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o PAN- FRICA In: EI LOP S
ascido no subúrbio de Irajá. no Rio de
janeiro, em 1942, Nei Lopes. depois
de bacharelar-se em Direito e Ciências Sociais
pela UrWersidade do Brasil (atual UFRj), P' imeiro
destacou-se como poeta e compositor popular.
A partir de 1981. paralelamente à música, Yem
construindo sólida carreira literária tematizan-
do e discutindo sua ancestralidade africana e
sua identidade carioca e suburbana.
Tendo já legado à música brasileira, como autor
e intérprete. obras de forte conteúdo pan-afii-
cano C'Afi"oIaI:inO";"Ginga", "~":"Oduduatt:
"Partido ao Cubo"; "Primo do jazi' etc.). nas
quais expõe e exalta a ligação fraterna entre o
mundo musical afro-brasileiro e o dos outros
países receptores da Diáspora Negra. ele o faz
também no livro.
Neste Kitábu (depois de Novo dicionário banto
do Brosil e Enciclopédia brosíleiro da diáspora
africana), o escritor e artista completa esse
ciclo,agora no plano histórico, fiIoJófico e ritual.
Por tudo isso. à época do lançamento da pre-
sente obra (novembro de 2005). Nei Lopes
recebia. no grau de comendador; insígnias e
diploma da Ordem do Mérito Cultural. a mais
alta honraria concedida pelo goII'el'TlOfederal
na área da cultura.
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o livro do saber e do
espirito negro-africanos

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UNICAMP
Biblioteca· IFCH
Kitábu - o livro do saber e do espirito negro-africanos © Nei Lopes, 2005.

Direitos desta edição reservados ao Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial -


Administração Regional do Rio de Janeiro.
Vedada, nos termos da lei, a reprodução total ou parcial deste livro.

SENAC RIO Revisão técnico


Luis Filipe de Lima
Presidente do Conselho Regional
Orlando Diniz Copidesque
Lilia Zanetti e Mârcio Vassalo
Diretor do Departamento Regional
Décio Zanirato Junior Revisão
Cynthia Azevedo, Joselita V. Wasniewski
Editora Senac Rio e Karine Fajardo
Av. Franklin Roosevelt. 126/604
Centro - Rio de Janeiro - RJ - CEP: 20.021-120 Projeto gráfico
Te!.: (21) 2240-2045 - Fax: (21) 2240-9656 Andrea Ayer (andrea.ayer@rj.senac.br)
www.rj.senac.br/editora
Editoração eletrônico
Editora Juliana Andrade
Andrea Fraga d'Egmont
(andrea.degmont@rj.senac.br) Copo
Isabella Perrotta I Hybris Design
Coordenação de produção
Cynthia Azevedo (cynthia.azevedo@rj.senac.br)
Karine Fajardo (karine.fajardo@rj.senac.br) Comercial
(comercia !.editora@rj.senac.brl
Coordenação
Centro de Educação para o Trabalho e a Cidadania Impressão: Lis Grâfica
do Senac Rio l' edição: novembro de 2005

C1P-BRASIL CATALOGAÇÃO-NA-FONTE.
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

L854k
Lopes, Nei, 1942-
Kitábu : O livro do saber e do espirito negro-africanos.
I Nei Lopes. - Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005.
336p. :
16 x 23 em.
Apêndice
Inclui bibliografia
ISBN 85-87864-79-3
1. África - Religião. 2. Mitologia africana. 3. Negros - Religião. 4. Cultos afro-brasileiros.
05-3259. COO 299.6
COU 299.6
Com a licença dos ancestrais, na
esperança de que este livro lhes acrescente
força vital e lhes honre a memória.

Com a licença dos guerreiros protetores


e desbravadores, para que as informações
reunidas neste livro cheguem, sem
obstáculos, aonde têm que chegar.

Com louvor e agradecimento a /fá, pai


do conhecimento e da sabedoria; ao meu
eleri, dono da minha cabeça, e a ori, a
cabeça em si mesma; bem como a todos
os guias, mentores e inspiradores desta obra.
Mooyo e Muntu

Entre os povos pertencentes ao grande complexo cultural


congo que compreende mais do que os povos no Brasil
conhecidos como congos, mooyo é palavra que significa
"vida", "energia vital". E, no mesmo universo lingüístico,
muntu - "homem", "indivíduo" - é a força vital realizada,
existente, pulsando; é o ser, enfim.

Construtores, também, de uma civilização avançada, os


povos do complexo congo constituíram, pelo volume imigrado
e por sua anterioridade. o grande arcabouço da influência
cultural africana nas Américas.

A eles nossa reverência e nossa homenagem, com este


livro, que é também iorubano, jeje. axanti. efique. mandê.
árabe-africano. nilótico e ameríndio.
Kemet

Já editado e paginado este Kitábu, o autor, estudando a


Antigüidade africana, era apresentado à Filosofia "kemética",
corpo de conhecimentos oriundo do antigo Egito - chamado
Kemet na época pré-helênica.

Difundida principalmente por cientistas e Filósofos africanos


e afro-americanos, como Molefi Kete Asante e Maulana
Karenga, en tre ou tros, esse corpo de saberes, conhecido
a partir do sábio lmhotep (c. 2700 a.C.), comprova a
anterioridade da filosofia kemética sobre os cânones Que
norteal'am algumas das mais importantes religiões mundiais.
Tais foram os casos do cristianismo e do islamismo e.
certamente, das religiões da África Negra. porção do
planeta e complexo etnocultural do qual o antigo Egito
foi. incontestavelmente, parte integrante.
A Raul Ribeiro (Senac Rio) que, com sensibilidade. amizade
e coragem. viabilizou a edição deste livro.
Sumário
Apresentação 13 Livro 3 Takrur e Senegãmbla t9t
Mônica Volpato Introdução 192
Capítulo 1 - Os mandingas 192
Prefácio 15 Capítulo 2 - O mundo espiritual dos
Munjz Sodré mandingas 195
Capítulo 3 - Os povos Tenda 199
Ao leitor ..... 19 Capítulo 4 - O advento do Islã 203
Capítulo 5 - O Islã reinterpretado 206
Introdução - Mooyo 23 Capítulo 6 - Takrur e Senegâmbia -
Provérbios 208

VOLUME I O Antigo Legado - História


e Tradições Negro-Africanas 39 Livro 4 Etiópia . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 t t
Livro t Congo 39 Introdução 212
Introdução 40 Capítulo 1 - Os Sabeus 212
Capítulo 1 - Dos congos e povos vizinhos . 40 Capítulo 2 - Etiópia e regiões vizinhas -
Provérbios 214
Capítulo 2 - Do saber e do espírito congo .... 49
Capítulo 3 - O universo espiritual dos
ambundos . . . . . . 60 Livro 5 Zambézla 2t7
Capítulo 4 - Congo - Provérbios 66 Introdução ...................•...... 218
Capítulo 1 - História 218
Livro 2 Mina .. 69 Capítulo 2 - Tradições religiosas. . . 219
Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 Capítulo 3 - Zambézia - Provérbios 222
Capítulo 1 - Os iorubás 70
Capítulo 2 - Os iorubás e os edos (ou benins) . 85 VOLUME 11 O Novo Legado - llistórla
e Tradições da Diáspora
Capítulo 3 - Ifá e a criação do mundo 88
afro-americana 225
Capítulo 4 - O ciclo espiritual 93
Livro 6 Brasil e Rio da Prata 225
Capítulo 5 - Poder físico e poder espiritual .. 100
Introdução 226
Capítulo 6 - Egungum. Ogboni e Oro 103
Capítulo 1 - Os africanos no Brasil 226
Capítulo 7 - Os habitantes do Orum 105
Capítulo 2 - O culto aos orixás 227
Capítulo 8 - A saga dos orixás .. 119
Capítulo 3 - A mina e os cultos jejes 233
Capítulo 9 - O mundo espiritual dos edos
Capítulo 4 - O culto malê 238
ou benins 143
Capítulo 5 - Angola 242
Capítulo 10- Daomé e Togo 145
Capítulo 6 - Catolicismo popular 244
Capítulo 11 - Os voduns de Abomé e Aladá .. 151
Capítulo 7 - A cabul a e o omolocô 248
Capítulo 12 - A magia 157
Capítulo 8 - A jurema e os caboclos 251
Capítulo 13 - O ser humano e seu ciclo vital . 158
Capítulo 9 - Umbanda e Ouimbanda 253
Capítulo 14 - Os povos acãs . . . . 161
Capítulo 10 - Candombe . . . . . .. 256
Capítulo 15 - O espírito e o poder entre
os acãs 164
Capítulo 16 - Os povos do Calabar .. . 183 Livro 7 Carlbe Hispânico . . . . . . . . . . 259
Capítulo 17 - Mina - Provérbios 187 Introdução . . . . . 260
Capítulo 1 - Caribe e Antilhas 260
Capítulo 2 - Cuba 261
Capítulo 3 - A Regia de Ocha 261
Capítulo 4 - Mayombe 265
. Capítulo 5 - Abakuá 272
Capítulo 6 - Arará 277
Capítulo 7 - Caribes negros 282
Capítulo 8 - Palenque de San Basílio 292

Livro 8 Carlbe Francês . . . . . . . . . . . 295


Introdução 296
Capítulo 1 - Os franceses no Caribe 296
Capítulo 2 - Vodu 299

Livro 9 Surlname, Carlbe Britânico


e Estados Unidos 307
Introdução 308
Capítulo 1 - Maroons 308
Capítulo 2 - O mundo espiritual 309
Capítulo 3 - Kumina e Rastafari 312
Capítulo 4 - Shango Cult e Shouters 314
Capítulo 5 - Os africanos nos Estados
Unidos 316
Capítulo 6 - Spiritual Churches ..•....... 320
Capítulo 7 - Nação do Islã 322
Capítulo 8 - Vodu e Santería 325

Posfácio 327
Guia de leitura 328
Elucidário 329
Referências bibliográficas 331
Apresentação

F'ortalecer a cidadania das populações afro-descendentes é


um grande desafio para a sustentabilidade das relações sociais
no mundo atual. Kitábu é a materialização de uma resposta
eficaz a essa questão. Constrói pontes entre espiritualidade.
arte e cultura. reunindo um conjunto de livros que poderão
introduzir diversos elementos importantes da espiritual idade
e da cultura africanas em nossas práticas sociais.

Nei Lopes. mestre e parceiro. convida o leitor a participar


de um resgate histórico dos saberes negro-africanos.
capazes de influenciar comportamentos. enriquecer diálogos
e fomentar novas pesquisas que lancem luz à beleza das
tradições afro-americanas.

Pela força desta publicação literária. que busca revelar


grande parte dos "segredos" sobre a religiosidade dos povos
afro-americanos em todos nós. cremos cumprir. muito mais
do que nossa missão institucional. um papel de
responsabilidade social.

o Senac Rio acredita que o desejo de aprender leva a


mudanças estruturais e que isso ocorre muito além dos
muros escolares. Por isso. uma obra que trata das tradições
é. para nós. ferramenta para a construção de aprendizagens
e encontra conexões com nossos valores.

I 13
Nesse contexto. o Centro de Educação para o Trabalho e a
Cidadania do Senac Rio apresenta esta obra que. de modo
relevante. contribuirá para o desenvolvimento do público em
geral. além de pesquisadores. educadores populares e de
todos aqueles abertos a aprender a apreender. que buscam.
na origem dos fatos. elementos para construir o futuro.

Assim. apresentamos o desafio. a ferramenta eo


conhecimento. Que sejamos sábios no entendimento
e competentes na utilização. Tudo recomeça aqui.

Boa leitura'

Mônica Volpato
Centro de Educação para o Trabalho e a Cidadania
do Senac Rio
Prefácio

Sinhô, um dos primeiros grandes compositores de samba, esperto


em truques de autoria, costumava dizer que "samba é como
passarinho, é de quem pegar". A mirada retrospectiva pode
talvez dar a entender que estejamos criticando Sinhô em nome
dos direitos burgueses do criador. Não é bem assim, porém.
O samba que voava solto era freqüentemente objeto de criação
coletiva e nem sempre era uma composição pronta e acabada,
mas uma estrofe, uma linha melódica ou uma frase musical
que circulava na vital efervescência das rodas de dança e de
improviso. O visgo passarinheiro que o capturava só assume as
formas do direito de autor quando a idéia de uma subjetividade
criativa individual. advinda da indústria fonográfica emergente,
faz sua irrupção na história das formas. Ainda assim, desde
que mantido o contato vitalista com suas fontes de origem.
o passarinho-samba não se empalhava.

Nei Lopes, lídimo descendente de gente como Sinhô, Paulo da


Portela, Wilson Batista e outros bambas. é sem truques. Seus
sambas partem dele mesmo, como água de nascente, com
recados diretos e cristalinos. Mas também as interpretações
por ele oferecidas aos saberes que, como os "passarinhos" de
Sinhô batem asas nos céus do desconhecimento histórico,
quando não estão dormindo nos ninhos dos arquivos ou dos
segredos bem guardados. É o que acontece com a sua garimpagem
filológica dos étimos bantos na língua brasileira. Ou então com a
sua revelação enciclopédica das figuras atuantes na comunidade
da Diáspora Negra. À margem do institucionalismo acadêmico,
Nei põe, entretanto, o seu empenho criativo a serviço daquilo
que essa mesma comunidade poderia chamar de "causa",

I 15
configurando um bom exemplo de intelectual orgânico do povo
urbano carioca, este mesmo que ainda não desesperou da idéia
de nação, nem abandonou o projeto de uma pedagogia (política)
capaz de aprofundar o encontro do povo com a sua própria cultura.

Este KUábu - O livro do saber e do espfrUo negro-africanos é


um passo a mais rumo a uma sistematização dos saberes
dispersos sobre a gente negro-brasileira. Qual a sua proposta?
"Ajudar na compreensão da espiritualidade africana e ser útil.
como instrumento teórico, aos praticantes das religiões de
origem afro. Seu propósito, contudo, não é o de 'ensinar o padre
rezar a missa', como diziam os antigos: mas de concentrar, em
dois volumes e com base na bibliografia indicada, princípios
básicos das filosofias negro-africana e seus desdobramentos
religiosos, criados ou desenvolvidos nas Américas", diz Nei.

Trata-se, como se infere, de uma compilação, isto é, da coleta


escrita de "textos filosóficos, sagrados e históricos da tradição
negro-africana, no continente de origem e nas regiões da Diáspora",
com o objetivo de guiar não apenas os fiéis, mas também os
interessados na liturgia afro, nos caminhos e veredas dos cultos
que incluem tanto o muito estudado paradigma jeje-ioruba quanto
as menos conhecidas reinterpretações de crenças oriundas das
civilizações congolesa e axanti. Compilando, o autor entrega-se
a uma caçada a "passarinhos" bem mais árdua do que aquela
imaginada por Sinhô: aqui não se trata apenas de capturá-los
em vôo, mas sobretudo de fazê-los voar de seus recessos escritos
e orais, para depois apresentá-los aos olhares exigentes dos
que costumam trafegar por vias acadêmicas.

É uma tarefa tanto difícil quanto necessária, porque nos tempos


globalistas que vivemos - em que as crenças ressurgem e se
difundem sem reencantar o mundo, por sua exclusiva devoção às
relações de valor de uso e de troca -, cultos politeístas milenares,
como os de origem africana, carecem de balizas escritas,
considerando-se a passagem dos mais jovens descendentes
pela universidade ou então o seu repetido contato com os
hipertextos no ciberespaço. Os cultos afros sempre prescindiram
de súmulas teológicas, porém estiveram sempre atentos à
"teologia" externa construída por observadores, tais como
antropólogos, sociólogos e pesquisadores de um modo geral.

Essas construções culturais não são radicalmente estranhas ao


espírito de povos africanos como os iorubas, os fons, os minas e

16 I Kitábu
outros. porque eles próprios refazem continuamente o mundo
pela interpretação simbólica das entidades ditas "naturais".
Tudo se "fabrica" simbolicamente: as divindades. os ancestrais.
os humanos. Como bem observa o etnopsiquiatra iorubano-francês
Tobie Nathan, para o homem ioruba. "utilizar a planta não é
só servir-se de suas propriedades químicas, mas das somas
de conhecimentos humanos a ela referentes. Os iorubas não
utilizam a planta: eles a constroem! Utilizar a planta é, de fato.
utilizar o implícito do pensamento ioruba a respeito da planta,
o invisível do coletivo".

A compilação realizada em Kilábu não é, assim, o mero registro


de dados em estado bruto ou "naturalmente" dispersos nas
respectivas áreas geográficas, e sim a construção teórica da
possibilidade de que se venha a perceber o fio sutil que liga a
diversidade das tradições religiosas negro-africanas. no momento
histórico em que um novo movimento pan-africanista promove
a expansão das crenças. até mesmo na Europa e nos Estados
Unidos. Evidentemente, essa construção escrita não pode
predominar sobre o essencial na liturgia afro. que é a sabedoria
advinda do vitalismo da experiência do inter-relacionamento
humano. esta mesma que veicula e faz expandir o axé iorubano.
assim como explica. perante os bantos. a palavra muntu,
ou seja, o ser humano como energia vital realizada.

Num samba, já antigo, em que interpela o bairro carioca de


Irajá. Nei Lopes fala da "sensação de, na verdade. / não ter sido
nem metade / daquilo que você sonhou ... / É isso aí. ê Irajá! /
Meu samba é a única coisa/ que eu posso lhe dar!" Recatado.
Nei fala apenas de um tipo de passarinho capturado. Mas ele tem
nos revelado outras espécies de canto afinado, a exemplo deste
Kilábu. Diria o coronel Ponciano de Azeredo: "Muito que bem'"

Munjz Sodré

Ossi Oba Aressá nilê Axé Opô Afonjá (Bahia)

Professor titular da Universidade


Federal do Rio de Janeiro

I 17
Ao leitor

Em suaíle. idioma do grupo banto falado principalmente na


África oriental, kitábu (vocábulo paroxítono) significa "livro".
Por seu caráter veicular e supra-regional. o suaíle é certamente
a mais internacional das línguas africanas; por isso. o título
desta obra foi concebido nesse idioma.

A proposta do presente trabalho é ajudar na compreensão da


espiritualidade africana e talvez ser útil. como instrumento
teórico. aos praticantes das religiões de origem afro. Seu
propósito. contudo. não é o de "ensinar padre a rezar a missa".
como diziam os antigos; mas de concentrar. em duas partes
distintas porém integradas. e com base na bibliografia indicada.
princípios básicos das filosofias negro-africanas e seus
desdobramentos religiosos. criados ou desenvolvidos nas Américas.

Sabemos Que. por meio da religião. cada povo explica o


legado recebido do Ser Supremo. suas próprias origens
e o desenvolvimento de sua história. Assim. embora as religiões
negro-africanas tenham suas peculiaridades. todas elas
comungam de uma idéia central, segundo a Qual a vontade
do Ser Supremo manifesta-se por meio de heróis fundadores -
elos entre os vivos e os espíritos dos antepassados.

Observe-se Queno texto Philosophie el religion des noirs.


publicado em 1950. o antropólogo francês Mareei Griaule
indagava se seria possível aplicar as denominações "filosofia"
e "religião" à vida interior. ao sistema de mundo. às relações
com o invisível e ao comportamento dos negros. Perguntava-se.
ainda. Griaule. sobre a existência de uma filosofia negra

I 19
distinta da religião e de uma religião independente. de uma
metafísica. enfim.

Ao final de sua indagação. o etnólogo afirmava a existência de


uma ontologia negro-africana. concluindo pela antiguidade do
pensamento africano. nivelando algumas de suas vertentes a
concepções filosóficas asiáticas e da Antiguidade greco-I'omana;
e ressaltando a necessidade e a importância do estudo desse
pensamento. Quatro décadas depois. o padre espanhol Raul R.
de Asúa Altuna (v. bibliografia). fazendo eco a Griaule. afirmava:
"Basta debruçarmo-nos sobre esse conjunto de crenças e cultos
para encontrar uma estrutura religiosa firme e digna."

Na contramão dessas concepções. no Brasil da década de 1940.


as práticas religiosas de origem africana. vistas como retrógradas
e maléficas. eram objeto de desprezo e repressão. e assim
tipificadas como contravenção penal. E. para tanto. muito
contribuía a indústria internacional do entretenimento. a qual.
após a ocupação norte-americana do Haiti (1915-1934) moldou.
no imaginário dos povos que atingia. como representação da
religiosidade africana. todo um séqüito de zumbis. bonecos
espetados de alfinetes etc.

Num estágio posterior. as várias vertentes religiosas de origem


africana estabelecidas no Brasil. desde pelo menos o século
XVIII. granjeavam. com ecos da négrophilie parisiense e a partir
da Bahia. um certo status. e foram legitimadas por intelectuais
e artistas, bem como folclorizadas pela indústria do
entretenimento. É essa a origem das encenações "afro" no
teatro de revista: a chegada ao rádio e ao disco de cânticos
rituais estilizados para o consumo; os enredos das escolas
de samba evocando a "África distante" etc.

Tudo isso levou à superficialização. à primazia dos aspectos


exteriores em detrimento da reflexão sobre o sentido
abrangente. sobre a investigação teórica do ser africano
e seus desdobramentos em terra brasileira.

Os novos tempos trouxeram outro inimigo ainda mais poderoso.


Montadas no cavalo do poder econômico e brandindo a lança da
intransigência. as chamadas "igrejas eletrônicas". baseando-se
em um livro eminentemente étnico. como é o conjunto de textos do
Antigo Testamento. completaram a tarefa iniciada por Hollywood a
partir do Haiti. Por isso a idéia de construção deste Kitábu.

20 I Kitábu
Considerando essas constatações adversas e para lhes fazermos
face. compilamos neste livro textos filosóficos. sagrados
e históricos da tradição negro-africana. no continente de
origem e nas regiões da Diáspora. Esses textos. selecionados.
traduzidos. adaptados e recriados. estão organizados por livros.
capítulos e versículos. num formato que. propositadamente.
lembra o da Bíblia e o do Alcorão.

Este livro surgiu. ainda. da certeza de que as tradições religiosas


negro-africanas despertam grande interesse em todo o mundo.
Principalmente porque um novo movimento pan-africanista
tem levado parte dessas tradições a se expandir. até mesmo
nos Estados Unidos e na Europa. Consideramos que essa difusão
se deve. principalmente. à matriz iorubana. na qual se incluem
o candomblé brasileiro e a santería cubana. bem como outras
modalidades religiosas afro-caribenhas. Além da força dessa
matriz oeste-africana. elementos diversos compõem o enorme
caldeirão de cultos afros nas Américas, entre os quais as
importantes recriações das civilizações congo e axanti.

Quanto à estrutura. esta obra divide-se em duas partes:


"O Antigo Legado - História e Tradições Negro-africanas"
(volume 1) - e "O Novo Legado - História e Tradições da
Diáspora afro-americana" (volume 2). Ambas são introduzidas
pelo capítulo intitulado "Mooyo" (termo quicongo que significa
"vida", "força vita)"). no qual apresentamos uma síntese das
concepções filosóficas que norteiam a vida tradicional
negro-africana: conceitos sobre o Universo. o tempo. o
Ser Supremo e as divindades. o ser humano. a força vital.
a morte. o poder da palavra. a função da arte etc.

Em "O Antigo Legado". focalizamos, em capítulos. as


seguintes regiões principais. listadas por seus nomes
antigos: Congo (atuais Congo e Angola); Mina (toda a região
do Golfo da Guiné); Takrur (do Nilo superior ao Atlântico);
Senegâmbia (atuais Senegal. Gâmbia. Guiné) e Etiópia. Em
"O Novo Legado", abordamos a história, as sabenças e as
tradições religiosas das seguintes regiões: Brasil e Rio da Prata
(orixás. angola. catolicismo popular. malê. caboclo. jurema.
mina etc.); Caribe hispânico (lfá. orixás. mayombe. abakuá.
tradições garífunas); Caribe francês (vodu); Antilhas britânicas
e Guianas (tradições coromantis. shouters. rastafarianismo);
Estados Unidos (protestantismo negro. spiritual churches.
muçulmanos negros) etc.

I 21
Todas essas tradições são abordadas com base em suas matrizes
africanas. apresentadas em "O Antigo Legado". Assim. com
relação aos orixás iorubanos e jejes. por exemplo, o leitor vai
encontrar os seus mitos de origem no capítulo sobre os povos
iorubanos e daomeanos. no "Livro 2: Mina".

Este Kitábu representa. então. uma tentativa de sistematização


do conhecimento sobre as religiões africanas nas Américas a
partir de suas matrizes. Realizando uma espécie de arqueologia
das raízes históricas e mitológicas, esta obra pretende -
ressalvadas as limitações do autor - seguir a recomendação
de Marcel Griaule. E isso, porém. não por meio de uma tese
acadêmica ou de um estudo científico; mais adequadamente-
entendemos -. por meio de uma espécie de breviário ou bíblia
(no sentido de livro que condensa um pensamento). abordando
o continuum que se estabelece entre as tradições históricas
e míticas de antigas civilizações africanas, sua espiritualidade e
seu saber. e os construtores da Afro-América. tão fundamentais
para a civilização planetária quanto estigmatizados
pelo eurocentrismo dominante.

Nei Lopes

22 I Kitábu
...•
lNTRODUÇAO
Mooyo

I- o Universo visível e o invisível sentido porque não acrescentam nem dimi-


1. O Universo visível é a camada externa e nuem nada.
concreta de um universo invisível e vivo
constituído por forças em perpétuo movimen- 6. O ser humano não é forte, porque, apesar
to. No interior dessa vasta unidade cósmica. de todas as suas máquinas. ele não pode im-
tudo está ligado, tudo é solidário. E o compor- pedir a terra de tremer e engolir milhares de
tamento do ser humano em relação a si seres humanos.
mesmo e ao mundo que o cerca é objeto de re-
gras extremamente precisas. 7. O ser humano jamais poderá impedir o Sol de
atingir a Terra e comê-Ia. se um leve desequilí-
2. A violação dessas regras pode romper o brio se produzir no espaço. Assim falou AladjL
equilíbrio das forças do Universo. E esse de-
sequilíbrio vai se manifestar por meio de di- 11 - O tempo: passado. presente e futuro
versos tipos de distúrbios. 1. O tempo é um fenômeno que se realiza em
duas dimensões. A primeira é a dimensão que
3. A restauração do equilíbrio só se dará me- compreende todos os fatos que estão a ponto
diante a conveniente e correta manipulação de ocorrer. que estão ocorrendo ou acabam de
das forças. Somente assim. será possível ocorrer. A segunda é a dimensão que engloba
restabelecer a harmonia, da qual o ser hu- todos os acontecimentos passados que ligam o
mano é o guardião, por designação do Ser início das coisas ao presente desdobramento
Supremo. Assim disseram Hampate Bâ e ou- dos eventos no Universo.
tros sábios africanos.
2. O ser humano vive ao mesmo tempo em
4. No universo não existe "grande" nem "pe- três mundos diferentes: o da realidade con-
queno" e, sim, a harmonia entre coisas de ta- creta, o dos valores sociais e o da autocons-
manhos diferentes. ciência que não se pode exprimir.

5. As relações de grandeza não têm nenhum 3. O primeiro é o mundo dos seres vivos, da

24 I Kitábu
natureza cósmica e dos fenômenos naturais. desempenham funções protetoras especiais. li-
O segundo é o mundo dos valores que regem gadas aos vários aspectos da vida humana.
os processos espirituais e mentais do homem
e sua comunidade. O terceiro é o dos poderes 2. Os primeiros indivíduos do gênero humano.
espirituais. inatingíveis e inexprimíveis. unindo a humanidade ao Ser Supremo, consti-
tuem o elo inicial da cadeia da vida. Esses an-
4. O Ser Supremo está colocado acima da au- cestrais longevos foram os primeiros aos
toconsciência. que não se pode exprimir. Mas quais o Ser Supremo comunicou a própria for-
o ser humano não pode renunciar à vida ter- ça vital e o poder de fazê-la agir sobre toda a
rena para dedicar todo o seu ser e toda a sua sua descendência.
vida ao mundo da autoconsciência e do servi-
ço do Ser Supremo. Nem abandonar o mundo 3. Depois deles. estão situados os heróis civi-
da autoconsciência para dedicar-se apenas à lizadores. aqueles que. por delegação do Ser
realidade concreta da vida terrena. Supremo. desenvolveram ações criativas deci-
sivas no acréscimo da força vital, na organiza-
5. A preocupação existencial do ser humano ção e no aprimoramento de suas comunidades.
tem de se conduzir não no sentido de revolu-
cionar o meio ambiente. e sim com o objetivo 4. Entre essas divindades secundárias, ocupam
de socializar os membros l1e sua comunidade lugar especial os espíritos dos morto.s ilustres
para que eles respeitem sua ancestralidade e que atingiram a condição de ancestrais.
preservem a memória dos fatos passados.
5. Abaixo dos heróis civilizadores e ances-
6. O conceito de tempo. então. é determinado trais. e influindo poderosamente sobre os hu-
mais pela opção existencial do ser humano do manos. estão os espíritos e gênios.
que por fatores raciais ou geográficos.
6. Os espíritos e gênios são divindades se-
7. O ser humano tem de acreditar na exis- cundárias com atribuições diferentes daque-
tência simultânea do passado. do presente e las dos antepassados. Por sua natureza e
do futuro e orientar seu tempo dentro da proximidade em relação ao Ser Supremo.
harmonia dessas três variantes. O conceito podem levar até Ele louvores. súplicas e ofe-
de tempo linear é uma ilusão e a materiali- rendas enviados pelos humanos e d' Ele obter
dade. uma miragem. Assim falou Kagame: e resposta. Uma vez que essas divindades go-
disse Obenga. zam de liberdade e independência. o que elas
transmitem aos seres humanos não provém
11I - O Ser Supremo e as divindades necessariamente do Ser Supremo. Assim,
1. O Ser Supremo é o criador de todos os seres elas podem ser agentes tanto de benefícios
e coisas. Mas Ele está muito distante do ser quanto de malefícios.
humano e só é acessível por meio de divinda-
des secundárias. Essas divindades. interme- 7. Alguns dos espíritos e gênios são proteto-
diárias entre o ser humano e o Ser Supremo. res e guardiôes de indivíduos. grupos e loca Ii-

Mooyo I 25
dades, e podem habitat' em objetos, sítios e 3. O nome o individualiza, situando-o no gru-
lugares, de forma temporária ou permanente. po, mostrando sua origem. sua atividade e sua
Eles receberam do Ser Supremo a tarefa de realidade. Dar nome a alguém ou conhecer o
vigiar e administrar certos locais. os quais só seu nome íntimo equivale a descobrir sua na-
podem ser utilizados com a sua devida autori- tureza. Quem conhece o verdadeiro nome de
zação. Nesses casos, são identificados por um uma pessoa pode influenciá-la e dominá-la,
nome próprio que especifica suas funções e atuando sobre sua essência.
características ou indica o lugar em que habi-
tam. Eles têm também a responsabilidade 4. Estruturado por esses elementos constitu-
sobre as pessoas que vivem nesses locais e tivos - corpo, espíl'ito e nome -, o sei' huma-
podem puni-las em caso de falta ou recom- no está inserido num contexto de relações es-
pensá-las a seu bel-prazer. pirituais, ligado por laços indissolúveis ao Ser
Supremo. Esses laços são indissolúveis por-
8. Entre os espíritos e gênios, estes últimos que a existência do ser humano depende es-
são, especificamente, a expressão da força vi- sencialmente do seu Criador.
tal dos fenômenos naturais, como o raio, o
vento, o arco-íris, as epidemias etc. 5. O ser humano deve também manter uma
relação correta com as divindades secundá-
9. Tanto o Ser Supremo quanto as divindades. rias. Essa relação se concretizará por inter-
os antepassados e os seres humanos, enfim. médio do desenvolvimento das atividades co-
tudo o que existe no Universo, interage em tidianas em harmonia com elas e, principal-
obediência a regras extremamente precisas mente, com seus ancestrais.
por meio de sua respectiva força vital. Assim
disse Sulayman Nyang. 6. Quando tratadas apropriadamente, essas for-
ças espirituais propiciam a harmonia da vida
IV - O ser humano: corpo. espírito e nome e a segurança da comunidade; caso contrário,
1. Entre os elementos que compõem o ser elas podem colocar tal equilíbrio em risco.
humano, há o corpo físico, que desaparece
após a morte e é uma exteriorização de sua ri- 7. A vida é um diálogo constante com o sagra-
queza interior e o receptáculo de suas sensa- do, e cada momento exige suprema devoção
ções. Esse corpo vive acompanhado de uma às forças espirituais do Alto e às mensagens
sombra, que é sua irradiação para o exterior religiosas proferidas por seus lábios invisí-
e que também se desvanece com a morte. veis. É esse diálogo constante com o mundo
espiritual que permite ao ser humano enten-
2. Além do corpo físico, o ser humano possui der o seu papel como eixo central da Criação.
uma essência espiritual e invisível que sobre-
vive à morte e que se faz acompanhar de um 8. Existir como ser humano é pertencer a uma
duplo. Complementando o conjunto de seus comunidade como um todo; e esse fato envol-
elementos constitutivos, o ser humano tem o ve participação nas crenças, cerimônias. ri-
seu nome. tuais e festivais de tal comunidade.

26 I Kitábu
9. Uma pessoa não pode separar-se da reli- 16. O fator que explica e justifica a solidarie-
gião do seu grupo. pois. se proceder assim. dade humana é a vida derivada e recebida da
estará divorciada de suas raízes. de seus fun- fonte de "poder", que retorna a esse poder. é
damentos. de seu contexto de segurança. de possuída por ele e dele se apossa.
suas relações de parentesco e de todo o seu
grupo. de sua existência. enfim. 17. Cada ato e cada gesto do ser humano
põem em jogo as forças invisíveis da vida. que
10. O ser humano existe para sua comunida- representam os múltiplos aspectos do poder
de: ninguém dança sozinho. mas com sua co- de realização que. por sua vez. é. em si mes-
munidade ou na presença dela. mo. um aspecto do Ser Supremo. Assim disse-
ram Mbiti, Kagame e Obenga.
11. Todo ser humano tem a centelha do Ser
Supremo. que é seu Criador e seu sustentáculo. v- O corpo humano
1. O corpo humano é um objeto cheio. por
12. Cada ser humano. vivendo em comunida- causa dos órgãos e substâncias que contém e
de. tem seu valor assegurado do nascimento dos quais representa o conjunto. A constante
até a morte. E. mesmo depois da morte. esse interação das partes duras. moles ou fluidas
valor é respeitado, porque o morto continua a localizadas no interior corpo é que gera a
viver na comunidade dos ancestrais. energia produtora da vida.

13. Até mesmo as divindades estão sujeitas 2. A qualidade do sangue reflete a quantidade
aos interesses da comunidade humana. Se de energia de que o corpo dispõe. A fim de
elas continuam a responder às preces e a pro- manter essa energia em seu mais alto nível. o
piciar os bens solicitados. recebem. então. o sangue deve ser lavado, mediante a absorção
culto dos humanos e os sacrifícios. Se falham, de medicamentos: e, em caso de contaminação,
caem no esquecimento e são desprezadas por tem de ser extraído parcialmente do corpo.
seus seguidores.
3. O sangue, bom ou mau, pode atrair sorte ou
14. O ser humano. então. não é. na sua essên- infortúnio. Ele é a materialização da energia vi-
cia, um pecador abjeto que deve se submeter tal e. portanto, pode ser agredido, defendido e
ao Ser Supremo para merecer sua misericór- fortalecido. O sangue possui. ainda. a proprie-
dia na outra dimensão. Isso ocorre porque ele dade unificadora. invocada por ocasião de pac-
surgiu no Universo e nele permanece como tos e juramentos: trocando um pouco de seu
uma manifestação do Ser Supremo; e este sangue. as partes envolvidas intercambiam
existe pelo ser humano e em razão dele. força vital. sob o controle dos antepassados.

15. O ser humano é a força que liga todos os 4. Compartilhar o sangue como sinal de com-
seres do Universo visível às altas forças espi- promisso é mais importante que empenhar a
rituais. Por isso, ele é, ao mesmo tempo, ma- palavra. E é pela absorção em comum do san-
nipulador e alvo do poder espiritual. gue de um animal sacrificado que aqueles que

Mooyo I 27
se aliam estabelecem um vínculo indestrutível 3. Todos os seres, segundo a qualidade de sua
de solidariedade. força vital. integram-se numa hierarquia.
Acima de tudo está o Ser Supremo. que é a
5. No corpo humano. os pés representam as Força por si mesma e a origem de toda a
raízes, o fundamento ancestral, o poder que energia vital.
emana da ação de um chefe, porque ficam em
contato permanente com a terra. morada dos 4. Depois, vêm os primeiros ancestrais dos
antepassados, que são depositários do saber e seres humanos. os fundadores dos diferentes
guardiões do bom funcionamento da sociedade. clãs. que são os mais próximos intermediários
entre os humanos e o Ser Supremo.
6. A cabeça. sede da inteligência. é a repro-
dução da pessoa em corpo e alma e também 5. Após esses fundadores. estão os mortos ilus-
o instrumento que lhe permite vincular-se tres de cada grupo. por ordem de primogenitu-
ao cosmo. ra. Eles são os elos da cadeia que transmite a
força vital dos primeiros antepassados para os
7. Mas o corpo constitui uma realidade secun- viventes. E estes. por sua vez. estão hierarqui-
dária. precária, pois. na verdade. não é ele zados. de acordo com sua maior ou menor pro-
que pensa ou sonha. Quem pensa e sonha é o ximidade. em parentesco. com os antepassados
eu do ser humano. do qual o corpo é apenas o e. conseqüentemente. segundo sua força vital.
suporte físico.
6. Todo ser humano constitui um elo vivo. ativo
8. O corpo é um produto da palavra e. assim. e passivo. na cadeia das forças vitais, ligado.
ele próprio é uma linguagem. E isso se evi- acima. aos vínculos de sua linhagem ascen-
dencia particularmente na arte da escultura. dente e sustentando abaixo de si a linhagem
Assim disse Bekombo Priso. de sua descendência.

VI - A força vital 7. Seguindo-se às forças humanas. vêm as


1. Todos os seres do Universo têm sua própria forças animais. vegetais e minerais. também
força vital. e esta é o valor supremo da exis- hierarquizadas segundo sua energia. Todos
tência. Possuir a maior força vital é a única esses elementos não-humanos da natureza
forma de felicidade e bem-estar. são prolongamentos e meios de vida daqueles
a que pertencem.
2. A morte, as doenças. as desgraças. o abor-
recimento, o cansaço. a depressão. todo o so- 8. Como todas as forças estão inter-relaciona-
frimento. enfim, é conseqüência de uma dimi- das. exercendo interações que obedecem a
nuição da força vital, causada por um agente leis determinadas. um ser humano pode dimi-
externo dotado de uma força vital superior. O nuir um outro na sua força vital. A resistência
remédio contra a morte e os sofrimentos é, a esse tipo de ação só é obtida por meio do re-
portanto. reforçar a energia vital. para resis- forço da própria potência. recorrendo-se a
tir às forças nocivas externas. outra influência vital.

28 I KiLábu
9. A força vital humana pode influenciar direta- animal sacrificado passa. por meio do sacrifica-
mente animais irracionais. vegetais ou minerais. dor. à divindade e retorna desta ao ofertante.

10. Um ser racional- seja ele um espírito. seja 17. Com a partilha do animal sacrificado. em
um vivente -. atuando sobre um animal irracio- forma de alimento. a força vital também se re-
nal. um vegetal ou um mineral é capaz de in- parte entre os membros da comunidade.
fluenciar indiretamente outro ser racional.
18. Qualquer pessoa pode manter contato
11. A resistência a essa ação também só é ob- com as divindades mediante orações. oferen-
tida pelo fortalecimento da energia vital. re- das e sacrifícios. desde que o fim. particular e
correndo-se a outras forças. restrito. não comprometa o equilíbrio social.
Mas. quando essas ações objetivam resulta-
12. Para se proteger contra a perda ou dimi- dos de alcance mais amplo. elas devem ser
nuição de energia vital por ação direta ou indi- realizadas por especialistas. Assim falou
reta de outros seres. a pessoa deve recorrer a Mulago: e disse Buakasa.
forças que possam revigorar sua própria força
individual. Tais forças são as energias das di- VII - Morte, feitiço e magia
vindades e dos espíritos dos antepassados. 1. A morte é um estado de diminuição do ser.
Chega-se a elas por meio do culto ou ritual des- Mas a vida não é destruída pela morte. em-
tinado a propiciar as graças do Ser Supremo. bora esta a submeta a uma mudança de con-
dição. Por isso. a vida é a existência na co-
13. O ser humano pode também confeccionar munidade. é a participação na vida dos an-
objetos e sacralizá-los. dotando-os de força vi- cestrais e um prolongamento da existência
tal manipulável, usada como proteção e como deles. além de uma preparação da nossa
objeto propiciatório e mesmo como instrumen- própria vida para que ela se perpetue em
to de defesa e ataque. Da mesma forma. lhe é nossos descenden tes.
possível sacralizar objetos existentes. além de
restos de animais. minerais e vegetais. 2. A impotência genésica masculina e a este-
rilidade das mulheres representam uma rup-
14. As práticas de todo culto ou ritual encer- tura da cadeia que liga os vivos e os mortos.
ram o conhecimento da interação das forças Isso ocorre porque todo ser humano tem um
naturais. tais como foram criadas pelo Ser destino preciso: é um viajante cósmico desti-
Supremo e postas a serviço do ser humano. nado a cruzar a fronteira que separa os vivos
e os mortos e que demarca duas partes inse-
15. O intercâmbio de força vital entre o ser paráveis da totalidade do real.
humano e o mundo invisível é conseguido por
meio de oferendas e sacrifícios de animais. 3. A morte. então. não é a realidade última.
mas a própria vida. Quando morre. o indiví-
16. No sacrifício. libera-se e transmite-se a for- duo se dissolve na imortalidade coletiva que
ça vital concentrada no sangue. A força vital do proclama a grande cadeia da existência.

Mooyo I 29
4. A morte é o processo e a condição por meio ficamente, do reino humano para o mundo
dos quais o corpo físico se desintegra e a uni- dos espíritos.
dade da vida, corpo-espírito, se fragmenta.
Mas ela não é uma aniquilação completa da 10. A magia é a manipulação das forças e pode
pessoa, e sim uma partida. O morto se reúne se revelar útil ou nociva, de acordo com o uso
aos que o precederam. e a única modificação que dela se faz. Ela. assim como o dinheiro.
importante é a ruína do corpo físico, pois o es- não é intrinsecamente um mal ou um bem. Sua
pírito tem acesso a outro estágio da existência. utilização é que vai torná-Ia boa ou má.

5. Os mortos levam uma existência diminuída 11. A boa magia. dos iniciados e mestres, vi-
em relação aos seres viventes. mas conser- sa à purificação dos seres. para recolocar as
vam sua mais elevada e potente força vital. Ao forças em ordem e evitar a morte. Assim ex-
passarem pela agonia individual da morte, pôs Mbiti.
eles adquiriram um conhecimento mais pro-
fundo do mistério e do processo de participa- VIII - A palavra
ção vital que regem o Universo. 1. A palavra falada, além de seu valor funda-
mentaI. possui um caráter sagrado que se as-
6. A morte pode ser causada por quatro fato- socia à sua origem divina e às forças ocultas
res: feitiçaria. maldição. ação dos mortos e nela depositadas.
vontade do Ser Supremo.
2. A tradição oral, que não se limita aos con-
7. As pessoas que morrem vitimadas por fei- tos e lendas nem aos relatos míticos e histó-
tiçaria podem tornar-se fantasmas errantes, ricos. é a grande escola da vida, recobrindo e
cujas almas nunca encontrarão repouso. A englobando todos os seus aspectos. Nela, o
maldição. que pode provocar a morte súbita espiritual e o material não se dissociam. Fa-
da pessoa a quem foi dirigida. ocorre quando lando segundo a compreensão de cada pes-
tabus, costumes ou tradições são violados. soa, ela se coloca ao alcance de todos.

8. As almas dos mortos, quando descontentes 3. A tradição oral é, ao mesmo tempo, reli-
com os que lhes sobreviveram na Terra. po- gião, conhecimento. ciência natura!. aprendi-
dem decidir corrigir seu procedimento. levan- zado de ofício, história, divertimento e recrea-
do-lhes doenças. calamidades e a morte. As ção. Baseada na prática e na experiência. ela
pessoas muito velhas geralmente morrem pela se relaciona à totalidade do ser humano e,
vontade do Ser Supremo. assim, contribui para criar um tipo especial
de pessoa e moldar sua alma.
9. O trabalho dos adivinhos e sacerdotes, por
seu conhecimento. é usar os métodos e pala- 4. O conhecimento, ligado ao comportamento
vras que neutralizam o feitiço, a maldição e do homem e da comunidade, não é uma maté-
a ação dos mortos ofendidos e. com isso. ga- ria abstrata que possa ser isolada da vida. Ele
rantir a passagem dos seres humanos. paci- deve implicar uma visão particular do mundo

30 I Kitábu
e uma presença particular nesse mundo con- um objeto não significa o Que representa, mas
cebido como um todo. em Que todas as coisas o que ele sugere, o que ele cria.
se ligam e interagem.
10. O conhecimento transmitido oralmente,
5. A transmissão oral do conhecimento é o veí- pelo Verbo atuante, deve ser passado. do mes-
culo do poder e da força das palavras. que per- tre ao discípulo. por meio de sentenças cur-
manecem sem efeito em um texto escrito. O tas, baseadas no ritmo da respiração.
conhecimento transmitido oralmente. pelo
Verbo atuante. tem o valor de uma iniciação. 11. A palavra, Que tira do sagrado seu poder
Quenão está no nível mental da compreensão, criador e operativo, está em relação direta
porém na dinâmica do comportamento. Essa tanto com a manutenção Quanto com a ruptu-
iniciação é baseada em reflexos que operam ra da harmonia. no ser humano e no mundo
no raciocínio e que são induz:idos por impulsos Que o cerca.
nascidos no fundamento cultural da sociedade.
12. A palavra é divinamente exata, e o homem
6. Da mesma forma que, no ato da Criação. a deve ser exato com ela. Falar pouco é sinal de
palavra divina do Ser Supremo veio animar as boa educação e de nobreza.
forças cósmicas Que se achavam estáticas,
em repouso, a palavra humana anima. põe em 13. Sendo agente mágico por excelência e
movimento e desperta as forças Que se encon- grande transmisso['a de força, a palavra não
tram estáticas nas coisas. pode ser usada levianamente.

7. À imagem da palavra do Ser Supremo. da 14. A mentira. por sua vez. é uma lepra. uma
Qual é eco. a palavra humana põe em movi- tara moral. Quem falta à própria palavra ma-
mento forças latentes. que despertam e acio- ta seu eu e se afasta da sociedade. A língua
nam algo. como ocorre Quando um homem se Que falseia a palavra vicia o sangue daquele
ergue ou se volta ao ouvir chamar seu nome. que mente. Quando se pensa uma coisa e se
diz outra, rompe-se consigo mesmo - Quebra-
8. A palavra humana é como o fogo: pode cl'iar se a união sagrada, reflexo da unidade cósmi-
a paz. assim como pode destruí-Ia. Uma só ca, criando assim a desarmonia dentro e em
palavra inoportuna pode fazer estourar uma torno de si.
guerra, assim como uma simples fagulha pode
provocar um incêndio. 15. A palavra é força. O Verbo é a expressão por
excelência da força do ser em sua plenitude.
9. A palavra é a marca distintiva da superio-
ridade espiritual do ser humano sobre os ele- 16. A palavra é sopro animado e Que anima
mentos não-humanos do Universo e sua senha aquilo que expressa. Ela possui a virtude má-
diante das portas do reino invisível do Ser gica de realizar a lei da participação. Por sua
Supremo. E a linguagem não é apenas meio de virtude intrínseca. a palavra cria aquilo a Que
expressão e comunicação - ela é ação. Assim. dá nome. Ela tem. além de poder criador. a

Mooyo I 31
função de preservar e destruir. É uma força 3. Em todos os ramos do conhecimento. a ca-
fundamental que emana do próprio Ente Su- deia de transmissão é importante. Se não há
premo. O que Ele diz, é. Assim falou Hampâté transmissão regular. o que se comunica é
Ba; e disse Senghor. apenas conversa e não conhecimento. Quando
emitido dentro dessa cadeia, o conhecimento
IX - A oração torna-se uma força operante e sacramental.
1. Para que a palavra produza plenamente
seu efeito, é preciso que seja recitada ritmi- 4. O ensinamento tradicional deve estar unido
camente. porque o movimento tem necessida- à experiência e integrado à vida. até porque
de de ritmo. já que ele mesmo é buscado no há coisas que não podem ser explicadas. ape-
segredo dos números. É necessário que a pa- nas experimentadas e vividas.
lavra reproduza o vaivém, que é a essência do
ritmo. A palavra, cantada ou recitada. deve 5. As atividades humanas contêm sempre um
ser a materialização da cadência. Sua harmo- caráter sagrado ou oculto, principalmente as
nia cria movimentos que mobilizam as forças que consistem em atuar sobre a matéria e
que atuam sobre os espíritos, os quais são as transformá-la, pois cada coisa é um ser vivo.
potências da ação.
6. Cada função artesanal deve estar ligada a
2. Quando adquire o poder de agir sobre as um conhecimento esotérico originado numa
forças espirituais, a palavra torna-se oração. revelação inicial e transmitido de geração a
Mediante a oração busca-se evitar o perigo, geração. Os gestos de cada ofício reproduzem
reparar ofensas, impedir a desagregação. ga- simbolicamente o mistério da Criação primor-
rantir solidariedade e ajudar na obtenção de dial vinculado ao poder da palavra.
saúde, paz e prosperidade.
7. O que se aprende nas escolas, por mais
3. Pode-se orar falando, cantando ou dançan- útil que seja, nem sempre é vivido, enquan-
do; e também em voz baixa ou até mesmo aos to o conhecimento herdado encarna-se em
gritos. Assim disse Mveng. todo o ser.

X - O saber 8. Contudo. ninguém se torna sábio sem sair


1. A vida não se divide em partes distintas, de casa. O homem que viaja descobre e adqui-
portanto o conhecimento não pode ser sempre re novas informações, registra as diferenças e
aplicado ao uso prático. O que importa é a as semelhanças. e assim alarga o âmbito de
ciência da vida. sua compreensão.

2. O conhecimento livresco tem um valor for- 9. Por todos os lugares por onde passa. o
mal e importado, enquanto o saber informal viajante entra em contato com a história e
é adquirido pela experiência direta ou indi- as tradições locais, ouve relatos e sempre
reta. Os conhecimentos livrescos não confe- permanece algum tempo junto a um trans-
rem sabedoria. missor qualificado.

32 I Kitábu
10. O saber baseaejo no sentimento da unida- XII - A arte e sua finalidade
de da vida e pleno de ensinamentos. ao mesmo 1. A arte deve estar intimamente relacionada à
tempo materiais. psicológicos e espirituais. é um religião. F..assim. obedecer a certos dados cons-
tesouro insubsLituível. Assim falou Akinjoghin. tantes. como a assimetria e a desproporção.

XI - A propriedade e o trabalho 2. A assimetria serve para mostrar que nada


1. A terra pertence aos antepassados, a par- do que existe é fixo e estático. Todo objeto,
tir daquele que tenha sido o primeiro a tomar- mesmo inerte, é animado por um movimento
lhe posse. E as relações pessoais são sempre cósmico exercido segundo um ritmo que o ar-
mais importantes que os bens materiais. tista deve se esforçar para expressar.

2. Os objetos pessoais, conturlo. são uma ex- 3. A desproporção serve para evidenciar que a
tensão de seu rlono c participam de sua per- arte é uma linguagem criadora de signos. sím-
sonalidarle. O roubo arruína a solidariedade bolos de algo que se quer comunicar. A arte é
comunitária e destrói a harmonia social. conhecimento e não imitação da natureza.

3. Os objetos pessoais fahem parte da perso- 4. A forma de uma obra de arte deve variar
nalirlade rlo dono e. assim. sempre que possí- segundo as exigências espirituais. Assim,
vel. serão enterrados juntamente com ele. que algumas estátuas ou máscaras serão realis-
vai deles precisar na outra vida. Os bens in- tas, outras abstratas: e outras. ainda, apre-
destrutíveis serão herdados por filhos, sobri- sentarão formas fantásticas.
nhos e irmãos.
5. A noção rle beleza na arte deve assentar-se
4. O indivíduo deve trabalhar para viver e sempre em uma base de emoção e religiosida-
contribuir para a manutenção da comunidade. de. reflexo da vontade do artista de agir sobre
O vadio é um ser socialmente desprezível. as forças da vida.

5. O preguiçoso. porém. não é o indivíduo que 6. O objeto de arte. refletindo, assim, dados
trabalha pouco. mas aquele que não trahalha ao mesmo tempo espirituais e plásticos. deve
o suficiente para sustentar sua família e con- procurar expressar uma visão do Universo,
tribuir para a permanência do grupo. onde o ser humano é apenas parte de um todo
animado pela mesma força vital.
6. Se o trabalho for coletivo. a propriedade
também o será. Se o tmbalho for individual. a 7. À arte cabe conciliar o estético e o espiri-
propriedade se individualizará também. tual. o equilíbrio e o ritmo. Ela tem de ser a
expressão profunda de um pensamento, de
7. Técnicas e conhecimentos de aprendizagem uma concepção de mundo, de uma cultura. ou
e exercício complexos deverão ser aplicados e seja, de um humanismo na medida do homem.
desenvolvirlos por indivíduos escolhidos entre
os mais habilitados. Assim disse Obenga. 8. A arte deve ser fonte de vida. esperança,

Mooyo I 33
ritmo, intuição e saber. Deve seI' um diálogo pela palavra. pelo gesto. pela música, pelo
permanente entre o sagrado e o profano. a vi- canto. pela dança e pela escultura.
da e a morte. o humano e o divino. o prazer e
o sofrimento. a alegria e a tristeza, a vida in- 14. Mas a arte não é somcnte isso: ela é vida.
terior e o ritmo das fOl'ças cósmicas. É consciência dc si e dos outros; é participa-
ção nos movimentos das forças do Universo.
9. Essa dicotomia é que dará às esculturas
equilíbrio dinâmico. tensão dramática e digni- 15. A arte expressa a emoção do ser humano
dade soberana. Por meio dela é que as escul- diante da realidade indivisível do Universo. É
turas adquirem a imagem de repouso eterno a emoção mística. mola propulsora e fermen-
em solene calma. traduzindo assim a beleza to de toda procura e de toda descoberta. Por
terrível da morte. a obsessão do nada, o hor- isso, ela não deve ser um instrumento a ser-
ror de não mais existir. viço do desejo de poder, e sim uma técnica de
compreensão e de conhecimento.
10. A arte não deve ser objeto de luxo. mas
desempenhar sempre uma função social - o 16. A arte deve ser o testemunho da perfei-
propósito de seu ensino é ajudar cada um a ta união entre o pensar e o fazer, o sujeito e
encontrar o sentido da existência, a conhecer '0 objeto, a imagem e o símbolo. Não lhe ca-
sua razão de ser. Ela expressa uma cosmogo- be separar a essência da substância, o inte-
nia que traduz a situação do ser humano den- ligível do sensível. o racional do irracional.
tro do Universo infinito. o visível do invisível. o que se expressa do
que é inexprimível.
11. Toda sociedade e cada um de seus indiví-
duos devem desempenhar uma tarefa e estar 17. A arte deve proceder da razão estreita,
em harmonia com o conjunto do mundo. Portan- que é intuição, comunhão. participação. iden-
to, a arte tem de expressar uma ordem social. tificação do sujeito com o objeto. e não apenas
da visão que separa o sujeito do objeto - ela
12. A arte não deve figurar o absoluto. que é precisa ser testemunha incontestável de uma
inacessível. mas o conhecimento do Universo cultura que se irradia para além de fronteiras
em que o homem se situa. Isso é necessário meramente físicas e territoriais.
porque tudo é animado, mesmo a matéria
inerte, uma vez que o Universo. como um ser 18. A arte não se destina simplesmente a sa-
vivo, está em constante mutação. tisfazer o gosto ou dar prazer momentâneo às
pessoas. Sua finalidade é expressar a impor-
13. A arte deve estar intimamente ligada à vi- tância da vida humana.
da social da comunidade para ensinar como
se manifestam as forças superiores das cor- Hl. A arte é uma necessidade e. através dela.
rentes cósmicas. Contudo, não para domesti- o ser humano restabelece () equilíbl'io das for-
cá-Ias e dominá-Ias. e sim para se adequar ao ças que lhe são inerentes com os fenômenos
seu ritmo de ação. identificando-se com elas exteriores à sua própria natureza.

34 I KilálJu
20. A obra de arte mostra o homem em face 7. Pode-se também criar uma máscara para
da natureza; é a resposta do ser humano aos ser usada em cerimônias e procissões.
fenômenos exteriores; e é também ciência, Nessas ocasiões, ela se torna uma criatura
pré-ciência. adivinhação e magia. Assim ensi- com alma, que se junta às forças do bem e
naram Alioune Sene e Senghor. exorciza as forças do mal. Naquele momento,
quando seu portador se entrega ao ritmo da
XIII - As máscaras e a estatuária dança, os espíritos encarnam nela.
1. Vejamos, por exemplo, uma obra de arte
que representa um ancestral. O ancestral dei- 8. As máscaras são concebidas para existirem
xa uma herança espiritual na Terra. Nós o ve- dentro de um espaço e de um tempo específi-
neramos porque ele contribuiu. ao longo de cos. Passados esse tempo e esse espaço. elas
sua existência. para a evolução da sociedade. devem ser resguardadas de olhares humanos.
Os critérios estéticos de sua criação não im-
2. A figura do ancestral atesta o poder do plicam necessariamente a imitação das for-
indivíduo. e nós devemos tê-lo como exemplo. mas naturais.
imitando suas ações e assumindo. com igual
consciência. as responsabilidades que nos 9. Durante uma cerimônia ritual. o portador
são confiadas. da máscara deixa de ser um homem para se
transformar num avatar da divindade ou do
3. O ancestral. pela presença de sua heran- ancestral cuja presença está invocando. É
ça espiritual. assegura a estabilidade e a preciso, então. encontrar um signo ou um
solidariedade do grupo no tempo e sua coe- conjunto de signos. para distinguir o portador
são no espaço. Isso explica a importância em questão dos outros homens.
das máscaras e estátuas que representam
os ancestrais. 10. Os signos mais explícitos estão no ves-
tuário. A indumentária sugere a presença da
4. A efígie do ancestral é um símbolo que evo- divindade e mostra uma realidade que está
ca os atos desse morto ilustre. E a obra de ar- além da presença física do ser humano que a
te que o representa é o signo que manifesta usa. A máscara é, então, utilizada como um dos
sua ,presença espiritual entre os vivos. principais elementos dessa transformação.

5. Nossos ancestrais familiares e os dos go- 11. Ainda que exista uma forma convencional
vernantes. bem como as divindades e grandes para a máscara, o que o artista procura cap-
homens que realizaram ações em benefício de tar ao esculpi-Ia é a essência oculta e não a
toda a humanidade devem ser homenageados aparência daquilo que está sendo figurado. Na
por meio de obras de arte. máscara de um animal. por exemplo, ele vai
transcender a imagem exterior para atingir o
6. As máscaras e estátuas dedicadas aos an- ser do animal mítico. simbolizado, em sua es-
cestrais são símbolos que expressam a di- sência. pela forma do animal real. Além disso.
mensão da força e do poder de cada um deles. o estilo do artista provém de uma certa con-

Mooyo I 35
cepção que ele retira do sistema de crenças e 18. O escultor não pode limitar-se a reprodu-
do quadro conceitual que norteiam sua vida e zir detalhadamente as formas consagradas da
seu trabalho. E o objetivo de seu ofício é su- escultura, e sim usar o modelo tradicional-
gerir formas imateriais e não copiar direta- mente aceito como fonte de inspiração.
mente a natureza.
19. As formas e proporções de uma obra de
12. A máscara é como um instante de eterni- arte não precisam expressar a percepção
dade petrificado, embora os movimentos da exata das coisas, pois elas são suportes mo-
dança lhe dêem nova vida e a mergulhem no rais e intelectuais, meios de conhecimento
ritmo da existência humana. para uso do povo.

13. As máscaras não são concebidas com um 20. A obra de arte deve exprimir os proble-
fim puramente estético. São objetos mágicos mas do Universo e as soluções encontradas
ou representações simbólicas de ancestrais pelo homem em diferentes fases de sua
ou deuses, cujo propósito é, essencialmente, história. Veículo do pensamento, seu propósi-
desempenhar uma função. O artista deve to é transmitir à humanidade as leis sociais e
adaptar seu estilo à função do objeto, segun- cósmicas que governam o mundo no momento
do as tradições artísticas que herdou. de sua criação. E, enquanto existirem, deve-
rão conservar tal significado.
14. As esculturas de figuras divinas ou de ani-
mais não são representações visuais dos mo- 21. O objetivo do artista é mostrar a realida-
tivos figurados, mas seus substitutos ou evo- de do ser vivo e não sua imagem externa.
cações mágicas de sua presença. Por isso, Assim, ao dissociar e associar os elementos
deve-se dar ênfase à simbolização de suas naturais segundo suas próprias leis, ele deve
características principais. tentar eternizar e realçar, no ser vivo, o per-
manente e não o acidental. a essência e não a
15. Nas representações de um ser humano, a aparência, o constante e não o efêmero.
cabeça, sede do pensamento, será proporcio-
nalmente maior em relação ao resto do corpo. 22. Uma escultura que represente alguém que
morreu deve ser feita à imagem, mas não à se-
16. Quando dois personagens de categorias melhança do representado. Ela é a estrutura
sociais distintas aparecem numa escultura, que substitui o corpo cuja força vital voltou à
essa diferença é expressa no tamanho confe- Terra - nela, o sopro de vida passará a residir.
rido às figuras. E, quando o escultor resolve dar a esse sopro
uma forma diferente da anterior, é porque ele
17. As estatuetas de antepassados e divinda- entende que o sopro não quer retomar a forma
des devem ser objetos dotados de forte poder, que, por cansaço ou desconforto, já abandonou.
e sua eficácia como tal depende tanto dos ri-
tos de sua sacralização quanto da habilidade 23. Para o artista, o que deve contar não é a
do escultor que as confeccionou. aparência externa, mas a essência espiritual do

36 I Kitábu
ser humano. A aparência é um ornamento in- 5. A música tem de utilizar sons rigorosamen-
corporado à vida e não um de seus elementos. te modulados para expressar idéias e senti-
mentos ligados a um certo ritual ou função,
24. A arte é a obra coletiva de toda uma civi- transformando-os, assim, numa experiência
lização. O artista é apenas o intermediário nova e de outro nível, aumentando nosso pra-
encarregado de expressar a visão e as cren- zer e nossa compreensão.
ças coletivas em termos materiais. A arte é o
prolongamento da vida. E isso ocorre porque 6. Por intermédio do chamado aos espíritos
ela está impregnada de uma vida que lhe é ancestrais e entidades superiores, a música
própria. Assim expôs ala Balogum. cria um vínculo entre o mundo dos vivos e o
dos mortos e das divindades. Ela acompanha
XIV - A música e a dança também a transmissão oral da história. do sa-
1. A música não deve ser somente uma arte ber e dos contos e as várias formas de recita-
do espírito e da alma, mas também uma arte ção poética.

do corpo. No corpo, o ritmo da respiração e da


circulação. bem como o estado de vigília e o 7. A música é um veículo de difusão de conhe-
cimentos e, por conseguinte, de educação.
do sono. mantêm a vida, religando-os aos rit-
Tem de estar presente em todas as etapas do
mos primordiais do cosmo.
trabalho. Atividades como cultivo da terra,
caça e pesca e preparo de bebidas, entre ou-
2. À música cahe expressar, no plano humano,
tras. devem sempre ser realizadas ao som de
a harmonia dos vastos ritmos do Universo.
uma música específica.
Assim. a dança deve ser um estado cm que °
dançarino se vista das forças vitais que gravi-
8. Existe uma música para cada etapa da vida
tam em torno dele para estar de acordo com
humana: nascimento, infância, puberdade e ida-
os ritmos do cosmo, identificando-se com eles
de adulta; e também para casamentos e funerais
e participando da ordem universal.
e para a sucessão após a morte. Por meio da
música e da dança transmitem-se as tradições
3. A música não é um luxo, mas um modo de
que cercam o nascimento de uma criança e que
vida. Por meio dela o ser humano expressa.
começam ainda na gestação, quando se pede ao
nas festas. sua alegria de viver: nas ocasiôes adivinho o anúncio de um parto feliz.
solenes, seu orgulho e refinamento: nos ri-
tuais religiosos, sua fé e sua contrição: em tu- 9. Durante a infância, os passatempos musi-
do, seu amor: no trabalho, seu vigor: no lar. cais são preciosos elementos educativos e estí-
sua simplicidade: c na guerra, sua coragem. mulos para a criatividade. A puberdade é uma
fase solene que se celebra com música e dan-
4. A música deve ser o exemplo vivo do patri- ça. Os ritos de iniciação que se cumprem nesse
mônio cultural de um povo. Ela concentra to- período proporcionam ao jovem, com o indis-
da uma série de associações sociais e cultu- pensável auxílio da música, uma instrução sis-
rais e não pode ser abstraída do seu contexto. temática, destinada a ajudá-lo a passar da in-

Mooyo I 37
fância para a idade adulta e a transmitir-lhe os 4. Contudo. no palco, o mais importante é o ho-
costumes e os ideais considerados importantes mem e não o Queele interpreta. Assim, deve-se
para o bem-estar permanente da comunidade. ver a encenação como manifestação artística e
não como imitação servil da realidade.
10. Os rituais de casamento são sempre mo-
mentos de grande intensidade dramática e 5. Não se devem levar ao palco objetos ou
musical. A música Queacompanha os ritos fu- elementos reais - tais como uma casa ou um
nerários, por sua vez, é sempre triste e pun- automóvel -, mas representações teatrais
gente, ao contrário das alegres danças e mú- dessas coisas. Assim expôs Demas Nwoko.
sicas rituais com Que se celebram a entroni-
zação de um herdeiro. XVI - Adivinhação e profetismo
1. Um ser humano pode manter contato com
11. A música está presente na vida humana, divindades ou espíritos dos antepassados por
do berço à sepultura, como parte viva de uma intermédio de sonhos. de práticas de adivi-
cultura Que transG,ende e transforma a expe- nhação ou de revelações proféticas.
riência cotidiana. No Universo, todas as coisas
dançam uma mesma música cósmica, cujos 2. A adivinhação só pode ser praticada por uma
ritmos e melodias traduzem as palavras das pessoa dotada de poderes especiais. desenvol-
forças espirituais. Assim falou Mbabi-Katana. vidos por meio de um processo iniciático.

xv - O teatro e as diversas formas de arte 3. Muitos adivinhos também profetizam. mas


1. As diversas formas da arte não devem ser- o dom do profetismo é mais profundo Queo da
vir meramente ao objetivo de diversão e lazer. adivinhação.
A dança. por ocasião de festividades e rituais
específicos, por exemplo, só raramente deve 4. O adivinho utiliza técnicas aprendidas Quan-
ter a finalidade de puro entretenimento. do da iniciação, e o profeta exerce um dom re-
cebido diretamente do mundo espiritual.
2. A única grande exceção a essa regra é a ar-
te do contador de histórias ou a do menestrel 5. O adivinho pode, interpretando o oráculo.
errante. cujo objetivo é divertir os ouvintes me- indicar fatos futuros. além dc descobrir cau-
diante remuneração. Mas, mesmo nesse caso, sas de doenças, malefícios e outros eventos.
a finalidade principal dos contos e epopéias Mas o profeta é capaz de prever acontecimen-
deve ser a exposição de princípios morais ou o tos e. entrando em contato direto com os es-
relato de episódios importantes do passado. píritos. conhecer o significado profundo dos
sonhos e de outros sinais.
3. Todo ser humano, seja rei ou escravo, se-
nhor ou servo, é capaz de fruir a arte pura. No 6. O profeta tem a capacidade de ouvir vozes
teatro, por exemplo. todos podem apreciar Que as outras pessoas não percebem e de ver
uma peça e experimentar uma satisfação es- o Que normalmente é invisível. Assim disse
tética, baseada em sua filosofia de vida. Mbiti; e falou Kagame.

38 I Kitábu
VOLUME 1

O Antigo Legado -
História e Tradições
Negro-Africanas

LIVRO 1 CONGO


Introdução

Canga. Guiné Meridional ou Guiné


Inferior eram. à época da escravidão
negra. os nomes usados para designar
toda a região limitada a oeste pelo
oceano Atlântico. formada pela escarpa
ocidental do planalto da alta África,
do cabo Lopes. ao norte, para além do
cabo Frio. na atual Namíbia.

CAPiTULO Dos congos e povos vizinhos


I- o povo Bacongo suportar a fome, os mais velhos resolveram ir
1. Na Antigüidade. não havia ninguém na re- para Banda-Mpútu. Se conscguissem atraves-
gião do baixo Canga. Os primeiros hahitantes sar a parede impenetl'ável da floresta. chega-
vieram do norte. da região de Kayinga. terra riam lá. I'; lá reconstruiriam suas vidas.
de altos capinzais, onde antes tamhém não
havia ninguém. 6. Foi assim Que, (Iesccndo direto para o sul,
esses novos migrant.es atravessaram a flores-
2. Lá, os primeiros migrantes já teciam os pa- ta equatorial e se espalharam pela bacia do
nos Que vestiam e forjavam suas ferramentas rio Nzaidí, Zaire ou Congo.
e armas de defesa.
7. Foi essa leva de migrantes que deu origem
3. Os ancestrais desses migrantes lá chegaram ao povo Quicongo. Ao atravessarem o rio
nos primeiros anos da Era Cristã, vindos das Zaire, seu comandante, tendo encontrado um
savanas de Adamauá, abaixo do Saara. de on- ótimo local para a prática da agricultura,
de empreenderam duas grandes migrações. água abundante. caça e pesca. instalou-se
Uma delas contornou a floresta equatorial e al- com seu povo na região e deu-lhe o nome de
cançou a região dos grandes lagos, local em Kongo-dia-Ntotila.
Queparte dos migrantes se fixou; e outra parte
seguiu até a porção mais austral do continente. 8. Depois de instalado, o rei iniciou um bem-
sucedido movimento de conquistas em várias
4. Mas, um dia, uma terrível seca se abateu direções. entregando o governo de cada uma
sobre Kayinga. Os capinzais secaram, lavou- das regiões dominadas a um parente seu.
ras e árvores frutíferas morreram, a fome se
instalou. enfim. 9. Formaram-se assim os vários subgrupos
quicongos: vilis, iombes. cacongos, oias, soron-
5. Depois de muito sofrimento e incapazes de gos. muxicongos. sossos. zombos. iacas. su-

40 I Kitábu
coso pombos. luangos. guenzes, pacas, batas, que, entre cangas, angolas e descendentes, o
súndis e coies. número nove tem caráter sagrado.

