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Laura Caelestis
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Sobre o Presente Trabalho
O título do lívro é um jogo de palavras entre meta, por causa de meta-meta, termo que
no Brasil é utilizado para designar orixás que, segundo as tradições religiosas afro-
brasileiras, apresentam duplicidade de gênero, geralmente Logunede e Oxumare, e o
prefixo da palavra metafísica que as vezes é usada no sentido de ‘relativo ao mundo
além físico’, além da matéria, do universo material.

Originário da obra de Aristóteles, onde foi empregado no título de um tratado dedicado


a questionar e analisar questões a respeito da existência, da natureza da realidade, se
referia à uma coleção escrita após a coleção intitulada Física, o “Dicionário UNESP de
Português Contemporâneo, o define como, “(Filos) doutrina que tem por objetivo o
conhecimento do Absoluto, as causas do universo e o próprio conhecimento. Segundo Aristóteles,
filósofo grego (388-322 a. C.), investigação daquilo que vai além da experiência sensível e é
capaz de oferecer o fundamento de todas as ciências pela reflexão sobre a verdadeira natureza
do Ser.” (Op. Cit. Francisco da Silva Borba, 2005:914).

O que é metafísico/espiritual? Será o que está além do que se pode perceber


naturalmente por meio dos sentidos físicos? Ou o que escapa às capacidades sensoriais,
mas é observável com o auxílio de algum meio como um telescópio, ou de um estado
extraordinário de consciência? Se existe espírito, ele é material porém ainda
desconhecido científicamente? Ou seria apenas fruto da imaginação humana?

Não é o propósito deste trabalho “oferecer o fundamento de todas as ciências”, nem


estabelecer qual seria “a verdadeira natureza do Ser”. Mas ainda assim tanto o sentido
aristotélico quanto o contemporâneo são de certa forma apropriados para se
interpretar seu título, pois seu objetivo é responder questões e encontrar verdades a
respeito de um ser ou personagem, Logunédé, buscando compreendê-la em sua
totalidade, e as vezes traçando paralelos entre as experiências das narrativas em que o
mesmo figura e a experiência humana.

Caçador (a), guerreiro (a), filho (a), e ser, todas essas categorias são, quer em sentido
figurado ou literal, aplicáveis a todos os seres humanos, e todas elas são contempladas
em Logunedé.

Algumas das questões que motivaram o estudo dos temas aqui apresentados são:

 Quem são os orixás?

 Quem é o orixá Logunédé?

 Como ele é visto no contexto Yoruba nativo?

 O que têm em comum as visões brasileiras e yorubanas a seu respeito?

 Quais são seus principais atributos?

 Qual a relevância de um orixá guerreiro e caçador na contemporaneidade, na


vida de pessoas em que a crença no espiritual, a guerra e a caça não fazem parte
da realidade?

Tentarei respondê-las sempre com base na rica cultura tradicional Yoruba, com enfase
nos temas presentes na história de Logunedé, como ecologia, pedagogia,
desenvolvimento pessoal, relações familiares e comunitárias, etc.

Espero que o leitor faça uma jornada tão estimulante quanto aquela feita por mim
durante a pesquisa.
Agradecimentos e Dedicatória
Meus sinceros agradecimentos à todos que contribuíram para o estudo sobre
Logunedé:

 Aos autores: Pierre Fatumbi Verger, Karin Barber, Sikiru Salami King, Thomas
Makanjuola Ilesanmi, Ayo Salami, Profa. Paula Gomes.

 Aos amigos: Rodrigo Ribeiro Frias (do Oduduwa Templo dos Orixás, Brasil),
Awo Orilana Esudina Ẹ̀dẹníyì (Luis Emilio Marin, EUA), Oturagansa
Abiodun Ifagbemi Osunremi (Oluwo Oturagansa/Osunremi Farinu, Nigéria),
Ifalomo Babatunde Oyabiyi Olosun (Falowo Babatunde Yemi, Nigéria),Ifadare
Ikusaanu Akanbi (Nigéria), Ajibola Osunfunke Efuntolase Yemisi (Nigéria),
Lukman Alade Fakeye (Nigéria), Omoriyeba Silifatuu Lasisi e Mopelola
Osunfunmike Oladejo (ambas Iyalode Osun Logunede Ibadan).

 A todos que preservaram e transmitiram as tradições dos orixás, mesmo em


terríveis circunstâncias de guerra e escravidão. Se estes períodos que são o ápice
da dificuldade na existência humana não conseguiram fazer que os orixás
fossem esquecidos, sem dúvidas eles são muito preciosos.

 Por fim, mas não menos importante, à todos os seres humanos de disposição
fraternal, este livro é dedicado.

Como indica o idioma falado em sua liturgia Logunedé é um ser espiritual venerado
original ou principalmente pelos Ijexá, um subgrupo étnico Yorùbá, nação da África
Ocidental, na atual Nigéria, mas seu destino o fizera conhecido além do continente
africano, e hoje ele é verdadeiramente um orixá amado e adorado por pessoas de muitas
nacionalidades, heranças étnicas e origens culturais. Como diz um verso da poesia
laudatória (oriki), "Ologunede Oporolika", Logun naturalmente se propaga por toda
parte.
Introdução

Religiosidade
Yoruba
e Terminologias
Quem são os Orixás?
Os orixás são uma categoria de seres espirituais na cosmovisão Yoruba, na qual todos
seres vivos possuem partes espirituais, incluindo os humanos, outras espécies animais, e
plantes, e até mesmo fenomenos da natureza são considerados dotados de espírito.

Todos os espíritos são originários do Orun (o além morte e o pré nascimento) e tudo o
que existe na natureza (o Aye) é fruto do poder de criação dos orixás.

As religiosidades que centram nos orixás visam promover a interação cordial entre os
seres espirituais benevolentes que estão no orun e os seres humanos. Dentre os meios
pelos quais eles interagem, os mais conhecidos da literatura são os oraculos que através
de um padrão apresentado pelo lançamento de algum objeto remete à textos específicos
de um corpus literário, e esta remissão é resultado da manipulação da divindade que
presida o oráculo em particular. Há outros meios através dos quais os seres de uma e
outra dimensão interagem, como por mensagens apresentadas em de sonhos e transes,
que podem ser interpretadas por alguém experiente nessa tarefa, inclusive por meio
dos diversos oráculos conhecidos por eles.

A palavra Orixá é uma das muitas denominações tradicionalmente empregadas por


alguns dos diversos subgrupos étnicos Yoruba para designar seres espirituais
poderosos e benéficos ao ser humano. Algumas denominações para estes seres são, ou
eram, exclusivas de um destes subgrupos, tendo a partir de algum período se
popularizado entre os demais (Ilesanmi, 1991).

E quem são os Orixás? "Deuses" é uma tradução apropriada, mas um tanto simplista
pois não esclarece sobre as idéias que os Yoruba possuem sobre o divino, sobre o que
para eles é digno de adoração.

Muitas versões de mitos que visam explicar quem são os orixás e o que esta palavra
significa são conhecidas pelos Yoruba e foram publicadas na literatura.

Em Myths of Ife, de John Wyndham (1921:16), consta a história da primeira guerra a


acontecer no mundo, motivada pela posse de uma "bolsa de conhecimento e artes da
Sabedoria para o bem-estar e progresso do homem", dada por Aramfe (sic. Oramfe) a
Orisha, cobiçada por Oduwa, a disputa pela posse do objeto declara a preciosidade de
seu conteúdo, a Sabedoria dos conhecimentos e das artes é cobiçada pelos deuses.

Conhecido na diáspora brasileira é o mito que relata como Oya/Iansã usou seus ventos
para espalhar as folhas que eram propriedade exclusiva de Osanyin, um deus que detém
o conhecimento da botânica Yoruba, de modo com que todos os outros orixás
pudessem pegar uma ou mais folhas fazendo com fossem distribuídas entre todos os
orixás.

A noção da obtenção de conhecimento como o mais louvável ato e também a possessão


do mesmo como o que faz os homens procurarem os deuses também existe no mito
publicado por Frobenius sobre como Exu estabelecera o oráculo de Ifa (Frobenius, The
Voice of Africa Vol. I, tradução de Rudolf Blind para o Inglês, 1913, pág. 229).
Olawole publica a seguinte versão etimológica: "No princípio, quando a Soberania
Celestial lançara na terra a sabedoria, aqueles seres espirituais que sucederam em adquirí-la (ri-
sa) são conhecidos como divindades ou deidades (O-RI-SA) até hoje." Nígbà tí O̩ló̩rún da
ó̩gbó̩n sí'lé ayé nígbà iwase, àwo̩n ti o rì s̩à ni a npè ni òrìs̩à títí òní. (Art and
Spirituality: The Ijumu Northeastern-Yoruba Egungun, Olawole Francis Famule, 2005:57;
diacríticos ausentes no original, adicionados por mim). Embora a presença de palavras
similares entre outros povos da região sugere uma origem pan-africana, anterior à
diversificação étno-linguística ou então a disseminação de uma idéia a partir de algum
povo que não podemos especificar. Entre os Yoruba temos Orisa e Yemowo ou Orisa e
Oduduwa, entre os Ewe e os Fon temos Lisa e Mawu, entre os Igbo temos Olisabuluwa
(ou Oseburuwa), etc.

A divindade pessoal do ser humano, e sua parte divina, análoga ao genius/daemon


Greco-romano é descrita num oriki como, Ọba òtọwọ́-bọjà-fa-ohun-rere-yọ fúnni
lorúkọ ti a npe ẹ́lẹ́dáa ọ́run orí ẹni / A autoridade máxima que vai ao
mercado (mundo) para trazer coisas boas (George E. Simpson, 1980:39), este é um
louvor ori e nele vemos que a consciência é responsável pelas boas aquisições do
indivíduo, a palavra ori designa cabeça, a sede da consciência para os Yoruba e existe
como uma entidade espiritual, nos seres encarnados existe como ori inu (a cabela
interior) e ori ode (cabeça exterior, ou física). É notável a semelhança entre a tarefa
realizada pelos seres espirituais na explicação do significado do termo orixá publicada
por Olawole com a definição de ori neste oriki, ambos são agentes que vão ao mundo
para adquirir algo bom/útil.

Assim, ori enquanto consciencia individual e orixá enquanto divindade coletiva,


parecem eleger o orixá como consciências capazes de ajudar não só a si mesmas, mas a
inúmeras pessoas.

As histórias dos orixás engrandem uma personagem em particular, geralmente aquela


que é o alvo de maior devoção do narrador. Assim, temos muitas versões diferentes de
histórias similares, numa pode ser Olorun o distribuidor da sabedoria (Olawole, Op. Cit;
At the back of the black man's mind, Richard Edward Dennett, 1906, pág. 244), em outra
Orunmila (Ifa) é aquele que coleta e reúne a sabedoria e declara "mo ri sa" eu fiz uma
coleção (The way of life in Ado-Ekiti, Volume 1, A. Oguntuyi, 1976, pág. 17), ou ainda uma
na qual Obatala é tido como a origem dos orixá ao ser repartido em pedaços por um
escravo ressentido e então depois tendo os pedaços reunidos por Orumilá (Yoruba
Myths, Uli Beier, 1980, pág. 6), etc.

Isso é porque o culto de cada orixá é como uma religião onde ele é a figura central da
cosmologia, e o deus principal, de modo que a religiosidade Yoruba pode ser
considerada henoteísta. Cada praticante de uma destas religiões, ao ser indagado,
contaria histórias de modo a exaltar um personagem, o deus com quem ele tem mais
afinidade, é devoto, ou sacerdote.

Orunmila é central nos ese ifa, onde são sempre os orixás a precisarem do auxílio ou da
intervenção de Orunmila para resolver seus problemas (como em todas narrativas
apresentadas nos volumes da coleção"Ifism: The Complete Works of Orumula", de
Cromwell Osamaro).

Em histórias contadas pelos devotos de Oxum ela é quem resolve os problemas (Joni L.
Jones, Performing Osun Without Bodies, Documenting the Osun festival in Print. Text
and performance Quarterly, 17, 1997: 69:93. paginas 81, 82,
http://www.csun.edu/~vcspc00g/603/JLJ-OsunFestival.pdf, acessado em
06/08/2016).

No Brasil conhecemos a história onde Nanã Buruku se recusa a utilizar os


instrumentos fabricados através da metalurgia, arte de Ogum, e desde então vangloria-
se por ser a única divindade capaz de sobreviver sem eles, utilizando objetos de
madeira. Em Ede, um importante centro de culto à Ogum, conta-se uma outra versão
desta mesma história, mas é Ogum que sai vitorioso sobre Buku, lá considerado um
nome de Xapanã (Jacob K. Olupona, Kingship, religion, and rituals in a Nigerian
community: a phenomenological study of Ondo Yoruba festivals, 1991, pagina 111).

A reunião de objetos/itens presentes nessas narrativas são parte da ritualistica dos


orixás em que tanto artefatos como bastões, leques, espadas, colares, etc, quanto objetos
em estado natural que possuem afinidade ou são atrativos aos orixás são utilizados em
seus respectivos cultos com finalidades de representação e propiciação (similar às
práticas rituais de culto aos deuses através de estátuas da Teurgia de Iamblico). O que
nos revela que os Yoruba compreendem a natureza como os cientistas contemporâneos,
e os filósofos gregos, um todo em que tudo está relacionado em diferentes graus de
derivação e afinidade (a ideia de universo, a concepção monista, e a sympatheia), com a
diferença que entre os Yoruba não são as estátuas que são os recipientes em que esses
objetos simpáticos dos deuses são armazenados, mas em cabaças, igba orixá, que no
contexto de cada culto onde são utilizados são as representações máximas da
divindade, mais que as estátuas, e são o foco de culto, ojubo (face de adoração).

Os orixás são relacionados à certos animais, vegetais, fenômenos naturais, atividades e


ocupações humanas, conceitos, sentimentos, emoções, sensações, temperamentos, cores,
temperaturas, e um vasto repertório de ideias que exprimem e fortalecem a presença
dos deuses para os seres humanos que neles buscam refúgio, consolo, sabedoria, força, e
benesses em geral (alaafia). Para os Yoruba, a divindade é imanente, e está em toda
parte.

A compreensão dos orixás como detentores de algo valioso (ase/poder/força, e


imo/conhecimento) se desdobra na esfera humana através do relacionamento entre
humanos e orixás, como vemos em uma das palavras que designam o devoto dos orixás,
olorixá, isto é, aquele que possui orixá. O deus possui o ser humano, o ser humano
possui o deus, espécie de sinergia, ou simbiose espiritual.

Tudo isso indica que, na concepção daqueles que adoram os orixás, "conhecimento deve
reger o uso do poder", poder e força pura e simplesmente não são louváveis e
admiráveis, é necessário uma mentalidade a direcioná-los, o intelecto que com
inteligencia e sabedoria é capaz de empregar o poder de modo a obter resultados
benéficos. Isso vai contra a definição bastante utilizada de orixá enquanto forças e/ou
energias imorais e aéticas, que podem ser empregadas a gosto daquele que sabe como
manipulá-las. Ao contrário, esses mitos enfatizam a dimenção ética e a função social dos
orixás, que são como pais e mães comunitários, que governam a sociedade de maneira
empática, caridosa e justa, beneficiando e punindo conforme o merecimento de cada
um, e por conta disso gozam de uma grande esfera de influência e reconhecimento.

Diferentemente de outros seres espirituais cultuados pelos Yoruba como por exemplo
os baba egungun, os orixás são considerados progenitores num sentido mais amplo. Os
filhos de um orixá que lhe conferem o epíteto de Olomoyoyo (aquele que tem
incontáveis filhos) por exemplo não limitam-se a membros de alguma linhagem
sanguínea que compartilhem um mesmo ancestral, mas abrange desde os filhos obtidos
graças à intervenção espiritual do orixá na concepção da criança até aqueles que
descobrem mais tarde na vida possuir ligação com aquele orixá. O fato de serem
espíritos da natureza também endossa essa compreensão, pois a natureza é algo que
antecede e abrange todos, igualmente.

É justamente a compreensão do orixá como um ser espiritual de mentalidade


transcendental e superior às tendências humanas, que faz com que ao mesmo tempo
que ele é associado a um lugar no tempo e no espaço, a uma comunidade humana
específica ele não seja limitado por quaisquer perspectivas puramente mundanas que os
limitaria a ser benéfico apenas às pessoas relacionadas ao seu lugar de origem. Orixá é
africano, Yoruba, negro, e também, em última instância, espiritual, e humano de forma
universal.

