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Contribuições do campo crítico do lazer

TEMAS LIVRES FREE THEMES


para a promoção da saúde

Contributions from the critical leisure field to the health promotion

Miguel Sidenei Bacheladenski 1


Edgard Matiello Júnior 2

Abstract The studies about leisure for health Resumo Nos estudos do lazer para a promoção da
promotion still tend to choose the active body saúde, ainda predomina a lógica da ocupação ati-
occupation in the free-time (leisure activities), va do corpo no tempo de não-trabalho (lazer ati-
revealing the influence of the functionalist way of vo), revelando a influência do pensamento funci-
thinking, which trying to reduce the links be- onalista, o qual, ao reduzir os vínculos entre soci-
tween society and health-disease process, un- edade e processo saúde-doença, indiscutivelmente
doubtedly do not keep with the purpose of popu- não condiz com o propósito de promover a saúde
lation health promotion. Focusing on this idea, da população. Em face deste quadro, e partindo da
and keeping in mind the premise that in the Bra- premissa de que na educação física brasileira, des-
zilian physical training there are different opin- de o início dos anos oitenta, proliferam diferentes
ions since the earliest 80s which try to achieve concepções que discutem a superação do discurso
the purpose to avoid the ideas of the functionalist do lazer funcionalista, mas que tais formulações
way of thinking. However, those opinions are al- ainda são praticamente desconhecidas da Saúde
most unknown both in the Brazilian public health Coletiva e Saúde Pública brasileiras, a partir de
system and the collective health system, once the revisão bibliográfica sobre o desenvolvimento do
bibliography revision about leisure activities de- campo do lazer no país, buscando reflexões con-
velopment was made in the country, looking for junta aos pressupostos da promoção da saúde, este
ideas taken in common knowledge for health pro- trabalho tem como objetivo apresentar concepções
motion presuppositions, this report has the aim críticas e alternativas do lazer em sua relação com
to show critical and alternatives concepts of lei- a saúde, fundamentando-se numa proposta políti-
sure in the way it is linked to healthy as a real co-pedagógica denominada lazerania. Em linhas
social change, using a political-pedagogical pro- gerais, esta é uma concepção de lazer emancipató-
posal called lazerania. In general, this is an eman- rio que, partindo da problematização do fenôme-
cipatory concept of leisure, which comes from the no esportivo, proporciona o sentir, pensar e agir
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Pró-Reitoria de Extensão e sport phenomenon as a problem and provides the da população, visando à construção de uma socie-
Cultura, UNICENTRO. Rua
feeling, thinking and behavior of the population, dade fundada na solidariedade e com a participa-
Salvatore Renna - Padre
Salvador 875, Santa Cruz. trying to build a society based on solidarity and ção de todos.
85015-430 Guarapuava PR. consumer participation. Palavras-chave Atividades de lazer, Promoção da
miguelsb@brturbo.com.br
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Key words Leisure activities, Health promotion, saúde, Participação comunitária, Mudança social
Departamento de Educação
Física, Universidade Federal Consumer participation, Social change
de Santa Catarina.
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Bacheladenski MS, Matiello Júnior E

Introdução balho (lazer ativo), tendo como decorrência a


despolitização de ambos conceitos; a responsa-
O lazer tem sido reconhecido como um fenôme- bilização dos sujeitos pelo alcance do lazer e da
no de grande relevância para a emancipação hu- saúde e a perpetuação do paradoxo do lazer bra-
mana e cidadania, figurando fortemente como sileiro: enquanto poucos podem desfrutar suas
estratégia da promoção da saúde. Apesar disto, diferentes possibilidades, uma grande maioria da
nos campos da Saúde Coletiva e Saúde Pública, população é obrigada, no máximo, a se conten-
embora essas importâncias sejam frequentemen- tar com um lazer precário e, por isso, na base do
te destacadas, é evidente como esse fenômeno é improviso.
explorado de forma superficial, carecendo de re- Diante do exposto e considerando que na
flexão crítica. Ainda predominam abordagens que educação física brasileira proliferam desde o iní-
o tratam como um direito e uma necessidade fun- cio dos anos oitenta diferentes concepções que
damental da humanidade que se explica por si só, discutem a superação do discurso do lazer funci-
sem que sejam resgatadas as tensões históricas onalista, mas que tais formulações ainda são
que envolvem sua concepção e sua conquista. praticamente desconhecidas da Saúde Coletiva e
É isto o que nos indica um levantamento jun- Saúde Pública brasileiras, a partir de revisão bi-
to à base de dados do SciELO (Scientific Electro- bliográfica sobre o desenvolvimento do campo
nic Library Online), realizado com o intuito de do lazer no país, buscando reflexões conjunta aos
compreender como o lazer é tratado nestes cam- pressupostos da promoção da saúde, este traba-
pos. Numa busca pelo assunto promoção de/da lho tem como objetivo apresentar concepções
saúde, após serem localizados 95 estudos e iden- críticas e alternativas do lazer em sua relação com
tificados quais mencionavam o lazer (inclusive a saúde, fundamentando-se numa proposta po-
como sinônimo de recreação/atividades recrea- lítico-pedagógica denominada lazerania27.
