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3. HUGO DE SÃO VITOR E O IDEAL DA FORMAÇÃO HUMANA.

Este capítulo centra-se sobre o modelo de formação humana desenvolvido por Hugo
de São Vitor. Nos capítulos anteriores foram tratados os assuntos relacionados ao contexto da
época e do espírito que animava os estudos, com intuito de compreendermos o modelo de
educação deixado por Hugo de São Vitor, através de sua obra: Didascalicon. Esta pesquisa
não pode deixar de mencionar aspectos acerca da vida do mestre Vitorino1.

3.1. Vida de Hugo de São Vitor

De acordo com B. Hauréau, o mais renomado teólogo, anterior à Santo Tomás de


Aquino, na Igreja e nas escolas foi o cônego, o professor, o diretor da escola da Abadia de São
Vitor: Hugo de São Vitor. (HAURÉAU, 1886, p.5). Hugo de São Vitor nasceu na Saxônia,
por volta do ano de 1096, e fora educado primeiro na abadia de Hamerleve, para depois
dirigir-se à Paris, para estudar na escola de São Vitor, onde, mais tarde, exerceu a função de
professor e de diretor, terminando sua vida lecionando nesta abadia, por volta do ano de 1141
(GILSON, 2001, p. 370).
Segundo a historiografia a origem saxônica de Hugo de São Vitor é creditada pelo
autor de sua biografia, o historiador da abadia de São Vitor, e por todos os escritores desta
abadia sem contar com nenhuma exceção. É também creditada pelo segundo editor de suas
obras, pelo epitáfio de seu túmulo, por Trithème, por Alberic des Trois-Fontaine, Bellermin,
Paul Lange, Englusius, pelas crônicas que foram publicadas em Halbestadt no início do século
XIV e entre tantos outros críticos e historiadores. (HUGONIN, 1854: PL 175, XL).
A história da família e dos primeiros anos de vida de Hugo de São Vitor deve ser
destacada a fim de ampliar o conhecimento acerca do objeto desta pesquisa. Hartigan era uma
das regiões mais importante da Saxônia. Nesta região, se destacou no século XII, a família
dos Blankemburg. O poder que possuíam derivava em parte por causa de suas riquezas e em
parte pela sua influência. A origem desta família é desconhecida; sabe-se, no entanto, que no
final do século XI um de seus membros morreu deixando dois filhos, Hugo e Poppon. Hugo2
percorreu o caminho da vida eclesiástica, e Poppon herdou os títulos e os domínios de seus
pais. Sua administração foi próspera; ele governou a herança paternal até os meados do século
XII. Poppon teve três filhos Rheinard, Conrad e Sigfrid. Rheinard, o primeiro filho, veio a se

1
Um dos termos pelo qual alguns historiadores nomeiam Hugo de São Vitor
2
Não se trata de Hugo de São Vitor, mas de um parente, o que comumente se chamaria no Brasil de tio-avô.
tornar bispo de Halberstadt, o segundo sucedeu o pai no governo do seu condado, o terceiro
não se sabe, ao certo, o que lhe ocorreu. Conrad, por sua vez, teve uma esposa, que não é
nomeada nas crônicas, mas que é descrita como uma mulher virtuosa e de caráter. Com ela,
Conrad teve dois filhos Buchaird, o mais novo, e Hugo que veio a ser conhecido, tempos
depois, como Hugo de São Vitor. (HUGONIN, 1854: PL 175, XLI)
Rheinard se distinguia na cultura literária. Foi enviado pelos seus pais à Paris, para
seguir em uma vida de estudos. Naquele tempom Guilherme de Champeaux – considerado na
época o mais ilustre dos mestres parisienses3 - já tinha se retirado para a Abadia de São Vitor.
Rheinard seguiu Guilherme de Champeaux e tornou-se um de seus melhores discípulos. Mais
tarde, entrou na escola de São Vitor para lá receber a formação a partir dos estudos e da
prática das virtudes cristãs. Ao termino de sua formação, Reinhard retornou à sua pátria e ali
ele foi elevado à cátedra de Halberstadt.( HUGONIN, 1854: PL 175, p XLI)
Rheinard, contudo, manteve uma grande estima pelos cônegos vitorinos, de modo que
ele procurou trazer-lhes à Saxônia para que de algum modo eles pudessem fazer com que os
monges de sua diocese se afeiçoassem ao estudo das letras. Além disto, quis trazê-los, para
que estes também pudessem estabelecer uma perfeita disciplina nos mosteiros, os quais o
próprio Rheinard tinha fundado ou restaurado. Depois ele exorta Hugo, seu sobrinho, a ir para
a abadia de São Vitor, cuja fama crescia a cada dia que passava, para que lá ele pudesse
aprender as lições da ciência e da sabedoria. Os méritos pessoais, a inteligência e a piedade de
Hugo de São Vitor o teriam conduzido aos maiores e melhores cargos se ele não tivesse
preferido a religião e a justiça. Outro fator que lhe colocou longe das posições de honra dentro
do Sacro Império Germano, foi a sua devoção para com os pontífices romanos de modo que
nas disputas que separou tanto o sacerdócio e o império, a posição de Hugo a favor dos sumos
pontífices atraiu-lhe o ressentimento do imperador provocando, por sua vez, o seu
afastamento dos cargos que o imperador distribuía aos seus (HUGONIN, 1854: PL 175,
XLII).
Sobre a personalidade de Hugo de São Vitor, a crônica saxônica, escrita antes do
século XIV no baixo-Alemão, demonstra que este não se preocupou com os títulos que
possuía, desprezando-os, e cedendo aos conselhos de seu tio, se exilou da sua terra natal para
viajar pela Saxônia e pelo Flandres, sendo recebido em Paris com grande distinção, que devia
ao seu tio, que ali fora aluno antes de Hugo. (HUGONIN, 1854: PL 175, XLII)

