Você está na página 1de 14

Cronologia

1882:

Me l a ni e

Rei zes

na s c e em Viena , n o di a 30

d

Re i z e s e Libussa De u tsch

1903: Me l a ni e co m A r t h ur K l ei n

ca s a-se

e m a rço,

fi lh a d e Moriz

1904: Nasci m e nt o lha Mellit a K l e in

1907: N asce se u filho

d e s u a

fi

H a n s Kl ein

1910: A famíl i a mu d a -se

para Budapeste, o n de Me-

l anie K l ein to m a co n tato

co m a obra de Freu d

1913: Er n est l o n es f und a

a Soci e d ade Ps i ca nalí t i ca

d e L o n d r es

d e

1914: Nasci m e n t o

E r ic h Kleín. Ini c ia an á l ise

co m Sá n dor Feren czi

1918 : Real i za-se

e m Bu -

dapeste

I

lise, sob a presidên c i a

Feren czi

o Co n gresso

de Psica n á -

d e

n ternacional

1919: Kl ein apresenta seu

r i m e i ro

m e mbr o

Buda p este.

a Soc i e d ade

Psicanálise

p

art i go e t o rn a - se

da Socie d a d e

de

jo n es fu n da

Br i tânica de

1920: No 6 ° Co n gresso

In

ternacional

nálise,

de Ps i ca-

Klei n

em H aia ,

co n hece Karl Ab r ah am

1921: Mu da- se par a Ber-

li

rio p a ra aná l ise de a dul tos

e cri a nças

1922: Tor n a-se m e m bro

da Soc i e d a d e Ps i c an a l ít i-

ca d e Berlí rn . D i v orci a-s e

d

rn , onde

abre co n s u ltó -

e A r t hu r

Kl ei n

1 9 2 4 : Fu n dação i t ut o B r i tâ ni co

t

n

do I n s- d e P sica-

á l ise. K l ei n inicia a n á l ise

com Kar l Abraham.

Salz b urgo , durante

Em

o 8 °

Co n gresso

Internacio n al

de Psicanálise, apresen-

ta / IA t écn i ca

de an á l ise

de c ria n ças

p eq uen as" .

Aos 48 an os , mo rr e Kar l

A b r ah a r n , i n terrom p en d o

a aná l ise de Kle in

1925: Realiza conferên -

1933 : Mel l ita {

já com

Me la n i e K l e in d iverge m

o

sobrenome

de casada

sobre vár i os

po nt os, so-

cias em Lo n dres

Schrnideberg , é eleita

bretudo a ca pa ci dad e

membro pleno

da Socie-

infantil de e l abor a r

t r a ns-

1926: Melanie

K l ein

dade Britân i ca

de Ps i ca-

ferência

mud a- se para a Ing la ter r a ,

ná l ise. Torna-se o p ositora

ferrenha de K l ei n

a co n vite de jones

1927: E l eit a m em b r o p l e-

1943 : Public a

" Notas

sobre a l guns mec an is m os

1934: Hans mo r re p r a t i-

e s quiz ó id es"

no da Sociedade

Bri tânic a

de Psic a ná li se

1928 : Me lli ta

co nh ece

Walter

Schrni de b erg ,

membro

da Socie d ade

de Berlim, com q u em

casaria

se

1932 : Publicação

de A

psicanálise de crianças

cando a l pinismo

1937: Publicação d e Amor,

ódio e reparação

1939 : Muda - se

para F reud morre

Cambridge

em 23 de setembro

194 1: Retoma a Londres.

A

Sociedade

Britâ ni ca

d

e Psicanálise

pr om ove

de b a t es, depo i s c onh ec i-

dos como " Co n trové r s i as

Fre u d - K l ein ", so b re as

1945 : Me lli ta muda -se

p ara os Estados Uni dos

1948 : K l ei n p u b l i c a

tribuições à psicanálise

Con-

1952 : Edição

es p ec i a l

d o Internationa/ Journa/ of

Psycho-Ana/ysis

em h o-

mena gem

Me lani e K l e in

aos 7 0 an os d e

1955 : Cr i ação do Melanie

Klein Trust

1957: P u b l ic a ção d e Inve-

mo d ificações

i ntro d uzi-

ja e gratidão.

das por Klein

na teoria

de E rnest

freudiana

.

1958: Morte jo n es.

1941-1945: Perío d o das

1960 : Me l a n i e

K l e in

"

Co n trov é rsias

Fre u d -

mo rr e,

em Lo ndr es

n o

Kle i n" . Anna

Fr e ud

e

dia 2 2 de sete m br o

A CRIADORA DA ANÁLISE INFANTIL FUNDOU UM SISTEMA TEÓRICO PRÓPRIO,AMPLIANDO A NOÇÃO DE INCONSCIENTE E INTRODUZINDO CONCEITOS COMO OBJETO INTERNO E IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

M elan i e Klein , em . t r ês décadas de produção escrita , criou a principal corrente v ariante da psicanális e em relação à f r eudiana e introduziu

pontos de vista originais que alguns consideram comple- mentare s e outros , controversos.

M e l a ni e Kl e in co n s id erav a- se uma freudiana, parecen-

d o nã o t e r con sc i ê ncia dos pr o fundos a v anço s que estava

introduzindo na psicanálise , e se surpreendeu quando uma de suas dis c ípulas , Betty jo s eph , lhe disse : " Agora já é tarde ,

você é uma kleiniana" - acentuando então que e la estava criando um novo s istema de pensamento.

Kl e in s e d i stin g uiu por muitas coisa s . Ela é considerada

a criadora da psicanális e d e crianças por meio da técnica do

brinc a r . Esta co nsist i a e m con s iderar o brincar da criança

POR EUAS MALLET D A ROCHA BARROS E

EUZ A BETH LIM A DA RO C HA BARRO S

adultos , aspecto s muito infantis , tai s c o mo dep e nd ê ncia exces s iva e nece s sidade de ser guiado , ac o mpanhado de uma desconfiança bastante irracional " . Klein considera que a estrutura arcaica das emo ç õ e s infantis, muitas v ezes datada d e um p e r ío d o pr é - ve rba l ,

. p ersi ste a o lon g o de n os sa s v idas e inte r f er e na m e nt e adulta .

A análi s e e o entendim e nto de sse f u ncio namento favorec e o

d e senvolvimento e a criativ idade . Pa r a que e ste modo e mo -

cional de operar seja perceptív e l é nec e s s ário que o a nalista

d e senvolva uma sensibilidade muito acurada e sutil de suas form a s de manife s tação na personalidad e adulta . O e studo da arquitetura e mocional d o b e b ê abriu as

p o rta s para a inves tiga ç ão das atividad e s m e ntais p r imiti v as caract e rísticas dos estad o s psicó t icos e , em a l g un s cas o s ,

durante a s essão como equivalente à associação livre do

pe

rmitiu tratá-Ios . Suas ob s ervações pr o p o rcionaram um

adulto , o u s eja , com o discur s o alocutório cujo s ignificado em o ci o nal e ra e qui v alent e ao sonho do adulto.

de

falar a e ste s aspectos mai s infantis e a nú c leo s mai s p r imi-

s en vo l v imento muito grande das po s sibilidad es de se

 

A

o analisar se u s pequenos pacientes, desenvolveu um

tivo s da p e r s onalidad e .

e

nt e ndimen to muito profundo do f uncionamento emo-

Um analista kleinian o procura di r i g ir- se dire tam e nt e

c

ional d o se/f infantil . S ua apreensão do mundo interno

ao f u ncionam e nto emo cional de s e u pacie nt e , bu s cando

infantil e das formas

p o r meio das quai s a s emoç õ es ali

m

o s t rar n ã o ap e nas como e le é c om o p e s s oa , mas co mo

adqui r em s ignificado contribuiu para o entendimento da

es

tá se nd o , i sto é , como ele e strutura sua s e m oçõe s a par t i r

p ers onalidad e adulta com s eu s nú c leos infantis incrustado s

qu e per s i s t e m p o r toda a vida .

mundo adulto e suas raízes na

infân c ia " ( 194 9) , s intetiza al g umas de suas descobertas.

N ess e tr a balho , ace ntuou que o e nt e ndimento profundo

d a pe rs onalidad e da criança é a base para a compre e nsão

da vi da soc ial . E s creve e la : "(

d e s e n v olvi na psicanáli s e d e criança s muito pequenas e

ou t r os a va n ços resultante s d o meu t r abalho permitiram- me t i rar no v as c o n c lu s õ e s s obre estágio s muito iniciai s da

infância e c a madas mais profundas do inconsciente (" ' )i e m uma p s ic a nálise o paciente rev i v e em r e lação ao psicanalis-

ta s itu a ç õ es e e m o ç õ e s muito arcaicas. Portanto , a r e lação

c o m o psicanalista de v ez em quando enc e rra , mesmo em

E m s e u artig o " N o s s o

) a técnica d e brincar que

MELANIE KLEIN em 1955, durante congresso da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) realizado em Genebra

WWW . VIVERMENTECEREBRO.COM . BR

de nú c leos intern o s atribui dor e s de s ignificado às v i v ências

e às r e laç ões enquanto estas estão o c o rre ndo .