Nas palavras de Susanne Wennger, uma Iyalorixá de origem austríaca que viveu a
maior parte de sua vida entre os Yoruba: "Orixá não é uma idéia ou um sistema de
pensamento, nem um objetivo distante que pode alcançado através de
asceticismo ou contemplação metódica. Orixá não é nem Deus nem o Grande
Espírito, nem é uma lei. Orixá é um organismo vivo no sentido mais complexo da
palavra. Este ser orgânico é apto a integrar sua substância-vital na nossa."
(Wenger, Chesi, 1983:86) (original: Orisa is not an idea or a system of thought, nor is it a
distant aim that may be attained through asceticism or methodical contemplation. Orisa is
neither God nor the Great Spirit, nor is is a law. Orisa is a living organism in a most complex
sense of the word. This organical being is apt to integrate its life-substance into ours.)

Para o devoto que vivencia o relacionamento com seu deus é clara a existência dos
deuses enquanto entidades vivas, não entrando no mérito se são seres independentes
ou faculdades pouco compreendidas inerentes ao ser humano. Trata-se de uma
realidade inexplorada pela ciência, e talvez escape às capacidades do intelecto humano.
Do ponto de vista teológico, o orixá é um deus, ou seja, um espírito digno de ser
cultuado devido às virtudes que possui, e os deuses apesar de terem identidades
distintas uns dos outros, são capazes de realizar os mesmos feitos, pois os humanos tem
basicamente as mesmas necessidades, e embora cada um possua uma identidade
distinta, ao analisarmos os oriki de cada um fica claro que profissão que a tradição
afirma ter sido exercida pelo orixá em sua vida como um ser humano na Terra não
torna esse orixá exclusivamente um patrono da mesma. Eles são venerados por
diversas pessoas e as vezes independente de suas profissões ou origem familiar, o
relacionamento entre devoto e orixá é um de afinidade e atração mútuos. Como
exemplificou Peel (2003:111) "Interesses comunitários demandaram para os orixás
a serem encontrados cujos traços especiais davam confiança que eles poderiam
responder aos problemas recorrentes em áreas crucias da vida -- agricultura,
caça, guerra, comércio, doença, etc -- então aí emergiu um grau de
especialização funcional em relação a estes nichos entre as divindades de um
lugar. (...) Por outro lado, por causa de seus devotos enquanto indivíduos, que são
decisivos na "formação" deles, queriam deles as mesmas coisas -- em uma
palavra, alafia -- os orixás iam em uma direção a uma norma de desempenho
comum: Xangô (homem e feroz) também concedia filhos a seus devotos, e Oxum
(mulher e gentil) também protegia os seus de seus inimigos."

Todos os orixás exercem papéis governamentais e de liderança (oye) (para exemplo de


como a religião dos orixás exercia um papel teocrático e parental ver o exemplo de
Ishede nos anos 50 em Notas, Verger, 2000, pág 164; e exemplo da centralidade de cada
orixá em seus respectivos cultos descrição de Verger de uma cerimônia de ação de
graças na qual a devota agradece seu salvamente e o de seu filho de um acidente não à
Ogun, como poderia se esperar, mas à Sapata, a divindade tutelar de sua família, ver
Verger, Orisha p. 19-20).

Logunedé em específico é geralmente descrito como "divindade da caça" ou "divindade


da guerra". Entretanto em oriki ele é louvado por rapidamente conceder um filho à
mulher estéril. Algo que se esperaria de uma "divindade da fertilidade". E aqui
chegamos a um ponto importante. Não existe tal coisa, quando falamos em orixá, como
"deus da água", "deus do fogo", "deus da justiça", et alia. Todos os "deuses", os orixás,
são deuses da justiça, da fertilidade, da verdade, da vida, e benevolentes. Embora cada
um possua uma personalidade própria que é representada e comunicada pelos
elementos e símbolos que lhe são associados e define apenas o modus operandi e o
papel de cada um na cosmologia, não limitam seus campos de ação nem a abrangência
de suas agências.

Como sintetizou Adeboye Babalola a respeito de Ogun e Erinle" "Resumidamente,


eles são deidades distintas que em aspectos significantes ocupam um amplo
segento sobreposto do mesmo domínio cosmológco." (Africas Ogun, 1997, pág.
150). E Pierre Fatumbi Verger: "Algumas divindades disputam entre si as mesmas
atribuições em lugares diferentes: Sòngo em Oyó, Oramfé em Ifé, Aira em Savé,
são todos senhores do trovão; Ogum encontra êmulos guerreiros e caçadores em
diversos lugares, como Ija na região de Oyó, Oxóssi em Ketu, Oré em Ifé, e como
Logunede, Ibualama e Erinle na nação Ijexa; Osanyin em Oyó e entre os Egba
desempenha o mesmo papel curandeiro que Elesijé em Ifé. Em vista dessa
extrema diversidade e das numerosas variações de coexistência entre os orisá, é
impossível não ficar cético diante de concepções sistematicamente
estruturadas.", (Religião e sociedade, Edição 8, 1982, pág. 8).

Orixá tornou-se um termo praticamente universal devido ao estabelecimento do


Standard Yoruba, isto é, o idioma oficializado, que é derivado da variação falada pelos
Yoruba do sub-grupo Oyó, devido à origem étnica de Samuel Crowther, pioneiro em
seu estabelecimento. Mas muitos sub-grupos utilizam outros termos para divindade,
como Umole, Eegun, Imole, etc.

Alguns dizem que Olodumare designa o deus supremo a quem os orixás são
subordinados. Mas há registros onde o termo é empregado para referir-se a outros
orixás que não ocupam este papel no panteão proposto por aqueles que defendem a tese
de que Olodumare é o deus supremo. Oxum (David. O. Ogungbile. In Joseph M.
Murphy, Mei-Mei Sanford. 2001:209), Xango (John Pemberton III. In Yoruba: Nine
Centuries of African Arte and Thought. 1989:162), Obaluaye/Xapanã (Peel.
2000:120), Egungun Arawosoju (John Pemberton, Funso S. Afọlayan. Yoruba sacred
kingship: "a power like that of the gods". 1996:114) . Com base nesses registros fica
claro que Olodumare é um título que designa alguém numa posição de poder,
autoridade e liderança exacerbados, e que para cada devoto era utilizado para a sua
divindade pessoal, para enfatizar o papel da mesma em sua vida. E Dentre os Ijumu-
Yoruba, a divindade com traços do deus abraamico, que entre os Yoruba é um deus
ocioso, o criador de todos os seres humanos, é chamada Orixaloke (orixá no
céu/alto)(Olawole Francis Famule. 2005:145). Mostrando que são termos
intercambiáveis entre um deus que ocupa um papel proeminente sobre os outros, o que
dependendo do contexto, pode ser qualquer orixá.

Assim como os antigos Egípcios, os Yoruba concebem a possibilidade de existir um ser


poderoso o suficiente para criar qualquer coisa, universos inteiros, mas igualmente
como entre os Egípcios a depender do período e do contexto qualquer divindade pode
ocupar este papel. Os diferentes cultos do Egito Antigo atribuíam a diferentes deuses o
papel/poder de criação, Ra, Amen, Aten, Khnum, etc.

É claro que o oposto também é possível, ou seja, que olodumare originalmente


designava de fato um ser supremo nos moldes do deus abraâmico, um tipo de ur-
monoteísmo sub-saariano, e com a proliferação dos cultos a diferentes orixás o nome
deste ser/conceito foi atribuído a deuses de uma geração posterior. Mas o fato é que
não se trata de um título exclusivo e intransferível, e prova que orixá, imole, umole,
ebora, eegun, olodumare, etc, são intercambiáveis pois são atributivos da mesma coisa,
um ser espiritual venerável, e o emprego de um ou outro termo depende do sub-grupo
etnolinguístico e não do papel da divindade a quem eles se referem em relação a um
panteão universal, este sim, inexistente.

Logunédé é um dos muitos seres espirituais venerados pelos povos denominados


Yoruba. Tradicionalmente se diz que são duzentos, ou quatrocentos o numero total de
orixás cultuados pelos Yoruba, porém, estes números não são literais, mas simbólicos.
Duzentos significa muitos, quatrocentos é o dobro, e tem a conotação de inúmeros.
Para o Yoruba tradicional, dizer duzentos é o mesmo que para nós dizer milhares, e
quatrocentos significa incontáveis.

Cada um à sua maneira, a experiência de vida exige que todos sejamos um pouco
caçadores. Como uma pessoa que exerce atividades venatórias corajosamente se
embrenha no terreno selvagem, muitas vezes desconhecido e repleto de perigos,
diversas são as vezes que temos que nos aventurar por áreas desconhecidas, ou que
exigem coragem e bravura. Como quem guerreia, quantas vezes não temos que
enfrentar inimigos, externos e internos?

Compreendo que nisso esteja a relevância atemporal de Logunede e dos orixás de


maneira geral. Neles contemplamos um epítomes da sabedoria humana sobre os
acontecimentos da vida e acerca do mundo natural e seus ciclos, que nos afetam mesmo
vivendo em uma sociedade altamente urbanizada e industrial

Notas Sobre Historicidade


O dialeto utilizado no culto à Logunédé é o Ijexá, termo que denomina um sub-grupo
étnico Yoruba, indicando que Logun é um orixá cultuado originalmente por ele,
embora existam atualmente adeptos de sua religião em outros lugares, tanto em
territórios associados à outros sub-grupos Yoruba, como os Oyo no caso das
sacerdotisas em Ibadan, e até mesmo em outras terras como Brasil, Cuba, e Estados
Unidos.

Diversas são as causas históricas para a expansão de seu culto, através da relocação de
pessoas que o cultuavam e levaram-no consigo para onde foram, em bagagens materiais
como no caso de migrações, e também intelectuais, como no caso da escravidão onde a
única propriedade que não era possível ser destituída era aquela guardada nas mentes
dos escravizados, em todo caso foi um amor ao orixá que fez com que seu culto fosse
preservado e continuado, estabelecendo-o em novos locais para onde foram seus
devotos.

As diferentes tradições nos contam que os deuses desceram do céu, emergiram de


dentro da terra, do fundo das águas, ou que se revelaram através de sonhos, visões e
possessões e transmitiram à alguns seres humanos suas mensagens. Mas a relação
pessoal com o sagrado é importante por contrabalancear o potencial negativo da
espiritualidade monopolizada, terreno em que muitos clamaram conhecer as vontades
divinas e executores das mesmas, com terríveis consequências.

Verger publica um oriki de Oxum coletado em Ilexá, cidade que segundo o autor é o
local de possível origem de Logunedé, onde consta a seguinte linha: "Orunto Olufe
gerou Logunede" (Verger, Notas sobre o culto aos orixás e voduns, 1999:414).
Orunto Olufe, o mesmo que Obalufe, dentre outras variantes do nome, é um título que
designa o segundo em poder, o primeiro sendo o Owoni (Ooni), na tradicional
hierarquia político-religiosa de Ile-Ife, antigo reino considerado o centro do mundo e
berço da humanidade na cosmologia de diversos sub-grupos étnicos Yoruba, algo
comum ao pensamento religioso do Homem (Eliade, The Sacred and the Profane, na
versão traduzida do Francês por Willard Trask, todo o capítulo Sacred Space and Making the
World Sacred). Há ainda a possibilidade que a afirmação de que Oxum e Logunedé são
descendentes de Orunto Olufe esteja expressando e agregando um elemento de
grandeza a eles e não aluda a pertença factual de ambos a uma linhagem, tratando-se
de uma associação puramente simbólica.
No livro "Itan Ido Ijebu", escrito pelo Dr. Badejo Oluremi Adebonojo, publicado pela
primeira vez em 1990, consta que o primeiro a receber o título de Orunto Olufe fora
um homem que vivia em Ijebu-Ife e chamava-se ou possuía anteriormente o título de
"Balufe Ijaogun", o título "Orunto Olufe" fora-lhe concedido por Ajalorun Ekuntete,
primeiro rei de Ijebu-Ife. Resumidamente, pode-se dizer que Obalufe, Orunto Olufe,
Obalufe Orunto, dentre outras variantes do nome refere-se ao chefe de uma família
influente e poderosa na política de Ile-Ife e Ijebu-Ife. Em Ile-Ife o Obalufe é o vice-
regente que representa todos os outros titulares importantes abaixo do Oni enquanto o
Ooni/Olufe.

Ilesanmi (The Traditional Theologians and the Practice of Òrìṣà Religion in


Yorùbáland, 1991) menciona Lóógun-ede acompanhado de um outro nome, como se
fosse um nome composto: "Babarake Loogun-ede". Babarake também é o nome do
fundador de uma pequena citadela Yoruba-Ijexá chamada Igangan. Conspícua no
século dezessete pois seu fundador fora figura importante na guerra contra os
invasores nortenhos, os Nupe. Babarake era caçador antes de consagrar-se como
celebrado general de guerra. Os caçadores eram propensos a tornarem-se exímios
militares pois o exercício das atividades de caça exige bravura e promove o
fortalecimento do corpo, o caçador passa muito tempo no habitat dos animais
selvagens, ferozes com relação ao Homem, portanto não é incomum essa sequência
evolutiva de ascenção profissional e social, fazendo dessa característica em comum com
Logunedé menos determinante sobre o fato se os dois são o mesmo indivíduo. Seria
bastante esclarecedor saber se existe ligação entre o fundador de Igangan, Babarake, e
esta família de Ile-Ife, Orunto. Tantos questionamentos se fazem necessários porque
Ilesanmi parece ser a única fonte que cita os dois nomes em conjunto e relacionados, e
apenas uma vez no texto, pois anteriomente no mesmo aparece o nome Babarake
sozinho. E também porque em counicação pessoal com cidadãos nativos dessa cidade
em redes sociais, nenhum deles, quando indagados, disse haver relação entre um e
outro, mas como consta numa publicaçao de 12 de Setembro de 2015 no blog
https://impactilesa.wordpress.com/ o festival de Arake que acontece anualmente em
Igangan não é aberto a pessoas de outras comunidades, e devido a esse fator talvez os
habitantes não afirmassem qualquer coisa a respeito do Babarake por ser tabu.

Tentei contatar Ilesanmi também através de uma rede social, mas infelizmente só tive
essa idéia e iniciativa alguns dias antes de seu falecimento em 2016 e não foi possível
obter uma resposta do mesmo. O que eu queria saber dele é se em seu texto
supramencionado existe uma vírgula faltando entre os nomes 'Babarake' e 'Lóógun-
ede', o que é possível pois eles aparecem juntos numa lista que cita nomes de outras
divindades e nela 'Babarake Loogun-ede' é o único nome composto.

Se algumas fontes afirmam que Oxum e Logunedé são membros do clã do Orunto
Olufe (John Wyndham, 1921:60; Verger, 1999:414) há a versão que alega que Oxum era
nativa da cidade de Igede, que é geograficamente a fonte do rio Oxum, lá se conta que
Oxum é filha do fundador de Igede, um caçador chamado Ake com Erindo, sua esposa
(segundo informações do site oficial de Igede-Ekiti: http://www.igede.ekiti.com/).

Algumas possibilidades devem ser consideradas a respeito da natureza e propósito


dessas afirmações antes de admiti-las como relevantes do ponto de vista espiritualista.

É possível que as linhagens de lideranças políticas associem-se às divindades para


agregar valor a si mesmas, para ganhar a simpatia, o apoio e a submissão daqueles que
as adoravam, à maneira dos faraós do Antigo Egito. Essa tendência de politizar o
sagrado para agregar prestígio e legitimar a autoridade política, tão presente na
história de várias nações, também o é entre os Yoruba e se mostra de maneira muito
evidente e inteligível num exemplo dos dias atuais quando no ano de 2016 o atual Oni
de Ife, Ooni Adeyeye Enitan Babatunde Ogunwusi Ojaja II, afirmou numa publicação
em sua conta oficial do twitter que os restos da arca de Noé e da torre de Babel estão
em Ile-Ife, associando sua nacionalidade e seu reinado à culturas Abraamicas,
atualmente muito prestigiadas pela maioria dos Yoruba.
I

Meta-des,
Brasil e
na Nigéria
Registros Literários do Culto à Logunedé na África
Material sobre o culto de Logunedé em terras Yoruba é relativamente escasso, a ponto
de algumas pessoas terem pensado que houvesse se extinguido no continente africano.

