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CONCRETO PROTENDIDO - Notas de aula - Prof. Ronaldson Carneiro - e-mail : ronaldso@ufpa.

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CAPÍTULO I

1. INTRODUÇÃO. HISTÓRICO DO CONCRETO PROTENDIDO

1.1 Conceito de protensão

Protensão pode ser entendida como o artifício de se introduzir forças especiais


permanentes na estrutura, designadas por forças de protensão, com o objetivo de
melhorar seu comportamento quando sujeita a ação das cargas externas.
Esse artifício pode ser ilustrado por diversos exemplos. Uma fila de livros não
pode se apoiar em dois pontos porque a resistência à flexão depende das tensões de
tração que não existem entre dois livros. Se aplicarmos, no entanto, com as mãos,
uma compressão, pode-se levantá-la, fazendo-a funcionar como uma viga, como
mostra a Figura 1.1.

Figura 1.1 - Efeito favorável do esforço de compressão. A fila de livros não


conseque vencer o vão livre sem o auxílio da compressão exercida
pelas mãos

Outro exemplo clássico é o do barril de madeira com percintas metálicas.


Quando as percintas são tracionadas, elas comprimem as peças de madeira que
compõem o barril, criando assim um estado de tensões de compressão de modo a
atender as tensões produzidas pela pressão interna do líquido. A tração nas percintas
metálicas transforma-se em compressão para as aduelas de madeira do barril, como
ilustra a Figura 1.2. Este exemplo é muito semelhante ao funcionamento da protensão
no concreto protendido, ou seja, a tração do aço transforma-se em compressão para o
concreto.

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Aduelas de Compressão provocada pelo


madeira tracionamento das percintas
metálicas
Percintas
metálicas

Aduela de madeira

Figura. 1.2 - Princípio da protensão aplicado à fabricação de um barril

A falta de resistência à tração do concreto leva-o, quando tracionado, à


fissuração. Embora as fissuras sejam toleradas dentro dos limites previstos nas
normas, estas representam uma desvantagem do concreto, pois acarretam na redução
de inércia da peça e na possibilidade de manifestações patológicas. Dessa forma,
surgiu então a idéia de se introduzir, previamente e em caráter permanente, tensões
de compressão em regiões da peça de concreto que seriam posteriormente
tracionadas pelo efeito das cargas externas, ou seja, combater as tensões de tração
provenientes do carregamento com tensões de compressão geradas pela protensão.
Portanto, Concreto Protendido significa concreto com tensões prévias, trata-se de um
concreto naturalmente resistente à compressão e artificialmente resistente à tração.
O tratamento mecânico, para criar no concreto os esforços prévios, pode
ser esclarecido com o auxílio da Figura 1.3.

A
bainha (duto) deformada da viga ancoragem

eixo neutro
e
P P
contraflecha
armadura de
A’ placa de aço e porca
protensão

Figura 1.3 – Viga protendida com um sistema de barra rosqueada

Na região inferior da viga coloca-se num duto pré-fabricado, posicionado na viga


quando de sua concretagem, uma barra de aço com roscas previstas para receber
placas de ancoragem e porcas nas extremidades. Com o aperto das porcas, após o
endurecimento do concreto, a barra de aço é tracionada e o concreto comprimido. A
tração do aço transforma-se em compressão para o concreto, realizada, no caso, pela

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força P, denominada força de protensão. A excentricidade da força P em relação ao


eixo da peça potencializa a compressão na região inferior e produz uma flecha
invertida (contraflecha) na peça. Os elementos duto / barra / placas e porcas,
denominados no dia-a-dia da protensão de bainha / armadura de protensão /
ancoragens, respectivamente, formam o cabo de protensão.
A Figura 1.3 ilustra o resultado da superposição das tensões proveniente do
carregamento e protensão. Na seção mais solicitada pelo carregamento, seção AA’,
ficam apenas tensões de compressão, logo, a desvantagem da falta de resistência à
tração então desaparece. Observa-se que a excentricidade do cabo incrementa as
tensões de compressão no bordo inferior, a fim de combater a tração do carregamento,
e produz tensões de tração no superior evitando o aparecimento de tensões
excessivas de compressão no concreto.

