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Que vindes fazer aqui ?

Esta é, talvez, uma das mais inquietantes e provocativas perguntas


que se pode fazer a um verdadeiro iniciado.
Lewis Carroll, no seu romance “Alice no País das Maravilhas”,
brinda-nos com o seguinte diálogo entre Alice e o Gato:
“O senhor poderia dizer-me, por favor, qual o caminho que devo
tomar para sair daqui? ”
“Isso depende muito de para onde você quer ir, respondeu o Gato”.
“Não me importo muito para onde, retrucou Alice”.
“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato”.
“Contanto que dê em algum lugar, Alice completou”.
“Oh, pode ter certeza que vai chegar se você caminhar bastante,
disse o Gato”.
Podemos, perfeitamente, lançar raciocínio semelhante sobre a
prática Maçónica, pois, se um Irmão não souber quais os
Objetivos e Anseios da sua Loja e dos seus próprios, torna-se
muito difícil ter a certeza de que está no caminho justo e perfeito.
Para quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve.
Temos constatado um grau relevante de Irmãos que abandonam a
senda Maçónica em definitivo ou mesmo afastam-se dos trabalhos
das suas Lojas, com redução sensível da frequência em Loja. Não
parece, em absoluto, ser um caso pontual. A Evasão na Maçonaria
é um fenómeno Mundial e a busca das causas deste fenómeno
passa por diversas frentes.

Para estes Irmãos que, pelas mais diversas questões, abandonaram


a senda da Arte Real, perguntamos: O que deu errado? Em que
ponto do caminho a Luz recebida naquele glorioso e tão especial
dia da Iniciação se apagou? As respostas podem ser inúmeras.
Mas, numa abordagem mais generalista, podemos afirmar que
todo comportamento humano está ligado a uma motivação.
A palavra Motivação deriva do latim motivus e significa mover.
Mover um homem do aconchego do seu lar, privá-lo da
companhia de familiares, amigos ou de outras atividades para
despender a sua moeda mais valiosa, o seu tempo, na construção
de templos à Virtude e de masmorras aos vícios. Mover um
homem a contribuir para a felicidade da Humanidade, para sua
lapidação pessoal e para a construção de um mundo melhor para
os seus descendentes.
Além disto sabe-se que o comportamento é orientado para metas,
objetivos e que é causado, motivado, por estímulos internos e
externos
Sobre a motivação interna, a nossa Ordem tem pouco a atuar
diretamente visto que o “Entusiasmo” (do grego enthousiasmó ou
“Deus em mim”) é uma questão extremamente pessoal e tem
origens diretas nas expectativas, valores e aspirações do homem
livre e de bons costumes que decidiu, num momento da
(Publicado em freemason.pt)

sua vida, dar este importante passo.


Nestas considerações convidamos os Irmãos a refletirem sobre as
motivações de origem externa que podem vir a fortalecer, facilitar
ou despertar as motivações internas do Irmãos.
Uma delas é a que, doravante, abordamos: A importância do
Planeamento para a qualidade do trabalho Maçónico, seja o
trabalho interno, na nossa evolução pessoal, seja o trabalho
externo, como Construtores Sociais.
Até quando, meus Irmãos, vamos flutuar ao sabor do vento? Até
quando seremos reativos ao invés de proativos? Em que momento
decidiremos assumir o controle dos destinos da Maçonaria através
de um pensamento global e de uma efetiva e produtiva ação local,
guiada por um traçado construído a muitas mãos? Até quando
vamos limitar a nossa vida Maçónica a um interminável ciclo de
iniciações, elevações, exaltações, instalações e, o que é
pior, quites placet, certificados de grau e eliminações dos nossos
quadros? Será que todas as Oficinas têm, suficientemente claras,
as definições da sua visão (onde chegar), missão (como chegar) e
valores (sob que bases morais e éticas)? Este é o primeiro passo
para se responder à questão tema deste artigo e que figura,
expressamente, nos nossos Rituais!
As conversações sobre o tema Planeamento Maçónico, há algum
tempo, vêem sendo cada vez mais frequente em círculos de
debates Maçónicos. Diversos Veneráveis, certamente visionários,
já ensaiam implementá-lo, com ou sem base teórica adequada,
mas a vontade existe e começa a ficar clara a necessidade de
estruturarmos o nosso trabalho Maçónico.
Perde-se muita informação nas passagens de malhete, pois, via de
regra não há uma definição do que a Loja, enquanto coletividade,
deseja para si. Não para o calendário do próximo semestre, mas
para os próximos cinco, dez anos!
É clássica a expressão “Ordo ab chao”, Ordem no Caos, e é um
dos nossos desafios. Construir a ordem a partir do caos e esta
missão requer energia e comprometimento.
A partir do momento em que os Obreiros de uma Oficina firmam
um pacto colectivo de trabalho, neste momento a “Grande Obra”
começa a ter chances de se erguer com sucesso. Percebam, meus
Irmãos! A grande chance do sucesso ocorre quanto as Pedras
encontram o seu lugar de encaixe na construção do que foi
sonhada colectivamente. Quando o planeamento encontra a
oportunidade.
Não é por acaso que, sobre o trono do Venerável, encontra-se
a Tábua de Delinear. Símbolo máximo do planeamento!
Urge que este tema, o Planeamento Maçónico, se multiplique e
seja enriquecido pelo debate fraternal, respeitoso, edificante e,
principalmente, alicerçado pelo conhecimento técnico-
administrativo e pela habilidade de customizarmos esta acção às
realidades individuais de cada Oriente, Loja e Irmão. Não há
planeamento padrão. Cada Loja é única. Com as suas
peculiaridades, perfil de trabalho e objetivos, mas, qual o
objetivo da sua Oficina? Se desconheces a resposta, meu Irmão,
uma ou mais lascas ainda precisam cair ao golpe dos malhetes.
Haverá um tempo em que todos os homens dignos que compõem
esta assembleia não mais estarão aqui. Seremos pó. Seremos um
retrato numa estante. Mas esta Loja ainda estará de pé. Mas uma
Loja não é apenas um prédio. O Templo é um prédio! A Loja é
feita de pedras simbólicas e estas sim farão a diferença, no futuro,
para os nossos filhos, netos e para a nossa coletividade.
Há um ditado árabe que diz “Quem planta tâmaras, não colhe
tâmaras”, pois, antigamente, com as técnicas rudimentares de
plantio, as tamareiras levavam de 80 a 100 anos para frutificar.
Ou seja alguém, no futuro, nos será grato por termos plantado
hoje da mesma forma que somos gratos por colhermos hoje o
fruto de um semear passado.
A nossa Ordem é abençoada por uma riquíssima diversidade de
formações, habilidades e capacidades. Precisamos, por obrigação
moral e maçónica, colocar as nossas habilidades a serviço desta
magnífica Instituição, para que possamos não só crescer como
seres humanos, mas mostrar, a esta sociedade, que
somos Construtores Sociais não só especulativos, mas também
operativos.

Talvez por este caminho, tenhamos uma Maçonaria muito mais


fortalecida, com um quadro evoluindo não só em quantidade,
mas, principalmente, em qualidade. Irmãos motivados, felizes e
estimulados em trazer, para a Ordem, novos homens livres e de
bons costumes. Novas boas pedras para a “Grande Obra”.
Por isso, meu Irmão, não deixe de se questionar todas as
manhãs: “Que vindes fazer aqui? ” E faça o possível para
plantar tâmaras.

Mario Cristino Bandim Vasconcelos


https://www.freemason.pt/secmaconaria/pranch/que-vindes-fazer-aqui/