Segue uma lista de referências e materiais sobre Logun na Nigéria:

No ano de 1958 vem a público a colossal obra de Pierre Fatumbi Verger, Notes sur le
culte des Orisa et Vodun, em que consta um grande oriki de Logunede, e menções ao
orixá em oriki e louvores à Oxum.

Em 1981, Karin Barber publica num artigo, no Africa: Journal of the International
African Institute, Vol. 51, No. 3, entitulado How Man Makes God in West Africa: Yoruba
Attitudes Towards the "Orisa", no qual Logun é descrito como o filho caçula de Oxum
segundo devotos na cidade de Okuku, e também descrito pela mais antiga devota de
Oxum nesta cidade como sendo uma “feroz versão masculina da própria Oxum”, nas
palavras da devota "Lóógun-ède? Osun ni!" (Loogun-ede? Ele é Oxum!). O tema da
variação de gênero aparece, como no Brasil, embora de forma distinta. Nove anos mais
tarde Barber publica outro artigo no mesmo jornal supramencionado, entitulado
"Oríkì", Women and the Proliferation and Merging of "òrìṣà", desta vez dizendo que ele é
uma divindade fluvial. Em seu livro "I Could Speak Until Tomorrow: Oriki, Women,
and the Past in a Yoruba Town", há alguns oriki de Logunedé, em uma linha se lê
"Caçula da Mãe [Rio Osun] que incomoda todos os filhos da água", e as outras
fazem referências à características dele ligadas à caça, comparando com a de alguns
animais (p. 71).

Dois livros de Sikiru Salami (Prof. King) contem oriki (poesia laudatória) e orin
(cânticos) de Logun. Em um deles (Cânticos dos Orixás na África, 1991) consta apenas
oriki e orin do o orixá e no outro (A Mitologia dos Orixás Africanos Volume I, 1990)
consta um pequeno porém preciosíssimo parágrafo mencionando Logunedé no capítulo
dedicado a Oxum: "Outros referem-se à divindade Logunedé, ora como filho de Oxum,
ora como seu mensageiro, pois há grande ligação entre ambos. Algumas casas de culto
referem-se a Logunedé como complementação de Oxum o que aponta para a
intensidade de sua ligação." Precioso pois o Prof. King é um homem Yoruba, nascido e
criado na Nigéria em solo Yoruba e , diferentemente por exemplo do caso de Ilesanmi,
ele é adepto da religião dos orixás (sacerdote de Xangô), e suas informações são
oriundas de sacerdotes de Oxum/Logun, e ele sendo iniciado tem acesso a informações
privilegiadas além de ser mais apto a interpretá-las corretamente do ponto de vista
religioso. Nestes mesmo livro e capítulo abundam referencias à Logun em orikis e orins
de Oxum onde ele é mencionado diretamente por seu nome Logunedé e também
Kekere-ode, jovem caçador.

Thomas Makanjuola Ilesanmi cita Logun em uma lista de divindades de origem Ijexá-
Yoruba, em seu artigo "The traditional theologians and the practice of orisa religion
in Yorubaland", no periódico Journal of Religion in Africa, XXI, 3, 1991.
Em 2000, Nei Lopes publica um livro inteiro dedicado ao orixá, mas praticamente todo
baseado em dados da diáspora e quase nenhum da África, com o título Logunedé: "santo
menino que velho respeita".

O livro Yorùbá Theology & Tradition: The Worship (2008:110), por Ayo Salami, o cita
entre os orixás considerados revelações/encarnações de Ogun. As fontes dele são
principalmente oriundas da cidade de Ilobu.

Em Busca de Logunédé
Assim como demonstrou Darwin com relação aos seres vivos, no campo da religião
somente aqueles capazes de adaptarem-se são bem-sucedidos na tarefa de continuarem
serem benéficas ao ser humano em meio às evoluções intelectuais de seu pensamento,
numa espécie de darwinismo metafísico (por parte dos deuses), ou ideológico (por parte
dos seres humanos).

A flexibilidade possibilitou a sobrevivência de tradições religiosas tradicionais nativas


aos diversos subgrupos étnicos Yoruba especialmente em áreas onde é grande a
influência das religiões exclusivistas (como as fés abraâmicas).

Nina Rodrigues (RODRIGUES, RN. Os africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Centro


Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010,
http://static.scielo.org/scielobooks/mmtct/pdf/rodrigues-9788579820106.pdf ,
acessado em 05/08/2016), à parte do viés eurocêntrico e racialista, é muito
esclarecedor em alguns pontos. O autor demonstra que no final do século XVII e início
do XIX, os adeptos da religiosidade Yoruba não só falavam e cantavam em idioma
Yoruba, mas entendiam a língua e a usavam no cotidiano, inclusive de forma escrita.

Verger constatou que não só os deuses como também os textos litúrgicos tradicionais
em idioma Yoruba haviam sido preservados na diáspora, muitos dos quais
correspondiam aos que eram utilizados na África na época de suas pesquisas.

Com base em todo o material supracitado podemos destacar quais são as concepções a
respeito de Logunédé tanto na diáspora quanto em solo africano: filho de Oxum,
representado por um artefato que retrata um arco unido a uma flecha confeccionado em
bronze. A utilização deste metal o distingue de outros orixás que também são
representados pelo mesmo artefato mas que são feitos com metais prateados (como
Oxóssi e Erinlé).

Inconfundível dos Dois Lados do Atlântico - A


Tradição do Orixá Arqueiro é Rígida como Flecha e
Flexível como Arco
Dentre os vastos registros de oriki e orin publicados por Verger, consta somente um
um oriki de Logunédé. Algumas linhas do oriki Logunede publicado por Verger foram
recitadas pela Iyalode Osun Logunede de Ibadan, um indício de continuidade e
preservação das suas tradições em solo Yoruba. No minuto 18:56 do registro da
entrevista a Iyalode recita "arieri ewo ala" (comparar com o oriki Logunede publicado
por Verger, linha 59), e em 19:19 "odolugbese tire here here" (linha 17).

Das comparações que o autor fez entre textos dos cultos de diversos orixás,
pouqíssimas são feitas utilizando material relacionado ao culto de Logunédé nos dois
continentes. Dois orin para Logun-ede que ele registrou em Ouidah (Notas sobre o
culto aos orixás e voduns, 1999:418) e na Bahia (idem, 419), que não estão na sessão do
livro dedicada a Logun, mas naquela dedicada à sua mãe, Oxum. Estes dois orin são
praticamente idênticos, e mencionam a proximidade entre Logun e Oxum, bem como
um elemento da indumentária do orixá, uma coroa, muito brilhante, que também
consta nos orins publicados por Salami (1991).

No mesmo trabalho Verger (p. 225) publicou um orin de Logun colhido na Bahia, trata-
se de um cântico muito popular no Candomblé onde muitas versões do mesmo são
cantadas durante o xirê para louvar Logunede. Ele é praticamente idêntico a um outro
colhido em Ibadan, conforme áudio registrado em 2016 pelo Awo Orilana Esudina
Ẹ̀dẹníyì (Luis Emilio Marin), na comunidade religiosa dedicada à este orixá na qual
ele foi iniciado em seu culto, a mesma das Iyalorixás contatadas por mim, que vim a
conhecer por seu intermédio. Nenhuma tradução deste orin é dada no áudio registrado
pelo Awo Orilana Esudina Ẹ̀dẹníyì Luis Emilio Marin nem no livro de Fatumbi
Verger. Uma tradução de uma versão deste cântico é dada por Altair B. de Oliveira
(Cantando para os Orixás. 1992:71). Apesar das variações entre elas as semelhanças
mostram que são versões diferentes para um mesmo cântico, em todas elas consta a
palavra "ofa" que significa flecha (I. A. Akinjogbin. War and Peace in Yorubaland,
1793-1893. Heinemann Educational Books (Nigeria), 1998:201), a munição de uma das
representações mais emblemáticas do orixá em seus cultos em ambos os lados do
Atlântico, o arco, bem como uma estrofe que diz "njo njo njo Logun", njo significa
“dançando”.

Ao contrário de outros orixás, Verger não comparou modos como Logun é


descrito/considerado na África e no Brasil, e apenas relata como ele é considerado na
Bahia. Ele diz como o orixá é visto na Bahia, e como é cultuado em Ilexá, mas não faz
comparações que indiquem diferenças ou semelhanças entre as formas como o mesmo é
visto nos dois lugares.

Em Ibadan, o ojubo, santuário de Logunede (figura) contém diversos artefatos


confeccionados em metal dourado na forma de um arco com uma flecha cojugada, e de
facões. Em “Notas”, de Verger, há a fotografia de uma sacerdotisa do deus em seu
templo em Ilexá.

Como vimos, outra constante nas tradições de ambos continentes é a presença de


Oxum como sua mãe. Diversos oriki de Oxum citam-na como parente de Logunedé
(Verger, 1999), as localidades nas quais esses oriki e orin foram coletados são: Ipetu e
Ilexá (idem, p. 413, 415); Ouidá (id., 418). Sikiru Salami publica vários orin e oriki de
Oxum que citam Logun-ede (Salami, 1991: 218-19, 232-33, 234-35, 243-44).

As Iyalorixás de Ibadan também afirmam que Logun é filho de Oxum, e referem-se a


Oxum como Yeye Ponda. O mesmo caminho de Oxum considerado mãe de Logun no
Brasil (Verger, 1999:213).

Ibu Alamo é, na Nigéria, um deus do panteão de Erinlé reconhecido tanto em Okuku


(Barber:1981 e 1990), quanto em Oke Odan onde é descrito como descendente de
guerreiros (Thompson, Robert Farris. 1969. “Abatan: A Master Potter of the Egbado
Yoruba.” In Tradition and Creativity in Tribal Art, edited by D. Biebuyck, p. 146. Berkeley:
University of California Press). Assim como Ibu Alamo em Oke Odan, Oxum Iponda é,
tanto no Brasil (Verger, 1999:399) quanto na Nigéria (Ijesa North: a decade of struggle,
triumph and achievements, July 1997-July 2007, 2007:152), considerada uma guerreira.
Em Ibadan, as Iyas atribuíram diferentes pais ao orixá em diferentes ocasiões. Na
entrevista por mim encomendada disseram que o pai é Ifá, enquanto à Luis Emílio
Marin disseram ser Obatala.

Logun-ede, Oxum Yeye Iponda e Ibu Alamo são ligados à água e à belicosidade. As
similaridades entre os três pode tanto indicar que o culto aos três em conjunto já veio
com esse formato da África, ou que estas similaridades levaram os sacerdotes a agrupá-
los num só panteão familiar quando de seu encontro na diáspora. Ambas são possíveis
já que única constante na genealogia de Logun nas várias localidades onde é cultuado é
sua mãe sendo Oxum.

Talvez a primeira referência a Logun na literatura escrita tenha sido feita por Ruth
Landes em City of Women, pois a forma com que ela descreve Oxóssi se assemelha a
Logun (Ruth Landes. The City of Women. 1994:203). No Candomblé o orixá que
representa todos os outros deuses caçadores é Oxóssi, e se alguém é filho de outro
caçador como Erinle ou Logun, diz-se filho de Ode ou de Oxossi, o orixá caçador
específico ou como dizem "a qualidade de oxóssi" à qual a pessoa pertence é um assunto
interno, reservado aos iniciados. Assim sendo é possível que quem informou Landes
acerca das características que ela descreve sendo de Oxóssi estivese falando de Logun,
já que nos Candomblés que informaram Landes, Engenho velho e Gantois (Lisa Earl
Castillo, Entre a oralidade e a escrita: a etnografia nos candomblés da Bahia. 2008:137),
Oxóssi tem suas insígnias feitas de metal branco (prateado) e não amarelos (dourado)
como afirmou Landes, o ultimo sendo utilizado para Logun.

No Brasil, como na Nigéria, é dada ênfase na pouca idade de Logun, ora apresentado
como um enfant terrible, ora como herói jovem. Mas a forma como ele é visto
atualmente no Brasil só corresponde parcialmente à visão que se tem dele no contexto
Yoruba nativo.

Na Nigéria a pouca idade de Logun está relacionada ao fato dele ser um prodígio,
alguém que apresentava personalidade forte e habilidades extraordinárias para alguém
de tenra idade.
No mito brasileiro encontramos um eco do Logun africano, pois apesar de ser visto
como muito jovem ele diferencia-se dos outros orixás (Ibeji) e entidades (erê) juvenis ao
não ser associado à brinquedos ou doces, mas à uma arma, o arco, e ser considerado
herdeiro dos atributos de seu pai Erinlé e sua mãe Oxum em seu aspecto guerreiro
(Yeye Iponda), mas em muitas itan (histórias) ele é descrito de modo completamente
diferente, oposto, como uma criança indefesa e frágil.

Sincretismo
O sincretismo entre os orixás e os santos católicos aconteceu em parte para que os
africanos na condição de escravizados pudessem, de forma velada, continuarem
cultuando seus deuses, algo que eram impedidos de fazer de forma aberta. Mas junto
com essa necessidade, os Yoruba já possuíam uma mentalidade propensa à assimilação
cultural e ao sincretismo religioso, como Gregos antigos, e mesmo na África já ocorria
a associação entre deuses originários de nações distintas, bem como sua “importação” e
“exportação” entre as mesmas, como nos caso dos orixás e voduns.

No caso de Logunedé o santo católico escolhido foi Santo Expedito, e as similaridades


entre ambos não deixam espaço para duvidar do cuidado que seus devotos tiveram em
escolher um santo que fosse similar ao orixá, uma escolha consciente capaz de realizar
a façanha de preservar o legado do orixá em meio à um cenário em que seu culto era
proibido.

Aprendendo sobre Santo Expedito acessamos particularidades de Logunedé que se


perderam em seu culto na diáspora. Nas tradições afro-brasileiras é quase regra
apresentá-lo ora como um deus infantil e indefeso. Neste caso, o santo com que fora
sincretizado é um referencial muito mais próximo do Ologun-ede original, invocado
pelos devotos de Oxum nos louvores dedicados a mesma para defendê-los. Em oriki
Logun é louvado como ‘aquele que em maus dias nos salva’, ‘que nas batalhas
sangrentas andou vigorosamente para dentro da feira’, cujo nome é tão temível como
Xapanã/Sonponna, um nome cercado de tabu do deus que pune com as doenças
infecciosas e epidemias, Obaluaye.

Santo Expedito é conhecido no âmbito popular como o santo das causas justas e que
age com rapidez em casos urgentes, assim como Logun, que é rápido como o vento e o
salvador que em maus dias protege os seus, a iconografia de Santo Expedito remete a
Logun enquanto um jovem guerreiro prodigioso pois retrata um jovem soldado
romano.

Os motivos e as causas das transformações da imagem de Logun no Brasil são


desconhecidas mas talvez tenha ocorrido algo já documentado no caso de outros orixás.
Num contexto onde cultos a deuses similares passam a coexistir pareceria confuso ou
mesmo desvantajoso para os devotos ter mais de um orixá apresentando características
e ocupando posições similares, algo que, como notaram alguns autores, acontece
mesmo em solo Yoruba. John David Yeadon Peel (Religious Encounter and the Making of
the Yoruba, 2003: 111-112) diz o seguinte: "Quando um culto mudava-se para uma
nova área, ele podia assumir atributos bastante novos ou perder atributos
antigos pois o seu nicho já estava ocupado por um culto ali presente... (...)"... uma
migração trouxera Orixá Oko para uma pequena cidade Ekiti; mas como Ogun já
era o deus da agricultura, teve que centrar-se em cura e proteção. (...) ... quando
Xangô se moveu para o oeste do território Oyo para os reinos de Sabe e Ketu,
que já possuíam Ara como um deus homem do trovão, seu status de migrante foi
expressado por ser considerado como a esposa de Ara."
II

M é ta-M é ta,
Metade-Metade,
A Completude de
sua Divindade
No Brasil Logunedé é descrito como "orixá-méta-méta", termo que designa um orixá
que possui manifestações ou partes masculinas e femininas. Pierre Fatumbi Verger, um
grande estudioso das tradições dos orixás tanto na África quanto no Novo Mundo,
documentou essa atribuição para Logunedé no Brasil, e embora Verger tenha estado no
templo deste orixá na cidade de Ilexá, nos artigos sobre o mesmo que constam em seus
livros ele não diz se este era assim considerado também naquele que para Verger é seu
provável lugar de origem. Esta omissão de Verger dá margem à possibilidade de haver
simetria entre as opiniões a este respeito no Brasil e na África. Entretanto a ausência
de informação não é evidência.