tivas), constatamos sua presença em 22 deles
(23,16%). Numa análise mais detalhada destes
trabalhos, mediante técnicas de análise de con- Sobre a promoção da saúde
teúdo1, observamos que apenas Peres et al.2 dis-
cutiram este fenômeno, contudo, sem que tenham A concepção moderna de promoção da saúde
procedido a aprofundamentos e anunciado avan- perpassa a compreensão que se tem do processo
ços teóricos e práticos para a área. saúde-doença, revelando que o mesmo, além de
Nos demais trabalhos, a menção ao lazer não não ser dicotômico em si, ainda extrapola os li-
foi além de sua mera inserção no texto, sendo ele mites do campo estritamente sanitário. Incorpo-
ou simplesmente apontado como uma necessi- rando um enfoque político e técnico em torno do
dade à saúde3-9 e à qualidade de vida10,11, sem processo saúde-doença, pode ser interpretada
nenhuma discussão sobre a questão, ou, pior que como uma reação à acentuada medicalização da
isso, retratado como possibilidade para se viven- vida social e como uma resposta setorial articula-
ciar atividades que privilegiam aos conteúdos fí- dora de recursos técnicos e posições ideológicas,
sicos12-23, revelando a influência dos pressupos- substituindo a visão limitada da ausência de do-
tos teóricos do funcionalismo. ença pela visão da erradicação de suas causas28.
Um pensamento que, ao desconsiderar os A erradicação, entretanto, não está centrada
conflitos e contradições da sociedade, contribui no consumo de produtos, serviços e procedimen-
com a manutenção do status quo, e, dessa forma, tos, mas marcada por um entendimento cogni-
conforme entendimento de Awofeso24, não acom- tivo, reflexivo e crítico que visa à instalação pro-
panha os fundamentos da promoção da saúde, gressiva da saúde no lugar da doença. Neste fim,
afinal não possibilita o enfrentamento do cres- a informação apresenta-se como uma impor-
cente quadro de pobreza e exclusão social, reco- tante estratégia, pois é só ela que permite enten-
nhecidamente um dos agravantes da saúde pú- der e compartilhar as razões, as causas e conse-
blica mundial. Tendência esta também observa- quências do adoecimento. Porém, isso não quer
da no campo da educação física (área que se de- dizer que a promoção da saúde significa educar
dica a estudar o lazer e que o tem como um dos as pessoas como se elas fossem simples vasilhas
principais conteúdos), no qual predominam as a serem preenchidas pelo conhecimento científi-
concepções de saúde com forte viés positivista e co. Trata-se de um processo que informa as pes-
médico-higienista25,26. A associação do lazer com soas através do diálogo com as mesmas, valori-
a promoção da saúde é restrita a uma forma de zando os saberes acumulados tanto pela ciência
ocupação ativa do corpo no tempo do não-tra- quanto pelas tradições culturais locais29.
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Por isso, Buss30 aponta o conhecimento po- no entanto, na concepção de Demo33, não pode
pular e a participação social decorrente deste como ser entendida como dádiva, pois ela não é dada e
a base de formulação do conceito promoção da sim conquistada. Também não seria uma con-
saúde, que na Carta de Ottawa é expresso como cessão, já que não são os poderosos que cedem
“o processo de capacitação da comunidade para voluntariamente, mas a população que se impõe.
atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saú- E, por fim, também não é algo preexistente ou
de, incluindo uma maior participação no contro- que caia do céu por descuido, mas uma resposta
le deste processo”31. Visando assegurar a igualda- contra o processo histórico de dominação. Por-
de de oportunidades e proporcionar os meios para tanto, ao requerer “compromisso, envolvimento
que as pessoas realizem completamente seu po- e presença em ações arriscadas e até temerárias”33,
tencial de saúde, entende-se a promoção da saúde a participação corresponde a um processo infin-
como um incremento do poder técnico e da cons- dável e que, em conquista permanente, permite à
ciência política das comunidades (empowerment) população se contrapor ao processo de domina-
para apreensão de problemas e definição e imple- ção ao qual historicamente é imposta.
mentação de estratégias para a conquista de am- Sendo assim, acreditamos que a questão da
bientes que favoreçam a saúde. participação possa perfeitamente orientar nos-
Podendo ser possibilitado pela ampla difu- sas reflexões sobre as possibilidades da educação
são de informações acerca das relações entre saú- física brasileira, especificamente através das ati-
de e seus determinantes, o empowerment pro- vidades de lazer, contribuir nesta complexa tare-
porciona benefícios tanto no plano individual fa. Nesse sentido, analisando as concepções dos
como organizacional (comunitário). Individu- autores mais referenciados pelo campo do lazer
almente, as pessoas são estimuladas a desenvol- no Brasil (Dumazedier34 e Marcellino35), bem
ver habilidades para agir em prol da melhoria de como a proposta da pedagogia crítica do lazer27,
sua situação de vida, como, por exemplo, na luta nos atemos aos vínculos destas proposições com
por seus direitos de moradia. Por sua vez, quan- a sociedade.