10. No princípio do século XV. o rei do Congo 4. Um desses sobrinhos do rei do Congo era
(intitulado Muenc-c-Kongo ou Manicongo) Li- Makongo, que Linha um fiel escravo chamado
nha autOl'idac!e sobre os reinos de goyo, Lencha. Sua grande habilidade era extrair vi-
Cacongo e Luango, entre outros, até o atual nho e azeite das palmeiras. O dendê e o vinho
Gabão: e o rei do Ndongo também estava a ele faziam do rei um homem feliz. Certa ocasião,
submetido. No momento da chegada dos por- Lencha deixou o vinho fermentar durante três
tugueses. sua capital já era Mbanza-Kongo. dias e o levou ao rei. que o bebeu com satis-
fação e sem limites, desconhecendo os efeitos
/I - Fundação do Luango desse vinho mais forte.
1. Contam outros mais-velhos que. um dia, o
grande soberano de Angoio mandou seus fi- 5. O rei caiu nurri profundo sono e, como seus
lhos cruzarem o rio Zairc para fundarem os sobrinhos também não conheciam os efeitos
reinos eJeCaeongo e Luango. Esse rei, dotado das libações excessivas. pensaram que o es-
de grande poder e fOl'ça de vontade. teve um cravo o havia matado. Os sobrinhos, então. di-
terceiro filho com uma escrava branca, o qual zem uns, enforcaram Lencha no galho de um
seria o antepassado da dinastia dos chamados baobá; dizem outros que o queimaram vivo. O
Condes de Sonho. Oll Soio. certo é que o monarca. ao voltar a si. enfure-
cido com a ação dos sobrinhos, mandou matá-
2. O rei de Cacongo, antes de assumir o trono. los. Mas eles escaparam cruzando o rio Zaire,
devia casar-se com lima princesa de sangue e Makongo distribuiu suas terras. formando
real do Congo, enquanto o rei do Luango devia nove reinos.
desposar uma princesa de Cacongo. Seus po-
vos eram nômades e se expandiram por ex- 6. Com o agora também rei Makongo viajava
tensas franjas da África, ocupando os atuais sua irmã. chamada Mangoio. Ela insistiu para
territórios de Angola. do Congo-Brazzaville e que lhe permitissem viver perto do mar.
do Congo-Kinshasa. Em lima dessas peregri- Kalunga. que tanto adorava. Depois de muito
nações. esses povos cruzaram o rio Lulondo. discutir, seu irmão deixou com ela escravos e
limite natural do reino de Cacongo, também soldados e lhe entregou um inquice (conjunto
chamado Mbele por causa de um recife em de objetos sacralizados representativos de
forma de faca que adentra suas águas. uma determinada divindade) protetor. dentro
de um cesto (ntande). Ao entregá-lo, advertiu
3. Os nove clãs descendentes do rei do Congo que nunca o colocasse no chão. e assim asse-
se originaram de Vua Li Mabene, a rainha dos guraria sua proteção para sempre.
nove seios. Ela amamentou os sobrinhos do
rei. que puderam atl'8vessar o rio com a força 7. Mangoio e seu séquito partiram para a lon-
que lhes deu sua mãe-de-Ieite. fortalecendo, ga viagem até o mar. Ao chegarem a seu desti-
por sua vez, os seus descendentes. Por isso é no. muito cansados, colocaram sua bagagem

Congo I 41
na terra e se deitaram na areia para dormir. 4. De seu berço primitivo. em Capanga no
Quando acordou. Mangoio percebeu que não atual Congo-Kinshasa. o império tunda expan-
podia levantar o cesto que continha o inquice e diu-se de Sandoadilolo até Angola e estendeu
chamou seu irmão. Este a recriminou por seu sua influência até o Cuílo. O nome "lunda" sig-
descuido e lhe disse que. dali em diante. o pe- niFica "amizade" e. mais que designar lima et-
queno bosque onde haviam acampado se cha- nia. remete aos laços que uniram entre si di-
maria Nto Ntande ("vale do cesto") e seria o li- versos povos. Um dos primeiros soberanos
mite de suas terras. ponto de reunião de ambos (intitulados iala-muata) eleitos pelo povo lun-
e o lugar para tratar dos problemas dos reinos. da foi urna mulher. a Rainha LuejL que osten-
tava o título de suana-mulunda. "mãe do povo
11I - Os bantos do Oriente - Lubas e lundas lunda". Durante seu reinado. ela estendeu as
1. Dos povos que vieram do norte. da região fronteiras de seu império na direção nordes-
abaixo do Saara. tangidos pela seca. outra te. graças à conquista do país bateque.
parte foi. em nova e progressiva migração. da
bacia do Zaire para nordeste. avançando até 5. Mas o verdadeiro consolidador do poder
as margens dos lagos Kisale e Upemba atra- lunda foi o muata Yamwo. que reinou de 1660
vés do rio Lualaba. Entre esses povos. que a 1675. e que. pela força das armas. estendeu
trabalhavam o ferro e o cobre. alguns tinham o império para oeste. até Kasai; na direção
contatos com mercadores árabes estabeleci- sul. até o curso superior do Zambeze; e. para
dos na costa suaíle. no oceano Índico. leste. além do rio Lufira.

2. No século XV.o clã dos Bassonguês. lidera- 6. Um de seus generais. Musiri. submeteu
do por Kongolo. representante da serpente do todos os povos estabelecidos de Lubudi até o
arco-íris. fundou o primeiro reino luba. Por rio Luapula. impondo chefes lundas - chama-
volta de 1585. lIunga Mbili assassinou o rei dos muata. muenge ou cazembe - e a obriga-
Dugolo. seu sobrinho. e fundou o segundo rei- ção do pagamento de tributos a todos eles.
no luba. Grande conquistador. lIunga Mbili ex-
pandiu seu império até o rio Buchi Mai. a oes- 7. Entre os lundas. o imperador era sagrado e
te; para o norte. até Maniema; e. na direção' obedecido com um respeito religioso. O ceri-
leste. até o rio Luvua. monial imperial e as restrições feitas ao po-
der absoluto do monarca assemelhavam-se
3. O décimo imperador dessa dina·stia. que aos dos bacubas. com quem os lundas sempre
reinou por volta do século XVIII. foi Kumvimbu mantiveram relações estreitas.
Ngombe. grande administrador e estrategista
militar. que. guerreando sem cessar. estendeu 8. As cidades lundas eram fortificadas e cer-
as fronteiras de seu império até a margem cadas de fossos com cinco a seis metros de
ocidental do lago Tanganica e conquistou toda profundidade. Mas em razão de seus contatos
a parte setentrional e central da região de com portugueses. vindos do Congo. e árabes.
Catanga. Os lubas são famosos como esculto- provenientes do Índico. o comércio escravo se
res e dançarinos. estabeleceu e se propagou. Então. no final do

42 I Kitábu
século XIX. quando vencidos pelos quiocos. os moniais, guarnecidas de búzios. pesavam cer-
lundas já não eram nem sombra do que foram ca de 75kg.
no passado.
3. Os nobres do clã Buxongo tinham apurado
IV - Os quiocos senso artístico e um dos reis inaugurou a es-
1. No nordeste do que é hoje Angola. vivem os tatuária· de madeira, fazendo esculpir sua
quiocos. Antes. eles ocupavam um pequeno própria figura.
território próximo às nascentes do Kasai e do
Cuango. Mas. enérgicos caçadores. comer- 4. Seu rei mais conhecido foi Xamba Bolon-
ciantes. usurpadores e aventureiros. eles gongo. 93° soberano de uma dinastia iniciada no
chegaram até o país dos ovimbundos. ao sul. século V.Ele proibiu o uso do sabre de arremes-
Atacando caravanas e aldeias. faziam prisio- so, introduziu a cultura do tabaco e do milho. o
neiros e escravos. trabalho com ráfia e a transformação desse
material em tecido. Seus sucessores, Mbongo
2. Quando em terras alheias. eles ficavam Lengu e Mbomboxe. expandiram as fronteiras
durante algum tempo sob a autoridade dos che- do reino e criaram um exército permanente.
fes locais. Mas. logo que surgia uma oportuni-
dade. submetiam os legítimos proprietários. VI - Mbanza-Kongo
1. No final do século XIV. Nimi-a-Lukeni. nobre
3. Foi assim que os quiocos tomaram o poder dissidente do Império luba. desceu da região
dos lundas e estenderam sua influência até o de Catanga para fundar Mbanza-~ongo. a ca-
mais extremo oeste. sendo reconhecidos pital do seu reino. celebrando uma aliança
como criadores de arte refinada. notadamen- com os bacongos e bundos da região. Foi
te no campo da escultura. quando recebeu o título de muene-e-Kongo
(senhor do Congo), expressão que está na
V - Os bacubas origem do termo "manicongo". Ele é o ferrei-
1. O clã principal dos bacubas. os buxongos. ro que dá ao seu povo as armas de guerra e os
levava o nome do sabre de arremesso. sua ar- utensílios agrícolas: é o Ngangula-a-Kongo,
ma principal e por eles manejada com im- forjador do Estado e da nação do Congo.
pressionante habilidade. Era um povo de ar-
tistas profundamente ligados aos costumes e 2. Nimi-a-Lukeni era filho de Nimi-a-Nima.
tradições ancestrais. Um funcionário real. simples chefe de aldeia na região de Kurimba.
guardião das lendas - o moaridi. espécie de e de Lukeni-Iua-Nanzi. filha de Nessa-ku-Kilau.
griô -. tinha situação privilegiada na corte.
3. Jovem ainda, Nimi-a-Lukeni estabeleceu-se
2. O reino de Bakuba foi particularmente flo- às margens do rio Cuango. cobrando pedágio
rescente no início do século XVII. O rei vivia dos viajantes que o atravessavam.
numa residência artisticamente decorada, en-
volta por uma alta muralha e dividida interna- 4. Uma vez. sua tia reclamou isenção do tribu-
mente em vários aposentos. Suas vestes ceri- to. com o argumento de ser irmã do velho che-

Congo I 43
fe. Considerando aquela reivindicação uma resta sagrada. onde eram enterrados os reis:
afronta, Nimi-a-Lukeni mandou que abrissem por esse motivo. o corte de árvores naquele
o ventre da tia, que estava grávida, o que cau- local era rigorosamente proibido. Ao sul, fica-
sou a cólera do pai da criança em gestação. va Mbazi-a-Nfumu. a grande praça, na Qual.
debaixo de um imenso baobá. o rei julgava as
5. Os membros jovens da família tomaram o questões que lhe eram submetidas. Diante do
feito brutal como uma demonstração de intre- rei, as pessoas se prosternavam e jogavam
pidez e puseram-se do lado de Nimi-a-Lukeni. terra na cabeça, antes de lhe pedirem a bên-
À frente deles. Nimi-a-Lukeni assumiu o títu- ção. Em ocasiões especiais, o rei levantava-se
lo de rei (ntinu), e marchou na direção oeste, do trono e executava uma dança solene junto
numa expedição de conquista. com as demais autoridades.

6. O país que ele ia invadir era habitado por 12. Ampliando suas conquistas até o rio
um povo formado por numerosos pequenos Cuanza, ao sul. Nimi-a-Lukeni nomeou seu tio
clãs, chefiados por régulos independentes. para a província de Mbata e confiou vastos ter-
ritórios a outros de seus seguidores e restituin-
7. Descendo, então, do baixo Congo, vindo do do ao filho do Muana Mbangala algumas terras.
norte de Maiombe, Nimi-a-Lukeni chegou a
Nsundi. Naquela região, celebrou aliança com 13. Auxiliado pelo grande Nganga Angoio, en-
o chefe do clã Nsaku, que o curou de uma viou os filhos através do rio Zaire e foram eles
doença nervosa. aspergindo-lhe, com uma os fundadores dos reinos de Cacongo e
cauda de búfalo, um preparado de ervas. Luango. Um terceiro filho seu fundou o Soio.

8. Nessa aliança, a povoação dos Nsaku, 14. Por isso é que o rei do Cacongo, antes de
chamada Mbata. foi anexada. fato que marcou assumir o trono, era obrigado a desposar uma
a fundação do Reino do Congo. princesa de sangue real do Congo, enquanto o
rei do Luango devia casar-se com uma prince-
9. O reino compreendia, no início, as provín- sa de Cacongo.
cias de Mbemba, Mbata. Mbamba, Soio,
Nsundi e Mpangu. Tinha, então, como vassa- 15. Durante essas guerras de conquista,
los. os reinos litorâneos de Angoio. Cacongo e alguns membros da família de Nimi-a-Lukeni.
Luango, localizados ao norte do rio Zaire. descontentes com um homicídio que vitimou
um de seus integrantes, emigraram do Kongo-
10. Numa sucessão de conquistas, Nimi-a- dia-Ntotila para outras regiões, inclusive
Lukeni fundou Mbanza-Kongo. a capital de Cabinda. Por isso é que nas regiões conquis-
seu reino, sobre um rochedo situado no terri- tadas os habitantes se referem a Kongo-dia-
tório do chefe Ngangula Muana Mbangala, o Ntotila como Ki Nkaka, "terra dos avós".
senhor dos mbangalas, que derrotara.
VII - Ndongo-a-Ngola
11. A capital compreendia. ao norte. uma f10- 1. Ndongo. terra dos ambundos, era uma região

44 I Kitábu
comandada por vál'ios chefes. o que facilitou. tes nas lavras. o escravo vice-rei espalhou o
mais tarde. sua conquista e anexação pelo boato de Que inimigos do velho Ngola-Musudi
Kongo-dia-Ntotila. tinham vindo para matá-lo.

2. Um dia. um desses chefes recebeu de uma 8. Aproveitando-se da confusão. e a pretexto de


divindade conhecimentos Que o tornaram um salvá-lo. o escravo carregou o rei ancião para
ferreiro muito hábil e talentoso. capaz de fa- dentro da floresta e lá o assassinou a facadas.
bricar as melhores ferramentas e armas de
caça e de guerra. 9. Voltando com a notícia de Queo rei tinha su-
cumbido aos inimigos. o escravo vice-rei assu-
3. A arte do ferreiro é uma dádiva das divin- miu as insígnias do poder. convencendo Zunda-
dades. pois é ele Quem fabrica os instrumen- dia-Ngola de Que. por conhecer os segredos do
tos necessários à abertura dos caminhos e ao governo. conservaria o poder para ela até Que
cultivo do solo. E. assim. todo ferreiro é um chegasse seu tempo de assumir o trono.
intermediário entre sua comunidade e os es-
píritos dos antepassados. 10. Mas o usurpador. castigado pelas divinda-
des. foi vítima de morte repentina. e Zunda-
4. O chefe ambundo. então. tornou-se conhe- dia-Ngola assumiu finalmente o poder.
cido pela habilidade com Que manejava as fer-
ramentas e por sua forma prestativa de so- 11. A nova rainha governou sabiamente. con-
correr todas as pessoas em suas necessida- Quistando a estima de seu povo. mas também
des. Por isso. os outros chefes do Ndongo pro- envelheceu sem filhos. E esse fato despertou
clamaram-no chefe supremo. com o título de a cobiça de Ngola-Kilwanji-Kisama. soba (go-
ngola. Que significa "poderoso". E seu nome vernante) de Kisama. marido de sua irmã.
passou a ser Ngola-Musudi ou Ngola-Ngangula. 1Umba-dia-Ngola. Ele almejava o poder cen-
o rei Que trabalha o ferro. Ele foi chamado trai para um de seus dois filhos.
ainda Ngola-Inene. o "grande ngola".
12. Precavendo-se contra um golpe. Zunda
5. gola-Musudi teve. com sua Ngana-Inene- pediu a 1Umba Que lhe enviasse os sobrinhos
a grande senhora. dona de sua casa e sua mu- à corte para iniciá-los nos misteres do gover-
lher principal - três filhas. entre elas Zunda- no. Mesmo desconfiado. Ngola-Kilwanji-
dia-Ngola e 1Umba-dia-Ngola. mas nenhum fi- Kisama enviou um dos filhos: e este. assim
lho homem. Que chegou à sede do reino. foi assassinado.
juntamente com seus acompanhantes. à exce-
6. Quando ficou velho. já pensando em fazer ção de um.
de Zunda sua sucessora. nomeou um escravo
como seu vice-rei. 13. O sobrevivente da chacina. voltando a
Kisama. informou ao soba o acontecido. o Que
7. Um dia. estando Zunda nos campos. cum- provocou a invasão da corte. e Zunda foi mor-
prindo o ritual de lançar as primeiras semen- ta pela irmã.

Congo I 45
14. Proclamada rainha. Tumba-dia-Ngola en- Mbandi-a-Ngola-Kilwanji. um dos mais despó-
tregou o governo ao marido. que o recusou. di- ticos entre os reis do Ndongo.
zendo-se satisfeito em ser seu escravo e seu
mulumi (favorito). 21. Esse rei tirânico foi sucedido por um de
seus filhos. Ngola-Mbandi. e este por sua irmã
15. Diante da insistência de Tumba. ambos Nzinga-Mbandi. a célebre Rainha Jinga de
concordaram que seu filho gola-Kilwanji-Kia- Matamba. Política e diplomata consumada.
Samba assumisse o trono. o que logo ocorreu. comandante hábil. ela travou uma luta sem
quartel contra os portugueses pela indepen-
16. No poder. Ngola-Kilwanji-Kia-Samba teve dência de sua gente e pela sobrevivência do
diversos filhos com várias de suas mulheres. seu reino. Jinga de Matamba viveu na atual
Aumentando muito seus domínios. em vitorio- Angola. de 1582 a 1663.
sas guerras de conquista. entregou aos filhos
o governo de vários sobados. Seus herdeiros 22. Durante longo tempo. ela resistiu aos ata-
tornaram-se. então. chefes das principais li- ques dos invasores portugueses em busca
nhagens de seu povo. de escravos.

17. Ndambi-a-Ngola. filho preferido de Ngola- 23. Um século antes de Jinga. em 1482. o por-
Kilwanji-Kia-Samba. sucedendo seu pai. mos- tuguês Diogo Cão chegou ao estuário do rio
trou-se um soberano despótico e violento. Congo. Poucos anos depois. com a devolução de
Matou quase todos os irmãos. à exceção de reféns capturados tanto por portugueses
dois. Um deles refugiou-se no Libolo e o outro. quanto por forças do reino. estabeleceram-se
em Matamba. em um local bem distante. relações diplomáticas entre o Congoe Portugal.

18. O sucessor de dambi-a-Ngola foi Ngola- 24. Em 1491. depois de a primeira missão
Kilwanji-kia-Ndambi. herói dos ambundos. diplomática conguesa ter sido enviada à
que levou suas conquistas muito longe. Bravo. Europa. o manicongo Nzinga Nkuyu é batiza-
liberal e generoso. adorado por seu povo. tor- do na fé católica e Mbanza-Kongo recebe.
nou-se. após a morte. o principal ancestral dos portugueses. o nome de São Salvador.
dos ambundos.
25. Não obstante. o fim de século XV assina-
19. Rei militar. Ngola-Kilwanji-kia-Ndambi tin- lou o apogeu do reino do Congo que. estenden-
giu de sangue as margens dos rios Dande. do-se para o norte até o rio Ogué (no Gabão
Zenza. Lucala e Cuanza. onde. na ilha de En- atual). para o sul até o rio Cuanza e para o
sandeira. plantou uma árvore que até hoje leste até o rio Cuango. se subdividia em seis
marca o local de seu culto. províncias principais: Mbamba. Mbata. Mpangu.
Nsundi e Sonio. Cada uma dessas províncias
20. Morrendo sem deixar filhos. Ngola- tinha seu governante e estendia seu poder aos
Kilwanji-kia-Ndambi foi sucedido por Jinga- reinos vassalos de Ndongo. Matamba. Luango.
Ngola-Kilombo-kia-Senda. que deu lugar a Angoio e Cacongo.

46 I Kitábu
26. A monarquia era eletiva e a organização 3. Um desses grupos. chefiado por Temba
social e política se baseava nos clãs (kanda), Ndumba, atingiu a Serra Leoa. Outro, coman-
cujos chefes escolhiam o manicongo. dado por Kisuva, seguiu em direção a Moçam-
bique. e foi abatido pelos portugueses em Tete.
27. O rei tinha ministros para guerra e rela-
ções exteriores, entre outros, além de um exér- 4. Zimbo, indo em socorro de Kisuva. acabou
cito numeroso e bem organizado. bem como por se estabelecer às margens de Cunene.
funcionários encarregados da coleta de tributos.
5. Um dia. Temba Ndumba, a grande mãe dos
28. Em 1508, foi entronizado um novo manicon- jagas, resolveu restaurar, entre seu povo. as
go, Nzinga Mbemba, cujo filho se tornaria, dez leis estabelecidas por seus antepassados.
anos depois, o primeiro bispo africano. Sob esse Para assegurar o sucesso na guerra. ela im-
rei, Portugal intensificou sua influência na pôs a quijila - um conjunto de leis que estabe-
região. o tráfico de escravos se genel'alizou, au- lecia tabus, como o de comer carne de porco.
mentaram as guerras com os reinos vassalos e de elefante e de serpente.
a produtividade decresceu assustadoramente.
6. Pelas leis quijila, os jagas eram obrigados
29. Em 1555. o rei (ngola) do Ndongo rompeu também a manter vários preceitos de caráter
a relação de vassalagem com o manicongo e guerreiro e religioso.
a guerra foi declarada. Os governadores das
províncias passaram a capturar prisioneiros e 7. Temba Ndumba restabeleceu. ainda. a ins-
a vendê-los, por conta própria. como escravos. tituição do quilombo. organização social alta-
incentivados. principalmente, pelos mercado- mente militarizada. acampamento quase per-
res portugueses estabelecidos em São Tomé. manente, onde não podiam viver crianças.

30. A partir daÍ, o reino experimentou uma rá- 8. Os jagas nada faziam sem antes realizar
pida decadência. acelerada pcla invasão dos seus sacrifícios aos inquices (divindades) 'Ô

jagas, ou imbangalas. antepassados. Antes do nascer do sol, o chefe


tomava seu lugar com muita pompa. a cabeça
VIII - Os jagas enfeitada de penas de pavão, ladeado por dois
1. Durante o reinado de Ngola-Kilwanji-Kia- ritualistas.
Ndambi, quando no Kongo-dia-Ntotila reinava
um soberano do clã Mpanzu inteiramente domi- 9. O chefe cercava-se de quarenta ou cin-
nado por Portugal, os jagas invadiram Mbanza- qüenta mulheres que. dispostas em círculo à
Kongo, a capital do outrora grande reino. sua volta, cantavam e dançavam. tendo nas
mãos rabos de zebra.
2. Em meados do século XVI, os jagas chegaram
ao Congo. comandados pelo chefe Zimbo. que to- 10. No centro do círculo. acendia-se uma gran-
mou a capital do reino e dividiu seus exércitos de fogueira sobre a qual colocava-se pó de pem-
em grupos que subjugaram as diversas regiões. ba (argila branca) dentro de um vaso de barro.

Congo I 47
11. Os ritualistas, entoando as palavras e Ofício que. em 1632. resolveu levá-lo a julga-
cânticos propícios, pintavam seguidamente a mento. o que não conseguiu. pois Cazola em-
testa. a fronte. o peito e a barriga do chefe. brcnhou-se no mato e nunca mais Foivisto.

12. Depois.entregavam-lhe o seu casengala(uma 4. Mais tarde. após a Páscoa de 1704, a velha
espécie de machado), dizendo-lhe que ele agora MaMa, de nome cristão Apolônia. afirmou a um
estava pronto para enfrentar seus inimigos. padre capuchinho ter visto a Virgem católica.
suada e exausta. dizendo que seu filho Jesus
13. No fim do século XVI, os portugueses. Cristo estava muito aborrecido e que. por isso.
exercendo domínio sobre o manicongo. consi- o monte Quibando. onde residia o manicongo.
deravam-se já senhores do reino. Contudo, as iria arder e desabar se o rei não abandonasse o
revoltas populares espocavam, o que acabou local imediatamente. A notícia da visão e da
levando à deposição do monarca e à retirada proFeciada MaFuta espalhou-se e criou o ambi-
dos portugueses para a região vizinha. a futu- ente para o surgimento de Kimpa Vita.
ra Angola.
5. Batizada com o nome eleBeatriz. Kimpa Vita
IX - O nascimento do sincretismo era também curandeira e ritualista (nganga).
1. Em 1491, o manicongo Nzinga Nkuyu rece- E foi assim que começou a incorporar o espí-
beu o batismo católico e o nome cristão de rito de Santo Antônio, da Igreja Católica. e Fun-
João, ao mesmo tempo em que Mbanza-Kongo dou a seita chamada antonianismo.
passou a se chamar São Salvador. Enquanto
isso, travava-se viva luta sucessória. como 6. Segundo Kimpa Vita. o Dcus católico queria
reflexo do antagonismo entre a religião tradi- a entronização de um novo rei, mas as dispu-
cional e o cristianismo europeu. tas pelo poder provocavam a cólera divina.
Assim, os pretendentes deveriam reunir-se na
2. A Nzinga Nkuyu sucedeu Afonso I, nascido igreja de São Salvador. onde uma coroa des-
Nzinga Mbemba, cujo filho tornou-se. em ceria do céu na cabeça do escolhido.
1518. o primeiro sacerdote católico aFricano.
Sob esse rei. o catolicismo combateu o culto 7. Usando como símbolo de santidade uma co-
aos inquices e antepassados, proibindo. sob roa de fibras da casca da mulemba ou do bao-
pena de morte. que alguém conservasse inqui- bá. os sacerdotes antonianos combatiam o ca-
ces em casa ou os portasse. tolicismo e não adotavam a cruz cristã, por a
considerarem um símbolo de morte. Segundo
3. Tempos depois, na região de !lamba, eles, o Deus cristão estava indignado com os
F'rancisco Cazola, antigo quimbanda (sacerdo- seres humanos e era preciso apaziguá-lo. re-
te) batizado na Igreja Católica. proclamando- zando-se o rosário pela manhã. ao meio-dia e
se filho do Deus dos portugueses e, utilizando à noite. Mas era necessário também pedir mi-
alguns atributos cristãos. conquistou grande sericórdia a Jesus, Maria e kadiankema ou
Fama como curandeiro e ritualista. Entretan- Nkadiapemba. Além disso. era preciso purifi-
to. seu nome tornou-se conhecido do Santo car-se. tomando banhos de chuva.

48 I Ki tábu
8. Em17ü6. Kimpa Vita foi queimada no fogo anos. o Reino do Canga finalmente sucumbiu
da Inquisição. às investidas colonialistas no século XIX.
quando suas terras foram repartidas entre
9. Independente ainda por cerca de (!uzcntos França. Bélgica e Portugal.

CAPiTULO 2 Do saber e do espírito congo


I- o grande saco da existência 5. A Terra - o fútu que nos foi preparado por
1.1\ Terra. nosso planeta. é um fútu. um gran- Kalunga - também tem seu inquice. seu poder
de saco em que Kalunga (a divindade supre- vital oculto. Não é possível compreender in-
ma) colocou tudo o que torna possível a vida teiramente esse poder em sua complexidade.
e depois fechou. com um nó bem apertado. porque não fomos nós. seres humanos. que
Esse saco contém tudo de que a vida precisa preparamos o fútu e o fechamos com um nó
para existir: alimentos para a nutrição. bebi- tão apertado.
das para aplacar a sede. remédios para curar
o corpo. matérias-primas para utensílios e 6. Esse nó é um código. um sistema oculto fei-
ferramentas. Os remédios consistem em to para isolar e proteger o mistério da vida.
substâncias químicas - umas conhecidas e Quem prepara um fÚLu sempre o lacra no
outras. não. final. com um nó bem apertado. para ocultar
e proteger o poder secreto de sua criação. E
2. Todo fútil tem grande valor para seu dono - quem procura desatar esse nó. abrir essa
é nele que são guardados seus materiais de tampa ou retirar esse selo. sem estar devida-
utilidade e objetos pessoais e até mesmo seus mente preparado. sofre sérias conseqüências.
segredos. como os símbolos de seus pactos e
juramentos secretos. Alguns fútus são relí- 7. O ser humano. nos tempos atuais. tem se
quias de família e passam de geração a gera- prejudicado muito em suas tentativas de des-
ção. Outros são atestados de competência. fazer impropriamente os nós. para penetrar
simbolizando a obtenção de um grau dentro de nos mistérios da vida.
uma hierarquia.
8. Só quem sabe e pode desatar esses nós é
3. A Terra. nosso planeta. é um fútu de muito Kalunga. o Incriado. aquele que foi feito por si
valor para nós. seres humanos. mesmo. Ele é a personificação da energia to-
tal. Energia da qual emanam o mooyo. a vida.
4. Um fútil sempre contém um inquice. Sem in- e o Universo (Iuyalungunu).
quice. o fútu é apenas um saco destituído de
valor. O inquice é o poder oculto da vida que o 9. Kalunga é a fonte universal que fez. faz e fa-
fútu encerra. E. como tal. pode ser ao mesmo rá as coisas acontecerem ontem. hoje e. acima
tempo uma defesa ou um perigo para seu do- de tudo. amanhã. Essa força total é a vida em
no e usuário. si mesma - é a própria vida. A ciência não pode

Congo I 49
explicá-Ia porque nasceu depois que o mooyo já e animais tem um importante papel a desem-
existia na Terra, no futu diakanga Kalunga, "no penhar no mooyo do ser humano e é sua prin-
saco preparado e fechado por Kalunga". cipal fonte de medicamentos.

1O. Nenhuma interpretação é capaz de recriar 16. A Terra. vista como um fútu, representa
perfeitamente as condições primitivas que de- ao mesmo tempo força (lendo), energia (ngo-
ram origem à vida na Terra no começo dos lo). radiações (minienie), medicamentos (bi-
tempos. Essas condições são um mistério e longo), alimentos (madia). sais (múngua). água
permanecerão como tal, porque são energias (maza). óleo (mafuta). luz (minika), venenos
de segredos encerrados por Kalunga no Uni- (yímbua) e bebidas (ndwíndu).
verso em geral e na Terra em particular.
17. A Terra é um corpo que abriga toda espé-
11. O planeta Terra. como fútu, como reci- cie de substâncias conhecidas e desconheci-
piente. foi criado antes de a vida aparecer em das. Todas elas são importantes para a vida
todas as suas formas. Antes da existência das porque são parte do conteúdo de um corpo ao
plantas, dos animais irracionais e dos seres qual foi dada a vida. Tudo o que está oculto
humanos. sob o solo é para a vida - isto é, para nós -,
esteja em força tangível ou intangível. como
12. O mooyo é a força vital. e passou a existir sólido, líquido. energia ou gás. É importante
na Terra depois que o fútu foi completado e la- saber como tudo isso nos afeta e compreender
crado - quando o fútu e seu conteúdo já esta- a razão de ser dessas coisas. Essas formas e
vam prontos para assegurar a vida. significados devem ser respeitados. pois são
parte da vida na Terra.
13. O mooyo é a matéria universal. É algo que
está dentro e fora. Ele é o que é. É a vitalidade 18. Todos os povos têm seu mooyo. Por-
da existência. É a chave do quibanto, modo de tanto, incorporar símbolos. ritos, crenças e
vida banto, sua filosofia. Kimooyo. a religião dos valores de outros povos pode significar au-
congos. é um vitalismo. e não um animismo. mento do nosso próprio mooyo. Quando es-
colhemos esse caminho, não precisamos
14. O mooyo não é a vida material (luzíngu), abandonar nossas crenças originais. Desde
nem é o meio pelo qual a vida material é vivi- que proporcionem saúde. fecundidade, es-
da (nzingúlu), nem, ainda, a duração da vida tabilidade, harmonia e prosperidade. todas
(zíngu). A vida, o modo de viver e a trajetória as experiências são bem-vindas. Somente
de vida só são possíveis por intermédio do quando produzem efeitos contrários é que
mooyo. a força vital que faz as coisas cresce- devemos evitá-Ias.
rem e estarem vivas.
11 - Nzâmbi e as divindades
15. O mooyo. como matéria universal, está 1. zâmbiampúngu. o Grande Nzâmbi. é a
presente em tudo, até mesmo nas pedras. A Força Suprema. inacessível e nunca materia-
espécie de mooyo oculta nas pedras. plantas lizada. E por isso não recebe nenhum culto,

50 I Kitábu
sacrifício ou oferenda. Ele só pode ser objeto 8. A Criação é o sistema de forças que mani-
de devoção abstrata, pois não é passível de festa e sustenta toda a vida. E nenhuma vida
qualquer abordagem humana. Assim, é por se perde, pois encontra um outro lugar no
meio das divindades menores que as pessoas Universo. que está sempre em movimento.
organizam o curso de seus destinos.
9. O mundo dos espíritos é o mundo das forças
2. Nzâmbiampúngu, o Altíssimo Nzâmbi - pois que Nzâmbi liberou por seu ato criador. Nele,
assim se traduz seu nome -, é aquele que faz no primeiro escalão, estão os banquitas, seres
o que bem lhe parece. É a grande força inaba- do começo da Criação. ancestrais das origens,
lável. tão inacessível que não tem representa- heróis mortos em combate. Eles são muito for-
ção material. tes e intervêm por meio do quimpânsi (segre-
do, coisa secreta), que lhes é especialmente
3. O grande caminho. o da morte. não é feito consagrado, e dão vida a um grande número
pelos homens. É Nzâmbi que o traça. E esse é de outros fetiches muito poderosos.
um caminho bastante suave.
111- Os antepassados
4. Nzâmbi vê tudo e tudo comanda. Em última 1. Os bakúlus, grandes anciãos. são os mem-
instância. Sua vontade é sempI'e cumprida e a bros falecidos do clã. Seu domínio é o seio da
ordem do mundo continua sempre a se esta- terra, onde moram, o interior das florestas e
belecer segundo Seus desígnios. os cursos d·água. Nesses locais. eles formam
aldeias semelhantes às dos vivos e se rela-
5. Ele deu aos homens as leis fundamentais. cionam em perfeita harmonia. porque o do-
É Dele, então, que emana toda a força, desde mínio dos bakúlus é um lugar onde não exis-
a origem dos tempos, pois são Dele a lei e o te o mal.
poder absolutos.
2. Os bakúlus são extremamente ligados aos
6. É Ele que impõe os castigos mais graves, vivos, porque. desde o momento de sua forma-
diante dos quais o homem não tem nenhum re- ção. o clã constitui uma unidade permanente.
curso. Ele reprime e não recompensa: os an- Embora invisíveis. eles estão sempre presen-
cestrais é que escolhem aqueles que serão aco- tes. participando dos atos de seus descenden-
lhidos, após a morte. na cidade subterrânea. tes. E dispõem do poder de desfavorecê-los ou
criar obstáculos a seus projetos.
7. Nzâmbi rege a ordem do mundo e o curso
das vidas. Ele é a própria imagem do desti- 3. Eles devem ser honrados regularmente
no. Por isso é que as vicissitudes. as desgra- em um dos quatro dias da semana que lhes
ças e a sorte que permeiam a existência hu- é consagrado. Suas ordens, transmitidas
mana não alteram o Projeto Divino. Ao con- principalmente por intermédio dos sonhos.
trário, elas servem para restabelecer a força têm que ser prontamente acatadas. Seu
que vai permitir aos humanos executarem apoio deve sempre ser invocado antes de
esse projeto. qualquer empreendimento. E é a eles que se

Congo I 51
pede paz para a aldeia quando a discórdia e 3. Esses proscritos são os matebos (ap8l'i-
a morte a acometem. ções, fantasmas), espíritos que, se fixados em
um suporte material. podem servir para rea-
4. As cerimônias em honra dos bakúlus deve- lizar qualquer trabalho maléfico.
rão ser sempre solenes e faustosas. Nelas,
eles receberão a homenagem de todos os 4. As forças em processo na Criação não são
adultos de seu sangue e de todos os afins, pois evidentemente associadas apenas aos seres
ninguém pode viver sem sua terra nem longe humanos. Elas trabalham no seio da natureza
de seus mortos. e por sua própria vontade. Existem, por exem-
plo, espíritos das águas, da terra ou das flo-
5. Na cabana dedicada à veneração dos an- restas - os bassímbis.
cestrais, deve haver sempre um fogo aceso.
Nela se guarda o cesto de relíquias do ances- 5. Alguns animais se revestem de caráter sa-
tral (o gonga). grado. Outros servem também como emblema
distintivo ou como meio de diferenciar condi-
6. Além de se reservar um dia da semana ções individuais.
para homenagear o ancestral. uma vez por
ano, no início da estação seca, deve-se cele- V - Os nkúyus e os calundus
brá-lo, em seu túmulo, com bebidas e comi- 1. Os gênios (nkúyu e calundu) são mensagei-
das, pedindo-lhe que propicie a fertilidade das ros que levam a Nzâmbi os pedidos e oferen-
pessoas e dos campos. das dos seres humanos e têm poder para
substituí-lo. Eles têm nome, personalidade,
7. Os soberanos, ao falecerem, assumem ime- gostos e antipatias. Por isso, devem. igual-
diatamente a condição de ancestrais de seu mente, receber sacrifícios e oferendas. pois
povo. E o receptáculo de sua alma passa a ser também podem provocar malefícios.
a estátua que o representa.
2. Rios, fontes, lagos, bosques. árvores, ro-
IV - Espíritos malévolos chas e o fundo da terra são os locais onde vi-
1. Contudo, nem todos os mortos figuram entre vem, segundo suas preferências. Podem assu-
os ancestrais. À entrada da Cidade Subterrâ- mir formas fantásticas e mesmo possuir o
nea, existem uma barreira e uma bifurcação. corpo de seres humanos.
Lá, os mais velhos julgam os que se apresen-
tam, e os maus não são admitidos. 3. E também se manifestam no ar, na chuva,
nos momentos de caça, pesca, semeadura. co-
2. Esses espíritos maus ficam vagando, ater- lheita, viagens e doenças.
rorizando os vivos com suas aparições e tam-
bém em sonhos. Eles enfeitiçam as pessoas, 4. Assim, não se pode entrar em certos luga-
causando a doença e a morte, o insucesso, a res ou realizar determinadas atividades sem
desgraça. E são usados como intermediários pedir permissão ao gênio tutelar daquele lu-
pelos feiticeiros. gar ou daquela atividade.

52 I Kitábu
VI - Inquices (ou inquitas) 7. Kúnya, que tem forma humana, protege
1. Todas as técnicas religiosas e mágicas se contra os feiticeiros. Mpíndi. que tem a esta-
destinam a atuar sobre esses seres-força. tura de um homem. trata doenças nervosas.
Utilizam-se imagens de madeira ou de pedra, Nkôndi. que tem somente um metro de altu-
além de substâncias especiais, para que nelas ra, descobre ladrões e ajuda a encontrar ob-
eles sejam fixados. Cada um desses objetos ou jetos perdidos. Mavema, que é um cão com
substâncias recebe o nome de inquice (nkisi), dentes compridos e afiados, afasta os sedu-
ou inquita (nkita). tores. Ntádi, o guardião, manifesta-se por
meio dos sonhos para alertar sobre o perigo.
2. O inquice, ou muquixe. é o objeto no qual foi
Nvúnji ajuda a descobrir os feiticeiros e as
fixada a força. a potência de um espírito ou
causas das doenças, e é como uma arma que
gênio. Por extensão de sentido, o nome desig-
mata tudo.
na também o espírito nele fixado. Da mesma
forma. o termo onganga, "força", "potência",
8. Outros, entre os numerosos inquices, são:
passou a nomear o inquice como objeto.
Luango, Inkita, Ngombo. Matamba. Lemba,
Mbambi. Nsumbo, Mbumba. Nâmbu (provedor
3. Por estar individualmente ligado a um tipo de
da caça), Kibúku.
força natural ou mesmo a uma parte do corpo
humano. cada inquice se ocupa da prevenção
9. Existem inquices ligados pessoalmente a
ou da disseminação de determinado mal.
indivíduos. além de outros que. por serem ob-
jetos de adoração coletiva, são cultuados por
4. Alguns desses inquices são muito conheci-
intermédio de um sacerdote. Estes últimos é
dos. É o caso do Inkôssi, considerado o prin-
que determinam as proibições. Os primeiros
cipal entre eles, e representado sob a forma
agem como protetores da pessoa, como seus
de um casal. O macho mora em uma estatue-
anjos da guarda.
ta de forma humana. e a fêmea, em um saco
contendo vários ingredientes.
10. Entretanto. essa ação multiforme sobre
5. lnkôssi infunde medo e protege contra o as forças que condicionam toda a existência
roubo de bens e de almas por meio da feitiça- nem sempre logra sucesso completo. O mal, a
ria. E intervém no ritual de iniciação ao kim- doença. a desordem e até mesmo a morte são
pânzi. ou kimpási, aos rituais secretos do cul- provas disso.
tos aos inquices.
VII - Feiticeiros
6. Os outros inquices dividem-se em um núme- 1. Embora os desígnios de Nzâmbi e a vonta-
ro restrito de categorias com os seguintes fins: de dos ancestrais tracem o limite das possibi-
proteção da saúde, garantia de êxito. manu- lidades humanas, é evidente que o homem
tenção da fecundidade das mulheres e da fer- pode alterar a ação de certas forças. Contudo,
tilidade da terra, luta contra os feiticeiros (en- assim ele perturba a ordem estabelecida, es-
doques) e defesa contra a violência e o roubo. palha o mal, esteriliza a natureza.

Congo I 53
2. É isso que a feitiçaria, através do endo- 3. As viúvas e quaisquer outras mulheres de-
que, ocasiona. Ela provoca a ação destruti- vem ficar lá durante todo o tempo. Os membros
va, que faz reaparecer o caos e anula o pro- do clã e outros parentes virão. sucessivamen-
gresso da civilização. te. honrar o defunto em sua morada provisória.

3. Por isso é que um endoque é capaz de mo- 4. As mulheres chorarão e entoarão os cantos
dificar a própria aparência, de viver tanto sob da casa dos mortos e os de lamento. Os ho-
o aspecto humano quanto na forma de um ani- mens executarão em grupo os cantos fúne-
mal, de confundir a fronteira entre as cria- bres (mbembo), acompanhados por tambores,
ções do homem e as da natureza. sinos e trompas de marfim.

4. Da mesma forma, os fatos insólitos, aciden- 5. Por vários meses - tempo em que o cadáver
tais. os acontecimentos que rompem o estabe- seca e se organiza a sucessão -, essas mani-
lecido são obras de forças maléficas. que pre- festações prosseguirão na aldeia enlutada.
cisam ser destruídas. Uma seca anormal, um
incêndio, uma morte por raio, uma epidemia 6. Tudo consumado, o túmulo será escavado
etc. não são obras do acaso, e sim dessas for- em uma elevação. E, então. finalmente, um
ças que agem a serviço dos endoques. cortejo conduzirá o cadáver, que levará consi-
go novos bens e utensílios, como cobertores,
VIII - Doença e morte lençóis. peças de tecido e tapetes. Quanto
1. A morte (lúfua) ocorre quando a alma sen- mais numerosos forem esses bens, maior será
sível - duplo, sombra e princípio da percep- a satisfação do espírito do morto.
ção - abandona o corpo. O cadáver (mvúmbi)
não é um simples corpo morto, porque ele 7. O corpo, levado à sepultura. coberto de ob-
ainda tem uma alma. Ele é o veículo que per- jetos pessoais e de dinheiro. estará. então.
mite ao defunto chegar à cidade subterrânea assegurada a viagem subterrânea do falecido.
e só será abandonado no túmulo no momento Os parentes próximos, finalmente. entregarão
em que o falecido se tornar um nkúlu, um an- a ele dinheiro e provisões, inclusive vinho-de-
cestral. um ser de aparência esbranquiçada, palma. e lhe confiarão a seguinte mensagem:
que, entretanto. conservará sua vida terrena, "Para lá, aonde tu vais. leve notícias nossas
seu lugar e sua personalidade. aos ancestrais; para que aqui. onde ficamos,
sejamos sempre prósperos." O fim da viagem
2. Na cerimônia do sepultamento, depois da é o país dos ancestrais; e o objetivo. alcançar
limpeza e da preparação, o cadáver deverá a vida eterna.
ser envolto em panos e agasalhos (quanLo
mais elevada for a posição social do morto, 8. Os mortos estão melhor que os vivos. Eles
maior será a quantidade dessas peças). pois estão fora do tempo e em meio às maiores ri-
ele estará exposto em uma choupana espe- quezas. E dispõem de um poder que lhes per-
cial, onde a fumaça espessa que sai da larei- mite comandar a natureza e os homens. De
ra vai ajudar na mumificação. sua aldeia, situada sob o leito dos rios ou no

54 I Kitábu
fundo dos lagos, eles podem sair para se mis- 16. Recebida a ditamba, os familiares devem
turar aos vivos, sem serem vistos, e orientar se reunir para juntar algum dinheiro e,
o curso dos acontecimentos. depois, irem até o lúmbu. onde se encontra o
doente e lá proclamarem ao chefe: "Pai, ouvi-
9. Os ancestrais mais próximos de suas ori- mos a tua ditamba e viemos esfregar ndêmbu
gens são os mais poderosos. E os vivos mais na ditamba."
próximos dos ancestrais são os melhores in-
tercessores. Os chefes dos clãs e das linha- 17. Faz-se, então, uma invocação aos ances-
gens estão entre estes últimos. O grande sa- trais da aldeia e do clã do doente: o tuba sâmbu.
cerdote do culto aos ancestrais, porém, é o
Muene-e-Kongo, o chefe de toda a nação. 18. Em seguida, entrega-se a quantia recolhi-
da, e cada um dos contribuintes afirma não
10. Os sacerdotes-chefes, por força de sua ter nenhuma relação com a doença - quem
proximidade com os bakúlus, distribuem bên- mentir morrerá dentro de poucos dias.
çãos, predizem o que deve acontecer e gozam
de grande autoridade. 19. A quantia é, então, colocada embaixo do
travesseiro do doente e, se ele não melhorar,
11. As pessoas que moram na aldeia de um tudo deverá se repetir.
desses grandes chefes devem lhe dar a conhe-
cer tudo o que fazem ou devem fazer. E ele, 20. Se o doente vier a falecer, a notícia é
por sua vez, indicará quando tais e tais coisas levada a todos os familiares e as exéquias
devam ser feitas. têm início. Faz-se uma espécie de capela
mortuária onde se coloca o cadáver (diyem-
12. A morte causada por feitiçaria é tratada ba) velado por um grupo de carpideiras
com os inquices e com a invocação de espíritos. (mi nkalânsi), que chorarão e entoarão as
canções adequadas.
13. A preparação dos inquices é uma atribui-
ção do nganga. que conhece os segredos e pro- 21. Enquanto não chegarem representantes
priedades das plantas e dos restos de animais. das famílias da mãe, do pai e da avó, o cadá-
ver não será enterrado.
14. As doenças tidas como naturais são cura-
das com os recursos das plantas, e o trata- 22. No local do sepultamento devem ser feitas
mento pode ser ministrado por qualquer pes- oferendas. Ao chegar ao local, onde já estão
soa que conheça as propriedades curativas alguns membros da família, o visitante bate
das folhas, cascas e raízes. três palmas ajoelhado, conta que soube da no-
tícia e veio honrar o morto, recita sua genea-
15. Quando há alguém doente em uma logia e faz a entrega do seu donativo ao tio
comunidade, o chefe tem a obrigação de le- materno do defunto.
var a comunicação oficial (ditamba) para
os familiares. 23. Ainda antes do sepultamento, as oferen-

Congo I 55
das e donativos são divididos, indo uma parte 31. Após o falecimento, entretanto, o primei-
para a cova e outra para os parentes. ro euidado é fechar os olhos do cadáver; e se
ele os abrir de novo será um mau sinal.
24. Depois do enterro, os familiares reúnem-
se para falar da genealogia do defunto e das 32. Depois. as mulheres deverão lavá-lo. un-
causas de sua morte. gi-lo com óleo de palma e até com tacula
(rlerocarpus linclorius). tapando-lhe as nari-
25. Os presentes se despedem e vão embora. nas com rodelas de palmito.
ficando apenas as carpideiras, que permane-
cerão por cerca de um mês até que se levan- :33. Em seguida, deve-se expor o cadáver no
te o luto. Então, elas darão banho na viúva, se quintal, ou mesmo em frente da casa. protegi-
for o caso, ou. caso se trate de um viúvo, man- do por um abrigo de folhas ete palmeira, que
darão um homem fazê-lo. deverá ser grande o suficiente para abrigar o
defunto e as carpideiras.
26. O cônjuge sobrevivente, que já terá corta-
do o cabelo em sinal de luto e estará devida- 34. () cadáver deverá ser enrolado em tantas
mente purificado, entoará canções em louvor cobertas quanto a família possa ter. Depois
do morto e sua vida voltará ao normal. ele será deixado com as eal'pideiras, suas pa-
rentas ou amigas. as quais. de torso nu, ves-
27. Toda doença é devida à ação direta ou in- tidas somente de farrapos ou de folhas de pal-
direta de um endoque. A única morte normal meiras. o rosto pintado de branco, cantarão
é a que encontra o velho em seu leito, depois as lembranças do morto.
que ele teve tempo de cuidar de seus afazeres
e realizar o que fosse preciso. 35. Pais e parentes devem raspar a cabeça.
Quanto mais importante for o morto. mais
28. Diante de uma doença, após exorcizar a tempo vão durar as homenagens.
casa e seu entorno com folhas de saco-saco
(Haumania liebrechtiana) e outras ervas, é 36. O defunto será colocado sobre um estrado
preciso consultar um nganga. Ele indicará as embaixo do qual uma valeta receberá os hu-
preces que deverão ser feitas e o tratamento mores que caem de seu corpo por um canale-
a adotar. te colocado entre as cobertas.

29. Se nada se faz ou se a pessoa morre ape- 37. De cada lado, plantas odoríferas são
sar das providências tomadas, os membros de Queimadas.
sua família deverão vir jurar que nada têm a
ver com a morte. 38. O túmulo é cavado perto da aldeia, no ce-
mitério da família. Os chefes e outros homens
30. De qualquer forma. e sobretudo se o fale- proeminentes podem ser enterrados dentro
cido for alguém proeminente, será necessário da própria casa. mas as habitações das pes-
descobrir a causa e o causador da morte. soas comuns devem ser Queimadas após sua

56 I Kitábu
morte para que as almas não queiram fre- ele. que por isso devolverá o dote que havia
qüent,á-Ias e provocar doenças e outros male- pago à sua família.
fícios à comunidade.
IX - As etapas da morte
39. O morto deve ser enterrado na posição fetal. 1. Após a morte, o indivíduo, mais tarde,
E as crianças pe(]uenas devem ser sepultadas reencarna em seus descendentes, em geral
a pouca profundidade. bem perto da casa. para netos e bisnetos. Mas, mesmo enquanto isso
que a mãe possa conceber logo novamente. não ocorre, o descendente não é excluído da
comunidade, continuando a ser o verdadeiro
40. Os cadáveres dos feiticeiros c malfeitores proprietário da terra.
devem ser queimados. Isso é necessário
porqu(~ os bruxos. os criminosos e os malfei- 2. Por isso, antes de serem iniciados os traba-
tores em geral se Lr'ansformam em mortos vi- lhos agrícolas e de mineração, a caça e a pes-
vos (malebos). Da mesma forma. o endoque é ca, devem-se pedir a autorização e a proteção
um malfeitor que. após a morte, se transfor- dos antepassados.
ma num vampiro.
3. Porque foram eles que fecundaram a terra
41. Os túmulos das pessoas muito importantes e abriram para os descendentes as entranhas
devem ser secretos, para que os feiticeiros de das montanhas.
outros clãs ou de outras tribos não possam
tentar se apoderar de seus espíritos c, conse- 4. Contudo, só se torna espírito protetor de
qüentemente. de sua sabedoria e do seu poder. uma comunidade o morto Que passou por
todos os escalões sociais e cujo corpo foi sub-
42. O luto começa logo após os I'unerais e du- metido a todas as cerimônias indispensáveis.
ra de um a três anos. conforme a importância
da I'amília e também de acordo com o tempo 5. Além disso, a efetiva morte se dá em duas
Queela levará até reunir o necessário para a etapas. Durante a primeira etapa. a alma fi-
cerimônia de suspensão do luto. ca provisoriamente morando em rios e lagos.

43. ~;sseperíodo deve ser marcado por um cer- 6. A transformação definitiva só acontecerá
to número de proihições alimentares e pelo im- quando o cônjuge viúvo casa-se de novo ou quan-
pedimento de cortar de novo o eahelo (que foi do o nome do morto é dado a um recém-nascido.
raspado no dia da morte) e de trocar de roupas.
7. Então. termina o período de luto e celebram-
44. Ao fim do luto, deverá se realizar uma se as festas de purificação, maláki ou matanga.
grande festa da família e do clã chamada ma-
láki ou matanga (um maláki simplificado) -. 8. Somente depois disso é Que o espírito do
Quecomeça por uma purificação de todos os morto se transforma em nkúlu e. apaziguado,
enlutados. Também nesse dia, a viúva deverá contempla com benevolência o mundo de seus
casar-se com seu cunhado ou ir morar com descendentes e passa a protegê-los.

Congo I 57
9. As pessoas que morrem em decorrência de 5. O que nasce pelos pés se chamará Nsunda:
uma causa violenta transformam-se em ban- o que nasce p(~la mão, Kilombela; com lábio
kitas, inquices que causam dores e doenças e leporino, NZ<lu;o que nasce com dentes rece-
que. tomando forma de morcegos ou andori- berá o nom(~ de Ipanana e aquele cuja mãe
nhas, vagam sem destino certo. tenha menstruado até o último mês da gravi-
dez terá o nome Mavakala.
10. Os espíritos dos primeiros ancestrais,
que por muitas vezes morreram e reencarna- 6, O albino é chamado Ndundo: os gêmeos do
ram, vão descansar finalmente em rochas, sexo feminino, Nsímba e Nzúzi; e os do sexo
florestas, rios e outros lugares dos quais se masculino, Kôsi e Makânzu: e o que nasce
tornam protetores. após gêmeos se chamará Nlându.

11. Um defunto não deve ser enterrado antes 7. Quando a criança já está maiorzinha e pocle
que se descubra o causador de sua morte e sair à rua, um nganga virá prepará-Ia, colo-
antes de terem sido cumpridos todos os requi- cando-lhe no peito um mantulo (talismã), e
sitos cerimoniais. amarrando-lhe outros nos pulsos e nos torno-
zelos, Para a mãe, o nganga preparará uma
12. Um morto sepultado sem essas formalida- panela contendo defesas contra malefícios.
des torna-se um mol'to-vivo, um zumbi.
8. Como um recém-nascido é sempre a reen-
x- Casamento e nascimento - O nome carnação de um antepassado, o casamento de
1. Quando uma criança nasce, depois de cor- seus pais é um alo religioso que deve ser rea-
tado o cordão umbilical. um parente mais velho lizado na presença dos ancestrais. Por isso.
deve encher a boca de água, borrifar a crian- deve ser acompanhado de sacrifícios, bênçãos,
ça e dizer: "Ouve teu pai e ouve tua mãe; e ou- rituais propiciat.órios e amuletos protetores.
ve até mesmo os de fora."
XI - Religião e magia - O nganga
2. A criança que nasce em circunstâncias ex- 1. A religião (~a magia inte['peneu'am-se e são
cepcionais deve receber um nome que identi- inseparáveis. Através de processos mecâni-
fique essa circunstância. cos e fórmulas rixas, o nganga, ou quimbanda.
trabalhando para uma pessoa determinada,
3. Se é portadora de alguma anormalidade, vai vai est.abelec(~ra comunicação entre o mumlo
se chamar genericament(~ Símbi. recebendo um dos vivos e o dos espíritos, em busca do equi-
nome próprio de acordo com a anormalidade. líbrio da comunidade, dentro das leis univer-
sais e inflexíveis criadas por Nzâmbi.
4. A criança que nasce enrolada no cordão
umbilical deve receber o nome de Nzinga. 2. Só quando é usada para provocar malcrí-
Quando ela nasce, os pres(~nl,eSdevem ralhar cios, a magia se afasta da religião e a profa-
com ela, mandando-a til'ar aquilo que a cn- na. ~;Ias(í (~ericaz IHlI'qUf, integra o jogo das
feia; então, o cordão cai. forças vit.ais. ,:; um dom de Nzâml1i, que lH'nc-

58 I Kilábu
ficia e conserva a ordem divina. Assim, o fei- são geral de mundo, a sua cultura, enfim.
ticeiro é um modelo de tudo aquilo que um
verdadeiro homem não deve ser. XII - O ferro e a arte do ferreiro
1. A arte do ferreiro é um presente das divin-
3. O nganga, por sua vez, é o mestre, aquele dades. É assim considerada porque é o ferro
que, em sua atividade, se ocupa da proteção e que abre os caminhos e rasga o chão para que
da promoção do bem-estar de toda a socieda- este receba as sementes.
de em que vive.
2. Ngola-Musudi ou Ngola-Ngangula, primeiro
4. Ele não é necessariamente um mago ou um soberano dos ambundos, recebeu esse dom do
indivíduo com poderes mágicos e religiosos. Alto e foi escolhido rei pela habilidade com
que manejava as ferramentas e as armas.
5. O nganga é uma pessoa que detém grandes
conhecimentos nos campos da anatomia, do 3. Munjumbo. rei dos lungas. do povo quioco,
uso das plantas medicinais, da geografia, da foi temido e respeitado pelo uso de armas de
história de seu povo e da psicologia social. ferro com poderes sobrenaturais. Munjumbo
possuía uma faca. chamada Muela. que tinha
6. Uma pessoa pode adquirir força para reali- poder de sair sozinha da bainha e ir. voando.
zar intervenções espetaculares na natureza, atacar os inimigos de seu dono.
iniciando-se com a ajuda e orientação de um
nganga especializado nesse ofício. 4. Muela falava e chorava com voz humana.
Um dia, revoltou-se contra os malefícios que
7. Os trabalhos espirituais e psicológicos são Munjumbo causava e o matou.
tão importantes. por exemplo. quanto os de
metalurgia, tecelagem e agricultura. uma vez 5. Quando morre um ferreiro. deve-se depor
que essas diferentes atividades se comunicam sobre o túmulo seus instrumentos de trabalho,
para formar uma cultura. martelos, foles e bigornas, colocando-se sobre
eles uma coroa, símbolo da nobreza de sua arte.
8. Tais trabalhos não se restringem ao acúmu-
lo de conhecimentos. mas envolvem também o 6. O trabalho de forja constitui um ritual que
desenvolvimento de técnicas com base em exige a evocação de muitos espíritos. E o fer-
uma dinâmica, pois seu objetivo é inspirar e ro é usado em vários rituais.
regular o comportamento social, de modo in-
dividual ou coletivo. 7. Quando alguém jura em falso. deve-se re-
correr a um ferreiro para, com o fole. insuflar
9. Para satisfazer suas necessidades biológi- ar na pessoa. purificando-a para receber a vi-
cas, materiais c espirituais. o ser humano da e afastar o castigo da morte.
mobiliza determinado número de procedimen-
tos. técnicas e métodos. O conjunto desses 8. Nos julgamentos. o suspeito de um crime
procedimentos representa a síntese de sua vi- deve beber da água em que se lavou um marte-

Congo I 59
lo de ferro e dizer: "Oue esta água me faça mor- XIV - A água e as plantas
rer. se o que digo é mentira." 1. As cidades onde moram os espíritos ficam nas
profundezas de rios e lagos. Essas águas. ba-
9. O kilumbo. juramento da verdade. consiste nhando as pessoas. a cabeça das mulheres an-
em por à prova o acusado. passando-se um tes do casamento. o corpo dos parentes no final
ferro em brasa sobre sua pele. do luto. as ferramentas de trabalho. os utensnios
do cotidiano e até mesmo as moedas. são fator e
XIII - Crenças e tabus veículo de saúde. fortaleza. paz e prosperidade.
1. As chuvas torrenciais. incessantes e com
violentos trovões. são presságio da morte de 2. A noz-de-cola. por ser um meio tonificante
alguém importante. e estimulante. é um componente imprescindí-
vel nas oferendas aos espíritos.
2. Tocar ou simplesmente saudar uma mulher
menstruada causa impotência. 3. O tabaco é também importante. principal-
mente a primeira fumaça.
3. Deve jogar-se fora cuidadosamente. se possí-
vel na água corrente. restos de cabelo. unhas 4. A árvore da figueira (nzanda) serve para os
cortadas. dentes arrancados. para que eles não julgamentos. e todo tribunal deve funcionar
sirvam para o preparo de feitiços contra o dono. embaixo dela.

4. A loucura pode tcr duas causas: não se su- 5. A bananeira é importante no parto. O re-
portar a interação dos vários gênios cujas for- cém-nascido é posto cm uma de suas folhas. e
ças foram invocadas ou punição determinada debaixo da árvorc enterra-se a placenta.
pelos espíritos dos ancestrais por se tcr in-
fringido uma proibição. n. No dia do nascimento. deve ser plantada uma
bananeira. que rcpr(~senta a vida do novo ser.
5. A lepra é considerada punição a tO(Jotipo
de má conduta. como I'oubo e feitiçaria. 7. Bananas e vinho-ele-palma são requisitos
indispensáveis nas oferendas aos ancestrais.

CAPiTULO 3 O universo espiritual dos ambundos*


I - Os espíritos 2. Após a morte. eles passaram ao mundo es-
1. Os espíritos são antigos seres humanos piritual. de onde se comunicam com os viven-
que. sobre a face da Terra. aprenderam hábi- tes por meio dos xinguiladores. que são os
tos e dominaram. de diversas maneiras. as médiuns e intermediários. e dos quimbandas
múltiplas práticas da vida cotidiana. - indivíduos devidamente preparados para a
revelação do presente. do passado c do futu-

* Conforme Ribas. 1985

60 I Kitábu
1'0. Entretanto, qualquer pessoa, principal- 3. Outra forma de se tornar quimbanda é tra-
mente parentes e amigos, pode ser inspirada balhando com um deles na condição de caban-
pelos espíritos dos mortos, os quais acompa- da, auxiliar. Contudo. como os mestres viven-
nham os humanos em todos os atos da vida tes sempre escondem alguns segredos. a um-
diária, motivando-os a ações boas ou más. banda recebida em sonho é sempre mais forte.

3. Os espíritos malvados (cazumbis) diver- 4. O quimbanda é o médico do corpo e da al-


tem-se provocando diabruras, bebedeiras, ma. Ele sabe também afastar os espíritos per-
roubos e assassinatos. As doenças também turbadores. às vezes apenas batendo de leve
são resultados de sua ação malévola; e as do- na cabeça da pessoa. jogando um pouquinho
res físicas nada mais são do que chicotadas de água e pedindo ao espírito que se afaste.
que eles infligem aos corpos humanos. entre Portanto. sempre que houver qualquer inquie-
risos de escárnio e deboche. tação ou decisão importante a tomar, deve-se
consultar um quimbanda.
4. Caprichosos. invejosos, vingativos, os espí-
ritos maus muitas vezes lutam entre si. E os 111- Muzambo. a adivinhação
vencedores se comprazem em levar a cabo 1. Para proceder à adivinhação. o quimbanda se
suas intenções. Dos espíritos, então. é que acomodará numa esteira, na qual colocará seus
vêm o bem e o mal. instrumentos. Esses apetrechos são o muxaca-
to - uma tabuinha feita de um pedaço da árvo-
11 - O quimbanda re mafumeira (ocá) - e o mona - um pauzinho
1. O quimbanda. versado na ciência da umbanda que será esfregado no muxacato. O mona pode
- arte da cura e da adivinhação - é o ritualista deslizar livremente, em sinal negativo, ou em-
que adivinha acont,ecimentos futuros e desvenda perrar, em resposta positiva. Esses dois objetos
os mistérios do passado. É ele que. interpretan- terão sido previamente sacralizados - amarrados
do os sinais que vêm do mundo espiritual. sabe e postos em contato com terra de sepultura e
prescrever os remédios para as doenças e os raízes como mandioca e gengibre; assim, adqui-
conjuras para os malefícios. O quimbanda está rem o poder de comunicação com os espíritos.
capacitado a promover a felicidade entre os ca-
sais.apaziguar a fúria dos mortos e prevenir o mal. 2. Tirando. então. da samba - a sua bolsa de
utensílios rituais - um saquinho com pemba.
2. E;xistem duas maneiras para uma pessoa o quimbanda riscará os sinais preliminares do
se tornar um quimbanrla. A primeira delas é muzambo. Primeiro. traçará cruzes nas cos-
ter um quimbanda como antepassado e dele tas das mãos e, depois, uma cruz no mona; no
receber a umbanda. Por meio de um sonho, o muxacato. ele fará um risco longitudinal e
antepassado mostra ao sucessor o campo. a três transversais.
floresta (muxito), onde estão os remédios; in-
dica as encruzilhadas, os lugares exatos para 3. Em seguida. sentado com as pernas estira-
cada um dos tratamentos. além de ministrar das. o quimbanda esfregará o mona no muxa-
todos os ensinamentos necessários. cato, ao longo do corpo do consulente. fazen-

Congo I 61
do perguntas sobre o problema que aflige a 4. Finalmente, cravará o graveto de mubilo ao
pessoa. Se a consulta for interrompida por lado do ovo. queimará a folha de dormideira,
qualquer motivo, o quimbanda não a retoma- deixando cair a cinza sobre o conjunto: e, as-
rá sem antes soprar pemba no ambiente e pergindo, com a boca, vinho sobre ele, pro-
no consulente. nunciará o pedido ritual aos espíritos, no sen-
tido de que o xico surta os eFeitos desejados.
4. Quando, depois de uma pergunta, o mona
emperra na superfície do muxacato, é sinal de V - O xinguilamento
resposta positiva. Então, o quimbanda desim- 1. O xinguilamento é a comunicação com os
pedirá o instrumento de adivinhação, polvi- espíritos por intermédio do transe. Quando
lhando o muxacato com cinza e batendo-a um espírito está querendo se maniFestar por
depois com os dedos. E, assim, prosseguirá meio de uma pessoa, os Familiares, perceben-
pacientemente, formulando indagações coe- do os sintomas, deverão chamar imediata-
rentemente encadeadas, para obter as res- mente um quimbanda.
postas desejadas.
2. Chegado o quimbanda, a esteira de praxe
IV - O pedido aos espíritos será estendida no quintal. O ritualista pegará
1. Ao consultar-se com um quimbanda, pedin- um banquinho, o riscará com pemba e o colo-
do aos espíritos que ponham um xico, ou seja, cará sobre a esteira. Então, segurará Firme-
lhe dêem um "remédio", a pessoa deverá levar mente a pessoa pelos dois braços Fazendo-a
um ovo, pedras de pemba branca e ucusso acocorar-se e levantar-se, repetidamente, por
(pemba vermelha), folhas de dormideira, ou nove vezes. Em seguida. a sentará no banqui-
tuzequeto (Mimosa pudica), um graveto de nho, colocando à sua frente o prato das al-
mubilo (Adenia lobata), um ramo de musse- mas, no qual terá riscado, previamente, os
quenha (cucurbitácea) e uma garrafa de vinho. signos necessários. Esse prato é o principal
instrumento de invocação dos espíritos. E ne-
2. Fora de casa, no quintal, próximos ao por- le, agora, o quimbanda despejará vinho de ca-
tão, quimbanda e consulente se sentarão no ju (maluvo), cerveja de milho (quitoto), vinho
chão. Com uma faca, o quimbanda abrirá um português e água.
pequeno buraco no solo, no qual jogará raspas
da pemba e do ucusso, num traçado em forma 3. Com uma Faquinha, ele remexerá a mistu-
de cruz. ra, chamando o espírito e incitando os pre-
sentes a cantar, ao som de palmas, a cantiga
3. Depois, preparará uma rodilha com a mus- de invocação.
sequenha. colocando-a no buraco. Então, con-
tando até nove, riscará, com as pedras ver- 4. Ocorrendo o transe, o quimbanda verifica-
melha e branca, traçados rituais no ovo, posi- rá sua autenticidade, passando pela língua do
cionando-o de pé sobre a rodilha. Em seguida, paciente uma agulha e uma brasa ardente.
conversará com o ovo, sujeitando-o à sua von- Depois, pondo a agulha no prato e a brasa no
tade e à do consulente. chão, ele perguntará ao espírito seu nome.

62 I Kitábu
5. Poderão manifestar-se calundus - espíritos 2. Trata-se de uma vasilha de barro com água,
de ancestrais, que atuam principalmente como na qual serão imersos vários ingredientes e
curadores - e divindades tutelares, como Di- com a qual a criança deverá ser banhada por
nhanga, dono da caça, violento e vingativo; certo tempo. O Senhor Vúnji é uma divindade
Capita, elCladivinhClção; Ngombo, da verdade; muito próxima e destemperada.
Mutacalombo, dos animClis Clquáticos; Mutan-
jínji, dos animais terrestres; e Vúnji e Muene- 3. Então, as pessoas devem ter bastante cui-
Canga, que administram Cljustiça. dado para que ele não ouça seus desejos ou
lamentações, os interprete de forma errada e
6. Muene-Congo tem gl'Clndepoder e Clgecom saia imediatamente querendo resolvê-los ataba-
extrema rapidez. E só se recorre a ele em ca- lhoadamente, o que pode resultar em problemas.
sos excepcionais, devendo-se invocCll' prefe-
rencialmente o Senhor Vúnji. 4. O Senhor Vúnji aprecia óleo de rícino, mel,
azeite-de-dendê, miçangas brancas, tacula e
7. São essClSdivindCldes que, por escolha pró- lenços vermelhos. Em troca dessas oferendas,
pria, conferem ClumClpessoa os conhecimen- ele garante saúde, paz e prosperidade.
tos da umbanda e os seus calundus. Por meio
delCls é que um simples médium poele se tor- VII - Ritos pré-nupciais
nClrum quimbClnda. 1. Duas semanas antes de um casamento, o
quimbanda deverá ser chamado à casa da noi-
8. São elas também que indicam aos quimban- va para propiciar harmonia à união e também
das Clqueles que podem se tornar mueuam- para impedir os maus partos e a morte pre-
bambas, pessoas dotadas de poderes para matura dos filhos.
derl'OtClr os feiticeiros (mulôjis). A força do
mucuambamba está em sua muxinga, chico- 2. Uma vez no local, depois dos cumprimentos
te pintCldo de tacula, enfeitado com tiras de de praxe, o quimbanda extrairá de sua samba,
pano e búzios miúdos (jimbambas) em forma a bolsa tradicional, pemba e ucusso, riscando
de cruzes, em cujo centro estará sempre com elas um traçado em forma de cruz no
umClbolinhCl feitCl de plClntClsnClseidClSem se- chão do aposento onde ocorrerá o ritual.
pulturCls. ESSClbolinhCl, qUClndoesfregClda nCl
testCl, confere poderes extrClordinários ClO 3. Então, estenderá no chão uma esteira vir-
mucuambamba. gem, repetindo o traçado sobre ela. Em segui-
da, segurará vigorosamente a nubente pelos
VI - O Senhor Vúnji dois braços e, contando até nove, a fará aco-
1. QUClndoumCl criançCl nClsce para servil' a corar-se e levantar-se. Depois, a sentará na
Vúnji. Clfim de evitar o risco de morte premCl- esteira, colocará em uma das mãos dela um
tura e conservar sua saúde, o quimbanda tijolo de barro e, na outra, um pau de tacula.
deve, além d(~compor parCl ela ClquindCl (ces-
ta contendo objetos sacralizados), preparar- 4. Ajoelhando-se, o quimbanda segurará,
lhe a lagoa do Senhor Vúnji. então, as mãos da nubente, para ajudá-la a

Congo I 63
esfregar a tacula no tijolo, contando de um até Ndembo. enfeitando-os com fita vermelha e
nove. A partir desse momento. ela terá de rc- búzios miúdos.
colher-sc, em reclusão completa. por oito
dias. é só poderá ter contato com crianças ou 10. Pronta a comida. o quimbandél estendcrá
moças virgens. uma esteira nova no chão do qUélrto (léIreclu-
Sél.cobrindo-a com um pélno cru. virgem tam-
5. Para os ritos finais, que ocorrerão dali a bém. As mulhcres levarão as vélsilhas com os
nove dias. a família deverá providenciar: para éllimentos rituais e as colocarão ao lado.
Ngonga. entidade propiciadora da harmonia
conjugal. um galo vermelho com cinco dedos; 11. Com todos a postos. o quimbélnda manda-
para a dliemba (rito de consagração a Lemba. rá a noivél se aproximar. Então, depois dc lhe
entidade da procriação). uma galinha e um te- élpresentélr os objetos rituélis e explicar-lhe o
cido brancos; para Ndembo. entidade da força significélelo de célda gesto e o nomc ele cada
física e que protege o corpo, um pano azul. coisél. a envolverá. por cimél das vestes e da
cintura para baixo. eom o pélno brélnco dél
6. Além disso. será necessário providenciar: Lemba. Com o pano de Ndembo. de cor azul. éI
carne de vaca e dc porco (na falta desta últi- envolverá das axilas élté a cintura.
ma podem ser usados chouriço e toucinho);
bagre e pargo (cacusso); guando e feijão-fra- 12. Por rim, ele passará éImicunga pelil eintu-
dinho (macunde); farinha de mandioca (fubá l'éIda nubente e pendurará () muquixc sobre ()
de bombó); mel e azeite-dc-dendê; vinho e co- peito dela. Recomendando-lhe que use sem-
midas de branco. como queijo, passas e figos. pre os trajes rituais nas manhãs de domingo e
nos dias de IUél nova. ele. então, pegélrá um
7. Na clausura. onde. em termos de higiene pouco de cada iguéll'ia. que o cabanda terá
corporal. só poderá cuidar da boca e do rosto. posto numa vasilha. e. com as pontas dos
a noiva. cumprindo prescrição do quimbanda, dedos, dará dc comer um bocéldinho à noiva.
deverá fazer. pela fricção da tacula no tijolo Ato contínuo. riscará sinais em seu peito. pro-
de barro, oito bolinhas. nunciando as fórmulas de esconjuro.