No Brasil a explicação dada à mudança de sexo de Logun é devida ao fato dele ser
considerado uma fusão de dois orixás, um homem e outro mulher.

Nas diversas genealogias divinas dos orixás muitos são considerados filhos de outras
divindades, outros considerados originarios, criados sem precedentes, e esse status
varia de um local para outro.

No caso específico de Logun ele não é considerado simplesmente filho, mas um


indivíduo que reúne em si características de de Oxum e Oxóssi (nas tradições
afrobrasileiras, e somente de Oxum nas africanas), seus pais, de modo enfático e
ausente no caso de outros orixás. Por exemplo Xangô, segundo algumas tradições, é
filho de Yemoja, mas não apresenta características típicas de sua mãe (de fato ele é sua
antípoda, Yemoja é a água fresca, e Xangô o fogo, Yemoja é rio terrestre, Xangô é
tempestade celeste, etc).

Este tema está presente mesmo na África, como a descrição da informante de Barber
em Okuku segundo a qual Logun é uma feroz versão masculina de Oxum, ou devotos
em Ibadan que descrevem-no como “Male Osun”, Oxum Masculino/a.

A capacidade de metamorfosear-se é comum aos orixás, Oyá por exemplo se


transforma em búfalo e que tem como símbolo as borboletas, que são conhecidas pelas
transformações dramáticas que sofrem desde ovos até transformarem-se nos
fascinantes insetos alados. E a apoteose dos orixás em forma humana geralmente
envolve algum tipo de transformação, geralmente em algum fenômeno da natureza.

Segundo as tradições brasileiras, a mudança de gênero/sexo de Logun se dá em


decorrência dele morar metade do ano com sua mãe, nas águas, e noutra com seu pai,
nas matas. Nessa concepção, as águas são consideradas domínios femininos, e as matas
masculinos.

Babatunde Lawal (1995) diz algo no mínimo curioso que agrega à essa questão: "O
número três (eéta), (...) significa poder dinâmico (agbára), físico e metafísico.
Assim, um homem forte é chamado okùnrin méta ("três homens em um"), e de
acordo com a crença popular, um homem desse tipo deve ser enterrado na
encruzilhada: Oríta méta lá nsin òkú alágbárá si ("Uma interseção de três
estradas é o local mais apropriado para enterrar um homem poderoso")".

Interessantemente há uma linha no oriki de Logun em Notas de Verger que diz "Um
louco que diz que o procurem fora da encruzilhada". Não sabemos que tipo de
conotação tem essa frase, se é proverbial ou literal, se irônica ou direta, pode significar
que somente um louco diria para procurá-lo fora da encruzilhada (denotando que é
justamente na encruzilhada que ele se encontra).

Quer essa interpretação do oriki seja ou não correta temos um pról na argumentação
de que Meta-meta, o epíteto de Logunedé que parecia tupiniquim, seja de fato um
epíteto trazido das terras Yoruba e preservado na diáspora. No idioma yoruba é comum
a duplicação das palavras para implicar intensidade como no caso de 'nla' que significa
grande que se torna nlanla para significar muito grande. Meta-meta literalmente
significa “de três em três”, mas talvez no caso da frase Orixá Meta-meta ela tenha o
significado de Orixá muito poderoso. Em yoruba “meta” é utilizado como um adjetivo
como em “okunrin meta”, ou “obinrin meta”, significando respectivamente um homem
ou mulher que vale por três, uma pessoa poderosa, eficiente.

Assim, mesmo que possivelmente o termo meta seja de origem Yoruba e não tenha
nada a ver com metade e dualidade, e sim com triplicidade que para os Yoruba é
sinônimo de poder dinâmico, algo muito próprio de Logun enquanto exímio caçador e
guerreiro, aqui analisaremos uma característica típica dos orixás como pode ser vista
em seus oriki, a ambiguidade e a ambivalência, que no Brasil é expressada na sua
dualidade de gênero.

Pouco Experiente, Muito Proficiente


Logunedé é um deus jovem por excelência e para demonstrar isso sempre se enfatiza
sua condição de filho de Oxum. Logum é o precoce, o prodigioso, ao contemplá-lo
concluímos isso, afinal, quantos jovens são hábeis o suficiente para manejar o arco com
excelência?

A excelência é mais notável na juventude pois nela contrasta com a falta de


experiência. A sabedoria e a habilidade são sempre louváveis, embora seja esperado que
alguém mais velho seja sábio, já a sabedoria quando em um jovem é surpreendente.

A sabedoria dos velhos é fruto de aquisição temporal, ordinária. No jovem é fruto de


mistério. A proficiência do jovem Logun é emblemática da concepção Yoruba “lati orun
wa”, de dons que uma pessoa traz de sua existência pré-natal, no orun, o mundo dos
espíritos.

Logun é um orixá e provoca maravilhamento, encanto, tal qual uma criança realizando
suas primeiras proezas, é um símbolo da esperança que contemplamos na nova vida.

A variação das atribuições de paternidade e a constância da de maternidade à um só


orixá sugere que os elementos importantes na personalidade Logun são características
parecidas com sua mãe Oxum, com quem possui uma relação forte e importante o
suficiente para que seja uma constante, mas como no mito os orixás estão sendo
descritos como humanos, e como a reprodução humana envolve um pai e uma mãe, um
pai é adicionado à narrativa, e devido à sua pouca relevância na história de Logun, não
é tão constante e enfatizado como sua mãe. A relação parental de proximidade intensa
entre Oxum e Logun reflete as noções de parentalidade Yoruba, em que, apesar de ser
uma sociedade patrilineal, espiritualmente o ori da mãe é mais influente na vida dos
filhos, como se observa quando, numa consulta ao mundo espiritual através de um
oráculo, o babalawo ou awo informa o nome da mãe e não o do pai. O que diz muito
sobre a importância de sua relação, Logun é uma continuação de Oxum, por ser seu
descendente e apresentar muitas características em comum com ela, e assim lhe agrega
força, reforçando o que Oxum representa e faz.

Em oriki, Oxum é chamada “Yeye Ologunede”, mãe de Ologunede, e Logun por sua vez
é descrito como “Abikehin Yeye”, filho caçula de Oxum (os caçulas são os mais
próximos dos pais), e “Tima lehin Yeye re”, encarapitado nas costas de sua mãe
(Oxum).

Como alguém sem história e notoriedade, um ser muito jovem é sempre definido
segundo seus pais, algo que indique sua procedência já que estes já possuem uma
história e são reconhecidos pela sociedade, naturalmente, caso o filho venha a ser bem
sucedido e reconhecido, mais tarde os pais passam a ser conhecidos como os
progenitores do filho notável que criaram. No caso de Oxum e Logunede, ambos são
definidos segundo o outro, expressando a concepção Yoruba em que os filhos são
preciosos para os pais assim como os pais o são para os filhos, e agregam valores
mutuamente.

Segundo o mito brasileiro Oxum é aquela que abandonou Logunédé segundo os mitos
publicados por Prandi, ou quem por algum motivo o deixou ser criado por sua avó
Yemoja, segundo mãe Stella. No mito de Logun oriundo de Ibadan, Oxum exerce um
papel oposto ao apresentado nos mitos brasileiros, nele ela é uma mãe exemplar. Nele
Oxum é aquela que zela pelo bem-estar de Logunédé e promove o suporte necessário
para que ele se encaixe na sociedade. O papel exercido por Oxum no mito de Logun é o
da mãe ideal, que mesmo após o nascimento de seu filho continua, por escolha,
exercendo a função que tivera quando o mesmo estava em seu útero. Fornecendo
suporte, proteção e alimento durante o crescimento da criança, e mesmo após esta
atingir a idade adulta continua sendo uma fonte indispensável por ser mais experiente
podendo aconselhá-la apropriadamente e ensinar-lhe sobre a vida.

Azul e Amarelo
As cores associadas a Logun-ede são o azul turquesa e o amarelo âmbar. Azul é uma
cor fria como a água e calma como o céu límpido. Amarelo por sua vez é quente como a
luz do sol e intenso como o brilho do bronze.

Elas remetem à água e aos metais dourados, ambos presentes em seus templos.
Bélico e Jubiloso
Ao mesmo tempo em que Logunédé aprecia a luta, a bravura e a agressividade ele é
esbelto, vaidoso, cuidadoso com sua aparência. A vaidade de Logun é a vaidade daquele
que conhece seu potencial e que realiza atos de heroísmo, que conhece seu valor e é
reconhecido pelo público. A beleza é aquela que combina harmonia e boa forma.

E nisto ele se parece com sua mãe Oxum, que assim como muitos outros orixás
famosos por sua beleza. E assim como sua mãe tivera sua imagem modificada na
diáspora onde passara de deusa que habita as respeitáveis e temíveis profundezas dos
rios a mulher superficial, e de mãe exemplar a alguém sem talento, capacidade e
interesse de ser mãe, a ponto de ser descrita em mitos da diáspora como alguém capaz
de abandonar seus filhos em vez de defendê-los ferozmente como nas histórias
africanas . Não só com Logun e Oxum, mas as transformações das representações e do
entendimento acerca de vários orixás acabaram, em alguns casos, por descaracterizar a
forma como são retratados pelas tradições em solo Yoruba, eles foram destituídos de
certos valores africanos.

Mas o mito de Logun nos mostra um ethos que considera a agressividade algo a ser
canalizado para o bem da sociedade, para a defesa do bem-estar, e a beleza e os prazeres
como parte essencial da vida, e não sinônimos de fraqueza.

Água e Terra Firme, Homem e Mulher, Masculino e


Feminino
Como vimos, a dualidade de gênero no contexto dos orixás é emblemática de
ambivalência ou versatilidade temperamental.

Em geral os brasileiros africanistas descartam essa possibilidade dizendo tratar-se de


uma deturpação pura e simples e nenhum esforço é feito para tentar encontrar uma raíz
dessa crença no pensamento tradicional Yoruba, ainda mais por tratar-se de um orixá
que é descrito em seus oriki como um bravo guerreiro algo mais comumente associado
a alguém do sexo ou gênero masculino. Outro motivo que contribui para o tema ser
considerado embaraçoso demais para sequer ser encarado como uma possibilidade é o
fato de que a alternância de gênero é associada a certos traços de personalidade e
padrões comportamentais condenáveis pela cultura tradicional brasileira, fortemente
influenciada pelo catolicismo, e geralmente considerados indesejáveis, basicamente as
práticas homossexuais e o travestismo. Entretanto o travestismo e a mudança de
sexo/gênero não são exóticas ao pensamento tradicional Yoruba, nem são mal vistos.

Um exemplo de mudança de sexo/gênero de um personagem ilustre e sem conotação


negativa é o caso de Amotagesi, o segundo Orangun, rei, de Ila, Ila sendo a principal
cidade dos Igbomina, um sub-grupo étnico Yoruba, parte do panteão de orixás desta
cidade-reinado. Na história de Amotagesi a mudança de sexo é apresentada como uma
artimanha astuciosa e louvável que evidencia a proficiência de Amotagesi no uso de
medicinas/oògùn (John Pemberton III, The Dreadful God and the Divine King,
Africa’s Ogun, Second, Expanded Edition: Old World and New. Sandra T. Barnes,
1997:136; Toyin Falola, Yoruba Gurus: Indigenous Production of Knowledge in
Africa, 1999:259).

Quando um orixá apresenta essa característica (dualidade de gênero) no contexto


Yoruba ela tem uma conotação metafórica e se refere ao temperamento ou disposição
do mesmo em uma dada manifestação, siatuação ou esfera de ação. O feminino sendo
sinônimo de complacência, docilidade, produtividade e benevolência (virtudes
maternas) e o masculino significando rigidez, dureza, agressividade, conforme
expresso na felicitação de ano novo, “ki odun ya abo”, que o ano seja feminino, isto é,
agradável e produtivo.

Na cidade de Ondo, o orixá Ogun, que tem em comum com Ologunede a predisposição
ao combate e ao belicismo, é invocado de modo a suavizar sua natureza potencialmente
destrutiva, como vemos em Kingship, religion, and rituals in a Nigerian community : a
phenomenological study of Ondo Yoruba festivals, de Jacob Olupona (1991:125), "é pedido
que Ogun entre na cidade pelos "pés de uma mulher" (ese obinrin). Isso indica
uma postura suave, calma e não agressiva, uma imagem estereotípica de
feminilidade na cultura Yoruba. Os Yoruba normalmente descrevem e e rezam
por um ano pacífico e tranquilo com a expressão odun abo ("ano feminino").”

Como Logunedé, outros orixás têm essa capacidade de agir de forma “masculina” ou
“feminina”, inclusive Oxum, de quem Logunedé é uma hipóstase, conforme seu oriki
“Obinrin bi Okunrin ni Osun”, que significa “Oxum é uma mulher que pode agir como
homem”.

Onile, deusa associada à terra, ao solo, em Ife é considerada possuidora de atributos


masculinos e femininos, o que é representado pelo edan (Art and Spirituality: The Ijumu
Northeastern-Yoruba Egungun, Olawole Francis Famule, 2005:65).

Em Ijebu-Imusin conhece-se Orisalale, que é representado por um par de imagens, cada


uma de um sexo, cada uma delas ficando em uma localidade, mas representando o
mesmo deus. O mesmo ocorre em Ijebu-Ife com Odudua, a divindade tutelar (Drewal,
Henry John, Art and ethos of the Ijebu. Em: Yoruba: Nine Centuries of African Art and
Thought. Eds. Henry John Drewal, John Pemberton, III, and Rowland Abiodun. New York:
The Center for African Art, 1989:243).

No Brasil, Logun e Oxumare podem apresentar forma e comportamento tanto


masculino quanto feminino.

Ao que estes exemplos indicam, entre alguns Yoruba não se considera nem a
feminilidade nem a ambiguidade de gênero como desvio, e sim como sinal de
versatilidade/completude e ou proficuidade no uso de oògùn, medicina tradicional.
Num contexto patriarcal, é considerado virtuoso se um orixá feminino apresentar
características consideradas masculinas, mas o oposto não é visto com bons olhos,
como se o feminino fosse destituído de virtuosidade e fosse um fator enfraquecedor,
principalmente quando no contexto de um deus masculino.

"Lado masculino de Oxum, como Erinle" foram as palavras usadas por Paula Gomes,
Embaixadora Cultural do Alaafin de Oyo para descrever como Logun é considerado em
Oyo (comunicação pessoal através de sua página no facebook "AsaOrisa Alaafin Oyo", Abril de
2015). No contexto dessa frase compreendemos que “male Osun”, ou parte masculina
de Oxum, se refere ao ‘temperamento’ da divindade da água, Oxum, que pode ser
masculina ou feminina, isto é, bravia ou calma.

Deve-se ter em mente que no contexto da religiosidade Yoruba mesmo deusas não são
exemplos de feminilidade indefesa, e um bom exemplo de orixá fluvial e feminino de
temperamento forte que é descrita como exímia caçadora e guerreira é Oya que
felizmente mantivera essa característica aos olhos dos Yoruba na diáspora onde a
maioria destas deusas teve sua feminilidade redefinida segundo o padrão típico da
deusa mais proeminente na mesma, a Virgem Maria. Ao contrário das deusas Yoruba,
que não diferem dos deuses quando o assunto é ser capaz de defender seu povo, Maria
Mãe de jesus é uma mulher sofredora e mais passiva que as deusas Yoruba e a deusa
Yoruba a quem o feminino mariano fora atribuído foi Yemoja. As imagems de todas as
outras que tiveram seus cultos estabelecidos na diáspora tornaram-se verdadeiros
retratos da maneira caricata e desrespeitosa com que o imaginário popular concebe e
considera as mulheres que não cabem na definição de feminino aceita pelo Cristianismo.

Assim, o fato de Logun ser considerado o lado ou uma versão masculina de Oxum não
significa que ele é frágil, pois Oxum não o é. Significa que eles são hipóstases da mesma
essência.

Logun-ede e Oxum são dois orixás distintos, mas possuem muito em comum, suas
histórias se parecem, eles eram negligenciados e subestimados pela maioria e provaram
que eram na verdade indivíduos poderosíssimos e indispensáveis. Tem preferência pelo
ide (bronze), são cultuados em rios, dentre outros afeiçoamentos e preferencias, e se
encarados de forma abstrata dificilmente se distinguem um do outro.