do organizados coletivamente, os indivíduos to-
mam posse de suas próprias vidas pela interação
com seus pares, despertando o pensamento crí- O desenvolvimento do campo do lazer
tico em relação à realidade, o que favorece a cons- no país e a tese do tempo livre
trução da capacidade social e pessoal, possibili-
tando a transformação das relações de poder32. As primeiras preocupações com o lazer no Brasil
Assim, em linhas gerais, a promoção da saú- surgem no início do século XX, quando a transi-
de reforça o entendimento da saúde como um ção da economia brasileira de agrário-exporta-
direito de todos e dever do Estado. Suas orienta- dora para urbano-industrial vinha deteriorando
ções defendem a redução das situações que pre- acentuadamente as condições de vida dos traba-
carizam a vida social dos cidadãos e que, dessa lhadores brasileiros. Sem a intenção de reduzir as
forma, podem incidir negativamente no proces- injustiças sociais e, dessa forma, combater esse
so saúde-doença. Mas como as ações estatais têm processo de deterioração, observa-se nos gran-
sido historicamente insuficientes nesse propósi- des centros o emprego de estratégias que servem
to, cada vez mais a população é convocada para apenas para amenizar seus efeitos. Uma destas foi
ser parceira, superando o sentido restrito de ado- a construção de equipamentos públicos de recre-
tar os hábitos saudáveis, para participar ativa- ação, visando à manutenção da saúde da popula-
mente de ações que possam romper com as es- ção e à recuperação da força de trabalho36.
truturas políticas e econômicas, as grandes res- No final dos anos sessenta, além de auxiliar
ponsáveis pela concentração do poder na socie- na manutenção da saúde e recuperação da força
dade contemporânea. de trabalho da população, sob influência euro-
péia e sendo tratado como um fenômeno social,
o lazer é pensando em sua capacidade de resolver
Possibilidades e limites do lazer questões políticas, tais como a adaptação do país
para a promoção da saúde às mudanças da produção capitalista de merca-
dorias. Indubitavelmente, uma exigência própria
Partindo destas considerações, pode-se dizer que, do mercado capitalista, já que da mesma forma
na promoção da saúde, a participação da popu- que se expandia a produção de bens duráveis,
lação não é apenas uma circunstância desejável, era necessária uma intervenção estatal para se
mas uma condição indispensável. A participação, elevar na mesma proporção este consumo.
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Frigotto37 comenta que, nesta época, vigora- compromissos e, dessa forma, o lazer representa
va a tese de que, se uma nação subdesenvolvida uma compensação; (3) artísticas: atividades que
investisse fortemente no capital humano, seu afastam o indivíduo da cultura vivida em direção
desenvolvimento obteria melhores resultados. da cultura mística, tal como cinema, teatro e mu-
Assim, como resposta à expansão da produção seus; (4) intelectuais: é a informação desinteres-
de bens duráveis, o Estado tratou de oferecer saú- sada apresentada como cultura permanente para
de, educação e lazer aos brasileiros e, com isto, acompanhar as rápidas transformações da soci-
pretendia-se que a maior parte de seus salários edade (jornais, rádios, etc.); e (5) sociais: são ati-
fosse destinada ao consumo destes bens, o que vidades que favorecem a formação das coletivi-
poderia impulsionar a taxa de crescimento in- dades e os relacionamentos interpessoais.
dustrial que, em termos mundiais, já era uma Embora discuta a satisfação das necessida-
das mais elevadas da época. des humanas, que a seu ver seriam o descanso
Neste processo, é de se destacar a importância (recuperação da fadiga advinda com o trabalho),
do Serviço Social do Comércio (SESC), pois foi a diversão (ruptura com o tédio da rotina diária)
por meio deste que, no início da década de seten- e o desenvolvimento (pessoal e social), em hipó-
ta, o sociólogo francês Joffre Dumazedier foi con- tese alguma, Dumazedier reflete sobre a dinâmi-
tratado para construção e desenvolvimento de um ca social que as geram. Elas seriam definidas da
campo de conhecimento para o lazer no país. mesma forma para todas as pessoas, desconsi-
Quando chegou ao Brasil, Joffre Dumazedier tra- derando-se o fato da sociedade ser dividida por
tou de difundir a concepção de lazer propugnada extratos sociais. Por isso, sua concepção aproxi-
pelo seu envolvimento com o movimento operá- ma-se dos pressupostos teóricos do funcionalis-
rio francês, quando via, no tempo livre crescente, mo, demonstrando a ideia de necessidades iguais
um espaço para a afirmação do direito dos ope- para todos, passíveis de serem satisfeitas com
rários ao lazer. Fruto de observações e enquetes atividades também iguais para todos38.
sobre o lazer dos franceses, esta foi publicada em E é quando associado à saúde que este trata-
Vers une Civilisation du Loisir?, que, no Brasil, foi mento se torna mais evidente. Com uma abor-
traduzida para Lazer e cultura popular34. dagem compensatória às insatisfações da vida
Nesta, ao revelar a forma dos trabalhadores social, enquanto são valorizados seus conteúdos
vivenciarem o lazer, além de sustentar suas refle- físicos e a consequente ocupação ativa do corpo,
xões sobre o lazer em oposição ao tempo de tra- os determinantes gerais sobre as condições de
balho, Dumazedier também aponta que outras saúde (padrão adequado de nutrição, de habita-
obrigações (familiares, sociais e religiosas) eram ção e de saneamento; boas condições de traba-
determinantes. Por isso, caracteriza o lazer como lho; oportunidades de educação ao longo de toda
um conjunto de ocupações às quais o indivíduo a vida; ambiente físico limpo, etc.), sequer são
pode entregar-se de livre vontade, seja para repou- mencionados. Com um discurso simplório e
sar, seja para desenvolver sua formação desinteres- bonito, apregoa-se que adoece somente quem
sada, sua participação social voluntária, ou sua quer, pois para ter uma melhor saúde, bastaria
livre capacidade criadora, após livrar-se ou de- exercitar-se fisicamente.
