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Direitos Humanos

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Organizado por Universidade Luterana do Brasil

Direitos Humanos

Sérgio Roberto de Abreu


Honor de Almeida Neto
Luiz Felipe Zago
Deivison Moacir Cezar Campos
Douglas Marques
Felipe Leão Mianes
Jorge Trindade

Universidade Luterana do Brasil – ULBRA


Canoas, RS
2016
Conselho Editorial EAD
Andréa de Azevedo Eick
Ângela da Rocha Rolla
Astomiro Romais
Claudiane Ramos Furtado
Dóris Gedrat
Honor de Almeida Neto
Maria Cleidia Klein Oliveira
Maria Lizete Schneider
Luiz Carlos Specht Filho
Vinicius Martins Flores

Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil.


Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores
a emissão de conceitos.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida
por qualquer meio ou forma sem prévia autorização da
ULBRA.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei
nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal.

Dados técnicos do livro


Diagramação: Marcelo Ferreira
Revisão: Igor Campos Dutra
Apresentação

P rezado estudante, seja muito bem-vindo à disciplina de Direitos Huma-


nos. A partir de sua leitura e de sua interação com os textos e atividades
aqui propostas, você terá uma oportunidade ímpar de construir seu próprio
conhecimento sobre essa temática. Conhecimento e não opinião, pois o
conhecimento é construído a partir de outras bases, que vão lhe permitir
estabelecer rupturas com o senso comum, tão nefasto à discussão e ao
posicionamento que grande parte das pessoas no Brasil e no mundo tem
hoje sobre o tema.

Daqui em diante, você terá contato com um conteúdo e uma forma de


abordagem sobre os Direitos Humanos construídos a partir de estratégias e
de características que distinguem o campo científico, lugar por excelência
da Universidade e locus privilegiado para a instauração do habitus científi-
co. Você estará diante de textos e de análises que problematizam a temáti-
ca a partir de pesquisas científicas, embasadas em teorias e em conceitos.

Para fins didáticos e operacionais, a disciplina está subdividida em 10


capítulos que, embora autônomos, guardam necessária articulação entre
eles, pois a temática dos Direitos Humanos é complexa e exige uma abor-
dagem multidisciplinar que dê conta de sua complexidade. De comum a
todos os capítulos, chamo a atenção para o fato de que seus autores são
em última análise, professores, pesquisadores e garantidores de Direitos
Humanos que compreendem a importância histórica e contemporânea da
defesa de direitos como algo que nos distingue como seres humanos e,
sobretudo, como seres sociais.

O primeiro capítulo trata de forma abrangente o sistema internacional


de proteção dos direitos humanos, a partir de uma visão ampla do pro-
cesso de desenvolvimento deste tema e um breve retrospecto histórico de
Apresentação  v

sua evolução desde a antiguidade à Revolução Francesa, com a positiva-


ção dos direitos individuais e políticos. No segundo capítulo, a abordagem
passa para o seu enfoque interno, ou seja, os Direitos Humanos no regime
constitucional brasileiro. A forma como o Brasil tem, nos últimos tempos,
se aliado à evolução internacional ao ratificar tratados internacionais e
trazer essas normativas para os direitos já estabelecidos na Constituição
de 1988.

O Capítulo 3 chama a atenção para a relação indissociável entre Di-


reitos Humanos e Direitos da Infância, ao propor uma discussão conceitual
sobre infância, situando-a historicamente e problematizando a forma de
formar crianças e adolescentes a partir do surgimento de novas tecnolo-
gias, novas formas de mediação social. Também traz uma discussão sobre
a temática do trabalho infantil e apresenta a Declaração Universal dos
Direitos Humanos e sua aplicabilidade hoje. No Capítulo 4, a disciplina
apresenta um breve histórico da constituição dos movimentos feministas,
suas reivindicações políticas e sociais e suas contribuições teóricas para a
produção de conhecimento no Ocidente. Também o Capítulo 5 objetiva
fazer uma breve retomada histórica da constituição dos movimentos sociais
que reivindicaram (e ainda reivindicam) a inserção das identidades sexuais
nas discussões sobre Direitos Humanos. Para isso, propõe diferenciar as
políticas de gênero, tratadas no capítulo anterior, das políticas de identida-
des sexuais. O Capítulo 6 versa sobre a busca pela cidadania plena que
tem pautado as reivindicações dos movimentos sociais negros nas últimas
décadas no Brasil, principalmente no que se refere ao acesso aos direitos
e serviços básicos. Do ponto de vista estratégico, como forma de subverter
o senso comum que permeia essa discussão, o autor enfatiza que, apesar
das garantias constitucionais, o processo de conquista da cidadania passa
pela derrubada de estereótipos, herdados do imaginário escravista que
perpetua os racismos e, ainda, pela superação de uma organização social
em torno do conceito de branquitude.

O Capítulo 7 objetiva propor o debate sobre a relação dos princípios


dos Direitos Humanos e os objetivos do Sistema Único de Assistência So-
cial (SUAS). Apresenta alguns marcos regulatórios e diretrizes fundantes do
vi  Apresentação

SUAS e relaciona o debate dos Direitos Humanos com objetivos que funda-
mentam sua implantação. Já no Capítulo 8, o autor discute a temática da
acessibilidade e sua importância recente na sociedade ocidental. Aponta
os motivos e bases para a emergência desse tema associados à constitui-
ção de direitos individuais e coletivos, e os avanços e limites na inclusão
social de pessoas com algum tipo de limitação física e/ou sensorial.

O Capítulo 9 discute um dos principais pontos nevrálgicos dos Direitos


Humanos que é o Sistema Prisional. Aponta para a completa inadequação
do sistema prisional brasileiro e sua incapacidade de atender às finali-
dades de reeducação e ressocialização do apenado, evidenciando-se um
processo histórico de desprezo pela pessoa do preso e de banalização
das desigualdades sociais. Por fim, o Capítulo 10 traz um inventário das
posições teóricas e políticas que orientam as ações, intervenções e quadros
conceituais das correntes hegemônicas dos Direitos Humanos e apresenta
correntes “contra-hegemônicas” desse processo. Aponta para a complexifi-
cação das relações entre humanidade, poder, discriminação e morte. Além
das implicações éticas dessas correntes e a incongruência entre a banaliza-
ção do sentido da vida de alguns grupos de indivíduos em relação à ideia
de humanidade de outros, altamente valorizada.

A todos vocês, desejo um ótimo estudo e o melhor uso possível desse


conhecimento.

Prof. Dr. Honor de Almeida Neto

Coordenador do CST em Gestão Pública EAD


Prof. Me. Sérgio Roberto de Abreu1

Capítulo 1

História e Legislação
Internacional dos
Direitos Humanos

1  Professor do Curso de Direito da ULBRA, Campi de Canoas, Guaíba e Torres,


nas disciplinas de Direito Constitucional, Internacional e Administrativo. Mestre em
Direito Público pela PUCRS e Doutorando em Direito e Estudos Internacionais na
Universidade de Barcelona.
2   Direitos Humanos

Como originário de um país em desenvolvimento cuja


população, tanto a autóctone como a procedente de dis-
tintas partes do mundo, enfrenta dificuldades no desen-
volvimento e na construção da nação, estou plenamente
consciente de que, no trabalho de prevenção de viola-
ções flagrantes dos direitos humanos, deve-se urgente-
mente prestar atenção aos problemas de indigência, da
desigualdade, da falta de dignidade e da falta de segu-
rança. A Declaração das Nações Unidas sobre o direito
ao desenvolvimento foi proclamada com o propósito de
assinalar à comunidade internacional, como afirma o
art. 28 da Declaração Universal de Direitos Humanos, a
necessidade de se estabelecer uma ordem social e inter-
nacional em que os direitos proclamados na Declaração
se tornem efetivos.

Sérgio Vieira de Mello (2004, p. 161).

(Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Hu-


manos, morto no Iraque em 19 de agosto 2003).

Introdução

O presente capítulo trata de forma abrangente do sistema in-


ternacional de proteção dos direitos humanos.

O tema dos direito humanos tem acompanhado a agenda


da humanidade na busca de sua proteção contra as violações
ocasionadas pelo próprio processo de desenvolvimento social
e econômico. Não são poucas as experiências vivenciadas
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    3

nessa trajetória, tendo desde as violações praticadas durante


a segunda guerra mundial, como as questões mais recentes
que envolvem as migrações, a tortura, discriminações étnico-
-raciais e de gênero, violência urbana e rural, desrespeito às
chamadas minorias, entre outras.

Para termos uma visão ampla do processo de desenvolvi-


mento desse tema, abordaremos através de um breve retros-
pecto histórico sua evolução com apontamentos na antiguida-
de, especificamente, no ambiente grego e romano, passando
pelas Declarações liberais do século XVIII, referindo-se à Ingla-
terra, Estados Unidos e à Revolução Francesa, construtores da
positivação dos direitos individuais e políticos.

Posteriormente, estudaremos a internacionalização da pro-


teção dos direitos humanos através da criação da Organiza-
ção das Nações Unidas e do sistema internacional dos direitos
humanos, com a carta de direitos humanos. E, por fim, o sis-
tema interamericano de direitos humanos, através da Conven-
ção Interamericana de Direitos Humanos e da estrutura por
ela desenvolvida com a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Dessa forma, faremos um acompanhamento identificando


a ampliação do leque de direitos protetores da dignidade da
pessoa humana, nos direitos individuais e políticos, nos direi-
tos sociais, econômicos e culturais, nos direitos coletivos e di-
fusos, e nos direitos das futuras gerações.

Finalizando, destacaremos a definição dos direitos huma-


nos. Bons estudos!
4   Direitos Humanos

1U
 m breve retrospecto da evolução dos
direitos humanos

Os direitos humanos é um dos temas mais importantes para


o estudo, reflexão e desenvolvimento na atualidade. Tem sido
pauta desde a antiguidade, passando por todas as fases histó-
ricas, e se projeta para o futuro. Ou seja, não se esgota nem
se limita. Sua extensão se define a cada momento, através da
luta permanente do homem em defesa da sua dignidade dian-
te da sua própria evolução.

Como destaca TRUYOL Y SERRA (1994, p. 11) falar de


direitos humanos significa afirmar que existem direitos funda-
mentais que o homem possui pelo fato de ser homem, que
decorre de sua natureza e dignidade. Esses direitos são ineren-
tes a ele e longe de ser uma concessão da sociedade política,
devem ser por ela consagrados e garantidos.

Ao estudarmos os direitos humanos, temos que ter presente


o fato de que, na sua trajetória histórica, a consciência clara
e universal de tais direitos é própria dos tempos modernos.
No mundo antigo, os direitos humanos devem ser entendidos
diferentemente do que o compreendemos na atualidade, onde
a autodeterminação dos povos no âmbito internacional e a
democracia como sistema político interno são fundamentais.
Não há direitos humanos sem democracia. Assim, na antigui-
dade, apresentam-se de forma restringida e em um esforça-
do desenvolvimento da consolidação da dignidade humana.
Nesse sentido, veremos, inicialmente, os aspectos básicos da
Grécia Antiga e do período romano.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    5

Na Grécia antiga, destaca-se a concepção do humanismo


e da inteligência racional. Desenvolveram a concepção de li-
berdade política, como o hábito de viver de acordo com as leis
da polis. Na polis, participavam dos assuntos de forma direta
através da democracia, não delegando o poder. Essa parti-
cipação era limitada aos cidadãos gregos, ou seja, àqueles
que descendiam de pai que detinha cidadania grega. As mu-
lheres, os estrangeiros residentes e os escravos não participa-
vam da democracia grega. Tinham uma atividade colonialista
e empregavam habitualmente a tortura como método político
e judicial. O vencido geralmente era torturado, e nas dispu-
tas políticas e judiciais também se torturava, considerando-se
esse método legítimo. Aristóteles, na Retórica, relaciona como
meios de provas as leis, as testemunhas, as convenções e a
tortura. Os cidadãos gregos tinham imunidade total e sagra-
da, só podendo ser condenados com o juízo de um Tribunal.
Assim, praticavam, em síntese, um critério estrito de proteção
dos direitos humanos, limitado à participação na polis e isen-
tos de generalidade e universalidade. No entanto, o descobri-
mento da razão, o império da lei e a liberdade política foram
passos importantes para o desenvolvimento futuro dos direitos
humanos (TRAVIESO, 2005).

Já em Roma, um conceito importante foi aportado: o di-


reito como ferramenta institucional aliado ao novo sentido de
civilidade. Havia escravidão, e a tortura era admitida e insti-
tucionalizada, tornando-se, mais tarde, um legado transpor-
tado para a Idade Média. Havia desigualdade e discrimina-
ção em relação aos plebeus, diante de grupos privilegiados
(os patrícios). O direito romano sempre manteve esse tom de
desigualdade, vindo a ser atenuado com o ius civile, dirigi-
6   Direitos Humanos

do às relações jurídicas entre pessoas de mesmo status so-


cial e político. Os plebeus foram conquistando seus direitos
de igualdade com os patrícios. Primeiro reclamaram uma lei
garantindo a repartição equiparada das terras confiscadas nas
guerras. Segundo, a ação foi a da positivação de direitos, re-
alizada através da Lei das Doze Tábuas (449, a.C.). Depois,
a liberdade de matrimônio sem discriminações e a igualdade
civil, política e religiosa, através do acesso ao Consulado e
ao Pontificado. O aporte para o desenvolvimento dos direitos
humanos foi a técnica jurídica para sua proteção através de
um direito modelado com as regras estoicas dos gregos com
os enfoques pragmáticos de Cícero, Sêneca e Marco Aurélio,
que serviram de transformação de conceitos por meio do cris-
tianismo (TRAVIESO, 2005).