Ao analisarmos outros temas de Logun podemos ver que diversas paridades dual-
complementares demonstram sua completude e polivalência.

O travestismo ocorre no contexto religioso tradicional Yoruba, onde o uso de


indumentária feminina por pessoas do sexo masculino é sinal de submissão, pois
metaforicamente eles são considerados esposas do orixá, e o orixá é considerado seu
marido, para demonstrar dependência como pode ser compreendida nas relações
conjugais Yoruba, patrilocais e gerontocentricas, a esposa sendo considerada mais
jovem que os membros (homens e mulheres) da nova família em que é admitida quando
se casa. Algumas vezes também é utilizado como forma de honrar o poder feminino,
associado à procriação e à criatividade (tanto no nível de fertilidade, quanto no de
criação divina), como por exemplo no caso do sacerdote de Oke, em Ibadan, que veste
uma indumentária feminina, o oja, em sua cabeça, em honra à sua deusa tutelar.

Assim sendo não se exclui a possibilidade das histórias sobre Logunédé mudar de sexo
como sinônimo de astúcia, proficiência no uso de oogun (medicina tradicional Yoruba,
algo tipicamente dominada por caçadores-guerreiros) e completude.

Há contextos onde dois orixás, geralmente descritos como parceiros conjugais,


representam uma complementariedade e cooperação entre as virtudes masculinas e
femininas (como Xango e Oya, Orixá Oko e Arere), mas também há outros nos quais
um único orixá sintetiza o masculino e o feminino em sua individualidade como Oxum
enquanto "Obinrin bi Okunrin", uma mulher que pode comportar-se e realizar feitos
considerados tipicamente masculinos.

É interessante que a assunção de uma forma masculina ou feminina por parte de


Logunédé seja associada à uma divisão bipartida do ano, na qual ele é homem em uma
metade e mulher na outra. Segundo esse pensamento, no Brasil onde um ano é
composto por doze messes, Logun vive no rio como mulher durante seis meses e outros
seis meses como homem em terra firme. Interessante porque os Yoruba tradicionais
reconhecem basicamente duas estações do ano, e não quatro como nós do ocidente, o
que pode sugerir que as mudanças de Logun de acordo com o ano dividido em dois
tenham relação com as estações seca e chuvosa, o que justificaria as mudanças sexuais
de Logun serem associadas à transição do terreno onde ele se encontra, masculino
quando na terra/estação seca e feminino quando na água/estação chuvosa.

São especulações, mas não seria um caso inédito. O culto de Obalogun em Lalupon
sendo outro exemplo. Como Logunédé, Obalogun também é um orixá caçador e um
general de guerra, e ele é celebrado duas vezes no ano, cada uma numa das estações
mencionadas anteriormente (George E. Simpson, Yoruba Religion and medicine in Ibadan,
1991:58). Assim como as mudanças de Logun, as duas cerimônias anuais para
Obalogun acontecem em intervalos de seis meses (idem, p. 144), a cerimônia da estação
chuvosa é ligada à safra do inhame e nela as mulheres são as principais participantes, e
na da estação seca os homens ocupam-se de uma das principais atividades que é uma
caçada envolvendo todos os homens capazes, quer sejam ou não caçadores profissionais,
até mesmo meninos a partir de doze anos de idade.

Os caçadores Yoruba preferem a estação seca para caçar, pois na estação chuvosa é mais
difícil localizar os animais pois a vegetação viçosa dificulta o rastreamento (D. Michael
Warren, Jennifer Pinkston, Indigenous African resource management of a rainforest ecosystem,
Linking Social and Ecological Systems: Management Practices and Social Mechanisms for
Building Resilience, 2002:167), o que explicaria o porquê de Logun ser considerado
feminino, ou não propenso a atividades exercidas em sua maioria por homens, quando
no rio, pois na estação das chuvas quando a maioria dos rios estão cheios os caçadores
não exercem sua atividade com a mesma frequência e/ou intensidade que o fazem
durante a estão seca (idem, 162).

Assim sendo a associação da mudança de sexo ou gênero de Logun com duas metades
de um ano associadas à terra firme e à água respectivamente pode tratar-se de uma
mudança de temperamento e responsabilidades sociais assumidos pelo orixá em
diferentes épocas do ano, sugerindo a presença de um fator sazonal em seu culto, o que
não é estranho em se tratando de um orixá caçador pois assim como a agricultura as
atividades de caça também definem-se de acordo com as diferentes estações da
natureza.
III

Meta-Morfoses
Com base no que compõe os oriki, orin, altares e indumentária de Logunedé, tomamos
conhecimento de diversos ícones que juntos compõe uma paisagem cósmica através da
qual podemos analisar muitos aspectos importantes da personalidade do orixá, e
melhor compreendê-lo.

Felizmente um dos orixás menos debatidos na literatura possui muitos oriki e orin
publicados e graças a isso temos neles uma correnteza de informações que ao ser
abordada é como água cristalina para refrescar, renovar e saciar os devotos do deus a
quem ele se refere, pois eles apresentam um retrato do orixá no qual seus filhos que
estão em lugares onde sua imagem é obscura podem contemplá-lo claramente, desde
que saibam interpretá-lo corretamente. Os autores que fizeram o grande trabalho de
coletá-los e publicá-los não se dedicaram à interpretá-los ou analisá-los profundamente,
e seu conteúdo muitas vezes não é obvio mas sim cifrado àqueles que não são familiares
com certos aspectos da cultura Yoruba.

Logun é elogiado em oriki por sua vaidade, orgulho e boa forma física, sua beleza é
tamanha que é notável em seu corpo, na sua voz e até em seus olhos. A aparência de
todas as coisas que compõe seus iconomorfismos é um verdadeiro deleite para os
sentidos. E o contemplar suas muitas manifestações tangíveis acessamos uma beleza
que nos arrebata e catapulta para além da realidade apreendida pela consciencia
cotidiana, matizado de fascinantes possibilidades extraordinárias, o deus guerreiro
domina a medicina tradicional e a caça, o que o posicionam num papel de destaque e
maestria na arena da transformação, da potencialização promovida pelas propriedades
das espécies contempladas pela zoobotanica Yoruba, por meio da qual o ser humano se
amplifica e transcende as barreiras típicas de sua espécie, realizando os desígnios de sua
consciência, seu ori.

Logunedé, um caçador-guerreiro ideal, divino, tem essa habilidade, e seus louvores


enfatizam isso: "Transforme-se no que quiser, para que eu possa vê-lo (Sikiru Salami,
1991:105-6); Meu pai, de corpo liso como o bambu, mostra a pele que desejar. Se mostrar pele
clara hoje, amanhã mostrará pele escura. (Idem, pág. 104).

O guerreiro-caçador, celebrado por diversas culturas, é um ser cuja contemplação


provoca solenidade, inquietação e reflexão profundos, pois nele estão presentes de
modo muito evidente e equilibrado elementos que nos mostram a interdependência
entre a vida e a morte. O caçador é alguém que mata, mas sempre numa condição
desejável da perspectiva humana, diferente do guerreiro que é ambíguo porque o
guerreiro que salva um povo é o que condena outro. Teoricamente, ou idealisticamente,
o guerreiro divino, ou sagrado, deve lutar contra os inimigos da humanidade (a doença,
a desarmonia, a injustiça), e nisso transcende o possível etnocentrismo do guerreiro
vulgar.

Pela ação do caçador e do guerreiro o Homem tem a oportunidade de reconhecer que


viver implica matar, que a vida se alimenta de morte, que aquele que é tido como mais
fraco não é desprezível, mas essencial, principalmente para a sobrevivência do que é
considerado mais forte, que existe uma interdependência entre tudo, que a morte
fatalmente nivela a todos os que vivem, e esta complexidade existe em nossa condição
de seres humanos, que somos fisicamente frágeis em comparação com algumas espécies
dotadas de chifres, presas, garras e massa corpórea, que conseguimos subjugar devido à
nossa inteligência. Logun-edé parece representar o potencial humano, muitas vezes
negligenciado e subbestimado, mas que sempre acaba surpreendendo as expectativas.

No caçador, apetite e curiosidade mostram-se em maior proporção que medo do


desconhecido ou da alteridade, e esta característica o impulsiona ao movimento
constante. E na direção do desconhecido ele corajosamente se precipita, exercitando a
esperteza necessária para ser vitorioso.

Ávido, ele pode ser percebido em todo aquele que vai atrás de sua sobrevivência,
mesmo que esta implique em fugir de alguma ameaça. Está no predador que persegue a
presa para alimentar-se e também na presa persegue sua sobrevivência ao escapar do
predador, ambas as ações implicam movimento, coragem e ousadia. A inércia que é a
antítese de toda a vida, é também a dele próprio.

Antropomorfismos
Para os Yoruba os seres dotados de corpos físicos são originalmente espíritos que já
existiam no orun, simbolizado pelo céu por tratar-se de um "lugar" fora do alcance dos
sentidos dos seres encarnados, ancorados no aye, e por ser mais sutil, como o vento e a
atmosfera que não podem ser capturados. Através do nascimento esses seres descem ao
mundo concreto, acessível, o mundo dos vivos, o Aye, a Terra, o Universo. Os orixás
não se revelam apenas em manifestações de carne e osso, humanas ou de outras
espécies, mas também em epifanias. J. Y. Peel, em seu Religious Encounter and the Making
of the Yoruba (2003:98), cita um relato de um missionario que testemunhara um desses
eventos em que um orixá fora reconhecido por humanos, no caso uma formação
rochosa teria sido o meio pelo qual o orixá, um ser espiritual, tivera se manifestado, e o
gênero do mesmo fora considerado feminino devido à sua disposição maternal.

As descrições antropomorfas do deus, um ser espiritual dotado de capacidades supra-


humanas, comunicam as características de sua personalidade como seus temperamento
e predileções com bastante eficiência tornando-o acessível a qualquer pessoa. Por isto
essas representações e/manifestações antropomorfas são aqui definidas como as mais
básicas, e analisadas em primeiro lugar.

Segundo seu myhtos Logun viera do orun predestinado a tornar-se um exímio


guerreiro, status que ele alcançou e por ter utilizado essa capacidade em prol da
humanidade tornara-se venerável. Como a crença de que o espírito não só precede à
encarnação, mas também perdura após a morte do corpo carnal, ele conservara sua
posição após retornar ao orun, de onde continua a interferir e auxiliar aqueles que com
ele nutrem um relacionamento de cordialidade e respeito.
Filho d’Oxum, Infante Prodígio,
Oxum tem muitos filhos, pois é natural que seus excelência, beleza, inteligência e
fertilidade causem muitas uniões, sempre produtivas. Logunedé é um destes filhos. Ele
simboliza a excelência da criatividade desta deusa eternamente fecunda. Sua estação
perene é a jovialidade, que pode existir em todos os seres independente de suas idades.
Impetuosidade Divina, assim pode ser definido Logunédé.

No oriki publicado por Barber ele é descrito como filho caçula, e no publicado por
Verger ele é descrito como um bebê que é carregado e sustentado por sua mãe,
sugerindo dependência e indissociabilidade dele para com Oxum.

Em Dahomean Narrative: A Cross-cultural Analysis (Melville Jean, Frances S. Herskovits,


1998:24), os autores expõe tanto o entendimento do tema segundo os contadores de
história nativos quanto de seu próprio ponto de vista: "segundo os contadores de
história daomeanos informaram "isto revela como o caçula é mais astuto"; mas
nós temos aqui, na verdade, apenas um tema, uma expressão da crença oeste-
Africana muito difundida, que uma criança herda seus traços de seus pais, e
conforme os pais envelhecem ganham em experiência, a caçula é
presumivelmente a mais astuta. Este tema, nós descobrimos, ocorre em muitos
contos, onde ele pode ser o incidente dominante e portanto o centro da estrutura
da trama, (...) ou um tema subordinado ou complementar (...)."

Ainda segundo a mesma fonte (pág. 25), a respeito desse elemento manifesto como uma
criança-divina, no contexto das narrativas onde figuram os deuses: "Além disso, este
mesmo tema é usado para definir o caráter de Legba, o filho mais jovem de
Mawu, a divindade-celeste; ou Bade, o mais jovem filho de Sogbo, o chefe do
panteão do Trovão; ou Aflekete, que ocupa uma posição análoga no no panteão
do Mar. Mas no caso dos deuses, dificilmente necessita de citação explicita, pois
é aceito como um tipo de denominador pouco comum em seu comportamento,
algo que uma audiência Daomeana pressupõe."

Os mitos de Logunedé conhecidos no Brasil retratam-no como uma criança, alguns


deles como uma que é abandonada por sua mãe Oxum na floresta e lá é encontrado por
algum outro orixá que o adota e treina em uma de suas artes. Existe um mito
semelhante publicado por Tutuola e Fagunwa como literatura inspirada nas tradições
Yoruba, do infante Ajantala. A biografia do famoso guerreiro Aduloju, oriundo da
cidade de Ado, também apresenta semelhanças com essas narrativas de abandono de
uma criança considerada ameaçadora (Emmanuel Oladipo Ojo Ph.D, Aduloju of Ado:
A Nineteenth Century Ekiti Warlord, acessado em 30/07/2016,
http://iosrjournals.org/iosr-jhss/papers/Vol18-issue4/G01845866.pdf ?id=8644).

Na história conhecida no Brasil, o motivo do abandono por parte de Oxum ressalta o


caráter irascível e forte de outro orixá, Xangô, com quem Oxum vai morar após
conceber Logun-ede fruto de sua união com Oxossi. Nela evidencia-se o orgulho
patriarcal e viril de Xangô, que não comporta fruto de outro homem em seu domínio,
mas por outro lado sugere que a presença de Logun é potencialmente ameaçadora,
grande demais para ser permitida junto à Xangô pois sua grandeza eclipsaria a
proeminência dele.

Seja como for, essas crianças por algum motivo não se ajustam a algum limite cultural
tradicional, elas representam uma ameaça ao status quo ou até mesmo se rebelam
contra ele, o quebram, e a única forma de garantir a integridade deste sistema que é tão
importante para a maioria mas insuportável para estas crianças é abandoná-las no
espaço exterior ao mesmo, colocando em risco outra integridade, a da criança.

Eles parecem representar os medos das pessoas que já se estabilizaram na vida


mediante ao novo e ao incerto, representados por um ser jovem e em formação,
indefinido. Também são didáticos ao mostrar às crianças para quem ele é contado que
caso elas se comportem de maneira a causar problemas serão abandonadas e encontrar-
se-ão em situações desagradáveis.

A Pedagogia Holística de Oxum


A forma como Oxum lida com seu filho é parecida com a pedagogia mundialmente
aclamada de Paulo Freire. Ela não busca corrigir ou apagar as tendências natas do
neófito, mas trabalha a partir delas para descobrir qual o melhor caminho escolher
visando seu pleno desenvolvimento.

Segundo suas sacerdotisas de Ibadan, Logunédé era muito arteiro em sua infância. As
pessoas na comunidade constantemente reclamavam de seu comportamento para sua
mãe Oxum. Oxum, com sua sabedoria, não tomou nenhuma atitude drástica (como o
abandono da criança em uma floresta nos contos Yoruba de outras crianças arteiras, ou
como nos mitos brasileiros), ela foi consultar o oráculo. O oráculo (e as virtudes que ele
representa como reflexão, sabedoria ancestral, busca, apaziguamento, resolução e
solução) revelaram à Oxum que o menino era assim porque era um guerreiro enviado
dos céus, do outro mundo, do além, exemplificando a concepção Yoruba de “lati orun
wa”, características que uma pessoa traz de sua existência pré-natal, no orun, o mundo
dos espíritos.

O mito de Logunedé contado pelas Iyás de Ibadan, ao contrário dos contos populares
da criança terrível, não inspira medo, mas esperança. Ele afirma que as crianças podem
ser problemáticas pois não dominam a arte da sociabilidade, mas que elas têm em si o
potencial para dominá-la. As características que uma criança apresenta, sejam quais
forem, excesso de agressividade como no caso de Logun, ou qualquer outra, podem e
devem ser empregadas para fins benéficos tanto para a criança quanto para seu povo,
desde que este povo a acolha e tenha interesse em buscar meios capazes de tornar este
potencial em realidade. A importância da parentalidade racional e da novidade filial
concilia o tradicional com o emergente. No contexto do mito da vida de Logun em
específico Oxum pode ser entendida como um ser que incorpora os fatores culturais na
forma de uma conduta ideal e exemplar, e Logun como representante dos fatores
expontâneos e surpreendentes do ser natural, que numa cultura considerada
ideal/divina pelas suas narradoras não deve ser temido, expulso ou eliminado, mas
direcionado com racionalidade e afetuosidade, representados pelas ações de alguém
guiado por uma empatia maternal/parental.

