Você está na página 1de 24

INVESTIGAÇÃO

NATURALISTA
EM EDUCAÇÃO
Um guia prático e crítico

Natércio Afonso
Título Investigação Naturalista em Educação
Um guia prático e crítico
Autor Natércio Afonso
Coleção Desenvolvimento Profissional de Professores; 19
Direção José Matias Alves
Coord. editorial Duarte Ribeiro
Edição Fundação Manuel Leão, V. N. Gaia, 2014
Execução gráfica LabGraf
Depósito Legal 381194/14
ISBN 978-989-8151-37-7

© Fundação Manuel Leão, 2014


Rua Pinto de Aguiar, 345 | 4400-252 Vila Nova de Gaia – PT
Tel. 223 708 681 | Fax. 223 709 331 | fmleao@mail.telepac.pt
ÍNDICE

PREFÁCIO 7

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO 11

INTRODUÇÃO 13

CAPÍTULO I 21
A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO EM
EDUCAÇÃO

CAPÍTULO II 47
O PROJETO DE INVESTIGAÇÃO

CAPÍTULO III 65
ESTRATÉGIAS DE INVESTIGAÇÃO

CAPÍTULO IV 93
TÉCNICAS DE RECOLHA/PRODUÇÃO DE DADOS

CAPÍTULO V 119
TÉCNICAS DE ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

GLOSSÁRIO 133

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO 135

BIBLIOGRAFIA 143

ANEXOS 157
ANEXO I. PROBLEMA 159
ANEXO II. OBSERVAÇÃO 163
ANEXO III. ENTREVISTA 167
ANEXO IV. QUESTIONÁRIO 175
ANEXO V. ANÁLISE DE CONTEÚDO 198
PREFÁCIO

Com este livro pretende-se proporcionar um instrumento didático de


iniciação à pesquisa educacional de tipo naturalista, tendo em considera-
ção a crescente presença de disciplinas de investigação nos cursos de gra-
duação, nomeadamente nas múltiplas licenciaturas existentes na área da
educação e da formação, assim como na formação inicial de professores.
Foi concebido como um guia metodológico para a conceção e execução
de projetos de investigação no domínio da educação. São seus destinatá-
rios privilegiados os estudantes de cursos de graduação e pós-graduação
chamados a desenvolver projetos de pesquisa no âmbito de disciplinas ou
seminários de investigação, ou a preparar dissertações ou teses com o ade-
quado fundamento empírico.
Em especial, no que se refere à formação pós-graduada ao nível dos
cursos de mestrado em Educação, este guia corresponde ao pressuposto
de que tal formação exige a aquisição de conhecimentos teóricos aprofun-
dados e atualizados em áreas específicas do domínio científico, através de
estratégias de desenho curricular que possibilitem a fundamentação da
formação no contacto direto com a investigação científica relevante.
O papel central atribuído à investigação não só possibilita uma acres-
cida capacidade de autoformação por parte dos futuros diplomados, como
é também gerador de abordagens mais críticas e reflexivas às atividades
e contextos profissionais onde a formação em causa tem relevância. Na
verdade, parece generalizado o reconhecimento da eficácia da formação
centrada no estudo das práticas e dos contextos profissionais, envolvendo
os próprios atores, professores, formadores, gestores de formação e admi-
nistradores de organizações educativas.
Paradoxalmente, este reconhecimento surge muitas vezes num registo
retórico e magistral do que deve ser a formação dita reflexiva. Pelo contrá-
rio, a abordagem à investigação que se privilegia neste livro pressupõe que
8 Investigação Naturalista em Educação

