabalho de 1963,1 que trata da hist6ria crítica da linguistica dos ElIt~ dos U~idos, vista pelos olhos de um observador estrangeiro, e coloca Sapir

em perspectiva histórica ao lado de Boas e Blommfield. Desta sortc, procurei (não digo que o consegui) satisfazer o desiderato expresso na parte final do meu uPrefácio" à l' edição desta tradução.

Rio de Janeiro, 1969

J. MAT1"08O CAM.ARA JIl.

1. Aproveito 8. oportunidade

para agrndccer

de públit'o no Dr. José Manuel

Rivaa Baeconi, diretor do Instituto Caro 1 Cuervo de Bogotá, n pronu autoriuçlo

para eu reproduzir use e!Jtudo hi!Jt6rieo-erltieo, eonstante daa

pnblieadaa com copyrigAt por &eu Inlltituto (Programa b,teramtlriooM de Linguúhca

y E",e1iaua de IdiofM6, El Simpono tk Cartagena,

ttal

de um Simp6llio

y Co.

tgodo 1963, Informe.

municacicmt", Bogotá, Irutituto Caro y Ctu'nlO, 1965).

Prefácio do Tradutor'

Esta Tradução. que data de 1938, foi o meu primeiro f.sforço paTa Icx;aliza,r diante dos nossos estudiosos a figura do lingüista norte-ame. -ica:no Edward Sapir 1 ; tna.f '4$ contingência.! ainda precária.! da MS- ,a atividade editorial só agora permitem que ela se publique, graças à direção esclarecida de Augusto Meyer no Instituto Nacional do Lit'TO. A eda altura me havia. resignado ti relegá-l.a para o /u11.dc da gaveta dos empreendimentos frtL$trados. Fizera-o com tanto mais pesar quanto mais convencido me cu;ho da suma importância de uma obra. em que foram trCl{Odtu linha.! nova.! de interpretação e pesquisa e de que parte um movimento teórico e técnico de singular relevo nos quadro,

do pe1LSamento contemporâneo.

O Autor aprofundou e ampliou as suas idéias atrGt,és do ensino uni- versitário e de numerosos artigos e monografias, anteriores e posteriores ao livro e hoje em grande parte reunidos pelo professor Mandelbaum, da Universidade da Califórnia, sob o título de Escritos Seletos de Edward Sapir sobre Linguagem, Cultura e Personalidade'l. Do que ai consta em matéria de lingüística são de especial importância os estudos sobre - radrões Sônicos: na Linguagem e A Realidade Psicológica dos: Fonemaa,' que lançaram as bases da 4lfonémica" norte-americana, e, de caráter ge- ral, - Diale~o, Linguagem, Linguagem e Ambiente, A Posição da Lin- güística como Ciência e A Fala como Traço de Personalidade •.

O núcleo da filosofia de Sapir está, porém, todo lUJui, nede lit'ro, e

vazado num estilo de divulgarão d01ltrin.dria, a um tempo empolgante, colorido e fácil. Trata-se de uma exposição básica para os upecialutal e, ainda, particularmente indicada para o grande público; poU aqui, ainda mais que em outro! trabalhos, se revela n.o A utor aquela capaci- dade estilística, que, na fra.se de Stanley Newman "fala Q() leitor como ti uma pessoa e não como a um intelecto desencantado",' Q() contrário da lingu.agem abstraia, seca e inte1l.CionaZmente monótona da modenWJ "lingüística científica" norte-americana.

Quando a obra apareceu, em 1921, Edward Sapir já tin1uz em ,eu

ativo muitas e perctu::ientes

pesquisas nas líng1UJS índias dOI Estado,

Unidos e do Canadá, como o takelma (Oregon),' o yana (Califórnia), o

2

A LINGUAGEM

nutka (.1ha d. Va1lC01lv.r), O paiút. (UtaJt) • O !arei [!arce.) (Alb.rta).

FOTa prindpalme71.te levado para eue âmbito pe14 .tUa comunhão com o

trabalha d. Fra ••• BOa!, o grande antrop6logo da Univ.r!idado de Colú •••

bia, q1U

Bureou. de Etnologia Americana da lmtituição SmitM01Iian4,' M ,entido de l.vantam.nto • análÍ!e dO! língua! {ndiO! da América do Norte.' Na ~quipe que então se constituiu e culminou com a elaboração do Manual de Llnguas Indias Am.ricanas, publicado a partir d. 1911, Sapir •• duto-

.se propusera continuar O empreendimento tU J. W. Powell, ftD

cO'U pela lUO formação lingüútica especializada, decorrente da co-ndição

d. graduado .m filologí<J germânica pela Univ.r!idad. d. Colúmbia.

A visão /ÜQl6gica ampliou-se-lhe, por sua vez, com a experiê7lGta et'Mlógica (I com o exemplo tU Boas, a cujo respeito tem as ugllint6.t palavras na análise d4 língua takelma, com que concorreu para aque~ Manual: "Para concluir, devo agradecer ao professor Franz Boas va- liosos conselko, em referinda a vários pontos de método e o seu '71ft. resse ativo no progresso do trabalho. Foi em grande parte devido a ele que me animei a afastar.me dq. rotina da descrição gramatical. e fi dis. tribuir e interpretar os fatos de uma maneira mais consentânea com o espírito dq. pr6pria língua takelma"'.

Auim. a um tempo antrop6logo, linflÍÍtsta de campo e indo-europeú. ta. soube Edward Sapir ccmciliar. os três interesses em diversos trab~ lhos, como na monografia sobre A Perspectiya Temporal na Cultura Americana Aborígine 10, em que enquadra a lingiií.!tica na pesquisa et. no16gica, • no .!tudo !obr. Ao Continuas GlotaJizadas .m Návaho, NuI.k!l e Kwak:iutl, onde toma em c~eração a célebre hipótese dai laringeai8 indo-européüu, surgida na gramática compprativa pelo estudo do fO'M,.

tici8mo hitita; e, da evidência fonética índia, ascende a uma interpretação, que mais tarde se consolidou sob a pena do seu colega e amigo Edgar 8her. tevant u . Seg-unM esse pensamento, as lc.ringeais teriam tido o caráter de oclwâo glotal (ing. glottaJ stop) • t.riam MO .m núm.ro de quatro .m doiI

pares de surda-sonora, aO passo que o hitita só

de duas e a fonética hist6rico-comparativa não nos elucida sôbre a "ítida ftatureza desses sOn.!.

1I.OS Buegura da existência .

Muito mais importante, porém. foi a síntese harmoniosa e feliz a que chegou com a compreensão de uma ciência geral da linguagem, fora

dos lindes românicos, germânicos, indo-europeus, 1,'!t7títicos ou outros,

em que se confinaram

muitos outros grandes teoristos. Como tive

ocasião de acentuor alhures. "com Edward Barr começa um terceiro grupo interessantíssimo na ciência norte-ame,-icana -. aquele que eu chamaria dos lingüistas gerais" U,

e justamente na presente obra que primeiro e mais desenvolvida- mente se consubstancio a sua afirmação nesse sentido. Ele ainda se en- contrava então na chefio da Divisão de Antropologia do Museu Nacio- nal do Canadá, que assumira em' Ottawa em 1910. Mas em 1925 era chamado para a Universidade de Chicago, onde inaugu.rou em breve ( ensino da lingüística geral, e seis anos mais tarde, integrado no corpo docente da Universidade de Yale, passou a desenvolver até sua morte. ocorrida em 1939 em conseqüência de um sofrimento cardíaco, uma fi- losofia lingiiistica em que se filia ~ chamada escola' científica norte-

PREFÁCIO DO TRADUTOR

3

amencana (scientific linguistics), firmada mais diretamente embora p"r L.onard Bloomfi.ld.

Entre Sapir e Bloomfield há uma relação 8emelhante d que &e dea

preende na ciência franusa

entre Ferdinand de Sous8Ure ti Antoine

Meillet. Num e noutro caso, tem-se, ao lado do pioneiro genial, o con.so- lidador extraordinariamente dotado, que do! ponto.t culminante. de umo

concepçãu vigoro6C1e nova, mas ainda um tanto fluida, tira um corpo de doutrin.a coeso, que a '16m tempo a preci.Ja e a re,t,;nge.

Meillet fê-lo colocando-se nas linhas mestrlU da escola socioMgica de Emüs Durkheim, a que não estava ligado Saussure, em que pus tJ

opinião de Doroszewski Jl Bloomfield, por sua vez, adaptlJv o pensamen-

to de Sapir aos princípios da filosofia behaviorúta de Max Meyer e Paul

Weis!, criando o que ele próprio denominou a teoria mecanicista, qUB faz abstração da "hipótese" da mente ,tO interpretaÇão do fato lingiií.s- tico. Partindo-se do estudo das línguas índias, instituiu-se assim uma técnica descritiva de grande nitidez e c,liciênda, cujos resultados se têm ~rquivado em grande parte na revista IJAL, ora sob a direção de C.

F.

Vo.gelin, qut em 1944 r •• ""el"" o vol. X inlerrompido.

Consolidou-

'e,

entre outros, u conceito de fonema (som distintit)o mínMn.o d4 língua)

s

o de morfema

rioação da fala,

(forma diltintiva mínima), como ba.ss da análise s tso. qutr no livro hoje 'clálsico d. Bloomfield sobre a Lin.

guagem 14, quer na tradicional ret"Ílta do mesmo nome, que, fundada em 1925 como órgão da Sociedade Lingüística da América, .se tornou

porta-.t)oz da escola. Em seguida, empreendeu-se uma reft.Otlaçáod4 gra-

mática e do ensino dC1$ línguas lato sensu, aplicada

de ma1leira q1UUS

sensacional ao ensino das línguC1$vivas no exército norte-americano du-

rante a Grande Guerra, numa experiincia pedagógica que assentou pn- macialmente num Esboço-Guia de Bloomfield 11.

Sob um cupeeto particular, entretanto, a atuação de Bloomfield foi um tanto descoroçoante: ele é em grande parte responsável por ter-u quase fechado o caminho MS Estados Unidos a uma exploraç4o estéti- Ca da linguagem.

Sapir, ao contrário, a sugeriu e até a iniciou, tanto no presente li. vro como em diversos artigos. Atraía-o neste sentido o pendor para a música e a poesia, das quais fez um uviolino de lngrts". A sua intui- Ç'40 artística, sobre concretizar-se em composiÇ(1es poéticas, esparsa.f em variadas revistas. e na atividade pianística, revela-se em intereuanttl estudos estéticos. H aja vista O que dedicou aos Fundamento'i Musicais do Verso, infelizmente não incluído na compilação Mandelbaum, cit.: aí, depois de clarificar o complexo conceito áo ritmo, mostra. o caráter re- lativamente "livre" de todo e qualquer verso, me.smo quando aparente. mente mais subordinado à métrica".

