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FISIOPATOLOGIA E SÍNDROMES
GERIÁTRICAS (5IS)
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Daniella Fernandes Haruze Manta
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Mariana de Campos Barroso
Paola Andressa Machado Leal

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Apolinário, Letícia de Araújo


A643f  Fisiopatologia e síndromes geriatricas (5Is) / Letícia de
Araújo Apolinário – Londrina: Editora e

Educacional S.A. 2018.
97 p.
ISBN 978-85-522-1021-4
1. Saúde do Idoso 2. Envelhecimento. I. Apolinário,
Letícia de Araújo. II. Título.
CDD 610

Responsável pela ficha catalográfica: Thamiris Mantovani CRB-8/9491

2018
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
FISIOPATOLOGIA E SÍNDROMES GERIÁTRICAS (5IS)

SUMÁRIO
Apresentação da disciplina 04

Tema 01 – O que é Síndrome Geriátrica 05

Tema 02 – Iatrogenia e envelhecimento 20

Tema 03 – Instabilidade postural 34

Tema 04 – Imobilidade 48

Tema 05 – Insuficiência cerebral 60

Tema 06 – Incontinências 73

Tema 07 – Sinais e sintomas do envelhecimento 86

Tema 08 – Síncope no idoso 99

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)3


Apresentação da disciplina

O envelhecimento populacional em países em desenvolvimento tem sido


uma realidade nas últimas décadas e as estatísticas apontam uma pre-
visão para que, em 2050, o número total de idosos supere o número de
crianças de faixa etária inferior a 15 anos.
Sabe-se que o envelhecimento, quando ocorre de forma paulatina e natu-
ral, conhecido como senescência, pode não provocar impactos negativos
significativos, entretanto, quando se tem a senilidade, subentende-se que
houve sobrecarga de enfermidades, estresse ou acidentes que acabaram
por gerar dependência assistencial.
Geralmente, à medida que o envelhecimento populacional e a longevida-
de se elevam, proporcionalmente, percebe-se o aumento na tendência
para mudanças nos tipos ou características epidemiológicas e de morbi-
mortalidades de uma determinada população, muitas vezes associados à
ampliação da utilização de recursos de saúde, gerando maior ônus para
as instituições e para a saúde pública.
Dentre as alterações relacionadas à senilidade, verifica-se o aumento da
fragilidade progressiva composta por: redução das capacidades fisiológi-
cas, osteomusculares, cognitivas entre outras que acabam por gerar limi-
tações em decorrência de quedas, agravamento de doenças ou surgimen-
to de outras comorbidades, além de levar à hospitalização ou institucio-
nalização prolongada e até mesmo à morte.
As enfermidades, a fragilidade em si e a perda das funções fisiológicas podem
resultar nas síndromes geriátricas, caracterizadas por: incapacidade cogniti-
va, instabilidade postural, imobilidade, iatrogenia e incontinência urinária.
O estudo da geriatria busca proporcionar embasamento científico para
que os profissionais possam tentar minimizar o impacto consequente das
fragilidades e síndromes geriátricas e assim melhorar a qualidade de vida
da população idosa.
Nesta disciplina serão abordadas as seguintes temáticas: síndrome geriátri-
ca, iatrogenia e envelhecimento, instabilidade postural (e quedas), imobilida-
de, insuficiência cognitiva, incontinências (urinária e fecal) e síncope no idoso.

4 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


TEMA 01
O QUE É SÍNDROME GERIÁTRICA

Objetivos

• Apresentar a temática síndromes geriátricas.

• Expor aspectos básicos sobre iatrogenias em idosos.

• Descrever sobre instabilidade postural nos idosos.

• Apresentar o conceito e as principais causas de imobi-


lidade na população idosa.

• Conhecer aspectos da insuficiência cognitiva.

• Expor aspectos relacionados à incontinência urinária


e fecal.

5 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Introdução

O Brasil, nas últimas décadas, vem passando por processos de transição


demográfica e epidemiológica, sendo que estes foram ocasionados, prin-
cipalmente, pela redução das taxas de fecundidade e mortalidade. Dessa
forma, observa-se um aumento significativo da população idosa que pas-
sa, naturalmente, pelo processo de senescência e, muitas vezes, perpassa
por processos patológicos da senilidade.

A senescência é um processo fisiológico em que ocorre paulatinamente,


ao longo dos anos, alterações nas funções dos órgãos e sistemas e que
mantém determinado equilíbrio, enquanto que a senilidade é um proces-
so patológico que pode acometer os idosos, sem idade determinada para
surgir, e que resulta em déficits ou incapacidades.

Mesmo sendo esperado que os indivíduos apresentem modificações em


seus aspectos biológicos, sociais e psicológicos à medida que envelhecem,
a ocorrência de senilidade e seus graus, geralmente, estará relacionada
aos hábitos que cada um apresentou durante toda a vida.

Apesar de os idosos representarem, ainda, uma minoria da totalidade po-


pulacional, são eles que demandam mais atendimentos na área da saú-
de. Algumas doenças e comorbidades que aparecem após a redução da
homeostase dos órgãos, gerando disfunções, podem acarretar doenças e
algumas síndromes.

As síndromes mais frequentes e que acarretam mais impactos físicos, psi-


cológicos e sociais para os idosos são denominadas síndromes geriátricas,
também conhecidas como “gigantes da geriatria” ou “5 Is da geriatria”,
sendo estas: iatrogenia, instabilidade postural, imobilidade, insuficiência
cognitiva ou cerebral e incontinências.

6 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


ASSIMILE
apesar de as doenças não serem parte inerente do envelheci-
mento, existem algumas síndromes que frequentemente aco-
metem a população idosa e que são geradas por um déficit na
homeostase dos sistemas orgânicos. As grandes síndromes
geriátricas podem desencadear uma diversidade de sequelas
físicas, além de consequências psicológicas e sociais.

PARA SABER MAIS


Sugere-se, além da leitura do material desta disciplina, a lei-
tura de um artigo de revisão que aborda as síndromes geriá-
tricas, trata-se do artigo: MORAES, E. N. Principais síndromes
geriátricas. Rev Med Minas Gerais, v. 20, n. 1, p. 54-66, 2010.
Disponível em: <http://rmmg.org/artigo/detalhes/383>.
Acesso em: 17 jun. 2018.

1. Iatrogenias

A iatrogenia pode ser definida como qualquer evento que cause danos
ou agravo à saúde do indivíduo, cometido por profissional da equipe de
saúde, e geralmente é consequência de um ato não intencional.

Sabe-se que elas podem ocasionar danos psicológicos e físicos, por meio
de comportamentos ríspidos dos profissionais da saúde para com os pa-
cientes, além de erros de medicação, cirurgias, mutilações, procedimen-
tos desnecessários, entre outros.

São diversos os fatores que podem gerar iatrogenia, dentre eles, podem-
-se citar: a supervalorização das atividades gerenciais, desatenção dos

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)7


profissionais durante o cuidado prestado, sentimentos de baixa autoesti-
ma e desvalorização profissional, além de um dos fatores de maior preva-
lência: déficit de conhecimentos por parte dos profissionais.

A carga horária de trabalho e o estresse desses profissionais também


poderá interferir no cuidado prestado ao idoso, pois o cansaço físico e
mental afeta a habilidade dos profissionais, pondo em risco o cuidado ao
paciente. Além disso, a infraestrutura das instituições também é um fator
relevante, visto que os profissionais, por mais competentes que sejam,
necessitam de materiais e estruturas adequadas para garantir a presta-
ção de cuidados adequados, de forma a garantir um tratamento o mais
livre possível de iatrogenias.

A população idosa, pelo próprio processo de senescência, apresenta alte-


rações na metabolização e biotransformação dos fármacos, independen-
temente da via de administração desses medicamentos, além de, muitas
vezes, apresentarem doenças que demandam elevado número de medi-
cações. Todos esses fatores aumentam as chances de ocorrência de rea-
ções adversas e graves interações medicamentosas.

As consequências dos erros, para os profissionais, geralmente são acom-


panhadas por estresse, afastamentos por transtornos mentais, tempo
perdido com audiências e gastos com questões judiciais e advocacia.

Em relação às consequências das iatrogenias para os pacientes, principal-


mente para aqueles acima de 60 anos, relacionam-se a um maior com-
prometimento funcional e evolução para óbito.

Dentre as implicações das iatrogenias para os idosos, citam-se diversos ní-


veis de gravidade, chegando até mesmo a atingir o óbito em alguns casos,
e podem interferir tanto na saúde física quanto na mental. Outras conse-
quências podem ser verificadas na Leitura Fundamental 2 (Iatrogenia e
Envelhecimento) desta disciplina.

8 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


2. Instabilidade Postural

A instabilidade postural é considerada uma síndrome relacionada à falta


de equilíbrio e, geralmente, é ocasionada por distúrbios na manutenção
do centro de gravidade, seja por disfunções no funcionamento adequado
dos sistemas visual, vestibular, musculoesquelético ou somatossensorial.
Algumas doenças são consideradas predisponentes ou precipitantes para
a instabilidade postural do idoso e estão relacionadas a disfunções arti-
culares, doenças do sistema sensorial, neurológico e até cardiovascular.
À medida que o ser humano envelhece, o sistema musculoesquelético
passa por alterações de força e perda de massa muscular; os ossos se
tornam mais fragilizados e as articulações se tornam mais frágeis e susce-
tíveis a fraturas e à instabilidade postural.
Já o sistema vestibular é considerado fundamental na manutenção da es-
tabilidade corporal e sua principal função é fornecer ao SNC informações
sobre a posição e manutenção do equilíbrio corporal. A fisiopatologia da
hipoacusia no envelhecimento, ou seja, da presbiacusia, está relacionada
à displasia das células vestibulares, alterações na densidade das fibras de
mielina com redução na velocidade da condução dos estímulos no nervo
vestibular, entre outras, e acabam por influenciar no equilíbrio postural.
Além disso, alterações no SNC podem ser responsáveis diretamente e de
forma aguda ou servirem como fatores predisponentes para as quedas.
Sabe-se que pacientes portadores de doença de Parkinson apresentam
tremores e outros distúrbios motores que comprometem a estabilidade
postural. Já aqueles portadores de Alzheimer podem ter alterações no
equilíbrio e na marcha relacionados a um estágio avançado da doença,
caracterizado por atrofia cerebral, presença de alterações da homeostase
do cálcio e disfunção mitocondrial.
Devem-se considerar, ainda em relação ao sistema nervoso, os aciden-
tes vasculares encefálicos, sejam isquêmicos ou hemorrágicos, pois eles
muitas vezes ocasionam paresias ou plegias nos membros inferiores que
acabam por gerar instabilidade postural e quedas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)9


As doenças cardiovasculares estão relacionadas à instabilidade postural
à medida que podem levar à isquemia cerebral, mesmo que transitória,
ou a um hipofluxo cerebral, seja por arritmias, insuficiência cardíaca ou
doenças ateroscleróticas.
Mais detalhes sobre a etiopatogênese da instabilidade postural, além das
consequências dessa síndrome, assim como demais informações, podem
ser verificadas na Leitura Fundamental 3 (Instabilidade Postural) desta
disciplina.

3. Imobilidade

Imobilidade pode ser considerada uma das síndromes geriátricas caracte-


rizada pela redução ou interrupção da ação de movimentação ou desloca-
mento. Com a senilidade, disfunções principalmente musculoesqueléticas
e cognitivas progressivamente ou abruptamente culminarão na presença
de imobilidade parcial ou total (completa).
A imobilidade pode ser decorrente de diferentes patologias isoladas ou
em conjunto, que acabam por provocar restrição ou limitação total na
movimentação dos sujeitos, comprometendo sua independência para re-
alização das tarefas diárias. Independentemente da causa, a imobilidade
pode gerar diversas sequelas que são denominadas em conjunto como
síndrome do imobilismo ou do desuso.
De forma similar ao que ocorre na instabilidade postural, é possível veri-
ficar que a imobilidade está diretamente relacionada a prejuízos no siste-
ma efetor e no sistema musculoesquelético. Os idosos, geralmente, pos-
suem aumento da sarcopenia, redução na amplitude dos movimentos
dos membros superiores e inferiores e alterações na marcha e imobilida-
de parcial ou total.

Em idosos, é frequente a ocorrência de alterações no sistema nervoso


central (SNC) que interferem nas respostas neuromusculares, culminan-
do na inaptidão motora (fina e/ou grossa), além de alterações cognitivas

10 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


com prejuízos sensório-perceptivos que geram incapacidade de perceber
a necessidade de se movimentar. Essas alterações no SNC são, geralmen-
te, decorrentes de doenças neurodegenerativas ou agravos de patologias
cardiovasculares.
As doenças cardiovasculares podem ocasionar prejuízo ao sistema efetor
à medida que geram prejuízo neuronal por hipóxia no encéfalo, seja de
forma crônica, seja de maneira aguda.
Mais detalhes sobre imobilidade e suas consequências podem ser verifi-
cadas na Leitura Fundamental 4 (Imobilidade) desta disciplina.

4. Insuficiência cognitiva

O idoso, principalmente o longevo, pode apresentar insuficiência cogni-


tiva com dificuldade para aprender novos conhecimentos e desenvolver
novas habilidades, além de déficit de memória em que, por meio de exa-
mes, é possível verificar atrofia ou áreas de infarto na massa encefálica ou
acúmulo de proteínas alteradas.
O acúmulo de neurônios com alterações em seu DNA, aumento na quan-
tidade de proteínas malformadas, alterações nos processos apoptóticos
e, por fim, aumento de tecido neuronal necrosado são processos relacio-
nados ao surgimento das principais doenças neurodegenerativas, como
demências, DA e doença de Parkinson (DP).
Cabe ressaltar ainda que a senilidade acarreta redução de alguns media-
dores químicos no SNC e a carência de alguns desses tem sido relaciona-
da a algumas doenças que culminam na insuficiência cognitiva.
A perda de memória pode estar relacionada a diversos fatores, como hi-
povitaminoses e isquemia cerebral.
O acúmulo de neurônios alterados, aumento na quantidade de proteínas
malformadas, falha nos processos apoptóticos e necrose do tecido neu-
ronal são processos relacionados ao surgimento das principais doenças
neurodegenerativas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)11


A doença de Alzheimer é considerada a principal causa de demências, po-
rém a demência por corpúsculo de Lewy (DCL) também tem elevada pre-
valência em idosos, juntamente com as demências por causa vasculares.
Independente da etiologia, os pacientes com demência podem, além dos
prejuízos de memória, apresentar sintomas psicológicos e comportamen-
tais nas demências (SPCD).
Dentre os sinais relacionados à insuficiência cognitiva, podem-se citar:
distúrbios de memória, alterações psicomotoras, redução na capacidade
de concentração, instabilidade emocional, apatia, alucinações, redução
na mobilidade e instabilidade postural, entre outros.
Mais detalhes sobre insuficiência cognitiva podem ser verificados no Tema
5 (Insuficiência Cognitiva) desta disciplina.

5. Incontinências

Os profissionais de saúde devem auxiliar os idosos que possuem transi-


tória ou definitivamente incontinência urinária, reduzindo os sintomas e
as consequências desta, e devem ainda estimular a prática de atividade
física e o convívio social.

5.1. Incontinência urinária

Incontinência urinária pode ser entendida como a condição na qual ocor-


re a perda involuntária de urina, sendo condição comum em idosos, mas
que pode ocorrer em qualquer faixa etária.
A incontinência urinária pode ser transitória ou crônica, quando transitó-
ria, pode estar relacionada a ansiedade ou outros problemas de ordem
psicológica, uso de diuréticos, infecções no trato urinário e até mesmo
por constipação. Cronicamente, em ambos os sexos, a principal causa de
incontinência urinária em pacientes idosos está relacionada à musculatu-
ra detrusora.
Existe ainda a incontinência urinária por esforço, que ocorre porque a
pressão na bexiga supera a pressão no nível esfincteriano associada ou

12 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


não à hipermotilidade do colo vesical, decorrente do enfraquecimento do
assoalho pélvico, e pode ocorrer quando o idoso pega peso ou mesmo
quando ri ou tosse.

5.2. Incontinência fecal

A incontinência fecal é a perda involuntária de gases intestinais ou fezes, pelo


ânus, independente da consistência, de qualquer forma acaba por ocasionar
um problema social e, por vezes, é causa de institucionalização dos idosos.
Geralmente, a principal causa para incontinência fecal se dá por alguma
lesão, podendo ser ocasionada por iatrogenias nos esfíncteres anais que
ocorrem durante operações anorretais, por lesões do nervo pudendo ou
do esfíncter anal por trauma obstétrico e, mais raramente, por causas
neurogênicas.
O emprego de enemas evacuatórios ou lavagens intestinais é paliativo e
pode ser orientado a pacientes que possam utilizá-los em situações em
que o risco de perda fecal está aumentado, como, por exemplo, em via-
gens ou eventos sociais.
Além disso, existem várias técnicas cirúrgicas empregadas na correção da
incontinência fecal, tratamentos clínicos, dietéticos e exercícios para auxi-
liar na redução da incontinência fecal.
Mais detalhes sobre as causas, consequências e o tratamento para in-
continências podem ser verificados no Tema 6 (Incontinências) desta
disciplina.

EXEMPLIFICANDO
O mesmo idoso pode ser acometido por mais de uma sín-
drome geriátrica concomitantemente, por exemplo, um ido-
so de 85 anos é acamado há cinco anos por sequela de AVE
(síndrome do imobilismo), desde então não tem controle
dos membros inferiores (instabilidade postural) e nem dos
esfíncteres (incontinências) e, por esse motivo, depende de
cuidados em tempo integral.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)13


PARA SABER MAIS
Para saber mais sobre dados epidemiológicos relacionados
ao envelhecimento da população brasileira, sugere-se a leitu-
ra do artigo: MIRANDA, G. M. D.; MENDES, A.C. G.; DA SILVA,
A. L. A. “O envelhecimento populacional brasileiro: desafios e
consequências sociais atuais e futuras”. Rev. Bras. Geriatr.
Gerontol, Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbgg/v19
n3/pt_1809-9823-rbgg-19-03-00507.pdf>.
Acesso em: 18 jun. 2018.

LINK
No site da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia
podem-se verificar diversos guias como, por exemplo: pre-
venção de úlceras por pressão em instituições de longa per-
manência e cuidados paliativos. Disponível em: <https://sbgg.
org.br/espaco-cuidador/guias/>. Acesso em: 18 jun. 2018.

QUESTÃO PARA REFLEXÃO


O senhor L. F. J. tem 85 anos e reside em uma instituição de longa
permanência. Ao entrevistá-lo, você descobre que ele é acamado há
cinco anos por sequela de AVE, desde então não tem controle dos
membros inferiores e nem dos esfíncteres. Quais as síndromes que
ele apresenta? Você saberia dizer quais as principais consequências
relacionadas a essas síndromes?

14 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


6. Considerações Finais

• Iatrogenia pode ser definida como qualquer evento que cause danos
ou agravo à saúde do indivíduo cometido por profissional da equipe
de saúde.
• Instabilidade postural está relacionada à falta de equilíbrio e, geral-
mente, é ocasionada por distúrbios na manutenção do centro de
gravidade.
• A imobilidade pode ser decorrente de diferentes patologias isoladas
ou em conjunto que acabam por provocar restrição ou limitação
total na movimentação dos sujeitos.
• A insuficiência cognitiva em idosos está relacionada à dificuldade
para aprender novos conhecimentos e desenvolver novas habilida-
des, além de déficit de memória.

