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CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DE RIBEIRÃO PRETO

PSICOLOGIA

RELATÓRIO FINAL – ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM


PSICOLOGIA HOSPITALAR

Geysa Souza Cabrera 12.458


Profa. Dra. Juliana Vedruscolo

RIBEIRÃO PRETO
2018
ii

GEYSA SOUZA CABRERA

A importância do atendimento psicológico, idosos hospitalizados e


seus cuidadores familiares

Relatório de conclusão de estagio ao Centro


Universitário ESTÁCIO de Ribeirão Preto, de
Ribeirão Preto, como parte dos requisitos para
obtenção do grau de Bacharel em Psicologia.

Profa. Dra. Juliana Vendrusculo

RIBEIRÃO PRETO
2018
iii

CABRERA, Geysa Souza. A importância do atendimento psicológico, idosos hospitalizados e seus


cuidadores familiares. Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto, 2018.

Resumo

De qual maneira o rígido setting proposto inicialmente como técnica psicanalítica, seria
inserido dentro de uma instituição de saúde mental? Este feito teria êxito para o envolvidos?
Ou seja profissional, paciente e instituição? Estas questões e alguns outros impasses são
abordados, juntamente com uma exploração breve das mudanças ocorridas neste contexto de
saúde mental. A reforma psiquiátrica propõe uma mudança na assistência e métodos da saúde
mental, trazendo uma evolução a ser compreendida através dos seus novos modelos de
tratamentos inseridos, buscamos o levantamento pelo método psicanalítico, que atuará de uma
forma a compreender o sofrimento em outro contexto que não seja o modelo tradicional
clínico. A psicanálise oferece um tratamento humanizado identificando o sofrimento
individual do sujeito, e favorecendo o diálogo e a palavra, de modo a promover o resgate da
dimensão subjetiva do adoecimento psíquico. A integração de ambas as áreas da atuação da
psicologia e medicina, ou seja, o método psicanalítico e a atuação em saúde mental
institucional nos trazem o propósito de ocupar e compreender a singularidade de todas as
expressões humanas. Tendo iniciado a partir da escuta clínica da histeria, a criação freudiana
visa a compreensão aprofundada da condição humana, indo, assim, além do campo da
psicopatologia. Ao longo desta caminhada de um amplo processo de reformulação de políticas
psiquiátricas que ainda não chegou ao seu final, podemos observar o quão importante se faz o
papel do psicólogo inserido neste contexto juntamente com a psicanálise, que pode deixar a
sua marca e contribuir para uma experiência relevante no cenário da reforma psiquiátrica e do
novo cenário de políticas de atenção que se estabelecem no campo da saúde mental, visando
dar voz ao sujeito da loucura, e se faz viva independentemente do local de atuação nos
mostrando que o setting se dá através da relação terapêutica, sendo aonde um sujeito escute e
outro fale, ali se mostrará o inconsciente, podendo então proporcionar uma estruturação
psíquica para o sujeito.

Palavras-chave: saúde mental, assistência em saúde mental, psicanálise, instituição, reforma


psiquiátrica.
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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO.................................................................................................................5
1.1. Objetivo Geral............................................................................................................5
1.1.1. Objetivos específicos..................................................................................................6
1.2. Método.........................................................................................................................6
2. EVOLUÇÃO E ATUAÇÃO DENTRO DAS INSTITUIÇÕES.....................................7
2.1. ESTRUTURAÇÃO DAS INSTITUIÇOES E ATUAÇÃO PROFISSONAL NA
ATUALIDADE......................................................................................................................9
3. O CAMINHO PERCORRIDO.......................................................................................11
4. UMA REALIDADE CONTEMPORÂNEA..................................................................14
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................17
REFERÊNCIAS......................................................................................................................18
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1. INTRODUÇÃO