sembaraçar-se das obrigações profissionais, fami- Acompanhando o raciocínio de Barata39, en-
liares e sociais34. tendemos que esta ideia, além de reduzir os vín-
Uma concepção que reconhece o lazer com ca- culos entre sociedade e processo saúde-doença,
racterística liberatória (libera o indivíduo de suas ainda supervaloriza os estilos de vida e a promo-
obrigações profissionais, familiares e sociais); de- ção da saúde baseada na educação e responsabi-
sinteressada (sem finalidade lucrativa, ideológica lização dos indivíduos por seu estado de saúde –
ou utilitária); pessoal (representa uma escolha pes- a chamada culpabilização da vítima. Como re-
soal) e hedonística (direcionada ao prazer, pois a sultado, as pessoas que ocupam ativamente o
satisfação é a condição primeira do lazer). corpo no lazer e se encontram sem doenças são
Com vistas à satisfação, as atividades de lazer congratuladas e incentivadas a continuarem com
são classificadas em cinco grupos de interesse: (1) seu estilo de vida e, por sua vez, as pessoas doen-
manuais: atividades que podem ser desinteressa- tes e sem a referida ocupação têm somente a si
das e utilitárias ao mesmo tempo. Pela manipula- próprias a culpar.
ção de objetos e produtos, podem constituir-se Tudo porque esta ideia assenta-se na ilusão
tanto num hobby como num trabalho não pro- de que vivemos numa sociedade equilibrada e fe-
fissional; (2) físicas: neste grupo, os jogos predo- chada, sem conflitos ou contradições. O equilí-
minam, pois a vida é jogada em detrimento de brio constitui-se no indicador da sociedade saudá-
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vel e a influência externa, neste caso, o sedentaris- damentos são insuficientes para a complexa tare-
mo, por sua suposta influência negativa, é o pon- fa de promover saúde, pois ao invés de capacitar
to a ser controlado. Afinal, como as contradições as pessoas para o enfrentamento de situações que
foram isoladas, acredita-se que, pelo controle dos afetam a vida da coletividade, contribui com a
problemas, seria possível restabelecer o equilíbrio manutenção ou intensificação das mesmas.
e, portanto, a salubridade da sociedade40.
Contudo, nesse contexto em que se dá única
e exclusiva atenção às atividades dirigidas à trans- A crítica ao tempo livre
formação dos comportamentos individuais, ob- e a crença da transformação da sociedade
serva-se uma nítida contradição para com os
preceitos da promoção da saúde. Ao invés de Embora não seja propriamente em sua relação
possibilitar a aquisição de consciência política (in- com a saúde, desde o início dos anos oitenta, ca-
dividual e comunitária) para se lutar em prol da pitaneada pelas proposições de Nelson Carvalho
conquista de melhores condições de vida à po- Marcellino35, observa-se uma forte contraposi-
pulação, contribui com a permanência da vida ção à concepção de lazer de Joffre Dumazedier.
socioeconômica em seu quadro atual. Para Entendendo que ela vinha alimentando a aliena-
Demo33, isso se traduz em pobreza política e sig- ção da população, como superação, o autor as-
nifica que as pessoas vivem na condição de mas- socia o lazer a dois conceitos – tempo e atitude.
sa de manobra, de objeto de dominação e mani- De imediato, rompe com a noção do lazer restrito
pulação, de instrumento a serviço dos outros. à ocupação do tempo livre, pois não acredita na
E, nesta concepção de lazer, a pobreza políti- existência de um tempo necessariamente livre de
ca é retratada pela participação popular nas ações coações ou normas. Opta então por tempo dis-
de promoção da atividade física e da promoção ponível, anunciando o lazer como a experiência
da saúde. Para retratá-la, ao considerarmos as vivenciada neste tempo. Quanto à atitude, estaria
características do compromisso, envolvimento e relacionada ao modo como o indivíduo lida com
presença, tomamos como ponto de partida de esta experiência (o sentido que dá e obtém da
reflexão a questão da presença. É evidente que ela mesma). Assim, demonstra seu entendimento de
existe, entretanto, simplesmente resumida ao es- que o lazer seria a cultura vivenciada (praticada
tar presente em atividades previamente organi- ou fruída) no tempo disponível.
zadas, além, é claro, de respeitar os padrões de Acreditando que o lazer proporcionaria algo
conduta estabelecidos para as mesmas. Com base maior do que simplesmente amenizar o sofri-
em Santos41, as pessoas, ao invés de serem trata- mento ou alegrar a vida, critica a organização da
das como cidadãos, aqui são vistas como meros sociedade e o fetiche pelo consumo, defendendo
consumidores de atividades e, nessa lógica, acei- o resgate do humano ainda existente no homem.