K lein a m pl i a a n o ção de incon s cie nte ao pr o po r qu e

este é h abitado sob r etudo por fantasias considerada s p o r ela representante s mentais da s pul sões i n s tin t i v as . Pascal dizia q ue os in s tintos são a s r azõe s do c ora ç ão s o br e as quais a r azão nada sabe. Klein procu r a decifrar e s sas ra-

zõe s do c o raçã o através da compre e n s ã o do se ntido e do significad o das fantasias . Essa tem ex i s tência s ob a forma de uma repres entação figurativa , tal como um f r a g m e nto

de cena , que e v o ca e s tad o s e significado s a fe tivo s qu e p o r

s ua vez o rg anizam a s emoções enquanto a s vivemos . Na per s p e ctiva kleiniana, todo impulso instinti v o é dirigido a um o bj e to , palavra técnica qu e d e sig na uma repre s entação mental de uma pulsão o u in s tinto. Ao fa - larmo s de objeto , imago , r epresentação inte r n a , estam o s no domíni o da fantasia inconsciente . Klein e s c r e v e : " E s s as imag os, qu e são uma imag e m di s torcida d e f o rma f antá s tica

VIVER MENTE&CÉREBRO

7

MENINOS DE RUA BRINCANDO (1890) , tela da artista inglesa Dorothy Stanley

d os objetos reais em que est ão ba sea d as, se i n stalam não só

no mundo e x t ern o , m as t a mbé m d e nt ro do ego , atra v és do pr o c es so de i nc or p o ra ção " . Eli s a M a r ia de Ulh ôa C í ntra e

Luís C l áudio Fi g u e i re d o ( e m Me1anie Klein: estilo e pensamento)

e nfatizam qu e Melanie Kl ei n tinha uma e x tra ord in ár i a

capacidade pa r a tor n a r v i s í ve i s processos m e n t ais inta n- gív e is . Eles citam Kl e in e c o m e ntam : " Senti r os p a i s co m o

s e f ossem pessoa s v i vas d e nt ro de seu corp o d a m es ma

maneira concreta qu e pr of undas fantasias inco n s cie nt es são vividas. Isto é , s e e s s es pais ' internos ' se amam , se v i vem em harmonia , dess e mundo interior brota , de forma viv a ,

um princípio de ord e na ção qu e ajuda a transf o rma r o c a os

interior em co s mos . P o r o utr o lado , se estão e m g u erra , em litígio , o ca o s se ad e n s a e se a pro f und a " . As f antasias do b e b ê e x i s t em mui to inicialme n te so b a fo rma de sen s a ções, qu e aos p o u cos a dqui r em um a f i gura bi l í - dad e in t e r na . Um o bj eto inter n o , co nc ei to d os m ais centrais

( e mist er ios os ) d e seu s i st ema , é uma esp é c ie de cida d ão

do mundo int e rn o , u m a re p rese n t a çã o fig u rativa capaz de

e v ocar afeto s , com o se ti v e sse u ma vi da p ró p ria. A mãe , ou s ua re p rese nta ção p a r c i al com o seio a l irnen - tad or , s e con s ti t ui nesse sentid o n o pr imei ro objeto i n terno

d o b e b ê , podend o a d q uir i r qua l idade s b o a s ou m ás , co n- for m e a f u nção exerc id a. T omemos co m o e x e m p l o o caso

d e um beb ê co m fo m e. Es t e sen t e fo m e com o parte de seu

funcionament o f i s i o l óg i co.

Ess a f o me t amb é m é v i ve n ciada

p rimeira s n ecessidad es orgâ ni c a s , o b e b ê é d o minad o p or

u m m e d o d e d es in tegração ,

" ansie d a d e d e m o r te" . E la p os tula que

qu e Fr eud cham o u d e in s -

tinto d e m orte e q u e se c on t r ap õ e

ao seu o p osto , o in sti nto d e vi da. Do pon to d e v i s ta d o fun c io name n to m enta l , p o d e mo s de s cre ver o em bate

d e v ida e o d e m o r te d a

d e uma estr u tura i n sti n t i v a ,

algo que Klein d e n o min a

es ta é o r igi n ária

pe r man en t eme nt e

p

seg uinte m a n e i r a : d i a n te d a pr es são e xe rcida n o n ív el

mental pela s n ecessid a de s

er manent e

e n tre o in s tint o

fís i c a s ligada s à s obr ev i vê n c ia ,

[

A MÃE, OU SU~ REPRESENTAÇÃO PARCIAL COMO SE!O] ALIMENTADOR, E O PRIMEIRO OBJETO INTERNO DO BEBE

n

está se constituind o , sob a f o rma de uma r e p resentação figurati v a , uma pre sen ça co n cre ta d e um obj e t o qu e frust r a. Ass im , a fome é v ivida co m o fru t o de uma a ç ã o co n creta

d e al go realment e ex i s t e n te d e n tro del e e v i vi da como uma

f i g u r a pers ecu tór ia . Es te adqui re a s qualidad es de bom o u mau de aco r d o co m os sen t im e n tos q u e evo c a. Bo m quando alim e ntad o e m a u qua n d o não satisf ei to.

o mundo psicoló g ic o, d e ntro d e uma subje tivi dad e que

P r o gressiv am e nt e , ess e s o b jetos inte r n os re p resentan-

te s d o mund o exter n o , a ssoc ia dos a moções pul sionais

( a g re s s iv os , am orosos) se o r g an iz am e m n úcleos e vão

con s tituir uma e spécie d e te atr o in te rn o o n de os s i g ni fic a-

d os para as e x pe riê n c ia s v i v ida s s ã o g e r ad os e p assa m a d ar

s en t ido às a çõ e s , cre n ç a s e pe r ce p çõ e s , a ssi m co m o a u ma tonalidade a f eti v a que c o l ore s ua s relaç õ e s c om o m u n do ex terno e inte r no . Esses "c limas " e mocionai s s ã o expressos

e evocados atrav é s da s fanta s ia s inconscient e s . Logo ao nasc er, quando e ntra em conta to c om s ua s

o bebê é colocad o diant e de duas possibilidades :

o r g aniza para s ati s fa zê -Ia s o u para negá-Ias . Kl ei n , p re - tend e ndo se g uir Fre ud , co n s ider a que ao se or g anizar p ara

sati s f az e r suas n e c essidad es o beb ê está s o b a in f lu ê nci a

d o i n s tint o d e v ida e , a o n eg á-Ias , sob a influ ê n c ia

do

i n stinto de mort e .

m or t e v i v ida com o um i m -

pul s o v oltado co nt ra si qu e ame a ç a a s ua c o ntinuidade

e x i s t e ncial se tran sfo rma

d estr utiv idade . D e form a

a dar c o nta d e s s a am e a ça v i-

d e

o u se

E m Klein , a pul s ã o d e

na ba s e do se n t im e nt o

vi da como an s i e d a de de morte , a c r iança p ro j e ta pa r a o

e

x ter ior as qualidad es d estr u t i v a s deste estad o d e es p í ri to

e

, p o r algun s m o m entos ,

a p esso a q ue dela cuida ( a m ãe ,

ge ralmente ) é c o l or id a p o r es ta t onalidade am e a ç ad or a

que a g ride a cr ian ça. T o rna -se , na lingua g em p s ica na lí-

tica kleiniana, um o bj e t o mau e assim é int er nalizada .

Q uando esta mãe a s a t i sfa z , atendendo-a ,

ansiedade , ela é inter naliz a da como objeto bom , capaz

con te nd o s ua

8 VIVER MENTE&CÉREBRO

ESPECIAL MElANIE KlEIN

de compr e en d ê-Ia , cuidar dela e se to r na font e de segu-

r ança . O r ecém - nascido v ive um mundo de e x tremo s,

p ov oado por obj etos bon s e o bjeto s maus n u m e mbat e

pe rman e n te . Ao p ost ula r e s te ti po d e f u n c i o nam e nt o m e ntal , M ela-

n ie Klein c r ia uma p s icanáli se v oltada para a de scr i ç ão e a

compreen s ão dos e s tados a fe tiv os e a natureza da s r e laçõe s

e s tabel e ci das com o mundo interno e ex terno . Sem n eg ar a imp ort ânci a d o pa ssad o hi s tó r i co , i s to é ,

da s rep ressõ e s incon s cient es ac umul a da s du r ant e o de s en- vo l v im e nt o como fat ores pr o du t ore s d o d ese n vo l vi m e nto , t anto n ormal quant o patol óg ic o ( da for m a com o F r e ud o faz ), M e la n ie Klein in t roduz uma co nc e pção part i cu l ar do desenv o lviment o human o . Não s ã o s ó as e x peri ê ncias

v ivida s co n s tituída s no pa ssad o hi s t ór ic o que ger am o

intern o e o exte r no , atuados a t ravés d e um movim e nto pe r - manent e de projeção e in tro j e ção d e es tados de e s pírito .