3
Afirmação pelo qual Jacques Le Goff caracteriza Guilherme de Champeaux em seu livro os intelectuais da
Idade Média. (LE GOFF, 1988, p.40)
Não se pode negar a influência que os familiares de Hugo exerceram sobre sua
personalidade. Lê-se na Vida de Rheinard que Hugo de São Vitor, quando criança, foi
confiado pelos seus pais ao religioso de Harmeleve para estudar as letras. Este religioso
despertou no jovem Hugo o desejo de estudar e uma vez marcado por este desejo, Hugo de
São Vitor engendrou a sua vida pelo caminho do estudo e da docência. (HUGONIN, 1854: PL
175, XLIII)
Os historiadores de São Vitor afirmavam que no mosteiro de São Pancrácio em
Harmeleve era uma fundação do Bispo Rheinard, que, por admiração aos cônegos regulares
de São Vitor de Paris, seus venerados mestres, tinha solicitado que uma colônia de religiosos
viessem se instalar na sua diocese. Contudo Hugo de São Vitor não recebera instrução na sua
juventude dos cônegos de São Vitor, pois Rheinard ainda não fora nomeado bispo quando
Hugo estudava no mosteiro de São Pancrácio em Harmeleve, mas nos é permitido, no
maxímo, conjecturar que os vários colegas ou antigos mestres de Rheinard, sob seu pedido,
tenham vindo ensinar Hugo de modo que este continuasse o curso de seus estudos, o que
conferiu À comunidade de Santo Pancrácio um ar de importância (MIGNON, 1931, p. 9).
De qualquer forma, foi neste monastério que Hugo foi enviado para ser educado; tendo
desenvolvido pela ciência uma afeição muito viva, guardada pela emulação que lhe trouxeram
os vários alunos provenientes de todos os pontos da Alemanha que vieram à Hamerleve.
(MIGNON, 1931, p. 10) Ele mesmo, num capitulo de seu tratado sobre os estudos, fala do
entusiasmo em seus anos de juventude deixada em sua memória pela sua ardente aplicação:

“Eu me permito afirmar que nunca desprezei nada pertinente à instrução. Pelo
contrário, frequentemente aprendi muitas coisas que aos outros pareciam
semelhantes a meros jogos e entretenimentos. [...]Quantas vezes exigi de mim
mesmo um esforço cotidiano para compreender os meus sofismas, e que, pela
brevidade de minhas ideias, limitavam-se a uma ou a duas frases ditadas em uma
página. (DIDASCALICON, Livro VI, cap. 3)

Contudo, ascendeu uma guerra por toda a Saxônia, sobre o reinado de Henrique, e
então Hugo pensou em fugir. Seu tio Rheinard, por causa da guerra, o enviou à Paris e lá
entrou no monastério de São Vitor, fixando sua morada, motivado pela quantidade de
personagens eruditos que ali habitavam (HUGONIN, 1854: PL 175, XLIII). Tal fato é
confirmado por uma crônica de Halberstadt, escrita à mão, e em latim, por um religioso deste
monastério, um pouco depois da época da guerra dos trinta anos. O manuscrito afirma que
Rheinard enviara, às próprias custas, Hugo de São Vitor “à Paris, por causa de seus talentos e
por causa das agitações na Saxônia”. (HUGONIN, 1854: PL 175, XLIII)
Ao se retirar da Saxônia, Hugo de São Vitor pede a seu tio-avô, que também se
chamava Hugo, para acompanhá-lo. Com a idade bem avançada ele cedeu às solicitações de
seu jovem parente, e o acompanhou em suas viagens e se retirou junto com Hugo na abadia de
São Vitor em Paris, onde terminou em paz a sua carreira. Ele foi o benfeitor desta abadia
assim como seu sobrinho, Hugo, foi considerado um dos mestres mais importante deste local.
A grande igreja foi construída quase à seus custos e sua memória ficou guardada naquela
abadia de modo que encontramos no obituário da escola de São Vitor a seguinte sentença: “no
terceiro dia das nonas de maio4, aniversário solene do Padre Hugo, de boa lembrança,
arquidiácono da igreja de Halberstadt, que veio a nós da Saxônia com seu sobrinho, mestre
Hugo, cônego de nossa Igreja” (HUGONIN, 1854: PL 175, XLII).
Tais eram os parentes deste mestre Vitorino, nascidos em uma família nobre,
considerados, na época, ilustres pela sua sabedoria e pela piedade que demonstravam. Tais
detalhes foram tirados dos manuscritos da igreja de Halberstadt, e estão conforme os relatos
de sua historiografia e à tradição de escola de São Vitor (HUGONIN, 1854: PL 175, XLII)
Em relação à vida de Hugo de São Vitor na abadia de São Vitor pouca coisa se sabe ao
certo. E o que se sabe é que quando adentrou neste colégio ele foi aluno do padre Thomas,
sucessor de Guilherme de Champeaux (HUGONIN, 1854: PL 175, XLIV) e que por volta da
década de 1120 ele começa a lecionar na escola do mosteiro de São Vitor (MACHIONNI,
2001, p. 23-25).
Hugo de São Vitor se destacou pelas suas obras teológicas e pedagógicas. De acordo
com Ruy Afonso Costa Nunes, Hugo de São Vítor “compôs a famosa obra Didascálicon em
que apresentou instrutiva descrição das sete artes liberais, assim como das artes mecânicas
que ele incluiu, de forma inédita, no âmbito da filosofia”. (NUNES, s/d, 129). Além desta
obra, Hugo de São Vítor, segundo Antonio Machionni, escreveu outras obras, como também
opúsculos e cartas chegando a um total de 52 títulos e dentre todas estas as mais recordadas
são o Didascalicon, Dos Sacramentos da fé cristã, Dos três dias, Sobre a Hierarquia celeste
de Santo Dionísio, Da essência do amor, Sobre o penhor da alma, Descrição do mapa do
mundo, Em louvor do amor, Da arca mística de Noé e o Da arca moral de Noé.
(MACHIONNI, 2001, p.26)