a formação esteja centrada na produção da investigação e não no discur-


so sobre a produção da investigação. Deste modo, pretende-se contrariar
tendências em curso para a expansão da forma escolar nos cursos de pós-
-graduação.
Na realidade, a escolarização do trabalho pedagógico e o distancia-
mento em relação à pesquisa científica são predominantes nas conceções
curriculares de muitos cursos de graduação e não apenas no domínio da
educação e da formação. Resultam da massificação da oferta de ensino su-
perior, expressa na multiplicação de instituições de formação sem os recur-
sos adequados. Resultam também da forte tradição do ensino universitário
português, livresco, baseado na autoridade dos lentes e na repetição das se-
bentas. Trata-se de uma tradição expressa na pobreza das políticas públicas
de promoção da investigação científica e na escassez da investigação pro-
duzida pela maioria dos docentes do ensino superior, muitas vezes reduzi-
da à que é indispensável à obtenção dos respetivos graus académicos. Pelo
contrário, a lógica da organização deste livro pressupõe uma abordagem à
metodologia da investigação centrada no contacto direto com a produção
científica de referência em termos nacionais e internacionais.
Este livro é fruto da experiência de trabalho na docência de seminários
de metodologia da investigação em educação e na orientação de disserta-
ções de mestrado, desenvolvida desde 1995, com os alunos dos cursos de
mestrado em Ciências da Educação (áreas de Administração Educacional
e Formação de Adultos) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da
Educação da Universidade de Lisboa e também do Instituto de Educação
da Universidade Católica Portuguesa. Assim recorre-se frequentemente a
exemplos e materiais produzidos no âmbito dos projetos de investigação
desenvolvidos por muitos dos nossos alunos, centrados naturalmente em
problemas e contextos específicos do mundo da educação em Portugal.
Trata-se portanto de um guia de investigação fundamentado na expe-
riência concreta da pesquisa universitária em educação conduzida em
Portugal nos últimos anos.
De facto, a realização de um guia prático e crítico com estas caracterís-
ticas não teria sido possível sem as múltiplas aprendizagens que me pro-
porcionaram as sessões dos seminários de metodologia com os meus alu-
nos, principalmente dos cursos de pós-graduação, ao longo dos últimos
Prefácio 9

dez anos, assim como o desafio da orientação de dezenas de dissertações


de mestrado ao longo do mesmo período. Assim, estou muito grato aos
meus antigos e atuais alunos e orientandos que, ao longo destes anos, me
confrontaram com as suas dúvidas, objeções, dilemas e perplexidades,
ajudando-me a clarificar e a aprofundar a minha própria reflexão. Em es-
pecial, agradeço aos que me autorizaram a utilizar, neste livro, textos ou
documentos dos seus projetos ou dissertações.
PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

Estando há muito esgotada a primeira edição deste guia e considerando


a frequência com que muitos colegas e amigos me têm sugerido uma ree-
dição, procedo agora a uma segunda edição revista e atualizada. As modi-
ficações que introduzi resultaram em grande parte da prática reflexiva que
me proporcionaram as atividades que entretanto desenvolvi com os meus
colegas dos grupos de Formação de Adultos e de Política e Administração
Educacional na antiga Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
e no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Beneficiei especial-
mente com o envolvimento na criação, em 2005, dos primeiros cursos de
formação avançada conducentes à elaboração de teses de doutoramento,
no âmbito dos quais tive o privilégio de trabalhar com estudantes muito
motivados para a investigação científica e que produziram trabalhos de
grande qualidade, reconhecidos já como pesquisas de referência a nível
nacional. Também aprendi muito com os múltiplos exercícios de teori-
zação e de construção de objetos de estudo que desenvolvi no âmbito da
minha participação num projeto europeu centrado no estudo das interre-
lações entre conhecimento e política (Projeto KNOWandPOL).
Agradeço assim aos meus colegas do Instituto de Educação, assim
como aos meus alunos de mestrado e doutoramento, as oportunidades
que me proporcionaram, ajudando-me a clarificar e a aprofundar a minha
reflexão científica e o meu trabalho de pesquisa. Agradeço especialmente
aos alunos que me autorizaram a utilizar neste livro excertos ou documen-
tos das suas dissertações ou teses. Também estou grato para com o meu
colega e amigo José Matias Alves pela sua insistência na reedição deste
guia. Finalmente, agradeço à Lurdes pelo incentivo, pela cumplicidade e
pela ajuda inestimável no trabalho de recuperação e fixação do texto e da
bibliografia, assim como na organização de quadros e figuras.
INTRODUÇÃO