De ce r ta forma , a ansiedad e de mort e torna- se o do d ese n vo l v ime n to.

moto r

ESTRUTURAS PRECURSORAS

Ao n a s cer , o beb ê ainda não tem um eg o, o u um self constituído , mas estrutura s precursora s deste , tornando-o

c apa z d e s entir an s i e dad e e d e se d e f e nder dela p o r mei o de p ro jeçõ e s e in troj eç ões. Ess as e struturas pre curso r a s

( nunca in tegr a l m e n t e d e fin i da s po r Kle i n ) do ego do beb ê

pod e m

para f o r a. Assim, não são apenas o s e s tados

pertu r badores qu e são proje tados para fora , mas p a rtes da pr ó p r ia personalidad e . A qui tem os mais uma das gran-

de s n ov id a de s da p s icanálise kleiniana. Isto s i g nifica qu e po de mos p er d er fu nç ões m e n t ais , viver parte de nossas

v idas p rojet ad os ( e m f antasia ) n o mund o i nter n o de out ra pessoa . O u podemos ter parte d e no ss a s v idas vividas em id e ntificação com aspectos da vida de outre m . K l ein

denomina este mecanismo identificação projetiva.

Do nald M elt zer , um d os co ntinuad o r es de Kl e in rec e n -

t e m e n te f ale cid o , d e fine a id e n t ific aç ã o p r ojeti v a como o

n ome d e uma f antas ia inco n s cien te o n i potente qu e a feta

a s rela ções e n tre a s par tes d o self e d os o bjeto s t anto n o mund o i nterno como no exte rno. A importância desse

c once ito p ode s er avaliada a o dizerm o s que boa parte da

ps i c an á l ise de 1 9 50 para cá tem se dedicado a es tudar a

fe no men olog ia d a identificação projetiva.

di vi d ir- se o u exc indir-s e (split), e s er projetadas

de e s pírito

Em Fre u d, o qu e e r a pr ojet ado pe r dia- s e , poi s e ste c o n- ceb ia a proje ç ã o c o m o um pr o ces so s imilar à ev a c uação . Já e m K l e i n , aquil o que é p ro j etado p ara fora , i s t o é, para de n tro de um obj e t o, não só não é p e rdido como também

co nfe re nov a i dentidade

a es se objeto . Um indiv ídu o

d

es en v ol v iment o e a s patol og ia s. K l ei n parte do co nceito

a

gress i vo , por exe mplo , que projeta s ua r aiv a para fo ra , não

d

e i nst int o d e mo rte amp l iand o - o e re la c i o nand o - o co m o

s

e lim ita a n e gá - Ia e atribu í -Ia ao outro . Ao diri gi r s ua raiv a

me do d e n ão s obr ev i v e r, t r an sfor mand o - o

a s sim em n os sa

e

m di reção ao o ut ro , o indiv íduo to r na- s e temer o s o do

p rincipa l fo nte d e an s iedad e.

Ao fazê-lo, ela re define n ossa rela ç ã o com o passado

his tó r ic o e c om s ua fu nção na constitui ç ão

t i dad e. N ão s ão apena s o passad o hi stór i co e a s re pr essõe s

ac umulada s du r ant e a v ida qu e se t o rn a m part e d e n o ssa

su b je t iv idad e e a per turbam . A nt es m esm o da f or maçã o

do ego e d o s up erego

gat i v a (pulsão de mor t e ) atuando , gerando defe s as contra

a ns iedad es i n i c i ais , que vão , a os pouco s , s e corp o ri ficando em estrutu r a s.

Aque l e nada que precede r ia o beb ê não é u m v azi o!

do b e b ê , j á ex i st i ri a uma fo r ç a ne-

de no ssa iden-

Ele vem p reenchido d e fo rças pul s ionai s que ame aç am a i nte gr idade do beb ê , s ua unidad e , gerand o uma an s iedade d e aniquilamento e um intercâmbio inten s o entre o mundo

WWW.VIVERMENTECEREBRO . COM . BR

r ec e p tor par a den t ro do qual se us mau s sentiment o s

pr ojeta dos e , a o m es mo tempo , de s tituído d e pot ê nc ia. Es t e c on ceito modifica tanto a técnica psicana l íti-

c a c o m o n oss a

desen vo l vimen to ,

fo r am

co ncepção das rela çõ e s humana s e d o

e é resp o nsáv e l

pela p r e o cupação

OS ,~LJ rORES

ElIAS MALL E T DA ROCHA BARROS é a n a l ista d i data da Socied ade Bras i leira de Ps i can á l ise de S ão Paulo, membro tit u lar d a Soc i edade Britâ nica e editor do International journal of Psychoanalysis. R ecebeu o Prêmio Sigourne y (1999), da Un i versidade Columb i a , p e l a s sua s contribui ç ões no s ú ltimos de z anos .

E lIZABE T H LIMA DA ROCHA BARROS é ana l ista didata da So-

c i edade Brasilei r a de Psica n á lise de São P a ulo, membro

titular da

Socied a de Britânica, DEA pela Sorbonne , e traba l hou na Ta v is t ock Clinic, Lond r es.

VIVER MENTE&CÉREBRO

9

ROMANCE FAMILIAR. Melanie K l ein, a fi l ha Me lit ta, com quem te r ia u m r e l acionamento con flit uoso, e Hans (um de seus filhos homens, ao l ado do caçula Erich)

co m áreas at é então não tratadas em psican á l ise como s e u fo c o centra l . A

n a tureza d os af e t os e n v ol v id os nas re-

lações h u m a n as em g e ra l , ass i m como presen tes na r e la ção ana l ítica , t o r n a - s e objeto d e o bservação e i n v est i g a ç ão . O ama du recimento em o cional d e p e nde d o esta b e l ec im ento d e re l ações e m ocionais ge nuína s e í n t ima s entre as p essoas. E ssas

p r eo c u p ações orig in a m- se na defin i ção

de i de n t i f i cação proj e tiva qu e i n troduz

a idéia de que os indi v íduo s p o d em v i ver

s imult an eam e nte e m di v ers os m u nd os

o

(em fa nt asia ), ta i s como

i nt erno , o mun do i nt er n o do objeto interno ou o mundo

i nt ern o d o ob j e t o

co m o as p rojeções são concr e tamente v i v idas c o m o r e a is,

exter no . Isso oco r re e m fantasia , mas

o ex t e rno ,

e s tas v i vê ncias adquirem lórum d e re ali da d e , p o i s o i ndi - víd u o perde a capacidade d e di s c r imin ar e n tre a reali d a de

in ter n a e ex terna .

P a ra M e l tzer , ess a h ipót ese rep r e sen ta um g r a nde

avanço sobr e Freud , p o r propor c ionar , através da in teração

do s proc esso s projetiv o s e introj e tivos , um a c onc e p ção de um teatro interno ond e os s i g ni f icad os da s ex p eriê n c ias emocionai s s ão gerad os e qu e , p o r s ua ve z , forn e ce m o cen ário d e ntro do qual se d ese n vo lv e m as re lações e m o -

c i ona i s . E s t e mundo é consti t uído por um flu x o contí n u o

de fa n t a s i as inco n sci entes e é constr u í d o p e los meca n i s mos projet i vo s e introjeti v os i ntrí n s e cos ao mod o de o p er a r da

m ente h umana.

o MUNDO INTERNO

U m do s conceito s centrai s da t e oria de Mela n i e Kle in

é , como temos visto , o d e mundo int e rn o .

in t ern o , é pr e c i so diz e r , nã o

O mu ndo

é ape na s o r e fle x o s ub jet i v o

ex terno , s ua repre s entação e m dupl o. jean

do m u ndo

Laplan ch e , um do s g randes m est res da p s icanálise co n - temporânea , comenta : " Estas ima g os ( int e rnas) nã o são a

le m bran ça de e x peri ê n cias r eai s mais antig a s ; sã o o dep ó -

si t o i nt rojetado d esta s e x per i ê nc i as, ma s m o d i ficad o p e l o

pró prio processo de in tro j eção" . Ass i m , a r eprese ntação inte rn a q u e o bebê faz do mundo é re s u l tado do pr ó p r io processo através do qual ela se internal i zo u , s end o e s te,

po r s u a ve z , g overnad o pela natureza da an s ied ade

g e ro u . Aq u ilo q u e é introjetad o

m e n te p roje t ado e col o r i rá a nat u reza d o re c e pt or d e s ua

q u e o nov a-

ser á , p or s ua ve z ,

projeção , podendo se r i nt rojetado n ovamente , m od i f i c a do

e assi m suc e ssivamente. Em s ínte s e , o m u ndo inco nscie n te, de aco r d o com

Kl e in , é mu i to di fere nte do d e calq u e esq uecid o da noss a

i n fâ ncia . A repre se n tação

da r e alidad e neste c o nt ex t o

é

p e rmea da pela e x i s t ê ncia d e fantasia s inconsci e ntes .