tam serem chamadas de usuários. Exaltando o potencial educativo proporcionado
E o fato de assim aceitarem, pode-se dizer pelo lazer, ora como instrumento de educação
que se deve à forma com que elas se comprome- (educação pelo lazer), ora como objeto de edu-
tem e envolvem nas atividades. Entendemos o cação (educação para o lazer), Marcellino revela
envolvimento como dependente direto do com- que não bastaria apenas garantir o acesso das
promisso, uma vez que este último refere-se à pessoas, mas seria necessário produzir e difun-
“decisão lúcida e profunda de quem o assume”42, dir uma cultura popular que, rompendo com as
ou seja, a capacidade de pensar e agir (conscien- atitudes conformistas, proporcionaria condições
tização). Em meio à forma com que as pessoas a uma participação crítica e criativa, com vistas à
são incentivadas a praticar atividades físicas para instalação da nova ordem social.
a saúde, sendo responsabilizadas pela mesma, é Nessa lógica, pelo jogo de expressões como
fato que o compromisso por elas assumido é um educação e humanização, o autor interpreta o
compromisso para consigo mesmo (individual) lazer como a possibilidade de transformar a so-
e o envolvimento só vai até o ponto em que a ciedade. Tendo o indivíduo como epicentro e re-
pessoa entenda e veja benefícios para si própria. conhecendo-o como um ser histórico e social,
Suas condutas reproduzem com exatidão a soci- assinala a necessidade de estimulá-lo em sua ima-
edade contemporânea, principalmente pelo indi- ginação, vontade e poder de escolhas. Como um
vidualismo que impera entre as pessoas. direito, o lazer é exaltado como um instrumento
Por isso, sem desmerecer as contribuições des- para as pessoas administrarem conflitos, não
sa concepção para o desenvolvimento do campo simplesmente maquiando-os, mas que, ao for-
do lazer no país, compreendemos que seus fun- talecer resistências, impulsionaria utopias.
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Reconhecidamente, estas reflexões deram zam contra doenças, Solomon45 comenta que as
outros rumos ao campo do lazer no país; entre- pessoas pagam enormes quantias para usufruir
tanto, na atualidade, seu pensamento, além de seus programas ou serviços. Também revela que,
ser visto por alguns críticos como insuficiente neste investimento, incluem-se roupas, calçados
para superar os principais preceitos funcionalis- e equipamentos, tidos como imprescindíveis para
tas, ainda aponta uma outra funcionalidade ao se obter melhores resultados.
lazer. Através de uma mudança frente às necessi- Além de reforçar a valorização dos estilos de
dades do lazer, Marcellino preocupa-se em hu- vida na promoção da saúde, tendência a qual ante-
manizar o homem e instalar uma nova ordem riormente deflagramos seus limites, observa-se no
social. Para Cavichiolli et al.43, o problema é que lazer uma verdadeira corrida pelo consumo de ati-
tal proposição fundamenta-se na crença de que vidades físicas. Solomon45, além de refletir sobre os
transformações no plano cultural, por menor que limites da relação atividade física e saúde, ainda
fossem, auxiliariam em reflexões que pudessem alerta para os perigos deste discurso, apontando
acarretar também mudanças no plano social. lacunas em trabalhos que sustentam a ideia de que
Mudanças que, na visão de Mascarenhas27, a atividade física aumenta a longevidade.
dificilmente se concretizam, principalmente pelo Por conseguinte, acreditamos que a concep-
fato desta proposição estar pautada no modelo ção de lazer de Marcellino, na qual se conjugam
de desenvolvimento comunitário. Um modelo as categorias tempo e atitude, mesmo que visem
que se preocupa exclusivamente com a mudança conteúdos críticos e criativos, é insuficiente como
de postura frente às necessidades de lazer, sem alternativa ao atual tratamento dado ao lazer na
contribuir com a ruptura das estruturas do mun- promoção da saúde, pois além dos seus limites
do do trabalho e das condições de expropriação em conquistar mudanças estruturais na socie-
do poder do povo. Por mais que a participação dade, ainda favorece a mercantilização do lazer.
popular não se restrinja ao estar nas atividades
para ocupar o tempo não vinculado às obriga-
ções profissionais, familiares e sociais, suas ações Lazer e educação popular: possibilidades
são esvaziadas politicamente e, por isso, revelam- para uma nova relação lazer e saúde
se insuficientes na tarefa de instrumentar técnica
e politicamente as pessoas para atuarem na me- Parece inevitável que o lazer implique numa rela-
lhoria da sua qualidade de vida e saúde, bem ção de consumo. Parece evidente também que este
como garantir uma maior participação no con- tipo de lazer vinculado ao consumo toma caracte-
trole deste processo. Por consequência, fica aquém rísticas próprias conforme a camada social que dele
dos preceitos da promoção da saúde. se ocupa. Em outras palavras, isso quer dizer que o
Como se não bastasse, a valorização da ati- que se consome no tempo de lazer do operário não
tude frente às necessidades do lazer favoreceu sua é o mesmo consumido no tempo de lazer do presi-
apropriação pela indústria cultural. Se antes ele dente da mesma fábrica44. Enquanto este último
era considerado um potencial para a educação e vivencia um lazer luxuoso, aos operários resta a
a humanização, agora, diante das profundas vivência de um lazer de segunda mão, marcado
transformações na sociedade (econômicas, cul- pela precariedade e pelo improviso.