Protensão Tensões
Carregamento resultantes
+ -

- -
+ + =

- +
Tensões −
P
±
P⋅e Mf
σ s,i = − P ( M f − P ⋅ e)
m
m
em AA’ Ac Ws ,i Ws ,i Ac W s ,i
Figura 1.3 - Superposição das tensões devidas à força de protensão P e
ao momento fletor do carregamento atuante

Com a eliminação da fissuração evita-se a redução de inércia da seção e o


consequente aumento das flechas. A redução das flechas é, também, obtida com a
contraflecha gerada pela excentricidade da força de protensão. O efeito da protensão,
redução ou eliminação das fissuras e contraflecha, conduz a flechas em torno de 25 %
das observadas nas peças de concreto armado. É a redução das flechas que leva o
concreto protendido a vencer grandes vãos com o uso de seções esbeltas. Esta é a
grande diferença para as estruturas de concreto armado; a protensão é uma
ferramenta excepcional no combate às flechas. Cabe ainda destacar o efeito favorável
da compressão, proveniente da protensão, em estruturas que precisem de
estanqueidade, como os reservatórios cilíndricos.

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1.2 Evolução do Concreto Protendido

O princípio da protensão, apesar de ser bastante antigo, foi aplicado no concreto


no fim do século passado. A primeira proposta no sentido de se utilizar protensão no
concreto foi idealizada por JACKSON, em 1886, na tentativa de reforçar pisos de
concreto por meio de tensores.
Em 1888, o alemão DOEHRING usou a protensão na construção de placas e
pequenas vigas com fios de aço estirados. Foi a primeira proposta para a execução de
peças pré-moldadas protendidas.
No ano de 1907, o alemão M. KOENEN tenta utilizar a protensão no concreto
com interesse em eliminar a fissuraçao visando aplicação em obras ferroviárias. A
protensão foi exercida através de barras de aço colocadas no interior de uma viga de
concreto. As experiências realizadas, no entanto, não atingiram o objetivo pretendido
porque a tensão de protensão foi muito pequena para compensar as deformações
produzidas pela retração e fluência do concreto, de tal modo que a armadura,
previamente tracionada, afrouxou, anulando as tensões de compressão no concreto.
Os fenômenos da retração e, principalmente, fluência de concreto eram pouco
conhecidos na época, por isso não se encontrou uma conveniente e correta
explicação para o fracasso da experiência. Para o funcionamento da viga idealizada
por Koenen seria necessário aplicar uma tensão na armadura de protensão bem
superior àquela utilizada no ensaio, 60 MPa, gerando uma elevada deformação no aço
de modo a compensar o encurtamento proveniente da retração e fluência do concreto.
Para tanto deve-se empregar materiais de alta resistência, aço e concreto, para
suportar o elevado nível de tensões a ser aplicado. Esta simples consideração
precisou de cerca de 20 anos para vir à luz.
Foi EUGÈNE FREYSSINET que, em 1928, diagnosticou a necessidade de
utilização de materiais de alta resistência. Neste mesmo ano registra a primeira
patente de protensão do mundo, introduzindo o termo técnico "precontrainte" para
designar o tracionamento prévio de fios de alta resistência (cabos soltos no concreto
munidos de ancoragens em suas extremidades).
No ano de 1938, HOYER apresenta um novo sistema de protensão ao qual deu
o nome de "Stahlsaitenbeton" (concreto com cordas de piano). Os fios eram
tracionados antes da concretagem das peças estruturais e soltos após o
endurecimento do concreto.
Em 1940, Freyssinet inventa os dispositivos de ancoragem e os equipamentos
de protensão que têm o seu nome e ainda hoje são largamente utilizados no mundo
inteiro. Ainda neste ano surge outra patente de protensão, análoga ao sistema
Freyssinet, criada pelo Engenheiro belga MAGNEL.