8. No dia da cerimônia. enquanto as mulheres 13. Fechando a cerimônia. o quimbanda. depois


preparam as comidas. o quimbanda. auxiliado de misturar, numa qucnga de coco. pó de t<lCU-
por seu acólito, o cabanda. aprontará o inquice la com azeite-de-dendê. esfregará a pomada
(muquixe) de Ngonga. Para tanto, cortará as nos braços e em parte do tronco da nubente.
pontas de uma garra e de uma pena do galo. um
bocado de pão e queijo. e colocará tudo. junta- VIII - Coroamento da iniciação
mente com uma moeda. num saquinbo de palha. 1. A pior maldição que pode existir para a
mulher é a condição de mbaco, isto é. ser es-
9. Feito isso, ele preparará um cordão fino téril. Isso significa anular e estacionar a vida.
feito de lascas da casca de baobá (micunga).
Em seguida, aprontará os panos de Lemba e' 2. Diante da esterilidade. o homem procurará

64 I Kitábu
outra companheira para que possa reprodu- os pés no chão, três pares de gêmeos. condu-
zir-se. Por isso. antes do casamento. é preci- zidos por uma mulher mais velha. deverão di-
so pedir a proteção de Ngonga. Ndembo e rigir-se ao campo para colher mussequenha e
Lemba. nos rituais que se concluem com as mulembuíji (Corchorus o/itorius). plantas sa-
festas da iniciação. gradas com as quais saudarão seus irmãos
espirituais. rogando pela sua sobrevivência
3. No primeiro dia da festa. que deverá se es- feliz e saudável.
tender por oito dias, a jovem. ricamente ves-
tida c agora ostentando a condição de qui- 2. No lugar da colheita. a oficiante verterá no
cúmbi (noiva). percorrerá as vizinhanças de chão. de uma garrafa. enquanto pronuncia as
sua casa. com uma alegre comitiva. cantando palavras rituais. a mistura de maluvo (vinho
c dançando. de caju), cerveja de milho (quitoto) e vinho
com que se homenageia os ancestrais. Então.
4. Em casa. com a recém-iniciada sentada ela jogará uma moeda no mato e começará a
em uma cadeira. as danças se estenderão. tirar os ramos de mussequenha e mulembuíji.
em meio a grande alegria. Durante esse tem- As crianças cantarão animadamente em coro
po. a madrinha recolherá dinheiro para com- as cantigas apropriadas em louvor aos gê-
pra dos presentes. meos. chamados mangongo ou mabaça.

IX - O casamento 3. Colhidos os ramos. deles o grupo fará cor-


1. Cumpridos os rituais preparatórios. e de- petes e grinaldas com que se vestirão e ador-
pois de submetida a noiva ao tradicional exa- narão. Assim enfeitados e brandindo galhos
me de castidade. realizado com um ovo de verdes, seguirão todos em direção à casa dos
pomba. a concretização da união se dará. recém-nascidos. cantando e dançando.
agora. mediante a simples mudança da noiva
para a casa de sua nova família. 4. Lá chegando. serão recebidos pela família.
que lhes dará as boas-vindas. oferecendo vinho
2. Ela fará a mudança usando turbante. jóias e moedas e pedindo fartura e proteção. A ofi-
c roupa especialmente feita para a ocasião. ciante da cerimônia e comandante do grupo de
F;m sua companhia estarão quatro damas gêmeos despejará um pouco de vinho no chão
de honra. e. com a espécie de lama que se formará. un-
tará os familiares dos recém-nascidos na testa.
3. O séqüito cantará canções tradicionais em no pescoço e na nuca. Então. serão entregues
louvor a Mama Ngana, a mãe da noiva. e em à família os arbustos colhidos. que são as rou-
homenagem aos nubentes. pas simbólicas e os enfeites do quarto dos gê-
meos. encerrando-se assim a cerimônia.
X - Nascimento de gêmeos
1. Quando de um casal nascem filhos gêmeos. XI - Os guardiões da calunga
esse acontecimento deve ser saudado com e o culto a Quianda
cânticos festivos. Cantando. batendo palmas e 1. O chefe de cada grupamento ambundo é o

Congo I 65
Lemba-dia-Angúndu, que é o homem mais ve- teiras de papiro (luando), ao som de toques de
lho da linhagem mais antiga. Ele representa o tambor (engoma). Suas festas devem durar de
fundador da aldeia e, por isso, deve guardar 15 dias a um mês, tempo em que nenhum pes-
consigo a pemba e a tacula - das quais vêm a cador deverá entrar no mar.
força para a comunicação com os ancestrais e
as divindades - para atrair as chuvas, as boas XII - A Rainha Nzinga e a Igreja Católica
colheitas, a boa caça e a fertilidade das mu- 1. A Rainha Nzinga Mbandi recebeu sua ini-
lheres. Ele é também o dono da mulemba, à ciação religiosa dentro da tradição dos jagas.
sombra da qual deliberam os macotas, os an-
ciãos do grupo. 2. Em seu longo reinado, ela governou por
meio de um conselho secular e de outro, reli-
2. Os caçadores, assim como os quimbandas, gioso, consultando freqüentemente o mais
adivinhos e curandeiros, formam grupos ini- apropriado entre os dois antes de tomar qual-
ciáticos, que se reconhecem entre si por si- quer atitude.
nais secretos e são recebidos por seus pares,
em toda parte, com respeito e reverência. 3. Durante o reinado de Nzinga, a ilha Ndambi-
na-Kisasa, no curso do rio Cuanza, tinha gran-
3. Alguns dos chefes antigos foram também de importância ritual. pois nela estavam se-
guardiões da lunga, ou calunga, boneca de pultados muitos dos ancestrais reais dos am-
madeira que vive num determinado curso bundas. E era lá que os monarcas iam invocar
d'água. Outros, ainda, foram guardiões da a proteção dos antepassados.
ngola, um instrumento de ferro que simboliza
sua força. 4. N7.inga aprendeu que a riqueza e o poder
dos europeus estavam associados às bênçãos
4. A Quianda, uma entidade de águas mari- de suas divindades.
nhas, lagos, rios e fontes, é metade mulher e
metade peixe. Sua morada predileta é a baía 5. Em 1622. em Luanda, na presença do go-
de Luanda, onde recebe oferendas e banque- vernador e de autoridades civis, militares e re-
tes, constantes de alimentos e presentes. ligiosas. a rainha foi batizada na fé católica.
adotando o nome de Ana de Souza. Mas nunca
5. Ela gosta de vinho doce, pentes, espelhos e perdeu o vínculo com sua religião ancestral.
enfeites, que devem ser depositados sobre es-

CAPiTULO 4 Congo - Provérbios


1. Se você não pisar no rabo de um cachorro, 3. Quem faz perguntas não pode dar respostas.
ele não morderá você.
4. A enchente leva para dentro: a maré baixa
2. Quando a videira entrelaça seu telhado, é leva para fora.
hora de cortá-Ia.

66 I Kitábu
5. É tentando muitas vezes que o macaco 20. Quem quiser unir pessoas deve dizer a
aprende a pular da árvore. elas para brigarem.

6. Coração de sábio mente tranqüilo como 21. Os amigos dos nossos amigos são nossos
córrego límpido. amigos.

7. O saber é melhor que a riqueza. 22. O tronco fica dez anos na água. mas nun-
ca será um crocodilo.
8. A chuva não cai num telhado só.
23. A morte não emite som de trombeta.
9. O que se diz em cima de um leão morto não
se diz a ele vivo. 24. Quando a abelha entra na sua casa, deixe-
a beber sua cerveja: você pode querer vi-
10. A criança é a recompensa da vida. sitar a casa dela um dia.

11. Estar bem vestido não impede ninguém de 25. Não importa se a noite é longa. pois o dia
ser pobre. sempre vem.

12. As bananas crescem pouco a pouco. 26. Quem não tem defeitos. tem vida eterna.

13. Quanto mais cheio o rio. mais ele quer 27. Um bracelete só não retine no braço.
crescer.
28. O sono é primo da morte.
14. Não jogue fora o rabo de um grande maca-
co antes de ver se ele está mesmo morto. 29. Carne de bicho novo. gosto sem graça.

15. Amor é como criança: precisa muito de 30. Os ausentes estão sempre errados.
carinho.
31. Carne. para que os amigos cheguem'
16. Os dentes estão sorrindo. mas o coração está? Calúnia, para que fujam!

17. Não se ensinam os caminhos da !'Ioresta a 32. Montei num elefante, os amigos chegaram;
um gorila velho. morreu o elefante. os amigos se foram.

18. Um pouco de delicadeza é melhor que 33. Montados num elefante ou montados
muita força. num tambor. os amigos estão sempre ao
redor.
19. O homem é igual a vinho de dendê: quan-
do novo. é doce mas sem força; quando 34. O elefante não sente o peso da própria
velho, é forte mas rascante. tromba.

Congo I 67
35. Uma das mãos lava a outra. as duas lavam 43. Quem nunca teve desgost.o não pranteia o
o rosto. mal dos outros.

36. Quem come à mesa tem que usar camisa 44. Dá esteira ao linguarudo. mas niío lhe
limpa. franqueie tudo.

37. O importante é a fala e não a tosse. 4f>. Ave no cano da arma é difícil alvejar.

38. Entre o parente e o amigo. confia em quem 46. Quem sofre na casa-grande se desforra na
dá abrigo. senzala.

39. A paciência alimenta. a preguiça não sustenta. 47. Mais vale a prudência que o feitiço.

40. A fama do feiticeiro se faz no próprio 48. A cabra come o capim que lhe apetece.
terreiro.
49. Ao bom dançador o que faz dançar é o
41. Quem se coça. cedo ou tarde. vai ter feri- tambor.
da que arde.
50. O que o coração guarda a boca não fala.
42. Barba de homemde respeilDse puxa com jeilD.

68 I Kitábu
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LIVRO 2 MINA
Introdução

Costa da Mina era o nome que designava.


à época da escravidão. a região litorânea
que se estende do Cabo de Palmas. na
atual fronteira de Costa do Marfim e
Libéria. até o cabo Lopes. no GaMo.
Compreendia todo o golfo da Guiné, e
seu nome se devia ao castelo de EI Mina
localizado no território da moderna Gana.

CAPiTULO Os iorubás*
I - localização e instituições rico de sua comunidade - controlava. entre ou-
1. Na porção noroeste do continente africano tras coisas. o mercado. que era instalado em
- abaixo do Saara. ao sul; a sudoeste e a su- frente à sua casa. no centro da aldeia principal.
deste da confluência do rio Níger com o Benué
ou nas proximidades -. vivem os povos hoje 11 - Origem dos iorubás
conhecidos como iorubás. bem como seus vi- 1. No início dos tempos. há muitos e muitos
zinhos edos. ibos e nupês. entre outros. anos. entre os que hoje são conhecidos como
iorubás. havia apenas o povo de (fé (ou lIê-
2. Essencialmente agricultores. eles desenvol- lfé). Depois é que vieram os de Oió. Savé (ou
veram. há milhares de anos. instituições políti- Sabé). Queto. Ifonyin ou Efã. Egbá. liebu. Ondô.
cas baseadas em laços e tradições familiares. Ijexá e Equiti.

3. Suas aldeias. habitadas por várias linha- 2. Os hauçás costumam dizer que o povo de
gens. tinham governantes escolhidos pela ida- Ifé se originou de alguns descendentes de
de ou pela proximidade de parentesco com o Canaã. da tribo de Nimrod. que teriam sido
grande ancestral comum. Um pequeno grupo retirados da Arábia por um príncipe. Ya-ruba.
dessas aldeias já formava uma cidade-estado e migrado para seu atual território. deixando
chefiada por um líder - olu. obá ou alojá. parte de seu povo para trás.
entre os iorubás - saído de uma das famílias
proeminentes. mas que deveria ter antes ser- 3. Outros dizem que Odudua. o pai de todos
vido em outros postos de comando. aqueles que depois se chamaram iorubás. era
filho de um rei árabe. e que. por resistir ao
4. Esse governante - em geral o homem mais Islã. teria sido expulso pelos fiéis muçulmanos.

• Este e os dois capitulas seguintes baseiam-se. principalmente. em Costa r. Silva,189fi r. 2002.

70 I Kitábu
4. Segundo essa versão, Odudua, atravessan- maré e OIorum - o senhor do Orum, o Céu -,
do o Saara, perseguido pelos inimigos, chegou deu a Obatalá, o senhor das vestes brancas,
ao Níger. com suas divindades e sua gente; e, uma corrente, uma porção de terra numa casca
nas florestas da futura terra dos iorubás. fun- de caracol e uma espécie de galinha de cinco
dou Ilê-Iré. Contudo. essa genealogia parece dedos. ordenando-lhe que descesse e criasse
ter nascido da confusão do nome de Meca, a a Terra. Entretanto, ao se aproximar do portão
cidade santa dos muçulmanos, com o de Meko, do Orum, Obatalá viu que algumas divindades
uma cidade iorubana. faziam uma festa e parou para cumprimentá-las.
Elas ofereceram-lhe vinho de palmeira, mas
5. Os baribas - nome pelo qual os de Oió co- ele bebeu demais e, embriagado, adormeceu ..
nheciam os bornus - e alguns povos das mar- Odudua, seu irmão mais novo, por acaso ouviu
gens do Níger e do Benué contam histórias de as instruções dadas por Olorum e. ao ver que
um herói cavaleiro. chamado Quisra. seme- Obatalá dormia, pegou os apetrechos e foi para
lhantes à saga de Odudua. Em alguns lugares. a beira do Orum, acompanhado de um cama-
os descendentes desse herói são tidos como leão. Naquele local. jogou a corrente, pela qual,
fundadores de reinos. então, desceram. Lá embaixo, Odudua lançou a
porção de terra na água e colocou a galinha de
6. Outros dizem que os primeiros habitantes cinco dedos em cima dela. A galinha começou
de Ilê-lfé vieram da terra dos nupês ou da ter- a ciscar a terra, espalhando-a em todas as di-
ra dos hauçás. Há também a versão de que te- reções. para muito longe, até o fim do mundo.
riam vindo de um lugar do outro lado de uma Depois. Odudua mandou o camaleão verificar
vasta extensão de água. no meio da qual cria- se o solo era firme. Então, Odudua pisou no chão
ram solo firme. de ldio. local onde fez sua morada e onde hoje
se localiza, em [fé. seu bosque sagrado. Quan-
7. Os nossos mais-velhos dizem que os pri- do Obatalá despertou da embriaguez e desco-
meiros iorubás nasceram em Ifé. E não só eles. briu que o trabalho já havia sido concluído,
mas também a Terra e os primeiros seres hu- percebeu o quanto o vinho de palmeira era pe-
manos foram cl'iados em Ifé. I'igoso. Assim, proibiu que seus filhos o bebes-
sem por todo o sempre. Em seguida. Obatalá
111- Desavenças entre Odudua e Obatalá desceu à Terra e a reclamou como sua, porque
1. Contam alguns antigos que, quando da cria- havia sido enviado por Olodumarê para criá-la
ção do mundo. invejosas da perfeição da obra. e reinar sobre ela por direito, uma vez que era
as entidades malévolas resolveram semear a mais velho que seu irmão Odudua - a quem
discórdia entre Obatalá e Odudua. Por isso, acusou de lhe ter roubado o SaCOda Criação.
difundiram a seguinte versão para o primeiro
ato da vida no Universo: 3. Odudua insistia em ser o verdadeiro dono
da Terra, uma vez que a criara. Os dois irmãos
2. No início dos tempos, as divindades viviam começaram a brigar. E as divindades que os
no Orum. abaixo do qual havia apenas a imen- acompanharam até a Terra dividiram-se em
sidão das águas. Olofim. flue é também Olodu- dois grupos, cada um tomando o partido de um

Mina I 71
deles. Do lado de Odudua, ficaram Obocum 2. Entre os filhos de Odudua, que tinha a pe-
(também conhecido por Ajacá), Oraniã, Oba- le mais clara que a de seus conterrâneos e
meri, Essidalê, Ossãin (o médico de Odudua), por isso era visto como "branco", estão: Ocambi.
Aguemã e Obalurã. Tomaram o partido de Ogum, Obamcri. Euí, Essidalê, Obalufã. Alaie-
Obatalá Orixaquirê, Alaxé, Tecô e Ijubé. Entre morê, Oni e Obocum, o mais novo. O primogê-
as duas facções ficou Aranfé, o senhor do tro- nito foi Ocambi, que, por sua vez, teve sete !'i-
vão em \fé. Foi no alto do Oquê Orá (o monte lhas. de ambos os sexos; estes reinaram, res-
Orá), a poucos quilômetros a nordeste de Ifé, pectivamente, em lIexá Owu, Sabé, Popô, fiá,
que Odudua e seus companheiros tiveram a pri- Ibinin c Queto.
meira morada na Terra. Dali saíram para dar
combate aos seus parentes ibos, liderados por 3. Quando ficou cego, Odudua quis indicar
Obatalá e Oreluerê. Quando Olorum soube da Ogum como regente de lfé. Obameri e
disputa, chamou Obatalá e Odudua de volta ao .Essidalê não concordaram com a idéia. Para
Orum para que cada qual contasse sua versão evitar a disputa, Odudua entregou a Ogum o
do acontecido e terminassem com aquela dispu- governo de Irê.
ta. Depois de ouvir as duas partes, Olorum con-
feriu a Odudua, criador da Terra, o direito de 4. Com o ohjetivo de desestimular qualquer ti-
possuí-la e de reinar sobre ela: e ele se tornou po de divergência. Odudua dividiu igualmente
o primeiro rei de !fé. A Obatalá deu o título es- todo o país iorubá entre os filhos. Contudo.
pecial de Orixalá, o grande orixá. e o poder de esqueceu-se justamente de Obocum, que es-
moldar os corpos humanos: e ele se tornou o tava ausente, pois fora buscar água do mar
criador da humanidade. Olorum então os enviou para curar a cegueira do pai. F;xatamente
de volta à Terra acompanhados de Oramfé, para nesse momento, Odudua tomou conhecimento
manter a paz entre eles: além de \fá, o senhor de que todos os seus outros filhos, exceto
do destino; e de Elexijé, o senhor da saúde. Obocum e Oni. haviam roubado suas proprie-
dades e suas coroas, deixando apenas a que
IV - Cegueira e morte de Odudua ele usava no dia-a-dia. Assim, quando
1. A divergência entre Odudua e Obatalá não Obocum voltou com a água que devolveu a vi-
passa de invencionice das entidades malévo- são ao pai. foi o primeiro legitimamente con-
las. O que é certo e verdadeiro, segundo os templado - recebeu a espada cerimonial. sím-
mais velhos dos Mais Velhos, é que, um dia. já bolo de sua autoridade como ouá ilexá. o rei
bem idoso, Odudua ficou cego. Então, mandou do país dos ijexás.
que cada um de seus 16 filhos, e um de cada
vez, fosse até o oceano buscar água salgada, 5. Durante uma das muitas guerras em Que se
conforme lhe fora prescrito como remédio. empenhou. Ogum capturou uma bela mulher
Cada um que retornava chegava sem sucesso, chamada Lacanjê e a tornou sua concubina.
levando-lhe apenas água doce; até que De volta da guerra, escondeu-a de todos, prin-
Obocum, o mais novo, finalmente obteve êxi- cipalmente de seu pai. Um dia. entretanto,
to. Odudua lavou os olhos com a água salgada Odudua viu a moça e se apaixonou por ela.
e recuperou a visão. Perguntando a Ogum de Quem se tratava. es-

72 I Kitábu
te negou que ela fosse sua amante. Odudua. voltou. expulsou Alaiemorê e reconduziu
então. a desposou e. nove meses depois. ela Obalufã ao posto de oni (governante) de !fé.
deu à luz um belo menino. Oraniã. que era Retomando sua saga. chegou ao Antigo Benin.
metade branco - porque Odudua era claro - e lugar em que entronizou seu filho mais velho.
metade preto. Oraniã. então. é meio neto e Euecá. como obá. Outro de seus filhos. Adecá.
meio filho de Odudua: da mesma forma que é foi entronizado como alafim em Oió.
meio-irmão e meio-filho de Ogum.
3. Voltando a !fé. chamado por seu povo para
v- A saga de Oraniã pôr cobro a outra tentativa de usurpação.
1. Após a morte de Odudua. Oraniã o sucedeu Oraniã se exasperou. Entrando no meio da
no mando. Grande caçador e guerreil'o. resol- multidão. girou no ar seu bastão com tanta
veu empreender. junto com os irmãos. uma violência que acabou matando um grande nú-
expedição. No caminho. houve briga. e os ir- mero de inocentes. Voltando a si. e arrependi-
mãos se separaram. Oraniã prosseguiu até as do de sua fúria assassina. arremessou seu ca-
margens do Níger. onde se defrontou com a jado a distância e se internou na floresta. O
oposição dos nupês. que não o deixaram atra- cajado de Oraniã permanece até hoje como
vessar o rio. Voltou-se para oeste e chegou a objeto de adoração nos arredores de !fé.
Borou; e ali. um rei bariba. a quem consulta-
ra sobre onde deveria fixar-se. enfeitiçou uma 4. Após esse acontecimento. Oraniã mudou-se
jibóia e recomendou a Oraniã que a seguisse. para Okô. a terra de sua mulher. Moremi. on-
Onde quer que ela parasse por sete dias. para de. depois de reinar por vários anos. faleceu.
depois desaparecer. o povo de Ifé deveria Seguindo um costume iorubá adotado quando
construir a nova aldeia. E assim foi. A serpen- alguém morre fora de sua terra natal, restos
te conduziu-o até uma montanha. Lá. exata- dos cabelos e unhas de Oraniã foram levados
mente no lugar onde seu cavalo escorregou. a Ifé. e lá enterrados sob o seu cajado trans-
Oraniã ergueu a cidade a que deu o nome de formado em obelisco. o Opá Oraniã.
Oió. ou "lugar escorregadio".
VI - O oni de Ifé
2. Após a fundação de Oió. de onde se tornou 1. Os descendentes de Odudua foram. então.
o primeiro alafim (título que literalmente sig- os fundadores dos primeiros reinos iorubás.
nifica "senhor do palácio"). Oraniã. que des- Entre esses reinos. que deram origem a ou-
posara Moremi. uma princesa nupê. renunciou tros tantos. estão Owu. Queto. lbinin (ou
ao trono e partiu para sua saga de desbrava- Benin). Ilá. Sabé. Popó. Oió. ljebu-Odé. Ilexá.
dor e fundador. Assim estabeleceu uma dinas- Ondô. Aquê. Acurê e Adô Equiti. É por esse
tia entre os edos de Ibinin. o Antigo Benin. da motivo que. nos rituais de entronização de no-
qual se tornou o primeiro obá. e outra em Oió. vos obás. todos esses estados reafirmam suas
onde se tornou o primeiro ala fim. Quando se ligações com Ifé. Paramentos e insígnias de-
encaminhava para Ijebu. Oraniã soube que vem ser enviados ao oni de !fé para serem re-
Obalufã morrera e que Alaiemorê. seu outro consagrados com o axé. a força vital divina.
irmão. havia usurpado o trono de lfé. Oraniã de Odudua: ao ascender ao poder. o novo so-

Mina I 73
berano envia um mensageiro ao oni, para co- te. vão até sua presença. para as obrigações
municar-lhe a morte do antecessor e pedir- rituais que confirmam seus laços com os ebo-
lhe que o confirme como rei. Isso ocorre rás, ancestrais primevos. violentos e perigo-
porque o oni de lfé é o primeiro entre todos os sos. Até mesmo o alafim de Oió. quando assu-
reis dos iorubás e o pai de todos eles - como me o poder, envia a espada-símbolo de sua
o alaquê de Abeocutá; o olowu de Owu; o obá realeza (o agadá) a !fé, para lá receber o axé
de Edo (lbinin); o ouá de Hexá; o orangum de de Odudua.
Há; o olossi de Ossi; os sete reis de Equiti (o
orê de Otum; o olojudô de Idô; o ajerô de Ijerô: 5. O poder do oni é a emanação do poder es-
o alará de Ará; o elecolê de Icolê; o alaiê de piritual dos eborás. maior e mais forte do que
Efã; e o euí de Adô Equiti). Esses são os reis qualquer tipo de poder físico. Assim. um oni,
que podem usar a coroa com franjas de con- depois de consagrado. passa a ocupar a
tas, cobrindo a face, denominada adê. posição de senhor do axé (alaxé), imediata-
mente abaixo dos eborás; e. quando morre.
2. O oni, escolhido por um conselho de chefes passa a integrar o panteão dos eborás.
liderado pelo ouá. governante dos ijexás, re-
presenta tanto a comunidade quanto as divin- 6. Quando Oraniã saiu de !fé para fundar Oió.
dades: quando ele morre, vai juntar-se aos ori- deixou seu servo Adimu encarregado dos as-
xás. Assim, ele não é um simples sacerdote ou sentamentos (conjuntos de objetos sagrados;
ritualista. mas o símbolo da unidade e a cabe- representações materiais) dos eborás. De
ça que conduz o corpo político de seu povo. Os tempos em tempos. Oraniã enviava os mate-
representantes do oni são os emessés. que riais necessários. bem como riquezas para o
não usam nenhum tipo de gorro e se distinguem tesouro real. Adimu consolidou sua posição
pelo corte de cabelo. meio raspado da fronte como obadiô - chefe do corpo de sacerdotes no
até a nuca. No palácio de lfé. vivem também culto aos orixás e eborás - e guardião dos te-
as oloris, grandes senhoras, responsáveis pe- souros. Ele alcançou essa posição apesar de
la cabeça do rei e, em geral. viúvas de onis. sua origem humilde - era filho de uma mulher
No entanto. houve em Ifé duas mulheres que condenada a morrer em sacrifício a Obatalá,
reinaram com plenos poderes: Oloú e Teboiê. mas que. por estar grávida. foi poupada da
execução até o nascimento da criança. justa-
3. Por pertencer à linhagem de Odudua. o oni mente Adimu. Que foi, então. consagrado a
de (fé recebe homenagens de todos os outros Obatalá. Quando o povo Quis saber Quem era o
obás. Isso ocorre porque lfé é, segundo esta tra- encarregado dos altares e tesouros. foi-lhe di-
dição. o lugar onde o mundo foi criado. onde to Queera o "filho da vítima do sacrifício" (amo
nasceram os primeiros humanos e de onde eles oluô ni). Assim originou-se o termo oni. Mais
se dispersaram para todos os cantos do mundo. tarde. quando a sede do governo foi transferi-
da para Oió, os assentamentos dos orixás e
4. O oni de !fé detém os poderes religiosos eborás da nação ficaram em Ifé. e Adimu e
que confirmam e sacramentam a entronização seus sucessores foram os principais sacerdo-
de cada um dos obás, os quais, periodicamen- tes. Oraniã. então. nunca reinou em lfé. embo-

74 I Kilábu
ra tenha sido o primeiro alafim e suas insíg- va o adé. Por isso é que seu descendente, o rei
nias sejam lá preservadas e respeitadas. de [ré (oniré). até hoje porta um simples dia-
dema, uma espécie de elmo (acorô).
VII - Expansionismo de Oió
1. Quando Oraniã chegou ao Antigo Benin, 5. Aganju, um filho de Obocum (ou Ajacá) que
8uí. scu tio, que o acompanhava, estabeleceu- domava cobras venenosas, leopardos e outros
se também entre os edos. Entretanto, ao se animais ferozes, reinou por muito tempo. Ele
desentender com Oraniã, partiu na direção declarou guerra ao obá de Ogboro e derrotou
noroeste, instalando-se em diferentes luga- essa cidade-estado, que ficava a oeste de Oió
res. até falecer. Após Euí sucederam-se vá- e detinha a supremacia na região, pois seu rei
rios chefes, que tomaram seu nome como títu- se dizia irmão mais velho de Oraniã. Aganju
lo e prosseguiram na peregrinação. Um deles, foi sucedido por Cori. que ainda estava no
o euí Auamarô, fixou-se na localidade de Adô. ventre da mãe. Ijaium, quando o alafim mor-
nos montes rochosos e difíceis de Equiti. cujo reu. A rainha foi. então, a regente até a maio-
povo acolheu gentilmente os recém-chegados. ridade do filho.
e acabou sen(10subjugado.
6. Continuando a política expansionista de
2. Os descendentes de Auamarô procuraram Oió. mas, no final, rejeitado pelos súditos e
ampliar os limites do pequeno reino, até se- obrigado a tomar veneno. Cori foi quem man-
rem detidos pela expansão do Antigo Benin. dou fundar, às margens do rio Oxum. a cerca
Euaré era o obá dos benins, quando, na se- de 130km ao sul da capital, a cidade de Edé,
gunda metade do século XV. as tropas do euí e nela entronizou um rei vassalo, cuja princi-
ameaçaram Iqueré. uma cidade que ficava pal obrigação era defender Oió contra os ata-
poucos quilômetros ao sul de Adô. O povo de ques ijexás. No fim do século XV.ascendeu ao
lqueré pediu ajuda aos benins e estes foram poder Oluassô, que construiu 44 palácios. o
em seu auxílio. Os exércitos benins avança- principal deles com 120 torres.
ram sobre Equiti. subjugaram Adô e passaram
a exigir tributo. O chefe de Iqueré foi substi- 7. Por essa época, os nupés, ou tapas, forma-
tuído por um edo, Ogogá, e a cidade tornou-se vam vários pequenos reinos. governados por
um dos pontos estratégicos no domínio do chefes denominados etsus. Alguns desses rei-
Antigo Benin sobre o Equiti. nos pagavam tributo aos igalas. Embora reco-
nhecendo a primazia do atá, o rei (igala) de
3. Ainda naquele tempo, a nordeste de Adô, a Uidá, confederaram-se sob a liderança do et-
poucos quilômetros dali. Ogum. o segundo fi- su de Nku.
lho mais velho de Odudua, após subjugar lré
e executar seu rei. em cujo lugar pôs seu fi- 8. Contudo, o herdeiro do rei de Uidá, numa
lho Ogundaunsí. prosseguiu em suas expedi- estada em Nku, teve um filho com uma prince-
ções militares. sa dessa cidade. De volta ao país igala. tornou-
se mais tarde o atá. o soberano. Seu filho, de
4. Apesar de filho de Odudua, Ogum não usa- nome Tsoedé, ou Edigui. criou-se entre os nu-

Mina I 75
pês e. ao atingir a idade adulta. foi incluído na ma real. principalmente os quatro barabaca-
cota anual de escravos que esse povo dava rus. tambores cerimoniais dotados de axé e
como tributo a Uidá. Lá chegando. foi reconhe- símbolos maiores do poder.
cido pelo pai que carinhosamente o mandou de
volta a Nku. para que reinasse sobre os nupês. 2. Tais tambores - dois grandes e dois peque-
concedendo-lhe. então, as insígnias do poder. nos - mantidos sob a guarda do grande músi-
entre elas uma canoa de bronze. Tsoedê subiu co cerimonial (tufarô), só saíam do palácio
o rio na canoa e. após uma seqüência de bata- nas grandes solenidades, tais como nas entro-
lhas, unificou sob seu comando todos os tapas. nizações e nos funerais dos soberanos.
Quando da morte do rei. rompiam-se as peles
9. Além de grandes cavaleiros, os tapas eram dos tambores e ninguém podia olhá-los.
exímios navegantes. Com seus cavalos e ca-
noas. atuavam como intermediários no co- 3. Os baribas eram o povo da mulher principal
mércio entre os iorubás. ao sul. e os hauçás, de Onigbogui. mãe de seu filho orinrã, por isso
ao norte. Esse comércio incluía grandes con- esse soberano obteve boa acolhida entre eles.
tingentes de escravos, presentes em todas as Morto Onigbogui no exílio, Ofinrã desenten-
camadas da sociedade tapa. que serviam não deu-se com seus parentes baribas e resolveu
só como trabalhadores subalternos mas tam- retornar a Oió. fixando-se antes em Cossô. on-
bém, ao lado do rei. como soldados, ferreiros de se iniciou nos mistérios de Ifá (nome que
e tecelões. Os escravos eram usados, ainda. designa tanto o orixá quanto a técnica da adi-
como moeda humana. principalmente na aqui- vinhação por ele presidida) e no culto aos
sição de cavalos. que os tapas iam buscar no egunguns (antepassados), de origem tapa.
Bornu e nas cidades hauçás.
4. orinrã. porém, morreu antes de realizar seu
10. Os tapas. porém. não eram absolutos nesse desejo de retornar a Oió e recuperar o poder.
comércio - e a concorrência de Oió, especial- Mesmo assim, seu corpo, eviscerado. embalsa-
mente. os incomodava bastante. Então. na pri- mado e costurado dentro de um couro de burro,
meira metade do século XVI, aproveitando-se foi levado. por seu filho Egugu-oju para ser se-
da ausência do exército de Oió. em campanha pultado em sua terra natal. No caminho, Egugu-
fora de seu território, os tapas invadiram a ci- oju fundou a cidade de Igboho, que cercou com
dade. Sem possibilidade de resistência. o ala- uma gigantesca muralha, para protegê-Ia tanto
fim Onigbogui refugiou-se entre os baribas. dos inimigos tapas quanto dos baribas.

VIII - Baribas e tapas contra Oió 5. A guerra não cessava. Assim. esse neto de
1. Localizados a noroeste de Oió e a norte do Onigbogui também não chegou a Oió - ele
Daomé, os baribas possuíam um reino de morreu e foi sucedido por Orampotô, que go-
estrutura feudal. estabelecida pelo primeiro vernou por vinte anos. nos quais se destacou
governante, que entregou a cada um de seus como estrategista e combatente, criando um
filhos a chefia de uma cidade. Os descenden- corpo de cavalaria tão eficiente quanto o de
tes dos fundadores ostentavam. como emble- seus inimigos.

76 I Kitábu
6. Depois de Orampotô, assumiu o poder acá e o anã-olá. Entretanto, o baxorum, pri-
Ajiboiedé (Xopassã), que conseguiu vencer os meiro-ministro. é quem dará a palavra final
tapas. preparando o caminho para o alafim sobre a escolha.
Abipá, Que, cerca de setenta anos depois, fi-
nalmente levou a corte de volta para Oió. 2. Eleito o alafim. a cerimônia de sua entroni-
zação começará com um sacrifício, levado da
IX - O alafim de Oió casa do onã-ixocum por um grupo de homens
1. Durante o exílio de Onigbogui e sua linha- chamado omã-ninãri. Eles tocarão o futuro
gem, dinastias tapas e baribas alternaram-se alafim com a tigela ou cabaça do sacrifício -
no poder em Oió. Contudo, todos os governan- tal gesto significa que ele está sendo chama-
tes persistiram no culto a Xangô, ora associa- do para assumir o trono.
do. por uma estirpe, ao carneiro, ora repre-
sentado montado em um lindo cavalo. 3. Nessa noite, o eleito, vestido todo de preto
e usando na cabeça o ori-cogüê-ofo, gorro al-
2. A partir da ascensão de Abipá. os sobera- to, garantia de sua força, dormirá na casa do
nos de Oió tornaram-se reclusos, recetJcndo, onã-ixokum; a noite seguinte ele passará na
então. o título de ala fim, que significa "senhor casa do sacerdote de Xangô (atum iuefá), on-
do palácio". de deverá, simbolicamente, comer o coração
de seu antecessor.
3. O alafim governava ouvindo não apenas os
chefes das grandes linhagens, mas também os 4. No primeiro dia da terceira lua nova após a
próprios orixás e eborás. Isso ocorria porque morte do ala fim, o novo soberano será coroa-
as leis, em Oió, e tamtJém em Ifé, eram elatJo- do. Nesse dia, ele irá inicialmente ao mauso-
radas como expressão da vontade do Orum, a léu real (bara), cuja sacerdotisa responsável
morada divina - nada se cumprindo sem a é a iá-mandé, e onde estão sepultados todos
aprovação dos orixás, dos quais o alafim é os falecidos reis de Oió.
companheiro c a cujo pantcão vai juntar-se
após a morte. 5. Feitos os sacrifícios aos ancestrais e envia-
das partes das oferendas para o baxorum, o
4. Ele detém o axé. com que atua sobre a na- eleito se dirigirá, no quinto dia, a Cossô, onde
tureza, como sacerdote supremo do culto a será coroado no assentamento de Xangô. A ia-
Xangô e dos demais cultos. Juiz supremo, só o querê, a "pequena mãe", colocará a coroa na
alafim pode decretar a morte de um indivíduo, cabeça dele e, em torno do seu pescoço, o co-
uma vez Queele é o "senhor dono do axé" (ala- lar ritual. Então, já sem as vestes de luto e
xé-oluá) e o "dono da terra" (onilé). envergando seus trajes reais. o novo alafim
deverá ir até a casa do chefe da Sociedade
X - Eleição e coroação do alafim Egungum (alapinil, para ser aclamado rei.
1. O alafim deve ser eleito por três membros
da família real, os Quais são por isso chama- 6. Passados cinco dias, ele se dirigirá ao as-
dos de "os pais do rei"; o onã-ixocum, o onã- sentamento de Oraniã, onde será colocada em

Mina I 77
suas mãos a espada da justiça. símbolo do po- vai Beeré o tinha como paraninfo, o coman-
der de Ifé. dante supremo.

7. Na semana seguinte. ou seja. depois de 4. Os festivais Orum e Beeré. assim como o de


mais cinco dias. o novo alafim irá até o assen- Ifá. consistiam nas únicas ocasiões em que o
tamento de Ogum. para oferecer. em sacrifí- alafim podia aparecer em público durante o
cio. um boi. um carneiro e um cachorro. dia. Os outros ministros do alafim eram o ag-
baquim, responsável pelo culto a Oraniã. fun-
8. Finalmente. entrará no palácio pela primei- dador de Oió; o aJapini. chefe da Sociedade
ra vez. Já na condição de alafim. com todas as Egungum, investido de poderes tanto secula-
prerrogativas do cargo real. será conduzido res quanto religiosos; o axipá, ou ojuá. encar-
ao quarto de Aganju por uma porta aberta es- regado de distribuir os presentes recebidos
pecialmente para ele. enquanto a anterior é pelo oió missi; o iagunã, chefe do culto a Oeô.
lacrada. Lá, oferecerá os últimos sacrifícios, o orixá da agricultura; o xamum e o aquinicu,
e os animais mortos deverão, agora. ser en- conselheiros civis.
terrados sob a porta.
5. Abaixo do oió missi situava-se o conselho
XI - Os ministros do alafim militar (omã exó). liderado pelo arê-onã-cacan-
1. O alafim, por ser um rei sagrado. encarna- fô. identificado pelas 201 incisões que levava
ção de Xangô, só aparece aos súditos algumas na testa, pela pena vermelha de papagaio (eco-
vezes por ano e sempre com o rosto coberto didé) e pelo rabo de porco que levava na mão.
pelas franjas de seu adê. Nos tempos antigos.
embora recluso em seu palácio, ele mantinha XII - As sacerdotisas e os dignitários
a cidade e todo o reino. mais tarde transfor- 1. O palácio do alafim era servido por um nu-
mado em império, sob absoluto controle. meroso corpo de sacerdotisas (ilaris). entre
as quais se incluíam: a mãe do soberano (iá-
2. Esse poder regulava-se por um conselho de obá) - cujo cargo, após sua morte, era ocupa-
Estado, o oió missÍ, integrado por sete aristo- do por uma sacerdotisa que a simbolizava; a
cratas chefes de linhagens. O principal deles, mãe pequena ou substituta (iá-querê), encar-
o ibá oxorum ou baxorum, o primeiro-minis- regada de colocar a coroa na cabeça do rei e
tro, estava encarregado de assumir a regên- de cuidar de suas vestes e paramentos; a res-
cia toda vez que o trono vagasse. ponsável pelo culto a Xangô (iá-nassô); a as-
sistente da iá-nassô (iá-manari). uma das que
3. O poder do baxorum era tanto que ele po- deviam morrer junto com o alafim; a assisten-
dia ordenar o suicídio de um alafim apenas te da iá-nassô e responsável pelos carneiros
lhe mandando ovos de papagaio de presen- de seu sacrifício (iá-finicu); a iá-labã; a orun-
te. Todo ano, no festival Orum, era ele o en- eumefum; e a areorité.
carregado de jogar os obis, as nozes de cola
partidas em quatro, para saber quais sacri- 2. As aiabás, sacerdotisas consideradas espo-
fícios seriam oferecidos aos eborás. O festi- sas do alafim eram: a responsável pelo culto à

78 I Kitábu
cabeça. ou ori. do rei (ialê-ori); a encarregada sempenhavam várias funções e eram alta-
do culto a Ifá (ialê-manlê); a iá-Orixalá, res- mente considerados.
ponsável pelo culto a Orixalá: a iá-Iemanjá.
responsável pelo culto a lemanjá: a chefe do XIII - Os obás. balés e o baxorum
culto a Ossum (iá-Olossum); a iafim-ossum; a 1. Cada cidade-estado tributária de Oió era
iafim-eri: e a iafim-orum-fumí, "senhoras do governada por um obá. Os obás tinham direi-
palácio", cada uma com sua atribuição. Outras to a usar na cabeça o acorô, semelhante ao
mulheres importantes da corte eram: a iá- adê do ala fim, mas sem as franjas de contas
mandê; a acum-iangüá; a odé. responsável que cobriam o rosto do soberano. Os obás de-
pelo culto a Oxóssi; a obá-guntê; a eni-ojá, sempenhavam também funções nos campos
chefe do culto a Exu; a ialê-agbâ. da religião e da justiça.

3. Além das mulheres, o alafim tinha a seu ser- 2. Contudo, só o alafim detinha o poder abso-
viço um grupo de dignitários, entre os quais es- luto, inclusive o de resolver, por intermédio
tavam aqueles considerados seus pais (onã- do onã iuefá, querelas e contendas entre os
ixocum. onã-acá e onã-olá). bem como todos os obás. além de questões mais complexas.
seus irmãos (mangaji-iaji, olussami. arolê-obá,
atinguissi, agum-popô. arolê-iá-obá e aremã). 3. Os chefes das cidades menores, os balés,
gozavam também de grande autonomia. Não
4. Em Oió, a administração do palácio do ala- podiam, porém. envolver-se em guerras nem
fim era dirigida por três eunucos - o que cui- condenar ninguém à pena máxima sem ouvi-
dava do culto a Xangô em seu santuário de rem a palavra do aJafim de Oió, pois este era,
Cossô (atum iuefá); o responsável pelas finan- como ainda é, o próprio Xangô reencarnado.
ças (ossi iuefá); e o que substituía o rei nos
julgamentos do reino e do império afora (anã 4. Antes do exílio de Onigbogui e da retomada
iuefá). Nas cidades, governadas cada uma por de Oió por Abipá, o alafim estava sempre à
um obá, o ala fim era representado pelo asso- frente de seus exércitos. Depois que os sobe-
ju obá, ou ajelê, e este se servia de um corpo ranos de Oió se tornaram reclusos, o coman-
de i1aris, homens e mulheres identificados pe- do geral dos exércitos de Oió passou ao baxo-
las marcas tribais (itás). que tinham nas ca- rum, o primeiro-ministro. Esse comando era
beças raspadas. exercido por meio de chefes militares cri te-
riosamente escolhidos (exós), os quais, em
5. Além desses servidores, havia os aroquins. número de setenta, lideravam os corpos de
griôs e genealogistas da corte: tetus (guar- cavalaria e de artilharia ligeira dos arqueiros.
das). carrascos e sacrifica dores; e o respon-
sável pelos estábulos e cavalariças do palácio 5. Os arqueiros. embora sempre bem adestrados,
(olocô-exim). Integravam também o corpo de eram soldados eventuais e retornavam aos seus
funcionários da corte aqueles que deviam sui- trabalhos agrícolas depois de cada campanha.
cidar-se quando da morte do rei, para conti-
nuar a servi-lo no além - os abobacus. que de- 6. Os esquadrões de cavalaria - de início for-

Mina I 79
mados por escravos baribas, nupês e hau- xv - O declínio de Ifé
çás, e armados com lanças e espadas - cons- 1. No decurso do século XVII, Ifé, embora con-
tituíam-se, porém, em guerreiros em tempo servasse sua importância religiosa, foi perden-
integral e foram os grandes responsáveis do poder político. Esse enfraquecimento ocor-
pelo apogeu militar de Oió e por sua expan- reu por ocasião da morte do oni Awotokolokin.
sào, da floresta, na direção sudoeste, até
quase o litoral. 2. Morto o oni. seu camareiro, Lajuwa. lide-
rando outros cortesãos, resolveu ocultar o
7. Na ocasião das guerras, os obás e balés acontecimento. Vestiu os trajes reais e. o ros-
também contribuíam com tropas, por eles to oculto sob a cortina do adê, passou a gover-
mesmos chefiadas ou reunidas sob a lideran- nar. Para as audiências públicas, o usurpador
ça de um deles. em geral o oni de Icoií. fez confeccionar uma estátua em tamanho na-
tural e a sentou no trono, protegida pela se-
8. Mais tarde, os contingentes formados pelas mi-obscuridade da sala.
tropas dos obás passaram a ser comandados
por um chefe nomeado pelo alafim e deno- 3. Como nas audiências o oni não falava - sua
minado arê-onã-cacanfô. comunicação com os súditos se dava por meio
de um porta-voz -, durante muito tempo nin-
XIV - Oió amplia seus domínios guém notou a farsa. Descoberto o engodo. um
1. Por volta de 1610, depois de o alafim Abipá novo oni assumiu o poder e mandou matar
finalmente vencer os tapas e os baribas, Oió todos os escultores. Data desse período o
começou a submeter os obás das pequenas ci- quase total desaparecimento da grande esta-
dades vizinhas e a ampliar seus domínios nas tuária naturalista de \fé, que, não obstante.
direções norte. oeste e leste. até hoje causa admiração em museus e expo-
sições mundo afora.
2. No leste, as tropas do alafim esbarraram
no poder dos edos do Antigo Benin; e. no país 4. Com o declínio do poder político de !fé. os
ijexá. foram barradas pelo terreno montanho- obás, reivindicando para si também o poder
so e pela densidade da floresta. Na terra dos sagrado, tentaram desqualificar o oni. Espa-
egbás, conseguiram dominar por infiltração lharam a notícia de que ele não descendia de
gradativa e não por confrontos militares dire- Odudua. mas sim de Adimu, simples escravo
tos. Dessa mesma forma penetraram no terri- de Oraniã. que ficara em Oió quando os prín-
tório dos nagôs. ou anagôs, a oeste. cipes se dispersaram para fundar os novos
reinos e cidades. Exigiram para si as homena-
3. Confiante em sua cavalaria, o alafim não se gens devidas ao alaxé, o primeiro logo abaixo
interessou pelas armas de fogo européias. dos orixás.

4. O exército de Oió só não conseguiu esten- 5. Em Oió. o alafim passou a avocar sua con-
der seu domínio a \fé, pois o oni desse reino diçào de irmão mais velho entre todos os
era descendente de Odudua. obás. Toda pessoa mais velha devia receber

80 I Kitábu
reverência e ser obedecida pelos mais jovens mercadorias lá produzidas e fabricadas como
simplesmente pelo fato de deter, em razão da também produtos de fora.
idade, poderes espirituais superiores.
7. Os ijebus eram excelentes agricultores e
XVI - Os ijebus e povos aparentados artesãos. Seus tecidos seguiam, inclusive, para
1. Os ijebus vivem a sudoeste de Ifé. E seu Ajudá. de onde eram exportados para o Brasil,
território outrora chegava até quase o mar. como os apreciados panos-da-costa. [jeburemã.
Ijebu significa "o alimento das profundezas". por sua vez, foi constantemente atacado e sa-
ou seja, das águas do mar. Seu povo descende queado pelos povos de Egbá e Ibadã.
de indivíduos que o obá do Antigo Benin man-
dava sacrificar a OIocum, o oceano. 8. Provenientes de Ifé a partir do século XVI,
os equitis e seus parentes ouós, ondôs e efãs
2. Seu ancestral mais remoto. Obanitá. foi sa- habitam o sudeste do território iorubano.
crificado a Olocum pelo rei de Owu. Entretan-
to. apesar de gravemente ferido e dado como 9. Os equitis, naturais das montanhas rocho-
morto. Obanitá arrastou-se durante a noite sas a nordeste de [fé, agrupavam-se em cerca
para o interior da floresta, e lá conseguiu so- de 16 pequenas cidades-estado, entre as quais
breviver. alimentando-se dos frutos que colhia Adô. cujo soberano era intitulado eleuí; Otum.
e dos animais que caçava. governada pelo ouorê; Ijerô, cujo chefe era o
jerô; lcolê, dirigida pelo elecolê; Acurê, pelo
3. Quando outros homens chegaram ao lugar deji: ldanrê, por um ouá; e Irê, pelo onirê.
onde ele vivia, escolheram-no como chefe,
tanto por seu heroísmo como por ser ele o 10. O único acesso a Idanrê. localizada a qua-
mais idoso de todos. se mil metros, no ponto mais alto do monte
Orossum, era uma escadaria de cordas prati-
4. Os ijebus formavam vários reinos. entre os camente vertical. No entanto, isso não impe-
quais os mais importantes eram Ijebu-Odé e diu a invasão do exército do obá do Antigo
Ijeburemã, cujos respectivos soberanos, o Benin, que manteve o povo equiti sob o domí-
Avujalé e o Acarigbô. exerciam, respectiva- nio dos edos por muito tempo.
mente. influência espiritual e poder político
sobre os demais. 11. Bem menos protegido, porém, estava o
povo de Ouó, a sudeste dos equitis, já quase
5. Todoano, o Acarigbô realizava oferendas ri- nos limites do Antigo Benin. Assim, o reino,
tuais ao Avujalé, da mesma forma que o povo cujo palácio real possuía mais de cem pátios
de Ijeburemã possuía. em Ijebu-Odé. um altar, internos. também teve de colocar. durante um
onde o Avujalé fazia oferendas para a prospe- bom tempo, parte de sua imensa riqueza à
ridade do povo irmão. disposição dos edos.

6. Ijebu-Odé era um grande centro de comér- 12. Isso não ocorreu com os ondôs. povo que.
cio, no qual se vendiam e compravam não só chefiado pelo oxemaue, ou obá. vive até hoje

Mina I 81
a sudoeste de Ouó, a noroeste do Antigo Benin mos do primeiro de seus soberanos, Odudua
e a nordeste dos ijebus. Ondô foi o centro a mandou reunir um grande feixe de varas e as
partir do qual se irradiou o culto a Ogum. transformou em homens. Por isso. os ijexás
Entre outros eborás lá cultuados está Aranfé, são também chamados orno igi, ou seja. "fi-
que propicia a fertilidade. lhos dos gravetos".

13. Uma das mulheres de Obocum (ou Ajacá), 3. Seu primeiro rei, ou ouá. foi Ajacá,
filho de Odudua. deu à luz um casal de gêmeos Obocum. ou Ajibogum, filho de Odudua com a
- o que. então, em \fé, era muito mais uma irmã de uma de suas esposas.
maldição que uma bênção.
4. Ajacá foi aquele que fez a longa viagem até
14. Abandonados na floresta, a mãe e os filhos o litoral, a fim de buscar água salgada para
foram dar nas montanhas de Ondô. Passado o dar alívio aos olhos de Odudua. cego na velhi-
tempo, o rapaz fundou Epê. E sua irmã. de ce. Durante sua demorada ausência. os outros
nome Pupupu. tornou-se a primeira oxemaue príncipes, seus irmãos, receberam a herança
(governante) de Ondô, fazendo de seu filho, do pai e partiram de \fé para fundar os novos
Airô, seu sucessor. Embora os governantes reinos. cabendo a Ajacá apenas uma espada.
seguintes tenham sido homens. um conselho
feminino, liderado pela liçá-labum, a mulher 5. Regressando \fé. ele foi recebido com a ex-
de posição mais alta, sempre os entroniza e clamação "O wa!" ("Ah, está de volta!"), à qual
assessora em algumas de suas decisões. respondeu: "Mo b'okun" ("Eu trouxe água do
mar"). É essa a origem do título do rei dos ije-
15. Habitantes do noroeste de Ifé. os equitis xás. ouá. e do novo nome pessoal que Ajacá
do grupo efã foram também conhecidos como adotaria, Obocum. Lavando os olhos de
"caras queimadas", porque os ilás em seus Odudua e lhe devolvendo a visão. recebeu do
rostos são até hoje feitos com riscos horizon- pai a espada. símbolo do seu poder.
tais tão próximos, que dão a impressão de
uma mancha preta em cada face. O governan- 6. Entretanto. quando retornou mais uma
te dos efãs tem o título de olufã. vez a Ifé. Ajacá confundiu o pai, que tinha o
rosto coberto pela coroa de franjas, com um
XVII - Os ijexás dos irmãos. Brandiu a espada para matá-lo
1. Ao norte de Ondô e a nordeste de Ifé. mas. por intervenção do destino. cortou as
habitam os ijexás. Os primeiros deles descen- franjas do adê, e assim viu o rosto de
diam de antigos escravos que ali eram manti- Odudua. Foi perdoado. mas, como lembrança
dos e cuidados como se fossem gado e se des- de seu açodamento, recebeu por coroa um
tinavam ao sacrifício. Daí o nome ijexá, "ali- adê diferente do usado pelos outros reis.
mento dos orixás, ou eborás". sem franjas na frente.

2. Assim. o número de ijexás foi se reduzindo 7. De \fé, Ajacá-Obocum caminhou com um


em tal proporção que, atendendo aos recla- grupo de seguidores até Ibadã. onde terminou

82 I Kitábu
seus dias. Seu filho. o ouá Oquê Oquilê. indo 3. Cada uma das cidades egbás era governada
mais além, fixou-se em 1I0uá. Sob o comando por um obá. De todos eles. entretanto, só três
do rei seguinte, os ijexás tomaram lIemurê, tinham direito de usar o adê: o obá de Agurá;
cujo nome trocaram para Ibocum. Consumada o oxilê. ou olocô. que era o obá de Ocô: e o
a conquista. arrancaram o adê que o sobera- alaquê. ou soberano de Aquê.
no deposto havia recebido de Ifé. fazendo o
mesmo com o alarê que governava a cidade 4. Cada um deles exercia influência espiri-
vizinha. Ilarê. tual sobre os demais obás da província a que
pertenciam. Todos zelavam especialmente
8. Durante o reinado de Oguê. os ijexás fixa- pelo culto ao orixá Orô. por meio da socieda-
ram-se finalmente em lIexá e lá fundaram a de Oxugbô.
capital do reino. Ilexá. mais tarde célebre por
ter tido cinco mulheres como soberanas. já 5. A maioria dos chefes egbás descendia de
era então famosa por sua cerâmica. Desse uma família de Oió. Sob o comando de um
fato originou-se seu nome lIê Ixá. "a cidade meio-irmão do alafim, essa família, durante
dos cântaros". Na região. havia também um quatro migrações sucessivas. ocupou a região.
rico senhor. chamado Onilá. o "dono dos quia- Primeiro, dominaram Agurá; depois, Oquê
bos". por causa da vasta plantação que man- Onã: e. em seguida. Agbeiín.
tinha. O ouá submeteu-o. mas o manteve
como seu segundo e "grande senhor". com o 6. Na última leva. partiu de Ifé o maior grupo
título de obá-nlá. de todos. conduzido por um filho ou neto de
Odudua. que foi o primeiro alaquê. Ele acom-
XVIII - Os egbás panhou Xopassã e Oraniã na migração de !fé
1. Acima do país ijebu. viviam os egbás. Seus para o oeste. A aldeia de lbadã. fundada por
domínios estendiam-se do rio Oba, no sentido Laguelu de !fé. foi o quartel general do exér-
norte-sul. até Ebute-Metá; e. de leste a oeste. cito confederado que derrotou Owu no início
do rio Oxum ao rio leuá. do século XIX.

2. No passado. os egbás formavam várias ci- 7. Os egbadôs, que habitam o noroeste de


dades-estado unidas numa confederação de Abeocutá, são egbás provenientes do sudoes-
três províncias - Egbá Agurá. parte mais ao te. sendo seu rei (olu) também vassalo de Oió.
norte. fronteiriça a Oió: Egbá Oquê Onã, a su- Um dos grupos egbadôs. o dos ilobis, saiu de
doeste e abrangendo. entre outras, a cidade Ifé para estabelecer o pequeno reino de 1I0bi,
de Ocô: e Egbá Agbeiín. Nesta última provín- ao sul de lIarô. Outros fundaram. próximo da-
cia. localizava-se a cidade de Aquê. que deu li, o reino de Queto. cujo soberano tinha o tí-
origem a Abeocutá. fundada em 1830 com a tulo de alaqueto. O primeiro desses soberanos
chegada dos egbás, desalojados de seu hábitat foi entronizado por Odudua.
na noresta por inimigos de Oió. O nome da ci-
dade. Abeocutá. firmemente fortificada e de 8. Os anagôs. por sua vez. são um povo que
difícil acesso. significa "sobre as rochas". partiu de Oió para se fjxar também em

Mina I 83
Abeocutá. Seu nome designa igualmente ou- tepassados dos ajás. ou fons. Expulsos de seu
tros grupos vizinhos. território pelos exércitos de Oió, eles migra-
ram na direção oeste, fixando-se. primeiro.
9. Em sua migração de Ifé para o oeste. em Tadô. de onde alguns grupos se dispersa-
Xopassã atravessou. com seu povo. o rio Ogum. ram. Um dos contingentes. seguindo na dire-
Após a travessia. o grupo dividiu-se: uma ção sudeste. fundou Aladá. Outra parte foi
parte foi para o norte e fundou Oió; os demais para o sul. estabelecendo-se em Ajudá e
rumaram na direção noroeste e. depois, para Popô. Os demais rumaram em direção ao les-
o sul, onde fundaram Sabé. te. fixando-se entre os rios Monô e Volta,
região em que deram origem ao povo Evê.
10. Os que permaneceram sob as ordens de
Xopassã ergueram uma aldeia no monte co- 4. Os integrantes do grupo de Xopassã que.
nhecido como Oquê Oiã. de onde. depois. se após a travessia do rio Oxum. não o seguiram
deslocaram para Arô, mais a oeste. Após a nem a Oraniã, marcharam para noroeste.
morte de Xopassã. seu sobrinho Ouê assumiu Seu chefe, Salubê, conduziu seu povo inicial-
o comando do grupo. mente até o país bariba, onde morreu. Sua
gente. então. migrou para Tchauru e. depois.
XIX - O êxodo do povo de Queto para Kilibo. região em que permaneceu por
1. Depois de muitos anos Xopassã. líder dos nove reinados.
egbás. Edê. o quinto governante depois de
Ouê. ao verificar que naquelas terras exauri- 5. F'inalmente, para fugir à pressão dos baribas.
das de Arô não tinha mais condições de ali- rumaram para o sul. Chegando às montanhas
mentar seu povo. já que a população de seu de Sabé, próximo à confluência dos rios Uemê e
reino aumentara muito. decidiu partir. Okpara. estabeleceram-se definitivamente.

2. Mais uma vez. os descendentes de Odudua 6. A expansão de Oió na direção sudoeste con-
se dividiram, agora em três grupos. O primei- tou com a cooperação dos aliados de Savé e
ro. sob o comando de Idofá. valente caçador. de Queto. mais ao sul. Por meio deles, Oió,
fundou. às margens do rio leuá. a aldeia que principalmente sob o domínio do alafim
recebeu seu nome. O segundo grupo fundou Ajagbô. ainda no século XVII. começou a esta-
19bô Orã, ao norte de Abeocutá. E o terceiro belecer sua opressão sobre os povos de língua
contingente. composto por 120 famílias. sob a fon. chamados jejes. Os fons de Abomé eram
liderança do próprio Edê e guiado pelo seu fi- inimigos ferrenhos dosiorubás de Queto. por
lho mais velho, o caçador Alalumã, chegou à eles chamados de nagôs.
atual região de Queto. onde ergueu cabanas
em torno de um pé de iroco. Alalumã, logo na 7. Assim, por essa cooperação e pela localiza-
primeira noite na aldeia. coabitou com uma ção de seu território, e apesar de terem sua
princesa do lugar. cidadela rigorosa e inteligentemente fortifica-
da, os habitantes de Queto foram duramente
3. Os primitivos habitantes de Queto eram an- atacados pelos fons em 1789.

84 I Kitábu
8. Essa investida, durante o reinado de Ake- grande número de habitantes de Queto, feitos
bioru, o quadragésimo alaqueto, precipitou a prisioneiros. foram embarcados como escra-
queda de Oiá na primeira metade do século vos em Ajudá e Cotonu. principalmente para
seguinte. A partir daquele momento, um a Bahia.

CAPiTU LO 2 Os iorubás e os edos (ou benins)


I - Antecedentes que mandasse um governante. Para saber se
1. O povo Edo habita a oeste do rio Níger e os que lhe pediam um príncipe eram capazes
das terras iorubanas. Em seus domínios co- de cuidar dele com carinho. Odudua enviou
bertos de florestas. desenvolveram-se, ao lon- aos edos sete piolhos, dos quais deviam tomar
go dos séculos, numerosos pequenos estados, conta por três anos e. depois, devolver a Ifé.
entre eles o dos benins.
7. Os senhores cumpriram o que fora determi-
2. Os benins, um subgrupo dos edos aparen- nado, mas Odudua não chegou a lhes mandar
tado aos equitis iorubanos, assim como todos o príncipe que queriam. pois veio a falecer.
os edos, devotam grande respeito ao seu rei, Entretanto. seguindo instruções de Odudua,
o obá de Benin. seu filho e sucessor, Obalufã. enviou Oraniã
para organizar os edos e governá-los.
3. No início, o grande reino do Benin era ape-
nas um dos numerosos miniestados edos. 11 - O obá e seus ministros
Seus primeiros chefes, os que mandaram 1. Homem e divindade ao mesmo tempo, sím-
construir suas primeiras muralhas. tinham o bolo do poder e da prosperidade de seu reino,
título de "rei do céu" (oguissô). o obá de Benin reinava numa corte pomposa.
num Estado muito bem estruturado. Seu go-
4. O primeiro deles foi Igodô. cujo filho. Erê. foi verno apoiava-se em 48 ministros. os egaev-
o criador da espada cerimonial e de todos os bos: do palácio (egaevbos n-ogê) e da cidade
outros símbolos do poder do obá e da realeza. (egaevbos n-orê).

5. Após Igodô, trinta e um oguissôs sucede- 2. Entre eles estavam o primeiro-ministro (ia-
ram-se no poder. entre os quais alguns do se- xé). que assumia o lugar do rei na sua ausên-
xo feminino. O último deles. Ouodô, foi depos- cia; o ministro da guerra (ejemo. ou oiumo); o
to porque, além de ser fraco e mau adminis- ministro da justiça (eru); os responsáveis pe-
trador. cometeu o sacrilégio de ordenar a exe- la entronização e coroação do rei (olirras. ou
cução de uma mulher grávida. ujmas); o encarregado de reunir o povo para
as grandes festas e solenidades (oguifá); o co-
6. Seguiu-se um período de anarquia e turbu- mandante da guarda real (iuebo); o que desig-
lência. Então, os senhores em luta recorreram nava os governadores das províncias. escolhi-
a Odudua. o grande líder de Ifé. pedindo-lhe dos entre irmãos mais novos do rei (abiogbé);

Mina I 85
o responsável pelos sacrifícios (irrobe); o ri- no. mas também a presidir e conduzir as ceri-
tualista e adivinho (iuaxé); o zelador do palá- mônias rituais.
cio e acompanhante do rei nas cerimônias ex-
ternas (iuegüé); e o responsável pelo supri- 8. Entre essas cerimônias. as mais importan-
mento de mulheres e escravos ao rei (ibirre). tes eram a do ugioro e a do uguigum. realiza-
Ao lado desses altos dignitários estavam os das uma vez por ano. Ao longo dos dez dias de
mensageiros do obá (ucobás). sua execução. purificavam-se e consagravam-
se os colares de miçangas do rei. pedindo-se
3. Outros dignitários da corte representavam aos orixás que concedessem sabedoria ao so-
as partes do corpo e do espírito do obá. cha- berano e o livrassem de malefícios. Nesses
mados eji-ebés. a saber: orramba. o que sim- dias. o obá. vestido de branco. presidia os sa-
bolizava a cabeça; arô. os olhos; errana. os crifícios aos antepassados da família real.
pés; eralonvê. o tronco; e essá. o ventre. Os
egi-egbés. como partes do corpo do soberano. 111- O obá e o axé de Xangô
não podiam sobreviver ao obá. devendo. 1. Quando morria um obá. seu falecimento de-
então. morrer com ele. via ficar em segredo por três meses. período
em que o iaxé ocupava seu lugar. Nos funerais.
4. Os olihas. ou ujmas. foram criados pelo obá o corpo do obá. enfeitado de pérolas e jóias.
Euecá. Intitulavam-se. respectivamente. edor- era enterrado em uma sepultura no próprio
rém. ejemo. erô. errolo-norê. olotom e edaiquem. palácio. Após a cerimônia. o herdeiro do trono
deixava sua antiga morada. em Uxelu. cruzan-
5. A mãe do obá podia ser entronizada junto do uma ponte na estrada de Itsequíri - traves-
com seu filho. recebendo o título de iobá. Neste sia que simbolizava sua chegada ao poder.
caso. porém. ela ficava ritualmente impedida
de vê-lo. e devia ir morar em um palácio exclu- 2. No sétimo dia de sua jornada. ele devia
sivo na aldeia de Uxelu. a nordeste da cidade. manter um combate simbólico com um dos
chefes. e sua vitória representava o triunfo de
6. Escolhido o obá. no momento de sua investi- Oraniã. Contudo. antes de ser efetivamente
dura. ele ajoelhava-se e era proclamado rei. entronizado no palácio. o novo obá cumpria
Em seguida. levantava-se. prestava agradeci- um rito de iniciação durante três dias no cam-
mentos e recebia os paramentos reais. para. po de Ecó Aiê.
então. sentar-se no trono e receber reverên-
cias de cada um dos dignitários da corte. Ter- 3. Contam os mais-velhos que certo dia.
minadas as cerimônias. o obá passava a resi- Xangô. ainda criança. pediu ao obá de Benin
dir. temporariamente. em Oseboe. e só entrava que lhe desse seu trono. Embora tenha acha-
no Benin em caráter definitivo depois de feitos do graça da pretensão do menino. o rei sen-
os sacrifícios no túmulo de seu antecessor. tiu-se ofendido e mandou que o afogassem
num rio. Logo depois de ser afogado. porém. o
7. Uma vez entronizado. o obá dedicava-se menino ressuscitou e foi de novo pedir o tro-
não somente a praticar os afazeres de gover- no ao obá. Ainda mais ofendido e irritado. o

86 I Kitábu
rei ordenou, então, que suas mulheres o le- nascera. Euecá. cujo preceptor era o sábio
vassem para bem longe, para o interior da flo- Oguiefá. Oraniã também deixou com Euecá.
resta, e lá o enforcassem. Feito isso. embaixo além de armas poderosas e muitos cavalos, o
da árvore que serviria de forca. as mulheres adê característico dos onis de !fé.
cavaram um buraco para que, cortada a cor-
da. o corpo nele caísse. Contudo. Xangô caiu 4. A Euecá sucederam Erimiem. Euedô.
vivo e fagueiro. Sabendo dessa segunda res- Oguola e. entre outros. Ogum. que. em nova
surreição. o obá resolveu ir à floresta ver com encarnação terrena. adotou o nome de Euarê.
seus próprios olhos o que lhe fora contado.
Entretanto. não encontrando o menino. retor- 5. O obá Euarê introduziu novos símbolos
nou ao palácio. onde, surpreso. viu Xangô sen- reais, substituindo por contas de coral as con-
tado em seu trono. Então. vencido. cedeu-lhe tas coloridas do adê de Oraniã e instituindo.
seu trono e sua realeza. Por isso é que o obá no traje de obá, o ojá (faixa de pano) verme-
de Benin é também detentor do axé de Xangô. lho que amarrava à cintura.

4. Segundo outro relato dos mais-velhos. o 6. Após conferir a seu filho mais velho a con-
sexto obá do Antigo Benin. Oguola. pediu ao dição de herdeiro real. com o título de edai-
oni de !fé. por volta de 1280. que lhe mandas- quem. e instalá-lo fora da cidade. na aldeia de
se um mestre fundidor. Esse mestre foi quem Usamá. Euarê reaparelhou seu exército. re-
ensinou aos artistas do reino a fundir o bron- construiu a capital e mudou o nome de seu
ze. lançando os fundamentos de uma arte na reino para Edo. em homenagem a um escravo
qual !fé e Benin foram imbatíveis. que lhe salvara a vida. Depois. partiu para a
conquista de cidades-estado importantes.
IV - Oraniã e Ogum no Benin como Acurê e Ouô.
1. Oraniã. acompanhado de vários camara-
das. entre os quais o sábio curandeiro Oguiefá. 7. Ouô. cidade habilmente fortificada e extre-
partiu para a terra dos edos. que. então. se mamente segura, ficava entre Ifé e Benin. Seu
chamava Igodomigodô. Lá. instalou-se fora da primeiro rei foi Ojugbelu. ou Assunlolá. tam-
cidade. em Usamá. onde desposou Erinuindê. bém neto de Odudua. que construiu para si e
filha de um chefe edo. seus sucessores um palácio com mais de cem
pátios internos. cercado de muralhas com
2. Entretanto. diante da oposição que teve de mais de quinze metros de altura. impermeabi-
enfrentar. Oraniã. depois de algum tempo. re- lizadas com azeite de dendê.
nunciou ao poder e abandonou o país. execran-
do-o e chamando-o de "terra do ódio" (ilê ibi- 8. Nas guerras de conquista, o sucessor de
nu). Essa foi. então. a origem do nome (binin. Euarê. o obá Oluá. entronizou. como olu dos
itsequíris. seu filho mais velho, que deu ao
3. Declarando que só um filho da terra pode- país itsequíri o nome de Varri. Morto Oluá, os
ria governar aquele país. Oraniã partiu de edos permaneceram sem rei até que Ozoluá,
volta a !fé, deixando no trono seu filho que lá chegado do exílio. assumiu o poder. Foi suce-

Mina I 87
dido por Essiguiê. este. sim. o verdadeiro con- Abiodum. Contudo. fatos Queocorriam no nor-
solidador da obra de Euarê. te influenciariam profundamente a história
dos iorubás e seus vizinhos.
v- As guerras
1. Em 1698. a cavalaria de üió invadiu o rei- 6. Os muçulmanos fulânis. tidos como pacífi-
no de Aladá. também chamado Aradá e Arará. cos pastores nômades. partiram do noroeste.
ao sul de Abomé. Nesta época. as guerras que sob o comando do xeique Usman dan Fodio. e
alimentavam o tráfico de africanos já estavam estenderam até Oió sua guerra religiosa
bem avançadas. e escravos iorubás eram ex- (jihad).
portados de Ajudá.
7. Em Ilorin. o obá Afonjá declarou sua inde-
2. Oió. o maior e mais poderoso entre os reinos pendência em relação a üió e convidou Alimi.
iorubás. enviou sua cavalaria para atacar o outro chefe fulâni. a unir-se a ele.
reino ajá-fon de Abomé na década de 1720. A
partir de então. o rei de Abomé (arrossu) pas- 8. Por intermédio de Alimi. Afonjá estimulou
sou a pagar um imposto anual ao alafim de Oió. grupos de guerreiros fulânis e hauçás a se
juntarem. em I1orin. aos escravos hauçás do
3. As interrupções desse pagamento levaram alafim. que se rebelaram e fugiram.
Oió a invadir Abomé repetidas vezes. interfe-
rindo em seus negócios internos e externos. 9. A jihad dos fulânis converteu ao islamismo
Também Aladá pagou tributo a Oió durante milhares de iorubanos. Que se aliaram aos
muito tempo. exércitos conquistadores. Nos primeiros anos
do século XIX. os fulânis conquistaram os hau-
4. Em 1789. o exército de Abomé. no qual se çás e. em seguida. os tapas.
destacavam célebres amazonas. atacou Queto.
Queficava próximo à sua fronteira. fazendo mui- 10. Arogangã. sucessor do alafim Abiodum.
tos mortos e levando mais de dois mil prisionei- iniciou seu revide atacando Afonjá em I1orin.
ros. Seu grande objetivo era tomar Abeocutá e Entretanto. Afonjá. mais rápido. sitiou Oió.
chegar a Oió. mas não obteve sucesso. forçou Arogangã a cometer suicídio e fez mi-
lhares de prisioneiros. vendidos como escra-
5. No fim do século XVIII. Oió estava no auge vos. no último capítulo do tráfico de africanos
do poder. gozando do longo reinado do alafim para as Américas.

CAPiTULO 3 Ifá e a criação do mundo


I - OIotim cria o Universo um núcleo de luz. ar e água.onde morava Olofim.
1. Segundo o livro sagrado de !fá. o Santíssimo Então. OIofim resolveu fazer o tempo cami-
Sábio. no princípio só existia a escuridão total. nhar. dando origem. assim. a um número infini-
onde morava Exu-Elegbá. Dentro dela. havia to de baixas vibrações. para tecer o Universo.

88 I Kitábu
2. Depois, soprou com força; e das partículas 9. Então, Olofim criou Üdudua, übatalá e !fá,
de seu hálito formaram-se as estrelas e os que seriam os benfeitores da futura huma-
sistemas planetários. Quando Olofim criou as nidade. Depois, fez com que as coisas fossem
estrelas, a escuridão total se iluminou. separadas umas das outras - à frente, atrás,
em cima e embaixo - e, assim, estabeleceu a
3. Então, Exu-Elegbá perguntou a Olofim noção de espaço.
quem Ele era. "Eu sou Olofim," respondeu o
Ser Supremo. "E vi que a escuridão que nos 10. Como se sentia só, criou, de si mesmo, um
rodeia não fornece a base para a plenitude da número infinito de seres, para distribuí-los por
existência. Assim, resolvi criar a luz, para que todo o espaço, durante todo o tempo. Ele fez
a vida possa florescer e ficar bonita." isso misturando diversas vibrações, para dife-
renciar os seres uns dos outros, de modo que
4. Exu-Elegbá, embora reclamando por ter cada um tivesse suas próprias características.
perdido o espaço que ocupava, concordou com
Olofim e resolveu colaborar em Sua tarefa, 11. Continuando, Olofim assoviou à direita
ajudando a formar, fazer crescer, transfor- para criar os irumalês, divindades primordiais.
mar, comunicar, desenvolver, mobilizar, resol- E assoviou à esquerda, para criar os orixás,
ver todos os impasses, achar todos os cami- divindades ligadas às forças da natureza e às
nhos necessários e auxiliar os seres humanos atividades da futura humanidade, dando a
e as entidades espirituais em suas atribuições. cada uma delas uma atribuição.

