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A morte e a morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado

Publicada pela primeira vez em 1959, na revista "Senhor", esta curta obra logo
recebeu vestes de romance. A morte e a morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge
Amado, é, antes de tudo, uma crítica azeda aos comportamentos burgueses. A obra
está inserida na segunda fase do Modernismo (o intitulado "Romance da Seca"). Os
autores desta geração priorizaram a problemática ruralista do Nordeste,
evidenciando os contrastes e as explorações sociais sofridas pelos sertanejos.

É considerado por críticos literários importantes, como José Ramos Tinhorão e


Paulo Emílio Salles Gomes, um romance atípico de Jorge Amado, longe de sua
temática eminentemente baiana e/ou política. O livro é solidamente baseado no
"Evangelho Segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, e justamente por essa razão
foi mais tarde desprezado por seu autor, que via nele o registro de uma fase de sua
vida que ele preferia esquecer.

Outros elementos a serem notados no livro são as referências óbvias a um dos


maiores clássicos da literatura brasileira, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de
Machado de Assis, e a extrema semelhança estrutural com A Comédia Humana, de
Balzac.

Com A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, Jorge Amado faz uma profissão
de fé espírita, ao mesmo tempo em que lança profundas indagações sobre o
sentido da vida. A dupla de críticos ingleses Terry Gillian e Michael Palin, autores de
O Cânon Ocidental, considera este romance uma verdadeira aula de metafísica,
embora aponte algumas falhas estruturais e de linguagem que o prejudica um
pouco.

O livro é pontuado por participações de outros grandes personagens de Jorge


Amado, como Vadinho (protagonista de Seara Vermelha) e Antônio Balduíno, que
fez sua primeira aparição como um dos Capitães de Areia e teria papel importante
na obra-prima da maturidade de Amado, o livro que inaugura sua fase folclórica: O
País do Carnaval.

Os romances de Jorge Amado são divididos habitualmente em dois momentos. O


primeiro momento é o Romance do Proletário, onde a temática de denúncia social é
o centro do livro. O segundo momento, Romance de Costumes, é onde há uma
valorização na mostragem dos costumes da sociedade baiana, onde as críticas são
apontadas agora com um tom humorístico. Em alguns instantes chega a incorporar
a tendência do Real Fantástico como em Dona Flor e seus Dois Maridos - a volta do
marido morto de Dona Flor; ou ainda em A Morte e a Morte de Quincas Berro
D'Água - onde o protagonista "volta à vida" para escolher a sua morte. A obra
divisora destas duas fases é Gabriela, Cravo e Canela, de 1958.

Jorge Amado popularizou-se em criar tipos sociais, abusando da espacialidade e


exotismo da Bahia, gerando um ambiente propício para que seus personagens
possam agir livres, entregues ao universo que os circunda. É neste universo que A
morte e a morte de Quincas Berro D'água se desenvolve.

Os becos, as ruas, os espaços habitados pela gente pobre, humilde, feliz e excluída
da velhaSão Salvador são dissecados aos olhos do leitor que necessita de uma
certa malícia, ironia e humor para compactuar com o escritor que lida de forma
divertida, dolorida e irônica com a morte.

Os personagens amadianos são extraídos dos meios populares da Bahia. Em geral,


não possuemmuita complexidade. No entanto, no transcorrer narrativo, vão
ganhando maior importância e firmandosuas características. Como ressalta Paulo

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Tavares: "Muitas dessas criaturas anônimas, todavia, merecemdo romancista um
tratamento especial que as fixa, situa. Adquirem contornos precisos, ganham
individualidade, constituem-se em núcleos dramáticos entre misturando-se no
emaranhado dos acontecimentos. "Mesmo havendo momentos de introspecção
psicológica nas personagens, elas tendem mais a uma classificação como "planas",
não chegando muito a surpreender o leitor.

FOCO NARRATIVO

O autor se põe na condição de observador que redige na terceira pessoa, como


quem colhe os fatos e suas interpretações sem neles interferir.

O foco narrativo é a verdadeira morte de Quincas: na pocilga em que morou


durante sua vida boêmia. Deste fato, retrospectivamente, se desenrola a existência
passada do protagonista, desenvolvida em duas etapas distintas: junto da família,
como pessoa "normal" e junto dos vagabundos, como um marginal voluntário e
assumido. Do mesmo fato, prospectivamente, se acompanha o velório e o passeio
do morto, até cair no mar.