Glossário
• Senescência: processo fisiológico em que ocorre paulatinamente
alterações nas funções dos órgãos e sistemas.
• Senilidade: processo patológico que pode acometer os ido-
sos, sem idade determinada para surgir, e resulta em déficits ou
incapacidades.
• Presbiacusia: perda auditiva em idosos.

VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 1
1. Assinale a afirmativa que completa corretamente as lacunas:
Mesmo sendo esperado que os indivíduos apresentem mo-
dificações em seus aspectos biológicos, sociais e psicológicos
à medida que envelhecem, a ocorrência de e

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)15


seus graus, geralmente, estará relacionada aos hábitos que
cada um apresentou durante toda a vida.

a) Instabilidade.
b) Imobilidade.
c) Senilidade.
d) Incontinências.
e) Déficit cognitivo.
2. Analise as asserções dispostas a seguir e a relação entre
elas proposta:
I. Dentre as alterações relacionadas à senilidade, verifica-
se o aumento da fragilidade progressiva composta por
redução das capacidades fisiológicas, osteomusculares
e cognitivas, entre outras,
que

II. acabam por gerar limitações em decorrência de que-


das, agravamento de doenças ou surgimento de outras
comorbidades, além de levar à hospitalização ou insti-
tucionalização prolongada e até mesmo à morte.
a) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma
proposição falsa.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é
consequência da I.
c) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II
não é uma consequência da I.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma propo-
sição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.
3. De acordo com a literatura, as afirmativas abaixo são verí-
dicas (verdadeiras), exceto:

16 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


a) Iatrogenia pode ser definida como qualquer evento que
cause danos ou agravo à saúde do indivíduo cometido por
profissional da equipe de saúde.
a) Instabilidade postural está relacionada à falta de equilí-
brio e, geralmente, é ocasionada por distúrbios na ma-
nutenção do centro de gravidade.
b) A imobilidade pode ser decorrente de diferentes pato-
logias isoladas ou em conjunto que acabam por provo-
car restrição ou limitação total na movimentação dos
sujeitos.
c) A insuficiência cognitiva é inerente aos idosos e está
relacionada à dificuldade para aprender novos conhe-
cimentos e desenvolver novas habilidades; além de dé-
ficit de memória, todos os idosos em alguma fase da
vida apresentarão demência ou Alzheimer.
d) Apesar de as doenças não serem parte inerente ao
envelhecimento, existem algumas síndromes que fre-
quentemente acometem a população idosa e que são
geradas por um déficit na homeostase dos sistemas or-
gânicos. As grandes síndromes geriátricas podem de-
sencadear uma diversidade de sequelas físicas, além
de consequências psicológicas e sociais.

Referências Bibliográficas
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Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007.
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Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)17


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trica: estudo prospectivo. Einstein, v. 6, n. 3, p. 337-342, 2008.

Gabarito – Tema 01

Questão 1 – Resposta: C

Mesmo sendo esperado que os indivíduos apresentem modificações


em seus aspectos biológicos, sociais e psicológicos à medida que en-
velhecem, a ocorrência de senilidade e seus graus, geralmente, estará
relacionada aos hábitos que cada um apresentou durante toda a vida.

Questão 2 – Resposta: B

Dentre as alterações relacionadas à senilidade, verifica-se o aumen-


to da fragilidade progressiva composta por redução das capacidades
fisiológicas, osteomusculares e cognitivas entre outras, que acabam

18 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


por gerar limitações em decorrência de quedas, agravamento de do-
enças ou surgimento de outras comorbidades, além de levar à hos-
pitalização ou institucionalização prolongada e até mesmo a morte.

Questão 3 – Resposta: D

A alternativa que é tida como exceção dentre as demais é a letra


D, pois a insuficiência cognitiva NÃO é inerente aos idosos, ou seja,
ESTÁ presente na senilidade e NÃO na senescência, e está relaciona-
da à dificuldade para aprender novos conhecimentos e desenvolver
novas habilidades, além de déficit de memória. Nem todos os ido-
sos em alguma fase da vida apresentarão demência ou Alzheimer.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)19


TEMA 02
IATROGENIA E ENVELHECIMENTO

Objetivos

• Apresentar o conceito de iatrogenia.

• Discorrer sobre fatores que levam à ocorrência de


iatrogenia e formas de prevenção da mesma.

• Caracterizar as consequências da iatrogenia para o


idoso.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)20


Introdução

A iatrogenia pode ser definida como qualquer evento que cause danos
ou agravo à saúde do indivíduo, cometido por profissional da equipe de
saúde, e geralmente é consequência de um ato não intencional.

Reconhecer as consequências que podem ser causadas pela iatrogenia na


saúde do idoso faz-se relevante na medida em que se pode favorecer a re-
dução e a prevenção de lesões acometidas contra esse grupo vulnerável.

Sabe-se que a iatrogenia muitas vezes é subnotificada, pois muitos pro-


fissionais se “autoprotegem”, omitindo e subnotificando informações ou
são coniventes com iatrogenias geradas por colegas de trabalho. Desse
modo, faz-se necessário discutir e reorientar os trabalhadores sobre os
possíveis impactos gerados pela iatrogenia, assim como favorecer o em-
basamento científico para facilitar a busca por alternativas para minimi-
zar os índices de iatrogenia ou os agravos decorrentes destas.

As possibilidades de redução dos problemas começarão a ser efetivadas


quando houver um trabalho conjunto entre administradores, diretores e
outros profissionais que trabalham em hospitais e/ou outras instituições
da área da saúde, e no qual sejam reconhecidas e respeitadas as seguin-
tes necessidades: condições de trabalho, remuneração, autonomia, satis-
fação profissional e existência de programas de educação permanente de
modo que se tenha como resultado final um enriquecimento constante
de saberes e controle de riscos na prática de saúde.

1. Iatrogenias

A iatrogenia é um problema de saúde pública, podendo ser detectado,


melhorado e prevenido pelos profissionais que trabalham diretamente
com o paciente. As iatrogenias podem ser geradas por causas psicológi-
cas e físicas, sendo as primeiras suscitadas por comportamentos, atitudes

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)21


e palavras que são provenientes dos profissionais da saúde, enquanto
que as físicas são aquelas relacionados a erros de medicação, cirurgias,
mutilações e procedimentos desnecessários.

São diversos os fatores que podem gerar iatrogenia, dentre eles, podem-
se citar: a supervalorização das atividades gerenciais, desatenção dos
profissionais durante o cuidado prestado, déficit de conhecimentos por
parte dos profissionais e sentimentos de baixa autoestima e desvaloriza-
ção profissional.

A carga horária de trabalho e o estresse desses profissionais também


poderá interferir no cuidado prestado ao idoso, pois o cansaço físico e
mental afeta a habilidade dos profissionais, pondo em risco o cuidado ao
paciente. Além disso, a infraestrutura das instituições também é um fator
relevante, visto que os profissionais, por mais competentes que sejam,
necessitam de materiais e estruturas adequados para garantir a pres-
tação de cuidados adequados e um tratamento o mais livre possível de
iatrogenias.

A visão fragmentada do paciente inerente ao modelo de assistência bio-


médica, a insensibilidade de enxergar o paciente como um todo biopsicos-
social, a prática clínica baseada em doenças, a desvalorização da escuta
e dos fatores ambientais e socioculturais nos quais o idoso está inserido
são fatores que contribuem para a ocorrência de iatrogenias.

Ressalta-se ainda outro fator: a linguagem não verbal. Por meio de ati-
tudes, os profissionais, por vezes sem que percebam, acabam por gerar
medo ou insegurança nos pacientes, principalmente naqueles idosos com
déficit cognitivo ou com baixa escolaridade, por não conseguirem com-
preender sua doença e seu tratamento e se atentarem apenas à lingua-
gem corporal dos profissionais.

Deve-se considerar como um dos principais fatores que levam à ocorrên-


cia de iatrogenias a falta de conhecimento técnico e/ou científico do pro-
fissional, pois limita a capacidade de interpretar e analisar as situações
presentes e emergentes durante o cuidado.

22 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Sabe-se que as iatrogenias relacionadas à medicação ocorrem com fre-
quência em instituições de saúde ou em estabelecimentos de moradia
de idosos, sendo elas: administração em concentração incorreta, omissão
de doses (por falta de medicação, esquecimento ou não entendimento
da prescrição), aplicação em horários e vias impróprias, aplicação de fár-
macos errados, administração em pacientes trocados. Tais erros podem
ocorrer devido à falta de conhecimento, ao não entendimento da prescri-
ção ou por falta de atenção e cansaço do profissional.

EXEMPLIFICANDO
O avanço tecnológico pode proporcionar, por um lado, redu-
ção no tempo despendido pelos profissionais para execução
de um procedimento, e por outro, pode levar à ocorrência
de iatrogenias quando, por exemplo, o profissional que te-
ria que manusear o equipamento não tem conhecimento
ou treinamento adequado para o uso desse material. Se um
funcionário que não saiba manipular uma bomba de infusão
programa a vazão da medicação incorretamente pode-se ter
como consequências subdosagens que não atingirão a dose
terapêutica necessária ou superdosagens com prováveis
efeitos colaterais para ambos os erros.

A população idosa, muitas vezes, tem inerente ao processo de envelhe-


cimento alterações na metabolização e biotransformação dos fármacos
recebidos, independentemente da via de administração desses medica-
mentos, além de, geralmente, ser acometida por uma multiplicidade de
doenças crônicas e comorbidades e, por consequência, geralmente, de-
pende de um elevado número de medicações. Todos esses fatores au-
mentam as chances de ocorrência de reações adversas e graves intera-
ções medicamentosas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)23


Existem particularidades na administração de medicações para o idoso,
dependendo de suas doenças de base. Cabe ao profissional da saúde,
principalmente médico e enfermeiro, a busca pelo conhecimento cientí-
fico relacionado aos fármacos utilizados, englobando aspectos relaciona-
das à dose adequada, melhor horário para administração, via mais ade-
quada (observando, inclusive, aceitação do paciente, capacidade de de-
glutição caso se utilize a via oral, o melhor local para administração caso
a via de escolha seja a parenteral), compatibilidade entre as medicações
que o paciente faz uso, além de armazenamento e preparo adequado.

1.1. Dados epidemiológicos da iatrogenia

Dados epidemiológicos recentes apontam que, nos Estados Unidos, a ia-


trogenia é responsável pela terceira causa no número total de mortes,
chegando a ocasionar mais de 250 mil mortes anualmente (G1, 2016). O
número de mortes por iatrogenia foram subdivididas em: mais de 100 mil
por efeitos colaterais de medicamentos, por erros na administração ou
no preparo de medicações; 80 mil por infecções hospitalares e cerca de
12 mil em cirurgias desnecessárias, entre outras (G1, 2016).
Similarmente, no Brasil, verifica-se um elevado número de iatrogenias re-
lacionadas a erros na administração de medicamentos e tem-se também
registrado elevados índices de iatrogenia relacionados a quedas, princi-
palmente na população idosa.

LINK
No ano de 2016, no Brasil, um conhecido veículo da impren-
sa nacional divulgou um estudo sobre iatrogenia, em que su-
gere que, a cada três minutos, mais de duas pessoas mor-
rem por erro médico. Disponível em: <https://veja.abril.com.
br/saude/erro-medico-mata-mais-que-cancer-no-brasil/>.
Acesso em: 3 mai. 2018.

24 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


A população idosa, geralmente, está mais suscetível à ocorrência de ia-
trogenias do que a população adulta; os eventos iatrogênicos aos quais
mais frequentemente esse grupo populacional é exposto, além dos erros
de medicação, estão relacionados a quedas, flebites, atraso em cirurgias
e exames, lesões por pressão e infecções hospitalares.

1.2. Prevenção das ocorrências iatrogênicas

A ocorrência iatrogênica não deixará de ocorrer, mas pode ser prevenida e


remediada por meio de instrumentos que previnam esse problema, além
do desenvolvimento de comportamentos que visem a compreensão, a
perspicácia, a negociação e o acolhimento, acompanhados de amparo e
solidariedade mediante o cliente.
Ressalta-se que não se deve associar diretamente o número de ocorrên-
cias iatrogênicas com a qualidade de serviços, pois deve-se levar em conta
que o número de iatrogenias registradas, muitas vezes, não é o número
exato de incidência, mas sim o registro voluntário feito pelos profissionais.
Por isso, é relevante buscar a conscientização dos profissionais da área
da saúde sobre a prevenção da ocorrência de iatrogenias. Os mesmos
devem estar, continuadamente, recebendo informações sobre prevenção
e consequências das iatrogenias, por meio de educação continuada que
favoreça o desenvolvimento da sensibilidade e da responsabilidade pes-
soal e profissional.
Observa-se que a maioria dos estudos sobre iatrogenia são realizados por
médicos e enfermeiros, no entanto, para a prevenção de tais atos, é im-
portante a mobilização de todos os profissionais da saúde e educadores,
uma vez que o estímulo do trabalho em equipe favorece o aprendizado
de diferentes formas de atuação, o reconhecimento profissional e a me-
lhoria do cuidado prestado aos pacientes.
Ainda em relação à prevenção da iatrogenia, recentemente, instituiu-se
o conceito de prevenção quaternária, que consiste na identificação da
possibilidade de indivíduos estarem expostos a riscos desnecessários,

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)25


relacionados a tratamentos ou intervenções médicas desnecessárias para
evitar que o fato ocorra. A relevância dessa prevenção, referente à etapa
da vida idosa, reside no fato de se pensar na melhora e no prolongamen-
to da vida dos idosos, já que há uma maior probabilidade de doenças
compostas devido a alterações de sua capacidade funcional e risco de
iatrogenia, especialmente farmacológica.

PARA SABER MAIS


A elaboração do conceito da prevenção quaternária deu con-
tinuidade à classificação clássica dos três níveis de preven-
ção (primária, secundária e terciária). Este quarto nível de
prevenção estaria relacionado ao risco de adoecimento por
intervenções médicas desnecessárias (forma de iatrogenia).
Para saber mais sobre prevenção quaternária, acesse o link
disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v25n9/15.pdf>.
Acesso em: 5 mai. 2018.

1.3. Consequências das iatrogenias para paciente e profissionais

A compreensão do cuidado como potencializador de envolvimento, fazer


pelo outro, fortalecimento de vínculo e desenvolvimento – tanto do cuida-
dor quanto dos seres cuidados, permite o encontro do autoequilíbrio do
próprio cuidador, dos sujeitos envolvidos e dos contextos profissionais.
No entanto, o mesmo cuidado que possibilita o amparo e a sustentação
científico-técnica pode favorecer o desenvolvimento de problemas.

De uma forma geral, discutir os aspectos que envolvem iatrogenia signi-


fica também pensar nas consequências de sua prática, oriundas de inter-
venções desnecessárias e errôneas que podem levar a diferentes graus
de severidade para o paciente e implicações ética e/ou penal para os
profissionais.

26 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Para os sujeitos que cuidam da saúde, existe um conjunto de normas que
deverão ser observadas, apesar de terem direito contido ao livre exercício
de profissão, já que a lei previu que poderia haver a ocorrência de novas
edições de leis específicas quanto ao exercício profissional tanto na for-
mação acadêmica quanto no registro do título no Conselho de Supervisão
Profissional.

A responsabilidade profissional compõe-se pela integração dos sentidos


jurídico, moral e ético. O primeiro é embasado na responsabilidade civil e
penal, o segundo, na consciência individual, e por último, o ético, com a ló-
gica na deontologia, fundamentada em um conjunto de deveres e obriga-
ções encontrados no Código de Ética das profissões. É por meio do plano
ético estabelecido nesse código que o profissional responde pelos danos
causados aos seus clientes e também pela ausência dos cumprimentos
dos deveres referentes ao aprimoramento profissional e do máximo uso
possível de recursos e técnicas da ciência a favor da assistência à saúde
do cliente.

O Código de Ética dos profissionais de saúde é composto por princípios,


deveres, direitos, responsabilidades e proibições de conduta ética dos
profissionais que também garantem a segurança dos sujeitos atendidos.
Caso esta seja comprometida, o profissional pode sofrer com penalida-
des, como advertência verbal, multa no valor de uma a dez vezes da anui-
dade da categoria profissional, censura, suspensão e cassação dos direi-
tos ao exercício profissional por meio do Conselho Federal de Fiscalização
da Profissão.

De forma geral, as normas do Código de Ética interferem na proibição


de condutas inconvenientes pelos profissionais relacionadas a imprudên-
cia, conduta inconsequente ou desprezo de riscos; negligência, compor-
tamento baseado no descaso ou omissão de cuidados e, ainda, em erros
técnicos de profissão e imperícia, que são os procedimentos profissionais
sem o devido conhecimento técnico da profissão, culminando com proce-
dimentos técnicos executados de forma errônea.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)27


ASSIMILE
Os profissionais de saúde podem cometer iatrogenias por
negligência (descaso do profissional, como, por exemplo,
não parar de infundir um medicamento vesicante quando o
paciente refere estar sentindo dor), imperícia (o profissional
exerce a função, mas falta conhecimento e/ou treinamento
relacionados à sua função) ou imprudência (o profissional
não tem zelo, cautela, ao realizar determinada atividade).

Vale ressaltar que a repreensão ética disciplinar tem um fim social, deven-
do a punição ser entendida como educação social e não como condena-
ção diante de ações irrefletidas, como em certos casos.

As consequências dos erros, para os profissionais, geralmente são acom-


panhadas por estresse, afastamentos por transtornos mentais, tempo
perdido com audiências e gastos com questões judiciais e advocacia.

Em relação às consequências das iatrogenias para os pacientes, principal-


mente para aqueles acima de 60 anos, relacionam-se a um maior com-
prometimento funcional e evolução para óbito.

As implicações relacionadas às iatrogenias podem ser acompanhadas por


uma cascata iatrogênica caracterizada por: dias de hospitalização prolon-
gados e repetição de procedimentos e intervenções; perda de capacidade
de viver de modo independente e de realizar atividades simples da vida
diária; perda ou inutilidade de membro; alterações na saúde física, men-
tal, moral e/ou emocional. Essas consequências poderão requerer tera-
pêutica adicional ou novas avaliações por outros profissionais e/ou insti-
tuição, elevando os custos com a internação e aumentando a demanda
de serviço dos profissionais envolvidos.

28 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


PARA SABER MAIS
No estudo desenvolvido por Szlejf e colaboradores (2008),
os mesmos identificaram que 9% a 23% dos idosos apresen-
taram algum comprometimento funcional após serem víti-
mas de iatrogenia e 5% a 13% destes evoluíram para óbito
após fatores iatrogênicos. Para saber mais sobre as conse-
quências das iatrogenias em idosos, acesse o link disponível
em <http://apps.einstein.br/revista/arquivos/PDF/966-v6n3
aAO966portp337-42.pdf>. Acesso em: 9 mai. 2018.

QUESTÃO PARA REFLEXÃO


As iatrogenias podem acarretar injurias temporárias ou definitivas
para os idosos e até mesmo levar à morte. Se fôssemos gestores em
uma instituição de saúde para idosos, poderíamos reduzir a ocorrên-
cia dessas iatrogenias em nossa instituição? Quais ações para pre-
venção você empregaria?