Foi esta faceta de um espírito filosoficamente amplo que fcu;ilitO'U

a sua .concepção da linguagem como Il uma arte coletiva", no que se de- clara, num passo deste livro, solidário com Benedetto Groce.

Seria, não obstante, um erro profundo associá-lo ao pensamento lin- güútico do filósofo italiano. Nada há mais distante de um Karl Vossler, de um Terrcu;ini, de um Bonfante, saídos com as suas correntes, respecti- vamente idealista alemã e neolingüi.dÜ':o italiana, do esteticismo de Grau,

4

A LINGUAGEM

do que 0$ scientific linguiBts norte-americano,. E ene diJtanciame71to, qtul em regra &e tron.smuda em radical antagonilmo, como no debate de

1947 entre G. Bonfante e Robert HaU na revista Language, não parte

67-elu.&ivamentedo mecanicismo 8 do método "cientifico" de Bloom/ield, que :na frfU8 convicta de JIall olhuru "opera por postulado,. hisp6tue, 8 t'erificação"". Já estava bem explícito na teoria Japiria1l4, qua.n.do Te. lega para um plano Itcundário os a&pectos afetivos da linguaflem, dil. lOCia da cultura o fato Ungüútico e vê na língua, antes de tudo e sobr~ tudo, uma forma coletiva pré-racional, que impõe ao indit'íduo os seus canai.! de expreuão e tem nas !1L(U mudanç.as uma uderit'o" própria.

No âmbitu da lingüística européia, as afinidades com o pemamento de Sapir estão na corrente saussunano, a que Vossler e os neolingiiida.s claramente se contrapuseram.

A critica de Alan Gardiner u, como adepto de Sau3Sure, qU(Jnto a

uma suposta confusão entre langue e parole por parte de Sapir, a qual parece em verdade depreensível no próprio subtítulo do presente livro (lntrodução.ao estudo da fala), é inadequada. Gardiner, depois de tra- duzir o francês parole por speeeh (port. "fala"), só compreende o termo inglês com a significação que lhe imprimira de um ponto de vista tenni- nológico estrito, sem considerar por outro lado como O conceito de "pa- drão" (ing. pattern), um dos Leitmoti\"e da f,10sofia lingüística de Sa- pir, se concilia com o da langue saussunano. Num e noutro, temos a idéia de um sistema fonnal coletivo, de uma pauta que regula a atividade da fala lato sensu ou linguagem".

tenha im-

pressionado duas escolas européias, inegavelmente filiadas em Saussure:

Não é de estranhar, portanto, que o pensamento de -Sapir

a

"glossemática" do Círculo de Copenhague e a "fonologia" do Círculo

de

Praga. L. H jelmslev, na notícia que em 1939 dedicou à morte de Sapir

em Acta Lingüistiea (1, 76-7), que é o órgão daquele primeiro Círculo,

,

presta tributo ao mestre norte-americano e ao livro que aqui se traduz, como uma das fontes da concepção estruturalista que tem desenvolvido com seus companheiros de Copenhague. O Círculo de Praga, oficialmen.

te fundado cinco anos depois da publicação do presente livro, entrou

em contado com Sapir em 1930, quando o convidou a participar do Con- gresso Fonológico InternaGÍonal naquela cidade, a que, entretanto, ele não pode comparecer 10.

Não é nada provável que Sapir, como at'enta Leo Spitzer num arti- go recente (UPor Que na língua há rnudança''')I\ tenM sido influencia-

do pelas idéias de Baudouin de Courtenay, o mestre de São Petersbu.rgo,

a que não é estranha em seus primórdios a fonologia de Praga. £ sinto-

mático, a este respeito, que neste livro de 1921 Sapir ainda não utilize

o termo "fonema", típico de Baudouin para duignar um con<:eito ("equi- valente psíquico do som") muito próximo do que desenvolve o mestre nor~e-americano 22.

Só alguns anos mais tarde é que o ténno aparece em Sa]Jir, a prin.

cípio esporadicamente e depois de maneira sistemática, como nos artinos, citados, de 1933, sobre a Linguagem e sobre A Realidade Psicológica dos Fonemas. Pode-se, em verdade, atribuir a adoção ao eXemlJlo do Círculo

,de Praga, tanto quanto

PREFÁCIO DO TRADUTOR

ao de Leonard

Bloomfield, que Ja ~m 1926,' apre~

~enta71do HUm Conjunto de Postulados para a Ciência da Linguagem lt

na revista Lnnguage (2, 153-64), torna mais precisa 11a essência e na

nomenclatura

a interpretação

do som lingüistico,

definindo,o: "Um feixo

mínimo de traços vocais é um fonema ou som distinti\'o",

Como quer que l6;a, o fato

é que Sapir

por muito

tempo

It a:teve

tU preferência a /6rmulaJ como - 41,om", 11,0m padronizado", I'ponto ds

um padrão ,6nico Jl ,

para ainda 86 falar em "101\,8ma", de maneira coeren~

te, num artigo de 1931 !obre 110 Conceito de Lei Fonética verificado nas Lfnguaa Primitivas por Leonard Bloomfield", quando se reporta ao autor

comr,ntado 23.

O U30 do termo, afinal, parece ter-lhe sido imposto pelo se-ntimento de não criar um cisma meramente tenninológico, em ffUe de uma adoção

generalizada na Europa e na América.

.

Não

a lIle/lOr

dúdda porém, de (]UC llll lilluiHstica norte-americana,

como frisou o l'elho l"ruJlZ lJOfUJIU

lIuticia ubilu<Íria de 1939 110 'JJ~l~,

dedicada ao seu colab(Jntdur c brilhault' c.x-almw (10, 58-63), é essencial- mente de Edward Sapir a intuiçãu do som da fala como ,'aloJOlingüistiw sobreposto à simples Joealizaçãofísica,

Neste aspecto, como em muitos outros de fecunda originalidade, ca- beria aprecia,' o pensamento sapiriano em face do q~ havia antes dele e do que se elaborava em torno dele ou paralelamente a ele, do. mesma sorte que depreender o que lhe deve o hodierno e amplo movimento eI. trvturalista, europeu e "órte-amencano. Não é, porém, matéria que S6 cinja a um Prefácio e se compadeça com os modestos propósitos de utn Tradutor. A este o que deve importar exclusivamente é interpretar (om fidelid4de a linguagem do seu Autor. Portanto, a minha única n.mtribul- ção foi aqui a de procurar esclarecer a exemplificação ingUsa ou outra, pondo-a ao alcan.ce dos leitores de língua portuguesa a quem o inglês (l outros idiomas estrangeiros não são familiares Jfo.

Notas ao Prefácio

1. Embora nueido Ilm Lauemburgo, na Prúsllia, perto de Danuig, em 1884, Edwaro

Bapir , uma autêntica expressão da cultura norte-americana, onde se integrou ainda ar. intlneia, ao emigrar com sua famtHa para 011 Estados Unid03 aos 5 anos de idade.

2. 8dected

br David G. J!anlÜlbau"" Berkeley, 1949j com uma noticia eritieo.biogrê,fica e uma bibliografia completa.

3. Sound PaUern.r in lAnguagt,

Writing. 01 Edward lIapir in Language, Cultuf'e Gnd PCTlOMlity. ed'tr.d

LAnguage 1925, I, 37.51. La Realité P,ychologiqM

&t, PhoMme., Journal de P8Ychologie 1933, XXX, 247-65; a compilação Mandt>lbauru, fit., dA. a redaçlo ingleaa - Tliil P&ychol0!Jical Reality 01, PlKmemcs. 46.60.

.•• DWakct (Encyclopedia 01 B0ci4r 8cit'fI,Ctl, New Yorlr:, 1931, vo1. 5), LangUlJge (idem, 1933, voI. 9), unguage (lnd Enmf'onment, que é uma. p:-eleçJ.o na AasociaçAo Antropo16giea Amerie&na em 1911, publicada no A:mtTican A:nthropotogut em 1912, segundo noe informa o profesaor Mandelbaum (Seleeted Wrifingl, cit., 89), The SrIJ- tVl of LiflguilHc.t e.t 11 8cieue (L4nguage, 1929, 5, 207 •• 14), Speeeh a.J a Per.tonality Trair (JwmaZ ol Soc'ology, 1921, 32, 802-905).

5. Na re8enha dos Seleeted Writing, cito lnternational

gtNtw (IJAL), BloomingUln, Ind., 1951, H, 183.

6. 0& nomes indiO! nlo elo aqui aportuguesados, salvo quando o aportuguesamento

j' é tradicional. 86 hOUVAligeira!l modificações na.e grdi&8 inglesll.'l que poderiam levar li. perplexidade o leitor de Hngua portuguesa. Os .nomes de Hnguas ou tribos, de origem francesa ou ingll'8a, foram grifad08 e mantidos tais quaÍB.

7. A Ill8tituiçAo Smith.soniana, criada em 1846 por Ato do CongreMo par&. aumen.

tar e difundir a ciência, com e&rá.ter ofiC'ial, decorre de uma doação te9tamenUria. de .Jam~ Smithson para. esse fim.

8. Sobre Bou como lingüista, ~oD8ultar - Reman .Jakob8on, Â OrirntGÇdo Un-

giiút~

of ,.jmerican Linguuticl

JOtwnal of A:merioan Li".

de Franz Boa.t (FrllJU Boa.t A:pp"ooch to L4nguagc),

lnternatNmal

JOVf'nQI

(I.JAL), Bloomington, Ind., 1944, 10, 188.95.

9.

10.

Hllndbook of A:mcrioan Indian Langooge.t, Waahington, D. C., 1922, lI, 8.

T.me Perspeet.tJtJ '" A:boriginal A:merican CultUf'e -

A: Stu4y 'n Method (1916)

(8elected W",Hng', cit., 389.462); ai já. há a eoneeituaçA,o de bea lingüistica, como central e perifériea. (pAg. 412), hoje tio desenvolvida nu "normas areais" doe neolin. güista.s italianOll.

11. SturteV'lLnt, no !leU trabalho de 1942 (The Indo.H.Uite Laring'.,'1l.t; ef. minha

resenhA no Bole""" fk F.Zologia, Rio, 1947, no. 7) df'Clare. muito dever la idéias de ~a.pir neste particulAr.

12.

08 E.!tudos Lingütstic<Js nos E8tados

Unidos da ,.jméTica do Norte,

Rio, 1945,

8

A LINGUAGEM

13. Retiro.me ao artigo de W. Dorolzewlki, Quelque. Remarque! lU1' ltl. RappOf'&.

de SOUIUf"I, Journol

de P,vchologic, Patil, 1933, XXx, 82.91. Alhurea, tratei Dal. defletl.volridamente da

qUettl o

dtl la Sociolopic tt d" la Li1lguilUqvc, Durkhtim et FerdiMM

(Co1\tribuir40 d EltiZ"tico Portugll. •.,a, Rio, 19~3).

14. Loft{JtMJge,New York, 1933.

15.