Nisto vemos a beleza e o valor desta sagrada tradição que contrasta com outras
tendências menos louváveis em meio às quais coexiste em solo Yoruba, como por
exemplo a que vemos na história de um guerreiro chamado Aduloju, da cidade de Ado,
que fora abandonado ao nascer devido às tristes e estranhas circunstâncias de seu
nascimento. Segundo as tradições orais, Aduloju fora assim batizado devido à
tonalidade de seu rosto ao nascer, muito escura, além dessa característica, ele nascera
com dentes, algo considerado misterioso, e como se não bastasse sua mãe morrera
pouco tempo após seu nascimento. Mas uma princesa do Rei de Ado Ekiti, chamada
Aroloye salvara o infante desta triste sina, e o confiara a uma anciã da família chamada
Fayunsin, que posteriormente o adotara. Aduloju tornara-se um exímio guerreiro,
famoso até os dias de hoje (Emmanuel Oladipo Ojo (Ph.D), Aduloju of Ado: A
Nineteenth Century Ekiti Warlord, em IOSR Journal Of Humanities And Social
Science (IOSR-JHSS) Volume 18, Issue 4, Nov. - Dec. 2013,
http://www.iosrjournals.org/iosr-jhss/papers/Vol18-issue4/G01845866.pdf, acessado
em 14/02/2019). Curiosamente, há em um oriki de Oxum em que temos a seguinte
frase, ‘Ologun Ado odudu omo de’, Guerreiro de Ado, pequena criança negra (Verger,
Notas, 1999:416).

À parte das semelhanças entre as histórias de guerreiros Yoruba (tanto Aduloju quanto
Ogedengbe são descritos em suas biografias como crianças de comportamento pouco
adequado, assim como Logun, que vieram a se tornar heróis), elas nos mostram que
certos aspectos desagradáveis e antiéticos que muitos enfatizam terem sido parte de
determinadas culturas no passado, como o infanticídio, eram uma realidade sim, mas
não de forma generalizada, e sempre houvera indivíduos mais empáticos nas mesmas,
que a evolução ética do povo é algo humano, e independe da intervenção colonial.

O Jovem e Sábio
Na literatura sacra apresentada na obra de Salami consta o epíteto "Kekere ode"
traduzido como "jovem caçador". Segundo B. M. Ibitokun: "Um narrador comentando
sobre o valor marcial precoce de um jovem guerreiro da família de guerreiros cantaria
'Kekere ekun, bi ekun ni i she', significando um bebê leão já se comporta de maneira fiel
a sua estirpe." ("The Metaphysics of Heroism in African Literature: From Reactionary to
Revolutionary Ethos?", 1986:4). Ou seja, o nome kekere é geralmente adicionado a um
outro para denotar que a pessoa digna desse nome é prodigiosa mesmo sendo jovem.
Isto esclarece o epíteto "Kekere ode" de Logun-ede como sendo uma referência ao
excelente desempenho do orixá ao exercer atividades típicas dos caçadores desde muito
jovem. O fato de ser muito jovem e muito notável deve ser o motivo do que é dito
nestas duas linhas de seus oriki : "Caçula de Oxum, que irrita os outros filhos das
águas"; "Um orgulhoso fica descontente quando um outro está contente".

Logun-édé, o jovem extraordinário que tivera sua excelência reconhecida desde tenra
idade, conforme expresso em oriki como Kekere ode, Jovem caçador.

A ilustre Ialorixá Mãe Menininha do Gantois descreveu Logun como "Santo menino
que velho respeita". Uma frase que contrasta com o sistema gerontocrático no qual
quem tem mais idade e é mais experiente é consequentemente o mais sábio, deixa de
ser regra. Logun é o jovem caçador que se torna respeitável até mesmo pelos mais
velhos, devido à sua precocidade, ele encarna a senioridade do mundo espiritual que
pode, prodigiosa e surpreendentemente, superar àquela do mundo físico, como vemos
no caso do nascimento de gêmeos entre os Yoruba, que consideram o último a nascer
como o mais velho, o fato de ter esperado seu irmão nascer primeiro sendo interpretado
como um sinal de astúcia.

O mesmo ethos está presente nos mitos onde Legba, a prodigiosa criança caçula e
preferida de Mawu que desafia a ordem e a hierarquia mantidas pelos outros deuses,
recebe de sua mãe a função de tradutor e mensageiro/mediador.

Dentre os Yoruba Legba é denominado Exu, ou Elegbara, e é o mensageiro (Ojixé


orixá) e mediador (Onibode) divino.

Astuto, Legba/Exu é inteligentemente posicionado cosmicamente em áreas ambíguas


que exigem tato e esperteza, como nos mercados onde negociações e acordos que
devem beneficiar quem compra a ponto de criar um vínculo com o fornecedor e ao
mesmo tempo serem vantajosos a quem vende, e nas estradas que são destituídas de
supervisores que garantam o cumprimento de leis e regras de conduta muito rígidas e
definidas. Por isso Exu geralmente e potencialmente destrutivo em situações que
exigem constância, sensibilidade, caridade e doação pois estas evidenciam a
inconstância das intenções das pessoas, a dificuldade do que o ser humano pode ter em
nater-se fiél a algo mediante as novas oportunidades que surgem, onde ele se verá
muitas vezes tentado a fazer uma troca, a mudar de direção, como mediante a uma
encruzilhada, domínio de Exu. Da mesma forma que Logun, impetuoso de nascença,
fora inteligentemente posicionado cosmicamente nas batalhas.

Conforme seu mito, no orixá Logun-ede encontram-se realizadas de forma intensa e


vívida todas as esperanças que se pode ter ao contemplar e lidar com uma criança.
Como o mito acontece 'in illo tempore'', os seres míticos são livres das influências
naturais conhecidas por nós, como de linearidade temporal, presença e ação no espaço,
e são dotados de qualidades e capacidades sobre-humanas, Logun é simultâneamente o
bebê dependente, a criança arteira e o campeão. Oxum por sua vez epitomiza a
parentalidade ideal que supre o ser com o zêlo necessário para garantir seu sucesso
desde os estágios iniciais de seu desenvolvimento. Logunedé, sendo valoroso e
exemplar, atesta a excelência com que Oxum desempenha essa função.

Segundo Aminata Sow Fall, existem basicamente três tipos de herói-criança nos contos
populares africanos, são eles: "a criança modelo", "a criança impetuosa", e "a criança
malévola" (Aminata Sow Fall. “The Child-Hero in African Folktales.” Em UNESCO
Courier 35, 1982:23-25,
http://unesdoc.unesco.org/images/0007/000747/074717eo.pdf, acessado em
06/08/2016). Com base nessa classificação Logunedé pode ser entendido como uma
criança impetuosa, mas seu mito demonstra que sua personalidade possui
características consideradas de valor para os Yoruba como coragem, justiça, vigor,
interesse em seus parentes (por ser indissociável de sua mãe Oxum), etc, sintetizando
características da criança modelo quanto da criança impetuosa.

Além de caçula, e muito próximo de sua mãe, simbolizando a interdependencia entre


ambos e elegendo-o como privilegiado, pois o caçula nasce quando os pais estão mais
experientes, sábios, e estabelecidos no mundo, Logunédé é uma criança problemática,
conhecida na literatura como enfant terrible.

Segundo Adeboye Babalola (The Role of Nigerian languages and literatures in fostering
national cultural identity. In The Humanities and National Development in Nigeria.
Agwonorobo Enaeme Eruvbetine, Nina Emma Mba, 1991. 146 - 160, p. 152) o enfant
terrible expressa uma característica do pensamento tradicional dos Yoruba, a crença na
predestinação. O ser que nasce com um talento parece comprovar que ele já vem ao
mundo com uma bagagem, com habilidades que presumivelmente foram adquiridas ou
concedidas a ele antes de nascer, já que não tivera tempo de aprendê-las em sua pouca
vivência no aye, algo que é expresso no mito de seu nascimento contado em Ibadan,
onde após Oxum consultar o oráculo de Ifa, lhe é revelado que seu filho veio do além já
na condição de guerreiro.

O Salvador Divino
Para seus devotos Logun é um imbatível aliado em todas as áreas de suas vidas. Em
seus oriki faz-se menção à algumas doenças, aludindo à sua capacidade de curá-las.

As doenças, como todos os males, geralmente originam-se de e provocam alguma


forma de desequilíbrio nos indivíduos aos quais afligem. Das que constam em seu oriki,
algumas tem a característica comum de causar aumento anormal e excessivo de certas
partes do corpo, como a papeira/caxumba e a orquite; outras são subjetivas e invisíveis
aos olhos como a loucura e a infelicidade. Declarando-o como capaz de curar os males
do corpo e os da alma, os visíveis e os invisíveis.

Na dinâmica da espiritualidade essas doenças podem traduzir-se como o desequilíbrio


resultante da ausência de um relacionamento entre o indivíduo afligido e o orixá capaz
de livrá-lo da aflição.

A característica destas doenças pode ser também, como veremos, uma alusão à formas
com que Logunede pune os malfeitores, e elas contrastam com características virtuosas
possuídas pelo próprio orixá, pois os orgãos afetados por elas são emblemáticos de
áreas da vida sob a égide do orixá.
A orquite, que afeta os testículos, biológicamente fontes de fertilidade e culturalmente
de potência. Debilitando no homem uma capacidade que o orixá é capaz de restaurar,
como conceder filhos à alguém estéril, elogiada em seu oriki. Os orgãos sexuais
constituem meios de interação íntima através da qual se pode obter e proporcionar
prazer, e é Logun ligado ao prazer por ser atraente e esteta. "Aquele que padece de
orquite dorme profundamente", dormir profundamente é a antítese da vitalidade
estimada pela cultura e natural das pessoas saudáveis.

O pescoço confere suporte e a mobilidade à cabeça, que por sua vez é afetada pela
loucura e encima o corpo, abrigando orgãos sensoriais que atuam como receptores e
transmissores de informação e a eficácia desse sistema intercambial define alguém
como louco ou lúcido .

Também é o pescoço um invólucro para garganta, o canal através do qual os alimentos


passam para nutrir e as medicinas para curar e amplificar as capacidades naturais do
corpo, fortalecê-lo, e Logun possui compromisso com a mantença da vida propiciando o
alimento através de suas atividades venatórias, haliêuticas e de coleta de vegetais
comestíveis, bem como com a proteção da ordem desejável na qual os seres humanos
não são alvos de morte prematura, por escassez de alimentos e recursos, doenças, e
ação de inimigos.

Assim sendo, a menção a estas doenças refere-se ao papel do orixá na vida dos homens
como um salvador, como declara seu oriki: "O salvador que em maus dias nos
protege".

A posição do orixá enquanto alguém em quem se pode depender é expressada também


quando seus oriki mencionam-no como marido de cinco pessoas, a poligamia no
contexto Yoruba simboliza o sucesso material, a atratividade, a amabilidade e a
capacidade conciliadora de um homem. Por ser um provedor, ele também é chamado de
baba, pai, senhor.

Por outro lado, a orquite provoca um aumento dos testículos, símbolos de virilidade e
fertilidade, e traz essa conotação ao oriki. E a sentença completa, “aquele que tem
orquite dorme profundamente”, parece proverbial, e provérbios são empregados em
oriki para enfatizar o que se está narrando, assim como a verdade contida na sabedoria
popular do provérbio é reconhecida por todos, do mesmo modo são as características
louvadas no oriki.

A referencia à papeira também pode ser considerada metafórica, há um provérbio que


associa o bócio/papeira à prosperidade, porque é preciso um grande número de
preciosas miçangas para circundar o pescoço de quem tem papeira.

Sua Indumentária
Sua indumentária integra a beleza apresentada quando ele é visto em forma humana, e
indicam a preocupação do orixá com o bem estar físico, mais uma similaridade com sua
mãe Oxum.

A vaidade de Logunédé naturalmente o posiciona no centro das atenções positivas pois


corresponde às expectativas de agradabilidade da sociedade.

Os oriki de Logun-ede elogiam-no pela beleza de seus olhos, seu corpo, sua voz, e suas
vestes. A boa forma física é um atributo importante de um guerreiro, e o orgulho uma
consequência natural da excelência e do heroísmo, a beleza multifária de Logunede
corresponde à nobreza de suas ações, que apesar de as vezes envolverem agressividade
e violência, tem sempre propósitos nobres (punir os maus, lutar pelo lado do bem, e
obter alimento.).

As Vestes
Além de mencionar as vestes refinadas com que ele se apresente, orikis de Logun dizem
que ele coloca uma pena de coruja em sua roupa, o que nos revela a dimensão mágico-
medicinal da indumentária, além da ornamental. A coruja é uma ave caçadora, e
associada ao conhecimento de mistérios devido a sua capacidade de enxergar no escuro.
Há um provérbio Yoruba que a elogia pela sua coragem, pois destemida voa em meio a
escuridão.

A Corôa
Diversos cânticos louvam o brilho da coroa de Logunedé.

A coroa de Logun é descrita como feita de conchas, um símbolo de dinheiro,


prosperidade e beleza. Seja em casos onde é descrita como sendo confeccionada com
conchas ou quando a menção é apenas sobre a coroa há uma constante, ela é descrita
como muito grande e muito brilhante. Deus fluvial coroado com brilho intenso, água
cristalina sob um lume que nunca se apaga, a coroa de Logun é um símbolo de sua
consciência plena e sempre desperta.

A coroa também é um distintivo de autoridade e liderança, assim como a coroa está


sobre a cabeça e extende sua estatura, posiciona quem a usa acima dos demais,
idealmente como um governante capaz de representar a coletividade daqueles a quem
representa.

O Ori de Logunede é evocado nos orins de exaltação e reconhecimento das qualidades


dos oris dos devotos, como se fosse um modelo a ser emulado.

O Penteado
Os grandes caçadores e guerreiros Yoruba distinguem-se pelo uso de um penteado
chamado aasho oluode, que consiste de manter o cabelo raspado com excessão de um
pedaço mantido no topo da cabeça moldado de modo a manter-se pendendo para o lado
e deixado crescer até determinado compriomento, utilizado para conter medicamentos
(oògùn, etc). É de uso exclusivo do líder da sociedade dos caçadores de cada cidade,
posto ocupado pelo mais valente, bem-sucedido e profícuo no ofício da medicina
tradicional (Bukola Adeyemi Oyeniyi. Dress and identity in Yorubaland, 1880-1980. 2012.
https://openaccess.leidenuniv.nl/bitstream/handle/1887/20143/03.pdf ?sequence=7, acessado
em 15/08/2016). Logun posui todas essas qualidades, é o líder guerreiro dentre os
orixás, podendo ser visualisado como alguém que apresenta tal penteado, mesmo que
não seja descrito assim em seus oriki.

Seu Arsenal
"Ágil, ele já se levanta de manhã com o arco e as flechas pendurados no
pescoço"

Como caçador Logun provê a alimentação de seu povo, é bravo e forte e pode enfrentar
e vencer as ameaças, garantindo assim o bem estar a segurança dos seus.

Dentre as ferramentas que representam Logunédé as mais conhecidas são o arco e as


flechas e a espada. Analisaremos estas e mais algumas ferramentas típicas de um
exímio caçador. As ferramentas utilizadas na caça ativa e no combate representam o
dinamismo do orixá.

Ao imaginarmos um caçador e um guerreiro tendemos a visualizar um ser em


constante movimento, mas o exercício destas atividades também inclui passividade,
paciência, reflexão, e auto-controle, quietude e observação que um caçador precisa ter
para ser bem-sucedido, precedendo suas a ações e comemorações.

Além destes existem elementos essenciais à caça, ao combate, à sobreviência e ao


sucesso que são imperceptíveis aos cinco sentidos. A disposição, a coragem, a
resistência, a inteligência, são todos recursos internos e são realmente indispensáveis a
um caçador-guerreiro.

A Medicina
Recurso sutil e misterioso, a medicina tradicional assim como as armas potencializa os
recursos internos do Homem.

Como um frequentador assíduo da natureza o caçador exemplar conhecer e aprender as


propriedades medicinais de tudo o que ele tem acesso na mesma.

