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Maria Júlia Kovács

Coordenadora

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

a Júlia Kovács coordenadora. -


Mort e e desenvolvimento humano / Ma ri
Mort
São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

Bibliogr afia.
ISBN 85-85141-21-2
1. Compo rt amento humano 2. Medo. 3. Mo rt e - Aspectos psicoló-
gicos 4. Suicídio I. Kovács, Maria Júlia.

  CDD-155.937
92-1944

Índice para catálogo sistemático:


1. Doentes terminais: Atitudes comportamentais: Psicologia 155.937
2. Luto: A spectos psicológicos
psicológicos 155.937
3. Mo rt e: Atitudes comportamentais: Psicologia 155.937 MORTE
E DESENVOLVIMENTO HUMANO

Editor: Anna Elisa de Villemor Amaral Güntert


Capa
Criação e Arte: William Nahme
Computação gráfica: Mauro M inniti e Marilisa
Marilisa Minniti
Produção e diagramação: Casa do Psicólogo - Ma ri a Celina Jurado
Revisão ortográfica: Sandra Rodrigues G arcia

Casa do Psicólogo®
Escritores
© 19 92 Casa do Psicólogo Livraria
Livraria e Editora Ltda.

Daniela Rothschild - Psicóloga

Henriette Tognetti Penha Morato -Psicóloga, professora do Instituto de


Psicologia
Psicologia da U SP, chefe do S erviço de Aconselhamento Psicológico
Psicológico da
Reservados os direitos de publicação em língua portuguesa à USP
Casa do P sicólogo Livraria
Livraria e Editora Ltda.
Laura Villares de Freitas - Psicóloga, professora do Instituto de
Rua Alves Guimarães,
Guimarães, 436 - CEP 05410 -000 - São Paulo - SP Psicologia
Psicologia da USP com formação na Sociedade Brasileira
Brasileira de P sicologia
sicologia
Fone: (011)852-4633 Fax: (011) 64-5392 Analítica de São Paulo

Maria Júlia Kovács -Psicóloga, professora do Instituto de Psicologia da


USP, c oordenadora do curso "Psicologia
"Psicologia da Morte"

É proibida a reprodução total ou parcial desta pu blicação, Rauflin Azevedo Calazans -Psiquiatra.
para qua lquer finalidade, sem autorização por escrito dos editores.
Rachel Léa Rosenberg (in memo ri 
ri am) -Psicóloga, psicoterapeuta,
professora do Instituto de Psicologia da USP.

Roosevelt Moisés Smeke Cassorla -Membro da Sociedade Brasileira


Brasileira de
Psicanálise de São Paulo. Professor do Departamento de Psicologia
Médica e Psiquiatria
Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNTCA MP.

Vicente A. de Carvalho -Médico psiquiatra, psicoterapeuta, diretor


técnico do Centro Oncológico de Recuperação e Apoio.

Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Escritores
© 19 92 Casa do Psicólogo Livraria
Livraria e Editora Ltda.

Daniela Rothschild - Psicóloga

Henriette Tognetti Penha Morato -Psicóloga, professora do Instituto de


Psicologia
Psicologia da U SP, chefe do S erviço de Aconselhamento Psicológico
Psicológico da
Reservados os direitos de publicação em língua portuguesa à USP
Casa do P sicólogo Livraria
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Laura Villares de Freitas - Psicóloga, professora do Instituto de
Rua Alves Guimarães,
Guimarães, 436 - CEP 05410 -000 - São Paulo - SP Psicologia
Psicologia da USP com formação na Sociedade Brasileira
Brasileira de P sicologia
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Fone: (011)852-4633 Fax: (011) 64-5392 Analítica de São Paulo

Maria Júlia Kovács -Psicóloga, professora do Instituto de Psicologia da


USP, c oordenadora do curso "Psicologia
"Psicologia da Morte"

É proibida a reprodução total ou parcial desta pu blicação, Rauflin Azevedo Calazans -Psiquiatra.
para qua lquer finalidade, sem autorização por escrito dos editores.
Rachel Léa Rosenberg (in memo ri 
ri am) -Psicóloga, psicoterapeuta,
professora do Instituto de Psicologia da USP.

Roosevelt Moisés Smeke Cassorla -Membro da Sociedade Brasileira


Brasileira de
Psicanálise de São Paulo. Professor do Departamento de Psicologia
Médica e Psiquiatria
Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNTCA MP.

Vicente A. de Carvalho -Médico psiquiatra, psicoterapeuta, diretor


técnico do Centro Oncológico de Recuperação e Apoio.

Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Dedico este livro a todos aqueles que colaboraram 
 pa ra o m eu de se nv olv im en to co m o p es so a: me us pa is,
 pa ren tes , o s g ran de s a mo res , o s a mig os , o s p rof es so res ,
terapeutas e hoje os alunos.
Sumário

 XI
Apresentação ................................................................................ ........................

In memorianm:  XV
Prefácio ..................................................................................................................

Ferenc Otto KovAcs: que me ensinou os primeiros


passos, que nas suas exigências me impulsionou a Capítulo 1. Representações de Morte  ................................................... 1

buscar as forças dentro de mim. 14


Capítulo 2. Medo da Morte ...................................................................
Katarina Bakk: Que me m ostrou que é preciso falar Capítulo 3. Atitudes diante da Morte - Visão Histórica,
sobre a morte, quando ainda se está vivo, ela faz par- Social e Cultural  ................................................................................
 28
te da vida. Espero que ten ha encontrado resposta à
sua constante pergunta: "O que acontece após a mor- Capítulo 4. Morte no Processo do D esenvolvimento Humano
te"?
A Criança e o Adolescente diante da Morte   .................................  48

Nélson Rosamilha: Que facilitou a pesquisa acadê- Capítulo 5. Envelhecimento e Morte   ....................................................  58
mica sobre o tema da morte.  90
Capítulo 6. Re fl exões sobre a Psicanálise e a Morte   ............................
Rachel Rosenberg: Colega, professora, e depois ami-
ga. A sua calma e profunda sabedoria sempre me Capítulo 7. 0 Ser Humano: Entre a Vida e a M orte
Visão da Psicologia Analítica   ...........................................................  11 1
i mpressionaram muito.
142
Capítulo 8. Morte Abordagem Fenomenológico-Existencial   ..............
 1 49
Capítulo 9. Morte, Separação, Perdas, o Processo de Luto   ................
 1 6 5
Capítulo 10. Comportamentos Autodestrutivos e o Suicídio   ................
Capítulo 11. Paciente Terminal e a Questão da Morte   ..........................  1 8 8
Capítulo 12. Atendimento Psicossocial a Pacientes de Câncer
Relato de uma Experiência   .............................................................. 20 4
226
Capítulo 13. Profissionais de Saúde diante da Morte   ............................
Apresentação

Será a m orte a grande musa inspiradora dos filósofos e dos psicólogos?

Sempre tive medo da morte, aliás, de tudo o que é novo, desconhecido e


portanto misterioso. Assim como escrever um livro para um marinheiro
de primeira viagem, é desconhecido. É uma espécie de morte e de renas-
cimento.

Este é um livro idealizado por uma psicóloga e é neste viés, ou recorte,


que ele deve ser compreendido. Ao escrever sobre um tema tão amplo e
ao mesmo temp o tão "tabu", correm-se sérios riscos.

O primeiro deles é o de ser superficial, incompleto e unilateral com ób-


vias limitações diante da vastidão e do aprofundamento qu e o tema exige.
Sou mortal, e esta não é uma opção, e sim uma certeza, daí a incompletu-
de. Mas escrever um livro pode ser uma opção ousada e pretensiosa. Ou
talvez seja uma forma de lidar com um grande medo. Ler, pensar, coletar
informações e, finalmente, transmitir algumas dessas reflexões pode ser
uma forma de desafiar a morte.

O segundo risco é o de ser considerada uma pessoa mórbida, por ler,


estudar e escrever sobre a m orte. Muitos amigos e colegas meus fizeram
este comentário alguns tentando demover-me desse propósito. Não me
sinto mórbida, pois não é um ca minho mórbido, trata-se de um a trilha de
vida, de questionamentos, de reflexões, de batalhas, de inovações. Posso
afirmar que para mim a busca da "compreensão" psicológica da morte
conduziu-me à elaboração de uma dissertação de m estrado, a uma tese
de doutorado, a um curso na graduação em psicologia, outro na pós-gra-
duação, e agora a este livro. Trata-se, efetivamente, de uma grande musa
inspiradora!
XIII  
Apresentação 
Mo rt e e desenvolvimento humano 
XII  
como coordenadora do curso e por especialistas convidados a m inistra-
De que morte falo "daquela do momento foral, da fantasia, a que nos rem algumas das aulas.
acompanha durante a vida, do sonho, do alívio, da dor, da ruptura". Falo
Pedimos aos convidados que mantivessem o espírito da aula, qu e os textos
de todas e de nenhuma em p articular.
fossem escritos em linguagem simples e' acessível, sem detrimento, é claro,
Apresento vivências, reflexões, pensamentos e sentimentos, inspirada em da profundidade do tema. O leitor que imaginamos para este livro é o
autores que me impressionaram, sobre "aquela morte" que não podemos estudante de psicologia. Nã o se trata de um livro para espec ialistas, nem
experienciar nem refletir a respeito, e que acontece no fim da vida, mas pretende esgotar todo o assunto. Na verdad e, é impossível esgotar um
também sobre aquela que está presente em toda nossa existência, e que assunto tão controvertido, profundo e abrangente. São algumas pontuaçõ-
tem uma' significação marcante para a nossa trajetória de vida. É a morte es, idéias, que espero possam favorecer novos questionamentos e orientar
no processo do desenvolvimento humano. o desejo de aprofundamento.
Depois de tantas explicações, acredito que se trate de uma publicação
A psicologia como ciência, arte, reflexão e prática cuida da questão do
interessante para estudantes e p rofissionais de saúde e para quaisquer
homem, da sua relação com os outros e com o mundo, com a vida e
pessoas que queiram buscar informações sobre o tema para seu próprio
também com a morte. Portanto, acredito ser a questão da morte um tema
de suma importância para reflexão, sensibilização e questionamentos para conhecimento.
o psicólogo. A questão da morte e d o morrer, em suas várias instâncias, Para este singelo empreendimento, que para mim foi a conquista de um
pode estar presente nas diferentes áreas de trabalho do psicólogo. Refle- desafio, contei com a inestimável colaboração de uma série de pessoas
tir sobre o tema nos parece fundam ental ao futuro profissional, que terá o que me "agü entaram" neste período tão envolvente de criação:
seu trabalho centrado na relação com o ser humano.
Minha mãe A nne Kovács que semp re me incentivou a arriscar e a tentar
A partir destas idéias, criei em 1986 uma disciplina optativa intitulada coisas novas, dando seu apoio e amor.
"Psicologia da Morte", no Instituto de Psicologia da USP, onde são abor-
dados vários temas, visando facilitar a sensibilização, reflexão e discussão A querida "irmã" Verônica Landy que me ajudou muito nos momentos
de alguns aspectos relacionados à questão da morte, dentre os quais des- mais difíceis.
tacamos: a m orte no processo do desenvolvimento, o medo da m orte, Os alunos da graduação do Instituto de Psicologia da USP, que desde
perdas e p rocesso de luto, comportamentos autodestrutivos e suicídio, 1986 foram "cobaias" deste curso, com sua participação e questionamen-
paciente terminal. O curso apresenta três ab ordagens teóricas em psicolo- tos muito estimuladores para este projeto.
gia, relacionadas à questão da morte: a psicanalítica, a junguiana e a feno-
menológico-existencial. As alunas: Kátia Regina Honora, Cássia Simone, Suzana da Silva Rosa e
Paula Giulano Galeano, que transcreveram a s fitas com as aulas dos
Durante esse tempo em que o curso vem sendo ministrado, surgiu a professores convidados.
sobre  temas
necessidade de elaborar um livro texto, um  livro
ter um os  qu e As revisoras Maria Celina Jurado e Sandra R odrigues Garcia que leram
abordados. Como professora, eu também gostaria  si
fosse um facilitados da discussão" que se desenvolve na sala de aula. cuidadosamente o texto para o ap erfeiçoamento do vernáculo.
 Te nd o es se mater ial bá si co , p od er ia te nt ar alç ar vô os mai or es , s em pe r- A Casa do Psicólogo e seus diretores Ingo Bernd Güntert e Anna Elisa
der o fio. Esta é uma característica pessoal minha: t entar não perder o de Villemor Amaral Güntert, p ela confiança e oferecimento da  infra-es-
do livro, a sua origem, gênese e fio
fio. É uma espécie de leitmotiv trutura da "Casa".
condutor. Os seus capítulos são os temas das aulas dad as por mim,
XIV  Morte e desenvolvimento humano 

O amigo André Lengyel pela inestimável ajuda com a "máquina de escre-


ver sofisticada" que, a lgumas vezes, teimava em emperrar, dificultando o
processo criativo.
O Dr. Roosevelt M. Smeke Cassorla e Dra. Eda Marconi Custódio que
sempre deram b ons conselhos e apoio. Prefácio
A O dila Weigand que vem sendo um a facilitadora do meu desenvolvimen-
to pessoal.
Os amigos qu e sempre estiveram presentes em m omentos de conflito.
O leitor se encontra diante de um livro ousado: que se propõe a abordar
o mais difícil dos temas: a morte. A morte negada, escamoteada, escondi-
São Paulo, fevereiro de 1992. da, não nomeada, tabu. A morte que nos espreita, de fora, de cima, do
lado, de dentro. E, que, nos incomoda, preferimos não vê-la. Ela insiste,
reaparece: nas faltas, nas ausências, nos jornais, na TV, nas guerras, no
vizinho, no chefe, na traição, na miséria, na saudade, na mentira, na ver-
Maria Júlia Kovács
dade, na favela, no M inistério.

O artista a enfrenta, a denuncia: "E tropeçou no céu como se fosse um


bêbado; E flutuou no ar como se fosse um pássaro; E se acabou no chão
feito um pac ote flácido; Agonizou no meio do passeio pú blico. Morreu
na contramão atrapalhando o tráfego." (Chico Buarque, "Construção"). E
como atrapalha! - o trânsito, o movimento, a multidão louca, correndo e
sofrendo, num correr que não acaba, num sofrer que não se sabe. E isso
a vida? Ou é a morte em vida?

A morte começa quando não levamos em conta que a morte existe.


Quando nem sequer nos indignamos ao ver os mortos - mortos, não por-
que a morte existe, mas porque não lutamos pela vida. A criança miserá-
vel que morreu de fome, o operário que perdeu as mãos, a prostituta que
perdeu o amor, o ser humano que perdeu a humanidade e também o seu.
ser. O suicida que não sabe que já morreu an tes de matar-se, porque não
suportou a vida, a morte em vida; muitas vezes porque não pode tolerar a
morte do outro, e vai em busca dele, num mundo imaginário, que delírio,
engana como se fosse vida.
Mas, delírio? Não há nada após a morte? Não sei. O que sei, e é mu ito
pouco, Drummond disse, com mais saber e sabor: "A porta da verdade
estava aberta,/ mas só de ix ava passar/ meia pessoa de cada vez./ Assim
XVII 
XVI   Mo
rteede
senv
olvime
n t
o humano
  Prefácio 

não era possível atingir toda a verdade,/ porque a meia pessoa que entra- Mas, tive de chorar escondido, envergonhado por ser humano.
va/ só trazia o perfil da m eia-verdade./ E sua segunda m etade/ voltava
igualmente com meio perfil,/ E os meios perfis não coincidiam./ Arreben- Muitos a n os depois me vi ensin a n do moleques, como eu era, a serem
médicos. E me lemb rei daquilo, e de muito, muito mais. De outras mor-
taram a porta./ Derrubaram a p orta./ Chegaram ao lugar luminoso/ onde
tes: da desumanização do paciente e do médico. Do conluio com a socie-
a verdade esplendia seus fogos./ Era dividida em duas metades/ diferen-
dade. Das mortes matadas pelos homens. Dos homens suicidas, suicida-
tes uma da outra./ Chegou-se a discutir qual a metade mais bela./ Nenhu-
dos. E, de um Brasil, esplendoroso de vida, mas a vida, estr an gulada,
ma das duas era totalmente bela./ E carecia optar./Cada um optou con-
sufocada, a vida não-vida: moribunda.
forme/ seu capricho, sua ilusão, sua miopia." ("Verdade")
Só quando repercebi a morte, senti de fato o amor. Primos: "Eu te amo
Maria Júlia nos abrirá, sempre gentil e contundente, as portas para a porque te amo. Não precisas ser amante,/ e nem precisas saber sê-lo./ Eu
nossa ânsia de verdade: e nos brindará com muitas verdades, sobre as te amo porque te amo. Amor é estado de graça/ e com amor não se
quais cada um pode optar. Ou, sugiro, não optar. Assim, podemos conti-
paga./ Amor é dado de graça,/ é sem eado no vento,/ na cachoeira, no
nuar com a porta aberta - sempre poderemos ver algo mais. A opção
mata o desejo, a curiosidade. O esperar o novo, o acrescentJr, o d iminuir, ec li pse. Amor foge a d icionários/ e a regulamentos vá rios./.../ Amor é
primo da morte,/ e da m orte vencedor,/ por mais que o matem (e ma -
o t r an sformar, tudo isso é ruído de vida, é música num créscendo. tam)/ a cada instante de amor." (Drummond, "As sem-razões do amor").
Mas é difícil não saber e admitir isso. Todos nós procu ramos respostas: é Amando conheci muitas pessoas, vários companheiros de estudos sobre
a mãe, é o calor, é a amante, é a imprensa. Não: é o governo, é o rei, é o os mistérios da vida e da morte. E que, curiosos, vivos, amantes, se de-
bobo, é o camponês. É Deus, é o Diabo. Somos todos e não somos bruçam sobre esses temas, com todo o vigor que o amor imprime em
nenhum. É a vida e também é a m orte. É tudo e é nada.
estado de gr aça. Maria Júlia Kovács é uma delas.
Assim eu me via quando vi o primeiro cadáver. Não senti nada, a não ser Qu an do Maria Júlia me intimou a escrever este Prefácio, o que me dei-
curiosidade, diante daquela coisa cheiran do formol. Senti o formol, não a xou num estado temeroso e feliz, fiquei pens an do o que ela mais me
morte. Depois as piadas e a "coragem" que procurávamos ter, dissecando passava. E me veio a palavra CORAGEM. Coragem, é vida. Vem de
a carne morta. Era necessária muita"vida" para conviver com a morte, ou coração. De confiar na vida.
melhor, para negá-la. Mas, não éramos desumanos. Éramos apenas jo-
vens, moleques aterrorizados, que vínhamos estudar anatomia para que Num domingo, refletindo sob o sol que me cobria, recebo um telefonema.
depois, médicos, pudéssemos combater a m orte, ficar do lado da vida. Maria Júlia se apresenta. É professora do Departamento de Psicologia da
Mas, havíamos de passar por essa iniciação: demonstrar a nós mesmos Aprendizagem, Desenvolvimento e Personalidade, do Instituto de Psico-
que desprezávamos a m orte - e, por isso, ousávamos enfrentá-la! logia da USP. Estamos em 198 5. Diz que leu um livro meu sobre Suicídio,
e que, conversando com seu orientador Dr. Nélson Rosamilha, haviam
Um dia, entre os cadáveres em que aprendíamos a salvar vidas, imit an do decidido convidar-me para a sua banca de defesa de dissertação de mes-
cirurgias, encontrei uma jovem, que atendera semanas antes, viva, em seu trado. Alertava-me: não é bem sobre Suicídio - é sobre a Morte.
leito, e que passara a um colega, melhorada. Impressionara-me sua bele-
za, beleza de moça pobre, desnutrida, beleza mais de alma, de olhar, que Impressionado com o tamanho do nome de seu Departamento, com o
de pele ou de toque. Estava bela também na morte, mas só bela para fato de pessoas tão importantes terem lido meu li vro e, mais ainda, com a
mim, que a conhecera. Para todos era apenas um monte de tecidos, de coragem dos dois em convidar um desconhecido para uma b an ca, fiquei
órgãos e matéria. Nesse dia chorei: o choro que em quatro anos havia pasmo e paralisado. Geralmente se convidam amigos, e quando os pes-
contido. quisadores são tão sérios, investigadores não inimigos para uma b an ca de
IX 
XVIII  
M o
rteede
senv
olvime
n t
o huma
no  Prefácio  X 

mestrado ou doutorado... Nunca um desconhecido. Fiquei fascinado pelo Mais uma vez, Maria Júlia demonstra seu vigor, ao organizar este livro,
mistério e, logo que me recuperei, aceitei o convite. Precisava descobrir o onde o leitor encontrará vários autores, abordando o tema da morte sob
vários ângulos. Mais uma riqueza da investigadora: contemplar todas as
enigma.
leituras possíveis e, assim, como educadora que é, fazer o aluno (e o
E que surpresa! Era apenas coragem. Conheci a dissertação ("Um estudo leitor) refletir, comparar, duvidar, questionar, e, com tudo isso, criar.
sobre o medo da morte em universitários das áreas de saúde, humanas e Sem dogmas, que p ara mim é morte. Ao contrário: obrigando o outro a
exatas"), correta e precisa. Enfrentava-se o medo de algo temível e se pensar - e isso é vida.
desvelava. Mais importante: conheci Maria Júlia e Eda Custódio (que
Isso não quer dizer que o leitor vai encontrar respostas em relação à
assumiu como orientadora, p or ocasião do falecimento do Dr. Nélson)
morte. Talvez encontre, como diz o poeta, por "capricho, ilusão ou mio-
dois seres humanos excepcionais, como fui confirmando no decorrer dos
anos seguintes. Todos disseram o mesmo a respeito do professor Nélson pia". Mas, com certeza, poderá VIVER a riqueza de conVIVE R com
idéias, sentimentos, especulações, ricos e variados. Talvez fique frustrado,
Rosamilha, que encorajou Maria Jú lia nos primeiros passos de sua tese, e
mas, tenho a esperança de que possa viver a ausência da certeza, de
que faleceu antes de su a defesa. Mas, que de ix ou nela a sua marca.
todas as certezas, da vida e da morte. E mais uma vez Drummond nos
("... Alguém deste clã é bobo de morrer?/A conversa o restaura e faz eter-
no".... - Drummond, "Conversa") inspira:

 Já me stre, Maria Júlia criou a p rimeira disciplin a de gr adua ção, num a. "Por muito tempo achei que a ausência é falta
Universidade, que tenho notícia: "Psicologia da Morte", pa ra os alunos do
E lastimava, ignorante, a falta.
Instituto de P sicologia da USP. G enerosa, convidou-me todos estes anos
para ministrar aulas ligadas à psicaná lise e ao suicídio. Saía feliz de Cam- Hoje não a lastimo.
pinas, sabendo que em Sã o Paulo iria encontrar um grupo de alunos Não há falta sem ausência.
interessadíssimos, questionadores, desafiadores, enfim, VIVOS, e de uma A ausência é um estar em mim.
vida aproveitada, vivida ou rica para se viver. Estou certo de que Maria E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada em meus braços,
 Jú lia tem mu ito a v er c om isso . que rio e danço e invento exclamações alegres,
Em 1989, ela se tornou doutora. Em sua tese "A questão da m orte e a porque a ausência, essa ausência assimilada,
formação do psicólogo", onde descreve criativamente as experiências que ninguém a rouba mais de mim "
viveu na nova disciplina, já não é ma is tão precisa como na anterior.
Abandonando os nú meros, entra mais fundo na alma dos indivíduos, dis- (Carlos Drummond de Andrade, " Ausência ")
seca-a, procura compreendê-la - é mais ciência poética que lida com
gente, do que ciência fria, rica em estatísticas. Novamente na banca, sur-
preendo-me, cada vez mais, com a coragem de Maria Júlia que, estimula- Roosevelt Moisés Smeke Cassorla
da por Eda, incursiona com desenvoltura pela pesquisa do homem, cada
Ano Novo/1992
homem como ser único, que pede para ser reconhecido como indivíduo,
compreendido, interpretado (e há tantas interpretações...)

Em seguida, Maria Júlia cria uma disciplina de pós-graduação em Psico-


logia Escolar: "A morte no p rocesso do desenvolvimento humano: suas
representações em crianças e a dolescentes."
Capítulo 1

REPRESENTAÇÕES DE MORTE

Maria Júlia Kovács

Origem da morte

" Umamulher tinha dois fil hos gêmeos, alguns dizem que eram
irmão e irmã; que desmaiara m. Possivelmente só estavam dor-
mindo. Sua mãe os deixou de madrugada e quando retornou à
noite, eles ainda estavam deitados lá. Ela notou pegada s como as
deles, e imaginou que eles tinham voltado à vida e brincado du-
rante a sua ausência. Certa vez ela chegou, inesperadamente, e
encontrou-os discutindo dentro da cab an a. Um deles dizia: `É
melhor estar morto'. O outro dizia: `É m elhor estar  vivo.'  Quando
a viram, pararam de falar e d esde então as pessoas morrem de
tempos em tempos, portanto, sempre há vivos e mortos. Se ela
tivesse permanecido escondida e permitido que eles encerrassem
sua discussão, um teria vencido o outro, e daí não haveria vida
ou não haveria morte." (in  Meltzer, 1984)

Sobre que mo rt e falar? Existe uma mo rt e, aquela do fmal da vida, da qual,


em princípio, não tem os consciência durante o seu processo, pois "ninguém
volta para contar", como diz o povo. Segundo os bu distas, ou seja, de acordo
com a sua religião e filosofia, a morte é o mom ento de máxima consciência,
e os homens iluminados lembram su as mortes e suas ou tr as vidas. Então
não há só uma morte, mas várias, dur  a n te todo o processo evolutivo. Esta é
a minha crença, as sim como cada pessoa tem a sua.
As religiões e a filosofia sempre procuraram questionar e explicar a ori-
gem e o destino do homem. P or tradição cultural, fami li ar ou mesmo por
investigação pessoal cada um de nós traz dentro de si "uma morte", ou
seja, a sua próp ria representação da morte. São atribuídas a esta, personi-
ficações, qualidades, formas.
2  Morte e desenvolvimento humano  Representações de morte  3

A morte sempre inspirou poetas, músicos, artistas e todos os homens As defesas ao mesm o tempo que nos protegem do medo da morte, po-
comuns. Desde o tempo dos homens das cavernas há inúmeros registros dem nos restringir. Há momentos em que o sujeito fica tão acuado que
sobre a morte como perda, ruptura, desintegração, degeneração, mas, parece não viver. E esse não-viver, pode ser equivalente a morrer. Então
também, como fascínio, sedução, uma grande viagem, entrega, desc an so surge uma situação paradoxal, em que a pessoa "está" morta, mas "esque-
ou alivio. ceu" de morrer: temos a chamada morte em vida. Com  isso estamos brin-
cando com as palavras vida e morte e com o seu entrelaçamento, mas que
Qual delas poderia ser a "nossa morte"? A forma como a vemos certa- verdades profundas essas brincadeiras nos trazem!
mente influenciará a nossa forma de ser. Entrelaçamos vida e morte, du-
rante todo o nosso processo de desenvolvimento vital. Engana-se quem A morte faz parte do desenvolvimento humano desde a mais tenra idade.
acredita que a morte só é um problema no final da vida, e que só então Nos primeiros meses de vida a criança vive a ausência da mãe, sentindo
deverá pensar nela. Podemos, é claro, tentar esquecer, ignorar ou mesmo que esta não é onipresente. Estas primeiras ausências são vividas como
" matar" a morte. Sabemos que a filosofia e o modo de viver do século XX mortes, a criança se percebe só e desamparada. Efetivamente não é ca-
pregam veementemente esta atitude, porém, com um sucesso relativo, paz de sobreviver sem a m ãe. São, no entanto, breves momentos ou, às
como veremos. N a verdade, trata-se de um grande e inútil dispêndio de vezes, períodos mais longos, porém logo alguém aparece. Mas esta pri-
energia. meira impressão fica carimbada e marca uma d as representações mais
fortes de todos os tempos que é a morte como ausência, perda, separa-
Desde todos os tempos em busca da imortalidade, o homem desafia e ção, e a conseqüente vivência de aniquilação e desamparo. A experiência
tenta vencer a morte. Nos mitos e lendas essa atitude é simbolizada pela da relação materna tão acolhedora e receptiva, também é responsável
morte do dragão ou monstro. Os heróis podem conseguir tal façanha mas por outra representação poderosa da morte, ou seja, a morte como figura
os mortais não. E o homem é um ser mortal, cuja principal característica maternal que acolhe, que dá conforto. Esta representação provavelmente
é a consciência de sua finitude - isso o diferencia dos ani mais, que não é bastante acentuada em indivíduos que tentam suicídio diante de situa-
têm essa consciência. Portanto, obnubilar, apagar essa consciência não ções insuportáveis, ou que originam impasses profundos.
seria um retrocesso?.
Não nos iludamos, pois o que buscamos não é a vida eterna e sim a À medida que a criança processa o seu desenvolvimento afetivo e emo-
 ju ve nt ud e et er na co m se us pr az er es , f or ça , b el ez a e nã o a v elh ice et er na cional, porém, experiencia as mortes efetivas que a rodeiam, tent an do
com suas perdas, feiúra, dores. Quantos "heróis" perderam a vida na bus- compreender o que se passa. A tualmente, acredita-se que a criança não
ca da imortalidade! Não acreditamos em nossa própria morte, agimos sabe nada sobre a m orte e que, portanto, deve ser poupada. No entanto,
todas as crianças inadvertidamente já pisaram numa formiga e esta, es-
como se ela não existisse, fazemos planos para o futuro, criamos obras e
filhos, imaginamos que estes perpetuarão o nosso ser. Em alguns casos, magada, parou de se mex er. Diante disso, elas param e ficam observando,
isso ocorre, o homem é perpetuado pelas suas obras. Algumas vezes, entre aterrorizadas e curiosas, o que aconteceu. Toda cri  a n ça já "perdeu"
um passarinho, um gato, um peixe ou qualquer bicho de estimação. Per-
estas se mostram m ais vivas depois da sua morte. Quantos foram reco-
nhecidos só depois de mortos! Van Gogh é u m exem plo destes "imortais" cebeu então que ficaram "diferentes" do que eram quando estavam vivos.
Além disso, podem m orrer bisavós, avós, pais, irmãos, amigos e, nos noti-
depois da morte.
ciários e novelas da TV, inúmeras pessoas. D iferentes dos personagens de
No entanto, não podemos viver a vida toda sob a esmagadora "presença" desenhos animados, que semp re renascem, aqueles jamais retornam. É
da m orte. Existem várias possibilidades de ocultamento, t an to culturais, uma tarefa muito difícil para a criança definir vida e morte, pois na sua
quanto psicológicas. Entre estas últimas podem ser destacados os meca- percepção a morte é não-movimento, cessação de algumas funções vitais
nismos de d efesa: negação, repressão, intelectualização, deslocamento. como a li mentação, respiração; mas na sua c oncepção a morte é reversí-
Como todos nós já vivenciamos tais desejos, em algum momento de nos-
vel, pode ser desfeita. Há diferenças entre vivos e mortos, mas os ú ltimos
sas vidas, sabemos que é inevitável a li gação da culpa com a morte do
poderão ser  ressuscitados sozinhos ou com ajuda de alguém. Na realida-
de não é assim, os verdadeiros mortos não ressuscitam; como a cri an ça outro.
consegue elaborar esta contradição? A morte se faz acompanhar de uma Racionalmente os adultos reconhecem que não é assim, m as emocional-
tentativa de explicação e, por outro lado, fortes emoções assolam q uando mente é freqüente a atribuição de culpa em relação à morte do outro,
de seu acontecimento. A dor acompanha as mortes e o processo de luto muitas vezes associada à falta de cuidados, sentimentos exacerbados no
se faz necessário; a cri a n ça também processa as suas perdas, chora, se processo de luto.
desespera e depois se conforma como o adulto. Certamente não expres-
sará a sua dor, se não souber que aconteceu uma morte, entretanto a Ao construir o mundo, o adolescente deixa as idéias e os pensamentos
criança percebe que algo aconteceu pois todos estão agindo de um a for- infantis, o "faz-de-conta" é relegado como coisa de criança. Adquirir co-
ma diferente. Estes pontos serão m elhor discutidos em outros capítulos nhecimentos, tornar-se adulto, ter um corpo de homem ou mulher são
deste livro. tarefas da adolescência. A sua pa lavra-chave é desafiar, pois o adolescen-
te também é um herói como a criança havia sido, .só que um herói mais
Um dos atributos freqüentem ente associados à morte é a sua carac terísti- potente, com um corpo mais forte e uma mente mais aguçada, com todas
ca de reversibilidade, presente na fantasia de mu itos adultos, como vere- as possibilidades de criação e execu ção, sem os freios restritivos da razão
mos nos processos de luto. Em m uitas tentativas de suicídio há a fantasia e da maturidade. N as representações figurativas os heróis são jovens, be-
de "se morrer só um p ouco", para que o outro p ossa sentir a falta, ou para los, fortes, predominando, sempre, a característica da impetuosidade.
que se sinta culpado. Entretanto, a própria criança começa a compreen- Não há lugar para a morte, que representa a derrota, o fracasso. Como
der a irreversibilidade da morte pela própria experiência. podemos ver aqui está representada a visão atual da m orte: fracasso,
derrota, incompetência. Devemos admitir que somos uma civilização
Sabemos que faz parte do desenvolvimento infantil o pensamento mágico
adolescente, onipotente, forte, entretanto com p ouca ma turidade?
e a onipotência. Fica, portanto, a grande questão: se os outros m orrem,
será que morrerei também? A criança reproduz a história da humanida- Desafiar, romper limites é o grito de vida, é a identidade de um novo ser
de. Ela se representa como o herói que dur  a n te o dia vence a sua fragili- que rompe barreiras, extravasa limites, para configurar os contornos da
dade e, à noite, tem os seus pesadelos, os monstros, os dragões e os própria identidade, em busca d a qual tem de ir até o fim. Experimentar
fantasmas que a ameaçam. A morte representa o desconhecido e o mal novos prazeres, sentir o li mite do possível é viver a vida nos seus extre-
mos. Estamos exagerando ao falar de um ideal adolescente de onipotên-
Nos filmes, na TV e talvez até mesmo na rua a criança começa a conviver
cia, força, impulso o "pico" da vida, sem espaço p ara a morte. Mas, esta-
com a concretude d a morte, corpos mutilados, sangue, violência, vê homi-
mos diante de uma contradição, pois neste momento em que não há lugar
cídios, assassinatos, acidentes. A morte passa a adquirir alguns dos seus
para a morte, é que ela está mais p resente, espreitando em todos os
contornos principais, o caráter de violência, repentinidade, acaso. Uma
das formas principais de proteção passa a ser a crença de que a morte só c a n tos. No desafio da vida, pode estar a morte, não só a do outro, mas a
própria. Pelo seu desenvolvimento cognitivo o adolescente sabe que a
ocorre com os outros. morte não é reversível, mas sim, defmitiva, não tem, portanto, o elemento
Outro elemento da morte que fica muito presente nesta fase da vida é o protetor da inconsciência, pelo menos do ponto de vista racional.
elemento culpa. Esta relaciona-se muito com o pensamento mágico e O adolescente pode viver várias mortes concretas, com a perda de am i-
onipotente inf a n til e com os elementos de sociabilização que levam a gos, colegas, em acidentes, overdose, assassinatos, doenças. Apesar de
desejos de morte, de tal forma que, se ocorre um a morte, é inevitável que viver a concretude dessas perdas, o pensamento adolescente conclui que
a cri an ça estabeleça uma relação entre esses desejos e a morte efetiva.
7
6  Mo rt e e desenvolvimento humano  Representações de morte 

a morte ocorreu por inabilidade, imperícia e que o verdadeiro herói, que inicia com o fim da adolescência, e termina com o início da velhice, mas
é ele próprio, não vai morrer. Aqui está representada a busca e o desejo os seus limites não são precisos. As exigências externas constituem um
de imortalidade do ser hu mano, o seu desejo de ser herói, forte, belo e estado íntimo que nos faz sentir adultos.
onipotente, com a grande missão de vencer o dragão da morte.
Responsabilidade em relação à comunidade e colaboração com o seu
Mas em seu íntimo, ocorre uma dúvida: será ele apenas hum an o, frágil, e desenvolvimento são tarefas próprias desta fase. Consolidar uma intimi-
terá o mesm o destino do outro? A adolescência se configura pelas ambi- dade afetiva, iniciada na fa se anterior, constituir família, criar filhos tam-
valências. Ao mesmo tempo que se sen te todo-poderoso, o adolescente bém fazem parte deste período. Muita energia é dispendida na constru-
também "borra as calças", só que dificilmente exterioriza essas fraquezas. ção de todos estes pilares. O espaço da morte na consciência ainda pode
Assim, o herói tem os seus momentos de dúvida e insegurança. estar muito distante. O impulso e os arroubos da adolescência tendem a
diminuir e, em geral, a pessoa se torna mais ponderada e calma, pois, se
A morte espreita no pico da vida. É que para viver os grandes êxtases permanecesse no ritmo da fase anterior, poderia adoecer.
que a vida promete, a m orte pode ocorrer como acidente ou busca.
Como o número de tentativas de suicídio e acidentes é muito grande Entre as doenças comuns desta época estão os ataques cardíacos fulmi-
nesta etapa da vida, resta saber se ocorrem por acidente ou por motiva- nantes que ceifam a vida. Mais uma vez, é a morte rondando no p ico da
cão intencional. Se são atos deliberados o que buscaria o sujeito: uma
vida melhor, mais amor, mais valorização, vingança, castigo? Este enigma vida.
será aprofundado no ca pítulo referente ao suicídio. Esta fase constituiria o que Jung cham ou de metanóia ou metade da vida.
A adolescência também é o tempo da descoberta do amor. Durante o É quando fazemos um balanço do que foi a nossa existência até aquele
Romantismo as pessoas se matavam por amor, quando estavam muito momento. Em princípio, quase tudo o que se almejava como realização
apaixonadas, o que deu origem à expressão popular "morrer de amor". de vida foi conseguido. Houve alegrias e vitórias, mas, também, tristezas e
De novo, no pico da vida ronda a morte. Os temas de sedução, conquista, decepções. Fatos concretos, porém, permitem avaliar o que se alcançou
amor e morte fazem parte do enredo de óperas, poemas, romances e em relação à profissão, às posses, à família, aos filhos, ou a quaisquer
novelas e freqüentemente a culminância destes enredos se configura com outros pontos considerados vitais. Quando se chega ao topo da montanha
um grande amor e uma grande morte. Uma das representações mais for- e se admira a paisagem à volta, a descida parece obrigatória. Não dá para
tes da morte está ligada ao seu caráter de sedução, presente nas figuras ficar todo o tempo no topo, nem que se queira, sob o risco de estancar o
de sereias, botos, arlequins. Por outro lado, o ponto culminante do amor processo, com conseqüências. A subida remeteu a um esforço, como vi-
é o orgasmo também chamado de "pequena morte". mos, o mesmo ocorrerá com a descida. Ela representa a segunda metade
da vida, potencialmente tão criativa quanto a primeira, só que de num
O uso d e drogas pode ter como objetivo elevar o "pico" da vida ou servir outro ângulo. Temos toda a experiência do na scimento, da infância, da
como elemento de alteração da consciência. Sabemos que o número de adolescência e da primeira fase adulta. Ao fazer um balanço dessa expe-
mortes concretas associadas às drogas é m uito alto, envolvendo aciden- riência, uma grande transformação interna se processa em nós e a morte
tes, doenças. No entanto a droga traz a representação da morte ligada às não se configura mais como algo que acontece somente aos outros, mas
grandes viagens, à percepção diferente do m undo, a um estado alterado que pode acontecer conosco também. Surge, então, a possibilidade da
de consciência. minha morte e isto traz um novo significado para a vida. Esta pa ssa a ser
 Já a f as e a du lta , m ui ta s v ez es in de fin id a, po de ser co ns ide ra da um pe río - definida e ressignificada pela possibilidade da morte. Não temos mais
do de desenvolvimento do qual nos temp os atuais da sociedade cap italis- todo o tempo do mundo, o limite não está lá para ser extrapolado e sim
ta, não temos clareza sob& seu início e seu término Aparentemente se para ser conhecido e adm itido.
Representações de m o rt e  9 

muitas pessoas que viveram de forma significativa o fmal da vida, pois


Assim continuamos nossa trajetória de descida, ressignificando valores,
nesse tempo todas as experiências se somam, as da subida, a visão abran-
abandonando alguns da juventude e admitindo outros. O tempo não pode
gente do pico e todo o processo da descida. Ao escrever, vem-me a ima-
ser est an cado. Tentar pará-lo, porém, para distanciar a morte, foi sempre gem de meu mestre, Dr. Sandor Petho, que durante o tempo em que seus
uma tentativa inútil feita pelo homem. Esta imagem do homem que pro-
alunos o conheceram trouxe toda a plenitude de sua experiência, com-
cura driblar a morte, através de jogos, disfarces ou artimanhas é ba st an te
partilhando conosco a sua sabedoria. Sua morte repentina entristeceu a
significativa, em todos os tempos. E o homem que vende a alma ao diabo
em troca da não-morte, só que neste ponto ela é inexorável. O filme todos, família, amigos e discípulos, como é inevitável, mas também nos
trouxe a lição de como a vida pod e ser vivida na sua plenitude até o final.
"Sétimo Selo", de Ingmar Bergman, traz esta representação do homem
Esta imagem nos lembra a representação da morte como sabedoria, o
que joga uma partida de xadr ez com a morte. Aí se apresenta outro
velho sábio que nos conduz pela sea ra do novo, do desconhecido e que
atributo de sua inexorab ilidade, pois ela é sempre vitoriosa, a ela nenhum
herói pode vencer e esta é a diferença entre a consciência da vida adulta provoca em nós profundas transformações.
e a da adolescência. Outros atributos, freqüentemente, associados à mor- A morte como limite nos ajuda a crescer, mas a morte vivenciada como
te  são o mistério, o poder e a força. O homem, que sempre m ediu forças limite, também é dor, perda da função, das carnes, do afeto. É também
com a morte, viu-a como inimiga que arrebanha e, num poder de sedução solidão, tristeza, pobreza. Uma das imagens m ais fortes da morte é a da
maior, domina a vida. O símbolo cia foice, freqüentemente usado nas velhice, representada por uma velha encarquilhada, magra, ossuda, sem
representações da morte, dá esta idéia de corte. dentes, feia e fedida. É uma visão que nos causa repulsa e terror.
E assim continua a nossa descida. Em termos de desenvolvimento chega- Neste capítulo que inicia esta obra, com p oucas citações nós nos propu-
mos a uma fase conhecida como velhice, que como vimos, não tem um semos estabelecer uma relação entre as representações mais comuns da
início de fi nido, mas cujp fim é claramente a m orte. morte e as fases do desenvolvimento hum ano. Já qu e a tônica deste livro
A velhice é a fase do desenvolvimento humano que carrega mais estigmas é falar da morte enquanto há vida, este é o lugar da psicologia no seu
e atributos negativos. Isso se justifica em pa rte porque ocorrem perd  a s estudo do homem.
corporais, financeiras, de produtividade e, às vezes, a separação da pró-
pria família se torna inevitável. No entanto, a maneira de viver ou repre- Do ponto de vista biológico, como definimos a morte, Morin (1970) de-
sentar cada uma dessas perdas se vincula ao processo de desenvolvimen- fende uma tese, baseada em p esquisa, segundo a qual o que caracteriza
os seres vivos é a imortalidade, considerando-se as suas unidades mais
to e à consciência de cada um.
simples, como as células. Existe uma aptidão biológica para o viver inde-
E import an te verificar onde é colocada a ênfase: na vida ou na morte. Se finidamente, reproduzindo-se. Neste sentido, a morte é o fim da existên-
este período está voltado só para a m orte, como alguns teimam em colo- cia e não da matéria. Os estados de vida e morte ocorrem num conti- 
car, porque é tão longo, maior do que qualquer outra f  a s e do desenvolvi- nuum com células e tecidos se substituindo num processo dinâmico. Não
mento, durando, às vezes, mais de 30 ou 40 anos? é possível a sobrevivência de determinadas partes do corpo se outras não
morrerem, como, por exemplo, as células da p ele, dos cabelos. Daí não
Há pessoas que chegam aos 90 ou 1 00 anos. Será para morrer em vida?  serem separáveis claramente os estados de vida e de m orte. A evolução, a
 Jun g di z q ue s e te mos vin te an os para nos prepararmos para a vida, especialização levou a uma desigualdade celular, à desarmonia e, portan
deveríamos ter o mesmo tempo para nos prepararm os para a m orte. to, à morte. Esta surge como o p reço da organização e da especialização.
Pode-se preparar para a morte vivendo intensamente, obviamente "não
A velhice permitiu que se fizessem estudos sobre o p rocesso de morte. A
estamos falando de negar a morte, ou esconder o sol com uma peneira,
chamada "morte natural" é a que não ocorre por acidentes ou doença
mas de conviver com ela em busca do seu significado. Temos observado
11
Representações de morte 
1 0  Mo rt e e desenvolvimento humano 
ção da atividade
fatal. Do ponto de vista bioquímico a m orte se configura como um a falta 3. Ausência de reflexos, ou coma irreversível com abo li
do Sistema Nervoso Central. Ausência de reflexos condicionados
de regeneração, mas é difícil descobrir qual a sua causa e o seu processo.
como: reação da pupila, que fica fixa e dilatada mesmo na presença
É a questão da mortalidade/imortalidade. Somos em parte mortais e em de luz, sem reflexo na córnea, faringe e tendões.
parte imortais. Temos dentro de nós a raiz da imorta li dade.
Desenvolveremos neste livro extensas discussões sobre o viver psicologi- 4. Encefalograma plano, comprovando destruição cerebral plena e irre-
camente o processo da morte, de interesse da psicologia. Do ponto de versível.
vista médico sempre se buscou definir com clareza o momento da morte.
Isso nem sempre foi muito fácil, como atestam relatos acerca de muitas
pessoas que foram enterradas vivas, tratando-se de um fato que tem des- A m orte clínica é definida como um estado onde todos os sinais de vida
pertado temor em todos os tempos. Objetivamente fal an do isso não ocor- (consciência, re fl exos, respiração, atividade cardíaca) estão suspen sos,
re mais, em nossos dias, pois há parâmetros cientificamente definidos embora uma p arte dos processos metabólicos continue a funcionar. A
morte clínica se tornou um conceito, pois atualmente todas essas funções
para constatar a morte.
vitais podem ser substituídas por máquinas, p rologando a vida indefinida-
mente. A morte total ocorre quando se inicia a destruição das células de
No livro de Ziegler (Os vivos e a mo rt e, 1977) encontramos a definição de
Hipócrates para o momento em que a morte ocorre, como: testa enruga- órgãos altamente especializados, como o cérebro, os olhos, passando de-
da e árida, olhos cavos, nariz saliente, cercado de coloração escu ra, têm- pois para outros órgãos menos especializados.
poras deprimidas, cavas e enrugadas, qu eixo franzino e endurecido, epi-
Como se vê, do ponto de vista somático há um a definição que permite a
derme seca, um a espécie de poeira de um branco fosco, fisionomia niti-
constatação da morte sem maiores problemas. Em caso de dúvida,
damente contornada e irreconhecível.
pode-se pedir que mais de um médico confirme o óbito. Uma vez dado
Em termos de função, a morte se caracteriza pela interrupção completa e o atestado, iniciam-se os ritos funerários. Do ponto de vista psicológico
definitiva das funções vitais de um organismo vivo, com o desapa recimen- existem inúmeras mortes, como vimos, nas suas mais variadas repre-
to da coerência funcional e destruição p rogressiva das unidades tissulares sentações, inclusive podemos agir como se ela não existisse.
e celulares. Alguns autores estudaram as experiências vividas por indivíduos que
Como veremos a seguir cabe atualmente ao médico definir o momento da estiveram muito próximos da morte, numa tentativá de relatar o que
morte, com conseqüências sociais muito sérias. O médico confirma esse seria a experiência de morrer. Moody (1975) pesquisou 150 casos de
momento, constatando-ò como definitivo e irreversível, bem como deter- pessoas que foram ressuscitadas após estarem clinicamente mortas, e
mina a sua cau sa. Entre os critérios que atualmente definem a ocorrência de pessoas que sofreram acidentes e estiveram muito próximas da mor-
te. Esse autor estudou o relato dessas pessoas, observando semelhanças
da morte estão os seguintes (Ziegler, 1977):
extraordinárias dentre as quais, destacamos:
1. Não-receptividade e não-reação total a estímulos externos, mesmo 1. Sensação de serem expectadores, quando ouvem  "pronunciamentos"
que dolorosos. Não há emissão de sons, gemid os, contrações, nem
sobre a sua própria morte.
aceleração da respiração.
2. Sensação de paz e quietude ou, ao contrário, ruídos muito intensos.
2. Ausência de movimentos respiratórios, falta de movimento m uscular
espontâneo ou de respiração ao se des li gar o aparelho respiratório 3. Experiência de passagem por um túnel escuro.
por um tempo m ais longo.
1 2  Morte e desenvolvimento humano  Representações de mo rt e 

4. Experiência extracorpórea, em que o indivíduo se vê acima do seu Como afirmamos, neste livro trataremos da morte do ponto de vista psi-
corpo. Algumas pessoas relatam que gostariam de voltar ao corpo, cológico, ou seja a morte como representada pelo ser humano. A questão
mas não sabem como, tentam falar, mas ninguém escuta. da vida após a m orte sempre foi uma preocupação universal do ser hu-
mano e, de alguma forma, determina a maneira como o homem reagiu
5. Encontro com outras pessoas, que podem assumir a forma de paren- di an te da morte durante toda a História. Essa questão será abordada em à
tes ou amigos já falecidos ou de pessoas que ajudaram no m omento alguns trechos do li vro, mais particularmente no capítulo 7 referente
da transição. abordagem junguiana.

6. Encontro com um "Ser Iluminado", muitas vezes identificado com Neste li vro a questão religiosa é somente tangenciada. Não se trata de
uma figura divina, cuja imagem está relacionada com a história reli- nosso enfoque no momento, embora saibamos que as religiões tiveram e
giosa da pessoa. Esta figura pode exercer uma atração irresistível e têm grande função na explicação dos mistérios da vida e da morte, atra-
transcendental. vés da fé e da crença. Acreditamos que este tema por si mereceria um
livro. Abordaremos brevemente a função social e psicológica da religião,
7. Sensação de retrocesso, onde ocorre uma visão panorâmica da vida a sua função transcendente, a sua dimensão cósmica. Discutiremos,  tam-
do sujeito, normalmente relatada cont sendo muito rápida e e m  or- bém, como a questão da continuaçã o da vida sempre foi um d esejo do
dem seqüencial de trás para a frente, com imagens rápidas, vívidas e homem durante todos os tempos. A segurança de uma vida após a morte
reais. parece aplacar o terror, que a finitude árida e drástica introduz.

8. Experiência de limite: a pessoa sente que chegou ao fim.


Referências Bibliográficas
9. Muitos relataram um desejo imenso de voltar à terra e ao convívio
familiar, com a responsabilidade e necessidade de cuidar dos filhos;  J UN G , C . G . - Th e so ul an d de at h. Vol. 8 Collected Works. London, Rou-
outros após o encontro com a pessoa divina não queriam m ais voltar. tledge and Keagan Paul, 1960.

10. Algumas pessoas se recusam a contar essas experiências com m edo MOODY, R. - Life after life. New York, Bantam Books, 1975.
do descrédito.
MORIN, E. - O homem e a morte. Lisboa, Publicações Europa-Améri-
11. Outros relataram que essa experiência foi extremamente impactante ca, 19 70.
e provocou mudanças na sua forma de encarar a morte, diminuindo,
ZIEGLER, J. - Os vivos e a m orte. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
inclusive, o medo de morrer.

Watson (1974) relata que diante da morte rápida e repentina, podem


ocorrer três reações em seqüência:

a. A princípio a pessoa c omeça a lutar contra o p erigo e o inevitável.

b. Depois ela deixa de lutar e se en tr ega, relembr a n do cenas do passado.

c. Em seguida, pode entrar num estado místico do qual, muitas vezes,


não deseja voltar.
Medo da morte  1 5 

1. A morte do outro: O medo do abandono, envolvendo a consciência


Capítulo 2 da ausência e da separação.

2. A própria morte: A consciência da própria finitude, a fantasia de


como será o fim e quando ocorrerá.
MEDO DA MORTE Ao pensar sobre a sua morte, cada pessoa pode relacioná-la a um dos
seguintes aspectos:
Maria Júlia Kovács
a. Medo de morrer: Quanto à própria morte, surge o medo do sofrimen-
to e da indignidade pessoal. Em relação à morte do outro é difícil ver
As muda nças ocorridas do nascimento até a velhice, da doença o seu sofrimento e desintegração, o que origina sentimentos de impo-
"
até a morte são ainda mais rápidas. As quatro estações, têm tência por não se poder fazer nada.
uma seqüência determinada. Assim, a hora da morte não espe-
ra a sua vez. Ela não vem necessariamente de frente, pode estar b. Medo do que vem após a m orte: Quando se trata da própria m orte e
planejando o seu ataque por trás. Todo mundo sabe da morte, o medo do julgamento, do castigo divino e da rejeição. Em relação à
mas ela chega inesperadamente, quando as pessoas sentem que do outro, surge o medo da retaliação e da perda da relação.
ainda têm tempo, que a morte não é iminente. É como as pla-
nícies secas que se estendem mar adentro, para que a m aré c. Medo da extinção: Diante da própria morte existe a ameaça do des-
chegue, inundando o seu caminho até a praia." (Kenko, Urabe conhecido, o medo de não ser e o medo básico da própria extinção.
no Kaneyoshi, Japão século XIII, in Meltzer, 1984 ) Em relação ao outro, a extinção evoca a vulnerabilidade pela sensa-
ção de abandono.
O medo é a resposta psicológica mais comum diante da morte. O medo
de morrer é universal e atinge todos os seres huma nos, independente da O que parece mais temido na morte depende da época de vida de cada
idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso. Apresenta-se com um e das circunstâncias do m omento, como, por exemplo: o perigo imi-
diversas facetas e é composto por várias dimensões. Segundo Feifel e nente devido a situações externas de gu erras, crimes, violência; perturba-
Nagy (1981) nenhum ser humano está livre do medo da morte, e todos os ções internas que ameaçam o sujeito, como medos e fobias, ou m esmo a
medos que temos estão de algum a forma, relacionados a ele. morte de alguém.

É difícil diferenciar entre medo e ansiedade. De uma maneira geral, a Kastenbaum (19 83) relacionou as seguintes variáveis segundo as quais se
ansiedade é associada a um sentimento difuso, sem uma causa aparente- deve estudar o medo da m orte:
mente definida. Já o medo é geralmente ligado a uma causa mais especí-
fica. No caso da morte, porém, esta experiência é tão ampla e universal 1.  Temp o: Quando está prevista a ocorrência da morte? Está próxima ou
que se poderia pensar em ansiedade e medo de forma similar. Segundo distante temporalmente? Qual é a velocidade de sua aproximação e a
Hoelter (1979) a ansiedade pode ser d efinida como um estado geral que possibilidade de estancar o seu processo?
precede uma preocupação mais específica do homem com a morte. Veri- 2. Espaço: O perigo da morte é encarado como ameaça interna, ou
ficou-se, então, que pessoas que têm um nível maior de ansiedade apre- como algo projetado no ambiente externo.
sentam mais medo da morte, ou seja, o medo da morte evoca ansiedade.
3. Probabilidade: O indivíduo percebe que tem alta probabilidade de
Cada pessoa teme mais um certo as pecto da morte. Em função disso, Kas- morrer real ou simbolicamente.
tenbaum (1983) afirma que deve-se considerar a morte sob du as  co nce pções:
1 6  Mo rt e e desenvolvimento humano  Medo da mo rt e  17 

estão os questionários, as pr ovas projetivas, as entrevistas, os diários, as


4. Gênese: Onde se pode buscar o início desse medo e como ele se
entrelaça com outros fatores de p ersonalidade? autobiografias e a observação do comportamento. Alguns instrumentos
avaliam aspectos mais conscientes relacionados ao medo da morte, como
5. Manifestação: Os sintomas mais comuns relacionados com o medo os questionários e as provas de auto-relato qu e, se por um lado, são ma is
da morte podem ser: insônia, preocupações excessivas com algum acessíveis ao sujeito, por outro são mais susceptíveis de distorções, atra-
aspecto da vida como família, trabalho ou saúde, estado de ânimo vés de respostas socialmente esperadas. Provas p adronizadas permitem
depressivo, sintomas psicossomáticos, entre outros. rápidas medidas e favorecem c omparações entre sujeitos e amostras, mas
ignoram a subjetividade, fator importante, neste caso. Provas projetivas
6. Patologia: Até que ponto o medo da morte pode ser considerado nor- medem aspectos mais latentes e inconscientes do indivíduo, o que permi-
mal em todos os seres hum  a n os, como afirmamos anteriormente? Em te uma análise mais profunda da dinâmica do m edo, mas podem acarretar
que momento começa a adquirir contornos patológicos pela sua inten- dificuldades de interpretação. Esta é uma difícil decisão para o pesquisa-
sidade, formas de manifestação e conseqüências na vida do sujeito? dor.
7. Diferenças individuais: O medo da m orte está ligado a característi- Foram realizados diversos estudos em que a pergunta básica era: o medo
cas pessoais e circunstanciais da vida e não pode ser considerado da morte é unidimensional ou multidimensional?
separadamente da p ersonalidade do sujeito.
Donald Templer foi o autor que construiu a Death Anxiety Scale (DAS),
8. Função: Qual é a função do medo da morte na vida de uma p essoa? muito conhecida pelos pesquisadores que constroem instrumentos para
 Tra ta- se d e um fator de p roteç ão d a vid a ou ap rese nta contor nos medir a ansiedade ligada à morte. Sua escala tem 40 itens e considera a
patológicos, levando a uma restrição vital? ansiedade diante d a morte como fator unidimensional. Sua validade foi
verificada em pacientes psiquiátricos e ele observou, também, que su jeitos
Murphy (195 9) em seu com entário sobre o livro de Feifel The Meaning of 
muito ansiosos, tiveram alto resultado na DAS, bem como na escala de
Death (1959), arrola as várias facetas do medo da morte, relacionadas às ansiedade do M innesota M ultiphasic Personality Iventory (MMP I).
atitudes das pessoas diante dela. Para alguns a m orte amedronta, pois é
vista como fim  ou  como perda de consciência similar ao adormecer, des- Outros estudos consideraram a m ultidimensionalidade do m edo da m or-
maiar ou perder o controle. O medo da morte pode conter também o te, usando a análise fatorial para verificar a saturação de cada fator. Entre
medo da solidão, da separação de quem se ama, o medo do desconheci- estes pode ser citado o estudo de Lester (1969) que especifica quatro
do, o medo do julgamento pelos atos terrenos, o medo do que possa dimensões: medo da própria morte, medo da m orte do outro, medo do
ocorrer aos dependentes, o medo da interrup ção dos planos e fracasso processo de morrer próprio e do outro. Conte, Weiner e Plutchik (19 82)
em realizar os objetivos mais importantes da pessoa. São tantos os me- realizaram um estudo de análise fatorial e chegaram a quatro dimensões
dos, que algum sem dú vida faz parte de nossa vida. independentes: medo do desconhecido, medo do sofrimento, medo da
solidão e medo da extinção pessoal. Para a construção de sua escala fo-
Para Feifel (195 9) os fatores que mais influenciam, no sentido de conter o
ram conduzidas entrevistas com idosos e estudantes para que expressas-
medo da morte, são: a m aturidade psicológica do indivíduo, a sua capaci-
sem seus medos relacionados à morte, chegan do-se, então, a 24 itens que
dade d e enfrentamento, a orientação e o 'envolvimento religiosos que
cobriam vários aspectos: medo da doença e sofrimento antes da morte,
possa ter e a sua própria idade. medo de estar só diante dela, medo das despesas com o funeral, medo de
Alguns medos são m ais conscientes e expressos, ou  t r os permanecem mais ser esquecido, medo do que vem após a morte. Como se vê há uma ampla
gama de medos que para cada pessoa, podem ser mais evidentes. Fica
latentes. Po rtan to, como medir e ava li ar a intensidade do medo da morte
de diferentes pessoas? Dentre os instrumentos mais utilizados para isso difícil, portanto, falar do medo da morte de forma g enérica.
1 8  Mo rt e e desenvolvimento humano  Medo  da mo rt e  1 9 

Hoelter (1979) realizou um estudo fatorial determin an do oito dimensões tão da crença em Deus. (Exemplo: Tenho medo de que não haja vida
após a morte.) - 5 itens.
do medo da morte, a Multidimensional Fear of Death Scale. A autora
deste livro (Kovács, 1985 ) realizou uma pesquisa no Brasil com essa esca-
6. Medo da morte consciente: Esta dimensão lida com o medo dos proces-
la, que após a tradução recebeu o nome de Escala Multidimensional para  sos subjacentes à morte e com o temor de se estar consciente nessa hora.
Medir o Medo da M orte (EMMM). Escalas multidimensionais permitem (Exemplo: Tenho medo de que muitas pessoas, consideradas mortas, ain-
que, além do escore geral, se obtenha um escore parcial para cada dimen- da estejam vivas.) - 5 itens.
são considerada, trazendo uma riqueza de dados para pesquisas. Esta
escala é composta por uma abrang ência de itens que englobam as dimen- 7. Medo do corpo após a morte: Esta dimensão lida com a preocupação da
sões do medo da m orte. Foram efetuados estudos que comprovam a sua qualidade do corpo após a morte. (Exemplo: Tenho medo de que meu
validade de constructo e precisão. O medo da morte foi defmido pelo corpo fique desfigurado quando eu m orrer.) - 4 itens.
autor como uma reação emocional envolvendo sentimentos subjetivos de
desagrado, e a preocupação, contemplação ou antecipação de quaisquer 8. Medo da mo rt e prematura: Esta dimensão é baseada no elemento tem-
das várias facetas relacionadas com a morte, supondo-se que estes senti- poral da vida e na frustração por não ser possível atingir os objetivos, ou
mentos possam ser conscientes. por não viver certas experiências antes de morrer. (Exemplo: Tenho medo
de não realizar os meu s objetivos até morrer.) - 4 itens.
Esta escala compõe-se de 4 2 itens, divididos em oito dimensões, submeti-
das à análise fatorial pelo autor, na qual as saturações dos fatores foram Os itens da escala foram traduzidos e foi pedido a juízes que verificassem
operacionalmente definidas (Hoelter, 1979). a fidedignidade da tradução e a melhor redação em português . 1

As definições das oito dimensões são as seguintes: Quais as variáveis que influenciam o medo da morte?