OatUne Guidt for thIJ 8tudy

01 Forng"

z

onguoge

TetU1l"'9, Baltimore, Md.,

1942.

Eua experiência pedagógiea

foi euidadOl!lamente estudada num livro de Paul

Angiolillo (Ârmed Force$' Forno" Lc."fJ1ItlJge TtaClli"g, New York, 1941), de que fiz

uma resenha na reviata Culttwa, Rio, 1949, 1.2.

01 Yenc, JouYft4l 01 Engli.IIl aftd Germ4ft'c P1&üology,

Urbana, li!., 1921. XX, 213-28.

16. TM Mv.n:oal FOUM4tioM

,

17.

Robert HaIl Jr., [n Memoriam LeO'ftOrd Bloomfidd, Lingua, Barrem, 1950, lI, 119.

18.

The ThcOf'Y of Speccll and Language,

Oxlord,

1932, pAgo 130, n. Cf. aeima,

nota. 13.

]9.

Traço de Pe-rIOMltd6ck, cito

20. Á!J afinida.des do Circulo com Bapir foram ressaltadas mais de uma vez por

Trubctzkoy' e R. Jakobeon. Cf. especialmente o Relat6Tio de!lte último no Bexto Con.

gresso Internacional de Lingüi.stas, .A.ctel, Parill, ]9~9, pAg. 5.

no a.rtigo sobre ~ Fala como

A posição de Sapir ainda ressalta mai.s nitida

21.

Why doeI Lang1UJge Changtl, Modcrn Lang'UlJoe Qllatt1'ly, 8eattle, W&l'h. ]O~3,

4,

415.6. Ao eontr6.rio, para Trubehkoy a teoria de Sapir 'Ifoi criada em total indo.

pendência de Bl\udouin de Courtenay e IDellmode Baullsure" (JO\lrnal de P,ycholog-ic,

cit., pig. 230)

22. O termo, que jâ existia. em grego para designar

pratieamcnte ao tnpsmo tempo pelos médicos do laboratório de Marly, por S&US8Ure

e por Bll.udouin. de Courtenny; mas neste é ni.tido novo.

"emiss~o vocal", foi U8adO

que tem llÍ8tema.ticnmente um conceito

23. The Conccpt of PlIondk

Bloomficld (Selectrd WJ"itingl, cit., 73.82).

2 Os esclarecimentOll do Tradutor, no testo ou em notai, se aeham entre colehetn

Law tu

telted

-in Pritnie-ive Language8

by LeonnrJ

Prefácio do Autor

Destina-se este livrinho a' dar uma VlS8.Ode conjunto a respeito da linguagem e não propriamente a coligir fatos da linguagem. Pouco lhe cabe dizer sobre os fundamentos psicológicos últimos da fala, e, dos

fatos tanto atuais descritivos como históricos, das várias línguaS só mi-

nistra o que é suficiente para ilustrar certos princípios. O seu

precípuo é mostrar a minha maneira de conceber a linguagem e as suas relações com outros interesses humanos básicos: o problema do pensa- mento, a natureza do' processo histórico, a rac:a, a cultura, a arte.

A visão a~im obtida será útil, creio eu, não só aos que se dedi- cam à lingüistiea, mas também ao público em geral, ser.lpre meio pro- penso a relegar as noções lingüísticas para a elnsse dos pedantismos pl'i. vativos dos espírit.os essencialmente vadios. Um conhecimento das rela- c:óes mais amplas existentes em sua ciência é essencial aos lingüistas pro- fissionais. se querem escapar à esterilidade de uma atitude puramen- te tGcnica. Jo:ntrc os contemporâneos de relevo que escreveram sobre as coi- sas do pensamento, Croce é um dos poucos que mostram ter compreendi-

do a significação fundamental da linguagem, assinalando

relação com o problema da arte. Muito devo à sua percuciência! Independentemente do interesse intrínseco que têm, as formas e 0.'1 processos históricos da linguagem oferecem um valor diagnóstico de mÁ- xima importâuc.ia para a compreensáo de alguns dos problemas mais árduos e fugidios da psicologia do pensamento, E' para a compreenSl:10de ncrÍ\'a, estranha e de efeitos ncumulados, na vida do espírito humano, que chamamos história, progresso ou e\'olu~ão. Esse ,'alor depende prin- cipalmente da natureza inconsciente e irracional da estrutura lingüís- tica.

Evitei n maior parte dos termos técnicos e todo~ OI; símbolos técni- cos da academia lingüística. Núo há um só sinal diacrítico no li no. Sempre quo foi passivel, a discussão assentou em material ingles. Foi, porém, necessário, dentro do plano do livro, que inclui UUla apre<.'iação

escopo

lhe a íntima

10

A UNGUAGEM

dos tipo q

mano, citar alguns exemplos exóticos. Não me sinto obrigado a desculpar- me disso.

proteíformes em que se vaza a expressão do pensamento hu~

Em ,:.irtude da falta de espaço, tive de deixar

de 'parte muitas

idéias ou princípios em que gostaria de tocar. Outros pontos tiveram do

de uma sentenc;a ou no ("orrer de uma

frase. Confio, não obstante, em qUE' o es')encial se acha aqui concatenado e de sorte que sirva de estímulo a estudo .mais fundamental num campo

ora entregue ao abandono.

Desejo expressar a minha apreciaçiio cordial dos conselhos sin. ceros e sugestões valiosas de certo número de amigos que leram a obra em mamISCI'ito, especialmente os Profs. A. L. Kroeber e R. 11. Lowic da Universidade da Califórnia, Prof. \V. D. \Valli:; da Escola Superior de Rcoo e o Prof. fI. Zcitlin da Unh'crsidade de Illinois.

Bcr tratados

na alusão rápida

1.Parte Introdutória:

Linguagem e sua Definição

Falar

é um aspecto tão trivial

da ,ida cotidiana

que raramente

nos

detemos a analisá-lo. Parece tão nntural no homem quanto andar, c pouco menos do que respirar.

um momento de reflexão para convencer-nos de

O

••r~esso de aquisi~ão da linguagem é, em suma, coisa completamente di- \"ersa do processo de aprender a andar.

que essa espontaneidade não passa de uma impressão

Basta, entretanto,

ilusória

nos.'ia.

No caso desta última fun«.:ão, a cultura -

sa tradicional

dos usos sociais -

não entra

em outras palavras a mas- propriamente em jogo. A

criança é individualmente apta, em virtude do complexo conjunto de fa-

tores a que chamamos hereditariedade biológica, a executar tod06 os aju3- tamentos musculares e nervosos que lhe são pl'c('isos para. andar. Pode-se dizer que a própria conformação de tais músculos c das partes deterrni. naJas do sistcma nervoso já é por si adequada aos movimcntú8 que andar e atividades semelhantes impõcm. Na .realidade, o pequenino ser hwnano normal está predestinado a andar, não porque os adultos o assistam na aprendizagem, mas porque o próprio organismo, desde o nascimcnto, se não desde o munento da concepção, vem preparado para o dispêndio rle energia nervosa e para as: adaptac:õcs musculares que exige a atividade de andar. Em resumo, trata.se de uma função biológica inerente ao h~

mem.

O mesmo não se dá com u linguagem.

t: evidente que, até certo ponto o indivíduo humano está predestina-

do a falar,

mente na natureza, c sim no regaço de uma sociedade, cujo ('f.('OPO 1"<!cio. nal é chamá.lo para as: suas tradições. Eliminai a sociedade e não haverá dúvida em supor que ele apren.

derá a andar, dado que sobreviva de qualquer

indubitável, porém, que jamais aprenderá

idéias segundo um sistema tradicional. Hemovei agora. o recém.nascidll do meio social para que ele acaba de vir e transplantai.o para um meio

mas em ,irtudc

da circunstância

de não tcr nascido mera.

maneira. É igualmente

isto é, a comunicar

a falar,

12

A LINGUAGEM

completamente estranho. Dcsenvolver~se-á a capacidade de andar' no novo ambiente quase como se teria desenvolvido no ambiente antigo. Mas a fala ficará em completa dif)Cordância com a fala do meio nativo. Andar é, portanto, uma atividade humana geral, que só varia num limite muito preciso à medida que passamos de um indivíduo a outro. j:; uma variabilidade il1".oluotária e sem significação. Falar é uma ativi- dade humana que varia, sem limites previstos, à medida que passamos de um grupo social a outro, porque é uma herança puramente histórica do grupo, produto de um U~ Isocial prolongado. Varia como variam todos os esfor<:os criati\'os - não tr~o conscientemente talvez, mas pelo menos tão evidentemente quanto as l"cligiões,as creol;as, os costumes, e as artes dos diferentes povos. Andar é uma futH;ão orgânica e instinti,'a (embora não seja a bcm dizer um instinto); f31nr é nma função não instintiva, uma função ad- quirida, "cultural", Há um fato que muito tem concorrido para fazer com que se deixe freqüentemente de reconhecer a linguagem como o sistema merainente convencional de símbolos sonoros que na realidade é, induzindo o espí- rito popular n atribuir à ath-idade uma base instinti\"a, que absoluta- mente não exi'ite~ :e a observação muito conhecida de que, sob a pressão de uma emoção, ,sob o acicate de uma dor súbita ou de umlj. alegria irre- freada, por exemplo, emitimo.'i sons que as pessoas que nos oU\'em, in- terpretam como indicativos da própria emoção, Há, entretanto, uma dife- rença cabal entre tais cxprcSfo>õesin\"oJuntárias de sentimento e o tipo normal de comunicação de idéias em que consiste o falar, Aquelas emissões vocais são, com efeito, instintivas, mas também &b não-simbólicas; em outros termos, um grito de dor ou alegria não indica, como tal, a emoção; não se apresenta por si, por as.'iim dizer, para anun- ciar que determinada emoc;ão- está sendo sentida, O que faz é servir rlc escoamento, mais ou menos instintivo, à energia nervosa; nté certo ponto, ê parte e parcela da própria ernot;ão,

Demais, esses gritos instintivos não constituem uma "comunicação" no sentido estrito do termo, Não se dirigem a alguém, e são surpreendi- dos, antes do "que propriamente ouvidos, à maneira do ladrar de um cão, do ruído de passos, do sibilar do vento. Podemos di7.er que transmitem certas idéias a quem os ouve, mas no sentido muito geral com que é lici- to dizer que todo e qualquer som, ou, melhor, qualquer fenômeno, traJH- mite uma idéia ao cérebro humano, Se o grito involuntário de dor, ecn- vencionalmente representado por um "Oh!", pode ser considerado um verdadeiro símbolo de linguagem, equivalente a uma idéia tal comI') "Estou com muita dor", não há como não admitir que o aparecimento das nuvens seja o símbolo da mensagem nÍtida - "Vai provavelmente chover", Ora, uma definição da linguagem assim por tal modo lata, qUI~ inclui todos os tipos de inferência, torna-se sem "alor e sem maior alcance,

Cumpre, além disso, não cair no erro de identificar as nOSSB.':jinter~ jeiçõeS convencionais (como oh!. ah!. psiu!) com os gritos instintivos propriamente ditos,

Essas interjeições fixaram de maneira toda convencional os sons nl1~ turais, Diferem enormemente, portanto, de idioma para idioma, de acor- do com o gênio fonético específico de cada um. Como tais, podem ser

PARTE INTRODlITÓRlA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO

13

consideradas partes integrantes da linguagem, no sentido propriamenw .cultural deste termo, sendo, como são, distintas dos gritos instintivos pro- priamente ditos; da mesma sorte que as palayras cuckoo e killdeer [ou em .português, analogamen~e, "bern-te-vi"l] são distintas dos gritos dos pás- saros por elas representados, e a orquestra~ão da tempestade na ouvertu- Te do ~ui1herme TeU de Rossini não é a própria tempestade.