4
Era comum entre os medievais o uso do calendário romano que por falta de conhecimento, por parte dos
romanos, de uma contagem continua dos dias de um mês, como se costuma fazer atualmente, eles tinha portanto,
em cada mês três pontos fixos, chamados de: Kalendae (o 1º dia do mês) Nonae (o dia 7 de março, maio, julho e
outubro; o dia 5 dos outros meses) e o Idus (o dia 15 dos quatro meses mencionados; o dia 13 dos outros meses).
Logo a data mencionada refere-se ao dia 10 de maio daquele ano. (BESSELAAR, 1906, p. 214)
Por fim, Hugo de São Vitor, como afirma Anotnio Machionni, se distinguiu como
cartógrafo do saber, filósofo, teólogo da história, pedagogo, gramático, geômetra,
hermenêutico, contemplativo e místico, de forma que pela atividade educacional de Hugo de
São Vítor é que a escola viu florescer no seu meio, teólogo, filósofos, poetas, pregadores e
tantos confessores e sábios (MACHIONNI, 2001, p. 25). Não podia acontecer, portanto, que o
mestre Vitorino passasse despercebido em sua época. De fato a glória de Hugo de São Vitor
ultrapassou as fronteiras de sua abadia. Ele foi um dos homens mais ilustre de seu tempo e o
motivo que lhe garantiu este reconhecimento foi a sua “vida virtuosa e a sua sabedoria”
(MIGNON, 1931, p. 10).
Hugo de São Vitor superou em fama a Abelardo e a São Bernardo. Tal afirmação pode
vir a causar certa desconfiança àqueles que possuem certo conhecimento da história medieval,
pois o nome de São Bernardo é encontrado em muitos documentos. Diga-se o mesmo sobre
Abelardo - este homem cujo fato mais conhecido na história, talvez, tenha sido a sua “luta”
contra São Bernardo. Contudo, para B. Hauréau que quanto a Abelardo, mesmo sendo um
homem considerado inteligente, foi tido pelos seus contemporâneos como um temerário; para
outros foi um insensato. Com relação a São Bernardo, considere que hoje ele é mais celebre
que Hugo de São Vitor graças às crônicas, pois é certo afirmar que São Bernardo participou
de quase todos os grandes eventos que marcaram a sua época - a sua pessoa está ligada ao
surgimento dos templários, às cruzadas e tantos outros acontecimentos5 – e por este fato os
seus contemporâneos creram ter que contar todos os fatos de sua vida, pelo menos o possível,
entretanto, ao consultar os teólogos contemporâneos de ambos veremos São Bernardo como o
menos eloqüente. Seus escritos foram muito pouco lidos, foram muito pouco meditados.
Enquanto que Hugo de São Vitor teve como receberam certos epítetos de seus
contemporâneos como “a harpa do Senhor, o órgão6 do Espirito Santo ”7, “o filosofo cristão
por excelência, um outro Agostinho”8 e por fim, dizia-se dele que “ele possui uma tal ciência
das coisas divinas que ninguém, no seu tempo, o superou”9 (HAEREAU, 1886, p. 6).

5
São Bernardo foi convocado em janeiro de 1133 para reconciliar Gênova e Pisa. Intervém também na
Aquitânia, onde o duque Guilherme, conduzido pelo bispo Gerardo de Angoulême se coloca ao lado do Anti-
papa, aderindo a Anacleto (ROPS, 1997, p.122)
6
Aqui se refere ao instrumento musical.
7
Jacob de Vitriaco. Historia Occidentale. cap.XXIV
8
Anonymus Carthusienses. De religionem origine. Martìne, Ampliss Collect, VI, p.55
9
Ricardo de Poitiers apud Hauréau. Les Oevres du Hugues de Saint Victor. Paris: Librairie hachette ET Cie,
1886, p.6
3.2 A Obra: Didascalicon ou “Sobre a Arte de Ler”

A obra que é o documento principal desta pesquisa chama-se Didascalicon, escrita em