Opções epistemológicas e metodológicas: os estudos naturalistas

A organização de um guia metodológico sobre pesquisa científica em


educação implica necessariamente a escolha de uma opção sobre o modo
de abordar um campo tão vasto e polifacetado, atravessado por correntes,
tradições e comunidades científicas muito diversificadas e, por vezes, em
conflito aberto nos planos epistemológico e metodológico. O ponto de
partida para a opção efetuada fundamentou-se na consideração da ne-
cessidade de assegurar o suporte metodológico adequado à construção e
execução de projetos de investigação individuais ou de pequenos grupos
de estudantes, no âmbito de cursos de graduação ou pós-graduação em
educação, formação ou ensino.
Assim, não nos colocamos na posição de produzir um discurso peda-
gógico global e abrangente sobre a metodologia da investigação em edu-
cação, nem nos colocamos numa lógica de exterioridade em relação aos
campos empíricos das áreas de especialização dos cursos. Pelo contrário,
valorizamos as perspetivas epistemológicas e metodológicas congruentes
com as abordagens à investigação em educação que privilegiam a compre-
ensão das estruturas sociais e organizacionais, a construção dos contextos
de a�����������������������������������������������������������������������
ção e das ordens locais, a caracterização das rel����������������������
ações de poder, as ló-
gicas de ação, as culturas organizacionais e profissionais e as construções
identitárias. Deste modo, é clara uma opção por uma conceção dos campos
de estudo em causa, no âmbito global das ciências sociais, mas a partir
das perspetivas específicas da ciência política, da sociologia e da teoria
organizacional.
Esta opção de base conduziu à construção deste volume em torno da
conceptualização e gestão de estudos naturalistas, no pressuposto de que
correspondem à generalidade dos projetos concretos que habitualmente
14 Investigação Naturalista em Educação

os estudantes são chamados a desenvolver no âmbito das disciplinas de


investigação em educação, ou no quadro das dissertações académicas.
Por outro lado, no âmbito dos estudos naturalistas, dá-se especial ên-
fase aos estudos descritivos (de teor qualitativo ou quantitativo), consi-
derados mais congruentes com a agenda contemporânea da investigação
académica em educação, centrada nas abordagens interpretativas e nos
estudos de caso e mais adequada às circunstâncias específicas da iniciação
ao trabalho científico em pesquisa educacional.
No inventário e análise crítica da investigação nas áreas científicas re-
levantes, não se ignoram os estudos de correlação, causais e comparativos,
nem os respetivos desenhos metodológicos baseados na inferência estatís-
tica, considerando a sua especial importância na investigação em educa-
ção de natureza institucional, promovida por departamentos ou agências
governamentais, ou por organizações internacionais. Contudo, a prática
de pesquisa que se propõe centra-se na investigação naturalista.

Temas estruturantes de uma abordagem à investigação em educação

A abordagem pragmática e instrumental que se propõe conduziu à or-


ganização do texto em função de objetivos específicos centrados na clari-
ficação de conceitos operatórios básicos da investigação em educação, na
identificação de estratégias de pesquisa e na iniciação às técnicas e instru-
mentos de trabalho do ofício de investigador. Tais objetivos são assumidos
como elementos estruturantes no planeamento do trabalho pedagógico de
iniciação à investigação, pressupondo uma sequência lógica e cronológi-
ca na sua abordagem. Contudo, cada um dos capítulos pode também ser
abordado isoladamente, em função das necessidades e interesses do leitor.

Ciências Sociais, Educação e Ciências da Educação


Um primeiro objetivo consiste na identificação da Educação como
uma área de investigação das Ciências Sociais. Entende-se a Educação
como um sector específico da atividade humana, um aspeto específico
da realidade social, no seio da qual se produzem os questionamentos
particulares, os objetos de estudo e as narrativas científicas próprias das
Introdução 15

diversas ciências sociais. A Educação como atividade humana constitui-se


portanto como um campo de estudo onde se cruzam múltiplos olhares,
da sociologia à psicologia, da história à economia, da ciência política à
demografia. Neste registo, as Ciências da Educação são entendidas como o
resultado da interpenetração e entrelaçamento destes múltiplos discursos
científicos, por vezes convergentes, por vezes ignorando-se mutuamente,
por vezes antagónicos.
No plano institucional, a crescente afirmação académica das Ciências
da Educação, apesar do seu carácter ainda incipiente, tem-se construído
nesta lógica de mestiçagem epistemológica e metodológica, produzindo
de facto uma comunidade científica autónoma com uma cultura própria.
Assim, o desenvolvimento da investigação em educação alimenta um
processo de crescente autonomização científica, através da construção
de objetos de estudo compósitos, específicos e originais, não deixando
no entanto de refletir as matrizes das diversas ciências sociais em que se
alicerçam, acompanhando o seu desenvolvimento teórico e metodológico.