1. Medo de morrer: Esta dimensão lida mais com o processo específico de Mc Mordie(1981) estudou as crenças religiosas e o medo da morte e
morrer, do que com quaisquer conseqüências que acompanhem este pro- verificou que esse medo diminui nas pessoas mais religiosas. O que tem
cesso. (Exemplo: Tenho medo de morrer de câncer.) - 6 itens. mais relação com o medo da morte é o grau de incerteza/certeza, ou seja,
o grau de envolvimento religioso de cada um. Os religiosos e os ateus
2. Medo dos mortos: Esta dimensão mede a reação das pessoas com ani- convictos têm m enos medo da morte que os m edianamente envolvidos. A
mais ou pessoas mortas (Exemplo: Seria uma experiência horrível encon- certeza aumenta a percepção de controle e previsibilidade. Miran-
trar um cadáver) - 6 itens. da(1979) e Kovács (1985) p esquisaram e observaram esta mesma tendên-
cia em nosso meio. Miranda, estudando grupos de várias religiões, verifi-
3. Medo de ser destruído: Esta dimensão lida com a d estruição do corpo cou que o grupo dos evangélicos considerado como muito religioso, tinha
i mediatamente após a morte. (Exemplo: Não quero que estudantes de menor nível de ansiedade ligada à morte do que os demais, pois a fé
medicina usem meu corpo p ara treinamento.) - 4 itens.
ajuda a superar a ansiedade. O grupo católico, mais heterogêneo, consi-
4. Medo da perda de pessoas significativas: Esta dimensão se relaciona derado de médio envolvimento religioso, apresentou um nível de ansieda-
com o medo da perda de ssas pessoas, bem. como com os efeitos que a de mais elevado, tendo a incerteza contribuído para este fator. Em nossa
própria morte pode causar nas pessoas importantes. (Exemplo: Tenho 1  Para
conhecimento da versão definitiva da escala em portugu@s, a listagem dos itens por
medo de que pessoas da m inha família morram.) - 6 itens. dimensão, e a forma de atribuição dos escores consultar a obra de Kovács, M. J. Um
estudo multidimensional sobre o medo da morte em estudantes das áreas de saúde,
humanas e exatas, São Paulo, Disse rt ação de Mestrado, 1985, Biblioteca do Instituto de
5. Medo do desconhecido: Esta dimensão lida com a questão última da Psicologia da USP.
existência e da dúvida acerca do que virá após a morte, incluindo a ques-
Medo da mo rt e  21
20  Morte e desenvolvimento humano 

pesquisa com universitários verificamos que os indivíduos que declararam Em nossa pesquisa (Kovács, 1985) usando a EMMM, verificamos que
maior envolvimento religioso apresentaram menores escores de m edo da não houve correlação entre o medo da morte e a escolha profissional,
morte na EMMM, e os que dec lararam m édio envolvimento religioso ti- baseadas nas duas hipóteses contrárias, a saber, que o sujeito com mais
veram os escores ma is altos, ficando os ateus com os escores intermediá- medo da morte não escolheria medicina, e a hipótese de que as pessoas
com mais medo da morte poderiam escolher a medicina como forma de
rios.
poder adquirir controle e domínio sobre ela. No estudo das oito di-
Kastenbaum (19 83) realizou uma pesquisa para verificar se havia diferen- mensões do medo da morte, na área de saúde, verificou-se que a cate-
ças significativas entre pessoas normais, neuróticos e psicóticos em rela- goria medo da m orte prematura obteve os escores mais altos e a catego-
ção ao medo da morte. Não foram encontradas diferenças significativas ria medo dos mortos, os escores mais baixos. Entre os cursos da área de
relacionadas à variável pesquisada. Como tendência, porém, foi verificado saúde (medicina, psicologia e enfermagem), as alunas do curso de psi-
que os pacientes com problemas mentais tendiam a negar mais veemente- cologia apresentaram escores significantemente mais altos de medo da
mente a morte, temendo, sobretudo, a morte violenta. Nos esquizofrêni- morte. Aliás, estes dados foram coincidentes nas outras áreas conside-
cos pôde-se observar que a sua expressão era de como se não estivessem radas, ou seja, nas áreas de humanas e de exatas. Em relação às dimen-
vivos, como uma defesa contra o medo da morte. sões específicas verificaram-se diferenças significantes nas que se se-
guem: medo dos mortos, medo da perda de pessoas significativas e
Segundo Hoelter (1979) as variáveis intervenientes nesse medo são: a ex- medo da morte consciente, tendo as a lunas de psicologia obtido os es-
posição à morte do outro, influência do 'tipo de morte que ocorreu (suicí- cores mais altos da área de saúde. Os alunos de medicina tiveram esco-
dio, homicídio, morte natural), o desenvolvimento emocional da pessoa, a res significantemente mais baixos nas dimensões: medo dos mortos e
duração de uma doença gr ave, a idade do moribundo ou da pessoa que se medo da morte consciente. Nossa hipótese é a de que os alunos de
perdeu. O autor verificou que o contato direto com a morte tem influên- medicina já respondem de acordo com o que é esperado dos médicos,
cia sobre o medo consciente, o medo do processo de morrer e o medo da os que não temem a morte e estão aí como os heróis a desafiá-la. As
morte prematura. alunas de psicologia já respondem também com o que é esperado dos
psicólogos, ou seja, estar em contato com os sentimentos, tendo a auto-
Conte, Weiner e Plutchik (1982), verificaram em seus estudos que a idade
rização para manifestá-los.
não era uma variável relevante em relação ao medo da morte. As variá-
veis relevantes foram a experiência de vida e as características da perso-
nalidade. Foi encontrada uma correlação entre o medo da morte, a de- Numa abordagem mais qualitativa, Ernest Becker (1976) faz um a análi-
pressão, a ansiedade em geral, com excessivas preocupações somáticas. se interessante sobre o espaço da morte em nossa cultura, revendo al-
guns aspectos da teoria psicanalítica e da abordagem existencial. Come-
Feifel e Nagy (1981) verificaram que as pessoas com mais medo da m orte, ça dizendo que o medo da morte é universal na condição humana. Esta-
em escalas padronizadas, foram aquelas que a perceberam com imagens belece a infância como o início da manifestação desse m edo. Não nas-
mais negativas. Entre as imagens negativas, oferecidas pelos autores, esta- cemos com o m edo da morte, a criança entra em contato gradativamen-
vam a morte como: um lar abandonado, um cavalo fugitivo, uma rua sem te com ela, em seu desenvolvimento, em parte atra vés das experiências
saída, um tigre devorador, uma neblina gr ossa, um espaço sem sonhos. com seus pais.
Estes indivíduos estavam mais freqüentemente preocup ados com a morte,
eram menos religiosos e evitavam a participação em ritos funerários. Este No início o mundo da criança é o mundo da m ãe que garante a sua
estudo é importante porque levou em conta a avaliação do medo da mor- sobrevivência. Gradativamente a criança tem de se libertar da mãe, usa n-
te no nível consciente e no nível imagético. É difícil considerar a subjetivi- do seus impulsos a gr essivos. É neste momento que surge a ambivalência,
dade quando se trabalha somente com dados estatísticos.
Mo rt e e desenvolvimento humano  Medo da morte  23 
22
pois ao mesmo tempo qu e a mãe é fonte de satisfação e prazer, a criança criança que é e se sente mais frágil. Muitas vezes, ela sente culpa após a
morte de um a pessoa, pois se acredita responsável por ela.
necessita se libertar dela.
O temor da morte pode ser ampliado quando os pais negam e hostilizam A criança bem amada e cuidada se vê forte e poderosa, com um senti-
os impulsos vitais infantis. Neste sentido o medo da morte é algo que a mento de invulnerabilidade e apoio, que colaboram para o estabeleci-
sociedade cria e utiliza contra a pessoa para mantê-la subm issa. As crian- mento da individualidade. O medo da morte, portanto, depende da na-
ças que tiveram experiências negativas, provavelmente, apresentarão mais tureza e das vicissitudes próprias do p rocesso de crescimento.
angústia de morte. Como vimos, embora o medo da morte não seja inato ele é inerente ao
Segundo Wahl (1959) o medo da morte está muitas vezes relacionado ao processo de desenvolvimento e está presente em todos os seres hum an o s .
medo da castração. Antigamente se imaginou que a criança não tivesse É um m edo básico, que influi em todos os outros e do qual ninguém fica
medo da morte, por não conhecê-la. Entretanto, o medo da castração que i mune, por mais que possa estar disfarçado. Becker cita Zilboorg, que
afirma que a maioria das pessoas pensa que o medo da morte está ausen-
surge após o período edipiano está relacionado com o medo da morte.
Aparece ligado à culpa e aos desejos destrutivos, vinculados à raiva e à
te, porque ele raramente mostra a sua verdadeira fisionomia, mas sob as
frustração, em relação aos pais, que não atendem a todos os seus desejos. aparências pode-se notar o seu espectro. Ele cita alguns exem plos como,
O processo de socialização para todas as crianças tem aspectos dolorosos a sensação de insegurança di an te do perigo, o medo básico por trás do
e frustradores, por isso elas têm, em alguns m omentos, desejos de m orte sentimento de desencorajamento e depressão, o medo que sofre as m ais
contra as pessoas que sãò responsáveis pela sua educação. Todos nós já complexas elaborações e se manifesta das mais variadas formas. O medo
sentimos esses desejos, mesmo que não estivéssemos conscientes deles. da morte pode estar ligado à morte concreta, à finitude, à extinção e
Ao mesmo tempo que a criança os m anifesta, porém, sente culpa e medo também aos seus equivalentes, como o medo do abandono, da vingança e
de que tais desejos possam se realizar. Nestes períodos são freqüentes de outras forças destrutivas.
pesadelos, fobias, terrores noturnos e o medo da retaliação. A criança se O m edo da morte tem um lado vital e por isso precisa estar presente em
crê em certas circunstâncias onipotente, com uma força que empresta dos
certa medida. Ele é a expressão do instinto de autoconservação, uma
pais. Essa invulnerabilidade é vivida também pelo adulto, quando acredita forma de proteção à vida e um a possibilidade de sup erar os instintos
que a morte só acontece com os outros. destrutivos. A própria palavra au toconservação implica um esforço
A criança tem medo da morte, mas acredita na sua reversibilidade e no contra as forças de desintegração, um estímulo para o funcionamento
seu poder de de sfazê-la, e isto faz parte do desenvolvimento infantil biológico normal.
normal. À medida que a criança compreende que a morte é irreversível,
Uma das coisas que impulsiona o homem, a sua criação e frenética
passa a temer ainda mais os seus impulsos destrutivos, principalmente
atividade é o terror diante da morte. O heroísmo pode refletir esse
em relação às pessoas mais próximas. Seus desejos de morte se tornam
medo, uma form a de ação que funciona como se ele não existisse, o que
aterrorizastes, pois ao mesmo tempo que os expressa teme pela sua
Becker chama de "mentira vital". Se estivéssemos conscientes o tempo
ocorrência. Pela Lei de Talião, imagina que o mesm o que deseja para o
todo de nossa morte e do nosso terror seríamos incapazes de agir nor-
outro (normalmente, pais, irmãos, professores), possa acontecer com malmente, ficaríam os paralisados. Agimos como se fôssemos imortais,
ela. acreditamos que nossas ações são perenes, pois este é o nosso desejo
A morte do adulto é temida como abandono e, por isso, além de poder supremo, e temos ilusões de que deixaremos obras gar an tindo nosso
incitar a raiva e a frustração, causa u m sério abalo na onipotência infan- não-esquecimento. A repressão e a negação como mecanismos de defe-
til. Se o adulto forte e poderoso não consegue evitá-la o que d irá a sa, são as grandes dádivas que nos protegem contra esse medo. Mas é
Mo rt e e desenvolvimento humano  Medo da morte  25 

importante ressaltar que essas defesas têm um caráter tran sitório, não não conseguirá viver. Segundo Lowen, toda tensão crônica no corpo de-
corre de um medo da vida, um medo de se soltar, um medo de ser.
eliminam a morte, o homem não poderá de  i x ar de encárá-las em vá rias
etapas de seu d esenvolvimento. Não podemos olhar diretamente para a Quando o sujeito vai recuperando a sua vitalidade no processo psicoterá-
morte, o tempo todo, mas também não podemos ignorá-la, pois ela pico, abre o caminho para o estado de dor que havia suprimido. Ativa-se
i mpõe a sua presença. o caminho da sensação de morte, mas também se está a caminho da vida.
Há algo que caracteriza o ser humano como tal e o diferencia dos Por outro lado, o medo do sucesso, segund o Lowen, pode relacionar-se
animais, é a consciência da sua morte e finitude. Ele tem um nome, com o medo da castração, da destruição, suscitando a inveja. O poder
uma história, tem o status de um pequeno deus em relação à natureza. conduz ao medo e não ao amor. Quanto m ais alta a expectativa, maior a
Por outro lado, possui um corpo que sente dor, adoece, e nvelhece e excitação, maior o perigo.
morre. O homem está b ipartido: ao mesmo tempo que sabe de sua
originalidade e poder de criação, reconhece sua finitude d e forma ra- A excitação sexual també m pode evocar o medo da morte. De certa
cional e consciente. Vive toda a sua existência com a morte presente forma, o orgasmo é experimentado como uma morte. A ansiedade rela-
em seus sonhos, fantasias. Durante toda a sua existência, o ser humano cionada ao orgasmo é a da dissolução do ego, vivido como m orte.
tenta driblar esse sa ber, essa consciência e age como se fosse imortal.
A maior parte das doenças psicológicas está vinculada ao temor diante
Becker fala então do caráter c omo uma forma de proteção contra esse
do conhecimento de si mesmo, das emoções, dos impulsos, das lem-
terror, uma aparência externa forte que esconde uma fragilidade inte-
branças, das capacidades, das potencialidades ligadas ao próprio desti-
rior. Mas o corpo não deixa que o esquec imento se torne perene. O
no. Tememos quaisquer conhecimentos que denunciem nossa fragilida-
homem pode se sentir pequeno diante da grandeza da criação, que
de, reprimimos funções corporais que expressem a nossa mortalidade.
expõe a sua pequenez e fragilidade. Segundo o autor, a grande dádiva A tragédia do homem tem origem na percepção de sua finitude, no
da repressão é tornar possível viver em um m undo miraculoso e incom- pavor diante da morte e da enormidade da vida, por isso ele cria uma
preensível, um mundo de beleza e terror. O homem precisa dessas de-
couraça e, arrebentá-la, pode expor o indivíduo à loucura. O grande
fesas contlra a plena percepção do mundo externo. Assim, ao mesmo
terror da psicose é o da perda de controle, conseqüência de uma ruptu-
tempo, que temos acesso a toda a criação, e n os sentimos potencial-
ra interna do sujeito com a perd a do eixo. O esquizofrênico não conse-
mente capazes, somos como vermes, com um corpo que tem manifesta-
gue se defender de doses extras de angústia, desamparo e culpa, acen-
ções animais Eis o grande paradoxo humano. tuadas pela incapacidade de projetar uma parte desse terror para fora.
Na verdade, o ser humano possui dois grandes medos: o medo da vida e Uma outra forma de defesa contra a grandiosidade da vida e o terror
o medo da morte. O medo da vida se vincula ao medo da realização, da diante da morte é a depressão; através da auto-recriminação, da auto-
individualização e, portanto, está propenso à destruição. Por isso, o indi- desvalorização e paralisação, a pessoa não vive, morre  em vida, embora
(

víduo se torna vulnerável a acidentes e deslizes. seu corpo sobreviva. Muitas vezes, quando o sujeito sente que não tem
controle sobre a sua vida, ocorre o desamparo, que evolui para a de-
Lowen (1980) estabelece uma relação entre o medo de viver e o de mor- pressão, sintoma que está na gênese de vários quadros somáticos.
rer. Se a vida é ser, por que temos tanto medo dela? N o relato dos casos
que menciona em seu livro, observamos um paradoxo, ou seja, quando o Buscam-se relações simbióticas como forma de adqu irir segurança, as-
indivíduo está mais cheio de vida, fica mais consciente da morte e do pecto presente no desenvolvimento normal de bebês, mas considerado
desejo de morrer. Viver plenamente com as emoções é se arriscar. Para patológico no caso de adultos. Podem-se desejar figuras de autoridade,
não sofrer, a pessoa pode se "amortecer", não sentir mais, mas também representantes paternos que exigem, eliminando o livre-arbítrio, a ne-
Medo da m orte  27 
Mo rt e e desenvolvimento humano 
26 

cessidade de tomar decisões, ou fazer escolhas, que poderiam elevar o CONTE, H.; WEINER , M.; PLUTCHIK, R. - Measuring death anxiety.
sentimento de culpa. Nesse caso, a culpa p elo seu caráter restritivò, Concept, psychometric and factor analytic aspects. Journal of Personal 
and Social Psychology, 1982, 43(2): 775-785.
acaba tendo um caráter punitivo, que protege também da possível reta-
liação. FEIFEL, H.; NAGY, V. T. -  Another look at fear of death. Journal of 
O medo da vida e da morte podem estar presentes também em várias Clinical and Consulting Psychology, 1981, 49 (2): 278-286.
doenças. Muitos dos sintomas neuróticos servem p ara reduzir e estrei-
HOELTER , J. - Multidimensional treatment of fear of death. Journal 
tar a qua li dade de vida, evitando situações de morte. A neurose, no seu of Consulting and Clinical Psychology, 1 9 7 9 , 47 (5): 996-999.
processo de evitamento da morte, faz com que o indivíduo acabe se
matando simbo li camente, diminuindo a sua ação, isolando-se das pes- KASTENBAUM, R.; AISENBERG, R. - Psicologia da morte. São Paulo,
soas, vivendo como se estivesse morto. A abstenção das experiências Pioneira, 1983 .
vitais elimina o medo da morte e, consigo, a própria vida.
KOVA CS, M. J. - Um estudo multidimensional sobre o medo da mo rt e 
Para Becker o m asoquismo, como um sofrimento permeado de certo em estudantes universitários das áreas de saúde, humana s e exatas. Sã o
prazer, pode ser considerado um meio de afastar a angústia de vida e Paulo, Dissertação de mestrado. Instituto de Psicologia da USP, 1985 .
de morte. Pode também ser a forma encontrada de pegar o terror da
existência e congelá-lo numa pequena dose, o que seria um sacrifício LOWEN, A. - Medo da vida. São Paulo, Summus, 1980.
menor, um castigo mais leve, um meio de apaziguamento.
MC MORDIE, W. - Religiosity and fear of death. Psychological Reports,
Depois de todas estas colocações, podemos ver novamente o entrelaça- 19 81, 4 9 : 9 21-9 22.
mento entre vida e morte. O m edo da morte tem um lado vital, que nos
protege, permite que continuemos nossa obras, nos salva de riscos des- MIRANDA, R. A. - Crenças religiosas, ansiedade e avaliação de conceitos 
trutivos e autodestrutivos. Esse mesmo medo pode ser mortal, na medi- em universitários. São Paulo, Dissertação de mestrado, Instituto de
da em que se torna tão potente e restritivo que, simplesmente, a pessoa Psicologia da USP, 1979.
de ix a de viver para não m orrer, mas, se observarmos mais atentamente MURPHY, G. - Discussion. In: FEIFEL, H. - The meaning of death.
teremos um morto diante de n ós que se esqueceu d e morrer. Todo ser
humano é obrigado a se confrontar com esse dilema, como o viverá, New York, McGraw-H ill, 1959.
porém, vai depender em parte de sua história de vida, da s característi-
SELIGMAN, M. - Depressão, desenvolvimento e morte. São Paulo, Huci-
cas de sua personalidade, mas também de seu esforço pessoal para
tec/Edusp, 1 977.
enfrentar essas qu estões. Podemos concluir, portanto, que o homem é
responsável pela sua vida e pela sua morte.  TEMPLER, D. - The con struct ion and valida tion of a dea th an xiety sca -
le. Journal of Genetic Psychology, 1970, 82: 16 5 -177 .
Referências Bibliográficas WAHL, C. - The fear of death. In: FEIFEL, H. - The meaning of death.
New York, McGraw-H ill, 1959.
BECKER, E. - A negação da morte. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1976.
COLLETT, L.; LESTE R, B. - The fear of death and the fear of dying.
Journal of Psychology, 1 9 6 9 , 72 : 1 79 -1 81 .
Atitudes diante da morte... 29 

i munidade ao seu toque, oramos, jejuamos e nos retiramos em cavernas


Capítulo 3 escuras e som brias. Uma caligrafia persistente se mistura aos mistérios
não p revistos.

Morin faz uma interess an te análise do lugar das crenças dos ritos e ma-
ATITUDES DIANTE DA MORTE gias em relação à m orte. O papel da religião é em parte o de socializar e
dirigir os ritos de morte, como forma de lidar com o terror. Os ritos,
VISÃO HISTÓRICA, SOCIAL E CULTURAL  práticas e crenças referentes a ela con tinuam a ser o setor mais prim itivo
de nossa civilização. O sacrifício favorece a ligação entre vida e morte,
Maria Júlia Kovács sendo a força da vida resultante dos aspectos fecundantes da morte.
Quando se sacrifica um an i mal para beber o sangue, ou mesmo no cani-
balismo, existe a idéia de incorporação dos elementos vitais d o morto.
"A arte de morrer é tão importante como a arte de viver, o Nos ritos de iniciação, chega-se a uma vida nova passando pela morte e
futuro do ser depende talvez inteiramente de uma m orte corre- separação. Começa com isolamento, torturas, rituais traumatizantes, auto-
tamente controlada." (O livro dos mo rt os tibetano, Prefácio à mutilação, sofrimento físico e psíquico, para depois ocorrer um "renasci-
Segunda Edição) mento" e uma reinte gr ação na sociedade.
A consciência da própria morte é um a importante conquista constitutiva
do homem. O homem é d eterminado pela consciência objetiva de sua Os ritos estão muito associados às representações de morte. Uma repre-
sentação de mo rt e muito presente em mitos, fábulas e folclore de várias
morta li dade e por uma subjetividade que busca a imortalidade.
épocas, é o da morte maternal o desejo de ter a figura materna quand o
Segundo Morin (1970) é nas atitudes e crenç as  diante da morte que o di a n te do pe ri go da mo rt e, não se separar da m ãe, a idéia de re gr esso ao
homem exprime o que a vida tem de mais fundamental. A sociedade útero materno. Há elementos da natureza que simbolizam esta idéia, como
funciona apesar da morte, contra ela, mas só existe, enquanto org a n izada a terra e o mar. U m exemp lo disso é a pátria, muitas vezes relacionada à
pela morte, com a morte e na morte. Para a espécie hum an a, a morte está figura materna: a pát ri a-mãe, ou terra natal. Soldados que servem na guerra
presente durante a vida toda e se faz a companhar de ritos. Desde o ho- manifestam, fr eqüentemente, o desejo de voltar à família e à p átria.
mem de Neanderthal são dadas sepulturas aos mortos. A morte faz parte
do cotidiano, é concreta e fundamental. Qualquer gr upo, mesmo os mais Outros lugares muito associados à representação materna são as caver-
primitivos, não abandonam os seus mortos. A crença na imortalidade nas, como cavidades ventrais da terra, que são obscura s, continentes, iso-
sempre acompanhou o homem. ladas e tranqüilas, e que mantêm uma analogia com o útero. Muitos ri-
tuais de morte são realizados em gr utas e cavernas. A casa também costu-
Segundo Meltzer (1984), a morte é o inimigo que os vivos passa m suas
ma estar sempre associada à mãe, o que exp li ca o gr ande desejo do ho-
vidas tentando superar e derrotar para sempre, sem idéia da conseqüên-
mem de morrer em casa. Na verdade, muitos rituais são realizados na
cia disso. Todas as culturas personificam a morte de forma diferente, e
casa materna, lugar fam iliar e de proteção.
elaboram variadas magias contra a sua intrusão. Combatemos a morte
com a nossa linguagem, com am uletos e talismãs, transcrevemos nossos
sinais e símbolos em diversos materiais, juntamo-nos em cerimônias for- Ainda ligada à representação materna da morte é a sua ligação com a
água. A água simboliza o útero que recebe e contém, daí a ocorrência
mais para romper as suas redes. Quando dançam os e cada parte de nosso
freqüente de suicídios por afogamento, represent an do o desejo de voltar
corpo tem sua função no rito, nos escondemos sob máscaras e vestimen-
ao útero materno. Além disso, existe a idéia de renascimento, pois a
tas de poder contra a m orte, reunimos substâncias sa gr adas para criar
30  Morte e desenvolvimento humano  Atitudes diante da morte... 31

água está li gada ao simbolismo do batismo, da pu rificação, de um novo Ph i lippe A ries (1977), o grande historiador francês, escreveu duas obras
nascimento. fundamentais para quem deseja aprofundar-se na questão do homem e a
morte: A história da morte no ocidente e O homem diante da morte. Fo -
Existem m a n obras criativas con tr a a mo rt e, em favor da imo rt alidade: néc- ram quinze a n os de pesquisa em q ue ele estudou a relação entre atitudes
tares, ambrosia, o completo menu dos deuses, cuja vida eterna nos int riga e di an te da morte, no que esta tem de m ais geral e comum, e n o que
que desafia os mo rt ais. Competimos com nossa invenção de perfeição, que- concerne ao nosso destino individual e coletivo Analisou milhares de
remos ser o que imaginamos, buscamos remédios e fórmulas raras, raízes e documentos, testamentos, iconografias, obras de arte, túmulos, cemité-
ervas extraordinárias, animais míticos, a Fonte da Juventude, o elixir vital, a rios, entre outros docum entos.
Flor de Ouro, as aventuras intelectuais e espirituais que progrediram a
pa rt ir da alquimia, a visão de Paracelso da cura, a matéria médica e as Segundo Vovelle (1985), as menta li dades integram o que ainda não está
extraordinárias visões da genética e da microbiologia. formulado, o que está encoberto no nível das motivações inconscientes,
envolvendo o imaginário coletivo. A m orte representa uma invariante
Por outro lado, os ritos destinados aos mortos sempre estiveram vincula- essencial na experiência humana, mas também é relativa, tendo em vista
dos ao medo de que eles pudessem importunar e atemorizar os vivos. que as relações do homem se alteraram pela maneira como ela os atin-
Existe também o m edo do contágio, da decomposição e das doenças, por ge. Assim, todas as representações de morte estão imersas num contexto
isso foram desenvolvidas técnicas de conservação dos corpos, como o cultural.
embalsamamento ou a destruição dos elementos corporais, como na cre-
mação. O luto é uma forma de purificar a impureza dos sobreviventes. Baseados nas pu blicações de A ries, apresentaremos algumas das repre-
Estes rituais destinam-se a proteger os vivos dos mortos e vice-versa. Os sentações de morte que ap arecem em sua obra e que caracterizam atitu-
rituais de morte buscam favorecer essa grande viagem, as orações facili- des do homem di an te dela. Os títulos constam de seus li vros. Cabe ressal-
tam a superação dos obstáculos, bem como servem de orientação aos tar que as representações são mais típicas de uma certa época ou mo-
mortos em sua pere gr inação. O temor dos m ortos, que Morin chama de mento histórico, mas algumas dessas manifestações podem ocorrer em
"duplos", personificados pelos espíritos, fantasmas, é associado àquelas qualquer tempo.
pessoas que morreram mal, que estão privadas de sepultura e vagueiam,
aterrorizando os vivos. Uma série de rituais constitui os elementos de A. A morte domada
proteção contra estes seres, como colocar sal, virar um espelho, acender
velas. Por isso os mortos têm de ser cuidados, lisongeados, para que não A morte domada é a morte típica da época medieval. O homem sabe
se enfureçam. Eles podem ser muito mais temidos que a própria morte. quando vai morrer, por  certos  avisos, signos naturais ou por uma convic-
Algumas culturas desenvolveram formas de comunicação com os mortos, ção interna. Os homen s daquela época eram observadores de signos e,
como possibilidade de saber o que acontece no além. antes de mais nada, de si mesmos. Eles morriam na guerra ou de doenças
e, portanto, conheciam a trajetória de sua m orte.
A pertinência a um gr upo inibe ou adormece a consciência de horror
São os seguintes os atos dedicados ao cerimonial do moribundo:
ligada à morte, enquanto que os rituais realizados em conjunto faci li tam
a sua elaboração. O medo da morte é menor em sociedades primitivas, 1. 0 primeiro ato é o lamento da vida, a evocação triste, mas discreta
ou altamente a gr egadas, porque o gr upo dá continência às necessidades do seres, das coisas amadas.
individuais. No entanto, algumas mortes podem ser impostas socialmente,
por infração de normas. Durkheim refere-se a esta questão quando fala 2. O segundo ato é o perdão dos companheiros que rodeiam o leito do
no suicídio altruísta (ver capítulo 11). moribundo.
32  Mo rt e e desenvolvimento humano  Atitudes diante da mo rt e... 33 

3. 0 terceiro ato é a absolvição sacramental. épocas de grande morta li dade por epidemias ou guerras, eram destina-
das as valas coletivas.
Da análise dos documentos dessa época, podem-se perceber algumas ca-
racterísticas típicas. A morte era esp erada no leito, numa espécie de ceri- B. A morte de si mesmo
mônia pública organizada pelo próprio m oribundo. Todos podiam entrar
no quarto, parentes, amigos, vizinhos e, inclusive, as cri an ças. Os rituais Num dado momento, o homem passa a se preocupar com o que aconte-
de morte eram cumpridos com m a n ifestações de tristeza e dor, que eram cerá depois de sua morte. Ocorre o medo do julgamento da alma, com a
aceitas pelos membros daquela comunidade. O m aior temor era morrer sua ida para o inferno ou o paraíso. A alma que está sendo pesada é a
repentinamente, anonimamente, sem as hom enagens cabidas. representação dessa espera inquietante sobre o seu destino. O medo fun-
Foi as sim durante séculos. Uma atitude familiar e próxima com a m orte, damental do homem, nessa época, relacionava-se com o que viria após a
por isso chamada de "morte domada". Mas apesar dessa fami liaridade, os morte, a condenação ao inferno, ao castigo eterno. Era o momento final,
homens temiam a proximidade dos m ortos e os mantinham à distância. como mostram as "Ars Moriendi", tratados sobre a preparação e a arte
Muitas das práticas ritua is tinham como objetivo separar os vivos dos de morrer e renascer na época medieval. A cena, tantas vezes retratada
mortos, facilitar o percurso dos mortos até os céus e evitar a contamina- em obras de arte, mostra o m oribundo no quarto, cercado pelos familia-
cão por eles, tanto física ligada à decomposição dos corpos, qu an to psí- res, e um á rbitro constata como o indivíduo passou os seus últimos mo-
quica, através da visita dos mortos como fantasmas, espíritos, almas pena- mentos, como numa p rova, ou no Juízo Final. As grandes tentações, en-
das. Podemos perceber elementos oriundos desses rituais e dessa forma tão são o apego às coisas terrestres: família, objetos materiais. Esse apego
de encarar a questão até em nossos dias, mesmo nas grandes metrópoles. é chamado de "A varitia" e é condenado pela Igreja, pois leva a um afasta-
mento de Deus. O homem b uscava garantias para o além, através de ritos
O local da sepultura na Idade Média era nas igrejas, perto dos s an tos, o de absolvição como: orações aos mortos, donativos, missas, ex-votos e
que se configurava como uma forma de proteção. Posteriormente, o en- principalmente através dos testamentos.
terro nas igrejas e basílicas foi destinado a pessoas d e prestígio, sendo
que o lugar mais valorizado ficava próximo aos altares As pesso  a s  mais Os testamentos a n tigos constavam de du  as  partes, uma com as fórmulas
pobres eram afastadas deles, deslocadas para os pátios das igrejas, os piedosas e a outra com a distribuição das fortunas. Testar era um dever
churchyards, nome original dos cemitérios. Normalmente as igrejas fica- de consciência. Os testamentos antigos constavam de um a profissão de
vam no centro da cidade, e o cemitério também, como ainda pode-se ver fé, confissão dos pecados, recomendação da alma, escolha da sep ultura, e
nas pequenas cidades. transmissão dos desejos em relação aos sobreviventes. Na segunda parte,
os testamentos regulamentavam a transmissão dos bens, deixavam em or-
Com o crescimento das cidades e da população e por razões de salubri- dem as coisas temporais - nessa época era muito importante doar as
dade, os cemitérios passaram a ser deslocados para fora das cidades.
riquezas à i gr eja e, portanto, garantir a salvação para a.vida eterna, já que
Foram construídos em parques, tornando-se além de locais de enterro, o reino dos céus era dos pobres e bem-aventurados de espírito. Os testa-
também lugares de passeio, descanso e oração. Até hoje muitos cemité- mentos são fontes reveladoras da mentalidade dos séculos XIV/XV, pelos
rios compõem parques mu ito bonitos. Houve um reesta belecimento do seus vários gêneros e modelos.
convívio entre vivos e mortos.
Nessa época não existia igualdade entre vivos e mortos, nem mesmo na O c orpo morto passa a ser escondido, pois é insuportável para os olhos.
hora da morte. Havia diferenç as  impressionantes entre os lugares nos Os caixões são usados para esconder o corpo. O embalsamamento, ritual
cemitérios e na imponência dos túmulos. Às pessoas mais simples ca- tão antigo continua a ser usado com o forma de conservar viva a imagem
biam túmulos menores, em lugares menos nobres. Aos indigentes, em do morto, sem dúvida uma forma de negar a morte.
34  Mo rt e e desenvolvimento humano  Atitudes diante da mo rt e ... 35 

Os rituais de luto sempre e xi stiram, consistindo na manifestação mais Os túmulos marcam o lugar onde fica o corpo do morto, e podem trazer
aberta ou mais contida da tristeza. Há uma série de procedimentos e recordações sobre a imagem física dele, que pode ser representada por
atitudes que se espera neste período. uma escultura e, atualmente, através de fotos. Há vários tipos de túmu-
los: horizontais, verticais, com dois andares e com figura s jacentes ou
Meltzer, em sua coletânea, faz uma interessante análise do uso da cor em posição de oração. Esses elementos nos relembram a importância
preta como simbolização do luto. que os vivos sempre deram para a morte e principalmente para os mor-
tos. Não deixam de ser uma forma de honraria, e também de temor da
No Ocidente, usa-se preto num costume que data do pag an ismo. Na sua morte.
origem, não tinha nada a ver com p iedade, ou forma de demonstrar triste-
za, era uma m aneira de expressar medo. Relacionava-se, não com o res- Os temas m acabros eram muito freqüentes na Idade Média, como ates-
peito e sim com o horror dos mortos. O preto era um disfarce, assim o tam as obras de arte e ilustrações da época. Aparecem as repre-
f an tasma do morto não reconheceria o vivente para caçá-lo. O uso de sentações realistas do corpo hum  a n o decomposto, os esqueletos. A arte
preto incluía o véu, pois acreditava-se ser uma forma de proteção contra macabra mostra o que não se vê, p or exemplo, o que acontece embaixo
a própria morte. Essa cor era designada para c onfundir o próprio demô- da terra, como a decomposição do corpo. Esta representação traz ilu-
nio, que estava caçando outras vidas. Algumas raças usavam a pintura da são e temor.
face em branco ou preto, como uma forma de eng an ar o morto, que
acreditava que os enlutados também eram fantasmas e nã o criaturas vivas,
que poderiam ser invejadas por ele.
C. Vida no cadáver, vida na morte

Não há diferença de intenção entre o uso de roupas pretas e outras práti- Este é o tema que configura a vida na morte. O cadáver tem os segre-
cas mais primitivas, como dilacerar a carne e rasgar as roupas. dos da vida é da m orte. Mantém uma c erta sensibilidade, um resíduo de
vida, pêlos e unhas crescem, há secreções. Segundo Meltzer, cadáveres
O preto também contém o simbolismo da noite e a ausência de cor para providenciam matéria-prima para alguns remédios de forma muito efe-
expressar o abandono e a tristeza. Esta cor facilita a lembran ça de que tiva. Por exemplo, o suor dos cadáveres pode ser bom para hemorrói-
ocorreu uma perda. Tam bém poderia sugerir às outras pessoas, que tives- das, tumores, e a mão de um cadáver que toque numa área doente pode
sem uma atitude especial em relação à pessoa enlutada e evitassem falar curá-la. Isto explica por que anatomistas sempre têm mãos saudáveis. O
de coisas que poderiam magoá-la. A cor não só demonstrava a tristeza, crânio dissecado alivia epilépticos, e os ossos são ingeridos em forma
mas também criava uma paz e serenidade interiores. de pó. Estes remédios são determinados pela a plicação do princípio da
simpatia e antipatia, de que há um remanescente de vida em corpos
Entretanto, o preto não é a única c or de luto. Usa-se o branc o, amarelo e
mortos. Um homem ferido poderia ser curado se comesse a carne de
o violeta. Em algumas partes da China a cor tradicional é o púrpura. Um
um animal m orto com a arma que o feriu. Os ossos têm o poder de
fato irônico nos EUA , quando a cor da em balagem de chicletes passou a
prevenir doenças, recomendando-se, portanto, que sejam usados no
ser o roxo e a sua venda diminuiu entre os chineses, que acreditavam que
pescoço, como amuletos. A morte também fertiliza a terra, aceler an do
a goma só deveria ser mascada em funerais.
o crescimento de plantas, sendo fonte de vida. Entre outros aspectos
Outras formas de buscar esta proteção para o além, eram as missas que benéficos, está o lado afrodisíaco, através de uma poção feita com os
encomendavam a alma do m orto, as conhecidas missas de corpo presente. ossos de recém-casados. Podem ser feitas poções com partes do corpo
Os donativos também representavam um a possibilidade de perdão para de pessoas que morreram repentinamen te e oferecê-las para moribun-
os atos terrenos, e para o acúmulo de bens. dos, como forma de transmitir vida.
36  Mo rt e e desenvolvimento humano 
Atitudes diante da mo rt e... 37
Este é um argumento para a imortalidade da alma. A superstição popular objetivo da pedra tumular é o de ser um lugar de repouso para a alma.
indica que o corpo depois da morte ainda ouve e lembra. Fica difícil A pedra é branca para combinar com os ossos.
separar o natural do sob renatural, o uso de amu letos feitos de ossos tor-
na-se popular, sendo uma forma de proteção. Ainda com relação à vida na m orte, observa-se a ligação entre pra-
zer/sexo e morte (Eros e Thánatos). As representações artísticas dos sé-
A morte aparente faz surgir o grande medo dos séculos XVII e XVIII, culos XIV, XV e XVI nos trazem ilustrações das dança s macabras onde
o medo de ser enterrado vivo. E a confusão entre vida e morte. O se misturam prazer, sofrimento e morte. A necrofilia, ou seja a cópula
com os mortos, traz à tona estes temas.
pânico passa a ser a possibilidade de d espertar dentro do túmulo. Sur-
gem vários ritos e cerimônias para atrasar os enterros, como os velórios,
que inicialmente podiam durar 4 8 horas, de modo a garantir que a mor- D. A morte do outro
te era definitiva. Portanto, ela só se mostrava real quando começava a
decomposição. No entanto, alguns costumes contestam esta prática A morte, no século XIX é a morte romântica. E considerada bela, subli-
como por exem plo o ritual hassídico. Exceto nos sábados os mortos são me repouso, eternidade e possibilidade de uma reunião com o ser ama-
enterrados logo após a sua morte. Não se esperam alguns dias para do. A m orte passa a ser desejada. A morte nesse período traz a p ossibili-
saber se está realmente morto. Coloca-se uma pena na narina do morto, dade de evasão, liberação, fuga para o além, m as, também, a ruptura
e se não for observado nenhum movimento é porque o sujeito está real- insuportável e a separação. Representa a possibilidade de reencontro no
mente morto, então deve ser enterrado sem demora porque um corpo além de todos os que se amavam. Prevalecia então uma crença forte na
morto sem ser enterrado sofre muito. Se houve uma alimentação corre- vida futura.
ta durante a vida, não é preciso temer a putrefação após a morte. Não
se usa túm ulo, deixa-se o morto em contato direto com a terra, voltando O século XIX marca, também, o surgimento do espiritismo, ligado a essa
ao pó. O cadáver é protegido com algumas tábuas, para evitar que al- expectativa de vida futura, como a possibilidade de urna intermediação
gum torrão de terra possa machucar um homem santo. Não se enterra o entre vivos e mortos, a comunicação com os espíritos e o retorno do
corpo com nenhum objeto material, nem com o manto de reza, que corpo. Na França os estudos começam com A llan Kardec e Flammarion,
deve ser rasgado para evitar que alguém o use. em 1854. Em 1882, surge no Estad os Unidos "The Society for Physical
Research", estimuland o o estudo científico da questão da morte, e dos
fenômenos sobrenaturais.
A alma do morto, no princípio, fica como paralisada, não se libera do
corpo imediatamente. Nos primeiros sete dias após a morte ela fica
O m edo predominante, neste período, relaciona-se com as almas do
alternadamente no túmulo e na casa onde a pessoa faleceu. Esta é a
outro mundo, que vêm molestar os vivos, provocando todo o tipo de
razão pela qual, nestes sete dias, dez homens vão à casa do morto e se
superstições, por isso são criados rituais para afastar esses seres. Entre
 junt am à re za f eita pelos enlu tados . A a lma se reg ozija por ou vir as
esses rituais populares podem ser citados os seguintes: abrir uma janela
preces familiares. Uma lamparina é mantida acesa e p erto dela fica um
ou porta logo depois da morte para facilitar a saída da alma, senão
copo de água e uma toalha. A alma se lava com a água e se seca com a
volta para incomodar, relógios são pa rados, cobrem-se os espelhos, os
toalha. Depois de sete dias, a alma abandona a casa definitivamente.
sinos são silenciados, joga-se sal, acendem-se velas.
Durante o primeiro ano, ela se transporta do túmulo para o céu e vice-
versa. Somente depois do primeiro ano, ela se estabelece definitivamen-
Nessa época, a preocupação com a insalubridade dos cemitérios era
te no céu. Há, entretant o, períodos de volta em festividades religiosas,
grande, devido ao grande número de epidem ias. Vários decretos foram
com a lua nova ou quando amigos e conhecidos se reúnem para orar. O
criados para a realização das inumações, orientando quanto ao espaço e
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seja porque se "viram para a parede", dão as costas à vida, desistem de
à profundidade das covas. Tratava-se de um a tentativa nova de separar os viver, ou melhor, de morrer aos poucos.
vivos dos mortos.
No século XX há uma supressão do luto, escondendo-se a manifestação
E. A morte invertida ou até mesmo a vivência da dor. Há uma exigência de controle, pois a
sociedade não suporta enfrentar os sinais da morte.
O século XX traz a morte que se esconde, a morte vergonhosa, como
fora o sexo na era vitori a n a. A m orte não pertence mais à pessoa, tira-se O tempo da m orte se modifica, não é mais o momento de separação do
a sua responsabilidade e depois a sua consciência. A sociedade atual corpo e da alma. N os tempos atuais, esse tempo se prolonga indefinida-
expulsou a morte para proteger a vida. Não há mais sinais de que uma mente. A m orte foi dividida em cerebral, biológica e celular. Sãa vár ios os
morte ocorreu. O grande valor do século atual é o de dar a impressão de aparelhos destinados a medir e prolongar a vida. O momento da morte é
que "nada mudou", a morte não deve ser percebida. A boa m orte atual é muita vezes um ac ordo feito entre a família e o médico.
a que era mais temida na Antiguidade, a morte repentina, não percebida.
Outra instituição deste século no Ocidente, que ainda não chegou ao B ra-
A morte "boa" é aqu ela em que não se sabe se o su jeito morreu ou não.
sil, mas que funciona plenamente nos EUA , são as "Funeral Homes", onde
Uma ilustração típica das atitud es do século XX, encontra-se no conto os mortos passam por um processo de prepara ção e embelezamento, para
se criar a ilusão de que a morte não ocorreu. Os  fun eral dire ctor s são
de Leon Tolstói, A mo rt e de Ivan Illitch. Este conto fala sobre um doente,
e o que reina à sua volta é o silêncio, não se fala sobre a morte, i gn ora-se empresários que cuidam dos serviços funerários, encarregando-se de todo
o seu fim próximo. A presenta-se a medicalização da morte, onde reina a o cerimonial, afastando ainda ma is a família e o indivíduo do processo de
mentira e a solidão do doente. morte.

A morte não é mais considerada um fenômeno natural, e sim fracasso, A sociedade ocidental insiste no caráter acidental da morte: acidentes,
impotência ou imperícia, por isso deve ser ocultada. O triunfo da medica- doenças, infecções, velhice adiantada. A morte fica despojada do caráter
lização está, justamente, em manter a doença e a morte na ignorância e de necessidade em termos do processo vital. É sempre um assombro. O
traumatismo provocado pela morte é sempre uma irrupçã o no real. No
no silêncio.
inconsciente estamos todos persuadidos da nossa imortalidade, sem regis-
O conto de Tolstói nos apresenta também a morte suja e inconveniente. tro da morte, como o animal cego.
A decomposição que ocorria antigamente ap ós a morte, passa a ocorrer
Ziegler (1977) discute a tese acerca da igualdade ou não na morte, con-
an tes dela, por causa das doenças longas, intermináveis e degenerativas. testando a afirmação de que ao morrer todos os homens são iguais. Afir-
O local da morte é transferido do lar para o hospital. Tudo isso torna ma que numa sociedade de classes não se permite que se estabeleça uma
consciência igualitária da morte. Ela chega a todos os homens, de todas
difícil suportar a pro x i midade com a doença. No século XX a maioria das
pessoas não vê os parentes morrerem.'0 hospital é conveniente pois es- as classes e nações, mas ocorre em situações sociais específicas. Segundo
conde a repugnância e os aspectos sórdidos ligados à doença. A fam ília a autor, as classes dominantes impõem sua forma de morrer. A indústria
também fica afastada para não incomodar o silêncio dos hospitais. Dessa funerária e as pompas fúnebres imp õem valores que ninguém pensa em
forma, não atrapalha o trabalho dos m édicos e não torna visível a presen- questionar, são as p ráxis da cultura ocidental capitalista.
ça da morte, através de lamentações, choros ou questionamentos. Literalmente falando, a sociedade ocidental não sabe o que fazer c om os
Os pacientes terminais incomodam os vivos e principalmente os profissio- seus mortos, com esses estranhos corpos que deixaram de produzir. Esse
nais de saúde p elas suas atitudes, seja de revolta, de dor ou de ex igências, acontecimento natural, torna-se clandestino e é empurrado para o fundo
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própria morte. Mesmo com todo o poder na m ão do médico e o paciente
da consciência, pois as pessoas m orrem escondidas. A preocupação sem nenhum, ele continua sendo o sujeito epistêmico de sua morte.
maior é com o valor dos terrenos, e a loca li zação dos cemitérios. Espe-
cialistas são contratados para cuidarem dos mortos, empresas encarre- Conclui-se que o moribundo não tem status social, e se não se amoldar à
gam-se desses aspectos e a morte se torna um comércio, como já vimos. linguagem dominante do hospital é declarado patológico, os cuidados
Verifica-se como é caro morrer, pois são cobradas taxas municipais, o mudam de natureza e o paciente pode ser punido pelo seu comporta-
caixão, o velório, o local no cemitério, o enterro, o que comprova que mento.
evidentemente não há igualdade na hora da m orte.
Ziegler apresenta em seu li vro depoimentos extremamente dramáticos de
 Ta mb ém nã o h á ig ua lda de se co ns ide ra rm os qu e a mo rt e s e a dia nta ou se alguns pacientes. Muitas vezes a família não é admitida no hospital, ale-
atrasa segundo relógios que se chamam condições sociais, econômicas e gando-se receio de contaminação e a necessidade de repouso do pacien-
políticas. Operários e pessoas que vivem em condições insalubres têm te. Sob o p retexto de respeitar a vida, prolongam-se os dias do moribun-
menos tempo de vida, e em nosso país podemos relembrar os desnutri- do ao preço de sofrimentos suplementares, sem esperanças de milagres e
dos. Ao mesmo tempo, tenta-se inutilment e prolongar a vida de certos contra o desejo do interessado. Será melhor pa ra ele passar os seus últi-
pacientes moribundos, envolvendo gastos altíssimos, garantindo um au- mos momentos sozinho, ligadd a tubos e máquinas? Se o repouso é a
mento de sobrevida para algo que não se sabe se é realmente vida. Zie-
coisa mais import a n te para a cura, certamente não o é para o paciente
gler recorre à imagem do moribundo arrancando os fios e os tubos num hospitalizado, que é continuamente interrompido em função de todo tipo
surdo grito, expressando que o estão privando da p rópria morte.
de intervenções.
Procuramos determinar qual é o momento da morte somática, quando as
O depoimento de um a enfermeira revela o seu m edo diante de suas cole-
funções de um ser vivo cessam e não há m ais possibilidade de reverter o
gas. Ela afirma que a ú nica coisa de que precisa é de alguém p ara segu-
processo. O instante da m orte é uma qu estão de fato, não de direito, e só
rar-lhe a mão. Diz: "Para vocês a morte faz parte da rotina, mas para
o médico pode defini-lo, através do atestado de óbito. Portanto, só ao
médico cabe confirmar o momento da m orte, constatando como definiti- mim, não."
va e irreversível, bem como, determinando a sua causa. Ou seja o próprio O autor expõe a questão da eutanásia, o apressamento da morte e os
ser humano não pode ratificar a sua morte. transplantes, vinculando ao problema econômico. Como vemos, um dos
O autor afirma que certos parâmetros, como a não-reação a estímulos, grandes pontos de definição da dur ação da vida relaciona-se ao dinheiro.
ausência de movimentos respiratórios, ausência de reflexos e EEG pla- Prolongar a vida de pessoas ricas, envolve custos altos. Por outro lado, a
no, organizam a questão, mas também fazem surgir um novo imperialis- venda de órgãos também rende economicamente. Vemos, assim, que o
mo médico, pois é este profissional quem define a questão da vida e da poder é transferido da Igreja para a Medicina, que acaba forç  a n do a
doação dos bens materiais em vida.
morte.
Chamando o médico de tanatocrata, Ziegler diz que ele não só constata a O doente tem direito de renunciar a certas terapêuticas, que lhe pareçam
morte, mas também a provoca, é o seu senhor. Não registra mais a hora demasiado onerosas e que só sirvam para prolongar um a vida vegetativa
final de uma vida, fixa-a segundo a sua escolha. privada de quali dades human as. Para o religioso a vida terrestre não é
tudo, e a morte é só uma passagem. O autor conclui que existem não-in-
A sociedade mercantil cria um sistema de imortalidade das pessoas, ne- tervenções que podem ser consideradas homicidas, pois ainda se poderia
gando qualquer status aos mortos, e carrega o momento da morte de fazer alguma coisa para salvar- o paciente, mas, em outros casos, a inter-
todas as qualificações pejorativas que se possa im aginar, esvazia, oculta, venção é que pareceria homicida, dado o grau de sofrimento a que o
nega a morte. É um sistema que aliena a quem m orre, priv
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paciente fica submetido. A igreja católica apóia o encerramento da vida rotina só que não volta. Preferencialmente as mortes são transferidas
quando esta se torna insuportável. para a m adrugada, quand o o movimento e a visibilidade são menores.

Existem documentos que podem ser registrados em cartório sobre o de- Hoje S0% das pessoas morre no hospital, primeiro porque é mais efi-
sejo de não ser subm etido a medidas heróicas. A decisão entre deixar de caz e escondido do que em casa, além disto os seguros pagam as hospi-
tomar certas medidas e matar um homem é bast  a n te complicada. talizações.
Ziegler levanta uma questão importante a ser considerada: a morte m ais
Alguns filmes têm procurado discutir essa questão, sobre a possibilidade
desejada é a m orte repentina, como por exemplo a que resulta de um
de decidir entre a vida e a morte. O filme De quem é a vida afinal? trata
ataque cardíaco. Só que esta dificilmente ocorre num hospital, pois medi-
desse tema, com tiradas de humor e com muita sensibilidade. Um escul-
tor fica tetraplégico após um acidente e, para lisado até a cabeça, perde
das de intervenção são rapidamente colocadas em prática para salvar o
todas as possibilidades de realização como pessoa, como homem, com o paciente.
artista, mas não perde a lucidez e o raciocínio. A vida que lhe resta é a O autor fala de um a outra tragédia, própria da sociedade mercantil, que
vida hospitalar, sendo alimentado na boca, tendo a sua privacidade cor- ele chama de agonia da s pessoas idosas, que são os asilos. Alguns idosos
poral totalmente devassada. O filme trata o tempo todo de definir o que tentam se livrar da vida "esquecendo" algumas recomendações importan-
é a vida e a morte para cada um dos personagens, que, em alguns mo- tes, como: tomar os remédios corretamente, nem a m ais nem a m enos,
mentos, pensam de maneira mu ito parecida, quando se trata da própria evitar beber e fumar, alimentar-se adequa damente, evitar correntes de ar,
pessoa e muito diferente, quando se trata de um médico e de um pacien- não fazer coisas que sabe que não agüenta mais. Apresentam tam bém um
te. Alguns profissionais vão-se sensibilizando com a questão, sendo capa - desleixo em relação ao próprio corpo.
zes de ouvir o paciente, outros permanecem insensíveis, muito aferrados
ao seu juramento profissional. A grande questão discutida é de quem é a Embora o hom em seja o único ser consciente de sua m ortalidade e finitu-
vida, afinal. Trata-se de um filme extremamente sensível na sua discussão de, a sociedade ocidental com toda a sua tecnologia está tornando o
sobre a eutanásia que, neste caso, não é o que chamam os de eutanásia homem inconsciente e privado de sua próp ria morte.
ativa e sim o fato de deixar de tomar algumas medidas, o que certamente
levará o paciente à morte. Os conflitos vinculados a esta situação são Atualmente, em nosso ponto de vista, tem ocorrido um clamor no senti-
abordados no filme, sendo um retrato fiel de nosso tempo. do de uma modificação destas atitudes, procurando resgatar a participa-
ção do paciente em seu processo de morte, cuja expoente máxima é
O hospital é um microcosmos, onde se resumem com muita clareza os Elizabeth Kub ler-Ross. Falaremos mais sobre as suas p ropostas nos ca-
conflitos constitutivos da sociedade mercantil. pítulos 13 e 14.

Há uma identificação entre o médico e o paciente, junto ao leito do Numa visão diametralmente oposta, trazemos uma outra perspectiva da
hospital. Na sociedade mercantil, muitas vezes o paciente não sabe como morte, presente na sociedade oriental. Para isso nos baseamos em alguns
morrer e o médico é incap az de lhe explicar o sentido da morte. trechos de O livro dos mo rt os tibetano, conhecido como Bardo Thódol,
organizado por Evans Wentz. Não pretendemos esgotar o assunto, mas
Sudnow (1971) explica como se desenvolve o-ocultamento da morte. Por- somente fazer a contrap osição de mentalidades tão diferentes.
tanto, não deve ocorrer nenhum destaque relativo ao acontecimento. Os
pacientes devem supor que nenhuma m orte ocorre no hospital, as corti- Este tratado oferece orientação segura para o mom ento da morte e para
nas são encerradas, são feitos pacotes com os mortos, de modo que não o estado do pós morte através do qual todo o ser humano deve pa ssar. A
se perceba o seu conteúdo. Parece que o morto vai para os exames de exploração do homem, o desconhecido de uma maneira verdadeiramente
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dieval cristã sobre a Arte de Morrer, entre os quais se encontra o Ars 
científica e ióguica, como este livro sugere, são mais importantes do que a
Morriendi ("Arte de morrer").
exploração exterior, tão enfatizada no Ocidente. As perguntas básicas
são: "Quem ou que sou eu? Porque estou aqui encarnado? A que estou Segundo as declarações dos mestre iogues, quando a humanidade houver
destinado? Por que há nascimento e por que há morte?" Há no Ocidente amadurecido e fortalecido espiritualmente, a morte será vivida extatica-
a falta de um correto conhecimento no que tange ao problema supremo mente, num estado conhecido pelos orientais como "samadhi". Através da
da humanidade, o problema do nascimento e da morte. correta prática de uma fidedigna Arte de Morrer, a morte terá então
perdido o seu estado negativo e redundará em vitória.
Este tratad o tibetano sobre a Ciência da Morte e do Renascimento, foi
organizado por Evans Wentz para ser compreendido pelos ocidentais. Ele  Ta nt o o s b ud ist as qu a n to os hindus acreditam que o derradeiro pensa-
revela aos povos do Ocidente uma C iência da Morte e do Renascimento, mento que ocorre no momento da m orte determina o caráter da p róxima
tal como era conhecida som ente pelos povos orientais, até hoje. O Lama encarnação. Assim como o Bardo Thõdol ensina, da mesma forma os
Govinda relata que, os antigos mistérios e os " Upanishads" declaram que antigos sábios da Índia ensinaram que o processo de p ensamento de uma
os não-iluminados encontram um a morte após a outra incessantemente; pessoa moribunda deve ser corretamente orientado, de preferência por
apenas os iluminados recordam suas inúmeras mortes e nascimentos. Se- ela mesma, com o se ela tivesse sido iniciada ou psiquicamente treinada
gundo os druidas da Europa é só atravessando os ciclos de mortes e de para encontrar a morte, como se tivesse sido orientada por um guru,
nascimentos que o homem atinge na esfera psíquica e espiritual, a perfei- amigo ou parente na ciência da morte.
ção a que está destinado, portanto, há um alerta para que não desperdi-
cemos com coisas triviais esta possibilidade de nascime nto que nos foi Os tibetanos dizem que não há nenhum ser humano qu e não tenha retor-
oferecida. Cabe refletir profundamente sobre esta colocação. nado da morte. De fato, todos nós morremos várias mortes antes de vir-
mos para esta encarnação. Aquilo que chamamos de nascimento é ape-
Segundo ensina 0 livro dos mortos tibetano aquele que está para morrer nas o lado inverso da morte. O Bardo Thõdol que p roporciona libertação
deverá enfrentar a morte não só lúcida, calma e heroicamente, mas com o do estado intermediário entre a vida e o renascimento, estado que o
intelecto corretamente treinado e dirigido, transcendendo m entalmente, homem chama de "morte", foi descrito em linguagem simbólica, para que
se for necessário, os sofrimentos e enfermidades do corp o, como se tives- não possa ser m al interpretado pelos não iniciados. Segundo o Lama
se praticado eficientemente a arte de viver. Anagarika Govinda o Bardo Thõdol é uma chave para penetrar na região
mais recôndita da mente e um guia para iniciados, e é usado no Tibete
No Ocidente onde a Arte de Morrer é pouco conhecida e raram ente como um breviário lido ou recitado na ocasião da morte, e foi concebido
praticada, pelo contrário, há uma relutância comum em morrer, a qual, para ser um guia não só para os mortos, mas também para os vivos. O
conforme explica o ritual do Bardo, produz resultados desfavoráveis. conteúdo do livro só tem valor para aqueles que praticam e compreen-
dem os seus ensinamentos durante a vida. Não é suficiente apenas ler ou
Da mesma forma que o resultado do processo de nascimento pode ser
recitar o Bardo Thádol na hora da mor te para que a libertação se efetive.
abortado, o mesmo pode ocorrer com o processo da morte. O Bardo,
O ser humano tem de passar pela experiência da morte antes que ele
segundo os lamas tibetanos, é o estado intermediário entre a vida e a
possa nascer espiritualmente. Simbolicamente falando, deve morrer para
morte. O livro dos mortos tibetano ou Bardo Thõdol significa "Libertação o seu passado e ego, antes que possa tomar o lugar na nova vida espiri-
pela Audição no Plano do Pós Morte", e Cu m  método iogue de se chegar
tual. Durante a vida tem de cultivar pensam entos e ações, preparar-se
à Libertação Nirvânica, para além do Ciclo do Nascimento e da Morte. mentalmente para que esse processo possa influenciar no momento da
 Tan to este livro, como O livro dos mo rt os do Antigo Egito incutem uma
morte e pós-morte. Fenômenos de nascimento e morte ocorrem várias
arte de morrer e sair para um a nova vida, porém de maneira simbólica e
esotericamente mais profunda do que faziam os tratados da Europa me- vezes, pois sempre há algo que nasce e m orre dentro de nós. Segundo o
4 6  Morte e desenvolvimento humano  Atitudes diante da morte... 47 
Lama, a escu ta, a reflexão e a meditação são os três estágios do discipula- Pessoalmente embora tenha nascido no Ocidente e esteja banh ada por
do. O li vro nos ensina a nos identificarmos com o Eterno, com o Dharm a, este tecido cultural, sinto um profundo respeito e admiração pela forma
com a Imperecível Luz do Esta do de Buda, entã o, os temores da morte de ver a morte dos orientais. Faz sentido compreendê-la como tr an sição,
são dissipados como uma nuvem diante do sol n a s cente. Ele sabe que como possibilidade de evolução. Sabe-se, entret  a n to, que a assimilação
tudo qu an to possa ver, ouvir ou sentir na hora de sua partida desta vida de valores de uma outra cultura não é fácil e nem pode ser realizada
de seu próp rio conteúdo mental consciente e sub-
não é senão o reflexo - repentinamente. Um ocidental nunca será um oriental, sob o risco de
consciente. ficar absolutamente sem identidade, pois abdica da sua e não consegue
assimilar inteiramente a outra. Muitos relatos atestam que ocidentais en-
Segundo a visão dos b udistas a vida consiste numa série de estados suces-
louqueceram diante da imensidão e comp leta transformação de valores e
sivos de consciência. O primeiro é a Consciência do Nascimento, o ú lti-
idéias de uma outra cultura. Porém acredito que uma reflexão e uma
mo é a consciência existente no momento da morte ou Consciência da
compreensão desta mentalidade que norteia, por exemplo, as práticas
Morte. Entre os dois estados de consciência, ocorre o "Bardo" ou estado
budistas, podem ser extremamente válidas, para que possamos rever al-
intermediário dividido em três estágios chamados de "Chikhai", "Chonyd"
guns dos nossos postulados em relação a morte, inclusive a possibilidade
e "Sidpa", são 49 dias de "Bardo", o quadrado do número 7 sagrado. Ju ng
de aceitá-la como parte d o desenvolvimento humano, e como forma de
tece um comentário sobre esta obra, que será apresentado no capítulo 7.
preparação para esse momento.
A morte é, portanto, apenas uma iniciação numa outra forma de vida
além daquela cujo fim representa.
Referências Bibliográficas
O m omento da morte deve ser vivido com um grau de consciência focali-
zada sendo usados procedimentos para facilitar isso. A natureza da
Consciência da Morte determina o estado futuro do "comp lexo da alma", ARIES, P. - A história da morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Francisco
sendo a i existência uma transformação contínua de um estado de cons- Alves, 1977.
ciência a outro.
EVANS WENTZ, W. Y. (Org.) -BARDO THODOL. O livro tibetano dos 
-

As instruções, precisas e detalhadas, mostram como devem estar o reci- mortos. São Paulo, Pensamento, 1960.
tante e o moribundo. E para cada estágio há recomendações claras e
específicas, inclusive para cada dia após a morte. Há uma descrição do MELTZER, D. (ED) DEATH: An anthology of ancient texts, songs,
-

que o sujeito pode estar vendo, quais as tentações, temores e ilusões que  pra ye rs a nd sto rie s. San Francisco, North Point Press, 1984.
poderão estar ocorrendo e que instruções devem então ser dadas para
MORIN, E. - O homem e a mo rt e. Lisboa, Publicações Europa-Améri-
facilitar a transição.
ca, 1970.
Como podemos ver, as visões da morte no Ocidente e no Oriente são
absolutamente diversas, com uma série de ritua is que correspondem a SUDNOW, D. - La organización social de la muerte. Buenos Aires,
essas diferentes formas de entender o nascimento e a morte. Se no Oci- Edit. Tiempo Contemporaneo, 1 9 7 1 .
dente a morte é vista como fim, ruptura, fracasso, como interdita, oculta
ZIEGLER,  J. - Os vivos e a mo rt e. Rio de Janeiro, Zahar, 1 9 7 7 .
vergonhosa, os rituais corresponderão a esta forma de encarar a morte.
São procedimentos de ocultamento, vergonha, raiva, temor. Na visão
oriental, a morte surge fundamentalmente, como um estado de tr  a n sição
e principalmente de evolução, para o qual deve haver um preparo.
Morte no processo do desenvolvimento humano... 49 

de expressão. Entre os jogos infantis onde ocorre a simb olização da morte


Capítulo 4 estão os jogos de esconde-esconde, mocinho e bandido.
Aberastury (1978) levanta três questões básicas a respeito da percepção
da morte pela criança:
MORTE NO PROCESSO a. A criança tem um a representação de morte, como a expressa e que
DO DESENVOLVIMENTO HUMANO. significado dá a ela?
A CRIANÇA E O ADOLESCENTE DIANTE DA
b. Ela percebe o perigo da morte, quando está doente, com ou sem espe-
MORTE rança de cura?

c. Percebe a morte dos seres queridos, mesmo quando este fato é omitido
Maria Júlia Kovács e negado?

A autora descreve casos em qu e ocorreu a morte de pessoas da família, e


"Tenho medo de morrer", disse a folha a Dan iel. "Não sei o que o episódio não foi comentado com as crianças. Durante o processo tera-
tem lá embaixo." pêutico, elas manifestaram conhecimento preciso dos fatos e datas em
"Todos temos medo do que não conhecemos. Isso é natural", dis- que ocorreram.
se Daniel para animá-la. "Mas você não teve medo quando a pri-
mavera se transformou em verão. E também não teve medo O ocultamento da verdade perturba o processo de luto da criança e a sua
quando o verão se transfo ,alou em outono. Eram mudanças na- relação com o adulto. A criança também gostaria de negar a morte, mas
turais. Por que deveria estai com medo da m orte?" (Leo Busca- quando os fatos contradizem o que lhe informam, fica completamente
glia, História de uma folha)  perturbada e frustrada. A primeira reação diante da perda de uma pessoa
amada é a negação, e se o adulto reforça essa atitude, fica difícil passar
A questão da origem da vida e da morte está presente na criança, princi- para as outras fases do luto.
palmente no que concerne à separação definitiva do corpo. Ela tem uma
aguda capa cidade de observação e quando o adulto tenta evitar falar so- Segundo Raimbault (1979), para que o processo de luto possa ocorrer, é
bre o tema da morte com ela, a sua reação pode ser a manifestação de necessário realizar um trabalho de desidentificação e desinvestimento de
sintomas. Ao não falar, o adulto crê estar protegendo a criança, como se energia, que permita a introjeção do objeto perdido na forma de lem-
essa proteção aliviasse a dor e mudasse mag icamente a realidade. O que branças, palavras e atos, e a possibilidade de investir a energia em outro
ocorre, é que a criança se sente confusa e desampara da sem ter com objeto. Quando a criança não c onsegue se desidentificar, e quando ocor-
quem conversar. rem sentimentos de culpa por se sentir responsável pela morte do outro,
como resultado de seus impulsos destrutivos, pode surgir o desejo ou a
A morte da mãe, d o pai ou de um irmão provoca uma imensa dor, falar necessidade de se reunir com a pessoa perdida, como forma de reparar
dessa morte não significa criar ou aum entar a dor, pelo contrário, pode os seus erros ou como necessidade de punição. Nesse caso, podem se
aliviar a criança e facilitar a elaboração do luto. manifestar sintomas, como: perturbações fisiológicas, dificuldades de ali-
O trabalho psicanalítico com crianças demonstra que elas percebem fatos mentação e sono, retorno ao auto-erotismo, distúrbios nos relacionamen-
que lhe são ocultados e, embora possam não expressá-los verbalmente, os tos sociais. Algumas vezes, a criança não consegue realizar a separação e
seus conhecimentos aparecem em seus jogos, desenhos ou outras formas deseja reunir-se com a pessoa perdida, sendo este fato manifestado pelo
Morte no processo do desenvolvimento humano... 51
50  Mo rt e e desenvolvimento humano 
Muitos adultos se negam a conversar com a criança sobre a morte, argu-
que Aberastury (1978) denom inou como m icro-suicídios, pequenos atos
mentando que as crianças nada sabem a respeito dela. Várias pesquisas
autodestrutivos, como acidentes, quedas, machucados, que podem passar
foram feitas no sentido de apontar o desenvolvimento do conceito de
despercebidos. morte na criança. Uma das pioneiras foi Nagy (in  Tor res , 1 98 0), qu e e stu -
A perda de um irmão pode levar a uma ferida na rcísica, trazer abalos à dou 378 c rianças húngaras de 3 a 10 anos, utilizando desenhos e palavras,
sua onipotência, e à percepção da impotência dos pais. Por outro lado, a para verificar como as criança s lidam com o conceito de morte. Na pri-
criança pode se sentir obrigada a preencher o lugar deixado pelo irmão meira etapa, até os 5 anos, não há noção de morte como definitiva e esta
é associada ao sono ou separação, a criança percebe a morte como tem-
morto, de ix ando de lado as suas necessidades.
porária e gradual, podendo ser reversível. Na segunda etapa, entre os 5 e
O processo de luto está finalizado quando existe a presença da pessoa 9 anos, a autora observou que há uma tendência para p ersonificar a mor-
perdida internamente em paz, e há um espaço disponível para outras te, como alguém que vem buscar a pessoa. A morte já é percebida como
relações. A criança pode simbolizar esta ausência/presença, através de irreversível, mas não como  universal.  Na terceira etapa, entre 9-10 anos, a
morte é compreendida como cessação de atividades, que ocorre dentro
 jog os e b rin ca de ira s.
do corpo, e realiza a sua característica de universalidade.
Flores (1984) procurou estudar as reações emocionais diante da morte, Koocher (1974) estudou 75 crianças fazendo quatro perguntas em rela-
tais como angústia com a separação e o sentimento de culpa, em c rianças ção à morte: "O que faz as coisas morrerem? Como fazer as coisas mor-
com doenças fatais. tas voltarem à vida? Quando você morrerá? O que acontecerá depois?"
Surgiu uma relação hipotética entre o desenvolvimento cognitivo e as
Os temores diante da morte foram expressos como: cessação da vida, atitudes diante da morte. O nível 1, ligad o ao período pré-operacional,
perda do m ovimento vital, experiência de uma sensação física ou moral envolveu raciocínios fantasiosos e mágicos, ligados ao pensamento ego-
desagradável, perda da existência, aniquilamento, desaparecimento, per- cêntrico. No nível 2, voltado ao período das operações concretas, in-
da da individualidade, perda do brilho e do vigor, ser esquecido, desapa- cluem-se formas de se infligir a m orte. O nível 3 apresentou explicações
recimento da lembrança. mais- abstratas, c om idéias de deterioração física, nomeação de classes e
causas, o reconhecimento da morte como fenômeno natural, presente no
As crianças terminais, além do medo da morte, apresentam o medo do período de operações formais. Este autor verificou que as criança s que
sofrimento e do tratamento, agravados pelo fato de terem de sofrer cons- tiveram contato direto com a morte, apresentaram melhor elaboração do
tantes separações das pessoas da família. Usando o procedimento "dese- seu conceito.
nho-estória", de Walter Trinca (1976), foi possível verificar, que as angús-
tias de dezessete crianças com câncer, estudadas, se relacionaram com Em nosso meio, podemos citar a pesquisa de Torres (1979), no Rio de
rejeição e separação. Verificou-se também que várias crianças demons-  Ja ne iro , c om 18 3 cr ia nç as de 4 a 13 an os , q ue es tu do u a re la çã o e nt re o
traram clara percepção da morte, mesmo que ninguém lhes tivesse infor- desenvolvimento cognitivo e a evolução do conceito de morte. A autora
mado a respeito da gravidade de sua doença. Não se pode esquecer que abordou três dimensões do conceito de morte: extensão, duração e signifi-
as crianças têm um contato mais direto e íntimo com seu corpo, portanto, cado. Pesquisou os níveis do conceito de morte ligados aos períodos do
percebem a d eterioração que a doença provoca. Por outro lado, muitas desenvolvimento cognitivo segundo Piaget:
vezes em suas perguntas pedem um esclarecimento e confirmação de a. Período pré -operacional As crianças não fazem d istinção entre seres
algo que já sabem. O escamoteamento da verdade provoca um sentimen-
  -
inanimados e animados e têm dificuldades para perceber uma categoria
to de estar sendo enganado ou considerado ingênuo, o que causa um
de elementos inorgânicos que, portanto, não vive e não m orre. As crian-
sentimento de profunda solidão.
5 3 
5 2 

ças não negam a m orte, mas é difícil separá-la da vida, atribuem a fatores vida. Este s  dados fazem supor que uma das hipóteses para explicar o
externos a impossibilidade de viver. Não percebem a morte como definiti- comportamento suicida em crianças, é a sua crença de que a morte é
va e irreversível. reversível. Estes autores verificaram uma ligação entre comportamento
suicida e o conceito imaturo de morte. Uma forma de lidar defensiva-
b. Período das operações concretas -As crianças distinguem entre seres mente com ela é considerá-la reversível. A discussão sobre o significado
animados e inanimados, mas não dão resp ostas lógico-categoriais de cau- da morte, das suas dim ensões como a irreversibilidade, deveria ser parte
salidade da morte, buscam aspectos perceptivos como a imobilidade para
i mportante do tratamento de crianças suicidas.
defini-la, mas ela já é perceb ida como irreversível.
O adolescente tem a possibilidade cognitiva de perceber as característi-
c. Período das operações formais -As crianças reconhecem a morte como cas essenciais da morte, como a sua irreversibilidade, universa li dade e
um p rocesso interno, implicando em parada de atividades do corpo. Per- pode dar respostas lógicas formais. Levanta hipóteses e discute esse tema
cebem-na como universal, podendo dar explicações lógico-categoriais e tão complexo. Porém, emocionalmente, pode estar muito distante da
de causalidade. A m orte é definida como parte da vida. Esta relação morte, como discutiremos a seguir.
entre os estágios de desenvolvimento cognitivo e o conceito de morte não
foi observada com tanta clareza. Speece e Brent (1984) verificaram que as A adolescência sempre foi considerada um período do desenvolvimento
relações entre o d esenvolvimento cognitivo e as conceptualizações de com grandes transformações. Algumas muito evidentes, como as mudan-
morte podem ser ambíguas. Entretanto, se não se considerar o desenvol- ças corporais que são iniciadas na puberdade. Segundo Aberastury e
vimento cognitivo como um todo, e sim algumas habilidades específicas, Knobel (1973), as m anifestações que ocorrem na adolescência e, portan-
como a conservação e conceitos de tempo, esta relação parece m ais cla- to, normais neste período, seriam consideradas patológicas em qualquer
ra. Em seus estudos, constatou que a m aioria das crianças de 7 anos já outra etapa do desenvolvimento. Entre estas manifestações ocorrem in-
havia assimilado os principais atributos ligados à morte como, irre- tensas expressões de sentimentos, labilidade emocional e uma exagerada
versibilidade, não-funcionalidade e universalidade. necessidade de auto-afirmação.
Estas pesquisas sobre a aquisição do conceito de morte em crianças são A adolescência é uma fase de transição como qualquer fase do desenvol-
muito importantes, quando se considera a necessidade de falar com elas vimento. E um período de lutos, segundo os autores acima mencionados,
sobre a morte. Neste caso, podem-se usar palavras e experiências que pois o adolescente tem de realizar a perda do seu corpo infantil, da sua
sejam compreendidas pela criança. N ão se trata de evitar o tema e sim, de identidade como criança e precisa elaborar a perd a dos pais infantis. A
trazê-lo para uma dimensão que possa ser assimilada pela criança, de grande tarefa da adolescência é a aquisição da identidade, segundo Erik-
acordo com o seu nível de desenvolvimento. son (1972), quando o indivíduo se define como p essoa. Para realizar esta
definição, o adolescente tem de romper limites e desafiar o mu ndo. É um
Pela carga emocional do tema, a spectos afetivos e em ocionais podem período de grandes aquisições, desde um corpo novo e altamente poten-
interferir na elaboração cognitiva d o conceito de morte. Tal asp ecto foi te, até uma capacidade cognitiva que lhe permite conquistar a ciência,
demonstrado no estudo de Orbach e Glaubm an (1979), que verificaram descobrir e inventar coisas novas, participar da conversa dos adultos com
se a distorção apresentada no conc eito de morte seria devida a limitações idéias e com a possibilidade de discordância, agora pautada em conheci-
cognitivas ou à defesa contra a ansiedade, provocada pelo tema. O bserva- mentos e capacidade de elaboração.
ram que nã o houve relação significante entre o desenvolvimento cognitivo
e o conceito de morte. Crianças suicidas apresentavam ma ior distorção O adolescente tem sonhos e ilusões, ma s bem diferentes dos da infância,
no seu conceito, do que crianças-controle da mesma faixa d e idade e os quais são considerados infantis e bobos. Agora tem sonhos e ideais e
nível cognitivo, e não apresentavam as mesm as distorções no conceito de vai atrás deles. Em muitas sociedades, como aponta Erikson, o adoles
5 5 
5 4 

cente tem de aprender e pôr em p rática as atividades para subsistência O adolescente está caminh an do para o auge da vida, tem todas as poten-
cialidades corporais e p síquicas, como vimos, e a morte está dist an te
da comunidade. São importantes os ritos iniciáticos da ad olescência,
como possibilidade pessoal. Como se explica, entã o, que o período em
onde o jovem precisa abandonar as suas atividades e objetos infantis,
que o indivíduo está no auge da vida seja também um período de alto
separar-se do lar materno e iniciar-se nas atividades dos adultos. Estes
risco para que ocorram mortes inesperadas. Para se ter um a idéia disso, é
ritos são acompanhados de med o e solidão. Entretanto, em sociedades
na adolescência que ocorre o maior número de suicídios, só superad o,
primitivas observa-se uma nítida divisão entre o período infantil, com
suas características, e a responsabilidade que é incutida ao adolescente, atualmente, entre os idosos.
quando deve entrar na fase adulta. Uma tentativa de explicação é qu e no processo de aqu isição da identida-
Na sociedade ocidental e capitalista, estes ritos de adolescência não são de o adolescente testa e aca ba por extrapolar muito os seus li mites. O
mais tão definidos, ficando caracterizado o início da fase com as mudan- herói não conhece o medo nem a derrota, e se sente medo este é escondi-
ças da puberdade, entretanto o final da adolescência e a entrada no do, mas não é admitido publicamente. O adolescente tem de se manter
mundo adulto estão cada vez mais diluídos, o que torna muito difícil a corajoso diante de todos. Ao fazer estas colocações, estamos traçando
uma caricatura, que de alguma forma traz as características peculiares
confirmação da identidade como pessoa e a definição do seu lugar na
sociedade. deste período.