Saltando no tempo, já na Inglaterra do século XIII, o Rei


João Sem-Terra edita a Carta Magna em 1215, inaugurando
o início da monarquia constitucional inglesa e servindo de ins-
piração para as futuras declarações de direitos, como A Carta
de Direitos Americana (Bill of Rights) e a Declaração Universal
dos Direitos Humanos. Entre seus dispositivos, destaca-se a
cláusula nº 39: “Nenhum homem livre será preso, encarce-
rado ou privado de uma propriedade, ou tornado fora da lei,
ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos
contra ele ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por
julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra”. Seguem
a Petição de Direitos, em 1628, a Lei do Habeas Corpus de
1679 e a Declaração de Direitos da Inglaterra (Bill of Rights,
1689), reportando um avanço prolongado e significativo na li-
mitação do poder do Rei e na promoção de direitos individuais
(CASTILHO, 2010).
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    7

A crença de que os homens são dotados de direitos inalie-


náveis, entre eles a vida e a liberdade, levaram ao processo de
independência e formação dos Estados Unidos, tendo impulso
a partir da Declaração dos Direitos de Virgínia, de 12 de junho
de 1776, momentos antes da Independência Americana, que
afirmava os princípios básicos da igualdade de todos perante
a lei, de direito políticos, direitos perante a justiça, controle da
autoridade, dentre outros.

A Constituição Americana (1789) acrescidas das dez


emendas inaugurais (Bill of Rights dos EUA, 1791), onde são
assegurados os direitos básicos dos cidadãos perante poder
do Estado, permeada pela concepção do liberalismo, trás a
afirmação dos direitos individuais e políticos, que será reafir-
mado mais à frente na Revolução Francesa.

Fruto da tomada da Bastilha, a Assembleia Nacional Cons-


tituinte francesa aprovou em 26 de agosto de 1789 a De-
claração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A liberda-
de, igualdade, a propriedade, a segurança e a resistência à
opressão são direitos imprescritíveis e devem ser conservados
pelo Estado. Afirma, ainda, os seguintes direitos básicos: que
a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique
a outrem; que a lei é a expressão da vontade geral; todo o
cidadão tem direitos políticos; é assegurado um conjunto de
direitos perante a justiça, como o princípio da presunção da
inocência; liberdade de pensamento e opiniões; liberdade re-
ligiosa, entre outros. Assim, as chamadas Revoluções Liberais
produziram a afirmação do conjunto de direitos individuais e
políticos, garantindo aqueles que protegem ao indivíduo e sua
relação frente ao poder do Estado (CASTILHO, 2010).
8   Direitos Humanos

Já na virada do século XIX para o século XX, experimenta-se


uma inovação na concepção dos direitos humanos. Parte-se
da concepção liberal estruturada nos direitos individuais para
a visão do homem inserido em uma sociedade e necessitado
de recursos básicos para sua afirmação e desenvolvimento.
Diante do quadro de contradições do Estado Liberal (Estado
Mínimo), do capitalismo e a Revolução Industrial acompa-
nhada de uma corrida tecnológica cada vez mais dinâmica,
decorrem o surgimento do socialismo que se converte em fe-
nômeno mundial e levou ao desenvolvimento dos movimentos
de trabalhadores, do sindicalismo e dos partidos de esquerda.
A República de Weimar (Alemanha), a Constituição Mexica-
na de 1917, a Constituição Russa de 1917, a espanhola de
1931 e o Welfare State americano trazem a proteção amplia-
da dos direitos humanos, agora abrangendo os direitos so-
ciais, econômicos e culturais. Em 1919, surge a Organização
Internacional do Trabalho, buscando a regulação dos direitos
trabalhistas e a repressão à exploração do trabalho a nível
transnacional (LIESA, 2013).

Após esse rápido retrospecto, vamos destacar os principais


pontos referentes aos direitos humanos contemporâneos, a
partir da análise do sistema internacional, que com o surgi-
mento da Organização das Nações Unidas, impulsiona um
novo campo do Direito Internacional: o Direito Internacional
dos Direitos Humanos.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    9

2A
 Organização das Nações Unidas e
a Internacionalização da Proteção aos
Direitos Humanos

A evolução dos direitos humanos toma impulso com a guina-


da histórica presenciada pela humanidade no século XX, de-
vido aos graves efeitos e de difícil cicatrização, resultantes das
guerras mundiais, como as práticas genocidas, em especial,
do holocausto. O alto poder de destruição, além dos próprios
atos de guerra, com a ascensão ao poder de Hitler e, aliado
à ameaça do potencial de destruição em massa, executado
concretamente e mortalmente com o uso de bombas atômicas
no Japão (Hiroshima e Nagasaki, 1945), faz surgir uma nova
reflexão sobre os destinos da humanidade.

Conjugar os interesses da soberania e interesses egoísti-


cos dos Estados, frente aos rumos da dominação mundial, de-
pois demonstrados pela imprevisível denominada Guerra Fria,
onde se descortinou uma corrida pela dominação política e de
mercado das nações, foi o ponto inolvidável para a construção
de um sistema internacional, que objetivasse reunir os Estados
na busca de soluções pacíficas para os inevitáveis conflitos fu-
turos, fruto da própria independência do homem e, por assim
dizer, dos Estados.

Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos,


foi o primoroso arquiteto da condução da política estaduni-
dense durante a segunda guerra mundial, transformando-se
em um dos principais articuladores da construção de uma
10   Direitos Humanos

nova ordem pós-guerra, com Churchill (Inglaterra) e Stalin (ex-


-União Soviética).

Após o período de preparação, que se estendeu a partir da


constituição da aliança de países que lutavam contra o Eixo
(Alemanha e Itália), consolidou-se a ideia da criação de uma
organização internacional durante a Conferência de Moscou,
em 1943, tomando novo impulso na Conferência de Teerã,
em dezembro de 1943.

O encontro de Dumbarton Oaks (mansão situada em um


bairro de Washington), em 1944, foi dedicado à constituição
da nova organização, tendo como ênfase a ideia de segu-
rança, expressa pela ação dominante das grandes potências.
De fato, esse encontro foi realizado em duas fases, sendo a
primeira, de 21 de agosto a 28 de setembro de 1944 e reu-
nindo os Estados Unidos, a Inglaterra e a ex-União Soviética;
a segunda, de 29 de setembro a 07 de outubro de 1944, teve
a participação da China, dos Estados Unidos e da Inglaterra.

A Carta das Nações Unidas, para Roosevelt, deveria ser


assinada em abril de 1945, em São Francisco, Califórnia, no
entanto, ele veio a falecer no dia 12 desse mesmo mês. Seu
projeto, contudo, tem continuidade com seu sucessor Harry
Truman. A Conferência de São Francisco realiza-se, então, no
período de 25 de abril a 26 de junho de 1945. Da Conferên-
cia das Nações Unidas para a Organização Internacional, de-
nominação oficial do evento, frutificou a Carta da ONU, que,
aprovada em 26 de junho, veio a entrar em vigor no dia 24 de
outubro do mesmo ano. A carta, então resultante, não foi uma
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    11

mera reprodução dos debates e ideias decididas em Dubarton


Oaks. Com a participação e esforço de inúmeros outros Esta-
dos, de menor ou mediana expressão no contexto político in-
ternacional, introduziram-se modificações que ultrapassaram
o forte eixo da segurança e manutenção da paz, até então
presentes. Não se alterou a decisão dos Grandes Países sobre
o Conselho de Segurança, mas foi possível, noutra vertente,
tonalizar a Carta com maior ênfase na cooperação interna-
cional em matérias econômicas e sociais e, especialmente, na
proclamação do respeito universal aos direitos humanos e às
liberdades fundamentais, sem qualquer distinção por motivos
de raça, sexo, idioma ou religião (Preâmbulo e Arts. 1.3, 13.1,
55, c), 56, 62.2, 68 e 76). Também, firmou a Carta, o princí-
pio da igualdade e livre determinação dos povos (Preâmbulo e
Arts. 1, 2 e 55), e a internacionalização do regime político de
todos os territórios coloniais (Arts. 73 e 74).

O Brasil foi signatário fundador e a ratificou nessa mesma


data. Inicialmente, 51 países foram os signatários originais,
tendo hoje a participação de 193 países. Integra a Carta das
Nações Unidas o Estatuto da Corte Internacional de Justiça.

Com a efetivação da ONU, como corolário desse proces-


so, tendo os direitos humanos como objetivo de promoção da
convivência humana, decorre a elaboração e adoção de uma
série de tratados internacionais destinados à proteção dos di-
reitos humanos que vem a estruturar o campo do Direito In-
ternacional dos Direitos Humanos, iniciando-se com a própria
Carta da ONU e na sequência a Declaração Universal dos
Direitos Humanos.
12   Direitos Humanos

2.1 Sistemas Internacionais de Proteção dos


Direitos Humanos
Visualiza-se, assim, na esteira de seu desenvolvimento, a cons-
trução de dois sistemas de proteção. Um, no plano universal,
através da criação da Organização das Nações Unidas, com
aplicação a todo o planeta; e outro, dirigido às questões re-
gionais, com jurisdição a determinados continentes, como o
Sistema Europeu de Direitos Humanos, o Sistema Interame-
ricano e o Sistema Africano. Na sequência, segue o estudo
focado no sistema universal e regional interamericano.

2.2 O Sistema Universal de Proteção dos


Direitos Humanos
A ONU foi criada tendo como objetivos a promoção da co-
operação internacional para a solução de problemas interna-
cionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário
e o desenvolvimento e estímulo do respeito aos direitos huma-
nos e às liberdades fundamentais de todos, conforme Art. 1.3
da Carta das Nações Unidas. Nesse ponto, discorre-se sobre a
estrutura e funções atinentes a cada órgão, dando ênfase aos
integrantes do sistema de proteção de direitos humanos.

Estruturalmente, a ONU possui seis órgãos, assim defini-


dos na Carta constitutiva: Assembleia Geral, o Conselho de
Segurança, o Conselho Econômico e Social (ECOSOC), o
Conselho de Tutela (Consejo de administración Fiduciária), a
Corte Internacional de Justiça (CIT) e o Secretariado. Por ser
mais adstrita a este estudo, aborda-se, a seguir, alguns as-
pectos principais e caracterizadores da Assembleia Geral, do
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    13

Conselho de Segurança, do Conselho Econômico e Social e


da Corte Internacional de Justiça. Não são mencionados a
Secretaria e o Conselho de Tutela, por deverem ser submetidos
à literatura específica.

A Assembleia Geral é o principal órgão de deliberação,


composta por todos os membros das Nações Unidas. Sua fun-
ção é a de discussão sobre quaisquer questões ou assuntos
que estejam previstos na Carta inaugural e em relação aos ór-
gãos nela previstos como, dentre outros: fazer recomendações
sobre os princípios gerais de cooperação na manutenção da
paz e da segurança internacionais, ajudar a efetivar os direi-
tos humanos e as liberdades fundamentais de todos, fomentar
a cooperação internacional nos terrenos econômico, social,
cultural, educacional e sanitário; recomendar a adoção de so-
luções pacíficas, diante de qualquer situação, independente
de sua origem, que possa ser prejudicial às relações amistosas
entre as Nações.

A Assembleia Geral possui órgãos subsidiários, no qual se


destaca o Conselho de Direitos Humanos. Tem como princi-
pal responsabilidade a manutenção da paz e da segurança
internacional. É composto por quinze membros, sendo cinco
permanentes (China, Federação Russa, França, Reino Unido –
Grã-Bretanha e Irlanda do Norte – e Estados Unidos da Amé-
rica), e dez membros não permanentes, que são eleitos pela
Assembleia Geral para um período de dois anos.

No campo da cooperação internacional econômica e so-


cial, está adstrita a incumbência de promover o respeito uni-
versal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais de
14   Direitos Humanos

todos, sem qualquer forma de discriminação por motivos de


raça, sexo, idioma ou religião e, por fim, a efetividade de tais
direitos e liberdades. A Carta estabelece, aqui, o princípio da
universalização dos direitos humanos comprometendo to-
dos os Estados membros a adotarem medidas conjuntas ou
separadamente para a realização dos propósitos ali definidos.
Esse é o papel primordial da ONU.

Seguindo na esteira da análise dos órgãos integrantes da


ONU, focalizam-se agora os diretamente incumbidos de pro-
mover e proteger os direitos humanos. É bem verdade que a
partir dos princípios esculpidos na Carta das Nações Unidas
e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, dois instru-
mentos inaugurais da internacionalização moderna dos direi-
tos humanos, todos os órgão e integrantes do sistema das Na-
ções Unidas, como ensina LEWANDOWSKI, sob um ponto de
vista abrangente, estão comprometidos com a sua promoção
e defesa, embora voltados para outras atividades. Inúmeros
órgãos atuam nessa área como, por exemplo, a Organização
Mundial da saúde (OMS), Organização das Nações Unidas
para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Organiza-
ção Internacional do Trabalho (OIT), Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), apenas para
citar.

O Conselho de Direitos Humanos foi estabelecido como


órgão subsidiário da Assembléia Geral, fixando sua sede em
Genebra. É integrado por quarenta e sete Estados membros,
eleitos de forma direta e individual por maioria dos membros
da Assembléia Geral, para um mandato de três anos, não
sendo possível a reeleição.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    15

A principal função, atribuída ao Conselho pela Assem-


bleia Geral é a de ser responsável pela promoção ao respei-
to universal, pela proteção de todos os direitos humanos e
liberdades fundamentais de todas as pessoas, sem distinção
de nenhum tipo e de uma maneira justa e equitativa. Dedica,
também, a tarefa de agir diante das situações de violações dos
direitos humanos, sejam elas graves ou sistemáticas, fazendo
recomendações sobre tais fatos. Deverá, ainda, promover a
coordenação eficaz e a incorporação dos direitos humanos
em toda atividade geral do sistema das Nações Unidas.