Sabe o que é nutritivo e o que é venenoso, o que é excitante e o que é calmante, o que
cura e o que mata, bem como as combinações possíveis de ingredientes para aumentar a
eficácia dos resultados de sua utilização para diversas finalidades como proteger e
potencializar a si e ao seu povo, e para combater inimigos e as doenças, da floresta ele
não traz somente a caça mas também a medicina.

E assim o caçador-provedor naturalmente torna-se um guerreiro-herói e um médico-


sábio.
As Armadilhas
A armadilha pode ser um dispositivo que o caçador prepara e posiciona camuflado em
um lugar, às vezes com uma isca, para capturar animais de todos os tipos. E o próprio
caçador age como uma armadilha, silencioso e desapercebido em algum lugar pelo
momento certo de agir. Assim sua agência é efetiva em muitos lugares
simultaneamente, onde ele planta as armadilhas, e onde ele está em pessoa. Sendo
representativas da capacidade sobre-humana que o orixá tem de estar em muitos
lugares ao mesmo tempo e de sua astúcia.

O Flagelo
O arco e a espada não são as únicas armas do caçador e do guerreiro. Os caçadores
utilizam um tipo de chicote para espantar moscas e esse utensílio, diferente das armas
como a espada e o arco, não é utilizado contra inimigos muito evidentes e assustadores
como animais ferozes e inimigos humanos. Ele espanta insetos, seres diminutos mas
que são igualmente perigosos pois muitos são transmissores de doenças letais, e
sempre estão presentes em situações insalubres onde há falta de higiene, de
movimento/vitalidade, dejetos e decomposição. Por isso ele é símbolo da capacidade de
afastar os inimigos mais sutis.

O Leque
Embora mais conhecido na literatura e na diáspora como instrumentos de orixás
femininos, o leque é usado por orixás independente de seu sexo. Além de Logun
também o usam Erinle (Thompson. In Tradition and Creativity in Tribal Art. Página 130),
e alguns egungun. Ele representa o poder de propiciação, renovação, alívio, e frescor.

O Arco
Atrás do arco o orixá que tem o olhar muito sagaz (Verger, 1999:224) calcula e
direciona sua ação para que ela seja sempre certeira. O arco capacita aquele que o
utiliza com impulso superior ao natural. Isso mostra que o arco pode ser entendido
como emblemático da inteligência aguçada e da força descomunal de Logun.

As Flechas
Como projéteis, representam a potente penetratividade do orixá, a grande força de sua ação, a
amplitude de sua influência, e sua assertividade. Símbolo de rapidez, alcance e precisão.

O Cutelo
O cutelo representa a capacidade de criar e abrir/ampliar caminhos, Logunede como o
explorador que desbrava o desconhecido é similar a um a lâmina cortante capaz de subjugar
obstáculos. Simbolo de agressividade e intensidade.

2. Zoomorfismos
Ampliando um pouco mais a representatividade das características do orixá e
aprofundando a noção do ser humano sobre as mesmas estão os símbolos não-humanos,
de outras espécies animais e de vegetais que possuem e apresentam estas características
de forma bastante evidente e potente.

As assunções animais, ao menos as que são notáveis o bastante para constar em seus
oriki, apesar de variadas limitam-se à exímios predadores. Juntos, esses animais
abrangem os abientes terrestre, aéreo e aquático e proclamam a extensão de seu poder.
São elas:

Caprinae.
"Altivo como um carneiro", representa sua altivez, típica de um exímio lutador que
bate de frente com vigor como um carneiro, destemido e potente.

Felídeos.
"Leopardo de pelo muito belo", "Desapercebido como um leopardo", "Aquele que caça
como um gato": representam sucesso em terra firme, sua beleza lustrosa e sua
discrição.

Rapinantes.
"O gavião pega o frango com suas penas", "Veloz como um falcão", "Ele encontra uma
pena de coruja e a prende em sua roupa": representam suas rapidez, agilidade,
assertividade, infalibilidade e precisão de sua agência, bem como sua visão
encompassante e sua proeminência pois os rapinantes pousam no topo das árvores, sem
medo de serem expostos pois são os únicos predadores do ar. A coruja, por ser
predominantemente noturna, simboliza sua sabedoria e seus mistérios pois são capazes
de enxergar e agir até mesmo na escuridão, onde a maioria não é capaz de ver e onde
não são vistos pela maioria. Sua sabedoria e seus mistérios são típicos do caçador e do
guerreiro, pois as frequentes incursões e longas estadias de ambos tanto no ermo
quanto no território inimigo ou estrangeiro, respectivamente, fazem-nos profundos
conhecedores tanto do oikoumene quanto da terra ignota.

A coruja também alude ao seu favorecimento entre as Iyami (o coletivo de


possibilidades de desenvolvimento das mulheres como mães, provedoras, educadoras,
etc), pois as corujas simbolizam-nas enquanto mães exemplares que defendem
ferozmente seus ninhos quando identificam a presença de predadores, enquanto
misteriosos seres capazes de gerar outros seres, para as quais tanto o caçador quanto o
guerreiro são queridos pois o comércio é dominado por elas e o caçador fornece a carne
de caça, rara, valiosa e lucrativa, e o guerreiro defende a vida, gerada e estimada pelas
mães.

Ofídeos.
"Meu pai se transformou em víbora (oka), se transformou também em jibóia (ere) para
caçar nos lugares pantanosos". A víbora, por ser peçonhenta representa sua capacidade
de empregar fármacos para matar e punir os maus. A píton, constritora que é
praticamente puro músculo, é sinônimo de sua força, e por ser capaz de caçar mesmo
embaixo dágua alude à capacidade de Logun ser bem sucedido até mesmo em situações
"escorregadias" onde há pouca firmeza, demonstrando sua adaptabilidade.

3. Fitomorfismos
Um dos símbolos da integração entre caçador e natureza é sua especialidade acerca das
propriedades das plantas. Ele é apto a apresentar novas espécies por ele descobertas em
suas expedições, algumas delas sendo cultiváveis pelos agricultores, enriquecendo a
dieta de seu povo.

Apesar disso não entraremos no mérito das propriedades das plantas associadas a
Logun, e nos ateremos às espécies vegetais que constam na literatura sacra dedicada à
ele como hieróglifos, símbolos sagrados emblemáticos de aspectos de sua
personalidade. São elas:

Ewe Gbodogi (Megaphrynium macrostachyum; Marantochloa flexuosa & M.


ramosissima), "A chuva cai na folha gbodogi e faz barulho". A folha, que é utilizada
para cobrir telhados por resistir à ação dos fenomenos atmosféricos e ser impermeável,
no oriki é referida especificamente pelo barulho com que a chuva faz ao cair sobre a
folha, fazendo uma alusão à forma notável com que Logun mata os malfeitores, aquele
que age silenciosamente mas que declara em alto e bom tom os atos de justiça por ele
executados.

Odundun (Kalachoe crenata, Verger 1967:61; Bryophyllum pinnatum, DR. OJO


JOSEPH BAMIDELE (Ph.D). Natural Therapy Miracle: Alternative Solution to the
Prescription Drug Problems. 2013:191), "Ele é fresco como a folha de odundun). Por
possuir folhas grossas e suculentas, é emblemática do orixá enquanto detentor de
recursos inesgotáveis. A folha de odundun à qual é comparado é louvada por sua
capacidade de estar fresca perenemente, pois sempre tem água em seu interior, mesmo
durante a estação seca (Pierre Verger. Awo̦n ewé o̦sanyin: Yoruba medicinal leaves.
University of Ife, Institute of African Studies, 1967. pág. 61).

Ogede wewe (bananas pequenas, banana-ouro, banana-maçã), apesar de não constar


em oriki, foi citada à verger em Ilexá como a única espécie utilizada em seu culto, todas
as outras constituindo tabu. Utilizadas para agradar abiku com a finalidade de que
permaneçam vivos, e à agradar Ibeji, por causa da doçura e do frescor de seus tenros e
deliciosos frutos é considerada propiciatória.

4. Naturomorfismos
Após as representações animais e vegetais, seguindo a ordem de complexidade
crescente, estão os símbolos que consistem fenômenos naturais e aspectos poderosos
da natureza. Estes, devido à amplitude de sua força, influência, impacto e importância
para todos os seres expandem ainda mais a compreensão humana para ser capaz de
vislumbrar um pouco mais da magnificência do orixá.

A água
Apesar de guerreiro Logun é essencialmente harmonizador, agradável, atraente,
propício, um "bom caráter" (Iwa pele, Iwa rere). Como sua mãe Oxum Logun também
a afinidade com a água.

Embora os orixás fluviais mais conhecidos sejam mulheres isso não quer dizer que os
rios sejam apoteose exclusiva das mesmas. Logunédé, Erinle, Ope (Barber. 1991:60),
são exemplos de homens associados a corpos d'água.

Substância fascinante, recurso natural indispensável. Quer seja doce e fresca como a
dos rios e das chuvas, ou salgada como no mar, ou mesmo morna como no âmnio, a
água é central para a vida e a vida é gerada em seu meio. Ela lubrifica a vinda e a
estadia da vida na terra, mata a sede, irriga a terra seca tornando-a fértil. É gentil, e
maleável na maioria de seus estados, mas poderosa. Arrefece os metais na forja dos
ferreiros, pacientemente sofistica as rochas sob as quais se forjam as lâminas e com as
quais elas são afiadas. Purifica e corrói, sempre renova a si e a tudo o que encontra.

Segundo um ditado Yoruba a água é descrita como: "Usamos água para banhar-mo-
nos, também a usamos para beber, ninguém faz inimizade com a água" (Taiwo
Makinde, Motherhood as a Source of Empowerment of Women in Yoruba Culture, Nordic
Journal of African Studies 13(2): 164-174, 2004), particulamente a água doce em estado
líquido, que é a manifestação física mais expressiva desse princípio metafísico de caráter
análogo ao das águas fluviais, estimado e elogiado por todos. Em Ile-Ife, John Wyndam
registrou o seguinte: "Estaria tudo bem se Oshun estivesse conosco," disse
Oduwa, ao que Obatala concordou (Wyndham, 1921:60), indicando que a
benevolência de Oxum é universal, sendo algo em que concordam até mesmo a dupla
Oduwa e Obatala que lideraram os partidos que protagonizaram a primeira guerra do
mundo segundo as tradições publicadas por Wyndham no mesmo livro, eles que foram
grandes oponentes e combatentes, em Oxum ficam em paz.

Não só Logun, mas todas as divindades afins à rios de modo geral (como Oxum, Otin,
Yewa, Erinle, Yemoja) não são diferentes das outras associadas ao fogo, ao vento, e etc,
no que diz respeito ao temperamento. Logunedé é um deus fluvial e é tanto um
provedor generoso quanto um guerreiro temível (como seu nome diz). Como seres
completos, todos os orixás são ambivalentes. Os deuses fluviais podem ser calmos,
benéficos ou turbulentos e letais, como a água em variadas circunstâncias.

De modo geral, a relação dos deuses com algum recurso, seja natural ou cultural, de
extrema importância ou indispensável, exemplifica e celebra uma relação de sucesso
entre o homem e o meio ambiente, essencial para uma boa vida. A associação de Oxum
com a água se dá por muitos fatores, o frescor da água dos rios é como seu
temperamento pacífico e frio que guia seu comportamento, a fluidez é emblemática do
progresso que ela promove e apoia, o rio em si é sinônimo da fertilidade que ela possui
e pode conferir a quem precise pois na gravidez a criança é gerada dentro do útero
cheio do líquido amniótico de modo análogo ao que vivem as criaturas aquáticas dentro
do mesmo, o diferente comportamento da água em diferentes partes do rio, sendo mais
estática em alguns locais e mais agitada em outros alude à sua dinamicidade e
capacidade de agir de diferentes maneiras de acordo com a necessidade.

A indispensabilidade deste recurso à existência da própria vida evidencia o


envolvimento dos deuses associados ao mesmo nos processos de criação e veiculação da
vida.

Na concepção Yoruba, a água pode ser “ako omi”, ou “obo omi”, /masculina/bravia ou
feminina/gentil. Logunede é “ako omi”, como os Antigos Egípcios que concebiam
diversos deuses da natureza como tendo manifestações masculinas e femininas (no caso
da Água, Nun e Nunet, por exemplo, ou Rapi e Mehet-Weret, etc). Logunede é uma
divindade da água cujo temperamento é composto de características consideradas
tipicamente masculinas em maior proporção, sua esfera de ação principal, a defesa,
como seu nome indica (Ologun, Guerreiro), é também uma atividade exercida na
maioria das vezes por homens, mas ele é uma hipóstase da Divindade da Água, mais
comumente associada ao feminino/agradável devido ao caráter benéfico da água na
vida humana (relacionada à saciedade, produtividade agrícola, renovação dos recursos
naturais, higiene, etc).

A Floresta
Assim como para o enérgico Logun as melhores atividades são aquelas nas quais ele
pode e deve usar força e intensidade sem ser desrutivo, cuja superação fortalecem-no e
capacitam-no a realizar-se de forma plena, como a caça, a guerra, e a resolução de
problemas, na natureza o que melhor o representa são justamente os terrenos onde os
caçadores e os guerreiros exercem suas atividades, onde imperam as leis naturais que
favorecem o mais adaptativo.

Se nós tendemos a compreender a caça como uma atividade depreciativa ao meio


ambiente e aos seres vivos, no nosso contexto em que ela é feita por esporte e sem a
conotação de utilidade, para o Yoruba tradicional é o oposto, um profundo amor pela
floresta é típico de um caçador, como atesta a seguinte expressão proveniente de um
Iremoje:"Ìgbé̩ nì gboro o̩de̩/Para os caçadores, a floresta é como o centro da
cidade" (Funeral Dirges of Yoruba Hunters, Bade Ajuwon, 1982:29).

As pessoas comuns descansam e encontram conforto dentro de suas casas, mas Logun
sente-se confortável na floresta: "Ele encontra duzentas esteiras para dormir na
floresta".

Logunédé é aficionado à natureza incultivada pois: "Ele conhece o caminho que leva
ao campo e não vai para lá".

Em diversas partes do mundo encontram-se mitos que retratam a paixão dos caçadores
pela natureza selvagem, ao retratá-los como seres para quem os animais revelam-se de
forma extraordinária. Em tais mitos o caçador observa um animal e quando está
prestes a matá-lo vê o mesmo despir sua pele animal e revelar a forma irresistível de
uma linda mulher. Na Europa há histórias sobre a donzela cisne e a mulher-foca, na
América há a mulher-cobra, e na África há a mulher-antílope, a mulher búfalo, e a
mulher elefante, e estes são apenas alguns exemplos (Para exposições que atestam a
presença pan-africana desses mitos ver Ifa Divination: Communication between Gods and Men
in West Africa, William W. Bascom, 1991, pág. 133; Atlantis: Erzählungen aus dem West-
Sudan, Leo Frobenius, 1922, pág. 65). Os Yoruba possuem até mesmo um gênero poético
dedicado a elogiar as qualidades dos animais, chamado Ijala.

Esses mitos podem ser interpretados como atestados do fascínio que a exuberância das
formas, cores e sons dos animais exercem sobre o caçador ideal/mítico, sinal de seu
olhar empático com relação à alteridade, a ponto de percebê-la e considerá-la igual,
elegível para casamento, paridade e complementação potencial. Enamorado pela vida
em sua totalidade, o caçador é dotado de um vigor que o possibilita transpor os limites
comumente estabelecidos pelos outros seres humanos de disposição mais circunspecta.
Paradoxalmente, aquele que mata os animais selvagens para sobreviver é um ser
profundamente apaixonado pelos mesmos.

Cria imponente da natureza, seu ecossistema abriga e produz em números que


ultrapassam a capacidade produtiva de qualquer sistema concebido pelo homem, de fato
o homem é cria da natureza, dela depende mesmo quando passa a viver em cidades.

Dentre os muitos biomas, a floresta prospera como nenhum outro, graças à água que
nela perpetua seu ciclo perfeita e constantemente. E assim Logun relaciona-se com a
floresta por duas razões, uma é que a água doce em abundância que é um de seus
símbolos, e é o fator que possibilita o florescimento exuberante das formas de vida
neste bioma, e o outro porque devido à riqueza de sua biodiversidade a floresta
constitui um verdadeiro paraíso para o caçador, que é atraído pela diversidade e que
provê alimento.