Em outros termos, as interjei~ões e as palavras de sons imitativo~. na fala normal, estão para os seus protótipos naturais na mesma rela~ão em que a arte, que é uma coisa puramente social e cultural, está para a natureza que lhe serve de tema.

Haveria a objeta); talvez que, embora as interjeições difiram algum tanto de língua para lingua, oferecem, não obstante, impressionantes tra.

ÇOB comuns para que se possa cotuliderá.las expressões de um fundo in~ tinti\'o geral. Mas o problema das interjeições em nada se distingue daquele que nos pode ser proposto ante as várias maneiras nacionais de pintar. Uma pintura japonesa que representa uma montanha, é a um tempo diversa e semelhante, comparada a uma pintura moderna européia sobre o mesmo tema. É o mesmo aspecto da natureza que se sugeriu a ambas e que ambas "imitam". Contudo, uma ~ outra não são a mesma coisa, e ambas. não são a rigor uma expressão direta daquele acidente natural. As duai maneiras de representa<;ão não são idênticas, porque procedem de tradi- ções hist6ricas diversas e foram executadas com diversa t~nica pict6rica.

A interjeição japonesa e a inglesa foram, da mesma sorte, sugeridas por um protótipo natural comum - o grito instintivo, e são inevitavel- mente sugestivas uma da outra. Diferem, por outro lado (muito, 011 pouco, não importa), porque foram criadas com materiais ou técnicas historicamente diycrsas, quais são as tradições lingüísticas, os sistema"l fonéticos e os hábitos de fonac;ão distintos dos dois POyos. Ao contrário, os grito:i instintiYos, propriamente ditos, são pratica- mente id~nticos para toda a humanidade, da mesma sorte que o nosso esqueleto humano ou sistema nen'oso é, em última análise, um trac,:o "fixo" do organismo humano, ou seja um trac;o apenas variáye1 de ma. neira mínima c "acidental". Acresce que as intel'jeic;Õ{'ssão na fala elementos de somenos impor- tância. Valem mais como demonstração de que até êles, inquestionavelmentc os sons da linguagem que mais se aproximam da emissão instintiva, são de natureza instintiva apenas aparenteme.nte. Se fosse possível, portanto, demonstrar que a linguagem, de maneira global, considerada nos seus longínquos fundamentos históricos e psieo. lógicos, provém das int('rjci(~ões, não banria como concluir daí ser ela

atividade instinth-a.

demonstra~ão da origem da linguagem foram infrutíferas. :Não há evi. dência tangível, de ordem histórica ou de outra ordem, que se preste a admitirmos que a massa dos elementos e dos processos da lin~uagem seja uma evolução das intcrjeiçÕ<.'s.Esta" constituem uma porção mínima e funcionalmente insignificante do vocabulário de qualquer língua; em ne. nhmna época e em nenhuma província lingüística até hoje conhecida vi-

::\las, na realidade, todas as tentativ8:-; para uma tal

14

A UNGUAGEM

mos sequer uma tendência apreciável para elaborar.se com elas a trama de fundo da linguagem. Nunca passaram, quando muito, de um debrum decorativo para aquele amplo e complexo tecido.

O que dissemos das interjeições aplica-se. ainda com mais razão, às

palavras de som imitativo. Palavras como whippoOTll.!ill, to mew, to caw [ou, com exemplos por- tugueses, "miar", jjgrugrulejar" 2] não são em absoluto sons naturais que o homem tenha reproduzido instintiva ou automaticamente. São cria~õc.<o do espírito humano, arroubos da fantasia humana, como tudo mais na linguagem. Não nos vieram diretamente da naturezaj foram apenas sugeridos por ela e modulam-na à sua feição.

Por isso, a teoria onomatopaica da origem da linguagem, segundo a qual nós falamos por gradual evolução dos sons de caráter imitativo, não nos conduz realmente a um ponto de partida no instinto, como a ele não nos conduz o exame da linguagem geral hodierna.

A teoria em si não merece mais crédito do que a sua equivalente em

referência às interjeições.

É verdade que certo número de vocábulos que não nos parecem hoje ter valor imitativo, vão relacionar-se a uma forma fonética' anterior que nos leva, com probabilidade, a originá-los das imitações de sons natura i". É o caso do verbo inglês to laugh. [porto "rir"]. Não obstante, é ue todo impos'l>ívelprovar, e não parece sequer razoável supor, que uma propor- ção apreciável dos elementos de linguagem ou qualquer coisa dJ seu me- canismo formal possam ter provindo de uma fonte onomatopaica. Por mais propensão que se tenha, sob o fundamento de certos prin- cípios teóricos, a atribuir importância precípua, nas línguas dos POV<t.i

primitivos, à imitação dos sons naturais, não - é possível fugir à eridência de que essas Hnguas não mostram especial predileção para os vocábulos de origem imitativa. Entre os povos mais primitivos da América aborÍ4 ~ne, as tribos athabáskan do rio Mackcnzie falam idiomas que parecem

quase ou em absoluto prescindir de palavras

em muitos idiomas supf>rcivilizados,como o alemão e o inglês, as onomn- topéiac" são usadas com bastante freqüência. Isso prova quão pouco fi

essência da linguagem depende da mera imita~ão das eois.l~ da natureza. Estamos agora em condições de estabelecer uma definição satisfató- ria da lin~uagem. f~ um método puramente humano e não-instintivo de comunicação de ,-jéias, emoções e desejos por ll1:eiode um sistema de sím- bolos voltmtariamcnte produzidos. Entre eles, avultam primacialmente os símbolos auditivos, emitidos pelos chamados "órgãos da fala". Não há uma base discernÍl,"cl de instinto na fala l;umana considerada como tal, embora muitas expressões instinth-as e a própria natureza ambiente sir- ,"am de estímulo ao desrnvoh.imento de certos elementos lingüísticos, e embora muitas tendências instintivas, motrizes e outl'aS, ofel'eçam um teor oa molde predeterminado à expressão lingüística. Comunica,:õcs, hu- manas ou animais, (se é qUf' mrreccm este nome) decorrentes dos grito~ involuntários instintivos não constituem, a nosso vcr, fatos de linguagem.

Acabo de referir-me aos "órgãos da fala", e pode parecer à primeira vista que isso importa na incoerência de admitir que a fala é uma ativi- dade instintiva, biologicamente predeterminada.

dessa

espécie, -ao passo que

PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO

15

Mas não nos iludamos com essa maneira de dizer.

Não há, a rigor, órgãos da fala; há apenas órgãos que são inciden. talrncnte utilizados para a produção da fala. Os pulmões, a laringe, a

abóbada palatina,

o nariz, a língua,

os dentes c os lábios serycm todos

da

para

fala, da mesma sorte que os dedos não 8<1.0órgãos

joelhos os órgãos da genuflexão religiosa.

esse fim; mas não podem ser considerados

órgãos primordiais

de tocar pinHo nem os

por um ou mais órgão'i

complexa

e ondeante de ajustamentos

órgãos de articulação

comunicação das idéias.

De uma maneira geral, pode-se dizer que os pulmões se "desenvolveram

em conexão com a função vital chamada respiração;

do olfato; os dentes como órgãos úteis para triturar o alimento, ingerido

em condições impróprias para a digestão.

o nariz como órgão

A fala não é uma atividade simples executada

biologicamente a ela destinados. É uma trama extremamente

- e audição -

no cérebro,

no sistema

nervoso,

e nos

é a

em direção ao fim colimado, que

Se, por conseguinte, esses e outros órgãos são constantementc

utili-

zados na fala, é apenas porquc um órgão qualquer, \lma vez existente e na medida em que depende do governo da vontade, pode ser utilizado

em aplicações secundárias.

No que tange à fisiologia, a fala é uma função

I cxcrescente,

ou, para sermos mais precisos, um grupo dc funções excres-

centes. Tira o proveito quc pode de órgãos e funções, ncrvosos e muscu-

lares, que se criaram

à locali7.ação da fala no

cérebro. Isto só pode significar

auditiva

como outras espécies de bons cst~o aí localizados;

tores previstos

na laringe, 08 movimentos da língua necessários à emissão das vogais. 08 movimentos dos lábios neces.'l.ários à articulação de certas consoantes

motriz, preci-

e muitos outros)

das cordas vocais

e se mantªm

para outros fins muito divcrsos.

aludem

É vcrdade que os psicofisiologistas

que os sons da fala estão localizados na região

do cérebro, ou numa parte limitada dessa região, precisamente

na fala

e que os processos mo-

(por exemplo, os movimentos

estão localizados na região da atividade

samente como todos os demais impulsos das di\'Crsas atividades motrizes.

Da mesma maneira, é na região visual

governo de todos aqueles proces.'lo.'l de reconhecimento visual

leitura. Naturalmente,

localização, nas diversas regiões cerebrais, referente a um dado elemento

lingüístico

o aspecto externo, ou psicofísico, da linguagem

locali7.ações aRsociadas, no cérebro e nas regiões nervosas inferiores, sen-

do fundamentais, sem dúvida, entre todas, as locali7.ações auditivas.

é o de uma vasta rede de

l'Rtào ligados entre si por linhas de associação, de ~orte que

da

impostos na

que está localizudo o

do cérebro

os pontos particulares,

ou grupos

de pontos,

Contudo,

um som da nossa fala localizado

no cérebro, mesmo ass0-

",ários para produzi-lo, a mais, ass0-

ciado aos movimentos dOR órgãos fonadores neces

está longe dc ser um elemento da linguagem. Cumpre-lhe,

ciar-se com outro elemento ou grupo de elementos da noSSe'),experiência digamos, por exemplo, uma imagem visual, ou uma cla88e de imagen'i

que possa ter valor lin-

é o con.

tcúdo, 011 "significado"

da unidade lingüística; os vários proces 'IDScere-

~üístico sequer rudimentar.

visuais, ou um sentimento de rela<.:iio -

para

Es.o;e elemento da no~a experiência

16

A LINGUAGEM

brais, como o auditivo e o motor, imediatamente anteriores ao ato de fa- lar e ao ato de ouvir o que .se fala, são como um símbolo complicauo ou um índice desses "significados", fuja essência p.studaremos mais adiante. Já vemos, portanto, que a linguagem, em si mesma, não é nem podo ser Ioealizada de uma maneira definida, pois consiste numa relação sim~ bólica toda peculiar - e fisiologicamente arbitrária _ entre todos os elementos da nossa experiência, de um lado, e , de outro lado, certos ele- mentos ~leciollados. localiza~os nas regiões auditiva, motriz, etc. do cé- rebro e do sistema nervoso.