1127 e que antecede a quase todos os escritos de Hugo de São Vitor. Este livro é símbolo da
efervescência intelectual do século XII e é a obra mais conhecida do mestre vitorino em
termos de raciocínio filosófico. (MARCHIONNI, 2001, p.27)
O Didascalicon não é importante apenas porque recapitula toda uma tradição
antecedente, mas porque interpreta esta mesma tradição de maneira especial e influente no
alvorecer da renascença do século XII. A influência desta obra sobre o século XII e sobre os
séculos subseqüentes, pode ser visto a partir da permanência da mesma estrutura educacional
em muitos manuscritos que atravessaram o século XII e chegaram ao século XV e foram
preservadas em quarenta e cinco bibliotecas espalhadas por toda a Europa, da Irlanda a Itália,
da Polônia a Portugal. O seu aparecimento acontece quando os centros de educação mudam
do estilo propriamente rural – as escolas monásticas - para o modelo urbano das grandes
cidades e das comunas – as escolas catedrais -, quando, também, a educação nos novos
centros estava começando a se especializar, ainda de modo desproporcionado, adequando se
aos limites dos entusiasmos ou das capacidades particulares dos mestres. (TAYLOR, 1961,
p.4)
O Sobre a arte de ler10 é um currículo medieval sobre os estudos e que pode se
apresentar diferentemente de acordo com a ótica de análise que lhe for aplicada, sendo,
portanto, às vezes vista como uma obra filosófica, outras vezes como uma obra mística, ou
como uma obra antropológica, ora ética, ora pedagógica (MACHIONNI, 2001, p. 27). Entre
essas diversas óticas de análises, não há uma que se possa dizer verdadeira ou incorreta, pois
o Didascalicon apresenta verdadeiramente todo este conjunto de conhecimentos. Quem se põe
a lê-la encontrará nela conteúdos filosóficos, antropológicos, místicos, pedagógicos, éticos e
teológicos. Jerome Taylor que traduziu o “Sobre a arte de ler” para o Inglês afirma que o
Didascalicon de Hugo de São Vitor destina-se a selecionar e a definir todas as áreas do
conhecimento importantes para o homem e também se dedica a demonstrar que estas artes
além de serem interligadas entre si, são necessárias ao homem para que ele alcance a
perfeição humana e seu destino divino. Além disto, o livro contém orientações intelectuais e
práticas para os estudantes com níveis de conhecimento e de idades variadas, que chegam em

10
Na verdade o nome completo da obra de Hugo de São Vitor é Didascalicon: De Studio Legende e Antonio
Machionni utiliza algumas vezes o subtítulo da obra para se referir ao Didascalicon (MACHIONNI, 2001, p.
27)
grande número às portas da escola da recém fundada Abadia de São Vitor, estabelecendo um
programa em que insiste sobre a indispensabilidade de toda complexidade das tradicionais
artes e sobre a necessidade destas para a aquisição da ciência, que tem como finalidade levar o
homem a restaurar a sua união com divina Sabedoria pelo qual ele foi feito (TAYLOR, 196,
p. 3 - 4). E segundo B. Hauréau o objetivo desta obra de Hugo de São Vitor é recomendar aos
contemporâneos do autor a ciência e de ensinar os métodos que se deve aplicar e que são
necessários para adquiri-la (HAURÉAU, 1895, p. 95)
De fato, no livro III do Didascalicon, Hugo de São Vitor, expõem a sua pedagogia.
Caracteriza os modos de como os alunos deverão se pautar para chegar a ter um conhecimento
sólido. Para tal o autor expõe os erros cometidos por aqueles que estudam e os efeitos destes
erros sobre a vida do estudante, após esta demonstração, ele apresenta o modo correto,
apresentando o que se deve fazer e o como há de agir. A partir capítulo 6 do livro III do
Didascalicon Hugo de São Vitor destaca os elementos necessários para a vida estudantil, que
segundo ele, são apenas três: a natureza, o exercício e a disciplina. A natureza corresponde às
qualidades natas do aluno, como a facilidade em ouvir o que é referente ao estudo e o que lhe
é pertinente e a capacidade de reter com segurança na memória o que foi ouvido; o exercício
se refere à educação das qualidades natas, ou seja, trabalhar ou aprimorar o que comumente se
chama de dom, que se da pelo trabalho contínuo e constante (repetição das tarefas); a
disciplina, por fim, está ligada à concepção moral em que o estudante procura viver segundo o
que aprendeu, ou seja, compondo os seus costumes com o conhecimento. (DIDASCALICON,
Livro III, cap. 5, p. 119 - 121).
Não sendo o bastante, contudo, Hugo de São Vitor enumera outras características
pelas quais o aluno deve percorrer: a leitura e a meditação. Estes elementos fazem parte do
que ele chama de engenho, que junto com a memória compõem o quadro geral. Em relação à
leitura, ele expõe a ordem e o modo de como se deve ler (DIDASCALICON, Livro III, cap. 6,
p.122-124) e no capítulo 12 do livro III, Hugo de São Vitor expõe um comentário sobre a
disciplina, em que demonstra a necessidade da virtude para a vida de estudos. Para tal evoca
Quintiliano, que afirmou: “os costumes adornam a ciência”11, pois o conhecimento maculado
por uma vida impudica, não se torna objeto de louvor (DIDASCALICON, Livro III, cap. 12,
p.129), como já afirmava São Bernardo ao dizer que o conhecimento pelo conhecimento de
nada adianta.