Não tem-se neste livro o Jorge Amado esquerdista politizado que assinou produções
nas décadas de 1930 e 1940. Desta feita, se mostra o contador de histórias
pitorescas da Bahia.

LINGUAGEM E ESTILO

É um autor sem rodeios, que consegue ser incisivo quando o momento exige, mas
que também é poético, suave, sempre mantendo a sobriedade. Suas descrições
nunca ficam nelas mesmas, ele vai além, interagindo o espaço descrito com as
personagens, ou às vezes, divagando sobre isso. Assim, valoriza-se a plasticidade
da imagem em detrimento a sua objetividade.

Sua linguagem é bem simples, evitando os exageros dos puristas da Língua e


registrando a naturalidade dos discursos praticados no cotidiano por diferentes
camadas sociais. Este senso de observação do que se passa nas ruas da Bahia fez
com que o autor inserisse um vocabulário mais regionalizado (abrangendo desde
gírias a expressões da cultura baiana).

PERSONAGENS PRINCIPAIS

Joaquim Soares da Cunha ou Quincas Berro D'Água - (protagonista)


Sua família - Otacília, mulher; Vanda, filha; Leonardo Barreto, genro; Eduardo e
Marocas, irmãos.
Seus amigos - Curió, Negro Pastinha; Cabo Martim; Pé-de-vento.
Sua amante - Quitária do Olho Arregalado

ENREDO

A novela, dividida em 12 capítulos, retrata a morte do rei dos malandros Quincas


Berro D'Água e toda a magia do ambiente baiano que circunda as histórias
fantásticas dos cantadores de feira, do povo humilde que se utiliza da oralidade, da
notícia que ainda se leva de boca em boca.

No primeiro capítulo, o narrador nos antecipa os mistérios e as lacunas que


permaneceram semexplicação na morte de Quincas Berro D'Água. Também ficamos
sabendo que Quincas já teria outra morte, o que aconteceu quando abandonou a
família para viver de malandragem. A filha e o genro anteciparam para a próxima
geração que o avô Joaquim, homem respeitável, já havia falecido. Então, Joaquim,

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ao se transformar em Quincas, teria a sua primeira morte, ao se desligar da família.
Se a morte não foi física, pelo menos foi moral. Quincas era uma vergonha para a
família. Ficamos sabendo também que de fato o personagem seria um recordista de
morte, somando ao todo pelo menos três. E o narrador nos adverte: "Não sei se
esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas Berro D'Água pode
ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei, como ele próprio aconselhava,
pois o importante é tentar, mesmo o impossível."

No capitulo II vemos o perfil de Joaquim Soares da Cunha, segundo a família: de


boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, ouvido com
respeito, todo burguês, jamais visto em botequim. Este é o Quincas que existia,
quando resolveram decretá-lo morto para a sociedade. Quando a filha Vanda ou o
genro Leonardo sabiam alguma notícia de Quincas através de vizinhos ou terceiros
era como se um morto se levantasse do túmulo. Neste capítulo, também a família
fica sabendo através de um santeiro que Quincas estava espichado, morto em uma
pocilga miserável. A família suspirou com alívio, poderia falar do Joaquim exemplar:
bom pai, bom esposo. Fora encontrado por uma nega vendedora de mingau.
Encontrou-o com o dedão do pé direito fora da meia rasgada e de sapato roto no
chão. O santeiro espanta-se ao ver onde a família de Quincas morava e pergunta o
motivo dele se encontrar naquela miséria: se foi traição da mulher. O genro retruca
que a sogra, a Dona Otacília, era uma santa. Porém, na fotografia de Otacília, o
santeiro vê um osso duro de roer. A família começa a tomar as providências para o
velório.

