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CATÓLICA PORTO

FACULDADE DE EDUCAÇÃO E PSICOLOGIA

Curso de Pós-Graduação em Administração Educativa – 2ª edição


Ano Letivo 2013/2014

UNIDADE CURRICULAR: A formulação de políticas públicas,


o papel do Estado e da sociedade

Professor Doutor Joaquim Azevedo

“ENSINO PRIVADO”
ENTRE A POSSIBILIDADE
E A EXCLUSÃO
PORTO - JUNHO DE 2014

Formando:
José Pedro Salgado Rosa Negrão
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

«Não deve, porém, confundir-se escola pública e serviço público de educação, pois que este tanto
pode ser prestado por instituições públicas como por instituições privadas...»
(Marçal Grilo e Guilherme de Oliveira Martins, ex-ministros da Educação em Governos PS,
Cf. artigo conjunto, publicado no jornal Expresso de 08 de Março de 2008)

Introdução

O trabalho poderia ser intitulado de uma maneira simplista “os prós e contras da
escola particular e cooperativa, subsidiada pelo Estado” mas trata-se, mais corretamente de
uma reflexão sobre a licitude e pertinência do apoio do Estado Português ao funcionamento
deste tipo de escolas.
Parece que esta discussão sobre este se tornou muito acesa no período do ano letivo
2010/2011, com a multiplicação de manifestações, conferências de imprensa, comunicados,
intervenções públicas, pareceres jurídicos…

“Lisboa, 26 janeiro 2001 (Lusa) - Mais de 25 escolas do ensino particular com contrato de
associação foram hoje encerradas por pais e encarregados de educação, garantiu o Movimento SOS
Educação, que convocou o protesto contra os cortes do financiamento decretados pelo Ministério da
Educação.
"Tenho informações de que mais de 25 escolas estão fechadas", disse à agência Lusa Luís
Marinho, porta-voz do Movimento SOS Educação.
Em causa está uma portaria da tutela que determina um financiamento de 80.080 euros por
ano e por turma nas escolas com contrato de associação, uma verba inferior em cerca de dez mil euros
ao reclamado pela Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP)”.
(Ler mais: http://visao.sapo.pt/ensino-particular-mais-de-25-escolas-encerradas-pelos-pais-movimento-sos-
educacao=f587433#ixzz35NsleKg1)

À boa maneira portuguesa, reagimos mais em grupo quando somos ameaçados e sabemos
como a base do financiamento por parte do Estado é fundamental para que estas escolas
se mantenham em funcionamento.

Distingo neste trabalho os argumentos a favor e contra o financiamento deste tipo de


estabelecimentos de ensino, com alguns dos argumentos que foram utilizados no debate entre
dois grupos de formandos do Curso de 2013/2014 de Pós-Graduação em Administração
Educativa (Escolas Católicas) e outros que fui compilando através da leitura de alguns recursos.
A abordagem do campo jurídico é muito complexa e exige que sejam especialistas a
discutir e a apresentar estes argumentos. Muitos dos professores também desconhecem o que
diz respeito aos seus direitos e deveres, sobretudo o que diz respeito aos direitos
fundamentais.
Há quem comece por defender que todas as escolas devem funcionar segundo um
princípio de igualdade que é afirmado nas Constituições democráticas, e que abarca uma ideia
de igualdade formal, isto é, “a lei é igual para todos”. O princípio da igualdade entre todos
transforma-se em princípio organizativo, e assume características burocráticas de
impessoalidade, uniformidade, formalidade e rigidez e dá origem a um sistema de ação e
decisão que também encontramos na organização escolar. (Machado & Formosinho, 2005: 29)
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Este critério de uniformidade, que procura o centralismo do poder, caracteriza-se pela


construção de sistemas educativos que se baseiam numa interpretação unívoca de escola,
centrada na tutela e iniciativa do Estado. São escolas reproduzidas num modelo burocrático,
bem ao estilo definido por Taylor, numa racionalização e padronização do modelo fabril. O
Estado procura no princípio da igualdade um modelo de uniformidade e homogeneidade em
todas as organizações por si tuteladas. A este princípio alia-se a expetativa de que as normas
sejam obedecidas por todos os que estejam sujeitos à autoridade

1. Uma condição de cidadania: as Leis.

O direito a existir uma escola privada e subsidiada pelo Estado resume-se, em primeiro
lugar a uma condição de cidadania.
Em primeiro lugar, pela Declaração Universal dos Direitos do Homem no seu Artigo
26º, nº 3: “Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar
aos filhos”.
Em segundo lugar, na Constituição da República Portuguesa: Artigo 16º, nº 2: “Os
preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados
e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem.”
Na mesma sequência deve ler-se na Carta dos Direitos Fundamentais da União
Europeia, no Artigo 14º, sobre o Direito à educação, o nº 3:
“São respeitados, segundo as legislações nacionais que regem o respetivo
exercício, (…) o direito dos pais de assegurarem a educação e o ensino dos filhos de
acordo com as suas convicções religiosas, filosóficas e pedagógicas”.

A Convenção da Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais


defende, no seu artigo 2º, do Protocolo nº 1 adicional:
“A ninguém pode ser negado o direito à instrução. O Estado, no exercício das funções
que tem de assumir no campo da educação e do ensino, respeitará o direito dos pais a
assegurar aquela educação e ensino consoante as suas convicções religiosas e
filosóficas.”

O Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, no seu


número 3º, do artigo 13º, diz-nos:
“Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a respeitar a liberdade dos pais
ou, quando tal for o caso, dos tutores legais de escolher para seus filhos (ou pupilos)
estabelecimentos de ensino diferentes dos poderes públicos, mas conformes às normas
mínimas que podem ser prescritas ou aprovadas pelo Estado em matéria de educação,
e de assegurar a educação religiosa e moral de seus filhos (ou pupilos) em
conformidade com as suas próprias convicções.”
São considerados muito relevantes, para este tema, os seguintes artigos na
Constituição Portuguesa:
Artigo 36º (Família, casamento e filiação). No nº 5:
“Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos.”
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Artigo 67º (Família), no nº 1:


“A família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à proteção
da sociedade e do Estado e à efetivação de todas as condições que permitam a
realização pessoal dos seus membros.”
No nº 2:
“ Incumbe, designadamente, ao Estado para proteção da família:
c) Cooperar com os pais na educação dos filhos.”

Artigo 74º (Ensino), no nº 1:


“Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de
oportunidades de acesso e êxito escolar.”
No nº 2:
“Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:
a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito”
e) Criar um sistema público e desenvolver o sistema geral de educação pré-
escolar”

Artigo 75º (Ensino público, particular e cooperativo):


No nº 1: “O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra
as necessidades de toda a população.”
No nº 2: “O Estado reconhece e fiscaliza o ensino particular e cooperativo, nos termos
da lei”

É muito importante verificar que com a revisão de 1982, o artigo 75º da Constituição
deixou de consagrar, como fazia na redação de 1976, o monopólio da rede pública e o carácter
supletivo do ensino privado. Fazendo um pouco de história, os artigos da Constituição de 1976
foram aprovados por maioria simples, enquanto as alterações posteriores o foram por maioria
qualificada de dois terços!
Deveria aparecer melhor especificado o que se entende por “sistema público” e “rede
de estabelecimentos públicos”.
Se a revisão que se verificou em 1982 passou a impor ao Estado Português o
reconhecimento efetivo dos estabelecimentos de ensino privado e a criação de uma rede
escolar de estabelecimentos públicos que cobrisse as necessidades de toda a população. No
entanto, nada é dito (nem podia ser dito) no sentido de privilegiar esta ou aquela escola e,
muito menos, tirar a liberdade às pessoas, obrigando à inscrição na escola que os pais ou os
alunos não querem. Ao mesmo tempo que o Estado se compromete a criar escolas públicas,
conta igualmente, de facto e de direito com as escolas privadas, que poderão livremente ser
criadas e procuradas: trata-se do reconhecimento jurídico do “ensino particular e
cooperativo”.
É enérgica e bem clara a posição de Mário Pinto (Pinto, 2001) sobre este assunto:
“Depois das revisões sofridas, o art. 75º trata apenas da rede escolar; não conforma
nem os direitos de liberdade nem os direitos sociais. A Constituição impõe ao Estado a
obrigação de garantir uma “rede de estabelecimentos” públicos de ensino que tenha suficiente
capacidade para satisfazer toda a procura efetiva. De facto, o Estado não pode obrigar os
cidadãos a criar escolas privadas. Mas, ao mesmo passo que se compromete a criar escolas
públicas, conta também, de facto e de direito, com as privadas (que livremente podem ser
criadas e procuradas).” (Pinto, 2011)
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Sobre a liberdade de aprender e ensinar encontra-se na Constituição.