A Abordagem Psicanalítica se trata de uma abordagem teórica, da área da medicina e


psicologia, que traz técnicas de análise psicoterápica e atuação, fundadas pelo Médico
neurologista Sigmund Freud. Mas o que seria a atuação provinda deste método em um
ambiente institucional e de atenção à saúde ou até mesmo hospitalar? Isto não significa
afastar-nos da ética que nos é própria, nem perder o ouro do inconsciente e desconsiderar as
relações do significante. Muito ao contrário! Se a psicanálise traz algo de novo na clínica das
psicoses e na atuação dos dispositivos sociais é exatamente por conter um discurso diferente
da norma, da regra, da moral (BAIO, 2003).
O psicanalista pode desenvolver uma função de agente de transformação social, e faz
isto pela sua escuta, pela sua aposta no sujeito da linguagem, pela sua crença na singularidade,
na diferença de cada invenção e na sua concepção de verdade não toda. “O que têm em
comum os psiquiatras, os trabalhadores de saúde mental e os analistas é que sabemos que as
democracias e o laço social são coisas muito frágeis, baseadas em um manejo delicado das
crenças sociais” (BAIO, 2003, p.19).
Esta atuação do método, neste caso, se constrói em Instituições de saúde mental, que
se refere a hospitais psiquiátricos, e instituições como os CAPS, que são destinadas a atender
e acolher os pacientes com transtornos mentais, estimular sua reintegração social, apoiá-los
em busca de uma autonomia em seu meio, e oferecer-lhes tratamento médico e psicológico,
além de também Serviços Residenciais Terapêuticos, os Centros de Convivência e Cultura, as
Unidades de Acolhimento e os leitos da psiquiatria de atenção integral em Hospitais Gerais
(SILVA, MICHELS, MACEDO, 2015).
A pesquisa que traremos é de relevante importância tendo em vista que 3% da
população geral sofrem com transtornos mentais severos e persistentes e 12% da população
necessitam de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual
(GOIDANICH, 2001).
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1.1. Objetivo Geral

Este trabalho tem como principal objetivo realizar um levantamento bibliográfico


sobre atuação do método psicanalítico nas instituições de saúde mental levando em
consideração sua evolução histórica.

1.1.1. Objetivos específicos

- Contextualizar a evolução das instituições de saúde mental ao decorrer de sua


história, trazendo pontos positivos obtidos com a reforma psiquiátrica em atenção à saúde, à
subjetividade do sujeito e sua reinserção na sociedade.
- Trazer, através de artigos específicos da literatura, a atuação do método psicanalítico
em todo este processo e sua dimensão.

1.2. Método

O método a ser utilizado para pesquisa será o de Revisão de Literatura Simples.


E esta nos permitirá delimitar a linha de pesquisa a ser realizada, através de uma
perspectiva científica (DANE, 1990). E para isto, será necessário alinhar os tópicos-chave,
periódicos, autores, palavras, e fontes de dados preliminares. A revisão bibliográfica é, pois,
um passo fundamental para qualquer pesquisa científica (WEBSTER; WATSON, 2002).
Desenvolvida a partir de conteúdos já disponíveis como livros, artigos e teses, a pesquisa
bibliográfica possui caráter exploratório, onde se tem a possibilidade de aprimorar ideias
embasadas em dados já elencados, sobre a mesma temática (GIL, 2007).
Os dados serão pesquisados em bases de dados científicos, como scielo e google
acadêmico, com as seguintes palavras de busca: psicanálise, instituição, saúde mental,
simultaneamente. Os critérios de inclusão serão os artigos publicados nos últimos 20 anos e
em língua portuguesa. Os critérios de exclusão serão os textos em forma de resumo e que não
atendam aos objetivos do presente trabalho.
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2. EVOLUÇÃO E ATUAÇÃO DENTRO DAS INSTITUIÇÕES