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O ano de 1941 foi marcado pela aplicação do concreto protendido em estruturas


de grandes vãos. Freyssinet projeta a ponte sobre o Rio Marne com 55 mts de vão,
altura de 1,27 mts, ou seja, 1/43 do vão.
Ainda em 1948 aplica-se a protensão em reservatórios cilindricos, e no Brasil foi
executada a primeira grande ponte de Concreto Protendido na América do Sul, a ponte
do Galeão no Rio de Janeiro, novamente projeto de Freyssinet.
Entre 1948 e 1949 foram patenteados novos sistemas de protensão: MORANDI
na Itália, VSL e BBRV na Suiça, LEOBA e DYWIDAG na Alemanha. Em 1950 é
executada a 1a ponte ferroviária em Concreto Protendido, projeto de Leonhardt, com o
sistema Leoba.
Em 1952, FINSTERWALDER, com o emprego do sistema Dywidag, projeta a 1a
ponte em balanços sucessivos de Concreto Protendido.
No ano de 1959, foi construída no Brasil, a primeira ponte em balanço sucessivo
com rótula central, sobre o Rio Tocantins, vencendo um vão de 140 mts, o que
constituiu na época recorde mundial no gênero.
Inúmeras outras grandes obras foram e vêm sendo construídas, no Brasil e no
mundo, com o uso do Concreto Protendido marcando a sua importância no
desenvolvimento das estruturas de concreto.

1.3 A protensão nas estruturas

A viabilidade (técnica e econômica) da aplicação da protensão nas estruturas de


concreto depende do vão. Nas estruturas com usuais pode-se relacionar o vão com o
sistema estrutural conforme o gráfico mostrado a seguir.
Nas vigas:

Sistema
Estrutural

Balanço sucessivo CP
Viga contínua de CP

Viga isostática de CP
Viga Concreto Armado

20 50 60 150 Vão (m)

Nas lajes lisas, a protensão pode ser empregada para estruturas com vãos entre 7 e
12 metros.

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CAPÍTULO II

2. A ESTÁTICA DO CONCRETO PROTENDIDO

2.1 O trabalho da armadura de protensão

Nas estruturas de concreto armado a tração gerada pelo carregamento é


combatida exclusivamente pelo aço face a fissuração do concreto. A armadura,
chamada de armadura passiva ou frouxa, destina-se a receber os esforços de tração
não absorvidos pelo concreto, trabalhando somente quando solicitada, ou seja, quando
o carregamento atuar.
Nas estruturas de Concreto Protendido a tração é combatida com tensões de
compressão obtidas com a protensão no concreto, logo, este torna-se responsável
tanto pela tração quanto pela compressão. Diz-se que Concreto Protendido é um
material naturalmente resistente à compresão e artificialmente à tração, possível, pois,
com o artifício da protensão. A armadura de protensão, chamada de armadura ativa, é
colocada na peça não para receber os esforços, como no concreto armado, mas sim
comprimir e gerar as tensões de compressão necessárias para que o concreto possa
absorver a tração a ser gerada pelo carregamento. Cabe lembrar que mesmo antes do
carregamento existir, a armadura é esticada e fixada nas ancoragens criando as forças
de protensão, como define o item 3.1.4 da NBR 6118/2003: "Elementos de concreto
protendido são aqueles nos quais parte das armaduras é previamente alongada por
equipamentos especiais de protensão com a finalidade de, em condições de serviço,
impedir ou limitar a fissuração e os deslocamentos da estrutura e propiciar o melhor
aproveitamento de aços de alta resistência no estado limite último".

2.2 A importância do traçado da armadura de protensão

Sendo a armadura de protensão um elemento ativo no concreto, ou seja, um


sistema de forças aplicado à peça, seu posicionamento provoca efeitos diversos
alterando sobremaneira a atuação da protensão.
Seja, então, a viga bi-apoiada, sujeita a um carregamento uniforme, protendida
com o cabo reto excêntrico mostrado na figura 2.1.