Artigo 43º (Liberdade de aprender e ensinar):


nº 1: “É garantida a liberdade de aprender e ensinar.
nº 2: O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer
diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.”

Deste artigo decorre a máxima de que o Estado pode criar escolas, mas não pode
programar nem sequer dirigir o seu projeto educativo e a sua atividade educativa, para além
do direito que lhe assiste de regulação geral do ensino, de fiscalização e tutela de entes
públicos autónomos. Assim sendo, a ação do Estado, em matéria de educação, para além do
dever geral de regular o exercício das liberdades, é apenas financeira e de ordem organizativa,
fornecendo os recursos materiais, devendo ser-lhe vedada qualquer opção educativa. Deve,
por isso, respeitar e apoiar o dever e o direito de liberdade educativa dos pais.
O primeiro e principal princípio de um estado de direito é o princípio da liberdade da
pessoa humana. Ao Estado é vedado o monopólio da educação, a sua programação segundo
quaisquer princípios. Este é um dos princípios relevantes sobre educação presente na
Constituição, no capítulo III (direitos e deveres culturais). No capítulo em que se consagram os
direitos, liberdade e garantias pessoais está consagrada a liberdade de aprender e ensinar.

1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.


2. O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e cultura
segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou
religiosas.
3. O ensino público não será confessional.
4. É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas.

Mas antes mesmo da regulação operada pela Constituição, deveríamos considerar


aqueles que são definidos enquanto direitos fundamentais. Segundo os especialistas existem
três tipos de direitos que acabam por ser os alicerces do direito de aprender e de ensinar: em
primeiro lugar, os direitos pessoais fundamentais (liberdades públicas configuradas como
direitos subjetivos das pessoas perante o Estado; é sobre esses direitos que o estado se funda;
constitui fim do Estado respeitar e fazer respeitar esses direitos, ou seja garanti-los) em
segundo lugar, os direitos tipicamente incluídos nas declarações políticas de direitos
fundamentais, ou seja, direitos dos cidadãos (direitos dos indivíduos enquanto membros de
uma comunidade político-jurídica, direitos cívicos, ou direitos políticos), e em terceiro lugar,
uma outra categoria de direitos fundamentais, denominados direitos sociais (denominados,
também, por direitos económicos, sociais e culturais; constituem para os indivíduos poderes
de exigência relativamente a prestações do Estado).
Assim sendo existe uma tríplice estrutura de direitos fundamentais: os direitos liberais,
porque defendem a pessoa humana do próprio poder do Estado; os direitos democráticos,
porque democratizam o próprio poder político, tornado o poder do povo; os direitos sociais,
que visam dar expressão à solidariedade social e oferecer a todos uma base económica e
institucional de garantia concreta de satisfação de necessidades (direitos) fundamentais.
(Pinto, 1993: 759-760)
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

A Constituição Portuguesa é omissa em relação aos denominados direitos sociais. Mas


esta situação, segundo Mário Pinto, é que nunca se poderá depreender é que o dever do
Estado de realizar as prestações que são objeto dos direitos sociais possa transformar-se num
direito do Estado suprimir direitos de liberdade. No fundo é o que acontecerá se o direito à
liberdade de ensino seja substituído pela obrigatoriedade da escola pública, ou do modelo de
escola pública.
“Por outras palavras, o Estado não tem legitimidade para optar por bens coletivos que
contrariem os direitos fundamentais de liberdade apenas por razões ideológicas de Estado
(como alegadamente seria o bem público do monopólio estatal da rede escolar). Se tanto
escolas estatais como escolas privadas podem prestar o serviço público de ensino e satisfazer
os direitos sociais, não há razão política para negar o direito de escolha, porque até não fica
mais caro por isso ao Estado, e antes pelo contrário” (Pinto, 2011).

Para melhor fundamentação, poder-se-á fazer referência à Lei de Bases do Sistema de


Ensino (Lei n.º 46/86).

Artigo 1º, nº 3:
“O sistema educativo desenvolve-se segundo um conjunto organizado de estruturas e
de ações diversificadas, por iniciativa e sob responsabilidade de diferentes instituições
e entidades públicas, particulares e cooperativas.”

Capítulo VII - Ensino particular e cooperativo Artigo 57º (Especificidade) n.º 1:


“É reconhecido pelo Estado o valor do ensino particular e cooperativo como uma
expressão concreta da liberdade de aprender e ensinar e do direito da família a
orientar a educação dos filhos.”

Artigo 58º (Articulação com a rede escolar)


n.º 1:
“Os estabelecimentos do ensino particular e cooperativo que se enquadrem nos
princípios gerais, finalidades, estruturas e objetivos do sistema educativo são
considerados parte integrante da rede escolar.”

nº 2:
“No alargamento ou no ajustamento da rede o Estado terá também em consideração
as iniciativas e os estabelecimentos particulares e cooperativos, numa perspetiva de
racionalização de meios, de aproveitamento de recursos e de garantia de qualidade.”

Artigo 61º (Intervenção do Estado)


nº 2:
“O Estado apoia financeiramente as iniciativas e os estabelecimentos de ensino
particular e cooperativo quando, no desempenho efetivo de uma função de interesse
público, se integrem no plano de desenvolvimento da educação, fiscalizando a
aplicação das verbas concedidas.”

Numa lógica de financiamento do ensino, seja ele público ou privado, caberia aos
alunos (e suas famílias) o financiamento e não às escolas. Há um entendimento perverso do
financiamento do Estado que permite que este favoreça o financiamento das escolas de que
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ele é dono e não aquelas de que não é dono. Se existisse verdadeira liberdade de escolha no
ensino, quais seriam as preferidas?

Outro documento com particular relevo é a Lei de Bases do Ensino Particular e


Cooperativo (Lei n.º 9/79).

Artigo 6º
nº 2:
“No âmbito desta competência são, designadamente, atribuições do Estado:
d) Conceder subsídios e celebrar contratos para o funcionamento de escolas
particulares e cooperativas, de forma a garantir progressivamente a igualdade de
condições de frequência com o ensino público nos níveis gratuitos e a atenuar as
desigualdades nos níveis não gratuitos.”

E a Lei da Liberdade do Ensino (Lei n.º 65/79), que considera que:

Artigo 2º
e) “Existência progressiva de condições de livre acesso aos estabelecimentos
públicos, privados e cooperativos, na medida em que contribuam para o
progresso do sistema nacional de educação, sem discriminações de natureza
económica, social ou regional.”

No Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo (DL n.º 553/80)


Artigo 4.º
Compete ao Estado:
g) Promover progressivamente o acesso às escolas particulares em condições de
igualdade com as públicas;

Segundo a Lei da Rede Escolar (DL n.º 108/88)

Artigo 2º (Rede Escolar)


N.º 1: As escolas particulares e cooperativas passam a fazer parte integrante da rede
escolar, para efeitos de ordenamento desta.

Artigo 4º (Dimensionamento da rede escolar)


O dimensionamento da rede escolar depende do Ministério da Educação, no que
respeita ao seu alargamento, reconversão ou ajustamento, terá obrigatoriamente em
consideração, as iniciativas dos estabelecimentos particulares e cooperativos, tendo em vista
uma maior racionalização dos meios disponíveis, um melhor aproveitamento de recursos e a
defesa e garantia de qualidade do ensino ministrado.