No trabalho em um Centro de Atenção Integral à Saúde Mental da rede pública, são


analisadas as particularidades técnicas do trabalho clínico trazendo a possibilidade da atuação
psicanalítica inserir-se em um meio tão distinto daquele em que acontece o setting tradicional
(GOIDANICH, 2001).
A estrutura voltada para a saúde mental que antes era vigente na sociedade possuía o
modelo manicomial, até que as contribuições da Reforma Psiquiátrica proporcionaram
transformações neste modelo de assistência pública, contemplando dimensões políticas
sociais e culturais que lidam com questões de cidadania. Passaram, assim, a envolver a
relação da sociedade com a loucura, e a quebra dos conceitos até então formados pelo uso do
termo, tudo isso através, do enfretamento de muitos desafios para o redirecionamento dos
velhos métodos excludentes. Na saúde mental, uma das principais questões que foi debatida,
girava em torno da reinserção do sujeito considerado louco, no meio social, como uma pessoa
de direitos e singularidade. A inserção do Psicólogo de atuação psicanalítica no âmbito da
saúde pública é um tema considerado, por vezes, polêmico, pois o conhecimento de senso
comum que se possui de analista, é de um profissional preso ao divã e a um setting analítico
rígido, sendo então discriminado como um alguém que não poderia desenvolver uma atuação
útil em uma instituição (GOMES, 2009).
O atendimento clínico em saúde mental nos serviços públicos de saúde foge dos
moldes tradicionais da clínica psicanalítica, onde ocorrem distinções técnicas relevantes.
Certamente muitos daqueles que se intitulam terapeutas psicanalistas julgariam impossível
caracterizar os atendimentos que são realizados na rede pública como sendo de cunho
psicanalítico, tendo que readaptar várias práticas de conceitos fundamentais da abordagem,
como, por exemplo, o setting (GOIDANICH, 2001).
Após a reforma psiquiátrica, deu-se início a criação de serviços que substituíam o
modelo tradicional de hospital psiquiátrico até então consolidado, este importante movimento
tinha como objetivo a mudança nas políticas públicas de atenção à saúde mental. Por isso,
procedeu-se a extinção dos manicômios e hospícios, nos quais até então este era o modelo
estabelecido de patologias mentais e até comportamentais, aonde não era difícil uma pessoa
vir a se internar em uma instituição apenas por consumir uma substância ilícita como
maconha, ou até mesmo cometer um ato considerado errôneo como, por exemplo, um
adultério. A partir daí foram se tornando vigentes nas novas redes de atenção à saúde mental,
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como, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), leitos psiquiátricos em hospitais gerais,


oficinas terapêuticas e residências terapêuticas, cada um com suas especificidades. Mais tarde,
através das portarias é que veio atuar na questão de recursos para estas modalidades
alternativas, a internação em hospital psiquiátrico, de maneira a se tornar compatível com as
necessidades dos usuários tal procedimento de ações de saúde mental (HIRDES, 2008).
De acordo com Hirdes (2008, p.299):

A desinstitucionalização tem uma conotação muito mais ampla do que


simplesmente deslocar o centro da atenção do hospício, do manicômio, para
a comunidade. Enquanto este existir como realidade concreta, as ações
perpassarão, necessariamente, por desmontar este aparato, mas não acabam
aí. Para o autor acima referido e também ator do processo, é o conjunto que é
necessário desmontar (desinstitucionalizar) para o contato efetivo com o
paciente na sua "existência" doente.

Portanto, se faz necessário reinventar uma instituição que acolha as demandas de seus
pacientes. O Artigo de Abreu (2008) nos traz um exemplo sobre isso, em um relato de caso de
uma paciente, usuária do CAPS, psicótica grave, que vaga pelas ruas e rodoviárias, por mais
que tenha sua casa. Sua presença nas ruas vai além da falta de uma morada, algo concreto;
está conectada com sua história. Essa paciente tem o CAPS como seu lugar de ancoragem,
para onde ela pode ir quando sua carga se torna demasiado insuportável. Ela chega à hora que
deseja, que lhe é possível e necessária, e sabe que ali encontrará seu médico, seu psicólogo.
Subvertemos as regras, subvertemos os lugares, subvertemos o outro para acolher e tratar,
aquilo que é possível, algo do sujeito que ali se apresenta (ABREU, 2008).
Hirdes (2008, p.300) ressalta que “O projeto de desinstitucionalização busca a
reconstrução do objeto (enquanto sujeito histórico) que o modelo tradicional reduziu e
simplificou (causalidade linear doença/cura – problema/solução)” colocando assim o sujeito
em evidência e não a doença que o acomete, possuindo um olhar multifatorial que leva em
consideração também o contexto social desde indivíduo. O processo de desinstitucionalização
inicia nos Estados Unidos da América, no governo Kennedy, tendo como ênfase a
desospitalização como crítica aos modelos de hospitais psiquiátricos vigentes na época, por
sua vez esta tendência segue até o final da década de 1970, com Franco Basaglia, na Itália, e
através destes chega finalmente ao Brasil, com a Reforma Psiquiátrica que buscava mudanças
das formas de atendimento e políticas de atenção à saúde mental. Redimensionou assim a
forma de tratativa, buscando novas e mais adequadas possibilidades aos usuários desta,
direcionando o olhar para a saúde mental e não para a doença mental (HIRDES, 2008).
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2.1. ESTRUTURAÇÃO DAS INSTITUIÇOES E ATUAÇÃO PROFISSONAL NA