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carregamento

B A
P e
P
B’ A’
Figura. 2.1 : Viga protendida por cabo reto excêntrico

Analisando as tensões na seção AA’, tem-se:

Protensão Tensões
Carregamento resultantes
+ -

- -
+ + =

- +
Tensões −
P
±
P⋅e
m
Mf P ( M f − P ⋅ e)
m σ s,i = −
em AA’ Ac Ws ,iWs , i Ac W s ,i
Figura 2.2 – Tensões resultante da protensão e carregamento na seção AA’

A protensão está constituída de duas parcelas, uma de compressão uniforme e outra


produzida pela excentricidade do cabo. Nesta seção resulta apenas compressão da
combinação protensão e carregamento. Tendo o concreto boa resistência à
compressão, a protensão em AA’ satisfaz plenamente o objetivo pretendido. Em BB’,
tem-se:

Protensão
Carregamento Resultado
+ +
Tensões de tração e
- compressão
+ + = excessiva
-
-
Tensões P P⋅e P (0 − P ⋅ e )
− ± zero σ s ,i = − m
em BB’ Ac Ws ,i Ac Ws ,i
Figura 2.3 – Tensões resultantes da protensão e carregamento na seção BB’

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Sendo o momento fletor zero nos apoios, a peça fica, neste caso, apenas com o
efeito da protensão, o que pode ocasionar uma compressão excessiva no bordo
inferior e uma tração no superior. A protensão que, para a seção mais solicitada pelo
carregamento, seção AA’, atinge o objetivo, cria, entretanto, sérios problemas na
região dos apoios, onde o momento fletor gerado pelo carregamento é bastante
reduzido, ficando, porém, o efeito da protensão.
Cabe observar que o efeito de flexão da protensão, provocada pela
excentricidade do cabo, é contrário ao do carregamento. É esta parcela que combate
eficientemente as ações, mas também desequilibra as tensões na região os apoios. A
solução está, pois, na variação desta parcela, por meio da excentricidade, de acordo
com a variação do momento fletor gerado pelo carregamento, ou seja, quando este for
máximo, a excentricidade deve ser máxima e quando for nulo, a excentricidade deve
ser zero, acompanhando a varia’c`ao do momento fletor. Busca-se com isso minimizar
o efeito de flexão na expressão das tensões, mostrada a seguir:

P (Mf − P.e)
σ s,i = − m
Ac W s,i
Portanto, para melhor aproveitamento da protensão, o cabo deve ter a forma do
diagrama de momentos fletores gerado pelo carregamento. Assim, para a viga em
questão, com taxa de carga uniforme, o cabo ideal é aquele com traçado parabólico,
como mostra a figura 2.4, uma vez que o diagrama de momentos fletores tem essa
forma.

P P
emáx

l
Figura 2.4 - Viga com cabo parabólico. A excentricidade
acompanha a variação do momento fletor

O traçado parabólico é o mais comum nas estruturas correntes face a


predominância da carga distribuída. A consideração de fazer o cabo acompanhar a
variação do momento fletor tem influenciado a forma de vários projetos arquitetônicos,
tais como sede da AABB, vigas radiais da cobertura do mangueirão, etc.

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2.3 Esforços gerados pela protensão em sistemas isostáticos

O cálculo dos esforços nos elementos protendidos, em serviço, é feito com base
no estado não fissurado da estrutura. Na determinação desses esforços, a protensão
deve ser considerada como uma força externa aplicada na região da ancoragem
segundo a direção da tangente ao cabo.
Na viga com cabo parabólico, quando aplica-se a protensão, a armadura tende
a ficar retilínea exercendo uma pressão, de baixo para cima na massa de concreto.
Surgem forças radiais, tomadas, por simplificação, como verticais, que equivalem a
uma carga distribuída, pp , atuando no sentido contrário ao do carregamento externo,
como mostra a Figura 2.5.

P P
φ
pp

P. sen φ
pp
P. cos φ

Figura 2.5 - Efeito da protensão no cabo parabólico

Sendo a força de protensão axial à armadura, em qualquer seção da viga, esta


orienta-se segundo a tangente ao cabo. A taxa pp é obtida por equilíbrio com a força P,
resultando em pp = P ρ , sendo ρ o raio de curvatura da curva que define o cabo.
Nos cabos parabólicos as forças radiais atuam perpendicularmente à tangente,
já em locais onde há mudança brusca de direção, cabos poligonais, surgem forças que
atuam na direção da bissetriz, tomadas verticais por simplificação.