turais, políticas, sociais e técnicas) e sua conse- Apesar disso, Mascarenhas27 acredita que ain-
quente incorporação pela lógica do lucro, ele passa da é possível a reversão deste quadro; porém,
a ser tratado como mercadoria, o chamado mer- adverte para a necessidade deste pensamento es-
colazer27. O lazer tornou-se um produto da socie- tar conjugado ao projeto de uma outra socieda-
dade industrial, ele é ao mesmo tempo um tempo de, já que as desigualdades que se reproduzem no
disponível e um objeto de consumo. Ele se vende e lazer também estão presentes nas outras esferas
se compra. Ele entrou no sistema de consumo que da vida, inter-relacionando-se umas às outras.
ele contribui para desenvolver na medida em que o Nessa tônica, embora as metas sejam plane-
tempo disponível para o consumo tende a aumen- jadas para longo prazo, já que a superação do
tar. Lazer e consumo estão estreitamente ligados44. capitalismo não virá de uma hora para outra,
E é nesta associação/apropriação que a saúde sem vislumbrar um outro lazer como simples
é utilizada como forte apelo de atração, princi- abstração teórica, o autor acredita que mudan-
palmente quando considerado o mercado do fi- ças mais próximas também devam ser espera-
tness (academias, clínicas, hotéis fazenda, spas, das, como, por exemplo, aquilo que se refere às
atendimentos personalizados, dentre outros). questões econômicas que incidem sobre as con-
Sob a alegação de que as atividades físicas imuni- dições de vida da população. Para isto, emba-
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sando-se em princípios éticos-políticos e respei- regulação para o mercado. Com sua interven-
tando as relações do presente e em sintonia com ção, espera-se que mudanças na estrutura políti-
a história, sistematiza uma proposta de atuação ca acarretem mudanças também na estrutura
que visa à conquista da cidadania mais ativa e econômica. Isso porque a mudança política pas-
participativa. sa necessariamente pela participação da popula-
Tomando como referência a pedagogia críti- ção nas suas decisões.
ca de Paulo Freire, fundamenta o que ele chama Nessa lógica, vemos na lazerania uma possi-
de lazerania. Pelo diálogo com as classes popula- bilidade concreta para o lazer ser situado como
res, num dialético teorizar a prática, seu objetivo um “verdadeiro” aliado para a promoção da saú-
é a educação. Busca proporcionar meios e condi- de, pois seu propósito é o diálogo com a popula-
ções aos sujeitos que de seu exercício tomam parte ção, a fim de instrumentá-la técnica e politica-
para refletirem sobre suas condições de vida e sobre mente para o enfrentamento de situações adver-
a sociedade mais ampla na qual estão inseridos, sas. Assim, acaba assemelhando-se em muito
possibilitando-lhes não só o acesso, mas o entendi- com as práticas de educação popular em saúde
mento do lazer como manifestação de uma cultura que, para Vasconcellos47,é o jeito brasileiro de se
e como possível instrumento de ligação com sua promover saúde.
realidade. Deste modo, tem seus propósitos finca- Tanto a lazerania como as práticas de educa-
dos sobre a noção de sujeito social, afastando-se da ção popular em saúde priorizam a relação com
passividade que cerca a atual condição de consu- movimentos sociais, visando à formação de re-
midor comum à experiência do mercolazer27. des entre os mesmos. A escolha por estes grupos
Preconizando a noção de direitos e deveres, e deve-se ao fato deles representarem os interesses
incentivando a participação para a tomada de dos setores mais subalternos da sociedade, e que
decisões que correspondem à organização de uma normalmente são desprovidos de voz em diálo-
dada coletividade, o processo pedagógico toma gos e negociações. Embora quase sempre par-
como ponto de partida o saber anterior dos en- tam da busca de soluções para problemas espe-
volvidos, sem enfatizar a transmissão de conhe- cíficos e localizados, o fazem a partir da perspec-
cimento. Busca ampliar os espaços de interação tiva de que a atuação na microcapilaridade da vida
e negociação entre os envolvidos no lazer e com social é uma estratégia de desfazer os mecanismos
vistas a determinado problema social, objetivan- de cumplicidade, apoio e aliança, os micropoderes,
do, pela construção compartilhada do conheci- que sustentam as grandes estruturas de dominação
mento, a sua resolução. Além de desmistificar o política e econômica da sociedade47.
subjetivismo que cerca a ideia de lazer como fa- Portanto, engajam-se no objetivo do incre-
zer o que se quer, também não difunde conceitos mento de consciência política da população para
nem comportamentos, mas procura problema- superação da subordinação, exclusão e opressão
tizar, em uma discussão aberta, o que está inco- que marcam a vida na sociedade contemporâ-
modando e oprimindo, revelando a liberdade, nea. E, nesta tarefa, o fenômeno esportivo pode
que deve ser inerente à sua prática, como a cons- ser um potente instrumento. Porém, para isto,
ciência da necessidade. ele não deve ser ensinado como uma mera cópia
Tidos como parceiros, os envolvidos são con- do esporte de rendimento, ou sua incessante busca
vocados a participarem ativamente do redirecio- pela formação de atletas e desenvolvimento da
namento do lazer e de outras esferas da vida so- aptidão física.