No capítulo III, a filha Vanda chega à pocilga, e recorda do quanto tentara trazê-
lo de volta em vão. O defunto "era um morto pouco apresentável, cadáver de
vagabundo falecido ao azar, sem decência na morte, sem respeito, rindo-se
cinicamente, rindo-se dela (...) Cadáver para necrotério, para ir no rabecão da
polícia servir depois aos alunos da Faculdade de Medicina (...) Era o cadáver de
Quincas Berro D'Água, cachaceiro, debochado e jogador, sem família, sem lar, sem
flores e sem rezas. Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário da Mesa
de rendas Estadual(...)", aposentado, bom esposo. Vanda indaga-se como pode um
homem, aos cinqüenta anos, abandonar tudo e começar nesta idade "a
vagabundear pelas ruas, beber nos botequins baratos, freqüentar o meretrício,
viver sujo e barbado, morar em infame pocilga, dormir em um catre miserável?"
Por mais que tentasse não conseguiria compreender. Loucura de hospício não era.
Assim, nem Quincas havia dado o último suspiro, a família já o iria transformar em
Joaquim Soares da Cunha.

No capítulo IV, a família vê-se às voltas com a vergonha e como evitá-la. Para
isso, qual seria amelhor forma de se livrar do defunto? Neste capítulo também tem
a chegada do médico para o óbito. E o médico conclui: "- Ele está rindo, hein! Cara
de debochado. Vanda fechou os olhos, apertou as mãos, o rosto vermelho de
vergonha."

No capítulo V, a família entrega o corpo para uma funerária, tentando gastar o


mínimo possível: compram tudo novo, menos a cueca, pois é desnecessária. Em
um almoço de família, comendo uma peixada, Vanda, Leonardo, o irmão de
Quincas, Eduardo, e a gordíssima tia Marocas, encontravam uma solução para se
livrar do incômodo da forma mais barata, rápida e discreta possível. Decidiram
velá-lo na pocilga mesmo e diriam que ele morreu no interior. Convidariam para a
missa de sétimo dia.

O capítulo VI está às voltas com as soluções práticas da família para resolver o


problema. Iriam velar o defunto só os quatro familiares, revezando-se em turnos. E
lá estava Quincas na esquife, severo e nobre. "Duas velas enormes (...) lançavam
uma chama débil, pois a luz da Bahia entrava pela janela (...) Tanta luz do sol,

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tanta alegre claridade, pareceram a Vanda uma desconsideração para com a morte,
faziam as velas inúteis, tiravam-lhe o brilho augusto. Vanda, velando o pai, começa
a restaurar o homem bom da infância." Neste capítulo também somos informados
como Quincas abandonou tudo: "A verdade é que Joaquim só começara a contar
em suas vidas quando, naquele dia absurdo, depois de ter tachado Leonardo de
'bestalhão', fitou a ela e a Otacília e soltou-lhes na cara, inesperadamente: -
Jararacas! E, com a maior tranqüilidade desse mundo, como se estivesse a realizar
o menor e mais banal dos atos, foi-se embora e não voltou." Contava Quincas com
cinqüenta anos, perambulou pela felicidade durante dez anos. No silêncio fúnebre,
Vanda ouvia o pai dizer jararaca, ela empalideceu. A tia chega. O defunto alegra-se
com a brisa do mar que entra e apaga as velas, sorrindo e ajeitando-se melhor no
caixão.

O capítulo VII está todo às voltas com a tristeza causada em todos os miseráveis
da cidade. Passamos a conhecer o Quincas Berro D'Água e o quanto era querido. Os
amigos estavam inconformados por ter morrido em terra, um homem que se dizia
velho marinheiro, mesmo sem nunca tê-lo sido. Era herança que herdara de
família, dizia. Seu corpo, por sua vontade, pertencia ao mar. Também neste
capítulo somos informados do apelido Berro D'Água, agregado a Quincas. O
espanhol o enganou e ofereceu-lhe água, em lugar de cachaça. Ao perceber o
engodo, Quincas deu um berro fenomenal "- Äguuuuua!", chamando a atenção de
meio mundo, sendo ouvido até no elevador Lacerda. A partir de então,
transformou-se em Quincas Berro D'Água. Todos sofriam a morte de Quincas. O
povo estava de luto. Começa a aparecer as bondades do velho e bom malandro
Quincas Berro D'Água.

No capítulo VIII, conhecemos os quatro melhores amigos de Quincas: Curió,


Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-vento. Também estes personagens são
caracterizados.

O capitulo XIX faz-se pelo enfrentamento dos amigos da malandragem, citados no


capítulo anterior e a família de Quincas.