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Na determinação dos esforços gerados pela protensão, a força P atua segundo a


direção da tangente, como indica a Figura 2.6, decompondo-se em componentes
normal e tangencial à seção conforme o ângulo ϕ . Assim, para uma seção distante “x”
do apoio os esforços são obtidos por:
N P = P ⋅ cos ϕ
QP = P ⋅ senϕ
M P = (P ⋅ cos ϕ ). y ( x)
sendo y(x) a excentricidade da força normal com relação ao eixo da viga, é a função
que define o traçado do cabo.

x
φ
e = y(x)
P. cos φ

P . sen φ
P { NP = P. cos φ
QP = P. sen φ
MP = (P cos φ) . y(x)

Figura 2.6 - Esforços gerados pela protensão na seção “x”

Para valores pequenos de ϕ , normalmente entre 0o e 20o, pode-se considerar


cosϕ ≅ 1 e senϕ ≅ tgϕ = y ' ( x) . Assim, os esforços passam a ser determinados por
NP = P
Q P = P ⋅ tgϕ = P ⋅ y , ( x )
M P = P ⋅ y(x )
Com a consideração dessa simplificação, cada vez mais próxima do exato à
medida em que se caminha para o centro do vão, onde ϕ = 0 , as relações diferenciais
tornam-se válidas, ou seja,
dM
= P ⋅ y , (x ) = Q
dx

d 2M P
= P ⋅ y ,,
( x ) = = pp
dx 2 ρ
O diagrama de momentos fletores, com base no modelo simplificado, em que
resulta MP= P. y(x), passa a ser simplesmente o cabo invertido em relaçãoao eixo com
as ordenadas majoradas por P em cada ponto. O diagrama de esforços cortantes é

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obtido pelo produto da força P pela tangente em cada ponto, ou seja, QP = P ⋅ y , ( x ) . Já


o diagrama de esforços normais passa a ser constante e igual a P no trecho da peça
em que atua o cabo de protensão.
Os diagramas citados, em particular o de momentos fletores e esforços
cortantes, variam de acordo com a posição do cabo na peça protendida. O efeito da
protensão pode ser assimilado ao de um carregamento que produza os mesmos
esforços, sendo denominado, assim, de carregamento equivalente. Este carregamento,
para cabos corretamente posicionados, deve ter a mesma forma, porém sentido
contrário ao do carregamento externo que solicita a peça protendida.
A seguir são mostrados os diagramas de esforços e o carregamento equivalente
para o cabo parabólico com saída no eixo da peça.
P P
f

l
P DIAGRAMA DE ESFORÇOS NORMAIS
-

- Pf DIAGRAMA DE MOMENTOS FLETORES

4Pf
l
+ DIAGRAMA DE ESFORÇOS CORTANTES

4Pf -
CARREGAMENTO EQUIVALENTE
l
4Pf 8Pf 4Pf Taxa de carga:
l pp = l
l2 pp ⋅l2 8⋅ P ⋅ f
P P = P⋅ f pp =
8 l2

A forma parabólica do DMF, mesma do cabo,leva a uma variação linear


do esforço cortante. Os valores extremos do DEC são obtidos pelo produto da força P
pela tangente ao cabo nesses pontos, determinada por:
y

a
2⋅ f
f x tgϕ =
a
f

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l
originada da equação da parábola que define a forma do cabo. No caso, a = , logo,
2
4⋅ f
tgϕ = . A intensidade da taxa de carga p p , resulta do momento fletor máximo,
l
pp ⋅l2 8⋅ P ⋅ f
= P⋅ f ... pp =
8 l2

Com base no carregamento equivalente torna-se possível determinar a


contra-flecha gerada pela protensão através das conhecidas expressões da Resistência
dos Materiais. Portanto, para a viga em questão a contra-flecha é calculada por

5 ⋅ ( p p − pg ) ⋅ l 4
cδ =
384 ⋅ E ⋅ I

sendo p g a carga permanente mobilizada com a aplicação da protensão.