11
Quintiliano. Instituições. 1, prêmio 18; 12, 1, 1-8
A influência do Didascalicon foi imediata e profunda. Forneceu, no primeiro
momento, um esboço para o trabalho educacional, que foi continuado por André e Ricardo de
São Vitor, seus sucessores na escola de São Vitor. Ao mesmo tempo, ela influenciou a poesia
filosófica de Godofredo e as sequências litúrgicas de Adão. Assim, o livro se tornou uma
chave de leitura para o corpo Vitorino. Num segundo momento, ela influenciou, nos séculos
doze e treze, os diferentes escritores, como os Vitorinos e alguns outros como João de
Salysburi, Clarebaudus de Arras, William de Conches, Pedro Comestor, Sthepen Langton,
Robert Kilwardby e Santo Tomás de Aquino (TAYLOR, 1961, p.4-5)

3.3 A formação humana desenvolvida por Hugo

De acordo com João Camilo de Oliveira Torres, para cada categoria histórica há uma
determinada lei material histórica12, que longe de ser uma “determinação” quanto aos fatos
históricos, apresentam as regularidades que aparecem no desdobramento temporal dos
acontecimentos (TORRES, 1963, p. 502). Quanto à história da educação é bem vista a função
que desempenha a filosofia da educação. De acordo com Anísio Teixeira, “as relações que
existem entre a filosofia e a educação são tão intrínsecas que John Dewey pôde afirmar que as
filosofias, em essências, são verdadeiras teorias gerais de educação. Está claro que se referia à
filosofia como filosofia de vida”. (TEIXEIRA, 1977, p.9) No mesmo sentido, Luiz Jean
Lauand em sua introdução ao livro sobre a filosofia da educação de Josef Pieper afirma que “a
filosofia da educação é sempre algo derivado e relativo, decorrendo da antropologia
Filosófica”. Pode-se colher e demonstrar a filosofia da Universidade e também o da educação,
em articulação com qualquer quadro maior da antropologia filosófica (LAUAND, 1987, p.
23-24).
Conforme a citação acima, podemos, portanto definir uma “lei histórica material” que
rege a educação durante o curso do tempo. Contudo, não precisamos formular esta lei,
criando-a, pois de fato uma pessoa já fez isto: Frans de Hovre o qual afirmou que as linhas de
pensamento pedagógico seguem o fluxo e o refluxo das doutrinas filosóficas (HOVRE, 1969,
p. XXX). E isto significa que toda educação parte, portanto, de um ideal de vida, de uma
concepção de vida. Em outras palavras, a ação educadora está intimamente ligada ao fim do

12
As leis materiais históricas, segundo o próprio João Camilo de Oliveira Torres “são aqueles princípios gerais
que se relacionam com o conteúdo das situações, com as situações materiais, aquelas referentes a uma ordem
determinada de acontecimentos”. Sendo, portanto, leis materiais, aquelas que estão relacionados com o
desenvolvimento de algum campo da História, como História da Religião, da Filosofia, da Arte, da Economia e
tantas quanto existirem. (TORRES, 1963, p. 502)
homem, pois como afirma Antonio Donato Paulo Rosa, a Filosofia e, por conseqüência, a
Filosofia da Educação, segundo o testemunho de muitos filósofos, gira em torno da questão
do fim, como pode ser visto nas palavras de Santo Tomás de Aquino em sua Suma Contra
Gentiles em que ele afirma que “dentre o que os homens atribuem ao sábio, Aristóteles
reconhece que é próprio do homem sábio ordenar. ”13 E a regra da ordem e também a do
governo de todas as coisas que devem ser governadas e ordenadas para uma finalidade deve
ser recolhida deste próprio fim. Pois qualquer coisa só está disposta da melhor forma possível
quando ela se ordena convenientemente ao seu fim. E destas palavras de Santo Tomás de
Aquino temos manifesto como o conhecimento do fim é o ponto de partida da sabedoria como
de toda filosofia em geral, e portanto, da filosofia da educação. (ROSA, s/d, p.5)
Spalding comenta que quando realizamos uma educação, temos um fim, assim como
quando andamos também temos um fim, ou seja, um ponto de chegada. Na educação, afirma
ele, esse fim é um ideal, mas não um ideal qualquer, é o ideal de perfeição humana, portanto,
analisar e explicar esse ideal é mais importante do que qualquer dos milhares de problemas
que ocupam os pedagogistas teóricos. (SPALDING, s/d, p.102) e neste sentido, Frans de
Hovre afirma que o motor do poder educativo está intimamente ligado à crença em um ideal
de vida e de formação, na conduta firme à luz desse ideal, na maneira pela qual se lhe
consagra a vida. (HOVRE, 1969, p. 35)
De acordo com John D. Redden e Francis A. Ryan, o significado da Filosofia pode ser
compreendia de três modos, a primeira como o estudo que orienta o homem na aquisição de
uma concreta visão de mundo, seus valores e significados, seu fim próximo e seu fim ultimo e
também sobre como deve ser a conduta humana; na segunda, a Filosofia apresenta uma
concepção de vida, dando ao homem o conhecimento de que o mundo não é caótico, mas
preenchido por uma ordem; a terceira esta ligada à conduta humana, no que tange aos valores
das ações, e neste ultimo é que se fala de Filosofia da Econômia, Filosofia da Literatura etc.
(REDDEN & RYAN, 1956, p. 21-22)
Ao primeiro contato com o Didascalicon de Hugo de São Vitor encontramos de inicio
a seguinte frase: “Dentre todos os bens que aspiramos, é certo que a sabedoria ocupa o
primeiro lugar” (DIDASCALICON, Livro I, cap. 1, p. 23), que segundo Ivan Illich é a
principal, a mais importante frase do livro de Hugo de São Vitor sobre a arte de ler (ILLICH,
1996 , p. 7-8). Poderia se perguntar o que isso indica? Significa que a chave de leitura da obra
está contida nesta frase. Que toda a obra se desenvolve em torno deste núcleo: "a sabedoria".