No capítulo X, continua o velório e os quatro amigos em voz baixa disputam o


amor da amante de Quincas, a Quitéria do Olho Arregalado. Agora, era turno do
irmão de Quincas, o Eduardo, que iria passar a noite, mas decide deixar o irmão
com os amigos e ir descansar um pouco. Aí os amigos eram os verdadeiros donos
do defunto. Organizaram um velório decente, com cachaça, salame. Tentaram
rezar, começaram a beber e dar bebida ao defunto que sorria e devolvia um pouco
da cachaça, lambuzando o paletó. Os amigos tiraram as roupas artificiais de
Quincas e colocaram os velhos trapos e o defunto ficou deles. Levaram cada um
uma peça para si, pois defunto não precisa dessas coisas. E saíram agora com o
defunto vivo para a peixada no saveiro: Curió e Pé-de-vento saíram na frente.
Quincas, satisfeito da vida, num passo de dança, ia entre Negro Pastinha e Cabo
Martim de braço dado.

No capítulo XI, a cidade neste dia está de luto e quieta. Nem as prostitutas
abriram para o ofício. Os amigos e Quincas saíram acordando todo mundo para a
peixada, pois era aniversário do Quincas. Fizeram o que faziam todas as noites:
farra, bebedeira, confusão... Até chegarem ao saveiro e saírem para apeixada no
mar. Em alto mar, Quitéria do Olho Arregalado e Quincas não comiam. Quincas
olhava o céu, ouvindo Maria Clara cantar. De repente, o anúncio de tempestade,
mas não respeitaram, retardaram a volta, aproveitando mais o momento. A
tempestade chegou e ninguém sabe como Quincas pôs-se de pé e "no meio do
ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo, à luz dos raios, viram Quincas atirar-
se e ouviram sua frase derradeira. Penetrava o saveiro nas águas calmas do
quebra-mar, mas Quincas ficara na tempestade, envolto num lençol de ondas e

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espuma, por sua própria vontade."

No capítulo XII, sabemos que o caixão encontra-se na loja de Eduardo, esperando


um defunto de segunda mão.

"Quanto à frase derradeira há versões variadas." Afinal, quem poderia ouvir direito
no meio de tamanho temporal?

"Segundo um trovador do Mercado, passou-se assim:

'No meio da confusão ouviu-se Quincas dizer:


' - Me enterro como entender
na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
Pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
Em cova rasa no chão.'
E foi impossível saber

Fontes: Colégio Pró Campus | Jornal Escola

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A MORTE E A MORTE DE
QUINCAS BERRO DÁGUA
(JORGE AMADO)

Esta é uma novela curta, de texto saboroso com muito humor e personagens
fascinantes. A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água foi recebida com festa pela
crítica e pelo público na época de sua primeira publicação, em 1959. A obra
conquistou intelectuais que viram nela um dos melhores tratamentos de um tema
fundamental na obra do escritor baiano.
A novela mostra Jorge Amado a serviço de um proletarismo politicamente
engajado, só que mais lírico do que ideológico. Com ela, o autor tende a idealizar a
vida popular da Bahia e os seus comportamentos sociais, convertendo-os num
modelo que, contraposto ao modelo burguês, hegemônico e oficial, adquire
conotações utópicas. É o grande escritor brasileiro mantendo sua preocupação com
a sorte de seu povo, mas mostrando imensa sensibilidade no tratamento poético de
suas histórias.

RESUMO

. O livro possui 12 capítulos, narrador em 3a pessoa (onisciente)


. Personagens: Quincas Berro Dágua, Vanda, Leonardo, Eduardo, tia Marocas,
Negro Pastinha, Cabo Martim, Curió, Pé-de-Vento, Quitéria do Olho Arregalado e
Mestre Manuel.

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua.
Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das
testemunhas, lacunas diversas.
Quincas Berro Dágua era um velho debochado e Vagabundo das ruas da Bahia. Um
dia amanheceu morto num quarto imundo. A família avisada acorre à pocilga, a fim
de efetuar o funeral, aparecem no quarto o cabo Martim, Curió, Negro Pastinha, Pé-
de-Vento, malandros amigos do finado. Do choro às libações, na ausência de
parentes, o defunto, redivivo, de conluio com os companheiros, sai para a última
farra que termina no fundo do mar em frente ao porto da Bahia.
Foram testemunhas do que aconteceu apenas Mestre Manuel e Quitéria do Olho
Arregalado.