5. Em seguida, Olofim criou Olodumarê e 12. Por fim, emanou miríades de pequenas
Olorum, entregando ao primeiro o domínio vibrações individualizadas e manteve a ema-
dos espaços e, ao segundo, o domínio da ener- nação vital permanente. Essas pequenas vi-
gia. Esses dois tornaram-se, então, os senho- brações, os espíritos, expandiram-se pelo espa-
res do Universo, que compreende nosso sis- ço, deambulando sem ordem nem propósito.
tema solar, a Terra e a Lua. Então, Olodumarê fixou-lhes uma morada,
numa dimensão próxima à Terra, que recebeu
6. Olofim é, assim, o aspecto criador por ex- o nome de lfé Orê, a cidade dos espíritos.
celência, causa e razão de todas as coisas, a
personificação da divindade, aquele que se rela- 13. Nesse último momento da Criação, Olofim
ciona diretamente com os orixás e os homens. fixou as leis dos movimentos; deu cores às vi-
brações pela ordem, originando a luz; estabe-
7. Olodumarê é o Universo com todos os seus leceu o equilíbrio, a comparação e a hierarquia
elementos, a manifestação material e espi- das coisas; fez com que a Lua competisse com
ritual de tudo quanto existe na natureza. o Sol pelo domínio das influências no planeta.

8. Olorum é o Ser Supremo - força vital e 14. Feito isso, Olofim foi descansar, delei-
energia impulsionadora do Universo, mani- tando-se na contemplação da grande aventu-
festada através do Sol que aquece e ilumina. ra universal.

Mina I 89
11 - Os irumalês e orixás completam 6. Desceram. então. à Terra. Odudua. !fá e
a Criação Obatalá para criarem a humanidade. Nessa
1. Depois que Olofim foi descansar. os iru- tarefa. primeiro !fá modelou corpos fluídos.
malês e orixás. em grupos de sete. desceram semimateriais. Instruídos por Odudua. cada
à Terra para completar a obra da Criação. um dos espíritos habitantes de Ifé Orê ocupou
um deles. No entanto. como os corpos eram
2. Olocum moldou os abismos. para dar lugar semimateriais. essas novas criaturas come-
aos oceanos: Orixá Ocô levantou as terras do çaram a vagar como fantasmas.
fundo dos mares; Xangô criou a atmosfera e
as nuvens com suas cargas elétricas; Ogum 7. Obatalá. então. começou a realizar o obje-
elaborou os minerais e trabalhou as monta- tivo que tinha definido. Misturando e combi-
nhas: Iemanjá moldou as porções litorâneas. nando vários elementos. criou o arquétipo
cuidando do equilíbrio entre a terra e o mar; humano: duas pernas. para o ser sustentar-se
Oxum fez nascer os rios. mananciais e todas de pé com firmeza; dois braços fortes. para
as águas doces; Orungan dominou o fogo no dominar as outras espécies; um coração
interior da esfera terrestre e assumiu o con- grande e um peito poderoso; uma cabeça no
trole dos vulcões. alto. para observar e perceber as coisas a dis-
tância; e um complexo mecanismo de nervos.
3. Outros grupos de irumalês e orixás foram fluidos e músculos.
criando as estações do ano. segundo a posição
planetária. bem como as rotações da Terra e 8. Odudua completou seu trabalho dando a cada
da Lua. dando origem às marés. aos dias e às um dos seres recém-criados um espírito com
noites. Outros. ainda. tomando diversos ele- seu respectivo corpo astral. para fortalecer
mentos das pedras. das águas e do ar. fizeram seus sentidos e desenvolver seu instinto.
surgir os seres vivos. plantas e animais. a
partir da natureza existente. 9. Finalmente. Olofim concedeu ao ser
humano recém-criado o seu sopro vital. seu
4. À medida que iam criando plantas e ani- espírito (emi). Por isso. O\ofim é chamado
mais. irumalês e orixás estabeleciam a corre- também de Elemi. o dono do sopro vital. O ser
lação entre eles: as plantas nutriam-se da humano também recebeu dele a sua persona-
terra; e os animais deslocavam-se pelo ar. lidade (ori).
pela água e pelo solo. para se alimentarem
dos vegetais. 111- Obatalá corrige os erros
1. Esses seres. assim como os outros animais
5. Assim. a água permitia a vida matel'ial; o ar superiores carregavam. cada um. em um só
constituía o equilíbrio entre as plantas e os corpo. os princípios masculino e feminino;
animais e era o veículo do alento de Olofim: o reproduziam-se por si mesmos e dotavam de
fogo assumia a tarefa de destruidor e revi- um novo espírito cada novo corpo assim ori-
talizador. sob o poder de Olorum e da energia ginado. Por esse motivo. estavam à altura das
vital que dele emana. divindades criadoras.

90 I Kitábu
2. Ciumentos de todo esse poder, os irumalês 2. Nessa escala, Ifá colocou Olofim no pata-
e orixás manifestaram, de forma violenta, mar 21; Olodumarê e Olorum no degrau 17; e
desaprovação a Odudua, !fá e Obatalá, atribuiu a si, juntamente com Odudua e
desencadeando a ira das forças da natureza e Obatalá, o degrau 16, posicionando, entre-
colocando em perigo o equilíbrio do planeta. tanto, Odudua no cimo do degrau, governando
Foi assim que Obatalá veio novamente à a trilogia.
Terra para corrigir os erros da Criação e,
principalmente, consolidar as diferenças 3. O degrau 12 coube aos irumalês da direita;
entre os sexos. o 8, aos orixás; o 7, aos ancestrais divi-
nizados; o 5, aos seres humanos; o 4, aos ani-

3. A partir de então, dos antigos andróginos, mais e plantas; e o 3, aos seres inanimados.

começaram a nascer seres com caracterís-


4. No espaço entre um degrau e outro, !fá
ticas sexuais distintas e complementares: os
estabeleceu sete níveis de diferenciação. Para
masculinos, dotados principalmente de
o ser humano, fez com que no meio desse
força, coragem, agilidade e capacidade em-
espaço, ficasse o homem comum; em cima, o
preendedora; e os femininos, destacados,
homem sábio, que aplica sua inteligência em
primordialmente, pelo dom de gerar filhos e
alguma atividade em que sobressai; mais aci-
pela maior resistência ao sofrimento. Os
ma, o homem santo, que purifica seu espírito
andróginos, perdendo a capacidade reprodu-
e multiplica suas virtudes; e, sobre todos eles,
tora, foram-se tornando uma espécie rara,
o santo-sábio, que encerra os melhores atri-
até sua total extinção.
butos que um ser humano pode possuir.

4. Finalmente, Obatalá criou o amor entre os


5. Abaixo do homem comum, !fá posicionou o
sexos, fundado no desejo instintivo de
néscio, ou ignorante, que zomba e debocha do
complementaridade, como se cada um bus-
que não conhece; depois, o malvado, que car-
casse a parte que lhe faltava. Contudo, algu-
rega as piores qualidades e sentimentos da
mas entidades espirituais partidárias do espécie humana; e, abaixo de todos, o malva-
androginismo dotaram, sorrateiramente, do-sábio, que, a serviço das entidades ma-
corpos masculinos de espíritos femininos e lévolas, aplica sua sabedoria na destruição.
vice-versa, fazendo com que certas pessoas
nasçam com características sexuais que não 6. !fá estabeleceu que o comportamento do
são de seu agrado. homem lhe permite ascender ou cair do lugar
em que se encontra na escala - do meio dela
IV - Ifá determina as posições para cima, cresce a influência dos benfeitores
na escala de valores e, dali para baixo, sucede o contrário.
1. Como primeira atribuição, coube a !fá orga-
nizar o inventário de toda a Criação e deter- 7. Seguindo os objetivos de Obatalá, !fá, ao
minar a cada ser criado sua posição na criar o amor entre os sexos, ensinou ao
grande escala de valores do Universo. homem que o sábio deve compartilhar sua

Mina I 91
vida com uma companheira. que é seu apoio; onde ele vive. Assim. o número de comhi-
que o santo deve ter em altíssima estima as nações possíveis é enorme.
mulheres que o rodeiam; que o santo-sábio
deve considerar a mulher um elemento sagra- 11. Os signos. isolados ou combinados. são
do. cuja participação na vida do homem é fator chaves que permitem abrir as portas do
primordial para que ele alcance a divinização. grande livro no qual estão as parábolas que
concentram os ensinamentos de Orunmilá.
8. Na Terra. o melhor representante de Ifá foi chamadas itã.
Orunmilá - que confeccionou o primeiro opelê.
o instrumento por excelência da arte divina- v- Orunmilá restaura a ordem
tória; e seu melhor mensageiro e amigo foi 1. Houve, no entanto, um momento em que a
Elegbá. De Xangô. ele recebeu o tabuleiro ou vida no Universo inicial tornou-se caótica.
bandeja de adivinhação (opanifá). esculpido Uma série de circunstâncias que foram se
com a madeira da árvore sagrada; com Ossãe agravando ocasionaram a fome. a doença e a
aprendeu o segredo das plantas; de Ogum. ob- miséria. Não sabendo o porquê da desgraça
teve as armas do sacrifício; das iabás. orixás nem como se livrar dela. as pessoas apelaram
detentoras do poder feminino. recebeu o ca- a Olofim.
rinho e o saber sobre as qualidades das pedras
dos rios. das norestas e das savanas. 2. O Ser Supremo. então, enviou Olotá de Adô.
Erimi de Ouô. Pepé de Assin. Ogum de Irê e
9. Por intermédio de \fá. Orunmilá conheceu Dauoderi de Imojubi para restabelecerem a
os segredos da Criação. Por isso. ele diz que ordem e devolverem a paz à humanidade, o que.
tudo deve ser perguntado a !fá. pois este tem apesar de seus esforços, não conseguiram.
a resposta para todas as indagações. Tais
respostas estão nos vários odus do oráculo de 3. Então. foi chamado Orunmilá. O grande
Ifá. escritos por Orunmilá no grande Livro sábio pediu que lhe dessem uma folha de olu-
Sagrado. Os odus são os signos de Ifá - a xualu. planta muito rara. mas ninguém con-
expressão das palavras desse grande orixá. seguiu. Depois. solicitou que todos confes-
sassem seus erros. pecados e crimes. o que foi
10. Todo ser humano nasce sob um signo de feito. Orunmilá. então. tirou a folha de oluxualu
Ifá. e esse signo determina as possibilidades de seu chapéu e com ela restaurou a harmonia.
de seu destino. As pessoas devem obter a re-
velação do seu odu e. assim, render culto a 4. Assim. tudo voltou ao normal: as aves aos
ele. Em qualquer consulta. porém, além do ninhos, os peixes aos rios, os animais sel-
odu mostrado naquele momento, deve-se ter vagens à floresta. os ratos às tocas ... E a paz
em conta o odu da família. do pai e dos an- novamente passou a reinar no Universo; como
cestrais do consulente. bem como do lugar está escrito no Livro Sagrado de !fá.

92 I Kitábu
CAPiTULO 4 O ciclo espiritual
I - A constituição do ser humano lá permanecendo até que o eledá reencarne. A
1. A essência espiritual do ser humano, ou alma, no entanto, pode também abandonar o
seja, sua alma, compõe-se de três elementos corpo durante o sono, como acontece com a
principais. O primeiro é o eledá, ou iponri, alma dos feiticeiros, que saem à noite para
que é seu espírito, a energia do seu guia perpetrar malefícios.
ancestral, ligado à sua cabeça, ao seu destino
e à sua cadeia reencarnatória. 2. Existem práticas que possibilitam ver a
alma de uma pessoa viva e predizer sua morte
2. O segundo é o em!. a respiração que, além se, por exemplo, ela aparecer enlaçada,
de morar nos pulmões e no tórax, serve-se amarrada e arrastada por um feiticeiro.
das narinas como as duas aberturas do fole de
um ferreiro. A respiração é o sopro vital, que 3. Outras práticas são usadas para se apos-
faz o indivíduo trabalhar e lhe propicia a vida. sar da alma durante o sono, impedindo seu
retorno ao corpo e causando a morte.
3. O terceiro elemento é ojiji, a sombra, que
não tem outra função durante a vida senão a 4. De qualquer modo, o dia apontado por
de seguir o corpo vivo, expressando sua Olofim como o do retorno da alma ao Orum só
existência. Pode-se ver a sombra, ouvir e sen- pode ser alterado pelo suicídio; e, nesse caso,
tir a respiração, mas ninguém ouve ou sente o a alma nunca voltará ao Orum.
eledá. A sombra não tem substância e não
precisa ser alimentada, e a respiração nutre- 5. Não é possível dilatar o período de vida
se do alimento que o indivíduo ingere. estabelecido - nem por preces, nem por sa-
crifícios, nem por magia. Contudo, a existên-
4. Contudo, o eledá, que se confunde com o cia terrena pode ser abreviada como decor-
próprio eu do indivíduo, deve ser nutrido através rência de ofensa às divindades, pela ação de
do ritual destinado a alimentar a cabeça, o bor!. maus espíritos, por assassinato ou como
punição por crime ou juramento falso.
5. A cabeça (ori) é o invólucro da mente e do
cérebro - cabeça interior (ori inu) - que con- 111- A reencarnação
centra a essência e o destino do ser humano 1. O indivíduo normalmente reencarna na sua
e dirige sua personalidade. Por isso, é cultua- própria família, e o eledá representa, em ge-
da como uma divindade, recebendo súplicas, raI. a energia de um antepassado do lado pa-
louvores e oferendas. terno. Nomes como Babatundê ("papai voltou")
ou Yetundê ("mamãe voltou") devem ser dados
11 - A alma e o corpo a crianças do mesmo sexo do ancestral que se
1. Quando ocorre a morte física, a essência sabe reencarnado. Um ancestral, no entanto,
espiritual abandona o corpo e vai para o pode reencarnar em uma criança de sexo
Orum, a dimensão dos espíritos e divindades, diferente do seu.

Mina I 93
2. A identidade do ancestral Que reencarna é sacrifícios. Em contrapartida. poderá contar
determinada pela semelhança física ou de com a proteção de amuletos e remédios
personalidade. por sonhos em Que o antepas- preparados para protegê-lo e auxiliá-lo.
sado revela Que voltou ou voltará e também
pela consulta ao oráculo durante a gravidez 5. Diante de um problema. a pessoa deverá
ou logo após o nascimento. sempre consultar um babalaô (intérprete do
oráculo de Ifá) para saber o Quedeve ser feito
3. Antes de uma criança nascer. o espírito do a fim de melhorar sua sorte. Logo após o
antepassado põe-se perante OIorum para nascimento de uma criança ou mesmo duran-
receber um novo corpo. um novo sopro vital e te a gravidez. o babalaô deve ser chamado
um novo destino para sua vida na Terra. para revelar seu destino.

4. Ajoelhado diante de Olofim. ele tem a opor- 6. O signo formado na consulta ao opelê. aos
tunidade de escolher seu próprio destino. iQuins (caroços de dendê) ou a outro instru-
embora seu pedido possa ser negado. caso mento de adivinhação revelará o odu. o desti-
não seja feito de forma humilde e razoável. no da criança. O odu. por indicar a ocupação
em Que o futuro adulto poderá ter maior
IV - O destino sucesso e os caminhos pessoais Que deverá
1. O destino determina a personalidade. a trilhar. será o mapa e a bússola de sua vida.
ocupação e a sorte do indivíduo. Tem um tempo
determinado e. ao seu término. o guia ances- 7. O signo do odu será entalhado em um
tral. o espírito do antepassado. deve retornar pedaço de cabaça. para nunca ser esquecido.
ao Orum. e também pal'8 Que a criança. Quando adulta.
venha a saber. por intermédio do babalaô.
2. O dia da morte não pode nunca ser adiado. Quais os conhecimentos Que ele encerra.
Outros aspectos do destino. contudo. podem
ser modificados por atos humanos e por seres 8. Por ocasião da primeira consulta. o ba-
e forças sobrenaturais. balaô perguntará ao oráculo Qual ancestral
está de volta por meio do recém-nascido para
3. Se o indivíduo tem total amparo e proteção ser seu eledá e Quais os nomes laudatórios
de seu eledá. de Olofim e de outras divin- (oriQuis) apropriados a ele.
dades. ele usufruirá naturalmente do destino
prometido e viverá o período de vida Que lhe V - O nome
foi reservado. Caso contrário. poderá perder 1. Se for um menino. o recém-nascido deverá
as benesses Quelhe foram destinadas ou mor- receber seu nome no nono dia: no sétimo. se
rer antes do tempo. for menina; e também no sétimo. se do nasci-
mento resultarem gêmeos.
4. O ser humano deverá periodicamente re-
novar sua aliança com seu eledá e suas divin- 2. Enquanto a criança não receber cerimo-
dades. oferecendo-lhes louvores. oferendas e nialmente um nome. ela se chamará apenas

94 I Kitábu
lcôco Omã, ou seja, o "recém-nascido"; e sua os recipientes dispostos no centro do ambi-
mãe será a lá Icôco, a mãe do recém-nascido. ente, o mais velho pegará um pouco de pimen-
ta e a passará na boca da criança para que
3. A cerimônia do nome representa a primeira ela seja corajosa, resoluta e tenha controle
vez em que a criança sai de casa e o fim da sobre as forças da natureza.
clausura de sua mãe.
9. Fazendo o mesmo com a água, ele objetivará
4. Ela será realizada sempre pela manhã bem a pureza do corpo e do espírito, bem como a
cedo ou no início da noite. Deverão participar proteção contra doenças. O sal simbolizará o
os parentes e membros da comunidade, cada gosto da sabedoria, que alimentará a vida do
um levando o seu presente, deixado à entrada recém-nascido. O azeite representará força,
do local onde se promoverá a solenidade, saúde e poder como os da realeza. O mel e a
o qual estará devidamente preparado e aguardente, levemente colocados em seus
enfeitado. No centro, estarão recipientes con- lábios, significarão votos de felicidade e força.
tendo água, pimenta, sal, azeite, mel, aguar- E a noz-de-cola, votos de prosperidade.
dente, obis e nozes-de-cola. Com a criança já
no colo de uma mulher mais velha, terá início 10. Terminado o ritual, os festejos com mú-
a cerimônia. sica e dança continuarão até o dia seguinte.

5. Primeiramente, o oficiante espargirá água VI - A espiritualidade e o corpo humano


no chão e no rosto da criança. Se ela chorar, 1. O eledá está associado à cabeça da pessoa,
é sinal de que veio para ficar, pois somente os da qual é o dono e, para propiciá-lo, deve-se
seres vivos emitem sons espontaneamente. banhar a cabeça com ervas refrescantes.
Entretanto, ao mesmo tempo, o ele dá tem sua
6. A seguir, o mais velho do grupo sussurrará contra parte no Orum.
no ouvido do recém-nascido o seu nome.
Então, molhando a ponta do dedo na água e 2. Na cabeça, o eledá está simultaneamente
passando na testa da criança, ele anunciará o na testa, proporcionando inteligência, sorte e
nome dela aos presentes. felicidade; no alto posterior, na coroa, prote-
gendo contra o mal em geral; e na nuca,
7. O nome completo será composto de três defendendo contra os perigos do passado.
partes: o oruncó, nome pessoal, relacionado a
alguma característica da criança ou às cir- 3. Assim como a região da nuca vigia o passa-
cunstâncias do nascimento, como dia da se- do, os dedões do pé avisam o que está à frente,
mana; o oriqui, um nome de louvor, que no futuro próximo ou distante. Por isso, uma
encerrará um voto ou um desejo relativo ao simples topada pode significar um aviso.
futuro do recém-nascido; e, por fim, o orilé, o
nome indicativo de sua linhagem familiar. 4. O aborrecimento e o prazer estão asso-
ciados ao estômago; da mesma forma, o
8. Continuando a cerimônia, dirigindo-se até coração está ligado à bondade e à maldade.

Mina I 95
VII - Abicus e gêmeos 7. No Orum, os gêmeos. assim como os abicus,
1. Uma sucessão de filhos que morrem por conservam a forma infantil, e embora não sejam
ocasião do parto, na primeira infância ou tão perigosos quanto estes. são igualmente
mesmo um pouco mais velhos, indica em geral temidos pelo seu poder. A mãe de gêmeos não
a materialização do espírito de um único conceberá de novo a menos que eles sejam ade-
ancestral, reencarnado repetidamente para quadamente tratados e reverenciados.
logo retornar ao Orum.
8. Se os gêmeos do sexo masculino atingirem
2. Esse espírito não deseja permanecer por a idade adulta, poderão, caso não sejam
muito tempo na Terra, preferindo viver no espiritualmente bem cuidados, causar a
Orum ou apenas viajar, para baixo e para morte do pai: da mesma forma, meninas
cima, entre o Orum e o Aiê, o mundo dos gêmeas poderão ocasionar a morte da mãe.
vivos. Assim, é aquinhoado por Olorum com
breves períodos de vida. 9. Por ocasião do nascimento de gêmeos, dois
pequenos potes são parcialmente enterrados
3. Também há a possibilidade de ser um no canto de um cômodo. onde sacrifícios
espírito Que encarna vezes sucessivas como serão oferecidos anualmente.
filho da mesma mulher somente para lhe
causar sofrimento. Assim, a mulher engravi- 10. Quandó um dos gêmeos morre, os pais
da, as gestações chegam a termo, as crianças devem mandar fazer uma escultura em
nascem bem, mas morrem ainda pequenas. madeira que o represente, isto é, que tenha o
Há, no entanto, recursos espirituais para mesmo sexo e as mesmas características. Tal
impedir a morte, a fim de que a criança possa prática é necessária porque gêmeos, mesmo
desenvolver-se normalmente ao lado da mãe. um vivo e o outro morto, devem ser tratados de
igual para igual, devendo a estatueta merecer
4. Os que nascem nessas circunstâncias são as mesmas atenções que recebia o falecido.
conhecidos como "aqueles que têm a morte"
(abicus). Os pais devem fazer fortes obriga- 11. Se o outro gêmeo vier a falecer, nova
ções para evitar que o espírito da criança estatueta será confeccionada para continuar,
abandone o corpo. realizando sacrifícios, con- ao lado da anterior, fazendo jus às mesmas
sagrando a cabeça dela a outro eledá ou en- homenagens.
tregando-a ao culto de um orixá específico.
12. Gêmeos e abicus, porém, não se cons-
5. Também a morte (Icu) é uma divindade, tituem em divindades: os sacrifícios que
mas precisará saber que aquela cabeça já tem recebem não são dirigidos a eles, e sim às
um dono. suas cabeças, aos seus guias ancestrais.

6. Quando morre um abicu, seu cadáver deve VII - A morte e os ritos funerários
ser, de alguma forma, marcado, para que seja 1. Quando uma criança pequena morre. ne-
possível identificá-lo na próxima reencarnação. nhum rito funerário deve ser realizado: ela é

96 I Kitábu
considerada um abicu. um ser que nasceu xadas em cada bifurcação do caminho. para
para morrer, e tem de ser imediatamente marcar o percurso pelo qual a alma do morto
enterrada no fundo do quintal ou na floresta. os seguirá na volta para a cidade. Quando
sem que seja necessário banhá-la. esfregá-la atingirem o portão da cidade (ibodê). matarão
ou vesti-la. a galinha golpeando sua cabeça contra o solo
ou contra o portão. e lá a deixarão.
2. As pessoas sem filhos também não pre-
cisam receber honras fúnebres muito elabo- 6. Os enterros deverão ser realizados pelos
radas. Essas pessoas e os adultos que morrem homens adultos do clã. sob o comando do
em circunstâncias anormais serão enterrados logun. o chefe desse grupo de adultos. do qual
em seu próprio quintaL se excluem os irmãos e filhos do falecido.

3. Leprosos. albinos. corcundas. mulheres 7. Os homens formarão dois grupos - um


que morrem grávidas, pessoas fulminadas por deles abrirá a cova e o outro banhará o
raio. além de outros que falecem em circuns- cadáver. O corpo será colocado nu no quintal.
tâncias especiais. devem ser sepultados nos apoiado num pilão deitado. para ser banhado
bosques das divindades às quais sua defor- com sabão, água e uma esponja vegetal. Sua
midade ou as condições de sua morte estão cabeça será completamente raspada. É pre-
ligadas (Obaluaiê. Oxalá. Oxum. Xangô etc.). ciso tomar cuidado para não deixar a cabeça
Os sacerdotes dessas divindades realizarão se inclinar em direção a determinada pessoa,
ritos para evitar a repetição do infortúnio. para que esta também não morra.

4. Um filho que deseje enterrar a mãe no 8. O banho e a raspagem do cabelo só podel'ão


quintal dele pode pedir permissão ao clã a que ter início após o pôr do soL Isso é necessário
ela pertencia. O normal. contudo. é que o porque ninguém da família. principalmente o
corpo dela. devidamente coberto. seja levado homem que usar a esponja. deverá ver a som-
para o quintal da casa de seu pai. onde nas- bra do cadáver. sob pena de morrer também.
ceu. Entretanto. o corpo não deve sair pela
porta, mas pela janela. Se não houver janela. 9. O corpo será, então. envolto em roupas
será necessário fazer uma abertura na pa- finas. com todos os adereços colocados nas
rede, cujo fechamento deverá ser acompanha- costas. para que a alma. quando chegar seu
do de um ritual. tempo de reencarnar, conheça o caminho de
volta à Terra. A camisa usada por ocasião da
5. Quando uma pessoa morre no campo. o morte será herdada pelo filho mais novo que
corpo terá de ser levado para o enterro em seja do mesmo sexo do falecido; mas ela e o
casa - à exceção de crianças. que serão se- pilão devem ser deixados do lado de fora da
pultadas no próprio local em que faleceram. casa por sete dias antes que possam voltar a
Os carregadores serão precedidos de um ser utilizados.
homem levando uma galinha viva (adié ibodê).
da qual algumas penas serão retiradas e dei- 10. Um homem não deve nunca comer comida

Mina I 97
preparada no pilão no qual o corpo de sua surgirem credores reclamando dívidas con-
mulher foi recostado; por isso, no quintal de traídas pelo falecido. A não ser que as dívidas
toda casa deve haver um pilão velho, espe- sejam de conhecimento de todos, os credores
cialmente guardado para essas ocasiões. A terão de comer um pouco do barro, em confir-
esponja e a água serão jogadas fora. mação de que os débitos são legítimos.

11. Depois de lavado, o cadáver será levado 15. Cada um dos filhos do mesmo pai e da
para a casa, enrolado em vários tecidos finos, mesma mãe será responsável por pro-
colocado na cama ou em uma esteira no chão videnciar um lençol para cobrir o morto. A
de um cômodo. Em seguida, será coberto com família do pai do falecido contribuirá com um
um pano ainda mais fino, e um pequeno pano, cada um dos irmãos e irmãs da mãe
quadrado deverá ser posto sobre a face do providenciará uma roupa e parentes íntimos
morto. Os parentes e amigos serão avisados deverão colaborar doando tecidos.
da morte o mais rápido possível, para que
possam vir consolar a família e manifestar 16. Sendo o defunto um homem, cada uma de
seus respeitos ao falecido. suas viúvas deverá também providenciar um
lençol em troca daquele com que ele a cobriu
12. Próximo ao corpo, será colocada uma durante o primeiro intercurso sexual do casal.
cabaça, na qual os amigos e parentes deverão Se ele tiver tido filhos, estes adquirirão o
depositar algumas moedas, guardadas pelas tecido em conjunto e em nome da mãe.
viúvas moradoras no quintal da família. que
se revezam sentadas diante do corpo, abanan- 17. Quando a pessoa morta for uma mulher, o
do-o para refrescá-lo. O comprimento do viúvo e cada um dos seus filhos serão respon-
corpo. medido com uma vara, fornecerá o ta- sáveis pelo lençol com o qual ela será enter-
manho da cova simples a ser cavada no quar- rada. Irmãs e filhas compartilharão essas
to para abrigar o falecido. Se ele não possuir atribuições.
nada, será enterrado no quarto de seu pai. Os
responsáveis pela abertura da cova poderão 18. Netos não são obrigados a contribuir para
pedir às crianças da casa para lhes trazerem os funerais dos avós, a não ser que seus pais
comida e bebida. não estejam vivos para fazê-lo. O corpo deve-
rá ser sepultado com cerca de oito lençóis, e
13. Se o morto tiver idade avançada, os covei- mesmo uma família pobre deve tentar con-
ros poderão brincar enquanto trabalham, de seguir pelo menos quatro deles. Roupas com
modo que seus filhos se distraiam e esqueçam detalhes vermelhos não poderão ser usadas
a dor; mas se for da idade dos coveiros ou no enterro, para Que o morto não reencarne
mais novo, eles não brincarão durante o tra- como um leproso.
balho e não pedirão comidas nem bebidas.
19. O corpo será envolto nos lençóis Queforam
14. O último pedaço de barro removido da dados como contribuição e enlaçado com tiras
sepultura deverá ser guardado para o caso de de algodão desfiadas. Se houver lençóis su-

98 I Kitábu
ficientes para envolver o corpo todo. ele será 24. Os filhos do morto deverão passar uma
colocado de pé por cinco minutos ou mais. noite em vigília. geralmente depois do enter-
Essa forma de exposição. porém. é perigosa ro. No entanto. a vigília pode ocorrer antes do
porque. se o cadáver cair. um membro da sepultamento. numa reunião que congregará
família irá com ele para o túmulo. parentes da mesma faixa de idade e seus convi-
dados. Os filhos do falecido. seus filhos e filhas
20. Se os homens que banharam o cadáver e mais novos e seus enteados convidarão os mem-
cavaram o túmulo ficarem contentes com a bros e tamborzeiros de seu grupo para comer.
comida e a bebida que receberem. eles car- beber. cantar e dançar com eles noite adentro.
regarão o corpo num passeio pelos arredores.
e até mesmo pela cidade. antes de depositá-lo 25. Os membros mais velhos do clã não po-
no túmulo. derão participar da vigília nem provar da
comida ali oferecida. Assim. passarão a noite
21. Duzentos búzios ou mesmo dinheiro serão ajudando e consolando parentes próximos do
colocados dentro das vestes do falecido para morto. Além disso. eles não precisarão con-
que ele possa pagar seu ingresso na cidade tribuir para as despesas do funeral. mas tam-
dos mortos. As cerimônias de sepultamento bém não compartilharão da herança.
poderão prolongar-se pelo tempo que os fi-
lhos do morto tiverem condições de custear 26. Essa noite marcará o início das ceri-
os festejos. mônias fúnebres. as quais poderão ser adia-
das se os filhos não tiverem dinheiro sufici-
22. Se não for usado um caixão de madeira. ente para realizá-Ias imediatamente; contudo.
sobre o corpo deverão ser colocadas estacas. elas nunca deverão ser postergadas para
as quais serão marcadas com o sangue e as depois de um ano após a morte.
penas de uma ave (galinha. quando o defunto
for uma mulher; e galo. quando for um ho- 27. Tais cerimônias - que precisam ser reali-
mem). A ave será morta batendo-se sua cabe- zadas o mais rápido possível. para que alma do
ça no chão. arrancando-a e jogando-a fora. Tal pai do morto não retorne. causando doenças ou
prática é necessária para que não morram outro infortúnio - deverão acontecer durante
outras pessoas na família. oito ou dez dias de comemorações. cantos e
danças. Nesse período. parentes e amigos da
23. Outra ave (galinha ou galo) será morta do família apresentarão suas condolências.
mesmo modo. e seu sangue aspergido no
túmulo. Tal técnica objetiva romper os laços 28. No terceiro dia. os cunhados e as irmãs do
do morto com os membros de sua família - morto. bem como seus genros e suas sobri-
para que sua alma não retorne e passe a ator- nhas. deverão levar bolos de inhame. legumes
mentá-los. As duas aves serão comidas pelos e uma porção de cerveja de milho para a
homens adultos que realizaram o enterro. refeição final dos filhos com o pai falecido. A
Contudo. os filhos da pessoa falecida não cerveja e um pedaço de bolo de inhame serão
poderão provar delas. colocados no túmulo - porções de cada um

Mina I 99
deles serão consumidas pelos filhos e pelos danças e cantos em honra dos filhos. Esse ri-
homens Que fizerem o enterro. tual marcará o último encontro da falecida
com as mulheres com as Quais ela conviveu
29. Por ordem de idade. os rilhos do morto depois de casada.
pegarão um pouco de terra com a mão es-
Querda e colocarão no túmulo, enquanto 33. Após a conclusão do funeral, se o filho
rezam para Que o falecido encontre um bom ainda dispuser de bastante dinheiro, serão
lugar no outro mundo. Esses gestos deverão contratados tocadores de tambor e convida-
ser repetidos pelos filhos mais novos do fale- dos seus amigos e companheiros de grupo
cido e por Quem estiver presente. para juntarem-se em danças pelas ruas em
agradecimento àqueles Que o ajudaram no fu-
30. Finalmente. um tronco de bananeira será neral, geralmente oferecendo em troca vinho-
fincado no chão, acima da cabeça do cadáver. de-palma e dinheiro.
Assim, Quando o corpo apodrecer, haverá ali
um buraco por meio do Qual sua alma poderá 34. Esses ritos de sepultamento poderão va-
alimentar-se do sangue dos animais sacrifica- riar, em pequenos detalhes, entre os clãs ou
dos ou de alimentos cozidos. a chão será, en- entre os membros dos cultos a !fá, Xangô,
tão. completamente aterrado pelos coveiros. Egungum. arô etc.
umedecido. amassado com os calcanhares e
alisado com as mãos. 35. o caso de um oni. obá ou outra autoridade.
uma ou duas semanas após o enterl'O - ou
31. Esse procedimento encerra o funeral de mesmo vários meses ou anos depois -, deverão
um homem, mas, para o de uma mulher, rea- realizar-se novas homenagens ao morto. Será
liza-se ainda outro ritual, Que é o das "lágri- necessário mandar confeccionar uma represen-
mas matinais". Nele, pela manhã, as mulhe- tação de sua cabeça, de terracota ou de bl'Onze,
res viúvas do Quintal da família em Que ela se conforme as posses do grupo. e a ela acrescen-
casou comerão juntas e batucarão em tar um corpo de madeira coberto de pano.
grandes cabaças, sempre dançando.
36. A imagem do defunto deverá sair em pro-
32. Mais tarde. o filho mais velho da falecida cissão. seguida por seu sucessor, ostentando
providenciará um carneiro, Que será sacrifi- as insígnias do poder. Tal prática servirá para
cado, cozinhado e servido às viúvas com ou- mostrar que. embora o governante seja mor-
tros alimentos. Em seguida, elas executarão tal, sua função não é, pois tem origem divina.

CAPiTULO 5 Poder físico e poder espiritual


I - Axé e agbara o outro é o axé, o poder espiritual. a poder es-
1. Existem dois tipos de poder. intimamente piritual é o mais importante, não se devendo.
ligados. a primeiro é o agbara, o poder físico: contudo, desprezar o poder físico.

100 I Kitábu
UNte,\
BibJioter'
2. O conjunto dos meios materiais que per- 8. Todo ato de poder. como. por exemplo. uma
mitem executar uma ordem representa o po- declaração de guerra. deve receber a sanção
der físico: por exemplo. as armas. os soldados espiritual dos orixás.
ou mesmo as proezas físicas no campo de ba-
talha ou em um combate civil. O poder espiri- 9. Da mesma forma. o direito de legislar.
tual é muito mais sutil: constitui-se em um outra manifestação do exercício do poder. não
conjunto de forças invisíveis. mas poderosas. é considerado um simples ato de racionalida-
de e de regulamentação social. e sim uma ma-
3. Quando. em combates. os fracos são venci- nifestação da vontade dos orixás e ancestrais.
dos pelos fortes ou quando. em conflitos econô-
micos. os poderosos se apossam das terras dos 10. Mesmo as leis mais simples são promul-
mais fracos. essas conquistas ou aquisições só gadas como uma revelação divina. Em razão
se concretizam graças a uma ajuda espiritual. dessa crença na superioridade das forças es-
pirituais. o uso da força física no exercício do
4. E ela não estará completa se as divindades poder tornou-se secundário.
e os objetos sagrados dos vencidos não tive-
rem sido profanados. se seu laço espiritual 11. Da mesma forma que se obedece imedia-
com o passado não tiver sido rompido. tamente ao rei. porque se reconhece nele uma
força espiritual superior. toda pessoa idosa é
5. O homem que procura despojar uma pessoa obedecida sem dificuldade pelos mais jovens
de sua terra nem sempre acredita que a esta- porque a ela são atribuídos poderes espiri-
rá privando de seus direitos legítimos pela tuais superiores.
força: freqüentemente. ele pensa que a terra
pertence a seus ancestrais e que está apenas 12. Mesmo entre os reis. existe uma hierarquia
retomando o que é seu. - o mais jovem inclina-se diante do mais velho.

6. Sabendo que vai se apoderar deliberada- 13. Tudo isso demonstra que. em geral. a for-
mente da terra de alguém. procurará desmo- ça física não é considerada o argumento últi-
ralizar os poderes espirituais desse indivíduo. mo e mais eficaz. Uma pessoa. mesmo idosa.
destruindo seus deuses. Assim. os poderes in- fraca. pobre e doente. pode comandar um
teiramente espirituais dos orixás são conside- indivíduo jovem. forte. viril e robusto com a
rados muito mais eficazes que todos os pode- certeza de que será obedecida.
res físicos.
14. Assim. nem sempre é indispensável que o
7. Um obá. um rei. possui um poder que ema- rei monopolize todos os meios de ataque e de-
na dos orixás e. depois de sua consagração. fesa de que dispõe. ainda que seja de seu in-
é alçado à condição de alaxé. num patamar teresse fazê-lo. Uma só palavra sua - que ex-
logo abaixo deles. porque lhes deve obediên- pressa os poderes espirituais de todos os an-
cia. Quando morre. se integra ao panteão cestrais - será considerada muito mais eficaz
dos orixás. que todas as forças físicas desses meios.

Mina I 101
15. Nos reinos iorubás anteriores ao período riamente. pois o seu medo é causado pelo
colonial, os exércitos não eram permanentes remorso.
nem deviam obediência a um único obá. Cada
homem poderoso tinha seu próprio exército, e 21. Graças à admiração que suscita na popu-
o rei podia ou não possuir um. lação, o ololá, o homem honrado, exerce um
poder considerável. No entanto, a obtenção de
16. Para os antigos, isso não era sinal de fra- poderes espirituais é bem mais complexa.
queza do poder do soberano, porque, em vir-
tude de seus poderes espirituais. ele podia re- 22. Tais poderes estão relacionados com o axé.
correr aos serviços desses exércitos, cujos Um rei os adquire por meio das cerimônias de
chefes lhe deviam favores e lhe obedeciam iniciação que precedem sua ascensão ao trono
sem discutir. e que o transformam, progressivamente. de
simples mortal em um companheiro das divin-
17. Para se manter em boa saúde física e per- dades. Ele personificará, então, o espírito cole-
manecer forte. o indivíduo pode utilizar diver- tivo da comunidade e se tornará o depositário
sos meios: o medicamento líquido (abô), con- da essência imortal de todos os reis falecidos.
sumido como bebida ou adicionado ao banho;
o medicamento em pó (agunmu), misturado 23. Esses poderes espirituais são conferidos
aos alimentos sólidos e líquidos; o medica- por meios legítimos. Entretanto, há um poder
mento a ser ingerido após cozimento (axejé); espiritual maligno. o dos feiticeiros. que não é
as incisões (gbere), nas quais se introduzem obtido por nenhum dos processos conhecidos,
por fricção medicamentos em pó que vão se mas pelo fato de essas pessoas pertencerem
misturar ao sangue. a uma sociedade secreta.

18. A saúde (ilere oro), esta é a riqueza, di- 11 - O axé negativo - ajogum
ziam os antigos. A honra (ola), contudo, tam- 1. Nem todo axé é positivo. Pois existem tam-
bém é uma fonte de poder. bém poderes malignos, coletivamente conhe-
cidos como ajogum, que incluem todas as for-
19. Um oloJá é um homem honorável. Um indi- ças do mal a afetar a vida humana como, por
víduo pobre pode ser um ololá, desde que não exemplo, a morte (icu), a doença (árun), a
haja manchas em seu caráter. Isso é possível perda (ofo) e a desordem (também denomi-
porque o bom caráter é uma competente cou- nada árun).
raça contra os acontecimentos adversos da
vida, e qualquer um que o possua não precisa 2. As bruxas (ajé) também estão incluídas
temer nada. entre os ajogum. Esses poderes são os eter-
nos inimigos do ser humano que, para evitá-
20. O bom caráter é o guardião do homem. As los, precisa realizar sacrifícios e oferendas
pessoas de mau caráter o temem desnecessa- adequados.

102 I Kitábu
CAPíTULO 6 Egungum, Ogboni e Oro
I - As leis dos ancestrais compartilhada com outros membros vivos da
1. Os ancestrais controlam a ordem nas al- mesma família.
deias e nas cidades por meio de sociedades
secretas e cultos, que são instrumentos de 11 - A Sociedade Egungum
disciplina e ordem. 1. O espírito de um ser humano nunca morre;
além disso, em uma outra esfera, ele continua
2. As leis dos ancestrais vigoram para toda a a influenciar a vida de sua comunidade.
sociedade. tanto para jovens quanto para re-
beldes e criminosos. Mesmo os reis mais des- 2. Os vivos estão constantemente sob os olhos
póticos e caprichosos, sob pena de deposi- vigilantes de seus ancestrais e devem saber
ção. banimento ou algo pior, têm de se sujei- que incorrerão em sua ira se contrariarem a
tar a elas. moral. o direito e os bons costumes.

3. Parentes - por serem pessoas que comparti- 3. Quando a desgraça recai sobre um ser
lham do mesmo ancestral - deverão participar humano, o babalaô, intérprete do oráculo de
da cerimônia coletiva de alimentação da cabeça. lfá, pode indicar a ele o ancestral Que está
que se repete a cada ano, no mesmo dia. irado e precisa ser pacificado.

4. A pessoa também oferecerá sacrifícios a- 4. Em casos de disputas Que não possam ser
nuais aos pais falecidos, em seus túmulos. no facilmente resolvidas. o espírito de um ances-
mesmo dia em que eles, quando vivos. alimen- tral deve ser invocado.
tavam suas cabeças.
5. Os consulent.es irão até o túmulo do ances-
5. O chefe de toda a comunidade fará o mes- tral e lhe oferecerão preces e sacrifícios.
mo para o ancestral fundador da aldeia. cida-
de ou nação. 6. Naquele local. invocarão seu espírito. assu-
mindo, por juramento, o compromisso de não
6. Os nomes laudatórios (oriquis), embora faltarem com a verdade durante a querela,
pertençam ao ancestral reencarnado no indi- sob pena de serem atingidos pela morte den-
víduo. remetem ao ancestral mais remoto - tro de sete dias.
aquele que primeiro os recebeu. Muitos des-
ses nomes podem ser compartilhados pelos 7. Em cada refeição, deve-se sempre lembrar
membros de uma família. os quais homena- dos ancestrais e verter, em seu louvor, um
gearão seus eledás no mesmo dia. pouco de bebida no chão. Agindo assim, qual-
quer membro da comunidade poderá estabe-
7. O espírito de um ancestral recente. embo- lecer contato com os mortos ilustres.
ra já reencarnado, é parte do espírito de um
ancestral remoto. cuja essência é. às vezes. 8. Contudo, somente as pessoas especialmen-

1ina I 103
te iniciadas no culto aos antepassados é Que crianças recebem os nomes de Atô, Ogogô
podem pertencer à Sociedade Egungum. cujo e Amuixã.
chefe é o alabá.
16. Amuixã é aquele Que empunha o ixã, o
9. É o oráculo de Ifá Que informa à comunida- bastão Que afasta as multidões dos egunguns.
de Qual espírito deve receber esse culto espe-
cial e Quem será seu guardião. 111- A Sociedade Ogboni
1. Ogboni é um orixá, filho de Odudua, ligado
10. Feita a indicação, o guardião providencia- à crosta terrestre. Entre seus alimentos favo-
rá a confecção das roupas e paramentos por ritos estão feijões cozidos, folhas de inhame,
meio dos Quais o antepassado será materiali- obis, pombos e carneiros.
zado e virá se manifestar.
2. Seus principais tabus são o derramamento
11. O alabá. então. designará secretamente a de sangue humano no chão; a proibição de um
pessoa Que, trajando aquelas vestes e para- fiel de seu culto se dirigir a outro chamando-o
mentos. incorporará o egungum. Tal pessoa por seu nome pessoal: e a revelação da posi-
jamais será identificada. ção Que uma pessoa ocupa na Casa de Ogboni,
onde não-iniciados são terminantemente proi-
12. Quando um egungum se manifesta. nin- bidos de entrar.
guém pode chegar muito perto dele. É tam-
bém muito perigoso ver o rosto ou Qualquer 3. A Sociedade Ogboni, na Qual os membros se
parte do corpo Que está sob as vestes. Nos identificam pelo uso de pulseiras de metal ou
tempos antigos, uma afronta desse tipo pode- de couro, é sempre dirigida por uma mulher, a
ria significar a morte do ofensor. erelu. Que é secundada por outra, a olori ere-
lu, ou outras mais. a Casa de Ogboni. onde se
13. A Sociedade Egungum é exclusivamente realizam as reuniões dos titulares da socieda-
masculina. Assim, as mulheres Que entrarem de. discutem-se os negócios políticos e julgam-
em seus recintos privativos, incorrerão em se tanto Questões civis Quanto criminais.
falta muito grave, podendo morrer por isso.
4. Essas reuniões podem durar de 17 a 33
14. Quando os egunguns saem à rua, todas as dias, Entre os ijebus. o Omon-iá é uma socie-
mulheres devem permanecer dentro de casa. dade semelhante.
Contudo. sob o aconselhamento de um baba-
laô. aquelas Quesão estéreis poderão abordar IV - O culto a Oro
um egungum pedindo filhos, Então. o egun- 1. Oro é um orixá dos egbás, ligado a Elexijé. o
gum intercederá por elas e lhes dará água orixá da medicina. Foi ele Queensinou ao povo
benta para beber. o uso do berra-boi ou zunidor, usado para intimi-
dar os inimigos. Seus alimentos incluem mungu-
15. Na Sociedade Egungum, o nascimento de zá. purê de inhame, folhas de inhame. milho e
trigêmeos significa a bênção extrema. Essas feijão cozidos, galos. carneiros e cabritos.

104 I Kitábu
2. Seu principal tabu é a proibição às mulhe- diam sair sem problema, porque lá as festas
res de verem os tocadores dos berra-bois que se realizavam no campo sagrado de Oro (igbo-
o anunciam. rol. fora da cidade.

3. Os devotos de Oro (aboros) formam uma 6. Oro só entrava em !fé para fazer cobran-
confraria chamada Oxugbo. Antigamente, ças. liquidar ofensores ou executar um rei que
seus sacerdotes eram chamados para vingar tivesse caído em desgraça. A cerimônia fune-
a morte de pessoas vítimas de feitiço, envene- rária oro-pagui celebra o dia em que Oro co-
namento e elefantíase dos testículos. meu as folhas de uma árvore muito alta.

4. Quando eles chegavam, seus berra-bois po- 7. Durante essa cerimônia. uma peça ou parte
diam ser ouvidos a distância. Então, mulheres de uma roupa branca ou vermelha é colocada
e crianças deviam ficar trancadas dentro de no galho alto de uma árvore para indicar que
casa. Isso era necessário porque Oro iria le- o espírito da pessoa falecida está purificado e
var o culpado. cujo corpo. mais tarde. certa- não precisa mais daquelas vestes.
mente seria encontrado pendendo de uma ár-
vore, coberto apenas na cintura, pois suas 8. Na volta da procissão à casa do morto.
vestes estariam espalhadas pelos galhos. depois das refeições de praxe, o mariuô (fiei-
ra de franjas de dendezeiro) que estava preso
5. Durante as festas de Oro. em Oió e lsseiín, no portão é removido.
os seguidores do orixá sopravam seus berra-
bois pela cidade. seguidos por grupos de ra- 9. Então. todos vão para casa e retornam na
pazes. Os mercados ficavam desertos. porque manhã seguinte para as congratulações. pois o
as mulheres e moças permaneciam trancadas morto já estará no estágio de Oro. o que signifi-
em casa. Em !fé, contudo. as mulheres po- ca que poderá ser cultuado como um ancestral.

CAPiTULO 7 Os habitantes do Orum


I - Os orixás der sobre certas forças naturais. Esse poder
1. Orum. o mundo espiritual, é habitado por lhes garante, por exemplo, jurisdição sobre a
divindades. ou irumalês: ancestrais. ou egun- caça, a pesca, a metalurgia e a fitoterapia.
guns: e mortos comuns. ou ará-oruns. Os iru-
malês dividem-se em orixás genitores e orixás 3. Para esses antepassados, a passagem à
filhos. Os genitores, por sua vez, subdividem- condição de orixás ocorreu sempre em uma
se em orixás funfum. os da cor branca. como ocasião extrema. de paroxismo, como a vio-
Obatalá. e eborás. lenta morte de Ogum em Irê. esse momento.
por serem detentores de um axé muito forte,
2. Alguns orixás filhos, entretanto. são ante- sua matéria desintegrou-se, transformando-
passados remotos que em vida adquiriram po- se em energia pura.

Mina I 105
4. Essa energia. como a de todos os outros se- "escrever" os textos nas suas bandejas de adi-
res divinos. necessita. para ser conveniente- vinhação. os opanifás. Também é um erudito.
mente utilizada. de um suporte físico. um sábio. por deter todo o conhecimento e to-
Devidamente depositada e concentrada nesse da a sabedoria dos odus. que são os textos
suporte. ela receberá os louvores e súplicas (signos) de Ifá. Orunmilá é ainda um intérpre-
dos fiéis. materializados nos sacrifícios e de- te entre as divindades e os seres humanos.
mais oferendas.
4. Por isso. quando qualquer orixá deseja um
5. Essa força pura. que é o orixá. só é efetiva- sacrifício. um alimento especial. é por inter-
mente percebida pelos humanos quando se médio de Orunmilá que ele manda sua mensa-
manifesta. pela incorporação. em um deles gem aos humanos. É também Orunmilá quem
por intermédio do transe. O transe é. então. a transmite e interpreta para a humanidade os
encarnação momentânea de um orixá em um desejos de Olofim. e é quem prescreve os sa-
de seus fiéis ou descendentes remotos. crifícios que Exu leva até o Orum.

6. O orixá. quando ancestral divinizado. é um 5. Orunmilá. arauto de Olofim. e Exu. mensa-


bem de família. sempre transmitido pelo lado geiro dos orixás e dos homens. se complemen-
paterno. A mulher casada e seus filhos deve- tam. O primeiro. como adivinho e porta-voz.
rão cultuar o orixá de seu marido e pai. revela e esclarece. em suas verdades e signi-
Contudo. se assim for determinado pelo baba- ficados. a ordem natural das coisas. com suas
laô. um indivíduo poderá dedicar-se ao culto causas e efeitos. estabelecida pelo Ser Supre-
de outra divindade. mo. O segundo. personificando o devir. o ines-
perado. as aberrações da natureza. expressa
11 - Ifá e Orunmilá a força de tudo o que é contrário à ordem es-
1. !fá é. juntamente com Odudua e Obatalá. tabelecida. Orunmilá é o destino. Exu é o aci-
um dos orixás da Criação e benfeitores da hu- dente; um é a lógica. o outro. o paradoxo. E
manidade. Seu culto procede do Egito. onde por isso se completam.
ele reencarnou no seu principal representan-
te na Terra. Orunmilá. como foi conhecido 111- O Oráculo
entre os iorubás. 1. A consulta a Ifá é feita principalmente atra-
vés da manipulação de 16 caroços de dendê.
2. !fá é. então. o oráculo mediante o qual fala os iquins. O babalaô os segura na mão esquer-
Orunmilá. e. ainda. o conjunto de escrituras da e tenta pegá-los com a direita. Sobrando
em que se baseia o sistema de adivinhação um caroço na mão esquerda. é feita uma mar-
por meio dos iquins e do opelê. ca dupla no pó de madeira ou pó de inhame
seco que recobre o opanifá. chamado de ie-
3. Orunmilá. Elá. ou Agbomiregun. é o orixá rossun. Restando dois caroços. é feita uma
da adivinhação. o representante de !fá na única marca abaixo da anterior.
Terra. É o dono da escrita. porque "escreve"
pelos outros orixás e ensinou aos babalaôs a 2. Com quatro marcações. o babalaô com ple-

106 I Kitábu
tará uma coluna e passará para a outra, que Ocanrã, Ogundá, Ossá, Icá, Oturupom. Oturá,
também se completará com Quatro marcações. [retê, Oxê e Ofun) identificam os primeiros
discípulos, afilhados. ou sacerdotes de [fá, ini-
3. O desenho resultante representará o signo. ciados por Orunmilá. As parábolas do oráculo
ou odu, pelo Qual Orunmilá se comunicará retratam experiências vividas por cada um
com o consulente. desses sacerdotes.

4. Outra forma de consulta, mais simples, é a 4. Cada odu principal representa também
Que utiliza o opelê. fina corrente metálica uma das moradas de Ifé Orê. a cidade dos es-
aberta em duas, cada uma das partes con- píritos. e cada uma delas é presidida por um
tendo, de espaço em espaço, Quatro pedaços ou vários orixás.
côncavos de caroços de dendezeiro. O babalaô
o segura no meio e o lança sobre a esteira. A 5. A adivinhação pelo jogo de búzios corres-
posição em que caírem seus oito componentes ponde a um sistema derivado do jogo do ope-
representará o odu revelado na ocasião (quan- lê, no qual quem responde é Exu e não !fá.
do voltada para cima, a concavidade corres- Com o tempo, porém, o jogo de búzios foi ad-
ponde a uma única marca; Quando voltada quirindo a concepção dos odus.
para baixo. a duas).
6. Existe outro processo simplificado de adivi-
IV - Os odus nhação em Que se utiliza o obi ou o coco par-
1. O odu é o resultado de uma jogada feita tido e o próprio orixá responde às perguntas.
com os iquins ou com o opelê e que encerra
um signo que se traduz numa resposta ou in- V - Os primeiros discípulos
dicação dada por !fá. 1. Guiado por Exu-Elegbá, Orunmilá chegou
ao país iorubá com quatro discípulos. Depois
2. Existem 16 odus principais. dos quais de fazer alianças com reis e sacerdotes de ou-
nascem outros Que completam 256. Estes, tros cultos. fundou a pequena cidade de [petu.
por sua vez, combinados, perfazem 4.096. Lá, começou a instruir um numeroso grupo de
Cada pessoa tem seu destino ligado a um discípulos, para selecionar os 16 mais aptos.
deles. No entanto. o odu que se manifesta por Suas aulas envolviam longas discussões filo-
meio da posição em Que saem os iQuins ou da- sóficas, nas quais propunha questões para os
Quela em que cai o opelê não é necessaria- discípulos discutirem e elucidarem.
mente o da trajetória pessoal do indivíduo, e
sim o da circunstância em Queele está naque- 2. Para melhor fixação dos assuntos aclarados
le momento. Esse odu é expresso pela combi- e de seus ensinamentos. o Mestre criou uma
nação de outros odus e servirá de indicação série de símbolos. cujos significados e interpre-
ou resposta para a consulta. tações seriam exclusivos de seus discípulos.
Esses símbolos eram escritos em tabuleiros
3. Os nomes dos 16 odus principais (Ejiobé. que ele mandou confeccionar tendo por funda-
Oiecum. luori, Odi. Irossun, Ouãrim. Obará. mento um que Xangô lhe dera tempos atrás.

Mina I 107
Como base para inscrição dos signos, Orunmilá nho da fortuna aos pobres. propiciou fertilida-
passou a utilizar pó de inhame seco em home- de às mulheres estéreis e realizou muitas
nagem a Orixá Oco, o fertilizador da terra. ações importantes.

3. Assim que selecionou, de acordo com suas 4. Contudo, Ejiobé ficou tão pobre que às vezes
habilidades, os 16 seguidores desejados, não tinha o que comer. Foi quando Orunmilá
Orunmilá lhes falou: "Irmãos, são cinco os sa- enviou mensageiros para explicar-lhe a neces-
cerdotes que vieram comigo. Somados a sidade de cobrar algo por seus trabalhos, para
vocês, são 21 os meus discípulos. Esse núme- que levasse uma vida digna. Com essa orienta-
ro corresponderá, então, ao número de iquins ção, o apóstolo prosperou e foi bem-sucedido e
que sempre serão entregues a cada um dos respeitado até o fim de seus dias.
iniciados no culto a Ifá. Na cerimônia que
agora iniciaremos, farei nascer 16 reis, que 5. Oiecum foi. entre os discípulos de
são vocês, como depositários da dignidade e Orunmilá, o que melhor compreendeu o senti-
da sabedoria do culto." do da morte (lcu). Por ter sido quem. no início
dos tempos. apontou os aliados de Icu, Azoani
4. Concluída a cerimônia, Orunmilá determi- e Árum, quando estes rondavam ameaçado-
nou que cada um dos 16 apóstolos criasse no- res, é ele quem avisa a proximidade de doen-
vos grupos de discípulos. As experiências de ças e acidentes fatais.
cada um deles deram origem, então, às nume-
rosas histórias que compõem os textos de !fá. 6. Orunmilá o nomeou "rei da noite". Con-
tudo. o proibiu de usar gorro ou chapéu;
VI - Os 16 apóstolos mesmo assim, ele teria de enfrentar a chuva
1. Orunmilá deu a seus apóstolos os nomes de em qualquer circunstância. Seguindo essa
Ejiobé, Oiecum, luori, Odi, Irossum, Ouãrim, orientação, Oiecum foi admirado e próspero
Obará, Ocanrã, Ogundá, Ossá, lcá, Oturupom. até o fim da vida.
Oturá. Iretê, Oxê e Ofum.
7. luori foi a fortuna de sua família. pois já no
2. Ejiobé significa "dupla salvação", porque ventre materno todos sabiam que sua mãe iria
esse apóstolo, ao nascer, evitou que seu pai e dar à luz um adivinho. Assim. ninguém cobra-
sua mãe ingerissem um alimento envenenado. va dessa mulher nada do que precisava. Ainda
Ele é o primeiro do grupo. o rei de todos, repre- bem pequeno, era ele quem orientava seus
senta o Sol, o dia e o princípio das coisas: a ele pais sobre as limpezas rituais necessárias
compete comandar a vida, conservando o meio para obter prosperidade e ensinava aos seus
ambiente e assegurando fartura e bem-estar. os benefícios da alimentação carnívora.

3. Por suas características especiais, Orun- 8. Hábil e talentoso artesão, luori gostava de
mijá determinou que o opelê de Ejiobé devia confeccionar coroas com plumas, com as
ser feito com contas de prata. Por sua força, quais presenteava os obás que freqüentemen-
esse discípulo curou enfermos, abriu o cami- te visitavam Ipetu. Em retribuição. os obás

to8 I Kitábu
lhe davam dinheiro e bens. tornando-o um ho- profundezas da Terra e deu-lhe muitos conheci-
mem muito rico. Além de próspero. esse dis- mentos de magia para combater seus inimigos.
cípulo foi muito respeitado como adivinho.
15. Obará se destacou. desde muito pequeno.
9. Odi caracterizou-se. desde pequeno. por por seu gênio zombeteiro e mentiroso. Ainda
sua personalidade muito nervosa e irritadiça. jovem. embriagava-se e fazia promessas que
Feito apóstolo. vivia de forma misteriosa. não cumpria. o que o levou ao descrédito e à
sempre solitário e afastado das aldeias. pobreza. Com sua iniciação. entretanto. sua
vida mudou.
10. Por demonstrar muito conhecimento
sobre as diferenças entre os sexos e os misté- 16. Orunmilá. então. entregou a Obará o reino
rios da sexualidade. Odi recebeu de Orunmilá das pirâmides e das montanhas. que é o espa-
o reinado da formação do gênero humano. ço intermediário entre o Céu. de Obatalá. e a
Além de facilitar os partos problemáticos. ele Terra. de Odudua. e. portanto. o reino de Ifá.
foi também renomado curador de inválidos.
cegos e outros enfermos. 17. Ocanrã foi camponês até se tornar adulto.
vivendo numa terra onde era impossível pros-
11. Irossum nasceu e cresceu em extrema po- perar. pois numerosos animais predadores
breza. e por isso não pôde. na juventude. ca- destruíam as colheitas das famílias.
sar-se nem ter filhos. Durante sua preparação
para o sacerdócio. ele proclamou a relação 18. Uma vez iniciado. Ocanrã partiu em pere-
das partes do corpo com o tempo de vida do grinação e chegou. com seu grupo. a uma al-
homem: as costas se relacionam ao passado; deia que estava prestes a ser assaltada. Com
o peito e o ventre. ao presente; e as pernas. paus e folhas de palmeiras. ele e seus compa-
ao futuro imediato. nheiros fizeram um enorme alarido. pondo em
fuga os malfeitores. que julgaram ser aquele
12. Com base nessa associação. estabeleceu- grupo um grande exército.
se a posição dos signos do oráculo no tabulei-
ro. A sabedoria e os feitos milagrosos de 19. Os aldeões, agradecidos, aclamaram Ocanrã
Irossum o credenciaram como o mais impor- o obá da região. A partir de então, ele viveu
tante dos apóstolos iorubanos de Orunmilá. mais dedicado ao governo e à agricultura que
ao sacerdócio. para o qual iniciou vários subs-
13. Ouãrim foi um dos menos renomados dis- titutos. Ocanrã recebeu de Orunmilá o reino
cípulos de Orunmilá. pois nunca se mostrou das enfermidades e das coisas contagiosas.
amante da fama e da popularidade. Além de porque, durante sua iniciação. três pessoas
sacerdote. tornou-se comerciante; e. por sua morreram de repente em lpetu.
prosperidade. despertou a inveja e a inimiza-
de de muitas pessoas. 20. Ogundá mereceu o apostolado por sua
grande sabedoria e habilidade política. De pa-
14. Orunmilá outorgou a Ouãrim o reino das lavra fácil e convincente. tornou-se um gran-

Mina I 109
de adivinho depois de iniciado, aliando a for- 25. Orunmilá entregou a Oturupom o reinado
ça de Ogum aos dotes de Orunmilá, que lhe sobre tudo o que é grosso e redondo, além de
concedeu o reino da lei, da justiça e das téc- fazê-lo dominar o dano, a enfermidade. as
nicas de guerra, bem como o poder sobre o bruxarias, os ardis e as armadilhas.
ferro e o fogo.
26. Oturá foi um dos discípulos mais civiliza-
21. Ossá foi um dos mais hábeis e espirituali- dos, instruídos e de palavra mais fluente. Como
zados discípulos de Orunmilá. Por possuir al- apóstolo, viajou por várias regiões, conhe-
tíssimos dons de comunicação com as outras cendo formas de vida as mais diversas. Foi
dimensões, recebeu do mestre o reino dos es- assim que Oturá criou a bolsa de viagem (apô
píritos. No exercício do apostolado, foi muitas abirá), imprescindível a todo sacerdote pere-
vezes atacado por bruxos e feiticeiros: porém, grino como ele.
com seu poder, fez com que os malefícios vol-
tassem para os malfeitores. Ossá conservou 27. Contudo, a cada região que chegava, Oturá
seus dons espirituais até o fim da vida, sem via que a penúria era maior que na anterior.
deixar, contudo. de adquirir bens e riquezas. Por ajudar todas as pessoas nos lugares onde
passava, tornou-se um dos homens mais ricos
22. Icá foi um dos apóstolos mais jovens e, da terra iorubá. Orunmilá o fez reinar sobre
por isso, a princípio, seus pares não o enten- os inimigos.
diam bem. Entretanto, como também tinha
um grande poder de comunicar-se com os es- 28. lretê veio da terra de Ijexá, onde se cha-
píritos, granjeou, aos poucos, o respeito e a mava Eielemerê. Durante as aulas de sacer-
admiração dos demais discípulos. dócio, foi ele quem assinalou que a foice - ar-
rebatada de Icu por Exu em marcante episó-
23. Depois de iniciado, viajando com seu séqui- dio - deveria ser atributo de Oiá, a feroz guer-
to para estabelecer-se no litoral, Icá encontrou- reira aliada de Orunmilá.
se com Ogum, que lhe forneceu ferramentas e
apetrechos de pesca. Foi graças a esses utensí- 29. Iretê se distinguiu por propiciar fertilida-
lios que ele conseguiu salvar a vida de um obá de a muitas mulheres. E o mestre lhe conce-
que naufragara com quase toda a sua corte. Por deu o domínio sobre o espaço contido dentro
esse feito foi venerado como um deus e recebeu dos círculos, como o do tabuleiro de Ifá.
de Orunmilá o reino da serpente.
30. Oxê era um dos mais velhos entre os dis-
24. Oturupom era criado e assistente de Ora- cípulos. Sua tese fundamental, durante as dis-
gum, que. depois de iniciado, passou a cha- cussões. era a de que o dinheiro havia chega-
mar-se Ofum. Como seu patrão, ele tornou-se do ao mundo para resolver problemas e, ao
discípulo de Orunmilá, destacando-se pela mesmo tempo, criar outros tantos. Assim, fir-
brilhante inteligência. Foi Oturupom quem, mou opinião de que toda consulta ao oráculo
durante as aulas, conseguiu explicar como a deveria ser remunerada. Orunmilá o aconse-
inteligência chegou ao ser humano. lhou a ter cuidado com esse modo de ser, lem-

110 I KiLábu
brando-o de que nem sempre se pode ganhar 4. Quando um orixá quer dar algo bom a uma
e que, às vezes, é necessário perder. Orunmilá pessoa. tanto material Quanto espiritualmen-
deu a Oxé o domínio sobre a região oriental. te, Exu ou Elegbá são os encarregados de le-
de onde vinha o ouô-eió, o búzio, que era a var essa dádiva. Às vezes, portadores de gra-
moeda de então. ças. e outras, agentes punitivos e causadores
de transtornos, Exu e Elegbá podem ser bons
31. Ofum era filho de um rei e se destacou por ou maus, de acordo com a circunstância. E.
sua eloqüência. Foi ele que estabeleceu a tra- assim, ora agem independentes ou ora fun-
dição de que a iniciação sacerdotal deve durar dem-se numa só entidade: Exu-Elegbá.
sete dias - seis de atividades e um para limpe-
za da casa e descanso. Também foi esse discí- 5. Por causa das prerrogativas de Que dispõe.
pulo que determinou a importância da pena de Exu-Elegbá detém poder inclusive sobre os
papagaio (ecodidé) na confecção da coroa dos demais orixás, uma vez que no mundo tudo
iniciados. Além disso, Ofum decifrou o segredo depende das informações que ele leva até
da ciência médica e do uso das plantas tera- Olofim. Ele é a personificação do bem e do
pêuticas. Respeitado, viveu prosperamente mal, a expressão da coexistência. no mundo,
perto da fronteira com o país dos ararás. das forças benéficas e maléficas.

VII - Exu e Elegbá 6. Exu-Elegbá pode fazer Qualquer coisa, boa


1. Exu e Elegbá são os orixás donos dos cami- ou má. Assim, é possível usar sua força para
nhos e dos destinos. Mensageiros de Olofim e criar inimizade entre pai e filhos. marido e
dos demais orixás, levam a Olofim a energia mulher ou entre dois grandes amigos. Da
das oferendas e dos sacrifícios. Elegbá difere mesma forma, Exu-Elegbá é capaz de tornar
um pouco de Exu. seu irmão, por apresentar férteis pessoas estéreis e fazer prosperar ne-
características menos agressivas e perigosas. gócios mal encaminhados. Ele também pode
Os mais velhos dizem que enquanto Elegbá fazer com que uma pessoa se comporte mal,
desliza em silêncio. Exu abre caminho à força. assim como é capaz de forçar um devedor a
pagar suas dívidas.
2. O assentamento. o suporte físico, tanto de
Elegbá quanto de Exu pode ser apenas um 7. Independentemente do nosso orixá pessoal.
montinho de barro vermelho, ajeitado no quin- temos sempre de rezar para Exu-Elegbá. a
tal, ou. então, uma face modelada com barro fim de que ele nos abra o caminho e afaste
e mais trabalhada, com búzios no lugar dos malefícios e problemas. Em cada oferenda fei-
olhos e a boca desenhada. ta aos outros orixás, uma parte deve ser
primeiro entregue a ele.
3. Na condição de mandatários, Exu e Elegbá
punem aqueles que ofendem os orixás ou fa- VIII - Exu-Elegbá e Orunmilá
lham no cumprimento das obrigações deter- 1. Exu-Elegbá é o braço direito de Orunmilá.
minadas pelo babalaô, da mesma forma que Assim, ele precisa estar sempre de plantão
protegem todos aqueles que as cumprem. para agir sob as ordens do grande sábio.

Mina I 11 t
2. Exu-Elegbá tem sob sua guarda tudo o Que por 16 anos. prestando muita atenção na mo-
é maléfico e malfazejo; enquanto Orunmilá. delagem e aprendendo como ele fabricava
com sua sabedoria. é a força Queajuda o mun- cada parte dos seres humanos. diferenciando-
do a superar todo o mal. proporcionando con- os pelo sexo.
solo. paz e bem-estar aos humanos.
4. Exu-Elegbá não perguntava nada. mas man-
3. Sempre Que uma pessoa estiver em dificul- tinha-se bastante atento. Assim. assimilou tu-
dades, poderá. por intermédio de Exu-Elegbá. do. e passou de aprendiz a ajudante. Seu tra-
contar com a ajuda de Orunmilá para encon- balho consistia em receber os ebós e entregá-
trar uma saída. los a Obatalá. Como realizava muito bem o seu
trabalho. o amo resolveu recompensá-lo.
IX - Exu-Elegbá conquista o privilégio
das primeiras oferendas 5. Foi assim Que.certo dia. Obatalá determinou
1. Durante a criação do Universo. Olofim reu- a Exu-Elegbá Que se postasse na encruzilhada
niu os sábios do Orum para Que o ajudassem por onde obrigatoriamente passavam todos os
nessa grandiosa tarefa. Entretanto. cada um Queiam à sua casa e Quenão deixasse prosse-
tinha uma idéia diferente para a Criação e a guir Quem não portasse uma oferenda.
reunião tornou-se confusa. Nesse momento.
Exu-Elegbá foi em auxílio de Olofim. dizendo a 6. Obatalá fez isso porque tinha muito traba-
Ele Que para obter sucesso em tal obra era lho - havia cada vez mais gente encomendan-
preciso fazer um ebó (uma oferenda ritual do a fabricação de outros seres humanos. e
propiciatória) com 101 pombos. ele precisava selecionar a clientela. Assim.
Quem fosse à casa de Obatalá teria de pagar
2. Ao ouvi-lo. Olofim estremeceu. porque a vi- também alguma coisa a Exu-Elegbá. A norma
da dos pombos está muito ligada à sua pró- valia igualmente para Quem estivesse voltan-
pria essência; mesmo assim. concordou. Pela do de lá.
primeira vez. sacrificaram-se pombos. com
Exu-Elegbá guiando Olofim por todos os luga- 7. Investido nessa função de porteiro e guar-
res Que deveriam ser purificados pelo sangue dião. e armado de um porrete (ogó). Exu-
das aves e para Que seu desejo de criar o Elegbá afastava os indesejáveis e punia os
mundo tivesse êxito. Por estar intimamente li- Quetentavam burlar sua vigilância. Dessa for-
gado à criação do mundo. o sacrifício de pom- ma. foi ficando cada vez mais poderoso e rico.
bos é um ritual de muito fundamento. e ali mesmo construiu sua casa.