ATUALIDADE

Mas o que seria saúde mental? De acordo com a OMS (Organização Mundial da
Saúde), saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas
próprias habilidades, recuperar-se de adversidades cotidianas, além de ser produtivo, para
contribuir com a sua comunidade. Mas quando este sujeito tem sua saúde mental abalada?
Como ele poderia contar com uma assistência na atualidade? A atenção e assistência voltada
para a saúde mental, hoje, é oferecida no Brasil através do SUS - Sistema Único de Saúde,
que ocorre através de ações municipalizadas, organizadas em níveis. Para melhor
compreensão, vamos detalhar de maneira sucinta e específica, este aspecto da assistência à
saúde mental oferecida para a população como um direito (MEYER, 2016).
Os profissionais de psicologia, tem sido atores muito importantes em todo esse
processo de movimento de expansão e estruturação da rede psicossocial, têm contribuído
significativamente para o fortalecimento da profissão nesse campo. A consolidação da
Reforma Psiquiátrica se dará com a estruturação de uma rede que atenda as demandas sociais
de um território, e para que isto ocorra fez-se necessário a criação de leitos substitutivos nos
hospitais psiquiátricos para o cuidado em caso de crise, visando à preservação de vínculos
afetivos e laços sociais para a melhor reestruturação desse sujeito. A determinação de criar
leitos em CAPS (Centro de atenção psicossocial) atende a este objetivo, devendo todos os
CAPS Adulto e CAPS AD (este voltado para dependentes de álcool e drogas) existentes
virem a se tornar CAPS III, assim como os novos CAPS a ser implantados. Também está
previsto que em cada Coordenadoria Regional de Saúde terá pelo menos um CAPS Infanto-
Juvenil III (este voltado especialmente para atender menores de idade) e que atenda crianças e
adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes e também os casos dos que fazem
uso de álcool e drogas. Também foram incorporados aos pontos de serviços, a Saúde Mental
na Atenção Básica, que se trata de um serviço que atua na promoção da saúde integral da
pessoa. (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012)
Esta pretende ser uma resolutiva dos problemas de saúde, e contará com a atuação
multidisciplinar, além de organizar as condições para coordenar a continuidade do cuidado
com os outros pontos de atenção da rede, quando necessários. Assim mantém seu foco em
priorizar então o fortalecimento do vínculo, a responsabilização e o cuidado integral ao
munícipe com sofrimento mental de qualquer nível de gravidade ou intensidade, de forma e
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em ambiente adequado, até a transferência/encaminhamento a outros pontos de atenção,