 Te m os ob se rv ad o q ue em pa ís es do Te rc eir o M un do há um a qu es tã o q ue É comum na adolescência a busca de atividades que desenvolvem o limi-


demanda análise cuidadosa. O adolescente não tem a possibilidade de te físico como as atividades esportivas. Entretanto, muitos esportes tra-
"adolescer", ou seja, desenvolver todo o período de experimentação de zem em si o perigo da morte. O grand e prazer encontra-se efetivamente
seu novo corpo e da sua nova mente. Da infância, pula logo para a fase em desafiá-la, senão não tem graça. Por outro lado, certas atividades
adulta, tendo de assumir responsabilidades e cuidar de sua subsistência, como guiar carros, motos ou outros meios de transporte, tam bém são
com conseqüências graves. exercidas no seu limite, vivendo o adolescente situações de a ltíssimo
risco, algumas, resultando em morte. É q ue o adolescente, por excelên-
Segundo Jung, a a dolescência é um período em que o sujeito está com cia, acredita que a morte só ocorre com o outro. Mesmo quando ocorre
toda a libido voltada para a construção do m undo e, portanto, há pouco com um companheiro próximo, sobra a dúvida se n a verdade não se
lugar para pensar na morte. É uma preparação para a sua vida útil na tratou de incompetência.
sociedade, os estudos para o desenvolvimento profissional, o desenvolvi-
mento afetivo e emocional, que demanda a busca de um comp anheiro, a Por outro lado, na busca d a vida, do auge, do pico, surge a necessidade
vivência da relação amorosa. É também o período dos grandes empreen- de elementos facilitadores desta vivência. Um deles é o uso de drogas
dimentos. A energia vital está voltada para estes aspectos, não existindo que, muitas vezes, inicia-se neste período. Deve ficar claro que o que se
espaço para imaginar a própria morte. O adolescente personifica em par- está buscando é uma vida com intensidade e colorido mais acentuados, é
te o herói, aquele que é i mortal. Esta suposição da imortalidade, que está o desafio da morte. Entretanto, nesta busca de uma vida mais intensa
presente em todos os seres humanos, tem o seu auge na adolescência. É pode ocorrer a morte por exagero da d ose, por descuido, acidente ou
normal neste período porque, para a aquisição da identidade, é necessá- assassinato. É na adolescência que o paradoxo vida/morte fica mais evi-
ria a vivência do poder e da força. Segundo Jung, o jovem que teme a dente, como vimos.
morte e o futuro, provavelmente terá este mesmo tem or posteriormente.
O adolescente também descobre o amor e ama intensamente. Quer ser
O indivíduo que tem medo da vida não vive, como vimos. No caso do
correspondido no seu amor, e quando não o é, não resta muitas vezes
adolescente esta situação é ainda mais forte, porque é causa de todo o
outras alternativas. Como veremos, as tentativas de suicídio são muito
investimento energético para a construção de sua identidade e realidade.
5 7 
5 6 

SPEECE, M. W. e BRENT, S. B. S. - Children's und erstanding of death.


freqüentes nesta idade, provavelmente relacionadas com a busca de uma A review of three components of a death concept. Child Develop- 
qualidade de relação e realização amorosa que não são encontradas na
ment, 1984, 55 (5) : 1671-1686.
vida. Este tema será melhor desenvolvido no capítulo sobre o suicídio.
 TO RR ES, W. C. - O conceito de morte na cri a n ça. Arquivos Brasileiros 
A adolescência é um p eríodo do desenvolvimento em que a vida e a m or- de Psicologia. O ut /dez 1979, 31(4) : 9-34.
te encontram o seu auge. A vida pela sua possibilidade de desenvolvimen-
to pleno e a morte como uma continuação desta plenitude, embora o  TO RR ES , W C. - O tema da m orte na psicologia infantil: uma revisão
adolescente dê o tempo todo a imp ressão de que, para ele, ela não existe. de literatura. Arquivos Brasileiros de Psicologia, abr/jun 1988, 32(2) :
A passagem para a assim cham ada vida adulta demanda um assentamento 5 9 -71 .
de toda a impulsividade d esta fase, e a construção da profissão, de seu
lugar na comunidade, a constituição da família e a criação dos filhos. É
neste momento, que Jung denominou de m etanóia, que a morte aparece
pela primeira vez como um a possibilidade pessoal.

Referências Bibliográficas

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ABERASTURY, A. La percepción de la muerte en los ninos y otros 
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KOO CHER, G . - Talking with children about death. American Journal of 
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RAIMBAULT, G.-A c ri ança e a mo rt e. Rio de Janeiro, Francisco Alves,


1979.
Envelhecimento e morte  59 

ções, instituições, grupos, eventos, lutas; é a evocação de memória e afe-


Capítulo 5 tos partilhados na convivência e que geraram transformações profissionais.
profundas.

Não tive outro jeito. Fui buscar em mim mesma, no privado de minha
ENVELHECIMENTO E MORTE própria experiência, uma forma de apresentar a pessoa que suavemente
me introduziu na significação do contato com o si-mesmo, na congruênc ia
com a exp eriência interior. E aí encontrei a falta da pessoa e a dor de sua
ausência ainda presente. Mas esse contato, embora doloroso possibilitou
Rachel Léa Rosenberg (IN MEMORIAM) 
encontrar um caminho: sua presença no m eu privado permite aceitar o
pedido e o resgate, na intenção de uma apresentação: criar condições
Este capítulo representa a aula que foi dada pela Dra. Rachel Léa para a permanência de um a pessoa, para uma existência que não pode ter
Rosenberg, e como tal será mantida para que se tenh a a íntegra da sua o privilégio de permanecer concretamente ao longo do tempo, como o
forma de ser. tem uma obra de arte. Condição de se ser humano, pessoa e não obra.

Uma forma de permanência pública de um a pessoa séria, através de sua


RACHEL ROSENBERG: UMA VIDA DE CRIAÇÃO produção concreta, como os seus escritos. É nesse sentido que o texto
E PAIXÃO DE SER E PERTENCER tem uma significação. Ele expressa a possibilidade de concretude dos
pensamentos e sentimentos de quem o produziu. Principalmente quando
Por Henriette Tognetti Penha Morato se trata de uma p essoa, que não se preocupou em registrar graficamente
suas experiências. Rachel preferia fazer as coisas, expressar por gestos a
transmissão das crença s e valores pelos quais norteava suas ações, tanto
Um pedido foi feito: escrever um breve texto como apresentaçã o de Ra- públicas, quanto privadas. Absolutamente coerente com a filosofia que
chel Léa Rosenberg, cuja au la/texto que segue representa o presente ca- partilhava: a p sicologia humanista. É na ação que os p rojetos de vida de
pítulo. Juntamente com o pedido uma indagação. Apresentar significa uma pessoa a conduzem adiante em seu desenvolvimento.
trazer à presença, tornar presente. Etimologicamente, vem do latim  pr ae - 
sentare (prae ou pre = antes + essere = ser), ou seja, o que abre a E nesse ponto, novamente a indagação: como ap resentar um texto e prin-
possibilidade para ser, para ser visto. Como apresentar Rachel: a profes- cipalmente a pessoa que o criou, sem um contexto? Um contexto envolve
sora, a especialista, a colega, a companheira, a psicóloga, a cientista, mas, muito mais do que a mera contextualização de um texto, ou a apresenta-
principalmente, a amiga? ção de um a especialista e seus caminhos profissionais e obras.
De qualquer forma, a situação colocada requer um compromisso e um a
Apresentar Rachel e seu texto não poderia ser somente uma formalidade
responsabilidade que, se a princípio apresenta-se simples. a um olhar
a fim de introduzir o leitor no universo de seu pensamento, através de sua
mais atento, a um coração m ais escondido revela-se profundamente intri-
biografia ou de seu curri culum. Além de ser absolutamente monocromáti-
cada, porquanto carregada de muita emoçãò, sentimentos e afetos agora
ca, tal forma não poderia jamais expressar verdadeiramente a pessoa Ra-
rememorados. Compromisso e responsabilidade do coração, de quem
chel, o que ela representou para seus amigos e companheiros, para a
ama e sente falta, para tornar público um sentimento e um conhecimento
psicologia no Brasil, para o campo do aconselhamento psicológico, para a
significativo privados. Apresentar alguém é comunicar significados que
clarificação da abordagem centrada na pessoa, mas principalmente não
marcaram sua presença nos projetos de vida de muitas pessoas, organiza-
Envēlhecimento e mo rt e  61
Morte e desenvolvimento humano 
6U 

representaria o que para ela significava viver, ser e a significância que rio, estabelece a p ossibilidade de ampliação do tema com a simp li cidade
e sabedoria de articular e oferecer todos os recursos p ossíveis para poder
atribuía à experiência humana. transmitir, sem arrogância, um conhecimento e criar um clima para
Finalmente, encontrei um significado por ter sido procurada com a soli- aprendizagem significativa. Artesã primorosa.
citação para uma apresentação de Rachel Rosenberg - significava intro- Por muito ter convivido com ela e conhecê-la, temi que somente a leitura
duzir a pessoa com seus coloridos, a inventora de várias invenções, como do texto pudesse não ser suficientemente expressiva e si gn ificativa para
textos, li vros, serviços, projetos, grupos e principalmente introduzir a su a quem não teve o privilégio de ouvir Rachel. Dessa forma, optei por intro-
própria apresentação na forma de transcrição de uma aula gr avada. Por- duzir-me ao texto transcrito e não ouvir as fitas. Buscava perceber se
que nada m elhor do que participar com ela e assim conhecê-la, do que poderia sentir e reconhecer a Rachel que conheci naquilo que lia. E com
acompanhá-la da m aneira como ela se oferece para ser conhecida, atra- satisfação constatei ser possível encontrá-la em sua fala. C onfirmou-se o
vés de sua espontaneidade, sensibilidade, intelectualidade, especialidade poder da inventora e não da invençã o. O que li era muito mais que um
competente Enfim, acompanhar sua sabedoria de vida para apresentar- texto. A pessoa transparece com seu poder pessoal. Ainda que não fosse
se e apresenta r seu texto através de seu próprio jeito de ser. No que se totalmente possível para mim não "ouvi-la" em sua entonação característi-
segue como texto após esta introdução, há muito m ais do que só idéias. ca, dado nosso grande contato, percebi a vantagem da leitura da transcri-
Há um a pessoa apresentando-se e dando-se a conhecer, enquanto apre- ção de uma fala e não a leitura de um texto diretamente escrito. O que a
senta e discute um tema. Qualquer coisa que dela se possa dizer está princípio poderia ser uma desvantagem (não poder ouvir a gr avação ori-
muito aquém daquilo que ela própria revela de si, do tema, de cada um ginal) aparecia agora como uma vantagem sobre um texto corrido. Uma
de nós. Esta era outra de suas habilidades - como um a romancista mo- transcrição de diálogo como uma aula, desde que mantida a fidedignida-
derna conseguia falar de tudo e de todos ao falar de suas próprias expe- de e a íntegra da apresentação sem cortes, oferecia um a possibilidade de
riências. Eis a Rachel fenomenologicamente artista, que transitava ná sonorização ao texto. Além disso, representaria m uito mais o contexto de
intersubjetividade. Expressando-se, ela comunicava, suavemente a arte vida de Ra chel - o encontro e diálogo entre pessoas e com ela. Dessa
de genuinamente ser, cultivada com cuidado por ela e buscada por todos forma, descobri ser o texto "sonoro", a ponto de poder ser apreendida a
nós. Sua p rópria apresentação revela muito mais. Revela a pessoa cons- tonalidade da voz de Rachel, sua forma de ir articulando sentimentos e
tantemente curiosa, preocupada, atormentada, mas sem pre apaixonada idéias, as quebras de p ensamento e desvios revelando seu processo criati-
pela investigação dos mistérios da existência humana e seu significado vo tão especial e sua m arca registrada. A autenticidade de sua fala é tão
para quem vive essa experiência. pungente que pode ser ouvida por quem a lê.

Sua exp eriência permite o descortinamento de alguém qu e se arriscava a O m ais surpreendente é como ela se de ix a conduzir por um fio de sinto-
comunicar o seu mundo privado e oferecê-lo como matéria-prima pública nia que a leva adiante, bem como, aos seu s ouvintes, leitores, sem contu-
para novas criações de experiências no outro, ou outros que se dispuses- do dirigi-los ou moldá-los a uma perspectiva única. Esplendorosa compe-
sem a ouvi-la. Rachel era naturalmente uma facilitadora de aprendiza- tência e respeito à liberdade e compromisso responsável para com a
gens si gn ificativas, além de professora e pesquisadora. Vai construindo o competência do "outro" respeitável. Nesse sentido, Rachel surge como
tema pela exp eriência pessoal e profissional, revelando uma atitude clíni- uma p essoa com valores bem definidos e determinados.
ca fenomenológica. Propicia o despertar do interesse n o aluno, e cria
Lendo ou ouvindo Ra chel, torna-se fortemente evidente sua sensibilidade
condições para a expressão pessoal dos participantes, t  a n to em conteú-
dos específicos quanto em questionamentos teórico-práticos, e experiên- e capacidade comunicativa envolvente, tanto ao ouvinte presente, quanto
cias vividas, com sua forma de ser admiravelmente natural e brilhante ao leitor participante. Ela está sempre oferecendo sua narração recorda-
tiva para aprendizagens recriativas. Se, como aponta Ecléa Bosi (1979), a
intelectualmente. Ela não seleciona nem recorta elementos. 'Pe lo contrá-
63 
62 

memória revive um trabalho realizado com paixão, a memória-trabalho de contro de histórias pessoais e de histórias de trabalho, partilhado por
Rachel revela a fusão de sua atitude diante da vida com a quilo que faz, ao an os, onde experiências se mesclam, mas conduzem adi an te para novos
mesmo tempo que, recordando, "deseja repetir o gesto e ensinar a arte" caminhos de desenvolvimento, quando as pessoas partilham valores e ati-
(Bosi, 1979, p. 399 ) do que para ela representa o atendimento em aconse- tudes que possibi li tam a realização de p rojetos e atividades, como o Ser-
lhamento psicológico ou em psicoterapia, seja em instituições ou em con- viço de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da USP e
sultório, segundo o enfoque centrado na pessoa e na psicologia humanis- o desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa no Br  a s il, expe-
ta. Nesse sentido, seus gestos públicos e suas ações sempre estiveram riências profissionais, com profundo cunho pessoal, que compartilhei
voltados ao desenvolvimento das pessoas e à criação de situações facilita- com Rachel. Impossível perceber, neste momento e diferenciar o quanto
doras para a sua ocorrência. O consultório, a Universidade, os grupos de são minhas ou dela as nossas aprendizagens e crescimento. Quem, de
trabalho, os encontros de comunidade, as reuniões sociais, tudo o que lhe fato, pertence à memória dos fatos a serem relatados. Numa sinfônica
fosse apresentado era m otivo para indagações, questionamentos. Profis- sintonia de experiências de anos de am izade e trabalho, onde pessoal e
sional clínica, sua pessoa humana era uma pesquisadora incansável que profissional se imbricam, onde valores são partilhados, como diferenciar
explorava a vida e suas circunstâncias como um laboratório para expandir a autoria de pensamentos e sentimentos de significativas presenças au-
sua curiosidade sempre em desenvolvimento. Era uma aprendiz por exce- sentes, que possibilitaram a substância de nossas vidas? É aux iliada pelo
significado de memória-interação que prossigo o relato. São fatos coleti-
lência.
vos, recordados por um indivíduo, conforme impressos em sua subjetivi-
Ocorre-me, agora, que talvez realmente o narrador tenha um papel cultu- dade, que sofre transformações pessoais e outros, resultantes da intera-
ral importante, pois é através d ele que se viabiliza a possibilidade de ção com pessoas ou grupos.
permanência de pessoas, valores, atitudes, memória e tradições, de gestos
públicos, de existências e culturas. A realidade do narrador, segundo Rachel sempre mostrou ser uma imbatível pessoa de risco, aberta a toda
Benjamin (1985) e Régis (1988) é a daquele ser "investido com o poder de e qualquer experiência. Pessoa de risco porque jamais desistiu de nortear
uma voz que a comunidade lhe dá para relatar a evolução de sua aprendi- sua vida pessoal e profissional pelos valores e crenças em que confiava,
zagem" (Régis, 1988, p. 5). Seu papel é "registrar a s vivências dos seus como significantes para sua existência e presentes na existência de todo
contemporâneos para que não caiam no esquecimento, apoiá-los nas suas ser hum an o. Essa vita li dade e disposição se faziam sentir nos mais varia-
necessidades de muda nça, falar pelos que estão emudecidos" (Régis, dos momentos vividos por ela, em sua vida pessoal ou profissional. Ela
1988 , p. 5 ), transmitindo a atualidade dos fatos e a dimensão do vivido e era, se é possível dizer, a pessoa plenamente funcionante como Rogers
viva da história. (1983) apresentava a p essoa vista pela Psicologia Hum an ista e pela Abor-
dagem Centrada na Pessoa. Ao mesmo tempo, criança-adolescente-adul-
Neste momento, permito-me resgatar como uma narradora lapidando ta, insistia em resgatar em cada experiência vivida o prazer da descober-
suas experiências, para registrar o púb lico e algum privado de uma exis- ta, da novidade e revelava, assim, a sabedoria anciã de crescer e aprender
tência emudecida, mas presente na memó ria e por isso recriada. Desejo enquanto envelhecia. Os inúmeros projetos em que se envolveu ou aju-
partilhar um pouco do privado da Rachel, que é meu particular, e de seus dou a criar expressam a abrangência de seus interesses: o grupo de psico-
gestos públicos que através da minha mem ória-interação, pois fruto de logia humanista, a abordagem centrada na pessoa, o Serviço de Aconse-
um trabalho conjunto, podem contribuir e revelar um jeito de permanên- lhamento Psicológico, o grupo de executivos do Centro Empresarial de
cia para essa existência. Afinal é na memória - interação com ouvin- São Paulo, os grupos nas escolas Lourenço Castanho e Vera Cruz, a vinda
tes/narradores - que a lembrança dos velhos se revela e revive o colorido de Rogers e seu grupo em 1977 ao Brasil em Arcozelo - Rio de J a n eiro e
de seus projetos de vida (Bosi, 1979), resgatando o lugar e a p ertença de em São P aulo, a Televisão Cultura de São Pau lo, os grupos de encontro,
seu ser. 0 trabalho de memória-integração descortina um pacto de en- workshops e grupos de comunidad e, o Centro de Desenvolvimento da
Envelhecimento e m o rt e  65 

Pessoa no Sedes, os superdotados, os cursos de especialização em A con- constrangimentos, numa relação de ajuda mútua e comunicação verda-
selhamento Psicológico, pioneiros no IPUS P e em outras instituições uni- deira. Foi um momento decisivo e transformador inesquecível.
versitárias, os grupos de espera (sua tese de doutorado), o plantão psico-
É assim que, hoje posso relembrar momentos pessoais meus e movimen-
lógico, o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, os cursos avan- tos pessoais de Rachel, deliciosamente por nós partilhados e agora ouvi-
çados de formação de terapeutas na Abordagem Centrada na Pessoa, o dos com um novo significado. Como aquele d ia magnífico de julho, em
Centro de Psicologia da Pessoa no Rio de Janeiro, o Cen tr o de Geronto- Pirassununga, um sol brilhante, mas intenso e frio, quando ela sorridente
logia do Sedes Sapientiae, os I e II Encontros da Abordagem Centrada na e feliz como uma criança marota, comentou comigo quão fascin  a n te era a
 com Rogers, o Encontro com Ro-
Pessoa, o livro A pessoa como cent ro  experiência da águ a escorrendo pelo corpo frio, num banho demorado,
gers, em B rasilia, o Workshop com Rogers na Hungria, os I, II, e III En-
que parecia estar lav a n do até a alma e aq uecendo-a. Desde então, quan-
contros Latino-Americanos na Abordagem Centrada na Pessoa, no Rio, do me sinto extenuada e busco um banho confort an te, fico atentando e
Buenos Aires e S ão Paulo, os I e II Fóruns Internacionais na Abordagem descobrindo as alegrias da água quente a escorrer pelo corpo frio. É
Centrada na Pessoa, no México e na Inglaterra, os grupos de comunidade realmente fascinante e apaixonante.
no Instituto de Psicologia da USP, a P sicologia Transpessoal e Holística, o
Simpósio: Vivência Acadêmica no IPUSP, os Grupos d e Famlia, o Acon- Naquele dia, quando voltava de sua viagem ao Egito, Israel e Grécia,
selhamento Psicológico Centrado na Pessoa, que resultou num livro de num momento antes da reunião com a equipe de trabalho, Rachel co-
uma equipe de trabalhb, o consultório e os clientes. mentava as belezas de Luxor e seus templos, das pirâmides, do Oceano-
gráfico Israelense. Era uma criança deslumbrada, olhos brilhantes, como
Nesta vastidão de atividades empreendidas, contudo, jamais Rachel dei- que revivendo a história dos faraós, nos barcos, através do Nilo. E eu a
xou de pautar-se nos valores mais significativos para ela: a crença e o i maginar no compasso do seu relato, escravos arrastando, dóceis e
profundo respeito pelo ser humano e seu potencial de desenvolvimento. exaustos, pedras para u ma construção interminável e de significado ina-
Sua ex istência foi rigorosamente ética, nesse sentido, e fiel à sua filosofia tingível, mas absolutamente felizes por se saberem particip  a n tes no tra-
de vida. Paixão e estética a moviam em direção às pessoas, ao mundo e à balho de um a obra bonita. Eu im aginava, revivendo extasiada a f  a n tasia
vida. Onde pudesse aprender e d escobrir ainda mais sobre o fenômeno de 20.000 léguas submarinas e das profundezas aquáticas do Mar Morto
humano, Rachel deixava-se fascinar e punha seu ser em risco, em m ovi- com a descrição de Rachel.
mento. Principalmente, em mom entos íntimos de relação.
Mas, sobretudo, resgatando a impressão da amiga e comp anheira Maria
Pude viver essa experiência intensamente em nosso contato, num grande Luísa Schmidt, que também partilhou desse delicioso relato de Rachel, o
grupo de comunidade de aprendizagem. Ainda indecisa qu an to a certas ponto alto da viagem para Rachel fora o seu passeio pelas ilhas gr egas,
elaborações pessoais, foi a presença significativamente acolhedora e seu encontro e risos com uma amiga brasileira que encontrara por acaso,
compreensiva de Rachel, que me ajudou a conquistar uma das transfor- tão longe. Em especial, foi a indescritível transmissão de um m omento de
mações mais import  a n tes de m inha vida, tanto no plano pessoal quanto prazer, paz, beleza, pa ix ão e liberdade, quando ela, Rac hel, solitária esta-
profissional. Numa analogia muito carinhosa, posso dizer que Rachel va sentada no terraço de um bar, que ficava no alto de uma escarpa e que
participou facilitadoramente para um renascimento. E dolorosamente acabava no mar Egeu, tomando uma cerveja; e então, olhando o azul das
bom poder, neste momento, reconhecer o gr ande privilégio que tive por águas onde brilhava um sol magnífico, quis perpetuar a possibilidade da-
ela estar por perto e eu dispor-me a ouvi-la como nunca antes havia quele cenário deslumbrante e perguntou-se "É p reciso voltar? Nã o pode-
feito, apesar da longa convivência. E com o ela partilhou comigo também ria ficar aqui? O que de fato me impede de ficar?" Foi uma sensação
incertezas, fantasias e inquietações. Uma surpreendendo a outra sem
única de liberdade, nesse instante, que ela ex perimentou como num vôo
66 
Morte e desenvolvimento humano  Envelhecimento e morte  67 
rasante. E como essa emoção evocada tã o pura se descortinou que fez tadora de processos de criação, pois ao ser, expressava o qu an to perten-
eco em todos nós, ouvintes co-participantes do seu relato! cia e permitia a ocorrência desse mesmo processo nos que se dispunham
a estar com ela e ouvi-la.
Essas memórias resgatam os valores priorizados por Rachel - beleza, pai-
xão, despreendimento, li berdade para emoções e experiências consigo Infelizmente, nem todos no Instituto de Psicologia da USP dispuseram-se
própria e com a natureza, a cultura e a história. Esses mesmos valores a participar com ela e crescer nos oferecimentos que ela propiciava nas
nortearam sua conduta política. Rachel era uma pessoa engajada e com- atividades de aprendizagem em comunidade. "Apesar d e tudo, ainda se
promissada com questões de justiça e processo social, por ideais de po- encontram algumas flores tênues por esta avenida", diria Rachel em mo-
der pessoal e ação responsável no mundo. Era uma revolucionária e bata- mento de desapontamento esperançoso. Indubitavelmente correto, já que
lhadora por modificações mais justas para o ser hum ano Rachel lutava individualmente muitos se privilegiaram de contatos com ela e sempre se
contra situações opressoras às liberdades do indivíduo e da sociedade. recordam dela com respeito, admiração, carinho e gratidão, marcados
significativamente que foram pelos momentos de encontro. Rachel, a
Envolvida como era em sua vida pessoal com valores como paixão, bele-
dama inglesa, como alguns a representavam pelo porte, postura, austeri-
za, liberdade, era com esses mesmos valores que envolvia sua relação
profissional-pessoal conosco, no Serviço de Aconselhamento Psicológico. dade e  finesse. Mas, na realidade, a lady belga que cedo emigrou e como
tradutora iniciou seus primeiros passos p rofissionais, depois de ter tenta-
Éramos um g rupo de trabalho com o qual ela mantinha essa mesma rela-
do ser vendedora de uma renomada firma de jóias para estrangeiros.
ção com que vivia a sua vida, baseada em confiança, respeito e amor com
Rachel brilhava e buscava preciosidades. Sem dúvida, uma dama.
envolvimento, como num pacto familiar
Nossa equipe não é simplesmente um grupo de trabalho descaracterizado Com tudo isso e por tudo isso não julgo ser esta a ap resentação de Ra-
em identidade e mantido enquanto grupo somente por necessidades fun- chel. Não posso torná-la mais presente do que a mim ela se apresenta.
cionais. E nessa condição há muito da pessoa Rachel. Suas atitudes au- Assim, só posso introduzi-la. Isto se considerar que introduzi-la significa
tênticas, aceitadoras e compreensivas foram pontuando nosso crescimen- partir de dentro de minha própria experiência no contato com ela, a fim
to como pessoas, separadas e distintas, ao mesmo tempo em que ia nos de conduzir para diante o que se segue - sua própria apresentação em
ajudando a formar a nossa própria identidade, enquanto membros per- presença.
tencentes a um grupo - a equipe do S erviço de Aconselhamento Psicoló-
gico - distinto dos demais grupos de trabalho do IPU SP. Rachel transmi- Ironicamente, o tema abordado no texto inclui a morte. Capítulo presente
tia sua crença e amor a esse nosso espaço/lugar partilhado com tanta apresentando uma de suas últimas aulas. Rachel morreria alguns meses
energia e isso nos ajudava com uma exp eriência única de aprendizagem: depois. Não seria mais uma presença concreta inevitável a presentear
nosso próprio crescimento e desenvolvimento enquanto pessoas e en- (outro significado para  praes entare ) as salas e os corredores do IPUSP (e
quanto um grupo com atividades comuns e individua is, pactuando um as casas dos am igos), como foi colocado no fim da apresentação. Contu-
conjunto de valores. Ela, simplesmente, oferecia-se e, com isso, trocas do, permanece como inevitável a presença ausente em cada um de nós
significativas tanto pessoais quanto profissionais, iam ocorrendo, trans- que tivemos o privilégio de conhecê-la ou conviver com sua cativ an te
formando-nos e expandindo nosso empenho e projetos, além de m odifi- pessoa. "Falando em categoria, honrados nos sentimos nós", disseram a
car nossa forma de comunicação. Foi e vem sendo um processo de anos ela os alunos ao término da aula, após seu agradecimento por ter sido
de mudança, com fusões e desmemb ramentos, com rupturas e encontros, convidada para o curso com tantos conferencistas de categoria. E nesta
desencontros e re-encontros. Enfim, um processo de aprendizagem e de situação, diante do pedido para escrever um texto como apresentação de
vida que Rachel e nossa equipe empreendiam. E dessa convivência e Rachel Rosenberg, só me resta parafrasear os alunos - honrada sinto-me
experiência nasceu um livro a seis cabeças e doze mãos. Eis Rachel facili- eu por ter tido a oportunidade de introduzi-la a vocês.
Envelhecimento  e mo rt e  69 

E peço li cença para um m omento de poesia neste processo de rememora-


ENVELHECIMENTO E MORTE
ção tão significativa. Diz o poeta maior, Carlos D ru mmond de Andrade,
Dra. Rachel Léa Rosenberg l

em seu livroA  fa lta qu e a ma :

Qualquer tempo é tempo


Em relação ao envelhecimento e morte, como eu an dei pens an do nisso
A hora mesmo da morte
um pouco, gostaria de partilhar com vocês algumas colocações que eu
E hora de nascer. faria sobre esse tema, envelhecimento e morte para depois a gente discu-
tir o que seria psicoterapia na terceira idade ou principalmente na velhi-
Nenhum tempo é tempo ce. E verdade que quando eu fui estudante daqui, há mu ito tempo, era
bast a n te para a ciência muito claro (e ainda é acreditado por m uitos psicoterapeutas hoje) que, a
de ver, rever partir de uma certa idade, é melhor você nem fazer psicoterapia. A psico-
terapia pode simplesmente atrapalhar a sua cabeça. E a coisa era tão
variável que esse  "a  partir de uma certa idade", começava assim; desde
 Te m po , c on tra te mp o que você fosse casado, (eu me lembro que eu era casada quando fazia o
anulam-se m a s  o sonho curso) então eu tinha colegas que m e diziam: "Não, é melhor você não
resta, de viver. fazer análise, porque vai atrapalhar o seu casamento, você vai destruir
toda a sua vida, não vale à pena." Então, desde que você fosse casada não
era para fazer análise Mas, mesmo quando não era uma coisa tão extre-
Escrever este texto possibilitou introduzir mada, havia uma idéia de que as pessoas se enrijeciam, se cristalizavam,
se tornavam incapazes de mudanças a partir do que a gente chamaria de
meia-idade, 40, 50 an os e pessoas com essas idades não eram aceitas em
Rachel, o ser sem tempo. processos de psicoterapia que, na época, se concentravam mu ito no pro-
Em qualquer tempo é tempo cesso psicanalítico. Então, a gente tem ba stante coisa para falar de novi-
dade, nesse sentido, nos últimos 20 ou 30 a n os .
de ver o contratempo da morte.
Então, nenhum tempo da ciência Mas como o meu tema era de morte e envelhecimento, que vocês têm
E bastante para rever ouvido falar nas últimas sem an as, eu sei que trago uma visão pecu liar que
é a da Abordagem Centrada na Pessoa e que tem a ver com a psicologia
o sonho de viver. humanista, exi stencial, e uma abordagem fenomenológica. Eu estou colo-
cando isso para vocês, não porque eu vou soltar um palavread o difícil,
O Ser e o Tempo mas um pouco para contextuar de onde é que eu estou falando, qual é o
de pertencer. meu ponto de referência. Porque eu vou fazer algumas colocações que
não são, evidentemente, verdades absolutas; e xi stem outras colocações
igualmente válidas, que fazem parte de uma mesma realidade.
M a s  agora é tempo de ouvir o fenômeno: a apresentação de R achel Léa 1 Palestra oferecida aos alunos do curso Psicologia da Morte, 1986.
Rosenberg, por Rachel Léa Rosenberg.
7 0  Mo rt e e desenvolvimento humano 
Envelhecimento e mo rt e  71

Eu colocaria o seguinte, para começar, que vida e morte, para mim, não tos individuais da sua vida, têm um grau diferente de medo da morte. A
são duas coisas separadas; elas fazem parte do mesmo processo. A gente gente também tem uma idéia de qu anto mais velho a gente é, mais infeliz
começa a morrer no instante em que nasce. Fal  a n do algumas coisas que é, porque a gente vai perden do muita coisa com o envelhecimento. Não
vocês já devem ter ouvido. As células envelhecem e morrem, o tempo tem dúvida, que a gente perle; a gente perde uma série de capacidades
todo, e o processo de pequenas mortes também acontece o tempo todo, físicas, oportunidades sociais, possibilidades de realização de projetos.
na medida em que a gente vai perdendo coisas através da vida. Então, Então a nossa lógica cartesiana diz: "Puxa, então os velhos devem ser
por que a gente fala com tanta angústia do fenômeno da morte? Por que muito infelizes." `t eu estive relendo um capítulo, para a aula de hoje,
a gente pinta a morte como aquela caveira, de modo a assustar mesmo as escrito pelo Carl Rogers (que é a pessoa dentro da psicologia, cujo traba-
criancinhas? Por que as criancinhas se assustam com aquela visão que lho eu sigo mais de perto, pessoalmente) e que n um livro chamado Um 
associamos à morte? Eu acho que uma das colocações que a gente pode-  jeito de ser , publica um trabalho que ele escreveu aqui no Brasil, em 1977 ,
ria fazer e que fa z parte do próprio conceito de vida é refutar a morte
. ,
e que se chama "Crescer ou Envelhecer", fazendo um trocad ilho com a
Quer dizer, é inevitável que se você está vivo, você vai enfrentar a morte, língua inglesa, porque em inglês seria "Growing Older•' (tornar-se mais
embora sejam partes do mesmo processo. velho) e que ele põe "Older Growing" (mais velho crescendo) 2 E nesse
capítulo onde se refere à experiência dele, ele escreve quando tem 75
Quando eu estava fal a n do dessa vida como uma parte do processo que anos e fala da última década de sua vida dos 65 aos 75 anos, como é que
refuta a morte, que faz parte do mesmo processo, eu nem estava falando tem sido a vida dele. E ele conta em vários aspectos com o tem sido a vida
de uma elaboração consciente. Eu estava falando de um a coisa mais
afetiva, a vida de produção intelectual, a vida de trabalho, de amizades e
cósmica, muito mais primitiva, que você vai encontrar na própria célula conclui dizendo que esta foi a década mais feliz da vida dele, dos 65 aos
que para se a firmar viva, precisa refutar a m orte, seria mais ou menos 75. E tem uma -sem elhança com a terceira década da vida dele, quando
por aí. E esse conceito de morte poderia ser retomado no seguinte nível, estava na Universidade de Chicago, onde eles fizeram uma série de traba-
quando você como indíviduo morre, isso não significa necessariamente
lhos muito interessantes, mas onde ele vivia também muito angustiado e
morte dentro do cosmos, dentro do un iverso. Você se transforma, assim
sentia que essa época tinha sido não só muito produtiva, em termos do
como a célula se tran sforma, e mesmo assim você continua vivo; o fato
que ele põe para fora, mas muito rica em termos de aprendizagem e
de você se transformar não significa m orte no nível da natureza, significa
crescimento, que é justamen te o que ele descreve. E ele mesm o coloca
morte no nível da sua individualidade. En tão, nesse sentido é que, em-
que ele é uma pessoa privilegiada, não pode generalizar essa exp eriência
.

bora a m orte seja inevitável, nós não caminhamos p ara ela calmamente,
dele dizendo que todas as pessoas, nessa década, têm o seu momento
porque isso significaria negar a vida. Então é quase uma impossibilida-
mais feliz da vida. Ele se sente muito privilegiado por isso. Mas quando
de, você realmente aceitar a morte tranqüilamente, a não ser através de
ele termina o capítulo, eu me lembro que (e eu conheço m uitas pessoas
uma elaboração.
com 75 , 85 que poderiam dizer uma coisa semelhante) é muito diferente
O que acontece com o envelhecimento? A gente tem um a expectativa de do que nós geralmente pensamos da velhice, e que também é muito dife-
que as pessoas quanto m ais velhas, mais medo vão ter da morte. A m inha rente, do que, em geral, nós vemos da velhice. A maior parte dos nossos
;experiência e das outras pessoas mostram que não é assim. Nosso medo velhos estão relegados a um segundo plano, dentro da sociedade que os
da morte não caminha linearmente com a nossa idade. A probabi li dade persegue, os discrimina.
da morte, sim, é mu ito mais provável se você tem 70 anos e morrer do
Vocês já experimentaram ver o que acontece com alguém com 50 anos,
que se você tem 20; a probabilidade estatística da morte aum enta; mas
que quer procurar um emp rego? Vocês sabem que na USP não se pode
não o medo da morte. Pessoas com 20 anos podem ter muito mais medo
da morte do que p essoas de 70. E p essoas individualmente, em momen- 20 título atual é C re scer envelhecendo ou envelhecer crescendo.
72  Morte e desenvolvimento humano  Envelhecimento e morte  73
entrar com mais d e 55 a n os? Vocês acreditam que uma pessoa com 55 go de infância que também está viúvo, e com quem ela está namor an do. A
an os produz mais intelectualmente? Ou academicamente? Então, real- família fica irritadíssima, vocês querem coisa m ais convencional do que
mente é uma camada da sociedade que está saindo por aí, agora, com ela reencontrar um amigo de infância, que tem a idade dela e está viúvo
movimentos pró-idosos, leis, sociedades de gerontologia, etc., para defen- também! Vocês conhecem alguma coisa mais certinha?! A família está
der seus direitos, porque tem sido muito relegada.
i mp li c an do, acha ridículo ela estar saindo para j  a n tar fora com ele, quan-
do ela diz que não quer casar, quer ver se dá certo, se combina, a família
Mas mesmo que em nível estatal, ou social, essas pessoas ma is velhas
acha que ela não está na idade d e fazer esse papel. Estou mostrando
possam ser mais bem aceitas, a verdade é que a maioria delas é vista
como esses preconceitos estão arraigados em nós. Como a gente acaba
como muito diminuída na sua capacida de ou no seu potencial. E o que
acaba acontecendo é que o próp rio velho acaba se vendo assim. Eu que- achando certas essas coisas, porque elas nos foram ensinad  a s  dessa ma-
ria perguntar algo para vocês. Pensem um pouquinho se vocês têm na neira. Existe um livro da Simone de Beauvoir chamado A velhice, se a
família, ou se vocês conhecem alguém com, entre 65 e 75 anos, e que tem gente tiver uma tendência suicida ela ajuda, não dá vontade de virar ve-
um com portamento inadequado para a sua idade. Quantos de vocês co- lho. Ela mostra com a luz mais cru a, o que pode ser o estado de idade
nhecem pessoas que reclamam porque a m ãe mais velha, ou um tio, tia av an çada dentro de nossa socidade; qu e isso não é biológico, não é nec es-
ou avô, está se comportando de uma maneira ridícula, querendo namorar, sariamente assim.
querendo sair para dançar, querendo se vestir de determinada m a n eira,
querendo participar da conversa dos jovens. Nenhum de vocês têm essa Eu poderia argumentar mostrando como é que tem sido, pelo menos até
experiência de conhecer alguém assim? Vocês nunca viram isso? De qu e recentemente, o tratamento de velhos nas sociedades orientais, ou nas
não fica bem para uma pessoa, a partir de uma certa idade apresentar sociedades primitivas. Vocês viram A Balada de Narayama? Neste filme
determinados comportamentos. Como se não ficasse bem para a pessoa, se aponta que coisa cruel é m a n dar os velhos irem embora para morre-
não propriamente o comportamento, que nã o ficasse bem o desejo que rem. Mas existe todo um respeito, toda uma forma de terminar que é
ela tem de p articipar de determinado tipo de atividade. Bem, esse tipo de considerada natural; é uma volta à natureza, existe todo um respeito pelo
discriminação é o que eu chamo de uma das pequenas m ortes do velho, conhecimento, pela sabedoria, pela capacidade daquele velho. E em so-
na medida em que ele é enterrado vivo, nesse sentido recusam-lhe essa ciedades primitivas é assim também. Então, isso mostra que não foi sem-
possibilidade. pre assim; o que houve foi uma mudança muito gr an de dentro de nossa
sociedade. Estou falando mais da velhice do que da m orte. O que perce-
Você acaba achando adequado ou inadequado aquilo que é determinado bo é que existem determinantes sócio-econômicos fortíssimos para mudar
pela cultura, como, por exemplo, um casamento entre uma pessoa com 40 a nossa visão filosófica, política e humana das p essoas. Até o fim do sécu-
anos e uma de 2 0, na nossa sociedade, ainda é aceito, se o homem é de 40 lo passado, até a Revolução Industrial, pelo menos, e até hoje, em lug ares
e a mulher de 20, mas se a mulher é de 40 e o homem de 20, então é como o interior do Brasil, o poder econômico era detido e mantido pelo
inadequado. Isso não tem razão nenhuma, então quando você diz que é mais velho da família no sistema patriarcal, qu er dizer, a pessoa era dona
adequado, culturalmente, eu coloco que isso é uma imposição e uma res- daquela terra, era dona do poder econômico da família e os filhos traba-
trição na liberdade do ser humano. Dele, por exemplo, se ligar numa lhavam para ou com o seu pai, e a partir da morte deste é que eles
outra pessoa que pode se ligar a ele, sem receber a sanção do que é adquiriam este status. Então o pai tinha de ser muito respeitado. Também
adequado ou não. Acho que um a segunda coisa que eu teria para colocar os políticos só alc an çavam algum poder dentro do governo a partir de
aí é o seguinte. Uma cliente minha de 63 anos, cujo marido morreu há uma certa idade. Vocês olham para aquelas figuras de senadores e de
alguns anos e ela é uma senhora adequada, toda certinha, num sentido ministros do século passado; eram todos homens de 50, 60 para cima, que
bem convencional, usa umas roupas certinhas. Ela reencontrou um ami- na época eram inclusive mais velhos do que hoje.
7 4  Mo rt e e desenvolvimento humano 
esse conceito físico também é discutível. O conceito de velhice muda de
A nossa m édia de idade subiu, enquanto que temos hoje toda uma civili-
acordo com uma série de condições.
zação quase só de jovens, existe o culto à juventude. Um exemplo, que eu
repito sempre (quem já ouviu que me perdoe, mas eu acho característi- Então, a relação com a morte também muda segundo um a série da fato-
co). Vocês já viram algum anúncio com um velhinho sentado numa cadei- res. O que resumiria as coisas, que eu percebo atualmente, seria uma
ra de balanço fumando o seu cigarrinho? E há quem fum e o seu cigarri- frase mais ou menos assim: qu an to melhor você vive, menos você teme a
nho com mais prazer do que o velhinho, depois do café? Vocês já viram morte. Isso para o velho fica mais c laro ainda. Qu an to mais satisfatória a
um anúncio deste? Não!! Quem é que fuma Marlboro, gente? E aliás se sua vida, menos você se preocupa com a sua morte; menos você teme a
você fuma Marlboro fica igualzinho. Quem é que usa roupas, quem é que morte. Quanto mais insatisfatória é a sua vida, mais você se agarra a essa
tem poder econômico maior no mundo inteiro? São as pessoas de 40 , 50
vida. O que é um conceito paradoxal, porque você esperaria encontrar,
anos, mas a moda é feita para os de 20 anos. ou você ouve as pessoas falarem de sua depressão. Falar da depressão
dos velhos, porque estão insatisfeitos. Mas na verdade, se for olhar o que
Bem, como é que isso entra dentro da idéia de morte? Por que é que o acontece com essas pessoas, por exemplo, quando estão doentes, ou
velho não se preocupa m uito com a morte? Porque sabemos, estatistica- quando têm uma vida horrível e a gente se pergunta: "Meu Deus, o que é
mente, que a probabilidade de morte é m aior quanto mais velho se fica. que mantém essas pessoas vivas? O que faz com que elas lutem de uma
E você tem que ver quando é que o velho se considera velho. Quantos maneira tão encarniçada para c onservarem esse restinho de vida, tão sem
anos têm as pessoas velhas? Com que idade vem a velhice para vocês? Se
perspectiva, sem gratificação, sem  amor?" A gente vê duas coisas: Uma
você perguntar para um grupo de 5 0 anos, eles vão dizer com 60, mas se delas é que quanto mais a pessoa está ligada à sua vida, menos está ligada
você perguntar para um grupo de 60 anos, o resultado vai ser diferente, à sua morte. Roger s estava descrevendo no livro citado como ele continua
vai ser de 70 a n os. Ou seja velho é alguém que tem 10 an os a mais (risos). agora que são 10 anos a mais, ele vai dizer provavelmente que essa déca-
Para a maioria aqui 40 já não está velho? Eu quando tinha 20 anos, acha- da foi melhor que a anterior; e pelo que eu ten ho observado, é mesmo.
va que aos 40 ia me suicidar, porque eu não ia querer viver, devia ser Então quanto mais as pessoas estão com ele, com Maslow e outros que
horrível ter 40, nunca mais mudar nada, estar com tudo certo já na vida, conhecemos, e entre parênteses não precisam ser intelectuais ou de clas-
profissão, família, etc. Não queria continuar a viver depois dos 40. Quan- se média alta, eu conheço gente com esse "pique" que tem condições de
do cheguei aos 40: "Nossa, eu estou superjovem, quando eu tiver 50 vai vida sócio-econômicas, culturais e familiares muito mais reduzidas e tem
ser um desastre."  Bom, aos 50 fiz a maior festa de aniversário da minha essa mesma diponibilidade para a vida. Conheço pessoas que têm m ais
vida. Fiquei eufórica de descobrir que ter 50 anos poderia ser superlegal. condições objetivas e que têm muito menos disponibilidade. M as  qu a n to
Mas 60, gente, eu ainda não cheguei lá, mas estou achando que 60 vai ser mais a pessoa está ligada à vida, menos ela se importa com o que vai
meio fogo, vou estar bem mais , vai se r um horror! (risos). Então eu acontecer depois; mais ela vive no presente, m ais ela vive intensamente.
acredito nesta coisa, e ao mesmo tempo eu me p ercebo a cada dia, muito
mais velha do que um ano atrás, quer dizer do que ficou para trás. Há um
ano acho que era m uito mais jovem, há três anos podia fazer muitas O outro fator é o fator espiritual. Nós, na psicologia, temos nos ocupado
muito da saúde psicológica do ser humano. Nas últimas décadas, temos
outras coisas que hoje eu não posso fazer, já não me sinto bem fazendo.
dado mais atenção ao ser hum ano como um todo, incluindo o orgânico,
recusando um pouco mais essa dicotomia artificial do que é psicológico,
Então a velhice não é essencialmente um _conceito cronológico. Você
pode dizer que a partir dos 60 anos, as pessoas estão velhas. Você pode do que é biológico, quer dizer juntamos essas duas coisas como partes de
dizer que fisicamente uma pessoa decai aos 60, mas eu conheço pesso  a s
um m esmo processo. E mais recentemente, dentro da psicologia huma-
de 80 anos que têm uma vitalidade, uma saúde, quer dizer, uma saúd e nista, a partir da psicologia e xi stencial, e mais recentemente da p sicologia
transpessoal, nós temos nos dado conta de que as dimen sões hum an as
muito melhor do que a maioria das pessoas de 50 que conheço. Então
76  Mo rt e e desenvolvimento humano  Envelhecimento e morte  77 

precisam incluir a dimensão espiritual . ,   Não necessariamente uma dimen- do ser humano reconhecer-se dentro do universo, encon tr ar uma explica-
são re li giosa, vejam bem , ou partidária, mas uma exp li cação para o ser ção para a sua própria existência.
hum an o, a que ele veio: o que está fazendo aqui neste Universo? Quer
dizer uma necessidade de se perceber pertencente a algo mais amplo do Vocês têm ouvido falar de um sistema de terapia, chamado de logotera-
que o simples cotidi a n o. Qu a n to mais satisfatória for a resposta que o pia, de Vitor Frankl. É um psiquiatra austríaco que desenvolveu um siste-
indivíduo tem a essa busca espiritual que ele vai desenvolvendo, mais ma de psicoterapia na década de 40 ou 50. Ele já era um psiquiatra
tranqüilamente ele enfrenta a morte. Nós sabemos, evidentemente, que e xi stencial famoso, mas a logoterapia foi algo que ele desenvolveu depois
quem acredita numa vida depois da morte, aceita essa morte ma is facil- da Segunda Guerra Mundial, propondo que a busca do Homem é a bus-
mente, mas que também não é necessariamente  esta  a saída. Não é ver- ca de um sentido para a sua vida. Em vez de falar de neuroses, de sub-
dade que todas as pessoas que acreditam numa vida após a morte, acei- consciente, de patologia, Frankl diz que todas as neuroses podem ser
tam a m orte facilmente, embora tendam a aceitar mais facilmente. Tam- vistas como decorrentes de uma falta de percepção de um sentido, de um
bém não é verdade que só as pessoas que acreditam numa vida após a significado para a vida do indivíduo. E é muito interess an te verificar que
morte, aceitem bem o fenômeno da morte. todos esses cientistas, Freud inclusive, desenvolveram suas teorias, não
em cima de uma mesa com lápis e papel, mas a partir de sua própria
Deixa eu voltar um pouquinho para trás. Cada um de nós tem tarefas de vivência, a p artir das buscas que eles próprios empreenderam dentro da
desenvolvimento. É u m conceito mu ito conhecido den tr o da psicologia, um sua existência. E Fra nkl não é exceção. Ele desenvolveu essa teoria, a
conceito da década de 40 e 50, de que qualquer que seja a cultura a que partir das suas próprias experiências num campo de concentração, onde
pertença o indivíduo, qualquer qu e seja o sistema de valores, ou de idios- ele sobreviveu, embora tenha perdido a sua família, ele p rocurou como
sincrasias, ou de traços individuais, cada um de nós tem de passar por uma médico ajudar aos pa res dentro do campo de concentração. Ele ficou
seqüência de tarefas de desenvolvimento. Não é uma tarefa dos 15 an os ter muito impressionado tentando descobrir porque é que algumas pessoas
filhos, mas é dos 20 ou 30 , um pouco an tes ou depois. É uma tarefa do sobreviviam e outras não. Porque algumas pessoas se ab an donavam intei-
desenvolvimento você procriar, como é uma tarefa do desenvolvimento a n ramente dentro daquelas circunstâncias extremas de desesperança, diga-
tr e 1 e 2 an os, ou adquirir habi lidades sociais entre os 5 e 6 an os . mos, do que é vida hum an a, e outras pessoas conseguiam encon tr ar uma
Mesmo que as faixas cronológicas sejam amplas, e e xi sta uma medi a n a, força dentro de si mesmas, embora também absolutamente esquecidas do
existe uma época mais comum . Essas são as tarefas que um indivíduo bem resto do mundo, sem nome, só com um número e sem nenhum a razão
ajustado ao social deve executar. Se você não cu mprir essas tarefas, por aparente para viver e conseguiam se manter. E ele percebeu que todas as
exemplo não aprender uma linguagem comum ao gru po no qual você vive, pessoas que se mantinham, acreditavam em alguma c oisa além de si mes-
você vai ter problemas. Não é uma tarefa do desenvolvimento, aos 60 an o s, mas, acreditavam que a sua vida tinha sentido, mesmo que ninguém mais
você pensar em encon tr ar um companheiro e ter filhos, ou mesmo c ri ar soubesse que elas estavam vivas. E a partir desses estudos ele desenvol-
uma família (não estou nem falando da coisa biológica). Não é comum você veu a Logoterapia, ela foi um marco nessa neutralidade do psicólogo em
esperar, aos 60 anos, que uma pessoa se junte pela primeira vez, arr  an je um relação ao valor espiritual da vida, onde a gente aprendia que não temos
parceiro e adote uma porção de filhinhos M  a s  é comum que se faça en tr e nada a ver com isso e quando o paciente que nós atendíamos se preocu-
os 20, 30 ou 40 a n os. O que estamos p ercebendo hoje é que a psicologia pava: "Afinal qual é o sentido da vida?", o psicólogo dizia: "Isso você não
não está cumprindo uma d as  s u as  taref as  de desenvolvimento, que é cuidar trata aqui, você vai procurar um padre, um filósofo, mas isto não é um
da dimensão espi ri tual. A psicologia tem dito: "Olha, tudo o que é espiri- assunto para cá." Era esta proposta da psicologia que Frankl reverteu.
tual, não tem a ver com p sicologia; são valores filosóficos, teosóficos, reli-
giosos e a psicologia não se mete com isto." Percebemos que é bobagem Esta busca de um sentido para a vida é uma busca que se torna privilegia-
porque é uma dimensão humana com o outra qualquer. É uma necessidade da a partir de um a determinada fase da vida, que é essa que a gente
7 8  Morte e desenvolvimento humano  Envelhecimento e mo rt e  79 

e de repente me dei conta de que estava numa colônia de nudistas. Eu


chama hoje de terceira idade. A terceira fase de vida, ma is ou menos, nunca tinha visto uma colônia de nudistas, muito comum naquela região.
situada na época em qu e o adulto já cumpriu aqu elas tarefas básicas de
desenvolvimento, já desenvolveu uma ca rreira, já tem uma posição social, E o que me chamou a atenção é que havia, é claro que a idéia é chocante
para nós que temos todos os tabus, pode parecer até meio ridículo, então
de trabalho, de família, mais ou menos estabelecida. Qu an do os filhos
começam a crescer, os filhos daquela mulher que fica em casa, que cuida tinha umas senhoras de 60, 70 anos, batendo papo em grupinhos, na
da família e da casa. Quando os filhos crescem e saem de casa, quando o maior pose, você jurava que estavam num j an tar de família, fum an do os
marido vai chegando perto da aposentadoria, esta é a terceira fase da seus cigarros, com óculos, de lá para cá. Era uma sensação muito estra-
vida, em que não há grandes mudanças no status econômico. Quer dizer, nha para mim, a natura li dade era muito gr an de. Então eu fiquei pensan-
em termos previstos, não há mais grande perspectiva de mudanças de do, sabe é o tipo da coisa que se eu quiser fazer hoje, eu posso ficar
vida. Nesta terceira fase da vida, supostamente, o indivíduo fica mais li vr e m or an do na Iugoslávia, vou arranjar um trabalho de intérprete, p orque
para escolher. Uma mulher de 30 anos, com duas ou três cri an ças, tem
falo várias línguas, posso ir de repente para um a praia de nudistas, por
poucos graus de liberdade; ela está absolutamente p resa àquelas cri anças que não? A não ser pelos meus próprios tabus. A gente tem possibilidade
e não percebe o quanto está p resa. Não dá p ara ter uma conversa inteli- de desenvolver qualquer projeto; eu posso começar a estuda r piano ou
gente com uma mulher que tem uma criança de dois anos! Ou não dá
russo, eu posso fazer o que eu quiser sem qu e isso prejudique os outros,
para manter mais do que 5 minutos (risos). Pode haver exceções, eu pos- mas principalmente sabendo que já tenho a capacidade e a segurança de
so estar exagerando, mas um pouco para mostrar como a vida fica restri- viver por minha conta. Eu já não dependo, como aos 20 ou 30, de um
ta, é como se a vida nos fosse encaminhando, desde e infância, onde as contexto estreito. Eu já não preciso tanto dos outros. Essa é a época em
coisas são amorfas, são mais soltas, onde elas ficam sem nenhum p arâme- que o ser hum ano poderia ficar mais livre dos papéis que desempenha.
tro. A vida vai dando parâmetros para a g ente, onde é claro, do momento Ele não precisa ser tão vinculado ao esquema da produção social, pode-
em que você se torna mãe, você fechou a possibilidade de ser não-mãe, ria viver mais plenamente a sua vida. Acontece qu e, secretamente, muitos
mesmo que o seu filho morra. No momento em que você casa, nunca velhos fazem isso, mesmo que sejam daqueles velhos que se queixam e
mais você vai ser uma p essoa não casada; você pode ser descasada, m  a s reclamam, sempre com ar de coitados, muitos deles secretamente estão
não casada é impossível. São experiências que não têm volta, que marcam curtindo a vida deles, estão fazendo o que querem . Às vezes eles não têm
a pessoa para sempre. É que de uma certa maneira afunilam, obrigam a capacidade ou oportunidade para aproveitar o que existe à sua volta,
você a seguir um determinado trilho, ou a romper violentamente com também isso é verdade.
essas amarras. Quando você chega no que eu chamo de terceira idade,
essas amarras começam a se romper de novo. Teoricamente, uma mulher Proponho a vocês que tentem participar disso: o SESC tem um programa
de 50 anos que é avó, viúva, separad a, digamos, ela pode se ela tiver para velhos que é o m elhor da América L atina, até onde eu sei, se não for
dinheiro e disposição para isso, pode se mandar daqui para a África e da América em geral. E o SESC reuniu, no ano passado os velhos do Br  a s il
fazer o que ela quiser com a vida dela. Ela não é mais diretamente res- inteiro que fazem parte dos programas de terceira idade. Participei desse
ponsável por ninguém. Já cum priu a tarefa dela e pode fazer o que q ui- encontro e que durou vários di  as , isto foi an tes d as  eleições, a minha parti-
ser. Nesse sentido, as pessoas que vivem num m undo melhor do que o cipação era numa mesa. Não me recordo qual era o meu tema, mas eu
nosso, e isto acontece de fato com as pessoas que vivem na Escandiná via, estava com mais um psiquia tr a e a Marta Suplicy, e nós três tínhamos que
quando chegam aos 45, 50 e 60 anos, elas podem finalmente desenvolver falar com os velhos. Numa outra sala estavam o Florestan Fern  a n des e o
todos os projetos que antes estavam impedidas de levar adiante. Fe rnan do Hen ri que Cardoso, também falando para eles. Na véspera houve
um coquetel e eu fui para ver o que estava acontecendo. Fiquei impressio-
Estive na Iugoslávia, há dois anos, e achei interessantíssimo. Cheguei a  nadíssima, por que os garçons estavam pass  a n do, eles tinham feito de pro-
a s  de rochas pósito, com copos gr  a n des com batida. Passavam as bandej  as  e lanchinhos
u m a ilha, num barco que ia para uma ilha, daquelas ilhas lind
Envelhecimento e morte  81

e tinha uma orquestra tocando músicas das décadas de 40, 50, e g ente psicoterapia. A mãe não deixava ela sair sozinha a não ser para a psicotera-
dançando. Estava apinhado de gente dançando. Eu era a mais caçulinha, a pia. Então, eu sempre tive essa curiosidade de saber o que realmente a
não ser o pessoal do SESC que é jovem mesmo. O pessoal tinha mais de 70, psicoterapia faz. E atender p essoas de mais idade é "barra", nesse sentido, é
animadíssimo, danç an do. No dia seguinte o papo da Marta Suplicy foi so- uma situação de laboratório, porque não acontece nada na vida dessas
bre sexo, com essas pessoas. Estou contando isso para mostrar como todos pessoas a não ser na psicoterapia. Você atende pessoas que levam aquela
nós, e eu me incluo aí, temos uma percepção de velhos, que nos foi passa- vida de rotina, que estão com tudo parado, que estão profundamente depri-
da, do velho como mu ito diferente da gente. Como se a gente, de repente, midas, angustiadas, desinteressadas da vida. E é impression a n te, pelo fato
mudasse m uito; como se o velho não tivesse desejo, malícia, não tivesse de elas terem uma única p essoa no mundo que possa ouvi-las como pessoas
medo de rejeição, insegurança, só porque envelheceu. Então no B rasil essas capazes de crescer, de pensar, de querer alguma coisa. Pode trazer uma
pessoas pertencem a classe média e média baixa, não tinha muita gente de possibilidade de mudança. A possibilidade de reassumirem o poder sobre
classe média alta e alta. O SESC é mais fr eqüentado pelos comerciários e si, a coragem de enfrentar. E fica muito claro que, na terapia, essas pessoas
pelas suas familias. Pessoas animadíssimas e cheias de projetos de vida, começam fal an do muito na morte, na aproximação da morte, começam fre-
muito interessadas. Esse papo começou e foi parar numa coisa muito mais qüentemente dizendo que não vale à pena, que o negócio é esperar a m orte
espiri tual. É aí que eu vejo a possibi li dade dos psicólogos mudarem em mesmo, porque a velhice é a sala de espera da morte. Muito medo, não da'
relação ao atendimento aos idosos. morte, mas de doenças muito prolongadas, com muito sof  ri mento. Embora
eu tenha dito que essas pessoas se agarram muito à vida, agora estou falan-
Maslow foi um dos fundadores da terceira força em psicologia, que reu- do do discurso delas. O discurso é: "É isso mesmo, eu estou aqui pa ra
niu um gr upo de psicólogos que achavam que a psicologia não era de um morrer", mas não faz muito para m orrer. "Eu vou me suicidar", mas não se
lado a psicanálise e do outro lado, o behaviorismo, que traziam de volta a suicida, ou o faz, sem querer, como forma de cham ar a atenção, e acaba
concepção do homem como um ser livre e responsável. A psicologia po- morrendo. O suicídio do velho, algum  a s  pesquisas mos tr am, é uma tentativa
dia parar de se dirigir para as instituições, para adeq uar o homem ao seu de não ser be m-sucedido, é um g ri to de desespero muito gran de. E na
social, ela poderia parar de se preocupar com a produção do aluno ou do terapia o que se verifica é que as pesso as  têm menos medo da morte, à
operário, e voltar-se mais p ara aquilo que o próprio homem sente ou medida que vão retom  an do a sua própria vida.
quer. Maslow tem alguns li vros traduzidos para o português que são mui-
to interessantes.  Aó morrer, com 80 anos, fez um pronunciamento de Na literatura se vai encontrar uma série de propost  a s  de trabalho com ido-
que, até o último momento d a vida dele, estava aprendendo. É a minha so. Cada idoso é uma pessoa. Qu a n do você fala de pessoas mais velhas,
experiência que me diz isso. Que todos nós somos capazes de mud ar e pode estar falando de pessoas de 55 ou 60 anos, que estão em profunda
aprender enquanto estamos vivos. Não só isso, mas também que temos depressão, porque não sabem o que fazer com a sua a posentadoria que
uma tendência, em nós, p ara buscar essa mundança. tanto desejaram, e agora estão aí, sem projeto de vida. Ou você pode estar
Eu gosto muito de atender p essoas de idade, e meu interesse de pesqu isa falando de uma pessoa de 85 anos, que já está com arterioesclerose ou tem
uma dificuldade física muito gr ande. São dois c as os completamente dife-
é g r ande. Porque a gente como psicoterapeuta tem muitos questionamen-
rentes. Existem fórmulas específicas de terapia para p essoas que perderam
tos do tipo: "Bom, as pessoas estão mud a n do, mas será que as pessoas
certas capacidades. São terapias que trabalham especificamente com o
não mudariam fora da psicoterapia, também?"
fazer lembrar, com a recuperação ou manutenção de certas capacidades.
Eu tinha um professor que costumava contar que uma adolescente insistia Mas estou falando de terap ia existencial, no sentido de que a própria pes-
em vir ao consultó ri o dele e ele não Via nenhum pro gr esso nela, m as  a mãe soa está se sentindo infeliz por alguma razão. Muitas vezes, o qu e se traba-
dizia que ela  vinha  sempre tão m otivada. Até que ele descobriu que era o lha é o seguinte: o velho não é preparado para envelhecer, e envelhece
único jeito dela se encon tr ar com o namorado, era quando ela vinha n a dentro de uma sociedade que não lhe dá a menor condição. Por isso que o
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tr abalho do SESC é tão importante, tr abalha com o preparo do envelhecer. isso, não sabe. Está se sentindo inútil. E quem é que vai trabalhar com esse
Muitas vezes, a pessoa não sa be  o que fazer com ela mesma, não basta dar sentimento de inutilidade? A pessoa p recisa de psicoterapia, porque a sua
a informação. Não basta você dizer: "Olha, tem t  a n ta coisa que você pode vida não está satisfatória. Em geral, as pessoas que vêm para a psicoterapia
fazer, ou que gostaria de fazer. " Você pode fazer uma orientação vocacio- tr azem coisas muito antigas, que não foram resolvidas até agora, que foram
nal, mas não só com a informação, não adi an ta dizer a uma pessoa que está tr azendo, capeng an do pela vida afora, porque tinham mesmo de cuidar das
profundamente angustiada, isolada do contato com o mundo, que há pro- crianças ou tinham de tr abalhar. E naquele temp o, a gente tinha amigos e.
gramas interess an tes no SESC, teatro, curso de redação, marcenaria, assim esperança de que as coisas iam mudar, agora está um desastre.
por di a n te. Ela não tem ânimo de se di ri gir ao SESC. Ela diz: "Deus me
li vre, fazer coisas com velhos, não gosto de velhos. " Esta é a primeira Antes de vir para cá atendi um a pessoa que está perto dos 60 a n os, com
um casamento que sempre foi ruim, com dificuldades muito gr  a n des com
gr an de objeção. Então você trabalha isto, a pessoa está p erdida, sem saber
o que fazer com esta liberdade, com a aposentadoria forçada. Uma mulher os filhos, embora sempre tivesse cuidado deles. Nunca teve profissão, não
que só aprendeu na vida a cuidar da casa, dos filhos, quando eles saem de sabe trabalhar, não sabe o que fazer. Quer um rom an ce, quer amigos,
casa, não sabe o que fazer com a vida dela. E se esta mu lher é casada com uma ocupação, dinheiro. E não é que não tenha estas coisas, mas não
um homem q ue ela acostumou a ver só no j  a n tar ou no café da manhã, no está nem um pouco satisfeita com a vida atual. Então eu traba lho com
sábado e no domingo. De repente, ele fica em casa o dia inteiro, eles não essa pessoa, como trabalharia com qualquer pessoa em qualquer idade. E
estão preparados para conviver 24 horas por dia, eles têm de fazer um nova uma série de coisas, que eu tenho o prazer de dizer a vocês, que ela já
aliança, ou então, passar o tempo tão incomodados com essa nova c oisa. conseguiu um emprego, está trabalhando, melhorando um pouco a rela-
Mudanças são difíceis, mesmo as que são para melhor. Quando se tem ção com o marido; porque ela está perdendo a idealização, porque criou
alguém que passou a vida inteira com uma pedra no sapato, quando você um romance com esse marido, mas o romance não existe. Essa é uma
tira essa pedra, ele não sabe como andar. Qu  an do você tem alguém que forma de trabalhar, não é diferente do que se trabalha com uma c liente
passou a vida inteira se preparando para lidar com dificuldades econômi- de 30 anos. O que é diferente é o mundo com o qual essa cliente se
depara; as escolhas que tem para fazer pertencem a um universo diferen-
cas, isto é muito comum; um casal que lutou muito para criar os filhos,
nunca teve nenhum conforto e agora os filhos estão criados, foram para a te. As pessoas desta fa ix a de idade, em geral, têm um péssimo relaciona-
faculdade. Estes são bem-sucedidos e dão aos pais uma possibilidade de mento com os próprios pais. Têm dificuldade muito grande, não de en-
frentar a própria morte, mas a morte dos pais. Têm uma dificuldade mui-
vida econômica, que eles nunca tiveram a n tes. Os pais não sabem ap rovei-
tar, e não gostam que os filhos os sustentem, não sabem como gastar di- to grande de enfrentar o envelhecimento com a morte, como um fenôme-
nheiro, acham que é pecado. Não gostam de ter uma empregada, porque no em si. Não estou falando da pessoa de 85 anos que está morrendo, e
sim da pessoa de 60 ou 65 anos, que se relaciona mal com a m orte da
não sa be m o que fazer do seu dia. São pessoas que teriam de se adaptar à
nova realidade, e não existe nada dentro do social que as ajude nessa adap- pessoa de 85. Quer dizer, a coisa em si não é tão ruim qu an to a sensação
tação. Deveria haver aconselhamento, orientação ou programas para as de morte da outra pessoa.
pessoas poderem se adap tar a uma nova realidade. Isso não é necessaria-
mente um atendimento psicoterápico. Porque não é uma coisa errada da Dentro da á rea da gerontologia a gente trabalha com os jovens hoje, mas
pessoa, ela realmente não recebeu condições para isto, precisa de ajuda. muito mais tentando fazê-los pensar nos velhos, melhorando a relação
Uma ajuda do próprio Estado, da sociedade, que oferecesse uma com- com eles. Esta seria uma forma de se preparar para a própria velhice.
preensão maior de que não é verdade que quando a pessoa vai parar de Não digo pegar um grupo como esse aqui e trabalhar a velhice de vocês
tr abalhar, será necessa ri amente feliz. Ouve-se: "Mas o que mais você quer, porque é uma coisa tão distante. Então em termos de trabalho em rela-
mãe. Eu te dei uma máquina de lavar louça, uma empregada e um motoris- ção à terceira idade, são trabalhos que se fazem com pessoas a partir dos
ta. Por que não vai ao cinema, ou visitar suas am igas " Mas ela nunca fez
9 35, 40 anos, mais ou menos. Como é que é ter 35 anos e seus filhos
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começarem a ficar adultos, independentes. Como é você chegar aos 4 0 e Outras situações são tão concretas que não dá para m udar. Se uma pes-
descobrir que realmente não vai ser promovido a presidente da compa- soa diz: "A minha aposentadoria é de 400 cruzados por mês e eu não
tenho onde morar e nã o conheço ninguém, não posso caminhar porque
nhia, e que o máximo que você vai conseguir é um ca rgo de supervisor.
tenho a doença tal." E se ela me disser: "Será que a g ente conversando eu
Como é que é ter medo de como vai estar na aposentadoria, ganhando vou ganhar mais, ou andar?" Eu vou dizer: "Acredito que não, m as pode
pouco. Então cada vez você vai trabalh an do com uma faixa. Uma coisa
ser que a gente conversando, você descubra algo novo para você."
interessante que se nota quando se trab alha com a psicologia existencial,
o contato de pessoas jovens com pessoas idosas, é melhor do que o
 Ta lve z p or ca us a d e m inh a lin ha de tr abalho, com minha experiência com
contato de pessoas de m eia-idade com velhos. O que é difícil, é o conta-
pessoas de idade, é um espanto a vastidão de recursos que as pessoas têm
to com a g eração seguinte, os pais com os filhos. O contato entre avós e
para melhorar a vida delas. Há pessoas que eu recebo, que me pergunto:
netos é ótimo. Os netos não são ameaçados pela velhice. Por isso a gente " Mas o que esta pessoa vai poder fazer por si mesma, o que vai p oder
não trabalha com jovens, a velhice. A gente pode trabalhar a relação
mudar nesta situação?" Eu sempre fico espantada qu  a n to as pessoas são
entre esses jovens e os mais velhos, para ir m udando essa situação social,
capazes de mudar a situação, não só com velhos, mas muito com eles, por-
o preconceito. Numa civilização onde você põe um degrau mu ito alto,
que se pensa que não são capazes de mudar. M uito recentemente atendi
está negando ao velho a possibilidade dele se locomover, porque não
um caso muito bonitinho, um homem de 55 a n os, mas que parecia ter 75,
consegue subir no ônibus. embora fisicamente estivesse bem conservado, sem ca belos br  a n cos. Era
Existe outro estereótipo de velho, o velho sábio, o velho que não tem uma pessoa que nunca tinha casado, m uito problemático. Já tinha feito vá-
mais desejos, que está pronto para a m orte, ele aceita tudo muito bem.
rias terapias e parou. Morava com uma irmã, também solteira, e a única
coisa que ele fazia era ir para a igreja. Era funcionário púb lico, que ia para
Este é outro mito não confirmado.
o seu trabalho e não tinha nenhuma esperança, nenhuma expectativa na
vida. E ele vinha muito desesperado como um a última tentativa e aí a gente
As pessoas vêm à psicoterapia expontaneamente ou levadas. É mais raro
conversou uma vez por semana durante três meses. Ele tr ocou o aparta-
uma pessoa velha vir sozinha, principalmente no Brasil. É mais freqüente
mento por um m enor, onde mora sozinho e alugou um pedaço da c  a s a do
ver americanos, ou europeus mais velhos que procuram aconselhamento. irmão em Ubatuba, onde p  a s sa os  fins  de semana. Conheceu um  as  pesso as
No caso do brasileiro é uma filha, amiga ou a lguém que propõe. Esta
lá do serviço dele, com quem está saindo. Tem um a senhora com que está
pessoa que falei há pouco veio sozinha, mas a filha sugeriu. Porque o
saindo. Eu fico olhando e não acredito, ele não parece m ais ter 75, parece
próprio velho encampa esta imagem de que não adianta mais para ele,
uns 63, ainda não 55, mas melhorou muito.
quer dizer, acredita que não adianta mais, não que não tenha motivação.
É quase universal que na primeira entrevista surja a questão: "Você acha Não estou querendo dizer de jeito nenhum que sou uma terap euta maravi-
que adianta alguma coisa eu vir aqui? Você acha que em alguma coisa eu lhosa. Tem casos onde a coisa não vai para fr ente. Muito recentemente
posso mudar? Será que não vai me atrapalhar, eu ficar só caraminholan- atendi o c as o de uma m ulher que me interessou muito. É viúva, tem filhos
do ,  ficar falando com você, porque já chorei tanto hoje, e pensei tantas ótimos que gostam m uito dela, é muito culta, viajou muito pelo mundo, tem
coisas, será que não vai fazer mal?" Quer dizer, há a dúvida de que possa família, amigos. Está numa dep ressão profunda, desde a viuvez e cada vez
mudar. O q ue respondo é algo assim: "Olha, acredito que possa mudar, pior, achando que a vida não tinha nenhum atrativo para ela. Dizia ela:
não posso garantir. Eu proponho que a gente possa fazer uma experiên- "Para que viver? Tá, os fil hos são muito bons, mas não tenho vontade de
cia. Você acha que foi bom conversar hoje? Se você achou que foi bom, a levantar de manhã, não tenho vontade de fazer nada." Atendi-a em novem-
gente experimenta mais uma vez e você vai ver se a coisa aqui funciona, bro do ano passado quando estava indo para os EUA e sabia que o marido
se lhe faz bem; se for, a gente continua." Eu coloco isto porque acredito dela tinha morado lá. Ela tinha mil li vros. Foi a única coisa que a animou,
que a pessoa pode realmente mudar.
86  Envelhecimento e morte  87 