O Estado, segundo os princípios de democracia, não pode defender um ideário político


e um modelo de pessoa nas escolas. Alguns Projetos Educativos não são verdadeiros e
completos.
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A Constituição estabelece uma proibição expressa do “Estado Educador”. Esta ideia


decorre do nº 2 do art. 43º da Constituição: «[o] Estado não pode programar a educação e a
cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológica ou religiosas».
Veja-se nestas linhas uma norma extraordinária, que nunca é mencionada pelos
“fundamentalistas” defensores do privilégio da «escola pública» e da prioridade da
intervenção do Estado na educação. Esta limitação constitucional do Estado em matéria de
educação vigora desde o texto primitivo da Constituição de 1976, foi aprovado na Assembleia
Constituinte pelo PS, PPD e CDS, nos conturbados tempos de 1975, quando se tornava visível
um desígnio de controlo educativo e cultural por parte do poder político revolucionário de
então. Para espanto de muitos a origem do acrescento do inciso da educação foi proposto pelo
Deputado do Partido Socialista, Mário Sottomayor Cardia, porque a norma que já tinha sido
aprovada só se referia à cultura. Assim sendo, o Estado pode criar escolas; mas não pode
programar nem dirigir o seu projeto educativo e a sua atividade educativa, para além do
direito de regulação geral do ensino e de fiscalização e tutela de entes públicos autónomos. As
escolas estatais têm de ter autonomia perante o Estado: científica, pedagógica, curricular, etc.
E no artigo 1º da Lei 9/79, diz assim:
1 – É direito fundamental de todo o cidadão o pleno desenvolvimento da sua
personalidade, aptidões e potencialidades, nomeadamente através de garantia e
do acesso à educação.
2 – Ao Estado incumbe criar condições que possibilitem o acesso de todos à educação e
à cultura e que permitam igualdade de oportunidades no exercício da livre escolha
entre pluralidade de opções de vias educativas e de condições de ensino.
3 – É reconhecida aos pais a prioridade na escolha do processo educativo para os filhos.

Nesta lei é assumido direito prioritário à educação e ao ensino, atribuindo-se ao Estado


um papel meramente instrumental no sentido de garantir a liberdade e a igualdade de
oportunidades e se atribui aos pais a prioridade na escolha da educação e do ensino.
Corajosamente, no meu entender, Mário Pinto, aponta para a possibilidade prática de
haver perversidade por parte do poder político ou corporativo, onde se transforma o sistema
educativo numa máquina de manipulação e de condicionamento das pessoas ao serviço de
uma ideologia partidária ou de um poder de Estado. (Pinto, 1993: 765)
Por isso, em jeito de conclusão, as Escolas do Estado não podem ser impostas às
famílias, pela via do monopólio do financiamento público. Não pode existir uma preferência de
umas escolas em relação às outras, ou seja, não pode preferir as escolas públicas às privadas. E
porque está proibido de fazer a programação do ensino (Constituição Portuguesa, no seu
artigo 43º, nº 2) e tem a obrigação de criar um sistema igualitário de oportunidades para todos
os cidadãos, não deveria garantir a gratuidade de ensino nas suas escolas e excluir desse
direito as escolas pelas quais os pais optam livremente.
Na base de muitas opções políticas, estão preferências ideológicas. Os partidos, os
sindicatos e os cidadãos podem preferir um ou outro modelo, umas escolas a outras, porque
têm a garantia de liberdade de opção ideológica e de opinião. Se o Governo, quer cumprir a
Constituição e da lei, não pode praticar a discriminação entre cidadãos, devido às suas opções
por uma ou outra escola.
De acordo com uma moderna conceção do Estado de Direito Democrático, os direitos
sociais correspondem a direitos subjetivos dos cidadãos a prestações, como garantias fácticas
de uma igualdade de oportunidades para o exercício efetivo dos direitos fundamentais de
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liberdade — efetividade esta que é a ideia essencial do «Estado Social». Não pode por isso o
Estado conformar essas prestações fácticas à medida das suas opções partidárias de Governo,
negando ou desviando a satisfação das liberdades individuais (liberdades de escolha). Por
outras palavras, o Estado não tem legitimidade para optar por bens coletivos que contrariem
os direitos fundamentais de liberdade apenas por razões ideológicas de Estado (como
alegadamente seria o bem público do monopólio estatal da rede escolar). Se tanto escolas
estatais como escolas privadas podem prestar o serviço público de ensino e satisfazer os
direitos sociais, não há razão política para negar o direito de escolha, porque até não fica mais
caro por isso ao Estado, e antes pelo contrário (Pinto, 2011).
“Ora uma escola livre é, por definição, e como já foi dito, um encontro livre entre os
que exercem a sua liberdade de aprender e os que exercem a sua liberdade de ensinar. Um
espaço onde livremente se exprime um projeto educativo, optado por educadores e
educandos. E é um espaço indispensável na medida da indispensabilidade da escola.” (Pinto
1993, 768)
O princípio da igualdade jurídica não significa que todos devam ser tratados da mesma
forma, mas que em condições especiais, os “desiguais” sejam tratados de forma “desigual”, de
forma a promover os princípios de justiça e equilíbrio entre todos.
Durante o movimento SOS, nas intervenções de muitos cidadãos notava-se a ideia
muito divulgada de que “quem quer ensino privado… que pague”. Ainda é muito difícil mudar
a opinião dos cidadãos sobre as parcerias público-privadas, uma vez que através dos média se
dá a ideia que nos setores da saúde e redes viárias, estas se têm tornado ruinosas para os
cofres do Estado é fonte de grande rendimento para os acionistas destas empresas.
Não se pode ser ingénuo e pensar que alguns dos denominados “Empresários da
Educação” tem sido expostos na Comunicação Social como auferindo de muitos rendimentos
(“rapidamente ricos” com subsídios do Estado) e, paralelemente, como exploradores dos seus
professores e funcionários.
É evidente que a iniciativa privada vai contra o modelo de decisão burocrática, que
pretende diminuir a margem de poder e de autonomia das escolas e dos professores, visto que
Estado pretende que a sua ação seja acionada dentro dos limites pré-categorizados. Assim a
escola é concebida como um serviço local do Estado, chefiado por órgãos locais e funcionando
na dependência hierárquica dos serviços centrais, cada vez mais concentrados no Ministério
da Educação.
Uma escola totalmente estatal procura que tudo para todos esteja previamente
determinado.
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2. Oportunidades

2.1. A cidadania ativa

Existe um filme americano, cujo nome é “Won’t Back Down”, de 2012, que aborda a
questão da iniciativa de uma mãe, associada a um grupo de professores que procura criar uma
escola, inicialmente com a motivação de superar as dificuldades da filha, uma aluna com
necessidades educativas especiais. Este é um dos casos de cidadania ativa e da criação de
escolas a partir da iniciativa privada.
A perspetivas de uma cidadania ativa sublinha o enorme caminho que há ainda a
percorrer para garantir que os pais tenham uma efetiva opção por um determinado projeto
educativo. Mas não seria só nesta opção fundamental mas, igualmente na sua intervenção em
aspetos substantivos da governação das escolas, como parceiros ativos: participantes na
conceção, planificação, execução e avaliação de áreas importantes do currículo. Esta
intervenção dos pais garantiria o combate à desigualdade que as escolas reproduzem e
legitimam, através do seu modelo uniforme e impessoalmente determinado a partir dos
serviços centrais do ME. Neste quadro, mais facilmente as escolas particulares e cooperativas
garantiriam uma descentralização administrativa, uma maior autonomia das escolas,
afirmando a diversidade social (Machado, 2004: 1184-1185).
A falta de esclarecimento dos cidadãos em relação aos seus direitos faz com que, na
prática, as pessoas não requeiram do Estado, o papel de promover a satisfação dos mesmos.
Não poderá haver contradição entre os direitos, liberdades e garantias, por um lado, e a
política social do Estado no âmbito das ações desenvolvidas para satisfazer os direitos sociais.
(Pinto, 1993: 769).

2.2. Um novo paradigma público para a administração da educação

A administração pública do estado não tem que se preocupar em gerir todos os


setores da vida dos cidadãos. Um novo estilo de governação pública em Portugal, à imagem do
que já se faz noutros países da Europa e do mundo, deve procurar uma maior emancipação
dos cidadãos, com o necessário envolvimento das instituições, numa maior promoção da
autonomia das pessoas.
A contratualização é a melhor estratégia de entendimento entre o Estado e os
privados no domínio da educação, numa regulação social conjunta.
Na verdade, ao mesmo tempo que evidencia a crise de legitimação do Estado na
governação da sociedade e das escolas, a pós-modernidade exige respostas alternativas ao
modelo centralizado e burocrático, de que dão conta a perspetiva de cidadania ativa e a
perspetiva neoliberal. (Machado, 2004: 1847)

2.3. Quadro estável de professores e contratação direta de profissionais

O quadro estável de professores é apontado vastas vezes como uma mais-valia nas
escolas em detrimento da constante mobilidade de parte do quadro de professores de uma
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escola. Esta prerrogativa, muito comum às escolas do ensino profissional e dos


estabelecimentos de ensino privado mexe com a sensibilidade de muitos sindicalistas,
sobretudo de esquerda, que veem nesta questão uma possibilidade de falta de transferências
e equidade nos processos.