Es

tas por s ua ve z t ê m sua o r i g em nu m a determinaçã o

anterior à h i s tória e a o desenvolvi m e n to d a li n g uag e m .

Sã o ante riores, p o rta n to , ao co mp l e x o d e Édipo ta l q u a l

o postula F re ud .

F re ud a c redita va que o mund o intern o da crian ç a er a

r ee ditad o

de

este p r oc esso de tran s f e rência e o compara a um processo de reedição de um liv ro em nova versã o . No prese nt e

na sua r e lação co m figuras d e seu ambiente ,

an a lista durante o tratam e n t o. C ha m a a

ntre e las a do

a

s pessoa s reeditam relaçõ es passa d a s . Esse processo ,

p

a r a Fr e ud , não é a t uante de s d e o come ç o d a v ida , mas

so men te d e po i s da r e so lução d o compl ex o de . Édipo , que

v ai instaura r uma dife rencia ç ã o entre pre se nte e passa d o na m e n t e do i ndiv í duo.

K l e i n acr e d itava que a s transferê n cias para as f i gur a s do

mundo e x t e rno e , portanto , para o a n a l i s ta , são possí v e i s

d es de a t enr a infância , tornand o a anális e v iável d e sd e ess a

ép oca . E s ta posiçã o g ero u uma pol ê m i ca e m 192 7 c o m a f i -

l ha de Fr e ud , A n na , que não a cr e ditava n e s sa poss i b ilida d e.

N e sse s e n tido , à objeção feita por A nn a Freu d , q u e i ns i s ti a

na imp ossi bi lida d e de a nali sar cr ian ças po r nã o d ese n v ol -

ve rem e sta tra n sfer ê nc i a , K l ein resp ond e: " A a n álise d e

c riança s p e quenas mo s trou-me que uma criança d e 3 a n os

já a t r a vesso u a parte mais imp o rtante do d es env o l v ime n to

d e seu c o mplex o d e É dipo. P o r c o nseguinte , a repressão e

a culpab i lidade j á a d i sta n c i aram con s ideravelmente d os

o bjet os qu e ela d e se j o u ori g inalment e . Suas relações com esses obj e tos já sofre ram m o dificaç ões e d e formações d e

que os o b je to s d e a mo r atuai s s ão ima g os d os

o bjeto s o r i g in a i s " . ( tr a du ç ão l i v re )

t al o rde m

M e l a n ie Klein es t av a , e n tã o , f az end o a f i r m a çõ e s q ue iriam

r e v o l u c i o nar a p s ica n á li s e n o s a n os s e g uin te s e qu e co nstitu i -

ri a m o s e l e m e nto s ma i s or i g inai s de seu s i s t e ma .

paran ó i de ou d epr e ss i v a , d e t e rmina a n a tureza d a c onste -

l açã o d e fe nsiv a e struturante do e go. A n s iedad e paranóide

é aqu e l a que é v i v i d a co m o uma a m e a ça à so b r e v i vê n c i a ,

à i n teg rida d e d o eg o.

o bj eto

nã o d e amor. O e g o é t o m ado pela ameaç a d e d es trui çã o ,

v i v id o por seu s s e ntimen to s, de scon t ex tuali za d o d e qual-

Nes t e co nt e x t o , a s o b r ev i vê ncia d o

n ã o es t á e m j ogo , p o i s e l e é só fo nt e d e a m e a ç a ,

A

NATUREZA DA ANSIE DADE DETERMINA A

]

[ CON STELAÇÃO DEFENSIVA E STRUTURANTE DO E GO

E l a af i r ma , p or tant o , qu e a p r ópri a r e lação c o m os pai s

r eai s com porta já c e r to g r a u de tran s f e r ê ncia . A questão

es s e ncial e n v ol vi d a na tran s f e r ê ncia não é a r e la ç ão pa s -

s ad o / pres e nt e , m as a q uel a ex i s t e nt e e n tre mund o intern o ,

o n d e os s i gn ificad os s ã o ge ra d os, e mun d o e x t er n o . Decorre d esta co nc e p ç ã o a id é i a d e q u e o r e p e t ido n a tran s f e r ê n cia sã o as rela çõ es d e ob j e t o v i g en t e s n o mun -

que r co nt ex t o hi stór ico . Não há a p r e s e n ç a d o t e m po , não e x i ste antes n e m d e p o i s , não h á , portant o , histór ia no es p a ç o inte rn o d o minad o p o r es t a d es trutiv id a d e . Es t e

tip o d e a n s i e d a d e d e termin a o tip o d e d e f e s a m o bilizad o

d o ego. S ã o es t a s a c isã o

pa ra p rotege r a so br ev i vê ncia

( di v i sã o d o self e / o u d o o b j e t o ) e iden t ifica ção

p rin cip a l ment e. Kl e in d e n o mina posição, ou t ro d o s co n -

p ro j e tiv a ,

do int erno, e n ão co mpo rt am e nto s específic os, s impl es

 

es t a c on s t e l a ç ã o con stitu í da

p e l o tip o d e

h

á bit o s . A ss im , uma mãe p er f e itam e nt e adequada , cheia

ceito s - c h av e , an s i e da d e

e os m o dos d e d ef esa m o bilizad os

p e lo ego

d

e am or e c uida do s a pod e ser v ivenc i a da pel o b e b ê ( e m

p ara d e l a se d e fen d e r. P o s i ç õ es d ef i n e m um a es p é cie d e

decorr ê n c ia d a p ro j eçã o d a a n s ie d a d e e / o u d a a g ressi v i - da d e d es t e ) com o al gué m in ca paz , p erse c u t ó r i o e mesm o am ea ç ad o r .

En t re o utro s t e mas int ro duz i dos p o r Melani e Klei n

na p s i ca n á li s e , p o d e mos diz e r q ue e la a p rofund a , mai s d o

qu e qua l q u er o u t ro a u tor , a p r o b lem á t i ca da s c o ndi ç õ e s nas qua is n o s s as an s i e dad es p o dem ser ( o u imp e d i da s d e

se r ) simb o liz ada s.

sob r e o

d e

s i g nifi cado s para a ex pe r i ê nc i a e m o ci o nal confr o nta o ser

apa r e l h o m e n ta l p a ra e xe c u ta r essa tr an s f o r m a ç ã o

A p ress ão e xe r c i da p e l a s fo rç a s in s ti nti v a s

h uman o com a in s u f i c iê n c i a do s in s t r um e nt os ( sí mb o lo s )

d i spo n í ve i s par a a c o mu nica ç ão in t e r na , o u seja , par a

pe n sa r . N es sa c o n fronta ç ã o , c ada

alarg a r se u m u n d o s imb ó l ico para lutar co m a n e c ess i d ad e

de co m unicaçã o

c o m o pa r a p od e r d ese n volv e r u ma v i são abran ge nt e do s

a ssi m

um d e n ós é obr i g a d o a

n os m und os i nt er n o e ex t e rn o ,

m

un d os ex terno e i n t e rn o e m to da a s ua c ompl e x idade . O apa r el h o ps í q u i co a sse n ta - se s o b r e um a malha d e

re

pres e n taçõ e s to m a da s c o m o ex pr essões men ta i s d as pu l-

sõe s at r a vés d as quai s es ta s c i r culam e , por f im , co n st itu em

a b a se d a m e m ór i a , u ma m e m ó r ia na for m a de sen t im e nt o s

(memory in feelings)

das e xp e ri ê n c ia s e m o cionai s v i v ida s

co m o b as e d e um a me mór ia afe ti va. P a ra K l e in , a n at ur eza d a a nsi e d a d e , s u a q ualidad e

NA C ONCEPÇÃO KLEINIANA de inconsciente, a razão se torna colorida pelas emoções, deformando as percepções e a imagem que formamos do mundo. Ao lado, Estudo para "Dia" (1 8 98 - 99), de F e rdinand Hodler

WWW. VIVERM E N TECE R EBR O. CO M .B R

ó ptica m e n t a l . E são d ua s: a posiçã o e sq ui z o para n ó id e ,

q u e já d es c r e ve m os ,

por u m a a n s i e d a d e d e p er da d o o bj e t o d e

seu a m o r e se or g a ni z a p ara s e prote ge r desta e x p e riê n c i a

d o l oro s a , mobil iza ndo de c a ráte r paranóíde.