3. Exu-Elegbá. contudo. era muito pobre e an- 8. Um dia. entretanto. Exu-Elegbá ficou pobre
dava pelo mundo sem paradeiro. Nessas an- novamente; na mais absoluta miséria. comia
danças. um dia. foi dar à casa de Obatalá. on- coisas do lixo. além de sofrer o desprezo e o
de se encantou vendo o Velho produzir os se- abandono geral. Nessa época. Obatalá ficou
res humanos. Com isso. o tempo foi passando. muito doente. Sabendo da enfermidade. Exu-
e Exu-Elegbá permaneceu na casa de Oxalá Elegbá foi visitar o antigo amo e. aplicando-lhe

112 I Kitábu
suas ervas e seu poder. foi capaz de fazer o 13. Exu-Elegbá comia de tudo. tanto que co-
que ninguém tinha conseguido: curar Obatalá. meu todos em sua aldeia. Quanto mais comia.
mais fome sentia. Primeiro comeu tudo de que
9. Oba ta lá. muito agradecido. perguntou a mais gostava: animais. cereais. frutos. folhas
Exu-Elegbá o que ele queria como recompen- e raízes. Em seguida. bebeu toda a cerveja e
sa. Então. premido por sua situação de penú- a cachaça. bem como todo o vinho e o azeite-
ria e abandono. Exu-Elegbá pediu que Obatalá de-dendê.
lhe concedesse o direito de receber. primeiro.
um pouco de tudo o que fosse oferecido a 14. Depois. começou a devorar as árvores. os
qualquer outro orixá. Também solicitou o di- pastos. os mares. os poucos animais que res-
reito de ficar postado na entrada das casas. tavam e até os peixes. As pessoas não tinham
para que fosse sempre o primeiro a ser sau- mais o que comer e. assim. uma a uma. come-
dado pelos que chegassem da rua ou saíssem çaram a morrer. Obatalá compreendeu que
de sua moradia. Exu-Elegbá não pararia e acabaria por comer
até mesmo o Céu.
10. Não atendido em seus pedidos. Exu-
Elegbá tornou-se agressivo e turbulento. sen- 15. Era preciso. então. aplacar sua fome.
do obrigado a exilar-se para não ser preso. Assim. Obatalá. obedecendo a uma determi-
Vez por outra. disfarçado. visitava seu país. nação de ]fá. ordenou: "De agora em diante.
rondando as casas em busca de comida. Con- para que Exu-Elegbá não provoque mais ca-
tudo. como ninguém o reconhecia. nenhum tástrofes. para que se restabeleça a paz e a
alimento lhe era oferecido. tranqüilidade. é preciso dar-lhe de comer em
primeiro lugar: sempre que alguém fizer ofe-
11. Cada vez mais enfurecido. Exu-Elegbá re- renda a um orixá. terá que primeiro servir co-
solveu vingar-se. lançando sobre o seu país mida a Exu-Elegbá."
muita confusão e desgraça. Ante tanto infor-
túnio. foi feita uma consulta a um babalaô. No 16. É por tudo isso que ninguém deve passar
jogo. realizado com búzios. Exu-Elegbá mani- por uma encruzilhada sem reverenciar Exu-
festou-se: disse que tinha sido abandonado e Elegbá e oferecer-lhe algo. Exu-Elegbá é sem-
esquecido e que continuava exigindo o que lhe pre o primeiro a ser saudado e homenageado;
era de direito. o primeiro a receber as oferendas e sacrifí-
cios. principalmente nas encruzilhadas; e não
12. As pessoas caçoaram do babalaô. não se deve negar nada do que ele pede.
dando importância às suas recomendações.
Contudo. no momento de se levantarem para x- Ogum, o ferreiro primordial
ir embora. todas elas ficaram grudadas nas 1. Ogum é o desbravador. o assiuaju. aquele
banquetas. Era coisa de Exu-Elegbá. mos- que vai à frente dos outros. o que agressiva-
trando que ainda era poderoso e que conti- mente abre o caminho para quem o segue.
nuaria fazendo das suas até ser atendido em violento e pioneiro. Após se tornar um deste-
sua fome insaciável. mido caçador. fez-se guerreiro e soldado.

Mina I 113
2. Ogum é, pois. o orixá do ferro, patrono de 4. Vendo o fracasso e a frustração de Ossãe,
todos os que comumente usam instrumentos Orixá Ocô pegou sua faca. que era mais forte.
ou ferramentas feitos desse metal. É o caso e pôs-se a trabalhar no lugar dele. Era manhã
dos ferreiros. caçadores, guerreiros. barbei- alta quando deu início à sua tarefa, mas por
ros e entalhadores; dos que trabalham com o volta de meio-dia sua faca já não servia mais
couro e dos cirurgiões, porque usam faca; e para nada de tão estragada que ficou.
dos maquinistas de trem, porque trabalham
sobre trilhos de ferro. 5. Consciente da importância do trabalho a
ser feito. Exu-Elegbá pegou sua faca e foi
3. Quando da criação do Universo, Ogum foi para o mato, sem dizer nada a ninguém. Em
um dos orixás genitores. Depois. em outras pouco tempo. também voltou cansado e frus-
encarnações, foi, sucessivamente, filho de trado. dizendo que faltava espírito e firmeza
ao seu instrumento de trabalho.
lemanjá, Obatalá e de Odudua.

6. O único orixá que ainda não havia tentado


XI - Ogum, rei de Irê
vencer a mata era Ogum. e este sacou da bai-
1. No princípio dos tempos, os orixás e os ho-
nha um facão bem maior, mais largo e com-
mens viviam juntos em lIê-lfé. fazendo todas
pletamente diferente dos demais. Com ele. e
as coisas que são necessárias à vida. Caça-
sozinho. derrubou a quantidade necessária de
vam e limpavam as terras para o cultivo. mas
árvores e roçou um vasto campo, deixando-o
com ferramentas de madeira, pedra. osso ou
pronto para as necessidades dos humanos e
metais de pouca resistência. Os trabalhos pe-
dos orixás.
sados tinham de ser executados muito lenta-
mente e ocupavam um grande número de pes-
7. Terminado seu trabalho, os orixás foram fe-
soas. À medida que Ifé ia crescendo. o traba-
licitá-Ia e, admirados. perguntaram-lhe que
lho tornava-se ainda mais difícil.
tipo de instrumento usara e de que material
era feito. Ogum explicou que o facão era de
2. Foi quando os orixás resolveram dividir as um material chamado ferro. cujo segredo lhe
tarefas. de modo que um grupo derrubasse as havia sido revelado por Orunmilá. a mando
árvores, o outro preparasse a terra etc. de Olofim.
Olocum, porém. não concordou, argumentan-
do que seu reino era a água e que ele não ti- 8. A inveja tomou conta dos demais orixás,
nha nada a ver com terras nem com árvores. todos eles enciumados pelo fato de não terem
sido presenteados com a revelação. Ogum,
3. Diante disso, Ossãe se antecipou a todos e entretanto, não ligou. Ansioso por dominaI'
começou a trabalhar. Com uma faquinha feita ainda mais os segredos do ferro, construiu
de pedra. passou a cortar o mato. Contudo. a uma forja em sua casa.
faquinha, além de não ser suficiente para o
trabalho. foi ficando cega, até quebrar de en- 9. Como era caçador, o primeiro instrumento
contro a um tronco mais grosso. que forjou foi uma grande lança, de ponta bem

114 I Kitábu
afiada; e como também era guerreiro, fabri- e tentado relacionar-se sexualmente com ela.
cou várias armas. Seu pai o teria surpreendido naquele pecami-
noso intento. Antes de ser castigado por ele,
10. Um dia, os orixás invejosos foram até a Ogum teria se refugiado no meio da floresta,
casa de Ogum tentar aprender com ele os onde viveu só para o trabalho em sua forja.
segredos do ferro e da forja. Ogum, porém. amargo e triste. Conta-se também que nos
recusou-se a ensinar, argumentando que descansos da forja. Ogum fabricava pós mági-
Orunmilá não o havia autorizado a transmitir cos, capazes de curar e de matar, os quais o
esses conhecimentos. tornaram famoso e procurado. Quando se en-
contrava nessa faina e nesse retiro, teria sido
11. Assim, durante muito tempo, Ogum foi o procurado por Oxum, por quem se apaixonou,
único ferreiro de lIê-lfé, e só fabricava ferra- num puro sentimento que o redimiu de seu
mentas e armas para seu uso pessoal. Certa pecado de incesto.
vez. um grupo de homens mais velhos foi até
ele, conclamando-o a ser o governante do país 15. Essa história foi espalhada pelas entida-
e o mestre que ensinaria aos homens o segre- des malévolas, assim como outra que explica
do do ferro. uma divergência entre Ogum e Xangô. por
causa de uma traição: Ogum teria seduzido
12. Depois de refletir por alguns dias. Ogum Oiá, mulher do ala fim.
aceitou tornar-se o oni de Ifé e de todos os
territórios vizinhos. Assim, passou a ensinar 16. Durante seu retiro na floresta, um dia
aos orixás e aos humanos o uso da forja e do Ogum foi perturbado em seu sossego por um
ferro. Por ser também o detentor de tudo o homem que fazia um ebó. Como estivesse pas-
que existe de criativo no mundo, ele ensinou sando por muitas dificuldades materiais e
ainda aos homens a produzirem alimentos sendo perseguido por poderosos Quetomavam
como o inhame e o milho. suas terras e lavouras, esse homem foi acon-
selhado a fazer tal oferenda.
13. Embora tivesse aceitado o cal'go de gover-
nante, Ogum sentia falta de sua liberdade de 17. Contudo, em razão de estar muito nervo-
caçador. Por isso, quando viu que todos os ca- so e apavorado, ele entrou na mata ataba-
çadores e agricultores já eram donos de suas lhoadamente, sem pedir licença, o que irritou
próprias ferramentas de trabalho, despiu-se das Ogum. Dando-se conta do erro, o homem.
vestes e insígnias de oni, vestiu-se com peles diante da presença terrível de Ogum, ofere-
de animais e voltou à sua cabana na floresta. ceu-lhe tudo o que levava, e Ogum aceitou.
Esse desprendimento de Ogum não agradou Peita a oferenda, ele confidenciou ao ferreiro
às entidades malévolas, que difundiram por todos os seus problemas. Ogum, então, resol-
todo o mundo a história relatada a seguir. veu ajudá-lo: disse que, naquela noite, iria até
a aldeia para destruir os agressores do pobre
14. Ogum, vivendo com seus pais, Obatalá e homem e arrasar suas casas. Além disso,
Lemu, teria se enamorado de sua própria mãe para que não houvesse erro, orientou-o a des-

Mina I 115
fiar folhas de dendezeiro em franjas e colocá- 21. O povo de lrê. no entanto. conta de outra
las no alto da porta de sua casa e daquelas forma a ascensão de Ogum ao trono. Eles di-
que devessem ser poupadas. E Ogum cumpriu zem que. quando Odudua reinava em lfé. man-
a promessa. A partir de então. o mariô. que é dou Ogum. seu filho. conquistar reinos vizi-
a franja da folha do dendezeiro. passou a ser nhos. Em sua saga. Ogum teria invadido frê.
o símbolo e a identificação dos lugares prote- cujo povo o odiava muito. e lá cortado a cabe-
gidos por Ogum. ça do rei para dá-la. como um troféu. a seu
pai. Nenhum rei deve ver a cabeça decapitada
18. O certo é que. quando governante. Ogum de outro rei. sob pena de morrer também.
saía em caçadas de semanas e meses. embre-
nhando-se no mato e caminhando até as mais 22. Assim. os conselheiros de Odudua acharam
longínquas terras. Em uma dessas ocasiões. que seu filho queria vê-lo morto. Dirigiram-se.
regressou a Ifé só depois de muito tempo; e então. ao encontro de Ogum. fora dos portões
estava irreconhecível. Ao vê-lo chegar. sujo. de Ifé. e o convenceram a entregar-lhes a
malcheiroso e com péssimo aspecto. os orixás cabeça do rei de Irê. conjurando o perigo.
recusaram-se a acreditar que aquele fosse o Odudua. porém. queria recompensar o seu fi-
oni. Mais tarde. embora se certificando de sua lho guerreiro. Por isso. o teria presenteado
identidade. resolveram caçar-lhe o título de com o reino que ele derrotara. o qual Ogum as-
soberania. pois um rei não podia ser descui- sumiu com o título de onirê. com direito a usar
dado com sua aparência. a coroa sem franjas. o acorô; por esse motivo.
foi também chamado Ogum Alacorô.
19. Ogum sentiu muito essa ingratidão. Afinal
de contas. quando quiseram dominar o ferro. 23. Certa vez. por ocasião de uma sucessão
os orixás tinham indo até ele. humildemente. de guerras. Ogum passou muitos anos fora de
até mesmo lhe oferecendo o cargo de gover- Irê. Seu retorno aconteceu em um dia em que.
nante. Depois. somente porque ele se afasta- por causa de uma proibição ritual. as pessoas
ra. temporariamente. para fazer o que mais não podiam falar umas com as outras nem
lhe agradava. todos lhe voltavam as costas. olhar para ninguém. Como não recebesse
atenção. Ogum começou a se irritar. Nesse
20. Quando os orixás se retiraram. Ogum ba- estado de exaltação e de espada em punho.
nhou-se em um rio próximo. trocou as vestes pôs-se a destruir tudo o que encontrava pelo
de pele por um saiote de folhas de dendezeiro. caminho. e assim decepou cabeças de cente-
mudou-se de Ifé para um lugar chamado lrê. nas de pessoas.
onde. embaixo de um pé de acocô (Newbouldia
levis) construiu a cabana em que viveu para 24. Cessada a carnificina e terminada a proi-
sempre. Nesse lugar. todo ano. ferreiros. agri- bição ritual de falar. um grupo de súditos so-
cultores. caçadores e todos aqueles que traba- breviventes da chacina foi pedir perdão ao rei
lham com o ferro. devem fazer-lhe oferendas e render-lhe as homenagens devidas. Contudo.
de peles de animais e palmas de dendezeiro. Ogum. já ciente da injustiça que cometera e
saudando-o como onirê. rei de frê. mortificado pelo remorso. sabia que já não po-

116 I Kitábu
dia mais ser o soberano de II'ê. Então. num gos. Ogum resolveu transmitir a Oxóssi suas
gesto extremo. cravou sua espada no chão e habilidades, instruindo-o nas artes da caça. no
abriu com ela uma enorme fenda pela qual su- mister de desbravar caminhos. ensinando-lhe
miu. deixando a Terra e retornando à sua con- a defender-se sozinho e a cuidar de sua gente.
dição de orixá. No lugar onde ocorreu esse buscando. para ela. o alimento e o sustento.
prodígio. ergueu-se seu principal assentamen-
to. Irê. então. tornou-se o centro de seu culto. 3. Oxóssi aprendeu tudo rapidamente, porém
ainda não conhecia inteiramente os segredos
XII - Os vários odés da floresta. Segredos e perigos. pois Ossãe. o
1. Odé é um nome geral que se dá a todos os dono da mata. tinha por hábito aprisionar
orixás caçadores. como Inlê. Oxóssi, Orê (ou todos os que penetrassem em seus domínios.
Oreluerê). Ibualama e Logum Edé. Um dia. Oxóssi encontrou Ossãe. que, ardilosa-
mente, e sem que se saiba como. ministrou-lhe
2. O caçador é importante por ser o responsá- uma beberagem que o fez perder a memória.
vel pela alimentação de sua comunidade. É
ele também que. por viver no mato. é sempre 4. Com Oxóssi desmemoriado e sem qualquer I
um grande conhecedor das plantas que curam noção de si. Ossãe o banhou com líquidos má- I
e matam. gicos e o manteve em sua companhia. Incon-
formado com o seqüestro do irmão, Ogum foi à
3. Além disso. por seguir na frente. é o caça- sua procura. o encontrou e o resgatou. Oxóssi.
dor quem descobre o lugar ideal para instala- contudo. acostumara-se àquela vida e retornou
ção da aldeia que seu povo vai habitar. para o mato. onde até hoje mora com Ossãe.

4. Uma vez que também é sempre um guerrei- 5. Antes disso. Oxóssi vivia debaixo de um
ro. o odé está estreitamente associado a Ogum: imenso algodoeiro. Habitava na casa do velho
o afá (arco-e-f1echa). ou damatá. de Oxóssi Obatalá, que o criara. e os dois iam juntos a
sustenta sempre as sete ou 21 ferramentas do todos os lugares. Eram grandes amigos e
orixá do ferro e da guerra: e a ferramenta tra- companheiros. mas Oxóssi reclamava da ler-
dicional de Ogum, o alabedé (conjunto de deza do ancião. Obatalá, por sua vez. rezinga-
utensílios usados na forja e na agricultura) é va. reclamando que Oxóssi andava rápido de-
sempre encimado por um afá. mais e não tinha paciência com ele.

XIII - Oxóssi. caçador e rei de Gueto 6. Então. o velho resolveu deixar o caçador à
1. Um dia, retornando de uma guerra, Ogum vontade, livre para varar os caminhos sozi-
encontrou Oxóssi amedrontado. indefeso. nhos. com toda a aroiteza e velocidade de sua
diante de um grupo de invasores. Embora juventude. Ambos ficaram satisfeitos. porém
cansado, Ogum não teve outra alternativa se- tristes pelo rompimento de uma rotina de tan-
não guerrear novamente; e lutou até vencer. tos anos. Oxóssi prometeu a Obatalá que.
mesmo longe a maior parte do tempo. nunca
2. Quando por fim venceu e expulsou os inimi- deixaria de amparar seu pai de criação.

Mina I 117
7. O velho gosLava muiLo de mel. EnLão. de árvore. às margens de um rio próximo a
Oxóssi resolveu que Lodo o mel que encon- llobu, em lbadan.
Lrasse na floresLa levaria para ObaLalá, sem
tocar em uma só gOLa. 2. MuiLo pobre, ele maLava macacos para co-
mer. CerLo dia, afogou-se no rio que, depois,
8. Assim foi feiLo.A partir de enLão,Oxóssi nun- recebeu seu nome. Isso foi feito porque, ao
ca mais colocou mel na boca, reservando Ludo morrer, ele se tornou um orixá que vive nas
o que colhia. em suas intermináveis andanças profundezas do rio.
de caçador, para seu velho amigo ObaLalá.
3. Dizem alguns mais velhos que Erinlê. além
9. Um dia, duranLe o tempo em que ainda mo- de ter sido um caçador de elefanLes que em
rava com o velho, Oxóssi encaminhava-se várias oporLunidades ajudara o povo de Uobu
para uma caçada quando avisLou Oxum ba- a combaLer seus adversários, é ele próprio
nhando-se nas águas doces do seu rio. Lambém considerado um desses animais.

10. A beleza extraordinária daquela mulher, 4. ConLam, ainda, que ele. Lambém aLraído pe-
tão meiga quanLo perturbadora, deslumbrou o la sedução de Oxum. foi morar no fundo do rio
caçador que, encanLado, se aLirou no rio. Pre- que depois recebeu seu nome.
so nas águas do amor, Oxóssi esqueceu-se de
suas obrigações. Afinal, ele era o provedor do XV - Logum Edé
sustenLo de seu povo e saíra para buscar t. Logum Edé é um orixá de llexá - mais es-
o alimenLo. peciFicamenLe de Edé -. lugar a sudoesLe de
Oxogbô, de onde seu culto se irradiou para
11. Vendo que, em vez de ir à caça, Oxóssi LOdoo país ijexá. Seu domínio são os rios e as
preferira os braços de Oxum. os ouLros caça- cachoeiras e maLas.
dores começaram a aLirar flechas na direção
do casal. Oxum. porém, que também já estava 2. Filho de Erinlê, que vive no lugar mais
apaixonada, entoou uma doce cantiga de en- fundo do rio (denominado ibualama). e de
cantamenLo, imobilizando os agressores. Oxum Pandá, ele concenLra as naLurezas do
pai e da mãe e a sua própria; por isso, é um
12. Aproveitando-se disso, Oxum ajudou orixá meLameLá, ou seja, "três em um só".
Oxóssi a fugir, e os dois foram parar no reino Assim, vive parte de seu tempo sobre a terra,
de Queto, próximo ao país dos jejes. Lá, por comendo caça; a outra parte. ele passa sob as
um sortilégio de Oxum, o caçador foi aclama- águas do rio, alimentando-se de peixe.
do rei, com o título de alaqueto.
3. Alguns mais velhos referem-se a Logum
XIV - Erinlê. o caçador de elefantes Edé ora como filho de Oxum, ora como seu
1. Erinlê, cujo nome depois foi reduzido para mensageiro. Em algumas regiões, ele é consi-
Inlê, era um fabricanLe de armadilhas de ca- derado complementação de Oxum, mais espe-
ça, morador de uma choupana sob uma gran- cialmente de Oxum Logum.

118 I Kitábu
XVI - Ossãe. dono das folhas 5. Um dia. porém, Xangô entendeu Que aquele
1. Ossãe era escravo de Orunmilá. o orixá da poder exclusivo não era correto e Que Ossãe
adivinhação. Certa vez, indo até a floresta, deveria compartilhar com os outros orixás o
Ossãe conheceu Aroni. um homenzinho de seu conhecimento sobre as plantas. Xangô pe-
uma perna só, mas Que sabia tudo sobre as diu, então. a Ossãe Que dividisse suas folhas
plantas e seus poderes, tanto os curativos com os outros orixás, mas ele se recusou.
Quanto os mortíferos. Aroni gostou muito de
Ossãe e resolveu iniciá-lo no mistério das er- 6. Diante desse fato, Xangô mandou Que Oiá fi-
vas. e o fez rapidamente. zesse o vento levar ao seu palácio todas as folhas
de Ossãe, o Que logo começou a ocorrer. Ossãe
2. Um dia, por ter decidido iniciar um peQue- percebeu a tempo e, com uma invocação ritual-
no cultivo de hortaliças e outras plantas úteis. "Euê iwá sá!" ("As folhas curam!") -, fez a maior
Orunmilá mandou Que Ossãe fizesse a capina. parte delas voltar aos seus lugares. As Que não
Contudo, durante o preparo do terreno, Ossãe retornaram perderam a força e o poder de cura.
examinava planta por planta, exaltando as
virtudes ou aplicações medicinais de cada 7. Então. Xangô, admitindo a vitória de Ossãe,
uma delas; dessa forma demonstrava por Que compreendeu Queele era de fato o dono das fo-
não deviam ser arrancadas. lhas. Ossãe. entretanto, num gesto magnânimo.
deu uma folha para cada orixá. ensinando a
3. Vendo aquilo, Orunmilá também passou a cada um deles as cantigas e procedimentos rituais
interessar-se pelo poder curativo dos vegetais. sem as Quais aquelas folhas não funcionam.
A partir de então, determinou Que. nas consul-
tas Que ele dava, Ossãe ficasse sempre ao seu 8. É por isso Que todos os orixás reverenciam
lado, como o médico do Orum. para prescrever Ossãe Quando utilizam suas plantas. No
os remédios necessários a todos os doentes entanto, os principais segredos sobre folhas,
que procurassem o maior dos babalaôs. caules e raízes Ossãe guardou para si. e só os
revela àqueles Que se dedicam inteira e exclu-
4. Tornando-se, então, o senhor das folhas por sivamente ao seu culto.
designação de Orunmilá, Ossãe passou a ser
conhecido, requisitado e respeitado. Todos os 9. Ossãe continua na mata, ao lado de Aroni,
orixás recorriam a ele em caso de doença. seu grande mestre. Para o sustento dos dois,
Iam à sua casa oferecer sacrifícios em troca o sacerdote de seu culto, Quando vai à flores-
de pós, pomadas. banhos, infusões e bebera- ta colher plantas, deve sempre levar para
gens. rendendo-lhe um verdadeiro culto. eles uma oferenda em dinheiro.

CAPiTULO 8 A saga dos orixás


I - Xangô na criação do mundo ram todos os segredos, para Que ele pudesse
1. Na época da criação do mundo. existiu um fazer o bem e o mal. como lhe aprouvesse. Os
homem a Quem Olorum e Exu-Elegbá ensina- deuses que governavam o mundo determina-

Mina I 119
ram que, por ter-se tornado um mago tão po- 11 - Xangô no Aiê
deroso, o homem deveria oferecer uma gran- 1. Em uma de suas vidas terrenas, Xangô foi fi-
de festa para os orixás; estes, porém, esta- lho de Oraniã e o quarto alafim da cidade-esta-
vam fartos de comer comida crua e fria. do de Oió. Isso ocorreu porque, morto seu pai,
Queriam algo diferente: comida quente, ali- a sucessão coube a Ajacá, que se mostrou um
mentos cozidos. governante fraco, chegando a permitir que Oió
caísse como vassalo do vizinho reino de Owu.
2. Contudo, naquele tempo nenhum homem
sabia fazer fogo e muito menos cozinhar. 2. Ajacá. ou Dadá, como irmão mais velho. foi
Reconhecendo a própria incapacidade de sa- quem criou Xangô. De temperamento calmo e
tisfazer os deuses, o homem foi até a encruzi- dócil. cuidava dele com muito carinho. adver-
lhada e pediu ajuda a Exu-Elegbá. tindo-o para os perigos de brincar com fogo, lu-
tar e andar a cavalo. que eram as diversões de
que Xangô mais gostava. Desde pequeno, Xangô
3. Esperou três dias e três noites sem ne-
já era hábil cavaleiro e. um dia, brincando com
nhum sinal. até que ouviu uns estalos na ma-
as chamas de uma fogueira. caiu dentro dela. O
ta. Eram as árvores que pareciam estar rindo
fogo. porém. acariciou seu corpo, causando-lhe
dele, esfregando seus galhos umas contra as
somente conforto e bem-estar.
outras. Ele não gostou nada da brincadeira e
invocou Xangô, que o ajudou lançando uma
3. Dado o temperamento pacífico do irmão.
chuva de raios sobre as árvores.
Xangô tomou-lhe o trono e mudou-se para Oko,
primitivo nome de Ilê-lfé. Como era ainda mui-
4. Alguns galhos incendiados foram decepa-
to jovem, o olowu, rei de Owu, quis submetê-
dos e lançados ao chão, onde queimaram até
lo, mas Xangô resistiu. e a guerra foi declarada.
restarem somente brasas. O homem apanhou
algumas brasas e as cobriu com gravetos e
4. Nesse embate, Xangô foi ao mesmo tempo
abafou tudo colocando terra por cima.
bravo comandante e mago incomparável. lu-
tando e expelindo pela boca e pelas narinas
5. Algum tempo depois, ao descobrir o monti- chamas e grossos rolos de fumaça, que ater-
nho, o homem viu pequenas lascas pretas. rorizaram os inimigos. Ao mesmo tempo. a ra-
Era o carvão. Ele dispôs os pedaços de carvão pidez e a disciplina de seus arqueiros punham
entre pedras e os acendeu com a brasa que as tropas adversárias em debandada.
restara. Depois, soprou até ver flamejar o fo-
go e neste cozinhou os alimentos. 5. Certa ocasião. na terra dos tapas. apareceu
um animal feroz. de dentes afiados. aterrorizan-
6. Assim, inspirado e protegido por Xangô, o do todo mundo. Xangô foi até lá disposto a ma-
homem inventou o primeiro fogareiro e pôde tar a fera. um monstro horrendo. insaciável de-
satisfazer as ordens dos orixás, que comeram vorador de carne humana. O povo do lugar não
comidas cozidas e gostaram muito. E permiti- acreditou que Xangô pudesse vencer aquela
ram ao homem comer delas também. criatura. cujos rugidos faziam a terra tremer.

120 I Kitábu
6. Xangô. porém, não se intimidou e, frente a 11. Cumprida a missão, Xangô recompensou o
frente com a terrível fera, pôs em prática tu- escravo tapa e castigou o hauçá, mandando
do o que aprendera com seu bisavô Larô, ou fazer em todo o seu corpo 120 cortes longos e
Ajá Ganti. Como um vulcão, ele começou a ex- profundos. No entanto, as mulheres da corte
pelir, pela boca, chamas e rolos de fumaça acharam que o escravo havia ficado mais bo-
preta em direção ao monstro que, terrivel- nito assim, escarificado. e sugeriram a Xangô
mente queimado e inteiramente sufocado, su- que esse tipo de tatuagem fosse adotado como
cumbiu em suas mãos. Naquela noite, Xangô um símbolo de realeza. Xangô aceitou a suges-
dançou e cantou mais e melhor do que nunca. tão e mandou os escarificadores (oloualá),
Ossan e Oru, fazerem os cortes também no
7. Foi assim também que Xangô venceu o 010- corpo dele.

WU, rei de Owu. Sobrepujando este e outros


oponentes em batalhas espetaculares, Xangô 12. Xangô, porém, suportou apenas a feitura

resolveu mudar sua capital de Oko para Oió- de dois cortes longitudinais em cada braço,

Corô, a futura Oió, onde reinava o oloió-corô. dos ombros até os punhos. Esse passou,
então. a ser o emblema da família real de Oió.
Contudo, nessa nova conquista, ele queria evi-
tar maior violência.
13. A decantada beleza das marcas do escra-
vo hauçá acabou por tornar-se arma de guer-
8. Enquanto planejava a tomada de Oió-Corô,
ra nos projetos conquistadores de Xangô. Foi
Xangô recordou-se de sua falecida mãe, que
assim que ele enviou o escravo em uma nova
não conhecera e de cujo nome não se lembra-
missão; dessa vez até o oloió-corô, para exi-
va. Queria prestar um culto à sua memória e,
bir ao rei inimigo a beleza e a importância
para isso, resolveu enviar dois mensageiros
ele suas "marcas de realeza" e convencê-lo a
até seu avô materno, Elempê, na terra dos ta-
usá-las também.
pas, para informar-se do nome dela.

14. Traído pela vaidade, o rei de Oió-Corô re-


9. A missão dos mensageiros - dois escravos,
solveu escarificar-se e determinou que seus
um tapa e outro hauçá - era oferecer o sacri- ministros fizessem o mesmo. Para isso. man-
fício. durante o qual memorizariam o primeiro dou chamar os especialistas Oru e Ossan. que
nome invocado, que seria o da homenageada. executaram a tarefa em três dias.

10. Tudo ocorreu como planejado. No início do 15. Concluído o serviço - o oloió-corô e seus mi-
ritual. diante do túmulo da mãe de Xangô. o nistros com os corpos em carne viva -, Xangô
praticante pronunciou o nome: Torossi - e chegou com suas tropas e tomou a cidade sem
Torossi tinha sido uma das reencarnações de resistência. Dessa forma, o trono do alafim foi
lemanjá. O escravo tapa, mais familiarizado definitivamente transferido de Oko para Oió.
com a língua, entendeu bem. O mensageiro
hauçá. contudo, não compreendeu o que foi
dito. o que Xangô tomou como negligência.
exceto por aqueles já convertidos ao islamis- 21. Ao descobrir o romance, Ogum resolveu
mo de Maomé. duelar com Xangô. Os dois puseram-se frente
a frente - Ogum estava fortemente armado e
17. Um dia, Xangô precisou ir até um povoado Xangô tinha apenas uma pedra na mão.
de muçulmanos chamados malês. Eles impe- Quando Ogum investiu sobre o adversário, es-
diram sua entrada, pois lá só eram recebidas te lançou a pedra que, por ser um edum ará,
pessoas do mesmo credo. Xangô não contes- uma pedra de raio, eletrocutou e incendiou o
tou a proibição, mas voltou para casa aborre- oponente. Graças à sua magia, Xangô venceu
cido, e contou o fato à sua mulher, Oiá. Ogum e levou a amada com ele para Oió. onde
Durante a conversa, os dois resolveram de- os dois formaram, apesar do comportamento
clarar guerra aos malês. infiel do alafim, um casal unido até a morte.

18. Partiram no dia seguinte e, já no caminho, 22. Embora possessivo e obstinado, Xangô foi.
Xangô ia cuspindo labaredas, gesto em que era durante uma de suas passagens terrenas, um
seguido por Oiá, que soprava o vento e espalha- homem muito popular. Certa vez, sozinho em
va os relâmpagos e coriscos de Xangô em todas uma terra estranha, foi abordado em público
as direções. Os malês apavoraram-se, pensan- por um leproso, que, ao lado de outro homem,
do ser o fim do mundo. Quando perceberam que reclamou sua atenção. Aproximando-se do
aquilo era a vingança de Xangô pelo ultraje so- doente, Xangô disse-lhe que sabia ter, naquela
frido. caíram aos seus pés implorando perdão. terra, dois irmãos, um de sangue e outro adotivo,
e queria ter notícias de pelo menos um deles.
19. Completamente submissos, os muçulma-
nos abriram a porta da aldeia para Xangô e 23. O leproso, então. disse ser o ntho adotivo do
sua comitiva, e o aceitaram também como rei. pai de Xangô e que seu companheiro era o ir-
Por outro lado, em homenagem a eles. Xangô mão de sangue que ele procurava. O leproso era
adotou um de seus tabus, deixando de comer Xapanã e o outro, Ogum, que estava, como de
carne de porco e estendendo essa proibição a hábito, acompanhado de vários cães. Xangô,
todos os seus seguidores e descendentes. então, aconselhou Xapanã a procurar saúde e
melhores condições de vida em outro lugar. pois
20. Oiá, porém, nem sempre foi mulher de aquele não lhe tinha sido propício. Para isso,
Xangô. Antes de submeter os malês, um dia, pegou dois dos cães que estavam próximos e,
cansado da rotina da corte de Oió, Xangô re- sem saber que eram de Ogum. deu-os ao doen-
solveu partir em busca de novas aventuras. te, para lhe servirem de guias e defensores.
Chegou a lrê, onde Ogum reinava ao lado de
Oiá. então sua mulher. Xangô permaneceu em 24. Não concordando com a audácia de Xangô
lrê algum tempo, admirando Ogum comandar e fazendo valer sua condição de dono dos
seu povo e trabalhar a forja, mas foi envolvi- cães, Ogum, violento como só ele, partiu para
do pelos encantos de Oiá, por quem logo se a agressão, iniciando um grave conflito. A
apaixonou - e foi uma paixão não somente de- partir daquela ocasião, os dois nunca mais se
senfreada, mas correspondida. falaram, tornando-se inimigos ferrenhos.

122 I Kitábu
25. De outra feita, um grupo de sacerdotes de abdicar do trono e ir para junto dos restos de
Egungum (ojés), convidou Xangô a participar sua mãe. na corte de seu avô Elempê. Seus
de uma cerimônia para os espíritos dos an- súditos estavam divididos: uns não concorda-
cestrais. Xangô foi e observou cuidadosa e vam com a abdicação, outros queriam ver
atentamente tudo o que havia e se passava Xangô fora do poder.
dentro do quarto dos mortos (balé), procu-
rando fixar. inclusive. cada uma das fórmulas 30. Os adversários de Xangô usavam seu tem-
rituais que os ojés pronunciavam. peramento conquistador como arma. "Nós não
queremos um rei que nos traga escravos, mas
26. Dias depois. embora sabendo que tudo o sim, que nos dê o que comer" - diziam eles. Sob
que tinha visto e ouvido devia permanecer em esse argumento, enviaram uma delegação ao
segredo absoluto, Xangô revelou aos quatro alafim, pedindo-lhe que renunciasse. Xangô,
ventos os segredos do balé, contando tudo contudo, respondeu que era um grande mago
para quem quisesse ouvir. Muito aborrecidos, (onixegum), e que ninguém o podia contrariar.
os ojés o tornaram pessoa indesejável dentro
do seu culto e o impediram terminantemente 31. Entre os ministros de Xangô estavam
de participar de qualquer cerimônia destina- Mogbá e Timi Agbali Olofanô, um a seu favor e
da aos egunguns. o outro contra. Nesse clima tenso, Xangô man-
dou-os vir à sua presença e falou: "Vocêsestão
27. Com seu trono transferido de Oko para discordando quanto ao cumprimento de minhas
Oió. Xangô reinou por sete anos, com uma ordens, mas elas precisam ser obedecidas.
energia que muitas vezes se confundia com ti- Para que fique claro se eu tenho ou não razão,
rania e violência. Bravo guerreiro e dotado de ordeno que vocês lutem um contra o outro. Eu
poderes miraculosos. prosseguiu lutando e acatarei a opinião daquele que vencer."
expelindo pela boca e pelas narinas as cha-
mas que aterrorizavam súditos e inimigos. 32. Foi assim que Mogbá, que era contrário às
idéias de Xangô, matou seu colega e amigo
28. Capaz de preparar poções que atraíam os Timi. Xangô, então, em profunda depressão,
raios. certo dia, em companhia de alguns pa- embrenhou-se na floresta. dizendo que nunca
rentes, cortesãos e escravos. entre os quais mais voltaria.
Biri e Omiran. seus prediletos, ele subiu ao
Oquê Ajacá, o morro de Ajacá. ao pé do qual 33. Os inimigos de Xangô, ao saberem de sua
construíra seu palácio. e invocou os relâmpa- renúncia, espalharam a notícia de que ele ti-
gos. Foi quando o céu se fechou. uma tempes- nha cometido suicídio: "Obá ko sô!" ("O rei se
tade desabou e um raio caiu no palácio, co- enforcou") - o povo começou a gritar.
berto de palha, destruindo tudo e matando
todos os que lá se encontravam, entre eles fi- 34. Ouvindo isso, Mogbá, temendo uma con-
lhos e algumas das mulheres do rei. vulsão popular, dirigiu-se assim ao povo:
"Xangô não morreu! E se vocês continuarem
29. Em profunda depressão, Xangô resolveu dizendo que ele se enforcou. ele mandará seu

Mina I 123
fogo para incendiar as suas casas!" E conti- Baiani, em Sele; seus primos Omo Sandá e
nuou: "O que aconteceu foi o seguinte: todos Obeí, em Papo e Jacutá. respectivamente.
os dias, Xangô ordenava que eu e Timi fôsse-
mos guerrear e destruir cidades. Nós sempre 39. Xangô, que tem o carneiro (agutan) como
o obedecíamos. Mas ele sempre queria mais símbolo, foi juntal'-se aos irumalês, na condi-
guerras, mais prisioneiros e mais escravos. ção de orixá dos raios e das tempestades, nas
Acabamos nos cansando disso e fomos recla- quais o poder destruidor do fogo une-se ao po-
mar com ele. Pai quando Xangô nos mandou der da água, gerador de todas as coisas.
lutar um contra o outro. Ambos éramos fortes
e musculosos e, no fim, eu. Mogbá, matei 11I - Xangô no Orum
Timi, que era meu amigo. Xangô me obrigou a 1. Mesmo no Orum, Xangô continuou como fi-
matar Timi. que não era meu inimigo. Então, lho rebelde, recusando-se a obedecer a
eu resolvi matar Xangô. e ele se embrenhou Obatalá, que se obstinava em submetê-lo.
na floresta."
2. Um dia. enquanto passeava. Obatalá en-
35. Mogbá, entretanto, advertiu o povo de que controu o cavalo de Xangô amarrado na porta
Xangô era um mago poderoso. Por isso, se al- de uma casa. Desamarrou o animal e o levou
guém dissesse que ele havia se enforcado, um consigo. Sentindo grande falta da montaria.
feitiço se instalaria na casa da pessoa e a in- Xangô saiu em perseguição ao suposto ladrão
cendiaria. De fato, isso aconteceu, e o próprio e encontrou Obatalá com o cavalo. Atrevida e
palácio real foi destruído. desrespeitosamente, Xangô interpelou Obatalá
que. sem se intimidar. ordenou que ele se
36. Não contente com essa destruição. Xangô prostrasse a seus pés. Xangô. mais jovem e
voltou e passou no fio da espada centenas de vergado ante a força moral do outro. acabou
súditos. Seus fiéis Biri e Omiran ainda tenta- por obedecer.
ram convencê-lo a reconstruir o palácio e re-
parar as perdas. Xangô, no entanto. estava ir- 3. Com Xangô dominado, Obatalá arrancou-
redutível em seu propósito de ir embora. lhe o colar de contas vermelhas Que ele sem-
pre usava. Ali mesmo. intercalou entre cada
37. Ao se ver sozinho, sem Omiran e Biri. que uma das contas vermelhas as contas brancas
o abandonal'am, Xangô deu-se conta do que fi- de seu próprio colar; então, fechou o fio de
zera. Não podia seguir sozinho e não podia contas e o colocou no pescoço de Xangô como
voltar atrás. Foi. então. que pôs fim à própria sinal de sua autoridade sobre ele.
vida, enforcando-se numa árvore. ao pé da
qual. mais tarde, seu corpo foi enterrado. 4. Certa feita. no Orum, Xangô teve de pelejar
contra a legião das entidades malévolas, da
38. Ao saberem de sua morte, seus mais próx- qual faziam parte soldados iludidos, que julga-
imos também se mataram: Biri e Omiran em vam estar combatendo por uma causa justa. O
Cossô. no mesmo local onde Xangô morrera: inimigo era implacável - os comandados de
Oiá. sua esposa favorita, em Irá; sua irmã .Xangô, quando capturados. eram torturados

124 I Kitábu
até a morte com extrema e requintada cruel- velho em meio às pedras. rolando na poeira.
dade, e seus corpos devolvidos aos pedaços. caindo pelas valas. Oxalufã enfureceu-se com
tamanho desrespeito e mandou muitos castigos,
5. Enfurecido com a covardia, Xangô se postou que atingiram diretamente o povo de Xangô.
no alto de um grande rochedo e, por inspiração
de Orunmilá, que invocara, começou a lascá-lo 10. Xangô, muito arrependido, mandou todo o
com seu machado (oxê), arrancando faíscas povo trazer água fresca e panos limpos.
das pedras. As faíscas caíam em chamas cer- Ordenou que banhassem e vestissem o vene-
teiras sobre os inimigos. matando-os um a um. rando ancião, que aceitou toda as desculpas e
apreciou o banquete de caracóis e inhame
6. Assim, ele derrotou a legião malévola. Sua oferecido pelo povo.
vitória culminou com o extermínio dos chefes
por um último raio mortífero. Xangô teve. en- 11. Contudo. Oxalufã impôs um castigo etel'no
tretanto, o bom senso de poupar os soldados a Xangô. que tanto gosta de fartar-se de boa
que estavam do lado dos inimigos por engano, comida. Ele nunca mais pôde comer em prato
julganoo estar combatendo pelo bem. Foi a de louça, porcelana ou em alguidar de cerâmi-
partir dessa decisão que Xangô garantiu para ca. Xangô só pode comer em gamela de pau,
si a reputação de orixá sensato e equânime. como comem os bichos da casa e o gado e
com capacidade para iul~ar conFlitos e minis- como comem os escravos.
trar justiça.
12. O poder mágico de Xangô vinha de seu bi-
7. Em outra ocasião, Xangô vestiu-se de bran- savô patel'no, Ajá Ganti. Foi dele que Xangô
co e foi um dia às terras do velho OxaluFã, adquiriu o poder de lançar fogo pela boca.
para levá-lo à festa que faziam em sua cidade.
Oxalufã era idoso e lento, por isso Xangô o le- 13. Sua única mulher legítima foi Oiá. Ela era
vava nas costas. Quando se aproximavam do uma vigorosa e hábil caçadora e exel'cia seu
destino, viram a grande pedreira de Xangô ofício com incrível habilidade. Caçava todos
bem perto de seu enorme palácio. os animais selvagens da floresta, como leo-
pardos. antílopes e elefantes. Oiá tinha um ir-
8. Xangô levou o velho amigo ao cume, para mão mais novo que a acompanhava por toda
dali mostrar-lhe todo o seu império c poderio. parte nas caçadas. Depois que Xangô morreu,
Foi lá de cima que Xangô avistou uma belíssi- ela finou-se também.
ma mulher preparando comida numa panela.
14. Xangô foi o verdadeiro introdutor da mo-
9. Era Oiá' Ela estava fazendo o amalá-ilá, qui- narquia sagrada em Oió, por ele governada
tute de quiabos preferido do rei! Xangô não re- durante sete anos.
sistiu à tamanha tentação. Oiá e amalá! Era de-
mais para sua gulodice, depois de ele ter passa- 15. Ao longo de seu reinado, reformou os cos-
do tanto tempo na estrada. Xangô perdeu a tumes. mandou o exército mover-se sobre o
cabeça e disparou caminho abaixo, largando o poder dos arqueiros. criou um corpo de fun-

Mina I 125
cionários e escravos inteiramente fiéis ao pa- tornou mulher do ferreiro Ogum. com Quem
lácio e tornou o culto ao trovão e ao relâmpa- passou a viver e trabalhar. Era ela que ativa-
go a crença do Estado. Após sua morte. os io- va a forja. manejando o fole.
rubás e oiós mandaram buscar no exílio. em
19bodô. seu irmão Ajacá. ou Dadá. e o recolo- 5. Por essa época. Oxaguiã. um dos avatares
caram no trono. Então. mais amadurecido. de Obatalá. jovem e guerreiro. via-se envolvi-
Ajacá revelou-se um grande guerreiro. afas- do numa guerra interminável. uma vez que
tando a ameaça dos tapas e ampliando sua era lenta a fabricação de armas a cargo de
autoridade sobre numerosas cidades e al- Ogum. Da frente de batalha. Oxaguiã manda-
deias iorubanas. va pedir mais armas. as quais demoravam
muito a chegar. Foi quando Oiá resolveu. com
IV - Oiá-Iansã seu próprio sopro. ativar o fogo. para que as
1. Oiá era uma menina muito viva e esperta. armas pudessem ser produzidas mais rapida-
ascida em Irá. vivia em Queto com seu pai mente. Graças a essa intervenção de Oiá.
adotivo. o caçador Odulecê. Filha Querida e Oxaguiã venceu a guerra. Em seu retorno. foi
admirada pelo seu povo. muito cedo. entre- agradecer ao ferreiro Ogum.
tanto. Oiá viu a tristeza abater-se sobre sua
casa. com a morte do velho caçador. 6. Contudo. diante da beleza encantadora de
Oiá. o guerreiro apaixonou-se perdidamente.
2. Mesmo triste. a menina teve tino e força Essa paixão. correspondida. culminou na fuga
para homenagear o pai e amigo. Juntou todos dos dois. Que foram morar juntos. Tempos
os instrumentos e armas de caça de Odulecê depois. tendo necessidade de guerrear nova-
e os envolveu em panos brancos. Em seguida. mente. Oxaguiã viu-se num dilema. sem saber
preparou e arrumou as comidas e bebidas de onde conseguir novas armas. A solução veio
Que ele mais gostava. Então. reuniu todos os com Oiá. Que. mesmo de longe. resolveu so-
parentes e amigos e. com eles. por nove dias prar na forja de Ogum.
e noites. cantou e dançou. celebrando a pas-
sagem do caçador para o mundo dos espíritos. 7. Seu sopro atravessava terras e mares. ar-
rastando tudo o Que encontrava no caminho.
3. Na última noite. Oiá e os convivas dirigiram- Por isso. até hoje. quando sopra vento muito
se todos à mata. onde. ao pé de uma árvore sa- forte. o povo iorubá sabe Queesse vento é Oiá.
grada. depositaram os pertences de Odulecê e Que está querendo ativar a forja de Ogum.
oferendas. Emocionado. Olofim. que a tudo as- para dar mais armas a Oxaguiã.
sistiu. deu a Oiá o poder sobre os espíritos dos
mortos. Considerando bom o que ela fizera. ins- 8. Em outra de suas encarnações na terra.
tituiu. a partir de então. naqueles moldes. a ce- Oiá. ainda mulher de Ogum. recebeu dele um
rimônia do axexê. No entanto. a proibiu. por to- pequeno sabre; embora minúscula. a arma ti-
da a vida. de retornar a Irá. sua terra natal. nha o incrível poder de dividir em pedaços
tanto homens quanto mulheres. Xangô. vizi-
4. Crescendo bela e destemida. Oiá um dia se nho do casal. ia sempre à tenda do ferreiro.

126 I KiLábu
Nessas visitas, não deixava de admirar a bela homem envolto e oculto em misteriosas ves-
Oiá, que retribuía o interesse, fascinada pelo tes de palha-da-costa.
porte elegante e majestoso do rei.
15. Diante de tão estranha criatura, as pes-
9. Um dia, então, a cumplicidade instaurou-se soas se afastaram, menos Oiá que, ao som dos
entre os dois, que cederam à atração que sen- tambores, dançou para ele sua dança mais
tiam um pelo outro. Fugindo para longe, os frenética.
apaixonados foram perseguidos por Ogum, fu-
rioso e sedento de vingança. E a perseguição 16. Girando, girando, a dança de Oiá provoca-
durou muitos anos. va um vento muito forte. Tão forte que desco-
briu o cavalheiro misterioso, revelando
10. Embora movidos apenas pelo desejo, Oiá e Obaluaiê que, para surpresa de todos, era um
Xangô eram felizes. Essa felicidade, porém, homem belo e elegante.
não era completa pelo fato de o casal não ter
filhos. Disposta a resolver o problema, Oiá 17. Feliz, o senhor da Terra resolveu dividir
consultou Ifá. Foi quando soube que só teria fi- seu reino com Olá, dando a ela o iruquerê,
lhos quando fosse possuída de forma violenta. símbolo da confirmação de seu poder sobre os
espíritos dos mortos: poder que Olofim já lhe
11. Com seu temperamento decidido, a senho- havia conferido por ocasião dos funerais do
ra dos ventos provocou Xangô até ser por ele pai adotivo de Oiá.
violentada. Desse relacionamento brutal, ad-
vieram nove filhos, dos quais oito nasceram 18. Em outro momento, quando Oiá era sua
mudos. Novamente aconselhada por Ifá, ela esposa, Xangô foi rei de Oió, governando com
fez as necessárias oferendas e logo concebeu extremo rigor. Chamavam-no "Jácutá", o ati-
e deu à luz um filho aparentemente são. rador de pedras, porque as pedras eram a ar-
ma de combate que ele melhor manejava.
12. Esse filho não era mudo, mas, assim que
falou, revelou uma voz aterrorizante, rouca e 19. Xangô era honrado e respeitado, mas de-
gutural. Voz que identifica Egungum, o ante- sejava ser temido. Por isso, procurou Exu
passadofundador de todas as famílias e todas para conseguir algo que lhe permitisse infun-
as cidades. dir terror em seus súditos e inimigos.

13. Assim, até hoje, quando Egungum vem à 20. Feita a solicitação e combinado o preço,
Terra para confraternizar e receber as home- Exu pôs mãos à obra e, pronto o trabalho,
nagens de seus descendentes apenas diante Xangô mandou Oiá buscar o encantamento.
de Oiá ele se curva; apenas a ela, que é sua Na volta, Oiá não conteve a curiosidade e
mãe, Egungum presta reverência. abriu o pacote que pegara com Exu.

14. Já conhecida como a mãe de Egungum, 21. Vendo nele um pó vermelho, Oiá botou um
certa vez, em uma festa, Oiá viu chegar um pouquinho na boca para saber do que se tra-

Mina I 127
tava. Sentiu um gosto estranho. mas não con- 25. Espada contra sabre. os dois lutaram.
seguiu identificá-lo. Ao chegar em casa, foi in- Dessa guerra sem vencido ou vencedor, Ogum
dagada por Xangô sobre as instruções para saiu dividido em sete partes. e por isso ficou co-
uso do encantamento. Assim que ela começou nhecido como Ogum MêjL ou Mejê. que signifi-
falar, saíram chamas de sua boca. ca "sete". Por sua vez, Oiá foi partida em nove
pedaços, e assim ganhou o nome de lá Messã ou
22. Irritado. Xangô percebeu que ela havia se lansã, a "mãe que se transformou em nove".
apropriado da magia e partiu para espancá-
la. Oiá fugiu. escondendo-se em um pasto de 26. Graças a seus próprios poderes, Oiá logo
carneiros. Transtornado de ódio. Xangô come- se recompôs. No entanto. afastada de Xangô,
çou a atirar pedras de raio em direção aos lu- resolveu retornar à sua terra natal, contra-
gares onde supunha que Oiá estivesse. Um riando a antiga determinação de Olofim. Lá.

dos raios incendiou o pasto. matando todos os sabendo depois que seu grande amor havia
morrido, tomada de grande tristeza, deitou-se
carneiros, e Oiá ficou escondida entre os cor-
para morrer também.
pos calcinados.

27. Chorando por nove dias e nove noites. Oiá


23. Quando sua ira se abrandou. Xangô man-
formou um rio com suas lágrimas. Seu corpo
dou seus guardas buscarem Oiá. o que de fa-
foi também se tornando líquido para transfor-
to ocorreu. Então, naquela noite. ele resolveu
mar-se no Odô Oiá, o grande rio de Oiá, que
experimentar o pó vermelho de Exu. embora
banha o oeste africano. das montanhas do
não soubesse como usá-lo. Foi assim que. do
F'uta Djalon até a baía de Benin.
alto de um morro, Xangô começou a lançar fo-
go pela boca de uma maneira descontrolada.
v- Oxum, seu rio e sua cidade
O fogo acabou incendiando a cidade e o reino.
1. Assim como Oiá tem um rio. Oxum também
Oió foi mais tarde reconstruída pelo próprio
tem o seu. Um dia, o rei Larô. depois de mui-
Xangô. Ele homenageou os carneiros de seu
to procurar um bom lugar para se instalar
rebanho. mortos na defesa de sua mulher Oiá,
com sua gente. chegou a um rio de águas lim-
cujos filhos, em sinal de luto. nunca mais co- pas e abundantes.
meram carne de carneiro.
2. Sua filha desapareceu enquanto se banha-
24. Enquanto tudo isso ocorria, Ogum, louco va nessas águas; porém, reapareceu logo
por vingança. continuava procurando por Oiá depois lindamente trajada.
e Xangô. Quando finalmente os encontrou,
travou-se uma luta sem precedentes. cada um 3. Ante o assombro de todos, a moça contou
deles usando a força e os meios mágicos de que fora muito bem recebida pela dona do rio.
que dispunha. Após vencer Xangô. Ogum Larô, então. fez ricas oferendas às águas.
aproximou-se de Oiá, disposto a fazê-la em como prova de gratidão.
pedaços com sua espada, sem lembrar que
ela portava também um sabre encantado. 4. Em meio à cerimônia, um grande peixe se

128 I Kitábu
aproximou mansamente do rei, que o apanhou. batalá, Orunmilá mandou Exu-Elegbá verifi-
No colo de Larô. o peixe emitiu um jato d'água. car como era a recém-nascida. Se ela tivesse
que o monarca recolheu em uma cuia e bebeu. uma determinada marca na cabeça, Orunmilá
a reconheceria como filha e a criaria.
5. Estava selada a aliança entre Larô e o rio.
Sob aplausos e exclamações de seu povo, 12. Assim se comprovou, assim se deu. A me-
Larô recebeu o título de ataojá, ou "a tewo nina. que se chamou Oxum, foi levada para
gba eja". ou seja, "aquele que estende a mão morar com o pai. e cresceu tão bela e rica
aos peixes e os prende". quanto mimada e voluntariosa.

6. Ao ser assim aclamado, Larô exclamou: 13. Não se sabe se Obatalá ficou ciente desses
"Oxum gbó!" ("Oxum floresce. faz crescer"). acontecimentos. O que se sabe é que. um dia.
Por isso, a cidade de Larô e Oxum passou a se ele resolveu tomar Orunmilá como seu mestre
chamar Oxogbô. para aprender com ele as artes da adivinhação.

7. Em uma de suas vidas terrenas. um dia, 14. Contudo, as lições ficaram restritas aos
Orunmilá. passeando pela cidade com seu sé- oráculos mais simples, como o obi e os búzios,
quito. cruzou com outro cortejo no qual se porque a leitura por intermédio do opelê e dos
destacava, pelo porte e pela beleza. uma mu- iquins estava reservada àqueles que se dispu-
lher encantadora. sessem a conhecer e memorizar os milhares
de itãs da tradição de !fá e se tornarem exclu-
8. Profundamente impressionado. Orunmilá sivamente babalaôs.
mandou Exu-Elegbá. seu mensageiro, saber
quem era aquela mulher tão fascinante. 15. Foi assim que Obatalá aprendeu a inter-
pretar a caída do obi partido e dos búzios,
9. Era lemanjá, filha de Olocum e mulher de mas recusava-se terminantemente, por res-
Obatalá, revelou-lhe o mensageiro. Orunmilá, peito a Orunmilá. a transmitir esses conheci-
então, ordenou que Exu-Elegbá a convidasse mentos a não-iniciados. No entanto, Oxum,
para uma visita a seu palácio, a fim de conhe- curiosa como só ela, queria a qualquer preço
cer seu saber e suas riquezas - convite que dominar o segredo dos búzios, contrariando a
Iemanjá, embora com alguma relutância ini- vontade de seu pai, Orunmilá.
ciai, aceitou.
16. Certo dia, Obatalá resolveu refrescar-se
10. Como Orunmilá é o dono de todo segredo e num rio que ficava longe da cidade. Lá che-
de todo mistério, nunca ninguém soube ou sa- gando. deixou suas roupas sobre uma pedra e
berá o que se passou durante a visita. Contudo, mergulhou na água limpa e fresca.
o fato é que. cerca de nove meses após aquele
encontro, lemanjá deu à luz uma linda menina. 17. Nesse momento, surgiu Exu-Elegbá que,
disposto a fazer mais uma de suas brincadei-
11. Como lemanjá tinha outros filhos com 0- ras, apossou-se das roupas de Obatalá.

Mina I 129
"Ouero ver se o senhor das vestes brancas tinha como mulheres, morando sob o mesmo
ainda é senhor. mesmo sem roupal" - debo- teto, Oxum e Obá. uma mulher de vida trági-
chava ele. cantando. dançando e indo embora ca. que fora violentada e abandonada por Ogum
com as vestes do respeitável senhor. na adolescência.

18. Ao se dar conta do que tinha acontecido. 2. As duas se revezavam nas tarefas domés-
Obatalá entrou em pânico. Como sair dali sem ticas. fazendo rigorosamente as mesmas
roupa? Completamente aturdido e sem saber coisas em dias e semanas alternados.
o Que fazer. de repente Obatalá se deparou Embora tivessem as obrigações iguais. não
com Oxum à sua frente. recebiam, porém. o mesmo tratamento por
parte de Xangô.
19. A vergonha foi maior ainda. Oxum. porém.
tranqüilizou-o. dizendo que tinha como reaver 3. Era clara a preferência do rei por Oxum.
suas roupas. mas que. em troca. Queria obter mais jovem. sensual e bonita. Ela possuía
o segredo dos búzios. também melhores dotes culinários, os quais
Obá procurava imitar. copiando as receitas
20. Obatalá tentou negar; no entanto. vendo que a preferida inventava.
Que não tinha saída, acedeu. Oxum, então. foi
ao encontro de Exu-Elegbá. 4. Aborrecida com isso. um dia Oxum resol-
veu fazer uma maldade: com um belo turban-
21. O mensageiro. vendo aquela jovem tão be- te que lhe escondia as orelhas, mostrou a
la. tão sedutora. tão tentadora. foi tomado de Obá a gamela onde preparava um amalá de
um desejo incontido. Oxum. sentindo-se de cheiro inebriante e no qual boiavam dois fru-
novo dona da situação. mais uma vez nego- tos estranhos.
ciou: "Sim! Serei tua! Mas em troca Quero as
roupas que roubaste de Obatalá!" 5. Indagada sobre a receita e sobre aqueles
frutos esquisitos, Oxum disse a Obá que se
22. A contrapartida era muito pouca diante do tratava de um encantamento de amor. Afir-
prazer Que se avizinhava. Então. Exu-Elegbá mou que os frutos, supostamente quiabos.
concordou. E foi assim que aconteceu. eram nada mais nada menos que suas duas o-
relhas. que. a conselho de um babalaô. corta-
23. De posse das roupas. a bela e ardilosa ra e cozinhara para conquistar o amor de
Oxum voltou e entregou-as a Obatalá. O se- Xangô de forma completa e definitiva.
nhor das vestes brancas. honrando o compro-
misso. ensinou à bela princesa o segredo dos 6. À mesa, o alafim deliciou-se com o ama lá.
búzios e dos obis. Por isso Oxum o domina tão comendo e elogiando a novidade. Esse fato fez
bem Quanto Orunmilá e Exu-Elegbá. com que, na semana seguinte, Obá, ingênua e
apaixonada. caísse na armadilha de Oxum; e
VI - Obá assim ela cortou uma das orelhas para o ama-
1. Em uma de suas vivências terrenas. Xangô lá do rei.

130 I Kitábu
7. Ao ver o prato e constatar aquele resto seu destino, Idoú resolveu viver na cabeça dos
humano sobre a papa de inhame. Xangô foi irmãos. atormentando-os. Por isso. os dois
acometido de um terrível acesso de cólera. brigavam todo o tempo, o que perturbava tam-
lançando seus raios em todas as direções. bém o ori. a cabeça de Oxum.

8. Obá - que já cortara o rabo do cavalo pre- 6. Foi quando, numa consulta. Orunmilá iden-
ferido de Xangô para fazer uma oferenda - foi tificou o problema. Então, ele deu a Oxum no-
derinitivamente repudiada e expulsa do palá- ve espelhos para que por meio deles - refle-
cio, sem amor e sem uma das orelhas. tindo um de cada vez a imagem dos filhos -
ela pudesse ver em qual das crianças apare-
9. Contudo. Oxum também foi castigada. pois cia o egungum perturbador.
informado da maldade feita pela esposa,
Xangô dela se separou. Então. as duas mu- 7. Oxum viu a imagem de um de seus filhos
lheres tornaram-se para sempre inimigas refletida quatrocentas vezes; do outro. porém,
irreconciliáveis. nada viu. Era leu, a morte, se manifestando.

VII - Ibêji 8. Assim. Oxum teve que sacrificar um dos fi-


1. lbêji é o orixá dos gêmeos, da duplicidade, lhos, para que o outro sobrevivesse. Com o
personificados por Taiô e Caindê, casal de gê- passar dos dias, o gêmeo sobrevivente. Taiô,
meos criados por lemanjá, mas filhos de Oxum foi se mostrando desesperado de tanta falta
com Xangô. por intermédio de quem falam e que sentia da irmã, Caindê.
se comunicam.
9. Oxum não teve outra alternativa senão ir
2. Eles foram concebidos quando, certo dia. até a sepultura e tentar ressuscitar a menina,
Oxum. desejosa de ter um filho. pediu essa o que não conseguiu.
graça a Olodumarê, por meio de Orunmilá.
10. Taiô, no entanto, não se conformava. De-
3. O sábio, então, mandou que ela fizesse um cidiu amarrar a irmãzinha morta no seu pró-
grande ebó. uma grande oferenda, com car- prio corpo, pal'a sempre. transmitindo a ela
neiros, cabritos. galos. pombos, peças de rou- sua energia vital e fazendo-a renascer.
pas. mas tudo em dobro, além de dois sacos
de búzios. 11. Alegres e comunicativos, os ibêjis. além
de simpáticos a todos. tornaram-se também
4. Assim mandado, assim feito. Oxum engra- muito poderosos. Isso começou no dia em que
vidou. E o pai era Xangô. livraram Obatalá de uma cilada armada por
um grupo de obás arbitrários e corruptos.
5. Contudo. na hora do parto. nasceram três
crianças - o casal, Taiô e Caindê, e mais um 12. Esses obás, a quem Obatalá se opunha fir-
menino. ldoú. Esse fato desagradou à mãe. memente, resolveram destroná-lo. Com esse
Querepudiou e matou Idoú. Inconformado com propósito. subornaram o cozinheiro do palá-

Mina I 131
cio. para que ele envenenasse a comida do se- lhas nas encruzilhadas e estava devorando
nhor das vestes brancas. todos os humanos que caíam nelas.

13. Aceitando o suborno. o cozinheiro resol- 19. Mesmo sabendo disso, os gêmeos iam pe-
veu matar o rei adicionando sal à sua comida, la estrada. batucando e cantando alegre e
uma vez que o sal era e é o maior tabu ali- descontraídamente. Por precaução, entretan-
mentar de Obatalá. Os ibêjis. porém. ouviram to, eles se revezavam: enquanto um cantava e
a conversa entre o emissário dos obás e o co- batucava, o outro tomava conta. seguindo
zinheiro. Rapidamente avisaram o rei e. sem oculto pelo mato. E assim foram indo.
denunciarem o traidor. aconselharam o sobe- Contudo. o Exu velho. ao vê-los e ouvir o ba-
rano a se disfarçar trocando as roupas bran- tuque que faziam. ficou encantado e dançou.
cas por um traje vermelho e preto. pois assim mesmo sem querer.
ele facilmente descobriria a cilada que lhe
tramavam. 20. Percebendo isso. os ibêjis tocaram cada vez
melhor e em um ritmo ainda mais contagiante.
14. Aceitando o conselho, Obatalá disfarçou- Exu. então. não conseguia parar de dançar.
se usando os trajes determinados e. ao sair
pelos fundos do palácio. passou pela cozinha. 21. Os dois se revezavam: enquanto um tocava
o outro descansava, sem deixar a música pa-
15. Qual não foi a surpresa do rei quando viu rar. E fizeram isso por sete dias e sete noites.
o cozinheiro salgando sua comida! Desmas-
carado e castigado o traidor, Obatalá cobriu 22. Por fim, o Exu, completamente esgotado.
os ibêjis de homenagens, entre as quais mui- pediu-lhes clemência: "Parem! Parem. por fa-
tos brinquedos e guloseimas. e concedeu a vor! Esse ritmo é muito gostoso! Eu não
eles poderes miraculosos. agüento mais!"

16. Parece que essa estratégia de se vestir de 23. Os ibêjis só pararam depois que o Exu
preto e vermelho para desmascarar traidores malvado. com sua roupa vermelha e preta já
e descobrir ciladas e emboscadas foi ensina- em frangalhos. desativou todas as armadilhas
da aos ibêjis por um Exu velho. que tinha preparado. Enquanto ele trabalha-
va, os gêmeos prestaram bastante atenção.
17. Assim se acredita por causa de um fato Foi assim que eles aprenderam a desarmar
ocorrido antes dessa trama, quando os ibêjis, arapucas e prevenir traições.
já morando com Iemanjá, sua mãe adotiva.
saíram para se divertir. tocando seus tam- VIII - lemanjá e Olocum
borezinhos. 1. No princípio dos tempos, lemanjá, ainda não
acostumada ao convívio com os humanos. saía
18. O Exu, já bem velho. mas ainda um eborá de sua morada nas profundezas do oceano sem-
dos mais terríveis e malvados, daqueles do pre que sentia vontade: assim, invadia a terra
começo dos tempos. tinha colocado armadi- com suas águas. causando mortes de desolação.

132 I Kitábu
2. A notícia daqueles acontecimentos trágicos ambiente eram as águas. Que Queria voltar
chegou ao conhecimento de OIofim. Que pron- para o oceano.
tamente mandou averiguar.
8. Tanto fez e tanto falou. e com tal insistên-
3. Antes que lemanjá fosse punida. Elegbá a cia. que Obatalá perdeu o juízo. enlouquecen-
aconselhou a consultar o oráculo. o que foi do completamente. Percebendo o mal que ti-
feito. Orientada por !fá. lemanjá preparou um nha causado. Iemanjá se calou. Foi. então.
carneiro para oferecer a Obatalá - o encarre- tratar do louco. tentado apaziguar sua mente
gado da sindicância -. a fim de conseguir gra- com água fresca. cânticos suaves. flores de
ças dele e proteger-se contra os que deseja- leves aromas. inhames macios. pombos ten-
vam seu castigo. ros. tudo branco. branco. muito branco.

4. Enquanto Obatalá ouvia as reclamações. 9. Obatalá foi melhorando. até ficar bom e re- !
i'
lemanjá. que já se sentia segura. invadiu de cobrar o juízo. Assim. depois de ouvir
novo a terra com suas águas por simples pir- Olodumarê. ele deu a lemanjá a denominação
raça. Em uma atitude orgulhosa e desafiado- de "senhora das cabeças", título que ela os-
ra. ela surgiu montada em um peixe enorme. tenta com orgulho. cuidando do ori de todos
cavalgando-o sobre as ondas encapeladas e os seres viventes.
erguendo. acima da cabeça. o carneiro imola-
do em honra a Obatalá. 10. No entanto. enquanto lemanjá conquista-
va eterna paz e tranqüilidade. seu pai OIocum
5. Foi tão bela e tão forte a cena. e tão carre- estava inquieto. Vivendo na água e na terra.
gada de mistério. que Obatalá se encantou. ele nunca se satisfazia. pois não pertencia in-
Prontamente. ele deu como aceita a oferenda. teiramente a nenhum dos dois lugares.
confirmando o poder de lemanjá sobre as
águas e sobre as praias - lemanjá. se abor- 11. Por esse motivo. resolveu desafiar o poder
recida. pode invadir a hora que quiser. de Obatalá. que era Orixá Nlá. o grande orixá.
E arquitetou um ardil. Convidou Obatalá para
6. Mulher voluntariosa e ao mesmo tempo de- uma festa em seus domínios. pedindo-lhe que
dicada. lemanjá. tempos depois, recebeu de comparecesse com suas roupas mais finas e
Olodumarê a incumbência de cuidar de bonitas. Orixá Nlá concordou.
Obatalá. Ela teria de fazer isso da forma como
uma mulher cuida de seu marido. tomando 12. Quando lá chegou. Obatalá viu que se tra-
conta da casa e dos filhos. tava de um desafio: Olocum. também trajando
suas melhores roupas e adereços. obrigou seus
7. Aquela tarefa. porém. foi cansando o tem- súditos a aclamarem qual dos dois era o mais bo-
peramento buliçoso de lemanjá. que começou nito e elegante. Contudo. como havia descoberto
a se queixar. Dia e noite. então. ela atazanava o ardil. Orixá Nlá enviou em seu lugar Aguemã.
o juízo de Obatalá. dizendo que não era escra- o camaleão. que era. em sua corte. o mago dos
va. que não estava ali para isso. que o seu disfarces. Olocum. porém. nem percebeu.

Mina I 133
13. Quando o falso Orixá Nlá entrou no salão 2. Logo depois. seu corpo começou a se abrir
no fundo mar, Olocum ficou boquiaberto: sua em pústulas e ele, apavorado, começou a gri-
roupa era linda demais! E maIo povo ensaiou tar pela mãe, implorando-lhe uma solução.
uma manifestação, a roupa já era outra, mais
bonita ainda. Assim se deu sete vezes. 3. Era a varíola, a peste horrenda, querendo
ceifar mais uma vida. A mãe de Xapanã, sa-
14. OIocum também mudava de roupa, mas bendo do que se tratava, mostrou-lhe que
não conseguia se igualar, pois as do falso aquilo era castigo por sua rebeldia, mas o cu-
Orixá Nlá eram cada vez mais deslumbrantes. rou, passando pipocas em seu corpo. É por
Finalmente, OIocum deu-se por vencido. isso que as pipocas são, até hoje. conhecidas
Retirou-se, então, para o fundo das águas, re- como as "flores de Xapanã".
moendo sua mágoa ante o poder de Orixá Nlá.
4. Depois desses acontecimentos, Xapanã saiu
da casa da mãe para tentar ganhar a vida,
15. No entanto, Olocum não conseguia se con-
acompanhado de seu cachorro. Foi de cidade em
formar porque, acima de tudo, ele tinha vergo-
cidade, sem nada conseguir para seu sustento.
nha de sua natureza anfíbia. Anfíbia e herma-
frodita, como eram todos os seres do início da
5. Passou, então, a pedir esmolas, mas nem
Criação. Em razão de sua dubiedade sexual,
isso conseguiu, pois até água lhe negavam.
OIocum sentia-se muito atraído por Orixá Oco,
Foi assim que Xapanã resolveu internar-se na
mas tinha vergonha desse sentimento.
floresta, onde, embora vivendo em meio a co-
bras e outros animais perigosos, conseguia
16. Grande lavrador, Orixá Oco, era um ho-
alimento para si e seu cão.
mem sério e recatado. Quando ele soube dos
sentimentos recalcados de Olocum, revelou-
6. A mata, contudo, também lhe era hostil. Os
os publicamente, ridicularizando-o.
espinhos e venenos de certas plantas deixa-
ram novamente seu corpo em chagas, provo-
17. Sentindo-se muito mal com aquilo, 010-
cando um desconforto só amenizado pelas fo-
cum refugiou-se, dessa vez para sempre, no lhas curativas que ele aprendera a identificar
fundo das águas, de onde nunca mais saiu. e por seu fiel companheiro, que lhe lambia
Alguns mais velhos dizem que ele hoje é um as feridas.
enorme monstro marinho, tão estranho e hor-
rendo que quem o vê e conta que viu, nunca é 7. Uma noite, entretanto, Xapanã, adormeci-
levado a sério. do, ouviu uma voz que lhe mandava acordar,
levantar e voltar para o meio do povo. pois
IX - Xapanã no Aiê uma missão muito importante o aguardava.
1. Quando criança, Xapanã era muito rebelde,
irritadiço e desobediente. Certo dia, por sim- 8. Sua primeira surpresa ao acordar, lépido e
ples pirraça, ele pisou nas flores brancas do bem-disposto, foi verificar que seu corpo não
lindo jardim que sua mãe cultivava. apresentava nenhum sinal de ferimentos.