A vegetação abundante é essencial para que a erosão ocorra em níveis inofensivos à


integridade das bacias hidrográficas, pois se a erosão for demasiada ocorrerá o
assoreamento que degrada as mesmas, prejudicando não somente os que vivem nos
territórios selvagens mas a todas as formas de vida, pois os recursos hídricos são
essenciais para a vida como um todo.

Nela é inevitável a exposição às intempéries, e aquele que sucede nisso exercita e


fortalece bem como atesta sua potência. Ambos, caçador e guerreiro, encontram-se
contantemente nesta arena. Para o caçador pois é a morada de suas presas, e para o
guerreiro pois os terrenos selvagens eram por eles vigiados para assegurar que não
estavam servindo de esconderijo e acesso por inimigos pois a densidade da vegetação
possibilita o anonimato, vantajoso para surpreender e para ser surpreendido.

O Bronze
Mesmo sendo atraído pelo desconhecido e pouco familiar, é na cidade que o caçador
complementa sua vida ao fornecer ao mercado um item valorizado e de difícil obtenção
como a carne dos animais selvagens, e é também para a cidade que o guerreiro vai
quando retorna vitorioso de uma batalha para ser devidamente reconhecido, honrado e
recompensado por seu feito. Seu sucesso tanto na caça quanto na guerra torna-o
querido pelas Awon Iyami, as poderosas mulheres Yoruba, tanto social, quanto
financeira e esotericamente. Tradicionalmente são elas que dominam o comércio
Yoruba, onde lucram com a venda da valiosa mercadoria fornecida pelos caçadores, a
carne sendo um artigo de luxo em sociedades pré-industriais. Elas são também as mães
(biológicas e simbólicas) dos membros da sociedade, cujo território que o guerreiro
protege e defende. E Oxum, a mãe de Logun, além de ser antropomorficamente
representada como mãe, é também como uma Rainha, Aladekoju, e líder-representante
das mulheres, Iyalode. Assim ele é agraciado com o bronze, um material precioso na
Antiguidade Yoruba, insígnia de status, material sagrado para sua mãe Oxum, e para
Ogboni/Osugbo, a sociedade dos anciãos, importantíssima numa sociedade
gerontocrática como a Yoruba.

Idé é o nome Yoruba para o material de que são feitas as armas e munições de Logun.

Wenger (1983:232) traduz ide, o metal preferido por Oxum e Logun, como bronze. E
Bascom como latão (brass, em Inglês (Bascom, 1993:235).

Descrito num verso divinatório como o primogênito de Oxum (Bascom, idem), Logun
o é como seu caçula (Barber, 1993:71). No verso divinatório o bronze conota a força e a
durabilidade/longevidade típica dos filhos de uma precavida e laboriosa mãe que, como
Oxum na história, não exita em fazer sacrifício para que seus filhos gozem de
resistência.

Embora em contextos distintos e não constituindo uma narrativa onde Oxum é mãe
dos dois, eles são filhos de Oxum em seus respectivos contextos. E é curioso pois
Logun, caçador e guerreiro possui força, resistência e brilho (no sentido de
notoriedade). Filhos de uma mesma mãe, tanto Logun quanto o bronze de certa forma
representam uma só virtude, como herdeiros das mesmas qualidades a eles conferidas
pelo DNA mitocondrial de Oxum.

A própria Oxum é forte, resistente e notável, nem só de leques e braceletes de bronze


são compostos os altares de Oxum, espadas feita do mesmo material também são
presentes.

Além de espadas e arco e flecha, leques também estão presentes no templo de Logun
em Ibadan, podemos dizer que, por serem confeccionadas em bronze, um material
lustroso e chamativo ao olhar, suas armas possuem efeito ornamental. E isso nos
possibilita a contemplação da completude tanto de Oxum quanto de Logunedé, deuses
que sintetizam em si dualidades.

Seu uso também é uma insígnia de sucesso e riqueza pois era tradicionalmente
considerado precioso e muito caro, tendo entre os Yoruba o mesmo valor que o ouro
em outras culturas.
Logunédé, o Iluminador, o Iluminado
Aquele que desempenha atividades em prol da sociedade com excelência torna-se um
herói, aclamado pelos seus e temido pelo inimigo, e de seu sucesso surge o orgulho
genuíno que lustra a identidade de seu detentor como um bálsamo, declarando-a
refletora e promotora de valores universalmente reconhecidos, como as superfícies dos
corpos d’água, do bronze polido e da lua que refletem a luz, propagando-a. Embora fuja
do conhecimento etnoastronômico de qualquer povo o fato de que a lua na verdade não
possui luz própria e apenas reflete a luz do sol, incluí aqui o exemplo com licença
poética pois em seus oriki Logunédé é comparado com a lua cheia: "Ologun di osupa /
Ologun transformou-se em lua". A frase "transformou-se em lua", "di oshupa", é
metafóricamente utilizada pelos Yoruba para para dizer que uma pessoa é agradável e
amável (A. A. Joseph, A Feminist Analysis Of Song Texts In Okun Yoruba Marriage
Ceremony, International Journal of African & African American Studies Vol. IV, No. 1, Jan
2005, acessado em 30/07/2016,
http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.487.2124&rep=rep1&type=pdf.
A luminosidade lunar é "fria", a luz da Lua nunca é excessiva nem destrutiva, diferente
da luz proveniente do Sol e do fogo e para os Yoruba o frescor é sinônimo de
tranquilidade e paz, assim como a água doce fresca com a qual Logun também tem
afinidade. O fato da luminosidade lunar ser convidativa e aprazível ao olhar alude à
notabilidade de Logun que é agradável e não temível, apesar dele ser um guerreiro.

Sem relação tradicional, mas também curioso, é o fato da lua ser o satélite natural da
Terra, funcionando como um escudo, assim como o guerreiro protege e defende os
seus, e assim como a lua possui suas muitas fases Logun-ede possui suas muitas
representações, algumas das quais foram aqui apresentadas, mas assim como a Lua tem
sempre uma parte oculta, assim Ele possui algo que foge à luz, que é sempre misterioso
e inefável.

Além de todos os símbolos palpáveis e descritíveis que nos comunicam muito do orixá
Logunedé, de suas formas imagináveis, das cores, dos sabores e dos aromas de suas
oferendas favoritas, o orixá é um ser espiritual e manifesta-se também no que é sutil,
silêncioso, e desafiador à razão humana.

O Sombrio, o Misterioso
Para os Yoruba, o fato dos orixás terem um dia caminharado sobre a terra como seres
humanos não diminui sua divindade e não os reduz seres que não eram originalmente
divinos, assim como para os Cristãos a divindade de Jesus não é eliminada por ele ter
encarnado, ao contrário, em ambos os casos a experiência humana do deus só evidencia
ainda mais sua natureza transcendente.

Disse Paulo na Epístola aos Colossenses (1:15) do Evangelho Cristão, que Jesus é "a
imagem do Deus invisível", o mesmo pode ser dito sobre os orixás. Do ponto de vista
teológico os Yoruba admitem a possibilidade de que não só seus deuses, mas que até
mesmo os seres humanos possuem uma existência metafísica antes de encarnarem.
Assim sendo, em ultima instância, a vida de uma pessoa no aye é apenas uma parte da
existência dela, e os orixás também são pré-existentes a todas as suas manifestações no
mesmo. Os orixás são encarnações, ou manifestações mundanas de seres espirituais
poderosos.

Durante a possessão o deus vem interagir com o mundo dos encarnados e o processo
causa a expansão da capacidade sensorial do possuído para possibilitar a interação com
o orixá, e isso é expresso quando na maneira que os Yoruba descrevem tais
acontecimentos, como na frase "oríì mí wú/minha cabeça inchou" (Barber. 1990), ou
seja "minha consciência se expandiu" (Robert farris Thompson. Flash of the Spirit:
African & Afro-American Art & Philosophy. 2010, página 9).

Essa realidade da religiosidade Yoruba possibilita que virtualmente qualquer pessoa


pode ter um contato muito vívido e transformador com o espiritual/divino, e não
somente o número de indivíduos como também a frequência com que esses eventos
acontecem são muito maiores do que nas religiosidades abraâmicas em que isso é
privilégio de uns poucos indivíduos (os profetas).

Para os Yoruba os seres espirituais revelam-se aos humanos constantemente. Em


sonhos, em transes, possessões, e na própria natureza através da inspiração oriunda da
interação e da contemplação dos fenômenos naturais com os quais os deuses são
relacionados.

A afirmação secular de que os seres espirituais são apenas a memória preservada de um


ancestral venerável não condiz com a forma com que os Yoruba interagem com os
mesmos. Não são apenas memórias, mas seres vivos, dotados de agência própria, que
podem inclusive subjugar a agência dos seres humanos, quando tomam posse dos
corpos dos mesmos. Os deuses são mais vivos que os seres encarnados.

Os Yoruba conhecem os deuses não só como personagens de relatos tradicionais, eles


os conhecem através do que é veículado pela tradição, mas também pela revelação
pessoal que os mesmos concedem à cada pessoa com a qual desejem relacionar-se.

No oriki de Logun publicado por Verger em "Notas..." constam as seguintes linhas:


"Nós o vemos e o apertamos em nossos braços apenas como uma sombra.",
"Sozinho Orunmila, nós o tocamos, mas ele não responde". ´um apelo para chamar
a atenção do deus para que ele responda, porque não é bom para a reputação de alguém
não responder ao que lhe diz respeito, como os feitos e reputações referidos no oriki.
Essa mesma apelação consta no Xango pipe (John Pemberton III. In Yoruba: Nine
Centuries of African Arte and Thought. 1989:159), pipe designa chamado e é o termo
usado para alguns orixás, corresponde ao oriki em função e forma.

Estas duas linhas são muito semelhantes à uma estrofe presente num Iremoje, um
lamento fúnebre proferido durante os funerais para caçadores profissionais Yoruba:

Nós não podemos mais ver sua face novamente; que pena!

Meu pai se foi! Eu não o vejo mais!


A menos em um transe na estrada, ou em um sonho,
ou quando ele aparece no tabuleiro de Ifa de um babalawo.

(Yoruba Religion and Medicine in ibadan)

A semelhança com Iremoje não limita-se a um trecho, mas a toda estrutura desse oriki
em particular.

Em suma, o Iremoje consiste em uma breve biografia do caçador morto (cf. The
Preservation of Yoruba Tradition through Hunters' Funeral Dirges, Bade Ajuwọn, 1980), e
este oriki publicado por Verger parece ter essa característica, pois começa com uma
alusão à infancia e depois à vida adulta. Nele, Logun é descrito primeiramente como
um bebê montado nas costas da mãe, depois como vaidoso e ativo como um jovem
adulto, depois sua condião transcendental de espírito que não possui um corpo concreto
é enfatizada na metáfora de se abraçar uma sombra, e após isso tem suas habilidades,
seu ethos e grandes feitos louvados por ser um arauto da justiça, um exímio lutador,
caçador e médico, estes ultimos constituindo e apresentando sua forma imortalizada,
apoteótica, como orixá propriamente. Ao que tudo indica, este oriki visa evocá-lo e
contemplá-lo na sua totalidade enquanto um ser polivalente e multifacetado, complexo
e completo que é.

Ao contrário dos Iremoje, os oriki de orixás visam apresentar características que os


exaltam, mas sem a preocupação de fazê-lo em uma ordem fixa e cronológica, a exegése
biográfica das referências apresentadas nos oriki orixá sendo típica do itán orixá (ver
Barber, "Oríkì", Women and the Proliferation and Merging of "òrìṣà").

Apesar da semelhança aparente que este oriki do livro de Verger tem com os Iremoje
no que diz respeito à sua estrutura, ele é muito diferente de um Iremoje em sua função.

Tradicionalmente, o funeral que os caçadores profissionais Yoruba realizam quando um


membro do seu grupo morre tem o objetivo de assegurar a chegada do espírito do
falecido no além e pede ao mesmo para que não mais participe das atividades da
sociedade de caçadores à qual pertencera antes da morte de seu corpo humano. Eles
pedem solenemente que ele passe a caçar no céu, e não acompanhe seus ex-confrades
em suas caçadas na terra, na dimensão dos vivos, pois para eles isso não é auspicioso.

O tratamento dado a um orixá é exatamente o contrário.

O orixá é chamado por seus adoradores para participar ativamente de suas vidas, ajudá-
los em suas atividades, guiá-los e protegê-los, manter-se constantemente consciente
com eles e preocupar-se com eles, e é incentivado a retornar à terra para celebrações e
festejos ou resolver problemas (ver Religious Encounter and the Making of the Yoruba,
capítulo Making Country Fashion).

O oriki orixá evoca, convida enquanto o iremoje despede-se, ou seja, diferentemente de


um Iremoje, o oriki de Logun é uma evocação, e não um lamento.

Apesar disso tudo a semelhança das primeiras onze linhas do oriki de Logunedé da
obra de Verger, e do oriki como um todo, com um Iremoje é interessante porque Logun
é um orixá caçador e o iremoje é um gênero literário próprio dos caçadores e utilizado
pelos caçadores para os caçadores mortos, a coincidência é no mínimo curiosa. Os
iremoje são cantados exclusivamente durante um momento do funeral de um caçador
profissional e não como uma invocação, mas como uma homenagem de despedida,
portanto parece certo que não se trata de um Iremoje, nem mesmo resumido. Mas em
se tratando não de um caçador comum e sim de um que se tornara orixá é
compreensível que um trecho de seu Iremoje seja utilizado para invocá-lo.

Conforme o conteúdo dos seus textos litúrgicos a religiosodade tradicional desse povo
é tipicamente inquisitiva, filosófica e pragmática. E os adeptos parecem admitir que o
que diz respeito ao além é um mistério, e tudo sobre ele são incertezas, suposições. Um
funeral entoado pelos devotos de Oya num funeral de uma falecida devota desta
divindade publicado por Barber exemplifica isso: "Se nós soubéssemos o que os mortos
comem na Terra Incógnita, Nós compraríamos cerveja de milho para Ayanda" (Barber.
I Could Speak Until Tomorrow. 1991:132).
Apêndice

Itan Lógunedè
“Oxum era esposa de Ifá. E Oxum gerara Logunede.

Um dia Ifá estava indo para uma floresta e ele chamara Oxum para acompanhá-lo, pelo
caminho Ifá disse a Oxum para esperar por ele em determinado lugar porque ele não queria que
Oxum adentrasse a floresta com ele.

Quando Ifá entrou na floresta (Igbo Awo, Floresta Sagrada/de Mistérios/atividades secretas
de participação exclusiva de membros de alguma sociedade), após muitas tentativas de encontrar
água tendo cavado o solo em diversos locais ele não pode encontrar uma fonte de água até que
alguém misterioso lhe sussurrou, “Onde está sua esposa?”

Ao que ele respondeu, “Ela está me esperando fora da floresta.”

A pessoa misteriosa disse para Ifa para ir buscar sua esposa e trazê-la ao local em que se
encontravam, o que Ifá fizera exatamente.

Quando Oxum chegou ela olhou ao redor e atingiu o solo com sua mão e água começou a correr.
Ifá ficou muito surpreso, e assim Oxum provera água para a comunidade.

Algum tempo após ela dera à luz Logunede, e Logunede tornara-se um filho que causava
problemas, todos na comunidade estavam incomodados com o comportamento de Logun, mas
após consultar o oráculo de Ifá foi-lhes revelado que ele era um poderoso guerreiro enviado do
Céu para a Terra, e assim ele foi reconhecido como um orixá.”

~*~

As seguintes frases são de outras partes da entrevista, mas consistem em mais


elementos da história de Logun, complementando a narrativa da Itan.

“Do mundo espiritual, Logunede fora enviado a este mundo como um forte guerreiro, e entre os
Orixás Logunedé foi aquele que lutou mais batalhas.”

“Logunede, seu nome significa: Ologun, o guerreiro (chefe de guerra, general) ... Edè, que as
pessoas não levavam a sério, não consideravam seu potencial e que se ferozmente se revoltara
contra aqueles que o desacreditavam. Edè é como uma armadilha, em uma tradução literal. Ou
Edè pode se referir a algo dado, ou um favor feito, para armar uma situação surpresa, para o
bem ou para o mal.”

~*~

Fontes: Iyalode Omoriyeba Silifatu Lasisi e Iyalode Mopelola Osunfunmike Oladejo


(Iyalode é mais alto título, oye, feminino num dado contexto, no caso o culto à Oxum)

Data: 24/07/2016
Local: Ibadan

Tradução Yorubá-Inglês: Lukman Alade Fakeye

Tradução Inglês-Português: Laura Caelestis