O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos


Humanos surge, nesse contexto, através da Res. nº 48/141,
aprovada pela Assembleia Geral, em sessão realizada no dia
07 de janeiro de 1994. É como esclarece BUERGENTHAL,
“um funcionário das Nações Unidas com a principal responsa-
bilidade nas atividades da ONU em matéria dos direitos huma-
nos, sob a direção e responsabilidade do Secretário-Geral”. O
Alto Comissariado é um escritório integrante do Secretariado.
O posto de Alto-Comissariado para os Direitos Humanos é
ocupado por um período de quatro anos, podendo ser reno-
vado por igual período, nomeado pelo Secretário-Geral das
Nações Unidas, sob aprovação da Assembleia Geral. Como
marco conceitual, deve guiar-se pelo reconhecimento de que
todos os direitos humanos – civis, culturais, econômicos, polí-
ticos e sociais – são universais, indivisíveis, interdependentes e
estão relacionados entre si. BUERGENTHAL destaca que, entre
as funções atribuídas ao Alto-Comissariado, a principal delas
está prevista no parágrafo 4(f): eliminar os atuais obstáculos e
fazer frente aos desafios para a plena realização dos direitos
humanos.
16   Direitos Humanos

Destaca-se, na busca desse desiderato, a atuação relevada


do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que foi alçado ao posto
de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Huma-
nos, em 12 de setembro de 2002, e que, em 19 de agosto de
2003, veio a falecer, vítima de atentado terrorista em Bagdá,
quando uma bomba explodiu no prédio do antigo Hotel Ca-
nal, sede do escritório das Nações Unidas.

Nesse local, encontrava-se como representante oficial do


Secretário-Geral da ONU, justamente para buscar caminhos
de pacificação, diante da ocupação militar dos Estado Unidos
no Iraque e, assim, restabelecer o respeito aos direitos funda-
mentais dos cidadãos iraquianos. Como registra a entrevista
concedida ao jornalista Jamil Chade, da Agência Estado, pu-
blicada no Brasil no jornal O Estado de São Paulo, edição de
17 de agosto de 2003, ou seja, dois dias antes de sua morte,
Sérgio Vieira de Mello enfatizava o seguinte comentário: “Este
deve ser um dos períodos mais humilhantes da história desse
povo [iraquiano]. Quem gostaria de ver seu país ocupado? Eu
não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana”.

Por fim, recentemente, foi incorporado ao sistema interna-


cional o Tribunal Penal Internacional (TPI), criado pelo Estatuto
de Roma, aprovado em 17 de julho de 1998, entrando em
vigor em 01 de julho de 2002. O Brasil assinou o Estatuto so-
mente em 07 de fevereiro de 2000, vindo a ser ratificado pelo
Dec. Leg. nº 112, de 06 de junho de 2002 e promulgado pelo
Dec. Fed. nº 4.388, de 25 de setembro de 2002.

O TPI, de acordo com o seu Estatuto, é uma instituição


permanente e está revestido de jurisdição sobre as pessoas
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    17

responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance


internacional e tem atuação complementar às jurisdições pe-
nais nacionais. Está sediado na cidade de Haia, Holanda, po-
dendo, quando for conveniente, funcionar em outro local. Sua
competência restringe-se aos crimes de natureza mais grave,
que afetam a comunidade internacional no seu conjunto, como
os elencados no art. 5º: crime de genocídio, crimes contra a
humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão.

As Nações Unidas, no seu aspecto estrutural e procedimen-


tal, é um tema amplo, o que demandaria um aprofundamento
inapropriado, neste momento posto o objetivo deste estudo.
Dessa forma, passamos para a outra face das Nações Unidas,
desta vez, sob seu viés material-normativo.

2.3 O nascimento do sistema contemporâneo: A


Declaração Universal dos Direitos Humanos de
1948
Como assinala BOBBIO “A Declaração Universal dos Direitos
do Homem pode ser acolhida como a maior prova histórica até
hoje dada do consensus omnium gentium sobre um determina-
do sistema de valores”. De fato, decorrido o período inicial de
instalação da ONU, um dos primeiros desafios enfrentados foi
a consolidação de uma nova carta, agora sim, dedicada a es-
tabelecer os valores fundamentais relativos à pessoa humana.

Essa é uma das características marcante da Declaração de


1948: a de reunir um conjunto de valores, fruto do consenso
pós-guerra, onde a experiência brutal das atrocidades come-
tidas serviu como sensibilização à comunidade internacional
18   Direitos Humanos

à adoção de padrões mínimos de civilização. Era o momento


ideal para sua concretização.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (doravante


DUDH) foi aprovada pela Assembléia Geral das Nações Uni-
das em 10 de dezembro de 1948. Dos 58 Estados-membros
da ONU, 48 votaram a favor, 08 se abstiveram, nenhum foi
contra e 02 Estados encontravam-se ausentes. O Brasil encon-
tra-se entre os Estados que a aprovaram de plano. Contém um
conjunto de valores que reúne todo um processo histórico de
construção, sendo, no ensinamento de BOBBIO, “uma síntese
do passado e uma inspiração para o futuro: mas suas tábuas
não foram gravadas de uma vez para sempre”. Constitui-se em
um momento de afirmação de direitos, transpondo a simples
expressão do pensamento para chegar à sua positivação e
universalização. Universalização, no sentido de que seus des-
tinatários não são somente os cidadãos de um Estado, mas,
sim, todos os homens, indistintamente de origem. Positivado,
na medida em que marca um processo que vai além da pro-
clamação de direitos, na busca da real e efetiva consolidação
da sua proteção.

Passa, então, a concretizar uma ampla lista de direitos, de


alcance individual, o rol de direitos civis e políticos (presentes
nos Arts. 3º ao 21), que geram ao Estado uma obrigação de
prestação negativa, de não fazer, ou seja, onde o vetor é o
princípio da liberdade. Dos que inserem o homem no contexto
social e primam pelo seu desenvolvimento, como os direitos
sociais, econômicos e culturais (Arts. 22 a 28), que impõem ao
Estado uma obrigação de prestação positiva, agora no sentido
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    19

de fazer, de agir, para sua efetiva garantia e proteção, matiza-


do pelo princípio da igualdade.

O leque de direitos alcançados pela DUDH demonstra que


foi possível reunir, em um só plano, categorias de direitos (ci-
vis e políticos com econômicos, sociais e culturais), mesmo
diante da divisão do bloco mundial proveniente da derroca-
da da Segunda Grande Guerra (1945). Diante disso, constata
CANÇADO TRINDADE que ”é altamente significativo que a
Declaração Universal de 1948 tenha propugnado por uma
concepção necessariamente integral ou holística de todos os
direitos humanos”. O texto tomou essa forma graças à capaci-
dade dos Estados em constituir um consenso, como afirmado
por BOBBIO, em torno de um objetivo comum, a relevância
dos direitos humanos, determinado, evidentemente, em um
momento de sensibilidade pós-guerra.

A Declaração funda, consequentemente, a partir dessa


estruturação, um novo marco de positivação dos direitos hu-
manos, que além da universalização, inclui o princípio da
indivisibilidade e interdependência entre os mais variados
direitos, seja de cunho individual ou de cunho econômico-
-social. Como anota FLÁVIA PIOVESAN, os direitos humanos
estão em constante dinâmica de interação, sendo acolhidos
pela ideia de “expansão, cumulação e fortalecimento”, o que
os tornam essencialmente complementares.

A Declaração, torna-se o ponto de partida para o desen-


cadeamento da normatização internacional dos direitos huma-
nos em níveis universal e regionalizado. Esse desdobramento
ocorre com o nascimento de inúmeros tratados em vigência e
20   Direitos Humanos

outros que, certamente, ainda estarão por vir, pois é um longo


processo que se firma no transcorrer dos anos e, acompa-
nhando a rápida evolução da sociedade, vem a caminhar em
busca da satisfação das necessidades do homem.

2.4 A Carta Internacional de Direitos Humanos:


os instrumentos internacionais se multiplicam
A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi o marco de
encerramento de um processo e de impulso para outro mo-
vimento. Encerra o processo de fundamentação e inaugura
o movimento de internacionalização das normas de direitos
humanos, sob o eixo da universalização e da indivisibilidade.

Contudo, a necessidade de implementação de mecanis-


mos mais eficazes aflorou imediatamente, dando início ao per-
curso (alíás, longo percurso, foram 18 anos de trabalho) que
levou à elaboração e adoção de dois grandes Pactos, que ao
lado da DUDH formam a Carta Internacional de Direitos Hu-
manos: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais
e Culturais e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos
e o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto dos Direito Civis e
Políticos.

O Brasil veio a ratificar esses Tratados somente em 24 de


janeiro de 1992 (Dec. Leg. nº 22612, de dezembro de 1991),
tendo, consequentemente, os Pactos e o Protocolo entrado em
vigor em 24 de abril de 1992. Exceto o Segundo Protocolo,
onde até o presente momento não houve ratificação pelo Go-
verno brasileiro.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    21

Passa-se, em breves palavras, a tratar sobre os principais


pontos atinentes aos dois Pactos.

2.5 O Pacto Internacional de Direitos


Econômicos, Sociais e Culturais
O Pacto Internacional de direitos Econômicos, Sociais e Cultu-
rais, já no preâmbulo, anuncia seu fundamento de que esses
direitos são inerentes à dignidade da pessoa humana, sendo
condições básicas para proporcionar a realização do ideal de
um ser humano livre, liberto do temor e da miséria. Aos Esta-
dos, impõe-se a obrigação de promover o seu respeito univer-
sal e efetivo, bem como, ao indivíduo, concitado ao exercício
da cidadania, com deveres ao seu semelhante e à comunida-
de a que pertence à obrigação de lutar pela promoção dos
direitos protegidos pelo Pacto.

Cada Estado-parte, conforme prevê o Art. 2º do Pacto, está


comprometido a adotar medidas nos planos econômico e téc-
nico que visem a assegurar, progressivamente, o pleno exercí-
cio desses direitos, até o máximo de seus recursos disponíveis
através de seu esforço próprio, ou pela assistência e coopera-
ção internacionais. Na mesma direção, os direitos enunciados
no Pacto deverão ser exercidos, sem nenhuma forma de discri-
minação, quanto ao sexo, cor, raça, língua, religião, opinião
política ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou
social, situação econômica, nascimento ou qualquer situação.
Como se vê, houve um cuidado muito especial em demarcar
todo e qualquer formato de manifestação discriminatória, que
porventura possa existir.
22   Direitos Humanos

O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e


Culturais está estruturado em cinco partes, onde se distribuem
seus trinta e cinco artigos. Na primeira parte, evidencia o di-
reito à autodeterminação dos povos e à livre disposição das
riquezas e dos recursos naturais que lhe pertencem, não po-
dendo ser privado de seus meios de subsistência. Na segun-
da parte, o Pacto especifica o compromisso dos Estados em
esforçar-se para garantir os direitos, consubstanciados nos
princípios da igualdade, da não discriminação e da proibição
de supressão ou limitação de direitos. Já, na terceira parte,
encontra-se o rol dos direitos econômicos, sociais e culturais,
como: o direito ao trabalho, em condições básicas, justas e
favoráveis para o seu exercício; direito de fundar e filiar-se em
sindicatos; direito ao exercício da greve, de acordo com as
leis do país; direito à previdência social; direito à constituição
e manutenção da família, proteção às mães, durante o perí-
odo antecedente e posterior ao parto; proteção às crianças e
adolescentes, em especial contra a exploração econômica e
social; proteção contra a fome; direito à saúde física e mental;
direito à educação, que possibilite o pleno desenvolvimento
da personalidade humana, do sentido da dignidade, o for-
talecimento do respeito pelos direitos humanos e liberdades
fundamentais, educação primária obrigatória e acessível; di-
reito de participação na vida cultural, de desfrute do progresso
científico e liberdade indispensável à pesquisa científica e à
atividade criadora. A quarta e quinta partes dizem respeito aos
mecanismos de supervisão e regras quanto à ratificação e en-
trada em vigor, respectivamente.

Como se verifica, é destinado aos Estados, atribuindo-lhes


um conjunto de deveres a serem alcançados para o desenvol-
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    23

vimento do ser humano, sob a perspectiva de que “descreve,


aprofunda e amplia os direitos da pessoa como ser social”.

2.6 O Pacto Internacional de Direitos Civis e


Políticos
O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos está estru-
turado em seis partes e contém 53 artigos, tal como o Pac-
to anterior, na primeira parte trata da autodeterminação dos
povos para assegurarem livremente seu estatuto político. Na
segunda parte, há o compromisso do Estado em respeitar e
garantir os direitos dos indivíduos, sem discriminação de qual-
quer natureza, regulando a manutenção de direitos frente às
situações excepcionais. Os direitos civis e políticos são tratados
na terceira parte. O direito à vida é protegido por lei e enseja,
também, as restrições à pena de morte, o que no Brasil assumiu
total vedação pelo disposto no Art. 5º, XLVII, da Constituição
Federal; direito a não ser submetido à tortura, ou a penas ou
tratamentos cruéis, desumanos e degradantes; direito de não
ser escravizado nem ser submetido à servidão; direito à liberda-
de e à segurança pessoal, garantindo-se a proibição da prisão
arbitrária e a proteção contra toda forma de violência ou danos
físicos praticados por servidores públicos, indivíduos, grupos ou
instituições; direito à julgamento justo e igualdade perante os
Tribunais; direito à proteção contra interferência arbitrária na
vida privada; direito ao reconhecimento a sua personalidade;
liberdade de pensamento, consciência e religião; liberdade de
expressão; direito à constituição de uma família; direitos rela-
tivos às crianças; direito à participação política, de votar e ser
eleito; e, proibição de prisão por descumprimento contratual.
24   Direitos Humanos

No Protocolo Facultativo Relativo ao Pacto Internacional de


Direitos Civis e Políticos, foi reconhecida a competência do
Comitê de Direitos Humanos para receber e examinar comu-
nicação individual, novidade aqui inserida, quando forem víti-
mas de violação por um Estado-parte. Devendo-se observar a
situação de estar incluído como Estado-parte e o princípio do
esgotamento de recursos internos.