quando necessário, com a implantação de acolhimento com avaliação de riscos e
vulnerabilidades. Na Atenção Primária constam os seguintes pontos de assistência:
Consultório na Rua, Unidade de Atenção Primária, leitos psiquiátricos em casos de surto,
Núcleo de Apoio à Saúde da Família, CRAS – Centro de Referência de Assistência Social,
Associações, ONGs, Centros de Convivência, Espaços Religiosos. E fazem parte da Unidade
de Atenção Secundária, sendo uma atenção psicossocial especializada, que abrange: CAPS –
Centro de Atenção Psicossocial, CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência
Social, Unidade de Acolhimento / Serviço de Atenção em Regime Residencial, Centro de
Especialidades, Hospital Geral/ pronto atendimento, Hospital Especializado em Psiquiatria,
Serviço Residencial Terapêutico (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012).
Nas últimas décadas, os psicólogos expandiram de maneira significativa seu campo de
atuação nas áreas de saúde mental; essa inserção mais ampla que foge apenas das realidades
das clínicas com sessões de psicoterapia é um resultado que também deriva das articulações
da categoria com os movimentos sociais e o próprio Estado brasileiro, que tem propiciado aos
profissionais uma atuação mais diretiva revelando o valor, especialmente em relação a uma
postura mais atuante diante dos problemas e desafios que a sociedade brasileira impõe.
(DIMENSTEIN; MACEDO, 2012)
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3. O CAMINHO PERCORRIDO