pois me mos tr ei interessada em que ela tr ouxesse este mate ri al para mim, está comprometido com uma série de contratos com a vida, e que você
mas aí ela esqueceu de tr azer. Tivemos três ou qua tro sessões, aí ela ligou não pode fazer isto, enqu an to não terminar aqueles contratos.
dizendo que não podia ir na ou tr a sessão, que não tinha condições de sair Volt an do à questão do medo da mo rt e, quero esclarecer um pouco mais,
de casa, que estava em tr atamento psiquiátrico. E não voltou mais. Depois tem pessoas que eu atendo em terapia que estão vivendo muito mal, e se
de alguns meses telefonou que tinha gostado de mim e do papo. Então não sentindo muito mal; estas são as pessoas que mais freqüentemente têm
dá ce rt o com todo mundo. Quer dizer que para cada caso m aravilhoso, eu sonhos com a mo rt e, sensação de sufoco, f a n tasias de ficar preso num túnel,
tenho um péssimo, e uma porção de casos razoáveis. de perder a respiração, de entrar em pânico, ou de serem enterradas vivas.
São pesso as  que têm este tipo de medo, e qu a n to mais elas vão se aproxi-
O velho pode mudar muito mais do que o jovem, por que vocês têm
mando del as  mesmas, qu a n to mais são capazes de viver a vida delas de uma
amigos, pessoas com quem podem contar, têm esperança, encontram
maneira íntegra, mais estas fant  as ias desaparecem. E neste sentido que eu
gente pela vida. A gente tem um tipo de vida onde e xi stem muitos fatores estava falando de preocupação, fobia e medo da morte. Quer dizer, então
terapêuticos na própria vida. Na vida dessas pessoas mais velhas, que vêm amo a vida, não quero m orrer, mas não fico desesperado, não fico passan-
procurar o psicólogo, não estou dizendo todas, mas em algumas e xi ste do a noite me preocup a n do com o medo da mo rt e. E isto tr az a coisa
uma aridez tão grande, um afastamento tão grande. A gente não se apro- paradoxal: qu an to melhor a pessoa vive, mais ela vai ser capaz de enfrentar
xima fisicamente do velho, você abraça e beija gente jovem, pega na mão. o envelhecimento, mais vai ser capaz de enfrentar a m orte.
No velho você encosta no máximo, se for da família você dá beijinhos.
Então a pessoa mais velha tem um a história atual de muito pouco contato Agora se vocês tomarem os e xi stencialistas como Tillich, por exemplo, ele
com outro. Um terapeuta que seja caloroso, ofereça um pouco de calor, fala dessa angústia e xi stencial da morte. Ele diz que a única angústia que
de interesse, torna-se uma presença tão diferente na vida desta pessoa, exi ste é o sentimento de culpa em relação a você mesmo. Esta culpa em
que sacode tudo. Alguém que nunca tomou remédio, se tomar um Lo- relação a você mesmo surge se você não se atu alizar, se não realizar o
rax, bumba, fica a chatado! Alguém que toma soníferos todo dia, vai to- próprio potencial. Quando você tem potencial para crescer, para apren-
mar um Lorax, não faz diferença. E a gente entra como se fosse um der, para viver intensamente, desde que você nasce até que você morra,
e xi ste possibilidade. Quando você não obedece a este potencial, quando
Lorax na vida destas pessoas.
esmaga isto dentro de si, quando permite que atrofie dentro de você
Se você vir uma manchete no jornal de que estrangulei alguém, é que me mesmo, tem um sentimento de culpa m uito grande em relação a você
mesmo e em relação à vida dentro de você. E este sentimento de culpa se
chamaram de tia. A p rimeira vez que chamam a gente de senh or é por-
transforma em angústia, e esta angústia é a angústia de m orte. Qu an do
que se mudou de fa ix a. Você pode criar em qualquer idade, desde que
você está cumprindo todos os seus pa péis, vivendo intensamente, você
possa aproveitar, que você esteja criando novas coisas. Você não fica
pode até morrer. Vocês se lembram da Função do orgasmo, de W. Reich,
zanzando num passado imóvel. Se houver condições para todo mundo
isto é muito semelhante, a sensação do orgasmo e da morte estão m uito
envelhecer, desde que as pessoas soubessem o que poderiam fazer. Quer
associadas. Quer dizer, a expressão do orgasmo, é uma expressão de
dizer, a menina de doze anos sabe que daqui a alguns anos ela vai poder morte. Quando você alcança plenitude, você pode até terminar. É neste
namorar, dançar. Poucos falam que daqui algumas décadas ela vai poder sentido que, quanto mais plen for a vida, não que você deseje a morte,
fazer cursos, vai poder se aposentar aos poucos, vai poder escolher o que mas aceita, porque não está sen  roubado de nada.
realmente quer para ela. Porque quando a gente descobre aquilo que a
gente realmente gostaria de fazer, já está preso em uma série de arapu- Existe uma teoria de que o envelhecimento mais ajustado e adequado
cas. Qu an do você descobre o que gostaria de ter feito com 18 a n os, já seria conseguido por pessoas que `estão bem, seria um envelhecimento
está com 30. E com 30 você descobre o que gostaria de estar fazendo e já onde houve um desligamento progrléssivo, do trabalho, você acaba se en-
Envelhecimento e mo rt e  89 
Mo rt e e desenvolvimento humano 
88 
nosso velho tem alguma coisa disso. Os velhos que eu conheço dizem:
volvendo menos, embora vá todos os dias, até o dia que não se importa
pectos da vida. " Deus  m e li vre de eu depender dos meus filhos!" Eu não sei o que isto
com o que tem lá Então isto aconteceria com todos os as
tem de tão terrível. Eu não acho esquisito depender d os meus filhos, eles
Vocês percebem que existem velhos que parecem ser m eio indiferentes
dependeram de mim um tempo, se eu tiver de depender um dia, não me
aos bisnetos, uma avó é mu ito ligada aos netos, mas a bisavó não, mesmo
parece terrível. Pode ser qu e no dia que isso ficar mais próximo da reali-
que ela tenha capacidade física para isto. Esta é uma teoria, não é que
dade, também seja terrível para mim. Então eu fico pensando nesse mes-
todos concordam com isto. A teoria de que h averia um esfriamento pre-
mo traço, o velho não quer ser um peso, carga, então ele aceita bem a
paratório da morte, q ue seria este desligamento progressivo, desengaja-
coisa de ir para a floresta. Você percebe que isto é uma coisa absoluta-
mento, não seria um desligamento. Então à medida qu e a pessoa envelhe-
mente cultural, tem filhos que dependem financeiramente dos pais e não
ce, ela vai se preparando para a morte desta m a n eira, de modo a não se sentem nem um pouco dependentes: tem filhos que não dependem
sentir tanto a perda dos objetos de afeto, do trabalho, das pessoas, das
financeiramente dos pais, m as que se sentem inteiramente dependentes.
viagens, de comer, ou qualquer outra coisa. Então ela vai gradativamente
A mesma coisa poderia ser com a velhice, poderia, mas não é assim.
perdendo o interesse, e que isto seria uma medida sábia da natu reza para
fazer com qu e ela possa aceitar a morte dela. Ma s isto é muito discutível,
Agradecimentos e Despedidas
é uma teoria da década de 60, e na década de 70 apareceram uma série
de outros estudos, mostrando que, aparentemente, estas pessoas que se
Júlia: Você colocou completamente, discu tiu e complementou o que tí-
desligavam, raramente faziam isto de u ma m aneira saudável. A m aneira
nhamos discutido na última aula. Lev an tou as questões, preocupações
saudável, volt an do para a questão espiritual, é quando você vai transfor- desta fase, trouxe sua ex periência e o seu trabalho. Muito bom, a Rachel
mando aquele seu mundinho estreito (meus filhos, minha casa, etc.) para
está sempre aqui, ela é professora daqu i.
uma visão mais am pla de mundo e a sua independência destes fatores.
Você vai se relacionando cada vez mais com o mundo como um todo. Rachel: Inevitável
Você vê o R ogers, está menos preocupado com psicoterapia, do que com
a guerra nuclear. Os seus interesses vão se tornando cada vez mais am- Júlia: Inevitável. Acho que a gente pode ter sempre contato com ela,
plos, à medida que você precisa cuidar menos, tem m enos investimento qualquer coisa que precisemos.
próximo. A idéia do desengajamento seria essa, você iria se preparando
para a morte, assumindo interesses cada vez mais amplos. A prática não Rachel: Eu gosto muita da idéia deste curso, e estou gostando de ver. Eu
vi alguns dos conferencistas aí, parecem bárbaros, eu m e senti honrada
mostra muito isso, mostra que as pessoas vão crescendo espiritualmente
de estar no meio deles. Primeiro é bom ver quem são os outros. Quer
e, com isso, é claro, elas vão se desligando um pouq uinho mais. E mu it as
dizer, o convite era honroso em si, mas quando vi a categoria...
vezes esse desligamento tem a ver com pessoas que vã o realmente se
torn a n do apáticas, mas se estivessem sendo mais bem atendidas, esse Aluno: Em relação à categoria, honrados ficamos nós.
desligamento simplesmente não ocorreria.
Rachel: Chave de ouro.
Existe uma série d e estudos sobre o envelhecimento e a morte, dentro
daquela idéia do que acontece quando o velho deixa de ser produtivo, Júlia: Obrigada.
como é que a cultura lida com isso. Èm certas culturas, o velho é muito
bem tratado, só paparicado e cuidado pelos outros. Em outras culturas,
afastado; entre os
como na história da Balada de Narayama, o velho é
esquimós, por ex emplo, é o filho mais velho que leva a mãe ou o pa i até à
beira da fl oresta. E isto é feito com todo um ritual, um cerimonial. Mas o
Reflexões sobre a psicanálise e a morte  91

diluindo-se e transformando-se em outras, quase que imperceptivel-


mente. Próximo ao extremo da VIDA, teremos: o amor, a solidariedade,
Capítulo 6 o vigor, a dignidade, a construção de si mesm o e do mundo, a criativi-
dade, a preocupação com o bem de si e dos outros, o aproveitar e
tornar a vida o mais rica possível para todos. No extremo oposto tere-
mos também fenômenos humanos: o ódio, a destrutividade, a inveja, a
REFLEXÕES SOBRE competição ambiciosa, o desrespeito, a indignidade, a corrupção, a d e-
A PSICANÁLISE E A MORTE sumanidade, a guerra. Todas são formas de atacar a vida - estão do lado
da morte.
No ser humano encontram os, dentro desse espectro imaginário, todos
Roosevelt Moisés Smeke Cassorla
esses elementos, articulados entre si, opondo-se e, paradoxalmente, co-
mumente coexistindo. Amor e ódio, solidariedade e inveja, doação e
" Não existe meio de verificar qua l a boa decisão, pois não existe espoliação, humildade, orgulho e arrogância, criatividade e destrutivi-
termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem dade, são exemplos, por vezes, de a parentes antíteses, que convivem
preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter em todos nós, de maneiras peculiares.
ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da
vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida sempre Num mundo idealizado, o amor, a vida deveriam derrotar o mal e tudo
pareça um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é uma pa- aquilo mais próximo da destrutividade e da morte. Esse mundo não
lavra certa porque um esboço é sempre o projeto de alguma existe. No mundo real, temos de conviver com todos esses aspectos: são
coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que humanos. Isto nos leva já a um primeiro problema: o "moralismo". Apa-
é nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro. rentemente estamos dividindo o ser humano em um lado bom e outro
 Tomá s re pete par a si mes mo o pr ovérb io alem ão: einmal ist  mau. Esta é uma boa crítica que se faz a certas leituras da psicaná lise.
keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não p oder viver Mas, o psicanalista não deve ver as coisas desse modo - trata-se de
senão uma vida é como não viver nunca." fenômenos humanos: os juízos de valor dependerão da cultura, do mo-
mento, do indivíduo. Espera-se que o psicanalista os abandone em sua
(M il an Kundera, em A  insustentável leveza do ser)  lide diária, e isso deve ser trabalhado em sita análise pessoal, para que
possa aceitar o ser humano como ele é.

Proponho-me, neste trabalho, efetuar algumas reflexões sobre a psica- Agora nos defrontamos com um segundo problema: isso não nos dá a
nálise e suas abordagens e teorizações sobre a morte, de uma forma que i mpressão de um certo cinismo comodista? Do tipo: "Eu não julgo, sou
possa ser compreensível, mesmo pelos leitores não familiarizados com neutro, não tenho nada com isso; eu faço o meu trabalho e dane-se o
aquela área do conhecimento. No final do capítulo, indicarei leituras mundo..." Penso que existe uma certa verdade nisso, mas uma verdad e
complementares para aqueles que queiram aprofundar-se no tema. incompleta já é uma mentira. O p sicanalista pode e deve lutar pela
vida, como ser humano e como profissional. Mas a própr ia psicanálise
Antes peço ao leitor que me acompanhe num passeio. Observemos os descobriu que a melhor forma de lutar contra a morte, fortalecendo o
seres human os, as sociedades, e tentemos classificar o que vemos em lado da vida, é evitar juízos de valores, aconselhar, condicionar, educar,
sua passagem pelo mundo. Proponho que, nesta classificação, coloque- ou qualquer outra atitude que n ão seja fazer o indivíduo (e a sociedade,
mos como extremos de uma fa ix a, como num espectro de cores, a em colaboração com outras disciplinas), tomar consciência daquilo que
VIDA e a MORTE. Entre esses dois extremos teremos várias "cores",
Reflexões sobre a psicanálise e a morte  93 

lhe é inconsciente - e que, reca lcado, pode sabotar, impedir ou dificul- guns, devendo-se eliminar os outros, até a cham ada "ciência cristã" dos
tar sua vida, sua criatividade, sua felicidade, seja lá o que for felicidade, fundamentalistas americanos e a "ciência" de alguns grupos espíritas. Em
nível menor, todos nós criam os teorias sobre fatos que fogem ao nosso
para cada um . 1
controle - às vezes podem estar até corretas, p ois a intuição existe (esta é
O Terror diante do "Não-saber" outra teoria que, para algu ns, poderá ser considerad a delirante... - veja o
leitor onde fui me meter!), mas comumente são objetos internos que pro-
 jet am os em ou tro s.
A psicanálise descobriu que existe uma sobredeterminação em nossas vi-
das, derivada de instâncias inconscientes. Isso provocou um a fe ri da narçí-
Atualmente passamos por um a fase ainda mais incrível: a própria ciência
sica na humanidade, que, de repente, viu-se não mais senhora de seus
atos e comportamento, ferida essa ainda não cicatrizada que leva mu it  a s torn a n do-se uma espécie de religião, o cientista (e o leigo) acreditando
que aquilo que se comprovoti cientificamente estará sem pre correto. E
pesso a s  a não aceitarem essa área do conhecimento. sabemos que a ciência não é neutra: que por mais rígidas que sejam as
Por outro lado, a tomada de consciência da morte, da finitude do ser técnicas utilizadas pelos cientistas, ocorrerão tr  a n sformações na leitura e
interpretação dos resultados. Tanto é que teorias que duraram dezenas de
hum an o, constitui-se em outra ferida, esta ainda mais aterrorizante. Se,
com a p sicanálise, consegue-se compreender algo acerca da dinâmica do anos, são substituídas por outras, se o cientista se permitir duvidar de si e
inconsciente, em relação à morte nada sabemos. E, o nã o -  saber é uma das da ciência. Mas, .muitas decisões são tomadas por pessoas e por gover-
tes para o ser hum ano. Perde-se a capacidade de nantes, baseadas em teorias ditas científicas - curiosamente, as teorias
coisas mais apavor a n
controle, fica-se submisso a algo desconh ecido, e isso é desesper an te. Daí que infirmam aquelas adotadas são ignoradas. Na verdade, isso é fácil de
vem a necessidade de criar  "verdades", para que esse terror se esvaia. explicar. A ciência, Deus ex machina, está sendo utilizada, mesmo que o
Essas verdades podem fazer parte do domínio da fé. Aqui pouco pode- cientista não tenha consciência disso, de forma delirante ou m al-intencio-
mos acrescentar, a não ser aceitar que é ou tro fenômeno hum an o e, como nada.
tal, deve ser respeitad o e compreendido. Mas, novamente, o raciocínio
não é tão simples, porque desde que a fé não exige comprovação, podere- Aqui não podemos deixar de incluir a própria psicanálise, que comumen-
mos nos ver di a n te de situações estranhas: por exemplo, a minha fé está te se transforma em produto de fé e não de reflexão. Temos desde uma
correta e devemos destruir todos aqueles que não comungam com ela. IPA (International Psychoanalytical Association), fundada por Freud, que
Esses outros podem ser os hereges, os judeus, os comunistas, os imperia- tenta preservar a "pureza" científica da psicanálise (o que não quer dizer
listas, os protestantes, os ciganos, os homossexuais, as mu lheres, os nor- que isso não seja necessário, mas perceba o leitor o perigo que se corre:
destinos, os negros ou os brancos. queimar os hereges...), até as seitas que se autodenominam donas da ver-
dade, queimando seus próprios hereges e maldizendo as outras correntes
Pior ainda é tornar a fé "ciência". Dessa forma, ela deixa de ser fé e torna
psicanalíticas.
seus dogm as  "respeitáveis". Desde a "ciência" inquisitorial para identificar
os inimigos do catolicismo, até a "ciência" que prevê o futuro da luta de
classes, passando pela "ciência" que prova a superioridade racial d e al- Até aqui, percebo, tentar alertar o leitor para aspectos ligados à morte.
Mas não posso deix ar de mostrar o lado de vida: os epistemólogos tentam
1 Aqui já se assoma outro problema: há quem se sinta feliz ao ver a destruição dos out ros
e, às vezes, até de si mesmo. A psicanálise desvela, quando lhe é possível, as motivações indicar  as  limitações das ciências, os psicanalistas mostram o que existe
inconseientes disso e, se tem so rt e, pode ajudar o indivíduo a sentir-se mais feliz, de de invariante nas várias abordagens escolásticas, os religiosos pregam a
outra forma. No entanto, isso nem sempre é possível, pois a própria relação analítica
poderá ser destuída, se isso ameaçar ocorrer. Adiante, o leitor encontrará hipóteses que tolerância com as outras religiões e o ecumenismo, etc. Como sempre, o
tentam explicar esse fato. conflito vida x morte se faz p resente.
9 4  Morte e desenvolvimento humano  Reflexões sobre a psicanálise e a mort e 95 

A psicanálise pode ajudar-nos a compreender m uitos mecanismos que an tasias inconscientes e algumas conscien-
Como pode verificar-se, estas f an
usamos para lidar com esse terror e desespero do desconhecido. Voltan- tes, correspondem a revivescências de outras mais primitivas. E, quase
do ao nosso tema, o não -  -saber
  sobre a morte, tentamos preencher esse. sempre, fazem pa rte do que se considera "normal" no ser hum ano.
não - 
-saber
  com teorias, intelectualizando. Tem de e xi stir algo após a mor-
te, senão a vida não teria razão de ser. Como nada existe que comprove No entanto, uma das questões controvertidas em psicanálise é se, em
isso, poderíamos dizer que se trata de defesas maníacas. As idéias de nosso inconsciente,
inconsciente, poderia existir algum tipo de representação da
outra vida, de paraíso, de reencarnação, não são sustentadas pelos nossos morte. Para Freud, isso não e xi stiria,
stiria, por ser u ma exp eriência
eriência que nun-
conhecimentos atuais. Voltamos aqui para o terreno da fé, com suas v an- ca teria sido vivida. Mas ele considerava como equivalentes os terrores
tagens e perigos, como já assinalei. da castração, da perda do amor, do objeto. Para os kleinianos, já existi-
ria o medo da morte: seria equivalente ao pavor do aniquilamento, uma
As Fantasias Inconscientes sobre a M orte ansiedade  extremamente  primitiva, que teria a ver com o predomínio
da pulsão de morte.
No trabalho p sicanalítico verificamos
verificamos que as fantasias inconscientes sobre
o que seria a morte não são muito abrangentes: 1) o reencontro com com Pulsão de Vida x Pulsão de Morte
pessoas queridas mortas (e não é por outro motivo que cri an ças tentam
matar-se para encontrar o papai ou o vovô que morreu, no céu); ou que, E aqui entramos em outro assunto controvertido: e xi ste ou não uma pul-
agora apelando para mecanismos mais profundos, a chance de alguém são de morte, que se contrapõe e ao m esmo tempo se funde com Eros, a
morrer após a morte de pessoas queridas é maior que na população em pulsão de vida. Em Além do princípio do prazer, Freud introduz este con-
geral - evidentemente, aqui poderemos usar teorizações
teorizações sobre o luto pa- ceito, como uma especulação, utilizan do inclusive modelos biológicos.
tológico, que verenios adiante; 2) o encontro com outras figuras idealiza- Com  esse conceito, reformula todo o edifício da psicanálise, construído
das, como Deus lou algo similar, que seria um com plemento da f  a a n tasia até então. Melanie Klein e seus continuadores levam essa especulação às
anterior; 3) a ida para um mundo paradisíaco, regulado pelo princípio do últimas conseqüências, passando a utilizá-la de forma p rodutiva na clínica
an tasia se articula com a se-
prazer e onde não e xi ste sofrimento. Esta f an e em suas formulações teóricas. No entanto, outros autores e escolas
guinte; 4) a volta ao útero m aterno, numa espécie de parto ao contrário, acham desnecessária a utilização desse referencial, acreditando que a
onde não e xi stem desejos e necessidades. Provavelmente desta fantasia, teorização baseada em pulsões agressivas ligadas
ligadas às sexuais é suficiente.
entre outras, provém a idéia da "mãe-terra", onde o morto será sep ultado.
Em meu trabalho clínico tenho me valido do conceito de pulsão de m orte
Mas, ao lado dessas fantasias prazerosas, e xi stem as terroríficas, entre as e creio que ele tem m e enriquecido na melhor percepção dos fenômenos
quais as relacionadas ao inferno ou locus similares têm predominância. humanos. Basicamente o que é postulado por Freud e gr  a n de parte de
São fantasias persecutórias que têm a ver com sentimentos de culpa e seus seguidores é que vivemos constantemente num estad o de conflito
remorso. As identificações projetivas
projetivas em figuras diabólicas, na m orte entre Eros e Tanatos, pulsões de vida e pulsões de morte. As primeiras
como um ser aterrorizante, com face de caveira e seu ca jado, se interli- levam ao crescimento, desenvolvimento,
desenvolvimento, integração, reprodução, manu-
desinte gr ação, dissolução. Essas f anta-
gam a pavores de aniquilamento, desinte tenção da vida; as segundas fazem o m ovimento inverso, de desintegra-
desintegra-
sias se confundem com a loucura, a psicose, e, por vezes não poder su- ção, tentando levar o indivíduo
indivíduo para um estado inorgânico,
inorgânico, a m orte. Es-
portá-las pode levar ao suicídio. ses dois gr upos de pulsões estão "fundidos", funcionando sempre juntos,
complement a n do-se e opondo-se, num processo dialético. Da pulsão de
Evidentemente, esta cisão corresponde a mecanismos da posição esqui- morte, fertilizada pela de vida, deriva a a gr essividade normal, que prote-
zo-paranóide, seguindo-se o referencial kleiniano. ge o indivíduo dos a gr avos e faz com que ele possa lutar para conquistar
9 6  Morte e desenvolvimento humano 

mais espaço vital. A falta dessa agressividade normal, que prefiro chamar
de vigor, impede inclusive a capacidade de reprodução da espécie.
Penso que agora não há mais necessidade de justificar porque esta teoria
Quando ocorre a "desfusão" das pulsões, e a de morte se encontra livre,
é tão malvista. Alguns autores, mais otimistas, procuram exp licar esse
7
— 

predomin an te, nos defrontamos com situações de sofrimento, que podem


manifestar-se nas áreas somática, mental e social, em todas elas. Essa pessimismo freudi an o e psicanalítico pelo fato de o pai da psicanálise ter
vivido o horror da Primeira G uerra Mundial e ter acompan hado todo o
predominância em seu auge pode levar à m orte emocional (na loucura) e
conturbado período entre as duas guerras, prevendo, de certa forma, o
à morte do corpo, através de somatizações graves ou atos suicida s, ou horror que foi a Segunda Guerra Mu ndial. Talvez ele tenha morrido logo
mesmo mortes "naturais" precoces.
que.ela começou porque já era demais...
Mas, por maior que seja a libido (que seria o resultado das pulsões de
Paradoxalmente, com todo esse pessimismo, penso que tudo isso pode e
vida), Tanatos sempre acaba triunfando, com o tempo: todos acabamos
deve ajudar-nos a compreender cada vez melhor o funcionamento das
morrendo. Mas isso no nível individual - em termos de espécie nossos
pulsões de morte e de vida, e dessa forma poderemos lutar ao lado des-
gens continuam em nossos descendentes: aqui Eros vence.
tas, contra aquelas. Obviamente sabendo de nossas limitações. Aliás, o
Evidentemente esta teorização atrai muitas resistências. Neste momento problema reside justamente aqui: tomaremos consciência de nossas po-
de minha vida penso que elas se devem ao terror que inspiram, caso tencialidades e de nossas limitações para que possamos viver melhor a
estejam corretas. Esse terror evidentemente se liga à tomada de cons- vida, aqui e agora. E sobre este tema qu e gostaria de me deter.
ciência da fragilidade e pouca importância que nós, como seres hum  a n os,
temos, dentro da comple xi dade do Universo. Passamos por ele, no estado Impotência x Onipotência
em que nos encontramos, vivos (nesta vida: não sei se existem ou tras), em
frações infinitesimais de tempo, se levarmos em conta o tem po universal. Ante a percepção de nossa impotência, por vezes "percepção" inconsciente,
E a natureza não nos dá a menor importância - é como se fôssemos nos defendemos através da onipotência. A certeza de uma vida pós-morte
simples instrumentos de perpetuação da espécie. pode ser resultado desse segundo mec  a n ismo. Embora possamos sa be r s e
ela e xi ste ou não, o que se`observa é que essa certeza decorre da necessida-
Pior ainda, essa espécie, a espécie humana, ninguém pode garantir que se de de enfrentar a impotência, incluindo a impotência do nã o -s a  b e r .
perpetuará. Muito pelo contrário, milhares de espécies viveram milhões
de anos e desapareceram . Por que conosco seria diferente? A diferença De minha experiência clínica, e confirmando outras investigações, verifi-
crucial é que os seres humanos provavelmente se constituíram na única ca-se, com freqüência, que profissionais de saúde escolheram sua área
(ou quem sabe a primeira) espécie que tem consciência de sua finitude para lutar contra a m orte. E aqui encontraremos um esp ectro interessan-
individual. Digo provavelmente, porque o raciocínio antropocêntrico te e variado: desde aqueles que conseguem fazer isso criativamente, co-
pode, em algum momento, ser desfeito, até nesta área... nhecendo seus limites, até os que sofrem horrorosa mente ao se sentirem
"derrotados" pela morte, quando perdem um paciente. A vida desses pro-
Mais ainda: talvez seja a única (ou a primeira) espécie que p ode se exter- fissionais se torna u m inferno - culpam-se, tornam-se iatrogênicos -, inter-
minar por si mesma, conscientemente. Já temos um arsenal atômico sufi- vindo, por vezes, desesperadamente e sem necessidade, abandonam seus
ciente para exterminarmos a hum anidade dezenas de vezes... pacientes quando se perde a esperança de "vencer" a morte, etc. Estamos
no terreno da onipotência. O leitor já deve ter percebido como isso não
Se o leitor ainda não está aterrorizado, gostaria de lembrá-lo que tu do
só faz o profissional de saúde sofrer, como impede que ele ajude seu
indica que o planeta Terra, o Sistema Solar e o próprio Universo po-
paciente a viver melhor o tempo que antecede sua m orte, e mais ainda,
dem terminar. Estrelas, planetas, sistemas planetários também nascem,
Mo rt e e desenvolvimento humano  Reflexões sobre a psicanálise e a morte  99 
9 8 

que tenha uma boa morte. Em outros capítulos deste livro sa lienta-se a A teoria da inveja, tão criativamente elaborada por Melanie Klein, e cuja
importância disso para o ser hum  a n o. antítese seria a gratidão, é de gr ande utilidade na compreensão destas
características humanas.
O problema da onipotência x impotência ocorre const an temente em nos-
A ampliação destes conceitos para gr upos maiores, pode ajudar-nos a
sas vidas, em todas as áreas. E está ligado ao que escrevi acima: a sabe-
compreender um pouco mais acerca das guerras, dos morticínios, dos
doria de viver consiste em sabermos usa r nosso vigor, nossa potência,
esquadrões da morte, das torturas, da indignidade, dos sacrifícios que
conscientes de nossas potencialidades e limitações. Nesse momento po-
seres humanos impõem a seus semelhantes (e a si mesmos), p as  s an do
deremos gozar a vida, não um gozar hedonista, mas o famoso carpe diem:
pela fome, miséria, desumanização, etc.
aproveitar cada m inuto da vida, podendo "curtir" ao máxim o o que ela
nos oferece, não maniacamente, mas com a calma que a felicidade verda- No Brasil, em particular, vivemos isto de uma forma extremamente inten-
deira pode trazer. sa. O filicídio, um conceito psicanalítico extremamente rico, nos ajuda a
compreender vários desses aspectos, incluindo o massacre de cri an ças e
Diz-se comumente que existem os sofrimentos necessários, aqueles que de "infantes" (a infantaria), que são a primeira linha de ataque (e de
fazem parte da vida, e os desnecessários, aqueles que nós criamos cons- bucha de canhão) em guerras e revoluções. São sempre as cri an ças e os
tantemente. E observe o leitor a criatividade com que os criam os!  jov en s as pr in ci pa is vít im as , d ev id o a su a fr ag ili da de di an te das atitudes
mortíferas dos adultos - desde os a gr avos na gestação e nascimento, a
As Sabotagens Internas desnutrição, a falta de condições dignas de vida, de escolaridade, de saú -
de, a exploração no cam po de trabalho, o envolvimento com a criminali-
dade, as drogas, a violência, etc., onde sempre existem adultos responsá-
Penso que esta criatividade que todos nós temos para sabotar nossa feli- veis que se omitem ou estimulam estas práticas.
cidade (podendo ampliar-se o ra ciocínio para gr upos, sociedades e a es-
pécie hum an a) pode ser razoavelmente compreendida, usando as teoriza- E ainda, em nosso meio, consideremos os velhos, que com a "aposentado-
ções sobre a pulsão de morte, descritas acima. Para o leitor que quiser ria" que recebem (ou não recebem) são condena dos a mortes precoces
aprofundar-se neste tema, os conceitos psicanalíticos de masoquismo e ou mortes em vida. Não seria esta uma maneira de e li minar populações
de narcisismo são import an tes. Principalmente os conceitos pós-kleinia- inteiras, que não são mais "produtivas"? Será isto um mecanismo apenas
nos de narcisismo destrutivo. inconsciente? Tenho minhas dúvidas.

Voltando à prática, procure o leitor lembrar-se das com plicações desne- Morte Física e Outras Mortes
cessárias em que, consciente ou inconscientemente, andou se metendo
nos últimos dias. As coisas que deixou de fazer, as que fez de man eira Espero estar conseguindo passar ao leitor a idéia de que a morte está
errada, as brigas inú teis, os estragos desgastantes, sem qualquer objetivo, sempre presente em nossas vidas, e das m ais variadas m an eiras. A morte
as fantasias persecutórias, os lapsos au tocondenatórios, os sentimentos de física será a última, mas teremos m ortes parciais ou totais nas áreas so-
culpa absurdos, os ataques invejosos e destrutivos contra si mesmo e c on- mática, mental e social, lembrando que essa d ivisão é apenas didática,
tra os. outros. Repare também que comumente essas "crises" ocorrem pois todas se interpenetram.
quando tudo tende a correr bem : os mitos e a própria cultura nos ensi-
Além das situações descritas acima, muitas fazendo parte do que se po-
nam que devemos tom ar cuidado com o "olho gordo" - a inveja (in -vidia) 
deria chamar de "micromortes da vida cotidiana", parafraseando o famo-
 

dos deuses, que são p rojeções de aspectos invejosos internos em seres


so artigo de Freud, nós nos defrontaremos com situações que trazem
sobrenaturais ou em rivais reais ou imaginários.
1 0 0  Reflexões sobre a psicaná lise e a mo rt e  101

t a n to sofrimento, que não podemos deixar de cham á-las de patológicas, sioneiros não podendo mais ser escravizados ou mo rt os e podendo até ser
se usarmos aquele conceito para definir o que será patologia. Sobre as tr ocados? (É verdade que isso nem sempre ocorre, que existem outros tipos
"patologias" sociais, fe li zmente, já temos consciência de sua importância e de escravidão "assalariada", etc., mas, isto vem sendo denunciado e não se
inclusive têm sido estudadas interdisciplinarmente. O mesmo tem ocorri- pode negar que, a d espeito de tudo o que ainda há por se fazer, a luta p ela
do com as  grupais e individuais, mas é aqui que a psicanálise se mos tr a dignidade tem dado alguns resultados.) Que tortura é crime? Que já se
mais vigorosa, pois pode servir não só como inst ru mento de compreen- considera o direito à vida, à saúde, à educação e felicidade como algo ina-
são, mas também como terapêutica. lienável a todo ser humano, independentem ente de sexo, raça, religião ou
idéias políticas? Que a igreja católica já aceita, há tempos, que os índios têm
Na área mental teremos infinitas maneiras de os conflitos se manifesta-
rem, podendo culminar na p sicose que, para os psicanalistas kleinianos alma? E que vem lut an do, contrari an do seu p as sado, pela vida deles? Que
cada vez mais g rupos da popu lação se organizam, reivindicando seus direi-
decorre de ataques destrutivos (derivados da pulsão de m orte) à própria
tos - q ue grupos internacionais influem e debilitam ditadur  a s , como o faz a
mente, à capacidade de p ensar, de simbolizar, desa gr eg an do e desinte-
grando o indivíduo. O suicídio poderá ser uma forma de levar isso para a Anistia Inte rn acional, por exemplo; que lutam pelo equilíbrio ecológico e
denunciam a desumanidade e a corrupção?
área física.
É claro que ninguém garante que tudo isso não possa cair por terra.
Quando os conflitos são mais primitivos, podem manifestar-se na á rea Atualmente volta o racismo na Europa, ao mesmo tempo que inim igos
física, pela impossibilidade de simbolização. Assim teremos doenças dos figadais se unem numa Europa unida. Guerras genocidas ocorrem contra
mais variados tipos, que, em gr au mais am plo (e aqui alguns autores minorias étnicas e nacionalismos reacendem, irmãos matando irmãos.
falam em somatização psicótica), poderão também levar à morte. Mas, na África do Sul o apa rt heid vai declinando. No Brasil quase nin-
guém m ais agüenta o "levar vantagem em tudo", antes orgulho nacional!
 Tu do  isso se reflete evidentemente, na área social. Mas, à s vezes, a predo- Infelizmente o tempo é muito curto para efetuarmos especulações sobre a
minância das manifestações conflitivas ocorre nesta área, como já vimos.
Atualmente o que mais preocupa é a violência contra si mesmo, contra o evolução de tudo isso, mas tendo a ser otimista. Penso que os recursos
mentais da hum anidade estão cada vez m ais disponíveis, e, a despeito de
outro, contra a sociedade e contra a própria natureza, podendo levar-nos
vitórias eventuais do aspecto morte, a força de vida ressurge, teimosa.
à destruição de ecossistemas e até da própria hu manidade.
Se tivermos ainda a sorte de conhecermos os mecanismos inconscientes
Tentando Combater a Morte envolvidos, ela ressurgirá com mais vigor. Mas, não podemos ficar passi-
vos diante de Tanatos: devemos estar sempre alertas, denunciando seus
Embora a morte física seja inevitável, ela pode ser adiada cada vez m ais, mecanismos, comumente sutis, de insinuarem-se, tanto no nível individual
e as demais podem ser combatidas. A hum anidade tem demonstrado que como social. E para isso não precisamos ser psicanalistas: temos de ser
possui recursos para isso. Penso que a própria descoberta da psicanálise cidadãos, exercendo nossos direitos, conquistados a tanto custo, em lutas
comprova esse fato. memoráveis que se estenderam por gerações.
Nunca saberemos como terminará a luta const  a n te entre vida e mo rt e. A O Processo de Luto
despeito do pessimismo a longuíssimo prazo (bilhões de anos), e com o
gr au de conhecimento que temos agora, e  x i ste a possibi li dade de que este- Uma das grandes contribuições da psicanálise tem sido uma melhor com-
 jam os err ad os. Af ina l, q ue m im ag ina ri a, no início do século p  a s sado, que a preensão do processo de luto. Em Luto e m elancolia, Freud l an çou as
escravidão e o preconceito racial se constituiriam em crime em qu as e todos primeiras hipóteses, que se constituem na origem e base de alguns desen-
os países? Que guerr as  devem obedecer à C onvenção de Genebra, os pri- volvimentos posteriores. Sempre seguindo a linha de tentar transpor con-
Reflexões sobre a  ps ica ná lis e e a m ort e  10 3 
1 0 2 

ceitos nem sempre fáceis p ara o leitor, observa-se, no trabalho clínico, tras chamam de "equivalentes depressivos". Na verdade, nada mais são
que manifestações de somatizações psicóticas, devido à dificuldade de
que o objeto morto (e objeto é um conceito amplo, que implica também,
mas não só, em pessoas inteiras) instala-se no ego do enlutado, funcio- simbolização, como já vimos. Se bem que os p ro gressos da neuroendo-
nando como objeto ao mesmo tempo protetor e perseguidor. E isto se crinologia e neurofisiologia vêm estud  a n do, com algum sucesso, as miste-
deve à ambivalência dos seres humanos, à dualidade de suas fantasias riosas conexões entre mente e corpo - o que vem comp lement an do o que
inconscientes, derivadas de aspectos relativos à vida e morte. a psicanálise já descobrira.
Como elaborar melhor os lutos? Isto vai depender dos mais variados
D ur an te o trabalho de luto, o ser humano deve recolher sua libido, suas fatores que têm a ver com as "séries complementares", descritas por
fantasias destrutivas (e aqui propositalmente estou misturando conceitos Freud. Mas, não tenho dúvida de que alguns fatores sócioculturais têm
freudianos e kleinianos, que, na verdade, se constituem num contíguo), dificultado essa elaboração. A nega ção da morte, o terror que ela inspira,
que estavam dirigidas ao objeto, agora perdido. Na concepção freudiana a falta de ritua is que auxiliem na sua elaboração, e que têm a ver com
essa "energia" se volta para o próprio ego, para a figura morta agora
momentos históricos, como o leitor encontrará em outros capítulos deste
introjetada. Na kleiniana, as fantasias inconscientes decorrentes dessa
li vro, são motivos importantes. A falta de auxílio individual, que poderia
perda reativam fanta sias anteriores, e o objeto introjetado passa a func io-
ser efetuado por profissionais de saúde treinados psicanaliticamente, é
nar num padrão decorrente daquelas fantasias somadas à situação parti-
i mportantíssima. Comumente, e eu próp rio tenho alguma experiência nis-
cular com esse ou outros objetos perdidos no passado. N ão é m uito dife-
so, é de gr ande valia ouvir o paciente, desde que este não tenha c onflitos
rente da concepção freudiana: apenas se valorizam mais as fantasias pri- muito sérios. Médicos, assistentes sociais e outros profissionais, não ne-
mitivas em vez das pulsões. cessariamente psicanalistas, mas com uma visão da importância das fan-
tasias inconscientes, podem ser de gr ande ajuda.
O que nos interessa, do ponto de vista clínico, é a possibilidade de um
luto mal-elaborado, em que predominam os objetos introjetados persecu-  Já no ca so de con flit os ma is s ér ios , é ind isp ens áv el qu e t era pia s p sic an alí -
tórios. Isto leva a lutos patológicos ou quadros m elancólicos, em que a ticas ou a própria psicanálise sejam utilizadas. Não raro, o processo de
depressão é persecutória, carregada de culpa. Não raro, esses indivíduos, luto reativa situações extremamente primitivas, que devem ser trabalha-
agora identificados com esse objeto morto, inconscientemente, passam a das em profundidade.
viver como "mortos" - a melancolia seria o exemplo típico. As fantasias
suicidas, ou o suicídio exitoso, são formas de eliminar esse objeto aterro- Enfim, nos encontramos diante de um p rocesso individual, com repercus-
rizante: mas, para eliminá-lo, o ser humano tem de eliminar-se como um sões sociais intensas, pois o melancólico, mesmo que aparentemente
todo. Outras vezes, como já vimos, coexistem fantasias de reencontro "equilibrado", passará seu estado para os filhos e estes para di  a n te, o
com objetos perdidos, sentidos como bons, m as que na realidade, ambi- objeto persecutório pairando por gerações, culpógeno e impedindo o vi-
valentemente, levam à autodestruição, utilizando mecanismos ma níacos e ver. Postulo, portanto, que o luto m al-elaborado é "contagioso", principal-
liberando aspectos tanáticos. Uma comprovação da importância disso, mente para a s crianças, que terão de identificar-se com ob jetos (pais, por
em termos epidemiológicos, é que a chance de morte "natural", após a exemplo) cujas fantasias mortíferas e m oribundas se tr a n smitem verbal
morte do parceiro(a), é maior no primeiro ano após essa perda, entre e/ou extraverbalmente.
viúvos(as). Outro dado que nos revela a 'freqüência desses lutos mal-ela-
borados, é a verdadeira endemia de quadros melancólicos (ou depressi- Reações de Aniversário
vos, segundo a classificação psiquiátrica ) que assolam os serviços de saú-
de. Comumente esses sintomas não se manifestam na área m ental, mas Uma forma peculiar de m an ifestação do processo de luto mal-elaborado,
principalmente na somática, constituindo-se o que os clínicos e psiquia- se constitui nas chamadas "reações de aniversário". Trata-se de fenôme-
Reflexões sobre a psicaná lise e a mo rt 
rt e  1 0 5 
1 0 4  Morte e desenvolvimento
desenvolvimento humano 

nos que, eliciados por uma data, fazem o indivíduo passar por processos A partir do trabalho psicanalítico, surgiram teorias vigorosas que podem
auxiliar os seres humanos a lidarem com a morte, a morte física e as
variados de manifestação de conflitos: a n siedade, tristeza, surtos psicóti-
cos, idéias ou tentativas de suicídio, somatizações (enfartes do miocárdio, mortes parciais do dia-a-dia, de uma forma produtiva, fazendo com que a
gastrites, crises ulcerosas digestivas, sintomas vagos, sintomas de vários vida possa ser vivida criativamente
criativamente e a morte possa ser aceita como um
órgãos com ou sem alteração anatômica), atuações na área social, ou fato da vida.
ainda na relação analítica, sonhos, etc...
É o que observamos em moribundos que tiveram a sorte de se realizarem
Descrevem -se várias situações de "reações de aniversário": 1) o indivíduo em suas vidas - a morte é vivida como algo natural, sem os terrores da-
iversário de mo rt e ou de algum
passa pelos processos desc ri tos acima no an iversário queles para quem a vida foi um fardo. Realizar-se
Realizar-se como ser humano, em
fato que se associa à morte ou perda de um objeto ambivalentemente
ambivalentemente ama- vida, será portanto, um dos escopos de todo tipo de ação, de profissionais
do e odiado; 2) Pode ocorrer quando atinge a idade da pessoa m orta, às de saúde, e da sociedade como um todo, numa luta pela dignidade e
vezes, o processo descrito leva à mo  rt e física, por identificação; 3) Foram felicidade em vida. O psica-
oportunidade de cada pessoa de alcançar a felicidade
desc ri tas situações em que a "reaçã o de aniversário" ocorre quando os fi- nalista terá sua função, evidentemente, mas não poderá onipotentemente
lhos do paciente atingem a idade que ele tinha quando seu pai ou mãe lidar com tudo o que implica na luta EROS X TANATOS, sem a contri-
morreram, ou foram perdidos; 4) na data de abortos ou na data em que buição de todos os seres humanos, cada um em sua área, e todos juntos
deve ri a nascer uma c rian ça abortada. E x i stem situações ainda mais comple- como cidadãos.
xas, mas, na investigação psicanalítica perce be -se que ocorreu u ma identifi-
cação com o objeto perdido. Em ou tros tr abalhos postulei que essa identifi- Efetuar psicanálise com pessoas em idade avançada, com pacientes de
cação fica, de certa forma, encistada, até que, eliciada pelo tempo, ela res- doenças graves, que levarão à morte em pouco tempo, tem sido uma
surge, inconsciente, propici an do uma revivescência
revivescência desse luto mal-elabora- experiência riquíssima
riquíssima para clientes
clientes e p rofissionais
rofissionais.. Ob servo que, comu-
do, e os conflitos se manifestam
manifestam nas á reas descritas.
descritas. Não raro, um a vez mente, os pacientes, quando podem a proveitar a análise, integram melhor
passada a data, se não ocorrerem complicações, tudo volta ao "normal", seus objetos internos, podem conhecê-los, lidar com eles, entrando com
podendo haver recaídas em outros anos. M as, em situações graves, teremos mais freqüência no que os kleinianos chamam de posição depressiva.
depressiva. O
desde quadros psicóticos até doenças mortais. rever a própria vida, reconhecendo e aceit an do seus limites, seus "fracas-
sos" e sua criatividade, fazem com que os indivíduos vivam realmente,
Penso que este fenômeno, curioso, é ex tr emamente comum , e adiante indi- intensamente, o restante de suas vidas, e morram em paz. Lemb ro-me em
co bibliografia onde o leitor poderá encon  t r ar situações clínicas e de even- particular
particular de um rapaz que passou toda sua vida numa promiscuidade
tos sim il ares, desc ri tos na biografia de personagens históricos. Constituem
Constituem maníaca e que se tornou dependente de drogas. Dessa forma adqu iriu o
uma prova de que as teo  ri as psicanalíticas descritas acima têm uma ut ilida- vírus da aids. O seu tem po restante de vida, em análise, foi o melhor - e
de prática imensa, pois a tomada de consciência desses mecanismos, permi- passou a agradecer a Deus o fato de ter adquirido aids: só por isso, se
te sua elaboração e a não-repetição. O mesmo ocorre com o luto. dispôs a efetuar a análise pessoal e descobriu que  "vivera"  como morto
até então. Ao lidar com essas pessoas ó ana li sta se vê também extrema-
Conclusões mente mobilizado, e aprende muito acerca da sabedoria de viver.
Se a m orte faz parte da vida, deve ser inèluída
inèluída nela, o que não tem ocor- Se iniciei este
este capítulo com M ilan Kundera, que nos m ostra que vivemos
rido. O trabalho p sicanalítico, ao desvendar as fantasias inconscientes em apenas uma vez cada minuto, e por isso ele deve ser aproveitado, aceitan-
relação à morte nos auxilia a com preender o fenômeno. O que, evidente- do-se que não podemos vivê-lo de novo, quero encerrar o texto com a
mente, deve ser complementado pela investigação em outras áreas do letra de uma música de Chico Bu arque de Holanda: "O velho":
conhecimento principalmente a história, a a n tropologia e a sociologia.
Morte e desenvolvimento humano  rt e 
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"O velho sem conselhos, de joelhos, de partida de Freud (Ed. Imago). Existem traduções acessíveis para o espanhol e
carrega com c erteza todo o peso desta vida. francês. Obviamente o original é alemão e a Ed. Standard foi efetuada na
Então eu lhe pergunto pelo amor: Inglaterra.
A vida inteira diz que se guardou, do carna val,
da brincadeira que ele não brincou. O conceito de narcisismo aparece pela primeira vez em "Sobre o narcisis-
Me diga agora o que é que eu digo ao povo, mo: uma  introdução",  no vol 14. Mas, o nar cisismo destrutivo é desenvol-
o que tem de novo para de ix ar? vido pelos kleinianos: aqui recomendo o trabalho de Hebert Rosenfeld:
Nada, só a caminhada, longa, prá nenhum lugar. Uma abordagem clínica para a teoria psicanalítica
"
psicanalítica das pulsões de vida e
investigação dos aspectos a gr essivos do narcisismo", que
de morte: uma investigação
O velho de partida de ix a a vida sem saudade
Sem dívida, sem saldo, sem rival ou amizade li vro Melanie Klein Hoje, vol 1, editado
pode ser encontrado traduzido no livro
Então eu lhe pergunto pelo amor: por Elizabeth B. Spillius, da coleção Nova Biblioteca de Psicanálise, coor-
Ele me diz que sempre se escondeu, nunca se denada por Elias Mallet da Rocha Barros, Editora Imago, 1990.
comprometeu e nunca se entregou
Me diga agora o que é que eu digo ao povo Voltando a Freud não pode de ix ar de ser lido  "Luto e Melancolia" (1917),
O que é que tem de novo prá deixar? pletas. Mas o conceito de pulsão de vida e de
no vol. 14 das Obras Com pletas.
Nada e eu vejo a triste estrada,
estrada, onde um dia vou parar. morte só aparecerá em 1920, no trabalho "Além do princípio do prazer",
vol. 18. Em 192 3, em "O ego e o id" estabelece-se com clareza a função do
O velho vai-se agora, vai embora sem bagagem superego (vol 19). Em "O problema econômico do masoquismo" esse as-
Não sabe p rá que veio, foi passeio, foi passagem pecto é dissecado (1924, vol 19).
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco, mostra um verso manco, nu m caderno Poderia indicar mais de uma dezena d e trabalhos de Freud. Se quisermos,
• branco que já se fechou. é facílimo verificar que toda a psicanálise, mesmo antes do conceito de
Me diga agora o que é que eu digo ao povo pulsão de morte estar desen volvido, leva em conta, mesmo sem saber,
ix ar?
O que é que tem de novo prá de ixar? essa noção. Artigos mais diretamente ligados ao nosso tema, no entanto,
Não, foi tudo escrito em vão, eu lhe peço p erdão,
são: "Totem e tabu" (191 2, vol. 12), principalmente o item relativo ao con-
mas vou lastimar
Não, não vou lastimar. tato (tabu) com os mortos,
mortos, "Pensamentos para os tempos de guerra e
morte" (1915, vol. 14), onde mostra como devemos aceitar e lidar com a
De ix o a cargo do leitor as associações que possa efetuar. Eu apenas que- agressividade como fenômeno humano; "O m al-estar da civilização" (1930,
(1930,
ria concluir que, como profissional e ser humano lastimaria muito e que vol. 21), em que relaciona a civilização com as barreiras contra as pu lsões,
provavelmente este "velho" (que não necessita ter idade avançada) se en- agora após a publicação de sua teoria de pulsão de morte; "Inibições,
contraria aterrorizado diante da morte, pois não pôde viver a vida. Mas, sintomas e angústia" (19 26, vol. 20),
20), onde surge com mais clareza sua
como liberdade poética, que lança uma mensagem, identifico-me com teoria da angústia; "Por  que a guerra?" (1933, vol. 22), onde consta a
Chico: não lastimaria e aproveitaria
aproveitaria ao máximo o poema ex emplar. clássica troca de correspondência entre Einstein
Einstein e Freud, que já previam
a próxima guerra mu ndial.
Sugestões para Leitura
conceitos freudianos em Eros x 
Karl Menninger utiliza com maestria os conceitos
Evidentemente o leitor deve iniciar por Freud. Se não tem noções de Tanatos: O Homem Contra si Próprio, também um clássico, cuja primeira
psicanálise lhe aconselharia a ler primeiro as "Conferênc ias introdutórias edição é de 1938, revista em 1965 e editado no Brasil em 1970 pela
à psicanálise" (1916), no volume 15 da Ed. Standard das Obras Completas  Ibrasa. Infelizmente, não me consta ter sido reeditado. O título original é
1 0 8  Reflexões sobre a psicanálise e a mo rt e  1 0 9 

Man A gainst Himself. Outro clássico é Sadismo x M asoquismo en la Con-  idade", de Elliot Jacques (vol.2), além de muitos outros trabalhos que
ducta Humana, do psicanalista pioneiro radicado na Argentina, Angel mostram o vigor da escola.
Garma, cuja terceira edição aumentada é de 1952, Ed. Nova, mas que
continua sendo reeditado. interpretação, de Herbert Rosenfeld é indispensável para quem
Impasse e interpretação,
quiser aprofundar os conceitos técnicos fertilizados principalmente pelas
A escola kleiniana leva o conceito de pulsão de morte à origem da ansie- idéias de narcisismo destrutivo (Imago, 1988). Numa abordagem pecu li ar,
dade e das fantasias inconscientes
inconscientes destrutivas e defensivas contra ela. Não André G reen, influenciado
influenciado pelos ingleses e também pelos franceses, nos
é fácil introduzir-se em seus conceitos, a não ser vivenciando-os concomi- brinda com um trabalho criativo em Narcisismo de vida, narcisismo de 
tantemente através
através da a nálise pessoal (o
(o que, aliás, também vale para os morte, Ed. Escuta, 1988.
conceitos freudianos, mas, estes são mais compreensíveis, na medida em
que, de certa forma - correta ou deformada - foram incorporados à nossa Quem quiser conhecer melhor Bion, poderá iniciar com o livro de Leon
cultura ocidental). Pode-se tomar um primeiro contato com ele através do Grinberg e cols.: Introdução às idéias de B ion, também da Ed. Imago.
conhecido livro de Hanna Segal: Introdução à Obra de Melanie Klein, da
Imago, em várias edições, tradução da segunda edição inglesa, de 1973, O conceito de filicídio foi criado por Arnaldo Rascovsky e é desenvolvido
da Hogarth Press. N esse livro, à medida que a autora introduz o leitor nos em O assassinato dos filhos (filicídio).
conceitos, indica a bibliografia original, que assim se torna mais com-
preensível. Ed. Documentário, 1983, onde existem trabalhos de outros autores sobre
o mesmo tema. Podemos encontrar Rascovsky e vários autores criativos,
criativos,
Para os leitores que já conhecem Melanie Klein, recomendo a releitura
escrevendo sobre psicanálise e guerra , no livro organizado
organizado por Gley P.
do trabalho de 1940: "0 luto e sua relação com os estados m aníaco-de- e, Imago, 1988.
Costa, de Porto Alegre, Gu e  a
rr  e m o  
rt 
r t 
ri buições
pressivos", que consta de Cont ri b uições à psicanálise da Ed. Mestre Jou.
Este trabalho logo deverá sair pela Imago, nas Obras Completas, editadas
Com esta indicação passamos para os autores nacionais. Em O que é 
por R. M oney-Kyrle, na Inglaterra. Quando acabei de escrever este texto
só havia sido editado o vol. 3 onde constam: "Notas sobre alguns mecanis- suicídio, Editora Brasiliense, 1984, tento (Rossevelt M.S.Cassorla),
M.S.Cassorla), num
trabalho para leigos, mas que tem servido de introdução para profissio-
mos esquizóides" (1946), "Sobre a teoria da ansiedade e da culpa" (1948),
nais, abordar esse conceito, utilizando os referenciais citados, mas não só
"Algumas conclusões teóricas sobre a vida emocional do bebê" (1952),
(1952),
eles. Em Da m orte: estudos brasileiros e Do sucídio: estudos brasileiros, de
"Inveja e gratidão" (1957) e "Sobre o sentimento de solidão" (1963). Nos
que sou o organizador (Ed. Papirus, 1991), encontramos 25 trabalhos de
últimos trabalhos, a autora faz uma revisão dos c onceitos anteriores. Este
autores brasileiros,
brasileiros, que efetuaram pesquisas sobre os temas, sob várias
terceiro volume das Obras Completas é intitulado Inveja e gratidão e ou-  abordagens, não só psicanalíticas. No segundo, encontra-se o trab alho "O
tros trabalhos -1946-1963, Imago, 1991. tempo, a morte e as reações de aniversário",
aniversário", onde o leitor encontrará
Os desenvolvimentos posteriores da escola kleiniana podem ser encontra- bibliografia acessória sobre esse tema. E nas referências dos demais tra-
dos em Melanie Klein Hoje. vol.1 e vol 2, da Imago, 1991 e 1990, respec ti- balhos, praticamente toda a bibliografia brasileira
brasileira estará à sua disposição.
disposição.
vamente. Ali se encontrarão os indispensáveis "Diferenciação entre a per-
sonalidade psicótica e nã o-psicótica", e "Ataques ao elo de ligação", de Evidentemente, a psicanálise
psicanálise não se reduz a Freud e à escola kleiniana,
kleiniana,
Wilfred R. Bion, onde se descrevem as vicissitudes do funcionamento da posteriores. M  as , são os que eu conheço. Pen-
com seus desenvolvimentos posteriores.
' parte psicótica da personalidade, o artigo de Rosenfeld sobre o narcisis-
narcisis- so que a vida é m uito curta para conhecer tudo o que gostaríamos: por
mo citado acima, a chamad a organização patológica descrita por B. Jo- isso optei em aprofundar-me naquilo que me faz mais sentido hoje. Não
seph como "O vício pela quase-morte" (vol.1) e "Morte e crise da meia- sei se isso persistirá, porque o futuro é imprevisível.
1 1 0  Morte e desenvolvimento humano 

O leitor já percebeu que estou justific a n do-me por não ter a capacidade Capítulo 7
de indicar textos, certamente valiosíssimos, de outras abordagens p sicana-
liticas, como as da psicologia do ego, junguiana, a psicanálise com abor-
dagem predominantemente existencialista, as várias orientações lacania-
nas, etc. Possivelmente, em outros c apítulos deste livro, autores mais com-
petentes o farão. O SER HUMANO: ENTRE A VIDA E A MORTE
Visão da Psicologia Analítica
O mais importante, no entanto, é que aqueles que me lêem percebam que
a queda no dogmatismo, de que eu ou a teoria que eu adoto, é a correta,
e a única correta, é um reducionismo estéril, do lado da pulsão de morte,
Laura Villares de Freitas
segundo o referencial que adotei no texto. Por outro lado, propor-se a
conhecer tudo, também é cair na onipotência. Precisamos suportar o não- 
saber, respeitando o que os outros sabem, fertiliz an do-nos com eles, Desde pequena, eu era freqüentemente acompanhada por certas impres-
quando possível, mas, tampouco masoquisticamente, deixar que nos sões, percepções e sonhos que me assustavam e intrigavam. Muitos deles
"queimem" em fogueiras inquisitoriais os que se autodenominam "donos se relacionavam de alguma forma com a morte.
da verdade" e que, em sua insegur an ça, não toleram o diferente. Viver
não é fácil e, por isso mesmo, é fascinante! Posso rememorar algumas dessas vivências. Qu an do eu tinha sete an o s ,
morreu uma irmãzinha, doente, que contava então com três anos incom-
pletos. Havíamos nos mudado de casa e, naquele casarão novo, desco-
nhecido, cheio de me a n dros a serem ainda explorados e sem os meus
"cantinhos" habituais, eu me perguntava onde estaria a minha irmã . E, às
vezes, parecia  que  de alguma forma vinha uma resposta, sem palavr as  ,
tr a n qüilizando-me e fazendo-me saber que ela continuava ali, em algum
dos meandros da casa nova, ou, em outros momentos, que ela estava num
mundo diferente. Era muito estranho...
Antes disso, eu costumava contar a minh a mãe sobre meus encontros,
brincadeiras e conversas com um amigo... que não existia!, isto é, ele
existia apenas p ara mim... Em diversas outras ocasiões, tive a sensação
de uma ou mais "presenças" no quarto em que eu estava, na sala, ou
perto de mim. Sempre me via com muito medo delas. Ocorreram-me
também sonhos ligados ao tema da morte ou ao falecimento de pessoas
próximas.
Hoje, ao refletir sobre essas experiências, constato o quanto elas foram e
são importantes na constituição de minha personalidade e também o
quanto elas continuam m e assustando e intrigando.
Acredito que muitas pessoas, se não todas, têm vivências semelh  a n tes. O
difícil parece ser falar sobre elas, compartilhá-las. Difícil e muito neces-
sário, a meu ver. A perplexidade, a incerteza e o medo parecem ser co- A criança passa então a p ossuir um senso de identidade e a se reconhe-
muns e, quem sabe, se compartilhados, poderão ser lidados de m  a n eiras cer como um ser em alguma medida individual. Com  o prosseguir do
menos fechadas e mais eficazes. desenvolvimento, o brincar desempenha um pa pel importante e é interes-
sante observá-lo. Por um bom tempo, a cri an ça se identifica com os mais
O tema da morte é import an te justamente por tocar em nossos limites diferentes tipos de heróis, os quais têm semp re certos poderes especiais e
mais extremos e também em nossa maior possibilidade de abertura. A a tarefa de derrotar inimigos e monstros. Estes são representações sim-
morte coloca limites à nossa razão, consciência e c apacidade de apreen- bólicas do inconsciente que, como um enorme m anan cial de possibilida-
são e percepção - enfim, à nossa perspectiva d e vida. Por outro lado, des e forças dinâmicas, ameaça a integridade da consciência. A cri an ça
 ju sta me nt e p or se r t ão im pe ne tr áv el, pe rm ite -n os tot al lib er da de à i ma gi - se identifica com os heróis que a parecem nos contos, desenhos animados,
nação, que pode fluir à vontade e acolher as mais diferentes idéias e filmes e histórias inf an tis porque psiquicamente está realiz a n do uma ba-
i magens a seu respeito. talha heróica: desenvolvendo um campo de consciência que se diferencie
do inconsciente. Sua vivência é a dG ter de matar o monstro, o dragão,
Apresento, neste capítulo, algumas dessas idéias e imagens, que têm aquele que quer dominar e controlar tudo e todos, isto é, aquilo que
envolvido a humanidade desde os tempos mais remotos. O p an o de ameaça subju gá-la e que ela iden tifica como o mal. Mais tarde vai ser
fundo para estas considerações é a psicologia analítica de Carl Gustav necessária uma relativização, um "acerto de contas"...
 Jung, s obretudo em suas c oncepçõe s sobre a n atur eza da psique, o ar-
quétipo, o princípio de sincronicidade e o processo de individuação. A Muitos distúrbios de sono das crianças p odem ser entendidos a p artir
alquimia, ao conceber uma operação que denomina mortificatio, no s dessa perspectiva. O sono representa um período em que a consciência
oferece interessantes imagens e associações. Muitas idéias e intuições relaxa e se entrega ao inconsciente, que pode então manifestar-se nos
se apresentam em sonhos, sejam os que tratam diretamente do tema sonhos. A dificuldade para adormecer ou o freqüente despertar à noite
sejam os de pessoas próximas à morte. As experiências vividas no esta- com pesadelos podem significar que a consciência está se sentindo
do intermediário entre a vida e a morte, tais como são relatadas por ameaçada demais, prestes a sucum bir à força do inconsciente. A crian-
indivíduos que se recuperaram de um estado de inconsciência, têm sido ça precisa ter a confiança de que pode dormir e despertar no dia se-
objeto de muitas investigações na atualidade. As religiões tratam exaus- guinte, sem ter perdido sua identidade, a qual está sendo construída a
tivamente da questão da morte, que ocupa um lugar central em seus duras penas.
ensinamentos - destaco o Livro dos mortos do Antigo Egito e o Livro 
Outra maneira de se lidar com a questão da morte é através da dimensão
tibetano dos mo rt o s, menos conhecidos em nosso meio.
da natureza, que a apresenta com freqüência em nossas vidas: o a n i ma l
que morre, a planta qu e murcha, o dia que termina e a noite que surge, a
O Processo de Individuação lua que ciclicamente nasce e morre todo m ês.

A consciência se desenvolve sobretudo a partir de polarizações entre Na adolescência, coloca-se com muita ênfase a questão da individuali-
opostos, isto é, da vivência do conflito. A oposição mais básica parece dade: "Quem sou eu? O nde estão os meus limites?" O adolescente não
ser a que se dá entre a consciência e o inconsciente. Este é concebido brinca mais de herói poderoso, mas ainda experimenta até onde vão
na psicologia analítica como inato, pleno de energia e constituindo um suas capacidades. Quando isto se dá apenas no nível concreto, pode ser
enorme manancial de p ossibilidades latentes. A partir das primeiras muito perigoso. Nosso limite concreto é a m orte do corpo. Muitos aci-
percepções, tais como as de frio/calor, os cheiros, fome/satisfação, o dentes, geralmente de motocicleta ou carro, os quais simbolizam o pró-
bebê começa a desenvolver fragmentos de consciência, que vão aos prio corpo, podem ser entendidos como decorrentes de testes de limi-
poucos se organizando num camp o e constituindo um centro: o ego. tes. Na adolescência ocorrem também gr  a n des períodos de depressão e
O ser humano: entre a vida e a morte  1 1 5 

apatia, numa maneira mais introvertida de passar pelas transformações O material de um m enino de cinco anos exemplifica bem essa situação.
todas, que implicam em perda e despedida do mundo da infância e Ele vinha fantasiado de super-homem para as sessões, vivenciando ser
aquisição de um novo modo de ser. Comportamentos de vandalismo e esse herói com todos os superpoderes. Estava send o muito import an te
destruição, em grupos pela cidade ou individualmente na família, geral- para seu desenvolvimento que ele o fizesse, pois, ao vivenciar a "super-
mente expressam o quão intensamente o adolescente sente que tem de visão" ele realmente desenvolvia suas habilidades visuais, ao se imaginar
abrir e conquistar espaço para si e para o novo, muitas vezes destruindo superforte ele fazia grandes avanços motores, ao dramatizar um ser tão
o que já existe e representa o velho. poderoso, ele realmente fortalecia sua identidade, e assim por diante.
Um dia ele chegou sem a roupa de super-homem, com um cu rativo
 Ju ng (1 ) e qu ip ar a a v id a a o p er cu rs o d o so l. Es te na sc e, va i- se el ev  a n do enorme, e contou: "Escorreguei na fantasia. Caí e me machuquei." Ele
no horizonte, encontra-se a pino ao meio-dia, passando então a realizar estava descrevendo literalmente o que ocorrera: escorregara na capa do
um movimento descendente; põe-se no fmal da tarde - isto é, morre - e super-homem. Mas ele estava descrevendo também o "escorregão na
então percorre o outro lado da Terra durante a noite. A vida hum a n a fantasia" num outro sentido, isto é, fora até seus limites; a inflação psí-
teria esse mesmo ritmo, numa curva parabólica. Jung enfatiza o momento quica passara a ser perigosa, machucara-se, deprimira-se, e tinha agora
do meio-dia, ou a metade da vida, que denomina metanóia, como consti- a oportunidade de se reconhecer c omo um menino, fortalecido pela
tuindo a ocasião de a consciência ab rir-se para o outro lado, isto é, tendo vivência prévia do super-homem, mas começando a se desidentificar
se diferenciado e afastado da escuridão e sentindo-se mais fortalecida, com ele. Naquele momento, passou a ser criativa em seu d esenvolvi-
então reconsiderar o valor criativo do inconsciente e se voltar para o que mento a vivência da qued a. Não é à toa que temos aquela expressão:
lhe falta ainda desenvolver. "Caí do cavalo".