2. Considerações Finais

• A iatrogenia é um problema de saúde pública, podendo ser detec-


tado, melhorado e prevenido pelos profissionais que trabalham
diretamente com o paciente.

• As consequências das iatrogenias podem levar a consequências de


diferentes graus de severidade para o paciente e implicações éticas
e/ou penais para os profissionais.

• As implicações relacionadas às iatrogenias podem ser acompanha-


das por uma cascata iatrogênica e até evolução para o óbito.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)29


• A relevância da prevenção quaternária referente à etapa da vida
idosa reside no fato de se pensar na melhoria e no prolongamento
da vida dos idosos.

Glossário
• Iatrogenia: qualquer evento, injúria ou doença que acomete o in-
divíduo em consequência de um ato não intencional cometido por
parte de qualquer profissional da equipe de saúde.
• Injúria: lesão ou alteração de função de algum órgão ou tecido.
• Prevenção quaternária: identificar riscos e evitar a exposição
dos indivíduos a tratamentos ou intervenções desnecessários ou
errôneos.

VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 2
1. Erro, evento ou doença gerado como consequência de
ato não intencional cometido por qualquer profissional da
equipe de saúde. Essa definição se refere a:
a) Iamatecnia.
b) Iconolatra.
c) Iatrogenia.
d) Idiopático.
e) Intérfase.
2. Complete a sentença a seguir:
As iatrogenias podem ser decorrentes de causas
e , sendo os primeiros gerados
por comportamentos, atitudes e palavras que são pro-
venientes dos profissionais da saúde e os segundos são
aqueles relacionados a erros de medicação, cirurgias, mu-
tilações e procedimentos desnecessários.

30 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


a) psicológicas – físicas.
b) não perceptíveis – perceptíveis.
c) não visíveis – visíveis.
d) subjetivas – não subjetivas.
e) não relevantes – relevantes.
3. O Código de Ética profissional abrange os direitos e os de-
veres de cada profissão, porém os profissionais da saúde
possuem em seus respectivos códigos pontos em comum.
De acordo com esta Leitura Fundamental, no que diz res-
peito ao Código de Ética, analise as asserções dispostas a
seguir e a relação entre elas proposta:
I. De forma geral, as normas do Código de Ética inter-
ferem na proibição de condutas inconvenientes pelos
profissionais relacionadas a imprudência, negligência e
imperícia.
PORTANTO
II. Se um idoso sofre uma iatrogenia, o profissional de
saúde responsável por esse erro poderá ter que res-
ponder legalmente por esse erro conforme o Código
de Ética profissional.
a) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma
proposição falsa.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é
consequência da I.
c) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II
não é uma consequência da I.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma propo-
sição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)31


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dos em enfermaria geriátrica: estudo prospectivo. Einstein, v. 6, n. 3, p. 337-342, 2008

32 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Gabarito – Tema 02

Questão 1 – Resposta: C

A definição de IATROGENIA se refere ao evento ou à doença gerados


como consequência de ato não intencional cometido por qualquer
profissional da equipe de saúde. Iamatecnia se refere à farmaco-
técnica; arte de preparar medicamentos; iconolatra se refere àque-
le que adora imagens e idiopático é relativo às doenças de causa
desconhecida.

Questão 2 – Resposta: A

As consequências das iatrogenias podem ser subdivididas em danos


psicológicos e físicos, sendo os primeiros gerados por comporta-
mentos, atitudes e palavras que são provenientes dos profissionais
da saúde e os segundos são aqueles relacionados a erros de medica-
ção, cirurgias, mutilações e procedimentos desnecessários.

Questão 3 – Resposta: B

Se um idoso sofre uma iatrogenia, o profissional de saúde responsá-


vel por esse erro poderá ter que responder legalmente por esse erro
conforme o Código de Ética profissional, visto que a iatrogenia é con-
sequência de um erro cometido por profissional da saúde e causa-
do por imprudência, imperícia ou negligência, consequentemente, é
possível que o trabalhador tenha que responder legalmente por suas
atitudes, conforme seu Código de Ética profissional preestabelecer.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)33


TEMA 03
INSTABILIDADE POSTURAL

Objetivos

• Introduzir a temática instabilidade postural.

• Conhecer de modo mais abrangente os fatores


extrínsecos e intrínsecos relacionados à instabilidade
postural.

• Compreender as consequências relacionadas à insta-


bilidade postural e às quedas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)34


Introdução

O idoso é considerado saudável quando é capaz de viver de forma inde-


pendente e autônoma, além disso, sua funcionalidade global está asso-
ciada a quatro domínios funcionais: cognição, humor, mobilidade e comu-
nicação. A desarmonia desses domínios ou a perda dessas funções resul-
ta nas grandes síndromes geriátricas, conhecidas como 5Is: incapacidade
cognitiva, instabilidade postural, imobilidade, incontinência esfincteriana
e incapacidade comunicativa.

Dentre as síndromes dos 5Is, a instabilidade postural é aquela relacionada


à falta de equilíbrio, ocasionada por distúrbios na manutenção do centro
de gravidade, devido a disfunções no funcionamento adequado dos sis-
temas visual, vestibular, musculoesquelético ou somatossensorial. Cabe
salientar que a instabilidade postural é considerada a principal causa de
incapacidade para idosos.

À medida que o indivíduo envelhece, o organismo tende a sofrer altera-


ções na funcionalidade dos sistemas e esses fatores intrínsecos, associa-
dos ou não a fatores extrínsecos, poderão culminar na instabilidade pos-
tural e, consequentemente, nas quedas e suas sequelas.

Dentre as possíveis consequências das quedas, pode-se citar: decaimento


das competências cognitiva ou funcional, restrições físicas ou redução da
mobilidade, insegurança ou medo de novas quedas, perda da autonomia
e da independência para execução das atividades de vida diária, e a impli-
cação mais grave, o óbito.

Dessa forma, torna-se relevante conhecer os fatores extrínsecos e intrín-


secos relacionados à instabilidade postural que predispõem os idosos às
quedas, na tentativa de minimizá-los e, consequentemente, evitar ou re-
duzir as sequelas decorrentes dessas quedas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)35


1. Instabilidade postural

A instabilidade postural, ou seja, a incapacidade para manter o equilíbrio


corporal, está associada a alterações anatômicas e funcionais ou a fato-
res extrínsecos, e culmina em diversas sequelas decorrentes das quedas,
sendo, ainda, considerada a principal causa de incapacidade em idosos.

Muitas vezes, a queda é associada apenas ao ato de se estar em pé e


cair ao chão, entretanto, todo e qualquer evento não intencional que tem
como consequência a alteração da posição inicial do indivíduo para um
nível inferior é considerado queda.

Recomenda-se que as quedas não sejam consideradas eventos isolados


e sim um sinal de que ocorreu a perda do equilíbrio postural em decor-
rência de um ou mais fatores intrínsecos, sejam eles patológicos ou não,
e que podem ainda estar associados a fatores ambientais.

Mesmo nos casos de inexistência de ferimentos visíveis, não se pode infe-


rir que a queda tenha ocorrido sem consequências danosas para o idoso,
uma vez que este pode ter perdido a confiança para deambular, assim
como a própria família ou mesmo os cuidadores, por receio de novas que-
das, acabam por restringir a liberdade para deambulação do idoso e, con-
sequentemente, este passa a diminuir sua independência e autonomia.

Deve-se considerar ainda que fatores extrínsecos, ambientais ou so-


ciais podem contribuir para instabilidade postural ou para ocorrência
das quedas.

Dentre as sequelas das quedas, as fraturas são as que representam a


principal causa aguda de hospitalização. As fraturas de fêmur acabam por
elevar os riscos de tromboembolismo e pneumonia e levam à morte, em
um ano, cerca de 50% dos idosos com esse tipo de fratura (MINISTÉRIO
DA SAÚDE, 1999).

36 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


EXEMPLIFICANDO
Fatores extrínsecos são aqueles relacionados aos comporta-
mentos (tabagista ou não; etilista ou não; sedentário ou não,
etc.) das pessoas idosas e ao meio ambiente (ambientes in-
seguros, mal iluminados, mal planejados e mal construídos),
sendo os fatores ambientais os principais fatores de risco
para quedas.

LINK
Dados epidemiológicos sobre queda na população idosa
podem ser verificados no artigo de Paula Júnior e Santos.
Disponível em: <http://www.reme.org.br/artigo/detalhes/1054>.
Acesso em: 8 mai. 2018.

1.1. Doenças relacionadas à instabilidade postural

As mudanças decorrentes da senilidade e senescência, em relação à dimi-


nuição das reservas fisiológicas, alterações nas estruturas físicas e funcio-
nais do organismo, além do aparecimento de distúrbios cognitivos, aca-
bam por resultar em síndromes como a da instabilidade postural.
Diversas doenças e comorbidades podem favorecer o desenvolvimento
da instabilidade postural, e até mesmo o uso de algumas medicações,
como diuréticos, ansiolíticos e sedativos, podem contribuir para perda do
equilíbrio postural.
À medida que o ser humano envelhece, o sistema efetor se torna preju-
dicado, os sistemas vestibular e cardíaco têm suas disfunções associadas
ao aumento da instabilidade postural, assim como alterações do SNC dei-
xam os idosos mais propensos à perda do equilíbrio corporal e, conse-
quentemente, às quedas e suas consequências.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)37


LINK
O Cadernos de Atenção Básica – Normas e Manuais Técnicos
sobre Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa traz em um
quadro (p. 70) uma síntese dos dados clínicos e diagnósticos
prováveis mais comumente associados a quedas. Disponível
em <http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/cadernos_
ab/abcad19.pdf> Acesso em: 10 mai. 2018.

1.1.1. Fisiopatologia de doenças relacionadas à instabilidade postural

Algumas doenças são consideradas predisponentes ou precipitantes para


a instabilidade postural do idoso e estão relacionadas a disfunções arti-
culares, doenças do sistema sensorial, neurológico e até cardiovascular.

À medida que o ser humano envelhece, o sistema musculoesquelético pas-


sa por alterações na constituição das fibras musculares e dos neurônios
motores, interferindo diretamente na força e na perda de massa muscular,
com consequente paresia dos membros; a estrutura óssea perde parte de
sua constituição e as musculaturas se tornam menos tonificadas, os ossos
ficam mais fragilizados, os tendões tendem a se calcificar, ou seja, o siste-
ma efetor (compreendido pelo tônus e pela força muscular, pela amplitude
de movimento das articulações, pela flexibilidade e pelo alinhamento bio-
mecânico) fica prejudicado e consequentemente as articulações se tornam
mais frágeis e suscetíveis a fraturas e instabilidade postural.

A associação entre a perda de massa muscular esquelética e a força dos


músculos esqueléticos é denominada sarcopenia e está relacionada não
só à instabilidade postural como também tem sido considerada um indica-
dor de sobrevida. A sarcopenia pode ocorrer por diversas etiologias, entre
elas: alterações hormonais, carência nutricional, doenças degenerativas e
sedentarismo. Com o envelhecimento ocorre, por exemplo, o aumento da
angiotensina II, redução dos hormônios produzidos pela tireoide, redução

38 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


da testosterona, insulina e outros hormônios que acabam por favorecer a
ocorrência de sarcopenia. Além disso, ocorre a redução dos processos de
apoptose com consequente acúmulo de células malformadas ou disfun-
cionais e acúmulo de espécies reativas de oxigênio. Esses processos po-
dem ser retardados ou minimizados com hábitos alimentares saudáveis
e realização de atividade física.
Em relação às doenças do tecido ósseo, observa-se, ao longo do enve-
lhecimento, a osteopenia, resultante da hipoatividade dos osteoblastos.
A osteoartrose é uma doença degenerativa articular frequente na popu-
lação idosa e gera um desgaste da cartilagem articular, principalmente
das articulações que sustentam grandes pesos como joelhos e quadris A
osteoartrose dos joelhos pode resultar em instabilidade dos ligamentos
e das articulações, gerando falta de estabilidade ou o desmoronar das
pernas. Já em relação à osteoartrose do quadril, pode ocorrer redução da
rotação interna do mesmo com redução da extensão, da abdução e ou
flexão do quadril com consequente dificuldade para deambulação. Além
disso, qualquer anormalidade que afete os pés, que constituem a base
para o equilíbrio, como, por exemplo, fasceíte plantar, unhas encravadas,
úlceras, halluxvalgus (joanete), entre outros, poderão interferir na estabi-
lidade postural.
O sistema vestibular é considerado fundamental na manutenção da es-
tabilidade corporal e sua principal função é fornecer ao SNC informações
sobre a posição e manter o equilíbrio corporal. Sabe-se que os distúrbios
visuais e auditivos são frequentes em idosos e essas disfunções estão as-
sociadas à instabilidade postural, distúrbios de marcha e ao aumento no
risco de quedas. À medida que ocorre o envelhecimento, observa-se que
as disfunções visuais estão cada vez mais relacionadas à diminuição da
acuidade visual, dificuldade para se adaptar ao escuro, enfraquecimento
visual, seja agudo ou paulatino, gerados por catarata, glaucoma ou distúr-
bios nutricionais. Essas alterações relacionadas ao processo de envelheci-
mento que culminam na perda ou redução da capacidade visual estão re-
lacionadas aos seguintes processos fisiológicos: redução da sensibilidade
da córnea, atrofia da retina e da pupila e opacidade do cristalino.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)39


Na população geriátrica, a deficiência auditiva favorece a ocorrência de
tontura, vertigem e instabilidade postural. As disfunções vestibulares, re-
lacionadas ao processo natural de envelhecimento, são suscitadas pela
redução na densidade dos receptores e no número de células receptoras
de algumas estruturas do sistema. A hipoacusia tem grande prevalência
em idosos e está relacionada a um estado vertiginoso, além de limitar o
controle postural, dificultando a estabilidade postural e o aumento dos
riscos de queda e outros sintomas como náuseas, vômitos e cefaleia. A
fisiopatologia da hipoacusia no envelhecimento, ou seja, da presbiacusia,
está relacionada à displasia das células vestibulares, alterações na densi-
dade das fibras de mielina com redução na velocidade da condução dos
estímulos no nervo vestibular, entre outras
Além disso, alterações no SNC podem ser responsáveis diretamente e de
forma aguda ou servirem como fatores predisponentes para as quedas.
O córtex cerebral é formado por bilhões de células relacionadas a funções
complexas, entre elas a motricidade. As deficiências que ocorrem paula-
tinamente no SNC e são prevalentes na população idosa são: redução da
neurogênese e da plasticidade dos neurônios assim como a redução da
velocidade na condução dos impulsos nervosos.
Algumas doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, estão
sendo consideradas doenças que predispõem ao desequilíbrio postural.
Sabe-se que pacientes portadores de doença de Parkinson apresentam
tremores e outros distúrbios motores que comprometem a estabilidade
postural. Já aqueles portadores de Alzheimer podem ter alterações no
equilíbrio e na marcha relacionados a um estágio avançado da doença,
caracterizado por atrofia cerebral, presença de alterações da homeostase
do cálcio e disfunção mitocondrial.
Deve-se considerar ainda, em relação ao sistema nervoso, os acidentes
vasculares encefálicos, sejam estes isquêmicos ou hemorrágicos, pois eles
muitas vezes ocasionam paresias ou plegias nos membros inferiores que
acabam por gerar instabilidade postural e quedas. Idosos com demência,
portadores de Alzheimer, depressivos ou com Parkinson podem apresen-
tar anormalidades de marcha e instabilidade postural.

40 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


As doenças cardiovasculares estão relacionadas à instabilidade postural
à medida que podem levar à isquemia cerebral, mesmo que transitória,
ou a um hipofluxo cerebral, seja por arritmias, insuficiência cardíaca ou
doenças ateroscleróticas. A instabilidade postural relacionada à isquemia
cerebral em idosos pode estar relacionada à insuficiência cardíaca ou re-
dução do débito cardíaco –secundárias à hipertrofia dos ventrículos (cau-
sada pela redução da multiplicação celular com consequente hipertrofia
compensatória). Além disso, pode ocorrer isquemia cerebral, também por
alterações vasculares intrínsecas ao enrijecimento da parede vascular e
ao acúmulo de placas ateroscleróticas nos vasos, levando a uma redução
do fluxo e aumento do risco de infarto e acidentes vasculares encefálicos.
Outro fator relacionado às questões cardiovasculares que pode contri-
buir para a instabilidade postural é a redução na percepção dos reflexos
pelos barorreceptores durante a realização dos movimentos.

PARA SABER MAIS


Sabe-se que medicamentos como anti-hipertensivos e diu-
réticos estão relacionados ao aumento no risco de quedas.
Para saber mais, acesse o artigo intitulado Queda entre ido-
sos no Brasil e sua relação com o uso de medicamentos: revisão
sistemática, disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/
v28n12/02.pdf>. Acesso em: 9 mai. 2018.

ASSIMILE
A instabilidade postural pode gerar a queda – que é todo e
qualquer evento não intencional que tem como consequên-
cia a alteração da posição inicial do indivíduo para um nível
inferior de forma não intencional. Algumas doenças são con-
sideradas predisponentes ou precipitantes para a instabi-
lidade postural do idoso e estão relacionadas a disfunções
musculares, articulares, alterações do sistema vestibular,
neurológico e até cardiovascular.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)41


1.2. Fatores extrínsecos relacionados à instabilidade postural

Fatores extrínsecos são aqueles que não são inerentes à fisiologia do


ser humano, ou seja, são fatores comportamentais ou ambientais.
Geralmente, os fatores ambientais estão relacionados a presença de luz,
objetos e infraestrutura.

Sabe-se que o ambiente em que as quedas mais ocorrem é o residencial


e, geralmente, os acidentes costumam ocorrer quando os idosos estão
desenvolvendo atividades comuns ao seu cotidiano, como ir ao banheiro
ou descer escadas, por exemplo.

Os fatores ambientais que mais contribuem para as quedas são: pisos


com superfícies úmidas ou irregulares; tapetes; iluminação deficiente,
cama de altura inadequada; cadeiras baixas e sem braços, falta de corri-
mão em corredores; vasos sanitários baixos e sem apoios laterais, falta de
apoios nos boxes de banheiros e calçados inadequados.

Em relação aos fatores comportamentais, há o sedentarismo, o abuso de


substâncias tóxicas como álcool e drogas e, principalmente, o tratamento
medicamentoso com anti-hipertensivos, ansiolíticos, antidepressivos e diu-
réticos como contribuintes para a elevada ocorrência de quedas nos idosos.

PARA SABER MAIS


Os fatores extrínsecos podem ser modificados a fim de redu-
zir os riscos de quedas. O instrumento de “Avaliação ambiental
de riscos de queda” aborda características socioeconômicas e
fatores que podem contribuir para a prevenção das quedas.

O instrumento está disponível nas páginas 30 a 32 e pode ser


acessado por meio do link disponível em: <http://bvsms.sau-
de.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_saude_idoso_cab4.pdf>.
Acesso em: 9 mai. 2018.