13
Os manuscritos medievais frequentemente não possuem títulos. Eles chegam a ser
nomeados a partir de suas palavras de abertura, chamando isto de incipit. Os papas usam o
incipit no lugar de um titulo quando eles escrevem uma carta encíclica, por exemplo: "rerum
novarum" (15 de Maio de 1891), "Quadragesimo anno" (15 de maio de 1931), "Sollicitudo rei
socialis" (18 de Fevereiro de 1988). Quando um documento medieval é citado, dá-se o incipit
e o explicit, a última palavra. Esta forma permite que o autor evoque a tradição dentro do qual
ele quer inserir seu trabalho. Pela sutil variação de uma sentença repetida frequentemente ele
pode declarar a intenção que o levara a escrever (ILLICH, 1996, p. 8).
O incipit de Hugo deixa transparecer o lugar de seu livro na longa tradição: o termo
"didascalic"14 tem as suas raízes presentes nas reflexões da Grécia sobre a paideia, ou a
formação de um jovem e sua introdução na plena cidadania. Esta tradição veio através do
Latim por Varro e por Cícero, o homem que foi chamado de "o mais sábio dos romanos".
Varro, que foi o escrivão de César e de Augusto, escreveu, entre outras coisas, a primeira
gramática normativa do Latim. Apesar dele mesmo ser um morador da cidade, ele escreveu
quatro livros sobre agricultura ou jardinagem que Virgílio usou como fonte para a bucolic e
para uma coleção (ecloga) de poemas que estabelecia como tema o "de volta à terra" e
procurava por paisagens do interior na literatura ocidental. Varro foi o primeiro que definiu o
estudo como a "procura pela sabedoria". A frase repercutiu por sucessivas gerações de
escritos sobre "educação dos alunos". O livro em que Varro propôs esta definição foi perdida.
Esta declaração somente sobreviveu através das referências à ela encontrada em outros
autores (ILLICH, 1996, p. 8-9).
O incipit de Hugo reivindica a herança de Varro que foi passada adiantes por seus
pupilos, Cicero e Quintiliano, sendo este ultimo o primeiro aprendiz que escreveu sobre as
técnicas de leitura. Nesta tradição, a última tarefa do pedagogo é definida como um guia que
ajuda os estudantes alcançar o Bem, o qual, por sua vez, trará ao pupilo a sabedoria. Entre as
palavras que aparecem no incipit: “de todas as coisas a serem buscadas a primeira é a
sabedoria no qual se encontra a forma do bem perfeito”. Semelhante aos seus
contemporâneos, Hugo de São Vitor é consciente de que a origem de uma educação voltada
para a aquisição da sabedoria está ligada aos sábios pré-cristãos de Roma. (ILLICH, 1996,
p.9)
Antonio Machionni afirma que na filosofia de Hugo de São Vitor apresenta algum
parentesco com conceitos neoplatônicos, orientais e cristãos a um só tempo. O Pseudo-

14
O termo Didascalic vem do grego e significa “coisas referentes à escola”. (MARCHIONNI, 2001, p. 10)
Dionísio, o Comentário de Macróbio ao Ciceroniano Somnium Scipionis e os escritos de

Boécio inspiram e conceituam verbalmente as páginas do “Sobre a arte de ler”.

Particularmente os conceitos sobre correspondência entre a alma do mundo e a alma do