Depois o sol começa a declinar no horizonte, em ana logia ao que acon- N a metanóia a situação é diferente. Há a inversão dos valores e a vivên-
tece com o corpo. A consciência, no entanto, continua em expa nsão, cia da morte do ego. São as histórias ou mitos em que o próprio herói
tendo agora de considerar mais atentamente as crescentes limitações tem de morrer - não ma is o dragão - numa vivência d e sacrifício, morte
físicas e a perspectiva d o final da existência do corpo. Jung diz que n o e renascimento. Em nossa cultura, o melhor símbolo para esse mom en-
meio-dia da vida nasce a morte, e que esta passa a ocupar um lugar to talvez seja o do Cristo na cruz. Muitas vezes aparece a sensação de
fundamental na consciência, devendo mesm o constituir o principal cen- perda de sentido da vida, de estar perdido e desorientado na floresta,
tro de interesse no envelhecimento. no deserto, ou numa viagem noturna pelo oceano. Os referenciais anti-
gos da consciência não servem m ais; é preciso encontrar novos. É preci-
O ego sadio na infância tem a vivênc ia de ter dominado o dragão. M as ele so se voltar deliberadamente pa ra o self, ou arquétipo central, na pro-
não consegue matá-lo, pois o dragão é o próp rio inconsciente. Nas histó- cura de uma nova orientação. Não se trata mais de "eu sou, eu quero,
rias infantis, o monstro costuma ser congelado, banido para um território eu posso, eu decido", mas impõe-se também a vivência de "eu dependo".
muito distante, ou mesmo morto; mas dep ois reaparece, pois é indestrutí- O ego passa a reconhecer e a se preocupar com os aspectos que ainda
vel. O ego apenas apazigúa um pouco o inconsciente, abre canais para não desenvolveu, aos quais ainda não se dedicou .
sua energia, chega a termos com ele para garantir sua sobrevivência. A
consciência vai-se fortalecendo, estruturando-se mais e mais, ampliando- A partir dessa vivência, pode-se construir um novo centro da personali-
se, mas não chega a dar conta da totalidade psíquica. Vivencia momentos dade, entre o ego e o self. É a descoberta do inconsciente não mais
em que se sente idêntica a ela, todo-poderosa, e outros em que se sente como um dragão ameaçador, mas como um interlocutor, um amigo em
ínfima e frágil. E é entre esses dois extremos que ela se situa dinamica- potencial, que pode colaborar e contribuir mostrando à consciência o
mente, sempre test a n do e procurando am pliar seus limites. que lhe escapa. 0 novo centro passa a se situar num ponto intermediá-
1 1 6  Morte e desenvolvimento hum ano  O ser humano: entre a vida e a morte  11 7 

rio, que leva em conta as questões de a mbas as instâncias, isto é, os satisfatório não pode ser conseguida, resultam estagnação e agonia, apa-
símbolos em seu potencial mais pleno. Na segunda metade da vida a recendo o símbolo do desmembramento.
regulação psíquica pode se dar pelo diálogo mais fluente entre cons-
ciência e inconsciente, conseguido através da vivência criativa do sacri- A repressão de u m dos aspectos do conflito impossibi li ta sua elaboração
fício do ego, que costuma ser simbolizado como uma morte e posterior e faz com que ele se degenere e assuma caráter destrutivo. Posteriormen-
renascimento. te os conteúdos inconscientes irrompem na consciência, ocasion an do
uma perturbação psíquica. A psicologia junguiana trata do símbolo do
São no entanto muitos os desvios possíveis. Há pessoas que passam a uroboros, a serpente mítica que morde a própria cauda, relacionando-o
vida inteira vivendo o mito do herói todo-poderoso. A "idade do lobo" ao estado psicológico primal em que ainda não se deu a separação em
mostra isso de m an eira bizarra: homens pelos quarenta a n os que resis- opostos. É um estágio que podemos associar a momentos específicos
tem a passar pela vivência da n ova fase, procurando namorar meninas como nascimento e morte, mas não à possibilidade de qualquer mud  an ça.
adolescentes, na tentativa de perm anecer na fase anterior e evitar o O ú nico caminho criativo é reconhecer os opostos e suportá-los, apesar
sofrimento inerente ao sacrifício e à transformação próprios da meta-  de advir então um grande sofrimento.
nóia.  Jun g (1) come nta que é com o se o h omem pa ras se os pont eiros
do relógio e esperasse que a natur eza também o fizesse. Devido ao A imagem de estar desmembrado ou sendo desmembrado surge, segundo
medo da vida, fica psicologicamente atrasado, clam  a n do o direito de a hipótese de Pilger-Holdt, quan do se está psicologicamente fixado na
permanecer no apogeu do meio-dia. Quem se recusa a acompanhar o unidade primal, o que leva a uma estagnação insuportável. O desejo de
ritmo natural da vida, perman ece como que suspenso, duro e rígido, harmonia máx ima reprime aspectos de divisão e abandono, cria a imagem
fixado nas recordações do passado, sem relaç ão com o presente. A do paraíso ou de um grande útero acolhedor e nutriente, mas significa a
partir da metanóia só permanece realmente vivo quem estiver disposto dissolução do ego. O símbolo do desmembramento, se devidamente con-
a morrer com vida, afirma Jung. siderado, permite a elaboração criativa dessa situação que em si constitui
um dos desvios possíveis no processo de individuação.
A neurose consiste numa alienação da p rópria natureza. E tão neurótico
o idoso que não se preocupa com a morte quanto o jovem que reprime
 Jaff é (3) c omen ta q ue o p rocess o de in divid uaç ão nã o é some nte uma
suas fantasias sobre o futuro. As religiões, comenta Jung, são comp lica-
escola de vida, mas também uma preparação para a morte, em que se
dos sistemas de preparação para a morte. N as duas religiões mais disse-
destacam a velhice e o fim da vida como tendo um significado particular.
minadas, o Cristianismo e o Budismo, o significado da vida se consuma Nesta fase, a tomada de consciência dos aspectos até então relegados ou
na morte. Este autor lamenta o fato de as religiões desde o Iluminismo
projetados é fundamental. A idéia do reencontro com os mortos queridos
serem consideradas como espécies de sistemas filosóficos, isto é, algo
indica a possibilidade de integração dos conteúdos que haviam sido pro-
produzido pela "cabeça". Ele sugere que se pense, ao invés, no coração,
 jet ado s n ess as p esso as.
na medida em que os símbolos religiosos têm um caráter revelatório e de
criação espontânea, e se ligam a um a sabedoria mais completa, que não
A natureza conhece a morte e se prepara para ela, afirma Jung (1). Na
pode ser abrangida apenas pela razão.
velhice a contemplação, a reflexão e as imagens interiores vão assumindo
Pilger-Holdt (2), ao estudar o tema do desmembramento, identifica-o importância crescente e a maioria das fantasias, sonhos e idéias que sur-
como o símbolo extremo de conflito. A vivência dos opostos e do conflito gem são antecipações, exercícios preparatórios. Objetivamente, o que a
entre eles são condições necessárias para a vida psíquica e contêm um consciência pensa a respeito da morte é indiferente. Mas subjetivamente
enorme potencial energético para o desenvolvimento. No entanto, quan- a diferença é enorme, podendo significar saúde ou patologia, sentido de
do a conciliação e integração dos opostos num nível mais abrangente e vida ou um vazio insuportável.
Morte e desenvolvimento humano  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  1 1 9 
1 1 8 
mistas que ao sentir o medo da morte, o homem vive o momento tenebro-
A Alquimia e a Mortificatio
so de seu destino em que tem de se ap resentar como uma tota lidade.
 Ju ng de dic ou am pl os es tu do s à al qu im ia , q ue co ns id er av a pr ed ec es so ra Em termos psicológicos, mo rt ificatio diz respeito à sombra. O negrume,
t an to da química qua nto da psicologia, numa época em que o conheci- quando não é a condição original, é realizado mata ndo-se algo, comu-
mento objetivo e o subjetivo não estavam dissociados. A alquimia parece mente o dragão, o rei, o sol, o leão, uma águia, um sapo. O dragão, como
ter-se originado no Egito Antigo, mas seu a uge foi na Idade Média. Era  já comen tamos, sim boliza o inconsc iente, a psique instint iva. Re i, sol e
um trabalho de laboratório na tentativa de transformar a matéria bruta na leão referem-se ao ego, ao instinto de poder e também a um princípio
Pedra Filosofal ao depurá-la e subm etê-la a sucessivos processos. Na Ida- coletivo dominante ou regulador, os quais devem ser modificados para
de Média, a alquimia viveu seu p onto máximo de desenvolvimento, se- que um novo centro desponte. Outro  objeto  da mortificatio é a figura da
guindo-se sua repressão. Byington (4) faz um a interess  a n te leitura da his- pureza e da inocência: quando algo branco é morto, putrifica e se torna
tória, denunciando a dissociação a nível cultural ocorrida no século negro.
XVIII, que culminou com a Inquisição e o desenvolvimento da ciência
apenas objetiva, sendo banida a alquimia. Os textos alquímicos a que É como se o ego, ao encarnar-se e ousar existir como um centro autôno-
temos acesso são em linguagem cifrada e simbólica, utiliz an do-se de mui- mo de ser, adquirisse realidade substancial, mas também se tornasse su-
tas imagens e fórmulas, remetendo sempre ao nível objetivo e ao subjeti-  je ito à de co m po si çã o e m or te . A lu sõ es à de ca pi taçã o també m ap ar ec em ,
vo. A integração entre esses dois pólos era intensamente vivida pelo al- e Jung comenta a cabeça oracular, símbolo da consulta à totalidade para
quimista: ao final do processo, a matéria se transmutava e ele mudava seu informar-se além das possibilidades do ego.
nome, express an do a profundidade da transformação sofrida em sua Refletir sobre a morte pode levar uma pessoa a ver a vida sob o prisma
identidade. da eternidade. A origem e o desenvolvimento da consciência parecem
estar ligados à experiência da m orte. Edinger comenta que talvez o pri-
Edinger (5) apresenta um amplo estudo sobre a psicoterapia e a alqui- meiro par de opostos percebido pela consciência do homem primitivo
mia, no qual m e apóio para as considerações a seguir. Marie-Louise von tenha sido o contraste entre o vivo e o morto. Provavelmente apenas um a
Fr an z (6) também aprofundou a questão das relações entre a morte na criatura mortal seja capaz de consciência. Nossa m orta li dade é nossa fra-
alquimia e os sonhos sobre a m orte.
queza maior e nossa força suprema.
Edinger descreve sete operações alquímicas, que ap li ca também ao pro- As mais antigas formas de expressão religiosa se associam a ritos de se-
cesso psicoterápico. Uma delas, a que se dá pela morte, é a mortificatio. pultamento, sendo o simbolismo mortuário egípcio a primeira grande tes-
Esta pode ser considerada do ponto de vista exclusivamente biológico, temunha da realidade da psique. É como se a psique não pudesse existir
significando o fim do corpo. Mas se incluirmos também o ponto de vista como uma entidade separada , até descobrir a morte no aspecto literal,
psicológico, ela passa a remeter a uma transformação sentida como enor- concreto e físico. O inconsciente coletivo equivale à terra dos mortos ou
me, da persona li dade inteira e propiciadora da vivência do renascimento à vida após a morte, e uma descida ao inconsciente coletivo é sentida
num novo modo de ser. como uma morte deste mundo.

A obra alquímica tem três estágios: nigredo, albedo e nmbedo. O nigredo, O encontro com o inconsciente, isto é, a experiência d o todo, é sempre
ou enegrecer, pertence à operação denom inada mortificado, ou  pu tre fa c-  vivido pelo ego como uma derrota d olorosa, o que a alquimia exp ressa
tio, que se relaciona com escuridão, derrota, tortura, mutilação, morte e  através de símbolos de m orte, mutilação ou envenenamento. Por outro
apodrecimento. Referem-se à  pu tre fa cti o fezes, excremento, maus odores, lado, seguindo a lei dos opostos, na medida em que o ego admite a mor-
poluição do ar, vermes, e o temor é um de seus agentes. Dizem os alqui- te, constela-se a vida nas profundezas. Esta é a essên cia da psicologia do
12 0  Mo rt e e desenvolvimento humano  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  121

sacrifício. As vivências de nascimento e m orte, presentes em cada expe- A vegetação também costuma aparecer ligada à morte. O deus O síris era
riência de tr an sformação durante a vida, não são sinônimos de com eço e muitas vezes simbolizado como um grão de trigo. Os egípcios acreditavam
fim, mas sim o conteúdo do potencial de desenvolvimento. Um sacrifício na ressurreição, que associavam ao grão e à vegetação, imagens ao mes-
das perspectivas pessoais é necessário a cada avanço, e este é vivido como mo tempo de tran sitoriedade e de vida eterna.
uma morte.
Um tio muito próximo veio a falecer aos cinqüenta e poucos anos, víti-
Sonhos Sobre a Morte e Próximos da M orte ma de uma doença terminal. Em certa ocasião, tive um sonho em que
ele vinha ao meu encontro e dizia que estava muito bem, observando e
refletindo. Com  uma tranqüilidade enorme, explicava-me ainda que se-
Os sonhos são produtos naturais e espontâneos da psique e mantêm gran- ria dividido em três e que cada uma dessas partes retornaria à vida,
de independência em relação à consciência - prestam-se, portanto, a in- numa existência ind ividual. Acordei impressionada com o sonho: emo-
vestigações sobre o inconsciente e a natu reza psíquica do ser humano. cionalmente tocada pelas saudades dele, ao mesmo tempo muito con-
Marie-Louise von Franz destaca-se no m eio junguiano por seus estudos fortada pela serenidade do sonho e intrigada também com a idéia pecu-
recentes sobre sonhos ligados à morte (3;6). Observou que eles não se liar de reencarnação que me fora apresentada. Naquele dia encontrei-
diferenciam dos demais eventos oníricos, pois mantêm uma relação com- me com minha tia, sua viúva, e contei-lhe que havia sonhado com ele.
pensatória com a consciência e colocam-se a serviço do processo de indi- Ela comentou que na véspera se completavam exatamente quatro anos
viduação. Ocorrem com freqüência a partir da meia-idade. Isto não signi- desde sua morte e que, m uito emocionada por isso, ela não havia podi-
fica que a morte esteja próxima, mas que a consciência está fixada numa do dormir à noite. Contei-lhe então meu sonho, que a essas a lturas eu
atitude excessivamente juvenil em relação à vida, a qual requer uma rea-  já con side rav a com o noss o sonh o, e ti ve a imp ress ão d e qu e ela ficou
valiação. Tais sonhos não indicam um fim psíquico, mas apontam para a sensibilizada e de alguma maneira confortada. E fiquei ainda mais intri-
morte do corpo sempre que a atitude consciente for de negação desta, gada com o que me parecia então ter sido um sonho que eu tivera
como por exemplo o não-reconhecimento de uma doença terminal ou do também por e para ela.
passar dos anos. Por outro lado, os sonhos que antecedem à morte num
curto espaço de tempo geralmente sugerem a preparação para um a pro- Quanto à idéia muito difundida da reencarnação, Jung (7) tece algumas
funda tr a n sformação, a qual implica em algum tipo de continuidade da considerações. Muitos mitos afirmam que se a alma tiver atingido certo
vida psíquica. Seu conteúdo ap resenta grande diversidade de imagens mí- nível de desenvolvimento não necessitará mais retornar à Terra, ultrapas-
ticas, análogas aos ensinamen tos de diferentes religiões sobre a vida pós- sando o desejo de se ver reencarnada, libertando-se do mundo tridimen-
morte. sional e atingindo um estágio diferente de existência. Mas que, se ainda
houver um carma a cum prir, a alma recairá no mundo dos desejos e
Em alguns sonhos próximos à morte, von Franz constatou uma atitude retornará à vida.
de distanciamento ou indiferença quanto ao corpo. Também aparece
com freqüência o símbolo do fogo, que já na a lquimia era visto como a É impossível separar a idéia da reencarnação da de carma. Resta saber
essência imortal. As operações alquímicas pelo fogo tinham o sentido de se o carma é concebido como pessoal, levado de uma vida à outra, ou
realizar uma purificação da matéria, extraindo dela o essencial. O fogo é como impessoal, assimilado no momento do nascimento. O próprio
descrito em muitos textos alquímicos como o transmutador da morte, o Buda teria se esquivado de resp onder a essa questão, afirmando que o
que provoca a ressurreição, aludindo a um processo de desencarnação e máximo de sentido da existência que podemos alcançar reside na pró-
liberação do corpo, na morte. Esta geralmente é associada à fr ieza e pria vida. Jung sugere que consideremos o carma como um arquétipo
enregelamento. impessoal, que toma o mundo inteiro numa determinada ép oca: atual-
1 2 2  Morte e desenvolvimento humano  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  1 2 3 

mente, a questão da tr íade divina e sua confrontação com o princípio razão, mas dar-lhe atenção e ousar esboçar uma concepção, já que o
feminino, isto é, a questão da origem do mal. inconsciente nos oferece comunicações e alusões m etafóricas.

Os espíritas falam na possibilidade de um a nova encarnação de seres  J un g, ai nd a, ob se rv ou qu e a s f ig ur as do s mor tos q ue ap ar ec em no s s o-


vindos do além que, inclusive, podem se comu nicar com os vivos através nhos estão sempre em busca de informação, alegando terem parado de
dos médiuns. Embora alguns pesquisadores atuais tentem comprovar es- adquirir conhecimentos no momento da sua morte. Haveria um saber da
ses fatos, não há nada conc lusivo. Tais idéias podem se reduzir a comp le- natureza que só pode ser apreendido em condições tridimensionais, de
xos do inconsciente coletivo. O fato é que do ponto de vista psicológico, tempo e espaço, e a possibilidade de transformação existiria apenas no
que independe da comprovação empírica, tais crenças podem oferecer mundo dos vivos. Os m ortos muitas vezes aparecem como continuando
alento a pessoas que sofrem com a falta de perspectiva de vida. seu processo de desenvolvimento, mas precisando dos vivos para se infor-
marem e alcançarem o estágio mais avançado das descobertas e realiza-
Outro tema que aparece em sonhos próximos à m orte é o que representa ções feitas por estes. E na vida que se dá o con fl ito entre opostos, o qual
as metades do ser. Diferentes imagens m itológicas apresentam o homem permite a ampliação do nível de consciência.
que nasce e vive na Terra como sendo apenas um m eio-homem, um ser
incompleto, que na morte experiencia a alegria de poder se reunir à sua Experiências entre a Vida e a Morte
parte complementar. Em sonhos próx imos à morte o tema do hierosgamos 
(casamento sagrado) aparece com certa freqüência. Sob certo ângulo, a Em 1934 Ju ng escreveu A alma e a mo rt e (1), em 1935 o Comentário 
morte é uma terrível brutalidade: no lugar de uma pessoa com quem se  psic ológ ico so bre o L ivro tib etano dos m ortos (9). Em 1944, fraturou um
convivia, resta o silêncio. Mas a . morte se apresenta também como um pé e logo depois sofreu um enfarte cardíaco, passando então por perío-
acontecimento alegre, um mistério de união ou casamento com a metade dos de inconsciência em que teve certas visões, chegando a concluir que
que faltava, uma festa. estava prestes a morrer. Ele relata essas experiências no capítulo "Visões"
de seu livro Memórias, sonhos e reflexões (7), que escreveu no fmal da
Uma mulher de quarenta e um anos que acomp  a n hei em psicoterapia
vida e cuja pub licação só autorizou desde que fosse póstuma. Jung fale-
relatou um sonho que considero exemp lificar bem esse duplo aspecto:
ceu em 1961. Nos anos que se seguiram à sua vivência de inconsciência,
Ela subia uma montanha e na encosta via um enterro. Ao mesmo  reviu os dois textos citados. Também em seu livro de reminiscências, afir-
tempo era ela quem estava mo rt a, sendo enterrada, e quem assistia  ma que o que ainda lhe faltava compreender era o que havia suscitado
ao enterro. Ela então deixava o enterro para trás e ia para o outro  seu nascimento, sendo este o elemento mais poderoso de seu ser.
lado da montanha. Ali se deparava com um casam ento, numa ceri- 
mónia muito pomposa e belíssima, que a emocionava muito. As exp eriências que Jung apresenta nesse capítulo lhe conferiram a cer-
teza de que o espírito, ao contrário da capac idade de percepção, perdura
Nos sonhos próximos à morte, encontram-se também alusões a um a bar- além da m orte, segundo confidenciou a Frey-Rohn (3). Afirmou a ela que
reira separ a n do o mundo dos vivos e o dos mortos, e ao perigo, para o fascínio que os homens sentem pela mitologia da coniunctio (conjunção
ambos os lados, em ultrapassá-la. Edinger (8) denomina "metafísicos" al- e integração dos opostos) provém da memória retrospectiva das gran des
guns desses sonhos, na medida em que apresentam dificuldade de inter- i magens do além, e que estas são tão belas, sublimes, cheias de paz e
pretação no nível subjetivo e nos tentam a considerá-los como possíveis plenitude, que foi para ele um gr ande sacrifício retornar à vida depois de
afirmações simbólicas sobre uma outra realidade. Jung (7) no ent an to tê-las presenciado.
comenta a impossibilidade de comprovar qualquer afirmação a respeito
da morte, e enfatiza a necessidade de mitologizar a respeito: renunciar a  Ju ng re lat a t er vis to a T err a d e u ma gr an de dis tân cia e u m me teo rit o q ue ,
transformar a questão num problema intelectual, valendo-nos apenas da como ele, flutuava no espaço. Um hindu o meditava e o esperava e, n a
medida em que ele se aproximava d esse ser, era-lhe dolorosamente ar- Graças aos avanços da m edicina, atualmente é possível obter e investigar
rancada toda a fantasma goria de sua existência terrestre, subsistindo, no relatos de pessoas que tiveram experiências num estado intermediário
ent an to, ele próprio, numa vivência de extrema pob reza e extrema satisfa- entre vida e morte. Os limites da consciência não coincidem com os do
ção. Não sentia mais nenhum desejo e sabia que iria ao encontro de seu sistema biológico ou nervoso. Frey-Rohn (3) apresenta uma síntese e co-
grupo de seres humanos, num local iluminado. mentários a respeito de depoimentos de pessoas que foram consideradas
clinicamente mortas e depois retornaram à vida.
Diz ter encontrado depois seu médico na forma p rimária e este o teria
m an dado voltar à Terra. Recobrou consciência, mas passou ainda três As pessoas que estiveram nesse estado relatam percepções do local em
semanas profundamente decepcionado e deprimido. Nesse p eríodo, cos- que se encontravam (quarto, hospital, etc) e também de algo qu e identifi-
tumava acordar à noite e permanecer cerca de uma hora desperto, num cam como uma outra dimensão, constituída basicamente de luz. Nesta,
estado de êxtase em que teve certas visões: um jardim de romãs, um dizem ter permanecido num corpo, mas diferente do corpo físico por ser
casamento místico e cabalístico, as núpcias do cordeiro, o hierosgamos de sentido como sem peso, fora do tempo, sem limitações m ateriais - algo
Zeus e Hera. Descreve o que vivenciou como a beatitude de um estado que geralmente descrevem como espiritual, pura consciência ou como
atemporal. Viveu algo semelhante na déca da de 50, depois da morte de uma nuvem, fumaça ou vapor, e que mantém conexão com o Eu. A esse
sua mulher, quando esta lhe apareceu num sonho em que os dois se corpo é associada grande velocidade e um a especial capacidade de per-
contemplavam numa totalidade objetiva. Este autor comenta que as rela- cepção, que supera a dos sentidos.
ções afetivas são sempre carrega das de projeções, juízos de valor, desejos A vivência é de um a espécie de cisão. O Eu parece se revitalizar e,
e exigências, e que é preciso se desprender de tudo isso para se c hegar ao embora não tenha uma forma corpórea, continua perceptível para si pró-
conhecimento objetivo e ao mistério central da coniunctio. prio, às vezes como um corpo astral, tr a n sparente e azulado, e sempre
sentido como imaterialmente muito belo. O corpo físico, geralmente tam-
Depois da doença, Jung relata ter entrado num período de gr an de produ- bém percebido, permanece inconsciente. Os pacientes relatam que nesse
tividade em que explorou novas formas de expressão, desistiu de tentar estado não sentem mais dor, mas ap enas sensação de harmonia 5 liberta-
i mpor suas idéias e passou a se submeter à fluência espontânea dos pen- ção. É comum a imagem do túnel: uma parte permanece presa o corpo
samentos. Afirma que nunca mais se libertou da impressão de que a vida inconsciente, enquanto a outra é assimilada no âmbito espiritual, passan-
é um fragmento d a existência, o qual se desenrola num sistema de três do a constituir um "Eu sutil", como já sugerira Ju ng (1). Este então se
dimensões com uma finalidade específica. Passou a viver uma aceitação encontra numa situação luminosa, de intensa clareza e nitidez, em plena
incondicional do ser e das condições da vida. Enfatiza a importância de harmonia e objetividade. Alguns se referem também ao surgimento de
acolhermos os pensamentos que nos ocorrem sem qualquer juízo de va- uma m úsica de especial beleza, a espalhar tranqüilidade, e à p ercepção
lor, considerando-os como uma parte de nossa realidade. de um ser puramente espiritual. A palavra parece ser pouco importante -
há relatos da percepção de uma  "voz",  um nome proferido, pouca coisa.
A palavra, quando se dá , vem sempre depois da vivência da luz, da cor e
No final de sua vida, Jung se c onstatou vivendo uma grande estr an heza da música. Todos relatam o aparecimento impressionante de uma luz
e incerteza, misto de espa nto, decepção e satisfação, e ao mesmo tem- muito intensa e clara, percebida como disposta a ajuda r o paciente, e que
po um sentimento crescente de parentesco com todas as coisas. Rela- às vezes se personifica.
tou a Aniela Jaffé (3) que ainda lutava com uma enorme vontade de
viver e que, apesar de p assar por momentos depressivos, vivenciava, Ao encontro com os seres luminosos, segue-se uma retrospectiva da vida
graças à sua percepção da "atemporalidade do tempo", uma sensação passada: o morto revive toda a sua existência terrena, mas numa incrível
fundamental de alegria. velocidade e com grande nitidez e sensação de veracidade e objetividade.
Alguns pacientes relatam não se lembrar de como o Eu voltou ao corpo
físico. Outros falam de uma experiência de sucção ou choque, sempre o paciente mais necessitado de uma experiência, que através da conexão
enfatizando o qu a n to é penoso retornar, afastar-se daquela dimensão que com imagens com pensatórias de harmonia e integração, se li gue à cura
os deixa extremamente saudosos. do corpo debilitado e desequilibrado.

Experiências semelhantes são relatadas por pessoas que estiveram à beira  Ju ng (1 ) s e int er es so u po r fe nô m en os pa ra ps ic oló gi co s, te nd o i de nt ifi ca -
da morte por afogamento, congelamento ou queda, e por alpinistas que do neles coincidências irracionais e acausais entre eventos de diferentes
ultrapassaram oito mil metros de altitude. naturezas, que no entanto apresentam um sentido único. Denominou
"sincronísticos" tais acontecimentos e sugeriu a existência de um fator
As vivências entre a vida e a morte, que Frey-Rohn denomina "visões da responsável, o qual seria de natureza psicóide, isto é, não-psíquica mas
morte", podem ser relacionadas aos sonhos sobre a morte, aos êxtases existente no arquétipo, e que poderia ser ativado por emoções muito
místicos e a certas considerações feitas no âmb ito da parapsicologia. intensas. Este autor levanta a hipótese de que a psique seria capaz de
an ular as categorias de tempo e espaço, que a ela aderem com o qualida-
Ambos, os sonhos e as visões, abordam o significado da morte, apresen-
des relativas e condicionadas. A natureza da psique parece ser transes-
tando conteúdos de caráter irracional e numinoso. Mas há diferenças
pacial e transtem poral, e sua relação com o cérebro bem mais contro-
significativas: os sonhos trazem um colorido pessoal, enquanto as visões
vertida do que tem julgado a ciência. Jung reconhece tratar-se de uma
se caracterizam por falta de sensibilidade sensorial, com imagens de im-
concepção difícil de ser assimilada, mas, ante os fatos que se apresen-
pessoalidade e distanciamento; estas não apresentam aspectos somb rios e
tam, julga-a necessária e imperativa, se quisermos avançar na compreen-
negativos como aqueles. Ambos, quando evocados e assimilados à cons- são do ser humano.
ciência, propiciam um a transformação na personalidade, mas enquanto
os sonhos geralmente favorecem o preparo para a morte, as imagens das Marie-Louise von Franz (6) afirma que a parapsicologia se relaciona à
experiências no estado intermediário parecem ser relevantes sobretudo alquimia, pois ambas buscam um ponto de vista universal que considere a
em relação à cura do corpo.
psique e a matéria como uma realidade única, e a morte como u ma sepa-
 T a n
to nas visões da morte qua nto no êxtase místico há o relato de um ração apenas parcial entre elas. A morte seria em su a essência uma tr an s-
choque inicial, seguido pela travessia de um túnel e pelo despertar de um formação psicofísica.
Eu diferenciado, que passa então pelas experiências acima descritas. Na
Há também tentativas de se reduzir as visões de morte a perturbações da
mística iraniana do século XII há a idéia de um mundo intermediário, no
percepção, a fatores químico-farmacológicos, ou ainda a fatores fisiológicos
qual o corpo m aterial se espiritualiza e o espírito se transforma em corpo
como falta de oxigenação cerebral, etc. Embora importantes para elucidar
sutil. E, tanto o místico quanto o que se recup era do coma, relatam ter a 
alguns aspectos, estas concepções ignoram o fato de qu e tais visões tr azem
vivência de um renascimento no retorno.
uma vivência de convincente realidade, que perdura p or muito tempo e se
Chama a atenção no entanto o fato de o místico relatar experiências associa à tran sformação psíquica que costuma se seguir.
terríveis, de escuridão, terror e confronto com monstros e aspectos som-
brios, alternadas às de luminosidade e harmonia, enquanto as visões de Frey-Rohn sugere que o princípio de sinctonicidade, d escrito por Jung
morte apresentam ap enas o lado belo, claro e de ajuda dos seres ilumina- como relativo à c oincidência significativa entre a psique interior e eventos
dos. Relaciono este fato à grande d iferença entre os'dois tipos de expe- externos, seja também ap licado às relações entre os processos que se dão
riência: o místico procura conscientemente vivenciar a transcendência, ao simultaneamente no corpo e na psique do indivíduo. Ela se baseia nos
passo que o paciente comatoso é passivo neste aspecto. É como se o estudos de Meier a respeito das práticas de incubação na Grécia A ntiga.
místico estivesse numa condição mais p ropícia à vivência da mortificatio e  Nestas, o doente deveria passar ao menos uma noite num aposento espe-
cial, denominado abaton, no templo de Esculápio, a fim de ter um sonho
1 2 8  Morte e desenvolvimento humano  O ser humano: entre a vida e a mo  rt e  1 2 9 

ou visão que o pusesse em contato com a divindade - é assim se possibili- lação de um arquétipo, capaz de promover a cura. Permanece no entanto
taria a cura. M eier considera que a natureza arquetípica dessas práticas uma dúvida: Nos mistérios, tanto os ritos e cultos quanto a relação pes-
consiste no aspecto curad or e se vale do conceito de sincronicidade entre soal estabelecida com o sacerdote são fundamentais como propiciadores
os processos que ocorrem no corpo e na psique para compreendê-lo. Nas da cura; em relação aos comatosos, como falar em participação da cons-
experiências intermediá rias entre a vida e a morte, tanto as vivências lu- ciência, a qual é condição para a transformação?
minosas, quanto a escuridão corporal parecem expressar uma única situa-
ção: a questão da sobrevivência ou m orte. Frey-Rohn, ao refletir sobre esta questão, baseia-se nos comentários de
Dieckman sobre um Eu onírico, mais permeável a novas aquisições e
O arquétipo, da maneira como acabou sendo concebido por Jung, é um mudanças d o que o Eu desperto e, portanto, por onde se iniciariam os
princípio que form a o m undo, organiza as relações psicofísicas e é tam- processos de transformação dentro da análise - daí a importância do tra-
bém cap az de dispor dos a tos criativos, independentemente do tempo. E balho com sonhos. Em analogia a este Eu onírico, ela sugere que o Eu
nos permite compreender a sincronicidade dos eventos nas visões da sutil, identificado nas visões da morte, seja o sujeito interior do processo
morte como um ato criativo espontâneo, detonado pelo medo profundo de cura. Ele seria o responsável pela conexão com as imagens e por sua
diante da ameaça de morrer. Assim, em vez de considerarmos, como se transição até o Eu desperto.
fazia até a Idade M édia, uma correspondência mágica entre certos acon-
tecimentos e a emergência de um conhecimento absoluto, reconhecemos Outro fator significativo para a cura é que os símbolos vivenciados nas
a ação do princípio de sincronicidade. visões da morte têm um caráter universal e coletivo, girando ao redor da
questão da morte, sem ligação pessoal com o paciente. São imagens que
Marie-Louise von Franz (3) reproduz trechos de uma carta que Jung trazem um sentido de liberdade, integrando opostos, tendendo à perfei-
escreveu, em 195 2, discorrendo sobre as relações entre a psique e o cor- ção, e que podem ser associadas a idéias e práticas religiosas as mais
po. Ele sugere que consideremos a psique como uma intensidade, e não diversas. É possível que no estado de com a se dê algo semelhante ao que
como um corpo que se move no tempo, e o cérebro como uma estação ocorre sempre que u m m aterial arquetípico irrompe na consciência atra-
transformadora que transmuta a intensidade relativamente infinita da psi- vés de um sonho ou fantasia: instaura-se a oportunidade de ligação da
que, em freqüências ou vibrações que podem ser captadas. Libertada dos consciência do indivíduo com a sabedoria acumulada da humanidade, a
efeitos do cérebro, a psique poderia reassumir suas características ine- qual até então perm anecia inconsciente nele.
rentes, que transcendem o tempo e o esp aço.
Frey-Rhon comenta ainda a capacidade de se recordar dess  a s  experiên-
No âmbito da matéria, podemos apenas observar o que se relaciona ao cias, julgando-a tão misteriosa quanto no c aso dos sonhos. É difícil averi-
fenômeno da luz. Tudo o que ultrapassa sua velocidade é-nos inatingível. guar se o pós-comatoso relata algo realmente vivido, embora assegu re
 Ju ng lev an ta a h ipó tes e d e q ue a p siq ue se co ns tit ui ba sic am ent e d a m es- que sim, ou se preenche as lacunas de memória num proc esso análogo ao
ma energia que o corpo, mas com intensidade e freqüência de vibração que Freud chama de elaboração secundária do sonho. De qualquer ma-
infinitamente mais elevadas, podendo superar as da luz. Haveria uma neira, é provável que a elaboração posterior das visões se dê segundo o
parcela de psique que não se submete à ação redutora do cérebro e mesmo arquétipo que as constelara. Esta autora sugere concebermos um
permanece, independentemente de vida ou morte. "núcleo do Eu", de energia indestrutível e que permaneceria ativo mesmo
em estado de inconsciência, relacionand o este conceito a formulações
Frey-Rohn relaciona a recuperação de um paciente desenganado à ativi-
análogas de Jung, Meier e Neumann.
dade criativa e autônoma do arquétipo, e reconhece um paralelo entre
os sonhos de cura nos templos de Esculápio e as visões da morte. O fato A síntese que faz Frey-Rohn consiste na hipótese de que o arquétipo,
de se estar vivendo uma situação extremam ente crítica já indica a conste- graças a sua num inosidade, a sua força criativa autônoma e a seu poder
1 30   
M o
rteede
senv
olvime
n t
o humano
  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  1 31

curativo inerente, coordena a cura e a transformação no p aciente. Espe-  por i sso m esmo , a co luna m estra d o pal ácio do rei do lug ar (a 
cial importância é dada à alusão a uma dimensão que transcende o tempo  futura col una Djed, re presentan te deste Deu s quando d a come- 
e o espaço e ao núcleo do Eu, abrangendo desde o Eu sutil até o Eu moração da paixão-iniciação). Para recuperá-lo, Isis entra no pa- 
desperto. A psique teria a capacidade de, sem perder sua continuidade, lácio como ama do recém -nascido da casa real e se mete imedia- 
passar de um estado a outro, podendo a consciência se foca li zar ora em tamente a imortalizá-lo pelo jejum e pelo fogo. Mas a rainha,
suas idéias e emoções, ora nas sensações corp orais, ora nas vivências em surpreendendo-a, emociona-se profundamente com estas p ráticas 
estado de êxtase ou de coma, ora no drama onírico... e a deusa teve que revelar sua identidade, reivindicando a coluna 
a fim de retirar dela o sarcófago... Foi assim que ela o levou de 
O Livro dos Mortos do Antigo Egito volta ao Egito, enquanto os dois filhos do rei de Biblos morriam 
em conseqüência: o mais novo, por causa das lamentações baru- 
O s  egípcios nos apresentam uma interessante concepção de vida e de lhentas da deusa diante do corpo de seu amante, e o m ais velho,
do seu olhar severo quando quis contemplar o corpo de Osi  ri s n o 
morte. Eles eram um povo concreto e materialista e seu livro dos mortos
seu sarcófago.
contém uma grande variedade de imagens universais. Após a morte, o
defunto faria sua última e grande viagem, em que teria de ultrapassar os "Desejando passar pela casa onde ficava seu filho Hórus (o Jo- 
"Pórticos de Osíris", perigosas fronteiras da Duat, que equivale ao que vem), ela esconde o corpo do seu amante nos caniços do Nilo,
costumamos entender por inferno ou pu rgatório, e chegar ao julgamento mas Seth, que por acaso, nessa noite, caçava na região, descobre 
final da "pesagem da alma" (Ba e 1b), podendo então, se bem -sucedido, o famoso ataúde... Fu ri o so, pega o corpo de seu irmão infortuna- 
passar a viver no Amenti, que equivale a um paraíso de segundo nasci- do e o co rt a em quato rz e pedaços que dispersa em todas as dire- 
mento. Se malsucedido, passaria a viver na Duat, numa condição equiva- ções.
lente a uma segunda, e definitiva, morte. O livro dos mortos do Antigo 
"E esta foi a segunda fase da busca de Ísis, à procura infatigável 
Egito contém versículos, rezas, encantações, fórmulas mágicas e u m rol de
dos quatorze pedaços do seu amante. A cada fragmento precioso 
oferendas a serem levadas. e reencontrado ela eleva um santuário. Mas... não foi possível 
Relato a seguir o m ito de Osiris e Ísis, que é c entral nesse livro, apoiando- encontrar a décima qua rt a pa rt e do corpo sagrado de Osi ri s , pois 
 foi dev ora do pel os pe ixe s d o N ilo . T ra tav a-s e d o s eu pê nis div ino .
me na versão e comentário apresentados por Pierre Solié (10):
Então Ísis fez uma cópia, em ereção... modelou, esculpiu em to- 
"Osi ri s reina, em companhia de sua irmã gêm ea e esposa, sobre  dos os materiais, consagrou-a... e deu esse F alo todo poderoso à 
um Egito civilizado e unificado. Seu irmão gêmeo, S eth,... louco  veneração de todos os Egitos. Enquanto ela reconstituía o corpo 
de raiva e de ciúme... decide livrar-se dele pela astúcia. Faz cons-  castrado do seu amante e o ressuscitava para que Osi ri s renasci- 
truir um ataúde magnífico... com as dimensões exatas do seu ir-  do viesse a ser o deus dos infe rn os de segundo nascimento 
mão e... promete esta jóia à quele que, deitando-se nela, preen-  (Amenti), o irmão maldito, Seth, se tomava o demônio dos infer- 
cha-a com exatidão. Foi evidentemente Osi ri s que melhor se ajei-  nos da danação eterna (Duat). Uma hierogamia (união sexual 
tou ali, mas, mal ele tinha se deitado, os conjurados de Seth  sagrada) simbólica fechava o ciclo passional do deus sacrificial." 
 prega ram o ta mpo, revesti ndo-o c om ch umbo, e joga ram-no a o 
Nilo a fim de que o Mediterrâneo o levasse embora para sempre... Os egípcios concebiam o pós-morte como u ma situação que levava a um
Quando sua irm ã-amante soube da n oticia terrível, ela se lamen-  dos dois estados definitivos: Amenti, reino de Osíris e dos mortos renasci-
tou longamente, tornou luto e foi à sua procura. Foi esta a pri-  dos, ou Duat, reino de Seth, inferno da danação eterna. Valorizavam o
meira parte da busca de  his  que a conduziu até a Fenícia, a  corpo físico, mumificando-o para que dele fossem extraídos os princípios
Biblos, onde ela descob ri u o cofre-sarcófago de seu amante en-  espirituais, os quais seguiriam na viagem intermediária. O corpo físico
cerrado no coração do cedro mais belo da região, que se tomou, era objeto de contemplação e meditação. 0 Ka passava a desempenhar,
1 3 2  
M orteedesenvolviment
o humano 
O ser humano : entre a vida e a morte  1
3
3

então, o papel que em vida era d o corpo físico: lugar de estabilidade,


o Bardo -período intermediário, de quarenta e nove dias após a morte,
parte mais condensada e resistente do ser invisível. Diferia do corpo físi- que culmina com a li beração e transformação em luz, ou com a reencar-
co por ser imaterial, mas ainda exigia comida para a travessia da Duat. nação. O livro divide-se em três partes: Chikhai Bardo, que descreve a
Havia também o Khaibit, que podemos equiparar à sombra, na medida situação psíquica no momento da morte; Chiinyid Bardo, que trata do
em que se constituía de todos os instintos, necessidades e desejos, t an to estado onírico e das ilusões cármicas que se dão logo após a morte; e
na forma pura qu a n to na pervertida, e se m  a n ifestava em fantasias im- Sidpa Bardo, que apresenta o estabelecimento do instinto de nascimento
pressionantes. Estando corrompido, enfrentava os perigos de ser destruí- e dos eventos pré-natais. O objetivo último dos tibetanos era evitar a
do, devorado ou roubado no além-morte. reencarnação, isto é, a entrada no Sidpa Bardo.
O Ba, equivalente à alma, estava semp re ligado ao Ib, o coração, geral-
mente representado por um pássaro de cabeça hu mana, responsável pelo Imediatamente após a morte, há a maior possibilidade de se atingir a
segundo nascim ento junto a Osíris ou pela morte definitiva. 0 Ba -lb  pos- liberação, na medida em que é concedida a má xima iluminação. Logo as
suía um grande dinamismo, podendo sofrer muitas transformações. Jun- ilusões começam, as luzes vão se tornando gradualmente m ais fracas e as
tos, não deviam ter mais peso de pecado do que a pena de Maat, a deusa visões mais terríveis, aumentando os riscos de u ma nova encarnação.
da ordem cósmica. As pulsões tinham de ter sofrido as metamorfoses
naquilo que os gregos e latinos chamavam de Eros (amor ao próximo), A primeira traduç ão do Bardo Thõdol para o inglês foi a de Ev a n s -
Caritas (amor aos outros) e Agape (amor universal, cósmico). A alma e o Wentz, em 1927. Jung escreveu em 1935 um comentário (9) a respeito, o
coração deviam ir se separando do c orpo e dos desejos, abandonando as qual reviu em 1953. Neste me baseio para estas considerações. Diz ele
i magens que os representavam, para transcendê-los em imagens da alma que O livro tibetano dos mortos parte da crença na supratemporalidade
e do espírito. da alma e da necessidade que têm os vivos de fazer algo em relação aos
mortos. Foi escrito para ser recita do na presença d o cadáver, a fim de
Ultrapass an do o perigo da segunda m orte, advinha o Khy, que correspon-
iluminar o morto em sua viagem através do Bardo.  Ju ng af irm a qu e e st e
dia ao Escolhido ou ao Iniciado e residia no Amenti, longe da Duat de
livro tem o seguinte pressuposto: qualquer afirmação metafísica é relati-
redenção ou danação. E, finalmente, o Shu, Corpo Glorioso e Espírito
va, isto é, condicionada pelo nível de consciência de quem a emite. O
Iluminado e Consagrado. Nenhum desses dois poderia ser atingido pela
morto tem a possibilidade de compreender que mesmo os deuses são a
segunda morte e portanto dispensavam as oferendas funerárias, rezas,
radiação e reflexão de sua própria alma (ou psique), e recuperar o estado
encantações e fórmulas mágicas, que compõem o conteúdo do Livro dos 
que perdera na ocasião do nascimento.
mo rt o s do Antigo Egito.

O Livro Tibetano dos Mortos  Ju ng su ge re qu e n ós , d e t ra diç ão oc ide nta l, l eia mo s e ste livro de trás para
frente, isto é, focalizemo-nos em primeiro lugar no Sidpa Bardo, a seguir
 Tent ar com preen der a s concep ções e gípcia s e tib etan as re quer d e nós no Chdnyid Bardo e então no Chikhai Bardo, por ser esta a ordem segui-
grande esforço. São bastante diferentes das que costumamos adotar, e da por nossa psique e nossa psicologia. Tal inversão não corresponde à
sua linguagem nos é estranha. No entanto, tal empenho acaba sendo re- intenção original do Bardo Thódol, mas o contato desta maneira com o
compensado, pois podemos assim entrar em contato com visões de ser livro pode levar-nos à ampliação do conhecimento da vida, da psicologia
hum an o em m uitos sentidos complementares às nossas. que integra o irracional e o espiritual, e à compreensão d e que a psique
não é apenas a condição de toda a realidade física, mas é essa própria
O Livro tibetano dos mortos, ou Bardo Thódol, consiste numa série de realidade, isto é, que as afirmações metafísicas são, em última análise,
instruções para os mortos e moribundos, a fim de ajudá los a ultrapassar
-
afirmações psicológicas.
13 4  Morte e desenvolvimento humano  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  1
3
5

 Ju ng re co nh ec e o pi on eir is mo de Fre ud e o g ra nd e av an ço para a mente meiramente em sua forma terrível, implicando num enorme perigo, que
ocidental que foi a psicanálise, mas considera que ela foi até o estado do deve ser tomado muito seriamente. Os tormentos deste Bardo são descri-
Sidpa Bardo e ali est a n cou, devido ao preconceito de que tudo que é tos como torturas; há uma desintegração da totalidade d o corpo Bardo,
psicológico é subjetivo e pessoal. Julga que Freud se deteve di a n te do que é u ma espécie de corpo sutil, de função equivalente à do corpo físico
medo da m etafísica - medo aliás bast an te justificado e presente também dur a n te a vida: constitui o envelope visível do self psíquico. Tal desmem-
no Livro tibetano dos mortos. E Jung tenta dar mais um p  a s so, penetran- bramento tem seu correspondente psicológico em sua forma mais deleté-
do no sentido do Chdnyid Bardo. ria na esquizofrenia.
No estado Sidpa, o morto, incapaz de aproveitar os ensinamen tos dos Ultrapassar em vida o estado Sidpa e chegar ao Chdnyid, como propõe
dois Bardos a n teriores, cai 'presa de fantasias sexuais e é atraído pela  Ju ng , é re al iza r u ma inv er sã o p er ig os a d os ob jet ivo s e int en çõ es da co ns -
visão de casais copul a n do, até ser apanhado por um útero e acabar nas- ciência, num auto-sacrifício sofrido profundamente pelo ego. Este autor
cendo novamente. Vai-se formando a base de seu comp lexo de Édipo, na comenta que ninguém que se dedique à individuação é poupado dessa
medida em que, se destinado carmicamente a renascer como homem, passagem, que, por outro lado, consiste na oportunidade de se chegar à
ap a ix ona-se por sua futura mãe e repele seu pai, o inverso se dando com visão do mundo como simbólico, isto é, refletindo algo que sempre esteve
quem vier a nascer com o mulher. A psicaná lise investiga esse estado, mas no próprio sujeito, em sua própria realidade transubjetiva.
no sentido inverso ao do Bardo Thddol: parte das fantasias sexuais da
infância e caminha em direção ao ú tero. O Chónyid Bardo se denomina "Bardo de Experienciar a Realidade". As
f a n tasias assumem forma real e o tema do carma se desenrola. Aparecem
O estado Sidpa se caracteriza pela ferocidade do carma, verdadeiro deuses e deusas apavorantes, acomp anhados de horríveis monstros. Mas,
turbilhão que leva o morto até o útero sem permitir retorno, dada a apesar do aspecto caótico e amedrontador, Jung reconhece ali uma certa
força dos instintos, inclusive o do renascimento físico. Em outras pala- ordem, mandálica e qu aternária, observando as cores e direções assumi-
vr as , quem aborda o inconsciente apenas com pressupostos biológicos, das por tais seres.
fica preso na esfera instintiva e é puxado repetidamente para a existên-
cia física. Conseguindo ter o insight necessário e não cair no Sidpa Bardo, o morto
vem a saber que todas essas fantasias emanam dele próprio e a reconhe-
A psicologia do Sidpa Bardo consiste no desejo de viver e renascer, o que cer os quatro caminhos de luz, que então lhe apa recem como radiações
impede a experiência das realidades psíquicas transubjetivas e transtem- de suas próprias faculdades psíquicas. Chega finalmente à visão da eful-
porais, isto é, arquetípicas. O morto deve desesp eradamente resistir a tal gente Luz Azul Suprema. Cessam as ilusões cármicas e a consciência
desejo e aos ditames da razão, abdicando da supremacia do ego, a fim de volta ao estado atemporal e não-caótico de totalidade e plenitude. É as-
não cair no estado Sidpa e novamente encarnar-se. Isto significa uma sim que, lendo o livro de trás para frente, atinge-se o Chikhai Bardo,
morte simbólica, o fim de qualquer conduta exclusivamente consciente, vivido no momento da morte.
moral ou racional, e um render-se voluntário às ilusões cármicas, que
surgem no estado Chbnyid, anterior ao Sidpa. Estas são o produto de  Ju ng co ns id er a n o m ín im o or ig in al co nc eb er a s itu aç ão pó s- mor te co mo
uma ima ginação desinibida e é difícil por um lado dar-lhes o devido valor um estado onírico terrível, de caráter progressivamente degenerativo. No
e, por outro, diferenciá-las de um estado psicótico.. instante da morte dá-se a visão suprema, e logo se inicia uma q ueda cres-
cente na ilusão e escuridão, até a degradação máxima do novo nascimen-
A abertura do Sidpa Bardo descreve o terror e a escuridão do contato to físico. O apogeu espiritual é alcançado no momento da m orte, o que
com tais ilusões. Jung afirma que o estado Chiinyid equivale a uma psico- nos leva a considerar a vida h umana como o veículo de maior perfeição
se deliberadamente induzida, pois as  imagens arquetípicas aparecem pri- possível. Ela gera o carma que possibilitará a liberação dos objetos, a
13 6  Morte e desenvolvimento hum ano  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  1
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7
permanência na luz e na vacuidade, sem m ais ilusões. A vida no Bardo  se vai e a tr an sformação que ocorre em cada um que fica. Os enterros
não conduz a castigos ou paraísos, mas talvez a um a queda num novo
muitas vezes se constituem apenas em formas rápidas e eficientes de dar
nascimento físico, isto é, a um a nova oportunidade de chegar m ais perto
um fim ao corpo. O período de luto é reduzido, os vivos logo reassumem
do objetivo fmal de completude e compreensão de q ue por trás dos con- suas atividades cotidi an as da m  an eira habitual. Além disso há uma espé-
teúdos do inconsciente coletivo não há rea lidade física ou metafísica, mas
"apen as " a rea li dade da psique. cie de tabu ao redor do tema da morte: não se deve falar no assunto,
muito menos compartilhar cert a s  experiências.
Concluindo...
Desta maneira, perdemos a oportunidade de elaborar criativamente o
Ao que acontece, se é que algo acontece, na m orte e no pós-morte não símbolo da morte em cada um de nós. E o que acontece é a perda de
temos acesso. Mas podem os imaginar. E ao fazê-lo nos beneficiamos... conexão com a totalidade, de conseqüências enormes.

 Ju ng (7 ) d iz qu e a qu es tã o d ec isi va pa ra o h om em é s ab er se ele se re fer e


ou não ao infmito. Se nos consideramos relacionados a ele, assumimos Sentimentos de esvaziamento, despersonalização, insegurança emocional,
certos valores, desejos e atitudes, discrimin an do o que entendemos como desespero e falta de sentido de vida assolam o homem atual - além de
essencial ou como futilidade, e nos conectamos a u m sentido para a vida. uma g rande perplexidade espiritual. Sempre que a consciência vivencia
uma crise, confront a n do-se com algo misterioso e desconhecido, o in-
E Frey-Rohn, numa formulação a m eu ver muito pertinente, afirma que
saber como é realmente a vida p ós-morte ou pré-nascimento não é im- consciente produz modelos arquetípicos, que aparecem projetados. O in-
portante. Realmente significativa é a recuperação do elemento simbólico teresse pela questão da morte e do além, a n tigo mas visivelmente cres-
presente em suas imagens, as q uais superam os conflitos inerentes a cer- cente nos dias de hoje, relaciona-se à perda de li gação da consciência
tas polarizações em que costumamos estanca r: aqui-além, material-espiri- com seus fundamentos .arquetípicos. Não é de estranhar, comenta Frey-
tual, corpo-psique, corpo físico-corpo sutil, psique-matéria, etc. Se o ho- Rohn, que em nossos tempos o inconsciente exerça forte pressão, trazen-
mem, envolvido pela sua p rópria morte, resistir à tentação de tornar pre- do à consciência valores espirituais. A humanidade sempre procurou su-
sentes as imagens percebidas e puder valorizá-las simbolicamente, como perar os limites da realidade tridimensional - basta observar o enorme
expressão de sua experiência psíquica, poderá vivenciar o campo inter- empenho dedicado atualmente a viagens espaciais, pesquisas nucleares,
mediário em que ocorre a tr an sformação. investigações parapsicológicas, projetos genéticos, e assim por diante. A
própria psicologia vê-se freqüentemente tentada a trair sua essência -
Convivemos diariamente, o tempo todo, com a perspectiva da morte. fundamental  e necessária para o ser humano, mas extremam ente incômo-
Estamos sempre m orrendo um pouco. A expressão "Morri e nasci de da por não possuir verdades absolutas - e se constituir numa metafísica.
novo!" é comum, acompanhando momentos de grandes mud a n ças. Acre-
dito que as civilizações que possuíam uma m itologia específica sobre a
O sofrimento mobiliza a energia psíquica, crian do uma condição favo-
morte, e rituais criativos para vivenciá-la, apresentavam m enos defesas
rável à ação arquetípica e à reorganização da personalidade. Se no luto
psicológicas. E uma pena que os velórios, enterros e lutos entre nós não
m an tenham sua característica básica de ritos de passagem. Hoje em dia, por um ente querido, conseguimos elaborar, além do sofrido desliga-
mento de sua p resença física em nossas vidas, a vivência de morte que é
em nosso meio, é comum evitar-se o contato da criança com a morte,
dizendo-lhe simplesmente: "Ful  a n o foi para o céu" ou algo parecido, 'e suscitada em nós mesm os, podemos criativamente deixar morrer o que
em nossa personalidade não nos serve mais, não mais atende a nosso
encerra-se aí a questão. Os velórios para muitos se tornam apen  a s  oca-
desenvolvimento, isto é, os modos estereotipados e inautênticos de ser,
siões de encontro social ou exibição de prestígio, perdendo seu significa-
do psicológico básico, que é o de facilitar a elaboração do luto pelo que e ter então a vivência do renascimento numa forma mais autêntica e
condizente com o presente.
1 38  Morte e desenvolvimento hum ano  O ser humano: entre a vida e a morte  1
3
9

Existe a possibilidade de se vivenciar o símbolo da morte de m an eira zação da velhice, que infelizmente predomina em nosso meio, expressa-
criativa. O problema é que ele se encontra cercado de defesas também de se também na propagação da imagem de um corpo ideal, eternamente
nível cultural. A psicologia analítica oferece significativa contribuição, na  jo ve m, a se r pe rs eg ui do po r t od os . C on ce be -s e o co rp o c om o alg o e xt er -
medida em que apresenta uma visão de ser hum  a n o bast a n te abr an gente no à psique, a ser moldado e treinado. Mas, num sentido mais profundo,
e ainda não assimilada pela consciência coletiva: as concepções sobre a corpo e psique não podem ser dissociados - o corpo é também a psique.
natureza da psique, o princípio de sincronicidade e o processo de indivi-
duação são propostas de inte gr ação entre as diversas áreas do conheci- Destaco aqui o fato de que, embora descrevendo um a situação transes-
pacial, as pessoas falam em um corpo, astral ou sutil. Chama a atenção
mento - e também de inte gr ação do ser humano.
também, na descrição de tais experiências, a escolha de verbos que se
Penso por exemplo na analogia, que me salta à vista, entre o abaton e o referem aos sentidos da percep ção: "ver" uma luz, "ouvir" uma voz,
cubículo da unidade de terapia intensiva. Em ambos se dão experiências "sentir" uma presença. E são muito freqüentes as referências analógicas
semelhantes, portadoras de imagens universais e muitas vezes seguidas de a partes do corpo, como por exemplo os egípcios ao se referirem ao
Ba-lb, ou Jung ao criticar a associação comum do conhecimento à ca-
uma tr an sformação na personalidade e da cura do corpo. Há a diferença,
import an te e já comentada, quanto ao estado da consciência de quem se beça, sugerindo o coração. É necessário resgatarmos no nível coletivo
submete à vivência: por decisão própria ou em coma profundo, vítima de também a experiência simbólica do corpo, isto é, criarmos práticas e
um acidente. E há outra diferença, gr itante: enquanto no templo de Es- rituais que nos propiciem avanços na linguagem, ampliação da cons-
culápio o espaço era p ercebido como sa gr ado, o sacerdote investido de ciência e a possibilidade de vivências mais integradas e inte gr adoras.
um poder divino e havia um a série de ritos a serem cum pridos, num
centro de terapia intensiva, por mais sensíveis que sejam os médicos e Cabe ainda comentar o óbvio: justamente a condição do corpo é o
enfermeiros, a natureza dissociada da atual m edicina costuma predomi- parâmetro principal para se falar em vida ou morte, este par de opostos
nar, impondo um ambiente frio e impessoal, em que apenas a técnica e a fundamental para a psique. E às condições do corpo no estado inter-
assepsia determinam as condutas, isto é, os pseudo-rituais. Tanto a equi- mediário, sejam elas denominadas "vida vegetativa" ou "morte clínica", é
pe profissional quanto o paciente, seus am igos e familiares se ressentem, que se relacionam as vivências anteriormente comentadas e as associa-
sofrendo a falta de conexão com a dimensão arquetípica da totalidade ções que a elas fazemos. Além disso, tanto os egípcios quanto os tibeta-
psíquica - tão eliciada nessas oca siões e, infelizmente, tão reprimida! nos, ao conceberem uma viagem ou um Bardo do ser no pós-morte -
isto é, um estágio intermediário, não necessariamente ligado à doença , .

A questão do corpo também merece destaque. Mesmo considerando-o mas fazendo parte do processo natural -, incluem a consideração para
uma espécie de redutor da intensidade psíquica, reconhecemos que a com o corpo inerte, fazendo-o objeto de contemplação, meditação e
consciência se apóia nele de maneira fundamental e necessária ao longo cuidados.
do processo de individuação, desde os primeiros m omentos. Há diferen-
tes maneiras de se vivenciar o corpo, como aquela em que ele precisa Ao tentar constituir um corpo de conhecimentos que não dissocie as
ser afagado, alimentado, agasalhado, acariciado; ou aquela em que ele polaridades sujeito e objeto, a psicologia analítica se aproxima de todas
requer treino, desafio no desenvolvimento de habilidades, modelagem . as artes, ciências, religiões, enfim, das criações do ser humano. E ao
E, além destas, o corpo pode ser "ouvido", constituindo um rico canal de sugerir práticas que considerem sempre também o aspecto ritualístico,
expressão psíquica, uma fonte de símbolos. Ele tem sido considerado de relacionamento interpessoal e ligação com a totalidade, ela perma-
de maneira redutiva em nossa cultura. Há, por exemplo, todo um privilé- nece fiel a seu objeto, que é também s eu sujeito: a psique, em sua
gio dado à mente na educação, como se a ca be ça não fosse também vivência de paradoxalmente u ma terrível solidão e uma confortadora
corpo, e como se não estivesse ligada ao tronco e memb ros. A desvalori- solidez - que se dá no campo simbólico, por um lado intermediário
1 40  Mo rt e e desenvolvimento humano  O ser humano: entre a vida e a mo rt e  1 41

entre qualquer par d e opostos e, por outro, continente e transcendente (9) Jung, Carl G ustav - "Psychological Commentary on Th e Tibetan
do conflito por eles instalado. Book of the Dead". Vol.11 of Collected Works. London, Routledge
and Keagan Paul, 1958.
Para concluir, relato ainda uma experiência pessoal. Em ce  r t a ocasião, já
estudante de psicologia, pela p ri meira vez resolvi deliberadamente me dedi- (1)  Ju ng , C ar l G us ta v - "T he So ul an d De ath" . V ol . 8 of Collected Works.
car a aprender com as vivências ligadas à mo rt e, que sempre me pegavam London, Routledge and Keagan Paul, 1960.
de surpresa. Na ocasião minha madrinha, mu ito querida, estava prestes a
morrer e eu costuma va visitá-la. Sua doença se estendia por um longo pe- (7) Jung, Carl Gustay. Memórias, sonhos, reflexões. São Paulo, Nova
ríodo e era notável o q uanto ela se debatia entre a morte e a vida, procurava Fronteira, 1 9 7 8 .
assistência espi ri tual e se dedicava a morrer com consciência - achei que (2) Pilger-Holdt, Christel - "Dismemberement as an Extreme E xample of 
com ela eu poderia aprender algo sobre a morte. Foi inusitado. Lembr o- me
Conflict". Paper presented at the "16th Meeting of theInternational
do dia em que ela, ao me ver vestida com um casaco que eu mesma havia
Association of Jungian Trainees and Analysts", Ubatuba, 19 91.
tr icotado, criticou uma falha no acaba mento e se dispôs a me ensinar a
fazê-lo melhor. M  a n dou-me comprar uma linha especial. Voltei ao hospital (10) Solié, Pierre - Mitanálise junguiana (tradução de Fanny Ligeti). São
na tarde seguinte com a li nha. Mas e a agulha? Foi então que recebi o meu Paulo, Nobel, 1985.
ensinamento sobre a morte: "Como é que uma moça como você, que passa
o dia todo fora de casa, não tem na bolsa uma agulha, uma linha, u ma (6) von Franz, Marie-Louise - Os sonhos e a mo rt e. São Paulo, Cultrix,
1990.
tesourinha? E se de repente cair um botão?", repreendeu-me ela. E, nos
curtíssimos intervalos en  tr e os freqüentes engasgos, dispnéias e apnéias,
pôs-se a simular uma agulha com os dedos e a me mos tr ar como se fazia o
tal conse rt o. Este foi o nosso último contato: ela faleceu naquela noite. E foi
assim que recebi o ensinamento que eu estava buscando: lidar com a morte
é também cuidar do dia-a-dia, da vida.

Referências Bibliográficas

(4) Byington, Carlos - "Uma teoria simbólica da h istória, o mito cristão


como principal símbolo estruturante do padrão de alteridade na cul-
tura ocidental". Revista Junguiana, 1, pp 120-177, 1983.

(5) Edinger, Edward - "Psicologia e alquimia: parte VI - mortificatio".


Revista Junguiana, 6, pp 5-30, 1988.

(8) Edinger, Edward - Ego e arquétipo: individuação e função religiosa d a 


 ps iq ue . São Paulo, Cultrix, 1989.
(3) Jaffé, Aniela; Frey-Rohn, Liliane; von Franz, Marie-Louise - A mor 
te d luz da psicologia. São Paulo, Cultrix, 1989.
Mo rt e abordagem fenomenológico-existencial  1 43 

fundamental da pra xi s em relação à teoria. Propõe em seu tratad o o


Capítulo 8 desenvolvimento não de uma filosofia, mas sim de uma ontologia, ou
seja, um estudo do sentido do ser.

Quando falamos desde uma ontologia, os termos são descritos como con-
MORTE: ABORDAGEM FENOMENOLÓGICO- dições de possibilidade para qu e alguma coisa se dê.
EXISTENCIAL  Durante o desenvolvimento da abordagem proposta, faremos algumas
descrições, que devem ser entendidas como ontológicas e não como
psicológicas. Estaremos trat an do de elementos estruturais para a com-
Daniela Rothschild preensão do ser. Disso pode decorrer uma psicologia, como a que foi
Rauflin Azevedo Calazans
desenvolvida por Medard Boss, L. Binswanger, Rollo May e outros.

A referência que nos possibilita falar de morte na abordagem fenomeno- No desenvolvimento de sua a nalítica e xi stencial em Ser e Tempo, Heideg-
lógico-existencial é desenvolvida por M artin Heidegger em sua obra fun- ger privilegia a morte, como qualquer outro termo pinçado desta obra.
damental Sein und Zeit (Ser e Tempo). No termo ser-no-mundo já está implícita a circularidade que permeia
todo o tratado, ou seja, cada elemento, na sua descrição, remete a outro
Heidegger (1889-1976), filósofo alemão discípulo de Huss erl, desenvol-  já des cr ito ou ain da po r d esc re ver .
ve em Ser e Tempo uma busca do sentido de ser, através do método
fenomenológico. O ser-aí é no mundo. N essa relação fica explicitada uma sujeição do ser-aí a
esse mundo que já lhe é dado com o interpretado. Nessa perspectiva, habita-
A fenomenologia é um método de investigação da história do conheci- mos um m undo familiar, onde tudo é conhecido, previsível, onde todos so-
mento, que propõe a volta às coisas mesmas, a pa rtir da descrição e da mos ninguém: "a gente" ch ora como todo mundo chora; "a gente" sofre
interrogação do fenômeno, isto é, do que é dado imediatam ente. como todo mu ndo sofre, "a gente" se alegra como todo mundo se alegra,
O e xi stencialismo é um a corrente da F ilosofia, que toma com o principal
pelos mesmos motivos que todo mundo chora, so fr e e se alegra. Em uma
centro de interesse e consideração a experiência mais imediata do ho- primeira aproximação, esse contexto nos aparece como algo aterrador e
mem, ou seja, sua pr ópria existência. Insurgiu-se contra a filosofia e a aprisionante, porque nos tira a possibilidade da autenticidade. No entanto,
teologia racional em favor do sujeito, e este com a responsabilidade essa é uma estrutura ambígua, porque na realidade ela é um a possibilidade
total de sua existência. de fuga dessa mesma autenticidade.

 To da a hi st ór ia da fil os of ia na sc e a pa rt ir do es qu ec im en to da qu es tã o d o A nossa vivência mais cotidi an a dessa estrutura é a da hospita li dade, do
ser. A filosofia instaura a dicotomia sujeito-objeto, a partir da ascenção amparo e do enredamento. _E como se soubéssemos e escapássemos da pos-
do sujeito como senhor do ente, que acaba enclausura do em si mesmo. sibilidade de uma vivência mais singular, que nos coloca fora dessa proteção.

Heidegger retoma os pré-socráticos, onde a questão do ser e do não-ser Do que escapamos é da angústia
 já est á pre sent e. Desloca a que stão d a sub jetivid ade que a té en tão im-
pera na Filosofia. Partindo do constructo "ser-aí" (Dasein), que substitui "A angústia faz pa tente no ser-aí, o ser relativamente ao mais
as noções tradicionais de sujeito, homem, indivíduo, como ser-no-mun- peculiar poder ser, quer dizer, o ser livre para a liberdade de
do, quebra a dua li dade sujeito-objeto, reestabelecendo a importância eleger-se e empunhar-se a si mesmo". (Ser e Tempo, p. 208)
1 44  Morte e desenvolvimento hum ano  Mo rt e abordagem fenomenológico - 
existencial  1 4 5 

A angústia é a forma autêntica do temor, que é a nossa vivência mais O ser-aí é ser para a morte. O ser-aí já está sempre l an çado em suas
cotidi a n a. possibilidades, e a morte é a possibilidade mais peculiar, irrefutável e
irrepresentável.
 Teme r é sem pre t emer algo, alg o frente a mim por um porquê . O n osso
mais pecu li ar poder ser, do qual nos esquivamos, é a m orte. A angústia nos abre este ser relativamente à morte que é ameaçador,
estranho e inóspito; nos esquivamos e habitamos um mundo protegido,
A mo rt e é um fenômeno do cotidiano. Vivemos sempre a morte como a presumível, onde a m orte aparece como um acidente no fmal da vida,
morte do ou tr o. Os ou tr os morrem e eu ainda não. A minha morte, eu penso que não é hoje.
amanhã. Nós nos esquivamos da possibi li dade da singularização da mo rt e.
No texto de Simone de Beauvoir fica patente a ameaça, a inospitalida-
A morte é a possibilidade mais peculiar, irrefutável e irrepresentável do
de, o estranhamento da imortalidade. Características tão hum an as
ser-aí. Dentro de todas as minhas p ossibilidades, já está presente a abso-
quanto avançar, lembrar, se desesperar, se matar, ficam assim impossi-
luta impossibilidade de não estar mais aí bilitadas. Só lhe resta continuar. Um continuar sem projetos, sem senti-
A angústia é um fenômeno raro em nossa existência e quando passa, parece do, sem ligação temporal.
que foi um nada. A angústia põe de manifesto a possibilidade da autentici-
Na a bertura privilegiada da angú stia, nos angustiamos pelo ser no mun-
dade e da inautenticidade, ou seja, a p ossibilidade do ser-aí, ser o autor da
do enquanto tal. Nos deparamos com a falta de sentido no mundo, que
sua história, a pa rt ir da construção, ou não, de um sentido.
não nos pode mais sustentar. Assim, nos apropriamos de que só nós
" Que faria agora? Iria levantar-me e continuar a viver? Catarina podemos nos dar esta sustentação, ou seja, ser o autor do sentido de
estava morta, Antônio, Beatriz, Carlier, todos os que eu amara es- minha existência.
tavam mortos, e eu continuava a viver; estava presente, o mesmo há
séculos; meu coração podia bater durante um momento, de pieda- No cotidiano vivemos afastando essa possibilidade de nós m esmos. Acre-
de, de revolta, de desespero; mas eu esquecia. Enfiei os dedos na ditamos que amanhã semp re haverá tempo. Só, por isso nos envolvemos
terra e disse com desespero: "Não quero". Um homem mortal teria em projetos, acreditando que eles poderão se concretizar e qu e sempre
podido recusar-se a continuar seu caminho, poderia ter eternizado teremos tempo para isso.
a revolta, poderia matar-se. Mas eu era escravo da vida que me
puxava para a frente, para a indiferença e para o esquecimento. Na vida de Fosca não e xi ste a possibilidade da morte. Esta é vivida como
Era vão resistir. Levantei-me e tomei lentamente o caminho de perda das pessoas com as qu ais se envolve.
casa". (S. de Beauvoir, Todos os homens são m ortais, p. 326)
Em nosso e xi stir essas perdas são vividas como morte factual, separações,
Em Todos os homens são mo rt ais, Simone de Beauvoir se utiliza de um término ou interrupção de um p rojeto.
personagem mortal (Fosca), que tem a experiência da imortalidade.
Essa construção nos leva a conhecer os sentimentos ambivalentes do Fosca se desespera ante a possibilidade do esquecimento das perdas, res-
personagem que, se em um primeiro momento se fascina, acaba por sentindo-se de não poder eternizá-las nesse momento.
viver sua imortalidade como danação, um a vez que, ao usar o elixir que
lhe dá a vida eterna, já não pode mais m orrer. "A gente" cuida das perdas tent a n do minimizá-las, pensando que haverá
sempre outra oportunidade, pens a n do que sempre aprendemos alguma coi-
Não é o nosso caso. A mo rt e para nós não é uma escolha, todos  vamos sa com isso, fazendo substituições. Assim nos esquivamos da consciência do
morrer. fim. Não existe recomeço, não existe substituição, não é possível esquecer.
1 4 6  Morte e desenvolvimento humano  Morte abordagem fenomenológico -existencial 
  14 7 

Nossas perdas, assim como ganhos, nossos erros e ace rt os, nos constróem, " Olhei meus sapatos de fivela, minhas mangas de rendas; parecia-
ou seja, sou eu quem perde, quem g  a n ha, quem erra, quem acerta.... me que há vinte anos eu me prestava a esse brinquedo e que um
dia, ao soar a meia-noite, eu retornaria ao país das sombras. Ergui
A todo momento temos de escolher. A cada escolha que fazemos decre- os olhos para a pêndula. Acima do mostrador dourado, uma pasto-
tamos a morte da outra possibilidade não escolhida. Isso freqüentemente ra de porcelana sorria para um p astor; dentro em pouco, o p ontei-
nos traz ansiedade frente ao conflito de não podermos viver tudo ao m es- ro assinalaria meia-noite, assinalaria meia-noite amanhã, depois de
mo tempo, de não podermos estar em mais que em um lugar ao mesmo amanhã, e eu ainda estaria presente; não havia outro país senão
tempo. O ser-aí m orre cotidianamente todos os dias. aquela terra onde não havia lugar para mim. Estivera na minha
terra em Carmona e na corte de Carlos V, e nunca mais. Doravan-
" Mas eu era escravo da vida que me puxava para a frente, para o te, o tempo que se desenrolava à minha frente seria, a perder de
esquecimento. Era vão resistir. Levantei-me e tomei lentamente o vista, um tempo de exilio; todas as minhas vestimentas seriam fan-
caminho de casa." (Simone de Beauvoir, op. cit., p. 326.) tasias e minha vida, uma comédia." (S. de Beauvoir, op. cit., p. 276)

Em nosso mais cotidiano modo de ser, nos vemos como escravos do Presente, passado e futuro; é assim que entendemos o tempo. Dentro
tempo. O tempo passa, nos carrega para a frente, sem parada, sem dessa leitura podemos falar separadamente de cada tempo, conforme
sentido, levando-nos ao esquecimento e à indiferença. Esse é o cam inho estejamos mais próximos de um ou de outro, e isso é sempre compreen-
de casa. A ssim nos sentimos abrigados, fugindo da responsabilidade dido por todos. No passado fiz tal coisa, amanhã farei alguma coisa e
temporal do projeto de nossa existência. agora estou fazendo isso.