Desde esses tempos iniciais, uma característica essencial da psicanálise como método
e técnica é estar aberta à singularidade desse outro que fala, seja na dimensão referente ao seu
sofrimento e pedido de ajuda (MACEDO, 2005).
Introduzindo o conceito de inconsciente, Freud desloca a fala até um outro lugar,
muito além da intenção consciente de comunicar algo: ao falar, o sujeito comunica muito mais
do que aquilo a que inicialmente se propôs (MACEDO, 2005).
A técnica tem seu início marcado pelo uso de hipnose, onde em estado hipnótico o
paciente faz relatos de conteúdos de seu inconsciente, assim possibilitando o terapeuta
conectar-se com o conteúdo traumático. Esta função na época ainda era designada
exclusivamente aos médicos, que então se incumbiam de comunicar ao paciente o que havia
sido dito. Os sintomas eram suprimidos no uso desse método, mas ainda havia uma lacuna
onde o sujeito não se apropriava de sua história. Então, no decorrer de suas atividades, com o
tempo, Freud acaba abandonando a hipnose e se direcionando à necessidade de criar outra
forma de escutar, eis que assim surge o método da associação livre (MACEDO, 2005).
No decorrer de suas experiências, Freud então avança com suas teorias e em sua
trajetória vai fazendo modificações e construindo novas técnicas, de forma a garantir a
validade da psicanálise como uma ciência e como um método terapêutico. Em seus artigos
publicados sobre o método psicanalítico podemos acompanhar alguns de seus desafios para
postular suas teorias, sobre, por exemplo, como pensar “regras” para os procedimentos
psicanalíticos, construir um método de maneira que fosse um roteiro a ser seguido,
conseguindo transmitir as técnicas de acesso ao inconsciente, sem deixar de lado a
singularidade do paciente e seus conteúdos revelados através da fala ao terapeuta (MACEDO,
2005).
Freud, no início de suas investigações com os casos de histéricas, pôde demonstrar o
quanto um ambiente que não seja o da clínica, como o de um hospital, por exemplo, pode nos
mostrar uma somatização no sujeito, que através de sua fala e linguagem a revela. Esta
transformação decorreu onde antes se fazia a utilização de uma anamnese por médicos, para a
escuta da fala por terapeutas que atuavam com a psicanálise, trazendo uma diferenciação de
um lugar do saber onipotente, para um lugar, ocupado pelo analista, ou seja, uma postura de
neutralidade, pois assim damos espaço para um inconsciente que nos fala e se desenvolve
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além de sintomas no corpo, mostrando que seu adoecer traz marcas subjetivas de sua história
(ELIAS, 2008).
Desde o princípio de sua existência a psicanálise tem percorrido variados caminhos,
variações e surgimento de escolas alternativas, passando por uma série de releituras que
sofrem influências e novas interpretações principalmente do contexto social. Diante dessa
realidade devemos levar em consideração, no ambulatório público, alterações em diversos
aspectos da técnica originalmente elaborada por Freud, como por exemplo o tempo de
duração das sessões, a frequência com que estas ocorrem, o pagamento das sessões
diretamente àquele que realiza o atendimento ou seja o psicoterapeuta, o setting dos
atendimentos, que nesse caso se dá sem divã nem poltronas, a duração do tratamento como
um todo, e também o fato de o pedido de tratamento não ser dirigido a um nome específico,
mas sim a uma instituição, ou seja não é um sujeito o solicitante desde atendimento direto. Se
observarmos alguns destes aspectos, trabalhados por Freud em um de seus artigos iniciais,
como por exemplo em Sobre o Início do Tratamento, em 1913, podemos ver no atendimento
público, características distintas das recomendadas nestes artigos, e tais mudanças exercem
evidentemente grande influência na prática clínica, dando a ideia de que a psicanálise talvez
não conseguiria obter um espaço consolidado e efetivo dentro de m instituição de atenção à
saúde pública (GOIDANICH, 2001).
O uso do processo de transferência exige muitas vezes a subversão e uma readequação
da instituição em suas regras pré-estabelecidas. Uma instituição deve ser lugar de exceção, ou
seja, a instituição deve caber ao paciente e não este paciente caber na instituição (ALKMIN,
2003).
É de alta importância destacar as contribuições da psicanálise provindas das teóricas
postuladas por Freud e de seus posteriores discípulos que formaram escolas de diferentes
vertentes psicanalíticas, formulando assim conhecimentos fundamentais para a compreensão
do ser humano, tornando-se um saber obrigatório para todo profissional de atuação em saúde
mental, independentemente de sua abordagem terapêutica. Teorias sobre o inconsciente,
consciente, fases de sexualidade infantil como: fase oral, fase anal, latência, transferência,
somatização, pautadas por Freud, foram essenciais para o início da área dos estudos da psique,
dos comportamentos oriundos dela e suas patologias e transtornos, assim começando então a
dar início a uma profissão até então inexistente (FIORINI, 2013).
Outro ponto importante a ser revelado quando a atuação ocorre em instituições é a
exigência velada de dar uma resposta imediata, tendo em vista um modelo aplicado à
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medicina onde se tem o diagnóstico e logo em seguida se providencia uma solução por meio
de tratamento ou receita para o mesmo. Mas como sabemos, em muitos casos, isso não é
possível de se realizar com eficiência, podemos fazer uma ligação desse estereótipo de
funcionamento esperado de um psicólogo, pois no início a psicanálise era um método
exclusivo de médicos. Tendo em vista que a profissão de psicólogo e terapeuta ainda não
existia, era esta função exclusiva de médicos. Porém, tal como seu fundador Freud, a técnica
se mantem consolidada, e é realizada através das interpretações do inconsciente, e por isto
deve abrir mão de qualquer fórmula exata e repostas imediatas (ELIAS, 2008).
O atendimento através da orientação psicanalítica dentro de instituições de saúde
mental pode vir a sofrer um impasse sobre seu início e seu término, pois diferente de uma
clínica tradicional onde o paciente procura o tratamento por esclarecimento e automotivação
para a resolução de seus problemas, se inserido neste diferente contexto, muitas variáveis
podem interferir, como, por exemplo, o desligamento deste paciente de uma determinada
instituição. Freud, porém, recomenda não impor começos e nem finais a fim de impor um
limite, pois ele nos traz que cada novo movimento iria produzir uma organização psíquica.
Em um único encontro, um único atendimento, podemos observar que algo começou e
terminou havendo assim um antes e depois na psique deste paciente trazendo alguma ordem
(ELIAS, 2008).
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4. UMA REALIDADE CONTEMPORÂNEA

Seria possível escutar o sujeito em sua dimensão inconsciente em qualquer lugar? E