Fr e u d abo rd o u o i nc o n s c i e nt e n ão - rac i o n a l a d o tando as base s e pi stemol óg ica s d o racio nali s m o ilum i ni sta , p ro cu - ra n d o es t e nde r o d o mín io da ra z ã o pa r a o mund o d a s emo - çõ e s . K l e in b u sca d es cre v e r co mo a ra z ão s e t o rna c olorid a

d e f es as d e n atureza dife r e n te d a

é d o min a da

e a p os i ç ão d epr e ss i va . Es ta últi ma

VIVER MENTE&CÉREBRO

11

A NN A FREUD afirmava

postura à qual Melanie

ocorr i da em 1927. Ao lado , Bom dia, querido pai, tela

d e Friedrich Edoua r d Meyerheim (século XIX)

ser impossível analisar crianças Klein se contrapôs em polêm i

po r no ss a s emo ç õe s, d ef ormando no s sas percep çõ e s e a ima g em qu e f ormamo s d o mu n do e pa s sam a tute lá- I a. O sign if icado e m oc i o nal da s e xperiências nã o n os é dado p or uma f aculdade independ e nt e idealizada c o m o r azã o, uma faculdad e capaz de operar fora de uma zon a d e c o n fli to s,

não é negação , mas contra-inves t imento. É e st a caracterís tica que o distingue de outros modo de operação incons c ientes através dos qua i opera , por exemplo , nossa biologia.

negaçã o e

recusa são operações mentais defensivas d es- cr i tas por F reud que têm por objeti v o protege o ego da ansiedade excessiva produzida pel o

contato c om uma experiência que n ã o pôd e

s e r assimilada. Todos estes m e canismos de

d e fesa , ao eliminar conteúdos mentai s ( id e a-

cionais ou a f eti v os ) da consciência , interferem no acesso à realidade. Klein acrescenta a este s

dois outros: a cisão e a

mecanismos d e d ef esa

identifica ç ão projetiva , como já vimos . Através desta , não apenas conteúdos podem s er elim i - nados da m e nte humana , mas a própria mente pode prejudicar-se cindindo e projetando sua s

f aculdades. Temos aqui uma nova perspectiva

em rela ç ão à patologia e à que s tão do sentido de realidade. Em Klein , as emoções passam a ser con-

Os mecanismos

de rep re s s ão ,

s id er adas na personalidade algo comparável ao te c ido

conectivo e operam como elo s entre os dive r sos níveis das instância s psíquica s e as vivências correspondentes. Bion , um dos mais c riativ o s c o ntinuad o re s do p e n s am e nto klei- nian o, des e nvolv e rá e ste aspecto com grande riqueza.

MELANIE KLEIN MOSTROU Q UE A RAZÃO E O

]

[ PRINCÍPIO DA REALIDADE NÃO EXISTEM NO VAZIO .

mas p e la o r g anização da s e moçõ e s que v ão co l or i r nossa razão t r an sf o rm ando-a e m c r enças e percepçõe s.

F r e ud escreve em O futuro de uma ilusão: "N ão tem os o u t r o

meio . de contr o lar n oss a natur e za instinti v a a não s er atra v é s

de no ss a inteli g ência. Co mo pod e r e mo s e sp e rar que u m a pessoa s ob o do m ín i o da proibição de pen s ame nt o atinja o id e al p s icoló g ic o do pred o míni o da int e lig ê ncia ?".

D e sd e o iní c i o, os psicanalista s col o ca r am-se a ques-

tão de c o mo e por que o indivíduo se a f a s ta da realidade . Inicialm e nt e a r esp osta era atribuída ao e x ces s o de ten s ão

produzido pela an s iedade ,

Tud o aquilo que perturbava o equilíbrio pul s ional e ra reprimido , i s t o é , retirad o da consc iência e mantido incon s ciente. O inconsciente de que a p sic análi s e f ala

o qu e levava a r e p r essões.

12 VIVER MENTE&CÉREBRO

Para Melanie Klein e seus continuadores , as pessoas

não sofrem apenas de car ê ncias, traumas ou repressões.

E las sofrem também de falta de experiê ncias emocionais

que propiciem um desenvolvimento / crescim e nto. Nesta perspectiva , não basta que a psicanálise seja efetiva no

l e vantam e nto de repressões que possam imp e dir cer t os

pensamentos ou sentimentos

cie um ambiente facilitador que permita reparar situações de car ê ncias passadas que possam criar um s entimento de não aceitação. A pr e sença da cisão e da id e ntificação projetiv a aponta para uma m e nt e f r a g mentada , na qual as di v ersas instâncias ps í quicas não se comunicam , qu e é incapaz de simbolizar e , portant o, de pensar a s emo ç ões de fo r ma mais r ica , criando uma a t mosfera interna de vazio ,

de virem à luz ou que propi-

ESPECIAL MELANIE KLEIN

de falt a de sentid o para a v i da . N e s ta s co ndi ções cer t os pensament o s nã o chegam sequ er a s er e m fo rmulados e ,

p o r t anto , a p ró p r ia cap acida d e d e pe n s ar fica i nib i da

da s

c o ncep ç õe s kl einia nas , n ão d e p e nde ap e na s do levan-

ta m e n t o de r epre ssõ e s ( int ern a s e exter na s , p o deríamo s

A l i b e r d ad e

d e pe n s ar , seg undo as impli c a ç ões

É a través da sensu alidad e e da ação que ela e x per i e n c i a m u n d o e de l e pa r tic i pa . A ca pacid ade d e o b serv a ção e d e d ista n ciame n to da ação , ne cessá r i a p ara a e lab o-

o

r a ção do pensa m en t o , es t á q u ase aus e nt e n o modo d e

f uncionam en t o

d i zer , refratária a ex amin ar o sig nific a d o

mental infantil. A crian ça é , por as s im

d as c o isa s e

d

i z er ), m as tam bém da recu p e r aç ã o d e fu n ções m e ntai s

e r d i d a s qu e permit am pe n sar e x per iências n unca ant es

d

a s v i vên cia s , co mp ortando-se como se só e x i s tissem

p

ob j etos exter n os .

v

o mo d o a d u l to d e f u ncionam ento oper a basea d o n a

 

i v id a s ou p e nsa d as . Uma da s impl ic a ções d as co n ce p ções d e Mela n i e

r

e l ação c o m

os o b jetos

in t er n os , d os quais t ira s ua in s p i-

K

l ei n está em m ost ra r qu e a pró p ri a r a zão

e o p r in cí pi o

r

ação e com os q uais se id entifica. O p era mais através d a

da r ea l i dad e n ão ex istem

l u g ar e a ss im es t ão tamb é m su j e it os a con f lit os, bl o queio s

e i n s uficiên c i a d e de s envolvim e nt o . Ao m o d e lo amplifi-

n o v a z i o , pr ov ê m d e al g um

ca d o que in c luía n ã o apen as m ec anismo s d e d e f e sa par a

el im i nar c o n teú d o s d a c o n sciê nci a , ma s i g u a lmente a

poss ib i lidad e

cin dir e m- se como fu n ções mentais q u e podem ser el imi -

na da s , fo i a cresci d a a i d éia de que o fu n c i oname nt o

razão p o d e ser desafiad o pe l a li mit a çã o d as e x per i ê nc ias

e m oc ionai s e pe l a p r ecari edade

da s fu n ções me n tais à s ua

d e o pr ó pr io ego e seu s o b je t os in t e r nos

d a

d

i s p os i ç ã o. Ness a p ers p ectiva , a san i dad e m e n ta l basead a

n

o fu ncionam e n to raci o nal e n o co ntato sati s fa tó rio c om

a

re alidad e é se mpre du ra m e n te c onqu is tad a

t o da v ez

q

u e o eg o é s ubm e tid o

a tensões.

REDEFINIÇÃO DA PATOLOGIA

Nesse d esenh o

d a estr u tura psíq u ica huma n a , o l e-

va ntam e n to d as

à s anidad e n e m a uma capacidade d e aprofu nd a m e n to

rep ressões , por si só, não con du z n e m

d

o co n t at o

co m

a realidad e e n ão t orn a o u so d a ra zão

p

l e nament e efe tiv o. Uma da s impli c a ç ões d as obser vaçõ es e h i p ó t e s e s kl e i -

ni anas é a d e q u e a p e rsonalid a d e é c o n s ti t uída d e di v ersos

níve i s qu e atu a m ora e m co n son â ncia e h armo nia , or a

e m co n f li to a b erto q u e p o d e i n c l usi v e p a ra l is á-I a. Ass i m , aspectos in fa n t i s d a p erson a lidade a t u a m si m u l ta n ea m e n te com as p ectos adu l tos , or a domi n an d o a personalid a d e , or a

se nd o m a is b em i n tegr ad os nesta . Ess a s di versas in s t â n cias po d e m o u n ão estar e m co m unic a ção e nt re s i e com o mu nd o e xter n o.