2.4. Sempre a qualidade… a qualidade sempre!

As Escolas Privadas, sejam elas financiadas ou não pelo Estado, deveriam ver na
questão da Qualidade (de resultados, de formação humana, de serviços prestados, no
profissionalismo dos seus profissionais, nas estruturas, ideário, projeto curricular, segurança,
etc.) uma questão fundamental da sua sobrevivência enquanto empresas num mercado aberto
e concorrencial. Mas haverá aqui uma oportunidade para os estabelecimentos de ensino
privado (os subsidiados pelo Estado) e uma verdadeira relação com a concessão de alunos na
rede, uma efetiva possibilidade de opção dos pais, presente no artigo 5º, do novo estatuto do
Ensino Particular e Cooperativo (Decreto-Lei n.º 152/2013, de 4 de novembro):
“Apoiar o acesso das famílias às escolas particulares e cooperativas, no âmbito da livre
escolha.”
Basta ver o que está em andamento, já no próximo ano letivo, e verificar que a lei não vai
ser, de facto, cumprida. Menos 64 turmas… porque não?
O Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo foi recebido com críticas, tendo sido visto
como o anúncio da introdução do cheque-ensino, que dá às famílias a possibilidade de
escolherem a escola em que querem colocar os seus filhos, independente de estas
pertencerem à rede pública ou ao sector particular e cooperativo. O recente decreto-lei
estabelece que "é dever do Estado, no âmbito da política de apoio à família, instituir apoios
financeiros destinados a custear as despesas com a educação dos filhos", existindo quatro
modalidades de apoio. A promulgação decreto gerou alguma polémica, mas no que toca aos
contratos que o Estado pode celebrar com as escolas particulares, não parece que haja
alterações significativas, e é uma ilusão que haja reais benefícios para as escolas privadas. Não
muda nada de substancial e se existisse, de facto um financiamento baseado na opção dos
encarregados de educação, "o dinheiro iria para onde fossem os alunos".
Continuamos a pensar que ter qualidade é uma boa medida de promoção de qualquer
instituição, mas os cortes “cegos” em mais turmas que se esperam já neste ano letivo, em que
continua a redução drástica na linha das medidas gerais de redução de custos na função
pública. O que são ganhos na eficiência? Será que se está a cortar ainda na “gordura” ou já
estamos no “músculo”? Não tenho a certeza que se vá ultrapassar uma “linha vermelha” que
se coloque em causa a sobrevivência de muitas escolas de ensino privado.
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3. Obstáculos

3.1. Escolas financiadas por turma

Em nome da gestão de recursos as entidades titulares das escolas enfrentam um sério


problema, já apontado pela FNE: que em relação ao financiamento a este tipo de
estabelecimentos de educação e ensino devem contemplar-se valores de apoio financeiro
diferenciados e diferenciadores, tendo em consideração o tempo de serviço médio do corpo
docente das escolas, distinguindo as situações de contratação com vínculo permanente das
situações com vínculo precário.

“Parece-nos claramente injusto exigir o mesmo a uma escola que tem um corpo docente estável há mais de 20
anos quando outras têm 10 anos ou menos e com preferência por docentes em regime de contratação precária.
Deveriam, assim, contemplar-se escalões de financiamento, de modo a salvaguardar estas situações.” (anexo 1:
Posição da FNE sobre Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo).

Para garantir a sustentabilidade económica de alguns estabelecimentos de ensino as


entidades titulares vêem-se coagidas a procurar soluções drásticas quando o seu corpo
docente tem 20 ou mais anos de ensino e o volume de ordenados, pela antiguidade e
estabilidade do corpo docente, não é contemplado devidamente pelo financiamento.

3.2. Abertura de escolas com grande capacidade na zona onde há escolas


particulares

Este assunto considera-se mesmo muito sensível. Mesmo no Concelho de Anadia,


onde resido, a visão do Governo de José Sócrates e as criações faraónicas da empresa Parque
Escolar, geraram a projeção de uma escola que facilmente assumirão as turmas de Escolas
Particulares como o Colégio Salesiano S. João Bosco (fundado em 1938) e o Colégio Nossa
Senhora da Assunção (fundado em 1922).1
As autarquias visam satisfazer as necessidades das populações mas nem sempre têm
em consideração a qualidade dos projetos educativos, nem a história e valor social das
instituições. O caso de Anadia é paradigmático neste campo. A maioria dos autarcas no poder
ou na oposição têm os filhos em instituições educativas particulares mas não deixam de acabar
a todo o custo a obra por concluir.
A boa gestão dos recursos nem sempre tem em conta os que já existem, sejam eles
públicos ou privados. Mesmo com a falta de recursos económicos continua-se a optar por
executar projetos grandiosos que, por vezes, só visam satisfazer o ego de alguns autarcas e
perpetuar os seus nomes em “obra feita”.

1
Como se pode confirmar no sítio da Parque Escolar EPE
(http://www.parque-escolar.pt/docs/escolas/caracteristicas/146-3010.pdf), de acordo com o projeto, a ESA teria
capacidade para 76 turmas e as obras decorreriam entre 2009 e 2010. O anterior Governo PS assumiu o
compromisso de iniciar as obras no último trimestre de 2010, com prazo de execução previsto de 12 a 14 meses, e
de data prevista de entrada em funcionamento das novas instalações no último trimestre de 2011.
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Não deixa de ser um argumento de peso, considerar que há escolas do Estado vazias,
ou meio cheias, de alunos e, logo ao lado, escolas privadas com alunos “desejáveis” por essas
estruturas estatais.

3.3. Princípio da gestão de custos dos dinheiros públicos

Um dos argumentos mais utilizados por alguns políticos, sindicalistas e diretores de


escolas públicas prende-se com a defesa de que o Estado dispõe de recursos suficientes para
absorver os alunos das escolas privadas e cooperativas subsidiadas pelo Estado.
A fragilidade da economia portuguesa, a entrada de Troika, e os cortes acentuados em
todos os setores operados pelos sucessivos governos, vieram acelerar a proposta de medidas
que providenciam a redução dos meios disponíveis pelo que esta atitude programática torna-
se perfeitamente justificável à luz da gestão racional dos recursos humanos e materiais.
A rede escolar, na análise do número de alunos de turmas a atribuir a cada
estabelecimento de ensino tem que critérios objetivos? Quais são esses critérios? Os
municípios estarão interessados em que subsistam gestões privadas dentro dos seus domínios
autárquicos, talvez livres do seu poder e decisões?
O que terá presidido à “febre” de construção e reabilitação de escolas pela empresa
“Parque Escolar”? Tão simplesmente melhorar as condições das escolas já existentes,
substituir as que são irrecuperáveis, ou criar novos “elefantes” brancos para os quais não
existem alunos ou serão retirados às escolas privadas que funcionam com apoios do Estado?
Se as escolas privadas e cooperativas gastarem menos que as públicas será o
argumento suficientes para as manter abertas?