O ser-aí é lançado, lançado em suas p ossibilidades no seu tempo, a fim de No horizonte da temporalidade circular de Ser e Tempo essa separação não
si mesmo. Meu projeto aponta para um futuro que ainda não é, mas que é possível. Na perspectiva do sentido não vivemos um tempo, somos tempo.
poderá vir a ser, e que também poderá não ser, uma vez que está implíci- Fosca, na medida em que se vê como imortal, sente-se invadido por um
to nas m inhas possibilidades a de já não estar mais aí presente interminável, pesado como um exílio. Para ele o tempo passa,
Dentro desta perspectiva, cabe-nos a adoção de um sentido que transfor- nada acontece de verdade e nada poderá acontecer, uma vez que o
ma a leitura desse tempo. Assim m e vejo como ser finito e responsável futuro é só uma extensão desse presente, assim como o passado.
pela minha existência. Meu futuro já foi projetado por mim, impulsionado O sentido foi exilado de sua existência pela vivência de imortalidade, nada
pelo meu passado do qu al me utilizo no presente. pode significar nada.
Na perspec tiva do sentido, o passado tem significado como o já vivido, que Fosca lamenta o tempo todo q uanto é inóspita a imortalidade. "A gente"
passa a ser acolhido, possibilit  a n do que nos lancemos em projetos. Ao nos sempre pensa que seria m uito bom ser imortal. Fosca nos mostra quan-
lançarmos nesses projetos o passado é ressignificado a serviço deste futuro. to é impossível a realização dessa fantasia.
Para Fosca, como não é d ada a possibilidade do morrer, a circularidade Morrer é um dado estruturante de nossa existência. Todo ser-aí é ser
não existe. Fosca não consegue ver um sentido no seu viver. O sentido é para a morte.
• decorrente da possibilidade de um futuro finito. AFosca só resta o esque-
cimento e a indiferença. O passa do não pode ser acolhido, ressignificado,  Toda a concep ção qu e tem os do que é home m, ser hum ano, su jeito ou
porque é uma repetição infinita. Às vezes, se engana, se envolve com indivíduo fica perpassada pela idéia de mo rt alidade. Só podemos entender
pessoas e conseqüentemente com projetos. Percebe seu engano quando algum sentimento, algum afeto, alguma m an ifestação intelectual ou social, a
assiste o morrer dessas pessoas. Desespera-se. Só lhe resta continuar.... pa rt ir desse dado. Pois assim temos a noção de ser com o todo mundo é, e
1 48  Morte e desenvolvimento hum ano 

só assim podemos nos relacionar com os outros. Só assim frases como: Capítulo 9
"morrer por", "morrer de", até "morrer"... fazem sentido.

" - Tudo era falso - repetia ela - Não sofremos dentro do mesmo
tempo e tu m e amas do fundo de outro mundo. Estás perdido para
mi m MORTE, SEPARAÇÃO, PERDAS
- Não. Agora é que nos encontramos porque agora vamos viver E O PROCESSO DE LUTO
dentro da verdade.
- Nada pode ser verdadeiro de ti para mim.
- Meu am or é verdadeiro. Maria Júlia Kovács
- Que é teu amor? Quando dois seres mortais se amam , são mol-
dados, corpo e alma, pelo seu amor, que é a própria substância
desse corpo e dessa alma. Para ti...é um acidente." (S. Beauvoir, op . Eros e Morte
cit., p. 320.)
"Era uma tarde quente e abafad a, e Eros, cansado de brincar e
derrubado pelo calor, abrigou-se numa caverna fresca e escura.
Fosca se exilou desse mundo, ou seja o único que ele e nós c onhecemos.
Era a caverna da p rópria Morte.
Está impossibilitado do com partilhar. Não é mais desse mundo, portan- Eros, querendo ap enas descansar, jogou-se displicentemente ao
to, esse mundo não lhe dá mais sentido nem sustentação. Tudo o que chão, tão descuidadamente que todas as suas flechas caíram.
existe é o vazio da angústia. Q u an do ele acordou percebeu que elas tinham se misturado com
as flechas da Morte, que estavam espalhadas no solo da caverna.
Fosca se a n gustia porque é um personagem mortal, escrito por uma auto- Eram tão p arecidas que Eros não c onseguia distingui-las.
ra mortal, para leitores mortais. Tudo o que pode ser com partilhado tem No entanto, ele sabia quantas flechas tinha consigo e ajuntou a
o recorte da mortalidade. quantia certa.
Naturalmente, Eros levou algumas flechas que pertenciam à
" - Não há mais o que contar - disse Fosca - . Todos os dias o sol Morte e de ix ou algumas das suas.
lev a n tou-se e deitou-se. Entrei no hospício, saí do hospício. Houve E é assim que vemos, freqüentemente, os corações dos velhos e
guerras: depois da guerra, a paz; d epois da paz, outra guerra. To- dos moribundos, atingidos pelas flechas d o Amor, e às vezes,
dos os dias homens nascem e homens m orrem." (S. Beauvoir, op. vemos os corações dos jovens capturados pela Morte. (Esopo,
cit., p. 391.) Grécia Antiga, in Meltzer, 1984.)
A morte do outro configura-se como a vivência da morte em vida. É a
possibilidade de experiência da morte que não é a própria, mas é vivida
Referências Bibliográficas como se uma parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos vín-
culos estabelecidos.

BEAUVOIR, S. - Todos os homens sã o mortais.. Rio de Janeiro, Nova E a morte da qual todos temos recordações, desde a m ais tenra infância,
Fronteira, 198 3. nas inevitáveis situações de separação da figura materna temporárias ou
definitivas, mas sempre dolorosas. Separação ou morte de figuras paren-
HEIDEGGER, M. - EI ser y el tiempo. Buenos Aires, Fondo de Cultura tais, amigos, amores, filhos, todos temos histórias a contar. A perda e a
Economica, 1980. sua elaboração são elementos contínuos no processo de desenvolvimento
1 50  Morte e desenvolvimento humano  rt e,
e , separação, perdas e o processo de luto 
Mo rt  1 51
humano. E neste sentido que a perda pode ser cham ada de morte "cons- tida e digna, assumindo o controle dos rituais e dit an do as formas de
ciente" ou de morte vivida. comportamento adequadas.
A morte como perda nos fala em primeiro lugar de um vínculo que se No século XIX, a morte romântica traz em seu bojo a idéia da morte
rompe, de forma irreversível,
irreversível, sobretudo quando ocorre perda real e con- como uma ruptura insuportável, porque representa a morte do outro. E o
creta. Nesta representação de morte estão envolvidas
envolvidas duas p essoas: uma período das grandes explosões sentimentais, a tristeza e a dor c  a n tadas
que é "perdida" e a outra que lamenta esta falta, um pedaço de si que se em verso ou prosa. Era m uito freqüente morrer de amor, se o outro mor-
foi. O outro é em parte internalizado nas memórias e lembr an ças, na re, morro também. Está aí estabelecida a relação entre as perdas e o
situação de luto elaborado. A morte como perda evoca sentimentos for- suicídio. Romeu e Julieta são os grandes protagonistas do amor, da sepa-
tes, pode ser então chamada de "morte sentimento" e é vivida por todos ração e da morte, sendo este também o grande a rgumento das óperas
nós. E impossível encontrar um ser humano que nunca tenha vivido uma dramáticas.
perda. Ela é vivenciada conscientemente, por isso é, muitas vezes, mais
temida do que a própria morte. Como esta última não pode ser vivida O século XX segundo Aries, traz a representação da "morte invertida"
concretamente, a única morte experienciada é a perda, quer concreta, (ver capítulo
capítulo 3). É a m orte que se esconde e que é vergonhosa, o grande
quer simbólica. fracasso da humanidade. Há um a supressão da manifestação do luto, a
sociedade condena a expressão e a vivência
vivência da dor, atribuindo-lhes
atribuindo-lhes uma
A morte como perda supõe um sentimento,
sentimento, uma pessoa e um temp o. É a qualidade de fraqueza. Há uma ex igência de domínio e controle.
controle. A socie-
morte que envolve basicamente, a relação entre pessoas. Se ocorre de dade capitalista, centrada na produção, não suporta ver os sinais da m or-
maneira brusca e inesperada tem uma potencialidade de desorganização, te. Os rituais do nosso tempo clamam pelo ocultamento e disfarce da
para li sação e impotência. As a ções do cotidiano, como falar, atravessar
morte, como se esta não existisse. As crianças devem ser afastadas do seu
uma rua, cuidar do outro, alimentar-se são matizadas pelo constrangi- cenário, como se esta não ocorresse. Esta supressão do p rocesso de luto
mento do inusitado
inusitado em duas situações: diante
diante da próp ria perda e diante traz sérias conseqüências do ponto de vista psicopatológico.
psicopatológico. Sabe-se q ue
de alguém que perdeu alguém. Embora saibamos racionalmente que a muitas doenças psíquicas podem estar relacionadas com um processo de
morte é inevitável, este saber nem sempre está presente, fazendo surgir o luto mal-elaborado.
paradoxo da morte (in)esperada. Em casos extremos a morte invade de
tal forma a vida que passa a fazer parte dela. O processo de luto p or definição é um conjunto de reações diante de um a
perda. Bow lby (1985 ) refere-se às quatro fases do luto:
Ver a perda como uma fatalidade, ocultar os sentimentos, eliminar a dor,
apontar o crescimento possível diante dela, podem ser formas de negar os 1. Fase de choque que tem a duração de algum as horas ou semanas e
sentimentos que a morte provoca, para nã o sofrer. pode vir acompanhada de manifestações de desespero ou de raiva.
Sabe-se que a expressão de sentimentos nessas ocasiões é fundamental 2. Fase de desejo e busca da figura perdida, que pode durar também
para o desenvolvimento do processo de luto. No entanto, as m anifesta- meses ou anos.
ções diante da perda e do luto sofreram alterações no decorrer dos tem-
pos. Cada cultura apresenta algumas prescrições de como a morte deve 3. Fase de desorganização e desespero.
ser enfrentada e quais os comportamentos e rituais
rituais que devem ser cum -
4. Fase de alguma organização.
pridos pelos enlutados. Segundo Aries (1977), na Idade Média era autori-
zada a manifestação dos sentimentos diante de uma perda. C om  o desen- Na fase de choque o indivíduo
indivíduo pode p arecer desligado,
desligado, embora m anifeste
anifeste
volvimento do poder da Igreja esta passou a exigir uma atitude mais con- um nível alto de tensão. Ocorrem expressões emocionais intensas, ata-
1 52  Morte e desenvolvimento humano  Morte, separação, perdas e o proc esso de luto  1 53 

ques de pânico e raiva. A companhia de outras pessoas é muito importan- Na fase de reorganização se processa uma aceitação da perda definitiva e
te neste período. a constatação de que uma nova vida precisa ser começada. Muitos viúvos
Na segunda fase há a expressão do desejo da presença e busca da pessoa e viúvas têm de aprender habilidades novas, que nunca foram exercitadas,
perdida. A raiva pode estar presente quando há a percepção de que houve porque eram função do morto como por exemplo: guiar, manipular con-
efetivamente uma perda , provocando desespero,
desespero, inquietação, insônia e tas bancárias, cuidar da casa e das crianças, dentre outras. Estes
Estes momen-
preocupação. Ao mesmo tempo, existe a ilusão de que talvez tudo não te- tos podem trazer saudades e a necessidade da presença do outro nova-
nha passado de um pesadelo e de que nada mudou. A pessoa fica atenta a mente. Portanto, embora numa fase de aceitação e de novas buscas, a
quaisquer sinais ou ruídos, que podem confirmar esta f  a a n tasia do possível saudade, a tristeza podem retornar, tornando o processo de luto gradual,
retorno. Dois processos contraditórios coexistem, a rea li dade da perda, com e nunca totalmente concluído. Alguns buscam novos relacionamentos,
todos os sentimentos que a acomp  an ham, e a esper a n ça do reencontro. A como forma de dar continuidade à vida. Podem ocorrer escolhas
escolhas basea-
raiva pode ocorrer neste período, quando o enlutado se sente responsável das na manutenção das caraterísticas do ser perdido, com as conseqüen-
pela morte do outro, ou pela frustração da busca inút il . Pode também apa- tes dificuldades que este processo acarreta. Outros permanecem sós, por-
recer quando há o sentimento de que o morto não se cuidou de forma que crêem que nenhuma relação pode entrar no lugar daquela que foi
adequada, evoc a n do então a sensação de ab an dono. Esta raiva pode se perdida. Todos estes aspectos fazem parte do processo de elaboração da
manifestar como irritabilidade ou uma profunda amargura. perda.

A raiva torna-se instrumental, quando se trata de uma perda temporária, Em algumas fases do processo de luto podem acontecer identificações
porque pode promover um reencontro e tornar uma nova separação mais com o morto, por
por exemplo, quando a pessoa se p ercebe fazendo coisas
difícil. Este mesmo procedimento costuma
costuma ser usado em relação a uma de que o outro gostava. Podem ocorrer conflito e mal-estar quando a
perda definitiva, como uma tentativa de recuperar um vínculo que foi p°ssoa, de repente, se percebe fazendo coisas que nunca fazia, nem
rompido, embora seja obviamente ineficiente neste caso. Enqu an to per- gostava, que eram as atividades do cônjuge. Estes processos, que seriam
sistir a raiva é porque a perda nã o foi aceita, e ainda existe uma esperan- considerados
considerados patológicos em outras instâncias,
instâncias, fazem parte normalmen-
ça. Esta raiva é, m uitas vezes, transferida para os amigos que estão no te do processo de luto. Eles se tornam patológicos se forem com pulsiva-
papel de consolar o enlutado, mas que indiretamente confirmam a reali- mente repetidos. A identificação pode ocorrer também quando o enlu-
dade da perda. O corre a busca inút il  de alguém, que possa dizer que a tado passa a manifestar os mesmos sintomas do morto, acredita que o
perda não ocorreu, que foi tudo um sonho. morto está presente em certos objetos
objetos ou pessoas. Conforme o grau e a
perda de contato com a realidade, estes fatos podem ser indicativos de
A esperança intermitente, os desapontamentos repetidos, o choro, a aspectos patológicos.
raiva, as acusações, a ingratidão com as p essoas próximas, são manifes-
tações da segunda fase do luto. Uma profunda tristeza
tristeza é sentida quando Durante o período de elaboração do luto podem ocorrer distúrbios na ali-
ocorre a constatação da perda como definitiva. Pode haver a sensação mentação ou no sono. Um núm ero grande de enlutados apresenta quadros
de que nada mais tem valor, muitas vezes acompanhada de um desejo somáticos e doenças graves depois do luto, podendo se configurar uma
de morte, pois a vida sem o outro não vale a pena . Nestes momentos depressão reativa ou até um quadro mais grave, como veremos a seguir.
podem ocorrer atuações, tais como se desfazer rapidamente de todos os
pertences do morto e, ao mesm o tempo, uma tentativa de guardar todos O tempo de luto é variável e em alguns casos pode durar a nos. Pode-se
os objetos
objetos que lembrem momentos felizes; são ações contraditórias e dizer que em alguns casos o processo de luto nunca termina, com o pas-
muitas vezes concomitantes. Conciliar estes desejos tão opostos são ta- sar do tempo, uma profunda tristeza, um desespero e um desânimo to-
refas das últimas fases do luto. mam conta, quando se recorda o morto, embora estes sentimentos ocor-
Morte e desenvolvimento humano  Morte, separação, perdas e o processo de luto  1 5 5 
15 4 

ram com menos freqüência. O traço mais permanente no luto é um senti- Estamos considerando aqui as perdas onde e xi stia um vínculo, portanto,
mento de solidão. um investimento afetivo. Qu an to maior este investimento, t an to maior a
energia necessária
necessária para o desligamento. Estes fatos
fatos se agravam, quando
Para Raimb ault (1979) para rea lizar-se o processo de luto é necessário: e xi stia antes uma dependência física ou psíquica com o morto, torn  a n do a
reorganização da vida ainda m ais difícil.
1. Uma desidentificação e um desligamento dos sentimentos em relação
ao morto. As causas e circunstâncias da perda também têm uma importância no
processo de elaboração desta.
2. A aceitação da inevitabilidade da morte.
Mortes inesperadas são bastante comp licadas, pela sua característica de
3. Qua n do for possível encontrar um substituto para a libido desinvestida. ruptura brusca, sem que pu desse haver nenhum
nenhum preparo. A mutilação do
corpo, costuma ser um fator agravante, acarretando
acarretando freqüentemente re-
Se não tiver ocorrido este desligamento
desligamento do objeto perdido, em cada nova
volta e desespero. Sabe-se que o estado em que fica o morto, pode ter
relação se buscará c oisas da anterior, com conseqüências desastrosas. fortes influências nas memórias e lembranças, que se têm dele. Em casos
Como foi visto
visto é necessário tempo para o processo de luto. O final deste de morte repentina, quando não há informações de como ocorreu, pode
processo, segundo Raimbault, é a possibilidade de ter paz, disponibilida- haver dificuldades
dificuldades no processo de luto consciente.
consciente. Podem se manifestar
de para novos investimentos. E a possibilidade de ter recordações, olhar sentimentos de culpa muito fortes, caso a morte tenha ocorrido num aci-
uma foto e sentir a presença na ausência. dente, em que o enlutado também estava presente e sobreviveu. Às vezes
este fato conduz a ideações de acompanhar o m orto.
Bowlby levanta alguns aspectos, que podem afetar o processo de luto e
que talvez facilitem a evolução de um quadro patológico. Ele chama aten- No caso de doenças graves, em qu e houve um p eríodo longo
longo de cuidados
ção para cinco pontos importantes: com o morto, é provável surgirem outros sentimentos.
sentimentos. Nestes casos pode
ocorrer o que se c hama de "luto antecipatório".
antecipatório". O processo de luto ocorre
1. Identidade e papel da pessoa que foi perdida. com a pessoa ainda viva, e é sentida a sua perda como companheiro para
uma série de atividades, daquele que cuida, do parceiro sexual, do colega
2. Idade e sexo do enlutado. de trabalho. A pessoa ainda não morreu, mas estas perdas já têm de ser
elaborad as , com ela ainda viva e de ambos os lados. Muitas vezes, observa-
3. As causas e circunstâncias da perda. se uma degeneração física ou psíquica. Este processo pode gerar sentimen-
tos ambivalentes naquele que cuida, surgindo o desejo de que o parente ou
4. As circunstâncias sociais e psicólogicas que afetam o enlutado, na
cônjuge morra para a liviar o sofrimento de ambos despe rtan do a culpa por
época e após a perda.
estes sentimentos. Ver a dor e sentir-se impotente para promover seu o
5. A personalidade do enlutado, com especial referência a sua capacida- alívio e o bem-estar da pessoa amada é causa de muito so fr imento. Portan-
de de amar e responder a situações estressantes. to, a morte do doente pode tr azer um certo alívio, mas, também, incitar
sentimentos de culpa, pois a pessoa acredita que não tratou o ou tr o da
Cada uma destas caraterísticas pode facilitar ou dificultar o processo de melhor forma possível e com isso não evitou a sua morte.
luto. Temos de levar em conta as caraterísticas de persona lidade
li dade do enlu-
tado an tes da perda: se era uma pessoa centrada, equilibrada,
equilibrada, ouse era Em alguns casos, foram tantos anos de dedicação com o paciente, qu e
fr ágil ou desestruturada. A perda é considerada como  u m a  crise e que quando este morre, fica a sensação de vazio, porque nenhum a ou tr a ativi-
será enfrentada com as caraterísticas que a pessoa já possuía. dade tinha espaço. Preencher este vazio pode ser uma tarefa muito pen o-
1 56  Morte e desenvolvimento hum ano  Morte, separação, perdas e o processo de luto  1
5
7

sa, dificultando o processo de luto. Somente parte destes sentimentos são perda ocorra, porque a c rian ça sempre esp era a volta d o morto. Muitas
conscientes, alguns são tão dolorosos que permanecem inconscientes. vezes, os pais escondem os seus sentimentos para não ent ristecer a cri an ça,
e este procedimento acaba por causar mais problemas, pois esta sente que
O relacionamento do sobrevivente com o morto também in fl ui no proces- também não deve manifestar os seus sentimentos.
so de luto. Relacionamentos carregados de hosti li dade, ressentimento e
mágoa são m ais difíceis de serem elaborados. Existe uma imagem mu ito A criança passa p elas mesmas fases de luto que o adulto, desde que esteja
forte que se li ga aos últimos momentos que se passou com o morto. É de posse dos esclarecimentos de que necessita e que devem ser forneci-
muito desesperante se um pouco a n tes da morte houve desentendimento, dos, levando-se em conta o seu nível cognitivo e capacidade de com-
mágoa, ofensa, com muito ressentimento. Estes sentimentos persistem preensão. É sabido que a continência e o apoio são extremamente impor-
após a morte, caus an do muito sofrimento ao sobrevivente e p odendo vir tantes para a criança. A falsa noção de que "proteger" a criança da dor,
acompanhados de um sentimento de culpa pertinaz, por ele se julgar o escondendo fatos que são evidentes é uma das principa is razões para a
causador da morte do outro. Como o ser humano se torna onipotente manifestação de sintomas patológicos na criança. É um mito supor que o
quando se vê di an te de tanta dor! Será que sentimentos são tão fortes que
processo de luto da criança é rápido e que logo ela se esquecerá da
podem assassinar uma outra pessoa? O luto traz revivências de formas de
pessoa perdida. Estudos realizados com bebês, nos quais já ocorreu o
ser inf an tis, com as suas caraterísticas mágicas e todo-poderosas.
estabelecimento de vínculos específicos, demonstram que a cri an ça se de-
O suicídio é uma das mortes mais difíceis de elaborar, pela forte culpa sespera na ausência da mãe, que é sentida como morte. Suas primeiras
que desperta. Ativa a sensação de abandono e impotência em quem fica. reações são de protesto e raiva, um esforço urgente para recup erar a mãe.
O enlutado, além de lidar com a sua própria culpa, é freqüentemente alvo Logo se desenvolve um desespero, a esperança diminui, m as não o desejo,
de suspeita da saciedade como sendo o responsável pela morte do outro. a criança então vai se tornando apática, podendo cessar o seu desenvolvi-
Em m uitos caos, há uma dificuldade de desligamento da libido pela rup- mento, e nos casos mais críticos desenvolve-se a depressão an aclítica,
tura inesperada. conduzindo à morte. Quando há o reencontro, em alguns casos, a criança
está tão abalada que nã o restabelece o vínculo prontamente. Em outros
Outros fatores psicológicos e sociais também afetam o luto, como por casos, um substituto pode ser procurado. Com  crianças institucionaliza-
exemplo as condições de vida do sobrevivente, se vive sozinho, se tem de das, como não há uma pessoa única que cuida delas, este vínculo mais
cuidar de outras pessoas, além das condições econômicas e da idade. É profundo não se estabelece, e a criança pode tornar-se muito autocentra-
claro que estes fatores, por si só, não são os únicos responsáveis pelo da, às vezes com comportamentos autistas.
processo de luto, mas podem afetar o seu desenvolvimento.

Bowlby fez um estudo sobre o luto infantil e percebeu que este sofre in- Qual a diferença entre o processo de luto normal e o patológico? Para
fluência do processo de luto dos adultos, e também do nível de informação Bowlby, a exacerbação dos processos presentes no luto normal, com uma
que a c rian ça recebeu, como foi visto no capítulo 4. Segundo Raimbault duração muito longa e com características de obsessividade, configuram
(1979), a criança tal como o a dulto começa neg  an do que houve uma perda um processo patológico. O que se define como luto saudável é a aceitação
e age como se a pessoa não tivesse mor ri do. Em virtude do pensamento da modificação do mundo externo, ligada à perda definitiva do outro, e a
mágico acha que é responsável pela morte do outro. Pode também apresen- conseqüente modificação do mundo interno e represen tacional, com a
tar processos identificatórios com sintomas semelhantes aos da pessoa mor- reorganização dos vínculos que permaneceram. Os processos defensivos
ta. Informações sonegadas e confusas atrapalham o processo de luto. Res- são constituintes regulares de todo o processo de luto, em qualquer ida-
postas que escamoteiam o caráter de permanência da m orte, que é a infor- de, e se tornam patológicos quando assumem caráter irreversível, fazen-
mação mais difícil de ser comunicada, não permitem que a elaboração da do parte integrante da vida.
158 
 
M orteedesenvolviment
o humano 

Em seu texto "Luto e Melanco  li a", Freud apresenta um estudo aprofundado Morte, separação, perdas e o processo de luto 
1 59 
sobre o processo normal e patológico de luto, sendo o último o que denomi- trada. Quando o indivíduo expressa as autorecriminações, elas parecem
nou como melancolia e que tem diferenças em seu desenvolvimento. Para ser mais ligadas à pessoa amada, mas foram deslocadas desta para o ego
Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido. Há uma série de do paciente. A relação fica destruída, há uma separação, um desligamen-
reações anormais neste sujeito sem que sejam consideradas patológicas. to da libido, que, sem ser transferida para outro objeto, é deslocada para
Ocorre um profundo desânimo, cessação de interesse pelo mundo externo, o ego e aí ocorre uma identificação do ego com o objeto abandonado.
perda da cap acidade de amar e inibição de atividades externas. A res tr ição Como diz Freud, "uma sombra ca iu sobre o ego e uma perda objetal se
do ego fica vinculada a esta perda. O trabalho do luto envolve um teste de transforma na perda do ego".
realidade, que comprova que o ob jeto não existe mais, e a libido retirada
das li gações com ele. Este processo é extremamente difícil, e emé alguns Segundo Freud, na melancolia há uma escolha do tipo narcísico, báseado
momentos pode ocorrer a fantasia de que a perda efetivamente não ocor- na sua semelhança. Ocorre um a regressão para uma fase anterior do de-
reu, como vimos. O des li gamento envolve lembr  a n senvolvimento, a fase oral narcísica, promovendo u m processo de identifi-
ças, expectativas vincula-
das ao objeto e a realização do desinvestimento de cada um a delas, o que cação com o objeto, com a conseqüente incorporação do mesmo.
pode ser lento e d oloroso, mas quando termina o ego permanece li
desinibido para novas possib il idades de vínculo. vre e Outros processos patogênicos que se apresentam e que tornam o luto
patológico são a ambivalência e a culpa. Este processo pode estar incons-
A melancolia, ou o que atualmente pode ser chamado de depressão, se- ciente e os sentimentos de amor e ódio se alternam. O ódio entra em ação
gundo a definição de Abraham nos seus comentários ao texto de Freud, tirando prazer do sofrimento pelas degradações. Este ódio, que será diri-
ocorre em pessoas que têm uma disposição patológica. Na mel an gido contra o outro, passa a atuar internamente, como uma autopunição.
coli a
ocorrem os mesmos sintomas do processo de luto normal, acrescidos de E um processo de vingança contra o objeto perdido, que passa a ser
um rebaixamento da auto-estima, havendo uma autorecriminação e uma torturado pelo sofrimento da pessoa. Esta ocorrência é muito comum nos
expectativa de punição. A melancolia é também uma reação a um objeto processos de separação.
perdido, sem ter ocorrido morte, mas que o su jeito o sente como morto
E patente a ligação da melancolia com o suicídio. Os impulsos assassinos
enquanto objeto de amor. Não fica claro o que foi perdido, nem para a
própria pessoa, pois a perda objetal pode estar inconsciente. Muitas ve- contra o objeto perdido são voltados contra si próprio. A pessoa tende a
zes, parecem esquisitas todas estas manifestações apresentadas, sem uma se ver também como um objeto, e daí dirige para si a hostilidade relacio-
causa aparente. nada com o outro.

Uma das características principais da melancolia é uma diminuição pro- Muitas vezes, a melancolia se transforma em mania, há uma procura vo-
raz de novas ligações.
funda da auto-estima, um empobrecimento do ego. Segundo Freud, se no
luto o mundo se torna vazio, na melancolia é o ego, um ego desprezível, O trabalho de Melanie Klein (1940) estabelece a relação do processo de
que deve ser punido. Sintomas como insônia e anorexia parecem ser uma luto com os estágios iniciais do desenvolvimento infantil, mais particular-
forma de superação do instinto de vida e um modo de punição. A p essoa mente com a fase depressiva.
realmente se sente assim, não é fingimento, e ela repete à exaustão suas
dificuldades, encontrando satisfação em falar do seu sofrimento. A confiança do bebê é estabelecida a través do amor, prazer e conforto,
facilitando a internalização de objetos "bons". Estas experiências dimi-
Na melancolia é como se uma
parte do ego ficasse contra a outra, nã o nuem a ambivalência e os medos de destruição destes objetos. Experiên-
havendo mais conexão com os
fatos da realidade, não adianta checar a cias desagradáveis, ou a falta de experiências amorosas e prazerosas, po-
veracidade com fatos externos,
porque nenhuma correlação será encon- dem diminuir a confiança, aumentar a ambivalência e confirmam a ansie-
dade em relação à aniquilação interna e perseguições externas. A criança
1 6 0  Mo rt e e desenvolvimento humano  Morte, separação, perdas e o processo de luto  16 1

sente falta do seio e do leite como os representantes da bondade e da No processo normal de luto o indivíduo reintrojeta e reinstala a pessoa
segurança, que, acredita, foram p erdidos como resultado de suas f a n tasias perdida, bem como seus pais amados que são os objetos internos "bons".
agressivas e destrutivas. Qu a n do ocorre uma p erda, o indivíduo sente que o seu mun do interno foi
destruído.
A flutuação entre a p osição depressiva e a maníaca são partes do desen-
volvimento normal. Segundo a autora, fantasias onipotentes e violentas Muitas tentativas de suicídio podem ser a forma de des  t r uir os pais internos
são usadas como forma de controlar os objetos "maus" perigosos. As f an " maus", que frustram, ab an donam e perseguem. Um maior detalhamento
tasias onipotentes, destrutivas e reparadoras entram em todas as ativida- sobre este tema será apresentado no capítulo seguinte sobre o suicídio.
des infantis. No início do desenvolvimento, o ego não tem armas eficazes
A autora conclui que, tanto nos processos de luto normal, como no pato-
para lidar com a culpa e com a an siedade. Este ego infantil busca então
lógico, a posição inf a n til depressiva é reativada. Os indivíduos maníaco-
lidar com os medos da desintegração através de tentativas de reparação,
depressivos e aqueles que não conseguem elaborar o luto têm em comum
que, quando maníacas e obsessivas, não permitem a recriação da paz
o fato de que, na infância, não conseguiram estabelecer os seus objetos
interna e da harmonia.
internos "bons", e não se sentiram seguros no m undo.
A autora estabelece uma conexão entre a posição depressiva infantil e o Até aqui dem os destaque ao processo de luto di an te de perdas definiti-
luto normal. Quando acontece a perda de uma pessoa amada ocorrem vas, como é a m orte. Igor Caruso (1982) em seu trabalho refere-se a um
fantasias inconscientes, por parte do enlutado, de ter perdido seus objetos outro tipo de morte, a separação, que ele relaciona a u ma fenomenologia
internos "bons", sentindo que os seus objetos "maus" predom inam. Seu da morte. Uma das experiências mais dolorosas para o ser hum an o é a
mundo interno está à beira da destruição. Vimos que o enlutado procura separação, que todos, inevitavelmente, viveremos. Segundo Caruso, estu-
em alguns m omentos reinstalar o objeto perdido, como forma de reinsta- dar a separação amorosa é estudar a presença da morte em nossa vida. É
lar os objetos "bons" que sente como perdidos, em última instân cia, os uma morte psíquica na vida dos seres humanos. Separar ou partir é mor-
pais que foram os primeiros objetos internalizados. rer um pouco. A separação pode ser em m uitos casos pior do que a
própria morte, porque significa uma capitulação diante da morte ainda
O enlutado passa por um estado maníaco-depressivo transitório e modifi- em vida. Por outro lado, a separação p ode ser a saída menos dolorosa, em
cado, superando os processos infantis através da sua repetição em diver- alguns casos, porque evita a morte.
sas circunstâncias e com diferentes manifestações. Quando o ódio em
relação ao objeto amado predomina, este se torna persecutório, e afeta a A separação é a vivência da morte num a situação de vida, com Eros pre-
crença nos objetos "bons". sente. Segundo Caruso, desenvolve-se:

1. A catástrofe do ego: com a separação produz-se uma morte na cons-


No início, algumas defesas maníacas como limpar compulsivamente a ciência, daí o desespero. Ocorre uma mutilação egbicà, a identidade
casa, rearranjar a m obília ou se desfazer dos pertences do morto são sucumbe, o que aciona os mecanismos de defesa para que esta morte
formas de afastar o elemento persecutório da perda. Uma ligação ao ob- não aniquile a consciência e não leve ao suicídio, uma atua ção psicó-
 jet o, ba se ad a n o a m or e no de se jo do re torn o, po de su rg ir també m co m o tica, segundo o autor.
forma de reparação dos sentimentos destrutivos. A sublimação e a busca
de novas atividades são também formas de lidar com a dor. Quando estes 2. A agressividade: esta pode surgir como mecanismo de defesa, atacan-
elementos destrutivos do objeto, bem como a profunda idealização, ele- do aquele que abandonou. A desvalorização do ausente é uma forma
mento reparador do ódio, são superados, importantes passos em direção de tentar reconciliar o ego ferido com o ideal a balado. O amor pode
à elaboração do luto foram dados. se transformar em ó dio, favorecendo o desligamento do objeto.
1 6 2  Mo rt e e desenvolvimento humano  Morte, separação, perdas e o processo de luto  1 6 3 

3. A indiferença: há um a experiência de "pouco importa". Força-se uma turbada, ab a n dona o próprio ego em favor do amado. A perda na m elan-
diminuição da idealização egóica. Esta indiferença pode ocorrer em colia é uma perda de vida. O melancólico, tão imbuído de seu estado,
meio ao desespero. E um embotamento afetivo, uma repressão das muitas vezes perde o interesse pelo companheiro e s6 se interessa em
f an tasias sexuais. Pode-se traçar uma analogia com a rigidez da mor- viver a sua perda, abandonando então o outro. A melancolia pode ser
te, uma renúncia ao prazer, p ara se evitar o desprazer. considerada como uma vitória da pulsão de morte.

4. A fuga para diante: é uma busca de novas atividades ou de novas for- No processo do amor e da separação estão presentes duas forças antagô-
mas de prazer. Procuram -se intensamente novas relações, como substi- nicas, por um lado, e complementares, por outro, como vimos no capítulo
tuição ao parceiro perdido. O ego so fr edor necessita de consolo. do Dr. Cassorla. São as forças de a mor/ódio e vida/morte. As forças de
amor e vida podem estar presentes em situações de vida, quando a morte
5. A idealização: é uma form a de depuração, um a filosofia estóica, he- aparece como escape para a dor e a destruição de uma separação. A
róica. É uma rebelião contra o processo de "morte" que procura se agressividade ocorre tamb ém, algumas vezes, nas relações amorosas, no
instalar processo de conquista.
Os mecanismos de defesa, como Caruso diz, são "frágeis vitórias contra a A separação pode ser vista como um fracasso do amor, onde pode-se
morte", e são acionados como forma de proteção ao aniquilamento do verificar a irrupção dos impulsos sado-masoquistas. O sofrimento muitas
ego, evitando a destruição e a p erturbação dos ideais. vezes constitui um elemento de prazer, ama-se um pouco morrer, há ele-
A separação traz o sentimento de "nunca mais", como na situação de mentos libidinais na autodestruição, que são os c omponentes masoquistas
morte, só que o companheiro não morreu. Este m esmo mecanismo pode da separação.
levar o separado a almejar a morte como forma de escape de tão profun-
As várias fases do desenvolvimento são também ex periências de morte em
da dor, principalmente quando vem acompanhado da crença de que exis-
vida. O desenvolvimento futuro representa perda, morte e sacrifício de
te uma vida depois da morte, que é sempre fantasiada  como muito mais
formas anteriores. Como nos dizem Aberastury e Knobel (1973), o ado-
feliz do que a atual. Esta é mais uma razão para os freqüentes suicídios lescente tem de realizar o luto do corpo, da identidade e dos pais inf  a n tis.
após a separa ção, mesmo que somente como elemento desencadeador.
Há a perda de algo conhecido e a angústia diante do novo. A velhice é
Como veremos no próximo capítulo, o suicídio pode ser um elemento
também u m mom ento de profundas separações, onde o indivíduo tem de
preventivo contra uma separação; quando o indivíduo sente a relação
se despedir do trabalho, dos familiares, do seu corpo e pertences e final-
ameaçada e o p erigo de abandono, mata-se antes de viver a separação.
mente da própria vida.
A separação também estimula desejos de morte contra o companheiro, se
De todos os aspectos que vimos até agora, podemos observar que as p er-
não concretamente, então internamente como possibilidade: é a tentativa
das e a sua elaboração fazem parte d o cotidiano, já que são vividas em
de esquecer, através do processo de desligamento libidinal. Ocorrem t an
todos os momentos do desenvolvimento humano. São as perdas por mor-
to a depreciação, como desvalorização, onde todos os elementos negati-
te, as separações amorosas, bem como, as perdas consideradas como "pe-
vos são projetados no outro, ou seja, os aspectos de "sombra" segundo o
quenas mortes", como, por exem plo, as fases do desenvolvimento, da in-
conceito junguiano. Em op osição pode ocorrer a idealização do outro.
fância para a adolescência, vida adulta e velhice. São também vividas
Estes sentimentos ambivalentes e contraditórios costumam estar presen- como "pequenas mortes" mudanças de casa, de emprego. O matrimônio e
tes conjuntamente. A melancolia ocorre também nos processos de separa- o nascimento do filho também são "mortes simbólicas", onde uma pessoa
ção. O objeto é introjetado no ego, e a perda é sentida como aniquila- perde algo "conhecido", como o papel de solteiro e o de filho, e vive o
mento do próprio eu. 0 melancólico é um amante qu e, de maneira con- "desconhecido" de ser cônjuge ou pai. Estas situações podem despertar
1 6 4  Mo rt e e desenvolvimento humano 

angústia, medo, solidão e, neste ponto, trazem alguma an alogia com a


morte. Carregam em si elementos de sofrimento, dor, tristeza e uma certa
Capítulo 10
desestruturação egóica. Um tempo de elaboração se faz necessário.
Acreditamos que o trabalho psicoterápico, embora não obrigatório, pois
não se trata sem pre de um processo psicopatológico pode auxiliar enor-
memente no processo de luto. A expressão de sentimentos numa situação
COMPORTAMENTOS AUTODESTRUTIVOS
de perda, com o o abandono e a solidão, que evocam a raiva, a tristeza e a E O SUICÍDIO
culpa, facilita a sua elaboração. Pode auxiliar no processo de desidentifi-
cação e na possível reinvestida libidinal, oferecer um ambiente acolhedor
e de continência tão necessário nesse momento. O processo psicoterápico Maria Júlia Kovács
pode, em m uitos momentos, configurar-se como um elemento preventivo
para que não se desenvolva um processo de luto patológico.
"O suicídio é o único problema filosófico verdadeirame nte sé-
rio, pois julgar se a vida vale ou não à pena ser vivida é respon-
Referências Bibliográficas der à questão fundamental da filosofia." (Albert Cam us, O mito 
de Sísifo.) 

ABERASTURY, A. e KNOBEL, M. - La adolescencia normal B.A.  , Ed. Esta é realmente a questão fundamental, a vida va le ou não à pena ser
Paidós, 1973. vivida? O suicídio inclui uma gam a de situações muito complexas, cujos
contornos são vagos e indefmidos. Ter clareza quando se trata efetiva-
AIRES, P. - A história da morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Francisco mente de su icídio, ou de acidentes, acaso, homicídio, doença ou quais-
Alves, 1977. quer outros atos autodestrutivos é muito difícil. Veremos neste capítulo
como vários autores procuraram compreender este problema. Arrolare-
BOWLBY, J. - Apego, perda e separação. São Paulo, Martins Fontes, 1985.
mos hipóteses, tentativas de explicação e tratamento de um problema tão
CARUSO, I. - A separação dos amantes. São Paulo, Diadorim Cortez, profundo. Estaremos apenas tangenciando alguns dos pontos essenciais
1982. para a discussão do suicídio, ou melhor dos suicídios.

FREUD, S. - Luto e melancolia. (1917[1915]). In: Edição Standard Bra-  Levy (1979) tr az em seu artigo algumas das defmições, que permitem situar
sileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, o que é suicídio. Em sentido est ri to é considerado como uma auto-elimina-
1974, vol. 14. ção consciente, voluntária e intencional. Num sentido mais amplo, o suicídio
inclui processos autodestrutivos inconscientes, lentos e crôn icos.
KLEIN, M. - O luto e a sua relação com os estados maníaco-depressi-
vos. In: KLEIN, M. - Cont ri b uições d psicanklise. São Paulo, Mestre  Tenta tivas d e suicid io são atos de liberad os de au to-agres são, em qu e a
 Jou , 19 81 . pessoa não tem certeza da sobrevivência, manifest  a n do uma intenção au-
todestrutiva e uma consciência vaga do risco de morte.
RAIMBAULT, G. - A c ri a nça e a morte. Rio de Janeiro, Fr an cisco Al-
ves, 1979. Equivalentes suicidas, também cham ados de "pára-suicídios" ou de sui-
cídios inconscientes, são atos que não se expressam d e modo explícito e
manifesto, e sim de forma incompleta, deslocada, simbólica como se
16 6  Morte e desenvolvimento humano  Compo rt amentos autodestrutivos e o suicídio  16 7 

verifica em certos acidentes, homicídios provocados pela vítima e a uto- necessidades, buscando m aior amor e valorização pessoal. É uma forma
mutilações. de comunicação. Há uma ambivalência entre o desejo de viver e morrer.

Processos autodestrutivos crônicos são processos lentos, provocados O suicidio é um ato muito complexo, port  a n to, não pode ser considerado
por tendências inconscientes como é o caso de certas doenças psicosso- em todos os casos como psicose, ou como decorrente de desordem social.
máticas e toxicomanias. Nestes casos, não se observa u m risco tanatogê-  Ta mb ém nã o p od e s er ligado de forma simplista a um determinado acon-
nico imediato. tecimento como rompimento amoroso, ou perda de emprego. Trata-se de
um p rocesso, que pode ter tido o seu início na infância, embora os moti-
Levy traz a questão etimológica; na palavra SUICÍDIO estão as palavras vos alegados sejam tão somente os fatores desencadeantes.
su l   de si mesmo e caedes ação de matar, portanto ma tar a si mesmo, e em
1778 a palavra foi incluída no dicionário de língua fr a n cesa. Embora a  Todos n ós p odem os ter idéia s e a té d esejos de m orte qu and o esta mos
etimologia traga evidências, a idéia do suicídio oferece muitas dificulda- desesperançados ou desanimados; mas até a consumação de um ato suici-
des com suas inúmeras controvérsias. As causas podem ser  as mais varia- da, há uma série de variáveis em jogo que têm de ser consideradas. /,
das, incluindo aspectos externos, normas sociais e motivações internas.
Dados epidemiológicos sobre suicídio foram apresentados por Kastenbaum
(1983), que encontrou uma relação positiva entre o aumento da idade e a
Para alguns autores, só é vá lido considerar suicídio quando o indivíduo
está consciente do seu ato. O su jeito tem de estar lúcido quando da reali- taxa de suicídio. A velhice se caracte ri za por ter o índice mais alto de suicí-
dio porque neste período se vivem situações altamente desvitalizantes
zação do ato, excluindo-se aqueles casos em que o indivíduo se encontra
como: isolamento social, desemprego, aflições econômicas e perda de pes-
confuso, escolhendo a morte em vez da vida. A intencionalidade da ação
autodestrutiva é um aspecto distintivo do suicídio, embora nem sempre soas que ri das. Um exemplo desta situação foi o suicídio de Bruno B ette-
seja fácil de ser avaliada. Dois aspectos devem ser levados em conta: lheim. A Revista Veja l p ub li cou sobre este assunto um artigo que discute o
direito de morrer de um psicanalista, com 86 anos, conhecido pelas suas
a. Possibilidade ou impossibilidade de reversão do m étodo empregado obras sobre crianças. Internado em um asilo tomou um a dose que sabia
para morrer. fatal de tranqüilizantes antes de perder os sentidos. Parece ter sido uma
decisão consciente de algo que sempre quis, ou seja, escolher a sua forma
b. Providências que tornam possível a açã o de terceiros, quando esta de vida e no fim, como esta se tornou insuportável achou melhor morrer.
intervenção é possível e pode se inferir que a intencionalidade seja
mínima. Em termos de sexo, observou-se que os homens se suicidam mais e a
hipótese explicativa é que estes apresentam um menor índice de tole-
Existe um grau crescente de intencionalidade quando se consideram rância à frustração.
idéias de suicídio, passando-se para desejos, ameaças, tentativas e final- Subgrupos minoritários estão mais vulneráveis a situações tensionantes,
mente o ato consumado. Será que o indivíduo quer mesmo morrer ou portanto, têm alto risco para a prática suicida. Alguns países apresentam
viver? Em cada situação deve ser levada em conta a intenciona li dade e
maiores índices de suicídio como a Hungria, o Japão e a Suécia li gados à
letalidade do ato. Pelo que está sendo visto, cada caso tem de ser estud a-
práticas educativas ou à repressão das emoções.
do em seus aspectos m ais minuciosos.
Em relação ao estado civil foi observado que as taxas de suicídio são mais
Deve se levar em consideração o que Schneidmann e Farberow (1959) altas entre pessoas sozinhas como solteiros, viúvos ou separados. A pro-
chamaram de "C ry  for Help", onde o sujeito atenta contra a própria vida
1 Revista Veja, 21/03/90.
como forma de chamar a atenção das pessoas à sua volta para as suas
1 6 8  Comportamentos autodestnitivos e o suicídio  169 

fissão em que se encontrou o m aior índice de suicídios foi a m edicina, e dos jovens suicidas. São famílias com maior proporção de separações
dois fatos podem ser a rr olados para encontrar exp li cação para isso. Em entre os pais, alcoolismo, envolvimento com a policia e a justiça. Segundo
primeiro lugar o fato de a medicina ser uma profissão muito tensionante, o autor, isto impediu que a função parental se proc essasse de forma mais
onde decisões rápidas precisam ser tomadas com alto grau de responsa- adequada. A p erda dos pais foi mais precoce no gr upo suicida. Trata-se
bilidade. Por outro lado, os médicos têm fácil acesso às drogas, o que de jovens com maior susceptibilidade a rejeições e uma menor capacida-
facilita a ingestão delas numa dose letal. de de suportar frustrações.

Consider an do-se as doenças mentais, as taxa s de suicídio são mais altas Kalina e Kovadloff fizeram um levantamento histórico do suicídio. Na
entre indivíduos portadores de m elancolia, onde o desejo de morte pode Antiguidade gr eco-romana o suicídio era um ato clandestino, patológico,
não ter sido suficientemente satisfeito na psicose. solitário e só seria a valizado com o consentimento da sociedade. Não
havia o poder de decisão pessoal, era uma transgressão. Os suicidas não
Diversas notícias de jornal nos tr azem dados sobre a rea lidade brasileira tinham direito a uma sepultura regular e suas mãos eram enterradas se-
atual, sendo que algum as  chamam a nossa atenção de forma especial. Uma paradamente. A mão era considerada assassina e a sua separação desti-
delas se refere ao suicídio entre indígenas. 2 Acreditar-se-ia que as socieda- nava-se a evita r que cometesse outros atos proibidos. A proibição dos
des p rimitivas estariam mais a salvo do suicídio, pela continência do g ru po ritos funerários era uma forma de punição, para impedir um possível
e presença de normas claras e precis  as . A psicóloga Maria Aparecida Cos- contágio dos cidadãos pelo suicida.
ta, da Funai, porém, diz que histórias de enforcamento não são n ovidade na
reserva de Dourado onde vivem os índios guaranis. Não há uma hipótese Em Roma, o indivíduo deveria submeter ao Senado as suas razões para o
clara, a resposta é o silêncio. Para a psicóloga a hipótese para o suicídio desejo de morrer.
se ri a o contato com as  cidades, a miséria e o ab a n dono d as  tradições e
cultos. Esse afastamento dos rituais quebra o contato com suas ra í'es, le- Havia situações em que o suicídio era incentivado como, por exemplo,
vando a situações de isolamento e solidão, lembrando a idéia de sociedade o dos escravos após a m orte do dono, das viúvas na Índia após a m orte
tanatotóxica, de que nos falam K alina e Kovadloff (1983), e a que nos refe-
do marido.
riremos com mais detalhes posteriormente.

Outra reportagem sobre suicídio de adolescentes traz material para pro- Na Idade Média o indivíduo e a sua vida pertenciam a Deus, e o sujeito
fundas preocupações sobre a qualidade de vida nas gr andes cidades. 3Re- era castigado quando tentava se apoderar da vida qu e não lhe pertencia.
fere-se ao suicídio de M. P ., de 16 anos, que morreu ao cair da j an ela de
seu apartamento depois do uso de drogas e bebida. As hipóteses são de Na época atual, há uma maior autonomia, não existindo mais castigo im-
que os jovens buscam a morte inconscientemente, sendo a sua principal posto pelo Estado. Hoje a maior causa de suicídios, no Ocidente, é a
causa entre adolescentes. No Brasil 5.000 adolescentes se suicidam a cada solidão, o sentimento de irrelevância social. Houve um desmoronamento
ano. Por quê? O que faz com que jovens na flor da idade, com a vida pela dos três pilares básicos da sociedade: família, Estado e religião, que me-
frente, no auge do desenvolvimento físico e psíquico, com todas as p oten- lhor descreveremos a seguir.
cialidades abertas, se matem?
 Já en tr e o s p ov os pr im iti vo s, o s ui cí di o o u at o d e se m at ar es tá li gado às
Cassorla (1984), em estudo com jovens entre 12`e 27 anos que tentaram normas do gr upo. Pode ser incentivado pela comunidade quando há sé-
suicídio, verificou diferenças nas características das fam ílias de o ri ge m rias infrações às re gras  sociais, como forma de neutralizar a culpa, reabi-
2 Suicídio contagia índios caiuás.O Estado de S. Paulo, 13/01/91. litando o indivíduo diante do grupo. A quebra d e costumes e tradições
3 Shopping News, 26/08/90. nestas sociedades é considerado com o delito gr ave.
Compo rt a mentos autodestnutivos e o suicídio  171

Dias (1991) apresenta um relato sobre o suicídio em outras culturas, debilitação das crenças que nos ajudam a nos conduzirmos, como as prá -
corno no Oriente, onde é reconhecido como auto-sacrifício ou autopurifi- ticas religiosas.
cação. No Japão o suicídio pode ser visto como a última obra de arte, a
morte como arte foral. Este aspecto é magnificamente representado no O suicídio varia na razão inversa ao grau de integração dos grupos so-
filme "Mishima", de Paul Schradder. São m encionados também os suicí- ciais. Ele chama de egoísmo a este estado em que o indivíduo se afirma
dios por honra e p or serviço. de forma excessiva diante do social e às custas deste. O suicídio egoísta
resulta de uma individualização excessiva; nas sociedades altamente agre-
O Japão de hoje apresenta um índice crescente de suicídios, li gados à gadas é difícil ocorrer este tipo de suicídio, como nas sociedades primiti-
questão da honra, de jovens que fracassam na realidade escolar e são vas. Em sociedades desagregadas o que pode acontecer é que o indivíduo
considerados indignos. A autora cita também os discípulos que se suici- se sente só, desesperado, sem razões para viver, e matar-se pode ser a
dam após a morte do mestre, ou dos cidadãos que se matam após o óbito única solução p ossível.
do imperador, como ocorreu no caso da m orte do imperador Hiroito. A
autora menciona o li vro de Maurício Pinguet, A mo rt e voluntkria no Ja-  Suicídio Altruísta
 pã o, onde se pode ver com mais detalhes estes aspectos. Port an to, para
uma aná lise do problema do suicídio devemos levar em conta qual a O indivíduo também pode se matar quando está muito integrado num
inserção social deste ato na comunidade da qual o indivíduo faz parte, grupo. Este não pode perm anecer vivo quando perdeu a estima pública.
porque os valores são com pletamente diferentes nas diversas culturas e Motivos externos como a desonra ou brigas podem levar à condenação.
entre o Oriente e o Ocidente. A sociedade prescreve a não-individualidade, e em muitos credos religio-
sos o suicídio faz parte dos rituais na forma dos martírios e sacrifícios. O
Entre as principais teses sociológicas sobre o suicídio, a obra que inspi- homem anseia li bertar-se do individualismo para mergulhar nesta essên-
rou outros autores foi a de Durkheim, O suicídio, do final do século 19, cia, não há tanto apego ao pessoal. Outro exemplo de onde pode se
considerado um importante trabalho de investigação sociológica muito manifestar o suicídio altruísta é no exército, onde o soldado vive uma
atual. Para este autor, o suicídio é um ato individual com características espécie de impessoalidade, tem seus princípios de conduta regidos de
da sociedade que o produz. E um ato complexo, indefinido e com contor- fora, a renúncia é o resultado de um adestramento prolongado. Nestes
nos vagos. O suicídio é um homicídio intencional de si mesmo. Só uma casos, são comuns os suicídios heróicos.
aproximação grosseira pode falar sobre as suas intenções. De várias ma-
neiras o indivíduo renuncia à sua existência. E um ato desesperado de Suicídio Anômico
alguém que não quer viver.
É conhecida a influência agravante das situações de desorganização
Segundo, o autor a classificação do suicídio facilita a chegad a aos seus como as crises econômicas. Às vezes, o indivíduo não tem consciência dos
motivos básicos:
seus limites e do que necessita, precisando de um parâmetro social.
Quando a sociedade falha neste aspecto, o homem se sente desorientado.
Suicídio Egoísta A anomia pode ser percebida também na vida familiar, verificando-se
aumento de taxas de suicídio após divórcios, por causa da incerteza, o
A sociedade mod erna força a pessoa a ser livre, destaca o valor da perso-
que resulta num estado de perturbação.
nalidade individual, facilitando o que se chama de suicídio egoísta, basea-
do na vontade p essoal. A religião pode impedir o suicídio graças ao seu O suicídio egoísta e anômico apresentam uma semelhança: em amb os a
forte poder de integração, bem como a família também pode estimular a sociedade, aparentemente, não preenche de forma total as necessida-
i munidade ao suicídio. Os índices de suicídio aumentam quando há uma des do sujeito.
Comportamentos autodestnttivos e o suicídio  1 7 3 

Kalina e Kovadloff (1983) são os representantes atuais das hipóteses so- pessoais do sujeito, e a morte surge como solução para o alívio da frus-
ciais sobre o suicídio. Segundo as colocações destes autores, o suicídio é tração. Segundo os autores, o Ocidente chegou nu ma encruzilhada ética.
resultante de uma existência autodestrutiva, chamada de existência tóxi-
ca. Esta se vincula a um projeto de morte, o de viver se suicid a n do. Na Camus p õe a nu a perplexidade humana diante dos tentáculos paralisan-
civilização ocidental falta um plano de desenvolvimento interior. tes da sua impotência e das dolorosas limitações. O absurdo a que a
sociedade submete o homem não é uma derrota, e sim um estímulo para
Para estes autores considerar a opção do suicídio como p essoal é insufi- a sua superação, conduz à revolta, liberdade e pa ix ão, portanto, ao lado
ciente. O suicídio é resultado de uma indução social, e não de um a livr e mais criativo do ser hum a n o. Para este autor o suicídio é a derrota, o
determinação individual. Entretanto, cada individuo articula à sua m anei- abandono da luta.
ra os recursos com os qu ais a sociedade o dotou. O suicídio pode ser uma
forma de rebelião ou subm issão contra essa sociedade. Muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não merece ser
vivida. Outros paradoxalmente se matam pelas idéias ou ilusões que lhes
O indivíduo que atenta contra a sua vida, atenta c ontra a sociedade. Em dão prazer de viver. Para Ca mus o suicídio é um gesto preparado como
nossa cultura houve um aumento de suicídios, a pessoa aprende que algu- uma grande obra, no silêncio do coração, é uma confissão a si mesmo de
mas vezes é mais di gn o morrer do que viver. A existência tóxica envolve que a vida não vale à pena, é u ma tragédia.
um viver se suicidando, o homem então só term ina de morrer.
Camus traz o mito de Sísifo como um represent  a n te máximo do absurdo.
Kalina e Kovadloff pesquisam a origem etimológica da palavra suicídio, Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso uma pedra
fazendo uma ligação terrível com a palavra ocidente. Se occidere cortar, até o cume de uma m ontanha de onde rolava para ba ix o, pelo seu peso.
esmigalhar, ferir mortalmente, se matar; occasum: ocaso, ruína, decadên-  Tinh am pens ado c om ra zão qu e nã o há c asti go ma is ter rível do que o
cia, resultando na palavra O CIDENTE. Então a nossa sociedade está trabalho inútil e sem esperança. Sísifo havia desafiado os deuses por ter
esmigalhada, em ruínas. D aí o nome de sociedade tanatotóxica. acorrentado a Morte, e por ter esquecido de voltar às profundezas da
terra após a sua própria morte. Este mito é trágico porque o herói está
Os autores afirmam que, em bora haja a indução social, o suicídio é um consciente, conhece toda a extensão de sua m iserável condição. A p erda
ato psicótico. Esta imposição social invade o sujeito, atinge a sua cons- do sentido é o primeiro sinal do absurdo, a busca da saída se faz pela
ciência e aniquila o ego. Este não consegue se defender, perde a crítica. revolta, liberdade e pa ix ão. Paradoxalmente o absurdo confere um senti-
Segundo estes autores, mesmo que racionalmente se possa compreender do para a vida, n a medida em que não há conformação e, portanto, há
os motivos do suicídio, este é sempre um ato psicótico, pois envolve a luta e conseqüentemente vida.
perda de consciência. Este ponto é altamente controverso e não há con-
senso entre os autores que estudaram a questão do suicídio. Outros autores buscaram as hipóteses para o suicídio em motivos in-
trapsíquicos.
O suicídio é uma trágica denúncia do indivíduo de uma crise coletiva.
Quando ele se mata fracassa uma prop osta coletiva daquela sociedade. Menninger (1965) em seu livro Eros e Thanatos - O homem contra si 
 pró pri o traz os motivos subjetivos e particulares para um processo auto-
Entre os aspectos de uma sociedade tóxica se encontram o armamento destrutivo.
nuclear, a contam inação do planeta, a despersonificação e o elevado nível
de agressividade, que as metrópoles produzem, o reba ix amento do valor Segundo o autor, pareceria evidente que o homem se opusesse firmemen-
individual e da auto-estima. Nas grandes cidades ocorre a solidão, a dis- te à morte e à destruição. Entretanto, torna-se cada vez mais evidente
tância dos vizinhos, a falta de solidariedade, o desenraizamento e a que- que parte da destruição que flagela a humanida de decorre da autodes-
bra das tradições. A tecnologia não atende mais às necessidades básicas e truição, aliando-se a forças externas no ataque à sua própria existência.
Compo rt amentos autodestrutivos e o suicídio  1 75 

 Ten dên cia s c ons tru tiv as e d est ru tiv as da pe rso na lid ad e e stã o e m c ons tan - indivíduo, de modo qu e o eu é tratado como um objeto. Pessoas suicidas
te conflito e interação para criar, destruir e construir, representando pr o- são normalmente am bivalentes quanto aos seus sentimentos.
cessos anabólicos e catabólicos da personalidade. Além dos atos suicidas,
propriamente ditos, há uma série de atos com conteúdos fortemente au- Exemplos como no filme Sociedade dos poetas mo rt os indicam que quan-
todestrutivos como a participaçã o em certos sacrifícios, o ascetismo, o do ocorre um suicídio, como no caso do jovem, pode na verdade haver o
martírio e a submissão a certos procedimentos cirúrgicos sem necessida- desejo de assassina r o outro, no caso o pai. Não ocorre o assassinato,
de óbvia. Muitas pessoas, embora não admitam, destroem a vida em pro- porque a vítima tem e o agressor, as su as intenções hostis. Por outro lado,
cessos autodestrutivos crônicos como o alcoo li smo ou a adição a drogas. pode haver a interferên cia de fatores eróticos, tornando difícil matar a
Acidentes freqüentes, atribuídos ao destino ou ao acaso, podem trazer no quem se ama, no caso também o pai. É preciso pensar tam bém no ele-
fundo intenções de morte. mento vingativo presente em q ualquer ato suicida que é a possibilidade
de infligir sofrimento ao outro.
Este livro se propõe a descobrir que motivos subjacentes determinam
essa escolha, onde o desejo de morrer vence o desejo de viver, muitas O melancólico pode descarregar contra si próprio os amargos ataques, as
vezes com plena colaboração das facu ldades mentais e intelectivas. hostilidades antes ocultas em relação ao objeto amado

A autodestruição começa muito tempo antes do ato suicida, é como se a Desejo de Ser Morto
pessoa tivesse um encontro com a morte, embora, aparentemente pareça
fugir dela. Esta intenção parece estar presente desde os primeiros anos
de vida. Ser mo rt o é uma forma ex tr ema de submissão, assim como matar é um a
forma de agressão. Neste c  a s o temos a questão do masoquismo, de sentir
Menninger considera que para ocorrer o suicídio é necessária a presença prazer na d or. Como é possível obter satisfação com a puniçã o, com a
de três componentes: o desejo de matar, o desejo de ser morto e o desejo doença? Uma das explicações cabíveis é de que o ego precisa sofrer na
de morrer. O suicídio é antes de tudo u m hom icídio, um hom icídio de si dimensão de sua destrutividade dirigida para fora, se há um ataque para
mesmo, onde a mesma pessoa é o assassino e o assassinado. Nenhum fora, a mesma proporção precisa ser dirigida para dentro. É necessário que
suicídio é consumado se além do desejo de matar, não estiverem presen- haja sentimentos de culpa, para haver a necessidade de punição. Desejos
tes o desejo de morrer e de ser morto. Quand o o desejo de morrer não homicidas, mesmo que não efetuados e inconscientes dem an dam punição.
está presente, pode ocorrer o paradoxo de que o indivíduo suplique para
que o salvem, após um ataque suicida, muitas vezes brutal. Menninger faz então um paralelo entre os meios utilizados para os atos
suicidas e a sua possível relação com os três componentes aqui considera-
dos. Há elementos mais a gressivos como tiros, ou uso de instrumentos
Desejo de Matar cortantes penetrantes. Psicóticos podem estabelecer relações m ais con-
cretas, por exemplo, tocar ou encostar em fogões pode representar um
Neste aspecto é extremamente importante o caráter destrutivo. O instinto desejo patológico de ser aquecido, amado, sentir calor humano, libertar-
destrutivo pode estar presente na criança pequena di an te de um rival. se de uma frieza ou um gelo interno. Afogamento pode representar o
Em todo o ato destrutivo pode existir uma erotiza9ão parcial, como um desejo de voltar ao bem-estar da existência intra-uterina. O processo de
prazer neste ato, conhecido como sadismo. O mesmo pode ocorrer nos ingerir substâncias venenosas pode estar relacionado a intensos desejos
atos autodestrutivos. Pode acontecer quando o amor e o ódio são desliga- orais. Em muitos destes métodos podemos encontrar elementos de puni-
dos dos objetos externos e voltam-se contra o pró prio indivíduo. O desejo ção, aliados a fatores eróticos ligados ao prazer. Muitos têm um caráter
de matar em vez de ir pa ra objetos externos, volta-se contra o próprio exibicionista, um desejo de ser descoberto e mais uma vez pu nido.
17 6  
M o
rteede
senv
olvime
n t
o humano
  Comportamentos autodestrutivos e o suicfdio  17 7 

 Traze ndo no seu bojo uma ca racter ística n arcísic a, mat ar-se em vez d e clui, também, a simulação de doenças e dor, que acabam envolvendo um
ser executado é conservar n o íntimo a ilusão da onipotência, e pelo ato sofrimento, mas também, uma forma de agredir as pessoas que estão
do suicídio tornar-se senhor da vida e da morte. Mesmo porque muitos próximas. Às vezes, as doenças, cirurgias, ferimentos são formas de evitar
suicidas têm certeza de uma vida futura que será melhor do que esta. um mal m aior, como a morte ou a psicose. Acidentes repetidos podem
Então o suicídio não é uma morte verdadeira porque não é sentida como significar uma forma de neutralização parcial dos instintos destrutivos.
definitiva. Este aspecto é fundamental no estudo de suicídios de cri an ç a s ,
como já mencionamos Menninger fala do suicídio orgânico onde o processo autodestrutivo se
localiza num órgão que adoece.
Desejo de Morrer
Em cada uma das situações devem ser observados os seguintes elemen-
Uma pessoa que tenta se m atar e depois pede encarecidamente que a tos: o componente autopunitivo, o componente agressivo em relação ao
salvemos, pode estar diante do paradoxo de se matar e não desejar mor- ambiente e o componente erótico.
rer. O contato com a realidade pode ser tão precário, que o indivíduo
Garma (19 73) levantou as seguintes hipóteses psicanalíticas para a expli-
acha que pode se matar e não morrer, ou acredita ser possível um retor-
cação do suicídio. Este seria uma deformação masoquista da personali-
no. Supomos que este processo pode estar atuando de forma inconscien- dade. Quando ocorre a perda do objeto,  ÿ suicídio aparece como possibi-
te, quando vemos um sujeito que tenta desesperadamente se matar, faz lidade de reencontro com ele. Este mesmo autor fez um levantamento
várias tentativas, e não consegue morrer, criando situações de extremo das seguintes representações de morte no suicida:
sofrimento. Às vezes, o corp o atende a este desejo do sujeito, e condições
orgânicas aparentemente inofensivas levam-no à morte. O desejo de mor- 1. Possibili dade de se livrar de c onflitos.
rer pode estar ligado a fantasias de nascimento e de retorno ao útero.
2. Busca de uma vida que.não se tinha antes.
Voltando à interação de fatores construtivos e destrutivos, naquelas ações
onde os impulsos destrutivos são neutralizados em p arte, surgem todas as 3. Fantasia de reencontro com outras pessoas.
formas de autodestruição crônica ou parcial. Qua ndo os impulsos destru- 4. Busca de um elemento de beleza na morte.
tivos suplantam os construtivos, de forma completa, ocorre o suicídio,
principalmente quando há um contato precário com a realidade. As ten- 5. Fuga de uma situação intolerável.
dências autodestrutivas já se manifestam na infância e são neutralizadas
pelos conteúdos construtivos. 6. Busca de uma união sexual, amorosa.