O Segundo Protocolo Facultativo do Pacto Internacional de


Direitos Civis e Políticos, destinado a Abolir a Pena de Morte,
adotado pela Assembleia Geral em 15 de dezembro de 1989,
através da Res. nº 44/128, está direcionado a esse tema tão
polêmico e importante para a cessação da aplicação desse
tipo de sanção e a adoção de medidas a sua abolição nos
Estados que ainda o tenha em sua jurisdição.

Resumidamente, os Pactos apresentam, além dos direitos


albergados, três medidas principais: o sistema de relatórios,
comum a ambos os Pactos; o sistema de comunicações inte-
restatais, constante no Pacto de Direitos Civis e Políticos, cuja
supervisão é feita pelo Comitê de Direitos Humanos; e o siste-
ma de comunicações individuais, dirigido ao Comitê, previsto
no Protocolo Facultativo ao Pacto de Direitos Civis e Políticos.

3S
 istema Regionalizado: A Proteção
Interamericana dos Direitos Humanos

O sistema interamericano começa a estruturar-se com a Carta


da Organização dos Estados Americanos (OEA). Vamos tratar
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    25

do sistema embasado na Convenção Americana de Direitos


Humanos de 1969, sendo obrigatório somente aos Estados
que fazem parte dela, ou seja, que a ratificaram, do qual o
Brasil faz parte.

3.1 Surgimento da Organização dos Estados


Americanos
A OEA surge então com a adoção de sua Carta constituti-
va, aprovada, mais especificamente, em 30 de abril de 1948,
entrando em vigor em 13 de dezembro de 1951. É um orga-
nismo regional das Nações Unidas que tem por fim conseguir
uma ordem de paz e de justiça, a promoção da solidariedade,
a defesa da soberania, da integridade territorial e da indepen-
dência.

Integram a OEA, as nações independentes que ratificaram


a sua Carta. Atualmente, são 35 países: Antígua e Barbuda,
Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Cana-
dá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominicana, Repúbli-
ca Dominicana, Equador, El Salvador, Estados Unidos, Grana-
da, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México,
Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Saint Kitts and Nevis,
Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e
Tobago, Uruguai, Venezuela. No entanto, apenas 34 países
têm participação efetiva, pois o Governo de Cuba teve sua
participação suspensa em 1962.

Em Bogotá, no período de 30 de março a 02 de maio


de 1948, com a realização da IX Conferência de Ministros
das Relações Exteriores, é que foram adequados e adotados
26   Direitos Humanos

os instrumentos principais para a nova ordenação do Siste-


ma Interamericano. Com a participação de 21 Estados, entre
eles o Brasil, foram aprovados os seguintes instrumentos fun-
damentais: A Carta da Organização dos Estados Americanos,
o Tratado Americano de Soluções Pacíficas (Pacto de Bogotá),
a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, o
Convênio Econômico de Bogotá e a Carta Internacional Ame-
ricana de Garantias Sociais.

Encontra-se, nos seus objetivos e princípios, a afirmação


do preceito, onde a paz, democracia e erradicação da pobre-
za aliam-se ao princípio esculpido no Art. 3º da Carta da OEA
que proclamam os direitos fundamentais da pessoa humana,
sem fazer distinção de raça, nacionalidade, credo ou sexo.

3.2 O Sistema da Convenção Americana sobre


Direitos Humanos – CADH
A Convenção Americana sobre Direitos Humanos (doravante
Convenção Americana ou CADH), aprovada em 22 de no-
vembro de 1969, durante a Conferência Diplomática Interna-
cional, ocorrida em São José, na Costa Rica, entrou em vigor
em 18 de julho de 1978, sendo, hoje, o instrumento de maior
grau de importância no sistema interamericano. Conhecida
como “Pacto de San José”, está estruturada com um preâm-
bulo e 82 artigos. O Brasil aderiu à Convenção somente em
09 de julho de 1992, efetuando o depósito da adesão em 25
de setembro do mesmo ano. Quanto aos Estados que não
assinaram nem retificaram ou aderiram a ela, cabe destacar
o asseverado por Accioly e Silva: “é importante salientar que
os Estados membros da Organização dos Estados Americanos
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    27

(OEA), que não tenham ainda ratificado a Convenção Ameri-


cana de Direitos Humanos, são obrigados a respeitar os direi-
tos humanos a partir das disposições da Carta da OEA”.

Como atenta HANASHIRO, “é o primeiro instrumento in-


ternacional de direitos humanos a proibir expressamente a
suspensão das ‘garantias indispensáveis’ para a proteção de
direitos e a corporificar em um único instrumento normas subs-
tantivas relativas a esses direitos, bem como normas dotadas
de sanção”. É o que prevê o art. 27 da CADH, ao tratar sobre
a suspensão de garantias nos casos de guerra, perigo público,
ou ameaça à independência ou segurança do Estado parte,
quando preserva um núcleo duro de direitos humanos que de-
vem ser garantidos, mesmo em situações inóspitas.

No seu preâmbulo, reafirma o princípio da universalida-


de dos direitos humanos, centrado nos atributos da pessoa
humana, o que, por si só, já é fundamento para a proteção
internacional através da normatização convencional, que se
posiciona como coadjuvante ou complementar do que é ofe-
recido pelos Estados americanos. Reafirma os postulados da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Carta da OEA
e, também, da Declaração Americana dos Direitos e Deveres
do Homem.

Em seguida, impõe aos Estados o compromisso de respei-


tarem os direitos e liberdades, consagrados em seu texto, sem
qualquer manifestação de discriminação por motivo de raça,
sexo, cor, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer
outra natureza, origem nacional ou social, posição econômi-
ca, nascimento ou qualquer outra condição social, como as-
28   Direitos Humanos

senta o art. 1 (1), inaugural da Convenção Americana. E mais,


ainda no art. 1 (2), há o dever explícito aos Estados em adotar
medidas legislativas ou de outra natureza no direito interno
para tornar efetivos os direitos e liberdades estabelecidos na
Convenção Americana.

No seu texto, do art. 3º ao art. 25º, encontra-se o desen-


volvimento dos direitos civis e políticos. Já os direitos sociais,
econômicos e culturais são remetidos pelo art. 26, para os Es-
tados adotarem providências a sua plena efetividade. A Con-
venção Americana não enumera nem desenvolve esse conjun-
to de direitos. No entanto, para atender essa área, de forma
mais efetiva, foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção
Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais, chamado “Protocolo de San
Salvador”, em 17 de novembro de 1988, que entrou em vigor
no dia 16 de novembro de 1999.

Nesse Protocolo, que vem complementar a Convenção,


está detalhado um rol de direitos que, na esteira dos ensi-
namentos de Bobbio, inserem-se nos efeitos da multiplicação
dos direitos humanos. Assim, encontram-se aqui os direitos,
frutos do incremento na quantidade de bens, considerados
merecedores de tutela, como as relações de trabalho, direitos
sindicais, à saúde, previdência social, educação e cultura. Dos
direitos que tem estendida à titularidade para sujeitos que não
o indivíduo, como a proteção da família e ao meio ambiente
sadio. E, por fim, aqueles dirigidos ao homem, não mais como
um ente genérico, em abstrato, mas na sua especificidade,
como a proteção à criança, proteção das pessoas idosas, dos
deficientes, à alimentação e outros. O Protocolo traz um ca-
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    29

tálogo de direitos amplos e atualizados que complementam a


Convenção e, por conseguinte, vem a constituir em um instru-
mento de proteção que abrange, no dizer de Bobbio, “mais
bens, mais sujeitos, mais status do indivíduo”. O Brasil ratificou
esse Protocolo em 21 de agosto de 1996.

A CADH, na Segunda Parte, regula os meios de prote-


ção, reconhecendo como de competência dos assuntos sobre
o cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados
através de dois importantes órgãos, que passam a compor o
Sistema Interamericano dos Direitos Humanos: a Comissão In-
teramericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana
de Direitos Humanos.

3.3 A Comissão Interamericana de Direitos


Humanos
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão
Interamericana), criada como órgão da OEA, assume com o
advento da Convenção Americana, uma nova dimensão den-
tro do sistema interamericano, com funções de promoção e
proteção dos direitos humanos.

Com sede em Washington, D.C., é integrada por sete


membros independentes, que desempenham de forma pesso-
al, não representando nenhum país em particular, eleitos pela
Assembleia Geral para um mandato de quatro anos, podendo
ser reeleito para o mesmo período.

A competência da Comissão Interamericana é demarca-


da pelo círculo abrangente do atual sistema interamericano,
que contempla a existência de Estados membros da OEA, que
30   Direitos Humanos

ratificaram a Convenção Americana, com as seguintes atribui-


ções, dentre outras: estimular a consciência dos direitos hu-
manos nos povos da América e formular recomendações aos
Governos dos Estados para que adotem medidas progressivas
em prol dos direitos humanos, em sua legislação, nos seus
preceitos constitucionais e de seus compromissos internacio-
nais.

No tocante aos Estados partes da Convenção Americana,


além das já referidas competências, a Comissão Interamerica-
na exercerá sua função para: atuar com respeito às petições
e outras comunicações de conformidade com os arts. 44 e
51 da Convenção; atuará junto à Corte Interamericana de
Direitos Humanos; solicitará à Corte Interamericana que tome
medidas provisórias diante de assuntos graves e urgentes; re-
alizar consultas à Corte Interamericana sobre interpretação da
Convenção Americana e outros Tratados sobre direitos huma-
nos; e submeter à Assembleia Geral projetos de emendas e de
protocolos adicionais à Convenção Americana.

Para acessar a Comissão, além dos próprios Estados mem-


bros, qualquer pessoa ou entidade não governamental reco-
nhecida em um ou mais Estados membros da Organização
poderão apresentar petições, em seu próprio nome ou de ter-
ceiras pessoas, que tratem sobre supostas violações de direitos
humanos, protegidos pela Convenção Americana e demais
Tratados que se integram a esse sistema normativo.

Para tanto, devem ser observadas as condições de admis-


sibilidade da petição descritas na Convenção Americana, da
qual se destaca: o esgotamento dos recursos internos, a regra
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    31

dos seis meses para a representação, ausência de litispendên-


cia internacional, ausência de coisa julgada internacional e a
fórmula da quarta instância.

O esgotamento dos recursos internos é uma condição que


vem sofrendo flexibilização, porquanto o entendimento da Co-
missão Americana e da Corte Americana tem privilegiado o
acesso do indivíduo às instâncias internacionais. Na medida
em que é oportunizada uma maior participação das pessoas,
com a ampliação das medidas de promoção e educação para
o respeito dos direitos humanos, abre-se caminho para a bus-
ca da efetiva garantia desses direitos, não somente no âmbito
interno dos Estados, mas junto ao sistema internacional, aqui,
tratando-se do regional interamericano.

Outro requisito de admissibilidade diz respeito à regra dos


seis meses, onde as petições devem dar entrada na comissão,
em um prazo de até os seis meses seguintes à data da notifi-
cação da decisão definitiva sobre o fato, vindo a ocasionar o
esgotamento dos recursos internos.

O Brasil está submetido à competência da Comissão In-


teramericana, tanto como Estado membro da OEA, desde a
Carta de 1948, como a partir de 1992, às disposições da
competência ampliada pela Convenção Americana. Dentre os
casos submetidos à Comissão está o referente a Srª Maria da
Penha Maia Fernandes, tema de violência doméstica, chegan-
do à seguinte conclusão: “4. Que o Estado violou os direitos
e o cumprimento de seus deveres segundo o artigo 7 da Con-
venção de Belém do Pará em prejuízo da Senhora Fernandes,
bem como em conexão com os artigos 8 e 25 da Convenção
32   Direitos Humanos

Americana e sua relação com o artigo 1(1) da Convenção, por


seus próprios atos omissivos e tolerantes da violação infligida”.

A mesma decisão foi exaustiva em apontar recomenda-


ções ao Estado brasileiro para não somente apurar com mais
celeridade os fatos, mas também adotar medidas educativas
e estruturais para conter a violência doméstica. Dentre elas,
destaca-se a seguinte recomendação: “b) Simplificar os pro-
cedimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o
tempo processual, sem afetar os direitos e garantias de devido
processo. Certamente, as recomendações foram importantes
para a nova normatização, seguida pela promulgação da Lei
nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Essa lei recebeu a de-
nominação popular de “Lei Maria da Penha”.

3.4 A Corte Interamericana de Direitos


Humanos
A criação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, com
a aprovação da Convenção Americana, é o órgão central
para atender aos reclames de garantia dos direitos humanos.

É uma instituição judiciária autônoma, sendo o órgão su-


premo de jurisdição do sistema interamericano, cujo objetivo é
a aplicação e interpretação da Convenção Americana de Di-
reitos Humanos e de outros Tratados referentes a essa matéria,
o que lhe confere, através de seus dispositivos, associado ao
Estatuto da Corte, um caráter especial às suas decisões, o que
as tornam definitivas e irrecorríveis, portanto de cumprimento
obrigatório. Vale dizer, nas palavras de FERNANDO G. JAY-
ME “A Corte representa a essência do sistema interamericano
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    33

de proteção dos direitos humanos, que encontra sua máxima


expressão na obrigatoriedade das decisões emanadas desse
órgão jurisdicional”.

O Brasil reconhece a jurisdição da Corte desde o dia 10


de dezembro de 1998, data destinada à comemoração do Dia
Internacional dos Direitos Humanos, após o início da redemo-
cratização, instaurada pós-Constituição de 1988.

A Corte Interamericana está instalada em São José, Costa


Rica, sendo composta por sete juízes eleitos pela Assembleia
Geral da OEA para um mandato de seis anos, podendo ser
reconduzidos por igual período. Suas sessões são públicas, ex-
ceto na fase de deliberação da Corte, que permanecerá secre-
ta, salvo, em ambas situações, decisão de outra forma tomada
pela própria Corte.