“Custo por aluno do ensino público inferior ao do particular

O Tribunal de Contas recomenda ao Governo que avalie a continuidade dos contratos de associação com
as escolas particulares e cooperativas. Um conselho que consta do memorando de entendimento.
O documento assinado com a troika já recomendava a redução das transferências para as escolas com
contrato de associação. Mas o Governo manteve este ano letivo a verba por turma (85288 euros), salvaguardando
esses contratos dos cortes generalizados na Educação. A recomendação do TC - feita no relatório divulgado hoje
sobre o custo médio por aluno no ensino público e escolas com contrato de associação - reforça a diretriz do
memorando.
Tanto Mário Nogueira, líder da Fenprof, como Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de
Dirigentes Escolares, louvam a recomendação. Para ambos, a rede de ensino pública assegura a oferta a todos os
alunos, pelo que reprovam o Estado pagar a escolas particulares que só deviam ser contratualizadas quando os
alunos não têm oferta a quatro quilómetros de casa.
Já para Rodrigo Queirós e Melo, diretor executivo da Associação dos Estabelecimentos do Ensino Privado
(AEEP), a duplicação da rede é pontual e se o Governo extinguir os contratos terá de assumir "que obriga" os pais a
matricular os filhos na escola pública.
O JN tentou obter uma reação do Ministério da Educação mas não recebeu qualquer resposta em tempo
útil.
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Diferentes leituras

O relatório conclui que o custo médio por aluno nas escolas com contrato de associação é de 4522 euros.
No ensino público, o TC apurou dois valores médios: 3890 euros com base na execução orçamental dos
agrupamentos; e 4415 euros se aos orçamentos forem somadas as despesas com as escolas artísticas, contratos de
execução com os municípios e Fundo Social Municipal. O valor no público só é menor graças ao custo médio no 1º
ciclo (2299,80), que as escolas com contrato de associação não lecionam. A comparação, frisa Rodrigo Queirós e
Melo, deve por isso ser feita com o custo médio apurado para os restantes ciclos que é de 4648 euros. "Logo, mais
caro 126 euros por aluno", reage, multiplicando, de imediato, esse valor pelos "53 mil alunos" abrangidos pelos
contratos de associação. "O Estado pode poupar seis milhões de euros".
Mário Nogueira alerta, no entanto, que o custo superior resulta das ofertas alternativas que existem no
público e não nas particulares, nomeadamente os cursos profissionais, artísticos ou os alunos com necessidades
educativas especiais.
De acordo com o relatório, 89% dos alunos abrangidos pelos 93 contratos frequentam o ensino regular.”

(Jornal de Notícias, publicado em 2012-10-26)

É evidente que este tipo de artigos que não dão ao cidadão uma informação
esclarecida, profunda, isenta e, sobretudo, vida de uma análise produzida por uma instituição
credível e independente, trazem à opinião pública a ideia de que o despesismo (entenda-se,
má aplicação dos dinheiros públicos) traz suspeitas de favorecimento de lobbies.
O cidadão pretende que os dinheiros públicos sejam bem geridos e que as concessões
de serviços públicos a privados tenham a particularidade de serem transparentes e, porque
não, justados por um princípio de custo-qualidade.
Os custos do ensino privado até poderiam ser mais elevados que os do público desde
que o cidadão notasse que existe uma substancial qualidade: nos resultados, na segurança, nas
estruturas ao serviço dos alunos. Mas a defesa deste aspeto creio que não se faz
convenientemente. As reportagens que surgem nos vários canais de televisão e nos jornais
apontam para alguns (pretensos) abusos que facilmente se generalizam.
“Colégios GPS suspeitos de inflacionarem gastos com professores
Critérios de atribuição dos subsídios eram pouco claros antes de ser fixado um valor por turma e estão
debaixo da mira dos investigadores.
Os magistrados do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa e os inspetores da Polícia
Judiciária (PJ) que há um ano estão a investigar a gestão dos colégios GPS suspeitam que os seus responsáveis
poderão ter inflacionado, durante anos, os valores dos gastos com professores para conseguirem maiores subsídios
do Estado.
Segundo averiguou o i, os critérios da concessão de subsídios que estavam em vigor antes de as regras
serem alteradas, no final de 2010, estão a ser vistos à lupa pelos investigadores. José Sócrates e Isabel Alçada, então
ministra da Educação, mudaram as normas e estabeleceram que esse subsídio era o equivalente a um montante fixo
por turma. Mas a legislação que vigorou entre 1980 e 2010 não era tão clara: estabeleciam um valor variável, por
aluno, tendo em conta vários aspetos como o custo de manutenção e funcionamento. As despesas com professores,
ao que o i apurou, acabariam por contar para o cálculo - quanto mais altas fossem, maiores os benefícios.
O i sabe que os relatórios da Inspeção-geral de Educação e Ciência (IGEC) sobre os colégios GPS deram
pistas essenciais ao trabalho dos investigadores que na passada terça-feira conduziram mais de duas dezenas de
buscas pelo Centro do país.
As seis auditorias, recorde-se, traçaram um retrato arrasador dos estabelecimentos de ensino particular
financiados pelo Estado para garantirem ensino gratuito a alunos que supostamente não teriam lugar na rede
pública.
Foram detetadas irregularidades como cobranças indevidas de taxas de matrículas, excesso ou escassez de
alunos, falta de professores e irregularidades nos horários: cerca de 85% tinham períodos de trabalho consecutivo
de mais de oito horas.
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Os procuradores da 9ª secção do DIAP de Lisboa e os inspetores da Unidade Nacional de Combate à


Corrupção (UNCC) da PJ pretendem agora confirmar se os colégios do grupo terão adulterado os números de
professores e os seus horários para receberem mais dinheiro do Estado.
Em causa estão suspeitas de corrupção, burla, peculato (uso de bens públicos para fins privados) e
branqueamento de capitais. Sob a mira dos investigadores, não está só a desconfiança de que parte do dinheiro
recebido do Estado terá servido fins privados mas também as circunstâncias em que foram assinados os contratos
de associação.
António Calvete, que preside ao grupo GPS e foi deputado de Guterres e ainda membro da comissão
parlamentar de Educação, é o homem no centro da investigação. Está ainda a ser investigada a hipótese de terem
sido oferecidas contrapartidas a José Manuel Canavarro, ex-secretário de Estado, e a José Almeida, ex-diretor
regional de Educação de Lisboa, que em 2005, cinco dias antes das eleições, terão dado o aval ao financiamento de
quatro colégios em locais bem servidos pelas escolas públicas. E ainda a outros ex-governantes do PS e do PSD que
vieram a trabalhar para o grupo. A casa de Canavarro, avançou o "Público", também foi alvo de buscas.”

(publicado no Jornal i, 10 de junho 2014)

Creio que a movimentação mais pertinente deveria ser a que parte dos encarregados
de educação e não dos gestores das escolas. Se der ideia que há interesses instalados as
pessoas depressa desconfiarão que há interesses económicos como variável.
Mas não deveria haver pruridos de consciência em afirmar a qualidade e capacidade
do “produto” escola privada. As escolas públicas fazem já a publicitação das suas capacidades
e possibilidades, sobretudo num tempo em que se nota a falta de alunos. Tem-se verificado
até que algumas escolas públicas copiam metodologias, atividades e propostas que antes eram
feitas só no domínio da escola privada.
A concorrência escolar deveria ser algo de salutar. Mas há algo de consequências ainda
por determinar quando os nossos governantes afirmam “o dinheiro vai para onde forem os
alunos”. (Cf. Rodrigo Queirós e Melo, em www.publico.pt/portugal/jornal/contratos-com-
escolas-privadas-nao-estarao-dependentes-da-oferta-publica-27353209)

3.4. Elitismo

A opinião pública é sensível à boa gestão dos recursos públicos. Quando se fala de
ensino privado fala-se do seu contributo para a seriedade, segurança, ordem controlo,
vigilância, eficácia, futuro, prestígio, respeito, disciplina. Mas também é claro que muitas das
escolas tem por base estas dimensões, sobretudo as privadas de elite, quando os responsáveis
destas escolas se preocupam em controlar os processos seletivos da admissão de alunos.
A homogeneidade dos alunos é um fator importante no sucesso em termos de
resultados, mas afirmar que isso se aplica a todas as escolas, sobretudo as com contrato de
associação, é uma generalização abusiva.
Algumas escolas privadas, mesmo com contratos de associação, não se livram
facilmente desta acusação, basta que se verifique uma primeira seriação de alunos através dos
que entram no 1º ciclo através da lógica das mensalidades e do apoio estatal às famílias
através do “contrato simples”.