42 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


QUESTÃO PARA REFLEXÃO
Você irá receber em sua residência o senhor J. F. S., que possui 85 anos
de idade, é consciente, orientado, refere estar ingerindo alimentos
por via oral com apetite preservado e menciona estar apresentan-
do eliminações fisiológicas espontâneas. O senhor J. F. S. deambula,
porém, necessita de auxílio de andador ou muleta desde que sofreu
AVC no ano passado. Como sequela do AVC, o mesmo possui, ainda,
hemiplegia à esquerda, com paresia em membros inferiores e possui
cerca de 60% de acuidade visual. Ele faz uso de remédios anti-hiper-
tensivos, diuréticos e insulina NPH.

Esse senhor ficará hospedado em sua residência por uma semana,


portanto, quais cuidados você deverá ter para minimizar os problemas
relacionados à instabilidade postural dele e prevenir possíveis quedas?

2. Considerações Finais

• A instabilidade postural é considerada a principal causa de incapa-


cidade em idosos.

• Queda é todo e qualquer evento não intencional que tem como con-
sequência a alteração da posição inicial do indivíduo para um nível
inferior de forma não intencional.
• Dentre as possíveis consequências das quedas, podem-se citar:
decaimento das competências cognitiva ou funcional, restrições
físicas ou redução da mobilidade, insegurança ou medo de novas
quedas, perda da autonomia e da independência para execução das
atividades de vida diária e, a implicação mais grave, o óbito.
• Algumas doenças são consideradas predisponentes ou precipitan-
tes para a instabilidade postural do idoso e estão relacionadas a
disfunções articulares, doenças do sistema sensorial, neurológico e
até cardiovascular.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)43


• Sabe-se que o ambiente em que as quedas mais ocorrem é o resi-
dencial e, geralmente, os acidentes costumam ocorrer quando os
idosos estão desenvolvendo atividades comuns ao seu cotidiano,
como ir ao banheiro ou descer escadas.

Glossário
• Hipoacusia: diminuição da audição.
• Presbiacusia: perda auditiva associada ao envelhecimento.
• Paresia: perda da força de nervo ou músculo.
• Plegia: paralisia.

VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 3
1. Complete a sentença a seguir:
A instabilidade postural, ou seja, a para manter
o equilíbrio corporal está associada a alterações
e ou e culmina
em diversas sequelas decorrentes das quedas, sendo, ainda,
considerada a principal causa de incapacidade em idosos.
a) Incapacidade – anatômicas – funcionais – fatores
intrínsecos.
b) Capacidade – anatômicas – genéticas – fatores
intrínsecos.
c) Incapacidade – anatômicas – genéticas – fatores
intrínsecos.
d) Incapacidade – anatômicas – funcionais – fatores
extrínsecos.
e) Capacidade – anatômicas – genéticas – fatores
extrínsecos.

44 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


2. O ambiente em que ocorre a maior incidência e prevalên-
cia de quedas em idosos é o:
a) Aberto.
b) Fechado.
c) Ambulatorial.
d) Hospitalar.
e) Residencial.
3. Sabe-se que a instabilidade postural pode estar relaciona-
da a comprometimentos cardiovasculares, dessa forma,
analise as asserções dispostas a seguir e a relação entre
elas proposta:
I. A insuficiência cardíaca ou redução do débito cardíaco
secundárias à hipertrofia dos ventrículos (causada pela
redução da multiplicação celular com consequente hi-
pertrofia compensatória), além de alterações vascula-
res intrínsecas ao enrijecimento da parede vascular e
ao acúmulo de placas ateroscleróticas nos vasos po-
dem levar a uma isquemia cerebral (transitória ou não).
PORTANTO
II. As doenças cardiovasculares são capazes de aumentar
a instabilidade postural e os riscos de queda à medida
que geram isquemia cerebral.
a) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma
proposição falsa.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é
consequência da I.
c) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II
não é uma consequência da I.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma propo-
sição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)45


Referências Bibliográficas

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PAULA JÚNIOR, N. F.; SANTOS, S. M. A. Epidemiologia do evento queda em idoso:


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RICCI, N. A.; GAZZOLA, J. M.; COIMBRA, I. B. Sistemas sensoriais no equilíbrio corporal


de idosos. Arq Bras Ciên Saúde, Santo André, v. 34, n. 2, p. 94-100, 2009.

46 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Gabarito – Tema 03

Questão 1 – Resposta: D

A instabilidade postural, ou seja, a incapacidade para manter o equi-


líbrio corporal, está associada a alterações anatômicas e funcionais
ou fatores extrínsecos e culmina em diversas sequelas decorrentes
das quedas sendo, ainda, considerada a principal causa de incapaci-
dade em idosos.

Questão 2 – Resposta: E

O ambiente em que as quedas mais ocorrem é o residencial e, ge-


ralmente, os acidentes costumam ocorrer quando os idosos estão
desenvolvendo atividades comuns ao seu cotidiano, como ir ao ba-
nheiro ou descer escadas.

Questão 3 – Resposta: B

As doenças cardiovasculares são capazes de aumentar a instabilida-


de postural e os riscos de queda à medida que geram isquemia ce-
rebral. Essa isquemia pode ser causada pela insuficiência cardíaca
ou pela redução do débito cardíaco secundários à hipertrofia dos
ventrículos (causada pela redução da multiplicação celular com con-
sequente hipertrofia compensatória), além de alterações vasculares
intrínsecas ao enrijecimento da parede vascular e ao acúmulo de pla-
cas ateroscleróticas nos vasos que também podem ocasionar isque-
mia cerebral (transitória ou não).

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)47


TEMA 04
IMOBILIDADE

Objetivos

• Apresentar bases conceituais sobre imobilidade.

• Apresentar as principais causas de imobilidade na


população idosa.

• Compreender as consequências advindas da imobili-


dade para os idosos.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)48


Introdução

O Brasil, assim como outros países em desenvolvimento, vem, nas últimas


décadas, passando por processos de transição demográfica que acabam,
então, por culminar em transição epidemiológica. As principais mudan-
ças observadas nos últimos anos que proporcionaram esses processos
de transição foram ocasionadas, principalmente, pela redução das taxas
de fecundidade e mortalidade e tem como principais consequências a re-
dução da autonomia dos indivíduos e o aumento de sua dependência.

Atualmente, em termos demográficos, no Brasil, a população idosa ain-


da representa uma minoria da totalidade populacional, entretanto são os
idosos que demandam maior assistência nos serviços de saúde, podendo
atingir até mesmo a uma ocupação, em instituições hospitalares, de me-
tade do total de leitos.

Mesmo sendo esperado que os indivíduos apresentem modificações em


seus aspectos biológicos, sociais e psicológicos à medida que envelhecem,
o impacto e a velocidade com as quais essas alterações ocorrem estarão,
geralmente, relacionadas aos hábitos diários que cada um apresentou
durante toda a vida, desde sua infância, com consequente redução de
sua autonomia e aumento de sua dependência.

Dentre as consequências do envelhecimento populacional, é possível ve-


rificar que é cada dia mais frequente o número de atendimentos, nos pos-
tos de saúde e hospitais, à população maior de 60 anos, devido a doenças
crônicas e suas comorbidades.

Diversas doenças e suas comorbidades originam imobilidade, e esta tem


sido considerada uma das grandes síndromes geriátricas, não só por pos-
suir elevada prevalência dentre os indivíduos pertencentes a essa faixa
etária como também pela diversidade de agravos ou sequelas decorren-
tes do imobilismo.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)49


A relevância de se estudar a imobilidade se deve ao fato de que os profis-
sionais da saúde devem conhecer as causas e consequências dessa sín-
drome geriátrica para que possam não só orientar os idosos e seus fami-
liares quanto ao desenvolvimento de atividades preventivas e de reabili-
tação, como também levantar as principais necessidades biopsicossociais
relacionadas ao imobilismo.

1. Imobilidade

O conceito de imobilidade é amplo e pode estar relacionado à interrup-


ção de movimento, retenção e até mesmo indiferença. Nesta Leitura
Fundamental, considerar-se-á imobilidade como uma das síndromes ge-
riátricas caracterizada pela redução ou interrupção da ação de movimen-
tação ou deslocamento.

A imobilidade pode ser decorrente de diferentes enfermidades isoladas


ou em conjunto que acabam por provocar restrição ou limitação total na
movimentação dos sujeitos, comprometendo sua independência para re-
alização das tarefas diárias. Independentemente da causa, a imobilidade
crônica gera diversas sequelas que são denominadas, em conjunto, como
síndrome do imobilismo ou do desuso.

O imobilismo ou a imobilidade podem se apresentar: em diferentes graus


ou níveis de intensidade; com início súbito ou gradual; perdurar por um
curto período de tempo ou se prolongar de forma crônica. A gravidade
das consequências dessa síndrome é, geralmente, proporcional ao perío-
do de duração e ao grau de intensidade da imobilidade.

O grau máximo do imobilismo é caracterizado pela total imobilidade do


indivíduo e geralmente é acompanhado por nível de consciência diminu-
ído ou intenso déficit cognitivo, sendo denominada síndrome de imobi-
lidade completa, e está relacionado a diversas consequências que serão
abordadas no item 1.2 desta Leitura Fundamental.

50 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


1.1. Principais causas de imobilidade
Com o envelhecimento, disfunções, principalmente musculoesqueléticas
e cognitivas, progressivamente ou abruptamente, culminarão na presen-
ça de imobilidade parcial ou total (completa).
De forma similar ao que ocorre na instabilidade postural, é possível veri-
ficar que a imobilidade está diretamente relacionada a prejuízos no siste-
ma efetor e no sistema musculoesquelético. Os idosos, geralmente, pos-
suem aumento da sarcopenia, redução na amplitude dos movimentos
dos membros superiores e inferiores e alterações na marcha e imobilida-
de parcial ou total.
Em idosos, é frequente a ocorrência de alterações no Sistema Nervoso
Central (SNC) que interferem nas respostas neuromusculares, culminan-
do na inaptidão motora (fina e/ou grossa), além de alterações cognitivas
com prejuízos sensório-perceptivos que geram incapacidade de perceber
a necessidade de se movimentar. Essas alterações no SNC são, geralmen-
te, decorrentes de doenças neurodegenerativas ou agravos de patologias
cardiovasculares.
As doenças cardiovasculares podem ocasionar prejuízo ao sistema efe-
tor à medida que geram prejuízo neuronal por hipóxia no encéfalo, seja
de forma crônica, seja de maneira aguda. Além disso, algumas doenças
neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, em estágio avançados
podem culminar em diminuição das habilidades motoras ou redução no
nível de consciência, que também acaba por gerar o imobilismo.

EXEMPLIFICANDO
A dislipidemia e aterosclerose são exemplos de alterações
cardiovasculares que cronicamente e paulatinamente resul-
tam na hipóxia cerebral pelo “entupimento” das carótidas e
outras artérias; já os AVEs (acidentes vasculares encefálicos)
são exemplos de causa de hipóxia que ocorre de maneira
abrupta. Seja de forma aguda ou crônica, essas alterações
podem resultar em prejuízo ao sistema efetor.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)51


LINK
No Brasil, profissionais da saúde utilizam a escala conhecida
como POMA-Brasil para avaliar a amplitude de movimentos.
A mesma pode ser observada no Anexo E (p. 149-150), dis-
ponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/ab-
cad19.pdf>. Acesso em: 24 mai. 2018.

1.2. Consequências da imobilidade

A imobilidade ou a síndrome do imobilismo pode ocasionar diversos


agravos e ainda propiciar o aumento no risco de doenças e lesões que
impactam diferentes sistemas do organismo. Assim, a imobilidade acaba
por reduzir a autonomia, independência e autoestima dos idosos. Dessa
forma, sugere-se que esses idosos sejam acompanhados por uma equi-
pe multiprofissional capacitada para prevenir e amenizar os impactos da
imobilidade.

As principais consequências do imobilismo relacionadas à pele são: esco-


riações; lacerações; eritema; dermatites de contato, principalmente nas
regiões infra e interglútea e em outras dobras; lesões tissulares e lesões
por pressão (LPP), principalmente nas regiões de proeminências ósseas.
Uma vez que o paciente apresenta LPP estágio II ou superior, sua suscep-
tibilidade a infecções e até mesmo sepse aumenta significativamente.

ASSIMILE
Por que as lesões por pressão estão diretamente relaciona-
das ao aumento no risco de infecções? As LLPs são classifi-
cadas em estágios, conforme a gravidade. No primeiro es-
tágio, observa-se apenas eritema; no segundo, já ocorreu o
rompimento da derme; no terceiro, tem-se o rompimento

52 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


da epiderme com a visualização de músculos e tendões; no
quarto, todas as camadas da pele foram destruídas e verifi-
ca-se exposição óssea. A partir do momento em que se tem
o rompimento da pele, a barreira protetora que esse órgão
proporcionava foi interrompida, dessa forma, ocorre aumen-
to da exposição às bactérias multirresistentes e aos patóge-
nos ambientais, ou seja, maior susceptibilidade a infecções e
até mesmo septicemia.

PARA SABER MAIS


Uma das consequências da imobilidade ou redução da mobi-
lidade é o aparecimento de lesões por pressão. Dessa forma,
a mobilidade integra o cálculo de risco de lesão por pressão
na chamada Escala de Braden, que ainda é constituída pela
avaliação dos seguintes critérios: percepção sensorial, ativi-
dade, umidade, nutrição, fricção ou cisalhamento. O artigo de
Rogenski e Kurcgant avaliou a aplicabilidade dessa escala por
profissionais que a utilizam. Disponível em: <http://www.scielo.
br/pdf/ape/v25n1/v25n1a05>. Acesso em: 24 mai. 2018.

Outras consequências para o idoso com imobilidade, principalmente o lon-


gevo, são os riscos para desenvolvimento de desnutrição e desidratação.
Geralmente, estas ocorrem devido ao fato de esses idosos não solicitarem
ajuda para se alimentar ou ingerir água. Muitas vezes se sentem envergo-
nhados para pedir favores ou não se lembram da necessidade de ingestão
hídrica e alimentar, visto que seu metabolismo é mais desacelerado.

Além disso, os idosos quando debilitados permanecem acamados e sem


desenvolver atividade física, sua temperatura basal é mais baixa e por es-
sas e outras razões podem ter maior inapetência e menor necessidade de

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)53


água. Dessa forma, a desnutrição e a desidratação, assim como aumento
do risco de aspiração por disfagia e pela imobilidade propriamente dita,
além de refluxo e constipação intestinal, são fatores gastrointestinais que,
associados ao imobilismo, podem gerar graves sequelas para o idoso, po-
dendo causar até mesmo o óbito.

Já em relação ao sistema musculoesquelético, a imobilidade favorece a


atrofia dos músculos e ligamentos, comprometendo ainda mais a mobili-
dade e a amplitude dos movimentos.

Com a imobilidade ocorre, ainda, um maior comprometimento do sistema


cardiovascular e do sistema respiratório, com consequentes distúrbios de
hipotensão ortostática, redução da tolerância ao exercício, aumento do
risco de trombose e tromboembolismo, com maior susceptibilidade para
embolia pulmonar, maior estase de secreção nos brônquios, com aumen-
to do risco de pneumonia, atelectasia e insuficiência respiratória.

1.2.1. Consequências psicossociais da perda ou redução da mobilidade

À medida que o ser humano envelhece, mudanças nos órgãos e sistemas


ocorrem de forma fisiológica. Não necessariamente os idosos desenvol-
verão doenças que culminem no imobilismo ou na invalidez, no entanto, é
frequente o número de idosos longevos que desenvolvem maior fragilida-
de de seus sistemas e acabam por se tornar dependentes ou acamados.

Em relação à imobilidade e às mudanças do sistema efetor e musculoes-


quelético, observam-se – conforme descrito no item 1.2 – consequências
como aumento dos riscos para pneumonia, tromboembolismo, infecção,
aspiração, desidratação, desnutrição, lesões por pressão. Estes e os de-
mais agravos físicos podem gerar impactos sociais e para a saúde mental
desses idosos.

As diversas comorbidades e a própria imobilidade fazem com que o pa-


ciente demande cuidados contínuos. O mesmo se torna dependente da
família e/ou de cuidadores. Assim, a família, muitas vezes despreparada,

54 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


não consegue prestar os cuidados necessários e acaba por contratar cui-
dadores ou profissionais da área da saúde ou opta por institucionalizar
o idoso. A institucionalização, muitas vezes, é percebida por esses idosos
como abandono.

Além disso, as limitações nos movimentos podem restringir as atividades


diárias dos idosos, como vestir-se, alimentar-se e banhar-se sozinho. Essa
perda de autonomia relacionada à imobilidade isoladamente ou em con-
junto com dores físicas, além de luto, abandono e outras frustações, po-
dem gerar diminuição da autoestima, distúrbios do sono, ansiedade, ina-
petência, isolamento social, instabilidade emocional e depressão. Sabe-se
que os idosos engajados em atividades sociais, que participam de ativi-
dades religiosas ou que praticam esportes coletivos têm menor risco de
desenvolver essas sequelas.

PARA SABER MAIS


A imobilidade é uma das grandes síndromes geriátricas. Para
saber mais sobre esta e as outras síndromes, você pode aces-
sar o artigo de revisão: Principais síndromes geriátricas, dos au-
tores Moraes, Marino e Santos. Disponível em: <http://www.
rmmg.org/artigo/detalhes/383>. Acesso em: 27 mai. 2018.

QUESTÃO PARA REFLEXÃO


Você é funcionário em uma instituição geriátrica e lhe foi proposto
elaborar um plano de atividades a serem desenvolvidas para trata-
mento e prevenção de sequelas relacionadas à imobilidade. Quais
atividades você desenvolveria com os idosos acometidos pelo imobi-
lismo? Quais seriam as atividades preventivas? E, por fim, você seria
capaz de propor atividades envolvendo profissões diferentes da sua?

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)55


2. Considerações Finais

• O grau máximo do imobilismo é caracterizado pela total imobilidade


do indivíduo e geralmente é acompanhado por nível de consciência
diminuído ou intenso déficit cognitivo.

• Com o envelhecimento, disfunções, principalmente musculoesque-


léticas e cognitivas, progressivamente ou abruptamente, culminarão
na ocorrência de imobilidade parcial ou total.

• A imobilidade pode estar relacionada a diversos fatores causais,


dentre eles: alterações no sistema musculoesquelético e efetor,
alterações no sistema nervoso central e alterações no sistema
cardiovascular.

• A imobilidade ou a síndrome do imobilismo pode ocasionar diver-


sos agravos, favorecer o aumento para risco de doenças e lesões
que impactam diferentes sistemas do organismo, além de reduzir a
autonomia, independência e autoestima dos idosos.

Glossário

• Atelectasia: colapso pulmonar.

• LPP: lesão por pressão, outrora denominada úlcera por pressão.

• Sarcopenia: associação entre a perda de massa muscular esquelé-


tica e a força dos músculos esqueléticos.

• Sistema efetor: constituído pela força e pelo tônus muscular; pela


amplitude de movimento das articulações; pela flexibilidade e pelo
alinhamento biomecânico.