Só podemos dizer que a linguagem está localizada no cérebro DO sen~ tido geral. e praticamente inútil, com que dizemos que todos os aspectos da nossa consciência, todos os interess<.>se toda a atÍ\idade do homem "residem no cérebro".

Logo, não há outra solução senão aceitar a linguagem como um sis- tema fnncional completo que pertence à constituição psíquica ou "espi. ritual" do homem. Não é possível defini-la em termos psicofísicos, por mais essencial que seja uma base psicofisica para os atos lingüísticos do individuo.

Do ponto de vista do fisiologista ou do psicólogo, pode parecer qu~

é fazer uma abstração precária propormo-nos a tratar do tema da lin. guagem sem referência constante e explícita àquela base.

Mas tal abstração se justifica.

Podemos com proveito tratar da intenção, da forma e da história da linguagem, precisamente como tratamos de qualquer outro aspecto da cultura humana - da arte ou da religião, por exemplo - à maneira .de uma entidade institucional ou cultural, deixando de lado os mecanismoS' . orgânicos e psicológicos que a condicionam, como coisa aceita uma vez por todas.

Fica, por conseguinte, entendido que esta introdução ao estudo da

fala não se preocupa com os processos fisiológicos e psicofisiológicos pres- supostos no ato de falar. O nosso estudo da linguagem não é o da gênese

e operação de um mecanismo concreto; é, antes, um inquérito acerca da

fW1Ção e da forma desses sistemas arbitrários de simbolismo conhecidos pelo nome de ulínguas".

Já aqui observei que a essência da linguagem está em atribuir sons convencionais, voluntariamente articulados, ou um equiYalente desses sons, aos diversos elementos da nossa experiência.

fato lingüístico se apena.':I virmos nele

o efeito aCllStico produzido pelas vogais e consoantes que o constituem

pronunciadas em certa ordem; nem os processos motores e as sensações táteis resultantes da articulação do vocábulo; nem a percepção auditivo. dessa articulação por parte do om;ntej nem a percepção visual do vocá-

bulo na página manuscrita ou impressaj nem os processos motores e as

sensações táteis

.memória de uma dessas ou de todas essas experiências.

que fazem parte do ato de escrever o vocábulo; nem a

O vocábulo "casa" não é um

É só quando ('ssas, c Jlossl\'elmente outras, experiências associada.,;

:se. associam por sua vez com

tomar <1 feição ue símbolo, de pala na, de elemento lingüístico.

a imagem de 11ma casa, que começam <1

PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO

17

.Mas não é suficiente o simples fato de tal associação. Uma pessoa pode ter ou\-ido uma dada palavra numa dada casa 1':TI c;muições impressivas, c desde então, aquela palavra e a imagem daquela casa se associam de tal sorte no seu espirito que a presença de uma na consciência determina a presença da outra. Esse tipo dc associação não constitui linguagem.

A associação tem de ser puramente simbólica; em outros termos,

o vocábulo tem de denotar, anexar a imagem, não tem de ter outra apli- cação senão a de uma fie ha de referência para todas as ocasiões De. cessárins ou conn'llieDtcs. Tal associação, voluntária c até certo ponto arbitrária com.o é, requer um considcrá\'cl exercitnmento de atenção consciente. P<'1o 111N105 nos primeiros tempos, porque o hábito a torna bem depressa quase tão automática como todas as outras associaçõcs mentais e mais rápida do que a maioria delas. :Mas fomo,i, sem querer, um pouco longe demais. Experi~ncia ou imagem auditiva, motri7. ou visual - o. símbolo "easa", se relacionado à única imagem de uma dada casa vista em dada ocasião, tah"ez possa, dentro de um critério indulgente, ser considerado elemento de nossa falaj mas é óbvio desde logo que uma fala assim constituída tem ponco ou nenhum valor para o fim da comunicação entre os homens. O universo das nossas experiências precisa de ser enormemente sim- plific~do e generalizado para que scja possível fazer um im"entlÍrio simbólico de todas as nos.<>asexperiências de coisas e relações; e um in- ventário desses é imperativo para podermos transmitir idéias. Os elementos da linguagem, os símbolos que ficham. a experiência

humana,. de\.em, portanto, estar associadas a grupos inteiros, classes de. limitadas de experiência, que não as próprias experiências individuais. Só assim é possível a comunicação entre os homens: pois a experiência individual, alojada numa consciência individual, é, a rigor, incomuni-

é.lhe necessário ser atribuída a uma c!assc

que a comunidade humana tacitamente aceita como identidade. É assim que wna impressão singular que eu tive de determinada caSll passa a identificar~se com todas as minhas outras impressões a respeito, ante-

riores e posteriores.

Para co~wljcar-se,

E não basta.

É preciso que a minha memória generalizada, que é a minha "noçãol)' desta casa, se dissolva com as noçõcs que todos os outros indivíduoo, que virem a casa, dela formaram. O caso de uma experipncia singular, que consideramos a princípio, ampliou-se agora, portanto, e abarca todas as impressões ou imagens possíveis que seres humanos formaram, ou poderão formar, da casa citada. Esta simplificação preliminar da experiência é, no fundo, a que apresentam um grande número de ele- mentos lingüísticos; a saber, os chamados nomes próprios, nomes de animais'c coisas individuais. t, em última análise, o tipo de simplifi- cação que a história e a arte pressupõem ou têm por escopo. Mas não podemos contentar.nos com essa medida de redução na in- fini<lr.de da expcrii'ncia humana. Temos de ir ao âmago das coisas c amalgalnar massas inteiras de experiências, até certo ponto tiio scm.<"lhantesque nos pC'rmitam - gros-

18

A LlNGUAGEM

seira mas com'cnientcrnentc -

tratá-Ias como idênticas. Considera-se

que esta casa, c mais aquela, c mais 1I1ilharcs de fenômenos análogos ofe-

recem suficientes tra~os comuns, apesar de grandes e óbdas difcrcnC:lls de uNalhc. c classifica-se n todos debaixo de um ml'Srtlo título.

é o símbolo ini-

cial e final, não de uma percep«:ão isolada, ou sequer da noção de Ufficl

coisa particular, la de pensamento, capaz de absorver

tico significante é o símbolo

pode ser interpretado

çjdas entre esses conceitos.

Em outros

termos, o elemento

lingüístiro

"casa"

ma:i de um "conceito",

isto é, de uma cômoda cápsu-

distintas

e

é

mais. Se cada elemento

lingüís-

da nossa fala

que contém milhares de experiências

milhares de outras

de um conceito, o desenrolar

como a apresentação de certas relações estabele-

Tem.ge ventilado

a miúdo

a questão

de saber se o pensamento.

é

possível sem a linguagem;

não são duas facetas do mesmo processo psíquicoo

por

certas incompreensões.

neces-

site, quer não nc(~cssit(' de sim1Jolismo, isto é, da linguagem, a manifes. tação desta última não indica sempre a pref-Clu:a de pensamento. Vimos que o elemento lingüístico típico rotula um conceitoo Kão se scgue daí, porém, quc o uso da linguagem seja sempre ou quase sempre, conceptual.

Na vida comum, preocupam

mais ainda,

se a linguagem

c o pensamento

A qucstão

é tanto

mais árdua

quanto tem sido desfigurada

Preliminarmente,

convém ohsenoar que, quer o pensamento

nos menos os conceitos do que certas parti.

cularidades concretas e rcla~ões específicas. Quando digo, por exemplo

- "Fiz um bom almot;o hoje de manhã",

balhos de um pensanH'uto

mitir não passa de uma lC'mbl o aIH;a agradiivel

da expressão habitual. Cada elemento 'da scnlem;a define um dado con-

combina,:üo dc um e de ou.

ceito, ou uma dada rela<;ão conceptual, ou a

tra, mas a sentença em seu conjunto nüo tcm o mcnor alcance conceptual.

capaz de gerar

na um ascensor, se limitasse a alimentar

é dam

que não estou em tra-

substarlf'ioso, e que o que eu tenho para trans.

que entrou

pelos canais

t como se um dínamo,

a 1'or,:a elétrica

que f.{o\'er-

a campainha de um portão,

O cotejo é mais sugestivo

Pode-se considerar a linguagem um instrumento

do que parece

à primeira

vista, c"'paz de percor-

rer toda uma gama de usos psíquicos. O seu desdobramento não se li.

mita a acompanhar o conteúdo interno da consciência; acompanha~o ~m nh'eis diversos, indo desde o estado mental que é dominado pelas imagens conCl o cta8, até aquele em que só são focali70ados pela atenc:ão os conceitos abstratos e as suas rchH;õcS, () que (,OIlHlrnentc recebe o nome

de raciocínio, Destarte,

psíquica, .varia li-

vremente com a aten~ão

inútil

de vista da linguagem, pode-se definir o pensamento como sendo o mais

apenas

a forma exterior

da linguagem

é con.s-

tante; a significa<;ão interna,

é dizê-lo -

com

o valor ou intensidade

ou o interesse seleti\'o do espírito, o descnvohoimcnto gernl do espírito.

e também - Do ponto

alto conteúdo

latente ou potencinl

da fala,

o conteúdo

que se obtém

com atribuir

a cada um dos elem{'ntos do discurso o seu valor conceptual

não são e,'itri.

tamente eoinci<1clltes. Quando mnito, a ling-uagem pode chegar a ser fa.

ceta externa (lo pellsamento, simbólica o

mais pl('no, Daí s(' seglH~ quc a linguagem e o pensamento

no nível mai~ alto

e gemi da expres.<Ül.')

PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO

19

Para aprCHcntar sob oulra

forma

a nossa doutrina,

digamos que

a linguagem é, primariamente, uma função pré-racion.aJ: Limita-sc com

humildade a ('ntre~ar ao pensamento, nela latente e eventualmente

teriorizável,

ex-

as suas elassifica~ões

c as suas formas;

não é, como ingê-

nuamente se costuma supor, o rótulo final de um pt'nsarncnto concluído.

sem

a linguagem, obteríamos provavelmente es1a resposta: "Sim, mas IlÚO é ('oisa fácil. Contudo, sinto que é possÍ\'cl",

A linguagem é então uma roupagem! . E se fósse, ao contrário, não tanto uma roupagem quanto uma ~. trada feita, um canal! Com efeiro, é mais do que provável que a linguagem seja um ins-

trumento

pensamento tenha surgido de uma interpretação

do lingüístico. Em outros termos,' o .produto descJ1yoh'e-se com o instrumento,

pensamento,

e o

e que o requintada do cor~teú-

Perguntando

à maioria

das pessoas RC lhes é possível

pensar

aplicado,

de início, abaixo

do plano

dos conceitos

na sua gênese e na sua prática

diária, é tão inconcebh'el

sem a

alavanca de um simbolismo matemático adequado. Ninguém supõe que a

sem a linguagem quanto o raciocínio matemático é impraticável

mais difícil, embora, das proposições matemáticas esteja na dependên-

cia inerente

de um jogo arbitrário.

de símbolos; mas é impossível

ad-

mitir que o espírito

humano, sem isso, seja capaz de alcanc:ar e apreen-

ocr uma proposição

de tal ordem.