3.5. Falta de união e apatia

Falando particularmente das escolas com contrato simples e de associação estas são
em clara minoria no conjunto do Ensino Privado em Portugal. O representante da maioria das
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Escolas Privadas é a AEEP embora as medidas e reivindicações nem sempre têm em conta a
especificidade das cerca de 90 escolas com contrato de associação, abrangendo 53 mil alunos
e 4.500 professores. Nalguns casos, toda a escola está abrangida pelo contrato de associação,
noutros casos o contrato abrange apenas alguns ciclos de ensino e/ou turmas.
Mesmo durante o famigerado “Movimento SOS” foi possível constatar a falta de união
entre os estabelecimentos de ensino. Alguns destacaram-se no seu empenhamento e
dinamização da comunidade educativa, estando outros mais expectantes em relação ao que ia
acontecendo.
Sabendo que a Escola do Estado, segundo a Constituição nunca se poderá orientar por
princípios estéticos e morais, é errado e anticonstitucional que uma escola pública tenha um
projeto educativo próprio e com diretrizes definidas. A educação pressupõe programação
ideológica, escolha de valores. Não há educação neutra! Mesmo por omissão a escola do
Estado está a transmitir valores. Afinal, em Portugal, não há uma efetiva opção. Mesmo que se
fale na Escola do Estado em tolerância, equidade, estas são ideias genéricas, princípios tantas
das vezes vazios de conteúdo e pouco levados à prática. Em muitas escolas somos levados a
acreditar que tudo é legítimo em nome da liberdade e de uma falsa tolerância.
As Leis são boas, a sua execução pelos vários governos é que tem sido má,
desobedecendo-lhes e mantendo o antigo monopólio da escola pública, quando na verdade é
que a descriminação da escola privada é contra a Constituição, contra a LBSE e contra as leis
estatutárias do Ensino Privado (Pinto, 2011). O que explica, então, que os estabelecimentos do
Ensino Provado não esclareçam esta não aplicação das Leis?
Aproveitar as oportunidades exige preparação e capacidade de “ir à luta”. Se os
titulares dos estabelecimentos continuarem sem espírito de cooperação entre eles, unidos sob
ideias comuns e sem pensar somente nos seus dividendos, será mais fácil ao Estado e aos
políticos “reinar” e garantir o seu monopólio educativo, usado como uma moderna arma
doutrinal, ao serviço de ideologias totalitárias.
Não há um bom esgrimir de argumentos e o fenómeno da privatização na educação é,
por alguns autores, associado não a uma fundamentação nos direitos e na lei, mas à crença
(discutível) na ineficácia do Estado em concretizar as metas educacionais em contraste com a
confiança nas relações de tipo contratual mercadorizado entre as esferas pública e privada ou
nas potencialidades do mercado para substituir com vantagem o Estado em algumas vertentes
da sua intervenção social (Estevão, 1998: 118). Quando não há um bom esclarecimento da
opinião pública sobre esta temática, e que deveria partir das escolas privadas, pensa-se que se
trata meramente de uma “nova cultura política”, baseada no liberalismo, e que se legitima
pela própria qualidade, considerada de baixo nível, deste serviço social quando dispensado por
instituições estatais. À partida, a alguns setores, pode parecer que se trata de graus de
eficiência e de eficácia da gestão provada face à gestão pública.
É graças a uma certa passividade de vastos setores da sociedade que “a educação não
se constituiu, até hoje, num domínio privilegiado de contestação alargada ao peso excessivo
do Estado, ou de uma vincada reivindicação pela substituição da lógica estadista por uma
outra de mercado (Estevão, 1998: 121)
Também para muitas pessoas ainda parece que a legitimação e dignificação do ensino
privado pela invocação da modernização, da eficiência e dos padrões de qualidade têm sentido
alguma dificuldade em impor-se, uma vez que estas dimensões de excelência não têm sido
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

experienciadas como naturalmente alocadas, ou identificadas com, do lado do privado


(Estevão, 1998: 122).

Conclusão

Ao concluir este trabalho permito-me fazer alguma síntese, através de alguns dos ecos
de conferências no âmbito do Fórum para a Liberdade de Educação, que decorreu em Lisboa
durante 2012, que considero magníficos e muito pertinentes, entre outros, tendo em conta o
tema abordado durante esta disciplina.
Um Estado que considera que as suas iniciativas são mais valiosas que as dos seus
cidadãos é uma visão que não respeita a liberdade e a lei. Muitas dos comportamentos que
vemos nos nossos políticos são expressão de regimes totalitários e contra a liberdade da
educação.
Se não for garantida a liberdade de educação todas as outras liberdades terão
tendência natural a serem relativizadas: a de pensamento, de consciência, de expressão e a de
religião.
A nossa democracia, depois de 40 anos do 25 de abril, não estará devidamente
consolidada se não existir uma verdadeira liberdade de educação. Só existirá verdadeira
liberdade no espaço público se nele se puderem exprimir todas as opções dos cidadãos.
O verdadeiro problema não está no reconhecimento da escola privada, como
organização e possibilidade, mas, como disse Sousa Franco “está na paridade financeira entre
escola pública e privada, sem a qual não há liberdade efetiva de escolha do tipo de ensino”
(Sousa Franco, artigo em Carneiro, 1994).
Apesar do novo estatuto, com lindas palavras, vinca-se cada vez mais o monopólio das
escolas públicas, marginalizando-se as escolas privadas, ao contrário do que é cada vez mais
consensual em muitos países da Europa. Na prática, a escola privada continua a ser
considerada supletiva, voltando a 1979.
Esta falta de incentivo impede a inovação. Sem liberdade de escolha não há
competição, sem competição dificilmente existirá inovação, e, sem inovação, não haverá
verdadeiro progresso. Continuam em exercício o controlo político e burocrático do ensino.
Para quando ver implantadas no nosso país as importantes reformas operadas nos
últimos anos do século XX, em diversos países? Quando veremos o fim do monopólio do
Estado na educação; a verdadeira autonomia das escolas com a correspondente
responsabilização e não uma mera delegação de poderes; uma efetiva liberdade de escolha da
escola por parte dos pais e dos alunos; um financiamento equilibrado às famílias e não às
escolas?
Os tópicos de uma abordagem racional ditam que deverá evitar-se o confronto
ideológico reduzido à dicotomia entre ensino estatal versus privado, que não deveremos
contestar qualquer tipo de escola, mas sim, a descriminação vigente que o Estado Português
faz entre escolas. A verdadeira discussão reside numa questão de liberdade, igualdade e
qualidade do ensino para todos os cidadãos.
Deveríamos propor um serviço público de educação que garantisse a todos os seus
direitos fundamentais: a liberdade de aprender e a liberdade de ensinar. A tónica do ensino
deveria estar sempre numa questão de qualidade. É evidente que o financiamento de todo o
ensino deveria estar de acordo com a sustentabilidade financeira dos encargos, em
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

compatibilidade com as restrições orçamentais do Estado, garantindo a possibilidade do


funcionamento harmonioso e sustentado das escolas.
Os contratos de associação têm uma natureza precária, não dando continuidade aos
pais e isso gera instabilidade junto das famílias, dos professores e restantes colaboradores. Os
contratos plurianuais, com um nível de exigência adequado e anos de transição bem definidos
deveriam ser um caminho a tomar. (Azevedo, 2011: 253)
Também deveria ser concedido financiamento adequado e flexibilizado de acordo com
necessidades específicas, por exemplo, necessidades educativas especiais, o background
cultural dos alunos, a localização geográfica, a especificidade das atividades propostas e o
projeto educativo. Era fundamental que o financiamento fosse feito às famílias e não às
escolas.
A concorrência saudável entre escola deveria ser estimulada e devidamente regulada,
através da avaliação do “valor acrescentado” em cada aluno: exames nacionais e avaliação
externa, apoio à realização e publicação de estudos comparados.
Estas medidas conjuntas e sistémicas deveriam levar a uma renovação da estrutura do
Ministério de Educação, em que a maior parte dos serviços se iriam tornar em organismos
verdadeiramente autónomos de assessoria e apoio às escolas. Isto é improvável que aconteça,
pelo menos nos anos mais próximos. Assim existisse vontade política!

A tragédia de uma educação sem qualidade é que não se indemniza uma criança que
não teve uma educação adequada, pois perdeu-a para sempre.
(Fernando Adão da Fonseca)
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Recursos

Fonseca, F. A. (2012) Família e Educação. Porquê Liberdade de Opção Educativa e Formativa?


Texto fornecido por ocasião do Fórum para a Liberdade de Educação, Lisboa. 5 de junho de
2012.

Azevedo, J. (2011) Liberdade e Política Pública de Educação - Ensaio sobre um novo


compromisso social pela educação, Fundação Manuel Leão.