O Estatuto da Corte prevê que podem ser realizadas duas


espécies de sessões: ordinárias e extraordinárias. Os períodos
ordinários são determinados regularmente pela Corte. Já as
sessões extraordinárias serão convocadas pelo Presidente ou
por solicitação da maioria dos Juízes.

A competência da Corte, reconhecida pelos Estados, des-


dobra-se em competências específicas e facultativa. As compe-
tências específicas são as de natureza contenciosa e consultiva.
A competência facultativa diz respeito às medidas provisórias,
que são adotadas em casos de extrema gravidade e urgência.
O desdobramento de cada uma dessas competências será tra-
tado nos tópicos adiante.
34   Direitos Humanos

A competência contenciosa resulta das atribuições da Cor-


te em conhecer e resolver os problemas oriundos de violações
dos dispositivos da Convenção Americana e outros Tratados
específicos de proteção dos direitos humanos que expressarem
sua intermediação.

Pode originar-se de petições individuais ou interestatais,


sendo que somente a Comissão Americana de Direitos Huma-
nos e os Estados partes podem submeter à Corte casos para
a devida solução. A jurisdição contenciosa está vinculada ao
exigido consentimento do Estado, sem o qual não pode ser
exercida. É necessário, também, que seja observado o requi-
sito de admissibilidade referente ao esgotamento dos procedi-
mentos perante a Comissão Americana. Esse princípio é apli-
cado no sentido de que é necessário que o caso tenha sido
apreciado pela Comissão Americana, com o recebimento da
petição, desenrolar da tramitação legal e tomada de decisão
sobre o assunto, para posteriormente ser apresentado à Corte.

Na lição de FERNANDO G. JAYME, “A função jurisdicional


da Corte é irrenunciável, competindo-lhe, por dever normati-
vo, exercer sua competência para resolver qualquer controvér-
sia referente à aplicação da Convenção nos casos concretos
que lhe foram submetidos pelo Estado parte ou pela Comissão
Interamericana de Direitos humanos”. Uma vez reconhecida
a competência contenciosa, os Estados devem cumprir suas
decisões, que possuem o efeito de coisa julgada inter partes.

Quanto à participação autônoma das pessoas, o Regula-


mento atual foi modificado, ensejando, agora, a participação
das vítimas, seus familiares ou seus representantes, depois de
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    35

aceita a demanda pela Corte. Essa autorização possibilita que


possam apresentar, de forma autônoma, durante todo o pro-
cesso, suas petições, argumentos e provas que acharem ne-
cessárias para o deslinde do caso. Nas situações em que hou-
ver uma pluralidade de vítimas, familiares ou representantes,
devidamente credenciados, será designado um interveniente
comum para apresentar a petição, argumentos e provas du-
rante o transcorrer do processo. Quando houver discordância,
cabe à Corte decidir sobre o que é mais pertinente ao caso.

A Corte pode conhecer qualquer caso sobre violação dos


dispositivos da Convenção Americana. O questionamento ex-
traído dessa afirmativa é se a Corte pode conhecer violações
de outros instrumentos normativos do sistema interamericano.
A regra definida e pacífica é a da interpretação restritiva quan-
to ao alcance dos “braços” da Corte. Quer dizer, está adstrita
tão somente à Convenção Americana. No entanto, há duas
situações, apontadas por Cláudia Martin, que ampliam esse
campo de competência. A primeira decorre da possibilidade
de utilizarem-se normas de direito internacional ou de direito
internacional de direitos humanos para corroborar na interpre-
tação das normas da Convenção; a segunda, a aplicação de
outros tratados de direitos humanos que contemplem a outor-
ga de competência para a Corte supervisionar o adimplemen-
to das obrigações assumidas pelos Estados.

Por fim, em qual momento a Corte passa a ter competência


para conhecer os casos individuais referentes a um Estado? Vi-
ceja, nessa questão, o princípio da anterioridade, tanto quan-
to a entrada em vigor da Convenção e o reconhecimento da
competência contenciosa por um Estado. A regra é a do não
36   Direitos Humanos

conhecimento de fatos pretéritos ocorridos. Há uma situação,


que pode ser excepcionada, quando ocorre violações continu-
adas, que iniciam antes da entrada em vigor de um tratado em
questão e perpassam o tempo, ultrapassando o marco inicial
da competência. Como exemplo, menciona-se os casos do
desaparecimento forçado de pessoas.

As sentenças da Corte são dotadas de força definitiva e


inapelável, decidindo sobre a responsabilidade do Estado, po-
dendo atribuir-lhe o dever de reparação e indenizações, além
de garantir à vítima o gozo do direito ou liberdade por ventura
violados. A sentença impõe medidas concretas para a repa-
ração das violações sofridas pela vítima e, portanto, não tem
caráter meramente declaratório.

A Corte, ainda, desenvolve a competência consultiva onde


emana Opiniões Consultivas com o objetivo de promover a
interpretação sobre o alcance de quaisquer dos dispositivos
contidos na Convenção Americana, de modo a propiciar uma
melhor implementação e aplicação da normatividade, desti-
nada à proteção dos direitos humanos pelos Estados e pelos
próprios órgãos da OEA.

Também, em casos de extrema gravidade e urgência, a


Corte possui a competência para a adoção de Medidas Pro-
visórias, diante de possíveis danos irreparáveis às pessoas,
ampliando a proteção à pessoa humana e dando maior dina-
mismo à prestação jurisdicional.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    37

4 Para uma definição de direitos humanos

Como visto inicialmente, a realidade serve de parâmetro para


que o direito se desenvolva. Os efeitos graves do aconteci-
do na segunda grande guerra, por sua dimensão cruel e de
mortes em massa, levaram aos Estados construir uma nova
ordem internacional em que os direitos humanos tenham lugar
destacado para a prevenção e o restabelecimento da paz e a
proteção da dignidade humana.

Os valores de humanidade são transpostos para os princí-


pios e normas voltadas para a dignidade humana, sendo esse
conjunto de normas batizadas como direitos humanos. Isso
implica não somente a consagração legal dos direitos subjeti-
vos necessários para o normal desenvolvimento da vida do ser
humano em sociedade, que o Estado deve respeitar e garantir,
senão o reconhecimento de que a responsabilidade interna-
cional do Estado fique comprometida em caso de violação
não reparada, em decorrência da evolução do conjunto de
tratados internacionais e dos sistemas internacionais de prote-
ção. (PINTO, 2004).

A noção de direitos humanos afeta à relação Estado-in-


divíduo. Este, o titular dos direitos protegidos, o Estado é o
seu garante. Os limites ao poder do Estado, que buscaram
se efetivar através das Declarações do final do século XVIII,
mantém-se vigente nesta era dos direitos humanos, no dizer
de BOBBIO (2004).

Assim, destacamos a definição esposada por Pérez Luño:


38   Direitos Humanos

Um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momen-


to histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberda-
de e da igualdade humana, das quais devem ser reconhecidas
positivamente pelos ordenamentos jurídicos a nível nacional e
internacional.

Dentro da visão contemporânea, são os atributos de todas


as pessoas e inerentes à sua dignidade, da qual se exige por
parte do Estado, o respeito, a garantia ou a sua satisfação.

Pelo visto, os direitos humanos não se sucedem ou subs-


tituem uns aos outros, eles se expandem, se acumulam e se
fortalecem, interagindo os direitos individuais, políticos, os so-
ciais, econômicos e culturais, e os direitos coletivos, difusos e
das futuras gerações.

São concebidos como uma unidade indivisível, interdepen-


dente e inter-relacionada, na qual os valores da igualdade e
liberdade se conjugam e se completam (PIOVESAN, 1996).

Como ensina CANÇADO TRINDADE (1997), “o que teste-


munhamos é o fenômeno não de uma sucessão, mas antes da
expansão, cumulação e fortalecimento dos direitos humanos
consagrados, a revelar a natureza complementar de todos os
direitos humanos”.

São oriundos da própria condição de humanidade, sendo


percebidos conforme o contexto social, não se diferenciando
em termos de regime político, sociais ou culturais, pois o poder
público deve ser exercido a serviço do ser humano.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    39

Recapitulando

Podemos considerar o surgimento dos direitos humanos aos


moldes do compreendido na atualidade, os direitos enalteci-
dos nas Declarações do Estado de Virgínia (1776) e na De-
claração dos Direitos do Homem e do Cidadão francesa de
1789. Embora no sistema grego e romano da antiguidade
surjam concepções fundamentais para o desenvolvimento da
proteção da pessoa humana, como a democracia grega e a
afirmação do império da lei e da liberdade política, e o uso
pelos romanos do direito como ferramenta institucional e civi-
lizatória, é a partir das Declarações liberais que se afirmam e
aprofundam um conjunto de diretos destinados à proteção da
pessoa humana.

Após a segunda guerra mundial, como decorrência das


atrocidades vivenciadas pelo holocausto e o uso de armas
nucleares, a comunidade internacional aprova a criação da
ONU – Organização das Nações Unidas, que com sua Carta
de inauguração aponta para a necessidade de se proteger os
direitos humanos. Surge a edificação de um complexo sistema
normativo e institucional que irá desenvolver o Direito Inter-
nacional dos Direitos Humanos e o sistema internacional de
proteção dos direitos humanos.

O sistema internacional tem como corolário a ONU e seus


órgãos especializados como a Assembleia Geral, O Conse-
lho Econômico e Social, o Conselho de Direitos Humanos e o
Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Huma-
nos, além da adoção de medidas extremas de manutenção da
paz através do Conselho de Segurança.
40   Direitos Humanos

A carta internacional dos direitos humanos é constituída


pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pelo Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos, e pelo Pacto Inter-
nacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Adere-
-se, ainda, inúmeros tratados especializados, sobre o genocí-
dio, escravidão, tortura, discriminação étnica-racial, sobre os
direitos das crianças e das mulheres, e dos deficientes físicos,
dentre outros.

O sistema regional interamericano está estruturado na


Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos de San
José da Costa Rica, de 1969, ratificada pelo Brasil em 1992.
Além da afirmação dos direitos humanos em toda sua comple-
tude atual, dos direitos individuais e políticos, sociais, econô-
micos e culturais, direitos coletivos e difusos, estrutura o siste-
ma protetivo através da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos e o órgão jurisdicional a Corte Interamericana de
Direitos Humanos.

Assim, a comunidade internacional tem andando muito fir-


me na afirmação e proteção dos direitos humanos, especial-
mente após a segunda metade do século XX. Muitos desafios
ainda estão por vir, pois a proteção dos direitos humanos é
uma pauta constante na evolução de humanidade, e como
afirma Bobbio (2004, p. 45) “o problema que temos diante
de nós [...] é o qual é o modo mais seguro para garanti-los,
para impedir que, apesar das solenes declarações, eles sejam
continuadamente violados”.
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    41

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Atividades

1) Assinale a alternativa INCORRETA:

a) A Carta Magna de 1215, inaugura o início da monar-


quia constitucional inglesa.

b) A Lei do Habeas Corpus de 1679 surgiu com a Decla-


ração de Independência Americana.

c) A liberdade, a igualdade, a propriedade e a resistência


à opressão são direitos que devem ser conservados
pelo Estado, prevê a Declaração dos Direitos do Ho-
mem e do Cidadão.
46   Direitos Humanos

d) A Constituição Americana de 1789 teve a seguir de


sua promulgação a adoção de 10 novas emendas di-
rigidas à proteção dos direitos básicos dos cidadãos.

e) Na Grécia antiga, o regime assegurava uma proteção


restrita dos direitos humanos dirigida aos cidadãos
gregos e em convivência com a escravidão.

2) Quanto ao surgimento das Organizações das Nações Uni-


das, é CORRETO afirmar:

a) Tem como marco inaugural o término da primeira


guerra mundial.

b) Sua proposição foi decorrente de reuniões entre Esta-


dos Unidos e União Soviética.

c) O Presidente Roosevelt (EUA) assim como o Presidente


Churchill (Inglaterra) e Hitler (Alemanha) foram deter-
minantes para a criação da nova Organização Inter-
nacional para o estabelecimento da paz mundial.

d) O Brasil não teve participação na elaboração e apro-


vação da Carta da ONU.

e) O texto de criação da ONU dá ênfase na cooperação


internacional nos campos econômicos e sociais, espe-
cialmente na proclamação do respeito universal aos
direitos humanos.

3) Sérgio Vieira de Mello, ___________________, faleceu


em 19 de agosto de 2013, quando estava em missão da
ONU em Bagdá, logo após o início da ocupação militar
Capítulo 1    História e Legislação Internacional dos Direitos...    47

americana. Assinale a alternativa que identifica o cargo


ocupado por ele nas Nações Unidas:

a) Presidente do Conselho de Segurança.

b) Presidente do Tribunal Penal Internacional.

c) Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos


Humanos.

d) Presidente do Conselho de Direitos Humanos.

e) Presidente da Assembleia-Geral da ONU.

4) Quanto ao sistema regional interamericano de direitos hu-


manos, é INCORRETO afirmar que:

a) A Convenção Americana sobre Direitos Humanos


criou dois órgãos importantes para a proteção dos di-
reitos humanos: a Comissão Interamericana e a Corte
Interamericana de Direitos Humanos.

b) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é o


órgão com competência para julgar os casos conten-
ciosos dos Estados que envolvem violações de direitos
humanos.

c) A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem no


rol de sua competência as Opiniões Consultivas e a
adoção de Medidas Provisórias.

d) Diante da violação dos direitos, a vítima terá seu caso


levado pela Comissão Interamericana de Direitos Hu-
manos diretamente à Corte Interamericana de Direitos
Humanos.
48   Direitos Humanos

e) O Brasil está submetido à competência da Comissão


Interamericana de Direitos Humanos.

5) Assinale a alternativa CORRETA:

a) Na visão contemporânea, são atributos de todas as


pessoas e inerentes à sua dignidade, da qual se exige
por parte do Estado, o respeito, a garantia ou a sua
satisfação.

b) São direitos concebidos de forma divisíveis, não acu-


mulativos, sem a interdependência entre os direitos in-
dividuais com os direitos sociais.

c) São diferenciados em termos de regime político, social


ou cultural.

d) São setorizados, não alcançando ainda a dimensão


universal, ou seja, de direito internacional.

e) A proteção dos direitos humanos independe do Estado.


