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Camões Lírico - Características da poesia de Luís de Camões

Em Camões coexistiu a poesia tradicional, com uma poesia cujos modelos formais e temáticos revelam a
cultura humanística e clássica do poeta. A estas influências juntou-se ainda a sua própria experiência de vida.

Petrarca e Dante são os seus principais mestres.

Influências:

A obra lírica camoniana é marcada por uma dualidade: por um lado a poesia de carácter trovadoresco dos
cancioneiros, por outro, as novas composições introduzidas pelo Renascimento.

 Influência da Tradição Lírica - Por influência tradicional, fez uso da medida velha e cultivou o verso
de cinco sílabas métricas (redondilha menor) e de sete sílabas métricas (redondilha maior),
escrevendo vilancetes, cantigas, esparsas, endechas ou trovas. As temáticas tradicionais e populares
usadas por Camões são geralmente mais ingénuas e graciosas e versam, sobretudo, o amor,
natureza, o ambiente palaciano e a saudade.
 Influência Renascentista - Da influência clássica Renascentista, Camões cultivou a medida nova
fazendo uso do verso decassílabo, através do soneto (composto por duas quadras e dois tercetos)
introduzido em Portugal a partir do séc. XVI. Nas temáticas de influência Renascentista cultivou o
amor platónico (amor ideal e inacessível), a saudade, o destino, a beleza suprema, a mulher vista à
luz do Petrarquismo e do Destino (retrato idealizado da amada, cuja beleza física e qualidades
morais e psicológicas resultam num quadro perfeito, quase celestial), a mudança, a brevidade da
vida e o desconcerto do mundo.
 Influência da Experiência pessoal (Autobiografia/confessionalismo) - Camões enriquece a sua lírica
com a sua experiência pessoal: o exílio, os erros, a má fortuna (Destino), o amor que lhe causa
sofrimento, predestinação quase maldita e apocalíptica e a falta de reconhecimento.

Temáticas:

A sua poesia é sustentada em polos antagónicos: mulher ideal e perfeita /mulher feiticeira; amor
espiritual/amor sensual; humildade/orgulho; inocência/sentimento de culpa; natureza como espelho da
alma/natureza contrastante com o estado de alma.

 O amor - amor físico vs amor platónico; a divisão interior do sujeito poético causada pelo conflito
amoroso; o poder transformador do amor e os seus efeitos contraditórios. O amor é um sentimento
contraditório; algo indefinido e capaz de provocar efeitos contraditórios no sujeito poético. Fonte
de desconcerto emocional, é ao mesmo tempo:
1) Sentimento essencial para a elevação do sujeito poético (Dimensão eufórica);
2) Causa de uma dor constante (Dimensão disfórica), sobretudo: quando o simples amor espiritual
não consegue satisfazer o poeta que busca algo mais físico; quando a sua amada está ausente e
as saudades aumentam ao ponto de transformar a própria visão que outrora tinha da natureza e
da sua beleza; quando tem de se separar dela; quando os olhos claros da amada o tomam
descuidado, tal como se fosse um passarinho; quando a amada é indiferente ao seu sofrimento.

 A mulher - retrato da mulher perspetivada na conceção de Petrarca e Dante; a amada surge umas
vezes como ser angélico, outras como ser maléfico; a mulher ideal é inacessível e intocável:
1) Uma mulher cuja idealização e exaltação da beleza denuncia a clara influência petrarquista. A
mulher é o reflexo da beleza divina, é a ponte para a perfeição do amador. Por isso, não é
retratada com traços físicos precisos – a sua beleza reside sobretudo no olhar, na postura
“humilde” e na bondade. O seu retrato é, sobretudo, psicológico e moral. Ela é a perfeição e a
pureza. O sujeito poético regista mais a impressão que a sua beleza causa do que a beleza em si.
Esta é a causa frequente do fascínio do sujeito lírico e da sua elevação a um estado espiritual
superior, mas também causa de dor e de sofrimento, sobretudo quando a imagem feminina não
se adequa às necessidades físicas e reais do sujeito poético.

 A Natureza - encarada como fonte de recursos expressivos, sempre ligada à poesia amorosa; o locus
amoenus. A natureza aparece na lírica camoniana como:
1) Uma natureza alegre, serena, luminosa, perfumada, em que avultam o verde, o cristal das águas
límpidas, os frutos saborosos e as flores - onde se vivem sentimentos amorosos -;
2) Como uma natureza indiferente á tristeza e às saudades do sujeito poético;
3) Como testemunha da separação dos amantes;
4) Como cenário que se transforma diante da triste saudade do sujeito poético e que lhe provoca
mesmo aborrecimento e lhe intensifica a dor da saudade.

 A saudade - faz sofrer mas inspira; a ausência da amada é insuportável e divide o sujeito poético.

 O tempo e a mudança - a mudança é cíclica e o tempo anula qualquer esperança.

 O destino - é sobretudo na sua vida amorosa que Camões sente a presença maléfica do destino:
tentando lutar contra a má fortuna, o sujeito poético recorda, muitas vezes o bem passado.
Variedade formal:

Trabalhou quase todos os géneros restaurados:

 Influência tradicional - vilancete, cantiga, esparsa, trova;


 Influência clássica/renascentista - soneto, canção, ode, elegia, écloga.

Verso:

 Medida velha - verso de 5 sílabas métricas (redondilha menor) e verso de 7 sílabas métricas
(redondilha maior);
 Medida nova - verso decassílabo com acento na 6ª e 10ª sílabas (heroico) ou na 4ª, 8ª e 10ª sílabas
(sáfico).

Linguagem e estilo:

 Adjetivação expressiva;
 Pontuação emotiva (exclamações, interrogações);
 Expressividade de tempos e modos verbais;
 Uso de vocabulário erudito (académico, adquirido através do estudo, oposto a vocabulário popular);
 Recurso à mitologia;
 Predomínio de metáforas, apóstrofes, hipérboles, anáforas, hipérbatos, etc.
 Alternância entre ritmo rápido e lento.

Em suma:

Momentos estruturais do poema e linhas de força dominantes ao longo da sua poesia:

 Reflexão sobre a sua existência;


 Invocação às forças ativas na sua desgraça;
 Considerações sobre o poder do Amor;
 Apelo à mulher amada.