O Processo de Investigação
Um segundo objetivo centra-se na caracterização das diversas fa-
ses do processo de investigação científica. Pretende-se uma abordagem
prospetiva ao percurso que os estudantes que se iniciam na investigação
educacional vão enfrentar, por forma a que cada um possa delinear pre-
cocemente uma estratégia pessoal de abordagem ao trabalho de conceção
de um projeto de investigação. Neste contexto, insiste-se na identificação
e valorização, à partida, das experiências de vida pessoais e profissionais
dos formandos.
Na realidade, a nossa experiência na docência de disciplinas de me-
todologia e na orientação de projetos de pesquisa na área da investigação
em educação, tem-nos revelado que uma grande parte dos alunos é cons-
tituída por profissionais (educadores, professores, formadores, gestores,
técnicos superiores de educação ou de formação, enfermeiros, técnicos
superiores de saúde), alguns dos quais possuidores de uma já longa carrei-
ra profissional. Assim, pretende-se que os alunos se apropriem do proces-
so de investigação, reconstruindo-o em função dos seus conhecimentos
adquiridos mas também de acordo com os seus anseios e projetos pessoais
16 Investigação Naturalista em Educação

e profissionais. Esta intenção deve expressar-se na escolha dos temas de


investigação e na definição dos problemas e das questões de investigação,
geralmente resultantes da reconstrução conceptual de problemas ou per-
plexidades identificadas nos respetivos contextos profissionais. A mesma
intenção expressa-se, mais tarde, através das opções de natureza metodo-
lógica e, na altura, da negociação de acesso aos contextos organizacionais
para futura realização do trabalho empírico.
Em suma, pretende-se que a leitura deste livro constitua uma oportu-
nidade para visitar e vivenciar virtualmente o processo de investigação,
antes de ele ser efetivamente experimentado e percorrido pelo aprendiz
da investigação.

Paradigmas metodológicos: “investigação qualitativa” e “investiga-


ção quantitativa”
A identificação e caracterização dos paradigmas metodológicos cor-
rentes em investigação educacional constituem outro objetivo central.
O próprio conceito de paradigma é objeto de atenção e reflexão, no con-
texto da história das ciências e da epistemologia da démarche científica.
A abordagem aos diversos modos de construção do conhecimento cien-
tífico nas Ciências Sociais é efetuada a partir do trabalho de referência de
Burrell e Morgan (1979), dando-se especial relevância às tradições cientí-
ficas dominantes: o funcionalismo e a sociologia interpretativa.
O esforço de clarificação conceptual e metodológica destes paradig-
mas alternativos implica a utilização de obras de referência assim como a
abordagem a textos dos autores mais representativos. Contudo, a estraté-
gia principal centra-se em exercícios práticos de formulação de problemas
e desenhos de investigação de acordo com as premissas básicas das diver-
sas correntes do pensamento científico das ciências sociais.
Neste âmbito, atribui-se especial relevância às tradições epistemoló-
gicas e metodológicas das ciências sociais, especialmente influentes nas
áreas da investigação educacional em que temos desenvolvido a nossa
atividade docente e de investigação: a antropologia e a etnografia de ins-
piração interpretativa, as diversas correntes herdeiras do interacionismo
simbólico original, a sociologia da ação, a análise estratégica, a sociologia
crítica e outras variantes neomarxistas. A abordagem pedagógica centra-se
Introdução 17