O

s a s p ect os

in f anti s tê m s u a ex ist ê n c i a

n o nú c l eo

da p erso nalidad e que se d ese n vo lv e mai s próx imo d o

co nta t o com a s n eces sid a d es

d e se n s a ções

crianç a n ão esp e ra , e la deseja e q u er ser satisf e i ta im e d ia -

tame nt e. S u as necess i da d e s t ê m u m cará t er impera t i v o .

cor p ó rea s , aco mp a nhada s

d e u rgê nc ia e im pul sos p ara satisf a ção . A

A ESTRUTURAARCAICA das emoções infantis, segundo Klein, persiste ao longo da vida e interfere na mente adulta. Ao lado,

C/aude com dezesseis meses na sua cama (1948), de Pablo Picasso

WWW . VIVERMENTECEREB R O . COM . B R

observ a ção e da refl ex ã o e caracteriz a- se p e l a possi b i lidad e

d e pos t ergar a aç ã o, de ex ami n ar a qu estão p or vá rio s â n -

g ul os , d e se r a o m es mo temp o o bservado r e pr o tagonista em uma re l ação.

A concepção da psica náli se co m o uma prá tica v ol t ad a

de c om un ica ção - tan to d as in s t ânc i as

para fen ô menos

psíquicas e ntre si como d essas co m o a m b i ente social que

p e rmeia o c o n t a t o com a r e alidade - d e m an d a , entre outras

implicaç ões , uma redefinição do q u e p ossa ser uma tera -

p ê utica e , co n seq ü e n temente, u m a pa to l og i a . P atol óg i co

VIV ER MENTE& C É R EB RO

13

é tudo aquilo que impede a comunicação entre as diversas instâncias psíquicas e, portanto, entre seres humanos no nível emocional profundo (Tntirno ", na linguagem posterior de Bion ) e que, em conseqüência, impede um desenvolvimento/crescimento emocional. Se patologia é ausência de desenvolvimento / cresci-

mento emocional, a prática terapêutica da psicanálise visa interferir nos fatores que impedem a ocorrência de

de mudanças de comportamentos, já que é condição pa r que possa existir uma situação analítica da neutralida d valorativa. A neutralidade prática não é apenas uma d a condições para que ocorra uma análise, mas a condiçã principal para que a transferência possa se desenvolver para que possamos examinar as fantasias inconscientes qu permeiam as condutas. Bion utilizou-se da metáfora do parteiro da mente pa

situações promotoras de integração , já que a desintegração mental interfere no processo de produção de símbolos e

referir à função do analista. Da mesma forma que a mã exerce esta função ao cuidar emocionalmente do beb ê

se

torna a comunicação entre as diversas instâncias mentais

o

analista deve ser capaz de, através da função de rêveri~

difícil, sem que se amplie o universo dos significados

internalizar

e digerir as experiências emocionais que sã c

de nossas vivências , estreitando assim nossas vidas. É a capacidade de simbolizar que governa a possibilidade de comunicação, já que esta só pode ocorrer por meio

intoleráveis para o paciente.

É a capacidade de simbolizar que governa a possib i lidade de comunicação já que ~sta só pode ocorrer po

de

símbolos. Isto nos coloca a questão dos

fatores que

meio de símbolos. Isto nos coloca a questão dos fatore

interferem na capacidade de simbolizar.

que interferem na capacidade de simbolizar.

 

A

idéia de cura está intimamente ligada

à noção da

A função terapêutica da psicanálise se exerce atravé

psicanálise como terapêutica , embora a relação entre

da interpretação que consiste numa constante inves-

\

estes dois termos seja complexa e demande uma reava- liação crítica. Curar no sentido terapêutico é privilégio da medicina , em todas as suas acepções e , portanto, sugere um modelo médico para a psicanálise. Seria este adequado?

Se entendermos por cura o restabelecimento do esta-

do anterior ao sofrimento, certamente e le não pode ser

aplicado à psicanálise.

Não há nada equ i valente na prática

psicanalítica à função de um antibiótico , por exemplo. Recusar , entretanto, por esta razão, a idéia de que a psicanálise se constitui numa prática terapêutica, parece simplista. Os pacientes que procuram uma análise , na imensa maioria dos casos, o fazem por estarem sofrendo e buscam ajuda com objetivo de ter uma vida de melhor qualidade. Nos últimos anos, cada vez mais pacientes que sofrem de condições de caráter psicótico ou fronteiriço (borderline) têm procurado analistas. Há uma questão epistemológica presente na definição de terapêutica, sobretudo em relação àquela de Melanie Klein, quando a vida emocional está envolvida. De um lado, quando nos propomos como terapeutas, não pode- mos ter um objetivo previamente definido , como o médico pode quando trata, por exemplo , de uma nefrite ou de um cálculo renal. De outro, nossa terapêutica visa tornar atual o que é potencial. Ela objetiva realizá-lo e promover

um desenvolvimento. Patologia, no caso, é ausência de desenvolvimento. Nossos objetivos , ao nos propormos analisar um indivíduo, não podem ser definidos em termos

REPRESSÃO, NEGAÇÃO E RECUSA são operações defensivas

descritas por Freud, às quais Klein acrescentou

a cisão e a

identificação projetiva . Ao lado, Repressões (1928), desenho de

Austin Osman Spare

14 VIVER MENTE&CÉREBRO

tigação do significado das fantasias interpretação só é efetiva se promove

é interpretar? Em trabalho anterior (Rocha Barros, 1991 discutimos esta questão a partir de versos de T. S. Eliot

inconscientes . A

um insigbt. O que

We had the experíence but míssed the meaníng) And approach to the

meaníng restares the experíence/ In a different

(Four quartets;

tradução: Nós tivemos a experiência mas perdemos sua significação,! E a busca da significação restaura a expe-

riência/ De uma forma diferente

A restauração, aludida por Eliot, dentro da perspec- tiva da psicanálise kleiniana, ocorre no mundo interno,

).

Como analistas kl e iniano s, ao interpretar, trabalhamos com a idéia implícita de que nossa comunicação só será efetiva se conseguirmos interessar o paciente por nossa observação. Só aquilo que estimula o paciente a pensar sobre suas emoções tem chance de ser internalizado. O novo, quando encontrado , produz , em geral, medo. A presença de uma mãe capaz de transformar os aspectos per-

[ A FUNÇÃO TERAPÊUTICA DA INTERPRETAÇÃO SÓ É ] EFETIVA SE PROMOVE UM INSIGHT

operada no self como resultado da ressonância que a percepção do significado da experiência tem sobre a vida emocional e seus sistemas de representação. Essa alte- ração da qualidade da experiência promove uma maior

s

a

kleiniano são parte do material, isto é, da vida psíquica

o

de

p

ciê

turbadores da novidade em algo tolerável cria as condições para a internalização de um objeto que apóia a curiosidade da criança e seu espírito investigador , promovendo então seu desenvolvimento / crescimento emocional. Durante

integração, que por sua vez permite que as experiências

uma análise, esta função é e xe rcida pelo analista atrav é s de

emocionais recuperem seus significados perdidos e se

uas interpretações. Uma interpretação só será e fetiva se

tornem, em conseqüência, diferentes, isto é, mais pro-

transmitir algo ao paciente que l he interesse e o e stimule

fundas, ricas e variadas.

pensar e a fazer novas observações/investigações sobre

com a idéia de que o obj eti vo da i n t e rpre taç ão é apenas

As fantasias inconscientes interpretadas pelo anal i sta

do paciente e são constantemente atuadas no seu dia-

sua maneira de sentir o mundo e as pessoas. Hoje, dificilmente um kleiniano poderia concordar

a-dia. Interpretá - Ias baseado em evidências fornecidas

de tornar consciente o inconsciente. N e s ta função,

pelo próprio paciente é uma maneira de apresentá-Io a

v eríamo s incluir o objetivo de interessar o paciente

si mesmo, criando condições para que ele se r ecupere .

ela exploração de seu inconsciente ( e mesmo de sua cons-

Através de sucessivos ínsíghts, o paciente vivencia uma

ncia). Ao fazê-Io , estamos despertando nos paciente s a

gama variada de estados emocionais e se familiariza

diferentes aspectos de sua personalidade, tornando-se

mais tolerante a estados psíquicos que até então ev i tava. Progressivamente, diz Hanna Segal, (o paciente) começa a

com

co nvicção d e que a experiência emocional é infinita. Por

meio da explo ração de novos significados, os limites da

v ida e m oc i onal podem sempre se ampliar, através de um aprofundamento das emoções. O domínio do inconsciente

conhecer não somente

suas pulsões e a natureza

de sua

é

muito maior do que o do consciente.

relação com os objetos internos, mas igualmente

o tipo

S

a b e m o s que no momento há um retorno ao fanatis-

de defesas que utiliza e que lhe são específicas, fazendo dele o indivíduo que ele é". Essa vivênc i a conduz a uma inregração crescente. Nessa perspectiva, conhecer-se é mudar. A dicotomia que existe entre cura e investigação é, a meu ver, falsa, pois o próprio processo de investiga- ção ao qual analista e paciente se engajam, se for exitoso na produção de ínsíghts, conduz a mudanças, da mesma forma como as explorações dos grandes navegadores mudaram o mundo.