Prof. Me. Sérgio Roberto de Abreu1

Capítulo 2

História e Legislação
Nacional dos Direitos
Humanos

1 Professor do Curso de Direito da Ulbra, Campi de Canoas, Guaíba e Torres,


nas disciplinas de Direito Constitucional, Internacional e Administrativo. Mestre em
Direito Público pela PUCRS e Doutorando em Direito e Estudos Internacionais na
Universidade de Barcelona.
50   Direitos Humanos

Introdução

Neste capítulo, o tema de direitos humanos será abordado a


partir do seu enfoque interno, no regime constitucional brasi-
leiro.

O Brasil tem, nos últimos tempos, se aliado à evolução


internacional ao ratificar os tratados internacionais de direitos
humanos, trazendo essas normativas para ampliar o leque de
direitos já estabelecidos na Constituição de 1988. Aliás, é a
partir da promulgação dessa Constituição, embasada no con-
ceito de Estado Democrático de Direito, que abre as porta do
Brasil para o reconhecimento e adoção de políticas públicas
voltadas para a efetivação dos direitos humanos.

No entanto, não basta somente a adoção dos tratados.


É necessário reorganizar e atualizar as leis diante de novos
princípios. No entanto, esse caminho é longo e tem sofrido
alternâncias no seu desenvolvimento. Como veremos, a his-
tória constitucional brasileira tem demonstrado que as cons-
tituições são adotadas, ora de forma outorgada (autoritária)
ou promulgadas em períodos de aspiração democrática. Por
isso, apresentamos um retrospecto das Constituições desde a
primeira, nascida no Império, até a mais recente, promulgada
em 1988, onde iremos verificar os principais pontos de desta-
que em cada época, percebendo os principais direitos protegi-
dos ou, em alguns casos, restringidos.

A seguir, a relação entre o Brasil e os tratados internacio-


nais de direitos humanos será analisada de forma descritiva,
elencando-se os principais instrumentos internacionais já ado-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    51

tados. Selecionaremos alguns que estruturam o sistema inter-


nacional e regional interamericano, destacando alguns aspec-
tos que envolvem a sua atuação e organização, e os principais
direitos protegidos. Nesse ínterim, alguns pontos serão comen-
tados, como a inserção dos tratados no regime jurídico brasi-
leiro e a exemplificação da atuação da Comissão e da Corte
Interamericana de Direitos Humanos.

Por fim, esperamos apresentar uma visão da inter-relação


do Brasil com o Direito Internacional dos Direitos Humanos,
o que possibilitará a compreensão dos temas que afligem a
importância e problematização da implantação dos direitos
humanos no Brasil.

1 O Brasil e os Direitos Humanos

Como estudamos no primeiro capítulo, os direitos humanos


tomam proporção maior na importância da humanidade a
partir da metade do século XX, após o ocaso da segunda guer-
ra mundial. Os horrores advindos das guerras e a dimensão
da crueldade e capacidade de dizimação levaram a comu-
nidade internacional a estruturar mecanismos de afirmação,
conscientização e proteção dos direitos humanos. Surge o Di-
reito Internacional dos Direitos Humanos, campo que abrange
o conjunto de princípios e normativas internacionais voltadas
à proteção da dignidade da pessoa humana. A Organização
das Nações Unidas (ONU) nasce e proporciona o incremento
das estruturas e acordos internacionais para esse fim. O con-
junto de tratados internacionais que se multiplicam, desde en-
52   Direitos Humanos

tão, organizam um sistema internacional e sistemas regionais,


como o europeu e o interamericano de direitos humanos.

O Brasil tem sido um parceiro atuante no âmbito interna-


cional. Participou das negociações para a criação da ONU,
sendo sua fundadora. Teve atuação intensa e importante na
elaboração da Declaração Universal dos Direito Humanos.
No entanto, vivenciou, no passado recente, um período de
ditadura civil-militar (1964-1985), onde foram registrados inú-
meros casos de violações graves de direitos humanos, como
o desaparecimento forçado de pessoas, práticas de tortura,
cassações e prisões por motivação política, restrições de direi-
tos individuais, entre outros. Passado o período de “chumbo”,
arvora-se um novo tempo, com ares de democracia. A Cons-
tituição da República Federativa do Brasil de 1988 inaugura
um novo Estado, agora refundado como Estado Democrático
de Direito. Inicia-se, assim, um processo de democratização
política e da cidadania. Os direitos humanos passam a ser
inseridos na pauta da sociedade, pois é um dos pilares de
sustentação da democracia. A democracia é a forma de or-
ganização política mais favorável para a maior proteção e
efetivação dos direitos humanos, enquanto que o regime de
proteção dos direitos humanos é alicerce fundamental para a
existência desse regime.

No dizer de Dalmo Dallari, a expressão direitos humanos é


uma forma abreviada de mencionar os direitos fundamentais
da pessoa humana. Esses direitos são considerados fundamen-
tais, porque sem eles a pessoa humana não consegue existir
ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente
da vida. Desde o nascimento, o ser humano necessita de con-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    53

dições especiais para se desenvolver, protegendo-o a vida, e


oportunizando-lhe o acesso aos benefícios que a sociedade
pode e deve proporcionar. Dallari atribui então aos direitos
humanos “o conjunto de condições e de possibilidades asso-
ciadas às características naturais dos seres humanos, a capa-
cidade natural de cada pessoa poder valer-se como resultado
da organização social”.

O debate em torno dos direitos humanos, assim, tem ace-


lerado seu desenvolvimento com a intensidade das ações e
políticas relacionadas a ele, tem oportunizado a elevação da
consciência da sociedade brasileira sobre assuntos de extre-
ma importância para a promoção da cidadania e efetivação
do respeito aos direitos humanos, como: a defesa dos direitos
das crianças e adolescentes, das pessoas idosas, das que são
deficientes, da erradicação do trabalho infantil e escravo, das
relações de gênero, dos direitos da livre orientação sexual, da
não discriminação e da diversidade religiosa, entre outros.

A partir da promulgação da Constituição de 1988, que trás


um conjunto de princípios direcionados às relações internacio-
nais, entre eles, a prevalência dos direitos humanos, é que o
Brasil passa a ratificar e se comprometer a cumprir uma série
de tratados internacionais de direitos humanos.
54   Direitos Humanos

2A
 s Constituições brasileiras e a proteção
de direitos

Passamos para uma retrospectiva das Constituições brasileiras


identificando os principais direitos por elas protegidos ou vio-
lados, desde o período imperial até nossos dias.

2.1 Constituição Imperial de 1824


A primeira Constituição brasileira foi a do Império, outorgada
em 25 de março de 1824, pelo imperador Dom Pedro I. Por
ser outorgada, não passou por uma constituinte democrática,
sendo imposta diretamente pelo governante. D. Pedro I chegou
a convocar uma Assembleia constituinte, instalando-a em 03
de maio de 1823. Mas vendo que os constituintes se inclina-
vam a restringir seus poderes, acabou fechando a Assembleia
e nomeando 10 cidadãos de sua confiança para redigir a car-
ta constitucional.

Entre os principais aspectos, destaca-se:

ÂÂInstitui uma monarquia hereditária, do tipo constitucio-


nal.

ÂÂCriou poder moderador que se encontrava acima dos


poderes executivo, legislativo e judiciário, fortalecendo
seu poder pessoal. O Poder Moderador podia dissolver
a Câmara dos Deputados.

ÂÂJá consagrava, em seu texto, um conjunto de direitos e


garantias fundamentais. Trazia dispositivos sobre a edu-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    55

cação, garantindo a gratuidade da educação primária e


mandava criar colégios e universidades.

ÂÂPrevia eleições, porém, indiretas e censitárias (restrito


aos homens e “votos do ricos”, renda superior a 100
mil réis).

ÂÂEstado unitário, com as antigas capitanias transforma-


das em províncias, que passaram a ser governadas por
presidentes nomeados pelo Imperador.

ÂÂAdotava oficialmente a religião católica. “Em nome da


santíssima trindade...”

ÂÂDuração mais longa da história brasileira, até o presente


momento.

2.2 Constituição Republicana de 1891


Com o advento da proclamação da república em 1889, o
Chefe do governo provisório, Marechal Deodoro da Fonseca,
convocou o Congresso Nacional Constituinte em 1890. Surge
a primeira Constituição Republicana em 24 de fevereiro de
1891. Sua elaboração teve influência da Constituição Ameri-
cana e da Constituição Argentina.

Entre os principais dispositivos, destacam-se os seguintes:

ÂÂPrimeira republicana e a primeira a declarar o caráter


indissolúvel da Federação (institui os Estados-membros
autônomos).

ÂÂExtingue a monarquia e adota o presidencialismo.


56   Direitos Humanos

ÂÂAdotou a tradicional divisão de poderes, abandonando


o Poder Moderador.

ÂÂAperfeiçoamento do rol de direitos e garantias funda-


mentais e previu o habeas corpus. Contudo, embora a
inspiração procedente das Constituições Americana e
da Argentina, o rol dos direito individuais foi reduzido
devido às fortes pressões do setor dos grandes latifun-
diários daquela época.

ÂÂSubstitui o voto censitário pelo voto universal e não se-


creto para homens acima de 21 anos, vetando voto para
mulheres, analfabetos, soldados e religiosos.

ÂÂGarantiu a liberdade partidária. Institui eleições diretas


para a Câmara e o Senado e Presidência da República.

ÂÂExtinguiu as penas de morte, de banimento e de galés.

ÂÂInstitui o chamado Estado Laico ou leigo. Proíbe o ensi-


no religioso nas escolas públicas.

2.3 Constituição de 1934 – o fim da República


Velha
Encerrando o período chamado República Velha, foi promul-
gada uma nova Constituição em 16 de julho de 1934. Redi-
gida pela Assembleia Constituinte convocada pelo Presidente
Getúlio Vargas, que exercia um governo transitório. Teve por
base a Constituição alemã. Inaugura a abordagem dos direi-
tos sociais, econômicos e culturais, fruto do desenvolvimento
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    57

do pensamento socialista do início do século XX. Amplia, as-


sim, o leque de direitos constitucionalmente garantidos. Dos já
afirmados rol dos direitos individuais, passando pelo aperfei-
çoamento dos direitos políticos, para os de inserção do cida-
dão no seu próprio desenvolvimento na sociedade.

Entre outras, apresentava as seguintes medidas:

ÂÂConferiu maior poder para o Governo Federal.

ÂÂAdotou o sistema presidencialista de governo e a tripar-


tição de poderes.

ÂÂRepresentou um marco no direito constitucional brasilei-


ro ao incluir, ao lado dos direitos individuais e dos direi-
tos políticos, um conjunto de direitos sociais e econômi-
cos, buscando a redução das desigualdades sociais e o
desenvolvimento nacional.

ÂÂEstabeleceu o voto obrigatório e secreto a partir dos 18


anos e assegurou o direito de voto às mulheres (já pre-
visto no código eleitoral de 1932).

ÂÂCriou a Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho.

ÂÂSurge o Ministério Público, a sindicalização, a previdên-


cia social, a Justiça Militar e o Ministério do Trabalho.

ÂÂRegulamentação dos partidos políticos. A ordem econô-


mica, a família, a educação e a cultura assume status
constitucional.

ÂÂInstituiu o mandado de segurança e a ação popular.


58   Direitos Humanos

2.4 Constituição de 1937 – A Constituição


“Polaca”
A ditadura do Estado Novo surgiu com a Constituição outor-
gada em 10 de novembro de 1937. Adotada de forma autori-
tária, foi apelidada de “Constituição Polaca”, devido à inspira-
ção da Constituição da Polônia, de natureza fascista europeia.
Batizou o Brasil com o nome Estados Unidos do Brasil.

Como pontos a sublinhar, aponta-se:

ÂÂPermitiu a suspensão de imunidade parlamentar, a pri-


são e exílio de opositores.

ÂÂReduziu a autonomia dos Estados-membros, destituindo


Governadores e colocando interventores.

ÂÂAnulou a independência dos poderes. Na prática, os


poderes legislativos e judiciários sofreram considerável
enfraquecimento. O Poder Executivo anulava decisões
do Judiciário e submetia ao Legislativo para nova vota-
ção e anulação. Em estado de emergência, o Judiciário
não poderia apreciar atos administrativos do Executivo.

ÂÂRestrição, mediante censura, do direito de manifestação


do pensamento.

ÂÂEstabeleceu a pena de morte, dentre outros, para os cri-


mes políticos e homicídios cometidos de forma perversa
ou por motivo fútil.

ÂÂDeixou de prever os institutos do mandado de segurança


e da ação popular.
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    59

ÂÂEstabeleceu a eleição indireta para Presidente da Repú-


blica com mandato de 6 anos.

2.5 Constituição de 1946 – A redemocratização


do país
Em 1945, encerra-se a segunda guerra mundial, e, conse-
quentemente, os países governados por ditadores sucumbi-
ram, frente ao novo panorama da política internacional. Com
a deposição de Getúlio Vargas, é eleito Eurico Gaspar Dutra
e uma nova Assembleia Constituinte redigiu a nova Constitui-
ção e a promulgou em 18 de setembro de 1946. Dessa vez,
adotou um novo nome para o país, passando a denominar-se
República dos Estados Unidos do Brasil.

Apresenta as seguintes características:

ÂÂRetomou o modelo de democracia social adotado na


Constituição de 1934.