134 I Kitábu
Então, agradecendo à voz misteriosa, que só inhame, dendê e, principalmente, pipoca,
podia ser de Olodumarê, Xapanã juntou água muita pipoca.
e plantas curativas e foi para o mundo,
15. Eles também aconselharam que todos se
9, Fora da mata, o clima era o pior possível, prostrassem humildemente diante dele, e
pois a peste estava solta, matando pessoas assim foi feito. Satisfeito com a submissão e a
em todas as partes. Então, ao entrar na cida- delicadeza do povo, que o cumulou de boas co-
de, Xapanã se surpreendeu com a recepção midas e bons presentes, Xapanã, que os mar-
que o esperava. rins chamavam Sakpatá, resolveu ficar entre
eles, reinando tranqüilo.
10. Isso aconteceu porque um babalaô vatici-
nara sua volta como salvador de seu povo, 16. Foi durante o seu reinado que o país mais
como o homem que venceria a grande peste. prosperou. Grato ao monarca por esse feito, o
De fato, foi o que se deu. Com suas folhas,
povo do lugar honrou-o também com vários tí-
cascas e raízes, Xapanã ia curando um por
tulos, como os de senhor da terra (ainon) e
um. Depois, com a vassoura (xaxará) que usa-
senhor das pérolas (jerrolu). Na verdade, o
va para limpar sua cabana no mato, ia var-
rei não gostava nem gosta que o chamem de
rendo os resíduos da peste para bem longe.
Xapanã, ou Sakpatá, porque esses nomes sig-
nificam exatamente ... varíola.
11. Completamente vitorioso, Xapanã foi acla-
mado rei. Assim, passou a ser chamado cari-
nhosamente de Omolu, o "filho daquela que
x- Obaluaiê no Orum
1. Certo dia no Orum, Obaluaiê viu as feridas
fura", e honrado como Obaluaiê, "rei e senhor
voltarem ao seu corpo por causa de alguma
da vida".
transgressão que cometera. Então, chegando
de uma viagem à Terra, notou que acontecia
12. Em outra de suas encarnações terrenas,
uma grande festa, com a presença de todos os
Xapanã foi um rei guerreiro, severo e ranco-
roso, que fazia descer a peste sobre aqueles orixás e irumalês.

que se opunham a seus desígnios.


2. Seu corpo estava tomado de feridas horrí-
13. Um belo dia, ele saiu a campo com suas veis, só lhe restando o consolo de espiar, atra-
tropas em demanda da terra dos marrins, no vés de uma fresta, a alegria que corria.
Daomé. Sabendo de sua chegada, os chefes lo-
cais consultaram seus adivinhos (boconãs). 3. Foi quando Ogum, percebendo seu sofri-
mento, aproximou-se e se ofereceu para co-
14. Os adivinhos recomendaram que o povo bri-lo com uma capa de palha, que lhe oculta-
homenageasse o conquistador com uma gran- ria todo o corpo, da cabeça ao tornozelo.
de oferenda, um ebó nlá, uma oferenda bem Embora constrangido e sofrendo, Obaluaiê
grande e suntuosa. com tudo o que fosse do aceitou a ajuda de Ogum e, cobrindo-se com a
gosto e da preferência de Xapanã: amalá de capa, foi participar da festa.

Mina I 135
4. Diante daquela figura estranha, todos se 11. Pouco tempo depois. uma enfermidade
afastaram, desconfiados. Contudo, Oiá, vivaz terrível espalhou-se por todo o mundo. ceifan-
e curiosa, percebera toda a manobra, e. com- do. mais uma vez. milhares de vidas. Foi
padecendo-se de Obaluaiê. dele se aproximou quando o povo. por intermédio dos babalaôs.
e o trouxe. pela mão, até o centro do terreiro consultou Orunmilá.
onde a festa se realizava.
12. O grande sábio explicou os motivos de ta-
5. Ante o olhar atônito dos presentes. ela so- manha mortandade: Obaluaiê estava irado por
prou seu vento, arrancando as palhas da rou- ter sido enganado e preterido pelos outros ori-
pa do doente e fazendo suas feridas voarem xás; por isso. espalhara a peste pelo mundo.
de seu corpo e. no alto, tornarem-se uma chu-
va de pipocas. 13. Como só ele detinha o poder sobre as
doenças. pois esta fora sua herança, era pre-
ciso aplacar sua ira com grandes sacrifícios.
6. Ato contínuo, em meio a relâmpagos e tro-
oferendas e homenagens. Então. apesar de
vões, Obaluaiê transformou-se num jovem be-
exaurido e empobrecido. o povo. num esforço
lo e saudável, ao mesmo tempo em que o céu
derradeiro. fez tudo o que Orunmilá determi-
se calava para iluminar tudo e todos num cla-
nou. A peste foi vencida. Assim. após receber
ro e plácido luar.
as devidas honras. Obaluaiê foi definitivamen-
te reconhecido e confirmado, também no
7. A partir daquele momento, Obaluaiê e Oiá
Orum. como o senhor da vida na Terra.
tornaram-se amigos para sempre e reinaram
juntos. compartilhando seu poder sobre os eguns.
XI - Nanã. Euá e Orixá Ocô
1. Dizem alguns mais-velhos que, quando da
8. Tempos depois, Olodumarê reuniu todos os
criação do mundo, encarregado de modelar os
orixás e mandou que eles partilhassem entre
seres humanos, Obatalá. antes de iniciar sua
si todas as riquezas do mundo. A ordem foi
importante tarefa. experimentou vários mal,e-
obedecida, mas fora proferida em um dia em riais e formas de trabalho.
que Obaluaiê tinha vindo à Terra.
2. Primeiro, experimentou o ar. Contudo, o ar,
9. Dessa forma. rios, mares, florestas. animais desvanecendo-se. não se deixou prender nem
e riquezas do subsolo foram redistribuídos moldar. Depois, Obatalá experimentou o fogo,
entre os orixás na ausência de Obaluaiê. para que se rebelou e quase o queimou. Ele conti-
quem nada restou; ou melhor. sobrou. sim, al- nuou tentando: água. madeira. pedra ... e nada
go que ninguém nunca desejou: a doença. dava certo.

10. Conformado mas vingativo, Obaluaiê 3. Foi quando Nanã Burucu resolveu ajudá-lo.
guardou a doença consigo. não sem antes se Ela retirou do fundo da lagoa onde reinava
aconselhar com Orunmilá. que lhe prescreveu uma porção de lama. Dessa lama. facilmente
o ebó apropriado. modelável, Obatalá conseguiu fazer os seres

136 I Kitábu
humanos, e os foi moldando e pondo ao sol para encontrá-la. O mesmo fez Soromu, que,
para que secassem. sem saber da gravidez de Euá, deixara a cida-
de, não em fuga, mas por causa de uma mis-
4. Prontos os primeiros exemplares da espécie são secreta que ela própria confiara à sabe-
humana, Olofim soprou e lhes deu vida. No doria dele.
entanto, Nanã Burucu também reivindica para
si essa primazia. Por isso todo ser humano, 11. Então, depois de alguns dias. Boromu en-
depois de cumprir o seu ciclo de vida, tem de controu Euá desfalecida na floresta, com o fi-
voltar à lama inicial. que é de Nanã. Contudo, lho dormindo ao seu lado. Uma vez que temiam
a terra dos cemitérios pertence a Euá. a reação de Obatalá, eles resolveram voltar ao
seu palácio. mas sem lhe revelar a existência
5. Dizem os mais velhos que, em uma de suas vi- da criança, que ficou escondida na mata.
das terrenas, Obatalá teve uma filha muito boni-
ta, virtuosa e inteligente. Essa moça era Euá, 12. No dia seguinte, ânimos serenados, Boromu
que apesar de todos os seus dotes, nunca tinha voltou para cuidar do filho e não o encontrou.
demonstrado interesse por nenhum homem. Ele havia sido levado por lemanjá, que, nadan-
do num igarapé em meio à floresta, ouvira o
6. Assim foi até que um forasteiro chamado choro da criança e a tomara a seus cuidados.
Boromu chegou à cidade e lá se instalou. A
partir de então, Euá mudou completamente 13. Euá e Boromu nunca mais viram o filho.
seu comportamento. Diante disso e envergonhados perante Obata-
lá, os dois foram viver no cemitério.
7. Tornou-se arredia, tristonha, desinteressada
de tudo. Seu pai. embora sábio, não acreditava 14. Hoje, Soromu representa apenas os os-
- como diziam - que ela estivesse apaixonada. sos, o que restou de um ser humano. Euá.
E, mesmo que estivesse, nada a impediria de triste e amargurada, cumpre. em sua morada,
ser feliz ao lado do forasteiro, que, aos olhos de o papel de entregar a Oiá-lansã os cadáveres
Obatalá, era merecedor de seu carinho. que Obaluaiê conduz até Orixa Ocô, para se-
rem devorados e se transformarem de novo
8. Contudo, quando Obatalá atentou para es- na lama inicial.
se fato. Boromu já havia saído da cidade. Ele.
porém. deixara um filho no ventre de Euá. que 15. Segundo alguns mais-velhos, isso aconte-
guardava o seu segredo a sete chaves. ce porque no princípio do mundo, um dos pri-
meiros homens a ser criado chamava-se Ocô.
9. Uma noite. sentindo as dores do parto. Euá
fugiu da casa do pai e embrenhou-se na mata, 16. Esse homem vivia na mais completa ocio-
onde deu à luz um menino. sidade, não porque quisesse, mas porque o
trabalho ainda não existia e, então, não havia
10. Obatalá, constatando o desaparecimento o que fazer. Certo dia, porém, os alimentos co-
da filha, mobilizou todas as forças possíveis meçaram a escassear.

Mina I 137
17. Contudo, essa era uma estratégia de primeiro agricultor e repassando seus ensina-
OIofim. que aconselhou Ocô a experimentar mentos para toda a humanidade.
extrair da terra os alimentos de que necessi-
tava para seu sustento. Ocô gostou da idéia 23. Ao morrer e se tornar orixá, Ocô passou a
porque já estava mesmo ficando entediado e ser o patrono dos que trabalham a terra. pro-
aborrecido por não ter o que fazer. No entan- piciando a fecundidade. inclusive a humana.
to, ele não tinha a mínima idéia de como pro-
duzir os alimentos. 24. Contudo. ao mesmo tempo em que é o res-
ponsável pela alimentação da humanidade,
18. Foi quando viu um rapaz cavoucando a ter- como espírito gerador que dá vida às plantas.
ra com um pedaço de pau. Aproximou-se dele ele é a própria terra. Assim. alimenta-se dos ca-
e perguntou o que fazia: o jovem cavoucava a dáveres que Euá lhe fornece diretamente ou que
terra na esperança de encontrar dentro dela
a dona dos cemitérios entrega a Oiá-fansã. que.
os alimentos de que também precisava.
por sua vez. repassaa Obaluaiê para lhe entregar.

19. Então, Ocô resolveu trabalhar junto com o


XII - Oxumarê
rapaz. Vendo que os pedaços de pau logo se
1. Ainda nos dias da criação do mundo. quan-
quebravam, os dois resolveram usar pedaços
do Olofim criou Ojô. a chuva. Oxumarê não
de pedra. As novas ferramentas, porém, tam-
gostou dela.
bém não eram boas: e por esse motivo, o jo-
vem companheiro de Ocô, dotado de iniciativa
2. Assim, toda vez que Ojô ameaçava se apro-
e persistência, resolveu aquecê-Ias para que
ximar. Oxumarê a ameaçava com seu xaxará.
adquirissem mais resistência.
seu cetro. mandando-a de volta para as nu-
vens escuras onde morava.
20. Ao calor do fogo. as pedras derreteram-se.
para decepção dos dois. Mas qual não foi a
3. Oxumarê vivia no Aiê. entre o mar e a ter-
surpresa quando verificaram que, depois de
ra firme, e só ia ao Orum quando chamada.
frias. as pedras se tornavam mais rijas ainda!
Como foi naquele dia. em que Olodumarê se

21. Foi assim que o rapaz, que se chamava desentendeu com Olorum e acordou cego.

Ogum. resolveu trabalhar as pedras amoleci- deslumbrado pelos raios do Sol.


das pelo fogo, transformando-as em ferra-
mentas compridas, pontudas, cortantes e, so- 4. No desespero, o Soberano Infinito gritou
bretudo, resisten teso por Oxumarê, que o veio acudir, e milagrosa-
mente o curou.
22. O moço Ogum tinha descoberto o ferro e
se tornado o primeiro ferreiro. Com as ferra- 5. Temendo perder novamente aVIsa0.
mentas que ele fabricava, o velho Ocô plantou Olodumarê ordenou que Oxumarê nunca mais
e colheu os primeiros alimentos produzidos saísse de perto dele, autorizando-a a ir ao Aiê
pela mão do homem, tornando-se, assim. o apenas em visita.

138 I Kitábu
6. E assim Oxumarê, o arco-íris, faz de vez em 7. Mesmo assim, Orunmilá aceitou as oferen-
quando. Não sem antes expulsar sua arquiini- das, mas fez questão de frisar que nunca mais
miga, a chuva, mandando-a de volta para sua voltaria à Terra. Seus bons filhos, entretanto,
morada e abrindo caminho com a coroa lumi- procuraram dissuadi-lo dessa idéia.
nosa e multicolorida que Olodumarê tomou de
Olorum e lhe deu de presente. 8. O grande benfeitor. então. num gesto final
de complacência, deu a seus filhos um pu-
XIII - Orunmilá nhado de caroços de dendê, dizendo: "Pois
1. No mais remoto dos tempos, certo dia. bem! Já que nunca mais voltarei lá, entre-
Orunmilá, preparando-se para celebrar um guem esses iquins a um homem sábio. E di-
ritual. chamou seus oito filhos. Foram Alará, ga a ele que. toda vez que os humanos quise-
senhor de Ará: Ajerô, de Ijerô: os outros e, por rem falar comigo sobre sua vida e seu desti-
último. o filho caçula, Olouó. senhor da cida- no, eu responderei por meio desses caroços
de de Ouó. de dendê."

2. Chegaram respeitosos e reverentes, proster- 9. Contudo, o homem a quem foram entregues


nando-se diante da autoridade paterna. Olouó, os iquins, embora sábio e piedoso, não sabia
contudo, não demonstrou o mesmo respeito. bem o que fazer com eles. Assim, as calami-
dades perduraram, fazendo declinar o seu
3. Advertido, o insolente respondeu dizendo prestígio diante do povo e do rei do lugar.
que não devia reverência ao pai, pois todo o
poder e todas as l'iquezas que o velho pos- 10. Um dia, então, o sábio resolveu partir em
suía, ele tinha também. inclusive a coroa de busca de solução e respostas. Andou dias e
rei, pois era o obá de Ouó; e que um homem noites, meses e anos, sem nada encontrar.
coroado não tem de se prosternar diante
de outro. 11. Foi quando. já quase sem forças, em ple-
no deserto, sob um sol escaldante, o sábio pe-
4. Então, enfurecido, Orunmilá arrancou o ce- regrino encontrou um velho, todo vestido de
tro das mãos do filho e o atirou para bem lon- branco, que o socorreu e o levou à sua mora-
ge. Ato contínuo, retirou-se para o Orum. da no Orum.

5. Depois disso, não choveu mais, as savanas 12. Depois de mandar banhá-lo, tratar suas
e os rios secavam, as árvores morriam. doen- feridas, dar-lhe água e alimento. o velho apre-
ças apareciam, a fome se abatia sobre o Aiê, sentou ao sábio suas mulheres. Eram 16.
na desgraça mais completa. Segundo o velho, cada uma tinha 16 filhos
dele. e cada um desses filhos havia lhe dado
6. Não suportando tanto sofrimento, os huma- 16 netos.
nos procuravam aplacar a ira de Orunmilá
com rogos e sacrifícios, mas os animais eram 13. Todos esses filhos e netos tinham uma
poucose os alimentos quase nada. história muito especial. Disposto o sábio a ou-

Mina I 139
vi-Ias, o velho contou-lhe todas elas, cada XIV - Obatalá
uma encerrando um ensinamento. 1. Quando da criação do mundo, Obatalá foi
encarregado de moldar os seres humanos. No
14. Através dessas histórias. Orunmilá. que era entanto, findo o árduo trabalho da Criação, as
o velho, revelou ao sábio os itãs de Ifá. asso- criaturas voltaram-se contra o criador. Ima-
ciando-os aos caroços de dendê que o sábio por- ginando-se detentores dos mesmos poderes
tava. Assim, o piedoso sábio tornou-se o primei- dos irumalês. os humanos começaram a negli-
ro babalaô e pôde, de volta ao Aiê, proporcionar genciá-los, esquecê-los e desrespeitá-los.
saúde. paz e prosperidade ao seu povo.
2. Aborrecido com isso, Obatalá convocou os
15. Depois disso. um dia Orunmilá, apazigua- demais irumalês a se retirarem do convívio
do, resolveu sair de seus cuidados e vir. de dos seres do Aiê, indo todos morar definitiva-
novo. à Terra. sem disfarce. mente no Orum.

16. Seu maior objetivo era dar aos humanos 3. Antes disso, e para que os seres humanos
algo novo, extremamente belo e jamais sus- tivessem consciência de sua pequenez e fini-
peitado - algo que evidenciasse aos homens o tude em relação aos irumalês, orixás e ebo-
poder de Olodumarê e a grandeza de Olofim e rás, Obatalá estabeleceu que. depois de um
que mostrasse o quanto Olorum fica feliz ao certo tempo e em certa hora, sua existência
iluminar e aquecer a humanidade. material findaria.

17. O Ser Supremo achou importante e boa a 4. Então, criou Icu. a morte. Obatalá deu a
idéia de Orunmilá. Assim, concedeu-lhe plenos ela a incumbência de, nesse certo tempo e
poderes. O grande benfeitor, então, fez reunir nessa certa hora, segundo a determinação
todos os sons e cores que havia no Orum, os expressa de Olodumarê - porque só à Infinita
manjares mais deliciosos e as bebidas mais fi- Sabedoria cabe essa decisão -, colocar o
nas, a alegria mais sincera, a amizade mais ponto final no destino e na existência tert'ena
enriquecedora - tudo de melhor que havia. de todas as pessoas.

18. Mandou afinar tambores. chocalhos, gui- 5. Icu. porém, também era teimosa e desobe-
zos. sinos. trombetas; ilus, batás, xequerês, diente. Certa vez. esquecendo-se de que só
agogôs, afofiês, todos os instrumentos musi- podia agir com ordem de Olodumarê, insta-
cais, e fez tudo descer à Terra junto com os lou-se numa cidade e não quis mais sair. Com
melhores cantores, dançarinos. bailarinos ... E sua voracidade, ia ceifando vidas sem distin-
inventou a festa (xirê). ção: homens, mulheres, moços, velhos e crian-
ças, ninguém escapava.
19. Desde então, a música e a dança, com
boas comidas e boas bebidas, são parte fun- 6. O povo do lugar, desesperado, recorreu a
damentaI da vida humana. e também uma exi- Obatalá. O grande senhor. então, prescreveu
gência dos orixás quando eles vêm ao Aiê. uma oferenda, mandando que o povo da cida-

140 I Kitábu
de pegasse uma galinha preta, sarapintasse-a soprou uma fumaça branca Que envolveu to-
toda com efum, pó de argila branca, e a sol- talmente o adversário, descoloriu por comple-
tasse no mercado. Dito e feito. to sua pele e seu cabelo, tornando-o albino
para sempre.
7. Icu, quando viu aquele bicho estranho vindo
em sua direção, assustou-se e fugiu apavorada, 14. Apesar disso, Obatalá se recompôs, pros-
deixando o povo da cidade em paz. Foi assim seguiu no debate e, conseguindo, finalmente,
que Obatalá criou a galinha-d'angola (etu). dominar o oponente, tomou-lhe a cabaça.

8. É em homenagem a etu que, na iniciação dos 15. Proclamado vencedor e, de posse da caba-
sacerdotes e sacerdotisas dos orixás, o iaô (ini- ça de Exu-Elegbá, Obatalá tomou para si o pó
ciando) é sarapintado com efum, para que branco (efum), com que marca seus filhos,
todos se lembrem da sabedoria de Oxalá e para para que todos sejam albinos como ele.
que Icu se mantenha sempre no seu lugar, dis-
tante, aguardando asordens de Olodumarê. 16. Mas, pacífico e tranqüilo por natureza,
Obatalá, embora vencedor, não gostou de ter
9. Na época desses acontecimentos, Obatalá sido obrigado a debater com o mensageiro.
já tinha predileção especial pelas roupas Então, foi novamente consultar Orunmilá em
brancas. No entanto, a cor de sua pele era busca de paz,
igual à dos humanos que criara.
17. O velho sábio recomendou-lhe que, para
10. Certo dia, sem motivo nenhum, Exu-Elegbá, não passar mais por transtornos daquele tipo
o eterno polemista, levantou uma discussão, e se livrar de ofensas e desonras, fizesse um
afirmando que, embora Obatalá tivesse criado ebó, depositando, em determinado lugar, uma
os seres humanos e a morte, ele, sim, é que era cabaça de sal sobre um pano branco.
o mais antigo entre os moradores do Orum.
18. Obatalá, entretanto, por não entender a
11. Como a discussão não terminava, e desa- orientação ou por qualquer outro motivo, não
fiado para um debate público, do qual não fu- fez o ebó como recomendado. Então, à noite,
giu, Obatalá resolveu, sozinho, levar a quere- enquanto ele dormia, Exu-Elegbá entrou em
la até Orunmilá, fazendo antes as oferendas sua morada, levando exatamente uma cabaça
apropriadas. com sal, que amarrou com um pano branco
em suas costas, mas sem acordá-lo.
12. No dia e no local do duelo, todos os iruma-
lês se reuniram para ver quem sairia vence- 19. O dia clareava quando Obatalá, desper-
dor. Iniciado o debate, Obatalá, com seus ar- tando, viu que estava corcunda. Conformado
gumentos, embaraçou Exu-Elegbá três vezes. com sua sorte, já albino e agora corcunda, re-
solveu tomar para si a proteção dos albinos e
13. Contudo, de repente, o incorrigível pole- de todos os aleijados. Além disso, impondo a
mista sacou de uma pequena cabaça, da qual si mesmo o castigo por sua negligência em

Mina I 141
relação a Orunmilá. nunca mais comeu nem Omon Oxum. movida por sua forte intuição.
provou sal. comprou. sem pestanejar e sem regatear.

20. Apesar de aleijado. Obatalá não perdeu o 25. Chegando à casa. ela tentou abri-lo de to-
gosto pelas roupas vistosas e sempre imacu- das as maneiras. mas não conseguiu. Quando
ladamente brancas. Redobrando seus cuida- a velha já começava a se desesperar de novo.
dos com a aparência. entregou à velha Omon a menina. usando uma faca antiga e meio ce-
Oxum as tarefas de cuidar de suas roupas e ga. foi capaz de abrir o peixe quase sem esfor-
adornos e de manter sempre reluzente o seu ço. Qual não foi a alegria das duas quando vi-
adê. sua coroa de rei. Omon Oxum criava ram dentro dele a coroa de Obatalá!
uma menina. que passou a ajudá-Ia nessas
nobres ocupações. 26. Na mais completa euforia. Omon Oxum
limpou o peixe. cortou-o. temperou-o e o cozi-
21. Despeitadas por não terem sido escolhi- nhou. fazendo a mais cheirosa e apetitosa das
das pelo grande obá. algumas mulheres da al- moquecas. Enquanto isso. a menina ia de ca-
deia começaram a espalhar intrigas e mexeri- sa em casa convidando a vizinhança para o al-
cos. com o intuito de prejudicar Omon Oxum moço. que antecedeu à grande festa. As vizi-
e sua menina. nhas invejosas não se conformaram. Então.
resolveram preparar um ebó maléfico. que foi
22. As duas. porém. cumpriam muito bem a colocado na cadeira em que Omon Oxum se
sua missão. e Obatalá gostava cada vez mais sentaria durante a grande festa de Obatalá.
delas e de seu trabalho. Às vésperas de uma
grande festa. as invejosas viram o adê. a 27. E o ebó foi eficaz. Entronizado na sala. o
coroa. de Obatalá reluzindo ao sol. Resolveram grande obá sentou-se e fez com que Omon
roubá-lo e lhe dar sumiço. atirando-o no fundo Oxum se sentasse ao seu lado. no lugar de
do mar. Omon Oxum procurou a coroa e não a honra reservado às pessoas mais queridas.
encontrou; sem obter nenhuma informação de Após as reverências de praxe. Obatalá man-
sua filha adotiva. ficou muito aflita. dou que ela fosse buscar seu adê. Tragédia!
Omon Oxum não conseguia levantar-se da ca-
23. Procura que procura. mexe que remexe ... deira. Estava presa; e embora se esforçasse.
e a coroa não aparecia! No dia seguinte. quan- nada conseguia.
do Omon Oxum já estava entrando em deses-
pero. a menina teve uma idéia: quem sabe a 28. Então. num esforço supremo. soltou-se. e
coroa não teria sido engoli da por um dos pei- a cadeira caiu ao chão. O sangue de seu corpo
xes que estavam chegando na rede dos pesca- ferido respingou nas roupas do senhor das
dores? Por que não ir lá e arrematar um lote? vestes brancas.
Era muito cedo e a venda ainda não começara.
29. Obatalá sentiu-se ultrajado. pois estava
24. Só havia um peixe já pronto para a venda. violado seu mais terrível euó - seu mais peri-
e era bem grande. Foi exatamente esse que goso tabu - que era o da cor vermelha. Omon

142 I Kitábu
Oxum saiu correndo. gritando de dor e deses- houvesse um grande número de ecodidés. Que
pero. Completamente transtornada. a boa ve- renderam bastante dinheiro. Obatalá. que tam-
lha. vítima do malefício das vizinhas invejo- bém compareceu à festa e se maravilhou com
sas. foi pedir ajuda aos orixás. tudo. ficou sabendo do Que acontecera com
Omon Oxum. Assim. ao ir embora. tomou-a mais
30. Contudo. todos lhe fecharam a porta. me- uma vez aos seus cuidados. juntamente com a
nos Oxum. Complacente e piedosa. a Grande menina. levando-as de volta em sua companhia.
Senhora a recebeu e tratou. Ardilosa e inteli-
gente. ao tratar dos ferimentos. Oxum engen- 34. Ao se despedir de Oxum com grandes elo-
drou mais uma de suas criações deliciosa- gios. o senhor das vestes brancas fez a se-
mente mágicas: cada gota de sangue Que lim- guinte proclamação: em celebração ao acon-
pava das feridas de Omon Oxum ela transfor- tecido e em homenagem aos poderes mágicos
mava num ecodidé. a pena vermelha de papa- de Oxum. daquele momento em diante. ele
gaio-da-costa. ornamento caríssimo e dispu- sempre acrescentaria à sua indumentária um
tado em todo o universo iorubá. tanto no pequeno detalhe em vermelho - a pena do pa-
Orum Quanto no Aiê. pagaio-da-costa. o valioso ecodidé. E foi o que
ocorreu. Então. ao se apresentar em público
31. À medida Que criava os ecodidés. Oxum os com seu novo adê. enfeitado com o ecodidé.
colocava numa grande bacia dourada. Dias Obatalá causou uma fortíssima impressão pe-
depois. totalmente recuperada. Omon Oxum. la beleza de sua indumentária.
resolveu fazer uma festa para Oxum.
35. Todos queriam saber quem a tinha prepa-
32. A comemoração foi realizada com muito lu- rado. principalmente o adê; e o elegante per-
xo. beleza. música. comida e bebida e dela par- sonagem falava. orgulhoso. de sua habilidosa
ticiparam todos os orixás e irumalês. Cada um Omon Oxum.
que chegava. depois de se maravilhar com o
que via. retirava um ou mais ecodidés. deposi- 36. Reconhecendo Que só um homem superior
tando em seu lugar a importância equivalente. poderia ostentar trajes de tanta imponência e
beleza. os orixás aclamaram Obatalá Orixá
33. A festa durou muitos dias e muitas noites. Nlá. Orixalá. o grande orixá.
Com sua magia Oxum fazia com Que sempre

CAPiTULO 9 O mundo espiritual dos edos ou benins*


I - Agbon e Eriui Agbon; e o Orum. onde moram os seres espi-
1. Para os edos ou benins do Antigo Benin. lo- rituais e as divindades. é chamado de Eriui.
calizados a oeste dos iorubás. o Aiê. o mundo
onde vivem os seres humanos. chama-se 2. O Agbon é cercado por um oceano. no qual

• Conforme Kotchakova. 1987.

Mina I 143
deságuam todos os rios. O caminho que o liga ao ehi do mOlto para que acabe de cumprir a
ao Eriui, atravessando esse mar imenso, é a missão interrompida.
estrada pela qual os seres passam de um es-
tágio a outro da existência. 11 - Os ancestrais
1. Entre o Agbon e o Eriui não existem frontei-
3. O ser humano também se constitui de duas ras. Um morto continua presente entre os vi-
partes: o corpo físico, que vive no Agbon, e vos, interessando-se pelos problemas da comu-
seu duplo, erri, que habita o Eriui. nidade a que pertenceu e os de seus membros,
obsel'vando o comportamento das pessoas e
4. Após a morte do corpo físico. a essência vi- podendo castigá-Ias, em caso de faltas, com
tal do indivíduo pode renascer em outro ser doenças, malefícios e até mesmo com a morte.
humano. No entanto, até que se dê a nova
reencarnação humana, as almas dos mortos 2. Assim. o antepassado deve ser invocado
encarnam em pássaros, peixes e até mesmo por seu filho mais velho ou por seu irmão
em répteis e batráquios. Por isso, todo animal diante do altar doméstico, e acalmado com
deve ser respeitado, uma vez que seu corpo oferendas e sacrifícios. É também diante
pode abrigar um espírito humano. desse altar, ou seja, perante seus ancestrais.
que todo membro da família deve penitenciar-
5. Antes do nascimento. o ehi apresenta-se se de seus erros e omissões.
diante de Osanobua - também chamado asa.
que é o Ser Supremo - ou perante seu filho 3. Esse altar familiar tem de ser adornado e
Olocum - divindade dos mares e dos rios -, equipado com os símbolos do ancestral ali cul-
pedindo autorização para transpor o grande tuado, como seus objetos de uso pessoal. sua
oceano. Nesse momento, o ehi expõe o proje- espada e também a estatueta que o representa.
to de vida que tem para o futuro encarnado,
especificando tudo o que pretende realizar 4. Ali. ele irá receber, pelo menos uma vez ao
por meio dele. ano, vinho-de-palma, nozes-de-cola, inhame e
sacrifícios de aves e animais de quatro patas.
6. Assim, quando alguém leva uma vida infe-
liz, isso significa que não está cumprindo sa- 5. Além dos ancestrais masculinos, a mãe do
tisfatoriamente a missão com que veio ao obá, o rei. e as genitoras dos grandes chefes
Agbon ou que contrariou os desígnios que devem ser assim cultuadas. Partes importan-
recebeu. tes do corpo. como as mãos e a cabeça, têm
que ser igualmente veneradas.
7. É por isso que, diante de dificuldades. a
pessoa deve fazer oferendas à sua contrapar- 6. A cabeça, por estar diretamente ligada ao
te espiritual, ao seu ehi. para que ele interce- destino e à sorte da pessoa, deve receber,
da positivamente perante Osanobua. É tam- pelo menos uma vez por ano. e de preferência
bém por essa razão que durante as lamenta- ao fim de cada ciclo anual. sacrifícios de apa-
ções de um velório as carpideiras imploram ziguamento, louvor e gratidão.

144 I Kitábu
7. Da mesma forma, a mão, por simbolizar a prole numerosa, propicia o parto feliz, garante a
capacidade de realização e o sucesso pessoal saúde das crianças e concede riqueza material.
do indivíduo, também precisa ser venerada.
3. Olocum é representado como um peixe ou
11I - Osanobua e as divindades como um rei com cauda de peixe. Da mesma
1. O criador de tudo o que existe, inclusive das forma que Efae. ou Ogum, é a divindade vio-
divindades, é Osanobua, ou Osa. Seu altar deve lenta e temível do ferro, da guerra e da caça;
ser construído na forma de um montículo de e que Oxum é a divindade da medicina e da cu-
barro branco, no qual se finca um mastro com ra; e que Ogiuwu, com seu mensageiro Ofoe. é
um pano também branco, sua cor distintiva. a divindade da morte; e !fá é a da adivinhação.
Nesse altar, ele receberá oferendas de mel e
noz-de-cola - alimentos de sua predileção. 4. Ifá é originário de Ifé. É por esse motivo
que a adivinhação - presidida por ele - só é
2. O filho mais velho de Osa é Olocum, divinda- segura e legítima quando se utilizam caroços
de do mar e dos rios. É ele quem proporciona de dendê procedentes de !fé.

CAPiTULO 10 Daomé e Togo*


I - Jejes e minas além de suas fronteiras. Nela se agrupavam
1. A oeste do território habitado pelo povo io- os povos adjá-ewês, entre os quais os fons,
rubá, habita o povo ewê, que, por sua vez, li- guns, aizôs, marrins, uatchis, uemenus e rue-
mita-se a oeste com os axantes. Os ewês oci- dás. procedentes do leste. alguns deles atra-
dentais ocupam hoje parte da República do vés de Queto.
Toga. enquanto seus irmãos do leste locali-
zam-se no atual Benin. antigo Daomé. 2. No fim do século XVI, dois grupos dos ewês
partiram de Tadô - um dirigiu-se para o lugar
2. O povo fon, um ramo dos ewês do leste, foi que mais tarde se chamaria Atakpamê e o
mais conhecido no Brasil pelo nome jeje e. em outro. mais numeroso, seguiu em direção ao
Cuba, por arará; outros. porém. ficaram mais sul. para se fixar numa clareira da floresta,
conhecidos na diáspora como minas. onde foi erguida Notsê, no atual Toga. Ao
redor dessa cidade, o rei Agakoli fez construir
11 - Origens dos povos de Daomé e do Togo uma enorme muralha de argila.
1. Os povos do antigo Daomé possuem quatro
origens distintas: os de Tadô. os da região de 3. Ele entendia que, assim. poderia se prote-
Uemê, os do médio Daomé e os do norte. A al- ger contra invasores. inimigos e traficantes
deia de Tadô. às margens do rio Monô, era de escravos. Contudo, foi seu próprio povo
importante centro comercial e de difusão de que, crescendo em número e sentindo-se opri-
cultura, irradiando sua influência para muito mido, se incumbiu de derrubar a muralha e

• os textos dos capítulos 10 a 13 baseiam-se principalmente em Herskovitz. 1938; Cornevin. 1970; Kossou. 1981; De La Torre.
1991; Silva. 2002.

Mina I 145
empreender uma fuga em massa durante 9. Zozezibê, em visita ao chefe da aldeia de
a noite. Akrom. pediu-lhe uma pequena porção de ter-
ra, mesmo que fosse tão diminuta que, para
4. Os últimos a sair foram deixando cair pelo cercá-la. bastasse uma pele de antílope. Ao
caminho arenoso, grãos de milho, para que os receber a terra. Zozezibê cortou a pele de um
pombos, ao bicar os grãos, apagassem todas as antílope. chamado Agbanlin, em tiras bem fi-
pegadas. De Notsê, os fugitivos de Agakoli dis- nas, e com elas fez uma cidadela - Hogbonu,
persaram-se em várias direções. a grande casa -, de onde pôde, então. suplan-
tar seu hospedeiro. A partir daquele momen-
5. Os ewês de Huedá, provenientes também to, fundou Adjataxê e adotou o nome de Tê
de Tadô. fundaram Glehuê, depois chamada Agbanlin. ou seja. "pele do antílope Agbanlin".
Uidá. Seu reino conheceu um século de pros-
peridade até a conquista de Savé pelos guer- 1O. O irmão mais jovem de Tê Agbanlin, Dô
reiros de Abomé. em 1727. O declínio total Aklin, ou Dobagri-Donu. instalou-se na região
configurou-se em 1741. quando o rei de de Bohicom. Empunhando a banqueta sagrada
Abomé. tomando Uidá, garantiu para si o co- de Agaçu, ele lançou as bases do futuro reino
mércio direto com os negreiros europeus. de Daomé. Morto Dobagri-Donu. seu corpo foi
devolvido a Aladá, a fim de ser sepultado jun-
6. Os agaçuvis ("filhos do leopardo") consti- to com seus ancestrais. Seu herdeiro natural,
tuíam um clã que. depois de muitas disputas, Ganehesu, como [j)ho mais velho, também se
partiu em direção ao sudeste. levando o crânio dirigiu a Aladá para ser sagrado pelo rei.
e o maxilar inferior do ancestral Agaçu, sua
banqueta-trono (kataklê), esculpida em madei- 11. Aproveitando-se dessa circunstância, o fi-
ra dura; seu cetro e instrumento musical (ad- lho mais novo de Dobagri. Dako Donu, usur-
jogã); e sua lança. Fundaram Aladá num redu- pou o trono. assumindo a condição de chefe
to já ocupado pelos aizô, um ramo dos adiá. do clã dos agaçuvis, e arirmou sua autoridade
sobre as populações locais.
7. Os despojos do ancestral Agaçu foram en-
terrados em Aladá e os agaçuvis mesclaram- 12. Contudo, quem realmente Fundou Abomé
se aos aizô, dando origem aos aladatadonu. foi Arrô. neto de Dobagri. Repelindo uma alu-
habitantes de Aladá originários de Tadô. são desrespeitosa ao espírito de conquista
Tempos depois. uma disputa aconteceu entre dos agaçuvis, segundo a qual eles teriam
os filhos de Agaçu, de modo que Kokpom to- abandonado a água do lago Uemê e se trans-
mou posse de Aladá, com a lança sagrada de ferido para a terra, Arrô respondeu com um
seu pai. provérbio: "Uê gbadja a yi adia" (o peixe que
escapou da arapuca não chega nunca mais
8. Seu irmão. Zozezibê. que depois se chamou nem perto dela). Foi essa. então. a origem de
Tê Agbanlin. empunhando o adjogã de seu pai. seu novo nome: Uegbadjá.
partiu para o leste, onde fundou o reino de
Adjataxê, mais tarde chamado Porto Novo. 13. Para alojar decentemente seus filhos. Uegba-

146 I Kitábu
djá foi pedindo terras aos vizinhos. Ao chefe Dã. sentos abertos para pátios espaçosos. Por
pediu que alojasse em suas terras o casal de gê- essa época. os principais reis de Aladá foram:
meosArrangbê. a filha. e Acaba. o filho. Dé Misé (1752-1757); Dé Gbeyon (1761-
1775); Dé Ayikpé (1775-1783); e Dé Toyon
14. Como Uegbadjá achou a porção de terra ( 1828-1838)
oferecida muito pequena. Dã lhe respondeu
gracejando: "Mas tu podes construir, então, 19. Na região do rio Uemê habitavam popula-
sobre o meu ventre!" Considerando ofensivo o ções refugiadas. Eram iorubás, vindos do les-
gracejo. Uegbadjá matou Dã e. sobre seu tú- te; adjás e fons. procedentes do oeste; e.
mulo, erigiu a casa de seu filho Acaba. Essa é ainda. populações inteiras originárias do no-
a origem do nome dado ao seu reino: Daomé, roeste, derrotadas pelos exércitos de Abomé.
ou seja, "Dan homé houegbé", "casa construí-
da sobre o ventre de Dã". Em 1724. os exér- 20. Entre os povos estavam também os mar-
citos de Agadjá, rei de Abomé. invadiram o rins provenientes do sul. O país Marri (Mahi)
reino de Aladá. fundado por seus parentes. propriamente dito, situado entre as monta-
tempos atrás. nhas Dassá e o rio Uemê. abrigava várias co-
letividades. principalmente as do reino de
15. O reino de Aladá ou Ardra era um estado Savalu. Savalu foi fundado por Agba Rakô que.
poderoso - controlava os portos de Ofra e ao ser sagrado chefe. recebeu o nome de
Jakin e cobrava tributo de vários povos. entre Arroçu Sorrá, "aquele que doma o búfalo",
os quais os de Daomé e Ajudá. mas que depois foi chamado Gbaguidi Zanmu.

16. Os reis desses estados rendiam culto ao 111- O Daomé e a Costa dos Escravos
antepassado comum, Agaçu. pois eram origi- 1. A partir do século XVI, negociantes euro-
nários de Tadô e viam no soberano de Aladá o peus começaram a chegar ao litoral, onde in-
irmão mais velho, uma espécie de rei dos reis, crementavam cada vez mais o comércio
com autoridade sobre todos eles. humano. Por esse motivo. a região ganhou o
infamante nome de Costa dos Escravos.
17. Por isso cabia ao arroçu de Aladá. o
"grande rei". por meio de seus representan- 2. No fim do século XVII, o porto de Ajudá tor-
tes, conduzir os funerais do rei de Ajudá e de nou-se muito mais importante como exporta-
outros soberanos adjás e entronizar os seus dor de escravos do que Aladá. Ironicamente.
substitutos. Na metade do século XVII, a capi- porém. provinha de Aladá o grosso dos cativos
tal do reino. Grande Aladá. ou Porto Novo, era que se vendiam em Ajudá, em virtude da ex-
uma cidade de proporções consideráveis. com pansão do reino de Daomé e das repetidas
cerca de trinta mil habitantes, que abrigava guerras entre as cidades costeiras.
dois palácios do rei.
3. Assim. foram-se desfazendo os laços de
18. Um deles. de dois andares, era um prédio cooperação e amizade entre os descendentes
amplo e bem construído. com numerosos apo- de Agaçu. O rei de Aladá tentou impor sua an-

Mina I 147
tiga primazia. Contratou mercenários do povo cessares permaneceram senhores da costa.
gá para atacar Ajudá e Ofra. Contudo. Ajudá primeiro tentando reduzir o tráfico de escra-
não somente venceu os invasores como ata- vos; depois. controlando-o em seu próprio be-
cou Aladá e Popó Pequeno. nefício. Após a morte de Agadjá. em 1740. seu
sucessores - Tegbeçu. Kpengla e Agonglo -
4. No início do século XVIII. embora um reino continuaram a expansão.
interiorano integrado por apenas quarenta
pequenas cidades. o Daomé era firmemente V - O poder do arroçu
estruturado. Sua consolidação como estado 1. Governando de Abomé. sua capital. o arro-
ocorreu pelas mãos de Agadjá. Por essa épo- çu. rei do Daomé. era aquele a quem todos de-
ca. seus principais reis do foram Uebadja viam tributo. Ele era o senhor de todos os
(1645-1685); Acaba (1685-1708); Agadjá bens e riquezas (dokunon). o que decidia tudo
(1708-1732); Tegbeçu (1732-1774); Kpengla (semedô) e aquele que dispunha de todos os
(1774-1789); Agonglo (1789- 797); Adandozan poderes (dada).
(1797-1818). e Guezo (1818-1858).
2. O arroçu não tinha de prestar contas a nin-
IV - Agadjá Trudô guém. por isso nunca devia ser contrariado.
1. Agadjá. ou Agadjá Trudô. foi o quarto arro- Seus nomes. que celebravam sua glória. seu
çu do Daomé. Dinâmico e criativo. aumentou poder e sua riqueza exprimiam a força e a es-
consideravelmente o poder territorial de seu tabilidade do Daomé.
reino e efetivamente disciplinou as relações
com os europeus no litoral. 3. Somente o rei podia ser transportado em Iitei-
ra ou andas; e nenhuma outra pessoa poderia
2. Apoiado num competente serviço de inteli- ser conduzida dessa forma sem sua permissão.
gência e espionagem. o Daomé expandiu-se
inicialmente para o noroeste e. depois. em di- 4. Na presença do rei. os homens deviam por-
reção ao sul. Em 1727. já havia anexado os tar sempre seu pano amarrado ao redor da cin-
reinos de Uidá e Savé; no território conhecido tura; e as mulheres. colocá-lo ao redor dos
pelos portugueses como Ajudá. Dois anos seios. Ninguém podia aproximar-se do sobera-
depois. Agadjá tomou Aladá e ocupou as feito- no com os pés calçados. Ao saudá-lo. as pes-
rias de Jakin e Ofra. dominando completa- soas tinham de prostrar-se aos seus pés ou.
mente toda a zona litorânea. pelo menos. ficar de joelhos. Um cumprimento
mais reverencial era encostar a cabeça no
3. Esse bloqueio provocou fortes represálias chão e sobre ela jogar um punhado de terra.
por parte do alafim de Oió. suserano do terri-
tório que se tornara o Daomé; e Abomé. a ca- 5. A palavra do rei só podia ser transmitida
pital do reino. foi queimada quatro vezes por intermédio de um intérprete. que a repas-'
durante as investidas do exército do alafim. sava. em voz alta. para o povo. Pessoa sagra-
da e única. o arroçu não devia quase aparecer
4. Apesar das hostilidades. Agadjá e seus su- em público; e. em algumas épocas. o povo não

148 I Kitábu
podia nem mesmo ver seu rosto. Por não co- vamente numerosa, e seu membro mais
mer nem beber em público, quando brindava importante era o príncipe herdeiro designado
na presença de algum estrangeiro, por exemplo. pelo rei, o vidarrô. Considerado um vice-rei,
ele o fazia com um véu estendido à sua frente. ele participava de todas as reuniões do conse-
lho do trono.
6. Quando o rei espirrava, o acontecimento era
recebido com um coro de louvores; e, como 2. No palácio real, o vidarrô tinha seus pró-
suas secreções não podiam, de forma nenhu- prios domínios, os quais constituíam uma es-
ma, cair no chão e ser pisadas, uma mulher fi- pécie de palácio menor. Seguindo-o em impor-
cava permanentemente junto dele com um re- tância, vinha o restante da família do rei, for-
cipiente apropriado para colhê-las. À noite, era mada por príncipes e princesas absolutamen-
tudo enterrado num recanto especial. Como o te dependentes dele. Esses nobres, salvo
cabelo do rei estava impregnado de seu poder, algumas exceções, não podiam ter nenhuma
era necessário apará-lo constantemente, mas participação no governo, e eram cuidadosa-
sempre pela mesma mulher. Os restos de cabe- mente afastados dos negócios de estado.
lo eram, então, despejados numa fossa espe-
cial juntamente com a água de seu banho. 3. Ao redor do arroçu viviam e atuavam os mi-
nistros a quem ele confiava a administração
7. O guarda-sol era um dos símbolos do poder de determinadas partes da vida do reino,
do rei e de alguns líderes, exceto dos chefes como a rotina da corte, o exército, o comér-
guerreiros, os generais, que não podiam usá- cio, o culto religioso etc.
lo. Entretanto, não era permitido a nenhum
chefe usar um guarda-sol mais bonito e mais 4. Esses ministros, escolhidos pelo rei, só de-
rico que o do arroçu. viam obediência a ele, que podia demiti-los a
qualquer momento. Tratava-se de pessoas do
8. Para justificar seu título de dokunon, o rei povo; e sua nomeação era uma promoção im-
devia mostrar sua generosidade e sua prodi- portante, enobrecedora, que as ligava intima-
galidade, exibindo suas riquezas e distribuin- mente ao arroçu.
do presentes.
5. Os ministros da corte de Abomé tinham os
9. As pompas fúnebres de um arroçu estavam seguintes títulos: migã, mevu, iovogã, ajarrô,
sempre à altura de sua grandeza. As cerimô- sogã, tokpô, akplogã, binazon, kpalingã. Os da
nias duravam muito mais que as dos simples corte de Aladá eram: avatagã, gogã, akplogã,
mortais e, sobretudo, o rei falecido era acom- agagã, migã, mevu, aogã.
panhado em sua viagem final por mulheres e
servidores especialmente incumbidos de cui- 6. Além dos ministros que desempenhavam
dar dele no outro mundo. funções diretamente ligadas à administração
do reino, havia, nas cortes de Abomé e Aladá,
VI - A corte do arroçu figuras como os médicos (kpamegãs) e adivi-
1. Ao redor do rei, gravitava uma corte relati- nhos (bokonons) do rei, encarregados de zelar

Mina I 149
permanentemente pela segurança e pela giosos não eram herdados, o rei amiúde inter-
prosperidade do reino. vinha nas chefias que tinha nomeado, ligando-
se mais às de sua preferência. De tempos em
7. Os kpamegãs. incumbidos da farmacopéia. tempos. ele obrigava os novos chefes religio-
dos amuletos e dos poderes mágicos, tinham sos a lhe jurarem fiel obediência.
por missão tornar o soberano o mais forte de
todos. o fazedor de milagres. Os bokonons. sa- 12. Embora todos os voduns do reino perten-
cerdotes de Fá - divindade originária da ter- cessem ao rei. essa situação não lhe faculta-
ra dos iorubás. entre os quais é conhecido va funções de chefe de culto. E. da mesma for-
como \fá - viviam permanentemente no fagba- ma que os chefes religiosos eram mantidos
çá, o quarto do oráculo, e consultavam os orá- afastados dos negócios de estado. os prínci-
culos e os ancestrais a propósito de qualquer pes não tinham autorização para interferir
fato de alguma importância. como as saídas nos grandes trabalhos religiosos.
do rei, as guerras e as festas. Ninguém deci-
dia nada sem consultar Fá. VII - A anexação de Oió
1. Na primeira metade do século XVII. repre-
i
j 8. Na corte. as mulheres tinham presença dis- sentantes do alafim Obalocum tinham tido seus
I
!i· creta. mas de grande influência. Esse era o caso primeiros contatos diretos com os europeus.
I!·
r da mãe do rei. a kpojitô. a "mãe do leopardo":
:1,
das kpôssis. "esposas do leopardo"; e das outras 2. Oió. que pagava com escravos os eqüinos
mulheres do soberano. as arrôssis. Algumas que adquiria dos hauçás e dos bornus. come-
eram verdadeiras conselheiras do monarca. çou a mandar cativos vender os animais em
Aladá e Ajudá. Esse reino expandiu-se na di-
9. Na corte de Aladá. o rei. dentro dos três me- reção do oceano. pelas savanas a oeste do rio
ses seguintes ao de sua entronização. devia Ouemé. submetendo ou tornando vassalos os
fazer uma reunião com as mulheres idosas da povos que encontrava à sua frente e estabele-
família. para que elas lhe ensinassem a história cendo colônias oiós. como. por exemplo.
do reino e lhe explicassem como ele devia de- lfonyin. a alguns quilômetros da Idole beni-
sincumbir-se de suas tarefas de governo. nense e da Apa Aladá.

10. O arroçu. mesmo sem ser um vodum (uma 3. Era inevitável que Oió entrasse em con-
divindade). tinha grandes poderes espirituais. fronto com Aladá. Então. em 1698. os oiós in-
Além disso. a arte dos kpamegãs. os médicos. vadiram e devastaram o reino dos ajas. Um
contribuía para lhe dar uma estatura quase emissário de um poderoso rei do interior foi a
divina. Dessa forma. ele podia ter sob seu Aladá para alertar o arroçu de que alguns de
controle todos os chefes religiosos do país. seus súditos estavam sob a proteção do sobe-
controlando. por meio do ministro dos cultos. rano de Oió. não podendo ser maltratados.
o ajarrô. as atividades nesse campo.
4. O arroçu riu da mensagem e mandou exe-
11. Em vista disso. e como os encargos reli- cutar o emissário. Em seguida. o país viu-se

150 I Kitábu
invadido por uma poderosa cavalaria, à qual fortemente o Daomé. Em 1738. sob Tegbessu.
se aliaram os desafetos locais do arroçu. Abomé foi ocupada pelos iorubás, que obriga-
Embora a matança tenha sido enorme, o re- ram o reino a pagar-lhes um tributo anual.
sultado da campanha não foi completo, pois Todavia, dado o enfraquecimento de üió por
os invasores não conseguiram capturar o rei; causa das guerras com os fulânis, Adandozan
por isso, o alafim de Oió, tão logo viu de re- suspendeu a cobrança do tributo e, em 1821.
gresso o comandante das tropas. em vez de Guezo, após lograr esmagadora vitória, con-
premiá-lo. mandou-o para a forca. Aladá man- seguiu a independência total.
teve a independência e se refez da devastação
e da mortandade. 6. Não satisfeito com a vitória, Guezo anexou
üió. Mas morreu de varíola em meio a uma
5. A partir de 1726, Oió passou a hostilizar das guerras durante o cerco de Queto.

CAPiTULO 11 Os voduns de Abomé e A1adá


I - Mawu. Liçá e a Criação mo lembra as diversas colorações que o hori-
1. Existe um só e único Ser Supremo. inaces- zonte apresenta no nascente. a cada manhã.
sível, cujos diferentes aspectos se exprimem
por meio de um conjunto de forças cósmicas e 11 - Aidô-Ruedô e a força vital
telúricas. como o raio; ou mediante doenças 1. O Universo foi criado por Mawu-Liçá em
eruptivas, como a varíola. conjunto com Aidô-Ruedô.

2. Esse Ser Supremo é Mawu-Liçá, o grande 2. No momento da Criação. Aidô-Ruedô, sob a


duo criador, unidade na duplicidade. dois em forma de uma serpente gigantesca, levava
um só. Mawu é o princípio feminino, a Terra, Mawu-Liçá na boca. Criado o mundo, Aidô-
o poente, a Lua, a noite, a fertilidade, a ma- Ruedô envolveu a Terra com seu corpo e a gi-
ternidade. a delicadeza e a indulgência. Liçá, rou, provocando assim a rotação dos corpos
seu par, é o princípio masculino, o Céu, o nas- celestes.
cente. o Sol, o dia. o poder, o espírito de com-
bate e a firmeza. 3. Aidô-Ruedô é a serpente arco-íris, símbolo
da continuidade. do movimento e da força vi-
3. Liçá e Mawu são duas metades de uma tal que sustenta a Terra, impedindo-a de se
mesma cabaça, uma completando a outra. desintegrar. Protetor e auxiliar de todos os
Liçá, a metade de cima. é a abóbada celeste, voduns, representa igualmente os ancestrais
tocando as bordas da Terra, a metade de bai- do princípio da Criação, tão antigos que seus
xo, que é Mawu. Eles são o casal primordial, nomes já foram totalmente esquecidos.
criador. a dualidade Céu e Terra.
4. A força vital que Aidô-Ruedô representa
4. Liçá é também um camaleão. cujo mimetis- tem o nome de sê que simboliza o elemento

Mina I 151
espiritual do qual o próprio ser humano é a outros seres. Isso é feito com a utilização de
representação visível. tudo o que há na natureza, como partes de
animais, folhas, cascas e raízes vegetais etc.
11I - Mawu entrega o mundo aos voduns
1. Mawu-Liçá é uma divindade distante. que V - O poder dos voduns
não se interessa nem pela natureza. nem 1. Um vodum não é apenas a força motriz ou
pelos humanos; por isso. nenhum culto lhe é a parte constitutiva de um ser ou objeto. Ele
dedicado. é o lugar onde sua legenda ecoou, é a pedra
de que se utilizou. a planta que colheu. E é
2. Contudo. houve um tempo em que Mawu também a água, o fogo. o vento ou o trovão.
habitava entre os humanos. Em determinado em seu poder de punir. afogar. alagar. fulmi-
momento. cansado das brigas e dos ciúmes nar. mas também de propiciar boas colheitas
das pessoas, ele as deixou e se retirou para e proporcionar coisas boas.
um lugar distante e secreto. a fim de que nin-
guém o pudesse achar nem incomodar. 2. Os voduns são os enviados de Mawu-Liçá e
seus representantes entre os humanos. Por
3. Foi quando Mawu, com a ajuda de Aidô- isso, eles jamais têm de prestar contas de
Ruedô. colocou os voduns no mundo dos vivos. seus atos; Mawu-Liçá apenas os aconselha e
para os vigiar. dando a eles plenos poderes. julga suas ações.

IV - Os voduns 3. Mawu-Liçá tem plena confiança nos voduns


1. Os voduns são forças, energias, que podem e sabe que eles se desembaraçam sozinhos.
servir-se de diversos canais para se manifes- Por tê-los criado, Mawu-Liçá deseja que eles
tar. Constituem-se também em espíritos que sejam os únicos responsáveis por suas ações.
protegem a aldeia, o povo. a linhagem. o clã. O mundo lhes foi confiado, e eles não só co-
os indivíduos. como alguns ancestrais muito nhecem perfeitamente as leis que regem sua
antigos. É a eles que devemos endereçar nos- atitude frente aos homens, mas também têm a
sas preces e oferendas. consciência de tudo o que os homens lhes de-
vem dar.
2. Por intermédio dos voduns, o ser humano
pode comunicar-se com os outros planos da 4. Alguns voduns são heróis que viveram
existência e desenvolver um conhecimento am- entre os humanos e cuja vida marcou profun-
plo e minucioso sobre a natureza que o cerca. damente sua comunidade. que lhe devotou um
particular respeito agora transformado em
3. As virtudes terapêuticas das plantas, suas adoração.
propriedades maléficas e suas incompatibili-
dades são alguns desses conhecimentos. 5. Os clãs e tribos que reconhecem a autenti-
cidade e o heroísmo de seus ancestrais sus-
4. Por meio dos voduns. o ser humano pode tentam sua legenda. E essa legenda faz com
aumentar ou diminuir sua força vital e a de que assumam o posto de divindades.

152 I Kitábu
VI - O papel dos voduns e vivem da mesma maneira, pois amam. cons-
1. Os voduns dirigem e canalizam toda ação tituem famílias. comem. bebem etc.
humana. Eles sozinhos detêm o poder e nada
pode ir contra seus interesses, porque todo po- 4. Por isso, os seres humanos devem dirigir-
der emana deles e ninguém pode deles abusar. se aos voduns como se dirigem aos seus se-
melhantes, para solicitar. pelos meios apro-
2. Os voduns, mensageiros do invisível. são os priados. sua intervenção e proteção em situa-
dirigentes do mundo, encarregados de salva- ções em que necessitam de saúde. paz e pros-
guardar a boa ordem das coisas. Eles só exis- peridade; para obter fertilidade; em momen-
tem para a realização do ser humano na vida. tos importantes da vida etc.

3. De sua mútua colaboração depende a feli- 5. Em retribuição à sua ajuda, devem agra-
cidade do mundo. O conjunto dos vOduns dar-lhes com preces, oferendas e adoração. A
achará sempre um acordo para dar à Tena o forma de fazer essa retribuição será determi-
que é necessário à felicidade. nada pela consulta ao oráculo.

4. Assim. o culto aos voduns deve basear-se VIII - O indivíduo e o seu vodum
na assistência mútua entre espíritos. divinda- 1. O vodum é o companheiro da pessoa na vi-
des. ancestrais e seres humanos. da terrena. E o ser humano nunca deve sepa-
rar-se de seu vodum protetor.
VII - Os voduns conhecem as causas
1. Tudo o que é obscuro e indefinível para o ser 2. Todo indivíduo. entretanto, precisa respei-
humano provém do mundo invisível. O ser tar as proibições. a prescrição dos sacrifícios
humano ignora as causas reais dos aconteci- - os ritos determinados por seu vodum pes-
mentos que se produzem no plano terreno soal por intermédio do bol<onon. o adivinho.
porque essas causas estão no mundo invisível. intérprete do oráculo.

2. A fragilidade dos humanos, em comparação 3. O seu vodum deve ser o primeiro a ser ser-
com as divindades. reside na ignorância. Esse vido durante um ritual. Se a pessoa negligen-
fato explica a necessidade de um meio de cia o culto. ela recebe um castigo. Da mesma
comunicação entre os seres humanos e os do forma que. se o vodum não se manifesta. a
mundo invisível. os quais não apenas conhe- pessoa tem todo o direito de abandoná-lo.
cem as causas dos acontecimentos como tam-
bém podem intervir para os provocar ou in- IX - A comunicação com o invisível
terromper. E esse é o poder dos voduns. 1. O ser humano deve comunicar-se com o
mundo invisível da mesma maneira que o faz
3. Contudo. à exceção dessas diferenças fun- com seus semelhantes. Ele tem de se dirigir
damentais (ignorância e fragilidade entre os aos espíritos como se dirige às pessoas, para
homens. força e sabedoria entre os voduns), solicitar sua intervenção nos acontecimentos
os voduns se parecem com os seres humanos da vida cotidiana.

Mina I 1~3
2. Essa comunicação deve ser provocada ticulares, entre os quais o transe é o elemen-
pelos meios apropriados. que são o sacrifício. to principal.
o culto. a prece. os ritos. a observância dos
tabus e a induçào ao transe. 2. O transe significa a presença eFetiva do vo-
dum e o símbolo mais vivo de sua força entre
3. Os voduns e ancestrais manifestam sua os homens e na natureza.
presença de duas formas: possuindo o ser
humano em transe ou por meio de aconteci- 3. Depois do transe, o rito essencial do culto
mentos que desencadeiam. para advertir, pro- é o sacrifício. que é a transFerência de força.
vocar ou atender.
4. E essa transferência não beneficia apenas
4. Promovendo-se solenidades festivas. com o sacrificador. O sacrifício Fortalece o espírito
oFerendas. sacrifícios e música. renova-se o que recebe o animal como oferenda. Os espí-
pacto Firmado entre o ser humano e os voduns. ritos transmitem ao sacrificador uma parcela
de sua energia. de sua força espiritual.
x- O culto e a comunidade
1. Os voduns, então. precisam dos seres hu- XII - O runon, guardião da tradição
manos assim como estes necessitam deles. 1. O culto aos voduns é essencialmente cen-
São os humanos que perpetuam a memória e trado na palavra e nos sons a ela assemelha-
os altos feitos dos voduns e mantêm viva sua dos. emitidos tanto pela voz humana quanto
presença na Terra. pelos instrumentos de percussão.

2. Sem a renovação desse pacto, um vodum 2. Esses sons. a exemplo da vibraçào primor-
perde sua razão de ser. Do ponto de vista do dial da Criação. podem ter a força de encan-
ser humano. o culto aos voduns visa ao ime- tamentos e afirmações, criando novos aconte-
diato bem-estar físico. moral e espiritual de cimentos e novos seres.
toda a comunidade.
3. A palavra tem. igualmente. força funda-
3. Celebrando os elementos naturais, como o mental. Seu poder. manipulado pelo sacerdo-
Fogo. que aquece e aFasta o perigo; a água. te oficiante (runon). é que será o veículo de
que fertiliza. mata a sede e purifica; o ar. que comunicação com os voduns. O runon é um
dá alento. refresca o corpo e espalha as se- homem que, por sua experiência. sua situação
mentes; a terra. que dá subsistência e abrigo. e seus conhecimentos. acumulou muita força
o culto aos voduns integra a comunidade a vital. Guardião da tradição. ele preside todos
seus ancestrais e heróis divinizados. os ritos.

XI - O transe e o sacrifício 4. É por intermédio dele que os voduns en-


1. Os voduns têm Funções bem precisas. Os tram em contato com os humanos. O principal
fiéis podem solicitar seus favores. mas devem caso de incapacidade para exercer a função
honrá-los por meio de cerimônias e ritos par- de runon é ser pai de gêmeos. pois estes são

154 I Kitábu
divindades especiais a cujo culto o pai deve XV - Os voduns e suas famílias
dedicar-se com exclusividade. 1. Os voduns agrupam-se em duas grandes
categorias: os voduns de veneração coletiva
5. Porta-voz das divindades. o runon precisa (tovodum) e os voduns familiares (henuvodum).
ser puro e de espírito conciliador e ter boa
memória para poder guardar na cabeça as 2. Outra categorização é a que distingue os
fórmulas cerimoniais de comunicação com voduns que carregamos na cabeça (ta vodum)
os voduns. e os que carregamos nas costas (axinã).

6. Além de possuir conhecimentos rituais e 3. Os ta voduns descem na cabeça do filho e o


capacidade para resolver os problemas terre- possuem durante o transe: e os axinãs apenas
nos de sua comunidade. o runon deve também o protegem. Eles agrupam-se também em três
dominar as propriedades das plantas e raízes. tipos de panteões que compreendem os vo-
duns do Céu. os do mar e os da Terra.
XIII - O bokonon, intérprete de Fá
1. O bokonon é o intérprete do oráculo. da di- 4. Os voduns do Céu são os que integram o
vindade Fá. ou Afá. Ele sabe a causa das doen- panteão de Mawu-Liçá: Aguê, vodum da selva
ças e como curá-Ias. Sabe também descobrir e dos animais selvagens. detentor dos
ladrões. afastar inimigos. alertar para perigos grandes segredos da arte e da técnica: Dji. do
e. principalmente. apontar o vodum protetor trovão: Loko e Medji. da árvore Loko;
de cada pessoa e indicar quais as oferendas e Adjakpá. da água potável: Aiabá. protetora do
os sacrifícios que lhe deverão ser feitos. lar; Wete e Alawê. protetores das riquezas de
seu pai. Liçá: Aizu e Akau. protetores das ri-
XIV - Fá quezas de sua mãe. Mawu; Legbá. filho mais
1. Fá. ou Afá. é o veículo entre o mundo visí- novo e mensageiro de Mawu-Liçá; e Gu. vo-
vel e o invisível, conselheiro e guia dos ho- dum do ferro em sua propriedade de cortar.
mens. que indica as diretrizes para os negó- Gu. vodum da morte violenta. de origem ioru-
cios de todos os dias. bá. é protetor dos ferreiros. dos que traba-
lham com o ferro e dos recém-circuncidados.
2. Afá é pacífico. benfazejo e não baixa na
cabeça das pessoas. apenas irradiando sobre 5. Os voduns do mar são os que integram o
elas sua força. panteão de Sôochefiado por Sogbô: Agoê e Na
Etê. mais uma numerosa prole relacionada
3. Ele não mata. é sereno e possui um imenso com o mar. tempestades marítimas e mare-
conhecimento. motos. Hevioçô pertence a uma grande famí-
lia de voduns originários da localidade de
4. Ele está fora do âmbito dos voduns. os Heviê. os quais constituem o panteão Sôo
quais não comanda mas domina. pois é capaz
de penetrar em todos os seus segredos e 6. O chefe do panteão é Sobô. que mora no Céu
intenções. e de lá fulmina os ladrões. feiticeiros e malfei-

Mina I 155
tores em geral. Os filhos de SoM são o casal gínquos. É simbolizado por um montículo de
gêmeo Agoê e Na Etê. divindades das águas. terra. coberto por um pote de orifícios e cer-
cado de franjas de palmeira.
7. Agoê é o mar sempre em movimento; Na
Etê é a chuva. Ao grande panteão Sô perten- XVI - Dã. a serpente arco-íris
cem também Badé. AvreQuetê e Topodum. Em 1. Alguns mais-velhos. entretanto. dizem Que
respeito a Hevioçô, as pessoas Que morrem o culto de Mawu-Liçá chegou com Nan
fulminadas por raios não podem ser sepulta- Uenguelê, mãe do rei Tegbeçu.
das. Seus corpos ficam expostos ao ar livre,
recebendo defumações todas noites, até o dia 2. Antes de tomar posse do trono de Abomé, o rei
em Que sacerdotes lhes servem uma refeição Tegbeçupassou muitos anos preso em Oió como
simbólica. aproximando de seus lábios restos refém dos iorubás. Entronizado, começou a di-
de alimentos. fundir no reino hábitos e costumes estrangeiros.

8. Os voduns da Terra são os do panteão de 3. Os mais-velhos dizem Que antes de Mawu-


Sakpatá. cujo culto foi proibido em Abomé. Liçá já existia a serpente arco-íris, cujo nome
Sakpatá é o rei do solo, senhor do chão. Que sempre foi Dã e não Aidô-Ruedô.
representa tudo o Que está na terra.
4. Por meio de Dã foram criados os fenôme-
9. Sakpatá é a terra em suas relações com o nos atmosféricos perceptíveis ao ser humano,
ser humano. Por isso, tornou-se conhecido como o trovão, representado por Hevioçô, cu-
como o agente propagador da varíola. «;sta e ja ação justiceira provoca a destruição e a
outras moléstias contagiosas são a punição morte pelo raio.
que ele inflige aos malfeitores e aos Que lhe
faltam com o respeito. XVII - Nanã Burucu
1. anã Burucu é um vodum muito antigo e
1O. Sakpatá possui outro nome, menos peri- muito respeitado. Alguns mais- velhos dizem
goso de pronunciar: Ainã. Dono da terra, ele até que ela e Mawu são a mesma divindade.
chefia uma grande família de voduns. na qual Para outros, ela é o mesmo que Sabadã.
se incluem: o casal Corroçu e Niobê Ananu,
causadores da varíola; seu filho Da Zodji. cau- 2. O culto de Nanã Burucu estendeu-se para
sador da disenteria e dos vômitos; Da Longan; muito além das fronteiras do Daomé e do Togo.
Da Sandji e seu irmão gêmeo Boçu Zurron;
Agloçutô. causador das feridas incuráveis; XVIII - legbá. demoníaco mas não
Arroçu Ganvá, causador dos inchaços; diabólico
Avimajé e outros. Aizã (Aziza entre os gwen) é 1. Legbá é o filho mais novo de Mawu-Liçá. de
a crosta terrestre. quem também é mensageiro e intermediário.
É representado por uma cabeça de barro em
11. Assim, seu assentamento deve reunir ter- forma de rosto humano, com olhos feitos de
ra do chão de lugares os mais diversos e lon- búzios e a boca desenhada.

156 I Kitábu
2. Ele é uma força demoníaca, mas não diabó- inimigos, a má sorte e as epidemias. É a ele
lica. Ardiloso, inteligente, malicioso, circuns- que devem dirigir-se as mulheres estéreis, para
tancialmente malfazejo ou benfazejo, repre- engravidar, e os homens impotentes, para recu-
senta principalmente um meio de prevenir perar a virilidade. Vigoroso, ele participa das
calamidades. excitações da paixão sexual.

3. É o mensageiro de todos os voduns e foi ele 6. Rueli é um tipo de Legbá especialmente en-
que revelou a Fá o segredo da adivinhação. carregado de proteger as casas.

4. Nenhuma comunicação entre Mawu e um XIX - Voduns c1ânicos


vodum pode ocorrer sem sua intervenção. É 1. Existem também voduns peculiares a de-
ele que estabelece essa ligação, e por isso terminados clãs e que carregam os títulos de
deve receber as oferendas e libações antes de togbé e atá, como Ata Kpeçu, vodum da guer-
todos os voduns. ra; Ata Sakumo, chefe dos voduns de seu clã;
e Mama Kole, sua esposa, simbolizada pelas
5. Legbá protege as aldeias e casas, afasta os águas doces dos solos arenosos.

CAPiTULO 12 A magia
I - Azê 11- O sê e o landom
1. A magia (azê), está sempre presente. Seus 1. A interferência no sê atinge a alma imate-
agentes, os azetô, tanto trabalham para pro- rial e imortal (landom), que, depois de sepa-
vocar malefícios quanto nos protegem deles. rada do corpo, se reencontra, no Cutumê - o
reino dos mortos - com os parentes e amigos
2. Para as ações de magia, utiliza-se o bô, falecidos.
objeto de [arma variada, quase sempre guar-
necido de plumas de aves, convenientemente 2. No Cutumê, a alma continua sua vida ter-
sacralizado para tornar-se suporte da força restre - sente frio, fome e sede. Lá, porém,
vital da divindade ou do ancestral. sua trajetória se passa de modo inverso ao de
sua existência terrena. No Cutumê, a alma
3. Entre as várias espécies de bô, o chacatu anda para trás, fala pelo nariz e senta-se
serve para envenenar alguém a distância; o sobre bancos virados.
afion rotchi destina-se a fazer pairar o esque-
cimento ou o silêncio sobre uma falta ou um 3. Lá, a noite se chama "o dia dos mortos".
delito; e o zandô-bô é usado para garantir o Por isso é que, na noite terrena, os mortos in-
dom da invisibilidade. visíveis vêm fazer companhia aos vivos. Em
respeito a eles, então, depois que a noite cai,
4. O bô é manipulado para diminuir ou au- não se varre mais a casa e não se joga água
mentar a força vital, o sê, de um indivíduo. no quintal sem gritar "ago!" ("cuidado!").

Mina I 157
11I - Cuidados com os mortos 4. Nos funerais. o assen. cetro de metal sim-
1. Para que os mortos encontrem sempre o bolizando o morto. deve ser fincado na terra.
que comer em suas visitas noturnas. as pane- no lugar da cerimônia.
las não devem nunca ser completamente es-
vaziadas e a louça jamais deve ser lavada an- 5. No fim do luto. o assen. devidamente con-
tes de o Sol nascer. sagrado. deve ser instalado na cabana dos
ancestrais.
2. A alma. abandonando seu envoltório car-
nal. adquire uma nova importância. porque 6. Toda a ritualística. entretanto. do nasci-
ela sabe tudo. vê tudo. entende tudo. mento à vida. precisa ser orientada pelo orá-
culo Fá. que fala por meio do bokonon. seu
3. Daí a importância dos ngoli. os mortos que intérprete.
retornam ao seio da família mediante a reen-
carnação. Tal fato ocorre porque a vida se 7. Jogando uma espécie de rosário de adivi-
transmite sempre no interior da mesma famí- nhação (agumagã) ou seu conjunto de búzios
lia. E as vantagens adquiridas no mundo dos (vô). o bokonon repassará ao indivíduo as de-
vivos se conservam no além. terminações emanadas dos voduns ou dos an-
tepassados ilustres.

CAPiTULO 13 O ser humano e seu ciclo vital


I - Nascimento 2, Ao nome da criança será, então, acrescido
1. Desde seu primeiro vagido, graças ao ritual o nome desse antepassado; em seguida, são
que preside seu nascimento. o ser humano é feitas. sobre três montes de areia. oferendas
posto em contato com as divindades. de fumo, farinha de milho diluída. milho tosta-
do e cocos de dendê.
2. O casamento. as sociedades secretas a que
pertence, as doenças que o acometem e até 11I - Cerimônias para os gêmeos
mesmo seu enterro. tudo o liga às divindades, 1. Os gêmeos são emanações divinas. Se me-
aos espíritos. aos ancestrais, enviados e ninos, devem receber os nomes de Zansu e
agentes do Ser Supremo. Sagbô; se meninas, Zanruê e Tetê.