Teria sido assim: a família do morto - sua respeitável filha Vanda e seu formalizado
genro, Leonardo, funcionário público de promissora carreira, tia Marocas e seu
irmão mais moço, Eduardo- acreditavam que tudo não passava de invenções de
bêbados e patifes. "O que nos leva a constatar ter havido uma primeira morte,
senão física pelo menos moral, datada de anos antes, somando um total de três,
fazendo de Quincas um recordista da morte, um campeão do falecimento, dando-
nos o direito de pensar terem sido os acontecimentos posteriores - a partir do
atestado de óbito até seu mergulho no mar - uma farsa montada por ele com o
intuito de mais uma vez atazanar a vida dos parentes, desgostar-lhes a existência,
mergulhando-os na vergonha e nas murmurações de rua. Não era ele homem de
respeito e de conveniência, apesar do respeito dedicado por seus parceiros de jogo
a jogador de tão invejada sorte e a bebedor de cachaça tão longa e conversada.
Vanda foi chamada quando o santeiro avisou que Quincas havia morrido sozinho
num quarto pobre e sujo. Ela, a filha envergonhada porque o pai, Joaquim Soares
da Cunha (verdadeiro nome de Quincas) homem respeitável, funcionário da mesa
de Rendas Estadual havia se entregado à vida de bêbado. Ela só sabia dele por
meio de terceiros. Achava um horror saber que ele andava bêbado, ao sol, nas
imediações da rampa do Mercado ou sujo e maltrapilho jogando cartas ou abraçado
a negras e mulatas de má vida.
Quando ela chegou, depois de avisar o marido Leonardo e os parentes, Tia Marocas

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e Eduardo, viu o cadáver do pai e apenas via o cachaceiro, debochado e jogador,
sem família, sem lar, sem flores e sem reza. Como podia um homem, aos
cinqüenta anos, abandonar a família, a casa, os hábitos de toda uma vida, os
conhecidos antigos, para vagabundear pelas ruas, beber nos botequins baratos,
freqüentar o meretrício, viver sujo e barbado, morar em infame pocilga, dormir em
um catre miserável. Como podia explicar?
A família fica preocupada com o preço do velório: o caixão era caro, uma fortuna,
"hoje não se pode nem morrer". Compraram uma roupa preta, sapatos pretos,
camisa branca, gravata e meias. Vanda estava preocupada de onde sairia o caixão.
Vanda, recostada ao cadáver do pai, vai se lembrando do passado. Dez anos levara
Joaquim aquela vida absurda, depois que abandonara a família, sua mulher
Otacília. Era citado no jornal como o Rei dos vagabundos da Bahia, o Cachaceiro-
mor de Salvador, o filósofo esfarrapado da rampa do mercado, o senador das
gafieiras. Regressou à infância, lembrou-se de seu noivado e ficou comovida. .
A partir desse momento, a narrativa deixa dúvidas se Quincas estava realmente
morto ou se fingia, como já havia feito tantas vezes antes.
Quando todos chegam para o velório, Quincas no caixão sorria e passou a chamar
as mulheres de Jararacas. Vanda estremeceu na cadeira. Quincas mantinha um
sorriso vitorioso nos lábios. Ajeitou-se melhor no caixão.
Mestre Manuel, navegador, se lembra de como Joaquim recebeu o apelido de Berro
Dágua: "Quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado,
tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como
ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas,
conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume.Há quantos anos
não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro
Dágua. Viu sobre o balcão uma garrafa transbordando de límpida cachaça, encheu
o copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E um berro inumano cortou
a placidez da manhã no Mercado, abalando o próprio Elevador Lacerda em seus
profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um homem traído e
desgraçado: Águuuuuua!".
Quando escureceu, Quincas tornou-se inquieto no caixão. Olhava para a janela e
para a porta. Os quatro amigos de farra e vadiagem chegaram: Curió, era ainda
moço, alegrias e tristezas afetavam-no profundamente. A morte de Quincas
parecia-lhe uma amputação, como se lhe houvesses roubado um braço, uma perna,
como se lhe tivessem arrancado um olho.
O segundo a chegar foi o Negro Pastinha, que chamava Quincas de Pai ("Morreu o
pai da gente...").
Logo depois, Martim . Conhecia Quincas desde que dera baixa do Exército, uns
quinze anos antes: o amor, a conversação, o jogo. Jamais tivera outro ofício
conhecido, as mulheres e os tolos davam-lhe o suficiente com que viver. Trabalhar
depois de Ter envergado a farda gloriosa parecia a Cabo Martim uma evidente
humilhação. Sua altivez de mulato boa pinta e a agilidade de suas mãos no baralho
faziam-no respeitado. Sem falar em sua capacidade ao violão.
Por último, chegou Pé-de-Vento. Esse não tinha pouso certo, a não ser às quintas e
domingos à tarde, quando invariavelmente brincava na roda de capoeira. Fora isso,
sua profissão levava-o a distantes lugares. Caçava ratos e sapos para vendê-los
aos laboratórios de exames médicos e experiências científicas, o que o tornava uma
figura admirada, opinião das mais acatadas. "Não era ele um pouco cientista, não
conversava com doutores, não sabia palavras difíceis?"
Por eles estivera Quincas esperando, sua inquietação no fim da tarde devia-se
apenas à demora, ao atraso da chegada dos vagabundos. Quando Vanda começava
a acreditar o pai vencido, disposto finalmente a entregar-se, a silenciar os lábios de
sujas palavras, de novo resplandecia o sorriso na face morta, mais do que nunca
era de Quincas Berro Dágua o cadáver em sua frente.
A família foi para casa descansar. Ficaram só os quatro amigos. Vanda concorda
com a presença dos quatro, desde que pela manhã não acompanhassem e enterro.
Ficaram os quatro. Começaram a beber. Os primeiros tragos despertaram nos

