ELE0514 - Circuitos Eletrônicos II
Capı́tulo XX: Retificadores de Precisão
Comforme visto em Circuitos Eletrônicos I, retificadores são circuitos importantes no projeto
de fontes DC. A tı́tulo de exemplo, a figura 1 mostra a operação realizada por um retificador de
onda completa: uma tensão senoidal oriunda da rede elétrica doméstica é transformada numa
tensão exclusivamente positiva pelo retificador.
Retificador
t
de onda t
completa
Figura 1: Retificação onda-completa de uma tensão senoidal
1 Lembrete: retificador de meia-onda simples
A figura 2 mostra o circuito retificador o mais simples: o retificador de meia onda que vocês
estudaram em circuitos eletrônicos I.
D
Vin
RL Vout
Figura 2: Retificador de meia-onda
Basicamente, a operação de retificação aqui é apenas realizada pelo diodo D, uma vez que
RL representa uma carga resistiva. No intuito de entender melhor o funcionamento do circuito,
vamos encontrar a sua caracterı́stica de transferência. Para tanto, devemos achar a expressão
de Vout em função de Vin para todos os valores de Vin . No caso, aqui, podemos fazer a seguintes
observações:
• Quando D está em corte, não há corrente fluindo em RL , e portanto: Vout = 0.
• Por conseguinte, para que D conduza, é preciso ter: Vin ≥ 0.7 V .
• Quando D está conduzindo, tem-se: Vout = V in − 0.7.
1
Com essas observações, temos a expressão de Vout para todos os valores de Vin . No caso:
• Para Vin < 0.7: Vout = 0 (D em corte).
• Para Vin ≥ 0.7: Vout = Vin − 0.7 (D conduzindo).
Segue a caracterı́stica de transferência do circuito ilustrada na figura 3. Observe que para
Vin ≥ 0.7, Vout segue uma reta cuja equação é de fato: Vout = Vin − 0.7.
Vout
1
1
Vin
0.7
Figura 3: Caracterı́stica de tranferência do retificador de meia-onda simples
No intuito de entendermos melhor o funcionamento do circuito, podemos olhar a forma de
onda de Vin e a de Vout . Com esse propósito, a figura 4-a mostra Vin (t) e Vout (t) quando
Vin = 4 · sin(t).
0.7V
(a)
4
Vin
Vout
3
0
(b)
−1
−2
−3
−4
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Figura 4: Retificação de meia-onda simples - (a) Vin = 4 · sin(t) - (b) Vin = sin(t)
Notamos primeiramente que o retificador de meia-onda é menos eficiente do que o retificador
de onda completa ilustrado na figura 1. De fato, uma boa parte da energia do sinal foi perdida
pois apenas a metade da onda é retificada. No entanto, a maior desvantagem desse retificador
é o fato dele não funcionar corretamente para sinais pequenos. Para ilustrar isto, a figura 4-
b mostra as mesma curvas quando a amplitude da entrada é menor. No caso, neste figura,
2
Vin = sin(t). Podemos ver que por causa do limiar de 0.7 V, a retificação é muito ineficiente.
Pior ainda: se a amplitude da entrada for menor do que 0.7 V, não há retificação nenhuma!
2 Retificação com “super-diodo”
Para resolver o problema de retificador simples, é possı́vel usar o circuito mostrado na figura 5.
Nele, o conjunto diodo/AMPOP age como um “super-diodo” que conduz assim que a tensão
em cima dele for positiva, sem que um limiar de 0,7 V seja necessário.
Super-diodo...
Vin
RL Vout
Figura 5: Retificador de meia onda com “super-diodo”
Aqui, considere inicialmente que D está em corte. Neste caso, não há corrente em RL (lembre:
I + = I − = 0) e temos Vout = 0. Fazemos então as seguintes observações:
1. Na entrada do AMPOP: V − = Vout = 0
2. O AMPOP trabalha em malha aberta pois D está em corte.
+
Daı́, assim que Vin for positivo, há uma tensão Vsat na saı́da do AMPOP e D passa a conduzir
+
(se Vsat > 0, 7 V). É então criada uma malha de realimentação negativa ao redor do AMPOP e
tem-se V + = V − , ou seja Vout = Vin . Com essa análise, podemos desenhar a caracterı́stica de
transferência do circuito mostrada na figura 6.