cial. Para Freire46, a população não deve apenas Como elemento da cultura corporal, o esporte
ser guiada ou empurrada por seu líder até aquilo pode tanto possibilitar a reprodução das relações
com o que sonham, mas deve participar dos de- excludentes e preconceituosas enraizadas na cultu-
bates em torno do projeto de um mundo dife- ra, como, ao ser problematizado, possibilitar a su-
rente. Nesse sentido, a participação aqui é vista peração dessas práticas numa reflexão crítica da
como o resultado de um processo de formação realidade48. Com este raciocínio e apoiados em
humana, que visa estimular a organização po- Paulo Freire, Capela et al.49 refletem o esporte em
pular para se impor e autodeterminar, a iniciar prol da emancipação e como elemento fundamen-
pelas atividades e pelo tempo de lazer. tal da defesa da vida humana, assinalando que
Dessa forma, com base em Demo33, compre- quando seu ensino é pensado a partir de trans-
endemos a lazerania como uma política social formações didáticas que incorporam novas con-
organizada pela sociedade civil e que se contra- cepções antropológica, filosófica e científica, é
põe, não simplesmente ao Estado, mas especifi- possível superar o pensamento hegemônico, um
camente contra a transferência de seu controle e tanto quanto elitista e machista, e que privilegia a
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Bacheladenski MS, Matiello Júnior E

simples reprodução das técnicas e regras do es- . Interação social: o intenso processo de ex-
porte de rendimento nos moldes olímpicos. clusão observado na sociedade contemporânea
Pela problematização das suas atuais formas leva milhares de crianças a sonharem em melho-
e manifestações (como jogo, técnica de corpo, rar suas condições de vida através do futebol. O
espetáculo, mercadoria, etc.), criam-se condições problema é que por poucos assim conseguirem,
facilitadoras à conscientização dos envolvidos a competição entre uns e outros é crescente, in-
acerca da importância da participação de todos tensificando-se ainda mais o individualismo.
para se construir uma sociedade fundada na so- Nesse sentido, recomendam-se as práticas que
lidariedade e com menos injustiças sociais. Neste possam favorecer (resgatar) o sentido da coleti-
sentido, o futebol desponta como uma estratégi- vidade presente no futebol;
ca ferramenta pedagógica. Para DaMatta, citado . Além da técnica: quando uma criança in-
por Vaz50, este esporte proporciona momentos gressa numa escolinha de futebol, é indiscutível
democráticos e críticos, que ao serem associados que o seu desejo é aprender a jogar esse esporte.
a outras esferas da vida humana, podem contri- Nessa direção, acima da instrumentação técnica,
buir para o exercício da cidadania. Nesse prisma, deve-se respeitar o interesse das crianças, o mun-
por exemplo, aponta que, da mesma forma com do/cultura em que vivem, valorizando sua inicia-
que os torcedores pressionam jogadores e trei- tiva, imaginação e reflexão.
nadores por causa de seus erros, a população Sendo assim, compreendemos que o ensino/
também deveria portar-se frente aos governan- aprendizagem de técnicas, regras e táticas do fu-
tes e outros poderosos. tebol não deve ser a finalidade da escolinha, mas,
Uma possibilidade para se pensar e colocar isso por exemplo, um meio capaz de instigar a solida-
em prática seria uma escolinha de futebol desen- riedade entre os envolvidos, bem como a desco-
volvida por temas geradores. Os temas geradores berta progressiva de que, como cidadãos, eles
constituem-se num processo de busca, de conheci- podem e devem reivindicar o seu direito a um
mento, por isto tudo, de criação, exige de seus sujeitos espaço público e de qualidade para vivenciar o
que vão descobrindo, no encadeamento dos temas futebol e, consequentemente, o seu lazer. Ao ini-
significativos, a interpenetração dos problemas51. Para ciar pela conquista de espaços de qualidade para
ilustrar, apresentamos os eixos de atuação pro- o lazer, também se pode pensar em ações maio-
postos por Honrich et al.52 para um trabalho de res que visam à conquista da sociedade e saúde
formação de jogadores nas categorias de base: que queremos.
. Movimento corporal: sob o entendimento
de que o movimento corporal é muito mais com-
plexo do que revelam as análises científicas acer- Conclusão
ca de gestos estereotipados, ignorando a existên-
cia de um ser social se movimentando, seria ne- Iniciamos este trabalho com o objetivo de apre-
cessário considerar o mundo vivido das crian- sentar concepções críticas e alternativas do lazer
ças, que é rico em vivências corporais, tais como em sua relação com a saúde, uma vez que na
as advindas pelas brincadeiras na rua, na ladeira, educação física brasileira existem proposições
soltando pipa, pulando valas, etc.; concretas para superar a lógica da simples ocu-
. Obtenção da maioridade sócio-política: a pação ativa do corpo no tempo de lazer, mas que
espetacularização do futebol tem transformado ainda permanecem desconhecidas pela Saúde
o jogador de futebol num produto rentável que, Pública e Saúde Coletiva brasileiras.