3.0 SISTEMAS DE PROTENSÃO

3.1 Concreto Protendido com aderência inicial (armadura ativa pré-


tracionada)
Concreto protendido em que o estiramento da armadura é realizado antes do lançamento
do concreto e ancorada provisoriamente em apoios independentes da peça. Após a
concretagem e endurecimento do concreto, a ligação da armadura com os referidos
apoios é desfeita e a força de protensão é transferida à peça apenas pela aderência com
o concreto. É largamente empregada na produção de elementos pré-fabricados.

cabeceira ativa armadura pré-tracionada elemento cabeceira passiva


pré-fabricado

pista de protensão

Figura 3.1 – Processo de execução de pré-moldados protendidos com fio aderente

3.2 Concreto protendido com aderência posterior (armadura pós-tracionada)

Concreto protendido em que o estiramento da armadura, colocadas dentro de bainhas, é


realizado após o endurecimento do concreto. Em seguida, a aderência da armadura com
o elemento estrutural é obtida pela injeção das bainhas com uma nata ou argamassa de
cimento. É o sistema empregado em pontes, reservatórios, etc..

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Figura 3.2 – Ponte na Av. Júlio César (Belém-Pa) - protensão com aderência posterior

3.3 Concreto protendido sem aderência (armadura pós-tracionada)


Concreto protendido em que a armadura, dentro de bainhas, é tracionada após o
endurecimento do concreto, ficando ligada ao elemento estrutural apenas nas
ancoragens. Tem-se empregado a armadura na forma de cordoalhas revestidas com uma
camada de graxa e uma capa plástica (PEAD) extrudada diretamente sobre a cordoalha
já engraxada. Tem sido muito empregada em elementos estruturais de pequeno porte
que não necessitam de um grau de protensão elevado, como em lajes e vigas de edifícios
residenciais.

Figura 3.3 – Protensão não aderente

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Figura 3.4 – Lajes e vigas protendidas com cordoalhas engraxadas

4. TIPOS DE PROTENSÃO (NÍVEL DE PROTENSÃO)


A NBR 6118 estabelece três níveis de protensão: protensão completa, limitada e
parcial. A escolha do nível de protensão a ser adotado no projeto refere-se ao
comportamento em serviço da estrutura e esta associado ações, à classe de
agressividade ambiental e às exigências relativas à fissuração, como indica a Tabela 13.3
da NBR 6118.

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5. MATERIAIS EMPREGADOS NO CP
Além do aço e concreto, são empregados dispositivos complementares como:
ancoragens, bainhas, purgadores, etc..

5.1 Concreto
Deve apresentar resistência à compressão entre 25 e 50 MPa. Há diversos motivos
para utilização de um concreto de resistência mais elevada:
a. elevadas tensões de compressão por ocasião da aplicação da força de protensão,
normalmente superiores àquelas obtidas para a situação em serviço, ;
b. emprego de seções esbeltas, por conta do efeito positivo da protensão na redução
das flechas;
c. execução da protensão no menor período de tempo, reduzindo o tempo de
desforma melhorando o reaproveitamento das formas;
d. redução das deformações com conseqüente diminuição das perdas de protensão
por encurtamento elástico, retração e fluência do concreto.

Além da boa resistência, o concreto deve apresentar boa compacidade (baixa


permeabilidade) de modo a garantir uma proteção eficiente contra agentes agressivos
que levem à corrosão da armadura ativa (corrosão sob tensão), como indica a Tabela 7.1
da NBR 6118 mostrada abaixo.

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No projeto de estruturas de concreto protendido, os seguintes dados têm particular


interesse:
a. fck e fctk: resistências características à compressão e à tração do concreto aos 28
dias de idade.
b. fckj e fctkj: resistências características à compressão e à tração do concreto no dia
da aplicação da protensão. A resistência à compressão no j-ésimo dia pode ser
obtida por
{ [
f ckj = exp s ⋅ 1 − ( 28 / t )1/ 2 ] }⋅ f ck 28

sendo:
s = 0,38 para concretos de cimento CPIII e IV;
s = 0,25 para concretos de cimento CPI e II;
s = 0,20 para concretos de cimento CPV-ARI;
t é a idade efetiva do concreto, em dias;

c. Módulo de elasticidade do concreto (Ec), obtido por

Eci = 5.600 f ck , módulo de elasticidade tangente inicial em MPa ( utilizado no


cálculo das perdas de protensão);
Ecs = 0,85 Eci , módulo de elasticidade secante (utilizado nas análises elásticas:
determinação dos esforços solicitantes, avaliação do comportamento do elemento
estrutural e verificações de ELS).