fundamentalmente na explicitação dos pressupostos das diversas tradi-


ções científicas no que se refere à natureza do conhecimento científico em
ciências sociais e aos aspetos da realidade social cujo estudo se privilegia,
e não tanto ao conhecimento academicista dos autores e ao comentário
retórico dos respetivos textos.
A este propósito, importa sublinhar que se atribui especial impor-
tância ao desenvolvimento de uma análise crítica dos conceitos corren-
tes de investigação quantitativa e investigação qualitativa, os quais estão
no centro de controvérsias e clivagens profundas nas Ciências Sociais
e, particularmente, no âmbito da investigação educacional. Na verdade,
o debate sobre as vantagens e limitações das chamadas “abordagens qua-
litativas e quantitativas em educação” ignora geralmente o facto de tais
designações se reportarem a uma grande variedade de perspetivas teóricas
e práticas metodológicas, não correspondendo a conceitos claramente de-
finidos. Veja-se a este propósito a obra de referência organizada por Eisner
e Peshkin (1990)
Do ponto de vista genérico da metodologia das Ciências Sociais, a in-
vestigação educacional é investigação aplicada, construindo o seu aparato
metodológico a partir dos diversos paradigmas da investigação básica ou
fundamental que constituem o património comum da investigação social.
De facto, historicamente, a maior parte da investigação educacional tem
sido fortemente influenciada pelos processos metodológicos dominantes
nas Ciências Sociais mais influentes neste campo específico, nomeadamen-
te a psicologia, a antropologia e a sociologia. Por exemplo, a maior parte da
investigação sobre o ensino e a aprendizagem tem sido fortemente influen-
ciada pela psicologia, nomeadamente pela tradição quantitativa da psico-
logia experimental e da psicologia diferencial. Enquanto isso, outras áreas
da investigação sobre a organização escolar, a gestão, as culturas e as iden-
tidades têm sido mais influenciadas pela ciência política, a antropologia
e a sociologia e pelas suas metodologias predominantemente qualitativas.
O debate tradicional entre os defensores de cada uma destas aborda-
gens (qualitativa e quantitativa) está frequentemente centrado na questão da
subjetividade versus objetividade. A abordagem quantitativa pressupõe-se
objetiva uma vez que utiliza critérios bem definidos relativos à amostragem
e aos processos de análise de dados, baseados na linguagem da matemática
18 Investigação Naturalista em Educação

analítica, da estatística e da categorização lógica. Contrariamente, as abor-


dagens qualitativas são concebidas como padecendo de um défice de obje-
tividade, uma vez que se centram em contextos singulares e nas perspetivas
dos atores individuais.
No entanto, toda e qualquer investigação, seja ela construída com in-
formação quantitativa ou com informação qualitativa, pressupõe elemen-
tos subjetivos, dado que o conhecimento sobre a realidade social é em si
mesmo um fenómeno subjetivo (Berger e Luckmann, 1966). Para além
disso, na gestão do processo de investigação quantitativa, muitas toma-
das de decisão refletem necessariamente a subjetividade do investigador,
expressa na adoção de um paradigma específico, o qual é indispensável
para a conceção da própria investigação (Kuhn, 1970). Por outro lado,
este conceito de objetividade científica está tradicionalmente associado
aos procedimentos do método experimental e corresponde a um concei-
to restritivo de ciência. Pelo contrário, uma conceção mais alargada de
ciência abrange muitas abordagens metodológicas, incluindo as tradições
qualitativas dominantes em algumas ciências sociais, nomeadamente na
história, na antropologia e na sociologia. Na realidade, a investigação qua-
litativa preocupa-se com a recolha de informação fiável e sistemática sobre
aspetos específicos da realidade social, usando procedimentos empíricos
com o intuito de gerar e interrelacionar conceitos que permitam interpre-
tar essa realidade.
A abordagem à investigação científica a partir dos procedimentos es-
pecíficos do método experimental tradicional pressupõe, portanto, uma
noção limitada de ciência e não tem em conta a grande variedade de me-
todologias de investigação reconhecidas em muitos campos científicos e
não apenas nas ciências sociais.
A oposição entre metodologias qualitativas e quantitativas corres-
ponde, de facto, a paradigmas alternativos com fundamento em dife-
rentes conceções sobre a realidade social e a natureza do conhecimento.
Contudo, o debate entre as duas correntes centrado no falso problema da
objetividade versus subjetividade só fez sentido num contexto científico
em que os pressupostos positivistas do behaviorismo e do funcionalismo
foram dominantes, quando a verificação de hipóteses era concebida como
o centro da investigação e quando se negava o estatuto de ciência ao estudo
Introdução 19

compreensivo e interpretativo de fenómenos ou situações singulares, sem


qualquer propósito de formulação de leis ou generalizações.
O desenvolvimento da sociologia do conhecimento e a aceitação sub-
sequente de que a realidade é socialmente construída (Berger e Luckman,
1966), bem como o reconhecimento da pluralidade de paradigmas cien-
tíficos mutuamente exclusivos (Kuhn, 1970), produziram a legitimação
das metodologias qualitativas, durante muito tempo perspetivadas como
alternativas e marginais e a sua gradual integração no establishment cien-
tífico das ciências sociais e, especificamente, na investigação educacional.