sem senso crítico e reflexivo, permite a explora- Neste sentido, partindo da compreensão da
ção de sua força de trabalho. Esta exploração, promoção da saúde como o incremento da cons-
por conta da legislação (Lei Zico, Lei Pelé, etc.), ciência política da população para sua organiza-
tem ocorrido cada vez mais cedo e perdura até o ção em direção da conquista de ambientes favo-
momento em que há retorno financeiro com a ráveis à saúde, uma revisão bibliográfica sobre o
mesma. Como superação, propõe-se que a for- desenvolvimento do campo do lazer revelou que
mação de novos jogadores vise a sua resistência as concepções dos autores mais referenciados
no que tange a sua dominação, como, por exem- neste campo – Dumazedier e Marcellino – são
plo, com o conhecimento de seus direitos, nos insuficientes nesta complexa tarefa. O primeiro,
quais se incluem as condições necessárias para se porque tem sua concepção sustentada em obser-
praticar o esporte com qualidade e segurança, vações e enquetes acerca de como a população
afinal, o jogador de futebol deve ser visto como ocupa o tempo não vinculado às obrigações pro-
um trabalhador do esporte; fissionais, familiares e sociais. Assim, por se tra-
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tar de meras atividades de passatempo e que, É fato que o lazer somente estará alinhado à
muitas vezes, servem de compensação às insatis- promoção da saúde caso as demais esferas da
fações da vida social, sem cogitar a necessidade vida humana sejam consideradas, afinal, a pró-
de mudanças estruturais na sociedade, revelam a pria história do lazer revela que o mesmo decor-
influência do pensamento funcionalista, o qual reu da insatisfação dos trabalhadores para com
indiscutivelmente não contribui para o enfrenta- suas condições de vida degradantes. Então, é pre-
mento do quadro de pobreza e exclusão social ciso recuperar a historicidade das lutas que o
que se intensifica na sociedade. impulsionaram. É urgente que propiciemos mo-
A concepção de Marcellino, por sua vez, mes- mentos para que as pessoas usufruam toda a
mo que tenha sido propugnada como alternativa potencialidade do seu tempo de lazer, em especi-
de superação as ideias de Dumazedier, também se al, para lutar pela prática de liberdade e exercício
revela limitada para a responsabilidade de pro- da cidadania.
mover a saúde. Isto porque, ao estar pautada no Assim, em linhas gerais, é pelo resgate da cons-
modelo de desenvolvimento comunitário, acre- ciência social que se pode impulsionar uma or-
dita-se que a simples mudança de postura frente ganização solidária capaz de romper com as es-
às necessidades de lazer já seria suficiente para truturas materiais, políticas e culturais, que são
transformar a sociedade global. O problema, no as grandes responsáveis pela concentração do
entanto, é que esta crença, esvaziada politicamen- poder na sociedade contemporânea e, portanto,
te, é incapaz de romper com as estruturas políti- pela privação de um viver coletivo e salutar. Nes-
cas e econômicas vigentes, já que não se preocupa sa lógica, a luta pela consciência social visa unifi-
com a alteração do mundo do trabalho, nem com car as utopias construídas para libertação do ser
a expropriação do poder do povo. Como se não humano da exploração econômica, da domina-
bastasse, ao se valorizar a categoria atitude no ção política e cultural, ou seja, o lazer que se pro-
lazer, favoreceu a apropriação deste tempo pela põe é em favor da emancipação humana e em
indústria cultural e sua consequente mercantili- resposta a todas as formas de exploração, por
zação. Assim, nesta lógica, a saúde seria reflexo vezes travestidas de atividades lúdicas oferecidas
direto do consumo de produtos e serviços, algo com ares de generosidade.
totalmente desalinhado aos pressupostos do
movimento da promoção da saúde.
Ao constatar os limites destas concepções, e
buscar alternativas às mesmas, encontramos na
pedagogia crítica do lazer (lazerania) uma possi-
bilidade concreta para assim proceder. Trata-se
de uma concepção que tem como consigna bási-
ca a preocupação de propiciar um lazer emanci-
patório, duradouro e, portanto, contrário ao la-
zer de improviso e esporádico.
Se promover saúde significa desafiar interes-
ses poderosos, principalmente aqueles preocupa-
dos com a manutenção do quadro de dominação
dos mais pobres, a consolidação do lazer para a
saúde deve estar direcionada para a emancipação
humana. Como um processo de aquisição da
consciência política da população, através do diá-
logo com a mesma, acreditamos que a proble-
matização do ensino do fenômeno esportivo, es-
pecialmente o futebol, possa orientar uma ação Colaboradores
pedagógica voltada para a apuração do sentir,
pensar e agir da população para a construção de MS Bacheladenski participou na condição de au-
uma sociedade fundada na solidariedade, garan- tor da dissertação de mestrado em educação físi-
tindo que a participação popular não se resuma ca (UFSC) que deu origem ao presente texto au-
ao simples engajamento em atividades sistemáti- toral. E Matiello Júnior participou, como orien-
cas e reprodutoras de gestos formatados e aliena- tador, do processo de elaboração da dissertação,
dos, supostamente servindo para prevenir doen- a partir da qual conjuntamente foi desenvolvido
ças ou pensadas no combate ao sedentarismo. o presente texto.
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Bacheladenski MS, Matiello Júnior E

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Artigo apresentado em 03/01/2007


Aprovado em 17/12/2007
Versão final apresentada em 12/01/2008