56 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 4
1. A pode ser definida como uma das
e é caracterizada pela redução ou in-
terrupção da ação de movimentação ou deslocamento do
idoso. As lacunas se referem respectivamente a:
a) Inconstância – síndromes geriátricas.
b) Instabilidade – prevenções quaternárias.
c) Imobilidade – síndromes geriátricas.
d) Instabilidade – síndromes geriátricas.
e) Imobilidade – prevenções quaternárias.
2. Dentre as opções abaixo, selecione a única que não pode
ser considerada como causa do imobilismo.
a) Sarcopenia.
b) Osteoporose.
c) Alzheimer avançado.
d) Parkinson avançado.
e) LPP.
3. Assinale a alternativa que contenha consequências rela-
cionadas à imobilidade.
a) Pneumonia, trombose, hemofilia, atrofia muscular e
isolamento social.
b) Pneumonia, trombose, embolia, atrofia muscular e iso-
lamento social.
c) Hipotireoidismo, trombose, embolia, hemofilia e isola-
mento social.
d) Pneumonia, trombose, embolia, atrofia muscular e
hipotireoidismo.
e) Anemia falciforme, embolia, hipertrofia muscular e
hipotireoidismo.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)57


Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de


Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da
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CAZEIRO, A. P. N.; PERES, P. T. A terapia ocupacional na prevenção e no tratamen-


to de complicações decorrentes da imobilização no leito. Cadernos de Terapia
Ocupacional da UFSCAR, São Carlos, v. 18, n. 2, p. 149-167, 2010.

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pacientes acometidos por acidente vascular encefálico. Rev Esc Enferm USP, v. 44, n.
3, p. 753-758, 2010.

MORAES, E. N.; Marino, M. C. A.; Santos, R. R. Principais síndromes geriátricas. Rev


Med Minas Gerais, v. 20, n. 1, p. 54-66, 2010.

RIBEIRO, C. A. et al. Frequência da síndrome de imobilidade em uma enfermaria de


geriatria. Geriatria e Gerontologia. v. 5, n. 3. p. 136-139, 2011.

Gabarito – Tema 04

Questão 1 – Resposta: C

A imobilidade pode ser definida como uma das síndromes geriátri-


cas e é caracterizada pela redução ou interrupção da ação de movi-
mentação ou deslocamento do idoso

Questão 2 – Resposta: E

O imobilismo pode ser causado por: sarcopenia, osteoporose e ou-


tras doenças do sistema musculoesquelético; Alzheimer e Parkinson
avançado, assim como outras doenças neurodegenerativas. Porém,
as lesões por pressão (LPPs) são consideradas consequências e não
causas de imobilidade.

58 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Questão 3 – Resposta: B

São consequências relacionadas à imobilidade: pneumonia, trombo-


se, embolia, atrofia muscular e isolamento social, ou seja, letra B. As
demais alternativas estão incorretas porque a hemofilia se trata de
uma doença recessiva ligada ao cromossomo X, não sendo ocasio-
nada por imobilidade, e o hipotireoidismo porque está relacionado a
doenças autoimunes ou outras disfunções endócrinas que não têm
relação com a imobilidade.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)59


TEMA 05
INSUFICIÊNCIA CEREBRAL

Objetivos

• Apresentar bases conceituais relacionadas ao enve-


lhecimento cerebral.

• Conhecer o conceito, a etiologia e os principais sin-


tomas relacionados às demências, à depressão e ao
delirium.

• Diferenciar sintomas relacionados à demência e à


depressão.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)60


Introdução

Sabe-se que nem todo idoso desenvolve, obrigatoriamente, uma ou mais


doenças crônico-degenerativas. Existem evidências de que o processo de
envelhecimento ocorre de forma diferente para cada indivíduo, depen-
dendo de sua programação genética e de seus hábitos diários.

Assim, as alterações fisiológicas ou patológicas ocorrem paulatinamente


aos níveis celular e molecular, em diferentes intensidades, gerando me-
nor ou maior sobrecarga dos mecanismos de controle homeostáticos e
mudanças na capacidade funcional de cada idoso.

Neurônios, astrócitos e oligodendrócitos são células nervosas que estão


sujeitas a sofrer danos no decorrer do processo do envelhecimento ce-
rebral por meio de fatores intrínsecos e extrínsecos que, muitas vezes,
exercerão ações deletérias com o decorrer do tempo. Um dos fatores que
mais geram preocupação em relação aos danos gerados ao sistema ner-
voso central (SNC) se deve ao fato de este ser formado, em sua maioria,
por células com baixa ou nenhuma capacidade de reprodutibilidade e
regeneração.

Salienta-se, ainda, que o SNC é o sistema biológico que, quando sofre al-
terações, mais compromete outros sistemas, visto que age, direta ou indi-
retamente, em diversas funções, tais como: exercer comando ao sistema
periférico para levar o alimento à boca, deambular, mover-se, controlar
os esfíncteres, além de ser responsável pela fala, audição, visão e pelo
comportamento social.

1. Envelhecimento cerebral

Muitas vezes, o esquecimento acaba por ser considerado como caracterís-


tica comum aos idosos, entretanto, é importante ressaltar que nem toda
amnésia é “normal”, independentemente da faixa etária.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)61


A perda de memória pode estar relacionada a diversos fatores, como hi-
povitaminoses, distúrbios da tireoide, estresse, traumatismos, isquemia
cerebral e outros.

O idoso, principalmente o longevo, pode apresentar declínio de memória


em que, por meio de exames, é possível verificar atrofia ou áreas de infar-
to na massa encefálica. Outros achados relacionados a distúrbios de me-
mória podem ser verificados na doença de Alzheimer (DA), em que ocorre
acúmulo de proteínas alteradas.

O acúmulo de neurônios com alterações em seu DNA, aumento na quan-


tidade de proteínas malformadas, alterações na homeostase por déficit
nos processos apoptóticos e, por fim, aumento nos processos inflamató-
rios (seja por isquemia, como, por exemplo, por AVE, tromboembolismo
ou traumas), que resultam em necrose do tecido neuronal, são processos
relacionados ao surgimento das principais doenças neurodegenerativas,
como demências, DA e doença de Parkinson (DP).

Cabe ressaltar ainda que, à medida que o ser humano envelhece, ocorre
redução de alguns mediadores químicos no SNC e a carência de alguns
destes tem sido relacionada a algumas doenças específicas, sendo o prin-
cipal exemplo a DP e a falta de dopamina.

PARA SABER MAIS


Para obter mais informações acerca da doença de Parkinson,
consulte o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a
DP, segundo a Portaria SAS/MS n. 228, de 10 de maio de 2010
(republicada em 27 ago. 10). Disponível em: <http://portal
arquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2014/abril/02/pcdt-
doenca-parkinson-republicado-livro-2010.pdf>.
Acesso em: 1 jun. 2018.

62 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


2. Demências

O conceito de demência está relacionado a déficit cognitivo, muitas vezes


associados à perda de memória e dificuldades de compreensão; e sua
prevalência é maior em idosos acima de 70 anos.

Sabe-se que são diversas as etiologias que induzem demência, porém, en-
tre as mais frequentes, estão a DA, a demência por corpúsculos de Lewy
e aquelas geradas por distúrbios vasculares.

Os pacientes com demência podem, além dos prejuízos de memória,


apresentar sintomas psicológicos e comportamentais nas demências
(SPCD). Entre os sintomas psicológicos estão: apatia (que é o mais fre-
quente dentre todos os SPCD), delírios (sendo o delírio de perseguição
o mais comum), alucinações, depressão e ansiedade; entre os sintomas
comportamentais estão: agressividade física e verbal, condutas sexuais
inapropriadas e outros comportamentos sociais inadequados.

PARA SABER MAIS


Os idosos que possuem suspeita de demência como diag-
nóstico médico deverão ser submetidos a testes, como, por
exemplo, o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), que tem
sido o mais utilizado por profissionais da saúde. Para aces-
sá-lo, acesse o link disponível em: <http://aps.bvs.br/apps/
calculadoras/?page=11>. Acesso em: 2 jun. 2018.

2.1. Doença de Alzheimer

A DA, um dos maiores problemas de saúde pública, é a causa mais fre-


quente de demência no idoso e é responsável por ser a principal causa
de todas as demências. Geralmente prevalece em mulheres e em idosos
longevos, apresentando sintomas iniciais por volta dos 80 anos de idade.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)63


A DA é qualificada pela perda paulatina de funções cognitivas, sobretudo
da memória, relacionada a eventos autobiográficos – também denomina-
da memória episódica.

EXEMPLIFICANDO
Exemplo de memória autobiográfica ou episódica: no casa-
mento (evento) da filha Joana (de quem), que ocorreu na ca-
tedral da cidade de Vinhedo (local), no inverno do ano pas-
sado (julho 2017), estávamos todos muitos felizes (emoções
associadas).

Pode-se considerar ainda que os idosos que possuem DA, incialmente


apresentam perdas pontuais na memória e algumas alterações de perso-
nalidade; em um estágio mais avançado, podem apresentar dificuldade
para desenvolver atividades da vida diária, além de disartria, ataxia e insô-
nia; já em estágios mais avançados, podem apresentar inapetência, afagia
e disfagia, com aumento para risco de desnutrição, incontinência urinária
e fecal e imobilidade, com aumento do risco para broncoaspiração, pneu-
monias de repetição, lesões por pressão e infecções.

2.2. Demência por corpúsculos de Lewy

A demência por corpúsculo de Lewy (DCL) pode ser considerada uma das
maiores causas de demência em idosos, juntamente com DA e demências
por causas vasculares.

Dentre os sintomas mais frequentes desse tipo de demência, podem-se


citar: demência progressiva, bradicinesia e instabilidade postural com pre-
sença de quedas, redução na mobilidade e lesões por pressão, períodos
de confusão mental e alucinações (que melhoram com tratamentos rela-
cionados a acetilcolina, atividade colinérgica). Além disso, muitas vezes,
envolve ainda inapetência e incontinência urinária e fecal.

64 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


2.3. Demência vascular

As doenças cerebrovasculares podem ser causadas por diversas etiolo-


gias, como AVE, aterosclerose, entre outras, que levarão à isquemia e aos
infartos cerebrais ou mesmo doenças degenerativas que culminam em
atrofia cortical, sendo as demências cerebrais uma das principais respon-
sáveis pelo desenvolvimento das demências, e muitas vezes esta não se
dá isoladamente, mas sim concomitantemente com a DA.
Geralmente, afeta mais os idosos jovens e é mais prevalente no sexo mas-
culino e acompanhado por depressão, enquanto que na DA a prevalência é
maior em mulheres e em idosos longevos e a depressão não é tão frequente.
Inicialmente, verificam-se no idosos com demência vascular, déficit de
memória e dificuldades para aprendizagem, enquanto que nos estágios
mais avançados pode ocorrer irritabilidade, agressividade, distúrbios do
sono, delírios, alucinações e déficit no autocuidado.

3. Depressão

Sabe-se que a depressão não é momentânea como a tristeza, podendo se


estender por meses ou anos e em diferentes graus, sendo considerada a
doença psiquiátrica mais comum que leva ao suicídio e sendo os idosos
aqueles que se suicidam mais frequentemente.
Pode-se afirmar que a perda da autossuficiência e o declínio cognitivo
são alguns dos principais fatores causadores de depressão em idosos,
além disso, disfunções, luto, incapacidades, doenças cerebrovasculares e
fatores hereditários são outros fatores que contribuem para o desenvol-
vimento de depressão em idosos.
Adicionalmente, em relação à patogênese da depressão, cabe ressaltar
que, com o envelhecimento, podem ocorrer alterações significativas na
receptação de serotonina e outros neurotransmissores, seja pela redução
na sensibilidade dos neurorreceptores, seja pela redução no número de
neurotransmissores.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)65


LINK
De acordo com o Ministério da Saúde (2007), o profissional
de saúde deve estar atento para alguns sinais e sintomas su-
gestivos de depressão, principalmente porque ela é a doen-
ça psiquiátrica que mais comumente leva ao suicídio, sendo
os idosos os indivíduos que se suicidam com maior frequên-
cia. Os sinais e sintomas estão na página 104, disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/abcad19.pdf>.
Acesso em: 2 jun. 2018.

A depressão pode ser dividida em subtipos baseados em sua sintomato-


logia: a depressão vascular é caracterizada principalmente pela apatia,
prejuízo na fala e psicomotor, além de sentimento de culpa; já a depres-
são psicótica é sobretudo associada a alucinações ou delírio, além de
autoinjúria; e a depressão melancólica possui despertar precoce, porém
com piora do humor pela manhã, inapetência, perda de peso, sentimento
de culpa excessivo, incapacidade de reagir a estímulos positivos e ainda
retardo ou agitação psicomotora.
Percebem-se similaridades entre alguns sintomas presentes nas demên-
cias e nos quadros depressivos, portanto, é de extrema relevância que se
caracterizem diferenciações clinicas entre estas:
Tabela 1 – Tabela comparativa sobre características diferenciais
entre depressão e demência
CARACTERÍSTICAS DEPRESSÃO DEMÊNCIA
Refere histórico de antecedentes pessoais X
Queixa de perda cognitiva X
Queixa de inapetência ou polifagia X
Não sabe se localizar ou se perde mesmo em lugares
X
conhecidos
Dificuldade para adquirir novas informações X
Percepção sobre suas restrições X
Fonte: adaptação do texto de FRANK, M. H.; RODRIGUES, N. L. Depressão, ansiedade, outros distúrbios afetivos e suicídio. In:
FREITAS, E. V. et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, p. 376 a 387.

66 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


4. Delirium

O delirium também tem sido denominado, na literatura, como “síndro-


me confusional aguda” e pode ser conceituado como uma síndrome que
apresenta alterações cognitivas, psicomotoras, de sono e vigília, além de
redução na capacidade de concentração e de manutenção do equilíbrio
emocional, não sendo precedida por demências.
Acredita-se que algumas condições específicas no envelhecimento do SNC
podem estar relacionadas ao surgimento de delirium, dentre estas, citam-
se: mudanças na síntese e liberação de neurotransmissores, redução na
ativação da acetilcolina e aumento dopaminérgico, além de aumento de
citocinas inflamatórias, entre outras.
Sabe-se que o delirium tem início súbito e pode ser causado por condi-
ções clinicas (como, por exemplo, devido a distúrbios metabólicos, infec-
ções, carência nutricional e distúrbios no SNC); por fármacos ou outras
substâncias (como álcool, benzodiazepínicos ou anticolinérgicos); poden-
do ainda ser causado por mais de um fator ao mesmo tempo.

ASSIMILE
O envelhecimento cerebral pode levar à insuficiência cerebral,
provocando danos não só ao SNC, mas comprometendo diver-
sos outros sistemas. Como observado na Leitura Fundamental,
as doenças relacionadas à insuficiência cerebral podem gerar:
alterações cognitivas, psicomotoras, de sono e vigília, redução
na capacidade de concentração, instabilidade emocional, apa-
tia, prejuízo na fala e psicomotor, alucinações, delírio, inape-
tência, perda de peso, sentimento de culpa excessivo, e ainda
retardo ou agitação psicomotora, bradicinesia e instabilidade
postural, redução na mobilidade e lesões por pressão, inconti-
nência urinária e fecal e déficit no autocuidado.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)67


QUESTÃO PARA REFLEXÃO
Você trabalha em uma instituição geriátrica na qual não é possível
realizar exames laboratoriais ou radiológicos e nela tem um idoso de
80 anos com perda de peso, redução da memória e apatia. Você irá
encaminhá-lo para um colega geriatra que trabalha em um hospital
que dispõe dos aparatos necessários para diagnóstico e tratamen-
to adequado, porém, esse médico, sabendo que você conhece o pa-
ciente, questiona se há alguma hipótese diagnóstica. Conhecendo o
paciente, sua história e o desenvolvimento de seus sinais e sintomas,
quais ferramentas você utilizaria para construir possíveis hipóteses?

5. Considerações Finais

• A perda de memória pode estar relacionada a diversos fatores, como


hipovitaminoses e isquemia cerebral.
• O acúmulo de neurônios alterados, aumento na quantidade de pro-
teínas malformadas, falha nos processos apoptóticos e necrose do
tecido neuronal são processos relacionados ao surgimento das prin-
cipais doenças neurodegenerativas.
• A DA é considerada a principal causa de demências e geralmente
prevalece em mulheres e em idosos longevos.
• Depressão pode atingir diferentes graus e é considerada a doença
psiquiátrica mais comum que leva ao suicídio.

Glossário

• Afagia: incapacidade de deglutir.

• Disfagia: dificuldade para deglutir.

• Ataxia: perda da coordenação motora.

• Disartria: dificuldade para articular palavras.

68 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 5
1. Complete as lacunas e marque a alternativa correta:
, e , são células ner-
vosas que estão sujeitas a sofrer danos no decorrer do
processo do envelhecimento cerebral por meio de fato-
res intrínsecos e extrínsecos que, muitas vezes, exercerão
ações deletérias com o decorrer do tempo. As lacunas se
referem respectivamente a:

a) Neurônios, axônios e bainha de mielina.


b) Neurônios, astrócitos e células ovais.
c) Neurônios, axônios e oligodendrócitos.
d) Neurônios, axônios e eritrócitos.
e) Neurônios, astrócitos e oligodendrócitos.
2. Sobre insuficiência cerebral, as alternativas a seguir estão
corretas, exceto:
a) A perda de memória pode estar relacionada a diversos
fatores, como hipovitaminoses, distúrbios de tireoide,
estresse, traumatismos, isquemia cerebral e outros.
b) O acúmulo de neurônios alterados, aumento na quan-
tidade de proteínas malformadas, falha nos processos
apoptóticos e necrose do tecido neuronal são proces-
sos relacionados ao surgimento das principais doenças
neurodegenerativas.
c) A DA é considerada a principal causa de demências e ge-
ralmente prevalece em mulheres e em idosos longevos.
d) Depressão pode atingir diferentes graus e é conside-
rada a doença psiquiátrica mais comum que leva ao
suicídio.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)69


e) O delirium é um transtorno que se dá de forma paula-
tina, atingindo o SNC aos poucos e progressivamente.
Ele pode ser causado por condições clinicas, por fárma-
cos ou outras substâncias, podendo ainda ser causado
por mais de um fator ao mesmo tempo.
3. Qual alternativa apresenta apenas sintomas relacionados
ao delirium?
a) Apatia constante, alterações psicomotoras, de sono e
vigília, além de redução na capacidade de concentra-
ção e de manutenção do equilíbrio emocional.
b) Alterações cognitivas, psicomotoras, de sono e vigília,
além de redução na capacidade de concentração e de
manutenção do equilíbrio emocional.
c) Alterações cognitivas, psicomotoras, de sono e vigília,
inapetência ou polifagia e redução de manutenção do
equilíbrio emocional.
d) Apatia constante, incontinências, alterações de sono e
vigília, além de redução na capacidade de concentra-
ção e de manutenção do equilíbrio emocional.
e) Alterações cognitivas, de sono e vigília, incontinências,
inapetência ou polifagia e redução de manutenção do
equilíbrio emocional.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de


Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. 1. ed. Série A. Normas e
Manuais Técnicos – Cadernos de Atenção Básica, n. 19, Brasília, DF, 2007.
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70 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


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FRANK, M. H.; RODRIGUES, N. L. Depressão, ansiedade, outros distúrbios afetivos e
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Gabarito – Tema 05

Questão 1 – Resposta: E

Neurônios, astrócitos e oligodendrócitos, são células nervosas que


estão sujeitas a sofrer danos no decorrer do processo do envelhe-
cimento cerebral por meio de fatores intrínsecos e extrínsecos que,
muitas vezes, exercerão ações deletérias com o decorrer do tempo.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)71


Questão 2 – Resposta: E

Sabe-se que o delirium tem início súbito, OU SEJA, rápido e inespera-


do. O restante da afirmativa está correto: pode ser causado por con-
dições clinicas, por fármacos ou outras substâncias, podendo ainda
ser causado por mais de um fator ao mesmo tempo.