homem, como o da definição do homem essencialmente como alma, a da divindade do
intelecto humano e a reciprocidade da Ratio em seus três níveis: na mente divina, na natureza,
no homem que são decorrentes do Timeu de Platão e dos neoplatônicos Fílon e Plotino
(MACHIONNI, 2001, p.)
Contudo não é apenas algo bom, um simples bem que. As palavras escolhidas por
Hugo de São Vitor são precisas, pois conectou sabedoria com “a forma do Bem perfeito”. Isto
significa que Hugo aceitou o significado da definição de Varro, mas como foi recebido,
mudado e transcrito por Santo Agostinho. Os escritos de Hugo estão influenciados pela
Filosofia e Teologia de Santo Agostinho. Ele mesmo viveu em uma comunidade que seguia
as regras de Santo Agostinho. Ele leu, releu e copiou textos deste mestre. A leitura e a escrita
foram quase indistinguíveis ao lado do seu estudo. (ILLICH, 1996, p.9).
Como em Santo Agostinho, a sabedoria não é algo para Hugo de São Vitor, mas
alguém. A sabedoria na tradição agostiniana é a segunda pessoa da Santíssima Trindade:
Jesus Cristo. Ele é a sabedoria pela qual Deus tem feito todas as coisas.(ILLICH, 1996, p.9)
Segundo Antonio Machionni, Hugo de São Vitor afirma que a Sapiência deve ser a
primeira a ser procurada, porque ela é a nossa origem, de modo que conhecendo-a, estamos
também nos conhecendo. Por isto o autor afirma que encontra-se no texto do Didascalicon
aquele pequeno trecho escrito na tripode do templo de Apolo em Delfos: “Conhece-te a ti
mesmo”. E este conhecer a si mesmo não significa outra coisa se não conhecer a nossa
origem, o lugar de onde viemos. (MACHIONNI, 2001, p.10).
Nas palavras de Hugo de São Vitor a procura pela Sabedoria gera, naquele que se
propõe a buscá-la, um grande conforto, de modo que quem a encontra, diz ele, se torna feliz e
quem a possui, torna-se santo. (DIDASCALICON, I, 2, p. 26). De acordo com Jerome Taylor,
a sabedoria a que Hugo de São Vitor tanto se refere advém da doutrina Agostiniana, que
afirma não haver várias sabedorias, mas apenas uma é a Sabedoria que faz o homem ser sábio
e esta sabedoria é o próprio Deus (TAYLOR, 1961, p. 14). O mesmo afirma Antonio
Machionni, ao comentar que a tradução do termo Sapiencia para a língua portuguesa não
consegue traduzir bem o significado que ela tem em latim e nem como é ela utilizada por
Hugo de São Vitor e pela tradição patrística e pela tradição posterior, de modo que ela não
representa um estágio do conhecimento, “mas a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade,
Jesus Cristo” (MACHIONNI, 2001, p. 10).
No Didascalicon, Hugo de São Vitor se refere à sabedoria como um remédio para o
mal do homem. Ele afirma que há dois exercícios que reparam a semelhança divina nos
homens: a pratica da virtude e a investigação da verdade. Comenta também que o homem é
semelhante a Deus, se comprazendo em ser sábio e justo. Esta investigação da verdade não é
outra coisa se não a Filosofia. E a prática da virtude é o que ele definiu como disciplina.
(DIDASCALICON, I, 8, p. 41)
Então como se encontra a Sapiencia? Hugo de São Vitor responde: tudo começa com
o ato de ler, seguido pelo ato de refletir e por fim pelo ato de contemplar. (MACHIONNI,
2001, p.11)
No segundo capítulo do I livro do Didascalicon Hugo de São Vitor apresenta um
comentário sobre a filosofia. Nesta parte o autor afirma ser a filosofia a procura, o amor, a
amizade para com a sabedoria. Esta sabedoria, diz ele, não se trata do engenho na utilização
de certas técnicas, ou seja, não é uma ciência direcionada para a fabricação de algo, ao
contrário esta sabedoria é o do conhecimento ‘completo’, do qual não depende de tecnologia
para sua concretização. É uma sabedoria que de nada carece, de espírito vivaz, a razão
primeira e única de todas as coisas. (DIDASCALICON, Livro I, cap. 2, p.27)
Hugo de São Vitor segundo Flavien Abel Antoine Hugonin professa a doutrina
platônica, mas não a que o próprio filósofo produziu, mas aquela que Santo Agostinho
modificou, e complementou com os elementos católicos (HUGONIN , 1854: PL 175, L). Não
se pode negar, é verdade que Hugo de São Vitor foi um agostiniano, pois a sua própria
congregação vivia sobre a Regra de Santo Agostinho, portanto, já era de se esperar que Hugo
de São Vitor o tivesse como mestre.
Segundo Antonio Marchionni, a Filosofia presente em Hugo de São Vitor é a Filosofia
Cristã, que tem como ponto de partida a existência do Ser Transcendente, que dá ao mundo a
existência, a forma, a matéria e a finalidade e por isso é a causa agente, a causa formal, a
causa material e a causa final de tudo que foi criado. Além disto, no documento Didascalicon,
Deus é definido como Ratio (Razão), a Ratio ontológica de alguém que é independente da
mente humana, é anterior a mente humana, e é causa e ordem desta, de modo que Deus é em
si uma ordem, uma harmonia, uma inteligência racional que ao criar o mundo dota-o de sua
própria racionalidade, de sua própria ordem. Assim, a Razão Divina encontra-se estendida e
depositada em todo o universo e, sobretudo, no homem, de modo que o homem e o universo
são espelho, semelhança e, portanto, o homem possui a capacidade de compreender o
universo e a realidade (MARCHIONNI, 2001, p. 12).
Para compreender melhor a Filosofia de Hugo de São Vitor, faz-se necessário saber
que esta é para o autor, uma ciência, pois como demonstra Flavien Abel Antoine Hugonin, a
ciência, em Hugo, é o resultado natural do exercício das faculdades da alma, que se divide em
duas partes principais, a Teologia propriamente dita e a Filosofia que compreende todas as
artes. Estas duas partes da ciência se distinguem uma da outra pelo seu objeto. “Deus”, diz
ele, “fez duas obras que liga o universo dos seres: a criação e a restauração. Pela criação as
coisas que não existiam tem o seu nascimento; pela restauração, aquelas que existiam são
devidamente melhoradas.” Se a Filosofia tem por objeto o conhecimento cientifico do mundo
natural e a Teologia tem por objeto o conhecimento cientifico do mundo sobrenatural, há,
portanto, nestas duas partes, que parecem ao mundo moderno tão distintas, o que os une e os
que os distinguem. Eles são distintos, segundo Hugo de São Vitor, porque são dois mundos
distintos, contudo eles são únicos porque os dois mundos foram criados pelo Verbo de Deus
(HUGONIN, 1854: PL 175, LI- LII).
Hugo de São Vitor descobre o vinculo secreto que unifica e subordina as duas partes
da ciência universal e expõe a sua excelência. A Filosofia, como já fora dito, é o amor pela
sabedoria, por aquela sabedoria que não tem necessidade de nada. (HUGONIN, 1854: PL 175,
LI- LII). A. Mignon ao explicar a definição “a fliosofia é o amor pela sabedoria que não
necessita de nada e é a razão de todas as coisas”, afirma que por estas palavras Hugo de São
Vitor faz referência à sabedoria divina, que não pode ter necessidade de nada e que não pode
vir a perder nada daquilo que ela possui, pois ela contempla em um só olhar, o presente, o
passado e o futuro. E por fim quando ele indica que a sabedoria é a razão primeira de todas as
coisas, quer dizer que todas as coisas teê sua existência formada a partir da sua semelhança.
(MIGNON, 1931, p. 85)
A natureza humana está ferida, segundo o pensamento de Hugo de São Vitor. Ela é
constantemente abalada no corpo e no espírito pelas formas sensíveis e materiais que distraem
o homem. O homem está desordenado. Então, como restaurar esta ordem? De acordo com
Antonio Machionni, a resposta de Hugo de São Vitor para a pergunta feita seria a seguinte: a
semelhança do homem com a Sapiência é restaurada mediante a atividade manual do trabalho
e, sobretudo, pela atividade intelectual: “somos reparados pelo conhecimento” (DOCTRINA
REPARAMUR, 1 ,1). É aqui que insere o ato de ler, cuja finalidade é introduzir o leitor e
aquele que estuda naquele conhecimento que promove em nós a restauração da semelhança
com a divindade. O que demonstra uma concepção grandiosa do saber humano
(MACHIONNI, 2001, p. 12).
Ler, para Hugo de São Vitor é um ato moral, um modo de viver, é um ócio reparador,
restaurador e inspirador. A leitura como ato de experimentar da Sapiência provoca no homem
que a procura o consolo, naquele que a encontrou uma felicidade, como o daquele que
encontra um tesouro e naquele que a possui e a retém a beatitude: a procura da Sapiência é o
máximo conforto na vida. Mas a leitura é apenas o começo da aprendizagem (principium
doctrinae), cujo ato final, já sem regras é o vôo livre da contemplação. Entre a leitura e a
contemplação existem outros degraus pelos quais o estudante, como em uma escada, deve
subir, a fim de que chegar à perfeição. Os cinco degraus são: 1) a leitura, 2) a meditação, 3) a
oração, 4) a prática, 5) a contemplação. Entre estes cinco degraus, o primeiro é a leitura que