ÂÂReafirmação de direitos individuais: igualdade de todos


perante a lei; liberdade de manifestação do pensamen-
to, a não ser em espetáculos e diversões públicas; invio-
labilidade do sigilo de correspondência; liberdade de
consciência, de crença e de exercício de cultos religio-
sos; liberdade de associação para fins lícitos; inviola-
bilidade da casa como asilo do indivíduo; garantia da
prisão somente em flagrante delito ou por ordem estrita
de autoridade competente e garantia de ampla defesa
do acusado.
60   Direitos Humanos

ÂÂRestabeleceu a autêntica tripartição do poder estatal,


com a existência de poderes independentes e harmôni-
cos entre si. Poder legislativo voltou a ser genuinamente
bicameral.

ÂÂRetomou o pacto federativo, com maior autonomia aos


Estados-membros.

ÂÂRestabeleceu o mandado de segurança e a ação popu-


lar.

ÂÂSurge o controle de constitucionalidade pela via con-


centrada das leis e atos normativos. Fortalecimento do
Judiciário, em especial, do Supremo Tribunal Federal.

ÂÂPrincípio da inafastabilidade da jurisdição (direito de


acesso ao judiciário).

ÂÂExclui-se a censura e a pena de morte prevista na Cons-


tituição de 1937.

ÂÂRegras sobre Direito Econômico, com penas para o abu-


so econômico.

ÂÂO direito de greve passou a constar no texto da Cons-


tituição.

2.6 O Golpe de 1964 e a Constituição de 1967


e os atos institucionais
O golpe civil-militar em 1964 derrubou o presidente João
Goulart. Coordenado pelos três comandantes militares (Exér-
cito, Aeronáutica e Marinha), editaram o Ato Institucional nº
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    61

01, em 09 de abril de 1964, destituindo o governo e instituin-


do a ditadura do regime militar. Humberto de Alencar Caste-
lo Branco foi nomeado presidente. Posteriormente, em 1965,
editou o Ato Institucional nº 02, extinguindo o pluripartida-
rismo, permitindo o funcionamento de apenas dois partidos
(ARENA – Aliança Renovadora Nacional e MDB – Movimen-
to Democrático Brasileiro). A nova Constituição foi imposta,
ou seja, outorgada em 24 de janeiro de 1967, sendo a mais
autoritária da história constitucional brasileira. Formalmente,
foi promulgada pelo Congresso Nacional, mas prevalece na
doutrina a posição de que ela foi outorgada, pois o Congres-
so Nacional foi fechado como forma de coação para que os
congressistas a aprovassem. Mudou o nome do Brasil para
República Federativa do Brasil.

Entre outras medidas, destacam-se estas:

ÂÂPeríodo autoritário, sob pretexto de segurança nacional,


os direitos fundamentais foram severamente restringidos.

ÂÂFim da eleição direta para presidente e outros cargos


políticos. Eleição indireta.

ÂÂReduziram-se as competências estaduais e municipais.

ÂÂPoder Executivo legislava por Decreto-Lei e Atos Institu-


cionais.

Na sequência do período ditatorial em 13 de dezembro de


1968, o Presidente do regime do militar Artur da Costa e Silva
editou o Ato Institucional nº 5 (AI 5), recrudescendo ain-
da mais as medidas autoritárias, como: suspensão de direitos
políticos, cassação de mandatos dos parlamentares, possibili-
62   Direitos Humanos

dade de fechamento do Congresso Nacional, suspensão das


garantias dos magistrados e servidores públicos, proibição de
habeas corpus em matéria de crimes políticos e outros.

E, em 17 de outubro de 1969, foi editada e imposta por


uma junta militar a Emenda Constitucional nº 1, que entrou
em vigor em 30 de outubro de 1969. Manteve o golpe militar,
determinando o recesso do Congresso Nacional e atribuindo
plenos poderes à junta militar para agir como poder executivo,
legislativo e judiciário. Implantou a perda do mandato parla-
mentar em casos de atentado à ordem vigente, exigência de
prévio esgotamento das vias administrativas para ingresso em
juízo, entre outros dispositivos.

Esse período registra na história brasileira o mais restritivo


dos direitos humanos, prevalecendo o poder estatal sobre os
direitos dos cidadãos com uso da violência e da censura para
a contenção dos opositores. Os direitos individuais, como a
vida, a liberdade, e os políticos, foram extremamente violados.

2.7 A Constituição Cidadã de 1988 e a


instituição do Estado Democrático de Direito
Após o longo período de ditadura imposta pelo regime militar,
vem à luz os ares democratizantes do Brasil, com a promulga-
ção da Constituição em 05 de outubro de 1988. Conhecida
pela denominação de Constituição Cidadã, visto a ampla e
necessária abordagem e valorização dos princípios democrá-
ticos e da cidadania. Resultou do trabalho de uma Assembleia
Constituinte legalmente convocada e eleita. Seus principais
avanços são:
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    63

ÂÂMantém a tradição republicana do regime representa-


tivo, presidencialista e federativo, voltando os Estados-
membros a gozarem de considerável autonomia. Con-
cedeu autonomia ao Distrito Federal a aos Municípios,
recebendo estes o status de entes da federação.

ÂÂTripartição dos poderes com independência e harmonia


entre eles.

ÂÂTipo rígida, com matérias inseridas no rol das denomi-


nadas cláusulas pétreas que não poderão ser modifi-
cadas por emendas constitucionais, tais como: a forma
federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e
periódico, a separação dos Poderes, os direitos e garan-
tias individuais.

ÂÂAmpliação e fortalecimento considerável dos direitos


fundamentais, garantindo, entre outros, o direito à vida,
à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

ÂÂEstabelece a educação fundamental como obrigatória,


universal e gratuita.

ÂÂDestaca o direito ao meio ambiente, atribuindo a sua


defesa como competências concorrentes entre a União,
Estados e Municípios.

ÂÂVoto direto, secreto, universal e periódico como cláu-


sula pétrea. Estendeu o direito de voto facultativo para
os analfabetos e os maiores de dezesseis e menores de
dezoito anos.
64   Direitos Humanos

ÂÂPreviu três novos remédios constitucionais: Habeas data,


mandado de segurança coletivo e mandado de injun-
ção.

A Constituição de 1988 adota como fundamentos do esta-


do democrático de direito: a soberania, a cidadania, a digni-
dade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da
livre iniciativa, e o pluralismo político. E é a primeira a estabe-
lecer os objetivos fundamentais da República que estabelece
em alguns uma proposição positiva para a concretização da
democracia econômica, social e cultural, para a efetivação na
prática da dignidade da pessoa humana.

Consagra os direitos fundamentais, abrangendo os direitos


individuais, políticos e os transindividuais, como os coletivos
e difusos. Além de ter uma carta amplificada e abrangente
desses direitos, ela se insere no contexto internacional ao in-
serir nesse rol uma série de direitos consagrados nos tratados
internacionais.

Como se percebe na análise dessa breve visualização das


constituições brasileiras, os direitos humanos na República
Nova (entre a ditadura civil do Estado Novo e a democracia,
1930-1964), teve uma importante expansão dos direitos so-
ciais, advinda da evolução das Constituições, como a Mexica-
na (1917), Russa (1917) e Alemã (1919), e as transformações
da economia que se transfere do campo para a forte industria-
lização do país. Os direitos humanos na ditadura militar carac-
terizam-se pela intensa luta pelos direitos individuais e políticos
(1964-1985). Após esse período, enfim, os direitos humanos,
além de resgatarem a amplitude dos direitos individuais, políti-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    65

cos, e sociais priorizam na nova agenda a universalização dos


direitos e a solidificação da democracia (1985-2015).

3O
 Brasil e os Tratados Internacionais de
Direitos Humanos

Com a promulgação da Constituição de 1988, que está sus-


tentada pelos fundamentos da cidadania e da dignidade da
pessoa humana e o princípio orientador das relações interna-
cionais de prevalência dos direitos humanos, o Brasil passou a
ratificar uma série de tratados internacionais de proteção dos
direitos humanos.

Entre eles, apontam-se:

ÂÂDeclaração Universal dos Direitos Humanos.

ÂÂConvenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tor-


tura (1989).

ÂÂConvenção contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis,


Desumanos ou Degradantes (1989).

ÂÂConvenção sobre os Direitos das Crianças (1990).

ÂÂPacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1992).

ÂÂPacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e


Culturais (1992).

ÂÂConvenção Americana sobre Direitos Humanos (1992).


66   Direitos Humanos

ÂÂConvenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradi-


car a Violência contra a Mulher (1995).

ÂÂProtocolo à Convenção Americana referente à Abolição


da Pena de Morte (1996).

ÂÂProtocolo à Convenção Americana referente aos Direi-


tos Econômicos, Sociais e Culturais (1996).

ÂÂEstatuto de Roma que cria o Tribunal Penal Internacional


(2002).

ÂÂProtocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação


de todas as formas de Discriminação contra a Mulher
(2002).

ÂÂDois Protocolos Facultativos à Convenção sobre os Di-


reitos da Criança, referentes ao envolvimento de crian-
ças em conflitos armados e à venda de criança e prosti-
tuição e pornografia infantil (2004).

ÂÂConvenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas


com Deficiência e seu Protocolo Facultativo (2009).

A Declaração Universal dos Direitos Humanos decorre da


criação da ONU e expressa um conjunto de princípios funda-
mentais que traduzem a confluência democrática entre direitos
e liberdades individuais e os deveres para com a comunidade
em que se vive. Foi elaborada em forma coletiva, podendo ser
compreendida como a base para a consolidação de valores
universalmente desejáveis para a humanidade. Ela expressa
a evolução até então conquistada da afirmação dos direitos
humanos, como se pode ver, de forma resumida, dividindo-a
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    67

em quatro partes. A primeira dedica-se aos direitos fundamen-


tais que embasam todos os demais, como o direito à vida, à
liberdade e à igualdade. A segunda dirige-se aos direitos civis
e políticos, como o direito à não escravidão ou servidão, à
não ingerência na liberdade, à defesa, à presunção de ino-
cência, à privacidade e à honra, à liberdade de locomoção e
residência, ao asilo e à nacionalidade. A terceira diz respeito
aos direitos econômicos, sociais e culturais, tais como, o di-
reito à livre união, à propriedade, à liberdade, de reunião e
associação, de participação no governo, à segurança social,
ao trabalho, ao descanso e lazer, à educação e à participação
cultural. Por fim, a quarta divisão engloba os mecanismos de
manutenção dos direitos adotados pela Declaração, como: o
direito à realização dos direitos, à limitação dos direitos e à
proteção dos direitos. Como visto, ela abrange um amplo le-
que de direitos que colocam a humanidade em um patamar
mais elevado de conscientização e afirmação dos direitos hu-
manos, sendo um ponto de alavanca de novos tratados mais
efetivos desses direitos.

Em nível universal, a Declaração Universal dos Direitos Hu-


manos inaugura a Carta de Direitos Humanos, que passa a ser
integrada por dois Pactos Internacionais que visam a aplicar
os princípios e valores consagrados em seu texto. Assim, em
1967, são adotados dois Pactos: o Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos
Sociais, Econômicos e Culturais. Eles têm a função de des-
crever e ampliar os direitos e operacionalizar sua aplicação,
tornando-os mais efetivos. Através de sua ratificação (ato de
reconhecimento do tratado como norma internacional e de
se comprometer ao seu cumprimento perante a comunidade
68   Direitos Humanos

internacional), o Brasil está comprometido com a sua norma-


tização.

No plano regional interamericano, a Convenção America-


na sobre Direitos Humanos (CADH – denominada Pacto de
São José da Costa Rica) foi celebrada em São José da Costa
Rica, em 22 de novembro de 1969, vindo a ser ratificada no
Brasil em 1992 e promulgada pelo Decreto nº 678, de 6 de
novembro de 1992. A CADH teve por base a Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos e está direcionada para o âmbito
regional. Fundada no ideal do ser humano, isento do temor
e da miséria e sob condições que lhe possibilite gozar dos
seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos
seus direitos civis e políticos. O documento é composto por 81
artigos, incluindo as disposições transitórias, que estabelecem
os direitos fundamentais da pessoa humana, como o direito à
vida, à liberdade, à dignidade, à integridade pessoal e moral,
à educação, entre outros. A convenção proíbe a escravidão e
a servidão humana, trata das garantias judiciais, da liberdade
de consciência e religião, de pensamento e expressão, bem
como da liberdade de associação e da proteção à família.

Além de estabelecer um rol importante de direitos, ela criou


dois organismos que constituem o sistema interamericano de
proteção aos direitos humanos: a Comissão Interamericana
de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Hu-
manos.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é en-


carregada da promoção e proteção dos direitos humanos no
continente americano, sendo um órgão autônomo da Orga-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    69

nização dos Estados Americanos (OEA). Composta por sete


membros independentes, tem sede em Washington, D.C. Serve
como órgão consultivo da OEA no campo do respeito e defesa
dos direitos humanos, realizando suas atividades através de
três pilares: o Sistema de Petição Individual, o monitoramento
da situação dos direitos humanos nos Estados Membros e a
atenção a linhas temáticas prioritárias.

Entre casos enfrentados em relação ao Brasil perante a Co-


missão, está o referente a Srª Maria da Penha Maia Fernandes,
tema de violência doméstica. A Comissão, através dos seus
procedimentos investigatórios, chegou à seguinte conclusão:
“4. Que o Estado violou os direitos e o cumprimento de seus
deveres segundo o artigo 7 da Convenção de Belém do Pará
em prejuízo da Senhora Fernandes, bem como em conexão
com os artigos 8 e 25 da Convenção Americana e sua relação
com o artigo 1(1) da Convenção, por seus próprios atos omis-
sivos e tolerantes da violação infligida.”