Questão 3 – Resposta: B

Os sintomas relacionados ao delirium são: alterações cognitivas,


psicomotoras, de sono e vigília, além de redução na capacidade de
concentração e de manutenção do equilíbrio emocional. As demais
alternativas apresentam características relacionadas à depressão ou
à demência junto às do delirium.

72 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


TEMA 06
INCONTINÊNCIAS

Objetivos

• Apresentar a relação entre envelhecimento e


incontinências.

• Descrever sobre fundamentos relacionado à inconti-


nência urinária.

• Apresentar as principais causas e consequências da


incontinência fecal.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)73


Introdução

O processo de envelhecimento é uma condição natural do ciclo da vida,


porém continuamente, durante esse processo, ocorrem alterações em
células, órgãos e sistemas do organismo humano que podem culminar
em disfunções orgânicas.

Dentre essas disfunções comuns no processo de envelhecimento, porém


não restritas aos idosos, podem-se citar as incontinências urinária e fecal.
Elas são manifestadas pela incapacidade de segurar as eliminações fisio-
lógicas, sejam elas urinárias ou fecais, até chegar a um banheiro com ra-
pidez suficiente. Essas disfunções possuem múltiplas etiologias e podem
gerar impactos relevantes na qualidade de vida dessas pessoas.

A incontinência urinária atinge cerca de 10% da população geral, en-


quanto que a incontinência fecal atinge cerca de 2% da população em
geral, sendo os idosos a maioria desses indivíduos. Ressalta-se ainda
que a prevalência de incontinência urinária em idosos é cerca de duas
vezes maior nas mulheres quando comparada à prevalência em homens
(TAVARES et al., 2011).

Ressalta-se que os profissionais da saúde devem conhecer sobre inconti-


nências, sobretudo para que possam auxiliar os idosos e seus familiares
na prevenção e no tratamento adequado para essa síndrome geriátrica.

Em relação ao tratamento para as incontinências, pode-se verificar que al-


guns deles são comuns aos diferentes profissionais, como, por exemplo,
a terapia comportamental e os exercícios de Kegel.

Ressalta-se ainda que a incontinência urinária impacta a qualidade de


vida dos idosos, uma vez que traz implicações tanto relacionadas à saúde
diretamente como também de ordem física, social e psicológicas.

74 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


1. Incontinência urinária

Incontinência urinária pode ser entendida como a condição na qual ocor-


re a perda involuntária de urina e, quando crônica, pode ocorrer devido
a alterações no trato urinário inferior, como redução da contratilidade da
musculatura pélvica, sendo condição comum em idosos, mas que pode
ocorrer em qualquer faixa etária.

A incontinência urinária pode ser transitória ou crônica; quando transitó-


ria, pode estar relacionada à ansiedade ou a outros problemas de ordem
psicológica, uso de diuréticos, infecções no trato urinário e até mesmo
por constipação intestinal. Até mesmo a dificuldade de locomoção ou ins-
tabilidade postural podem dificultar a chegada do paciente ao banheiro.

A confusão mental e as demências podem estar relacionadas à incapaci-


dade de reconhecer a necessidade de urinar, culminando em incontinên-
cia urinária, porém a ansiedade gera esse distúrbio por outra razão e em
situações de estresse ocorre liberação de uma descarga de adrenalina
que acaba por estimular o sistema nervoso autônomo.

Outro hormônio relacionado à incontinência urinária é o estrógeno, vis-


to que no climatério ocorrem transformações no assoalho pélvico, como
atrofia do epitélio vaginal e vaginite atrófica por redução na produção e
liberação desse hormônio, com consequente aumento do risco para o de-
senvolvimento de incontinência urinária. Corroborando essa afirmação,
sabe-se que o uso do estrógeno tópico é um dos tratamentos para incon-
tinência em idosas. Já em relação aos homens idosos, a principal altera-
ção que correlaciona fator causal para incontinência urinária e envelheci-
mento é a hiperplasia prostática. Porém, em ambos os sexos, a principal
causa de incontinência urinária em pacientes idosos é a hiperatividade da
musculatura detrusora.

A hiperplasia prostática e o adenocarcinoma prostático também podem


ocasionar a incontinência urinária relacionada ao não esvaziamento vesical
completo por gerarem hipocontratilidade do músculo detrusor. Enquanto

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)75


que, em idosas, esse tipo de incontinência decorrente de hipocontratili-
dade do músculo detrusor é gerado por grandes prolapsos genitais ou
complicações nas cirurgias para correção da incontinência urinária.

Mas até mesmo a elevada ingestão líquida é capaz de acarretar hiperati-


vidade vesical com consequente perda urinária involuntária transitoria-
mente. Dessa forma, para evitar a noctúria e a enurese noturna, sugere-se
reduzir a ingestão do volume de líquidos à noite, além de outras terapias.

Existe ainda a incontinência urinária por esforço; esta ocorre porque a


pressão na bexiga supera a pressão no nível esfincteriano associada ou
não à hipermotilidade do colo vesical decorrente do enfraquecimento do
assoalho pélvico e pode ocorrer quando o idoso pega peso ou mesmo
quando ri ou tosse.

Podem-se citar dentre os impactos relacionados à incontinência urinária:


tendência de redução na participação de atividades sociais, como festas
ou prática de esportes por receio de se urinar, redução da libido por ne-
cessidade de utilizar absorventes ou fraldas geriátricas ou por receio de
micção na presença do parceiro, diminuição da autoestima e depressão,
distúrbios de sono por noctúria, além de custos com os tratamentos.

Os profissionais de saúde devem auxiliar os idosos que possuem transitó-


ria ou definitivamente incontinência urinária, reduzindo os sintomas e as
consequências desta. Para isso, sugere-se que os profissionais prestem
auxílio aos cuidados básicos de higiene; orientem quanto à existência e
realização de exercícios para melhorar o controle miccional; discorram
sobre a terapia medicamentosa e cirúrgica; ressaltem a relevância da te-
rapia comportamental e, se o profissional for enfermeiro, deverá ainda
orientar sobre a utilização de cateteres internos e externos para manejar
a incontinência e todos os profissionais devem, ainda, estimular a prática
de atividade física e convívio social.

76 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


EXEMPLIFICANDO
Considera-se terapia comportamental aquela em que o pa-
ciente, após compreensão do impacto de seus hábitos de
vida para determinada doença, apresenta alteração em seu
comportamento ou mudanças em seu estilo de vida. No caso
das incontinências, seriam exemplos de terapia comporta-
mental: 1 – paciente com incontinência urinária substituir
refrigerantes por água, porque se trata de uma bebida que
pode irritar a bexiga, gerando maior incontinência urinária;
2 - paciente com intolerância a determinada proteína, como
glúten ou lactose (que muitas vezes geram incontinência fe-
cal), devem retirar esse alimento de sua dieta.

PARA SABER MAIS


Para saber mais sobre os efeitos de exercícios de conscien-
tização e de Kegel no tratamento da incontinência urinária,
sugere-se a leitura do artigo: SOUSA, J. G.; FERREIRA, V. R.;
DE OLIVEIRA, R. J.; CESTARI, C. E. In: GONÇALVES, J. et al.
Avaliação da força muscular do assoalho pélvico em idosas
com incontinência urinária. Fisioterapia em Movimento, v.
24, n. 1, 2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/fm/
v24n1/v24n1a05>. Acesso em: 16 jun. 2018.

PARA SABER MAIS


Para saberAmais:
Sociedade Brasileira
A Sociedade de Urologia
Brasileira disponibilizou
de Urologia guidelines
disponibilizou gui-
gratuitos
delines gratuitos paraprofissionais
para profissionaisda
da saúde.
saúde. Recomenda-se
Recomenda-sea aleitura
leitura
do linkpara
do link a seguir a seguir
que para
vocêque você
possa possa
saber saber
mais maisos
sobre sobre os exa-
exames para
mes para diagnósticos da incontinência urinária, assim como
diagnósticos da incontinência urinária, assim como formas de tratamen-
formas de tratamento. Disponível em: <http://portaldaurolo
to. Disponível em: <http://portaldaurologia.org.br/medicos/wp-content/
gia.org.br/medicos/wp-content/uploads/2017/06/223.pdf>.
uploads/2017/06/223.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2018.
Acesso em: 15 jun. 2018.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)77


2. Incontinência fecal

A incontinência fecal é a perda involuntária de gases intestinais ou fezes,


pelo ânus, independente da consistência. Trata-se de uma condição clíni-
ca que acaba por ocasionar um problema social e, por vezes, é causa de
institucionalização dos idosos.
A incontinência fecal pode ser classificada como sensorial (imperceptível)
ou motora (o indivíduo tem a percepção do desejo de evacuar, mas não
consegue impedir a perda). O mecanismo da continência anal depende
da ação integrada da musculatura esfincteriana anal e dos músculos do
assoalho pélvico, da presença do reflexo inibitório reto-anal, da capaci-
dade, sensibilidade e complacência retal, da consistência das fezes e do
tempo de trânsito intestinal.
Muitos fatores contribuem para a contenção das fezes a nível colorretal,
tais como: o ângulo formado entre o reto e o ânus, a complacência retal,
a consistência fecal e, principalmente, a contração tônica e voluntária da
musculatura esfincteriana.
Os músculos do diafragma pélvico ajudam a regular o processo de defe-
cação e a manter a continência, que é mantida parcialmente sob controle
voluntário por ação de músculos estriados do esfíncter anal externo e do
sistema nervoso autonômico pelo músculo liso do esfíncter anal interno.
Geralmente, a principal causa para incontinência fecal se dá por alguma
lesão, podendo ser ocasionada por iatrogenia nos esfíncteres anais que
ocorrem durante operações anorretais, tais como correção de fístula anal
ou hemorroidectomia, por lesões do nervo pudendo ou do esfíncter anal
por trauma obstétrico, sendo que pode ocorrer ruptura de esfíncter – par-
cial ou completa, durante o parto vaginal e, mais raramente, por causas
neurogênicas, como sequela de mielomeningocele ou agenesia anorretal.
Há situações em que a perda de fezes não é devida a déficit relacionado à
inervação do assoalho pélvico, como no caso da diarreia paradoxal – tam-
bém denominada impactação fecal. Nessa situação, as fezes se tornam

78 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


endurecidas e ressecadas no interior do reto e do colón, o que leva à dila-
tação reflexa crônica do ânus, que permite a evacuação involuntária de fe-
zes líquidas que ultrapassam as fezes endurecidas (fecaloma) e permeiam
o ânus. Algumas doenças orificiais, como as hemorroidas, a fístula anal e a
fissura anal crônica, podem levar à perda de muco ou pus pelo ânus.
Feito o diagnóstico da causa principal da incontinência fecal, várias op-
ções terapêuticas estão disponíveis, como: tratamento clínico, tratamento
não cirúrgico por biofeedback e o tratamento cirúrgico propriamente dito.
Na medida em que o tratamento cirúrgico da incontinência fecal está re-
servado aos pacientes com evidente fissura esfincteriana e incontinência
fecal grave, significativa parcela dos pacientes com incontinência fecal ex-
perimenta melhora sintomática com modificação dietética, agentes cons-
tipantes e exercícios pélvicos.
Em relação ao tratamento clínico, é possível ressaltar que o mesmo não
traz a cura da incontinência fecal, mas leva ao alívio sintomático. Em adi-
ção à orientação dietética (evitar refeições volumosas, ricas em gordura
ou excessivamente ricas em fibras), o tratamento farmacológico pode in-
cluir o uso de antiperistálticos, como a loperamida.
A realização de exercícios de contração voluntária da musculatura anal
em uma ou mais sessões objetiva a hipertrofia do esfíncter externo do
ânus e da musculatura do assoalho pélvico. Esses exercícios devem ser
encorajados e a melhora dos episódios de perda fecal é frequentemente
verificada. O emprego de enemas evacuatórios ou lavagens intestinais é
paliativo e pode ser orientado a pacientes que possam utilizá-los em situ-
ações em que o risco de perda fecal está aumentado, como, por exemplo,
em viagens ou eventos sociais.
O tratamento por biofeedback objetiva incrementar a percepção da dis-
tensão retal e otimizar a capacidade de contração dos esfíncteres anais
em resposta a essa distensão, bem como em resposta à vontade do in-
divíduo. Trata-se de uma espécie de exercício em que o médico estimula
com eletrodos o esfíncter anal e ao mesmo tempo monitora a contração
do esfíncter anal quando estimulado.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)79


Da mesma forma, proporciona coordenação entre a distensão de um ba-
lão no reto (que simula a presença de conteúdo fecal) e a resposta cons-
ciente de contração anal confirmada pela impressão visual. São geralmen-
te empregadas algumas sessões semanais e a principal desvantagem do
método é a necessidade de o paciente contar com algum grau de coope-
ração e cognição.

Além disso, existem várias técnicas cirúrgicas empregadas na correção da


incontinência fecal. Ainda que a minoria dos pacientes com incontinência
fecal tenha indicação de tratamento cirúrgico, as cirurgias, quando bem
indicadas, resultam em significativa melhora da continência anal.

LINK
Em 2013, o Ministério da Saúde divulgou a RN Nº 325. Por meio
deste documento, ficou regulamentado o fornecimento de
bolsas de colostomia, ileostomia e urostomia e o provimento
de sonda vesical de demora e coletor urinário. Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/ans/2013/res
0325_18_04_2013.html>. Acesso em: 14 jun. 2018.

ASSIMILE
A realização de exercícios para região pélvica faz parte do tra-
tamento tanto de incontinência urinária quanto incontinên-
cia fecal e observa-se também que a terapia comportamental
pode auxiliar no tratamento, porém, geralmente, é mais efi-
ciente na incontinência urinaria porque a fecal, comumente,
é gerada por traumas na região.

80 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


QUESTÃO PARA REFLEXÃO
A família de uma senhora idosa o procura para saber quais os moti-
vos de sua familiar ter desenvolvido incontinência urinária nesta eta-
pa da vida dela e se existem apenas formas invasivas para tratamen-
to ou não. Quais seriam suas explicações e orientações?

3. Considerações Finais

• Incontinências podem ser entendidas como a condição na qual


ocorre a perda involuntária de eliminações fisiológicas, seja urina
ou fezes.

• Até mesmo a elevada ingestão de líquidos é capaz de acarretar


hiperatividade vesical com consequente perda urinária involuntária
transitoriamente.

• Geralmente, a principal causa para incontinência fecal se dá por


alguma lesão do nervo pudendo ou do esfíncter anal.

• O emprego de enemas evacuatórios ou lavagens intestinais é palia-


tivo e pode ser orientado a pacientes que possam utilizá-los em
situações em que o risco de perda fecal está aumentado, como, por
exemplo, em viagens ou eventos sociais.

Glossário

• Noctúria: micção noturna.

• Climatério: período do ciclo de vida da mulher após a menopausa.

• Enurese noturna: micção urinária involuntária durante o sono.

• Biofeedback: tratamento que objetiva o indivíduo desenvolver a


autorregulação de diferentes funções do seu corpo.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)81


VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 6
1. A situação em que as fezes se tornam endurecidas e res-
secadas no interior do reto e do colón até gerar dilatação
reflexa crônica do ânus, permitindo a evacuação involun-
tária de fezes líquidas que ultrapassam o fecaloma e per-
meiam o ânus, é denominada:
a) Diarreia explosiva.
b) Diarreia reflexa.
c) Impactação crônica.
d) Impactação aguda.
e) Impactação fecal.
2. Complete as lacunas e marque a alternativa correta:
A eo também
podem ocasionar a incontinência urinária relacionada ao
não esvaziamento vesical completo por gerarem hipocon-
tratilidade do músculo detrusor.
Assinale a afirmativa que completa corretamente as lacu-
nas na frase anterior:
a) Hipertrofia prostática – adenomioma prostático.
b) Hiperplasia prostática – adenocarcinoma prostático.
c) Hipertrofia prostática – adenocarcinoma prostático.
d) Hiperplasia prostática – adenomioma prostático.
e) Uretra prostática – adenocarcinoma prostático.
3. Analise as asserções dispostas a seguir e a relação entre
elas proposta:
I. Geralmente, a principal causa para incontinência fecal
se dá por alguma lesão, podendo ser ocasionada por
iatrogenia nos esfíncteres anais que ocorrem durante
operações anorretais.

82 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


PORTANTO
II. O paciente com incontinência fecal deverá ser submeti-
do à cirurgia – mais indicada como única forma de tra-
tamento eficaz.
a) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma
proposição falsa.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é
consequência da I.
c) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II
não é uma consequência da I.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma propo-
sição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, J. M. M. Avaliação da qualidade de vida e das estratégias de enfren-


tamento em idosos com incontinência fecal. Dissertação (Mestrado em Ciências
da Reabilitação). Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação da Escola
de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de
Minas Gerais, UFMG. Belo Horizonte, p. 115, 2006.
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Básica. Cadernos de Atenção Básica: envelhecimento e saúde da pessoa idosa. In:
Normas e Manuais Técnicos. Série A. n. 19, 192 p. Brasília, 2007.
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de 18 de abril de 2013, p. 1-3, 2013. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/
saudelegis/ans/2013/res0325_18_04_2013.html>. Acesso em: 14 jun. 2018.
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da incontinência urinária senil. Rev. Pulsar, v. 2, n. 3, 2010.
DE SOUSA, J. G.; FERREIRA, V. R.; DE OLIVEIRA, R. J.; CESTARI, C. Avaliação da força
muscular do assoalho pélvico em idosas com incontinência urinária. Fisioter Mov,
v. 24, n. 1, p. 39-46, 2011.

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GUEDES, J. M.; SEBBEN, V. Incontinência urinária no idoso: abordagem fisioterapêuti-
ca. RBCEH, p.105-113, 2006.

HONÓRIO, M.O.; SANTOS, S.M.A. A rede de apoio ao paciente incontinente: a busca


por suporte e tratamentos. Rev. Enferm. UERJ, v. 18, n. 3, p. 383-388, 2010.

. Incontinência urinária e envelhecimento: impacto no cotidiano e na qualidade


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em: 15 jun. 2018.

VIEGAS, K. et al.; CREUTZBERG, M. Qualidade de vida de idosos com incontinência


urinária. Rev. Cienc. & Saúde, v. 2, n. 2, p. 50-57, 2009.

Gabarito – Tema 06
Questão 1 – Resposta: E

A impactação fecal é a situação em que as fezes se tornam endure-


cidas e ressecadas no interior do reto e do colón até gerar dilatação
reflexa crônica do ânus, permitindo a evacuação involuntária de fe-
zes líquidas que ultrapassam o fecaloma e permeiam o ânus.

84 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Questão 2 – Resposta: B

A hiperplasia prostática e o adenocarcinoma prostático também po-


dem ocasionar a incontinência urinária relacionada ao não esvazia-
mento vesical completo por gerarem hipocontratilidade do músculo
detrusor.