O autor deste livro está convencido de que a impressão que tem mui-

é uma ilu-

ta gente, de poder pensar,

são.

ou até raciocinar,

sem linguagem

Tal ilusão parece-nos provir de um determinado

O mais simples deles é a incapacidade de distinguir

grupo de fatores.

entre

a eyoca-

ção das imagens e o pensamento. ~ inconte~táyel que tiio depressa tenta-

mos pôr uma imagem em relação consciente com outra,

sentimo-nos ar-

rastados

para

um curso silencioso de palavras.

Pode

ser que o pensa-

mento seja um domínio natural, separado do domír.io

artificial

da fala,

mas a fala parece ser a única

estrada conhecida que nos conduz a ele.

Outra

fonte ainda mais freqüente

de impressão

ilusória

de que a

linguagem

pode' ser posta de lado no ato de pensar, é a incapacidade

que

geralmente se tem, de compreender que a linguagem não' se confunde com

o seu simbolismo auditivo.

O simbolismo auditi\.o pode ser substituído,

ponto

por ponto,

por

u:n. simbolismo motor ou visual (muita gente, por

ler num sentido meramente visual, isto é\ sem o elo intermediário de

uma série de imagens mentais auditivas, correspondentes

por outros tipos.

mais ~utis e fugidios, de transferência, que já não são tão fáceis de definir. Dizer, portanto, que se pensa sem linguagem, porque não se percebem

jmagens mentais auditivas

a firmução válida. l~-nos lícito ir ao ponto de suspeitar

simbólica do

longe de ser uma

exemplo, é capaz de

às palavras

impressas ou escritas),

ou pode ainda ser substituído

coexistentes,

está muito

que a expressão

pensamento pOS8a, em alguns casos, desenrolar-se fora dos lindes da consciência, de sorte que a impressão de um curso de pensamentos estre-

mes de linguagem

é, para espíritos

de certo tipo, relativamente

justifi-

20

A UNGUAGEM

cúvcl, mas só relatiysmente. Em termos psicofísicos, isto significa que os centros mentais audi- tivos. ou seus equivalentes \'isuais ou motores, justamente com as linhns adequadas de associação, que formam. a contra parte cerebral da fala, são tão levemente tocados durante o processo de pensar que não emergem na consciência. Seria um caso limite - o pensamento pousando de leve nas grim-

pr.g ~ubmersas da linguagem, em vez de cingi-las para vir à tona com elas.

A psicologia modernél. tem demonstrado com que pujança o simbo-

lismo trabalha no cérebro inconsciente. É-nos, portanto, mais fácil com-

preender hoje, dú que há vinte anos passados, que o mais rarefeito pen- samento pode não passar da contraparte consciente de um simbolismo lingüístico inconsciente. Ainda uma palavra a respeito da relação entre a linguagem e \) pensamento.

O ponto de ,ista que assumimos, não exclui de maneira alguma fi

possibilidade de ser o crescimento da linguagem em alto grau depen- dente do desenvolvimento do pensamento.

Podemos admitir que a linguagem surgiu pré-racionalmente - de que modo e em que nível da athidade mental não saberíamos dizcr ao certo - mas não queiramos supor que um sistema altamente desenvol- vido de símbolos vocais se tenha "estabeleddo antes da gênese d06 con. ceitos distintos e da faculdade de pensar, que lida com êsses conceitos. ~ antes de crer que os processos de pensar se firmaram, como uma es- pécie de fluxo psíquico, quase com os primeiros tentames da expressão lin. güística; e que, a seguir, o conceito, uma vez definido, reagiu sobre a ,ida do correspondente símbolo lingüístico, incentivando um ulterior cresci- mento da linguagem. Ainda nmos esse complexo processo de interação da liuguagem e do pensamento realizar-se atualmente sob os nossos olhos. O instrumento torna possível o produto, o produto aperfeiçoa o instrumento.

O advento de um novo conceito é invariàvelmente" facilitado pelo

ou menos forçado de um antigo material lingüístico; o con.

, uso mais

ceito não atinge a uma vida individual e independente. senão depois do ter encontrado uma encarnação lingüí!Ztica própria. l'a maioria dos ca. sos, o novo símbolo é apenas qualquer coisa extraída do material lingüís. tico existente, à custa de métodos norteados por prc<:edentes, que se

impõem" ditatorial c esmagadoramente. Assim que possuímos a nova pa- la\Ta, sentimos instintivamente, como que com um suspiro de alivio, que o conceito está em no~as mlios. Só depois de termos o símbolo é que sen- timos também ter uma chave para o conhecimento ou compreensão ime-

diata do conceito. Seríamos tã.o prontos a morrer pela "liberdade", a lutar pelos "ideais", se estas ,duas palavras não estivessem estridulandG dentro de nós? Aliá.'3, a palàna, como bem sabemos, pode deixar de ser uma chave; pode também ser um grilhão " A linguagem é, antes de tudo, um sistema auditivo de símbolos.

Na medida em que é articulada,

também é um sistema motor; maR

êste seu aspecto motor é e,identemente secundário em relação ao audi- tivo. ~os indivíduos normais, o impulso para o discurso parte da esfera das imagens auditivas, e daí se transmite aos nervos motores que go,.ernam os órgãos da fala. Os processos motores e as conseqüentes" sensações motri-

PARTE INTRODUTORIA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO

21

zes não são, contudo, a conclusão, o ponto de parada final. São simple.+ mente um meio de atingir e reger a percepção auditiva, tanto de quem fala como de quem ouve. A comunica~ão, que é o' verdadeiro objeto do discurso, só se efetua eficientemente, quando as percepções .auditivas de quem ouve são vertidas para a série, apropriada e colimada, de imagens, de pensamentos, ou de umas e outros combinados.

fala, na medida em que se pode considerar um ins-

trumento puramente exterior, comec;:a e termina no reino dos sons. A . concordância entre as imagens auditivas iniciais e as percepções auditi. '~8S finais é o selo, a garantia social do. bom êxito do processo executado. Como já. vimos anteriormente, o curso típico desse processo pode

sofrer inúmeras modificações, ou transferenllias em sistemas equivalenteM 1 sem perder com isso os seus genuínos caracteres formais.

Logo, o ciclo da

A mais importante dessas modificações é a abreviação do processo

da fala implicada no ato de pensar. Manifesta-se indubitàvelmlJnte de muitas maneiras, segundo as peculiaridades estruturais ou funcionais de cada cérebro,

O seu aspecto menos modificado é aquele que consiste .no ''falar de si

para si" ou IIpensar em voz alta". Aí, quem fala e quem ouve resumem- se numa s6 pessoa, da qual é licito dizer que se comunica consigo mesma. De maior relevo é a abreviação mais acentuada em que os sons ,vo- cais deixam de ser articulados. A ela se prendem todas as variedade.'f de discurso silencioso e de pensamento normal. Só há excitação dos cen. tras cerebrais auditivos; ou, então, o impulso para a expreBeão lingüís-

tica comunica-se também aos nervos motores que se comunicam com 08 órgãos da fala, mas sofre uma inibição quer nos músculos desses 6rgãos, quer num ponto dos próprios nervos motores; ou, ainda, talvez, os cen- tros auditivos mal são ou não são sequer impressionados; e o proces.~ ua fala manifesta-se diretamente na esfera 'motriz. E deve haver, além desses, outros tipos de abreviação. Quão comum é a excitação dos nervos motores na fala silenciosa, de que não resultam, entretanto, quaisquer articulações visiveis ou au-

vo-

cais, particularmente na laringe, depois de uma leitura excepcional- mente estimulante ou de um estado de reflexão intensa. Todas as modificações até agora consideradas estão diretamente amol- dadas ao processo típico da fala nonos!.

De maior interesse e importância é a possibilidade de transferência de todo o sistema do. simbolismo lingüístico em têrmos outros que não

os pressupostos no ato típico de

Esse ato, como ,;mos, é a execul).ão de sons e de movimentos destina- dos a provocar tais sons, Não entra em jogo o sentido da visão. Suponhamos, porém, que não se ouvem apenas os sons articulado", mas também se vêem as próprias articulal)ÕC8 à medida que o interlocutor as executa. Evidentemente, uma vez atingido um grau suficientemente alto de destreza na p(>rcep~ão desses mO"imentos dos 6rgãos da fala, está aberto o caminho para novo tipo de simbolismo lingüístico - aqu~- te em que o som é substituído pela imagem das articulações que o pro- duzem. Essa espécie de sistema não tem maior valor para quase todos nós, que possuímos o sistema auditivo-motor, do qual é ela, quando

cliveis, nos prova a nossa sensação freqüente de fadiga nos 6rgãos

falar.

12

A LINGUAGEM

muito, uma tradução imperfeita, de vez que nem todas as articulações são visíveis. Ninguém ignora, entretanto, que excelente serviço presta 806 surdos-mudos a arte de "ler pelos lábios", corno método subsidiário para aprenderem a falar.

O mais importante de todos os simbolismos lingüistic08 visuais é, in-

discut'ivelmente, o do vocábulo escrito ou impresso, a que corrc' sponde, na esfera motriz, o sistema de movimentos delicadamente ajustados que I'c"iultam na escrita, na dactilografia e em outros métodos gráficos de exteriorizar a linguagem.

O traço significativo que caracteriza es.<;esnovos tipos de simboIi!{-

mo, além da peculiaridade de não serem um subproduto da fala nor. mal propriamente dita, é que cada elemento (letra ou vocúbulo gráfico),

no sistema, corresponde a um elemento específico (som, grupo sonoro, ou vocábulo pronunciado) no sistema primário.

A linguagem escrita, para empregarmos uma frase matemática, é

assim uma equivalência termo a terInO da sua contra parte falada. A:J formas escritas são símbolos ~undúrios das formas faladas - sim- bolos de outros s.fmbolos - mas, não obstante, é tilo exata a ~orl'E~spon. dência que se podem substituir inteiramente aos outl'OS, não apenas em

teoria,

talvez em certos tipos de reflexão mental. Apesar de tudo, é prová ••.el que as associaçõcs auditivo-motrizes persistam latentes pelo menos, isto é, entrcm inconscientemente em jogo. Até as pessoas que lêem c pensam sem em nada apelar para as imagens sonoras., não prE'scindem, em última análise, daquelas associações. Estão apenas manuseando o meio circulante, a moeda dos símbolos visuais, como um substituto cômodo dos bens c scnif,os econômicos, que são os sím- bolos 811ditivos fundamentais.