Organização temática

O texto deste livro está dividido em cinco capítulos que abrangem


as temáticas centrais da investigação educacional, organizadas numa se-
quência lógica congruente com o próprio desenvolvimento da conceção e
execução de um projeto de investigação.
No primeiro capítulo discutem-se os fundamentos da investigação
educacional (conceito de ciência e de investigação científica, relação entre
Educação e Ciências Sociais e seus paradigmas epistemológicos e meto-
dológicos), procede-se a uma caracterização genérica das diversas corren-
tes e tradições na investigação educacional e define-se uma tipologia da
pesquisa em educação destinada a proporcionar um primeiro «mapa» do
território ao aprendiz do ofício de investigador.
O segundo capítulo proporciona uma visão global do projeto de investiga-
ção, caracterizando e ilustrando as suas diversas fases (definição do problema
de investigação, revisão da bibliografia, definição de opções de método e de
estratégia, conceptualização do design da investigação, seleção de técnicas e
instrumentos de recolha e tratamento da informação empírica) com recurso
abundante a exemplos concretos de trabalhos de investigação conduzidos no
âmbito dos cursos de mestrado e de doutoramento acima referidos.
As estratégias de investigação naturalista são abordadas detalhada-
mente no terceiro capítulo, onde se passam em revista os pressupostos e
as características metodológicas dos estudos extensivos, das abordagens
etnográficas, dos estudos de caso organizacionais, da investigação-ação,
20 Investigação Naturalista em Educação

dos estudos biográficos e histórias de vida e dos estudos de avaliação.


Sempre que possível, apresentam-se exemplos concretos para a discussão
dos fundamentos metodológicos específicos de cada uma destas estratégias
de investigação, das diversas lógicas implícitas nos respetivos dispositivos
e das suas vantagens, limitações ou constrangimentos.
No quarto capítulo procede-se a um inventário das técnicas e ins-
trumentos de recolha de informação empírica usualmente utilizados em
investigação educacional (pesquisa arquivística, observação, entrevista,
inquérito por questionário, aplicação de testes de avaliação e aplicação de
escalas de medida de características pessoais). Abordam-se as quatro pri-
meiras técnicas referidas com mais destaque e maior aprofundamento por
se considerarem de utilização mais acessível e por isso mais frequente na
investigação educacional corrente, de natureza académica. Para além da
análise de exemplos concretos sugerem-se pequenos exercícios práticos
que podem ser realizados individualmente ou em pequeno grupo.
Por último, no quinto capítulo, passam-se em revista técnicas e ins-
trumentos de análise e interpretação da informação empírica, procede-se
à caracterização dos diversos tipos de dados que se podem obter, assim
como das dimensões a ter em conta na avaliação da sua qualidade, discu-
tem-se os conceitos de descrição, análise e interpretação e identificam-se
conceitos fundamentais no tratamento de informação quantitativa e qua-
litativa. Atribui-se especial realce, com o auxílio de exemplos concretos, à
metodologia da construção interpretativa, com recurso à técnica de aná-
lise de conteúdo, a partir dos trabalhos de referência de Anselm Strauss.
Espera-se assim que este livro possa ser um instrumento prático, um
auxiliar «amigo» dos estudantes da área da educação e da formação, a bra-
ços com a tarefa aparentemente difícil da construção e desenvolvimento
de um projeto de investigação.
Com este livro pretende-se proporcionar um instrumento
didático de iniciação à pesquisa educacional de tipo natura-
lista, tendo em consideração a crescente presença de discipli-
nas de investigação nos cursos de graduação, nomeadamente
nas múltiplas licenciaturas existentes na área da educação e
da formação, assim como na formação inicial de professores.
Foi concebido como um guia metodológico para a conceção e
execução de projetos de investigação no domínio da educação.
São seus destinatários privilegiados os estudantes de cursos de
graduação e pós-graduação chamados a desenvolver projetos
de pesquisa no âmbito de disciplinas ou seminários de inves-
tigação, ou a preparar dissertações ou teses com o adequado
fundamento empírico.
Em especial, no que se refere à formação pós-graduada ao ní-
vel dos cursos de mestrado em Educação, este guia correspon-
de ao pressuposto de que tal formação exige a aquisição de
conhecimentos teóricos aprofundados e atualizados em áreas
específicas do domínio científico, através de estratégias de de-
senho curricular que possibilitem a fundamentação da forma-
ção no contacto direto com a investigação científica relevante.