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quatro amigos um acentuado espírito crítico. Aquela família de Quincas, tão metida
a sebo, revelara-se mesquinha e avarenta. Fizera tudo pela metade. Não havia
cadeiras para os convidados. Não havia comidas e bebidas. Haviam esquecido as
flores, onde jáse viu cadáver sem flores? Negro Pastinha diz a Quincas que estava
um defunto porreta. Quincas retribui o elogio com um sorriso. Os quatro começam
a rezar mas não terminam. Martim e Curió começam a discutir sobre quem ficaria
com a Quitéria do Olho Arregalado depois da morte de Quincas. O defunto não
gosta da conversa e resmunga ("Hum!") .
Então começam a dar cachaça a Quincas. Depois, trocam sua roupa pelas velhas
que ele usava, que estavam jogadas a um canto. As roupas novas do defunto são
divididas pelos quatro amigos. Lembram-se que aquela era a noite da moqueca na
casa de mestre Manuel. Saem pra rua levando o defunto Quincas ("Ele vai com a
gente.")
Aquela ia ser uma noite memorável. As ruas estavam diferentes, tudo em silêncio.
Tinha corrido a notícia de que Berro Dágua tinha batido as botas, "tava tudo de
luto".
Quando chegaram, Quitéria veio receber Quincas ("Quase morri com a notícia e tu
na farra, desgraçado. Quem pode com tu, Berrito, diabo de homem cheio de
invenção?")
Os quatro brigam com um grupo de maconheiros e a turma de Quincas vence a
peleja.
Mestre Manuel já os esperava em seu barco. Quincas e Quitéria iam juntos,
respirando o ar marinho. Maria Clara, mulher de Mestre Manuel estaca junto do
marido. De repente, cinco raios sucederam-se no céu, a trovoada reboou num
barulho de fim do mundo, uma onda sem tamanho levantou o navio. As pessoas
gritaram ("Valha-me Nossa Senho!"). No meio do ruído, do mar em fúria, do
saveiro em perigo, à luz do raio, viram Quincas atirar-se e ouviram sua frase
derradeira.
"CADA QUAL CUIDE SEU ENTERRO, IMPOSSÍVEL NÃO HÁ."

A única testemunha desse fato teria sido Quitéria do Olho Arregalado.


Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara na
tempestade, envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade.
No dia seguinte não houve enterro. Não devolveram o defunto à família. A funerária
não quis receber o caixão de volta. Vanda aproveitou as velas que sobraram.
Quanto à frase derradeira há versões variadas. Mas quem poderia ouvir direito no
meio daquele temporal? Segundo um trovador do Mercado, passou-se assim:

No meio da confusão
Ouviu-se Quincas dizer:
"- Me enterro como entender
na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
Pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
Em cova rasa no chão.
Ë foi impossível saber
O resto de sua oração.