A mesma decisão foi exaustiva em apontar recomendações


ao Estado brasileiro para, não somente apurar com mais ce-
leridade os fatos, mas também adotar medidas educativas e
estruturais para conter a violência doméstica. Entre elas des-
taca-se a seguinte recomendação: “b) Simplificar os proce-
dimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o
tempo processual, sem afetar os direitos e garantias de devido
processo. Certamente, as recomendações foram importantes
para a nova normatização promulgada pela Lei nº 11.340,
de 07 de agosto de 2006. Essa lei recebeu a denominação
popular de “Lei Maria da Penha”.
70   Direitos Humanos

A Corte Interamericana de Direitos Humanos teve sua juris-


dição reconhecida pelo Brasil somente em 1998, após inúme-
ras pressões internas, embora a Convenção tenha sido apro-
vada em 1969 e ratificada em 1992. Em demandas judiciais
perante a Corte, o Brasil já foi submetido a cinco condena-
ções, que passamos a relatar abaixo:

Caso XIMENES LOPES – primeira sentença a que o Brasil se


submeteu, em 30 de novembro de 2005, por supostas condi-
ções desumanas e degradantes da hospitalização de Damião
Ximenes Lopes, uma pessoa com incapacidade mental, em
um centro de saúde que operava dentro do marco do Sistema
único de Saúde do Brasil, chamado Casa de Repouso Guara-
rapes. Foi vítima de golpes e ataques contra sua integridade
física por parte dos funcionários da Casa de Repouso, vindo
a falecer enquanto era submetido a tratamento psiquiátrico.
A falta de investigação adequada e de garantias judiciais, no
caso, ocasionou no sistema brasileiro, a impunidade dos res-
ponsáveis pelas agressões.

Caso NOGUEIRA – prolatada em 28 de setembro de


2006, foi motivada pela falta da devida diligência no proces-
so de investigação dos fatos para a punição dos responsáveis
pela morte de Francisco Gilson Nogueira de Carvalho. Era um
advogado defensor dos direitos humanos que denunciara os
crimes praticados pelos “homens de ouro”, um suposto grupo
de extermínio constituído por agentes públicos. Ele foi morto
em 20 de outubro de 1996, na cidade de Macaíba, Rio Gran-
de do Norte.

Caso ESCHER – sentença de 06 de julho de 2009, devido


à interceptação e monitoramento ilegal de linhas telefônicas
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    71

de membros das organizações ADECON e COANA, ocorridas


entre abril e junho de 1999, realizada pela Polícia Militar do
Estado do Paraná; pela divulgação das conversas telefônicas,
bem como a denegação da justiça e reparação adequada.

Caso GARIBALDI – sentença de 23 de setembro de 2009.


A demanda decorreu da responsabilidade do Estado pelo des-
cumprimento da obrigação de investigar e penalizar o homicí-
dio do Sr. Sétimo Garibaldi, ocorrido em 27 de novembro de
1998, durante um operação extrajudicial de reintegração de
terra de famílias de trabalhadores rurais sem terra, que ocupa-
vam uma fazenda localizada no Município de Querência do
Norte, Estado do Paraná.

Caso LUNG – sentença de 24 de novembro de 2010, re-


lativa à responsabilidade do Estado pela detenção arbitrária,
tortura e desaparecimento forçado de 70 pessoas, entre mem-
bros do Partido Comunista do Brasil e agricultores da região,
resultado de operações do Exército brasileiro empreendidas
entre 1972 e 1975, com o fim de erradicar a Guerrilha do
Araguaia, no contexto da ditadura militar no Brasil (1964-
1985).

O alcance da jurisdição da Corte amplia os recursos de


proteção dos direitos humanos que diante da ineficiência do
sistema nacional, possibilita uma alternativa para a sua ga-
rantia.

A Convenção (Cv) Internacional sobre os Direitos das Pes-


soas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, foi aprovada
no Congresso Nacional já em consonância com o rito estabe-
lecido pela Emenda Constitucional nº 45/2004, que incluiu
72   Direitos Humanos

o ­­­­§ 3º, no art. 5º da Constituição Federal. Assim, suas nor-


mas tem a hierarquia de direito fundamental, ou seja, passam
a ser uma norma constitucional. Esse rito foi introduzido na
Constituição brasileira pela EC. Nº 45, de 2004, dispondo
que o tratado que for votado duas vezes em cada casa do
Congresso Nacional, com quórum de 2/3 de aprovação, terá
equivalência às normas constitucionais. A Cv sobre os direitos
das pessoas com deficiência atendeu esse dispositivo, portan-
to, suas normas tem esse status constitucional. Já os tratados
referentes à proteção dos direitos humanos que não foram ou
não venham as ser submetidos a esse procedimento terão hie-
rarquia e natureza de norma supralegal, conforme entendi-
mento jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal (ver, p.ex.:
RE 466.343-1), ou seja, estão acima das leis ordinárias e su-
bordinadas à Constituição. O corolário da adoção desse tra-
tado é a recente edição do Estatuto da Pessoa com Deficiência
(Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – Lei nº
13.146, de 6 de julho de 2015).

A importância do reconhecimento desses tratados pelo Bra-


sil é destacada por Flávia Piovesan, pois apresentam um du-
plo impacto, pois podem ser acionados perante as instâncias
nacionais e internacionais. No âmbito nacional, conjugam-se
com o Direito interno, ampliando, fortalecendo e aprimorando
o sistema de proteção dos direitos humanos, sob o princípio
da primazia da pessoa humana. No âmbito internacional, por
sua vez, possibilitam invocar a tutela perante os sistemas inter-
nacionais, como, por exemplo, a Comissão Interamericana de
Direitos Humanos e a judicialização perante a Corte Interame-
ricana de Direitos Humanos. O Estado tem a responsabilidade
primária de prevenir, proteger e adotar medidas perante as
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    73

possíveis violações. Já no campo internacional, a responsabi-


lidade é subsidiária, atuando quando as instituições nacionais
se mostrarem falhas ou até mesmo omissa na proteção ou
diante das violações perpetradas. O resultado dessa interação
entre os instrumentos internacionais adotados pelo Brasil é o
avanço interno e o aperfeiçoamento das instituições, da le-
gislação e das políticas públicas, que voltam-se à promoção,
proteção e efetivação dos direitos humanos.

Entre a legislação já em vigor, destacam-se, exemplarmen-


te, as seguintes: a Lei nº 9.455, de 07 de abril de 1997, que
define o crime de tortura; a Lei nº 2.889, de 01 de outubro
de 1956, sobre o crime genocídio; a Lei nº 8.842, de 04 de
janeiro de 1994, que estabelece a Política Nacional do Idoso;
a Lei nº 4.898, de 09 de dezembro de 1965, que trata do abu-
so de autoridade; a Lei nº 7.716, de 05 de janeiro de 1989,
que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de
cor; e, a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que institui a
Política Nacional do Meio Ambiente.

Como se pode observar, o Brasil reconhece inúmeros tra-


tados internacionais de direitos humanos, estando perfilado
ao desenvolvimento dessa área. Temas como a proibição da
tortura, dos direitos da criança, da mulher e relações de gê-
nero, discriminação racial e de orientação sexual, direitos do
idoso, direitos das pessoas com deficiência física, entre outros,
ampliam e aperfeiçoam a carta de proteção da Constituição
Federal, atendendo ao princípio fundamental da dignidade da
pessoa humana. Agora, é preciso maior conscientização sobre
esses direitos conquistados e o esforço conjunto de uma socie-
dade que esteja em sintonia para reconhecê-los, respeitá-los
74   Direitos Humanos

e lutar para sua efetivação, como ponto decisivo para o seu


desenvolvimento social e civilizacional.

Recapitulando

Com a evolução das tratativas da comunidade internacional


tendo como agenda prioritária a pessoa humana, decorrente
das atrocidades vivenciadas na primeira parte do século XX,
inaugura-se um novo campo de direito internacional: o direito
internacional de direitos humanos.

O Brasil, nesse contexto, desempenhou importante papel,


estando presente, desde a edificação da ONU até a edição da
Declaração Universal dos Direito Humanos. Assim, insere-se
no ambiente democrático de afirmação dos direitos humanos.
Os direitos humanos consistem um conjunto de normas funda-
mentais da pessoa humana da qual, sem sua proteção, não é
possível existir e ter condições de se desenvolver na sociedade.

As constituições brasileiras têm apresentado momentos de


ampliação e de restrição de direitos, de acordo com períodos
ditatoriais e democráticos, Na primeira Constituição de 1924,
outorgada por D. Pedro I, já apresenta um rol de direitos e
garantias fundamentais, como a educação primária gratuita.
Mas limitava o exercício dos direitos políticos e dos poderes
institucionais do Estado. Já em 1991, era promulgada a pri-
meira constituição republicana, adotando o federalismo e a
tripartição de poderes. Amplia o rol de direitos e, entre eles a
garantia do habeas corpus e os direitos políticos. Em 1934, a
constituição promulgada consagra o voto obrigatório e secre-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    75

to, e o voto da mulher, além de estabelecer um rol de direitos


sociais, econômicos e culturais. Em 1937, há um revés nos
direitos com a outorga da Constituição denominada de “po-
laca”. Houve restrição de direitos e das funções dos poderes
legislativo e judiciário. A constituição de 1946 redemocratizou
o país, retomando a organização dos poderes e afirmação dos
direitos individuais e sociais, econômicos e culturais. Posterior-
mente, um novo revés democrático, com a outorga da Cons-
tituição de 1967, em plena ditadura civil-militar, com ampla
restrição de direitos individuais, de liberdades e políticos.

Chega-se à Constituição democrática de 1988. Torna-se


um marco pela amplitude de direitos fundamentais que abran-
ge, dispondo sobre inúmeros instrumentos de sua garantia.
Essa constituição que vigora atualmente tem sua importância
firmada em trazer para a sociedade a conscientização sobre
os direitos fundamentais. Possibilita ao estado brasileiro uma
maior inserção no cenário internacional dos direitos humanos,
interagindo através da adoção e integração com os sistemas
internacionais de proteção.

Inúmeros tratados internacionais de direitos humanos são


adotados pelo Brasil após a sua promulgação, entre eles os
Pactos Internacionais de Direitos Civis e Políticos e o Pacto In-
ternacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em
nível universal, e no âmbito regional a Convenção Interameri-
cana de Direitos Humanos, entre outros.

Essa ampla interação entre os tratados internacionais e a


legislação interna tem construído um ambiente de maior prote-
ção aos direitos humanos, não só na dimensão de seu alcan-
76   Direitos Humanos

ce, mas na possibilidade de buscar nas instâncias internacio-


nais a sua tutela.

Por fim, a abordagem de temas como a proibição da tor-


tura, dos direitos da criança, da mulher e relações de gênero,
discriminação racial e de orientação sexual, direitos do idoso,
direitos das pessoas com deficiência física, entre outros, am-
pliam a carta de proteção da Constituição Federal, atendendo
ao princípio fundamental da dignidade da pessoa humana.
Mas necessitam, ainda, de aprofundado debate público quan-
to a sua conscientização, pois o reconhecimento já está con-
solidado, mas sua aplicação no dia a dia das pessoas precisa
ser aperfeiçoado e efetivado.

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Atividades

1) A Constituição brasileira que abrange, pela primeira vez,


o rol de direitos sociais e econômicos, inclusive o direito a
voto das mulheres, buscando a redução das desigualda-
des sociais e o desenvolvimento nacional é a de:

a) 1824

b) 1891

c) 1934

d) 1937

e) 1946

2) Assinale, entre as alternativas abaixo, a que expressa COR-


RETAMENTE um aspecto que caracteriza a Constituição de
1967:

a) Introduziu o Poder Moderador na estruturação do exer-


cício do poder do Estado.

b) Instituiu a ditadura do regime militar, sendo considera-


da a mais autoritária da história constitucional brasilei-
ra.

c) Estabeleceu o regime de eleição direta para todos os


cargos políticos.
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    81

d) Retomou o pacto federativo com maior autonomia dos


Estados e excluiu a censura.

e) Implantou a ditadura do Estado Novo.

3) Encerrando o período da ditadura civil-militar e dando iní-


cio à democratização do país, a Constituição brasileira de
1988, foi denominada de Constituição Cidadã pelos se-
guintes atributos, EXCETO:

a) A ampliação e fortalecimento considerável dos direi-


tos fundamentais, garantindo, entre outros, o direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à pro-
priedade.

b) A adoção do Voto direto, secreto, universal e periódico


como cláusula pétrea. Estendeu o direito de voto facul-
tativo para os analfabetos e os maiores de dezesseis e
menores de dezoito anos.

c) Pela previsão de três novos remédios constitucionais:


Habeas data, mandado de segurança coletivo e man-
dado de injunção.

d) Pelo reconhecimento da tripartição dos poderes com


independência e harmonia entre eles.

e) Pelo estabelecimento da pena de morte, dentre outros,


para os crimes políticos e homicídios cometidos de for-
ma perversa ou por motivo fútil.

4) A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas


com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, promulgada
82   Direitos Humanos

e ratificada pelo Brasil em 2009, tem sua hierarquia e na-


tureza jurídica de:

a) Norma constitucional.

b) Norma supralegal.

c) Norma supraconstitucional.

d) Norma legal.

e) Norma administrativa internacional.

5) Sobre a participação do Brasil no Sistema Interamericano


de Direitos Humanos, é CORRETO afirmar que:

a) O Brasil passou a reconhecer a competência jurisdi-


cional da Corte Interamericana de Direitos Humanos
somente em 1998, sendo alvo de condenações como
no caso LUNG, que trata dos desaparecimentos força-
dos no combate à guerrilha do Araguaia.

b) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos ain-


da não abordou casos de violação dos direitos huma-
nos no Brasil.

c) O Caso Maria da Penha foi submetido à Corte Intera-


mericana de Direitos Humanos obtendo-se sentença
favorável a suas demandas.

d) A Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos


Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1989) não en-
contra respaldo no direito brasileiro, pois, mesmo rati-
Capítulo 2    História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos    83

ficada, não há lei que traduza seus dispositivos para a


execução.

e) O Brasil reconhece inúmeros tratados internacionais


de direitos humanos, estando perfilado ao desenvol-
vimento dessa área. No entanto, NÃO tem legislação
nos seguintes temas: a proibição da tortura, dos direi-
tos da criança, da mulher e relações de gênero, dis-
criminação racial e de orientação sexual, direitos do
idoso, e direitos das pessoas com deficiência física.