Carneiro, R. (1994) Ensino Livre - Uma Fronteira da Hegemonia Estatal. Edições Asa.

Cordeiro, A. M. R. – coord. (2011) Reorganização da rede do ensino particular e cooperativo


com “contrato de associação”. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Disponível
em http://www.dgeec.mec.pt/

Estevão, C. A. V. (1998) A privatização da qualidade na educação e as suas privações. In


Sociologia – Problemas e práticas, n.º 27, 1998. Pp. 117-127

Machado, J. (2004). Escola e Família – Utopia, burocracia e democracia, Trabalho apresentado


em VIII Congresso Galaico-Português de Psicopedagogia, In Atas do VIII Congresso Galaico-
Português de Psicopedagogia, Braga. pp 1835-1845

Machado, J. & Formosinho J. (2012). Igualdade em educação, uniformidade escolar e desafios


de diferenciação, in Revista Portuguesa de Investigação Educacional, vol. 11, 2012, pp. 29-
43

Pinto, M. (1993). Liberdades de aprender e ensinar – escola privada e escola pública, in revista
Análise Social, vol. XXVIII (123-124), 1993 (4º - 5º), 753-774

Pinto, M. (2011). A Crise na Educação e a infidelidade à Constituição, in revista Nova Cidadania,


Ano XI, n.º 44 (jan-mar 2011).

Rodrigues, M. de L. – org. (2014) 40 Anos de Políticas de Educação em Portugal. - A construção


do sistema democrático de ensino, vol. I. Editora Almedina.

Legislação

Decreto-Lei n.º 152/2013, de 4 de novembro - decreto-lei aprova o Estatuto do Ensino


Particular e Cooperativo de nível não superior.

Lei de Bases do Sistema de Ensino (Lei n.º 46/86)

Leis n.º 115/97, 49/2005 e 85/2009


“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Anexos

Anexo 1

Posição da FNE sobre Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo

A propósito da anunciada aprovação do Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo, a FNE


sublinha que em nenhuma circunstância pode ser posto em causa o princípio constitucional da
liberdade de aprender e de ensinar, nem o Estado se pode desresponsabilizar ou transferir
para outros a responsabilidade de garantir a existência de um sistema de ensino estatal que
esteja preparado para acolher todos e que promova com equidade o sucesso de educação e
de formação para todos.
A FNE já teve oportunidade de manifestar esta sua opinião em sede de pronúncia escrita
sobre o projeto que o MEC lhe submeteu para alteração ao Estatuto que tem estado em vigor
desde 1980, mas que foi alterado sucessivamente em 1985, 1986, 1988, 2006, 2010 e 2012.
A FNE desconhece o documento ontem aprovado em Conselho de Ministros, pelo que
sobre ele não pode expressar opinião, reservando uma apreciação concreta sobre o
documento quando ele for do seu conhecimento.
No entanto, a FNE lembra que sempre defendeu e continua a defender o pleno exercício
da liberdade constitucional de ensinar e aprender, para o que se impõe que os normativos
legais operacionalizem as condições da sua concretização, nomeadamente no que diz respeito
à liberdade das Famílias para escolherem o estabelecimento de educação e ensino adequado
aos seus Educandos.
Mas também considera que tal princípio não liberta o Estado da sua obrigação de
concorrer para a disponibilização de uma oferta educativa que garanta o acesso universal e
gratuito a uma educação de qualidade com equidade.
A propósito, a FNE continua a considerar fundamental que a questão do financiamento
das ofertas de educação e ensino seja transparente e justificada, e que se deve garantir a sua
correta aplicação, em todas as circunstâncias.
Considera ainda a FNE que o Estado detém a inalienável responsabilidade de controlo e
regulação de todas as ofertas educativas, com o objetivo de garantir qualidade de toda a
oferta educativa, bem como o respeito pelos princípios da liberdade, da democracia e do
respeito pela pessoa.
Finalmente, a FNE reconheceu e registou positivamente que o projeto que lhe submetido
abria mais expetativas em relação a um maior espaço de autonomia para os estabelecimentos
por ele enquadrados, o que, como é normal nestas circunstâncias, cria mais exigentes
responsabilidades e obrigação de regulação da qualidade.
Finalmente, e em relação à diversidade de contratualização que o projeto de diploma que
nos foi apresentado para apreciação, é entendimento da FNE que o contrato designado de
associação deve ser restringido às circunstâncias geográfico-sociais em que a oferta estatal de
educação e ensino seja inexistente ou insuficiente.
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

Em relação ao financiamento a este tipo de estabelecimentos de educação e ensino


devem contemplar-se valores de apoio financeiro diferenciados e diferenciadores, tendo em
consideração:

a) por um lado, o tempo de existência do estabelecimento de educação e ensino;

b) por outro lado, o tempo de serviço médio do corpo docente das escolas, distinguindo as
situações de contratação com vínculo permanente das situações com vínculo precário.

Parece-nos claramente injusto exigir o mesmo a uma escola que tem um corpo docente
estável há mais de 20 anos quando outras têm 10 anos ou menos e com preferência por
docentes em regime de contratação precária. Deveriam, assim, contemplar-se escalões de
financiamento, de modo a salvaguardar estas situações.
Assim, e para além destas considerações genéricas, a FNE fica aguardar a divulgação
pública do texto legal ontem aprovado em Conselho de Ministros para sobre ele emitir uma
opinião final.

Porto, 6 de setembro de 2013

Anexo 2

Divulgado custo médio por aluno - Tribunal de Contas

O custo médio por aluno nas escolas públicas estava, em 2009/2010, nos 4415 euros e nos
colégios com contratos de associação situava-se nos 4522 euros. Os cálculos foram efetuados
pelo Tribunal de Contas (TC) e divulgados ontem, mas a sua utilidade, como reconhece o
próprio TC, é praticamente nula.

No relatório explica-se que, quando o processo se iniciou, em Setembro de 2011, o último


ano letivo para o qual “existiam dados estatísticos e financeiros definitivos” era o de
2009/2010. De então para cá, tanto os sucessivos pacotes de austeridade, como várias das
medidas implementadas pelo Ministério da Educação e Ciência, resultaram numa diminuição
significativa das despesas na educação. Em resultado desta contração, o tribunal concluiu no
seu relatório que o custo médio apurado para o ano letivo de 2009/2010 “não deve ser
considerado para anos subsequentes”.

O TC calculou o custo médio por aluno tendo em conta também os cerca de 200 mil adultos
que então se encontravam em atividades de educação e formação, uma oferta que foi agora
drasticamente reduzida. Segundo o TC, a inclusão dos adultos neste cálculo deve-se ao facto
de dos dados financeiro disponíveis no ministério não se encontrarem desagregados de acordo
com o tipo de ofertas, também “não se encontrando definido qualquer critério que permita
essa desagregação”.
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

No final de 2011, quando já decorria a auditoria do TC, o MEC constituiu um novo grupo de
trabalho a quem foi atribuída a missão de apurar qual “o custo real dos alunos do ensino
público por ano de escolaridade”. Até agora não são conhecidos resultados. O PÚBLICO
questionou o MEC, mas não obteve respostas.
A auditoria do TC foi decidida depois de uma resolução aprovada em Abril de 2011 pela
Assembleia da República onde se solicitava que o tribunal aferisse qual o custo médio por
aluno nas escolas públicas no ano letivo 2010/2011. A resolução foi aprovada na sequência de
uma iniciativa do grupo parlamentar do PSD em resposta aos cortes no financiamento dos
colégios particulares com contratos de associação com o Estado. Como já foi referido, o cálculo
do TC não diz respeito ao ano letivo indicado na resolução do parlamento, mas sim ao anterior.
Em Fevereiro de 2011, durante uma audição no parlamento, a então ministra da Educação,
Isabel Alçada, justificou a redução de financiamento dos colégios com contratos de associação
de 114 mil euros por turma para 85 mil com a contenção da despesa nas escolas públicas.
Segundo Alçada, o custo por aluno nas escolas pública era, naquele ano letivo, de 3735 euros,
prevendo-se uma redução para 3330 euros em 2011/2012.
No seu relatório o TC recomenda ao MEC que pondere “a necessidade de manutenção dos
contratos de associação no âmbito da reorganização escolar”. Este ano letivo o ministério vai
continuar a pagar 85 mil euros por turma aos 93 colégios com contratos de associação para
garantirem ensino gratuito a mais de 2000 turmas. Estes protocolos com o Estado iniciaram-se
na década de 1980, numa altura em que a oferta de escolas públicas era inexistente em várias
zonas do país.

