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António Damásio (nasceu a 25 de Fevereiro

de 1944)

O conceito de mente

Damásio é neurocientista de formação e como


tal partilha da ideia de que “a mente é o que o
cérebro faz”.
É a partir do estudo do cérebro que este
autor desenvolve a investigação e a
compreensão da mente utilizando o recurso a
novas tecnologias de neuroimagem que
permitem observar a anatomia, o
funcionamento e a actividade cerebral.

Problema inicial:

• O Caso de Phineas Gage

Às 4 e meia da tarde de 13 de Setembro de 1848,


um grupo de operários estava dinamitando um
rochedo para construir um caminho de ferro. Gage
foi o encarregado de vazar a pólvora dentro de um
profundo furo aberto na rocha. No momento em

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que ele pressionou a pólvora no buraco, o atrito
fez uma faísca, o que a fez explodir.

A explosão resultante projectou a barra de um


metro de comprimento contra seu crânio em alta
velocidade. Esta barra entrou pela bochecha
esquerda destruindo seu olho, atravessou - na
sequência - a parte frontal do cérebro e saiu pelo
topo do crânio, do outro lado. Gage perdeu a
consciência imediatamente e começou a ter
convulsões, recuperando-a momentos depois, tendo
sido levado ao médico local - Jonh Harlow - que o
socorreu.

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Incrivelmente, ele falava e podia até andar.
Perdeu muito sangue, mas depois de alguns
problemas de infecção ele, não só sobreviveu à
lesão, como teve uma boa recuperação física.

• Gage depois do acidente:

Durante três semanas a ferida foi tratada pelos


médicos. Em Novembro, Gage já fazia a sua vida.

• Gage que era amável e eficiente antes do


acidente, transformou-se num homem de mau
génio, grosseiro, desrespeitoso com os
colegas e incapaz de aceitar conselhos.
• Os planos feitos para o futuro foram
abandonados e passou a agir sem pensar nas
consequências. Deixou de conviver com os
amigos.

A sua transformação foi tão grande que todos


diziam que "Gage deixou de ser Gage".

Ele morreu em 1861, treze anos depois deste


acidente, sem dinheiro e epiléptico.

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• Conclusões de Damásio

.Tendo acesso a informações sobre este caso,


comparando-o a outros casos clínicos que tratou, e
ainda com o auxílio das novas técnicas de
imagiologia, Damásio pôde concluir que a lesão
de Cage afectou o córtex pré-frontal, região
de extrema importância, pois desempenha um
papel fundamental entre a memória, as emoções
e as faculdades de raciocínio. Sem elas somos
incapazes de tomar decisões, de planear o
curso de uma acção na vida real, de interagir
socialmente.

Gage não deixava transparecer nenhuma emoção, a


evocação de memórias dolorosas não o
pertubavam, era incapaz de tomar decisões
adequadas na sua vida quotidiana, incapaz de
planear uma acção futura, no entanto, era dotado
de um raciocínio abstracto e formal perfeito.

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“As capacidades cognitivas permaneciam
intactas, mas tinha perdido a capacidade de
sentir, de se emocionar.”

O cérebro de Phineas Cage.

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TESE CENTRAL de DAMÁSIO:

“A mente humana é indissociável do corpo e


como tal o ser humano pensa e age racional e
emocionalmente.”

Esta nova concepção fez ruir a tese


bissubstancialista de Descartes que separava a
mente do corpo (res cogitans e res extensa) e que
dava total independência à mente.

• Segundo Damásio na sua obra, O Erro de


Descartes, argumenta que não é possível
separar os processos cognitivos dos
emocionais, o corpo e a mente não são
entidades separadas e independentes.

• Por mais racionais que possamos considerar as


nossas decisões, há sempre emoções a elas
associadas.

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• Os casos clínicos (Cage e Elliot) mostraram
que a perda de capacidade de sentir emoções
prejudicou profundamente a vida destas
pessoas. Embora o desempenho em tarefas
verbais e de raciocínio lógico-matemático
fosse normal, não eram capazes de tomar
decisões práticas, revelavam desinteresse na
relação com os outros.

• Damásio mostrou que um reduzido nível de


emoção e de paixão é tão prejudicial como um
excesso de emoção. A emoção é tão
importante como a razão na tomada de
decisões e subjaz a todos os processos
cognitivos.

A HIPÓTESE DO MARCADOR SOMÁTICO:

• A hipótese do marcador somático é


apresentada por Damásio para explicar o
funcionamento da mente quanto à nossa
capacidade de escolha.

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Se as nossas decisões fossem puramente
racionais, sem a intervenção das emoções, não
seriam praticáveis ou teriam consequências
indesejáveis.

As emoções têm um valor adaptativo , pois são


um instrumento para avaliarmos o meio externo, as
situações e agirmos de forma adaptada.

Quando escolhemos, pensamos nas alternativas


ao nosso dispor e nas consequências futuras das
nossas acções.

1º Exemplo: Suponhamos que alguém decide


mudar de casa, vai certamente pensar nas
consequências que podem advir dessas accções,
por ex:
• Mais conforto,
• Proximidade do emprego,
• Adquirir novo estatuto social,
• Fugir a vizinhos incómodos,
• Menos dinheiro para viajar,
• Adiar a compra de um novo carro, etc.
Se as nossas decisões se baseassem apenas na
razão, levariamos muito tempo a tomá-las e
esgotariamos a capacidade da nossa memória de
trabalho.

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Logo, as emoções são processos indispensáveis
no acto de decidir, uma vez que reactivam
experiências anteriores (resultantes da ligação
entre as situações vividas e respectivos estados
do corpo = marcadores somáticos).

Para Damásio uma escolha implica que se


atribua um valor, daí que haja sempre um
estado emocional associado, tem de ser
desejada, temida, repelente ou atraente, etc.

2º exemplo: as nossas experiências deixam


marcas que ficam registadas no nosso cérebro.

Se a pessoa em questão se divorcia, o medo vai


acompanhar o processo cognitivo da ponderação,
contribuindo para que chegue a uma resolução.
A decisão pode ser influenciada pela
necessidade de mudar radicalmente de vida e
afastar-se do passado ou decide manter-se na
mesma casa com receio de mais uma mudança.