em curto espaço de tempo? Durante muito essa questão permeou, não permitindo assim
explorar as verdadeiras possibilidades e comprovar os efeitos efetivos de uma prática que de
fato acontece. Essa posição tem se modificado, à medida que tem havido muitas discussões e
produções científicas que propiciaram avanços teóricos que se sustentam, refletidos nos
resultados obtidos (ELIAS, 2008).
Hoje podemos constatar que a escuta analítica é nossa principal ferramenta de
trabalho, e assim precisamos estar silenciosos em situações de urgência e seguros de nossa
função para podermos escutar o inconsciente do outro, independente da dimensão e espaço
físico em que o sujeito se encontra (ELIAS, 2008).
Quando pensamos na extensão da prática da psicanálise fora da dimensão dos
tradicionais consultórios, vemos a necessidade desta readequação para atender uma enorme
demanda existente, onde a escuta é necessária e podemos garantir tal eficácia mesmo
submetendo a técnica analítica a muitas transformações, mantendo a ética (ELIAS, 2008).
Freud nos traz em sua cartilha de recomendações aos médicos psicanalistas, que as
regras que constituem a técnica não são universais, apesar de sua importância para tratar os
pacientes, não é apenas seguindo o setting que se garante a eficácia de uma análise. O
psicólogo de orientação psicanalista tem de oferecer antes de qualquer coisa a sua presença e
sua escuta, e isto pode se dar em qualquer lugar que seja, até mesmo nas montanhas, como
Freud no passado fez com sua paciente Katharina, onde em uma viajem feita às montanhas, se
deparou com o pedido de auxílio de uma moça que sofria de somatizações provindas de
traumas sexuais familiares vividos em sua infância, gerando assim uma repulsa com sintomas
físicos, a quem Freud pôde aplicar a técnica da cura pela palavra ali mesmo. Desta forma, ele
fez com que Katharina tivesse uma elaboração de seus conteúdos reprimidos inconscientes -
os quais a faziam sofrer de forte angústia e falta de ar - fosse beneficiada com o método.
Assim nos levou a entender que, aonde for possível um sujeito falar, e o outro escutar, ali se
mostrará o inconsciente, este sim é o conteúdo de trabalho indispensável para a psicanálise
independente da dimensão física (ELIAS, 2008).
A atuação terapêutica breve, nas instituições, ocorre visando oferecer ao paciente a
possiblidade de criar vínculos novos que favoreçam que ele se situe em sua atual condição,
uma autoavaliação, além de estimular o paciente a se fortalecer perante a situação e ter uma
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correta compreensão da realidade. Para que isso ocorra, podem ser utilizadas algumas técnicas
na instituição, como a psicoterapia que pode ser individual ou em grupo, a atenção a família
deste paciente, como uma maneira de orientar e fornecer orientações claras sobre a realidade
atual do paciente institucionalizado, e até mesmo uma atuação junto a terapia ocupacional,
que serve de instrumento significativo paras aprendizagens, e expressão do paciente
(FIORINI, 2013).
É importante ressaltar o fato de que a partir do momento em que o sujeito é admitido
em uma instituição, esta vai assumir um novo papel em sua vida, passando a vivenciar uma
realidade nova e diferente, e isto merece uma atenção especial. A fim de compreender através
da fala do sujeito, estes novos vínculos, novo ambiente, novos cuidados e regras, a
participação ativa do terapeuta, juntamente com a técnica psicanalítica irá dar lugar a estes
aspectos particulares específicos, contribuindo para a construção de um sujeito pessoal, e não
apenas de mais um paciente dentro de uma instituição (FIORINI, 2013).
É muito questionada a atuação do psicólogo dentro das instituições e hospitais, e há
um preconceito sobre a equivalência desta atuação para com a de uma psicoterapia tradicional
clínica, porém através da observação clínica, defende-se que a técnica psicanalítica nas
instituições é efetiva e produz grandes modificações na dinâmica do sujeito, como: seu alívio
de sintomas, juntamente com modificações em suas defesas inconscientes, a substituição de
defesas regressivas, ajustamento em suas relações com o meio social, construção de
autoestima e subjetividade como pessoa, construção de significado e insigths, ampliando
assim as perspectivas desta pessoa (FIORINI, 2013).
Há em vigência algumas variações sobre as técnicas de atendimento, sendo muito
utilizada a denominação como psicoterapia breve, pois em cada caso se exige uma técnica
especifica para atuar, além das condições do setting que sofre variações complexas e