In Jornal Público – 26 de outubro 2012

Anexo 3

Governo pretende financiar menos 64 turmas em colégios, já no próximo ano

Para não sofrerem cortes no montante pago a cada turma, privados têm de fechar 64.
Estado vai poupar cerca de 5 milhões de euros.
O financiamento público de turmas no ensino privado vai baixar. O Ministério da Educação
e Ciência emitiu um comunicado no qual diz que, “tendo em conta as projeções demográficas
relativas ao número de alunos matriculados no sistema de ensino, e a consequente redução
global do número de turmas”, chegou a acordo com a associação que representa os colégios e
pretende que estes abram, no próximo ano letivo, menos 64 turmas financiadas pelo Estado.
“Os serviços do Ministério da Educação e Ciência desenvolveram um trabalho de
harmonização entre a rede de escolas públicas e a rede de escolas com contrato de associação,
apontando para uma diminuição de 64 turmas a financiar ao abrigo destes contratos no
próximo ano letivo”, lê-se no comunicado desta segunda-feira à tarde.
Os contratos de associação são os contratos que o ministério assina com escolas privadas
em zonas onde não há oferta pública suficiente. O novo estatuto do ensino particular e
cooperativo prevê que, no futuro, o Estado possa financiar colégios, através de contratos de
associação, também noutras circunstâncias, mas isso não foi ainda regulamentado.
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

De acordo com o comunicado do ministério de Nuno Crato, a Secretaria de Estado do


Ensino e da Administração Escolar acordou com a Associação de Estabelecimentos de Ensino
Particular e Cooperativo (AEEP) os termos da redução de financiamento. “O total de turmas
com contrato de associação será reduzido em pelo menos 44 turmas”, mas o objetivo é mais
lato.
"Caso o total de turmas não atinja a redução de 64, o financiamento anual por turma será
progressivamente reduzido, do valor atual de 81.023 [euros por turma por ano] até aos 80.105
euros, valor que se atingirá se se verificar que foram constituídas apenas menos 44 turmas”.
Ou seja: se os colégios tiverem no próximo ano menos 44 turmas com contrato, o
ministério atribuirá a cada turma um financiamento de apenas 80.105 euros — o que significa
menos quase mil euros por turma. Já se abrirem menos 64 turmas, o financiamento por turma
irá manter-se nos 81 mil euros/ano. O corte no financiamento por turma variará, assim,
conforme o número de turmas que fechem.
Segundo o comunicado do ministério “cabe a cada escola a gestão por ano de escolaridade
do seu número total de turmas ao abrigo de contratos de associação, salvaguardando a
continuidade pedagógica dentro de cada ciclo de ensino”.
A redução de despesa será sempre, segundo apurou o PÚBLICO, de cerca de 5 milhões de
euros.
O acordo com a AEEP rege-se, segundo o ministério, pela “racionalização dos recursos
existentes” e permite “cumprir o objetivo de redução da despesa com contratos de associação,
uma das componentes da redução de despesa inscrita no Documento de Estratégia
Orçamental”.
As últimas estatísticas da educação disponíveis são de 2012 e apontam para 373.847
inscritos no ensino particular e cooperativo, do pré-escolar ao secundário.
Já em Julho do ano passado, recorda a Lusa, o Governo tinha acordado com a AEEP uma
redução do financiamento por turma para 2014, de 85.288 euros para os 81.023 euros, um
corte que a associação que representa as escolas privadas considerou, na altura, "a solução
mais adequada" no atual contexto económico. O corte global nas transferências para os
privados foi de 7,8 milhões de euros.
Ainda segundo dados citados pela Lusa, existem atualmente 1809 turmas com contrato de
associação com o Estado.

In Jornal Público, 9 junho 2014 (disponível em http://www.publico.pt)

Anexo 4

Escola pública e escola privada


Posted on Abril 9, 2014 by André Abrantes Amaral

Aquando do lançamento dos seus dois livros ‘A sala de Aula’ e ‘Diários de Uma Sala de
Aula’, Maria Filomena Mónica esteve na SIC Notícias onde afirmou não ser contra, mas a favor,
da escola pública. Para reforçar o seu entendimento, Filomena Mónica mencionou a
diversidade social existente na escola pública, em comparação com o que sucede nas escolas
privadas. No seu ponto de vista, esta diversidade social é importante para as crianças e jovens,
“ENSINO PRIVADO” ENTRE A POSSIBILIDADE E A EXCLUSÃO

por lhes dar uma visão mais alargada da realidade. Para evidenciar ainda mais o seu
argumento, Filomena Mónica referiu conhecer alunos das escolas privadas que julgam que
todos os restantes colegas também têm uma piscina em casa.

Ora, eu estudei, por escolha dos meus pais que fizeram uma opção de vida nesse sentido,
em escolas privadas e não conheci nenhum colega que tivesse piscina. Se calhar, não fui
inteligente nos relacionamentos que criei, apesar de muitos daqueles que fiz se manterem
ainda hoje. E ainda sem piscinas em casa. Chamo a atenção para estas afirmações de Maria
Filomena Mónica, não só por virem de alguém que, apesar de não conhecer pessoalmente,
respeito bastante, mas porque demonstra o preconceito que existe contra o ensino privado.
A escola privada tem duas vantagens sobre a escola pública: a escolha de um ensino com
uma determinada orientação (uns preferem a religiosa, mas há quem dê prioridade ao ensino
das línguas estrangeiras ou até da filosofia ou mesmo da música) e o acesso direto a quem
manda na escola. O ter uma palavra a dizer sobre o modo como os seus filhos são tratados e
orientados num dado estabelecimento de ensino pelos professores.
Ultimamente tem-se assistido a um fenómeno, também entre pessoas de direita, de
valorização da escola pública. Eu não vejo qualquer problema nisso, mas este, como todos os
fenómenos sociais, tem de ser analisado com atenção. Como sabemos a colocação dos alunos
na escola pública é feita de acordo com a morada de residência ou do domicílio profissional
dos pais. Ora, esta valorização da escola pública que referi é acompanhada por um cuidado na
escolha dos bairros onde se reside. É como se dissesse: «eu sou a favor da escola pública, mas
naquele bairro». A partir do momento em que a colocação dos alunos na escola pública é
determinada pelo domicílio dos pais, é normal a diferença entre escolas públicas dependendo
da sua localização. A escolha de um bairro para viver tendo em conta o ambiente que faz a
escola desse local, acaba por ser natural. Natural, sem dúvida, mas responsável também pelo
fim da mobilidade social que Filomena Mónica diz se ter perdido na escola pública. Já não será
a escola que permite que qualquer rapaz ou rapariga dê o salto na escala social, mas são os
pais que escolhem os bairros para escolherem a escola. Não é a escola que determina o futuro,
mas o bairro, ou o encarregado de educação, pois muitas vezes este é escolhido em função do
bairro onde se vive e há quem seja encarregado de educação de muitas crianças neste país,
que condiciona a escola. Não havendo liberdade para escolher a escola, escolhe-se o bairro.
Esta atitude, compreensível, repito, tendo em conta a falta de liberdade na escolha da escola,
não deixa de desvirtuar o conceito de escola pública, ao mesmo tempo que a elogia; acaba por
ser uma forma de criação de escolas de elite, porque em zonas de elite, a custo zero.
O conceito da escola pública devia visar não se ter de mudar de bairro para ter acesso a
uma boa escola. A escola pública, porque universal e dirigida a partir da 5 de Outubro, deve ser
igual em todo o lado. Não pode conter diferenças que discriminem os que não têm acesso à
melhor escola pública apenas porque os pais não têm meios de se mudar para um bairro
melhor. Uma saída deste pressuposto compromete a sua ideia base de igualdade de
oportunidades. Como referi, nem todos podem mudar de casa para um local onde o ambiente
social à sua volta é equivalente ao de uma escola privada, com a vantagem de não se pagar e
se vestir a veste, tão confortável no mundo da esquerda politicamente correta, de ser a favor
da escola pública.

(Disponível em http://oinsurgente.org/2014/04/09/escola-publica-e-escola-privada)