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A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D'ÁGUA - Jorge Amado (Resumo)

Por: Carla Pampulha


Autor dos mais respeitados na literatura brasileira, desde os anos trinta, Jorge
Amado tem pontificado e feito sucesso de crítica e de público. Sua obra explora os
mais diferentes aspectos da vida baiana: a posse violenta da terra, com as
conseqüências sociais terríveis, como ocorreu na colonização da zona cacaueira do
Sul da Bahia, está magistralmente imortalizada em Cacau, São Jorge de Ilhéus,
Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim.

Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes em Tenda dos


Milagres, Capitães da Areia, Mar Morto. A literatura engajada, comprometida com a
ideologia política do Autor faz-se presente em Os Subterrâneos da Liberdade, O
Cavaleiro da Esperança. Os perfis de mulheres extraordinárias que comovem e
seduzem estão em Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela e
muitos outros...

Primeiro é preciso que se tenha em mente o "descompromisso" do Autor com o


registro formal culto, para se entender melhor o comentário que se faz
constantemente sobre seu "estilo". Jorge Amado já se autoproclamou "um baiano
romântico e sensual". É o que a crítica costuma rotular de contador de estórias.
Não segue, intencionalmente, o rigor da técnica de construção literária e nem dá a
mínima para as normas gramaticais e ortográficas. Incorpora, com a maior
naturalidade, à língua escrita, termos e expressões típicas da língua oral e de sua
Bahia idolatrada.

Não espere o leitor, portanto, defrontar-se com um texto primoroso, regular,


pausterizado. Entretanto, quem se aventurar nos meandros de suas páginas, esteja
preparado para o deguste de um texto saboroso e suculento que transpira a
trópico, a calor, a vida. Suas histórias são tramadas sobre o povo simples e rude,
numa língua que esse povo fala e entende.

O texto que serve de suporte a este estudo centra-se na fixação dos tipos
marginalizados para, por intermédio deles, analisar e criticar toda a sociedade. A
ação dá-se, basicamente, em Salvador e gira em torno da boêmia desqualificada
das cercanias do cais do porto.

A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água é uma das melhores narrativas


publicadas por Jorge Amado. Veio a lume em 1958 e conquistou desde logo a
admiração de quantos dela se aproximaram. Nitidamente imbricada no Realismo
Mágico, mistura sonho e realidade; loucura e racionalidade; amor e desamor;
ternura e rancor, de forma envolvente e instigante:

Joaquim Soares da Cunha foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia
em que se aposentou do serviço público. A partir daí, jogou tudo para o alto:
família, respeitabilidade, conhecidos, amigos, tradição. Caiu na malandragem, no
alcoolismo, na jogatina. Trocou a vida familiar pela convivência com as prostitutas,
os bêbados, os marinheiros, os jogadores e pequenos meliantes e contraventores
da ralé de Salvador.

Sua sede era saciada com cachaça e seu descanso era no ombro acolhedor da
prostituta. Fez-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de
infortúnio: era o paizinho, sábio e conselheiro, sempre disposto a mais uma farra
ou bebedeira.

Sua opção pela bandalha representa o grito terrível do homem dominado e


cerceado por preconceitos de toda sorte e que um dia rompe as amarras e grita por

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liberdade.

Morreu solitariamente sobre uma enxerga imunda e sua morte detonou todo o
processo de reconhecimento/desconhecimento por parte da família real e da família
adotada.

Os amigos durante o velório se embriagam e resolvem, bêbados, levar o defunto


para um último "giro" pelo baixo-mundo que habitavam. O passeio passa pelos
bordéis e botecos, terminando em um saveiro, onde há comida e mulheres. Vem
uma tempestade e o corpo de Quincas cai ao mar.

Ao renunciar à família, mudar de ambiente e de costumes, Quincas morreu pela


primeira vez; na solidão de seu quartinho imundo, envolvido por farrapos e
curtindo a última bebedeira, morreu pela segunda vez; ao cair ao mar, não
deixando qualquer testemunho físico de sua passagem pela vida, morreu pela
terceira vez.

A narrativa poderia chamar-se A morte e a morte e a morte de Quincas Berro


D'Água, acrescentando-se uma morte ao protagonista, que ficaria bem de acordo
com a progressão da trama.

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