5.1 Aço de protensão

O aço empregado no concreto protendido deve apresentar elevada resistência à


tração e alto limite elástico. A resistência elevada é garantida com o aumento do teor de
carbono e pelo processo de trefilação.
5.1.1 Tratamentos
Quanto ao tratamento, há dois tipos de aço:
a. Aço aliviado de tensões ou de Relaxação Normal (RN): aço trefilado que recebe
tratamento térmico para eliminar as tensões residuais adquiridas durante o
processo de trefilação a frio;

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b. Aço estabilizado ou de Baixa Relaxação (RB): aço trefilado que recebe


tratamento termomecânico, o qual melhora as características elásticas e reduz as
perdas de tensão por relaxação do aço.

5.1.2 Produtos
O aço de protensão é fabricado com as seguintes formas:
a. Fios: com diâmetros de 4 a 9 mm, do aço RN ou RB, fornecidos em rolos;
b. Cordoalhas: formada por 3 ou 7 fios enrolados em forma de hélice, apenas no
aço RB. As cordoalhas de 7 fios são encontradas com os diâmetros de 9,5 mm,
12,7 mm e 15,2 mm. As cordoalhas de 3 fios são identificadas pela quantidade e
diâmetro dos fios, de 3 mm a 5 mm, como, por exemplo, 3 x 4,5 mm. São
fornecidas em rolos com comprimentos superiores a 600 metros.

5.1.3 Propriedades Mecânicas mais importantes


O comportamento típico do aço de protensão é mostrado no diagrama tensão x
deformação a seguir
σ
fptk
fpyk

Ep

2‰ 10 ‰ ε (‰)
Figura 5.1 - Diagrama tensão x deformação do aço de protensão
As principais propriedades mecânicas estão indicadas no diagrama e descritas a
seguir:
• fptk é a resistência característica à tração (define a categoria do aço de protensão);
• fpyk é a resistência característica ao escoamento convencional (tensão
correspondente à deformação de 10 ‰ ou à deformação residual de 2 ‰);
• Ep é o módulo de elasticidade = 200 GPa.

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CONCRETO PROTENDIDO - Notas de aula - Prof. Ronaldson Carneiro - e-mail : ronaldso@ufpa.br
UFPA/ITEC/FEC (091) 3201 7317 versão4 – outubro/2007

5.1.4 Designação do aço de protensão


A armadura de protensão é designada pelas letras “CP”, para indicar que é um aço
de protensão, seguida da categoria do aço, no caso, o valor da resistência carcterística à
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tração, fptk, em kgf/mm , das letras RN ou RB, as quais indicam o tratamento, e do
diâmetro do fio, barra ou cordoalha. Para os fios há ainda a indicação da conformação
superficial, L ou E. Dessa forma, a designação da armadura de protensào é realizada
como segue:

a. Fios:

{
145
CP fptk RN ou RB Ø L ou E fptk 150 kgf/mm2
kgf/mm2 tratamento mm Liso ou Entalhado 170
175
Exemplo: CP 150 RB 8 L

b. Cordoalhas:

CP fptk RB Ø fptk = 190 kgf/mm2


2
kgf/mm tratamento mm

Exemplo : CP 190 RB 12,7 ou CP 190 RB 3x3,5 – No caso de cordoalhas de 3 fios,


deve ser especificado a quantidade de fios e o diâmetro de cada fio.

Cabe destacar que para os sistemas com pós-tensão, com ou sem aderência,
trabalha-se apenas com as cordoalhas de 7 fios do aço RB de diâmetro 12,7 mm ou
15,2 mm, apenas na categoria 190. As informações técnicas do aço de protensão pode
ser encontrado no catálogo da companhia Siderúrgica Belgo Bekaert Arames S. A.

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