A diferença entre um suicídio agudo e um crônico é que no último há um 7. Busca de uma perfeição narcísica.

adiamento da morte com muito sofrimento e com uma diminuição de


8. Satisfação de tendências masoquistas, com autocastigo.
funções, levando a uma morte em vida. Entre estas formas crônicas o
autor enumera as seguintes: martírio, invalidez neurótica, adição ao ál- 9. Satisfação instintiva.
cool e drogas, comp ortamentos anti-sociais, psicoses. Em cada caso, de-
vem ser considerados os elementos ag ressivos externos e internos, o dese- Este autor considera que, em alguns casos, o suicídio pode ser uma rea-
 jo de pu niç ão e o ele me nt o d e p ra ze r u su fr uí do . ção maníaca. Neste caso, o ideal de ego se confunde com próprio ego e
ocorre uma submissão ao superego que exige sofrimento e renúncia. O
Entre os suicídios focais o autor arrola as automu tilações, cirurgias, aci- prazer se liga à a utodestruição e ficar sem dormir, comer, arriscando a
dentes, onde se dá vazão aos imp ulsos autodestrutivos inconscientes. In- vida faz parte dos planos para atingir o ideal.
1 78  Mo rt e e desenvolvimento humano  Comportamentos autodestnxtivos e o suicídio  17 9 

Abadi (1973) lev an tou outras hipóteses para o suicídio: Ocorreram pedidos de d esculpa, porque o suicídio é considerado um
ato vergonhoso, em nossa sociedade, e alguns acreditavam que deviam
a. Predomínio de an siedades paranóides e vivências persecutórias. ser punidos.
b. Mecanismo de d efesa diante de situações intoleráveis.
Em mu itas cartas, os suicidas se colocam em condição de julgar o ato dos
c. Atuação psicótica. outros, responsabilizando-os pela sua desgraça, além de m an ifestar o de-
sejo de controlar a própria morte. E uma forma de sair da impotência,
d. Condição masoquista. através de um ato onipotente, manipulando a realidade externa. Muit as
e .  Ato regressivo. vezes na carta apresentam um interesse em saber o que os outros sentirão
após a sua morte, port  a n to, envolvendo um desejo de continuação.
1. Como um ato agressivo, é uma forma de vingança contra a sociedade.
Podem aparecer mensagens envolvendo a idéia de sacrifício, efetuado
g. Como autocastigo, apazigúa sentimentos de culpa, evit an do a retaliação. para aliviar a carga dos outros. É a figura do bode expiatório.
h. Fantasia de retorno ao útero materno, como possibilidade de reunião O elemento de vingança m a n ifesto, devolve a rejeição e o abandono
com o objeto amado. que alega sentir, jogando a culp a do seu ato sobre o outro, como uma
i. Fan tasia de onipotência divina, possibi li dade de dispor da vida e da forma de lei de talião.
morte.
A autora relata o qua nto a intimidade do sujeito se torna evidente nestas
 J• Fan tasia de adquirir um bem maior, a vida depois da morte. cartas, com uma clareza de comunicação que nunca esteve tão presente
durante sua vida. Neste caso, trata-se de uma comunicação unilateral, já
São t an tas as hipóteses e representações de m orte que fica difícil falar em que não há interlocutores.
um suicídio, pelo contrário, parecem ser vários suicídios.
Uma das hipóteses principais de Dias é a questão narcísica, em que o
Di as  (1991) em sua obra trabalhou num enfoque psicanalítico e antropoló- suicida vê o mundo à sua imagem e semelhança. Acusa o mu ndo real por
gico com mensagens de adeus, ana li sando aqueles elementos da população não ser igual aos seus desejos.
suicida, que escrevem not  as  de despedida. Foi feita uma compilação d as
mensagens deixadas pelos suicidas, durante os anos de 1986-8 7, no Instituto A idéia do testamento aparece nas cartas como nas mortes naturais, a
de Criminalística de São Paulo. Muitos dos temas apontados pelos autores recomendação de como os sobreviventes deverão resolver os seus pro-
de abordagem psicodinâmica estão presentes nestas mensagens. blemas, acreditando onipotentemente que os seus desejos serão respei-
tados. Nestas mensagens, m uitas vezes se vê o discurso autoritário,
Em m uitas delas, a morte não tem para o suicida a conotação de fim e é como se fosse uma ordem.
considerada como passagem ou transição para um estado mais vivo ou
prazeroso, como se fosse uma etapa adicionada à vida, um outro tipo de São encon tr ad as  ambivalências, onde não fica claro se o desejo é de morte
existência. Fantasias de liberação de uma situação difícil envolvem fugir ou de vida. Foi notada profunda regressão, em a lguns c  a s os, com uma in-
de situações intoleráveis. Neste caso, pode ser visto como um ato de tensa simbiotização, onde o indivíduo quando se vê separado não consegue
rebeldia de um indivíduo que sempre se colocou de forma passiva na resistir e tem de morrer. Cassorla (1984 ) em seu trabalho verificou que, no
vida. A coragem de buscar o ato suicida se contrapõe à sensação de caso de mulheres suicid as , pode haver uma ligação simbiótica, como se
frac as so e inutilidade na vida. A morte aparece como triunfo. Fantasias houvesse uma indiscriminação. A perda ou a meaça de perda do objeto
de reencontro foram bastante comuns. conduz a atuações, podendo culminar com tentativ  a s  de suicídio. Pode não
Compo rt amentos autodestrutivos e o suicídio  1 81

morte acusadora. O suicida psicopata não se mata p or sentir culpa, mas


envolver somente agressão ao parceiro, mas também uma ligação simbiótica
sim para que os outros sintam culpa.
com outros objetos perdidos como os pais, ou outras figuras pa rentais. No
caso das menin as , o ressentimento pela falta da figura paterna pode resultar O que Knobel chama de suicídio maníaco está ligado a um superego
em atritos com a m ãe, ou então esta hostilidade se di r i ge contra objetos brutal e enganador. As f a n tasias de onipotência e imortalidade convi-
internos, com uma qualidade depressiva que conduz a atos suicidas, acom- vem com um ego impotente e vazio, que precisa de um contato cons-
panhados de sentimento de culpa. Com  o emergir da sexualidade são reati- tante sem nenhuma satisfação li bidinal. O qu e se torna mais  terrificante
vados os conflitos edípicos. Muit as  destas cri an ças foram rejeitadas ou é a fragmentação psíquica.
a b a n donadas na infância, o que faz aparecer o desejo de morte dos p ais.

Há uma forte relação entre os processos de luto e o suicídio, como já O suicídio esquizo fr ênico ocorre em presença de um ego m arcado por re-
apontamos no capítulo anterior. Segundo Cassõrla (1984) quando há difi- gressões intensas, com carência de identificações primárias, fr agmentado,
culdade em elaborar a perda, a tristeza pode se voltar para dentro. Po- confuso e indiscriminado. Este elemento dissociado fica à margem do ego
dem surgir sentimentos agressivos em relação à pessoa perdida, desejos e, por isso, pode compulsivamente matar o suposto perseguidor, sem perce-
de morte conscientes ou inconscientes. Estes geram culpa que são em ber que destrói todo o self, o próprio indivíduo, que na esquizo fr enia não
parte reprimidos e que p odem levar a atos inconscientes de autodestrui- parece um ser único. Observa-se em alguns adolescentes esquizóides que
cão. A raiva em relação à pessoa morta pelo seu abandono gera senti- nunca se que ix aram e que viviam uma solidão apavorante, uma despersona-
mentos ambivalentes de amor e ódio . lização a n gustiante, da qual tentam se afastar violenta e agressivamente.

Muitas vezes, não se sabe se o suicida busca a morte ou outra forma de


Esta org a n ização proposta por Knobel permite perceber que suicídios
vida, como já m encionamos. Geralmente, visualiza a reação das pessoas podem ter motivlações totalmente diversas, e que têm relação com ruptu-
após a sua morte, imaginando a relação como gostaria que fosse, ou des-
ras em diferentes períodos do desenvolvimento afetivo-emocional.
pertando a culpa na queles que o frustraram. A agressividade do ato suici-
da é uma forma de vingança contra a sociedade, que condena o suicídio.
Byington(1979) em seu trabalho sobre o suicídio aponta quatro tipos de
Segundo Knobel (1991) o ato suicida é uma psicose, e portanto deveria componentes emocionais relacionados aos ciclos arquetípicos.
ser dedicada mais atenção na clínica às m odalidades psicóticas, depres-
sões mascaradas, quadros esquizoformes, traços maníacos, repetidas Ligado ao ciclo matriarcal, encontram-se as vivências de desam paro ex-
queixas hipocondríacas, quadros fóbicos, atuações psicopáticas, manifes- tremo, abandono, aniquilamento existencial. Há uma relação com o ar-
tações epileptóides e quadros melancólicos, onde a angústia é perma- quétipo da gr an de mãe. Vincula-se  ao terceiro mês de vida, em quad ros
nentemente gerada e não há possibilidade de raparação. depressivos, desoladores, como o hospitalismo estudado por Spitz. Ocor-
re a vivência de desvalia intrínseca do self. Se estiver o terapeuta di a n te
Knobel fala de vários tipos de suicídio, como o melancólico que é de um paciente com a problemática no ciclo matriarcal, deve ter disponi-
acompanhado de processos psicossomáticos. Surgem fantasias com bilidade para a abertura e a entrega com características maternas.
uma intensa culpa persecutória. Procura-se a morte como um castigo
merecido, porque o d esejo agressivo, dirigido _contra o objeto, volta-se
O segundo gru po está ligado ao ciclo patriarcal, com sentimentos de deso-
contra o ego. Um outro tipo de suicídio é o psicopático, mais comum
rientação e condenação por infrações. A culpa se acha li gada a sentimentos
na adolescência, que está ligado a um superego cruel. Coexistem uma
total onipotência e uma autodesvalorização que são totalmente in com- de transgressão di a n te da lei inexorável e inflexível, inerente ao arquétipo
patíveis, gerando confusão e atuação. Aqui também se procura uma do pai. A depressão fica ligada à problemática da honra e da vergonha.
1 82  rt e e desenvolvimento humano 
Mo rt  rt amentos
amentos autodestrutivos
Compo rt  autodestrutivos e o suicídio  183 

No terceiro ciclo da alteridade, os distúrbios se ligam à traição, separa- oportuna e extremamente importante, que envolve aspectos médicos, psi-
ções conjugais e frustrações relacionadas a aspectos de animus e anima, cológicos, sociais, legais e religiosos.
religiosos. O qu e se observa ainda hoje, no fmal
e ao desespero da vivência de fracasso na relaçã o adulta do casal. do século XX, é que estamos longe do consenso. O assunto ainda m erece
discussões aprofundadas. Aqui no B rasil ainda não tivemos notícias deste
No quarto ciclo, o cósmico, ocorre a m aior incidência de suicídios, mais do
movimento.
que os outros tr ês juntos. Este ciclo inclui as vivências mais profundas e
penosas do ser hum a n o, o sacrifício do corpo e a compreensão do significa- Prevenção do Suicídio
do e fmalidade de todo o processo e xi stencial. É difícil vivenciar este ciclo
em nossa sociedade pa tr iarcal, que menospreza a velhice, reforçando
reforçando a sua As autópsias psicológicas (Ebert,
(Ebert, 1987 ) podem ser um processo designa-
característica
característica de inutilidade e impotência. Surge, então, a am argura de não do para avaliar uma variedade de fatores, incluindo comportamentos,
ter vivido a vida em sua total potencialidade e de nada mais poder fazer. A pensamentos, sentimentos e relacionamentos de um indivíduo que está à
fr us  tr ação deste ciclo é sentir que a vida foi um grande nada. A pesar desta morte. A autópsia psicológica foi desenvolvida por Schneidmann e Farbe-
vivência ser muito dolorosa, tran sformações são possíveis
possíveis já que há um a row, em 1961, e foi usada para investigar acidentes e homicídios e avaliar
gr a n de introversão de energia nesta época. O tr abalho terapêutico nesta aspectos psicológicos
psicológicos de pessoas que estão morrendo. Traz informações
fase é muito import a n te, não só para trabalhar o arquétipo da mo rt e, mas valiosas
valiosas para se compreender a d inâmica da m orte. Posterio
Posteriormente,
rmente, o
também o da vida, ambos exigindo transformações intensas. intensas. Pode haver procedimento foi usado também com pessoas que tentaram suicídio e
uma urgência de crescimento e fuga da estagn ação. sobreviveram, como forma de p revenção de novas tentativas.
O tratamento de pacientes suicidas exige profunda compreensão de suas A primeira questão que se coloca numa autópsia psicológica é saber o
motivações básicas que, como vimos, são variadas. O a to suicida pode modo da morte. Quatro modos foram descritos por Schneidmann que
despertar, no terapeuta, seus próprios desejos de morte, sua impotência. são: natural, acidental, homicídio ou suicídio. Freqüentemente a causa da
Segundo B yington, o terapeuta
terapeuta deve estar profundamente ligado ao seu morte é clara, mas o modo não. Será que o disparo de uma arma foi um
eix o. As defesas, falta de profundidade, racionalizações, são prontamente acidente ou foi intencional?
detectadas pelo paciente,
paciente, tão sensível neste momento di an te das opções
de vida e de morte. A segunda questão que se busca responder é porque a morte ocorreu
naquele momento. Para isso é preciso examinar eventos import an tes, na
Como vimos, o suicídio sempre foi condenado p ela sociedade, considera-
considera- vida do sujeito, e a conexão deles com a tentativa de suicídio ou morte.
do como crime ou loucura. Entretanto, algumas palavras devem ser ditas
sobre um novo movimento que surge com o título de "morrer com digni- Um terceiro objetivo da autópsia psicológica
psicológica é obter informações que
dade". Uma grande polêmica foi lev a n tada pelo livro Suicídio -Modo de  podem ser válidas na predição do suicídio. Schneidmann criou três
usar, de Guillon e Bonniec (1974). Nesta obra há uma consideração sobre classificações da motivação para a morte: intencional, subintencional e
o suicídio auxiliado e a eutanásia. Os autores discutem se não ac aba sen- não-intencional. Isso facilita a identificação de indivíduos e grupos de
do, mais violento deixar sofrer desesperadamente aquele que deseja mor- alto risco.
rer. Os autores procuram afirmar que não pretendem estimular o suicí-
O quarto objetivo é a possibilidade de oferecimento de ajuda psicoterápi-
dio, e sim ajudar aqueles que já tomaram uma decisão consciente e deli-
ca para os sobreviventes, que necessitam falar e esclarecer as distorções
berada. Colocam-se como facilitadores do processo de morrer, para evi-
da realidade.
tar que pessoas usem formas violentas, dolorosas
dolorosas e m uitas vezes ineficien-
tes, caus an do ainda maior sofrimento e degradação. Apresentam socieda- Os autores apresentam uma lista de tem as a serem investigados numa
des pela morte com di gn idade na Europa. Trata-se de uma discussão autópsia psicológica, incluindo os seguintes itens:
18 4  rt e e desenvolvimento humano 
Mo rt  Comportamentos autodestrutivos e o suicídio  185 
1. História de alcoo li smo. 18. Avaliação dos sentimentos relacionados
relacionados com a morte, p reocupações,
2. Not as , mensagens e cartas do suicida. fantasias.

3. Livros (verificar que livros


li vros lia e gostava de ler). 19. História militar (honrarias e estresses vinculados à história militar).

4. Ava li ação dos relacionamentos (familiares, conjugais, filiais, empre- 20. História de morte na família (arrolar suicídios e outras mortes na
gatícios e de amizade). família).

5. Relacionamento marital. 21. História da família (verificar relações com o morto e eventuais confli-
tos que ocorreram antes da morte).
6. Estado de ânimo (sintomas de depressão, flutuações de ânimo, pro-
blemas somáticos). 22. História de empregos (tipo de trabalho, empregos estressantes e con-
flitos com chefes e colegas).
7. Estressores psicossociais (perdas e separações de p essoas significati-
vas, perda de emprego, problemas financeiros e legais). 23. História educac ional (identificar
(identificar nível educac ional, e eventuais confli-
tos nesta área).
8. Comportamento pré-suicida (verificar questões financeiras, providências).
24. Familiaridade com instrumentos que provocam a morte (verificar uso
9. Linguagem (dados verbalizados pelo paciente, que poderiam conter de armas e drogas).
indícios de um futuro su icídio).
25. Relato policial.
10 . Drogas usadas.
Como se pode ver é uma investigação minuciosa, que pode elucidar mui-
11 . História médica. tas questões. Considerando-se
Considerando-se o aspecto preventivo da questão pode ser
12. Estado mental e racional na condição do suicida antes de sua morte extremamente benéfico para aqueles pacientes que tentaram suicídio,
suicídio, e
(ver orientação, memória, atenção, concentração, ânimo e afeto, alu- muito eficaz no planejamento do processo psicoterápico. É também usa-
cinações, cognição, linguagem). da com os familiares
familiares para a compreensão dos eventuais motivos que te-
riam levado a pessoa a buscar o suicídio. No caso de ter havido morte,
13 . História psicológica (veri ficar tentativas de suicídio a n teriores, busca pode ser uma forma da família compreender e aceitar melhor as razões
de tratamento psicológico, hospitalizações, episódios depressivos, ou que levaram ao suicídio.
i mpulsivos).
É necessário observar e cuidar do indivíduo que pede ajuda. O grande
14. Estudos de laboratório. perigo é que, muitas vezes, estas pessoas não são levadas a sério. As
15. Verificar o relatório do médico legista (uso de drogas, ferimentos,
tentativas de suicídio são muitas vezes taxadas pejorativamente de atos
histéricos. É conhecida a reação do grande pú blico a ações espetaculares,
estado físico em geral).
incitando o sujeito a finalizar o ato. Às vezes, o indivíduo pl an eja tudo,
16 . Avaliação dos motivos (arrolar os modos: suicídio, natural, acidental pensando que vão salvá-lo, e ao ver a reação contrária, pode se sentir
ou homicídio, anotar as possíveis razões).
razões). ainda mais d esesperado. Sabe-se que a pessoa que tenta suicídio, tem
alto risco de repetir o ato, se não receber a ajuda de que necessita, pro-
17. Reconstrução dos eventos ocorridos no dia anterior à m orte (relató-
(relató- curando formas mais letais e eficazes. São freqüentes as histórias de su-
rio detalhado e cronológico)  jei to s c om in úm er as te nt at iv as , a té qu e fin al m en te um a dá ce rt o. É im -
1 86  Morte e desenvolvimento humano  Comportamentos autodestrutivos e o suicídio  18 7 
portante cuidar de qu estões, como: defesas enfraquecidas, apoio dos va- CAMUS, A. O mito
- de Sísifo.
lores pessoais, possibilidade de expressão de sentimentos, ênfase em no-
vas relações e elevação da auto-estima. CASSORLA, R. M. S. - O que é suicídio. São Paulo, B rasiliense
rasiliense,, 1984.

Cassorla (1991) relata em seu li vro, Suicídio: estudos b rasileiros, o traba- CASSORLA, R. M. S. - Características de famílias de jovens que tenta m
lho com gr upos Balint. Estes gr upos são constituídos
constituídos por m édicos gene- suicídio em Campinas Brasil. Um estudo comparativo com jovens
ralistas e especia listas
li stas não psiquiatras que se reúnem semanalmente com normais e psicóticos. Acta Psiquiátrica e Psicológica da Amé ri 
ri ca
ca Lati- 
um psicanalista, discutindo reações emocionais que ocorreram no pac ien- na, 1984, 30: 1 25 134.
-

te, no médico e na relação de ambos. CASSORLA, R. M. S. (Org.) - Do suicídio: estudos brasileiros. Campinas,
O autor observou que os profissionais
profissionais de saúde tratam estes pa cientes Papirus, 1991.
com desprezo, agressão, chegando a maltratá-los. Esta agressão pode ser DIAS, M. L. - Suicídio. Testemunhos de adeus. São Paulo, Brasiliense,
a reação de um médico assustado. O aspecto manipulativo do ato é o que 1991.
mais irrita a equipe de saúde. Eles estão lá para salvar a vida e minorar o
sofrimento, mas os desejos podem ser conflitantes, um quer sa lvar e o DURKHEIM, E. - El suicidio. Buenos Aires, Schapire Edit., 1971.
outro quer morrer. Isto exacerba
exacerba a sensação de impotência, culpa e re-
EBERT, B. W -G uide to conduct a psychological authopsy. Professional 
morso da equipe. O indivíduo que te nta suicídio é o que tem mais a lto
Psychology Research and Practice, 1987, vol. 18 (1): 5 2 5 6 .
risco de recorrência, necessitando, portanto,
portanto, de m ais ajuda. O desprezo
-

nesse momento pode ser extremam ente letal. GARMA, A. - Los suicidios. In: ABADI, M. - La fascinación de la muer- 
te. Buenos Aires, Edit. Paidós, 1973.
O autor levanta pontos import a n tes, que devem ser percebidos e que são
indicadores de processos autodestrutivos, manifestados muito antes de o GUILLON, C. e BONNIEC, Y. - Suicídio, modo de usar. São Paulo,
ato ter-se consumado. Estes podem apresentar-se na fala do paciente, no EMW Edit., 1984.
relato do desejo de se matar ou de morrer, nos surtos psicóticos, nas
queixas somáticas indefinidas e recorrentes, nos picos de angústia com Psicologia da morte. São Paulo,
KASTENBAUM, R. e AISENBERG, R. - 
sintomas de desa gr egação e desintegração, onde a morte pode ser enca- Pioneira,
Pioneira, 198 3.
rada como um a solução menos terrificante.
terrificante. É importante observar tam- KALINA, E. e KOVADLOFF, S. - Cerimônias de destruição. Rio de Ja-
bém o aparecimento de sintomas estranhos que surgem de repente. neiro, Francisco Alves, 1983.

suicídio. In: CASSORLA, R.


KNOBEL, M. -S obre a morte, o m orrer e o suicídio.
Referências Bibliográficas brasileiros. Campinas, Papirus, 1 9 9 1 .
M.S.(org.) - Do suicídio: estudos brasileiros.
LEVY, M. - Introdução ao estudo do suicídio. Boletim de Psiquiat ri 
ri a.
a.
ABADI, M. - Em torno de la m uerte. Notas psicanaliticas sobre una 1 9 7 9 , vol. 1 2 (1-4) :1-12.
fantasia clave. In: ABADI, M. - La fascinación de la muerte. B. A., MENNINGER, K. - Eros e Thanatos. O homem contra si próp ri 
ri o.
o. Sã o
Edit. Paidós, 1973. Paulo, Ibrasa, 1965.
BYINGTON, C. - Aspectos psiquiátricos do suicídio. Boletim de Psiquia-  SCHNEIDMANN, E. e FARBEROW, N.L.- "Suicide and death" In: FEI-
tria, 1979, vol. 12 (1-4): 13-32. FEL, H.(ed.) New meanings of death -New York, McGraw-Hill, 1 9 5 9 .
Paciente terminal e a questão da m orte  1 89 

Capítulo 11 O conhecimento do fato de qu e se trata de uma doença terminal desen-


cadeia no paciente, na família e na equipe de saúde aspectos impo rtantes
a serem considerados.

Existe um mito, responsável por um dos gr a n des medos do século atual,


PACIENTE TERMINAL  que é o do sofrimento na hor a  da morte. Há uma crença de que o proces-
E A QUESTÃO DA MORTE so da morte é sempre acomp an hado de sofrimento e de dor insuportável,
ou então que a pessoa precisa estar inconsciente nesse momento. Crê-se
que as pessoas idosas ficarão obrigatoriamente senis, dementes, confusas,
Maria Júlia Kovács incontinentes. Estas crenças são reforçadas por algumas visões de pes-
soas que realmente morreram assim, em alguns dos nossos hospitais. Me-
"Cumpri minha missão, pude agir como catalisadora, tentando didas inúteis de sobrevivência, que parecem verdadeiros instrumentos de
fazer com que as pessoas aceitem que só podemos realmente tortura, ainda são usadas. Temos ainda na memória as imagens imp ressio-
viver e apreciar a vida se nos conscientizarmos de que somos nantes de Tancredo Neves, em 1985 , que como homem pú blico teve o seu
finitos. Aprendi tudo isso com meus pacientes moribundos que processo de morte devassado pela mídia. Uma outra imagem muito co-
no seu sofrimento e morte concluíram que temos ap enas o AGO - mum é a de velhos terminando os seus dias na solidão e isolamento.
RA, portanto, goze-o plenamente e descubra o que o entusiasma, Sabemos que os hospitais gerais não estão apa relhados para o tipo de
porque absolutamente ninguém pode fazê-lo por você." (Eliza- tratamento que visa d ar alívio e conforto. É importante ressaltar que
beth Kubler Ross, 1975, Morte estágio final da evolução.) 
-
ainda é assim, mas que nã o precisa ser dessa forma. No fim deste capítu-
Iniciei este capítulo com palavras textuais de Elizabeth Kubler-Ross, essa lo falaremos de outras formas possíveis de cuidados a estes pacientes.
magnífica profissional, que se preocupou com a qualida de de vida dos Certas doenças de nosso tempo como o câncer e a aids são consideradas
seus pacientes acometidos de doenças graves. O seu trab alho com certeza como sentenças de morte.
revolucionou a discussão sobre o a tendimento destes pacientes, e influen-
ciou a minha forma de pensar o problema, bem como a minha prática Foi feita uma analogia da aids com as epidemias da Idade Média, como a
como psicóloga. peste, ligadas à crença em uma punição divina. A aids durante um tempo
foi chamada de peste gay, porque se acreditava que ela só atingia homos-
O conceito de terminalidade é um conceito relativo, já que todos nós
sexuais promíscuos, portanto, merecedores de punição pela sua vida de-
temos a morte com o fim do nosso processo de desenvolvimento. A ques-
vassa. Hoje os fatos desmentem as premissas que fundam entavam essa
tão da temporalidade é relativa, pois, ao dizermos que um idoso ou um
posição, mas elas ainda convivem no íntimo da sociedade. Ainda hoje se
paciente com doença grave está mais próximo da morte, este fato é cons-
vêem atitudes que combatem os doentes e não a doença. No caso da aids
tantemente contrariado, pois, muitas vezes, pessoas saudáveis ou mais
a vergonha, a degeneração física e psíquica e o problema social do estig-
 jovens morre m m ais c edo d o que a quel es qu e já estã o "ma rcad os pa ra
ma podem ser p iores do que a morte.
morrer". Usaremos este termo neste capítulo, com todas as ressalvas a
que esse nome conduz, pois ainda é a forma corno são chamados os pa- Segundo Faulstich (1987), trata-se de uma doença mortal, com um inter-
cientes com doenças para as qu ais ainda não foi encontrada a cura, e que valo variável entre o diagnóstico e os primeiros sintomas. O soro positivo
se encontram hospitalizados ou no lar. O rótulo "terminal" pode trazer em carrega o diagnóstico de uma doença fatal, mas não tem sintomas, convi-
seu bojo uma série de expectativas e formas de ação q ue descreveremos ve com a "sentença de morte". Muitas vezes ocorrem sintomas de ordem
no decorrer do capítulo. psíquica como a depressão e a culpa em relação à vida pregressa; 30 a
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  Paciente terminal e a questão da morte 

40% dos pacientes apresenta lesões no Sistema N ervoso Central. Alguns Os doentes são raramente consultados sobre os seus desejos, e são interna-
sofrem um profundo emagrecimento, retardo psicomotor, incontinência, dos em hospitais cada vez mais sofisticados, p ri ncipalmente se têm dinheiro
confusão e alucinações, torn  a n do-se verdadeiras "sombras humanas". P u - para custear os tr atamentos, pelo menos aqui no B rasil. Tecnicamente, em
demos ver alguns dos nossos ídolos passarem por este processo. vez de repouso e tranqü i li dade rece be m aparelhos, transfusões, picadas,
O estigma e a desinformação levam a um comportamento discriminató- in tr omissões de tubos e catéteres e exames muito invasivos. Há um a preo-
cupação com ó rgãos, pulsações, secreções e não com a pessoa.
rio que afeta o atendimento a estes pacientes. E comum a recusa de
atendimento, aleg an do-se falta de condições. Porém, o que está realmen-
Kubler-Ross faz um relato pungente em seu li vro sobre um jovem médico
te em jogo, muitas vezes, é o medo do contágio. A equipe de saúde tem
atendendo a um caso. Tratava-se de um paciente com uma doença seve-
de lidar com os próprios medos de contágio, com as atitudes negativas
ramente incapacitante, acomp an hada de extremo sofrimento. O jovem
em relação à vida sexual dos pacientes e ao uso de drogas. Em geral,
i mbuído de sua tarefa como médico exercitou todo o seu poder de  "sal-
estes pacientes necessitam de um atendimento psicológico. var" o outro, orgulhoso e vitorioso de suas façanhas. Não conseguia, en-
O câncer, segundo Sontag (1984), carrega consigo as seguintes metáforas: tretanto, compreender o olhar rancoroso que o paciente lhe dirigia, já
desgaste, corrupção, traição, invisibilidade até os últimos estágios, além que este não podia se comunicar verbalmente. Solicitou ajuda a Kubler-
de ser chamada tam bém de "gravidez demoníaca" por causa do cresci- Ross, que facilitou a comunicação entre eles, e o médico ficou sabendo
mento desorganizado. O tratamento é brutal, muitas vezes, pior que a que o paciente aprovava as su as ações, mas ressentia-se da falta de infor-
doença. São usadas metáforas de guerra para nomear estes tratamentos mação por parte do médico, e que gostaria de participar das decisões.
como: guerra química para a quimioterapia, e guerra de mísseis para a Assim houve uma m aior integração entre ambos. Os dois são repre-
radioterapia. Segundo Dierkhising (1987), o câncer ainda é associado sentantes do momento em que vivemos, o médico com a sua atitude oni-
com desfiguramento, dor, crise financeira, trauma em ocional e perda de potente de salvador e conquistador da m orte, e o paciente passivo, ape-
funções corporais. nas receptor de todos os procedimentos. O final feliz se deveu a um
questionamento deste méd ico que pôde desviar um pouco o olhar dos
Sabe-se hoje que 50% dos cânceres são passíveis de cura ou pelo menos instrumentos que monitoravam o paciente, para olhar nos seus olhos e
podem ser controlados. Mu itos dos sintomas podem ser aliviados, trazen- resgatar o olhar clínico dos médicos.
do uma boa qualidade de vida para o paciente, como discutiremos a
seguir. Entretanto, a imagem relacionada à morte ainda p ersiste, e obser- Atualmente o pa ciente não é encarad o como pessoa e sim como objeto
va-se algo análogo ao que ocorre com os pacientes portadores de aids, há de atua ção do médico, passivo, submisso e silencioso. Como vimos ao
o medo do contágio psíquico. O sofrimento do paciente é temido, condu- analisar as representações de morte, a do século XX, foi denominada de
zindo também a um isolamento. morte interdita por Phillipe Aries (ver capítulo 3). Houve uma alteração
na trajetória da morte, não mais a morte familiar, aquela que todos co-
Estes fatores têm um peso no desenlace da doença. Atitudes e repre=
sentações sociais têm de ser trabalhadas, tarefa fundamental dos profis- nheciam o seu desenlace. Com  o desenvolvimento científico da atualida-
de, houve um adiamento do momento da m orte sem uma conseqüente
sionais de saúde.
preocupação com a qualidade de vida destes "sobreviventes". Podemos
Segundo Kub ler-Ross, é um a tarefa desafiante focalizar o paciente como até dizer que o homem foi privado de sua morte, tal o grau de invasão e
pessoa e tratá-lo como um ser humano, fazê-lo participar do tratamento. de não-privacidade, em alguns dos hospitais. Segundo B astos (1983), o
É difícil em nosso tempo encarar a morte como um fenômeno natural, ela homem não sente mais a morte chegar, desconhece os seus sinais, que lhe
é sempre atribuída a um fator externo, maligno. Com  o avanço da ciência, são camuflados. O paciente perdeu o seu lugar social. O doente foi priva-
mais se teme e se nega a m orte como realidade. do de suas vontades e de sua consciência, não é consultado em suas
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necessidades mais básicas, como vimos no caso do jovem médico. A mor- são é a melhor forma de ajudar o paciente. Reagir à raiva com uma raiva
te tornou-se em m uitos casos um ato solitário, mecânico e doloroso. E a ainda maior só exacerba a hosti li dade. Esta raiva p ode estar relacionada
medicina representante do século XX preocupa-se mais com o desenvol- com sentimentos de imp otência e falta de controle da própria vida.
vimento tecnológico do que com o bem-estar do outro.
3. Barganha: é a possibili dade de entrar num certo acordo para adiar o
Kubler-Ross foi a grande revolucionária de nosso século, ao procurar ou- desfecho inadiável. O paciente imita de uma certa forma a criança peque-
vir os pacientes nas suas necessidades como seres hum  a n os Segundo a na que promete se comportar bem para ganhar um presente. As promes-
autora, a melhor forma de compreender o processo de morrer para poder sas que o paciente faz, por exemplo de se a limentar, desc an sar, fazer
ajudar de uma forma mais eficaz, era pedir que os pacientes em fase exercícios são uma forma de ficar bonzinho e, com isso, ganhar um tempo
terminal fossem seus professores, relatassem suas experiências, que se- a mais de vida. Este mecanismo pode estar ligado a aspectos de culpa,
riam analisadas na sua dinâmica. As reações de seus colegas foram, a relacionada com o surgimento da doença.
princípio, de descrédito, de falsa "proteção aos pacientes", envolvendo a
falácia de que falar sobre a morte conduz à morte. Parecia não haver 4. Depressão: após a negação e a raiva, pode sobrevir um sentimento de
pacientes moribundos no hospital em que ela trabalhava. perda, perda do corpo, das finanças, da família, do emprego, da capaci-
dade de realizar certas atividades profissionais e de lazer. É um estado de
Para Kubler-Ross não havia con flito qu an to a contar ou não ao paciente que preparação para a perda de todos os objetos amados. Este momento é 
ele tinha uma doença grave. A questão era como fazê-lo• transmitir o diag- muito difícil também para a família, que tenta de todas as formas animar
nóstico e ao mesmo tempo dar acolhida e esper an ça, dar informações sobre o paciente, trazê-lo de volta para a vida. É importante a preparação do
os procedimentos a serem realizados e, principalmente, garantir a presença luto como vimos no cap ítulo 9. Tirar o paciente do processo com encora-
constante do médico. Assim o paciente não precisaria temer o isolamento, o  jamen to e ânim o pode pert urbar o seu des envolvimen to. Faci li tar a ex-
ab a n dono e a rejeição. O informe sobre o tem po de vida de que dispõe, é pressão destes sentimentos e não se contrapor a eles deve ser o procedi-
algo totalmente dispensável, pois na maior parte das vezes está errado e traz mento mais adequado. Cabe diferenciar um m omento de depressão, ain-
angústias freqüentemente desnecessárias. Obviamente, isso não implica em da ligado a uma reação contra a doença, e este estágio, que é a elabora-
omitir a gravidade do quadro c línico do paciente. Quer se diga ou não, ele cão de um luto de p erdas que já foram vividas.
saberá de alguma forma o que está acontecendo.
5. Aceitação: os pacientes que viveram a sua doença e receberam apoio
Os estágios arrolados por Kub ler-Ross, são os seguintes: nos mom entos anteriores poderão ultrapassar os estágios precedentes e
1. Negação e isolamento: este estágio ocorre quando é dada a notícia e é chegar a uma aceitação da sua vida. Tendo realizado a despedida dos
influenciado pela forma como esta foi dada. Algum grau de negação tem seres queridos, pode se manifestar uma gr ande tranqüilidade. O paciente
de ocorrer, pois, como vimos, é impossível encarar a qu estão da morte o parece desligado, dorme, não mais como fuga, mas como um repouso
tempo todo. Este mecanismo é mais comum no início do processo, e pode antes da gr ande viagem. A luta contra a morte cessou. Muitas vezes a
ser seguido de choque e torpor. Vem acompanhado da frase célebre: pessoa fica em silêncio. É muito difícil para os familiares aceitarem este
momento, pois eles querem trazer o paciente para a vida, conversar, falar
"Não pode ser comigo."
de aspectos do mundo, que para o paciente não são mais necessários,
2. Raiva:quando a nega ção não é mais possível, ela pode ser substituída uma vez que o desligamento já se processou. É m uito importante que os
por sentimentos de raiva, revolta, ressentimento e inveja, acompanhados profissionais identifiquem quando se trata de uma desistência precoce de
da frase: "Por que eu?" Neste momento, pode ser muito difícil o contato lutar contra a doença e a morte, porque ainda há vida, diferente de um
com o paciente, tornando as visitas penosas, despertando sentimentos de paciente que realizou a sua trajetória, tendo chegado ao fim com paz.
culpa na equipe e nos familiares. Entender a raiva, facilitar a sua expres- Nem semp re ocorre uma distinção clara destes dois momentos.
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A esperança que seria um sexto estágio está presente em todos os mo- mento da relação familiar, problemas financeiros e a perda da autonomia
mentos e deve ser incentivada pelas pessoas próximas ao paciente. sobre o próprio corpo. O luto não começa n o momento da morte, e sim
quando a pessoa p ercebe que ela é inevitável.
Kubler-Ross, como vimos, foi a grande inovadora neste campo e, com
certeza, está provocando uma mudan ça que a história ainda terá de regis- Segundo Weisman existe o mito de que o paciente terminal só teme a
trar ao tratar da mudança de m entalidade em relação à m orte, ainda no morte. Ele lev an tou alguns aspectos, que podem ser mais preocupantes
século XX. Ela foi criticada, posteriormente, porque se sabe que nem para o paciente de acordo com as su  as  características de personalidade e
todos os pacientes passam por todos os estágios e nem sempre nessa história de vida, e que ele cham ou de sofrimento secundário. Às vezes, o
seqüência. Ela própria aponta esta questão em seu livro, dizendo que medo de morrer é menos angustiante do que o de se sentir sozinho e
somente alguns pacientes chegam à aceitação, muitos lutam contra a mor- abandonado nestes momentos, há o medo da separação e d a perda dos
te enquanto estão morrendo, com grande inquietude e desespero. Por apoios de situações conhecidas e prazerosas. Pode ocorrer ansiedade de
outro lado, sabemos que, como p rofissionais de saúde temos responsab ili- aniquilamento e alienação, como se fosse uma morte em vida. A ansieda-
dade na facilitação do processo de morrer de nossos pacientes. de de aniquilação pode estar ligada a um medo de desintegração, um
medo de perder a sa nidade, já que as situações fam iliares são perdidas, e
Weisman (1972) discute a problemática de como agir com o paciente o paciente encontra-se diante do desconhecido.
quando não estão mais em questão o diagnóstico e a cura. E neste mo-
mento que se inicia um outro tipo de tratamento que tem a ênfase no Erickson (1974) expõe a questão da com unicação que muitas vezes está
alívio e no bem -estar da pessoa. Ela não morre só da doença, mas tam- prejudicada na relação entre o paciente e as p essoas que o rodeiam. E le
bém como ser humano. É conveniente lembrar que não estamos tratando fala também sobre o padrão do duplo vínculo, ou seja, os pacientes são
de uma doença, mas de um ser humano que tem uma personalidade, submetidos a mensagens contraditórias. Essas mensagens são enviadas em
desejos e expectativas. vários níveis. A vítima do duplo vínculo se vê como incapaz de julga r o
que os outros querem dizer e procura sempre conteúdos ocultos nas suas
O autor levanta três estágios da doença terminal: falas. O potencial de interações sociais psicologicamente destru tivas é pa-
ralelo ao duplo vínculo esquizofrenizante
Estágio 1: Do início dos sintomas até o diagnóstico. Entre os mec anismos
de defesa mais observados estão a negação e o deslocamento. No caso do pac iente terminal, as pessoas próximas enviam mensagens ver-
bais e não-verbais incongruentes, onde tentam ocultar fatos ao paciente,
Estágio 2: Desde o diagnóstico até o estágio terminal, é a época em que como por exem plo o diagnóstico de uma doença fatal, o agravamento do
está concentrada a m aior parte do tratamento, cujo objetivo principal é quadro, ou a iminência da morte. Est  a s  tentativ a s  de ocultamento são mui-
combater a doença e buscar a cura. Há oscilações entre a negação, o tas vezes infrutíferas, porque a m aioria dos pacientes já sa be  da gravidade
abrandamento e o deslocamento, até chegar a uma aceitação da irre- do seu c a s o pelas próprias m anifestações corporais, além disso, é virtual-
versibilidade dessa condição, dependendo da trajetória da doença. mente impossível controlar todos os aspectos presentes nu ma relação, in-
clusive envolvendo outras pesso  a s . A mensagem verbal pode até ser passível
Estágio 3: Período em que o tratamento ativo diminui, há uma ênfase
maior na busca do alívio de sintomas e nos cuidados pessoais. de con tr ole, m a s  as expressões faciais, a luz e o brilho dos olhos, a p ostura,
todos estes elementos podem denunciar uma incongruênc ia entre um "oti-
Cada estágio favorece uma outra percepção da vida e d a morte. As inte- mismo" verbal e um "desânimo" corporal. Por outro lado, como gar  a n tir que
rações familiares e, principalmente, com a equipe m édica podem sofrer todas a s  pessoas contem a mesma história e controlem a s  su a s  expressões
alterações radicais. As necessidades do paciente são muito diferentes em não-verbais com a mesm a eficiência. Para se conseguir todos estes oculta-
cada período, ele começa a vivenciar as perdas como isolamento e afasta- mentos, provavelmente a comunicação se tornará superficial, já que muitos
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tópicos têm de ser evitados. Em muitos casos, o paciente sa be  da gravidade


No li vro de Feifel, New Meanings of Death (1977), é apresentado o depoi-
do seu caso, mesmo qu e não tenha se informado objetivamente, mas teme
falar com os seus fami li ares, pois acha que eles não sabem e imagina que mento de um casal sobre a sua vida após o diagnóstico de leucemia da
sofrerão se sou be rem e poderão se distanciar dele. O esforço dispendido mulher. As reações de cada um são apresentadas com suas p róprias pala-
vras, o que traz a riqueza dos p rocessos vividos por eles, o que foi modifi-
para realizar todo esse teatro, desvia a energia de um processo mais signifi-
cado em suas vidas, como reagiram às notícias, como se rebelaram, como
cativo das relações e do enfrentamento da doença. Como se pode esperar
se ajustaram, como se entreajudaram e como se queixaram. Este depoi-
que o paciente lute pela sua vida, se nem sa be  que está doente. E se ele
está efetivamente melhor
efetivamente  melhor an do, como dizem, de onde vem a dor que sente, mento é de uma família americana, com as facilidades p ossíveis do Pri-
meiro Mundo,
Mundo, mas traz a esperança de um a mud a n ça de atitude di an te
o seu mal-estar, porque não vai para casa e não com e ou bebe o que gosta?
da possibilidade da morte, já que esta faz parte efetivamente do processo
O problema, com o vimos, não é contar ao paciente, e sim como fazê-lo e,
da vida de cada pessoa. A leucemia tem um final lento, portanto, há
principalmente, não abandoná-lo nesse mom ento. São relatadas vivências
de ex tr ema solidão e desesperança pelo paciente que é subm etido à "cons- tempo para a elaboração. A negação tem de ser confrontada, os senti-
piração do silêncio".
silêncio". mentos precisam
precisam encontrar um canal de expressão. Os membros da famí-
lia também têm d e realizar o desapego. Podem de ix ar o paciente seguir o
A família passa pelos mesmos estágios que o paciente, ao saber do diag- seu processo, sem que isso signifique abandono ou isolamento. Qu an do o
nóstico de uma doença grave, e a sua forma de enfrentamento vai depen- final demora a acontecer, tem-se que ap render a reinvestir na vida, cuidar
der da estrutura de ca da um dos indivíduos e da relação qu e se estabele- de si, pensar e aceitar a morte, senão o familiar também morre ao cuidar
ce entre eles. Podem surgir processos ligados à perda em vida, ao luto do paciente. São m uito freqüentes os relatos de doença grave no fam iliar,
antecipatório, com ambivalência de sentimentos, medo de ver o sofrimen- principalmente naquele que cuida mais do paciente. Ao discutir o proces-
to e a decadência da pessoa amada e a impotência de muitas vezes não so de luto, vimos como acontecem os processos identificatórios. Aqui
poder fazer nada para, aliviar seu sofrimento. E muito freqüente a c ulpa e também ocorre um processo de luto, embora o paciente ainda não tenha
a tentativa de reparação. morrido. Ter uma empatia total, estar o tempo todo ligado no outro, é 
matar a individualidade do sobrevivente.
Segundo Kub ler-Ross, a família também
também sofre um a desorganização na sua
forma de vida, com a internação do paciente, tendo
tendo algumas pessoas de Segundo Lamerton (1980), no paciente terminal é importante tratar os
assumir funções que eram da responsabilidade dele. sintomas e não a doença. Um dos aspectos mais degrad antes é a dor, e
hoje não se concebe mais que o paciente sofra com ela e tenha d e pedir
As necessidades da família são m uito diferentes,
diferentes, dependendo do estágio analgésicos para o seu alívio. O au tor faz no seu livro uma análise de vários
em que se encontra o p aciente. No início, como vimos, são fatos ligados à medicamentos, os seus efeitos e problemas colaterais, e como evitar pro-
comunicação; contar ou não ao paciente, às crianças sobre a doença. blemas de sedação excessiva. Levanta outros aspectos que con tr ibuem
Co m  o aparecimento dos sintomas e manifestações físicas são os senti-
para o bem-estar do paciente, como tratar da prisão de ventre, escaras,
mentos de culpa e impotência, de nada poder fazer, que surgem. Os aftas e outros problemas li gados a secreções e odores. A insônia noturn a é
custos de exames, médicos m ais famosos, tratamentos sofisticados podem extremamente desgastante, muitas vezes ligada à ansiedade e inquietude
levar a família à ruína financeira, causando sentimentos extremamente com relação ao desconhecido. Um paciente que dormiu e repousou está
ambivalentes e desejos de morte do pa ciente, que elevam o sentimento de mais bem disposto. Sabe-se que quando pensam os em qualidade de vida é
culpa. Quando a pessoa deprime e muitas vezes fica silenciosa, não quer i mportante considerar o be m-estar físico, que influi no bem-estar p sicoló-
comer, dorme m uito, os familiares
familiares podem m anifestar
anifestar sentimentos de re- gico do paciente. São conselhos simples e cotidianos, já que a doença, pelo
 jei çã o e ab an do no . A fa m íli a ta m bé m pr ec is ar á de aj ud a, qu an do oc or re r seu aspecto regressivo, traz uma forte preocupação com manifestações
a morte efetiva, para realizar o desligamento definitivo.
corporais. Segundo Eissler (1979), o pac iente com doença terminal regride
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e necessita de conforto físico e de cuidados maternais. E como se precisas-


subjetivo. Neste sentido, o tempo de vida ou a pro xi midade da morte
se de um ego externo, como a cri  a n ça necessitava da sua mãe para a sobre-
vivência. Ele sofre como na p ri meira infância a ansiedade de separação. podem ser temas focais deste processo psicoterápico, mas também po-
dem não ser. Com o vimos, a gama de sofrimento destas pessoas é bastan-
Norton (1973) fala destes aspectos regressivos como, por exemplo, tornar
o leito confortável, ajeitar o tr avesseiro, dar comida ao paciente, ou ficar te grande, abrindo um universo de temas a serem trabalhados. Então o
sentado no leito enqu  a n to este adormece, tendo o terapeuta uma função procedimento mais sábio é o desenvolvimento da possibilidade de escuta
atenta do outro, das suas necessidades.
maternal. Às vezes, quando o paciente está tão regredido, normalmente
nos estágios finais da doença, o tom de voz e a pro xi midade física são mais O estágio em que se encontra o paciente, segundo as colocações de Ku-
i mportantes do que o conteúdo do que se fala. Neste caso, o terapeuta bler-Ross e Weisman, também envolve cuidados importantes que devem
assume as funções egóicas do paciente, ajudando-o a lidar com a sua an- ser c onsiderados.
siedade de separação e desintegração. Segundo Le Sha n (1973), o paciente
com tempo limitado de vida, não importando qual é o tempo objetivo, A gravidade d os problemas físicos do indivíduo vai indicar o local onde
necessita realizar o desligamento das pessoas e objetos amados. O tera- será oferecido o tratamento: consultório, hospital ou domicílio, bem
peuta tr az consigo a possibilidade de conexão com a vida que ainda está aí. como, a assiduidade das sessões e a capacidade de elaboração psíquica
A questão do tempo limitado é relativa, mais do que a qu antidade, importa do paciente. Segundo Rosenthal (1973), é i mportante saber qual o nível
a qualidade de vida. A relação regressiva com o terapeuta permite que de informação que o paciente tem da sua doença, e este fato deve ser
este desligamento seja efetuado. considerado para se trabalhar o reconhecimento da situação e u ma possí-
vel aceitação da mesma. Esta situação pode trazer à tona os medos in-
Muitas vezes, o rótulo terminal traz a falsa idéia de que não há mais nada conscientes de abandono, rejeição e culpa. Se o paciente tem o seu poten-
que se possa fazer pelo paciente. Esta é uma crença errônea, pois, como cial de elaboração preservado, pode-se trabalhar com o seu au toconheci-
vimos, é justamente neste momento, que a pessoa necessita mais de ajuda mento, o questionamento de certos valores, a compreensão de certos con-
tanto física como psíquica. Os desejos e metas continuam enquanto há flitos e im passes que permeiam suas relações interpessoais. O processo
vida, e o paciente ainda não morreu. psicoterápico pode envolver também um a reelaboração do passado, uma
busca de signifi cado para a vida. O nível das interpretações dependerá de
Quando se pensa num trabalho psicoterápico, é justamente com o desejo uma c uidadosa avaliação da força do ego. Se esta força estiver disponível,
que vamos trabalhar. A doença pode ser transformada numa possibilida- aí um insight, mesmo que doloroso, pode ser benéfico. Porém, se a doença
de de insight,  já qu e p ro vo ca um a pa ra da ob ri ga tó ria na ag ita çã o d o c ot i-
tiver conduzido a um situação regressiva, com conseqüente fragilidade
diano, facilitando uma revisão de vida, um aprofundamento das relações, egóica, como aponta Eissler, quebrar defesas pode apenas elevar o nível
como foi .visto no depoimento do casal. A possibilidade de autoconheci- de angústia, sem possibilidade de elaboração. Nestes casos, uma aborda-
mento encontra-se aberta
gem de apoio e suporte pode ser mais benéfica, proporcionando bem-es-
tar, e um alívio para a angústia e o m edo.
 Tr ab al ha r co m te mas de te rm in ad os co mo, po r ex em pl o, "c om o pa ci en te
terminal é preciso tr abalhar o tema da morte" é um erro. Temos de conhe-
O processo psicoterápico não tem como meta a cura da doença, nem o
cer o seu universo interno, como faríamos com q ualquer outra pessoa. prolongamento da vida, embora isto possa ocorrer. Também não é o seu
objetivo amansar o paciente, para silenciá-lo e aceitar todas as condutas
Entretanto, algumas questões tornam o trabalho psicoterápico com o pa-
previstas sem questionamento. Pode ser um espaço para falar da doença,
ciente terminal peculiar, segundo Torres e Guedes (1987). Uma delas
do medo da morte, da vida ou de quaisquer outros temas que ele julgar
pode estar relacionada ao fato de que um dos elementos da dupla tem um i mportantes. A ênfase é na qualidade de vida, na facilitação da comunica-
tempo de vida limitado, não como dado objetivo, mas como um saber
ção e na expressão dos sentimentos. Cabe ressaltar que o psicólogo no
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seu trabalho não entra no vácuo da relação médico-paciente, port an to , biente e, no que for possível, o lugar é modificado de acordo com os
deve ter o seu espaço legitimado no atendimento a pacientes terminais. seus desejos, para que se assemelhe mais a um lar.

 Tr at ar de ss es pa ci en te s, co mo vim os , n ão é u ma ta re fa fá ci l, se nt im en to s As principais características de um hospice envolvem a contratação de


de impotência e frustração podem ocorrer. Há medo de ver o sofrimento, uma equipe experiente, especificamente nesse tipo de trabalho. Estra-
a dor, e a degeneração física. Reações contratransferenciais podem ser nhamos não ter encontrado menção sobre profissionais de p sicologia e
comuns, despert adas pelos elementos acima mencionados. E importante psiquiatria nos hospices,  já qu e há uma ênfa se n a bu sca do bem -est ar
ao terapeuta perce be r os próprios sentimentos, como a questão da m orte, do paciente, o que envolve cuidados na área de saúde mental também.
da fmitude, da an iquilação e da desintegração repercutem internamente. Há uma interligação entre os hospices e outros hospitais na troca de
experiências. São também montadas equipes volantes que orientam pa-
Antes de encerrar o ca pítulo, gostaria de fazer menção a um movimento, cientes que estão em seu p róprio domicílio, dedicando algumas horas do
que tem se desenvolvido na Europa e nos Estados Unidos, conhecido dia para providenciar os cuidados básicos ou a orientação às famílias
como o "movimento dos hospices", instituições destinadas a a liviar o sofri- que se dispõem a cuidar deles em casa.
mento li gado a doenças terminais, oferecendo às pessoas a possibi li dade
de morrer em paz e dignamente, bem como, d  a n do assessoria a hospitais Um hospice não deve ser visto como a antecâmara da morte, um lugar
gerais e a pessoas que estão no seu d omicilio. No li vro New Meanings of  deprimente. É inevitável que estes atributos lhe sejam conferidos, mas
Death, de Feifel (1977), há a descrição dessas instituições. O St. Christop- não é esta a opinião dos pacientes que lá estão. As avaliações indicam
her's Hospice, em Londres, foi fundado em 194 8, com 50 0 libras deixadas que eles ficam mais independentes, sentem menos dores, relatam que a
por um homem que fugiu do gueto de Va rsóvia e que morreu de câncer equipe médica é mais atenciosa e disponível. Os familiares estão mais
numa enfermaria de Londres. Ele queria um lugar que aliviasse a sua dor relaxados, pois sabem que o paciente está bem atendido, que podem
e outros sofrimentos físicos e que proporcionasse a proximidade de pes- permanecer o tempo que quiserem, até residir n o hospice, participando
soas. O nome hospice está relacionado à idéia que se tem de um lar, o de todas as atividades, bem como, auxiliando no tratamento.
significado da hospitalidade para os viajantes, um lugar de descansò.
Acreditamos que este movimento deveria chegar ao Brasil, pois, como
se sabe muitos pacientes com doença grave ou idosos não têm onde
O objetivo destas instituições é a diminuição do sofrimento causado por
permanecer. Vivem sozinhos ou os familiares ficam tão sobrecarrega-
doenças malign a s  e degenerativas. Não é mais a preocupação com diag-
dos que não podem cuidar deles da forma adequada, não possuem re-
nósticos sofisticados ou tratamentos de ú ltima geração e sim com cuida-
cursos para pagar um bom atendimento e muitos hospitais não têm con-
dos pessoais, de alimentação, de higiene e com atividades de lazer. A
dições de oferecer tratamento para doentes crônicos. Novamente que-
família participa de todo o tratamento e tem o seu espaço no hospice,
remos ressaltar que não se trata de hospitais de "segunda linha", ou
podendo participar de todas as atividades.
"depósitos de mortos vivos". Pela descrição feita verifica-se a seriedade
do trabalho e, embora lutemos com uma "carência" de verbas para a
Há u ma preocupação com a individualidade do paciente, eles são recebi- saúde em nosso país, sonhamos com a implantação de um projeto seme-
dos à porta nominalmente e encaminhad os para o seu quarto. Muitos lhante aqui.
pacientes chegam após intensos sofrimentos, depois de terem sido dis-
pensados de outros hospitais onde não "melhoraram", m uitos chegam Ainda uma última pa lavra: quando se fala em pacientes terminais, vem
como "fracassados". Freqüentemente apresentam-se com muitas dores, à tona a questão da eutanásia. A discussão da eutanásia não envolve
desespero e dificuldades físicas e emocionais. Há uma preocupação com apenas o desligamento de apare lhos em doentes com quadros irre-
os gostos do paciente em termos de alimentaçã o, de decoração do am- versíveis, nem a realização de medidas heróicas de ressuscitamento em
20 2  Morte  e desenvolvimento humano  Paciente terminal e a questão da morte  20 3 
pacientes crônicos. Estas hoje em dia são medidas de bom senso, e que FAULSTICH, M. E. - Psychiatric aspects of aids. American Journal of 
são tomadas consultando o p aciente e os familiares. Os horrores relata- Psychiatry, 19 87, 144 (5).
dos por Z iegler, como vimos no capítulo 3, atualmente já são questiona-
dos por muitos profissionais. Existe um momento certo para morrer, FEIFEL, H. -
New meanings of death. New York, McGraw Hill, 1 9 7 7 . -

nem antes, nem depois. O que deve nos preocupar, segundo Lamerton,
é quando um paciente pede para morrer. Temos de investigar as razões KOVACS, M. J. Um estudo sobre o medo da morte em universitá ri o s das 
-

áreas de saúde, humanas e exatas. São Paulo, Dissertação de mestra-


para tal pedido; estará o paciente sentindo dores insuportáveis, descon-
forto, o peso que imagina representar para os parentes? Facilitar a ex-
do, IPUSP, 1985.
pressão destes problemas e ajudar nas possíveis soluções, faz-se neces- KOVACS, M. J. - A questão da mo rt e e a formação do  psicólogo. Sã o
sário. Quando é a família que pede, também temos de investigar os Paulo, Tese de doutorado, IPUSP, 1 9 8 9 .
motivos.
KUBLER-ROSS, E. - Sobre a morte e o morrer. São Paulo, Martins
Este é um debate que envolve questões médicas, sociais, legais e indivi- Fontes, 1969.
duais. Voltamos a enfatizar, a eutanásia só é considerada quando injeta-
mos uma droga ou realizamos quaisquer procedimentos ativos, com os LAMERTON, R. - Care of the dying. London, Penguin Books, 1 9 8 0 .
quais possamos abreviar a vida da pessoa, ou induzir a sua morte. Não
realizar medidas heróicas ou m inistrar analgésicos para aliviar dores atro- LE SHAN, L. e LE SHAN, E. -  Psychotherapy and the patient with a li-
zes não são atitudes próprias da eutanásia, principalmente o último pro- mited life-span. In: RUITENBECK, H. - The interpretation of death.
cedimento, cujo objetivo não é matar o pa ciente e sim dar-lhe uma q uali- New York, Jason Aronson Publishers, 1 9 7 3 .
dade de vida melhor.
NORTO N, J. - Treatment of a dying patient. In: RUITENBECK, H. - Th e 
Em todo este capítulo enfatizamos que a nossa maior preocupação é com interpretation of death. New York, Jason Aronson Publishers, 1973.
a qualidade de vida do paciente e não com o p rolongamento dessa vida a
todo custo. Queremos de ix ar claro que, com esta afirmação, não estamos ROSENTHAL, H. - Psychotherapy of the d ying. In: RUITENBECK, H.
- The interpretation of death. New York, Jason Aronson Publishers,
defendendo a eutanásia, e sim, um bom senso que deve nortear todo o
1973.
nosso trabalho. Nosso caminho não é a indução da morte e sim o impulso
à vida. Podemos ajudar uma pessoa que está morrendo, dando-lhe o con-
SONTAG, S. - A doença como metáfora. Rio de Janeiro, Graal, 1984.
forto físico e psíquico de que necessita, e para isto é importante desenvol-
ver o procedimento da escuta. Não é uma tarefa fácil, mas acredito muito  TO RRE S, W . C.; GUE DES , W. G. - O p sicó logo e a term ina lida de. Ar- 
digna para nós p rofissionais de saúde do século XX. quivos Brasileiros de Psicologia, abril/junho 1987, 39 (2): 29 38 . -

WEISMAN, A. D. - "Psychossocial considerations in terminal care". In:


Referências Bibliográficas SCHOINBERG, B.; CARR, A. e PERETZ, D. - Psychossocial a s - 
 pe cts of ter m ina l c ar e, New York, Columbia University Press, 1972.
EISSLER, K. R. - The psychiatrist and the dy ing patient. New York, Inter-
national University Press, 1973.

ERICKS ON, R. C . - "The dying patient and the double-bind hypothesis".


Omega, 1974, 5 (1).
Atendimento psicossocial a paciente de cancer... 20 5 

nossos dias, estando presentes no vocabulário. Assim, quando falamos


Capítulo 12 de um indivíduo fleumático, sanguíneo ou bilioso, nós estamos de algu-
ma forma celebrando esta antiga teoria. Hipócrates, bém como outros
médicos da Antiguidade, acreditavam que o clima onde vivia o indiví-
duo influenciava na relação entre esses humores, de forma q ue a saúde
ATEND IM ENTO PSICOSSOCIAL  acabava sendo m odificada pelo entorno.
A PACIENTES DE CÂNCER Embora esta teoria primitiva pareça bastante ingênua, suas idéias básicas
Relato de uma Experiência têm sido surpreendemente durá veis.
Estes pensamentos antigos foram, no ent  a n to, eclipsados pelos caminhos
que a m edicina foi adotando, a partir do século XVII, em decorrência do
Vicente A. de Carvalho
surgimento do pensamento cartesiano. Descartes (1596-1650), filósofo
francês, postulou um a teoria na qual considerava o indivíduo composto
Não é um fato recente a observação de que estados emocionais estão basicamente por duas partes distintas, às quais denominou de res cogitans 
provavelmente relacionados ao surgimento de muitas doenças orgânicas, e de res extensa. A primeira, uma abstração etérea a que chamamos m en-
entre elas o câncer. Há cerca de cinco mil anos, escritos da med icina te, e a segunda, concreta, que é o corpo. O estudo de cada uma delas
chinesa já assinalavam esta relação. requeria uma metodologia própria, assim, o estudo da res cogitans era
feito por auto-reflexão e diálogos com outras pessoas e o estu do da res 
Na Antiguidade ocidental, já se fazia o mesmo tipo de observação mos-
extensa, através da análise das partes que com põe o todo.
trando a preocupação em ver o indivíduo em sua totalidade, ou seja,
levando em conta a relação entre seus asp ectos psíquicos e físicos com Assim, desenvolveu-se um modelo de pensamento que foi sendo gradual-
o meio amb iente. mente utilizado na medicina, de forma que para conhecer o que era com-
plexo passou-se a estudar o simples.
Hipócrates (460 a.C.) sugeriu que havia causas naturais, bem como divi-
nas para a doença, e que estas causas eram discerníveis pelo uso da razão. Estabeleceu-se, portanto, um m étodo reducionista que foi, ao longo dos
Considerava também que o estado de saúde era a evidência de que o séculos, dominando a medicina. Uma outra teoria surgiu, reforçando o
indivíduo havia atingido um estado de harm onia tanto entre os elementos caminho apontado pelo modelo cartesiano. Foi a teoria da etiologia
internos como com o m eio ambiente. Sob este aspecto a m  a n utenção da específica, ou seja, a idéia de qu e toda doença ou infecção é causada
saúde é uma questão de reconhecer este equilíbrio e respeitá-lo, vivendo por um microorganismo identificável. Esta teoria, ao longo do tempo,
segundo as leis da natureza. Hipócrates acreditava que qualquer coisa foi recebendo várias confirmações. Robert Koch (1843-1910) demons-
que acontecesse na mente, influiria no corpo. trou o ciclo vital do Antrax l, isolou o bacilo da tuberculose, que leva o
Parte da medicina hipocrática se baseava no conceito de que a saúde seu nome, e desenvolveu uma vacina contra a difteria. Um grande pes-
era decorrência do equilíbrio entre os quatro fluidos ou humores vitais: quisador que ajudou a sedimentar a teoria da etiologia específica foi
o sangue, a bile amarela, a bile ne gr a e o fleuma. Segundo os médicos Louis Pasteur (1895 - 1922). Pasteur descobriu a cura do Antrax, de-
da Antiguidade, o sangue vinha do coração, a bile amarela do fígado, a 1  0 A ntrax é uma patologia caracterizada pela existência de um grupo de furúnculos
bile negra do baço e o fleuma do cérebro. Esses humores influenciavam adjacentes, com extensão da infecção ao tecido subcutâneo, que ocasiona supuração
p rofunda, necrose local extensa em muitos casos e cura lenta, deixando uma grande
corpo e mente e quando um deles prevalecia sobre o outro, um deter- cicratiz. Desenvolve-se mais lentamente que o furúnculo e p ode ser mais doloroso que
minado estado emocional se instalava. Estes conceitos chegaram aos este.
2 0 6  Morte e desenvolvimento humano  Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 2
0
7

monstrou a possibilidade de prevenir esta doença expondo alguns ani- notar. Freud, na década de 1880, havia ido a Paris para estudar com
mais a uma versão atenuada d ela, de forma que o sistema imunológico Charcot (1825-1893) na Salpetrière. Charcot estudava os fenômenos da
do animal, sistema natural de defesa, se tornava capaz de suportar uma histeria, usando a hipnose como instrumento de seu trabalho. A partir das
gr a n de dose da bactéria não atenuada. observações feitas no trabalho de Charcot, Freud acabou por postular
noções sobre a histeria, entre elas a de que emoções ligadas a aconteci-
O sucesso destes experimentos encorajou Pasteur a estender as experiên- mentos do passado, que não fossem expressas em palavras ou ações, po-
cias para a espécie human a. Desenvolveu de início o soro a n ti-rábico e deriam dar origem a sintomas físicos como, por exemplo, as para li sias. O
posteriormente a vacinação para outras doenças.
histérico, por sentir a experiência emocional muito dolorosa, reprime a
Ora, estava estabelecido o estímulo para que mu itos outros pesquisadores lembrança do acontecimento no inconsciente. Mais tarde o conteúdo re-
concentrassem seus esforços nessa direção. Assim em 19 06 cientistas de- primido pode voltar na forma de um sintoma físico.
t
senvolveram a vacina contra a tuberculose, em 1911 foi desenvolvido um
c Era um retomo a uma visão integrada do ser. Embora o próprio Freud
omposto especial, derivado do arsênico, o Salvarsan, para o tratamento
tenha mostrado que as paralisias histéricas eram destituídas de um substra-
da sífilis. Na década de 20, a insulina foi isolada e usada no tratamento to neurológico, não resta dúvida de que seus tr abalhos apontam na direção
dos diabéticos. Na década de 30, surgiu a sulfa, sendo possível então o
desta visão mais integr ada do homem, m ostr an do que acontecimentos da
tratamento eficaz de várias infecções. Esta p ossibilidade foi ainda amplia-
esfera psíquica causavam conseqüênc ias orgânicas. Poste r i ormente surgi-
da na década de 40, com a d escoberta da penicilina. Nos anos 50, na área
ram muitos estudos com base nos conhecimentos psicanalíticos, que nos
da psiquiatria, houve o desenvolvimento dos neurolépticos, sendo então ajudaram a compreender mec  an ismos psicológicos que contribuem para o
possível o controle de algumas doenças mentais.
aparecimento de muitas doenças, como veremos mais adiante.
Se essa abordagem foi se sedimentando por ser de fato eficaz trouxe, por
outro lado, algumas conseqüências, como, um certo distanciamento entre Um outro autor que deu contribuições importantes neste sentido foi
médico e doente. O foco de atenção do médico passou a ser p redominan- Claude Bernard (1813-18 78), que em seu livro A Introdução à Medicina 
Expe ri mental,, publicado em 1850, falava da idéia de que o corpo está
temente a doença, mais que o doente. Um evento que pode ser considera-
do como o que deu origem a este movimento de afastamento é a invenção sempre tentando manter um equilíbrio delicado no funcionamento quími-
do estetoscópio. Esse simples apa relho de ausculta, que foi inventado em co de suas mú ltiplas partes, e quando este equilíbrio se rompe há o surgi-
1819 por Laennec (1781-1826), se interpôs entre o méd ico e o doente, mento de doenças e eventualmente a morte. Bernard, pensador de sua
transformando a técnica de ausculta. Daí por diante, muito raramente o época, portanto cartesiano, propunha a análise das partes como forma de
médico voltou a encostar seu ouvido no tórax do doente. Melhorou a entender o todo, sem que, no entanto, se perdesse de vista a forma pela
técnica de coleta de dados médicos, mas eliminou-se o efeito tranqüiliza- qual estas partes se inter-relacionam.
dor do toque humano, o que o Dr. Lewis Thomas (in Locke, 1987) des-
Walter Cann on, fisiologista da Harvard Medical School a partir dos
creve como o "ma is antigo e mais efetivo ato médico".
anos de 1930 e ao longo da década de 40, estudou os elementos de que
Ao longo do século XX, diversos aparelhos foram desenvolvidos. Apare- nos falava Claude Bernard. Descreveu o fenômeno a que chamou de
lhos que ajudam muito no diagnóstico mais preciso, mas que, concomi- homeostase. E um dos sistemas vitais que p articipam da homeostase é o
tantemente, concentram o foco de atenção no órgão doente, reforçando a sistema imunológico.
i magem do paciente como objeto de estudo.
Cabem algumas palavras sobre este sistema. Sabe-se hoje ser b a s t a n te
No entanto, no final do século passado e início deste século a atenção complexo, formado por m uitas células com funções muito específicas, o
acerca dos efeitos do psiquismo sobre doenças físicas voltou a se fazer que faz com que o sistema imunológico seja capaz de identificar quais
20 8  rt e e desenvolvimento humano  Atendimento psicossocial a pacientes de cancer... 209 

células pertencem ao corpo, e quais lhe são estranhas. Descobriu-se que Tem sido publicada uma gran de quantidade de tr abalhos científicos a
o sistema imunológico é dotado de uma memória bioquímica capaz de esse respeito. Trabalhos que tentam identificar que aspectos estão mais
identificar algo em torno de 10 milhões de bactérias diferentes e de des- envolvidos com a possibi lidade da pessoa adoecer.
truí-las. Descobriu-se também, a partir de experiências realizadas in vitro,
que o sistema imunológico funciona autonomamente, uma vez que manti- E aqui vou me a ter aos aspectos psicossociais, que possam levar ao surgi-
nha suas funções mesmo nesses experimentos fora do organismo. No en- mento do câncer, em especial.
tanto, apesar dessa propriedade, uma vez no org  a n ismo, mantém uma
inter-relação com todos os outro sistemas, podendo ter seu funcionamen- Encontra-se na li teratura, ao longo dos tempos, muitas referências de que
to influenciado por alterações em ocionais. o câncer é uma doença psicossomática. Autores associam o seu surgimen-
to a traumas esp ecíficos e a condições psicológicas como o luto, ansieda-
Na década de 1950, novos conhecimentos foram acrescen tados por
de, desapontamentos, perda do apoio emocional dos pais, ainda dur an te
Rodney Portes e Gerald Edelm  a n  sobre o sistema imu nológico, já que
foi determinada a estrutura molecular de um anticorpo, um dos compo- a infância, etc.
nentes desse sistema.
D ur an te a década de 195 0, estudos com orientação psicanalítica surgiram
Assim, dentro do caminho cartesi an o, no qual gr adualmente a medicina foi a respeito da estrutura de personalidade dos pacientes com cânc er. Neste
deix a n do de ser arte para ser técnica, d  a n do origem a inúmeras esp eciali- período, as conclusões eram baseadas em conjectur  a s  clínicas e as únicas
dades, surge mais uma: a imu nologia. Outros fenômenos são observados e fontes de informação eram as experiências do médico e os estudos retros-
percebe-se que há uma interação do sistema nervoso no funcionamento do pectivos de pacientes. A despeito dessa metodologia, esses estudos tive-
sistema imunológico e a imunologia passa a ser a neuroimunologia. Logo se ram  muita relevância.
faz necessária nova ampliação e a neuroimunologia p  a s sa a abr a n ger co-
nhecimentos da área do psiquismo, dando origem à psiconeuroimunologia. Mais recentemente foram-se sofisticando as  técnicas de pesquisa, amplian-
do-se a abrangência dos estudos que passaram a incluir fatores de ri sco e
Como exemp lo, temos a assinalamento de Cannon, que afirma que a ho- prevenção, a evolução da doença e tratamentos, o estudo dos doentes que
meostase era mais do que o sistema nervoso e a bioquímica agindo em sobreviveram longamente e.o luto. Surgiram estudos prospectivos, procedi-
harmonia. Cannon sugeriu que experiências normais de vida como o sur- mentos metodológicos mais exatos, usando-se gr upos de controle e estudos
gimento da puberdade ou a adolescência, a fadiga, o trabalho estafante estatísticos, além do uso de recursos multidisciplinares.
ou aborrecimentos do dia-a-dia, têm um reflexo no físico, de forma que
todas as doenças podem ser estudadas a partir desse ponto de vista. Alguns assuntos se mostraram m uito interessantes, por exemplo, como
estados emocionais podem afetar a transformação de células normais
Estamos diante de um acontecimento curioso: o próprio avanço tecno-
em células cancerosas; o impacto que tem o surgimento do câncer e seu
lógico, que foi levando ao surgimento de especialidades qu e cada vez
convergiam mais o foco da observação, propunha agora uma ampliação tratamento, exigindo esquemas de apoio social e intervenção psicológi-
ca; o impacto dos tratament os em pacientes que sobrevivem por longo
deste foco, integrando fenômenos de áreas que a n tes eram considera-
das absolutamente separadas. tempo e por fim os efeitos do luto nos familiares após a morte do
paciente.
Estabelece-se agora, em bases científicas, um encontro com as idéias
de muitos médicos que desde a Antiguidade vinham, de forma intuitiva,  estudo identificaram alguns fatores de risco para o surgimento do
afirmando haver uma intervenção dos aspectos emocionais no binômio câncer. Há três tipos de risco psicossocial: o estresse, traços de personali-
saúde/doença. dade e háb itos pessoais.
21 0  rt e e desenvolvimento humano  Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 211