11 - Rituais do nascimento 2. Quando de seu nascimento. as placentas


1. Após o nascimento. a criança deverá ser con- são enterradas em vasos de barro e não em
sagrada ao antepassado na cerimônia do corpo cabaças. como seria o normal. O pai e a mãe
(agbaza). Nesse dia. as zeladoras do culto aos não devem cortar unhas nem cabelos durante
ancestrais, chamadas tanguinon. fazem a enu- três meses.
meração dos mortos. deixando ao bokonon a ta-
refa de revelar a qual dos falecidos cabe a ./1on- 3. Uma esteira especial é reservada à mãe e
ra de tomar a criança aos seus cuidados, às crianças, que não poderão ser tocadas,

158 I Kitábu
durante todo um trimestre, por nenhuma pes- seguida, um frango é sacrificado sobre a tum-
soa do sexo masculino, nem mesmo pelo pai. ba fresca.

4. No fim desse período, será realizada a reu- 3. Três meses depois, realiza-se a cerimônia
nião das esteiras, chamada zankplikpli, ceri- de invocação do morto. O oráculo designa a
mônia especial presidida por uma mulher que jovem que se encarregará disso, bem como a
teve pelo menos dois partos de filhos gêmeos. encruzilhada onde a cerimônia vai se dar.

5. Nessa reunião, uma esteira e um lençol 4. A família depositará os utensílios do dia-a-


branco são estendidos sobre quatro varas de dia do morto, bem como seus pertences rituais,
bambu. O pai e a mãe, vestidos de branco, num cesto novo que a moça levará na cabeça.
acomodam os gêmeos sobre o leito e, depois
de terem cortado unhas e cabelos, os entre- 5. Um cortejo se forma, então, a partir da en-
gam à guarda de um menino já circuncidado. cruzilhada. e seus integrantes invocam o mor-
to para que este se incorpore na moça.
6. No dia seguinte, será realizada a cerimônia
propiciatória do sundidé, para a qual se insta- 6. Quando ela entrar em transe, terá início a
lam no quintal quatro jarrinhas. A mãe se di- realização de cânticos, danças e oferendas,
rige, então, ao mercado e compra, no cami- que culminarão com o sacrifício de um cabri-
nho, todos os alimentos que encontra, como to, cujo sangue será vertido sobre o cesto que
aves. feijão e inhame. entre outros, e os leva a moça mantém equilibrado na cabeça.
à casa numa grande cabaça.
v- Os vivos e os ancestrais
7. O oficiante da cerimônia deposita um pou- 1. O mundo dos vivos é permeado pelas forças
co dos alimentos nas quatro jarrinhas, as invisíveis dos ancestrais, sempre presentes
quais são borrifadas com o sangue das aves e ao lado dos vivos e prontos a vir em seu so-
enfeitadas com suas penas. As quatro jarras, corro ou para castigá-los. É dever dos vivos
envolvidas por um pano branco, são coloca- procurar manter a harmonia da natureza. sa-
das à noite no quarto do casal sobre o peque- tisfazendo as vontades de seus mortos.
no altar de seu culto doméstico.
2. Todo recém-nascido possui a essência divi-
IV - Funerais na de um ancestral de sua família. Essa es-
1. O defunto deve ser enterrado sob o chão da sência divina se chama kla; e o ancestral, de-
casa, a cabeça no centro do cômodo, os pés vidamente identificado. torna-se o dzoto. o pai
dirigidos para o exterior. reencarnado da criança.

2. A cerimônia dura cinco dias, depois dos 3. Quando se obtém a revelação da identidade
quais a sepultura é tampada e o chão arruma- desse dzoto, deve-se buscar conhecer sua vi-
do.A terra que sobra é levada a uma encruzi- da terrena. para que se saiba como lidar com
lhada, para evitar outra morte na família. Em a criança. Isso é necessário porque foi ele que

Mina I 159
amassou o barro para moldar a massa da 5. Os encantamentos devem ser feitos prefe-
criança que estava por nascer. rencialmente por eles. que podem dar a essas
práticas algo de sua própria força.
4. O ancestral participa da encarnação da crian-
ça e a coloca sob sua influência por meio do 6. () ser humano não deixa de existir após a
amedzodzo. que é o rito da reencarnação. Se a morte. estando seu poder mágico sempre for-
criança fica constantemente doente ou chora mui- te e até mais forte. Assim explica-se o fato de.
to à noite, é porque está procurando o seu dzoto. antigamente. os mortos serem sepultados
próximo à casa ou no quintal, de modo a que
5. Uma consulta com um bokonon. por intermé- a família pudesse controlar sua força e sua
dio do oráculo de Fá. permite identificar seu boa vontade.
ancestral protetor para que se organize uma
cerimônia em sua honra. Depois de conhecida 7. Quando chega a noite. os ancestrais voltam
a identidade do dzoto do recém-nascido. um para perto de seus familiares. e assim não é
nome secreto deverá ser dado à criança. preciso incomodá-los. Por isso não se deve as-
soviar à noite. para não importunar os mortos.
6. Esse nome só poderá ser conhecido pelo
bokonon e pelos pais. Chamar uma criança 8. Depois de uma certa hora não se deve fazer
pelo seu nome íntimo pode desencadeaI' a có- barulho. nem varrer, nem pilar. Se for neces-
lera do ancestl'al protetol'. sario jogar água suja fora. deve-se gritar
"agô!" - um pedido de licença e um aviso para
VI - O culto aos ancestrais que eles se afastem.
1. Os velhos possuem uma forte dose de po-
deI'. Eles conseguiram. no CUl'sOde suas lon- 9. Não se deve também beber água ou álcool
gas vidas. acumulaI' forças e, assim, são hel'- sem antes derramar no chão um pouco do
deil'Os das gel'ações pl'ecedentes. conteúdo da cabaça ou do copo para o espíri-
to dos ancestrais.
2. O ancião está num estágio entl'e o humano
e o divino. Pl'ometido à morte pl'óxima. ele é 1O. Os mortos são os verdadeiros chefes de
um elo. e pOI' vezes um intel'mediário. entre um povo, e sua vontade é decisiva.
os vivos e seus mais velhos já falecidos.
11. Eles velam por seus descendentes noite e
3. Por isso, os velhos têm um valor excepcio- dia e lhes distribuem riquezas, saúde. paz, co-
nal pal'a o grupo. cuja existência depende fa- lheitas abundantes, fecundidade. Por meio de
talmente das energias de que eles dispõem. sonhos, avisam dos perigos e propiciam bene-
fícios análogos aos concedidos pelas divinda-
4. Sua própria existência é uma pl'ova do seu des. Os mortos procuram ser úteis e gostam
poder. já que somente graças a esse poder, eles de tomar parte nos assuntos humanos.
tiveram condição de. durante sua longa vida.
neutralizar as investidas das forças hostis. 12. Quando sobrevém uma calamidade públi-

160 I Kitábll
ca ou uma doença grave, deve-se logo consul- ancestrais, e os mortos têm necessidade de
tar os ancestrais para saber o que fazer. Da ser honrados.
mesma forma, eles punem os transgressores,
enviando moléstias, secas e esterilidade. 17. Os mortos têm as mesmas necessidades
que os vivos e encontram sua felicidade nos
13. Para apaziguar sua cólera e assegurar sua mesmos bens. Apesar de seus poderes ex-
ajuda ou lhes render graças, os homens da fa- traordinários, eles ficam desprovidos de tudo
mília precisam realizar os sacrifícios rituais. e contam com os vivos para ter acesso às coi-
sas terrenas.
14. Os vivos têm de dar aos mortos uma se-
pultura apropriada. de acordo com sua 18. Aos vivos cabe cumprir obrigações para
posição na sociedade, o que permitirá ao de- com seus mortos, de cuja ajuda precisam. Os
funto continuar. na outra vida, em boas condi- mortos têm suas exigências, mas dependem dos
ções. sem ressentimentos. vivos para seu próprio bem-estar. Se eles falta-
rem com seus descendentes, quem os honrará?
15. É necessário que o defunto se reúna, o
mais rápido possível. a seus ancestrais no 19. A cada novo nascimento. deve-se subme-
país dos mortos, porque o prolongamento de ter o recém-nascido a uma observação aten-
sua presença entre os vivos, errante e insatis- ta, porque ele é um ancestral que volta para
feito e querendo voltar aos lugares conheci- sua família.
dos, causa perturbações na vida das pessoas.
20. Só depois de oferecer comida e bebida em
16. Seus familiares deverão oferecer-lhe sem- local apropriado. é que se invocam os ances-
pre, como se estivesse vivo. uma parte de seu trais e se explica o porquê da cerimônia que
alimento. para que eles não os persigam com se está realizando.
tormentos. Os vivos precisam da proteção dos

CAPíTULO 14 Os pOVOS acãs*


I - Os primórdios fronteiras de Gana e da Costa do Marfim, na
1. Acã (akan) é uma denominação geral usada bacia do rio Volta Negro.
para designar vários povos unidos pela cultu-
ra e pela língua. dos quais fazem parte os 3. Os mais antigos diziam que os ancestrais
axantes. fantes e tuís. Eles ocupam principal- destes ancestrais eram procedentes da
mente as florestas do centro e as regiões mais Abissínia. que passaram pelo Egito e a Líbia
temperadas da antiga Costa do Ouro. até chegarem ao antigo Gana e, depois. às ba-
cias do Benué e do Chade.
2. Os ancestrais dos povos acãs são originá-
rios de terras que se situam entre as atuais 4. Há cerca de dois mil anos. eles teriam ca-
• Segundo Boahen. 1968: Okeke. 19911.

Mina I 161
minhado até a confluência dos rios Pra e Ofin, ram a desempenhar um papel importante nas
evitando as partes ao norte da floresta, rotas de comércio que demandavam as minas
de ouro do interior, Foi assim que o rei fante
5. Nessa região, conquistaram os povos nati- Kwamina Ansa negociou. em 1482, com o por-
vos e misturaram-se a eles. Desta interação tuguês Diogo de Azambuja, a construção do
nasceram a língua tuí e instituições sociais castelo de Elmina. ao qual se seguiram. mais
que perduram até nossos dias. tarde. outras fortificações.

6. Movimentando-se para o sul e para o norte, 111- Os axantes


esses ancestrais fizeram surgir diversas cida- 1. Os axantes chegaram a seu atual território
des e estados, que foram o germe do Império por volta de 1300. Embora originalmente lito-
Axante, ao norte, e do estado fante, ao sul. râneos, estabeleceram-se no interior da flo-
resta densa, uma vez que o litoral era ocupa-
7. Entre estes estados, estavam o Bono- do pelo poderoso reino de Denquira, erigido
Tequiman, o Tuífo e o Denquira. pelo povo fante.

8. Os clãs acãs que migraram em direção ao 2. Na selva, os axantes fundaram vários pe-
mar encontraram, em distritos litorâneos, po- quenos reinos tributários do forte estado lito-
vos como os guan, no oeste, e os gãs, adang- râneo, Contudo, no século XV sua força já se
bes e ewês, no leste. fazia notar. Integrados na vida comercial da
região, trocavam ouro de aluvião e escravos
11 - Os fantes pelos artigos de que necessitavam.
1. Por volta do ano 1300, o povo ntafo, forma-
do pelos clãs abura, ekunfi. kurentsi. nkusu- 3, A região era ponto de encontro das rotas de
kum e enyan, começou a emigrar do Tequiman comércio de ouro e nozes-de-cola, originárias
para o sul. do país dos mandês, a noroeste, e do país dos
hauçás, a nordeste.
2. Depois de terem deixado a confluência do
Pra e do Ofin, sob a liderança dos sacerdotes 4. Foi assim que os membros do clã oyoko
Obunumankoma, Odapagiyan e Osono, por fundaram o Império Axante, que em pouco
volta de 1400, estes povos chegaram ao mar. tempo se tornou o mais poderoso estado da
No litoral, já constituindo a nação fante, ou costa ocidental africana.
boribori mfantsi, fundaram Mankessim, "a
grande cidade", e as vilas de Koromantim. 5. Ao mesmo tempo em que o povo oyoko se fi-
Egyaa e Anomabu. xava em Kumási. outros estados eram funda-
dos por clãs diferentes, num raio de 30km em
3. Nesse local, os túmulos dos três ancestrais torno da capital.
são hoje o sítio sagrado de Nanamon Mpow.
IV - A unificação dos axantes
4. Estabelecidos no litoral, os fantes passa- 1. No século XVII. os invasores domas tiravam

162 I Kitáhu
a paz dos axantes. Estes. embora vitoriosos 2. A idéia de unificação dos vários clãs axan-
no embate decisivo. estavam com sua econo- tes foi arquitetada pelo sacerdote (okomfo)
mia abalada. uma vez que toda a região sofreu Anokye. por volta de 1691. Numa sexta-feira.
um colapso em razão não só da tomada do durante uma grande reunião de príncipes e
Songai pelos almorávidas. mas também do ex- tribos. ele fez descer do céu. através de uma
pansionismo fulâni. forte invocação. o "trono de ouro nascido
numa sexta-feira" (asikadwa kofi). que desceu
2. Foi nesse contexto que o rei axante de do céu para o colo de Osei Tutu.
Kumási. Osei Tutu. convenceu os reinos vizi-
nhos a guerrearem contra os fantes de Den- 3. Nenhum rei pode jamais se sentar neste
quira. para não terem de lhes pagar tributo. objeto sagrado. mas a obediência aos precei-
tos que ele simboliza - acima de tudo a legiti-
3. Segundo a tradição. durante o encontro em midade da União Axante e de seus governan-
que se propunha a união. um trono de ouro tes vivos - assegura o sucesso e a prosperida-
desceu do céu e pousou suavemente no colo de da nação como um todo.
de Osei Tutu. A partir daquele momento. o tro-
no tornou-se o símbolo da unidade dos axan- 4. Quando estabeleceu a união dos povos Axante
tes e Tutu. o primeiro axantihene (rei dos e dotou-a de uma capital. Osei Tutu criou um
axantes). após sua unificação política. festival. uma constituição e um único exército.
reunindo as forças militares dos vários clãs.
v- Obiri Yeboa
1. O crescimento do axante sob o clã dos oyoko 5. Assegurando a primazia axante em vários
foi fruto do trabalho dos três primeiros gover- campos. deu início a guerras de expansão.
nantes - Obiri Yeboa. Osei Tutu e Opoku Uare.
6. Derrotou o reino de Gyaaman. dos domas e.
2. Obiri Yeboa. um astuto governante, venceu em seguida. subjugou Amakon e Tafo. Final-
sempre os antigos dominadores. aceitando-os mente. derrotou e anexou Denquira. de quem
estrategicamente como membros do seu clã. os axantes eram tributários.
Quando firmou sua posição. partiu para guer-
ras de expansão. mas não foi bem-sucedido. 7. Com essa vitória. os axantes asseguraram
o livre comércio com os holandeses em
3. Por volta de 1670. morreu numa guerra Elmina e com os ingleses em Cape Coast.
contra os doma. que passaram a ocupar uma
localidade nos arredores de Kumási. 8. Completando a obra de Obiri Yeboa e des-
tacando-se como bravo guerreiro. brilhante
VI - Osei Tutu constitucionalista e hábil administrador. Osei
1. Obiri Yeboa foi sucedido por seu sobrinho Tutu transformou o reino no Império Axante.
Osei Tutu que. com o apoio do seu chefe reli-
gioso Okomfo Anokye. contribuiu decisiva- 9. No auge do seu poder. o Axante era dividido
mente para o crescimento do Império Axante. em três unidades: o Axante metropolitano. com

Mina I 163
sedeem Kumási e sobo comandodireto do axan- - decisão que certamente motivou as rebeliões e
tihene; os Oman. cidades-estado. cada uma co- sediçõesque começarama minar o poder central.
mandada por um líder. o omanhene; e o Axante
provincial. formado pelos estados conquistados. VIII - As guerras. o tráfico
1. Determinados a manter laços comerciais
10. Contudo. todas as unidades reconheciam diretos com os europeus na costa e preservar
o axantihene como seu líder político e religio- seu império intacto, os axantes acabaram por
so e reverenciavam o trono de ouro, depositá- esbarrar na resistência dos fantes, ajudados
rio das almas dos ancestrais do país. pelos colonialistas ingleses.

VII - Opoku Uare 2. Inicialmente aliados dos portugueses, de


1. Em 1717. Osei Tutu foi morto em combate quem receberam influência católica. e.
e sucedido por seu sobrinho-neto Opoku Uare, depois, dos holandeses. por fim os fantes fo-
que governou até 1750. ram estimulados pelos ingleses a guerrear
contra os axantes.
2. Bravo guerreiro, brilhante constitucionalista
e hábil administrador, durante seu governo, o 3. O estado de guerra se instaurou em 1806.
Império Axante atingiu o apogeu. com a pujante propiciando o incremento do tráfico de escra-
cultura acã fulgurando na corte e entre o povo. vos. Em 1874. o axantehene foi derrotado pe-
las forças britânicas.
3. Depois de Opoku Uare. de 1764 a 1777,
Osei Kodjo substituiu a velha aristocracia por 4. Em 1897, os fantes foram formalmente
pessoas de origem humilde, mas que se des- submetidos ao domínio inglês. Enquanto isso,
tacavam no serviço público; assim. conseguiu os axantes, que sempre estiveram entre os
colaboradores de inquestionável lealdade, o povos mais avançados e progressistas de seu
que lhe permitiu centralizar mais o poder. tempo. a partir de seu estado centralizado,
defendido por um poderoso exército, prosse-
4. As reformas de Osei Kodjo foram levadas guiram em sua resistência.
adiante por Osei Bonsu, que governou de
1801 a 1824. 5. Em 1902. os ingleses saquearam Kumási; e
o reino axante. após quase um século de re-
5. Osei Bonsu aboliu o critério exclusivo da here- sistência. tornou-se finalmente parte da colô-
ditariedade na ocupação das chefias provinciais nia inglesa da Costa do Ouro.

CAPiTULO 15 O espírito e o poder entre os acãs*


I - Religião e ancestralidade piritual. Tudo se constrói e se faz sob a auto-
1. Todas as coisas que se passam na Terra ridade dos ancestrais e, em última análise. do
são. de alguma forma, reflexos do mundo es- Ser Supremo.

• Conforme Hagan. 1981: Popov. 1987; Fisher. 1998.

164 I Kitábu
2. O ritual de entronização de um rei é um ato 2. Os obossons são invisíveis. mas. ao mesmo
religioso, pois a cerimônia envolve uma tempo. podem se materializar. Por isso, são se-
relação com os ancestrais e com a ordem es- res hostis aos humanos enquanto não são apazi-
piritual do Universo. guados com sacrifícios. Satisfeitos, eles tornam-
se protetores das tribos e das comunidades.
3. A religiosidade não se fecha num corpo de
doutrina nem exige conversão. Por isto, não 3. Entre os obossons das águas, os mais vene-
há nenhuma contradição em seguir crenças e rados são Tano e Bea (dos rios). Apo (do mar)
;

realizar rituais tradicionais c, paralelamente. e Bosomtwi (do lago). Tano é o protetor de "

todos os axantes.
1
adotar outras práticas religiosas, como as
il

I
cristãs, por exemplo.
4. A veneração e os sacrifícios em favor dos

4. Os vivos e os mortos formam uma só comu- obossons devem ser celebrados em santuá- lo
rios especiais. de preferência numa pequena I;
nidade. Existir como ser humano é pertencer
a uma grande comunidade, e isso envolve a
cabana situada perto da aldeia e nas margens ~
desertas de um rio.
participação em suas crenças, cerimônias e
rituais.
5. No local deverão estar os tamboretes. ou
banquinhos de madeira (akonnua) nos quais
5. Viver em comunidade é reconhecer a pre-
se guardam os recipientes com tampa (kudus)
sença dos ancestrais como o traço de união
em Que os obossons são provisoriamente
da solidariedade do grupo; e eles. como guar-
assentados.
diões da lei e da moralidade. podem punir ou
premial' para assegurar a manutenção do
6. Ao sacerdote (obossonfo) competem as fun-
equilíbrio social.
ções de intérprete do oráculo e organizador
das cerimônias anuais de apaziguamento dos
6. Os ancestrais fazem parte da família.
obossons. nas Quais se oferendam ovelhas. ga-
Depois da Morte, eles vivem próximo ao
linhas. entre outros animais, em homenagem
Criador, com quem mantêm uma estreita liga- ao protetor de uma comunidade ou de um clã.
ção. Sancionam a vida moral de cada pessoa.
bem como a de toda a comunidade. pela pre- 7. Nyame (Onyame. ou Nyamie) é o Ente
miação ou pela punição. E podem relacionar- Supremo, o maior dos obossons. Seu nome
se com outros espíritos. tanto benévolos significa "brilhante. resplandecente". Ele é
quanto malévolos. venerado também sob as invocações de
Nyankopon (o grande Nyame); Odomankoma
\I - O Ser Supremo e os obossons (eterno. infinito); Tireaduampon (seguro);
1. A natureza é povoada por espíritos chama- Sore-Sore (criador); Otumfo (poderoso) ;
dos obossons. Entre eles, os principais são os Ananse Kokroko (grande aranha). símbolo da
gênios que habitam as águas, as plantas, as sabedoria; ou simplesmente Nana (ancestral,
rochas etc. primeiro genitor).

Mina I 165
8. Nyame é o Céu, que envia chuvas e trovoa- 15. Cada chefe local (omanhene) mantém em
das. É também o criador do Universo, que é seu quintal o nyamedan, o templo dedicado a
tecido como uma teia de aranha; do Sol. da Nyame, com sacerdotes devotados a seu cul-
Lua e do homem. E é ainda, o primeiro ances- to; estes usam um cordão do qual pende um
tral de todos os acãs. disco de ouro com uma meia-lua gravada.

9. Os baulês dizem que não foi Nyame quem 16. Uma vez por ano, o omanhene realiza sa-
criou o mundo, e sim seu pai. Alurua. Os bau- crifícios e oferendas em honra a Nyame, dor-
lês, porém, sempre pensaram diferente, tanto mindo oito noites seguidas no nyamedan, para
que dizem que Nyame não é um homem. mas conseguir. da divindade, apoio. benevolência,
um carneiro. força e saúde.

10. Nyame vive longe dos homens e não inter- 17. Além de cultuar Nyame e as outras altas
vém nos seus assuntos, pois, tão logo criou o divindades, todo axante deve render culLo a
Universo. afastou-se para sua morada no Asase (Asasie. Assie), que é a Mãe Terra pro-
Infinito. tetora da agricultura.

11. Ao afastar-se do mundo dos homens. 18. Asase Yaa nasceu numa quinta-feira. Por
Nyame enviou seus filhos Tano. Bea, Apo e isso. para não incomodá-la. nesse dia que lhe
Bossonchovoi. dotados de seu poder paterno. é consagrado. todos os trabalhos agrícolas
para vigiarem os habitantes da Terra. são proibidos.

12. Abaixo destes primeiros filhos de Nyame. 19. Antes de começar a cultivar os campos, os
estão outros obossons. entre os quais lavradores devem oferecer-lhe uma galinha
Abirewa. Hwenso. Tigare Dubi. Kankamea. em sacrifício. pedindo autorização para ini-
Bonsam. Nentiya e Kune. que são os interme- ciar os trabalhos e implorando uma colheita
diários entre Ele e os seres humanos. abundante.

13. No quintal de cada axante deve haver uma 20. Diz-se também que Asase Yaa é a mulher
nyameduá, "a árvore de Nyame". que é um al- de Nyame e que teria nascido também numa
tar-monumento. feito com troncos grossos e sexta-feira. Por isso seu nome seria ainda
sem casca. dispostos em forma de tridente. Asase Afua. pois Afua é o nome de toda mu-
lher que nasce nesse dia da semana.
14. Na interseção destes três troncos deve
haver sempre um pote com água da chuva. 21. Divindade da terra. Asase é também a
além de sangue dos sacrifícios com o qual se mãe de todos os mortos. Assim. nos locais das
rega diariamente o pé de nyameduá. Ali tam- sepulturas. é preciso regar a terra com água
bém se guardam as pedras de Nyame. envia- ou vinho. pedindo-lhe pela invasão de seus
das por Ele e que são poderosos talismãs. domínios.

166 I Kitábu
11I - Os ancestrais (Nananon Nsomanfo) ção a geração desde tempos imemoriais. Certos
1. A morte é um mal que rompe a harmonia da rituais são realizados de determinada maneira
família. A reunião dos parentes e amigos e a porque os ancestrais assim estabeleceram.
adequada observância dos rituais funerários
garantem a correta passagem do morto para 8. Os ancestrais têm total envolvimento com os
a morada dos ancestrais. restabelecendo a problemas da família e do clã. Os vivos ouvem
harmonia. suas instruções e acatam sua autoridade, pois
eles conhecem bem a vida e seus problemas.
2. Quanto maior o número de pessoas envol- Além disso. os vivos têm esperanças de que os
vidas e quanto maior o tempo despendido nas ancestrais reencarnem em seus filhos para
cerimônias certas. mais eficaz será a total lançar suas bênçãos sobre a família.
restauração da harmonia da comunidade.
9. O ideal de toda pessoa deve ser o de viver
3. Adequadamente acompanhado até a morada bem e. no final, morrer bem para qualificar-se
dos ancestrais. o falecido incorpora-se aos ve- como membro da comunidade dos ancestrais.
nerados ancestrais do clã. Dessa forma. o san- Viver bem é viver com saúde até avançada
gue (mogya) volta para o espírito (saman) que idade, com muitos filhos e netos.
agora é uma força espiritual (sasa). apta a in-
fluenciar os vivos para o bem ou para o mal. 10. A morte por acidente, pela transgressão
de algum tabu ou por doença infecciosa des-
4. Os ancestrais devem ser venerados. mas qualifica uma pessoa. Por isso, deve-se sem-
não cultuados. Detentores de muita força. gra- pre consultar o oráculo. para se tentar conju-
ças ao estreito relacionamento que continuam rar qualquer tipo de ameaça ou malefício, in-
a manter com os vivos. eles pertencem ao lado clusive os provenientes de feitiçaria.
espiritual do Cosmo e gozam da intimidade do
Ser Supremo e de outros espíritos. 11. O relacionamento humano, enfim, não
pode ser quebrado nem mesmo com a morte.
5. O que é essencial à vida se aprende com os Ninguém nunca está sozinho; e todo morto
mais velhos. pois eles são o elo com os ances- permanece como membro de sua família, pro-
trais. com aqueles que já cruzaram o limiar tegendo e guardando os vivos. graças a seus
da morte. poderes, agora aumentados.

6. Os ancestrais constituem. então. a ligação 12. Quando as coisas vão muito mal para o clã
de um clã e de um povo com seu passado. São ou para a linhagem, especialmente quando os
o vínculo das gerações anteriores com a pre- vivos não podem exercer efetiva liderança em
sente, em tudo o que ela mantém, como signos tempo de crise, os ancestrais enviam um dos
de sua tradição. seus para orientar seu povo.

7.A justificativa para muitos tipos de comporta- 1:3. Um líder carismático é sempre a reencar-
mento está em costumes transmitidos de gera- nação de um ancestral venerado. E. por isso,

Mina I 167
deve ser chamado avô. ou avó (nana). mesmo mau não se sente nele e se aproprie da alma
quando criança. do dono.

14. A constante evocação dos feitos gloriosos 6. Quando alguém morre. seu akonnua deve
dos ancestrais. narrados ao ritmo dos tambo- ser pintado de preto.
res falantes e o uso das lendas. mitos e pro-
vérbios na transmissão de seus bons exem- 7. O rito principal do culto aos obusua e oma-
plos estimulam a imitação. A lembrança de ne é o adae. festa que deve ser celebrada a
que uma vida imoral impede a admissão no rol cada seis semanas. O grande adae é realizado
dos grandes ancestrais serve sempre como aos domingos e o pequeno adae às quartas-
incentivo para uma existência correta. feiras.

IV - Veneração aos ancestrais 8. Nessa cerimônia. diante dos akonnua, o ce-


1. Todo axante deve render tributo aos nso- lebrante enuncia os nomes dos ascendentes.
manfo, ou nananon. seus antepassados ilus- rega o chão do nkonnuafieso com água. ofere-
tres. que são os seres espirituais mais próxi- ce bananas e inhames cozidos, colocando-os
mos dos humanos e mais ativos. sobre os tamboretes e. depois, regando-os
com vinho.
2. Servindo como ochyeame. intérprete entre
os humanos e as divindades. os antepassados 9. Então, uma ovelha ou uma cabra é sacrifi-
estão sempre presentes entre os vivos. exer- cada. aplicando-se o sangue e gordura de uma
cendo forte influência sobre a vida dos indiví- lontra nos tamboretes enquanto se reza pe-
duos e de suas comunidades. dindo prosperidade e fertilidade para os cam-
pos e para as pessoas.
3. Os ancestrais que garantem especialmen-
te a fertilidade da terra e o bem-estar do clã 10. Finalmente, a carne do animal sacrificado
são os abusua. Os omane são os ancestrais - principalmente seu pulmão. símbolo da vi-
das tribos. da - é distribuída pelos tamboretes, e sua
cabeça colocada diante do akonnua do ances-
4. Os ancestrais zelam também pela obser- tral mais importante.
vância dos princípios corretos e dos tabus. cas-
tigando os infratores com doenças. esterilida- V - As festas do adae e do odwira
de. epidemias. secas e outras calamidades. 1. O objeto físico que evoca a presença do an-
cestral é, então, o akonnua, o tamborete que
5. A maior parte dos espíritos mora em grutas o simboliza.
subterrâneas. do lado onde o sol se põe. A al-
ma dos ancestrais. porém. repousa no seu 2. Nas celebrações do adae. o rei ou chefe lo-
tamborete de madeira. o akonnua. que deve cal dirige-se ao templo onde está o tamborete
ser guardado numa casa especial (nkonnua- real, para venerar e lembrar os grandes feitos
fieso), virado para cima. para que um espírito dos ancestrais que foram reis.

168 I Kitábu
3. Durante o adae, o rei e seus conselheiros rea- tamente imprescindível: nem mesmo ritos fu-
lizam rituais de purificação nos quais os tambo- nerários são celebrados.
retes, tradicionalmente pintados de preto, rece-
bem alimentos e sangue como oferendas. 11. Ao fim de quarenta dias. o odwira é reali-
zado.Celebra-se a boa colheita, exibem-se os
4. No grande adae, após esta cerimônia priva- inhames novos e oferecem-se libações e lou-
da, o rei recebe seus súditos, enquanto o poe- vores aos ancestrais, que assim serão desper-
ta e genealogista da corte (kwadwunfo) recita tados de seu merecido repouso.
os feitos heróicos e edificantes dos reis faleci-
dos, para que o soberano atual siga seus pas- 12. A festa é sempre aberta com uma procis-
sos e seja reverenciado como eles. são, à frente da qual vai a espada-símbolo da
Confederação Asante (afona) e o trono de ou-
5. Então, ele inaugura a festa popular. com ro. o asikadwa, resguardado por um pálio fei-
cantos e danças ao som dos tambores. to de lã de camelo, o katamanso.

6. Contudo, a festa principal de todos os acãs 13. O asikadwa é a morada do sunsum. a es-
é o odwira, celebração da purificação. que sência espiritual. de todos os povos acãs.
deve ser realizada uma vez por ano. Durante Para que esta essência. a alma, não abando-
este evento, o povo se purifica e reverencia ne o trono, ele é amarrado com correntes de
todos os omanhene e axantihene falecidos. ouro e ferro, das quais pendem guizos como
sinal de alerta.
7. O odwira é não somente a ocasião para se
fazer um balanço do ano que terminou como 14. Durante o odwira, em um dia determina-
também um período de limpeza espiritual. do. os axantihene e os omanhene devem
tomar um banho purificador no rio.
8. As festas do odwira, porém. não podem se
realizar sem que haja antes um retiro prepa- VI - O ser humano e seus elementos
ratório. Assim, após o oitavo adae, celebra-se constitutivos - o kra
um ritual chamado adaebutuw. 1. O kra é uma espécie de alma. Porém, mais
do que isso, é uma espécie de força vital.
9. No adaebutuw, invocam-se os ancestrais como o alento e a respiração. Ele é também o
para que venham descansar; e, por isso, todos condutor do destino da pessoa, que é emana-
os outros rituais religiosos são suspensos por do de Onyame. o Ser Supremo.
Quarentadias.
2. Antes de uma pessoa nascer, o kra compa-
10. O adaebutuw é tempo de calma e medita- rece perante Onyame, que lhe dá um destino
ção. Para que os ancestrais não sejam inco- para cumprir. Então, ele se constitui em um
modados, os tambores são guardados e, se duplo, ligando a pessoa ao Ser Supremo.
necessário. desmontados para reparos; os
trabalhos administrativos limitam-se ao estri- 3. O kra age como um espírito guardião ou
uma divindade pessoal. Às vezes, oferece tabelecida por meio da consulta a um sacer-
bons avisos para afastar a pessoa de pro- dote. por intermédio de um ritual. ou pela adi-
blemas e perigos, às vezes oferece maus con- vinhação, geralmente para determinar o moti-
selhos e induz a pessoa a incorrer em falta. vo de uma doença.

4. Toda pessoa precisa render culto ao seu kra 11. Uma gestante confusa poderá se comuni-
e mesmo purificá-lo com oferendas rituais. car com o kra de uma criança ainda não nas-
cida para saber o que está retardando sua en-
5. Durante a vida. o kra é estável e nunca deixa trada no mundo físico.
o corpo; mas com a morte. ele retorna a Onyame
para prestar contas de sua vida terrena. VII - O sunsum
1. O segundo elemento espiritual da pessoa
6. Quando uma criança nasce, ela deve ser humana é o sunsum, a personalidade ou
mantida no quarto até o oitavo dia. ocasião caráter.
em que a família realizará o ritual de saída.
Neste dia, a criança vai receber o kradin, um 2. Ao contrário do kra, o sunsum pode deixar
dos nomes dos espíritos de cada um dos dias o corpo momentaneamente durante a vida,
da semana. durante o sono por exemplo, e perambular.
Durante o sonho, o sunsum é o agente da pes-
7. Existem sete tipos de kra. Cada um corres- soa que sonha.
ponde a um dia da semana. Segundo esta cor-
respondência é que se atribui o akradini. pri- 3. Os homens têm um sunsum mais pesado
meiro nome. ao indivíduo. que o das mulheres. Entretanto. uma mulher
que tenha qualidades masculinas ou agressi-
8. A purificação do kra deve ser feita quando vas também tem um sunsum pesado, forte. Na
a pessoa se recuperou de uma séria doença e mesma medida em que uma pessoa de sun-
quer agradecer a seu espírito guardião pela sum leve raramente será capaz de malefícios
ajuda. Essa purificação deverá consistir em ou feitiçarias. uma personalidade forte é sem-
uma oferenda de alimento tradicional prepa- pre um remédio contra feitiços e doenças.
rado com inhame. ovos. azeite de dendê e ga-
linha ou carneiro. Os amigos serão chamados 4. O sunsum está sujeito a doenças e a maqui-
a compartilhar do alimento. nações de magia maléfica.

9. Nesta ocasião, nenhuma comida será. como 5. A doença é freqüentemente resultado de


de hábito. derramada no chão em honra dos perturbação dentro do sunsum de uma pes-
ancestrais ou da divindade fluvial do pai. soa em relação a outra. Esta perturbação,
porque a ingestão de todos os alimentos re- igualmente, pode fazer mal à própria pessoa.
presentará uma grande homenagem ao kra. Ódio, preconceito e tudo de mau que entre
numa cabeça podem causar doença na mente
10. A comunicação com o kra poderá ser es- e no corpo.

170 I Kitábu
6. Por isso, em festivais como o Odwira, uma 12. O filho deve venerar e cultuar o pai fale-
vez por ano, a pessoa tem a liberdade de falar, cido pela invocação do sunsum dele e de sua
expressando tudo o que a incomoda e a contra- divindade aquática.
ria, mesmo que seja sobre o rei e sua família.
13. As famílias. os grupos étnicos e todas as
7. Durante esse período de transitoriedade. nações têm um sunsum. A nação axante tem o
as regras de etiqueta poderão ser abolidas. seu sunsum coletivo. de seu povo e de sua so-
Depois. quando a comunidade retornar à vida ciedade, representada no sikadwa. o trono de
1
real. o sunsum das pessoas e de toda a socie- ouro. O sikadwa. que deverá estar sempre .1
l'
dade terá esfriado e estará em paz. cuidadosamente guardado, é o símbolo da na-
ji
8. Alguns mais velhos não distinguem o sun-
sum do kra; dizem que ambos emanam da di-
ção axante. O que acontecer a ele. acontece-
rá a toda a nação.
:I,
.,

vindade aquática do pai, sendo o primeiro VIII - O ntoro


mais estável. enquanto o segundo pode ser de-
senvolvido por representar a personalidade.
1. A terceira entidade espiritual é o ntaro.
Toda criança herda o ntoro de seu pai. Por es-
I'
ta razão. a criança recebe um nome relacio-
9. Por isto os fantes dizem que ao cultuar a nado à divindade Ouvial de seu pai. chamada
divindade do seu pai. é o kra dele que você pelos fantes de egyabosom.
está reverenciando. Tal opinião não contra-
ria a idéia do kra como a força vital criada 2. Cada ntoro é identificado por certas carac-
por Onyame. terísticas peculiares a seus membros. Cada
um tem um dia a si dedicado, seu animal vo-
10. O Ser Supremo sempre trabalha por in- tivo, seu animal tabu.
termédio de suas criaturas. mesmo quando
elas são divindades. O kra sempre carrega a 3. Todos os indivíduos do mesmo ntoro, ou
sina ou o destino da pessoa, determinado an- seja. todos os parentes pela linha paterna têm
tes de ela nascer. e do qual o kra dá notícia o seu dia especial de purificação. Nesse dia.
ao Ser Supremo após a morte. O sunsum, en- devem sacrificar, no altar de Nyame, um afo-
tretanto, é diretamente relacionado com o die, uma galinha em homenagem ao ancestral.
ntoro do pai, Ntoro é a palavra que literal-
mente significa sêmen. 4. Os rituais aquáticos são associados ao ntoro
das divindades tutelares. A água é o símbolo
11. Após a morte de um homem. seu sunsum da limpeza. da purificação e é associada ao
retorna à divindade aquática do pai. com a branco. cor da vitória e da felicidade. à cor do
possibilidade de reencarnação na linhagem sêmem e das vestes brancas.
paterna. O espírito. entretanto. não é o ances-
tral. O sunsum de uma mulher, depois de ca- IX - O mogya
sada e de sua primeira gravidez, se transfere 1. A quarta entidade espiritual é o mogya. o
para o ntoro do marido. corpo físico. o sangue. que traduz os laços
consangüíneos pelo lado materno, que é o razão de seu grande tumi. Mas não se pode
mais importante. colhê-la sem antes lhe fazer oferenda de ovos
e bebida. Uma pessoa que a corte por aciden-
2. As características espirituais e psicológi- te ou sem observar esses ritos estará conde-
cas de uma pessoa vêm do pai: as caracte- nada à morte.
rísticas físicas são herdadas do mogya (san-
gue, princípio feminino) da mãe. 5. Quem cortar esta planta para utilizá-Ia
não deve falar enquanto a levar, devendo
3. Uma criança é formada quando o sêmem do colocar uma folha verde entre os lábios fe-
pai combina com o sangue da mãe. A contribui- chados para mostrar que não pode se comu-
ção do pai é mais forte, e a da mãe, mais básica. nicar com ninguém. Se faJar, destruirá o tumi
da planta e seus efeitos terapêuticos, por
4. O sangue determina o pertencimento e a mais fortes que sejam.
posição da criança dentro de um clã (abusua-
ban) e de uma linhagem (abusua). A sucessão 6. Outra planta de grande tumi é a dua nyin.
e o status dentro da sociedade são determina- que mata todo animal que passa perto ou se
dos pela filiação materna. encosta nela. O único animal capaz de lhe re-
sistir é o rato. Mas outras plantas têm um tu-
x - Tumi. a força vital mi mais forte que o dos ratos e são introduzi-
1. Tumi ou Tum é o poder, a capacidade de das em suas tocas para matá-los.
produzir o efeito desejado. Quando dizemos
que alguma coisa tem tumi, significa que 7. Existe uma folha, chamada tafame. que
aquele objeto tem esse poder, essa força. pode matar qualquer pessoa que a esfregue
na palma da mão. Algumas plantas, cujo tu-
2. Tudo na natureza contém tumi ou é tumi. mi é destruído pelas pedras, perdem suas
porque todos os seres e coisas podem ser mo- virtudes terapêuticas se forem com elas ma-
radas de uma divindade ou de um espírito. A ceradas. Nestes casos, usa-se madeira para
essência de cada coisa, assim como as trans- a trituração.
formações específicas que se verificam em
cada ser ou coisa, sozinha ou interagindo com 8. Uma outra planta medicinal de grande po-
outras, passa pela manifestação do tumi. der é o kokote. Ela deve ser colhida com uma
pedra pontuda e não com lâmina de ferro ou
3. Na floresta, a planta ahama basam, uma aço, porque o metal destrói seu tumi.
trepadeira parasita, tem este nome ("fio di-
vindade") porque possui o tumi, a força. o po- 9. Como todo os outros seres da natureza, os
der de matar todas as outras plantas, com ex- humanos também possuem o seu próprio tu-
ceção do adaam, a paineira. mi, tanto coletiva quanto individualmente. O
tumi de um indivíduo é relacionado ao seu
4. Entretanto, ela é muito benéfica para o ho- sunsum. um dos componentes imateriais do
mem e serve para curar diversas doenças em ser humano. Assim. alguns indivíduos podem

172 I Kitábu
ter níveis de tumi ligeiramente mais elevados 17. Em segundo lugar. o mal poderia impedir os
que outros. outros membros da sociedade de estarem livres
para as atividades correntes da vida social. O
10. Uma pessoa que tem um sunsum podero- simples rumor de que existe em qualquer parte
so, dotada de um grande tumi. é capaz não só um fantasma assassino poderia perturbar o cur-
de dominar os outros, para o bem e para o so normal da vida social. a tal ponto que, até que
mal, mas também de proteger os seus e des- se prove infundado, todos viveriam com medo.
truir os adversários.
18. Basta uma única pessoa má na comunida-
11. Este tipo de tumi é um dom pessoal, mas de para dominar essa sociedade inteira. Em li'
!'

pode ser adquirido ou reforçado por meio de contrapartida, uma sociedade livre é aquela I" '
i'
;,
diversas práticas. Neste caso. o conhecimento em que não há indivíduos maus. I
.lI
aumenta o tumi e se transforma em um poder. I

19. Após a morte, mogya, a alma hereditária


12. O tumi de um grupo social é um fluxo que juntamente com okra e sunsum, abandona o
corre da comunidade dos mortos até os mem- corpo e converte-se em osaman, espírito dos
bros da sociedade que vão nascer, passando ancestrais até reencarnar num ser nascido no
pela comunidade dos vivos. seu clã ou no seu ntoro.

13. A sociedade é um todo espiritual que so- XI - O poder do axantihene


fre ou prospera por meio das atividades mo- 1. O axantihene. rei dos axantes, será sempre
rais de seus membros. A força de uma nação eleito num dos ramos do clã Oyoko.
repousa nas famílias ou nos lares que a com-
põem. E a destruição começa neles. 2. Sua indicação é uma prerrogativa da rai- I
nha-mãe; e o conselho dos anciãos não poderá
14. Se um membro da sociedade é nocivo, rejeitá-Ia.
todos os outros são seus escravos. Um indiví-
duo mau pode, por seus atos, causar prejuízo 3. Na entronização, o rei deverá renunciar a
ao poder espiritual da sociedade. todos os seus bens pessoais, sem poder legar
nada a seus filhos e parentes.
15. As faltas não punidas dos indivíduos dimi-
nuem o tumi da nação, provocando secas e 4. O rei deverá gozar de excelente saúde e in-
aridez do solo, deixando as mulheres estéreis tegridade, moral e física. Ele não poderá so-
e causando graves perturbações e calamidades. frer nem mesmo um arranhão. Por isso, anda-
rá sempre lentamente, ao ritmo cadenciado
16. Sob pena de ser totalmente aniquilada, a do tambor real.
sociedade não deve tolerar que um indivíduo
pernicioso persista em seus atos depravados. 5. Na comunicação com outros reis ou chefes,
Estas pessoas vampirizam o conjunto da so- o axantihene deverá servir-se da intermedia-
ciedade do ponto de vista espiritual. ção do adamfo, seu embaixador.

Mina I 173
6. O axantihene deverá pugnar pela relativa 4. Porém, a mais importante atribuição de to-
independência dos omanhenes. chefes provin- da rainha-mãe, além de aconselhar o rei ou
ciais. os quais poderão celebrar seus próprios chefe. mesmo contra a vontade dos ministros.
festivais, inclusive o Odwira. e ter seu próprio é apontar o próximo rei ou chefe dentre os so-
tesouro. bem como seu exército particular. brinhos do governante falecido ou deposto.

7. Entretanto, todo omanhene deverá obede- 5. A grande ligação de todos os akan com suas
cer. prestigiar e auxiliar o axantihene. o maior mães e irmãs está no fato de que todos eles
dentre eles. são filhos de uma mãe espiritual comum. E
nisso repousa o grande elemento unificador
8. No passado, os países conquistados tam- da sociedade.
bém gozavam de relativa autonomia. embora
devessem vassalagem e lealdade ao rei de 6. O irmão da mãe, o tio materno. é uma figu-
todos os axantes. ra de autoridade e exerce mais influência
sobre as crianças do que o pai. cujo sunsum.
XII - O poder feminino - A maternidade no entanto. é também muito significativo e
1. Entre os axantes. o axantihene é o chefe do por isso deve ser venerado após a morte.
conselho nacional. Cada omon (estado) é gover-
nado por um omanhene e uma omanhemaa que 7. Nas libações que antecedem todos os ri-
pode ser mãe. tia ou irmã do governante. Em tuais. dois pedidos principais devem ser fei-
todos os níveis de hierarquia. a sucessão desses tos. Um a Nyame. pela potência do homem;
governantes deve se dar pelo lado materno. O outro aos ancestrais, pela fertilidade da mu-
papel da mulher na sociedade é então a chave lher e para que eles possam abençoar a famí-
das relações de parentesco. Embora todo rei, lia com muitos filhos.
governador ou chefe seja um homem, ao lado
dele sempre estará sentada a "rainha-mãe". 8. Uma mulher estéril é uma desgraça para o
seu clã; esta esterilidade pode ser motivo de
2. A rainha-mãe aconselha em questões de divórcio. desenlace fatal no caso de impotên-
casamento. mesmo que não seja dela a lide- cia do homem.
rança feminina em sua linhagem. Ela tem seu
próprio trono. porta-voz e ministérios. Não 9. Ser abençoado com muitos filhos e mesmo
obstante, ela não controla todas as mulheres; ter filhos gêmeos ou trigêmeos é considerado
afinal. este comando é feito pela chefe da li- uma graça da mais alta magnitude.
nhagem feminina.
10. Outrora. alguns povos matavam seus gê-
3. A rainha-mãe deve trajar-se oficialmente meos, porque viam neles uma forma de maldi-
em estilo masculino. Sua cabeça estará sem- ção. E matavam sem piedade até mesmo suas
pre descoberta e seu cabelo curto. Cabe a ela mães. se assim determinasse o oráculo. Contudo,
supervisionar os ritos de passagem das moci- ter filhos é bom de qualquer forma: só a impotên-
nhas para a idade adulta. cia e a infertilidade são consideradas ruins.

:; 174 I Kitábu
11. Embora todas as crianças sejam tesouros suas tarefas. Assim, ele não precisa subme-
preciosos. ter filhos do sexo feminino é uma ter-se a ritos de iniciação à puberdade.
dádiva ainda maior. Porque a menina é uma
mãe em potencial: é ela que vai poder dar XIII - As forças do mal
continuidade à sua linhagem. 1. Embora se saiba da vida após a morte e da
importância da ancestralidade. ninguém deve
12. Entretanto, isso não significa que meni- ter pressa de fazer jus ao título de ancestral.
nos não sejam bem-vindos. Quando um rapaz
se torna pai. ele adquire a alta prerrogativa 2. Nas preces aos ancestrais, durante as liba-
de perpetuar o nome de seu clã por meio do ções. a pessoa deve. sim. pedir saúde. vida
seu filho. longa. filhos e prosperidade. e não orar por
ventura na vida após a morte. Entretanto, uma
13. Os homens serão sempre o sustentáculo e vez morta, cada detalhe do serviço fúnebre e
a proteção de suas mulheres e suas famílias. O do enterro deve ser meticulosamente seguido.
irmão, na condição de tio. tem obrigação de
sustentar os filhos da irmã. principalmente se 3. De acordo com os bens do clã ou da comuni-
o pai desses filhos morrer, estiver doente ou dade, sabe-se ou não se o espírito do falecido
não for considerado responsável por seus atos. vai fazer boa viagem até o mundo dos ances-
trais. Quanto mais um morto é cumulado de
14. O homem também tem obrigação de con- presentes. menor será a possibilidade de Que
tribuir para as despesas com os funerais das seus parentes vivos sejam atingidos pela morte.
pessoas de sua linhagem.
4. A morte é um inimigo cruel Que se compraz
15. Toda menina dependerá fortemente de em roubar nossas mulheres, nossos parentes
seu irmão e ele deve saber disso. Assim, bem e nossos amigos. Portanto, ela é uma força
cedo o menino deverá começar a exercer pe- maléfica. Nas lamentações do velório, os pa-
quenas posições de autoridade sobre algumas rentes do morto às vezes gritam para que a
mulheres da família. E a menina aprenderá, morte ou o falecido os leve também. Mas
com a mãe. maneiras femininas e deveres re- esses apelos exagerados em geral são apenas
lativos à casa e ao quintal familiar. explosões emocionais.

16. A menina deverá aprender a respeitar seu 5. A morte é inevitável. pois Nyame é Que de-
pai, seus tios e os irmãos mais novos, não por termina o período de existência de cada indi-
inferioridade, mas sim como um exercício víduo. Por outro lado. já QueNyame é bom e ge-
para o seu amadurecimento. neroso. Ele não pode ser o causador direto da
doença e da morte. exceto Quando a fatalidade
17. A um menino será sempre proibido exe- atinge um notário malfeitor. Neste caso, a mor-
cutar tarefas femininas. tais como cozinhar. te terá sido uma bênção para a sociedade.
varrer a casa e comer junto com as mulheres.
Desde cedo, ele deverá acompanhar o pai em 6. A não ser como punição aplicada a uma

Mina I 175
pessoa muito má. nenhuma morte súbita ou 12. Por outro lado. alguns infortúnios. como
violenta é natural. Tal tipo de fim é sempre re- uma dor de cabeça de uma única pessoa.
sultado de alguma força maligna (por um tabu podem ser considerados doença comum. cu-
violado. um terrível delito. consciente ou não) rada por qualquer remédio. Mas uma epide-
ou da atividade de feiticeiros e bruxos. mia de grandes proporções em uma aldeia
normalmente deverá ser considerada ação de
7. A morte. em suma. é determinada pelo des- força maléfica. Assim. o oráculo deverá ser
tino. porque Nyame decide. ou porque o consultado imediatamente.
próprio kra de uma pessoa estabelece. antes
do nascimento. 13. Nesse sentido. talismãs e amuletos tam-
bém podem ser contaminados pelo mal que
8. Embora a má alimentação. a doença. a pretendem erradicar ou prevenir.
ansiedade. a hostilidade de outras pessoas ou
grupos e tudo o mais possam ser vistas como 14. Em última análise, as práticas da vida co-
causas reais da morte. sempre são desenca- munitária (dança. canto etc) e as práticas ri-
deadas por outras forças malévolas. igual- tuais. como o culto aos ancestrais. têm por
mente reais. pessoais e sociais. objetivo tornar a vida a mais longa possível.
para se gozar boa saúde. e encontrar a felici-
9. Por isso. não se pergunta o porquê de uma dade sobre a Terra. prevenindo ou evitando
doença ou de um problema pessoal. Pergunta- qualquer força maligna com que uma pessoa
se "quem". Quem é a causa de minha doença? ou uma comunidade possa se defrontrar.
Eu ou alguém mais?
15. Se Nyame trouxe a doença. ele providen-
10. Mas Nyame não tem nenhum demônio ciará o remédio certo.
como rival. Na realidade. existe uma força
maligna isolada. invisível. imprevisível. vital- XIV - Os sasas, espíritos malignos
mente persuasiva chamada honhom fi. Entre- 1. O nhonhom fi é o mal em si mesmo; e os sa-
tanto. nem todas as desgraças devem ser atri- sas. espíritos malignos. são seus agentes.
buídas à ação dessa força. Todo sasa é hostil aos humanos e procura pro-
vocar-lhes o mal.
11. O mal. tal como a morte. pode ser contro-
lado pelo prestígio da família. E isso deve ser 2. Algumas almas podem abandonar seus do-
evidenciado durante os funerais. A demons- nos durante o sono e transformar-se em sasa.
tração de prosperidade com o tipo de caixão
que adquirirem. as bebidas que oferecerem. 3. Os animais perigosos e hostis. como O ele-
as roupas fúnebres que vestirem, os músicos fante e alguns antílopes, são os sasa mmoatia.
que contratarem para tocar e cantar, a quei- E algumas árvores perigosas, como o odum.
ma de fogos. os presentes trazidos pelos pa- são sasa dua.
rentes. tudo realçará a imagem de prestígio
da linhagem na comunidade local. 4. Se um caçador por acaso matar um sasa

176 I Kitábu
mmoatia. deverá executar um rito funerário ele recebe oferendas e pode ser castigado se
especial e não poderá comer a carne do ani- não satisfizer um pedido do dono.
mal morto; se derrubar uma sasa dua. é mis-
ter fazer oferendas ao espírito que nela mora. 5. É proibido assoviar junto a um suman. pois
o assovio é a linguagem dos mmoatia.
5. No período de luto. as viúvas usam coroas de
flores e colares de plantas especiais para afas- 6. Esses sumans. que concentram o poder das
tar a influência do sasa do marido defunto. plantas. dos obossons. dos mmoatia e. em
certos casos. do contato sobrenatural com de-
6. Mas o maior dos espíritos malignos é sa- funtos. deverão ser convenientemente prepa-
sabonsam. um monstro terrível. gigantesco. rados pelos ritualistas.
de pele ruiva com olhos avermelhados e den-
tes de ferro. que mora na floresta densa e ina- 7. A iniciação ao culto dos obossons deve ser
cessível e é particularmente hostil aos caça- feita individualmente na floresta. Todo inicia-
dores e sacerdotes.
do se torna um okomfo. Os okomfos que pres-
tam serviços nos templos e santuários são os
7. Depois dele. vêm os mmoatia. anõezinhos
obossonfos.
de cerca de meio metro. moradores das ma-
tas. uns pretos. outros brancos. outl'OS ver-
8. O obossonfo tem como encargo a execução
melhos. que não sabem falar e se comunicam
dos sacrifícios rituais. as práticas divinató-
por meio de assovios. Maus e agressivos. são
rias e a comunicação com os espíritos e gê-
os principais colaboradores dos feiticeiros.
nios por meio do transe.

xv - Magia
9. A adivinhação pode ser praticada mediante
1. Para se resguardar dos bruxedos. a pessoa
vários instrumentos e técnicas de conheci-
deve usar os sumans. amuletos e talismãs.
mento dos iniciados.

2. Um suman pode ser feito com plantas. pe-


10. A revelação do responsável pela morte de
nas. unhas. dentes. pedaços de ferro e couro.
pintados com substâncias corantes. ovos ou outra pessoa. por exemplo. pode ser conse-

sangue de sacrifícios. guida por intermédio do ritual do funa soa.


durante o qual se transporta o cadáver em
3. Convenientemente tratado. o suman será o meio à multidão e o morto "aponta" o culpado.
receptáculo de um espírito que vai proteger e
defender seu dono das influências maléficas. 11. Quanto às doenças e epidemias. o obos-
preservando-o da morte na guerra ou em caso sonfo determinará apenas as causas. ficando
de violação de um tabu. a cura por conta do dunsefo. que prescreverá
o medicamento; do sumankwofo. que prepara-
4. O poder de um suman está nele próprio e rá o talismã; ou do oduyefo. que elaborará o
não no espírito ao qual é consagrado. Assim. contra-feitiço.

Mina I 177
12. Os caçadores são sempre bons curandei- mitir esse mau comportamento. para facilitar
ros. Eles aprendem esta arte com os mmoa- o parto. Até porque a mulher que morre de
tias. ou mesmo com sasabonsam. no seio parto sem haver admitido sua infidelidade não
da [Ioresta. terá direito às hOfil'as funerárias devidas a
todos aqueles que morrem de causas naturais.
13. Os bomsamfos. bruxos e feiticeiros são os
principais causadores de malefícios e por isso 6. Por meio das manipulações de seu ofício e
devem ser eliminados do convívio social. do poder da palavra. a parteira deve procurar
o bom sucesso do parto. com auxílio de outras
XVI - Do nascimento à morte mulheres da família. que devem ajudar a cor-
1. Casar e gerar filhos são obl'igações religio- tar o cordão umbilical e enterrá-lo.
sas e sociais. Assim. a gravidez será sempre
motivo de alegria. Quando o ventre de uma 7. Nascida a criança. ela deve ser lavada pelo
mulher cresce. ela deve se orgulhar e mostrar menos nove vezes com água especialmente
a todos que está esperando um filho. preparada. para que não desenvolva mau
cheiro de corpo. E para que ela cresça com a
2. Para garantir não só um bom trabalho de cabeça bem conformada. vários procedimen-
parto e um feliz resultado. mas até mesmo o tos também são adotados.
nascimento de uma criança do sexo que dese-
ja. a mulher precisa adotar vários procedi- 8. A circuncisão deve ser feita por um mais-
mentos rituais. Ela deve, por exemplo. utilizar velho, com a criança ainda bem pequena. Por
certos tipos de banhos e alimentos. como a motivos espirituais ou medicinais. pode-se
sopa de coco de dendê, abenkwan. fazer um pequeno corte no rosto da criança.
Mas não se devem fazer escarificações ou
3. A fim de se proteger contra as forças malé- marcas tribais. pois estas cicatrizes lembram
ficas. ela tem de pedir a intercessão de uma escravidão e inferioridade.
divindade e usar um amuleto ao redor da cin-
tura. Deve também pendurar os talismãs 9. Mãe e filho devem ficar reclusos por oito
apropriados atrás da porta e. à noite. defumar dias. Da alimentação do recém- nascido precisa
a casa. para purificar o ar. constar. além do leite materno. infusões de er-
vas e de caldo de osso de um animal poderoso.
4. A mulher grávida precisa observar uma sé- como o leopardo. para que o bebê se fortaleça.
rie de tabus. abstendo-se de certas comidas e
bebidas, evitando ver sangue. além de não po- 10. Quanto ao nome. embora a criança rece-
der ver nem ouvir nada monstruoso. para que ba naturalmente o kradin. seu nome íntimo. e
seu filho nasça bonito e simpático. um apelido. o pai deve consultar sua família
sobre o outro nome a ser dado à criança quan-
5. Um trabalho de parto difícil é. em princípio, do de sua apresentação à comunidade.
indício de infidelidade conjugal. Assim. diante Geralmente, a irmã do pai, como representan-
de tal situação. a mulher. mesmo fiel. deve ad- te de sua linhagem. sugere alguns nomes. que

178 I Kitábu
são atribuídos por ocasião do ritual de apre- família e seus convidados devem chegar bem
sentação protagonizado pelo avô ou por um cedo à casa do pai. A criança será posta no co-
mais-velho do lado paterno. já que este é um lo do mais-velho e, depois. na esteira. O mais
privilégio conferido pelo ntaro. velho oferecerá uma faquinha ao menino ou, se
menina, a cobrirá com um cesto. A faca simbo-
11. Nesse meio tempo. o pai vai angariar do- liza as tarefas futuras do menino. como traba-
nativos para a cerimônia, inclusive tecidos, lhador e provedor: e o cesto. as tarefas da mu-
comida e bebida, além de dinheiro ou ouro em lher. como coletora e produtora de alimentos.
pó, bem como uma colher de metal, duas tige-
las, uma esteira virgem, um travesseiro. um 16. Então, o orador da família procederá às li-
pente e uma roupinha para a criança. Deve bações rituais. A água e a aguardente, três
também adquirir uma faquinha, se o bebê é gotas de cada, serão vertidas no chão. em
um menino. ou um cesto. se é menina. meio ao pronunciamento das palavras com as
quais a bebida será oferecida às divindades e
12. Ainda na casa materna. a mãe deve cuidar aos ancestrais do clã. Essas palavras. exor-
com zelo deste bebê que ainda é apenas um tando à honestidade, à verdade e ao direito,
frágil espírito. Se há perigo de morte. ela o vão constituir as primeiras lições de moral do
chama por um nome diferente. para espantar novo membro do clã.
o mal que ronda sobre ele. Caso ele morra
dentro dos primeiros oito dias, será conside- 17. Depois, por meio de um mais-velho, o pai
rado apenas um ancestral de passagem. a entregará os presentes da criança e da mãe.
passeio. em visita à família. sendo seu corpo O orador verterá um pouco de bebida ao pé de
enterrado sem maiores formalidades. cada convidado. num brinde, e pronunciará o
nome da criança, seguindo-se um banquete
13. Mas se. ao contrário, verificar-se que a com bastante comida e bebida.
criança veio para ficar entre os vivos. a ceri-
mônia de apresentação e de imposição do XVII - Ritos funerários (Ayie)
nome será anunciada. t. O nascimento representa uma morte no
mundo espiritual. Um espírito mãe é despoja-
14. A cerimônia de apresentação se desenvol- do de seu filho para que ele ganhe uma mãe
verá em duas etapas. Na primeira. a criança no mundo físico. Por isso. não se deve ver
será levada. no oitavo dia, para fora da casa e uma criança recém-nascida como colocada
apresentada ao sol e à natureza. Na segunda. neste mundo até que ela tenha de oito a dez
alguns dias depois. será procedida à ntetia. o dias de vida. Até que se confirme que ela veio
rito formal de imposição do nome. para iden- para ficar, ela será apenas um visitante do
tificar e humanizar o ser recém-nascido. mundo dos ancestrais.

15. A escolha do nome. abadinto, é uma prer- 2. Se a criança morrer até o oitavo dia, seu
rogativa do lado paterno da família, feita pelo funeral obedecerá a um rito sumário. Entre os
avô ou pelo tio mais velho. No dia marcado. a fantes, o corpo de uma criança destas é

Mina I 179
chamado kukuba (criança do pote). Os paren- família e todos acordados quanto às providên-
tes colocam o corpo num pote de barro e o en- cias. o corpo do morto, depois de lavado por
terram fora da aldeia. Os pais não fazem ne- parentes do sexo feminino. tanto do lado pa-
nhuma lamentação pública e sua purificação terno quanto do materno, será colocado na
ritual é reduzida ao mínimo. cama com suas melhores roupas, geralmente
com o lado esquerdo voltado para o nascente.
3. O enterro de um pré-adolescente ou mesmo
de um jovem também não precisa se revestir 9. As samansika ou o krasika, pepitas de ou-
de maior complexidade, dependendo, entre- ro, são o passaporte para o mundo dos espíri-
tanto. da disposição e da condição dos pais. tos e devem ser colocadas nos ouvidos e na
boca do morto, e também em saquinhos que
4. Existem duas dimensões no conjunto do ri- irão presos às coxas.
tual mortuário: os ritos do enterro e as exé-
quias fúnebres finais. O enterro deverá ocor- 10. Mechas de cabelos. muito apreciadas no
rer um dia depois da morte. Os vários ritos fu- além, principalmente de crianças, deverão
nerários terão lugar de uma semana a um ano também ser colocados na boca ou ao lado do
depois do enterro. A morte de um adulto deve- defunto.
rá ser solenemente observada em seus ritos
pelo abusua (clã), o qual concorrerá com to- 11. Mas antes de tudo o corpo deverá ser la-
das as despesas. vado, vestido com roupas novas, envolto em
esteiras ou colocado num caixão provisório
5. Quando a alma vai abandonando o corpo, que repousará em casa ou no pátio, do lado
deve-se obrigatoriamente fazer o moribundo esquerdo. de modo a que o morto possa se ali-
engolir água, pedindo-se a ele que livre todos do mentar com a mão direita.
mal e autorize as mulheres da casa a ter filhos.
12. Os alimentos. basicamente aves, ovos,
6. Este gole de água serve para que ele ou ela inhame e água serão colocados diante do
parta em paz e beba a água para a "viagem", corpo. no leito e, depois, na sepultura.
já que a morte é uma jornada para além do
rio. Em toda viagem. a pessoa bebe água na 13.. A cabeça do morto deverá ser raspada e
partida e na chegada. pintada com listras vermelhas. brancas e pre-
tas.O mesmo ocorrendo com os pacientes e com
7. Os mais velhos serão geralmente acompanha- o sacerdote, estes usando apenas a cor branca.
dos por um parente consangüíneo nessa viagem,
para que não morram na estrada: sem um pa- 14. A família será a primeira informada sobre
rente do lado, a pessoa morrerá com sede. a morte. Só depois, o povo tomará conheci-
mento do acontecido. por meio dos tambores.
8. Existem inúmeros rituais que devem ser das lamentações e do disparo de armas de fo-
executados depois da morte. antes que as la- go. Iniciado o velório, as carpideiras virão
mentações sejam permitidas. Avisada toda a chorar pela tristeza da família.

180 I Kitábu
15. Ao funeral devem concorrer os membros púsculo do dia seguinte. chamado nsaguda. o
da abusua e da ntaro. que pagarão as despe- dia de espargir as libações.
sas e oferecerão roupas. esteiras. cobertores.
almofada e ouro bruto. para a viagem final. Os 22. Nessa ocasião. o abusuapanyin. cabeça
participantes deverão vestir seus adinkra de dos parentes consangüíneos. executará os ri-
luto ou outros mantos sombrios. tuais de despedida. Com uma cabaça ou um
copo de aguardente ou rum. ele oferecerá a
16. Os parentes rasparão as cabeças. deixan- primeira libação ao espírito do falecido. de
do os tufos de cabelos amontoados na entrada pé. à frente dos parentes reunidos. Assim. co-
do quintal da família. Quanto maior o tama- municará aos outros espíritos que a família
nho do monte. maior terá sido o número de fi- deseja dizer adeus e ter certeza de que o es-
lhos e netos que o falecido teve em vida. pírito está indo bem acompanhado e seguro
para a morada dos ancestrais.
17. Se quiser. a viúva poderá usar um fio de
palha amarrado nos cotovelos. para mostrar 23. Em seguida. o abusuapanyin fará uma
que agora não tem mais quem a sustente. lenta alocução. parando de vez em quando
Outros dependentes do falecido poderão im- para derramar algumas gotas de bebida no
provisar vestes de folhas. ou conservar um chão. enquanto o orador da família proferirá
pequeno ramo de árvore na boca. para indicar exclamações de aprovação tais como ampa! (é
que não têm mais quem os valha e que. por verdade) ou hwiem! (está certo).
isso. ficaram reduzidos a vestes de folhas
do mato. 24. Enquanto isso. os coveiros de ambos os
lados da família já terão feito libações à ter-
18. Os que assim o desejarem também usarão ra e aos ancestrais para preparar o túmulo.
fitas vermelhas nas cabeças ou braços. em si- Eles já terão protegido o caixão. que em
nal de luto. alguns casos será desenhado e decorado de
acordo com as preferências manifestadas em
19. Por sua vez. as crianças pequenas terão vida pelo falecido.
suas cabeças raspadas e lambuzadas de pó ver-
melho. Caberá a elas anunciar. ruidosamente. 25. Depois da última libação. a família coloca-
que nenhuma abstinência precisa ser observa- rá o corpo no caixão. depositando. junto com
da. já que seu parente falecido foi tão distinto ele. outros objetos e valores. como pó de ouro
em vida. teve tantos descendentes. que todo ou dinheiro. alimento e bebida.
mundo se rejubila em tê-lo como ancestral.
26. Um parente materno deverá proceder à
20. Durante todo o tempo. entretanto. as car- libertação do kra da linhagem. e um parente
pideiras chorarão e gemerão incessantemen- do lado paterno comandará a procissão até o
te. recitando os versos da tradição. cemitério. ao som de cânticos e ao ritmo dos
tambores. seguida pelas crianças. parentes
21. O velório se estenderá da noite até o cre- e convidados.

Mina I t8t
27. O enterro será realizado no terceiro dia. 35. Os ossos principais serão adornados com
no cemitério do clã ou em terreno do grupo. fios de ouro; o sarcófago será revestido de ve-
num sarcófago hexagonal confeccionado ludo preto e enfeitado com discos de ouro.
em madeira.
36. O ataúde permanecerá aberto. para receber
28. Os chefes das famílias. dos clãs e das oferendas durante as festas do Adae e da Odwira.
tribos serão sepultados debaixo de seu an-
tigo leito e os omanhene e axantihene. em 37. Depois do enterro. as lamentações sole-
mausoléus. nes ainda poderão continuar por vários dias.
enquanto os parentes se reúnem para fazer o
29. Enquanto os coveiros forem jogando terra inventário dos bens e liquidar as contas do
sobre o sepulcro. os familiares e parentes fa- morto e dos funerais.
rão as lamentações rituais e preces para a
grande viagem. 38. Quinze dias depois do enterro. nos dias
mais propícios da semana serão realizadas as
30. Concluído o sepultamento. o túmulo será exéquias. Estas celebrações poderão repetir-
regado com vinho e sangue de uma ovelha sa- se em quarenta e oitenta dias e um ano após
crificada e sobre ele será colocado um boneco os funerais.
de madeira ou barro representando o defunto.
39. Nelas. os familiares. amigos e convidados
31. No caso de morte ocorrida em circunstân- dançarão. cantarão. conversarão e beberão
cias que impediram a celebração das cerimô- vinho e cerveja, além de fazerem as lamenta-
nias necessárias. o kra pode transformar-se ções rituais.
num sasa. a alma que reencarna num animal
ou planta ou um espírito desassossegado. 40. Cada chefe de aldeia determinará. segun-
do o costumes. as normas relativas a formas
32. Os mortos por acidente. assassinato ou de luto. restrições sexuais. purificações e
suicídio não podem ser sepultados no cemité- abluções rituais.
rio do clã; devem ser enterrados fora da al-
deia. sem ritos e sem luto. 41.0s mais velhos diziam que "os funerais de
sangue real nunca terminam". E quando di-
33. O mesmo vale para os homens ou mulhe- ziam ·sangue real' estavam se referindo aos
res sem filhos e também para as crianças que nasciam de ancestrais livres. odehye. ao
mortas antes de oito dias de nascidas. contrário dos estrangeiros e escravos.

34. Nos funerais dos omanhene e principal- 42. As viúvas e viúvos devem manter luto por
mente dos axantihene. antes do enterro. o um ano. vestindo roupas pretas e fitas verme-
corpo deverá permanecer oito dias num lugar lhas. As viúvas deverão isolar-se. sendo assis-
especial, tratado com uma substância desti- tidas por mulheres mais velhas. Ao fim de três
nada a separar os ossos da carne. meses de luto. tanto os homens quanto as mu-

182 I Kitábu
lheres deverão executar abluções rituais, se pode restaurar novamente a normalidade das
possível no mar, como os fantes, porque o es- coisas.
pírito do mar. Bossompo, é muito poderoso e

CAPiTULO 16 Os pOVOS do Calabar*


I - Os povos ibibio e efik tudo pode. Entretanto, dentre os Abassi. há
1. O povo efik vive no sudeste da atual Nigéria um que está mais próximo dos humanos.
e é estreitamente ligado. pela língua e pela Abassi Obumo; de tão distante, nem precisa
cultura, ao povo ibibio. Sua organização social de alimento.
é tradicionalmente baseada em grupos fami-
liares e de aldeias, sob a orientação de conse- 2. O mundo nasceu de Abassi Obumo ou Ete
lhos de anciãos. Abassi., que é o pai da Humanidade; e de Eka
Abassi. a mãe. Eka Abassi é também lsón. a
2. Nesta organização, a sociedade ekpe (entre Mãe Terra, que garante a fertilidade dos plan-
os ibibios. ekpo), de culto aos ancestrais. re- tios e das mulheres.
presenta papel extremamente importante.
Ela será sempre a responsável pela proteção 3. Então, cada casa precisa ter, na frente, o
da comunidade contra o infortúnio. isu Abassi, assentamento conjunto que repre-
senta os dois.
3. A sociedade ekpe é exclusivamente mascu-
lina. Às mulheres é reservada a ufok nkuho, 4. A cada oito dias deve-se fazer oferendas ao
casa de embelezamento e instrução, onde as isu Abassi. Nas festas dos inhames novos. das
moças são recolhidas antes do casamento. primeiras colheitas, deve-se oferecer sacrifí-
cio a Obumo.
4. No período compreendido entre os séculos
XVll e XIX ,muitas aldeias dos efiks tornaram- 5. Todo ser humano recebeu de Abassi o chi,
se movimentados centros de comércio e, evi- definidor de suas qualidades pessoais e res-
dentemente, de tráfico de escravos. ponsável pelas ocorrências de sua vida. Além
do chi. a pessoa possui também o dindi. que é
5. O principal centro foi a região do Velho a sua alma. Outro elemento constitutivo do
Calabar, que englobava Atakpa, Obio Oko e ser humano é o ukpong, cuja separação defi-
outros lugarejos. nitiva do corpo confirma a morte. O ukpong é
passível de ser roubado, principalmente por
11 - O mundo espiritual meio da manipulação da sombra, nkene, que é
1. Existe uma força superior, impessoal. em a sua projeção física, na forma do corpo.
virtude da qual o homem pode adquirir um
caráter firme e decidido. Esta força é Abassi, 6. Para sua proteção e bem-estar, a pessoa
Obassi ou Chi. a divindade mais velha, que deve reverenciar também os ndem, espíritos

• Segundo Sosa. 1984; Pérez Pérez. 1993.

