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ROBERTO ESPOSITO é um dos autores mais A atual afasia da linguagem política, a

FILO
decisivos de filosofia política na contempo- Roberto Esposito crescente diluição do pensamento político

Roberto Esposito
raneidade. Leciona Filosofia Teorética no nas certezas inabaláveis nos números da
Instituto de Ciências Humanas e Sociais da
Escola Normal Superior de Pisa. É autor de
“É contra essa copresença de despolitização e
teologia, de técnica e valor, de niilismo e apologia
CATEGORIAS ciência política e a nossa dificuldade em
representar a realidade não derivam apenas

DO IMPOLÍTICO
livros como Communitas. Origine e destino das mudanças ocorridas no cenário político
della comunità (1998), Immunitas. Protezione que surge o impolítico. Este, já dissemos, é bem internacional nos últimos cem anos. Elas de-
e negazione della vita (2002), Bios. Biopolitica outra coisa que representação. Ou melhor: o outro, rivam de uma série de dificuldades relativas
e filosofia (2004) e Terza persona. Politica aquilo que resta obstinadamente fora dela. Mas à própria categoria de “representação” e às
della vita e filosofia dell’impersonale (2007), Le tal irrepresentabilidade não é certamente aquela demais categorias modernas.
persone e le cose (2014), entre outros. da despolitização moderna. A sua não é recusa A noção de “impolítico” construída neste

CATEGORIAS DO IMPOLÍTICO
do político. Nesse sentido, ele é radicalmente livro desenha seu sentido a partir do esgo-
subtraído da semântica manniana. Não é o valor tamento das categorias políticas modernas,
que ao político se contrapõe. É, aliás, exatamente que se tornaram incapazes de dar voz a pers-
o contrário. É a recusa do político transformado pectivas radicais genuínas. O impolítico é
em valor, de toda sua valorização ‘teológica’. não apenas o oposto do político, mas sobre-
tudo seu limite exterior. Se a forma-Estado
O impolítico é crítica do encanto, mesmo se
contemporânea é ao mesmo tempo ‘teo-
isso não significa que ele se reduza ao simples
Tradução Davi Pessoa logizada’ e despolitizada, o impolítico é a
desencanto, ao alegre politeísmo do ‘depois’.”
borda a partir da qual podemos vislumbrar
uma trajetória longe de todas as formas da
teologia política e das tendências despoliti-
zantes da modernidade.
Dessa maneira, a perspectiva do impolí-
tico não se confunde com uma atitude apolí-
tica ou antipolítica. O impolítico é o político
considerado desde sua fronteira exterior. É
O TRADUTOR: Davi Pessoa é professor lín-
gua e literatura italianas na UERJ. É autor de sua determinação, no sentido em que ele de-
Terceira Margem: Testemunha, Tradução fine os “termos”: as palavras e seus confins.
(Editora da Casa, 2008), Dante: poeta de toda O debate proposto aqui subtrai cuidado-
a vida (Biblioteca Nacional, 2016). Atua tam- samente algumas fronteiras metodológicas
bém como tradutor de literatura e filosofia artificialmente erigidas entre ciência, teoria
italianas, tendo já traduzido Georges Bataille: e filosofia política, teologia e literatura,por
filósofo (Edufsc, 2010), de Franco Rella e meio de um recurso maciço a autores decidi-
Susanna Mati, Desgostos (Edufsc, 2010) damente interdisciplinares, como Maquiavel,
e Ligação Direta (Edufsc, 2011), ambos de Ma-
Hobbes, Schmitt, Foucault, Bataille, Arendt,
rio Perniola, e os livros Nudez, Meios sem fim
Simone Weil, Canetti, entre outros.
e O tempo que resta (Autêntica, 2014, 2015, ISBN 978-85-513-0421-1
2016) de Giorgio Agamben. Atualmente está O caminho forjado por essa análise é um
traduzindo o romance inacabado Petróleo, de verdadeiro desafio para o léxico político mo-
Pier Paolo Pasolini, que será publicado pela derno, mas ao mesmo tempo uma contribui-
9 788551 304211 ção à nossa compreensão de suas categorias.
Editora 34. www.autenticaeditora.com.br