Vout
1
1
Vin
Figura 6: Caracterı́stica de tranferência do retificador de meia-onda simples
Como previsto, não é mais necessário que Vin ultrapasse um limiar de 0,7 V para que seja
retificada. Isso se confirma na formas de onda mostradas na figura 7 onde vemos que agora,
uma tensão Vin = sin(t) é corretamente retificada.
3
4
Vin
Vout
3
−1
−2
−3
−4
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Figura 7: Retificação de meia-onda com “super-diodo”
Todavia, o circuito apresenta dois defeitos importantes:
• Quando Vin é negativo, a tensão diferencial na entrada do AMPOP (V + − V − ) pode
ser relativamente grande. Por exemplo, se Vin é uma senóide de 150 V de amplitude,
essa tensão diferencial vale -150 V quando Vin está no seu pico negativo. Infelizmente, a
maioria dos AMPOPs são previstos para trabalhar com malha de realimentação negativa
e não aguentam uma grande tensão diferencial na entrada.
• Quando Vin é negativo, o AMPOP está saturado. Infezlimente, fenômenos internos ao
AMPOP fazem com que demore um pouco para ele sair dessa saturação. Isto impede a
retificação de sinais cuja frequência é relativamente elevada.
Apresentaremos a seguir duas estruturas de retificadores que permitem superar essas li-
mitações: um retificador de meia-onda e um retificador de onda completa.
3 Retificador de meia-onda de precisão
A figura 8 mostra um retificador de meia-onda que não sofre os problemas do retificador com
“super-diodo”.
R
D1
R
Vin D2
X
Vout RL
Figura 8: Retificador de meia-onda de precisão
Suporemos que o circuito se encontra inicialmente na seguinte situação:
• Vin = 0.
• D1 e D2 estão em corte.
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Para começar nossa análise, observamos que quando os diodos estão em corte, V − e Vin são
relacionadas através da lei do divisor de tensão. No caso:
R + RL
V− = · Vin
2R + RL
Portanto, incialmente, V − = 0. Da mesma forma, podemos ver que inicialmente Vout = 0.
3.1 Caso Vin > 0
Se Vin aumentar de forma a se tornar positiva, V − aumenta também e também se torna
positiva. Imediatamente, já que o AMPOP está com malha aberta, a tensão em X diminui
procurando alcançar VX = Vsat
−
. A situação é então a seguinte:
• V − acabou de sair de 0. É positiva mas ainda é muito pequena e V − ≈ 0.
• VX → Vsat
−
Quando VX é suficientemente negativa, o diodo D1 passa a conduzir e cria-se uma malha de
realimentação negativa que impõe V − = 0. Resumindo, assim que Vin aumenta, V − tenta se
tornar positiva fechando a malha de realimentação negativa que mantem V − em 0. Tem-se
então VX = −0.7 V . Uma vez que Vout = 0, é claro que D2 permanece em corte. Afinal, Vout é
dada por:
RL
Vout = ·V− =0
R + RL
Em conclusão: para Vin > 0, V out = 0.
3.2 Caso Vin < 0
Vamos voltar à situação inicial na qual Vin = 0. Agora, se Vin diminuir de forma a se tornar
negativa, V − diminui também e também se torna negativa. Imediatamente, já que o AMPOP
+
está com malha aberta, a tensão em X aumenta procurando alcançar VX = Vsat . A situação é
então a seguinte:
• V − acabou de sair de 0. É negativa mas ainda é muito pequena e V − ≈ 0.
+
• VX → Vsat
O diodo D1 está então polarizado reversamente e permanece em corte. No entanto, quando VX
se tornar suficientemente positiva (+0.7V), D2 passa a conduzir pois Vout ≈ 0. Afinal, o circuito
é equivalente ao circuito da figura 9.
R
R
Vin D2
Vout RL
Figura 9: Circuito equivalente quando Vin > 0
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É importante entender que neste circuito, o diodo está conduzindo e que existe uma malha
de realimentação negativa ao redor do AMPOP. Portanto, este funciona como amplificador
inversor, exatamente como se não tivesse diodo. Logo, para Vin < 0:
Vout = −Vin
Podemos agora desenhar a caracterı́stica de tranferência do circuito mostrada na figura 10.
Vout
-1
1
Vin
Figura 10: Caracterı́stica de tranferência do retificador de meia-onda de precisão
Aqui, é a parte negativa do sinal de entrada que é retificada. No entanto, isto não atrapalha
a operação de retificação. Como exercı́cio, desenhe a forma de onda de Vout para Vin = sin(t).
