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o trabalho com a linguagem realizado por Manoel de Barros, na obra

“Exercícios de ser Criança”, especificamente, na narrativa poética “o menino


que carrega água na peneira” verificamos uma linguagem que endossa uma
reflexão meta-textual, que vai além do texto, sugere múltiplas leituras e
interpretações que estão pressupostas e subentendidas nas entrelinhas,
explorando o percurso da palavra em sua capacidade de “dizer o indizível”,
causando emoção e êxtase ao leitor, uma vez que, o imaginário domina por
completo texto.

Desse modo, “o menino que carregava água na peneira” é uma narrativa


poética que se caracteriza pelo abandono total ao racionalismo. É um texto
menos comunicativo e mais sugestivo, no qual a linguagem empregada foge
do seu emprego comum e habitual, pois a linguagem literária é
anticonvencional e se direciona neste caso, exclusivamente, por uma dimensão
imaginativa no “mundo do faz de conta”.

O poema em análise, concebe o texto como uma criação que não tem
nenhuma finalidade objetiva, ou seja, como algo que não possui valor
dimensível. Através dos “despropósitos” e das “peraltagens” do menino, é
posto em evidência, que a lógica se encontra fora do que é rotineiro, previsível
e habitual.

Neste sentido, o texto se caracteriza pela predominância de figuras de


linguagem, com prevalência da metalinguagem cuja poesia se explica pela
própria poesia, a qual pode ser evidenciada no trecho a seguir “Com o tempo
descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira”. Trata-se
de uma atividade linguística em que a própria língua está em evidência.

Imaginário, irreal, linguagem metafórica, conotações, função poética,


linguagem plurissignificativa e simbólica se completam para dar asas à
imaginação. Neste jogo imaginário, não há limites para criar e inventar
“peraltices”, pois neste mundo mágico o menino,

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi
capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor! (BARROS, 1999, s/p).

Aqui estão textos com exercícios de interpretação. Após serem feitos, é possível corrigir e ler
comentários sobre cada questão.
O menino que carregava água na peneira
Manoel de Barros
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
Porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.

BARROS, Manoel. "O menino que carregava água na peneira", in Poesia Completa, pág 469. São
Paulo, Leya, 2010

Interpretando

1. 1 - O que há de estranho em “carregar água na peneira”?

a) É uma atividade que todos deveriam fazer mas não fazem.


b) É uma atividade totalmente respeitável, mas que não tem reconhecimento.
c) É uma atividade um tanto absurda, pois uma peneira não é feita para carregar água.
d) É uma atividade que recebe crítica de todos os lados, e por isso são poucos que se aventuram nela.

2. 2 - No poema é dito que escrever é o mesmo que carregar água na peneira. Assinale a alternativa que aponta uma
possível interpretação para essa afirmação.

a) Escrever é uma atividade que permite o exercício da livre imaginação, e por isso é adequada, por exemplo, a
um menino que tem a personalidade fora do comum.
b) Escrever é um ofício para poucos, de grande dificuldade, assim como deve ser difícil o esforço para conseguir
carregar água na peneira.
c) A escrita é um lugar em que as pessoas podem ser irresponsáveis sem culpa, pois é uma atividade que a
sociedade julga como não importante.
d) A escrita é uma forma de lazer como qualquer outra, nela não há nenhuma pretensão de ser levada a sério,
assim como as brincadeiras de criança não podem ser levadas a sério.

3. 3 - De acordo com o seguinte verso:

“No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.”

assinale a alternativa correta.

a) A escrita permite a uma pessoa que alimente suas ilusões de grandeza, fazendo com que os outros pensem
que alguém é aquilo que não é.
b) A escrita está ligada ao mundo ficcional, que é o mundo do “faz de conta”, em que se pode fingir ser
personagens que só existem na imaginação.
c) Escrever é a única forma de dar às pessoas aquilo que a vida não é capaz de dar.
d) Ao escrever, nós podemos mentir para os outros e para nós mesmos, e assim assumimos uma identidade que
não é exatamente a nossa.

4. 4 - É dito no poema que o menino podia fazer “peraltagens com palavras”. Quais parecem ser as qualidades de quem
faz uma coisa como essa?

a) racional, metódico, paciente


b) revoltado, inconformado, revolucionário
c) antenado, comunicativo, engajado
d) criativo, sonhador, brincalhão