Mina I 183
da natureza, que são guardiões de aldeias e Os antepassados também falam por meio dos
protetores de clãs, além de patronos de ativi- mascarados que os representam, e que pos-
dades ou de fenômenos, da natureza e da vida. suem funções de caráter coletivo e sagrado,
no estabelecimento de elos entre os vivos e os
7. Por exemplo, Mbian é o dono da verdade e fundadores dos primeiros clãs.
castiga os que juram falso; Ndidip evita a con-
cepção de filhos gêmeos; Anansa, que mora 13. Os familiares também poderão ter conta-
na paineira gigante, é o dono da bondade, das to com seus antepassados por meio dos
boas ações, e o protetor por excelência. maws, pessoas especialmente preparadas
para recebê-los em seus próprios corpos.
8. Os antepassados também precisam ser ve- Estes rituais, entretanto, devem permanecer
nerados, pois são os donos do solo e guardiões secretos, disfarçados em pantomimas e dan-
dos costumes. Eles vivem em estreito contato ças dramáticas. Quem revelar os seus segre-
com as divindades, tomam conta de seus des- dos cometerá uma falta muito grave, passível
cendentes e podem socorrê-los em suas ne- de punição extremamente severa.
cessidades. Sem sua ajuda, nenhum empreen-
dimento terá êxito. 14. Não será feita nenhuma prática ritual sem
água. Afinal, por sua universalidade e força, a
9. Mas os espíritos dos mortos que integral- água é a mãe, suave e generosa. Ela serve para
mente cumpriram sua vida terrena só regres- limpeza tanto espiritual quanto corporal. mata
sam em casos excepcionais. Aqueles, contu- a sede e aplaca o calor do corpo. Além disso,
do, que morreram de forma violenta ou foram na água mora o peixe, símbolo da abundância.
retirados do mundo dos vivos por alguma ra-
zão especial. ficam vagando e incomodando os 15. O Mal (ojje para os ekoi; ifot para os efik)
vivos, até a sua hora de partir. mora na floresta e é o maior e mais temido
inimigo da humanidade. No entanto, os ndems
10. Os sacerdotes e chefes, de aldeias e de clãs estão ao nosso lado para fazer face a ele. A
são os porta-vozes e representantes dos ante- bruxaria é a ação maléfica natural exercida
passados. Os grandes chefes vivos constituem por pessoa que possui um poder maléfico de
a reencarnação de antepassados ilustres. nascença. A feitiçaria é a utilização das forças
maléficas mediante a aplicação de determina-
11. O chefe, por meio de ritos diários, estabe- dos instrumentos e processos.
lecerá relações com os antepassados e com
as divindades, de modo a garantir o bem-estar 16. Mas a floresta também é a morada das
de seu povo. plantas, que merecem respeito e reverência,
pela proteção que oferecem e por serem mora-
12. As divindades e os antepassados falam das de espíritos da natureza e de antepassa-
por intermédio de oráculos. E quanto maior dos. No Calabar, existiu um povo que foi extin-
for o grau de complexidade das instituições do to só porque deixou que tombassem a paineira
grupo, mais complexos serão seus oráculos. onde moravam seus espíritos protetores.

184 I Kitábu
17. Quando se funda uma aldeia. sempre se 2. Outros pescadores viram e ouviram o
deve plantar uma árvore em cada quintal fa- mesmo em outras partes do rio. E em alguns
miliar. uma para cada chefe. Árvores de gran- lugares. o Grande Poder aparecia em forma
de força são. por exemplo. o ogbô . entre os de um peixe.
iorubás. akokô; o egbo ou isin. o arakara. pe-
regum; o akpo. sumaúma; e o awha. A game- 3. Era a reencarnação do velho rei Obon
leira é habitada por muitas divindades propi- Tanze. cuja aparição. trovejando no rio para
ciadoras da fertilidade feminina. A sombra de mostrar seu poder. cumpria uma profecia.
certas árvores protege contra inimigos e ma- Sua estranha voz. seu profundo bramido. era
lefícios aos que cresceram próximo a elas. a voz de Abassi. a divindade suprema.
Mas elas também precisam ser agradadas
com sacrifícios e oferendas. sob pena de ne- 4. Nangobié de Efok. o mais velho e mais sá-
garem alimento e proteção. Muitas outras bio dos nasakó. sacerdotes superiores. velava
plantas prestam-se a diversas utilizações.
noite e dia. sozinho. observando os amplos e
tanto medicinais quanto utilitárias.
velozes movimentos do peixe. ora aqui ora lá.
nadando no rio Oddán.
18. O óleo extraído do dendezeiro conserva o
sangue fresco e puro. Algumas árvores espe-
5. Nangobié era um poderoso sacerdote de
ciais fornecem madeira para os cetros e bas-
Abassi. Possuía o dom da visão dupla. enxer-
tões de mando que. ao passar de pais para fi-
gava coisas ocultas. via os espíritos. E era
lhos. crescem em força vital, pela soma da for-
paciente.
ça da árvore com o acúmulo de força de seus
sucessivos donos. Da mesma forma. muitas
6. Mas em Efok. os magos Nasakó e ltaro tam-
árvores conferem força às pessoas por meio
bém permaneciam atentos. E procuravam atrair
de seus nomes. usados como nomes próprios.
os poderosos espíritos de Oddan. antepassados
19. Quanto aos animais. o elefante. o crocodi- reencarnados no peixe. no crocodilo e na ser-
lo. a serpente píton. o leopardo. peixes. aves. pente. A tribo que se tornasse dona do peixe
por exemplo. são seres cujas características seria a dona da prosperidade e da salvação.
devem ser admiradas e imitadas. E algumas
partes de seus corpos devem ser usadas em 7. Nasakô era protegido por Mokuire. o guer-
práticas e rituais de acrescentamento de for- reiro mais valoroso e o homem mais respeita-
ça vital. de energia. do de sua tribo. Ele tinha uma filha.
Anabionké Sikaneka. que todo dia ia ao rio
11I - O peixe maravilhoso deixando lá uma cabaça vazia e trazendo
1. Certa vez. quando recolhia sua nassa. um outra cheia d'água.
pescador efik ou ibidio estremeceu ao ouvir
Uyo. a voz sagrada. e sentir que. do fundo das 8. O caminho que conduzia ao rio era guarda-
águas. subia o Grande Poder. assoviando. ora do por Abere. Aberifían e Aberisun. filhos
se aproximando. ora se afastando. trigêmeos albinos de Ekerekwá.

Mina I 185
9. Um dia, no espelho do seu ntubikán, seu ins- maravilhoso. o primeiro Ekwé, o primeiro fun-
trumento de "olhar", adivinhar, asakô viu que damento. calou-se e morreu.
o peixe não estava no rio. Mandou Mokuire ir
até lá para afastar sua filha Sikaneka que foi de- IV - Tentativas para recuperar
fendida pelo pescador Eribangandó. a voz do peixe
1. Assim. tentaram de tudo para fazer Ekwé
10. O peixe estava dentro da cabaça de água reviver e voltar a falar: purificação com as se-
que Sikaneka, também chamada Sikan, levava te ervas, defumação com incenso da costa.
na cabeça. Quando ele assoviou "Ekwé! Daí se originam os primeiros ritos.
Ekwé!", a cabaça tornou-se sagrada e ela
passou a ser a portadora da força que engran- 2. Ajudantes de Nasakó, os kunansas levaram
deceria o povo Efok. o peixe para o rio. tiraram sua divina pele, a
estenderam sobre uma pedra e a deixaram se-
11. Quando seu pai chegou, Sikán tremia. sem car ao sol. Mais tarde, Nasakó a levou ao tem-
saber o que estava ocorrendo. sem saber se a plo dos karabalio okambo (ancestrais caraba-
voz Ekwé saía de dentro do rio, da cabaça ou lis) e cobriu a cabeça de Sikán com sua pele.
do vento.
3. Em Ubane. terra efik, Nasakó fez a primei-
12. Assim. Mokuire tornou-se o abanekwe kan ra consagração. Recebeu o juramento dos se-
kan, o primeiro a testemunhar o advento de te chefes das tribos de Efok. O íreme Nkóboro
Ekwé. o primeiro a ver e ouvir o mistério, o presenciou essa consagração e a referendou.
que nunca morre. o porta-estandarte. a justi-
ça maior. com direito ao poder absoluto e ili- 4. Mas o espírito que vinha do vento era fra-
mitado da força e da justiça. a serviço da for- co. E a voz de Tánze era apenas uma lembran-
ça oculta de Ekwé. ça de sua voz.

13. O povo de Efok recebia o segredo. Uma 5. Foram realizadas várias outras tentativas
serpente se enredou na cabaça; o dia se fez para fazer Tánze falar: carapaças de tartaru-
noite. Mokuire pegou a cabaça. recostou ga, peles de cobra e de cotia. couro de croco-
Sikan na palmeira e quando ela se acalmou. dilo, de veado, de carneiro ... Mas todo esfor-
levou-a até o iriongo. o santuário de Nasakó. ço era em vão.

14. O sacerdote constatou que se tratava 6. Um congo que tinha ouvido. em sua terra. a
realmente do segredo. do desejado. anunciado voz de Tánze, certo dia chegou à terra de Efok.
pela profecia. Então. preparou as sete ervas E: foi sacrificado. E tentaram fazer Tánze falar
purificadoras e consagrou o peixe. com sua pele. Mas nada aconteceu.

15. Nasakó. no entanto. queria o segredo só V - O sacrifício de Sikán


para si. Assim. manteve Sikán incomunicável. 1. Resolveram então reanimar Tánze com o
Em decorrência dessa atitude. Tánze, o peixe sangue de Sikán. que deveria atrair e segurar o

186 I Kitábu
espírito de Obón Tanze. Porque Ekwé é o prin- feito de Úyo. o divino. o fundamento. a voz sa-
cípio do castigo e da obediência. Sua voz impõe grada. Era o enorme bode Mbori Abasi Mendó
silêncio e respeito. Ele é o tambor da Justiça. Kairán Mboire Aterimá Ekwé. Seu sangue ti-
nha o mesmo valor do sangue humano.
2. Mas Sikán não era uma escrava. e sua mor-
te (ou melhor. sua imortalização) teria de ser 3. Seu sangue e sua carne serviram não só
ocultada. Assim. Nasakó convocou sete chefes para a comunhão ritual mas também para
dos efoks para ratificar seu gesto de imortali- oferendas ao mato e ao rio. E é por isso que
zar Sikán. E assim foi feito. ao consagrar-se na religião. todos os fiéis têm
de apoiar suas mãos sobre o couro divino.
3. O executor do sacrifício seria Mokongo. que
disse a ela: "Serás Sikán Kien. poderosa e sá- 4. Assim se construiu Ekwé. Assim chamou e
bia. Agora. vendaremos teus olhos e depois dominou os espíritos a bruxaria de Nasakó.
verás o Segredo." De Tánze. do Grande Poder na cabaça. nasceu
Mpegó. o íreme que ordena que se executem
4. No rio. depois das purificações. Sikán foi as ordens de Mokongo. pois é seu secretário.
estrangulada. Seu espírito foi pelo ar ao rio.
para reunir-se aos grandes e para ser grande 5. Da cabaça nasceu Ekwé. Iyamba. o rei da
na água. a mãe dos espíritos. de onde nasce- nação abakwá. tomou um ramo da palmeira
mos e para onde voltamos. que estava perto do rio e o esfregou contra o
couro do bode Mbori. Ekwé bramiu. roncou.
5. Sikán partiu para voltar. para dar vida e Abassi falou no iriongo. na camarinha. Os
ser adorada. Para parir abanekwes. Para ser ekois ouviram sua poderosa voz. Sem ele não
a eterna dona do Ekwé. há Ekwé. tambor de três patas como a cauda
de Tánze. o peixe sagrado.
VI - A substituição do peixe por Mbori
1. Tánze. contudo. não revivcu no sangue de 6. A partir daí, a sociedade se expandiu por
Sikán. Sua pele não serviu para transmitir a outras regiões e tribos.
voz de ekwé.
7. E chegou até as Américas. onde. em Cuba.
2. Entretanto. Nasakó Finalmente encontrou o a Sociedade Abakuá. dos íiaíiigos cubanos.
substituto necessário para fazer o órgão per- mantém viva a chama do culto a Ekwé.

CAPiTULO 17 Mina - Provérbios


1. Os provérbios são Filhos da experiência. 3. Um homem sábio. que conhece provérbios.
supera todas as dificuldades.
2. O provérbio é o cavalo da conversa: quan-
do a conversa fica cansada. o provérbio a 4. A chuva lava a pele do leopardo. mas não
carrega na garupa. remove as pintas.

Mina I 187
5. Árvore Que já foi Queimada é mais fácil de 21. O rico e o pobre. num jogo. não são par-
derrubar. ceiros jamais.

6. Quem conhece o seu marido é a mulher. 22. O rio de águas tranqüilas. esse é que é
mais perigoso.
7. Só depois de atravessar o rio é Que se pode
rir do crocodilo. 23. Seguindo a trilha do pai. se aprende a an-
dar como ele.
8. Quem está se escondendo não acende fogo.
24. A mulher quando tem fome. pede comida
9. Uma mentira só estraga mil verdades. para os filhos.

10. Homem rico pode vestir roupa velha. 25. O que é má sorte para um é boa sorte
para outro.
11. Sea floresta te abriga. não a chame de "selva".
26. O tolo. ouvindo um provérbio. tem que ou-
12. A fome tanto dá no escravo quanto no rei. vir a tradução.

13. A lua se move lentamente. mas atravessa 27. Quem não pode dançar. diz que a música
a cidade. é ruim.

14. A ruína de uma nação começa nas casas 28. Quem vive dando banquete não vai nunca
do seu povo. ficar rico.

15. Quando o galo está bêbado. ele esquece 29. Quem trabalha por dinheiro nunca se en-
do gavião. vergonha dele.

16. O ódio é uma doença sem remédio. 30. O dinheiro é traiçoeiro feito espada de
dois gumes.
17. Se alguém já vem vindo. pra quê dizer "ve-
nha cá"? 31. O rico é sempre odiado; e o pobre.
desprezado.
18. Mesmo forte e vigoroso. nenhum velho du-
ra muito. 32. Macaco velho casa é com macaca velha.

19. Um rei com bons conselheiros. o seu rei- 33. O fogo e a pólvora não dormem na mesma
nado é de paz. esteira.

20. Quando o bobo aprende o jogo. os jogado- 34. Não se vê se um rio é fundo botando nele
res já se foram. os dois pés.

188 I Kitábu
35. Dois antílopes pequenos podem bater 52. Ver é muito melhor que ouvir.
num maior.
53. O mal sabe onde o mal se esconde.
36. Senão houvesseelefante. o búfalo seria o rei.
54. Quem está doente do corpo nunca rejeita
37. O filho do caranguejo nunca vai ser pas- remédio.
sarinho.
55. Atrás de todo homem rico há sempre um
38. Quem não pesca peixe. come pão puro. grande cortejo.

39. Depois de a ave crescida. não dá pra mu- 56. O doente agonizante não tem remédio que
dar seu vôo. o cure.

40. Discussão demais é briga certa. 57. Tem ave que evita a água; pato não vive
sem ela.
41. Carinho só é bom de parte a parte.
58. () dia em que alguém partiu não é dia de
42. Amizade pra ficar é a que recebe e dá. boas-vindas.

43. Se não tem dois não tem briga. 59. () telhado protege a casa; mas ele nem
sabe disso.
44. Dois sabores na cuia confundem o paladar.
60. Quem não tem olhos diz que olhos chei-
45. Quem fala sem parar fala besteira. ram mal.

46. Um pequeno bolor estraga toda a massa. 61. Quem vai nos ombros dos outros não sen-
te a longa distância.
47. Mosquito morde o vizinho. mas nunca vai
me picar. 62. Quem se livra do cupim não está livre da
formiga.
48. Um filho desnaturadodesonrao nomeda mãe.
63. A pedra do rio não sabe como a da monta-
49. Chuva fina. mas constante. faz o rio trans- nha é quente.
bordar.
64. Caolho quando vê um cego dá graças a
50. Quem faz casa na floresta não mede o Deus.
tronco que usa.
65. As pernas dos outros não te ajudam a viajar.
51. O dendezeiro já está grande; mas quem
sabe se vai dar bons frutos? 66. Boas palavras não enchem barriga.

Mina I 189
67. Se o touro vem pra cima, deite-se! 83. Uma remada aqui, uma remada ali, a ca-
noa vai seguindo.
68. O gavião voa alto, mas sempre volta pra
terra. 84. Por mais cheio que esteja o terreiro, a ga-
linha sempre se ajeita.
69. A quem levanta muito cedo, o orvalho mo-
lha a cabeça. 85. Um macaco é que entende o outro.

70. Quando o rato ri do gato. há um buraco 86. Quem trepou numa árvore não desce de
por perto. outra.

71. Criança falou bobagem. é por que ouviu 87. Peixe grande se pega é com grande isca.
em casa.
88. Quem recusa presente não enche o celeiro.
72. Quem põe navalha na boca acaba cuspin-
do sangue. 89. As brigas acabam, mas as ofensas nunca
morrem.
73. Não saber é ruim; não querer saber é pior.
90. Se só caiu um cabelo. ainda não é careca.
74. Quem atira. antes mira.
91. Quem desarruma tem que saber arrumar.
75. Quem está em maus lençóis sempre se
lembra de Deus. 92. A vaca só pasta onde está amarrada.

76. Carne não come carne. 93. Laranjeira nunca vai dar limão.

77. Antes de curar os outros, cura-te primeiro! 94. Abra a sala às visitas e elas virão para o
quarto.
78. O pastor não maltrata suas ovelhas.
95. Comida boa acaba logo.
79. Por mais que um pássaro beba, um ele-
fante bebe mais. 96. Cabeça de elefante não é pra criança
carregar.
80. Primeiro cresce a cabeça. depois é que o
chifre nasce. 97. O homem que te transporta. se tem catin-
ga. ignore'
81. O tempo tudo destrói.
98. Cachorro que anda é que encontra osso.
82. A terra é a rainha das camas.
99. Tentar e falhar não é preguiça.

190 I Kitábu
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LIVRO 3 TAKRUR
A

E SENEGAMBIA
Introdução

Takrur ou Sudão era o nome que designava,


à época da escravidão negro-africana.
a vasta região que se estende ao sul do
Saara. desde a bacia do Nilo superior.
a leste, até o oceano Atlântico. a oeste.
A parte sudoeste da região constituía
a Guiné e a parte ocidental formava a
Senegâmbia. cujos limites eram. ao norte,
o rio Senegal. que a separava do Saara:
a oeste. o Atlântico: e ao sul o Uângara.
Os nativos denominavam a região pelo
nome Takrur e os árabes a chamaram
Sudão ("terra dos negros"). denominação
que mais tarde se aplicou especificamente
à região entre a Núbia e o Egito.

CAPiTULO Os mandingas
I- o país Mandi baras são os únicos mandingas autóctones. já
1. O país Mandi. Mandê ou Mandeu é a pátria que todos os outros vieram do leste. Como
dos povos mandingas, construtores do grande aqueles chefiados por Lawalo. filho de Bilali
império do Antigo Mali. Sob o nome mandin- Bunama. fiel servidor do profeta Maomé. e
ga. incluem-se vários povos aparentados. fa- grande antepassado do clã dos Keita.
lantes do mandê e seus dialetos. entre eles os
mandinkas. diolas, kurankos, konos. vais e 2. Bilali Bunama teve sete filhos. entre eles
os bambaras. Lawalo. que veio de Meca para o país Mandi.
Lawalo gerou Latal Kalabi. que gerou Damal
2. No século XVII. os bambaras. aliados aos Kalabi que gerou Lahilatul Kalabi. o primeiro
fulânis. edificaram o poderoso reino de Segu. rei negro a fazer peregrinação à cidade santa.
A palavra bambara significa infiel, pagão. E o viagem na qual passou sete longos anos.
nome foi dado a eles em função de sua forte
resistência à islamização. 3. Depois de sete anos de ausência de seu
país. passando toda espécie de privações. o
11 - Mamadi Kani. o caçador rei Lahilatul Kalabi. afinal. pôde regressar
1. No começo dos tempos. o país Mandi era ao Mandi, onde todos já o davam como
uma província dos reis bambaras. Os bam- morto. Mas. graças a Alá todo poderoso. os

192 I Kitábu
seus súditos o reconheceram e o reconduzi- de sua conversão. Ao seu clã. sucedem-se no
ram ao trono. comando do país o clã dos konatês e o dos kei-
tas. a que pertenceu o caçador Mamadi Kani.
4. Lahilatul Kalabi foi pClide Kalabi Bomba e
Kalabi Dauman. Kalabi Bomba gerou Mamadi 2. Um dia, entretanto, os keitas se mudaram
Kani que foi um grande rei caçador. Os caça- de Narena para Dodugu e. um deles. Narê I"a
dores mandingas são também grandes adivi- Magham. casou-se com uma filha dos konatê
nhos. Nos seus alforjes. carregam sempre os e. aliado aos traorês. venceu os familiares de
12 cauris da adivinhação e a areia em que sua mulher. tornando-se imperador dos
traçam os sinais misteriosos pelos quais as mandingas.
divindades falam. e que só os caçadores sa-
bem interpretar. 3. Entretanto. algum tempo depois, Dangaran
Tuma. filho e sucessor de Narê I"a Magham.
5. Mamadi Kani, grande caçador e adivinho. perdeu o controle do Mandi para o rei dos
foi o inventor do simbon. o apito com que os sossos, Sumaoro Kante. que havia submetido
caçadores se comunicam com os gênios da o Gana. Sumaoro exterminou toda a família
Floresta: e do juramento que todo caçador tem real, da qual só se salvou um menino aleijado.
de prestar. na sua iniciação. Mamadi Kani era
íntimo desses gênios e a mata para ele não 4. O menino permaneceu deficiente até os dez
tinha segredos. porque era o mais querido de anos de idade. Mas um dia, sozinho, ficou de
Kondolon e Sanê. pé. apoiado em duas barras de ferro que se
vergaram ao seu peso. Diante desse fato, um
6. Kondolon e Sanê são as inseparáveis divin- sábio sugeriu que lhe dessem o cetro de seu
dades da caça. Eles estão sempre juntos e em pai para que com ele se erguesse, o que mira-
todos os lugares ao mesmo tempo. tanto que culosamente aconteceu. Nascia aí a saga de
são invocados como Kondolon Ni Sanê. como Sundiata Keita. Sogolon Djata au Mari Djata,
se fossem um só. Além de guardar a savana e o "Principe Leão", grande herói unificador do
a floresta. Kondolon Ni Sanê é o símbolo da povo mandinga e fundador do Mali. do qual foi
amizade e da união. E é ele que dá ao caçador o primeiro Mansa, imperador.
a boa noz-de-cola. o bom tabaco e o bom mel.
5. Subindo ao poder com cerca de vinte
7. Mamadi Kani foi pai de Bamari Tanhogo anos. em 1240, depois de um longo exílio.
Kelin. pai de M'Bali Nenê. pai de Bello. que Sundiata anexou o Gana e reorganizou seu
gerou Bello Bakon. que gerou Maghan Kon império. criando um novo e bem-sucedido sis-
Fatta ou Narê Fá Maghan. tema de governo, até morrer, depois de 15
anos de glórias.
11I - Sundiata. o Príncipe Leão
1. Cinco séculos depois do Profeta. no Mandi. IV - Mansa Mussá e Suni Ali
o mClnsa Nonn Tiraura converteu-se à fé de 1. Cinqüenta anos depois de Sundiata, sob o
Alá e recebeu o nome de Traore. designativo reinado de Abu Bacar I. o Mali conquista Gao,

Takrur e Senegâmbia I 193


capital do reino Songai. Mais tarde, o Mansa Leão, o Africano, mouro de Granada, impres-
Kanku Mussá, que governou de 1312 a 1337, sionou-se com Tombuctu, suas universidades
fez sua célebre hadi, piedosa peregrinação a e escolas corânicas e, com a difusão do saber
Meca, com um séquito de 60 mil pessoas e por meio de obras literárias vindas da Berbéria.
levando 2 mil toneladas de ouro.
3. No decorrer do governo do Askia Ishaq I
2. De volta, o Mansa Mussá trouxe para o (1530-1532), começam as investidas do Mar-
Mali uma comitiva de sábios e arquitetos, com rocos, que acabam por aniquilar o grandioso e
os quais consolidou o maior império islâmico legendário Império Songai.
africano de seu tempo e difundiu a palavra de
Alá do deserto à floresta. 4. Mas a história do reino ainda veria um
grande governante, na pessoa do último filho
3. Nesta viagem de volta, o Mansa Mussá passa de Muhammad Turê, o Askia Daud, que reinou
por Gao, mandando lá erigir uma mesquita, e durante 33 anos, de 1549 a 1582, fazendo do
leva para o Mali os filhos do rei, para melhor Império Songai de Gao um Estado forte e
instruí-los na doutrina islâmica. Em 1335. um muito bem organizado. Após a reconquista da
destes príncipes, Ali Kolen, rompe com o Mali, Península Ibérica pelos católicos, exércitos
liberta seu povo e sucede seu pai com o título vindos da Espanha, com infantaria, cavalaria
de Suni ("Chefe", "Salvador"). e artilharia iniciam a destruição dos grandes
impérios africanos.
4. Subindo ao trono de Gao em 1464, o Suni
Chi Ali Bel' se destaca como um dos maiores VI - Os bambaras
reis-guerreiros da História. Corajoso e inteli- 1. Os bambaras, descendentes do povo do
gente, expande seu Império, chegando até o Antigo Mali, são os construtores dos reinos de
Daomé e subjugando o Mali. O Suni Ali foi Segu e Kaarta.
muçulmano sem abjurar a religião tradicional
e o culto aos antepassados. Sempre vencedor, 2. Seu nome significa "infiel", por força de sua
jamais vencido, ao final de sua missão terre- histórica resistência ao Islã. Com base nesta
na, em 1492, foi levado vivo pelos deuses. resistência, os bambaras fortaleceram o culto
às divindades de seus ancestrais, como Ntomo,
v- Os Songais de Gao espírito protetor dos meninos; Kore, o espíri-
1. Ao Suni Ali sucede o Askia Muhammad to das águas; e Faro, responsável pela justiça
Turê. De volta de uma também faustosa hadj e pelo trabalho.
a Meca, este piedoso soberano empreende uma
jihad, em nome de Alá, ampliando as fron- 3. No século XVI. a região do atual Mali com-
teiras de seu império e conquistando os esta- preendia vários pequenos estados, inclusive
dos hauçás de Gobir, Kano e Katsina e o reino Kaarta, com capital em Nioro, e Segu, Bambuk
Mossi, no Gana. e Burê.

2. Durante seu reinado, em 1510, o geógrafo 4. O estado Bambara de Segu, por meio de

194 I Kitábu
seu poderoso exército. controlava as rotas de 6. No século XVIII. a guerra santa do líder
comércio da região. fulâni Osman Dan Fodio completou a isla-
mização de quase todo o país mandeu. Mas os
5. Por volta de 1750. sob a liderança de Mamali bambaras permaneceram fiéis à religião dos
Kurubali. os bambaras estenderam seu poder seus ancestrais.
de Bamako a Tombuctu.

CAPiTULO 2 O mundo espiritual dos mandingas*


I - Nascimento 5. Primeiro. o ali mamo vai raspar uma pe-
1. Quando nasce uma criança, a primeira coi- quena parte do cabelo da criança. Depois,
sa que o pai deve fazer é procurar um nome murmurará a competente oração, sacralizan-
para ela. Mamadu. Malam e Lamine são for- do as cabaças que contêm os alimentos ceri-
mas do nome do Profeta. Assim como Buba- moniais. Enquanto ele rezar a oração, cada
cal', Umaru. Ossumane e Aliu são formas dos um dos presentes tocará a beirada de uma
nomes dos quatro primeiros califas. das cabaças, saudando o alimento.

2. Do mesmo modo Que Adama. Buraima. Su- 6. Então. o alimamo proferirá as rezas volta-
maila. lacupo. Mussé, Issufo. Dauda, Sulei- do para a criança, pedindo a Alá Que lhe dê
mane, laiá e Issa são, respectivamente, for- vida longa, fértil, próspera e honrada, para
mas mandingas para os nomes de Adão, orgulho e alegria de sua família, de sua tribo
Abraão. Ismael, Jacó. Moisés. José. Davi, e de sua aldeia. Pede. ainda, que lhe dê força
Salomão, João e Jesus. Entre os nomes femi- física e espiritual para honrar o nome Quevai
ninos, Fatumatu. Fatu, Fanta e Sinta são receber.
variantes mandingas do nome de Fátima. filha
do Profeta. Kadijatu evoca o de Kadidja, sua 7. Feito isso, o pai tomará a criança dos
primeira mulher. Auá e Mariamo traduzem os braços da mãe e a mostrará a todos os pre-
nomes de Eva e Maria, mulheres primordiais. sentes, levantando-a bem alto. Ato contínuo,
sussurrará três vezes em seu ouvido o nome
3. O nome procurado deve ser rico de sig- Queescolheu para ela, porque um ser humano
nificado e esperança. pois toda criança irá deve ser sempre o primeiro a saber quem é.
desenvolver sete das Qualidades presentes na
pessoa ou na coisa de que vai tomar empres- 8. Depois, o pai sussurrará o nome da crian-
tado o nome. ça, seguidamente, ao ouvido da mãe, ao ouvi-
do do arafang. Este, então, rufando seu tam-
4. Escolhido o nome, ele deverá ser dado à bor, o anunciará bem alto para toda a comu-
criança, numa bela cerimônia, comandada nidade, recitando em seguida toda a linha
pelo alimamo e ao som do tambor djolibá . genealógica do recém batizado.

• A p~rtir de Haley. sld: P~ques. 1054

Takrur e Senegâmbia I 195


9. No oitavo dia após o nascimento, alta noi- movimento. E o gna se movia incessantemente.
te. o pai levará a criança até o ar livre e a Até que deste vazio saiu uma voz. E esta voz
apresentará ao céu e às estrelas. Para que ela criou o duplo do gna. formando um par.
saiba que apenas o espaço infinito é maior
que ela. 2. Após uma série de movimentos e fricções,
produziu-se entre o gna e seu duplo uma ex-
11 - A morte plosão. E esta explosão espalhou uma matéria
1. Quando morre uma pessoa, a primeira pro- dura, potente e vibrante.
vidência cabe às moças solteiras da comuni-
dade. que devem preparar a cena do velório. 3. A matéria que se espalhou foi o zô soumalé.
varrendo e limpando o quintal. a ferrugem original, que formou corpos duros
e brilhantes.
2. Os homens deverão cortar e preparar o
tronco que servirá, ao mesmo tempo, de cata- 4. Mais tarde. do gna destacou-se a consciên-
falco e de esquife. Pronto, ele ficará no quin- cia humana, que veio colocar-se sobre as coi-
tal, dian te da casa, para receber o corpo, já sas e lhes despertar a autoconsciência, atri-
completamente envolto em panos brancos. buindo-lhes nomes.

3. No decorrer do velório. de tempos em tem- 5. No curso deste processo de criação, surgiu


pos. grupos de pessoas presentes deverão dar o espírito atuante Yoe mais 22 elementos fun-
sete voltas em torno do corpo. dançando e damentais. F'oram estes elementos - 22 espi-
cantando as virtudes do falecido. rais - que agitaram Yo e deram nascimento ao
som, à luz, a todos os seres. a todas as ações
4. O ali mamo fará as rezas de estilo. enco- e a todos os sentimentos existentes.
mendando a alma para que ela faça. sem pro-
blemas. a jornada que a levará à Eternidade. 6. À medida que isso acontecia. ocorria uma
ao encontro de seus ancestrais e de Alá. seqüência de desordens seguidas de rearru-
mações. Sempre com o ser humano desem-
5. O velório deverá durar pelo menos até a penhando a tarefa mais importante.
manhã do dia seguinte, quando um pequeno
grupo de homens. no número apenas necessá- 7. Então. o espírito Yo deu à luz duas forças
rio, levará o corpo para ser sepultado. A cova primordiais: Faro e Pemba. F'aro. a senhora
deverá ser coberta apenas com uma esteira. do Verbo, percorrendo um trajeto bem orien-
Mas, por cima dela, serão colocados arbustos tado. construiu os sete céus. correspondentes
com espinhos. para evitar a ação de animais. às sete partes da Terra.

11I - A criação do mundo segundo 8. F'aro também foi quem deu nascimento a
os bambaras Teliko. o que realiza com rapidez o espírito do
1. No início, só havia o gna. o ar. o ninho onde o ar. E sob a forma de água. espalhou a vida
universo foi gerado, um vazio original dotado de pela Terra e criou um casal de gêmeos. Da

196 I Kltábu
união destes gêmeos, nasceram os bozos, Mussô Koroni revelara aos homens o segredo
primeiros habitantes das águas. das técnicas agrícolas,

9. A outra força. Pemba. deslocando-se em 16. Sozinho, insatisfeito com o amor das mu-
um movimento de turbilhão pelos quatro pon- lheres, Pemba tomou pra si o sangue dos
tos cardeais, criou as colinas e montanhas homens, do qual tirou sua força, prometendo,
que dão forma à Terra. em troca, não apenas ensinar-lhes as técni-
cas do fogo, mas também rejuvenescê-los
10. Depois de sete anos de turbilhão. Pemba quando velhos.
se transformou em um grão de acácia, colo-
cou-se sob a terra e germinou a árvore 17. Em seguida, Faro fertilizou as mulheres,
balanzan, a acacia albida, que se tornou seu que deram à luz, sempre, a pares de filhos
avatar terrestre. gêmeos. Engravidando as mulheres, os homens
quebraram um tabu aos olhos de Pemba. E a
11. Mais tarde, com o pó de suas pegadas morte reapareceu e se propagou entre eles.
misturado à saliva, ele criou uma mulher,
Mussô Koroni, a cabaça feminina. na qual 18. Para compensar essa desgraça, Faro deu
insuflou uma alma, ni, e um duplo, dya. Então. aos seres humanos o poder da palavra. No
unindo-se a ela, criou as plantas e os animais. entanto, Teliko, o espírito do ar, o roubou. Os
humanos, então, bandearam-se para o lado do
12. Pemba e Mussô Koroni foram saudados e usurpador. achando-o mais poderoso.
homenageados por todos os seres humanos,
que entregaram ao casal as diretrizes dos 19. Mas Faro o venceu e puniu os humanos
seus destinos. por sua leviandade, criando o trabalho e obri-
gando-os a ganhar o sustento com o suor do
13. Todas as mulheres se tornaram esposas próprio corpo. Reduzindo a fertilidade das
de Pemba, o que desagradou a Mussô Koroni. mulheres, Faro fez com que elas só dessem à
Enciumada, ela começou a perturbar a paz luz um filho de cada vez. Em compensação,
reinante, criando incidentes incômodos cada ser humano foi contemplado com um
e desagradáveis. duplo, dya. que mora na água.

14. Mussô Koroni instituiu a circuncisão e a 20. Depois de todos esses incidentes, Faro
excisão. Depois, revelou aos homens tudo o retomou a tarefa da Criação, procurando re-
que tinha aprendido com Pemba, transmitindo organizar o universo por meio de uma viagem
impureza a tudo que tocava. aos confins do mundo.

15. Semeando, assim, a dor, o mal e a morte, 21. Foi assim que Faro estabeleceu o regime
Mussô Koroni foi perseguida por Pemba e por das chuvas; classificou os seres vivos por
Faro. que a procuraram sem êxito. Só a en- espécies; e os seres humanos segundo raças.
contl'aram já morta. Mas antes de morrer, povos, tribos, clãs e castas.

Takrur e Senegâmbia I 197


22. Cada pessoa ganhou de Faro oito grãos Suas orelhas são protegidas por duas bar-
de cereais que foram colocados em suas cla- batanas: suas mãos, uma é feminina outra
vículas, onde estão permanentemente, e se masculina; sua cauda é espalmada e seu peito
tomaram a base da sua subsistência. Final- é de cobre.
mente, Faro legou aos humanos o controle da
vida e dos atos de todos os seres colocados 7. Todas as manifestações atmosféricas anun-
sob seu domínio. ciam a presença de Faro. Sua morada princi-
pal é o rio Niger, mas ele tem o dom da
IV - Faro. poder da criação ubiqüidade e freqüenta todas as águas.
1. Criado por Yo e OI'ganizado por Faro. o
mundo é um conjunto de forças ativas sobre 8. Faro está sempre acompanhado de auxi-
as quais o ser humano tem poder. liares dos quais o mais representativo é
Bolokuruni. um ferreiro negro e maneta. No
2. Graças a alguns procedimentos, dos quais ar, seu mensageiro é a andorinha, que trans-
o sacrifício de sangue constitui o eixo princi- porta a palavra fecundante.
pal, o ser humano tem possibilidade de acu-
mular ou liberar essas forças, de dirigi-Ias e 9. Algumas plantas têm estreita relação
orientá-las, em suma, de se integrar ao movi- com Faro. como o tomate, que é relacionado
mento do mundo e de aprimorar-se no seu ao sangue.
conhecimento e na sua realização.
10. Os seguidores de Faro não podem usar o
3. Os sacrifícios deverão ser feitos no pem- barro preto do fundo do rio para confeccionar
peré, cepo de madeira ou altar de pedra re- utensílios. Nem podem comer manteiga. por-
presentando os ancestrais; ou nos nyams, ob- que ela não se mistura com a água. E muito
jetos que representam as partes do Universo. menos podem tocar em sangue menstrual.
que é o resultado mais evidente das desor-
4. O culto a Faro pode ser individual, familiar dens provocadas por Mussô Koroni.
ou geral, organizado por sociedades religiosas.
que deverão ter sempre como finalidade con- 11. A ordem universal atual é apenas uma
servar as forças espirituais dos seus membros. fase no espaço e no tempo. pois 12 águas ain-
da permanecem ocultas. Quando Faro deter-
5. Faro é representado por uma espiral. munu. minar, essas águas surgirão e se espalharão
Os movimentos vibratórios da espiral são os pelo mundo. Elas farão conhecer as palavras
mesmos que animam o movimento diurno do que ainda virão, e o mundo pensado por Yo
sol. Por este motivo só os reis usam o yugu, o será realizado.
chapéu de palha confeccionado na forma de
uma espiral de oito voltas. V - Os bolis
1. Em tempos muito antigos, dois homens que
6. O rosto de Faro é branco porque ele o tinham feito muitas viagens e adquirido. ao
tomou de Teliko. o espírito do ar, que é albino. longo delas. grandes conhecimentos. foram

198 I Kitábu
um dia pedir ao rei dos bambaras autorização 7. Os bolis habitam. desde então. velhos potes
para cultuar uma divindade que tinham co- e velhas cabaças. Mas em viagem costuma-se
nhecido em outro país. e em cujos mistérios levá-los em um chifre de boi. num dente de
haviam sido iniciados. elefante ou num saco de pano.

2. Naquele tempo. as pessoas que viajavam para 8. Sua guarda é geralmente confiada a uma
longe eram muito respeitadas e despertavam mulher velha. E ninguém. nem mesmo o rei.
um certo temor. pois eram consideradas feiticei- pode. sob a pena de ter a cabeça cortada.
ras. Por isso. o rei concedeu-lhes autorização. olhar dentro do vaso. do chifre ou do saco que
o contém.
3. Autorizados. imediatamente puseram mãos
à obra. Procuraram uma árvore muito rara. 9. Nas aldeias ricas. os bolis têm seu templo.
foram até ela em procissão. fizeram um bura- Em outras eles moram em um lugar particular.
co aos seus pés e. depois de evocações em como o pé de uma árvore ou o oco de uma rocha.
uma língua desconhecida. recolheram parte
de sua raiz. 10. O templo de um boli se abre apenas aos
kourbaris (iniciandos). aos kalangous (inicia-
4. Da mesma forma procederam com a crina dos) e aos homens livres. que só podem entrar
da cauda de um cavalo preto. E para que calçados e com a cabeça coberta.
esses materiais fossem propícios aos seus
desígnios. um deles o recolheu. após despir a 11. Os muçulmanos. os estrangeiros. e princi-
calça e a túnica. palmente os griôs (cantores e contadores de
histórias) são severamente excluídos.
5. A raiz da árvore e a crina do cavalo foram
colocadas em um pote de barro e cozidas du- 12. Cada aldeia. cada exército. cada destaca-
rante metade de um dia. Enquanto se realizava mento tem o seu boli. Na guerra ele é levado por
este cozimento. o principal dos dois homens um kalangou. que caminha próximo ao chefe.
prosternou-se sete vezes. com o rosto no chão.
recitando preces em uma língua desconhecida. 13. Sempre consultado. ele prediz o futuro. leva
a justiça e proclama a inocência e a culpa.
6. Depois. os dois sacrificaram um boi bran- Assinala os delitos das esposas. indica os remé-
co. um boi avermelhado e um galo branco. dios que devem curar as doenças. prognostica o
Assim foi criado o primeiro boli. artefato má- tempo. prediz a abundância e a esterilidade das
gico. em território mandinga. terras. o sucesso e o insucesso das empresas.

CAPiTULO 3 Os pOVOS Tenda


I - Origem e localização mayos viviam na fronteira entre a Guiné-
1. Os povos. compreendendo os coniaguis. Conacri e o Senegal. próximo à atual Guiné-
bassaris. badyarankés. tenda boenis e tenda Bissau. onde se estabeleceram no século XVI.

Takrur e Senegâmbia I 199


2. Descendentes de guerreiros escravizados cabana do chefe da aldeia e que leva seu
na guerra e vindos do Leste, eles perma- nome: igwar.
neceram durante muito tempo isolados, sem
contato com povos vizinhos, até a chegada do 7. Igwar recebe sacrifícios de animais e água.
Islã, trazido pelos fulânis. mas nunca cerveja. E os sacrifícios e oferen-
das são feitos pelo numba de cada aldeia.
3. Vivendo entre mandingas e fulânis. os
povos Tenda conseguiram manter intactas 8. Igwar desempenha papel importante na fun-
suas concepções tradicionais sobre este dação de novas aldeias, na sucessão dos chefes,
mundo e o outro. na entronização do kore etc. Em caso de guer-
ra, o chefe leva o igwar de sua aldeia consigo.
" - Vida espiritual
1. Existem diversos tipos de seres sobre- 9. Mas a divindade Igwar só vem ao objeto
naturais: Entre eles, espíritos a quem deve- que o representa. o igwar, quando se derrama
mos render culto público por meio de sacrifí- sobre este o sangue do sacrifício.
cios. Este culto pode ser geral ou particular,
prestado pelo grupo ou pelo indivíduo. 10. O ikuv é um altar de pedras embaixo de
uma árvore. Há vários desses altares em cada
2. Unu, dono dos elementos e dos homens que aldeia: um na própria aldeia: outro no padda.
pôs no mundo. deve ser cultuado por todos. lugar sagrado da floresta; e outro na aldeia-
mãe do grupo de que faz parte aquela aldeia.
3. Unu, que não se representa materialmente,
ocupa-se pouco dos indivíduos e só recebe 11. Os lukuta, cantores. e os numba dirigirão
sacrifícios em épocas de grandes calamidades. os sacrifícios. É no ikuv que se fazem as pre-
ces pedindo chuvas. a cada primavera.
4. Antigamente, oferecia-se a Unu, uma vez
por ano. o sacrifício chamado Sadaga. que 12. As oferendas de carneiro são reservadas
acontecia no início do inverno, antes do at'a- a lkuv e Igwar.
va, época em que os cereais já estão cresci-
dos e os campos exigem menos trabalho. 13. Outros espíritos recebem cultos pessoais.
Unker e os diversos espíritos de antepassados
5. Numba. o ancestral de todos os humanos. protegem contra doenças. facilitam os partos,
preside a iniciação. O carneiro é seu animal propiciam boa colheita, boa caça e todos os
sagrado. O dignitário de grau mais elevado da outros benefícios. em prazo rápido.
sociedade secreta de cada aldeia chama-se
numba e o representa. 14. Oferece-se a Unker cerveja, sorgo cru.
galos etc. Em cada aldeia deve haver um
6. Igwar é a divindade da terra e a terra lhe unker, representado por um pedaço de madei-
pertence. Ele é representado por um objeto ra conservado no pequeno celeiro da comu-
de ferro que deve ficar alojado no teto da nidade e unkers familiares ou individuais.

200 I Kitábu
15. Aos espíritos dos antepassados deve-se 4. A morte deverá ser anunciada pelas lamen-
oferecer água e às vezes também cerveja e tações das mulheres da família.
sangue de sacrifício.
5. O enterro terá lugar no mesmo dia da
16. Atyer torna as crianças doentes e é um morte ou na manhã do dia seguinte.
dos mais poderosos espíritos.
6. O corpo do defunto será lavado pelas mu-
17. Mas é aos anonkwols, almas dos an- lheres, envolvido em uma tanga e enrolado em
cestrais habitantes dos renkas, que são mais uma esteira. Enviam-se rapazes para pre-
freqüentemente oferecidos sacrifícios para o venir os membros da família. Alguns homens
bem-estar da família e do indivíduo, sendo os irão cavar a sepultura perto da aldeia.
cultos gerais necessários para a boa marcha
dos assuntos de toda a aldeia. 7. A sepultura terá a forma de uma vala alon-
gada, retangular, à qual se terá acesso por
meio de uma estreita passagem circular de
18. Os gênios, entre eles Fato, o gênio das
cerca de meio metro de profundidade.
águas e das riquezas, têm a forma de serpente.

8. Antes do enterro propriamente dito, in-


19. Santiu e Sambutyira, o velho do baobá,
terroga-se o defunto sobre as causas de sua
são espíritos malfazejos.
morte, já que toda morte é anormal e, por
isso, deve ser explicada.
111- Costumes funerários
1. Após a morte e o enterro, a parte essencial
9. Então, quatro homens carregam nas costas
do homem, anonkwol, princípio espiritual
a padiola de bambus na qual o cadáver estará
imortal, passa a levar uma vida própria.
amarrado por tiras de algodão.
Primeiro, sai da tumba e passeia pela aldeia,
perigosa e ameaçadoramente.
10. Um velho, parente do defunto, de pé dian-
te da padiola, fará algumas perguntas de res-
2. Com os ritos do wakuey, o anonkwol vai ser
postas afirmativas ou negativas. O morto res-
fixado nas traves de madeira da porta da casa ponderá fazendo avançar ou recuar os padi-
e do leito do defunto. oleiros.

3. A instalação dessas traves ao lado das ou- 11. Se a padiola recuar, a resposta será neg-
tras estacas funerárias (rankas) de sua famí- ativa; e positiva, em caso contrário.
lia, reunidas sob uma grande árvore, apazigua
definitivamente o anonkwol. Então, para ele, 12. Quando o defunto responsabilizar alguém
um novo estágio começa: não se precisa mais por sua morte, não caberá defesa. E então o
temê-lo, e sim cultuá-lo. Nesse sentido, os acusado será injuriado por todos.
seus descendentes lhe oferecerão sacrifícios
em troca de proteção e conselhos. 13. Feito isso, ele dirá: "Então, se fui eu que

Takrur e Senegâmbia I 201


te matei, vá descansar no teu túmulo". Após com a abertura da porta virada para o nas-
este procedimento, os carregadores levarão a cente, se ele for um homem, e para o poente,
padiola até a casa de cada um dos familiares, caso seja uma mulher. E isto. para que o
para o último adeus. anonkwol possa respirar.

14. Chegado ao túmulo, serão retiradas as 20. Até este dia somente a família do morto
faixas de algodão que amarravam o corpo à pode levar para ele. a cada noite, o alimento,
padiola. O corpo é depositado na cova forrada a água e o tabaco.
com uma esteira, e sua cabeça será virada
para o nascente, se for um homem, e para o 21. O lugar da tumba fica marcado pelo teto
poente, se for uma mulher. da cabana do morto durante alguns anos. até
que desapareça com as chuvas.
15. A passagem de acesso à sepultura será
fechada por um estrado de bambu, que em 22. As crianças pequenas serão enterradas
seguida será coberto com terra. Coloca-se debaixo do leito de suas mães, ficando o lugar
sobre o túmulo o teto da cabana do morto, marcado apenas por um vaso emborcado com
com a frente virada para o leste. se for um o gargalo enterrado.Os enterros dos leprosos
homem. e para o oeste, no caso de ser e das vítimas de outros tipos de doenças con-
uma mulher. tagiosas também obedecerão a procedimen-
tos especiais.
16. Ao lado da tumba será colocada uma cuia
com a qual o morto vai beber, sua tabaqueira 23. Depois da kadyinda, o anonkwol vaga pela
e outros objetos de uso pessoal. aldeia e ainda não está tranqüilo. A cerimônia
do wakwey consiste essencialmente em der-
17. Em seguida. um sacrifício será oferecido ramar cerveja sobre o estrado da cama do
ao morto. de frangos, por exemplo; o cabo da defunto, para fixar nela o anonkwol.
ferramenta que cavou a tumba é jogado fora e
o ferro cuidadosamente lavado. 24. O wakuey deve se realizar numa segun-
da-feira, cerca de 15 dias após a morte.
18. Os carregadores e cavouqueiros devem quando a cerveja já estiver completamente
lavar-se antes de voltar para casa e o chão da fermentada.
cabana do defunto é cuidadosamente raspado
e varrido. 25. Na cabana do morto, derrama-se cerve-
ja na porta e no estrado da cama. sacrifi-
19. Alguns dias mais tarde, será realizada a cando-se em seguida um frango.
cerimônia da kadyinda. Esta cerimônia con-
siste em levantar o teto da cabana do morto, 26. Depois, deve ter lugar a cerimônia do
que cobre o túmulo, e intercalar. entre a terra gubangware. Nela, as mulheres dançam. ao
e o teto, a parte superior da armação de bam- som dos tambores. imitando os movimentos
bu que constituía a parede da casa do morto, de diversas atividades masculinas e femini-

202 I Kitábu
nas, para então oferecerem um sacrifício para perto das estacas dos mortos da famí-
atrás da cabana do falecido. lia, reunidas ao pé de uma grande árvore,
os paus da porta e da cama do morto, nos
27. Em seguida, os homens, tratando-se de quais o anonkwol agora está fixado e que o
um defunto do sexo masculino, ou as mu- simbolizam.
lheres, irão a um pequeno bosque próximo
à aldeia. 33. Os velhos fixarão as estacas, depois der-
ramarão cerveja sobre todos os rankas da
28. Lá. sob uma árvore especial, um velho família. A seguir, as velhas, se o morto for do
camarada deporá o arco do amigo e sacrifi- sexo feminino, derramarão a cerveja sobre a
cará um frango sobre ele. A cabeça do frango estaca da morta.
e o arco serão postos numa cabaça grande
que será tampada e também depositada sob 34. Um ano depois, novamente se oferecerá
a árvore. cerveja aos rankas, pedindo aos anonkwols
para proteger os membros vivos da família.
29. Se o defunto for uma mulher, uma de suas
amigas deposita sobre a árvore um galho em 35. Durante esses sacrifícios, os anonkwols
forma de forquilha para lhe servir de bengala virão do lugar onde vivem para receber
no além. as oferendas.

30. Sobre essa bengala deve ser sacrificado 36. Quando se pede a cura de uma doença,
um frango, cuja cabeça será colocada numa um conselho ou proteção para uma criança
cabaça grande junto com pertences da falecida. que nasce, bois, cabras e galos também de-
verão ser sacrificados.
31. Então, o anonkwol estará pacificado, de-
vendo-se, ainda. fazer, pela manhã. uma últi- 37. A resposta ao pedido poderá ser lida nos
ma cerimônia. que é a do lapa. testículos do animal imolado. Brancos, sim;
pretos, não, por exemplo.
32. Esta última cerimônia consiste em levar

CAPiTULO 4 O advento do Islã


I - A jihad berbere levar a palavra do Profeta a todos os lugares
1. Em 639, a palavra de Alá chega ao Egito e do mundo.
daí se espalha até a África Ocidental. A
primeira grande onda ocorre sob as ordens do 2. Saindo da Palestina, Amr Ibn ai-As cruzou
general Amr Ibn ai-As. Com a Arábia já unifi- o Sinai e entrou na África à frente de sua
cada. as forças do Islã partem com o Fito de cavalaria beduína. Numa seqüência, Farama,

Takrur e Senegâmbia I 203


Belbeis, Menfis e Alexandria foram tomadas beu o nome de "Traore", designativo de
pelas tropas de Alá que, fortalecidas por sua conversão.
novos batalhões vindos da Arábia, avançavam
também para o sul, chegando às portas 11 - Fulânis e hauçás
da Núbia. 1. Com a queda do Gana, no século XIII. enor-
mes massas populacionais começaram a se
3. Caminhando para oeste, a palavra e a deslocar por distâncias imensas em busca de
espada de Alá vão chegando à Tripolitânia, à melhores condições de vida. o que provocou o
Cirenaica e ao Magreb. Em 681. o general intercruzamento e a mestiçagem de vários
Utah Ibn Nafi chega ao Atlântico e exclama: povos da África Ocidental. Alguns desses povos
"6 Deus de Maomé! Se eu tivesse certeza de se misturaram aos peules, fulas ou fulânis.
existirem outras terras para além destas que. dada a sua tradicional condição de pas-
águas, eu iria até lá e levaria a glória do Teu tores. levavam uma existência nômade,
nome!". Outras terras havia. E o nome de Alá desde pelo menos o início do século XI. tran-
chegaria até elas. sitando por várias regiões da parte oeste do
Bilad-Es-Sudan.

I 4. Três séculos depois. despontava no Mar-


rocos uma dinastia de crentes muçulmanos 2. No século XV peules se instalam na região
I rigorosos, os Almorávidas. Para combater a do Macina. próximo a Tombuctu na curva nor-
frouxidão que a pregação islâmica então ex- te do rio Niger e fundam principados na mar-
perimentava, liderados por Ibn Yasin os Almo- gem direita do rio Senegal. Com a queda do
rávidas levaram a efeito, a partir de 1042, Império Songai, em 1591. migrações popula-
uma bem-sucedida iihad, conquistando e cionais fizeram com que. na região de Djennê.
convertendo vários povos da África Ocidental. os bambaras tivessem seu primeiro contato
tomando Audaghost, e assumindo o controle com os peules. No século XVII, os peules os
do Marrocos. conquistaram e organizaram o Reino Bambara
na região de Segu.
5. A Ibn Yasin sucederam Abu Bacar, conquis-
tador de Kumbi Saleh, e Yusuf Ibn Tachfin que. 3. Durante os séculos XVI e XVII, outros
ao norte, levou a palavra de Alá para além do peules constituem um Estado nas montanhas
Magreb e dos limites da floresta equatorial. do Futa Djalon, exatamente onde nasce o
fazendo-a chegar até a Espanha. Niger. no território da atual Guiné-Conacri. E
no século XVIII outros, ainda, saem do Futa
6. Em cerca de cem anos. os berberes Toro. na margem leste do rio Senegal para se
almorávidas convertem à fé islâmica o sobe- fixar no Gobir. um dos sete estados hauçás -
rano songai de Gao. o dia kossoi de Kukya. e Katsina. Zaria, Kano. Rano. Daura. Biram
Mansa Nofin Tiraura. primeiro soberano do e Gobir.
recém-unificado Mali.
4. No século XVI, os estados hauçás são inva-
7. Tiraura converteu-se a fé islâmica e rece- didos pela onda conquistadora dos songai. No

264 I Kitábu
século XVIII, Othman Dan Fodio, líder, letra- para a expansão do Islã na África como tam-
do, político e, acima de tudo, piedoso muçul- bém para a vinda da palavra de Alá para as
mano. empreendeu uma guerra santa contra o Américas, tornando realidade o anseio do
"paganismo", na pessoa do rei hauçá de general árabe Utah Ibn Nafi que, em 681,
Gobir. Othman Dan Fodio morreu em 1817, chegando ao Atlântico clamava: "6 Deus de
mas seus seguidores continuaram sua luta Maomé! Se eu tivesse certeza de existirem
até 1859. outras terras para além destas águas, iria até
lá e levaria a glória do teu nome!"
5. No ano da morte de OLhman Dan F'odio, o
rei iorubano Manjá força Arogangan, rei de 11I - O Islã e a religiosidade tradicional
Abomé, a suicidar-se, declarando 1I0rin inde- 1. Chegando à África, a partir do século VII, a
pendente de Oyó e aliando-se ao líder fulâni pregação islâmica não foi aceita sem resis-
Alimi. Incentivados por Monjá. numerosos tência. E em todo seu processo de aceitação,
grupos de peules e hauçás vão se estabelecer ela intercambiou experiências com as crenças (
!
em llorin. Mas esses muçulmanos recém-vin- tradicionais.
dos para llorin induzem os escravos hauçás
de Afonjá à revolta e à fuga e, juntamente com 2. Os bambaras, por exemplo, concebem o
iorubás convertidos ao Islã, fazem uma incur- mundo como um conjunto de forças sobre as
são violenta pelo país iorubá e vendem os pri- quais o homem tem poder. Graças a certas
sioneiros como escravos. técnicas cuja chave é o sacrifício, o homem
pode armazenar ou liberar essas forças, diri-
6. Em 1831. Manjá é assassinado. O governo gi-Ias e orientá-Ias, integrando-se, em suma,
de llorin passa às mãos de Abdul Salami, filho ao movimento do mundo, ajudando-o no seu
de Alimi. que inaugura, então, a dinastia dos conhecimento e no seu desempenho.
emires peules de llorin.
3. Os homens são iguais entre si. como os
7. Durante essas lutas entre Oyó e Ilorin, em dentes do pente do tecelão; não há diferença
1827. Guezo, rei de Abomé. deixa de pagar entre o árabe e o não árabe, entre o branco e
tributo a Oyó. Até 1892, quando cai sob o o negro, a não ser quanto ao grau de sua
domínio francês. Abomé faz também sua razz- crença em Deus - diz o saber africano.
ia na região, empreendendo uma guerra san-
grenta que redunda na captura de milhares de 4. O êxito do Islã na África, então, resultou,
escravos em Egbado, Egbá, Kêtu. Xabê, Aná, antes de tudo, de sua capacidade de tolerar,
Oyó. ljexá e Ijebu. se adaptar e respeitar o modo de viver tipica-
mente africano das sociedades tradicionais.
8. Todas as guerras ocorridas na África Oci-
dental entre os séculos XVII e XIX tiveram 5. No islamismo negro-africano, a magia não
como conseqüência a transformação de enor- desapareceu. O marabu pode também ser
mes contingentes de prisioneiros em escra- adivinho e curandeiro. E atuar por meio de
vos. E todas elas foram importantes não só processos diferentes, utilizando-se, inclu-
sive. do êxtase e da invocação dos djins ou 7. Ninguém deve se surpreender. por exem-
confeccionando amuletos a partir de versícu- plo. vendo um tucolor muçulmano. talvez por
los do Corão. atavismo. apelar à magia de um bambara não
islamizado. l~ não deve causar surpresa ver-
6. Pode-se. ainda. utilizar passagens corâni- se um pastor fulâni. depois de ter cumprido
cas como remédio: o paciente bebe a água em suas obrigações de muçulmano. fazer sinais
que foi lavado um papel que continha tais tex- cabalísticos e murmurar invocações que não
tos ou engole o papel em que estão escritos. são corânicas.

CAPiTULO 5 O Islã reinterpretado


I - Fundamentos três elemen tos concen tram-se. respectiva-
1. Para o africano negro e muçulmano. só mente. no coração. nos pulmões e no fígado.
existe um deus. Alá; e Mamadu (Mohamed.
Maomé) é seu enviado na Terra. Além deste. 7. Para cada enfermidade. há um versículo
há os anjos. como Djibril. o maior deles; e apropriado no Alcorão. No tratamento da
Elblissa. o demônio. Também integram a doença. esse versículo será escrito na tábua
corte do céu os profetas Anabi Ibrahima e apropriada. que se lavará em seguida. A água
Anabi Issá. da lavagem. misturada com as ervas adequa-
das. será bebida pelo doente. Para uma dor
2. Alá pode usar. como seus intermediários. localizada. muitas vezes bastará que o sacer-
divindades locais; espíritos protetores. cole- dote leia. em voz alta. o versículo e asperja
tivos ou individuais; e objetos nos quais se saliva no local afetado.
introjetou força espiritual.
8. A lepra será tratada com o isolamento do
3. No fim dos tempos. virá o Mádi. um novo doente. dando-lhe para beber da água san-
profeta. e depois voltará Anabi Issá. que jul- tificada pelo Alcorão. três vezes pela manhã.
gará toda a humanidade.
9. Na cura de um possesso. o sacerdote escre-
4. Tudo o que acontece no mundo vem de Alá. verá na tábua as orações. e com a água de sua
que é quem distribui o Bem e permite o Mal lavagem. friccionará o doente. Depois. escre-
como castigo. verá as mesmas orações num papel ou perga-
minho e as prenderá ao pescoço e à cabeça da
5. Alá deu a todo ser humano uma alma cons- vítima da possessão.
tituída por três elementos: o princípio vital. o
pensamento e a alma propriamente dita. iden- 10. A morte se constata pela cessação do
tificada com a sombra e a respiração. movimento dos braços e das pernas. da respi-
ração e das pulsações e pelo esfriamento
6. Embora circulem por todo o corpo. esses do corpo.

206 I Kitábu
11. Uma vez separada do corpo. a alma sobe igualmente se reger pelas normas do Alcorão,
ao Céu. onde Alá a guarda num grande chifre principal fonte do Direito.
cheio de buracos. juntamente com as essên-
cias de todas as coisas criadas. 5. A fundação de um novo povoamento deve
ser precedida da seguinte cerimônia; escreve-
12. Depois do julgamento. ela é encaminhada se um versículo do Alcorão e, à meia-noite.
ao paraíso. ao purgatório ou ao inferno. longe de olhos profanos. enterra-se o papel
escrito no local onde se pretende construir a
13. No paraíso, tudo é infinitamente melhor primeira habitação. Se no dia seguinte o papel
que na Terra. Até mesmo o prazer do sexo estiver desenterrado. o local não é bom. Caso
que, lá. perde todo o seu caráter de impureza. contrário, o local é propício e a povoação deve
ser ali fundada.
11 - Ritos. cerimônias. sacrifícios
1. As orações. os ritos de calendário, bem 6. Ao construir uma casa e antes de habitá-Ia.
como as interdições alimentares e de outra o crente. depois de consultar o imã (sacer-
natureza deverão obedecer aos textos sagra- dote). deverá imolar uma ave. pedindo a Alá
dos do Alcorão e às regras da Xaria. Da que favoreça a instalação do novo lar. Depois
mesma fOI'ma, o clero. a educação. o culto e de imolada, a ave deverá ser cozida e ofereci-
o calendário deverão corresponder aos da, com arroz. a sete crianças. pelo menos.
cânones corânicos. Devem distribuir-se a elas também nozes-de-
cola, em número de três, cinco ou sete, e
2. O fiel muçulmano deve rezar cinco vezes ao nunca de duas.
dia. A primeira oração. faná. às 14h; a segun-
da. alaçará. às 17h; a terceira, futurô. às 18h; 7. Morto um crente. seu corpo será embru-
a quarta. guedjê. às 21h; e a quinta, açubá. lhado num pano e envolto numa esteira.
às 4h.
8. Após as orações pronunciadas pelo sacer-
3. Para propiciar a alma de parentes mortos. dote. ele será enterrado no local mais conve-
o crente deverá sacrificar vacas. carneiros ou niente. com a cabeça virada para o nascente.
cabras, depois de rezar, na mesquita, as ora-
ções apropriadas. A carne do animal será dis- 9. Ao fim de quarenta dias. deve realizar-se a
tribuída por todos os que tomaram parte na cerimônia do choro. Consistirá ela na reunião
reza. mesmo que caiba apenas uma pequena da família para orações na mesquita. seguidas
porção a cada um. de sacrifícios de estilo.

4. As normas sociais inerentes à doutrina, 11I - A Silsila e a Baraka


tais como o reconhecimento dos princípios 1. O sacerdócio é privilégio dos crentes que
islâmicos de exogamia e herança e os deveres sabem ler e escrever. pois só eles têm capa-
mútuos dos cônjuges, deverão ser preser- cidade de interpretar as palavras do Alcorão.
vadas. A vida econômica e a justiça deverão O membro da comunidade de fiéis só poderá

Takrur e Senegâmbia I 207


tornar-se uma autoridade espiritual quando por homens santos. intermediários entre os
possuir o conjunto de capacidades especiais indivíduos comuns e Ele. Os ritos de iniciação
chamado Silsila. Só ela é a fonte e a base do e funerais devem se subordinar. também. às
poder religioso. normas da Xaria. podendo. ainda. se revestir
de peculiaridades provenientes dos cultos de
2. Esse conjunto de capacidades. Silsila. família. do clã e dos espíritos protetores in-
pode ser: de linhagem. ou seja. a que liga o dividuais. das práticas mágicas da tradição.
indivíduo a um santo. a um fundador ou a
uma personalidade destacada da comu- 4. A hierarquia sacerdotal compreende o ua-
nidade islâmica; ou. como exceção. a de ter lio. que é um profeta; o karamodjo. um dou-
contatos diretos com Alá ou com o Profeta. tor em teologia corânica; o almudo. que é o
Mas. de qualquer forma. essa santidade se
leitor do alcorão: e o talibadjo. um discípulo
baseia na Baraka. a força sobrenatural
e auxiliar.
proveniente de Alá.

5. O sacerdote pode acumular também as


3. A súplica de um crente. a Alá. sempre que
funções de curador e intérprete do oráculo.
possível, deve ser sancionada, encaminhada.

CAPiTULO 6 Takrur e 8enegâmbia - Provérbios


1. Ter dois olhos é um orgulho; mas ter um só 9. Quem não cultiva seu campo morre de fome.
é melhor que não ter nenhum.
10. Vaca sem rabo não espanta mosca.
2. Antes a água derramada que a jarra quebrada.
11. O sapo gosta de água. mas não quando
3. A vaca pode pisar o bezerro. mas ela nunca está fervendo.
o odeia.
12. O saber é uma horta: quem não cultiva.
4. Um camelo não ri da corcova do outro. não colhe.

5. Árvore muito florida está sempre cheia de 13. Agulha dentro de um poço. todos olham
insetos. mas ninguém desce para pegar.

6. Planos demais estragam a viagem. 14. É melhor andar sozinho do que com má
companhia.
7. Quem fez maldade que espere maldade.
15. São três os que morrem pobres: o que se
8. Toda boa obra merece recompensa. divorcia. o que se endividou e o que muda
a toda hora.

208 I Kitábu
16. Coração não é joelho para se andar sem- 29. Uma cabritinha não se cozinha em leite de
pre dobrando. cabra.

17. Se alguém se disser seu amigo, veja o Que 30. O criado paga pelos erros do patrão.
faz por você.
31. Quem é muito ambicioso não pode dormir
18. Dormir com raiva é melhor Que dormir em paz.
arrependido.
32. Quem quer comer abre a boca.
19. Se Deus te mandou a sorte, não O acorde:
deixe-O em paz. 33. Um bocadomuito grande vai sufocar a criança.

20. Quem conhece o amigo dele sabe bem 34. Nem toda semente dá fruto.
Quem ele é.
35. Dois olhos enxergam melhor Que um.
21. A verdade é como ouro; se bem guardada
num cofre, ninguém irá mexer nela. 36. Quem gosta de dinheiro tem de trabalhar.

22. Ouvido são pode ouvir coisas doentes. 37. Preste atenção na panela, senão, a comi-
da Queima.
23. Centopéia sem uma perna não perde o
jeito de andar. 38. Antes de cozinhar, tem de ter o alimento.

24. Se o filho ri de um carão, o pai tem é de 39. Quem começa uma conversa não pode
prever o fim.
chorar; se ao contrário, o filho chora, o
pai pode rir em paz. 40. Casar com mulher bonita é casar com
confusão.
25. Arbusto Que cresce à sombra de uma
árvore frondosa vai morrer pequeno. 41. Cinzas jogadas no ar voltam aos olhos de
Quem jogou.
26. Um amigo burro é pior Que um inimigo
inteligente. 42. Quem não remenda suas roupas, daqui a
pouco fica nu.
27. Não tente fazer alguém odiar quem ama;
pois além de continuar amando, ele vai 43. Velhice é um mal sem remédio.
odiar você.
44. Quem muito se mostra, tem pouco para dar.
28. É melhor ser amado Que temido.

Takrur e Senegâmbia I 209


45. Ninguém penteia a cabeça na ausência do 47. Do meu parente. desprezo; do estrangei-
dono dela. ro. respeito.

46. Hoje um ovo. amanhã um galo. 48. Rato sensato não faz trato com gato.

210 I Kitábu
,
LIVRO 4 ETIOPIA
Introdução

A antiga Etiópia ou Abissínia compreendia


também a Núbia, nome de toda a região
em torno do rio Nilo, entre Assuam no
Egito e Dongola, no Sudão. Suas regiões
limítrofes eram o Egito, ao norte; o mar
Vermelho a leste; o território dos Kolas,
a sudeste; ao sul os territórios dos
Galas (na margem direita do Nilo) e
dos Xiluques (na esquerda) ; a sudoeste,
o Darfur e a oeste o Saara.

CAPiTULO Os Sabeus
I - O povo de Sabá 3. Menelik, Filho da rainha Makeda com Salo-
1. A Península Arábica foi povoada original- mão, iniciou, na Etiópia. uma linhagem real
mente por populações negras, aparentadas aos que chegou até Hailé Selassié, quase 3 mil
Vedas indianos. A proximidade entre a Arábia e anos depois. Dessa linhagem, descendem tam-
o nordeste africano motivou, na Antigüidade, bém os falachas.
até mesmo a fusão de povos e estados. Um dos
resultados dessa fusão foi o povo de Sabá, que 4. Falacha é o etíope seguidor do judaísmo,
edificou um reino extenso e próspero. O fausto cujos ancestrais teriam vindo, talvez, do Ori-
desse reino propiciou condições para que, por ente Médio, na Antigüidade, estabelecendo-se
volta de 900 a.C., sua soberana realizasse uma na região de Bagemder, nas montanhas próxi-
visita ao rei Salomão, de Israel. sendo recebi- mas a Gondar.
da como a estadista poderosa que era.
5. O livro sagrado dos falachas é o Velho Testa-
2. Makeda, rainha dos sabeus, povo de Sabá, mento, escrito em língua gueês. Mas o fiel pode
notável por suas riquezas e mercadorias, fez a orientar-se, também, por outras obras. na mesma
viagem de 2 mil quilômetros com uma grande língua. principalmente as obras gnósticas escritas
comitiva, em camelos carregados de especia- em capta e reelaboradas no espírito hebraico.
rias, ouro e pedras preciosas. Depois de gozar
da hospitalidade de Salomão e encantar-se com 6. A missa do falacha deve se inspirar na dos
sua sabedoria e sua riqueza, Makeda retornou a cristãos etíopes, constituindo-se na leitura de
Sabá, mantendo, entretanto, seu vínculo com salmos, do Livro dos Jubileus e de outros tex-
Salomão, de quem teve um filho. tos e orações do Velho Testamento. Ela deve

212 I Kitábu
ser. sempre que possível. acompanhada por 11 - A alma e a vida após a morte
cânticos e danças executadas pelo dabtaras. 1. A alma do falacha está em todas as partes do
os intérpretes dos livros sagrados. corpo e assume a sua forma. Após a morte. ela
vai para Samayi. o mundo dos espíritos e. de-
7. O Velho Testamento. escrito num pergami- pendendodos méritos de seu dono. será mandada
nho preparado com pele de animais. ritual- para Canat. o paraíso. ou para Siol. o inferno. No
mente puro. deverá ser objeto de culto respei- paraíso. as pessoasgenerosas e devotas gozarão
toso e reverente. de uma vida de eternas delícias. sem trabalho e
alimentando-se de leite e mel. J