As possibilidades de transferência em linguagem são praticamente ilimitadas.

mas ainda na prática atual dos que só lêem com os olhos, e até

Exemplo vulgar é o côJigo telegráfico

~Iorse, em que as letras da

palavra escrita são representadas por uma seqüência convencionalmente estabelecida de pancadas longas e breves. Aí a transferência parte mais da palavra escrita do que diretamente dos sons vocais. A letra do cc)

digo telegráfico é, portanto, um símbolo do símbolo de um símbolo. Disso não se conclui, naturalmente, que o operador ade.strado, a fim de chegar à compreensão da mensagem telegráfica, tenha de transpor a seqüência

individual das, pancadas na

imagem visual do vocábulo, para, em se-

guida, mauifcstar.sc-Ihe a imagem auditiva normal. O método exato de ler mensagens telegráficas muito ,'aria, sem dúvida, com o indivíduo.

:f; até concebível, se não a rigor provánl, que certos operadores, no qUf!

tange

pelo me,nos à parte consciente do ato, tenham aprendido a pensar

. diretamente em termos de um simbolismo de pancadas metálicas, ou, se têm por ventura forte propens~o natural para o 8iJnbolismo motor, em termos de um simbolismo tátil-motor correlato, ue!oien\"olvidocom a prática de despachar as mensagens. Outro inte~es-<;ante grupo de tipo,; de transferência lingüístic-a é I) das diferentes linguagens de gestos, para uso' dos surdos-mudos, dos mongt' trapistas .votados a silêncio perpétuo, GU de interloeutor('s que se defrontam fora do alcance da voz.

<;

PARTE INTRODUTÓRIA, LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO

23

Alguns desses sistemas são equival~ncias termo a termo da fala

normal;

mímica dos Índios uas planuras norte.amP-l'i('anas

outros, ('orno o simbolismo

dos gestos militares

ou a linguagem

por

(compreendida

tribos que falam línguas mutuamente inilJteligÍ\'cis). são transferência imperfeitas, que sc limitam a apresentar certos elementos lingüístic.o':l de maior monta, mínimo indispensável para a~ circunstâncias críticas.

Xestes últimos sistemas, bem como nos simbolismoR ainda mais imper-

que a lingua-

feitos que s'e usam no mar ~u nas selvas, poderia

parecer

guem já não entra propriamente

em ac,:ão, c que as idéias são diretamente

transmitidas por um processo simbólico perfeitamente distinto ou por

um método de imita~ão quase instintiva.

A intcligibilidade

eles se traduzem automaticamente fala plena.

Seria errônca ta! ionterpretação.

porque

da

desses simbolismos

tão 'lagos, só é explicável,

para

c silenciosamente

().•~ termos

Resta, portanto, concluir que toda comunicação voluntária

de idêias,

feita fora da fala normal,

ou é uma transferência

direta ou indireta

d'J

simbolismo típico da lingungem

que se fala e se ouve, ou pressupõe

pelo

menos a ação intermediária

do vcrdadeiro

simbolismo lingiiistico,

Ai cstá um fato da mais alta importância.

O jogo

das imagens

auditivas

c das

correlatas

imagens motrize.'i

que seja o desvio de

c de todo pen-

que conduzem à articula<:áo, constituem,

processo adotado, nascente histórica de toda linguagem Mrnento.

qualquer

E ainda

A facilidade

há outro

ponto de maior importánC'ia,

com que o simbolismo

da fala se transfere

num c nau.

tro sentido,

merOS sons ,'ocais não são o fato essencial da linguagem, ('on.<;i~tindo toste,

mais propriamente,

conceitos.

outra,

de uma ti'<.'nica para

Mais uma

está por si só indic:mdo

que os

na dassificac:ão, vcz, a linguagem,

na modelagem

como ~strutura,

e na r;cria'.:ão dos mostra

ser, na

sua face interna,

o contorno do pensamento.

f~ esta lillg"n:Ig'('m ahstrata, mais do que os fatos 'físicos <la elocução,

que nos interrssa

rTll nosso inquérito.

 
 

Não há fato geral mais rele\"ante

('111 referência

à linguagem

do que

a

sua uni\"crsaljdadr.

 
 

Pode-se

pôr ('In dúddn

que uma ou outra

tribo se entregue

a ati.

\'idades

povo que núo p0'ilõlla uma língua plenmnelltc

di::;nas do nome de religião ou de arte, mas não sc sabe de nenhum

d('sell\"ol"idn. O ínfimo bo~

xi mano sul.afri('&no rxprime.se

nas 'formas

de um rico sistemü

lin~üís.

tico, perfeitamente

comparável

em essência

à fala

dos civilizados

fran.

ceses. Não é preciso

dizer (IUe os conceitos

reprrscntados

mais abstratos

não são a ri.

gor tão luxuriantemente

na linguagem

do homem

selva,

gem, bem como lhe faltam

a rica

termino~ogia e a sutil delimitação

de

matizes

que slio o reflexo

de uma

cultura superior,

)las

essa espécie de

desenvolvimento

lingüístico

que acompanha

o crescimento

uma cultura

e Que, nos seus últimos

estágios, costumamos

histórico de associar com

a literatura,

é, a rigor,

qualquer

coisa de artificial.

 

o material básico da linguagem

- o desNlVolvimento

de sistema

fo-

nético

nitido, a associação específica

dos. elementus

vocais

com os con~

ceitos,

e a provisão

delicada

de expressões

formais

para

toda sorte

de

relações -

tudo

isso se nos depara

rigidamente

rl'aliznJo e sistematiza.

24

A LINGUAGEM

do em qualquer língua conheeida. Muitas línguas primitivas possuem, aliás, uma riqueza de formas e uma luxuriância latcate de expressões quo eclipsam tudo o que se conhece nas línguas de civilização moderna. Atá no simples setor do inventário lingüistico, o leigo deve-se preparar para estranhas surpresas. Não passa de um mito a afirmação vulgar de que as línguas primitivas estão condenadas a uma extrema pobreza de expressão.

Não é menos notável do que CSSJl universalidade da linguagem a sua quase incrível diversidade.

francês ou alemão, ou melhor

Aqueles dentre n6s quP. estudaram

ainda, latim ou grego, sabem que formas variadas pode assumir um pensamento. As divergências formais entre o modêlo inglês e o latino são, entretanto, comparativamente insignificantes diante da perspectiva do que conhecemos de mais exótico nos inúmeros modelos lingüísticos do presente e do passado.

A universalidade e a diYersidade da fala conduzem-nos a uma in. ferência significativa.

Forçam.nos a acreditar que a linguagem é uma herança imensa- mente antiga da raça humana, sejam ou não sejam todas as suas va~ riantes desdobramentos hist6ricos de uma única e pristina forma. ~ du. vidoso que outra qualquer aquisição cultural do homem, seja ela a arte de acender fogo ou a de lascar pedra, possa proclamar maior vetustet Inclino--me a crer que precedeu até os aspectos mais rasteiros da cultura material, e que eles, na realidade, não foram estritamente possiveis até o momento em que se delineou a linguagem, instrumento da expressão sig- nificativa.

ao Capítulo 1

1.

[KiUdeer é o nome de um pequeno pássaro norte-americano,

del'lconhecid.,

entre nós (acg1oHlfl6 voci/enu). E'spkie de "tarambolo". Cuckoo corrE'Sponde ao por- tugnê .• "cuco", que nlio é, entretanto, como o nom4't inglês, uma criação onomatopai. e& direta, derivandO-lIe do latim cuculu-. Pareceu-ROl' &eoll8elhãvel btUlC&t um e.zem. pio nosso com pleno valor ilUltrativQ.]

2. [Os exemplos do original inglês são: whipPQOf'wilJ (pãssaro norte-umf'rican<>,

oaprimulgw

~ onomatopéia direta, pois vem do latim CT'ocitare). Na exemplificação em port'J- guês obedeceu.se ao critério exposto Da nota anterior. I

1Jooilerw), to mew (port. "miar")

e to ('4U) (port. ugra

snar",

que nli.o

2.0s Elementos da Fala

nos referimos

dendo sob essa expressão

nome de "palavras"

t'sses elementos c familiarizar-nos

mais de uma vez aos "elementos

da fah",

enten-

tem

o

grosso modo, aquilo que geralmente

ou "vocábulos';1. Cumpre-nos alentar melhor para

com a matéria-prima da linguagem.

O mais simples elemento

da fala, -

c por "fala" entenderemos

da-

qui por diante o sistema auditivo do simbolismo ling-üístieo, a corrente

das palavras pronunciadas -,

adiante,

resultado de uma série de ajustamentos le correlatos, dos órgitos vocais.

é o som uno, embora,

como '"eremos

senão o

o som não seja em si mesmo uma estrutura

indepcndentrs,

simples,

mas mtimamen-

Xão obstante,

o som simples

não é a rigor

um elemento

da fala,

porque

a fala é uma função

significati,'a,

e o som, considerado

em si

mesmo, não tem significação.

Pode acontecer elcm('nto significativo

ou do latim

o som e o termo

muitas vezes na realidade

tados

riamente

mente. Se a linguag-em é uma estnttura e os seus elementos significativos

os tijolos que a eompõcm, os

o barro informe

quc um som simples

significativo.

histórica

forma ••. reduzidas

venha a ser isoladamentc

a "tem"

um e à "para",

(como, no caso do francês

mas trata-se

dc

E isto não apenas

i ''''ai''),

uma coincidência fortuita entre

cm teoria,

mas até

do fato; é assim que os exemplos ci-

de grupos fonéticos origina-

vêm a ser meras

mais longos -

latim habet e ad, e indo-europeu ei respectiva-

sons vocais podem ser comparados com

e cru de que se fazem os tijolo.'S.

Neste capítulo, portanto, não nos preocuparemos considerados como tais.

mais com os sons

Os elementos verdadeiramente

signifieati,'os

da linguagem

são cm

geral seqüências de sons, que tanto podem constituir

tes significativas

distingue cada um desses element03 é que ele representa

de uma idéia específica,

ccrto número de conceitos ou iml1g-ens nitidamente ligadas num todo.

palavras como par-

O que

de palavras,

ou, ainda,

grupos de palavras.

uma imagem

o sinal externo

una,

ou

seja um eOilceito uno,

28

A UNGUAGEM

A palavra propriamente

dita pode ser ou deixar de ser o elemen.

to significativo mais simples que se nos depara.