EXPERIÊNCIA EMOCIONAL INFINITA Ao trabalharmos orientados por um hipotético mo- delo de normalidade, nosso modelo de patologia estará baseado numa avaliação do custo que o indivíduo paga por resistir à assimilação de novas experiências, conde- nando-se, desta forma, a uma superficialidade emocional que se manifesta na maneira como se relaciona com as pessoas e com o mundo.

WWW.VIVERMENTECEREBRO.COM.BR

mo reli gio s o , no seio de todas as crenças , um apelo ao imediatis mo e à satisfação peremptória do prazer, uma

crise d o pe n s amento reflexivo s o bre nós mesmos e

uma s uperficia l ização das relações emocionais . Se julgarmos desse ponto d e v ista, o ideal freudiano está longe de ter

e s tab e lecid o um espaço real importante no seio da huma- nidade. P oderíamos até dizer que a verdadeira revolução psica n alíti ca apenas começou. Finalizamos citando a frase com a qual Freud termina

O futuro de uma ilusão: "N ão , nossa ciência não é uma ilusão.

Mas uma ilusão seria supor que aquilo que a ciência não nos dá possa ser obtido fora dela". i'lv1c

PARA CONHECER MA I S

A s i t u ação analítica. outubro de 1992.

Psychana l yse et théra p eutique. Hanna Seqal. Revue Française de

Psychana/yse, 1991 .

Elias Mallet da Rocha Barros. IDE, 22: 18-29,

VIVER MENTE&CÉREBRO

15

POR REGINA MARIA RAHMI

A condição do sujeito contempor â neo i, de imigran- fi . te, sobrevivente, órfão; aquela de quem perdeu

seu lugar de origem na proteção da autoridade paterna e sua fé quanto à imortalidade da alma , assim como em relação ao progresso infinito da espécie. P erdas e lutos

constantes movem o humano para novos caminhos ; por

Seu irmão Emanuel foi, sem dúvida , uma das prin cipais influências sobre o desenvolvimento inicial d Melanie. Era um adolescente inquieto e inteligente , e s

critor e interessado por arte, que a ap r esentou ao mund cultural e filosófico de Viena. F aziam parte deste grup

o dramaturgo Arthur Schnitzler e o filósofo Friedric h

vezes, ele consegue

sair do abandono e do isolamento e se

Nietzsche . Te v e sucesso imediato com a juventud e

protesto contra a corrupção e a letargia intelectual d

envolve em transformações profundas e radicais.O contato com o desamparo e a angústia delas proveniente pode ser

mola propulsora para novas reinvenções. Melanie Klein foi uma dessas pessoas que encarnaram

a

progressista d e Viena , que se identificava com a voz d e

Império Austríaco. Emanuel foi incentivador de sua arnbi - ção em estudar medicina e especializar - se em psiquiatria

a

condição de desamparo e de reinvenção , valorizando

Melani e sentia-se viva, imbuída da mais profunda paixão

e

mergulhando em suas experiências de v ida para delas

o

fervor intelectual.

química, admirado por sua inteligência. Na mesma época

retirar o caldo vital do qual até hoje nos alimentamos. Foi uma mulher à frente de seu tempo . R evolucionou a técnica de trabalho com c r ianças e ampliou o alcanc e da

psicanálise para a compreensão de estado s primitivos da constituição do humano. Uma das inovadoras mai s or i -

Quando tinha 17 anos conheceu seu futuro marido Arthur Klein , um rapaz sério , estudante de engenhari a

falece o pai, que vinha doente , sofrend o provavelmente d o mal de Alzheimer. Algum tempo depois , Emanuel faleceri a

\

1 6

ginais da psicanálise , imprimiu nova orientação à t e o ria

e à técnica na compreensão do inconsciente, o q ue pos-

sibilitou desdobramentos fecundos à clínica dos esta dos limites , da psicose e do autismo.

Viena , 30 de março de

1882. Nasce M elan i e R e izes, a

caçula de quatro filhos de Libussa e Moriz . A fa m íli a era

judia: Moriz, o pai , proveniente

de um meio ortodo x o ,

dedicara-se à religião; entretanto , aos 37 ano s inic ia estu - dos de medicina . Seu espírito independente e sua a titu d e científica f o ram motivo de grande admiração d a fil ha. A mãe , Libuss a, mulher inteligente e ativa , auxilia o mar i do para complem e ntar a r enda familiar , abrindo um p e queno

comércio. A , esposa de um médico exerce r uma p r ofis s ão contrariava os padrões da época. A energia e a indepen- dência daquela que se opunha a preconceito s arraigados também viriam a influenciá-Ia profundamente. No decorrer da infância , foi muito apegada à mãe e à irmã Sidonie. Esta foi quem iniciou Melanie na leitura e na escrita , mas cai gravemente doente aos 8 anos e falece pouco tempo depois. Seria a primeira de uma longa s érie de mortes que pontuaram a vida de Melanie , cada uma reavivando o medo , a dor e a perple x idad e .

VIVER MENTE&CÉREBRO

de parada cardíaca. O tema das perdas e a melancolia mar -

cariam profundamente seu ser, influenciando sua obra , como veremos adiante.

E m seguida , Melanie casou-se , aos 21 anos; o seu in-

teresse pelo estudo e pela pesquisa teria que aguardar um

tempo para vir a se realizar. Após o casamento, o casal vai residir em Budapeste , onde tem três filhos: Melitta, Hans

e E rich. O distanciamento do ambiente cultural que tanto

amava e a impossibilidade de entregar - se a um trabalho que realmente a interessasse , acrescido por desgostos da vida conjugal e familiar, e pela perda da mãe, levaram-na à de-

pressão , marcada por períodos de desânimo e desespero. Foi por essa época que teve a oportunidade de ler o

texto de F reud

iniciar a análise com Sándor Ferenczi. Melanie Klein relata: " Durante a análise com Ferenczi , ele chamou a minha atenção para o grande dom que eu tinha para entender as crianças e o meu interesse por

elas e deu muito incentivo à minha idéia de me dedicar

à análise de crianças. N essa época eu tinha , é claro; três

filhos

toda compreensão da personalidade e por conseguinte

sobre os sonhos; entusiasmada , dec i de

Não descobrira que a educação podia abranger

ESPECIAL MELANIE KLEIN

-

!

na

é p oc a , e m espec i al d e A nn a Freud , de que o trabalho com

crianç as d everia ter um sent ido m a i s forma l e explicativo. Ha v ia tam bé m a id é ia d e q u e as crian ças não faziam u m a

A observação c l í n ica opu nh a - se

à idéia vigente

ram no surgimento de fantasia s

e br in cadeiras espontâneas.

H ist órias fantásticas apare-

ce ram, e a cr i a n ça , a té então

n

e uro s e d e tr a n s f e r ê nci a co m o anali sta po i s suas tra n s f e -

s

ile nciosa , se r eve l ou.

r

ência s estava m li g ada s a os pa i s r e ai s .

Em 1 9 2 2 , Me l a n ie divor-

 

O

tra ba lh o co m a s c r i a n ças reve la va o inco n sc i e n te, o

c

i a - se d e Art h ur Klein e passa

acesso a fantasias primitivas ou inatas, que davam e x pressão

a

residir em Berlirn , a convite

a

i m p u lsos e re a ções i n stintivas. As fantasias primitivas

de Karl Abraham , com qu e m ,

são ex p erime n t a d a s em sensações e mais tarde assumem a for ma d e im age n s; e la s estão o te m po todo presentes ( mas

mais tarde , teria sua segun- da e x periê ncia analít i ca. E m

n

ão d e p e nd e m d e p al avras ) . Man if estam-se por mei o d e

1

924 , no Congresso Inter -

ações o u , a in d a , ac abam f a ze nd o part e do que se se n te ser

n

ac i o n a l , aprese n ta u m texto

a r e alidad e ( p sí quica ) . A ob servação d e sse s prim e i ros cont atos trouxe a n eces -

s id a d e d e e n co n t r a r al g u é m ( u m a n a li sta ) que estivesse apto

s obre a p s i ca n á lise d e cr i anças .