Podemos observar que independentemente do valor de Vin , o AMPOP está com malha de
realimentação negativa, e que portanto, a tensão diferencial na entrada dele é nula. Além disso,
+
o AMPOP apenas satura para Vin < −Vsat .
4 Retificador de onda completa de precisão
A retificação de onda completa pode ser realizada pelo circuito apresentado na figura 11.
Este não apresenta nenhum limiar e pode retificar sinais pequenos. Além disso, como vamos
ver a seguir, os AMPOPs sempre trabalham com realimentação negativa. Existem outras im-
plementações de retificador de precisão, mas esta é simples e bastante volátil.
R2 Y R4 Z R5
R1 D1
Vin X
A S B Vout
D2
R3 W
Figura 11: Retificador de onda completa de precisão
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Suporemos que o circuito se encontra inicialmente na seguinte situação:
• Vin = 0.
• VX = 0 (veremos mais adiante que essa suposição é válida).
• D1 e D2 estão em corte.
Observamos também que o AMPOP B está com realimentação negativa e portanto: VZ = VW .
Em particular, na situação inicial suposta, VZ = VW = 0 pois não há corrente em R3 . Logo,
pelo divisor de tensão R2 e R4 , vemos que VY = 0.
4.1 Caso Vin > 0
Se Vin aumentar de forma a se tornar positiva, VX tende a aumentar também e a também se
tornar positiva. Desta forma, a tensão VS diminui, tentando alcançar um valor Vsat
−
. Claramente,
D2 permanece em corte enquanto D1 passa a conduzir assim que VS for suficientement negativa.
Neste momento, o circuito é equivalente ao apresentado na figura 12.
R2
R1
Vin X D1 R4 R5
Z
A
Y
I=0
B Vout
Figura 12: Circuito equivalente quando Vin > 0
De fato, o AMPOP A está com realimentação negativa e portanto VX é mantida em 0. Uma
vez que não há corrente no resistor R3 , isso implica VW = 0. R3 pode então ser desconsiderado
e a entrada não inversora de B ligada ao terra. Fica finalmente claro pela figura 12 que temos:
R2 R5
Vout = · Vin = α · Vin
R1 R4
onde α = R2 R5 /R1 R4 .
4.2 Caso Vin < 0
Voltando à aituação inicial, se agora Vin diminuir de forma a se tornar negativa, VX tende a
diminuir também e a também se tornar negativa. Desta forma, a tensão VS aumenta, tentando
+
alcançar um valor Vsat . Claramente, D1 permanece em corte enquanto D2 passa a conduzir assim
que VS for suficientement positiva. Neste momento, o circuito é equivalente ao apresentado na
figura 13.
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R2 R4
VZ
R3
R1
Vin D2 VW
A
B Vout
R2 + R4
VX = 0
R5
Figura 13: Circuito equivalente quando Vin < 0
Observamos que como VW = VZ , o AMPOP A trabalha como amplificador inversor e:
R3 ||(R2 + R4 ) R3 · (R2 + R4 )
VZ = − · Vin = − · Vin
R1 R1 · (R2 + R3 + R4 )
Por outro lado, já que VX = 0, a AMPOP B trabalha como um amplificador não inversor
cuja entrada é VW = VZ e cuja saı́da é dada por:
R5 R3 R2 + R4 + R5
Vout = 1+ · VZ = − · · Vin = −β · Vin
R2 + R4 R1 R2 + R3 + R4
R3 R2 +R4 +R5
onde β = R1 · R2 +R3 +R4
Com essa análise, estamos capazes de desenhar a caracterı́stica de transferência do circuito
mostrada na figura 14.
Vout
−β
1 α
1
Vin
Figura 14: Caracterı́stica de tranferência do retificador de onda completa de precisão
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Além da retificação, o circuito aplica um ganho α ou −β dependendo do sinal de Vin . Isso
leva às formas de onda ilustradas na figura 15.
4
Vin
Vout
3
−1
−2
−3
−4
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Figura 15: Retificação de onda completa para α = 4 e β = 2
Aqui também, os AMPOPs sempre estão trabalhando com realimentação negativa e não
sofrem portanto os defeitos do super-diodo. Além disso, vemos que para R2 = R3 = R4 = R5 =
R, temos:
R
α=β=
R1