Das pals\Oras inglesas sing, [verbo l/cantar"] si'ngs, {llele canta"L sin- ging, ["cantando"] singe,', ["cantor"], cada uma transmite uma idéia per- feitamente definida e inteligível, embora seja uma idéia solta e , por isso, funcionalmente, sem valor prático:

Reconhecemos imediatamente que tais palavras são de duas espé- cies. A primeira, sing, é uma entidade fonética indivisível, que transmi-

te a noção de determinada ath;dade específica. As outras três pressu-

de

outros elementos fonéticos, a noção sofre uma torsão que a modifica ou lhe dá delimitsl1iio mais precisa. Representam, em certo sentido. con. ceitos compostos que ~ecorrcm do conceito fundamental. Podemos, por conseguinte, analisar as pala'\'ras sings, singing e singer como expressões bi- nárias que encerram um conceito básico, um conceito de "assunto" (sing). e, a mais, um concC'itode ordem mais abstrata - de pessoa, de número,

de tempo, de func:ão - ou um grupo desses conceitos reunidos.

põem a mesma noção fundamentalj mas, em virtude do acréscimo

Se simbolizarmos um termo do tipo sing pela fórmula algébrica A2,

teremos de simholizar têrmos como sings e singer pela fórmula A + b.

O C'lC'ml'nto.1 tanto pode Rer uma palavra independente e completa

(sin!}) romo a substimcia fundarnrntal, a chamada raiz, tema! ou "ele- mento radica}" (sill[}-) de uma pnlana. O elemento b (-s, -ing, -er) é o índice ue um conccito subsidiário e em regra mais abstratoj pode-se dizer que acresc('ntn ao cOllceito básico uma limitação formal, dando- IolC à palavra "formA.t, o s<'u alcance mais lato. Podemos chamá-lo um

"('!('nwnto g-ramatical"' ou afixo.

Como vcremos mais adiante, o elemento gramatical, que será me- lhor, a rigor, denominar Hincremento gramatical", pode não vir sufixado

ao radical. Pode ser um elemento prefixado (como U1l- valor negativo, de

unsingable), pode inserir-se no próprio corpo da raiz (como o n. do latim vinco, OIvenço",em contraste com a sua ausência em vid, uvenci"), pode ser uma repetição completa ou parcial da raiz, ou pode consistir em alguma modificação na forma interna da hLIZ (mudança de vogal eomo em sung e $ong 4 ), mudança de consoante eomo em dead, [porto II mo rto"]

e death [porto "morte"]; desIocação de acento; abreviação posterior.

Esses diversos espécimes de elementos e modificações gramaticais afere. cem uma peculiaridade comum: não poderem na maioria dos casos ser usados isoladamente, mas ao contrário precisarem de qualquer maneira adaptar-se ou soldar-se ao radical para transmiti!' uma noção inteligf-

ve1.

É melhor, portanto, modificarmos a nos.<;afórmula A + b para

A + (b),

indicando os parênteses a incapacidade de ter o elemento

vida separada. Além disso, o elemento gramatical não se limita em ser inexistente quando não cstá asso~iado a um radical j tem a mais a peculiaridade de

em regra dever a medida de sua significa~ão à classe particular do elemento

radical a que se juntou. ~ as.qim que o -$ do inglês he hit$ [port. <lele acerta o alvo", com a desinência $ da 3,. pessoa do singul3r) simboliza noção muito dh-ersa do -$ de book$ {porto Hli\"ros", com a desinência -s do plural), simplesmente porque hit e book têm classifica,:ão diversa

os ELEMENTOS DA FALA

29

quanto à sua função. [O mesmo podemos dizer, por exemplo, em por- tuguês do a final de "canta" verbo "cantar", e do a final de " ga ta" oposto 8 "gato"].

Apressemo-nos a salientar, por outro lado, que, sc é verdade que

o elemento radical pode uma vez ou outra identificar-se com uma pala-

vra, não se segue daí que possa sempre, ou habitualmente sequer, ser usado como palavra. Assim, hort., jardim, de formas latinas como hortus; horti, e horto, é uma abstração tão inegável, apesar de apresentar um al- cance mais facilmente aprec.nsivel, quanto o sufixo -ing de 8ÍlIgillg.

Nem um D.,em outro existem como elemento lingüístico, independente- mente inteligível e satisfatório.

Logo, tanto o radical propriamente dito como o elemento gramatical &10 apreendidos, cxclush-smentc, por um processo de ab~tra<;ão. Pare. ccu.n08 con,-enicnte indicar sing-cr por A + (b); hortus deve ser, pois, indicado por (.1) + (b).

Até aqui, a palsna foi para nós o único elemento lingüístico e~- contrad{\ cuja existência possamos afirmar. Antes de dcfini.la, entretan. to, convém examinar "mais de perto essa espécie de pa~avra ilustrada por sing_ Teremos realmente razão para identificá-la com o elemento radi- cal? Representa realmente ela uma correspondência simplcs entre o COIl.

que deduzimos de

sings, singing e singe,' e a que podemos com exatidüo atribuir um valor conceptual geral e im'al'iáyel, será o mesmo fato lingüístico da palan'a sing'

Seria quase absurdo pô-Io em dúvida; mas, não obstante, basta uma ligeira reflexão para mostrar que a dúvida é de todo justificável.

A palavra sing não pOde, como ninguém ignora, ser usada de tal maneira que só se refira ao seu conteúdo conceptua!. A existência de formas tão evidentemente congênitas como sang e sung indica, ao pri. meiro relance, que sing não se refere ao passado, mas que, ao contrário, pelo meo.os em grande parte do seu âmbito de aplicação, sc circunscreve ao presente. Por outro lado, o uso de sing como infinith-o (em to sing, por exemplo, ou em he will sing, [port, IOcan tará"]li indica haver firme

e forte tendência para. se dar à palavra a irrestrita amplitude de um

conceito específico. Contudo, se sing fosse, com exatidão, a expressão as- sente de um conceito invariável, não haveria lugar para as aberrações vocálicas que se nos deparam em sang, sung e song, nem iríamos encon. traI' sing usado espcclficamente para indicar o tempo presente em todas

as pesso~, exceto uma (a terceira pcssoa do singular sings). O fato real é que sing é uma como que forma crepuscular de brilho vago, entre a posi~ão de verdadeiro elemento radical e a de palavra se. cundária do tipo singing. Embora lhe falte um sinal externo para indi- car que ela traz em si mais do que uma idéia abstrata, sentimos que pesa sobre ela. uma névoa incerta de valor acrescido. A fórmula A não pare- ce representá.la tão bem quanto .•.i + (O).

('cito C a expressão 1ingüística~ Açuele elemento sing.,

Temos a tcnta<:ão de dizer que sing pertence ao tipo A + (b) eom

a ressalva de que a parte (b) se esvaÍu. E não estaríamos fantasiando,

porquanto a evidência histórica prova, com tôda a segurança, que sing

foi de início uma porção de palavras completamente distintas, do tipo

30

A LINGUAGEM

A + (b), que mergulharam

na nova forma eom valores separados. A

parte

(b)

de cada uma perdeu-se

como elemento fonético tangível;

mas

a sua força persiste, atenuada embora. Sing de I sing é o correspon-

dente ao anglo-saxão

sing, a sing.

Desde a derrocada

singe; o infinitivo

sing, a singan,' o imperativo

da morfologia

inglêsa, ocorrida

ao tempo da Con-

quista Normanda, a nossa língua tem-se posto à cata de simples pala-

vras-conceito,

criá-las,

estremes de conotações

em relação

formais,

mas ainda

não conseguiu

ele-

salvo talvez

a certos advérbios

soltos e outros

mentos des.om ordem.

Se o tipo de palavra indccomponÍnl

da nossa língua fosse realmente

uma palavra.conceito

de transição

seriam comparáveis

Hnguas lS

O correspondente

vel. /lamot significa

pura

(lipo AL em vez de ser de um estranho

radicais de numerosas

nutka f

tipo

de outros termo~

A + (O), sing, work. house, e milhares

às genuínas palavras

ao acaso, a palavra

outras

Tal é, por exemplo

hamot. ~'osso". lhe é compará.

inglesa

termo inglês bone só superficialmente

"osso"

em sentido

indefinido;

à palavra

adere a noção do número singular.

O Índio

nutka

poderá transmitir

a

idéia de pluralidade

de várias maneiras

se quiser,

mas não lhe é pre.

ciso; hamot serve para

o singular

e para

o plural,

desde quc. não haja

interesse em assinalar

a distinção.

Ao contrário,

tão depressa dizemos

bone (sal .••.o no uso secundárjo

"faca

damos a entender,

só. E esse incremento de valor é tudo.

para indicar

matéria)

a natureza

[cf. em português

do objeto;

ma~

de um objeto

de ossoltL não especificamos

quer queiramos

apenas quer não, que se trata

Conhecemos

agora quatro

(nutka hamot);

(A)

+ (b)

(latim

A

+

IlOrI1ls).

(O)

tipos formais distintos

(sing, bone);

,1

+

de pala\T3s:

(b)

(singing);

.•1

Só há, a mais, outro tipo fundamentalmente

se está

('l~ pé")

independentes

po&-;ívc!: A + R, reu-

num só termo. Tal é o caso

nião de dois ou mais radicais

de {ire-enginc [porto "bomba de inc(.ndio"]

em pé")

que

elementos radicais se torna funcionalmente

assume o caráter

lente a eat-stand ("comer-ficar

ou uma

(i. e, "comer

forma

siú equiva.

em

um dos

que no caso da

no momento

que

ao outro

Acontece, freqüentemente,

porém,

tão subordinado

Podemos servir-nos

de elemento gramatical.

fórmula

.ti + b, tipo que gradualmente,

pela perda

da conexão externa

entre o elcnwuto ~ubordinado

b e a sua contraparte

 

independente

R, pode

confundir-sI"

mais comum

.ti

+

(b).

Uma palavra

como

beautiful

com o tipo {port. "formoso"]

(ao pé da letra,

"cheio de beleza")

é um

exemplo

{uU, "cheio"]

homely ["singelamente"],

g-u~m a n:1o ser um ent('ndido

e a palavra independente

de Li + b, visto quc a terminação

-{ui [variante

do adjetivo

mal pl'('senll o sinete da sua linhagem.

ao contrário,

dc

like [da

Uma palavra ('orno

pois nin-

entre

.ly

entre a

é do tipo l1 + (b),

lingüística pf'r('cl~ a conexão mesma sorte ql1{', em português,

terminação

adverbial

.mente e o subs.tantivo mente, cérebro].

 

É claro que, na prática,

esses cinco ou seis tipos

fundamentais

po-

dem indefinidamente

complicar~se de várias maneiras.

O

elemento

(O)

pode ter \.8101' múltiplo;

em ontro~ termos,

a mo.

os ELEMENTOS DA FALA

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diíicação formal, iner('nte à noc,:ãobásica da pala na, pode referir-se a mais de uma categoria. i\um exemplo tal como o latim cor, "corac,:ão" não há a simples transmissão de um conceito concreto, pois aderem ao \'ocáb