Questão 3 – Resposta: A

A asserção I é verdadeira, porém a asserção II é falsa porque, feito o


diagnóstico da causa principal da incontinência fecal, várias opções
terapêuticas estão disponíveis, como: tratamento clínico, tratamen-
to não cirúrgico por biofeedback e o tratamento cirúrgico propria-
mente dito.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)85


TEMA 07
SINAIS E SINTOMAS DO
ENVELHECIMENTO

Objetivos

• Expor os principais sinais e sintomas de cada sistema


relacionados ao envelhecimento.

• Citar a relevância da atividade física para minimizar ou


retardar os sinais e sintomas do envelhecimento.

• Citar os fatores de risco para institucionalização do


idoso.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)86


Introdução

Sabe-se que o envelhecimento populacional é uma realidade mundial e


que é um processo ainda em progresso nos países em desenvolvimen-
to. Por esse motivo, deve-se conhecer a realidade dos processos físicos,
psíquicos e sociais que permeiam a senescência, a fim de desenvolver
estratégias de cuidados, tratamentos e políticas adequadas para essa
população.

Apesar de muitas doenças e agravos estarem relacionados à senilidade


e não à senescência, entende-se que alterações nas funções dos órgãos,
tecidos e sistemas são esperadas durante o processo de envelhecimento,
sendo que fatores genéticos, hábitos alimentares e o sedentarismo podem
influenciar na velocidade e no grau dessas mudanças físicas e psíquicas.

Podem-se citar diversas mudanças, como redução dos neurônios e da ve-


locidade dos impulsos nervosos no sistema nervoso, alterações cardio-
vasculares que favorecem a ocorrência de acidente vascular encefálico
(AVE) e infarto do miocárdio, alterações que culminam em redução da
capacidade respiratória, entre outros.

Geralmente, espera-se que, com o aumento de doenças e agravos decor-


rentes da senilidade, essas sejam acompanhadas por sequelas que inter-
ferem no desempenho das atividades diárias e do autocuidado. Ou seja,
parte significante da população idosa, principalmente aquela acima de 80
anos, torna-se dependente de cuidados e, muitas vezes, com as dificulda-
des encontradas pelas famílias para prestarem cuidados integrais ou ar-
carem com os gastos de um cuidador para este idoso, acabam por levá-lo
para residir em instituições de longa permanência (ILP).

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)87


1. Envelhecimento dos sistemas

1.1. Sistema nervoso

É inerente à senescência algumas modificações no sistema nervoso, como


diminuição da velocidade de condução dos impulsos nervosos e até mes-
mo da síntese de neurotransmissores. Esses achados podem estar rela-
cionados com o fato de que, com o envelhecimento, se reduz o processo
de apoptose e aumenta o número de proteínas com funções alteradas e
de células com alterações em seu DNA, com consequente déficit na fun-
ção das células nervosas e das neuroglias.

Podem-se verificar, como sinais do envelhecimento do sistema nervoso


central, a redução do peso do encéfalo em até 80% do total do peso deste,
na fase adulta, e a redução do volume cortical devido à atrofia dessa re-
gião. Em relação aos achados histopatológicos, pode-se verificar a presen-
ça de: placas amiloides, lipofucsina e depósito de substâncias anômalas.
Além disso, é possível observar ainda, como fatores relacionados ao enve-
lhecimento do SNC: redução do RNA citoplasmático e contração do corpo
celular dos neurônios e decomposição da bainha de mielina, com conse-
quente redução da velocidade dos impulsos nervosos.
Entretanto, acredita-se que idosos que praticam atividades físicas aeróbi-
cas estão menos propensos a apresentarem esses desgastes, pois a ati-
vidade física aeróbica promove vasodilatação no SNC com aumento do
fornecimento de glicose e oxigênio, melhorando o funcionamento neural
e a capacidade cognitiva.

1.2. Sistema cardiovascular

As alterações no sistema cardiovascular são as principais responsáveis


pelas causas de morbimortalidade em idosos, sendo os principais fatores
de risco para ocorrência dessas alterações: hipertensão arterial, dislipide-
mia, diabetes mellitus, tabagismo, obesidade e sedentarismo.

88 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Com o envelhecimento concomitante aos fatores mencionados acima, os
idosos estarão sujeitos ao desenvolvimento de aterosclerose (“formação
de placas”), arteriosclerose (“endurecimento”) e aumento do risco para
aneurismas, infarto e AVEs; hipertrofia das câmaras cardíacas com redu-
ção da capacidade de ejeção do débito cardíaco, podendo resultar tam-
bém em insuficiência cardíaca.

ASSIMILE
Dislipidemia corresponde ao aumento de gordura no sangue
e é um dos fatores que predispõe ao aparecimento de ateros-
clerose. Aterosclerose é um processo de inflamação da pare-
de das artérias causado pela formação de placas de gordura,
hipertensão, tabagismo, diabetes e outros fatores associados.

EXEMPLIFICANDO
Paciente T. M. S. foi ao médico e este disse que ela teria que
colocar um stent no coração porque estava com as “coronárias
entupidas”. Ou seja, após a realização do cateterismo, obser-
vou-se que uma das coronárias apresentava formação de pla-
ca aterosclerótica obstruindo 80% da luz do vaso e, visto que
as coronárias são artérias responsáveis pela vascularização do
miocárdio, a não implantação do stent estaria submetendo a
paciente a alta propensão para infarto do miocárdio.

PARA SABER MAIS


Sabe-se que doenças cardiovasculares (DCV) são as que aco-
metem frequentemente os idosos, sendo responsável pelo
maior índice de mortalidade e por um número significativo de
internações. No sentindo de tentar prevenir agravos maiores

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)89


e até mesmo reduzir custos, uma das estratégias para se veri-
ficar DCV ainda subclínica inclui medidas que verificam a rigi-
dez das artérias, como pode ser verificado no artigo a seguir.
ALVIM, R. O. et al. Arterial Stiffness: Pathophysiological and
Genetic Aspects.  International Journal of Cardiovascular
Sciences, v. 30, n. 5, p. 433-441, 2017. Disponível em: <http://
www.onlineijcs.org/sumario/30/pdf/v30n5a09.pdf>.
Acesso em: 20 jun. 2018.

1.3. Sistema respiratório

Sabe-se que sinais de envelhecimento do sistema respiratório envolvem


aumento do volume residual e diminuição dos valores espirométricos
que podem ser justificados pela diminuição da mobilidade da parede
torácica; mobilidade reduzida das costelas e calcificação das cartilagens
costais, alterando a expansibilidade e gerando ineficácia das trocas gaso-
sas; redução da força dos músculos respiratórios, incluindo o diafragma,
devido à sarcopenia, além de aumento da rigidez pulmonar, diminuindo
a capacidade pulmonar e a área de superfície dos alvéolos, dificultando
as trocas gasosas.

Adicionalmente, devido a problemas relacionados a outras síndromes,


como o imobilismo e a disfagia, por exemplo, outro problema respirató-
rio é a predisposição para pneumonias aspirativas e infecções do trato
respiratório.

Em contrapartida, a prática regular de atividade física, principalmente ae-


róbica, tem sido apontada como melhor alternativa para retardar a sar-
copenia e assim fortalecer a musculatura relacionada ao sistema respira-
tório, adiando ou até mesmo inibindo a perda progressiva da capacidade
de trocas gasosas.

90 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


1.4. Sistema gastrintestinal

Os principais fatores que podem estar relacionados a distúrbios no sistema


gastrintestinal e envelhecimento são: disfagia, desnutrição, constipação in-
testinal (CI) e alterações na capacidade de realizar a digestão dos alimentos.
Em relação à disfagia, podem-se citar como suas consequências a perda
de vontade de se alimentar, a desnutrição, a desidratação e as pneumo-
nias aspirativas, sendo indicado como forma de redução dos riscos de as-
piração e prevenção de desidratação a adição de espessante em líquidos
para ingesta via oral.
Com o envelhecimento, ocorrem alterações ao longo de todo o trato gastrin-
testinal que envolvem desde a redução de pepsina na boca e ácido clorídrico
no estômago até redução da capacidade de absorção intestinal, reduzindo a
absorção de nutrientes e vitaminas, como ferro, cálcio e vitamina B12.
Apesar de a disfagia muitas vezes estar relacionada ao risco de desnu-
trição, verifica-se que fatores como alterações no trato gastrintestinal,
imobilidade e dependência de terceiros, além de depressão, demências
e outros problemas psicológicos, são os que mais comumente estão rela-
cionados à desnutrição.
A CI frequente no processo de envelhecimento parece estar relacionada a
uma diminuição na capacidade de ação dos impulsos nervosos transmiti-
dos pelos neurônios mioentéricos que resultam em diminuição da frequ-
ência e amplitude do peristaltismo.

LINK
A MNA resumida pode ser aplicada por qualquer profissio-
nal de saúde, entretanto, a MNA completa deve ser aplica-
da por um profissional nutricionista (para os casos em que a
triagem recomende a continuidade do questionário, devido
à necessidade de avaliação nutricional – para escores < 11).
p.15. Disponível em: <https://sbgg.org.br/espaco-cuidador/
guias/>. Acesso em: 19 jun. 2018.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)91


1.5. Sistema geniturinário

Em relação às alterações do sistema urinário no envelhecimento, pode-se


citar a perda do tônus muscular dos ureteres, da bexiga e da uretra.

Sabe-se que a senilidade pode acarretar incontinência urinaria principal-


mente por distúrbios hormonais com consequente perda do tônus peri-
neal em mulheres e por hiperplasia prostática em homens.

Além disso, a capacidade de esvaziamento vesical no momento da micção


diminui e esse fator pode predispor o idoso a maiores riscos de infecção
no trato geniturinário.

Os rins manifestam o processo de envelhecimento por perda constante


de néfrons, redução da função dos túbulos renais com menor eficiência
na reabsorção e na concentração de urina, diminuição na taxa de filtração
glomerular (TFG).

1.6. Sistema sensorial

As principais alterações no sistema sensorial decorrentes do envelheci-


mento estão relacionadas. Em idosos, ocorre a redução das cristas ves-
tibulares, atrofia das células vestibulares e dos neurônios vestibulares,
além de alterações no córtex e cerebelo que resultam em instabilidade
postural.

As principais alterações oculares presentes em idosos são alterações no


cristalino, que se torna menos flexível e turvo, maior lentidão na adaptação
da pupila à luz do ambiente, catarata, glaucoma, além de retinopatia dia-
bética, e esses fatores acabam resultando em redução da acuidade visual.

Alterações do ouvido interno, aumento da sensibilidade do sistema au-


ditivo e vestibular e outros distúrbios auditivos, com o passar dos anos,
culminam num decréscimo de capacidade auditiva, presença de zumbido
e vertigens, e isolamento social, visto que a pessoa, por não ouvir o que
os demais dizem, acaba se isolando.

92 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


2. Fatores de risco para institucionalização do idoso

No Brasil, existem locais em que os idosos residem e recebem atenção


integral 24 horas por dia; esses locais, outrora denominados asilos, hoje
são conhecidos como instituições de longa permanência (ILPs), que po-
dem ser de caráter comunitário ou privado.
Diversos são os fatores de risco para institucionalização do idoso, tais como:
• idosos cujos entes familiares próximos faleceram;
• homens e mulheres cujos filhos residem em outras cidades;
• idosos que estiveram submetidos a maus-tratos por parte de
familiares;
• condições financeiras que não possibilitam o idoso ter residência
própria;
• idosos dependentes fisicamente (que não conseguem caminhar e/
ou subir escadas sem auxílio) e cuja família não consegue cuidar ou
não possui condições de arcar com pagamento para cuidadores ou
profissionais da área de enfermagem;
• idosos com demências ou outros distúrbios mentais cuja família não
sabe lidar e não quer ou não tem condições de pagar por cuidado-
res ou profissionais da área de enfermagem;
• idosos que necessitam de auxílio para o autocuidado e cuja família
não tem condições de cuidar.

PARA SABER MAIS


Para saber mais sobre as ILPs e sobre o perfil dos idosos
institucionalizados, recomenda-se a leitura de capítulo 20 de:
ALCÂNTARA, A. O.; CAMARANO, A. A.; GIACOMIN, K. C. Instituições
de longa permanência para idosos no Brasil: do que se está
falando. Política nacional do idoso: velhas e novas questões.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)93


Rio de Janeiro: Ipea, 2016. Disponível em: <http://www.ipea.
gov.br/agencia/images/stories/PDFs/livros/livros/161006_
livro_politica_nacional_idosos_capitulo20.pdf>.
Acesso em: 20 jun. 2018.

QUESTÃO PARA REFLEXÃO


Sabe-se que muitos idosos apresentam sequelas relacionadas a do-
enças ou agravos advindos da senilidade e que o número de ILPs não
é suficiente para a demanda de idosos que dependem de cuidados
integrais. Se você fosse convidado a criar estratégias para lidar com
essa situação, quais seriam suas propostas?

3. Considerações Finais

• Com o envelhecimento, podem-se citar mudanças fisiológicas em


todos os sistemas do organismo, como, por exemplo, redução dos
neurônios e da velocidade dos impulsos nervosos, alterações car-
diovasculares e alterações que culminam em redução da capacidade
respiratória, entre outros.

• Os rins manifestam, durante e após o processo de envelhecimento,


diminuição na taxa de filtração glomerular (TFG), porém não se pode
caracterizar esse fato isoladamente como doença renal crônica.

• Síndromes como o imobilismo e a disfagia predispõem o idoso a


risco para pneumonias aspirativas, sendo estas responsáveis por
cerca de 50% das mortes em idosos.

• Parte significante da população idosa, principalmente aquela depen-


dente de cuidados, acaba sendo levada pelos familiares ou por
opção própria a residir em instituições de longa permanência (ILPs).

94 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Glossário

• Sarcopenia: perda de massa e força muscular no envelhecimento.

• Neurônios mioentéricos: neurônios que integram o sistema


digestório.

• Néfrons: menor porção renal responsável por filtrar a urina.

VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 7
1. Assinale a alternativa que completa corretamente a sen-
tença a seguir.
Dentre os sinais do sistema de envelhecimento do sistema
respiratório, podem-se citar:
alterando a expansibilidade e gerando ineficácia das tro-
cas gasosas; redução da força dos músculos respiratórios,
incluindo o diafragma, devido à , além de au-
mento da rigidez pulmonar, diminuindo a capacidade pul-
monar e a área de superfície dos alvéolos, dificultando as
trocas gasosas.

a) Calcificação das cartilagens costais – sarcopenia.


b) Calcificação do esterno – hipoacusia.
c) Calcificação da traqueia – sarcopenia.
d) Calcificação das cartilagens costais – disfagia.
e) Calcificação da traqueia – dislalia.
2. O envelhecimento pode estar relacionado à diminuição na
capacidade de ação dos impulsos nervosos transmitidos
pelos neurônios mioentéricos. Essa alteração terá impacto
no sistema:

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)95


a) Nervoso.
b) Cardiovascular.
c) Gastrintestinal.
d) Geniturinário.
e) Sensorial.
3. As alternativas abaixo sobre institucionalização do idoso
são verdadeiras, exceto:
a) Idosos que não possuem parentes próximos.
b) Idosos que estiveram submetidos a maus-tratos por
parte de funcionários de uma ILP.
c) Condições financeiras que não possibilitam o idoso ter
residência própria.
d) Idosos dependentes fisicamente e cuja família não con-
segue cuidar ou não possui condições de arcar com pa-
gamento para cuidadores.
e) Idosos com demências ou outros distúrbios mentais
cuja família não sabe lidar e não quer ou não tem con-
dições de pagar por cuidadores ou profissionais da
área de enfermagem.

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Gabarito – Tema 07

Questão 1 – Resposta: A

Dentre os sinais do sistema de envelhecimento do sistema respirató-


rio, podem-se citar: calcificação das cartilagens costais alterando
a expansibilidade e gerando ineficácia das trocas gasosas; redução
da força dos músculos respiratórios, incluindo o diafragma, devido à
sarcopenia, além de aumento da rigidez pulmonar, diminuindo a ca-
pacidade pulmonar e a área de superfície dos alvéolos, dificultando
as trocas gasosas.

Questão 2 – Resposta: C

Sistema gastrintestinal, porque a diminuição na capacidade de ação


dos impulsos nervosos transmitidos pelos neurônios mioentéricos
resultam em diminuição da frequência e amplitude do peristaltismo
e, consequentemente, podem levar à CI.

Questão 3 – Resposta: B

Idosos que foram submetidos a maus-tratos por parte de familiares


tendem a procurar ou serem encaminhados para ILPs por parte de-
les mesmos, de assistentes sociais ou de outros membros da família.

98 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


TEMA 08
SÍNCOPE NO IDOSO

Objetivos

• Apresentar bases conceituais sobre síncope.

• Apontar a relação entre síncope e envelhecimento.

• Expor a fisiopatologia dos diferentes tipos de síncopes.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)99


Introdução

Devido a inúmeros processos patológicos relacionados à senilidade, o ido-


so acaba se tornando suscetível à ocorrência e recorrência de síncopes,
sendo este o problema de saúde mais prevalente em idosos.

A etiologia desse evento se dá por vários fatores – como as alterações car-


diológicas responsáveis por diminuição do débito cardíaco, causado por
bradicardias, arritmias e patologias cardíacas estruturais; resistência pe-
riférica insuficiente; retorno venoso inadequado, relacionado à perda de
complacência venosa e depleção de volume, em decorrência de fatores
metabólicos e anemias por perdas sanguíneas – alterações da estrutura
e da funcionalidade do sistema nervoso autônomo, com redução e déficit
na sensibilidade de barorreceptores; o uso de medicamentos e o repouso
prolongado e/ou imobilidade.

Esses mecanismos são responsáveis pela cessação súbita de fluxo sanguí-


neo cerebral, causando hipoperfusão dos tecidos neurológicos, que são
alimentados pela glicose e pelo oxigênio ofertados pelo sangue, ocasio-
nando a perda transitória da consciência e consequente flacidez de tônus
muscular, que caracteriza o evento da síncope.

A recorrência da síncope tem impacto negativo para a qualidade de vida


do idoso, tanto no aspecto físico como psicológico, afinal, a ocorrência
desse evento resulta em quedas e/ou perda do equilíbrio, que pode re-
sultar em lesões físicas com chances de sequelas, assim como a perda da
funcionalidade e o aumento do grau de dependência para o autocuidado
e atividades diárias geram sentimento de frustração nesta população.

1. Síncope

O termo síncope é utilizado para descrever o episódio em que o indivíduo


perde momentaneamente a consciência e a recupera em curto prazo de
maneira espontânea e natural, sem que haja intervenções de nenhum tipo.

100 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Cabe ressaltar que a síncope é resultado de hipoperfusão encefálica, que
pode ocorrer devido, principalmente, a distúrbios súbitos no débito car-
díaco (lembrando que o débito cardíaco é resultado do volume sistólico
pela frequência cardíaca) e na pressão arterial (hipotensão), e essa redu-
ção do fluxo sanguíneo reduz o aporte na região do tronco encefálico.

A hipoperfusão cerebral e em demais órgãos vitais pode ser consequên-


cia de hipotensão e, geralmente, está relacionada a sintomas de discretas
alterações visuais, vertigens, tonturas, fraqueza e até a síncope propria-
mente dita, a depender da intensidade da hipoperfusão.

Inúmeros são os fatores desencadeantes da hipotensão e consequente hi-


poperfusão cerebral, entre os quais, estresse ortostático, permanência pro-
longada em uma mesma posição, calor, aumento da pressão intratorácica
(seja por tosse, defecação ou micção), esforço físico e drogas vasoativas.