própria dos principiantes, e o ultimo degrau, a contemplação, que é própria dos “perfeitos”

(MACHIONNI, 2001, p. 34- 35)


Para que serve a educação? Para onde ir mediante o estudo e a leitura? Para onde um
professor de então e de hoje quer levar o aluno pelo ato de ensinar? A resposta é clara em
Hugo de São Vitor. Fazer Artes, Teologia, Direito e Medicina tem a finalidade de,
conhecendo as maravilhas da natureza, conhecer o Artífice dela. Em suma, o ler e o ensinar
são um entretenimento com a Mente divina (MACHIONNI, 2001, p.). Contudo esta resposta
de Antonio Machionni não apresenta ser satisfatória, pois como já fora demonstrado de fato o
estudo segundo o pensamento de Hugo de São Vitor tem como sua finalidade conduzir o
homem ao encontro com a Sabedoria. Mas a verdade é que o estudo em Hugo de São Vitor
não pode estar dissociado da ação, da conduta humana. Além do mais a concepção de homem
para Hugo de São Vitor corresponde a uma dualidade: corpo e alma, onde a alma é a parte
principal do ser humano. Por isto Hugo de São Vitor acrescenta entre as matérias a serem
estudadas por seus alunos as sete artes mecânicas: a medicina, Estas artes mecânicas se
contrapõem a as artes liberais, as primeiras tem com finalidade manter o corpo, sustentá-lo as
ultimas a produzir o desenvolvimento da alma e ass
Em trechos acima foi demonstrado como o mestre Vitorino concebia o fato de estudar
e aumentar o conhecimento de forma dissociada da prática moral que adivinha deste
conhecimento. Portanto, conclui-se que Hugo de São Vitor tinha como ideal educacional
conduzir o homem à perfeição humana a partir do estudo, de modo que contemplando a
verdade que está inscrita na criação, como na revelação o homem possa tirar desta
contemplação os preceitos morais que conduzirão a sua vida.
Diante deste ideal educacional, pode-se concluir que o modelo humano que Hugo de
São Vitor procura desenvolver em sua escola, é o do santo, o do místico, e tome-se aqui a

aquela definição de místico que Etienne Gilson atribui a Hugo de São Vitor: “um místico

instruidíssimo e preocupado em tornar o seu saber contemplação”. Pois como reconhece

Etienne Gilson, o modo de vida monástica que Hugo concebe é preenchida por uma serie de
exercícios que estão organizados de modo hierárquico: a leitura, a meditação, a prece, a ação

e enfim a contemplação, na qual, “recolhendo de certa forma o fruto do que precede, prova-se

nesta vida mesma qual será um dia a recompensa das boas obras”. (GILSON, 2001, p. 371)