So fre r i a d u r as crítica s d os mem b r os

m a is co n servadores , que afirmar a m qu e suas idéi a s i n ov a

a

cap tar e m oções que s e apresentavam de forma pré - verbal

d

or a s v i o l e n tavam a in oc ê nc i a das cr i anças e pert u rbava

e

que fosse capaz de mobilizar-se, a fim de recebê-Ias em

a relação com os p a is.

seu corpo e em sua m ente para , em seguida , transformá - Ias

Enfrenta resistência por parte de o u tros ana li stas , po i

e

m p a l avras , a b r i n d o , assi m , espaço para a simbolização . A

não era méd ica ne m possu ía outro diploma universitári

prin c ípi o , Kl e in teve mui ta caute l a co m as interpretações e

I

ngressou n a Sociedade Psicana l íti ca d e Berlim , tor n an

fo

i s u r p ree n dida co m o a l c ance das mudanças que ocorre -

d

o - se u m de seus mem bros, o que l eg i timou su a entrad

 

n

o mund o d a psic análise mu n dial. Nessa époc a s ua fi l ha

DESENHOS DE CRIANÇAS utilizados por Melanie Klein para estudar técnicas que possibilitassem a psicanálise i nfantil

1 8

VIVER MENTE&CÉREBRO

Me lit ta, term i na se u s estudos de medi ci n a e a c o mpan h

a mãe nas re u n i ões psicana l íti c as. Essa mu l he r n o t áv

co n seg ui u s u per a r difi culdades pessoa i s e prof i ss i o n al libera n do seu potencial criativo , dand~ i ní c io a u m a fas em que pub l ica vá r ios artigos. A idéia de fazer no m e ter reconhec i mento lhe permitir i a mobilidade para novo centros. Era n ecessár i o imprimir sua marca , e assi m acon

teceu . Ap u rou sua t écnica e elaboro u conceitos

introjeção e projeção. De p ressão , culpa , a n gúst i a e natur ez

co mpul s i va d a f anta s i a seri am t emas que in vest i g ari

c ada ve z mai s. A agress i vidade, e n ã o a l i bi do, c o m eça

assum i r , e m sua teo ria , a princ i pa l força da a n g ú s t ia. Com b ase nessas primeir a s a n álises , apre nd e qu

seu pa p el seria d ar l iberda d e às cr i anças para que ela

p ud essem e x pressar suas emoções e fantasias ; s u a fu n çã

seria co m preen d er aquil o que se passava na me nt e d e l a

e t ra n s m iti r -Ih es o que ocorria.

co m

A INVENÇÃO DA TÉCNICA DO BRINCAR

A t éc ni c a do brincar foi, d e ce rto m o d o , s u ge rida pe la

cr ian ças a n a lisa d as, q u e se oc upa va m espo n ta n e am e n t

co m se u s brinqu ed os. No a n o d e 1923 , K l e in rec e b e a

cr i a n ças em sua p ró p r i a casa a fim d e evitar a inte r ferê n cia

da família no trata m ento ; decid e então fornecer -Ih es br in - que d os , transformando , assi m , um fe n ômeno espo n tâne o

e

m um a téc n ica p lan ejada.

"

Estes b rin q ued os d e tam an h o red u zido , se u n ú m ero

e

s ua grande div er sid a de , deixa m

o campo l ivre p a ra os

ESPECIAL MELANIE KL EI N

jo gos mai s variados , enquant o a s impl ic idad e p e rmite uma in f inid a d e de usos dif e r e nt es. A ssim , t ai s brinquedo s p o dem ex primir co m v ariedad e e em d e t a lh es a s fantasias e a s ex p er i ê n ci a s in f antis . Os di versos 'te m as lúdicos', co m o os a fetos q u e os aco mpanham e q ue po d e m os, ao m esm o te mp o , o b se r var e dedu z i r d o co n teú d o m esm o d o jogo , se aprese n t am n u m a v i zi nh a n ça e n u m qua d ro estr e itos ; ass im , nada n os esca pa d o e n cadeame n to e da din â mi ca

dos processos men tais e m ação nem d a cronologia d a s ex p er i ênc ia s e d a s fa n tasi a s d a criança. " ( ju l i a Kristeva )

fosse m de

E la e n fat i zav a a id é ia d e qu e os br in quedos

ta m a n ho peq u e n o, " n ão m ecâ n icos", tão s imp les co m o

os do pró pr io

z ad os d ura nt e o j ogo . Mostrava- se atenta à exp r ess ã o

a g r ess i v id a d e d o j og o , te nd o um in teresse esp ecia l p elos o bj etos dani f icados . In te rpr e t ava os e l eme n tos d o br i nc ar r es p e i ta nd o o v alo r simb ó li co como os d e um so nho. Uti- li zava um a lin g ua g em direta e f r an c a co m o as e mpr eg ada s p e l a c rian ç a para referir-se a part es d o co rp o e a a ssunto s sexua i s de o rd e m am o r osa e agressiva. Co n s t a q ue e r a b a sta n te a ti v a n o br i ncar c om os pa c i e n tes , dis p o n do - se a d ese m pe nha r papéi s n a s fa n tasi a s , r ee n ce nand o os dram as tam b é m r eprese ntados com b r in quedos. Esse cen ári o revel a u m m und o in ter n o re pl et o de p er - sonage n s q u e m a ni fes ta r iam a tra m a secreta d os co n f l itos . Outras vezes, os p e r so na ge n s são sentidos co m o te nd o ex i stê n cia p ró p r i a , e a c rian ça n ão distingue o que é fruto d e s ua fantasia e o que é r e a l , verdadeiro . E l a verifico u que , se interpretasse const an t em e n te a s bri n ca d eiras , a angústia qu e se n ti am d i mi n u ía. Em c r ian ç a s m u it o peq u e n as, obs er v a va uma capacidade d e c ompr ee n são m a i or do q u e a d e mui tos ad ult os ; acre d i t av a qu e i sto oco r r i a dev id o a o fato d e o ví n cu l o e n t r e co n sc i e n te e in co n scie n te ser m a i s estre i to e p or , num estágio pré-verbal, a brincad e i r a se reve l ar e qui v al e n t e à a sso - ci a ção li vre. Co n s id e rou a c o mpr eensão d a a n s i e d a de , e não o imp ul so, o c en t ro d e sua at e n ç ã o. K l e in fa zi a d a ex p e ri ê ncia e m oc i o nal o o bj e tivo principal d e s u as in vesti g a çõ es.

quart o da cr i a n ça , p a ra po d ere m ser uti li -

da

WWW.VIVERMENTECEREBRO . COM.BR

ÁLBUM DE FAMíL I A . Na foto da página ao lado, no alto, Melanie (à direita) com os irmãos Emanuel e Sidonie . Nesta página, no centro, seus dois filhos, Hans e o caçula Erich . Ao lado, a psicanalista aos 1 7 ano s

Em

1 9 2 5, e la é con v idada

a fa zer

uma série de confe-

r ê n c i as e m Lo ndres; seu tra-

balh o s ensíve l e ncontra uma soc i e dade dinâmica, jovem e

p reoc upada em se informar

para in ov ar. O campo está ab e rto e , em 1926 , Ernest

J o n es conve n ce -a a i r mo r a r em L o nd re s para analisar

s eu s própri os f ilhos. Em se u artigo " E stágio s in ici a is d o comple x o de

É dip o " , formula conc e ito s mai s p o l ê mico s do que os

a p resenta d os a nt e rior m e n te. P ela pr i m e i r a v e z , di v erg e

de Freud n a d eter m i n ação da époc a e m que ocorre o comp l e x o de É d i p o , q ue , a t é en tão , p r e s umia -se ser em

torn o

nos primeiros m eses de vi d a e n a d i fere n ç a p s íquica entre menino s e m e ninas . No início , descreve m ã e -bebê co m o se nd o o prim e iro vínculo funda n te, s i t uand o-o n o ce n tro d o d ese n v ol v imen-

to . O colorido q ue apa rece n essa s prime i ra s ex periê ncia s

de e n co n tro e dese n c on t r o , g rati fica ção e f r u s traç ã o , darão

o tom das r e l ações futura s. Melanie K l e in , fig ura p o l ê mic a , t e m a o p o rtunidade de descobrir co l a b o radore s apaixo nad os: j o an R í vier e , Susan Isaacs, Paula H e imann , S ylvia P ay n e, E lla Sharpe e Hanna Segal, além de fe rvoro sos c rítico s e o p os i t ores Anna Freud , Me litta Sch mideberg ( filha da pr ó pria M e lanie ). A inserção de M ellita n a Soc i e dad e Britânica é rápida

e br i lhante. Tor n o u- se , nos a n os seg uintes , uma das mais

agressivas opos i tora s de Me lani e Kl e in . Me llita apro x ima- se de Anna no m o m e nt o em qu e e c l o d e m a s d ivergência s entre os parti d ár i os d e K l ein e os d e A nna F re ud. A acusação era de qu e Kle in teria s e afasta d o d os pr in cípi os básicos d a

ps i canálise c láss i ca. Melanie Kle i n qu e ria servista co m o di sc ípula e conti-

nuadora de Freud. G ross kur t ( 1992 ) c o n t a que , c e rta v e z ,

que

de 3 a 4 a n os. E m sua c ompreensão , ele i nicia - se

M e lan ie K l ein co men to u i ndi g n ada c o m Betty jo se ph

tinh a sido trat ad a por " k l e i n i a n a " q uand o se considera v a

" fre u diana " . Ao q u e B etty jose ph resp o nd e u: "A gora j á é tarde , quer q u e i ra ou nã o , você é uma kl e iniana ".

A

AUTORA

R

E G I NA MA RIA R AHMI é p s icólog a e p s ic a na l i s ta pelo Instituto de

P s i ca n á li se d a Sociedade Brasileir a de P s ic a n á lise de São Paulo.

VIVER MENTE&CÉREBRO

19