H a n s Selye, químico orgânico, trabalhando na Universidade d e Praga e em seres humanos, como por exemplo, morte de um cônjuge ou alunos
posteriormente na Universidade Mc Gill, em Montreal, Canadá, postulou submetidos a exames escolares e em casos de isolamento social.
na década de 1920 o conceito de estresse, comprovando suas influência
nas alterações orgânicas, em animais de laboratório. Estudos em a n imais tê m - se mostrado contraditórios. Há, no ent an to, um
dado que p arece se confirmar: estresse em animais provavelmente influi
Embora haja um a forte crença de que aspectos psicossociais interfiram no crescimento de tumores, mas não no surgimento do câncer.
no surgimento do câncer, Bernard Fox questiona essa asserção. Ele
afirma: "Embora tenhamos algumas dúvidas, nós estamos sendo leva- Estudos em ratos revelaram que animais que podiam con tr olar os choques
dos mais e mais próximos, em vista de recentes estudos, à firme posição elétricos, aos quais eram submetidos, não desenvolviam tumores. Aqueles
de que fatores psicossociais podem na verdade, afetar a incidência de a n i mais que, em função de dispositivos da experiência, não podiam contro-
câncer em seres hum anos Mas não estamos ainda seguros dessa posi- lar o choque entravam em estado de desespero seguido de prostração,
ção." (in Locke, 1987). tendo aumentado o crescimento do tumor. Este ex perimento é a origem do
" modelo do  desamparo";  o desamparo como elemento que influencia o de-
O estudo do pa pel que os fatores psicossociais exercem no surgimento senvolvimento do câncer. A habilidade do indivíduo para lidar com o es-
do câncer é bastante difícil em função das muitas variáveis que entram tresse parece ser de importância nesse modelo. Assim, os aspectos subjeti-
em jogo. Por exemplo, muitas vezes, um câncer já se desenvolve duran- vos de um determinado es tr essor, para um determinado indivíduo, passam a
te muitos anos até que comecem a se manifestar os sintomas, de forma ser mais import a n tes do que os aspectos objetivos do estresse.
que pode ficar difícil saber o que realmente sign ificam os dados do
período premórbido. Este dado é tão mais importante quando se consi- O estudo com seres humanos apresenta dificuldades óbvias. Alguns estu-
deram alguns tipos de tumores que produzem hormônios lev an do a dos, no entanto, assinalam uma relação entre vários eventos estressantes
alterações psíquicas, como é o caso de tumores do pâncreas, que levam e alterações bioquímicas e do sistema imunológico, que podem estar
a um estado de depressão, ou tumores da tireóide ou ainda tumores de eventualmente ligadas ao surgimento ou desenvolvimento do câncer.
pequenas células do pulmão. Não se pode também afirmar com certeza Alguns autores têm tentado enumerar e quantificar os elementos estres-
de que forma os tumores são afetados por fatores psicossociais em suas sores. Holmes e Rahe, da Washington School of Medicine, criaram uma
diferentes fases de desen volvimento. Um outro elemento dificultador a escala de "Avaliaçã o e Readaptaçã o Social", onde listam vá rios eventos
se considerar é que diferentes tipos de câncer sofrem diferentes in- sociais, como morte do cônjuge, divórcio, prisão, mud an ça de status 
fluências do meio ambiente. Assim, cânceres de pele podem ser desen- econômico-financeiro, gr avidez, aposentadoria, etc. dando pontos para
cadeados por raios ultravioletas e outros cânceres com diferentes loca- esses eventos, conforme seu poder estressante. "Ao usarem esta forma
lizações podem não sofrer esta influência. Há a inda experiências em de avaliação objetiva à qu antidade de mudanças observáveis na vida das
animais que mostram que o estresse pode exacerbar o crescimento de pessoas, Holmes e seus colaboradores foram capazes de predizer o apa-
himores virais e não estimular o crescimento dos não virais, de forma recimento de doenças com grande grau de exatidão estatística." (Simon-
que "um conjunto indiscriminado de dados psicossociais, para pacien- ton, 1987)
tes com diferentes tipos de câncer, podem ser como misturar laranjas e
maçãs, sem saber como elas diferem." (Fox, inAder, 1981.) A respeito da influência da p ersonalidade no surgimento ou desenvolvi-
mento de câncer, os dados encontrados na literatura são muitas vezes
Os estudos sobre o estresse como fator de risco têm sido desenvolvidos contraditórios.
de duas maneiras: com animais de laboratório, em que é examinado o
crescimento de tumores após submeter os sujeitos de estudo a situações  Tem surg ido tr ês tip os de p esqu isa n esta área . Em prim eiro lu gar têm
de estresse, e estudos de impac to emocional criado por situações naturais sido feitos estudos das possíveis relações entre m edidas psicossociais obti-
21 2  
M orteedesenvolviment
o humano 
Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 2
1
3
das cinco a dez an os antes e o subseqüente surgimento do cânc er. Assim,
ras, não-afirmativas, pacientes, evitadoras de conflitos, com baixa ex pres-
Dattore e colaboradores (1988) constataram que a repressão emocional sividade de em oções e em pa rticular a raiva, submissas à autoridade ex-
era maior em indivíduos que desenvolveram câncer. E ssa pesquisa, se- terna e apresent a n do uma resposta defensiva ao estresse. Muitos autores
gundo autores que a citam, tem recebido críticas, já que não apresenta
assinalam que há u ma possível correspondência destes traços de persona-
controles adequados para eventos intervenientes, que poderiam ter in- lidade com alterações biológicas ligadas ao sistema de defesa do organis-
fluenciado os sujeitos da pesquisa no que toca a diferentes exposições a
mo, bem como, aumento de divisão das células malignas e também inibi-
carcinogênicos ambientais.
ção da atividade de reparação do DNA d  a s  células. (Simonton, 1987 e
O segund o tipo de pesquisa envolve o uso de dados psicossociais obtidos Baltrusch, 1988)
na época do diagnóstico de câncer, para determinar se fatores de perso-
Ora, ao se falar de traços de personalidade não se pode deixar de pensar
nalidade são associados com a evolução posterior da doença. Desta for-
na influência que eles têm na maneira do indivíduo lidar com a vida.
ma, Greer e colaboradores (1979), verificaram que o otimismo e o espíri-
 Tr at a- se , p ois , d e u m es til o d e m an ejo de sit ua çõ es de vid a. O es til o p od e
to de luta, em pacientes operadas de câncer de mam a, estavam associa- ser eficaz enquanto as situações ambiental e psicológica são estáveis e
dos com ausência de recorrência cinco anos depois. Redd e Jacobsen então a auto-estima é m antida. No ent an to, a repressão crônica, que im-
(1988) citam Rogentine e colaboradores que, observaram q ue, pacientes pede a expressão das necessidades e afetos, tem conseqüências negativas
que referiam ter precisado de pouco esforço para se ajustarem à doença,
do ponto de vista biológico e psicológico.
tiveram recorrências e morreram mais cedo do que aqueles pacientes que
pareciam menos bem-a justados na época do diagnóstico. Presume-se que Segundo Temoshok (in Baltrusch, 1988) o tipo C de personalidade é
estes pacientes que evoluíram pior também tinham uma atitude de maior uma frágil adaptação ao m undo. A homeostase com o ambiente pode
resignação diante das dificuldades da vida. Outros autores também en- ser atingida apenas parcialmente e com um a lto custo, enqu an to que a
contraram esta relação. Assim Degoratis e colaboradores (1979) estuda- homeostase biológica parece estar severam ente comprometida. Estes
ram doentes de câncer de mama e aqueles que eram menos bem-adapta- indivíduos eventualmente desenvolvem um estilo de manejo de vida q ue
dos, apresent a n do gr a n de ansiedade, depressão e hostilidade, medidas depende da supressão do reconhecimento dos sentimentos e necessida-
em escal as  apropriadas, concluindo que viveram mais longamente após o des biológicas. Especula-se atualmente que o câncer cresça em condi-
diagnóstico do que aqueles mais bem-a justados. ções de estresse, em que houve uma acomodação crônica a um baixo
nível de organização e que tem como substrato biológico os neuropeptí-
O terceiro tipo de pesquisa se p rende à análise de dados psicossociais ao deos imunomoduladores.
tempo do diagnóstico, determinando se esses dados estão relacionados a
marcadores imun ológicos e histológicos de prognóstico da doença. Os Baltrusch (1988) afirma que os recursos pessoais que o indivíduo tem
pacientes de alto risco, segundo esses estudos, mostraram ter muitos tra- para lidar com estresse são de maior importância para a adequação às
ços de personalidade do chamado tipo C, associado à diminuição de vá- diversas situações de vida. Pessoas que tenham um senso de significância
rias funções do sistema imunológico, como, por exem plo, diminuição de de si mesmas e de compromisso consigo, uma atitude vigorosa com a
atividade de células NK, "Natural  Killer" - um tipo de célula do sistema vida e autoconfiança têm menor possibilidade de desenvolver doenças,
i munológico. (Baltrusch, 1988.) quando submetidas a situações de estresse. Nos níveis cognitivo e em o-
cional, lidam de uma forma mais eficaz com as vicissitudes da vida. O
Pesquisadores estabeleceram um perfil de personalidade de pacientes mesmo é verdadeiro para indivíduos que tenham recursos pessoais para
com câncer a que deram o nome de tipo C. Para isso tomaram como base enfrentar situações sociais ou que possam contar com uma rede social de
o modelo desenvolvido para pacientes com doenças coronarianas e lista- apoio. Pessoas bem-estruturadas psicologicamente são muitas vezes so-
ram as seguintes características: pessoas supercooperativas, apaziguado- cialmente competentes e geralmente possuem um a rede social de apoio
21 4  
M orteedesenvolviment
o humano 
Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 2
1
5
também b em-estruturada. Ligações sociais que levam a apoio eficiente, e
que não sejam associada s a conflitos e fricções interpessoais, parecem vés de trabalho de relaxamento e contato social em pessoas idosas, que
favorecer a adaptação a situações de estresse e também resultar em uma estavam morando em comunidades de velhos. Os sujeitos do estudo fo-
condição melhor de saúde. Nota-se que condições adversas são impor- ram distribuídos ao acaso em três grupos, a saber: um grupo de relaxa-
tantes no estabelecimento de m aior vulnerabilidade. Baltrusch observa, mento, outro de contato social e um terceiro sem nenhum contato. Os
como muitos outros autores, que perdas e separações parecem constituir indivíduos dos dois p rimeiros grupos eram vistos três vezes por semana
elementos import a n tes na desestabilização da saúde e comenta que tanto durante um mês. Ao fim desse período os indivíduos pertencentes ao
perdas reais como ameaças de perdas p odem ter o mesmo efeito. grupo que era submetido ao relaxamento mostrou um significativo au-
mento na atividade das células NK e diminuição da tensão relatada por
Um forte suporte social geralmente está associado com a diminuição da eles próprios, enqu a n to que os indivíduos dos dois outros grupos não
morbidade e da mortalidade. Provavelmente este suporte mitiga os efei- mostraram nenhuma alteração significativa. Houve também um aumento
tos d an osos que situações de estresse podem causar. Pesquisas recentes geral na resposta dos linfócitos T à estimulação com fitohemaglutinina,
mostram que indivíduos que se sentem menos apoiados por sua rede com uma diminuição das concentrações mitogênicas. Estes dados suge-
social, têm tendência de criar redes sociais mais am plas, porém mais rem também que a imunocompetência pode ser aumentada por uma in-
superficiais. Estas pessoas geralmente se sentem apoiadas por todos os tervenção psicossocial em populações de idosos.
indivíduos de suas relações e a m aior contribuição para seus sentimentos
de não serem a judados vem do fracasso de seus esforços, quando tenta- Estes estudos permitem pensar que a velhice é caracterizada por altera-
ram conseguir apoio significativo de seus pais. Segundo B owlby (1985) ções do sistema nervoso autonômo e nos meca nismos de regulação dos
há uma clara relação entre a experiência do indivíduo com seus pais e órgãos internos e por várias alterações do sistema imunológico, que são
sua capacidade posterior de estabelecer vínculos. por sua vez influenciados por situações de estresse emocional e formas
inadequadas de lidar com situações estressantes.
 Th or ia s e co lab or ad or es (1 98 5) , e m es tu do s c om pe ss oa s i do sa s, ob se rv a-
ram que indivíduos com bons sistemas de suporte social tinham baixos Relato de uma experiência brasileira no atendimento
índices de colesterol, ácido úrico e altos índices de eficiência do sistema psicossocial a pacientes com câncer
i munológico. Vale notar que mulheres geralmente têm mais sensibilidade
para estabelecer relações sociais, bem como, maior versatilidade na esco- A experiência pessoal de Carl Simonton como oncologista, aliada às ob-
lha dessas relações, o que reflete nas funções fisiológicas. servações anteriores descritas, fez com que este autor propusesse um
método de atendimento psicossocial a pacientes com câncer, que está
Um peso adicional para pessoas idosas é a subestimulação. Arnetz e relatado em um livro em co-autoria com Steph  a n ie Matthew-Simonton e
colaboradores (1983) examinaram os efeitos psico-endócrinos e metabó-  Ja me s C re ig hto n, ch am ad o Com a vida de novo (1987).
licos do isolamento social e subestimulação. Notaram que a estimulação
social levava a um grande aumento da testosterona, dehidroandrosterona Este método vem send o empregado por nós n o Centro Oncológico de
e estradiol 2, enquanto a hemoglobina A lc decresceu significativamente Recuperação e Apoio - CORA.
nos grupo estimulados. Estes experimentos permitem concluir que a su-
O CORA é uma sociedade civil„ sem fins lucrativos e de utilidade pública,
bestimulação e o isolamento podem estar associados a um amplo espec-
fundada em 1985 por um grupo de pacientes e ex-pacientes de câncer.
tro de alterações psicofisiológicas em pessoas idosas. A Dra. Kiecolt-
Estes pacientes, embora recebessem bom atendimento médico, sentiam
Glaser e colaboradores testaram o aumento da imu nocompetência, atra-
necessidade de que aspectos emocionais também fossem cuidados. Para
2 São hormônios sexuais.
viabilizar o atendimento dessa necessidade entraram em contato com o
Cancer Supp ort and Education Center de Menlo Park, Califórnia, E.U.A.
Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 21 7 

e através de convênio este grupo passou a vir periodicamente ao B rasil, ao  atendimento, de forma que a depressão que freqüentemente se encontra
longo de dezoito meses, para dar treinamento a profissionais na área de neste paciente possa ser revertida.
saúde mental. O método usado pelo Cancer Support an d Education Cen-
O primeiro pa sso que se dá com os pacientes é no sentido de auxiliá-los a
ter é o chamado método Simonton.
fortalecer a sua convicção de que o tratamento a que estão sendo subme-
ismo é dotado de um sistema de defesa
O CORA, no ent an to, se propõe a um trabalho mais amplo que abr an ge a tidos é eficaz, e que o seu org an
área de divulgação e esclarecimento da opinião pública a respeito do sofisticado e poderoso. Isso vai dando ao paciente a ce rt eza de que ele
câncer, tendo pa rt icipado da traduç ão e edição no Brasil do livro acima tem recursos pessoais para li dar com a doença, começando a reverter sua
referido de autoria de Carl Simonton. postura passiva em relação aos fatos da vida. Como passo seguinte,
aprenderá sobre sua forma de lidar com o estresse da vida cotidiana,
Atualmente, além do seu Programa Avançado de Auto-Ajuda (PAAA), tomando consciência de sua maneira de operar para então poder buscar
onde é usado o método Simonton, o CORA d esenvolve reuniões abertas métodos mais eficazes para enfrentar as situações de vida, em lugar de
semanais para pacientes e familiares. Estas são reuniões de auto-ajuda, te que o paciente experimente uma mud an ça na
desistir. É muito import a n
onde pacientes e familiares encontram-se com ex-pacientes, podendo tro- percepção de si mesmo, de forma a se sentir mais seguro e estimulado
car informações importantes para aqueles que acabam de receber o diag- para lidar com os problemas do cotidiano. Tenta-se assim um a reversão
nóstico de câncer. de perspectiva, de forma que a desesperança e sensações de desamparo
sejam transformadas em esperança e expectativas, o que faz com que o
Através de um corpo de voluntários, adequadamente treinado, o CORA desejo de morte, freqüentemente presente nestes pacientes, de forma
elaborou um cadastro de serviços de atendimento na á rea de oncologia consciente ou inconsciente - já que a morte pode ser sentida como um a
para encaminhamento de todo o paciente que esteja em busca de  pro- solução - seja transformado em desejo de vida.
fissionais.
O CORA tem dado treinamento a profissionais da área de saúde mental e Um outro passo que nos parece importante é despertar no pa ciente a
está ampli an do o programa de treinamento para profissionais da área de noção de que cada um, de um a forma ou de outra, participa dos proces-
saúde (médicos, enfermeiros-padrão, fisioterapeutas, etc.). sos de saúde ou de doença. Verifica-se que freqüentemente o câncer sur-
ge num período de 6 a 18 meses após alguma situação de estresse que o
No Programa Avançado de Auto-Ajuda (PAAA) acima referido, desen- paciente tenha vivido. Não apenas situações penosas e desagradáveis po-
volvemos um trabalho de gr upo temático. Reunimo-nos com os pacientes dem se constituir em estresse. Algumas outras situações que levem a m u-
uma vez por semana, durante nove semanas, aprox imadamente seis hor  as danças de vida alterand o o equilíbrio emocional e exigindo esforços de
por vez. Estimulamos nossos pacientes a que venham às reuniões de gru- adaptação também têm efeito estressante. Segundo a escala de Holmes e
po acomp an hados por uma pessoa da familia com quem sintam a fin idade. Rahe, anteriormente citada, são situações estressantes desde o c  as amento
Parece-nos import a n te a presença deste acompanhante, uma vez que isto ou ser prem iado em loteria, até uma condição freqüentemente desejada,
nos permite lidar com dinâmicas familiares sempre si gn ificativas e agora como a aposentadoria.
ainda mais já que a família está vivendo, em função de ter um de seus
membros port an do uma doença que ameaça a vida, todas as f an tasias Discutir com o paciente como ele participa de seu processo de saúde ou
ligadas à morte. de doença, através da criação de situações desnecessárias de estresse,
O método Simonton visa ajudar o paciente de câncer a lidar com suas possibilita rever suas met as , aceitar seus limites, reformular sua maneira
emoções, identificar suas necessidades existenciais e encaminhar o seu de criar ou enfrentar problemas.
Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 21 9 
21 8  
M o
rteede
senv
olvime
n t
o humano
 

dinâmica é atualizada nas suas relações presentes. Muitos pacientes têm


Um outro passo neste trabalho é considerar também quais os benefícios da
através da doença a oportunidade de ver atendidas necessidades emocio-
doença - seus ganhos secundários. E isso passa desde a observação da psi-
nais e isto pode se constituir num fator que os leve, de forma consciente
codinâmica do paciente, be m como, de sua dinâmica fami li ar e, num nível
ou não, a não colaborar para a recup eração. É desenvolvido com o pa-
mais amplo, de como ele lida com a spectos sociais característicos de nossa
ciente a noção de que ele pode obter a gratificação de suas necessidades
cultura. Vivemos numa cultura que incentiva o tr abalho árduo, que baseia a
auto-estima na produtividade, em que a meta é o sucesso e que toda expres- emocionais sem precisar da doença.
são de emoções, sobretudo tr isteza, luto, raiva, host il idade são desencoraja- O medo da recaída e o medo da morte são sentimentos constantes no
das. Uma vez diagnosticada uma doença e sobretudo se ela tiver a gravida- paciente de câncer. Toda dor que antes da instalação da doença era pou-
de de um câncer estabe lecem-se várias permissões. Permissão de c ri ar uma co levada em conta, após o diagnóstico de câncer é sentida freqüente-
ou tr a relação com o tr abalho, por exemplo. Permissão para a realização de mente de forma assustadora. A dor fica associada à recidiva ou ao avanço
desejos. Permissão para a expressão de emoções, para a mudança de algu- da doença, ao surgimento das metástases. É fundamental abrir um canal
mas relações sociais que, sem o aux ílio de um a doença grave, o p aciente de expressão para esse med o, de como repercute na vida e no corpo do
não teria forças para conseguir. Lidar com os ganhos secundários de uma paciente. A dor pode ser usada como um elemento importante de infor-
doença c ri a a possib il idade de que os mesmos benefícios possam ser obti- mação. Não só a respeito do que se passa no organismo, mas também, a
dos sem a doença, de forma a se eliminar um fator que possa tornar a respeito de pensamentos, fantasias e emoções. Freqüentemente a dor está
doença desejável, consciente ou inconscientemente. relacionada ao medo e se se entra em contato com o medo p ode ser que a
dor diminua. O m edo da morte está sem pre presente, além disso, cultu-
 To do o t ra ba lh o é ac om pa nh ad o p or té cn ic as de re la xa m en to e d e f or m a- ralmente o câncer e a m orte estão sempre ligados. Da morte não se fala
ção de imagens mentais . ou se fala m uito pouco, muitas vezes de forma toda eivada de preconcei-
A formação de imagens mentais, técnica que chamam os de visualização, é tos, crenças, visões regredidas. Com  o paciente de câncer e sua família
desenvolvida com o indivíduo em estado de relaxamento. Permite que o ocorre o mesmo. A relação é informada pelo medo e se estabelece um
paciente entre em contato com os conteúdos de seu mu ndo interno, conhe- tabu quanto a esse assunto. Família e paciente mergulham num teatro,
cendo-o. Permite também que esses conteúdos possam ser trabalhados e sempre de má qua lidade, em que o resultado da farsa é a permanência do
tran sformados. Assim, por exemplo, conteúdos de cunho depressivo, que medo intocado, a solidão e perda da confiança, que o paciente não pode
levem o paciente a adotar atitudes de vida pouco e fi cazes, ger an do insuces- mais ter nas pessoas próximas.
sos e com isso confirm a n do a tendência depressiva, podem ser transforma- À medida que, por ação do medo, não se revela ao paciente seu diagnós-
dos, desenvolvendo-se conteúdos que resultem numa forma m ais eficaz de tico, impõe-se a ele um a infantilização. Estabelece-se uma dinâmica em
lidar com a vida, levando a u ma reversão do sentimento de desesperança que o paciente é visto como incapaz de suportar tal informação e outros
em sentimento de esperança, trazendo melhor perspectiva de vida, melhora se arrogam serem capazes de suportar o peso da notícia. Impede-se o
da auto-estima e conseqüente melhora da qualidade de vida.
paciente lidar com esse momento d e . sua vida. Trabalhar o medo da m or-
Dentro do programa de atendimento emocional ao paciente de câncer te, abrir a possibilidade de expressão de fantasias a este respeito leva
dedicamos um período de trabalho ao contato do paciente com aspectos muito freqüentemente, a um alívio, já que muitas dessas fantasias podem
ligados à sua infância, à dinâmica com sua família de origem e como esta então ser vistas, revistas e elaboradas.
3 As técnicas de relaxamento visam ensinar o paciente a relaxar e cont rolar tensões. O Dedicamos uma sessão para tratar das fantasias a respeito da morte. Po-
procedimento usado é baseado nas técnicas de E. Jacobson, nas quais o indivfduo der olhar de frente as fan tasias sobre ela e os medos existentes faz com
aprende a re laxar grupos musculares, cada grupo por sua vez. Há a idéia básica de que o
re laxamento muscular leva com eficácia ao relaxamento emocional. que haja a p ossibilidade de que o medo diminua. Muitas vezes o medo
tadoras de câncer de mama, submetidas à psicoterapia de g  r u po, tiveram
está ligado a formas inf a n tis de sentir ou entender a morte. Revelar estas uma sobrevida duas vezes maior do que aquelas que receberam apenas
formas permite lidar com o assunto de um modo m ais maduro e freqüen- cuidados clínicos habituais. O trabalho psicoterápico ajudou-as a sup erar
temente leva à d iminuição do medo. Com  menos medo, há melhora da a depressão, o que resultou em melhor qua li dade de vida e melhores
qu a li dade de vida. condições de saúde física. Simonton (1987) assinala esta mesma relação,
Neste trabalho encaminhamos o paciente a fazer uma revisão dos valores apresent an do conclusões semelh antes.
de vida. Di an te de uma doença que ameaça a vida, geralmente é possível Apêndice
um novo olhar para as prioridades. Freqüentemente o paciente pode es-
tabelecer novas metas em que as prioridades possam ser atendidas.
Para maior esclarecimento publicamos neste apêndice, de forma m ais ou
Reservamos um período de trabalho para encaminharmos esta revisão. menos detalhada, a estruturação do Programa Av an çado de Auto-Ajuda
Propomos aos nossos pacientes que esta beleçam metas factíveis, com (PAAA) do CORA - Centre Oncológico de Recuperação e Apoio.
prazos determinados, de forma que, u ma vez cum pridas, possam ajudá-
los a vivenciar maior auto-estima, a brindo a possibi li dade de que haja Como já foi anteriormente mencionado, o programa se desenvolve ao
,

reversão de uma atitude de desesperança e desamparo para uma atitude


longo de nove sessões. Realizamos geralmente uma sessão por semana,
com a duração de seis horas cada sessão. O programa tem sido excepcio-
ativa e potente em relação à vida.
nalmente desenvolvido de forma intensiva, com as nove sessões segu idas
Um outro aspecto fundamental na lida com pacientes de câncer é ouvi- ou em três fites de sem ana sucessivos. As seis horas são divididas em dois
los. Ouvir é uma arte difícil. É um ato que sofre inúmeras interferências períodos de trabalho de três horas de duração cada um, intercal an do-se
do mundo interno de quem tenta fazê-lo de forma que, muitas vezes, uma hora de almoço quando os pacientes, acompanhantes e membros do
de ix amos nosso interlocutor sozinho, sem ser acolhido ou compreendido. staff se alimentam juntos.
É um fato observado que os pacientes de câncer, comumente, têm muita
dificuldade em se fazer ouvir e, muitas vezes, são pessoas com dificulda- A equipe está est ru turada da seguinte forma: um coordenador, geralmente
de de ouvir a si mesmas, de com preender as su  a s  necessidades mais im- psicólogo ou psiquiatra, um subcoordenador, preferencialmente pessoa trei-
portantes, de escutar a linguagem de seu próprio corpo. Ouvi-las é um nada para o programa e que seja paciente ou ex-paciente de câncer e moni-
ato que pode ajudá-las também a aprender a se ouvir. Assim poderão tores, que são psicólogos, na proporção de um para cada qu atro participan-
atender suas mais legítimas necessidades, o que pode ser fundam ental no tes do grupo. Faz ainda parte do g r u po de tr abalho um massagista.
processo de aquisição de melhor qualidade de vida. A primeira sessão está estruturada da seguinte forma: no primeiro perío-
Dedicamos uma sessão ao tem a "comunicação", quando são debatidos do são dadas informações gerais sobre o desenrolar do programa. A
modelos de comunicação usuais entre as pessoas, de forma que fiquem seguir o coordenador discorre acerca dos princípios que norteiam a pro-
claros os que são ineficazes. Os pacientes são estimulados a substituir posta de trabalho. A partir de então conduz um relaxamento e uma in-
estes modelos por outros mais eficientes, o que leva a maior clareza na trospecção, preparando todos os particip a n tes para que se apresentem a
comunicação e, conseqüentemente, maior possibilidade no atendimento seguir. Esta apresentação já oferece material para que as emoções pos-
de su as  necessidades emocionais. sam ser trabalhada s. No segundo período da primeira sessão o coorde-
nador discorre em termos gerais sobre o funcionamento do sistema imu-
Cabe aqui uma palavra final a respeito dos resultados que são obtidos nológico e sua inter-relação com o psiquismo e a importância que tem a
com os tratamentos psicoterápicos, associados aos tratamentos conven- m an eira pela qual o indivíduo lida com situações de estresse. É introdu-
cionais de câncer. Estudos desenvolvidos por Spiegel (1989), ao longo de zida a noção de que existem recursos que podem auxiliar a li dar com
dez an os, na Universidade de St  an ford, demonstraram que mulheres por-
22 2  Mo rt e e desenvolvimento humano  Atendimento psicossocial a paciente de câncer... 22 3 

situações de vida de forma eficaz, de m an eira que o indivíduo não se longo da vida, mesmo tendo se tornado inadequados. Este trabalho é
sinta fracassado e deprimido. E conduzida uma primeira experiência de seguido por um outro complementar a que chamam os de  "Escultura F a-
relaxamento e a visualização em que é demonstrada a possibilidade de se miliar", já que usamos como técnica expressiva a escultura com massa de
conseguir uma resposta orgânica, evidenci an do a inter-relação men- modelar. Visa identificar modelos desenvolvidos na relação do indíviduo
te/corpo. A seguir, é proposta a visualização do sistema imunológico em com sua família de origem e de como estes modelos podem estar sendo
ação, em caso de câncer, e depois se usam técnicas expressivas (dese- atualizados com a família atual, levando a relacionamentos inadequados.
nho) para que se evidenciem conteúdos inconscientes. Os p articipantes
são divididos em subgrupos, sendo então trabalhadas as crenças a res- A sexta sessão é dedicada ao trabalho com fantasias de morte. Também
peito do câncer e dos tratamentos. aqui usamos técnicas de relaxamento e visualização. Sugerimos aos pa-
cientes que visualizem a situação de sua própria m orte e a possibilidade
Iniciamos a segunda sessão com um relaxamento e introspecção, para que do renascer, construindo então uma nova vida. Com o em outras ativida-
os particip a n tes possam fazer contato com os conteúdos de seu mundo in- des, o grupo é dividido em subgrup os nos quais os comentários emergidos
terno. A seguir passamos a um processo de c ompartilhamento das vivências são processados. O objetivo visado, como já mencionamos anteriormente,
que os participantes tiveram, e que sintam necessidade de serem trabalha- é permitir ao paciente uma revisão de fantasias e emoções em relação à
das. Usamos para isso todo o período da manhã. No período da tarde morte, bem como, o restabelecimento de prioridades para a sua vida. A
retomamos o p rocesso de relaxamento e visualização e voltamos a trabalhar sétima sessão inicia-se como as dem ais sendo que no final da manhã vol-
mais detalhadamente imagens relacionadas ao sistema imunológico, us  a n do ta-se ao tema da segunda sessão, ou seja, o trabalho com o sistema imu-
também algumas técnicas psicodramáticas que reforçam o trabalho. O gru- nológico. Nos subgrupos o trabalho é orientado no sentido de se verifica-
po de participantes é dividido em outros menores, coordenados por moni- rem as mudanças de crenças e expectativas a respeito do câncer e dos
tores, para que seja possível um aprofundamento maior do trabalho. tratamentos que ocorreram no decorrer do trabalho. À tarde trabalhamos
com os participantes do grupo o estabelecimento de metas de vida. São
A terceira sessão inicia-se como a anterior: relaxamento, introspecção e sugeridas metas de trabalho, de relacionamento, de exercícios físicos e,
partilhamento. Ao final da manhã, trabalhamos o tema: "Formas de Con- por fim, metas de prazer. Pedimos aos pacientes que se comprometam
tribuição para o Adoecer" e no período da tarde trabalhamos "Ganhos com as metas que eles estabeleceram e que de fato tentem cumpri-las.
Secundários da Doença". Estes assuntos devem ser preferencialmente Metas factíveis e cumpridas com sucesso ajudam os pacientes a melhora-
conduzidos por um monitor que seja um ex-paciente de câncer. rem sua autoconfiança e auto-estima.
A quarta sessão é inteiramente dedicada a trabalho corporal. Usamos A oitava sessão é conduzida, em seu período da manhã, de modo que os
como instrumento de trabalho a técnica "Radix". "Radix " é uma técnica participantes estabeleçam seus p róprios roteiros de relaxamento e visuali-
que descende da terapia reichiana. Consiste em exercícios que permitem zação e, no período da tarde, é desenvolvido um trab alho com técnicas de
a diluição de couraças, facilitando a liberação e conseqüente conscienti- comunicação inter-pessoal.
zação de emoções.
A nona sessão é dedicada ao encerramento do trabalho.
A quinta sessão, também a exemplo das outras, inicia-se com um relaxa-
mento, introspecção e partilhamento. A seguir trabalhamos o tema a que Ao longo do trabalho nossos pacientes podem ter com os outros monito-
chamamos de "Decisões de Infância". É um trabalho que visa colocar o res algumas entrevistas individuais. Recebem ainda três sessões de massa-
paciente, através de técnicas de relaxamento e visualização, em contato gem terapêutica, que podem ajudar os participantes a ter um contato
com experiências de sua infância e que foram significativas no estabeleci- maior com seu corpo, estabelecendo maior intimidade e conhecimento de
mento de padrões de comportamento que permaneceram presentes ao suas necessidades.
2 2 4  Morte e desenvolvimento humano  Atendimento psicossocial a pacientes de cân cer... 2 2 5 

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Profissionais de saúde diante da mo rt e  22 7 

morrendo, e a ambivalência entre tentar ainda uma medida heróica e a


Capítulo 13 raiva do fracasso, como afirma Hagglund (1981 ).
Segundo Clarke (1981), defesas contra processos contratransferenciais
podem ser despertadas, tais como: negação, falso otimismo, superprote-
ção e intelectualização, que vão interferir profundamente na relação pro-
PROFISSIONAIS DE SAÚDE
fissional/paciente.
DIANTE DA MORTE
Byington (1979) nos traz uma belíssima imagem arquetípica do m édico.
 Tr at a- se do C en ta ur o Q uí ro n fe rid o m or ta lm en te , m as qu e é o m es tr e n a
arte da cura. A ferida do Centauro é uma imagem arquetípica gr ega pre-
Maria Júlia Kovács
cursora da ciência médica e que representa o conhecimento da doença
ligado à participação existencial do médico através do seu próprio sofri-
mento como pessoa. A dor e a sombra estão na imagem primordial do
médico o que exp lica o lema: "médico, cura-te a ti mesmo".
A diferença básica entre as pessoas em geral e os profissionais da área de
saúde, médicos, enfermeiras e psicólogos é que na vida destes, a m orte A onipotência médica pode estar ligada à fase patriarca l, onde se constela
faz parte do cotidiano e pode se tornar sua companheira de trabalho uma imagem do pai salvador e o médico se coloca como o herói poderoso
diária. Toda doença é uma ameaça à vida e, portanto, pode aparecer diante do arquétipo da morte. O m édico tornou-se o senhor da vida e da
como um aceno à morte. morte. Não raro vemos médicos que p erderam o discernimento, tentando
medidas quixotescas quando a morte já venceu a batalha. Como vimos no
O que faria um estudante escolher a medicina como área de realização capítulo 3, Ziegler (1977) faz uma análise deste poder da medicina no
profissional? Feifel (1967), após pesquisa com médicos, estudantes de Ocidente. Os m édicos tornam-se os donos do processo de vida e morte
medicina, pacientes e indivíduos sadios, verificou que os médicos têm um das pessoas, transformando-se no que o autor chamou de tanatocratas.
medo maior da m orte e que poderiam estar busc  a n do, na sua futura pro-  Tomam decisõe s sem con sultar o pacien te e a fa mília, ex acerba ndo sua
fissão, uma forma de controle e domínio sobre ela. Uma das formas mais função. Sem dúvida, é uma colocação mu ito verdadeira, mas temos a cer-
usadas pelo profissional é a formação reativa, a conquista da doença, o teza de que essa mentalidade está sendo revertida e muitos dos jovens
desafio da morte e a tentativa de tomar medidas heróicas para salvar o médicos já têm uma dimensão diferente do seu ofício.
paciente a todo custo. Se o paciente morre, o narcisismo do m édico fica
ferido e isto faz com que, em algumas situações, o cuidado com o pacien- Conforme a especialidade escolhida pelo médico os sentimentos e as ex-
te gr ave fique relegado a outras pessoas, normalmente às enfermeiras.
pectativas são diferentes. Uma unidade de cardíacos exige medidas rápi-
Segundo autores como Brim (1960), o médico algumas vezes não se per- das e heróicas e a m orte pode ser uma terrível surpresa. Numa unidade
mite conhecer os seus sentimentos em relação à morte, entre os quais: a de pacientes com câncer, onde a morte é lenta e muitas vezes sofrida,
impotência, a culpa e a ra iva. A impotência foi associada à p erda dos quando ocorre pode ser vista como alívio. O médico oscila entre a sensa-
pacientes, a culpa com o fato de enganá -los e a raiva como decorrência ção de tudo poder e a frustração de nada poder fazer di  a n te dos imprevi-
das duas anteriores. O profissional de saúde pode reexperimentar medos síveis processos biológicos.
infantis de separação, abandono e o medo da sua própria mortalidade. O primeiro encontro do estudante de medicina com a morte é na aula de
anatomia, o que pode ser muito sofrido. Como a dem onstração de senti-
O afastamento do paciente e a delegação de funções podem estar relacio-
mentos não é possível, é freqüente o uso de recursos contrafóbicos, como
nados a problemas contratransferenciais diante do indivíduo que está
22 8 
Morte e desenvolvimento humano  Profissionais de saúde diante da mo rt e  22 9 

fazer piadinha s, gozação, ou ficar indiferente, como descreve Concone O caráter funcionalista da instituição prevê que determ inadas tarefas têm
(1983). 0 primeiro passo é tirar qualquer identidade hum an a do cadáver, de ser cumpridas e registradas e o pessoal de enfermagem precisa adap-
pois pensar que ali havia um ser hum an o e que a vida é transitória, pode tar-se a elas. Observou que qu ando é feita a escala das enfermeiras há um
ser muito angusti a n te. Para o estud a n te de medicina, desvendar os segre-
temor muito gr ande de ficar responsável por um paciente terminal, há
dos do corpo, seu funcionamento e recuperação são os grandes desafios, tentativas de modificação da escala.
sendo o maior deles adiar e controlar a morte.
 Te nd o a ab or da ge m fe no m en oló gic a co mo a su a fu nd am en ta çã o, a au tor a
No treinamento do pessoal da á rea médica ocorre um a dessensibilização se questiona no seu pa pel de profissional de saúde, sentindo-o incompleto
dos elementos que possam evocar a morte. As pessoas são transformadas se não pensar na importância a ser dada no período que an tecede a mor-
em órgãos, ossos, s an gue, numa reação contrafóbica, represent  a n do uma
te. Desde 1983 começou a abordagem do tem a da morte e o relaciona-
atitude vitoriosa e de domínio. E enfatizada a objetividade científica, o mento com o p aciente terminal em uma unidade dos programas de  disci-
controle sobre a doença, e o paciente vira um nú mero. O m edo da morte
plinas do curso de enfermagem. No seu tr abalho em muitos pontos seme-
se torna uma questão intelectual.
lhante ao de Kubler-Ross, como mencionamos no capítulo anterior, a au-
tora se dedicou a escutar os pacientes em suas falas, em sua forma de ser
A função da enfermeira, segundo Quint Benoliel (1972), é de assistir o
doente, promover a sua recuperação e ajudá-lo a fazer o que não tem no mundo, buscando responder às seguintes questões: o que é ser um 
 paciente terminal? O que é es tar vivenci ando a fini tude próxi ma? O que é 
condições de realizar só. A relação paciente/enfermeira é fundamen tal.
Muitas vezes, a enfermeira é a pessoa mais próxima ao doente, que cuida conviver com a idéia de m orte iminente? O que é estar morrendo? 
de suas necessidades básicas e que melhor o conhece como pessoa. Está
subordinada ao médico a quem compete tomar as decisões mais cruciais, E como fica o psicólogo diante da questão da morte? Hoje em dia este
e à enfermeira cabe colocá-las em prática, mesmo que tenham opiniões problema vem se tornando m uito importante para o p sicólogo, que está
divergentes a respeito. sendo chamado para trabalhar em hospitais, clínicas, com pacientes por-
tadores de doenças gr aves e também com suicidas. Pouco se tem escrito
 Tr at ar de pa ci en tes te rm ina is, m an tê- los lim po s, co nf or tá ve is e s em do r é sobre este profissional diante da questão da morte. O que nã o de ix a de
uma das tarefas mais difíceis como, vimos. No curso de enfermagem tam- ser um paradoxo, porque se a morte é uma preocupação universal do
bém são mais enfatizad os os aspectos técnicos e práticos da função de homem, e a psicologia estuda a relação do homem com o mundo, então a
enfermagem. Há pouca ênfase em questões ligadas à emoção. A enfer- morte deveria ser área de preocupação primordial da psicologia, como
meira é quem está próxima nos m omentos mais difíceis, é quem o pacien- campo de estudo e c omo prática profissional.
te busca para conversar sobre os seus temores, ou quando está m orrendo.
E a enfermeira também que está ma is próxima à família, tendo de lidar Kastenbaum e Costa (1977) fizeram um lev  a n tamento das principais áreas
com os sentimentos dos parentes, as dúvidas, angústias, temores e quando de pesquisa vinculadas ao tema da morte, dentre as quais podem ser
o paciente falece é quem toma as p rimeiras providências. citadas as seguintes: desenvolvimento cognitivo emocional e atitudes dian-
te da morte, morte ligada ao comportamento e ao estilo de vida, suicídio,
Boemer (1986) realizou um estudo sobre o que d enominou a faticidade processos de morrer, luto, perda e tristeza. Resta saber de que forma
do paciente definido como terminal, e como enfeum eira tem uma convi- podemos relacionar o trabalho do psicólogo com a questão da morte. No
vência muito forte com estas pessoas. A autora fala das práticas da enfer- capítulo 4 no livro Da mo rt e: estudos brasileiros (1991), tentamos fazer
magem envolvendo cuidados com a higiene, hidratação, medicação. En- uma sistematização destes pontos. E inegável que a morte faz parte do
tretanto, ressalta que estas práticas se tornam rotineiras, mantendo-se cotidiano do ser humano, quer por atração, repulsa, curiosidade ou ter-
iguais dur an te vários dias, sem alterações significativas em seu conteúdo.
ror. Como vimos, pode estar na gênese de vários quadros neuróticos ou
Profissionais de saúde diante da morte  2 31
23 0  Morte e desenvolvimento humano 

psicóticos e aparecer sob as mais variadas formas, como medo da castra- dade, medo ou dor. Essas crises mantêm uma an alogia com a morte, pelo
ção, fobias ou ansiedades de separação entre outras. seu fator de desconhecimento.

O psicólogo pode se de fr ontar com a questão da mo rt e em qualquer situação O tr abalho com idosos é ou tr a moda li dade de ação para o psicólogo. Esse
de tr abalho, até naquelas onde nem se imagina ria. Na escola, por exemplo, g ru po caracteriza-se por estar cronologicamente mais próximo da mo rt e físi-
pode estar com uma criança, que acabou de perder seu animal de estimação ca e, talvez, para alguns idosos conversar sobre o tema da m o  rt e seja vital.
ou alguém da família. O psicólogo indust ri al também entra em contato com Mas para ou tr os, é justamente sobre a vida que querem falar. E import  an te
várias situações de "morte" no tr abalho, desde o falecimento de colegas ou lembrar que a velhice é um a fase do desenvolvimento e como tal tem as
s u p e riores, acidentes dos mais va ri ados tipos, configur a n do processos aut o-
expectativas e desafios inerentes a este período e trabalhar estas questões, o
destrutivos crônicos como vimos no capítulo dez até situações de perda ou aprofundamento de ce rt as relações, a revisão da vida, a busca do significado
mu d a n ça de emprego, muitas vezes vividas como mortes. e xi stencial podem ser os temas da terapia. Atua lmente, nota-se um gr  a n de
movimento no sentido de prop or psicoterapia a pessoas mais idosas.
Esta ligação parece ser m ais evidente no trabalho clínico, quer institucio-
Um novo campo de trabalho está se abrindo para o psicólogo dentro dos
nal, quer em consultório particular. Será qu e os psicólogos estão atentos a
hospitais não só na á rea da psiquiatria, mas também em outras, fazendo
sinais que indicam o início de processos m órbidos, autodestrutivos muitas
parte das equipes multidisciplinares de saúde em campos como a oncolo-
vezes inconscientes para o paciente e que resultam em doenças psicosso-
gia, cardiologia, nefrologia, ortopedia, só para citar alguns. Seu trabalho
máticas? Ansiedades e fobias podem levar a uma paralisação, que seria
pode constar de acompanhamento pré e p ós-operatório, trabalho com os
quase uma morte em vida.
familiares e atendimento a pacientes terminais, além da possibi lidade de
A intencionalidade da ação autodestrutiva, a princípio latente, pode em orientação e apoio à equipe médica e de enfermagem no que concerne a
algumas situações transformar-se num processo mais explícito, como evi- questões de saúde mental.
denciado pelo grande número de tentativas de suicídio e também por Como aponta C amon (1984), o trabalho do psicólogo no contexto hospi-
ações letais, como dirigir perigosamente ou se into xi car com álcool e dro- talar ainda é polêmico, muitos tentam adaptar modelos de atuação em
gas. Estes indícios podem vir camuflados por outras queixas e é necessá- consultório particular nos hospitais, o que causa problemas. Em seu li vr o
rio que sejam percebidos e apontados desde o início do processo terapêu- relata experiências de psicologia em unidades de pediatria, ortopedia,
tico, quando a ação psicológica pode ser ma is efetiva. UTI, com pacientes mastectomizadas, com pacientes que tentaram suicí-
dio e no man icômio judiciário. Trata-se de u m livro que nos oferece a
Outra questão freqüentemente perturbadora é a perda de pessoas signifi-
possibilidade de refletir sobre a prática d estes psicólogos pioneiros em
cativas, a sepa ração, o abandono e o luto. Outros processos podem ser
uma área ainda em expando no Brasil.
vividos no cotidiano como perdas: são os processos de mudança de casa,
relacionamentos novos, rompimento com os antigos, alterações de empre- O trabalho do psicólogo é minimizar o sofrimento ligado à hospitalização
go. Estes podem, às vezes, ser sentidos como pequenas m ortes, pois im- e, por isso, ainda nos surpreende o fato de m uitos hospitais se recusarem
plicam na perda de uma situação antiga conhecida, e na passagem para a ter p sicólogos em seu quadro de profissionais, aleg a n do problemas fi-
uma etapa nova desconhecida, sendo evidenciadas em momentos críticos nanceiros; acreditamos, no entanto, não ser esta a única razão.
da vida como, por exemplo: adolescência, casamento, maternidade, pater-
nidade, aposentadoria. Cada um deles tem suas características peculiares, Gostaríamos, neste momento, de retomar um projeto de lei defendido
mas estes processos podem vir acom panhados de m uito sofrimento, pois pelo sr. Mário Hato, em 1984, que propunha a regulamentação da contra-
representam a perda de um ponto conhecido e o lançamento em direção tação de psicólogos em instituições de saúd e, escolares e hospitalares.
a uma etapa nova, na qual o desconhecido se faz presente, surgindo ansie- Esse projeto não foi aprovado, entretanto, resolvemos relembrá- lo pois
233
Profissionais de saúde diante da morte 
23 2  
M o
rteede
senv
olvime
n t
o humano
 
dros, e a experiência tem se mostrado muito válida, como atestam depoi-
contém import an tes reflexões sobre o trabalho do psicólogo em hosp itais. mentos de pac ientes, artigos e pesquisas realizadas em hospitais.
O projeto propõe que hospitais, casas de saúde e outros estabelecimentos
da mesma natureza, que funcionam sob regime de internação de pacien- Mas estarão os psicólogos dispostos e preparados para tr abalhar neste con-
tes, fiquem obrigados a contratar e m a n ter psicólogos clínicos no quadro texto? Com o vimos, não é possível simplesmente tr ansplantar uma experiên-
de profissionais, que atuam na área de saúde, na proporção de um psicó- cia de consultório p ri vado, para hospitais. Ainda não há uma sistematização
exões já são possí-
logo para cada 25 pacientes. Estes psicólogos deverão atuar na sua área sobre esta nova área de tr abalho, entret an to, algumas re fl
abalho com pac ientes portadores
de competência, junto aos doentes que demandam abordagem p sicológica veis, p ri ncipalmente no que concerne ao tr
para a solução de seus problemas de ajustamento, colaborando em assun- de doenças graves, os assim chamados pacientes terminais.
tos psicológicos ligados a outras ciências e integr an do as equipes m ulti-
disciplinares de saú de que se constituírem em hospitais.  Torre s e G ued es (1 987) el abora ram um a rtigo e m qu e tec em r eflexõ es
sobre o psicólogo e a questão da terminalidad e. O primeiro ponto a ser
A justificativa para este projeto envolve a necessidade da presença do considerado para quem vai trabalhar com pacientes terminais, é o de
psicólogo nos hospitais, considerando-se a sua atuação indispensável para caminhar em direção ao medo em relação à morte e o morrer. Assim
uma abordagem total do indivíduo, que enquanto está doente vivencia, como ocorre com outros profissionais de sa úde, é uma tarefa difícil de-
nesta situação de debilidade física, uma nova e traumatizante experiência frontar-se com a própria negação, para aí poder entender a da instituição
que é a internação hospitalar. Sem considerar o sofrimento físico provo- de saúde e a do pa ciente. Essa negação pode m anifestar-se no silêncio ou
cádo pela disfunção orgânica, a internação hospitalar já significa, em si, na omissão ante a questão da morte.
uma quebra na rotina cotidiana do paciente e na acomodação ao estilo de
vida que escolheu para si. Há uma mudança de hábitos, uma série de Segundo as autoras, trabalhar c om o sofrimento ou a perda de significado
intervenções e exames que o magoam, m achucam e invadem a sua priva- da existência pelo paciente, pode despertar no profissional as mesmas
cidade e nem sempre respeitam a sua dignidade, como mencionamos, no vivências, ferindo o seu narcisismo, e a sua onipotência, colocando-o dian-
capítulo onze. Isto pode gerar uma sensação de dependência, limitação e te do incompleto e do não-terminado.
i mpotência, levando a conflitos psicológicos intensos, que somente um O trabalho com pacientes terminais, pode se desenvolver numa linha de
profissional especializado pode prever, diagnosticar, indicar terapia ade-
quada, com reais possibilidades de transformar o trauma hospitalar numa apoio em situação de crise, ou configur  a n do-se como um processo psico-
terápico onde se busca autoconhecimento, insight, e em que algumas de-
experiência positiva de reflexão sobre a vida e de equilíbrio íntimo em
fesas são mais trabalhadas. Existem algumas peculiaridades, como vimos
relação às agressões externas, permitindo ao indivíduo a assimilação de
no capítulo onze, que requerem flexibilidade por parte do psicólogo,
seu estado em sua atual circunstância de doente. terapêutico, que além do consultório pode envolver o do-
como o setting
micílio e o hospital, com recursos nem sempre adequados. A regularidade
O autor do projeto fala então de uma coerção aos hospitais para que das sessões pode ser alterada, sessões são susp ensas por conta de inter-
contratem psicólogos, apontando a insensibilidade de algumas instituições venções cirúrgicas ou pela impossibilidade física do paciente. Outras ve-
quanto a estas questões ligadas à influência da psique sobre a gênese e zes, é necessária uma assiduidade maior, sessões mais longas, sessões
desenvolvimento de quadros orgânicos. não-verbais, onde é necessária a presença física, segurando as mãos do
paciente. Não há re gr as fixas, nem procedimentos específicos nesta situa-
Não acreditamos que se devesse coagir os hospitais a contratarem psicó- ção. Muitas vezes, o psicólogo tem de presenciar manifestações de sofri-
logos, mas concordamos inteiramente que esta deveria ser uma obrigação mento físico, a que não está acostumado. Será que ele agüenta tantas
moral das instituições de saúde, p or tudo que foi apontado até aqui. Sa- incertezas, descer da onipotência das suas interpretações, do seu saber
bemos que várias instituições hospitalares já têm psicólogos em seus qua-
23 4  Morte e desenvolvimento humano  Pr o fissionais de saúde diante da morte 
23 5 

sobre o subjetivo do outro, e aceitar um contato que se faz no mom ento Cursos sobre a Morte e o Morrer
da relação, envolvendo inclusive uma pro xi midade física e pessoal?
O psicólogo neste caso tem de desenvolver o seu poder de escuta, perce- Em minha tese de doutorado (1989) fiz uma análise e uma reflexão sobre
ber as necessidades do outro, tornar-se disponível para esse contato tão cursos que tratam da questão da m orte, arrol a n do as experiências inter-
nacionais a que tive acesso. Elaborei uma síntese das idéias principais
íntimo. Os médicos se escoram nos exa mes, nos instrumentos na tecnolo-
gia e na farmacologia, o psicólogo se escora na sua "tecnologia", suas sobre estes cursos no ca pítulo 4, do livro Da mo rt e: estudos b rasileiros 
interpretações psicólogicas sobre o viver do outro. Devemos verificar se o (1991), no capítulo 4 do qual reproduziremos alguns trechos.
"psi" não entra como defesa contra um contato profundo com o paciente, Os cursos de educação para a m orte, com os mais variados tipos de mate-
que neste momento está tão necessitado de ajuda. riais e programas, são oferecidos nos EUA, envolvendo todos os níveis de
Será que o não-espaço do psicólogo em algumas instituições hospitalares, escolaridade, inclusive para crianças.
também não estaria relacionado a uma certa ineficiência deste profissio- A expectativa destes cursos, segundo Leviton (1977), era diminuir o medo
nal, numa área nova de trabalho que está se abrindo? Será que os cursos
da morte e levar a uma faci li tação e preparação para o processo de m or-
de formação de psicologia têm estado atentos a estas novas áreas de tra- rer. Esta expecta tiva parece ser exagera da, pois é muito difícil atingir este
balho do p sicólogo?
objetivo com um cur so. Por outro lado, havia o temor de que um curso
deste tipo poderia induzir as pessoas ao suicídio ou a uma predisposição
Verificamos que o currículo mínim o obrigatório de psicologia não sofre
para morrer. Estes pensamentos parecem má gicos ou onipotentes e, em-
alterações há vinte a n os, apesar de terem ocorrido grandes modificações
bora se saiba que se um aluno tenta suicídio depois de freqüentar um
em nossa sociedade. Em discussões sobre esse fato, têm surgido idéias
curso sobre a m orte e o m orrer, inevitavelmente a relação entre o curso e
interess a n tes na forma de empreender mudanças envolvendo alunos, pro-
o suicídio será feita, mas terá um curso o poder de decidir a questão de
fessores e a própria comunidade. Seria a c onstrução da psicologia a partir
da ação dos profissionais em contato com a realidade. vida e morte de uma pessoa?

Parece-nos que neste momento de reflexão e eventual amp liação do currí- O períodico Omega Journal of Death and Dying, 1975, 6 (3) traz um
histórico sobre este tipo de cursos nos EUA desde a década de 60. F un-
culo, a inserção do tema da morte, em suas várias abordagens e instân-
damentei-me neste periódico e em outros artigos mais recentes para tra-
cias, poderia ser pensada, incluindo módulos interdisciplinares e uma di-
çar alguns pontos que nortearam a criação de um espaço para a discussão
versidade de abordagens para perceber e compreender fenômenos psico-
lógicos, principalmente diante de um tema tão complexo e abr an gente
do tema da morte na graduação, em psicologia.
como é a questão da morte. Um programa de psicologia que tenha um Alguns artigos descrevem propostas de cursos, outros avaliam seus efei-
leque de opções sobre os m ais variados assuntos permite que os alunos tos, há sugestões de metodologias e estratégias, ligadas às necessidades
busquem as disciplinas de acordo com os seus interesses. E neste sentido dos alunos que buscam esses cursos.
que se pensou na inclusão do tema da morte como opção para o aluno. E
indiscutível, como já foi visto, a importância do estudo desta questão pela Os artigos de Leviton, Bluestein e Doka (1975) apontam entre os principais
psicologia, mas o envolvimento e a busca de um maior aprofundamento é motivos de escolha dos cursos sobre a m orte os seguintes: cu ri osidade, bus-
uma opção, assim como foi a escolha da psicologia como saber e profis- ca da compreensão da morte do ponto de vista pessoal, ajuda para lidar
são. Como conjeturamos a escolha da psicologia na busca de autoconhe- com pessoas di an te da morte e preparação para enfrentá-la. Autores como
cimento pode envolver, mesmo que de forma subliminar, uma busca de Leviton, Bell e Bloom (1975), Whel a n  e Warren (1980 /81) e Cook e ou tr os
compreensão e reflexões sobre a questão da finitude, portanto, da morte. (1984/ 85) procurara m estudar os efeitos deste tipo de curso e verificaram
236  
M orteedesenvolviment
o humano 
Profissionais de saúd e diante da morte  23 7
que alguns enfatizam aspectos cognitivos, como uma maior sistematização  ;
Neste capítulo farei apenas um breve apanhado das idéias principais que
de idéias e pensamentos sobre a m orte e um maior interesse em leituras
nortearam o início do curso, para maiores detalhes remeto o leitor às
sobre o assunto. Qu a n to aos aspectos emocionais e atitudinais, mudou a I
duas obras já citadas neste capítulo.
forma de encarar a m orte, de lidar com os m edos pessoais, no ent a n to as
maiores influências observadas foram nos aspectos cognitivos. Entre os objetivos do curso estão os seguintes:

No Brasil ainda não temos um a sistematização tão clara. Uma das iniciati- 1. Apresentar teorias psicológicas, que trazem a questão da morte com o
vas mais profícuas em nosso m eio foi a criação do curso de Tanatologia, objeto de estudo. No caso de nosso curso escolhemos a psicanálise, a
coordenado pelas psicólogas Wilma da C osta Torres, Wanda Gurgel Gue- abordagem analítica de Jung e a abordagem fenomenológico-existencial
des, Terezinha Ebert e Ruth da Costa Torres, no Rio de Janeiro. Estas de Heidegger, para ilustrar concepções bastante diversas do homem em
psicólogas também coordenaram um simpósio sobre a psicologia e a mor- face da morte.
te, em 19 80, no Instituto Superior de Estudos e Pesquisas Psicossociais,
onde profissionais de diversas áreas debateram vários temas como: edu- 2. Possibilitar a sensibilização e a escu ta dos processos internos per  a n te a
cação e morte, suicídio, velhice e morte, doentes terminais, a morte no morte. Supomos que o aluno, ao escolher este tipo de curso deseje cons-
contexto hospitalar. Houve também sessões de trocas de experiências. O ciente ou inconscientemente aprofundar o tema. São criadas condições
relato deste evento está contido num livro denominado Psicologia e morte  para favorecer esse mergulho interno e ver como ecoam internamente
(1984). Além deste relato o livro contém uma vasta bibliografia sobre o certos temas, como por exemplo: a morte, o luto, o suicídio, o ser porta-
tema. Supomos que na imensidade de nosso país certamente existem ou- dor de um a doença incurável, entre outros. Os alunos não estão vivendo
tras experiências das quais ainda não tomam os conhecimento. esta experiência neste momento, mas sim a possibilidade de se transpor-
tar para esta vivência e tentar escutar os seus próprios sentimentos sem
restrições ou críticas a  p ri o ri , compartilhar com os colegas, ouvir os senti-
A partir da constatação da existência de poucas experiências deste tipo, mentos deles e também escutar sem censura. Este poder escutar-se e
em nosso país, e dada a importância da questão da morte para a forma-
escutar o outro é fundamental na prática psicológica com pessoas em
ção do psicólogo, como vimos, surgiu a idéia de oferecer um curso sobre crise, como as que tentam suicídio ou falam sobre o seu desejo de morrer;
o assunto na graduação em psicologia, na Universidade de São Paulo, idéias que num primeiro momento podem parecer absurdas, mas que
cuja experiência relatarei a seguir. necessitam de um ouvinte atento, de um a atmosfera de acolhimento.

Decidi-me pela criação de um a disciplina optativa, a ser inserida no currí- Ca be  ressaltar que, embora estejamos lidando com sentimentos e situações
culo de psicologia da referida universidade. Cabe c omentar que o tema é às vezes tr istes, tensas ou conflitivas, procuramos manter o enquadre peda-
obrigatório na formação do psicólogo, por tudo que foi discutido neste gógico. Em hipótese alguma é feita uma sessão psicoterápica em aula. Se o
livro, entret a n to, o envolvimento pessoal de cada um diante dele é uma aluno pede ajuda, procuramos encaminhá-lo a um trabalho psicoterápico
escolha também individual. Embora este curso possa ser interess an te em fora do curso. Misturar estes dois c  an ais pode ser extremamente pe rigoso.
qualquer área de saúde, ele foi introduzido na graduação em psicologia,
por eu ser professora nessa unidade. 3. Refletir sobre a ação do psicólogo em situações envolvendo a questão
da morte. São convidados especialistas para falarem de sua experiência e
oferecerem subsídios para uma discussão sobre a prática psicológica. Ém
A disciplina foi oferecida pela primeira vez em 1986, e a partir dessa data -  yi ng ,  para que o aluno se
outras ocasiões, é usada a técnica de  role  pla
consta no rol de optativas do Instituto de Psicologia da US P, com o nome coloque em situações que poderá enfrentar como profissional, com o in-
de Psicologia da Morte. tuito de poder vivenciar e depois refletir sobre a sua ação p erante pessoas
23 8  Mo rt e e desenvolvimento humano 
Profissionais de saúde diante da mo rt e  23 9 
enlutadas, ou pacientes com doenças graves. Não se pretende oferecer
quente o atraso na sua entrega e a ex pectativa em relação à avaliação, c
estágios, nem dar treinamento e formas de ação predeterm inadas.
que demonstra que é impossível não se envolver com um tema destes.
O programa do cu rso é o que compõe este li vro, ou seja, os seus capítulos. Os alunos que optam por este curso estão normalmente no 5  período por
4

Depois desses a n os de prática, procurei ouvir as necessidades dos alunos e um dado circunst a n cial da psicologia da USP, ou seja, são os que têm a
tenciono in tr oduzir ou tr os temas, que podem ser interess an tes, como a disponibilidade de freqüentar o curso. Os alunos dos outros an os já estão
questão da morte nas artes, a questão religiosa ou uma experiência de tra- sobrecarregados com disciplinas de estágio. E o requisito de terem cursa-
balho hospitalar com crianças ou pacientes po rt adores de aids. Os capítulos do certas disciplinas imped e os alunos dos dois primeiros a n os de fre-
são os temas das aulas, onde são usadas as mais diversas estratégias como qüentarem o curso. Limitamos as vagas em 20 , para poder trabalhar mais
aulas expositivas, discussões em pequenos grupos, dramatizações, role-  intensamente com cada aluno.
 pla yi ng , discussão de filmes, li vros e peças de teatro. Concordo com Bleger
(1980) qu e a aprendizagem efetiva envolve o pensar, implic  a n do numa aber- Os estud an tes têm por volta de 19 a 25 anos na sua maioria, embora
tura de possibilidades e a necessidade de repensar estereótipos. alunos mais velhos já tenham freqüentado do curso; 80% dos alunos são
do sexo feminino e 20% do sexo masculino; 50% se declararam católicos
Obviamente, este é um curso q ue demanda envolvimento, lidar com um e 70% destes, praticantes; 31% se apresentaram como não-religiosos.
tema tão complexo, cheio de meandros e carregado de mat izes emocio-
nais não autoriza uma indiferença, e as estratégias do curso envolvem Acredita-se ser esta um a amostra representativa do curso de p sicologia
uma facilitação para este envolvimento. Por outro lado, acreditamos que de uma forma geral.
um c urso se constrói na relação professor-aluno, port a n to, os alunos são
chamados constantemente para que se engajem com os temas das aulas e Embora seja uma am ostra bastante homogênea, apresenta diversas repre-
com a construção do curso. sentações de morte entre as quais: morte como perda, morte como fim ou
transição, morte como parte da vida, morte como medo, morte como
Um ponto de angústia é a bibliografia cada vez mais extensa sobre o fascínio, morte é sempre a morte do outro, m orte como sono ou descanso,
tema, envolvendo várias abordagens. São diversas ciências que se preocu- sendo estas que apareceram com maior freqüência.
pam com o assunto, além da psicologia, como a a n tropologia, sociologia,
filosofia, teologia, biologia, medicina só para citar algumas. Tem os tido Quanto aos motivos de escolha do curso encontrei:
acesso a algumas obras, que recomendamos aos alunos, entret an to, o
1. Busca da compreensão da morte: aparece a necessidade de pensar e
tema é inesgotável. Esta publicação é o resultado de um sonho ac alentado
refletir sobre ela e preponderância da razão sobre a em oção. Pude obser-
de ter um tipo de livro-texto para o curso, que como tal é limitado e
var que, para alguns, pensar, estudar teoricamente, pode refletir uma ne-
simples, mas talvez seja uma tentativa de resposta ao pedido constante
dos alunos de uma bibliografia básica. cessidade de distanciamento do confronto pessoal com a morte.  Este  foi o
motivo mais freqüentemente apontado, para configurar a morte como um
objeto de estudo.
Outro grande temor dos estudantes relaciona-se com a sua avaliação,
Este curso, por razões ób vias, não tem provas, portanto, o prim eiro alívio 2. Buscade familiarização com u m assunto con siderado tabu: aponta se -

 já ocorre u, ma s, a a ngús tia p erma nece p orque t erão de apre senta r um  '
a necessidade de preencher uma lacuna que o interdito da morte em
trabalho individual por escrito, cuja simples entrega já ga r an te a aprova- nossa sociedade provoca, ou seja, debater, discutir esse tema. E apontada
ção. No entanto, a experiência tem demonstrado que mesmo esse pedido a necessidade de resgatar o tema e a p ossibilidade de encontrar interlocu-
 li be ral acaba sendo extremamente envolvente para os alunos, e é fre-
tores para esse diálogo. Procura de um tempo e um espa ço legitimados
24 1
Profissionais de saúde diante da mo rt e 

d. Ganhou importância para a formação do psicólogo.


para discutir a morte no seu curso, pois se ela é um interdito para a
sociedade, não pode ser para o psicólogo. e. A abrangênc ia dos temas possibilitou a abertura de novos caminhos.
3. Busca de autoconhecimento: este aspecto foi ligado com o fato de se f.
As estratégias de aula favoreceram a construção do curso em conjunto.
considerar a morte como u m "tabu interno". Esse interdito pode levar a o
que foi chamado de "pontos cegos", por alguns, aspectos inconscientes, Como pontos negativos, foram arrolados os seguintes:
que podem interferir na relação. Não pensar na próp ria morte foi consi-
O curso teve uma abordag em superficial, sem aprofundamento e con-
derada uma qu estão importante, para ser aprofundada durante o curso. a.
Em outros relatos foi apontado que só é possível ajudar o outro se houver clusões, os assuntos não foram amarrados.
o autoconhecimento.
b. Foi gasto um tempo excessivo com relatos pessoais.
4. Busca de instrumentalização de um a práxis: nestes relatos há um pedi- a propiciar uma abordagem mais prática, dar mais conhe-
do explícito de como lidar com pessoas durante a m orte, principalmente c.  O curso deve ri
cimentos sobre o tr abalho do psicólogo nesta área, oferecendo estágios.
com o "paciente terminal". E solicitada uma forma ma is "adequada, corre-
ta e racional" de ação com estas pessoas, pede-se uma orientação mais Estes pontos conduziram a reflexões, que estão possibilitando modificações.
clínica, e esta solicitação aparece relacionada com a futura prática profis-
sional e também com situações enfrentadas no cotidiano. Creio que esta experiência poderia ser expandida p ara outros cursos de
fundamental para a formação do
psicologia, já que acredito que ela é
E óbvio que pedidos tão diferentes geram também expectativas muito psicólogo no Brasil. Precisamos de pessoas dispostas a criarem cursos
diferentes por parte dos alunos que freqüentam o curso. Pelos objetivos com propostas semelhantes ou até diferentes, mas com o objetivo de sen-
apresentados podemos perceber que há uma tentativa de responder às sibilizar, refletir e discutir sobre o tema da morte. Imagino ser possível
expectativas, certamente não de forma p lena para todos. ampliar este tipo de curso, incluindo outras áreas de saúde como a medi-
cina, enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional e também os cursos
Segundo os alunos, é importante para o psicólogo conhecer fatos sobre a de teologia, com pequenas m odificações. Tenho um outro ideal voltando
morte, pois esta faz parte da vida. A outra razão apontada é que o psicó- para a formação de grupos interdisciplinares de alunos ou profissionais,
logo como ser humano e profissional deve buscar o autoconhecimento,
abordando os mesmos temas. Estes são os meus projetos futuros.
que fundamenta a sua práxis, aliada ao conhecimento de teorias psicoló-
gicas. A área de trab alho mais apontada foi a clínica, e fundamentalmente Quem pode ser o professor deste curso? Qualquer pessoa que queira
o trabalho com pacientes terminais, refletindo ainda um estereótipo de entrar em contato com as qu estões pessoais sobre a morte, que tenha um
que o único trabalho possível nesta área seria com estes pacientes. profundo respeito pelo ser humano, desejo de ler e estudar e que possa

A avaliação do curso depois de seis anos de trabalho permitiu chegar aos tolerar ambigüidades.
seguintes aspectos p ositivos: Esta é parte de minha experiência construída com idéias, pl an os, propos-
tas, mas também com dúvidas, angústias, medos. Não foi fácil introduzir
a. Contato com questões pessoais, mobilizando o lado emocional em este tema no currículo, entretanto, para fina li zar esta obra coerente com
relação a tópicos referentes à questão da morte. gr ande expe-
o que expressei na apresentação deste li vro, está sendo uma
riência de vida, estudar, trabalhar, pensar e escrever sobre a morte. Volto
b. Abriu espaço para um tema pouco debatido.
a enfatizar, não como uma característica mórbida, e sim como uma signi-
c. Proporcionou condições para questionamentos e reflexões.
24 2 
Mo rt e e desenvolvimento humano  Profissionais de saúde diante da morte  24 3 
ficação para a vida. Alguns p oderão levantar as sobrancelhas e pensar: FEIFEL, H. - Physician's consider death. Proceedings of 75th Annual 
será uma forma de negar a morte? Quem sabe?! Convention, APA, 1967.

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