específicas, tendo em vista as variáveis do atendimento em uma instituição ao invés de propor
uma relação transferencial. Em se tratando da atuação dentro de um contexto que foge à
clínica, teria seu objetivo o atendimento de apoio, focando na atenuação e supressão de
sintomas, a fim de favorecer um retorno ao estado anterior à situação de crise, visando formar
um vínculo que seja tranquilizador e orientador para o sujeito, assim projetando no terapeuta o
objeto bom, atenuando sua relação com o objeto mau (FIORINI, 2013).
Podemos observar que a psicanálise ganha um lugar junto a outros saberes, ajudando a
compor uma instituição transformadora, que se diferencia pela introdução da atuação
multidisciplinar, moldando um novo contexto de atenção à saúde de atuação exclusiva da
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classe médica, e que tem como mais relevante impasse o fato de que, a priori, Freud funda a
psicanálise a partir da clínica, tendo o consultório particular como seu principal referencial de
atuação. Partindo do princípio de que a psicanálise surgiu como um novo campo de saber,
teórico e clínico, no contexto da clínica privada, definindo-se como uma prática clínica que
tem como função escutar a fala do sujeito em sua singularidade, como pensar sua inserção em
um dispositivo institucional? Pensar em psicanálise na instituição ganhou novos significados
então, atribuindo a outros campos de saber (MEYER, 2016).
Podemos dizer que a psicanálise nas instituições de saúde mental segue juntamente
com noções diferentes oriundas da clínica, uma que vem incluindo o trabalho de reabilitação
psicossocial, que tem em seus objetivos, priorizar a questão da cidadania, e outra a da clínica
psicanalítica, que tem como prioridade o sujeito do inconsciente, visando saber sobre quem é
esse sujeito em suas escolhas e inserção no mundo. Estas duas concepções clínicas compõem
a clínica da atenção psicossocial, onde atuam com este modelo de atendimento inclusive os
centros de atenção psicossocial CAPS. Assim, para podermos lidar com as diferenças entre
contextos de atuação na prática, é interessante pensarmos em como o discurso psicanalítico é
útil no âmbito institucional na orientação dos tratamentos. Nestes casos o profissional de
orientação psicanalítica não deve se excluir ou reivindicar um estatuto especial na instituição,
o objetivo deve ser o de fazer operar a psicanálise, e o discurso do inconsciente, ou seja, é de
suma importância que não é a psicanálise que deve caber na instituição, mas ao contrário, é a
instituição que deve servir à psicanálise, fazendo operar o discurso analítico pela transferência
(MEYER, 2016).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi uma longa jornada percorrida para chegarmos ao ponto atual, onde pudemos ver
uma atenção ao sujeito que visa a sua subjetividade e prioriza a sua saúde e não sua doença;
neste momento de encerramento, não se trata de fechar conclusões, mas de abrir novos
caminhos a partir do que foi desenvolvido.
É preciso assumir um lugar do não-saber, que significa deixar de lado os preconceitos,
como condição para acolher, é isto que pode levar o sujeito a incluir o psicanalista como um
profissional em seu mundo. A psicanálise vai se inserir, portanto, na contramão de todo o
estereótipo criado em torno do que se chama de loucura, que destitui o sujeito de seu saber, de
sua individualidade. Assim sendo uma instituição pode constituir-se como um lugar
privilegiado para o tratamento quando consegue criar espaços diferenciados de acolhimento e
de escuta do discurso do sujeito, o que traz uma riqueza tanto para o campo da psicanálise,
quanto para o campo da saúde mental.
Logo, não podemos deixar de constatar que ainda há um caminho pela frente tendo em
vista o quão novo é este cenário da saúde mental, envolvendo a psicanálise, a
desinstitucionalização e sua atuação dentro deste contexto em especial - a psicologia e claro o
terapeuta como um profissional. Podemos então concluir que a atuação psicanalítica dentro de
uma instituição de saúde tem suas especificidades devido ao contexto, mas que isso não
significa que a atuação não é válida ou até mesmo de menor eficácia em seu propósito e
resultados, pelo contrário, há um horizonte de possibilidades, tendo a escuta como ferramenta
para emergir a verdade do sujeito, permitindo que o inconsciente se apresente na linguagem
propiciando a cura pela palavra na supressão de sintomas e reestruturação da subjetividade do
sujeito.
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REFERÊNCIAS

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