Adicionalmente, cabe ressaltar que as síncopes podem ser recorrentes e,


muitas vezes, estão associadas a traumas devido às quedas consequentes
do desmaio com risco de sequelas que, a depender da gravidade, podem
até mesmo culminar em óbito, além de ser responsável por um número
significativo de atendimentos e internações hospitalares.

Apesar de diversas etiologias e situações desencadearem síncopes,


as mais prevalentes podem ser divididas em quatro grandes grupos: I
– Situacionais (neuromediadas); II – Hipotensivas; III – Cardíacas; e IV –
Multifatorial (relacionadas a distúrbios neurológicos, endócrinos ou se-
rem de origem idiopática).

Adicionalmente, cabe ressaltar que a prevalência de síncopes é maior em


idosos, principalmente longevos, apesar de pessoas jovens também esta-
rem sujeitas à ocorrência de desmaios. As possíveis explicações para essa
prevalência ser maior nessa faixa etária podem estar relacionadas a fato-
res como as diversas comorbidades às quais a população geriátrica está
sujeita, ao grande número de medicamentos utilizados, à predisposição à
perda de volume e ao sedentarismo.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)101


Por fim, o doente geriátrico com esse tipo de síncope fica mais suscetível
à ocorrência de lesões cerebrais graves e permanentes no decorrer do
episódio.

PARA SABER MAIS


A síncope, muitas vezes, resulta em quedas e gera sequelas,
principalmente para os idosos. Para saber mais sobre ris-
cos de queda e formas de prevenção, acesse o Caderno de
Atenção à Saúde do Idoso – Instabilidade Postural e Queda.
Milton Menezes da Costa Neto (org.) Brasília: Ministério da
Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Departamento de
Atenção Básica, 1999. Disponível em: <http://www.saude.
sp.gov.br/resources/ses/perfil/profissional-da-saude/grupo-
tecnico-de-acoes-estrategicas-gtae/saude-da-pessoa-idosa/
oficina-de-prevencao-de-osteoporose-quedas-e-fraturas/
instabilidade_postural_e_quedas_em_pessoas_idosas.pdf>.
Acesso em: 28 jun. 2018.

1.1. Síncopes neuromediadas

Essa modalidade de síncope, mediada por emoções ou mudança ortostá-


tica, é comumente conhecida pelo termo síncope vasovagal e é também
denominada como síncope neurocardiogênica.

A síncope vasovagal tem sido considerada a causa mais comum de sínco-


pe em pessoas jovens, no entanto, a aterosclerose, medicações cardíacas
e sensibilidade alterada dos barorreceptores (que são responsáveis pela
detecção de variações bruscas da pressão arterial, permitindo a autorre-
gulação) torna os idosos mais suscetíveis à síncope vasovagal.

102 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Geralmente, esta vem precedida de alguns sintomas, tais como episódios
de êmese, suor frio e náuseas. Supõe-se que esses sintomas que prece-
dem a síncope, assim como esta propriamente dita, teriam seu start, ou
seja, um estímulo inicial por um descontrole da manutenção, a curto pra-
zo, dos níveis de pressão arterial devido à falha nos mecanismos compen-
satórios como barorreceptores que deveriam ser ativados em situações
de hipovolemia e hipotensão ortostática.

A síncope situacional também decorre de situações de extrema ansieda-


de ou quando se tem aumento de pressão interna na caixa torácica ou
redução do retorno venoso em situações semelhantes às obtidas com a
manobra de Valsava, ou seja, as de excreção de eliminações fisiológicas
(urinar ou defecar), espirro e tosse.

A hipersensibilidade do seio carotídeo é uma síndrome caracterizada


pela assistolia por tempo maior ou igual a três segundos ou a diminuição
da pressão sistólica em 50 mmHg ou mais, quando realizada massagem
compressiva na borda anterior do músculo esternocleidomastoideo, por
cerca de cinco segundos. Ressalta-se ainda que efeito semelhante pode
ser reproduzido quando por rotação abrupta da cabeça ou por uso de
roupas ou adornos apertados em torno do pescoço.

LINK
Sabe-se que o nível elevado de ansiedade pode estar rela-
cionado ao desencadeamento de síncope vasovagal. Ekinci
e colaboradores (2017) demonstraram que houve relação
entre ansiedade no período pré-operatório e sintomas vaso-
vagais. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rba/v67n4/
pt_0034-7094-rba-67-04-0388.pdf>. Acesso em: 30 jun. 2018.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)103


PARA SABER MAIS
O teste de inclinação passiva (tilt test) tem sido amplamente
utilizado para se fazer o diagnóstico da síncope vasovagal. A
permanência do paciente inclinado acaba por simular a hi-
potensão e bradicardia neuromediadas, dessa forma, testa a
predisposição à síncope vasovagal. Para saber mais sobre a
normatização dos equipamentos e as especificações técnicas
desse procedimento, consulte o link criado pela Sociedade
Brasileira De Cardiologia sobre tilt test. Disponível em: <http://
publicacoes.cardiol.br/consenso/2003/site/n15.pdf>.
Acesso em: 28 jun. 2018.

1.2. Síncopes hipotensivas

Esse tipo de síncope é caracterizado pela diminuição dos valores da pres-


são arterial sistólica e diastólica, de no mínimo 20 mmHg e 10 mmHg, res-
pectivamente, em intervalo de até três minutos, e esta hipotensão ocor-
re quando o indivíduo muda de decúbito dorsal, ventral ou lateral para
sentado ou quando está sentado e fica em pé. Esse fenômeno pode ser
explicado pela dificuldade do retorno venoso, característica comum e pre-
valente nos idosos, que causa o represamento de até um litro de sangue
nos membros inferiores.

Demais condições predispõem a população geriátrica à hipotensão, sen-


do elas: anemia (hemorragias), desidratação (vômitos, diarreia) anorexia,
comorbidades (decorrentes de doenças como Parkinson, demência, atro-
fia múltipla, diabetes, insuficiência renal e hepática), uso de alguns tipos
de medicamentos, como os diuréticos, anti-hipertensivos de ação central,
antiarrítmicos e fármacos psicoativos e prostração.

Outro fator desencadeador de síncope hipotensiva é o momento após as re-


feições, no qual a pressão arterial pós-prandial é menor, devido ao aumento

104 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


de fluxo sanguíneo desviado para a artéria esplênica e mesentérica somados
à maior produção de insulina plasmática, desencadeando assim a hipoten-
são. Não se sabe estimar ao certo a significância clínica da hipotensão pós-
-prandial, no entanto, tem sido considerada frequente em idosos.

1.3. Síncopes cardíacas

Sabe-se que as enfermidades cardíacas estruturais e de condução são ca-


pazes de induzir a ocorrência de síncopes. Em aspectos gerais, a síncope
cardíaca está associada à alta taxa de mortalidade, sendo as cardiopatias
estruturais, a qual apresenta maior frequência na população mais idosa,
e a doenças elétricas primárias do coração, estas mais frequentes em in-
divíduos jovens.

Dentre as doenças cardíacas estruturais se encontram aquelas que cau-


sam a obstrução de vias de entrada e saída do volume sanguíneo, como,
por exemplo: valvulopatias, estenose aórtica, tetralogia de Fallot, cardio-
patias hipertróficas ou dilatadas, doenças coronarianas e tumores ou
trombos no coração.

Essas alterações de estrutura cardíaca são responsáveis pelo baixo débito


cardíaco, ocasionando síncope, principalmente em momentos de esforço
físico. Dentre as síncopes relacionadas a essas alterações, as mais fre-
quente em idosos são doença valvular, menor funcionalidade do ventrí-
culo esquerdo devido à hipertrofia do mesmo e obstruções coronarianas.

Outro tipo de síncope relacionado a distúrbios cardiovasculares se deve


ao tromboembolismo pulmonar. Neste, a sincope se dá por queda abrup-
ta hemodinâmica devido à obstrução da circulação pulmonar, manifes-
tando-se clinicamente por dispneia, taquipneia, angina e hipotensão.

Já a síncope por tamponamento cardíaco, decorrente de tumores cardía-


cos ou aneurisma da aorta, pode ser precedida por hipotensão, dilatação
de veias jugulares, ausência de sons cardíacos e pulso paradoxal.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)105


Enquanto que as alterações relacionadas à condução cardíaca são decor-
rentes da instabilidade hemodinâmica causada pela alteração da ativida-
de elétrica cardíaca, que provoca diminuição do débito cardíaco e do fluxo
sanguíneo no cérebro.

Essas alterações são mais frequentes nos idosos, devido à redução fisio-
lógica de miócitos no processo de envelhecimento. Nesses casos, a sínco-
pe é precedida por fatores relacionados a arritmias, sejam bradiarritmias
(como por doença do nó sinusal ou bloqueio atrioventricular) ou taquiar-
ritmias (por insuficiência cardíaca, doença do miocárdio ou síndrome do
QT longo).

1.4. Síncopes multifatoriais

A síncope de etiologia multifatorial é frequente nos idosos e, como o pró-


prio nome indica, trata-se de síncopes relacionadas a mais de um fator
etiológico. Considerando que a população idosa é caracterizada por apre-
sentar múltiplas enfermidades e comorbidades, bem como o uso excessivo
de medicamentos (uso de quatro ou mais fármacos), entende-se por que
esse tipo de síncope tem elevada prevalência neste grupo populacional.

Dentro desses múltiplos fatores, podemos destacar os de causa neuro-


lógica, como a síndrome do roubo da subclávia, doenças do sistema ner-
voso central, que levam a uma disfunção autonômica primária, como,
por exemplo: doença de Parkinson, doença de Huntington, síndrome
de Guillain-Barre e disfunção primária pura – síndrome de Bradbury-
Eglleston – por acometimento do sistema nervoso simpático periférico. E
as doenças que levam à disfunção autonômica secundária, como insufici-
ência renal, alcoolismo, amiloidose, HIV, doenças metabólicas (deficiência
de vitamina B12), porfiria, doenças autoimunes, como artrite reumatoide.

Esses múltiplos fatores neurológicos, mesmo com mecanismo de ação


diferentes entre si, levam a um sintoma em comum que é a hipotensão
postural.

106 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Em um segundo grupo, podemos elencar as causas endócrinas, que são
responsáveis pela síncope no idoso, a saber: neuropatia diabética, insufi-
ciência adrenal, diabetes insípido, feocromocitoma, assim como nefropa-
tias perdedoras de sal. Essas condições resultam em hipotensão ortostá-
tica ou hipovolemia, podendo resultar em quadro de síncope.
Outras condições, como transtornos mentais (depressão, delirium) e com-
portamentais (tristeza, isolamento social), podem induzir sinais de hiperven-
tilação, ocasionando hipoperfusão cerebral e, dessa forma, levam à síncope.
Por fim, faz-se necessário alertar sobre o uso excessivo de medicações
pela população geriátrica, uma vez que, considerando as alterações fi-
siológicas inerentes do processo de envelhecimento, o metabolismo dos
fármacos nesses indivíduos é mais lento, interferindo na farmacocinética
e farmacodinâmica dos medicamentos, ou seja, na sua absorção e bio-
disponibilidade pelo organismo. Aumentando assim o risco de interações
medicamentosas, efeitos adversos, que podem potencializar a ocorrência
de síncope nessa população.

EXEMPLIFICANDO
A síndrome do roubo da subclávia acontece quando ocorre, por
exemplo, um sequestro do fluxo sanguíneo da circulação cere-
bral para irrigação de membros superiores, a partir dos movi-
mentos realizados com braço em indivíduos que apresentam
estenose grave ou obstrução da artéria subclávia proximal.

ASSIMILE
O termo síncope é utilizado para descrever o episódio em
que o indivíduo perde momentaneamente a consciência e a
recupera em curto prazo, de maneira espontânea e natural,
sem que haja intervenções de nenhum tipo, e pode estar re-
lacionado a distúrbios vasovagais, hipotensivos, cardíacos,
endócrinos e ainda pode ser multifatorial.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)107


SITUAÇÃO-PROBLEMA

Contextualização

As síndromes geriátricas podem culminar em diversos agravos para a


saúde física e mental dos idosos, adicionam-se a essas consequências
problemas sociais e até mesmo a institucionalização do idoso. Sabe-se
que a iatrogenia não é causada por distúrbios relacionados à perda da
homeostase corporal ou pela senilidade, mas sim por erros cometidos
por profissionais da saúde que acabam por gerar algum tipo de se-
quela no idoso, temporária ou permanente, enquanto que as demais
grandes síndromes geriátricas (imobilidade, instabilidade postural, in-
continência urinária e fecal) e insuficiência cognitiva podem ser conse-
quências desta ou dos próprios processos de senilidade.

Leia e analise a seguinte situação

Supondo que na sua cidade uma instituição de longa permanência


corre o risco de ser fechada, pois, segundo verificação da vigilância
sanitária, constataram-se diversos problemas relacionados à infra-
estrutura do local, que poderiam colocar os idosos em risco, como
iluminação inadequada, falta de barras de apoio, piso escorregadio,
entre outros, e como consequência observou-se um elevado índice
de quedas e até mesmo a ocorrência de óbitos em decorrência do
agravamento desses casos.

Adicionalmente, conselhos regionais verificaram que os profissionais


de saúde que ali trabalham não passaram por treinamento antes de
assumirem suas funções e que acabam por exercer atividades sem o
devido conhecimento, como, por exemplo, sondagens vesicais, lava-
gens intestinais e cuidados com ostomias sem o devido conhecimen-
to das técnicas. Além disso, devido à falta de conhecimento, esses
profissionais costumam dizer que todos os idosos que apresentam
sinais de insuficiência cognitiva na instituição possuem demência.

108 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


Baseado no conteúdo estudado, reflita e responda
1. Quais síndromes geriátricas podem ser agravadas ou geradas de-
vido aos problemas de infraestrutura da instituição, tais como ilu-
minação inadequada, falta de barras de apoio, piso escorregadio?
2. Se você fosse chamado(a) para prestar uma consultoria à direto-
ria dessa instituição, quais recomendações de melhoria faria para
tentar reduzir o índice de quedas e prevenir a ocorrência de óbi-
tos em decorrência do agravamento desses casos?
3. Após a ocorrência de síncopes seguidas por quedas, quedas
acidentais e outros problemas relacionados à senilidade (como
AVEs), alguns idosos adquiriram condições de imobilidade parcial
ou total. Quais as principais consequências decorrentes dessa sín-
drome? Como cada profissional poderá atuar para minimizar os
impactos dessa síndrome?
4. Além da iatrogenia por imperícia, qual síndrome geriátrica pode
ser agravada ou gerada devido aos problemas relacionados à fal-
ta de conhecimento relacionados a sondagens vesicais, lavagem
intestinal e cuidados com ostomias sem o devido conhecimento
das técnicas?
5. Sabe-se que os profissionais dessa instituição não foram capacita-
dos, portanto não têm conhecimentos sobre insuficiência cogniti-
va. Quais os fatores que indicam que o idoso pode estar apresen-
tando sinais de depressão e não de demência?

QUESTÃO PARA REFLEXÃO


Sabendo que a síncope é um problema frequente em idosos e que
pode ser acompanhado por diversas sequelas, quais condutas você
tomaria se fosse diretor de uma instituição para tentar prevenir a
ocorrência de síncopes e suas consequências?

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)109


2. Considerações Finais

• A síncope é resultado de hipoperfusão encefálica que pode ocorrer


devido, principalmente, a distúrbios súbitos no débito cardíaco ou
hipotensão.
• A síncope mediada por emoções ou mudança ortostática é comumen-
te conhecida como síncope vasovagal ou síncope neurocardiogênica.
• As síncopes hipotensivas estão relacionadas à hipotensão postural
ou pós-prandial.
• Apesar de diversas etiologias e situações desencadearem síncopes,
as mais prevalentes podem ser divididas em quatro grandes grupos:
I – Situacionais (neuromediadas); II – Hipotensivas; III – Cardíacas e
IV – Multifatorial (relacionadas a distúrbios neurológicos, endócri-
nos ou de origem idiopática).

Glossário

• Miócitos: células que constituem os músculos, no caso desta LF,


compõem o miocárdio.
• Miocárdio: músculo cardíaco.
• QT longo: refere-se ao espaço na onda QT do eletrocardiograma, o
alongamento causado por alterações nos canais iônicos do miocárdio.

VERIFICAÇÃO DE LEITURA
TEMA 8
1. A síncope caracterizada por estar relacionada a emoções,
ansiedade ou mudança ortostática, é comumente conhe-
cida como:
a) Síncope emocional.
b) Síncope do estresse.

110 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


c) Síncope hipertensiva.
d) Síncope hipotensiva.
e) Síncope vasovagal.
2. Complete corretamente a sentença a seguir e marque a
alternativa correta:
A síncope hipotensiva pode ser desencadeada após as re-
feições porque a pressão arterial pós-prandial é menor,
devido ao aumento de fluxo sanguíneo desviado para a
artéria e somados à maior pro-
dução de insulina plasmática, desencadeando assim a
hipotensão.

a) Esplênica – mesentérica.
b) Aorta – mesentérica.
c) Aorta – esplênica.
d) Esplênica – carotídea.
e) Femoral – mesentérica.
3. De acordo com esta Leitura Fundamental, no que diz res-
peito às síncopes multifatoriais, analise as asserções dis-
postas a seguir e a relação entre elas proposta:
I. Condições como transtornos mentais (depressão, de-
lirium) e comportamentais (tristeza, isolamento social)
podem induzir sinais de hiperventilação, ocasionando
hipoperfusão cerebral e, dessa forma, levam à síncope.
Portanto

II. Por fim, faz-se necessário alertar sobre o uso excessivo


de medicações pela população geriátrica, uma vez que,
considerando as alterações fisiológicas inerentes do
processo de envelhecimento, o metabolismo dos fár-
macos nesses indivíduos é mais lento, interferindo na

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)111


farmacocinética e farmacodinâmica dos medicamen-
tos, ou seja, na sua absorção e biodisponibilidade pelo
organismo. Aumentando assim o risco de interações
medicamentosas, efeitos adversos que podem poten-
cializar a ocorrência de síncope nessa população.
a) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma
proposição falsa.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é
consequência da I.
c) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II
não é uma consequência da I.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma propo-
sição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

Referências Bibliográficas

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112 Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)


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Acesso em: 28 jun. 2018.

Gabarito – Tema 08

Questão 1 – Resposta: E

A síncope caracterizada por estar relacionada a emoções, ansieda-


de ou mudança ortostática é comumente conhecida como síncope
vasovagal.

Questão 2 – Resposta: A

A síncope hipotensiva pode ser desencadeada após as refeições por-


que a pressão arterial pós-prandial é menor, devido ao aumento de
fluxo sanguíneo desviado para a artéria esplênica e mesentérica so-
mados à maior produção de insulina plasmática, desencadeando as-
sim a hipotensão.

Questão 3 – Resposta: C

Ambas são verdadeiras, porém a primeira se refere aos aspectos re-


lacionados à síncope por hiperventilação relacionada a transtornos
mentais, enquanto que a segunda se refere à síncope decorrente de
efeito tóxico por dose excessiva de fármacos ou incompatibilidade
medicamentosa.

Fisiopatologia e Síndromes Geriátricas (5Is)113